<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:blogger='http://schemas.google.com/blogger/2008' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601</id><updated>2024-09-01T18:53:25.376-03:00</updated><title type='text'>Ponto de Encontro evangelico</title><subtitle type='html'>Local onde o crente pode explanar suas opiniões e idéias e ficar antenado com o que está acontecendo no mundo, verificando os fatos a luz da palavra de Deus. Tem como finalidade, esclarecer e colocar em discussão o que acontece no Sociedade Brasileira e Mundial.&#xa;As opiniões aqui postadas são pessoais e pode e deve acontecer e haver discordância com a opinião de usuário, visitantes ou seguidores.&#xa;Sejam Bem Vindo, em nome de Jesus.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default?redirect=false'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25&amp;redirect=false'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>36</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601.post-4469425994907188767</id><published>2020-04-13T18:37:00.002-03:00</published><updated>2020-04-13T18:37:58.126-03:00</updated><title type='text'>PAPA diz Deus fracassou. Abominação no mundo.</title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
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&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;

&lt;b&gt;Lista de datas previstas para eventos apocalípticos
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre&lt;/b&gt;. 


Esta é uma lista dinâmica e pode ser impossível torná-la completa de acordo com certos critérios. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-a com informações baseadas em fontes confiáveis.
 

O Juízo Final, retratado pelo pintor Hans Memling. No cristianismo, o Juízo Final é um evento apocalíptico em que Deus decide o destino final de todas as pessoas na Terra.
Esta é uma lista de datas previstas, por indivíduos ou grupos notáveis, para eventos que resultariam na extinção da humanidade, no colapso massivo ou total da civilização, na destruição do planeta ou até do universo inteiro. 

A maioria das previsões estão relacionadas a religiões abraâmicas, muitas delas referindo-se aos eventos escatológicos descritos em suas escrituras. Previsões cristãs referem-se comumente a eventos como o Arrebatamento, a Grande Tribulação, o Juízo Final ou a segunda vinda de Cristo. 
Primeiro milênio d.C.[editar | editar código-fonte]
Data (EC) 
Anos 66–70 - Simão bar Giora, Essênios 
A seita dos judeus essênios via a revolta judaica contra os romanos entre os anos 66 e 70 como a batalha final do fim dos tempos que traria a chegada do Messias. Pela autoridade de Simão, moedas declarando a redenção de Israel foram cunhadas. 

Ano de 365 - Hilário de Poitiers 
Este bispo francês anunciou que o fim do mundo aconteceria neste ano. 

Ano de 375–400 - Martinho de Tours 
Este bispo francês afirmou que o mundo acabaria antes do ano 400, escrevendo &quot;Não há dúvidas de que o Anticristo já nasceu. Já firmemente estabelecido em seus primeiros anos, ele irá, após atingir a maturidade, chegar ao poder supremo.&quot; 
 
Ano de 500 - Hipólito de Roma, Sexto Júlio Africano, Ireneu de Lyon 
Estes três previram que Jesus retornaria neste ano. Uma das previsões foi baseada na arca de Noé.

Ano de 793, Abril, dia 6 - Beato de Liébana 
Este monge espanhol profetizou a segunda vinda de Cristo e o fim do mundo para este dia na frente de uma grande multidão.
 
Ano de 800 - Sexto Júlio Africano 
Após sua previsão para o ano 500 falhar, Sexto Júlio Africano corrigiu a data para o ano 800.  

Ano de 799–806 - Gregório de Tours 
Este bispo francês calculou que o fim ocorreria entre os anos de 799 e 806. 
 
Ano de 848 - Thiota 
Esta profetisa medieval declarou que o mundo acabaria neste ano. Após descobrir-se que suas alegações eram falsas, foi açoitada. 
 
Ano de 992–995 - Diversos cristãos 
A Sexta-Feira Santa coincidiu com a Festa da Anunciação; há muito acreditava-se que este seria o evento que traria o Anticristo e consequentemente o fim dos tempos dentro de três anos.
 
Ano de 1000,  Janeiro, dia 1 - Papa Silvestre II e outros clérigos 
O apocalipse milenar ao fim do Milênio Cristão. Vários clérigos cristãos previram o fim do mundo para esta data, incluindo o Papa Silvestre II. Revoltas ocorreram pela Europa e peregrinos viajaram para o leste em direção a Jerusalém. 
 
Séculos XI a XV
Defensor(es) 
Descrição 

Ano de 1033 - Diversos cristãos 
Após a previsão do dia 1 de janeiro de 1000, alguns teoristas propuseram que o fim ocorreria 1000 anos após a morte de Jesus, ao invés do seu nascimento. 

Ano de 1200–1260 - Joaquim de Fiore 
Este místico italiano determinou que o Milênio começaria entre os anos de 1200 e 1260. 
 
Ano de 1284 - Papa Inocêncio III 
O Papa Inocêncio III (m. 1216) previu que o mundo acabaria 666 anos após a ascensão do Islã. 
 
Ano de 1290 - 1335 - Joaquimitas 
Após sua previsão para o ano de 1260 falhar, os seguidores de Joaquim de Fiore adiaram o fim do mundo para 1290 e depois novamente para 1335. 
 
Ano de 1346–1351 - Diversos europeus 
A proliferação da peste negra pela Europa foi interpretada por muitos como um sinal do fim dos tempos. 
 
Ano de 1368–1370 - Joan de Rocatallada 
O Anticristo viria em 1366 e o Milênio começaria em 1368 ou 1370. 
 
Ano de 1378 - Arnaldo de Vilanova 
Este joaquimita escreveu que o Anticristo viria neste ano. 
 
Século XVI 
Defensor(es) 
Descrição 
 
Ano de 1504 - Sandro Botticelli 
Botticelli acreditava que estava vivendo durante a Tribulação e que o Milênio começaria em três anos e meio a partir de 1500. Escreveu sobre sua pintura A Natividade Mística que o Diabo era frouxo e em breve seria acorrentado. 
 
Ano de 1524, Fevereiro, dia 1 - Astrólogos londrinos 
Um grupo de astrólogos de Londres previu que o mundo acabaria com um dilúvio que começaria em Londres, com base em cálculos feitos no último mês de junho. 20.000 londrinos deixaram suas casas antecipadamente e foram em direção a locais considerados mais seguros. 
 
Ano de 1524, Fevereiro, dia 20 - Johannes Stöffler 
Um alinhamento planetário em Peixes foi visto por este astrólogo como um sinal do Milênio. 
 
Ano de 1524–1526 - Thomas Müntzer 
1525 marcaria o começo do Milênio de acordo com este anabatista. Seus seguidores foram mortos pelo fogo de canhões em uma batalha desigual com tropas do governo. Ele morreu sob tortura e foi decapitado. 
 
Ano de 1528, Maio, dia 27 - Hans Hut 
Previu o fim do mundo para este dia. 
 
Ano de 1528 - Johannes Stöffler 
Data corrigida após sua previsão de 1524 ter falhado. 
 
Ano de 1533, Outubro, dia 19 - Michael Stifel 
Este matemático calculou que o Dia do Julgamento começaria às 8h neste dia. 
 
Ano de 1533 - Melchior Hoffman 
Este profeta anabatista previu que a Segunda Vista de Cristo ocorreria neste ano em Estrasburgo. Afirmou que 144.000 pessoas seriam salvas, enquanto o resto do mundo seria consumido por fogo. 

Ano de 1534, Abril, dia 5 - Jan Matthys 
Previu que o Apocalipse aconteceria neste dia e apenas a cidade de Münster seria poupada. 
 
Ano de 1555 - Pierre d&#39;Ailly 
Por volta do ano 1400, este teólogo francês escreveu que 6845 anos de história humana já teriam passado e que o fim do mundo seria no 7000º ano.  

Ano de 1585 - Miguel Servet 
Em seu livro A Restauração do Cristianismo, este reformista espanhol afirmou que o reinado do Diabo neste mundo teria começado em 325 no Concílio de Niceia e restaria por 1260 anos, acabando assim em 1585. 
 
Ano de 1588 - Regiomontanus 
Previu que o mundo acabaria neste ano. 
 
Ano de 1600 - Martinho Lutero 
Previu que o mundo acabaria no máximo até 1600. 
 
Século XVII

Defensor(es) 
Descrição 

Ano de 1624, Fevereiro, dia 1 - Astrólogos londrinos 
Os mesmos astrólogos que previram o dilúvio de 1 de fevereiro de 1524 recalcularam a data para 1 de fevereiro de 1624 após a falha da primeira previsão. 
 
Ano de 1648 - abbatai Zevi 
Usando a cabala, este rabino de Esmirna, Turquia, proclamou que o Messias viria neste ano. 
 
ANO DE 1651 - Autor desconhecido de Lübeck 
Mapas apocalípticos falam de um Anticristo, a ascensão do Islã e outros eventos após o Dia do Julgamento previsto para 1651. 
 
Ano de 1654 - Helisaeus Roeslin 
Este médico previu que o mundo acabaria neste ano com base em uma nova que tinha ocorrido em 1572.  

Ano de 1656 - Cristóvão Colombo 
Em seu Livro de Profecias (1501), Colombo previu que o mundo acabaria neste ano.  

Ano de 1657 - Quintos Monarquistas 
Este grupo de cristãos radicais previu que a batalha apocalíptica final e a destruição do Anticristo ocorreria entre 1655 e 1657. 
 
Ano de 1658 - Cristóvão Colombo 
Colombo afirmou que o mundo foi criado em 5343 a.C. e duraria 7000 anos. Partindo do pressuposto que não há ano zero, isto significa que o fim aconteceria em 1658. 
 
Ano de 1660 - Joseph Mede 
Mede afirmou que o Anticristo apareceria em 456 e o fim aconteceria em 1660. 
 
Ano de 1666 - Sabbatai Zevi 
Após sua previsão para 1648 falhar, Zevi recalculou o fim da Terra para este ano. 
 
Quintos Monarquistas 
A presença do 666 nesta data, a morte de 100.000 londrinos para a peste bubônica e o grande incêndio de Londres levaram alguns cristãos a medos supersticiosos de que o fim do mundo ocorreria neste ano. 
 
Ano de 1673 - William Aspinwall 
Este Quinto Monarquista afirmou que o Milênio começaria a partir deste ano. 

Ano de 1688 - John Napier 
Este matemático calculou que o fim do mundo aconteceria neste ano com base no Livro do Apocalipse. 
 
Ano de 1689 - Pierre Jurieu 
Este profeta previu que o Dia do Julgamento aconteceria neste ano. 
 
Ano de 1694 - John Mason 
Este sacerdote anglicano previu que o Milênio começaria neste ano. 
 
Johann Heinrich Alsted 
Previu que o Milênio começaria neste ano. 
 
Johann Jacob Zimmermann 
Acreditava que Jesus retornaria e que o mundo acabaria neste ano. 
 
Ano de 1697 - Cotton Mather 
Este ministro puritano previu que o mundo acabaria neste ano. Após a previsão falhar, ele corrigiu a data duas outras vezes. 

Ano de 1700 - John Napier 
Após sua previsão de 1688 falhar, Napier corrigiu sua previsão para este ano. 
 
Henry Archer 
Em sua obra de 1642, O Reino Pessoal de Cristo sobre a Terra, Archer previu que a segunda vinda de Jesus ocorreria aproximadamente neste ano. 

Século XVIII
Defensor(es) 
Descrição 

Ano de 1705–1708 - Camisards 
Profetas Camisards previram que o fim do mundo aconteceria em 1705, 1706 ou 1708. 
 
Ano de 1716 - Cotton Mather 
Previsão corrigida após sua previsão de 1697 falhar. 

ANO DE 1719, Abril, dia 5 - Jacob Bernoulli 
Este matemático previu que um cometa destruiria a Terra neste dia. 
 
Ano de 1700–1734 - Nicolau de Cusa 
Este cardeal previu que o fim ocorreria entre 1700 e 1734. 
 
Ano de 1736, Outubro, dia 16 - William Whiston 
Whiston previu um cometa colidindo com a Terra neste ano. 

Ano de 1736 - Cotton Mather 
A terceira e última previsão de Mather para o fim do mundo. 

Ano de 1757 - Emanuel Swedenborg 
Swedenborg alegou que o Juízo Final ocorreu no mundo espiritual neste dia. 
 
Ano de 1780, Maio, dia 19 - Assembleia Geral de Connecticut, habitantes da Nova Inglaterra 
O céu ter escurecido durante o dia foi interpretado como um sinal do fim dos tempos. Acredita-se que a causa primária do evento tenha sido uma combinação de incêndios florestais, uma deblina densa e uma cobertura de nuvens. 
 
Ano de 1789 - Pierre d&#39;Ailly 
O ano 1789 traria a vinda do Anticristo de acordo com este cardeal do século XIV. 

Ano de 1792 - 1794  - Shakers 
Previram que o mundo acabaria nos anos 1792 ou 1794. 
 
Ano de 1795, Novembro, dia  19 - Nathaniel Brassey Halhed 
Enquanto protestava pela libertação de Richard Brothers, Halhead proclamou que o mundo acabaria neste dia. 
 
Ano de 1793–1795 - Richard Brothers 
Este marinheiro aposentado afirmou que o Milênio começaria entre 1793 e 1795. No fim da vida, foi levado a um manicômio.  

Século XIX

Defensor(es) 
Descrição 
 
Ano de 1805 - Christopher Love 
Este ministro presbiteriano previu a destruição do mundo por um terremoto em 1805, seguido de uma era de paz eterna em que Deus seria conhecido por todos. 
 
Ano de 1806 - Mary Bateman 
Em Leeds, Inglaterra, em 1806, uma galinha começou a botar ovos com a frase &quot;Cristo está vindo&quot; escrita. Posteriormente foi descoberto que se tratava de uma farsa. A dona da galinha, Mary Bateman, tinha escrito nos ovos com uma tinta corrosiva para causticá-los e então reinseriu os ovos no oviduto da galinha. 

Ano de 1814, Outubro, dia 19 - Joanna Southcott 
Esta profetiza autoproclamada de 64 anos de idade afirmou que estava grávida com Cristo em seu ventre e que ele nasceria em 19 de outubro de 1814. Ela morreu no final daquele ano sem ter dado a luz a uma criança e uma autópsia provou que ela não estava grávida. 
 
Ano de 1836 - Johann Albrecht Bengel 
Na década de 1730, ele proclamou que, com base num estudo cuidadoso das profecias bíblicas, o Dia do Julgamento aconteceria em 1836, o Papa seria o Anticristo e os maçons representariam o &quot;falso profeta&quot; do Apocalipse. 
 
Ano de 1836 - John Wesley 
Wesley, fundador da Igreja Metodista, previu que o Milênio começaria neste ano. Ele escreveu que Apocalipse 12:14 se referia aos anos de 1058 a 1836, &quot;quando Cristo viria&quot;. 

Ano de 1843, Abril, dia 28 - 1843 Dec 31 
Milleritas 
Apesar disto não ser oficialmente defendido pelos seus líderes, vários milleritas esperavam a Segunda Vinda no dia 28 de abril ou ao fim de 1843. 

Ano de 1843 - Harriet Livermore Os primeiros dois anos em que este pregador afirmou que o mundo acabaria. 

Amo de 1844, Março, dia 21 - William Miller 
Miller previu que Cristo retornaria neste dia. 

Ano de 1844, Outubro, dia 22 - Milleritas 
Após Cristo não retornar em 21 de março de 1844, os milleritas corrigiram a previsão de Miller para o dia 22 de outubro, afirmando terem calculado errado a escritura. O fracasso desta previsão resultou no Grande Desapontamento. 

Ano de 1847, Agosto, dia 7 - George Rapp 
Rapp, fundador da Harmony Society, pregou que Jesus voltaria em seu tempo de vida, mesmo nos seus últimos momentos em 7 de agosto de 1847. 

Ano de 1847 - Harriet Livermore 
A segunda previsão de fim do mundo deste pregador. 

Ano de 1853–1856 - Diversos 
Muitos[quem?] pensavam que a Guerra da Crimeia era uma batalha do Armagedom. 

Ano de 1862 - John Cumming 
Este clérigo escocês afirmou que em 1862 havia passado 6000 anos desde a Criação e que o mundo acabaria. 

Joseph Morris - Morris, que havia-se convertido ao mormonismo, teve revelações para juntar seus seguidores e esperar pela Segunda Vinda por sucessivos dias profetizados. 

Ano de 1863 - John Wroe 
O fundador da Igreja Israelita Cristã calculou que o Milênio começaria neste ano. 

Ano de 1873 - Jonas Wendell 
Em 1870, Wendell publicou suas visões no livro intitulado A Presente Verdade, ou Carne na Época Devida, concluindo que o Segundo Advento ocorreria certamente em 1873. 

Ano de 1874 - Charles Taze Russell 
Previu o retorno de Jesus para 1874 e após esta data, reinterpretou a previsão e disse que Jesus tinha de fato voltado numa forma invisível. 

Ano de 1875-1925 - Wilford Woodruff 
Apóstolo da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, afirmou: &quot;[...] o Senhor não revelou ao homem o dia ou a hora, mas revelou a geração [...] É minha fé que centenas e milhares das crianças que nos foram dadas estarão vivas na carne quando Cristo vier e as nuvens do céu em poder e grande glória.&quot; A expectativa de vida média para americanos em 1875 era de 50 a

Ano de 1881 - Madre Shipton (atrib.) 
Esta profetisa do século XV foi citada como tendo dito &quot;O mundo a um fim chegará em mil oitocentos e oitenta e um&quot; num livro publicado em 1862. Em 1873, descobriu-se que se tratava de uma farsa; no entanto, algumas pessoas continuaram acreditando nesta previsão. 

Ano de 1890 - Wovoka 
O fundador do movimento da Dança dos Fantasmas previu em 1889 que o Milênio começaria em 1890. 

Século XX
Defensor(es) 
Descrição 

Ano de 1901 - Igreja Católica Apostólica 
Esta igreja, fundada em 1831, afirmou que Jesus retornaria quando o último de seus doze membros fundadores morresse. O último membro morreu em 1901. 

Ano de 1910 - Camille Flammarion 
Flammarion previu que a aparição do Cometa Halley em 1910 &quot;impregnaria a atmosfera e possivelmente acabaria com toda a vida no planeta&quot;, mas não o planeta em si. &quot;Pílulas de cometa&quot; foram vendidas para proteção contra gases tóxicos. 

Ano de 1892–1911 - Charles Piazzi Smyth 
Este piramidologista concluiu de sua pesquisa nas dimensões da Grande Pirâmide que a Segunda Vinda ocorreria em algum ponto entre os anos de 1892 e 1911. 

Ano de 1914 - Charles Taze Russell 
&quot;...a batalha do grande dia de Deus Todo-Poderoso... A data do fechamento desta &quot;batalha&quot; é definitivamente marcada na Escritura como outubro de 1914. Já está em progresso, tendo iniciado em outubro de 1874.&quot; 

Ano de 1915 - John Chilembwe 
Este educador batista e líder de uma rebelião no protetorado britânico de Niassalândia previu que o Milênio começaria neste ano. 

Ano de 1918 - Associação Internacional dos Estudantes da https://www.google.com/m?client=ms-android-om-lgeBíblia 
&quot;A Cristandade será cortada e a glorificação do Pequeno Rebanho (A Igreja) na Primavera de 1918 A.D.&quot;. 

Ano de 1920 - Associação Internacional dos Estudantes da Bíblia 
Em 1918, a Cristandade como um sistema cairia no esquecimento e seria sucedida por governos revolucionários. Deus &quot;destruiria as igrejas por completo e seus membros aos milhões&quot;. Os membros das igrejas &quot;pereceriam pela espada da guerra, revolução e anarquia&quot;. Os mortos permaneceriam desenterrados. Em 1920, todos os governos terrestres desapareceriam e uma anarquia mundial prevaleceria. 

1925 Fev 13 - Margaret Rowen 
De acordo com esta adventista do sétimo dia, o anjo Gabriel teria aparecido perante ela numa visão e a dito que o mundo acabaria à meia-noite desta data. 

Ano de 1926 - Spencer Perceval 
Filho do ex-primeiro-ministro do Reino Unido e um dos doze apóstolos da Igreja Católica Apostólica, acreditava que o mundo estava cada vez mais próximo do Apocalipse devido ao que ele via como imoralidade desenfreada na Europa. 

Ano de 1935, Setembro - Wilbur Glenn Voliva 
Este evangelista, defensor da Terra plana, anunciou que o mundo &quot;explodiria e desapareceria&quot; em setembro de 1935. 

Ano de 1936 - Herbert W. Armstrong 
O fundador da Igreja Mundial de Deus disse aos membros de sua igreja que o Arrebatamento ocorreria em 1936 e apenas eles seriam salvos. Após o fracasso da profecia, ele mudou a data outras três vezes. 

Ano de 1941 - Testemunhas de Jeová 
Uma previsão do fim pelas Testemunhas de Jeová, um grupo derivado do movimento Bible Student. 

Ano de 1943 - Herbert W. Armstrong 
A primeira das três datas corrigidas de Armstrong após o fracasso de sua previsão para 1936. 

Ano de 1947 - John Ballou Newbrough 
O autor de Ohaspe: A Nova Bíblia previu a destruição de todas as nações e o começo de uma anarquia pós-apocalíptica para este ano. 

Ano de 1954, Dezembro, dia 21 - Dorothy Martin 
O mundo seria destruído por uma terrível inundação nesta data, de acordo com a líder de um culto OVNI chamado &quot;Irmandade dos Sete Raios&quot;. O fim do grupo após o fracasso da previsão foi a base para o livro de 1956 When Prophecy Fails. 

Ano de 1959, Abril, dia 22 - Florence Houteff 
A 2ª Profeta do Ramo Davidiano previu que o apocalipse profetizado no Livro do Apocalipse ocorreria nesta data. O fracasso da previsão levou à ramificação da seita em várias subseitas, a mais famosa sendo liderada por Benjamin e Lois Roden. 

Ano de 1962, Fevereiro, dia 4 
Jeane Dixon; vários astrólogos indianos 
Dixon previu que um alinhamento planetário neste dia traria destruição ao mundo. Orações em massa ocorreram na Índia. 

Ano de 1967, Agosto, dia 20 - George Van Tassel 
Este dia marcaria o começo do terceiro mal do Apocalipse, em que o Sudeste dos EUA seria destruído por um ataque nuclear soviético, de acordo com este profeta OVNI, que afirmou ter entrado em contato com o alienígena Ashtar Sheran. 

Ano de 1967 - Jim Jones 
O fundador do Templo do Povo afirmou que teve visões de um holocausto nuclear que ocorreria em 1967. 

Ano de 1969, Agosto, dia 9 - George Williams 
O fundador da Igreja do Primogênito previu que a Segunda Vinda ocorreria neste dia. 

Ano de 1969 - Charles Manson 
Manson previu que uma guerra racial apocalíptica ocorreria em 1969. 

Ano de 1972 - Herbert W. Armstrong 
A segunda das três datas corrigidas de Armstrong após suas previsões para 1936 e 1943 fracassarem. 

Ano de 1974, Janeiro - David Berg 
Berg, o líder do movimento Meninos de Deus, previu que haveria um apocalipse colossal proclamado pelo Cometa Kohoutek. 

Ano de 1975 - Herbert W. Armstrong 
A quarta e última previsão de Armstrong. 

Testemunhas de Jeová 
A partir de 1966, as Testemunhas de Jeová começaram a publicar artigos afirmando que o outono de 1975 completaria 6000 anos desde a criação do homem e sugerindo que o Armagedom ocorreria então. 

Ano de 1976 - Brahma Kumaris 
O fundador da Brahma Kumari, Lekhraj Kirpalani, fez várias previsões de um Armagedom global inspirado por crenças religiosas, chamado de &quot;Destruição&quot;. Durante a Destruição, segundo os líderes da Brahma Kumari, o mundo seria purificado e todo o resto da humanidade morreria eguerrasnucleares e civis e que desastres naturais acabariam por submerger toda a terra firme do mundo com a exceção da Índia. 

Ano de 1977 - John Wroe 
O fundador da Igreja Cristã Israelita o Armagedom para este ano. 

William M. Branham 
Este ministro cristão previu que o Arrebatamento ocorreria no máximo até 1977. 

Ano de 1980 - Leland Jensen 
Em 1978, Jensen previu que haveria um desastre nuclear em 1980, seguido de duas décadas de conflito, culminando com o estabelecimento do Reino de Deus na Terra. 

Ano de 1981 - Chuck Smith 
O fundador da Capela Calvary previu que a geração de 1948 seria a última geração e que o mundo acabaria em 1981. Smith reconhecia que ele &quot;poderia estar errado&quot; mas continuava a dizer a mesma frase: &quot;minha previsão é uma convicção profunda no meu coração e todos os meus planos estão firmados sobre esta crença&quot;. 

Ano de 1982, Abril – Junho - Tata Centers 
Anúncios que cobriam páginas inteiras em vários jornais entre 24 e 25 de abril de 1982 afirmavam &quot;Cristo Está Aqui Agora!&quot; e que ele seria conhecido &quot;dentro dos próximos dois meses&quot;. 

Ano de 1982, Marco, dia 10 
John Gribbin, Stephen Plagemann 
Previram em seu livro de 1974, The Jupiter Effect, que forças gravitacionais combinadas com planetas alinhados causariam diversas catástrofes, incluindo um enorme terremoto na falha de Santo André. 

Ano de 1982, Junho, dia 21 - Benjamin Creme 
Num anúncio do jornal Los Angeles Times, Creme afirmou que a Segunda Vinda ocorreria em junho de 1982 com o Maitreya o anunciando na televisão mundial. 

Ano de 1982 - Pat Robertson 
No final de 1976, em seu programa The 700 Club, Robertson previu que o mundo acabaria neste ano. 

Ano de 1985 - Lester Sumrall 
Este ministro previu o fim para este ano e até escreveu um livro sobre ele intitulado Eu Prevejo 1985. 

Ano de 1986, Abril, dia 29 - Leland Jensen 
Jensen previu que o Cometa Halley seria puxado em direção à órbita terrestre em 29 de abril de 1986, causando grande destruição. 

Ano de 1987, Agosto, dia 17 - José Argüelles 
Argüelles afirmou que o Armagedom ocorreria nesta data a menos que 144.000 pessoas se reunissem em certos lugares do mundo para ressonar em harmonia neste dia. 

Ano de 1988, Setembro, dia 11-13, Outubro, dia 3 - Edgar C. Whisenant 
Whisenant previu em seu livro 88 Razões Pelas Quais o Arrebatamento Pode Ocorrer em 1988 que o Arrebatamento da Igreja Cristã ocorreria entre 11 e 13 de setembro de 1988. Após estas previsões fracassarem, Whisenant corrigiu sua data para 3 de outubro. 

Ano de 1989, Setembro, dia 30 - Edgar C. Whisenant 
Após suas previsões de 1988 falharem, Whisenant corrigiu sua previsão para este dia. 

Ano de 1990, Abril, dia 23 - Marco, dia 5 - Elizabeth Clare Prophet 
Esta profetiza previu que uma guerra nuclear começaria neste dia, com o mundo acabando doze dias depois, levando seus seguidores a abastecer um abrigo com mantimentos e armas. Após o fracasso da previsão, ela foi diagnosticada com epilepsia e mal de Alzheimer. 

Ano de 1991, Setembro, dia 9 - Menachem Mendel Schneerson 
Este rabino nascido na Rússia afirmou que o Messias viria após o início do ano novo judaico. 

Ano de 1991 - Louis Farrakhan 
O líder da Nation of Islam declarou que a Guerra do Golfo seria a &quot;Guerra do Armagedom, a guerra final&quot;. 

Ano de 1992, Setembro, dia 28 - Rollen Stewart 
Este cristão regenerado previu que o Arrebatamento ocorreia neste dia. 

Ano de 1992, Outubro, dia 28 - Lee Jang Rim 
(이장림 or 李長林) 
Lee, líder da igreja da Missão Dami, previu que o Arrebatamento ocorreria neste dia. 

Ano de 1993 - David Berg 
Berg previu que a Grande Tribulação começaria em 1989 e a Segunda Vinda ocorreria em 1993. 

Ano de 1994, Maio, dia 2 - Neal Chase 
Esta líder de uma seita da Fé Bahá&#39;í previu que a cidade de Nova Iorque seria destruída por uma bomba nuclear no dia 23 de março de 1994 e a Batalha do Armagedom ocorreria 40 dias depois. 

Ano de 1994, Setembro, dia 6/29, Outubro, dia 2 - Harold Camping 
Camping previu que o Arrebatamento ocorreria em 6 de setembro de 1994. Quando esta previsão fracassou, ele corrigiu a data para 29 de setembro e depois para 2 de outubro. 

Ano de 1995, Marco, dia 31 - Harold Camping 
A quarta data prevista por Camping para o fim. Esta foi sua última previsão para o século XX. 

Ano de 1996, Dezembro, dia 17 - Sheldan Nidle 
O sensitivo californiano Sheldan Nidle previu que o mundo acabaria nesta data com a chegada de 16 milhões de naves especiais tripuladas por anjos. 

Ano de 1997, Marco, dia 26 - Marshall Applewhite 
Applewhite, líder do culto Heaven&#39;s Gate, afirmou que uma nave espacial estava guiando o cometa Hale-Bopp e afirmou que o suicídio era &quot;a única maneira de evacuar desta Terra&quot; para que os membros do culto pudessem subir a bordo da suposta nave e levados para um &quot;nível de existência acima do que é humano&quot;. Applewhite e seus 38 seguidores cometeram suicídio em massa. 

Ano de 1997, Agosto, dia 10 - Aggai 
Este bispo de Edessa, do século I, previu para esta data o nascimento do Anticristo e o fim do universo. 

Ano de 1997, Outubro, dia 23 - James Ussher 
Este arcebispo irlandês do século XVII afirmou que esta seria a data do fim do mundo por, supostamente, ocorrer 6000 anos após a criação. 

Ano de 1998, Marco, dia 31 - Chen Tao 
(陳恆明) 
Hon-Ming Chen, líder do culto cristão taiwanês Chen Tao (A Igreja da Salvação de Deus) – &quot;O Verdadeiro Caminho&quot; – afirmou que Deus viria à Terra num disco voador às 10h nesta data. Além disto, Deus teria a mesma aparência física de Chen. O culto de Chen era sediado em Garland, Texas, cujo nome segundo Chen lembrava &quot;God&#39;s Land&quot;. Em 25 de março, Deus apareceria no canal 18 de todos os televisores dos EUA. 

Ano de 1999, Julho - Nostradamus 
Uma quadra por Nostradamus que afirmava que o &quot;Rei do Terror&quot; viria do céu em &quot;1999 e sete meses&quot; foi interpretada como uma previsão para o fim do mundo em julho de 1999. 

Ano de 1999, Agosto, dia 18 - Jeron Criswell King 
A data prevista para o fim do mundo de acordo com este sensitivo conhecido por suas previsões. 

Ano de 1999, Setembro, dia 11 - Philip Berg 
Berg, reitor do Kabbalah Centre global, afirmou que nesta data &quot;uma bola de fogo desceria, destruindo quase toda a humanidade, toda a vegetação, todas as formas de vida.&quot; 

Ano de 1999 - Charles Berlitz 
Este linguista previu que o fim ocorreria neste ano. Ele não previu como aconteceria, afirmando que poderia envolver devastação nuclear, impacto de asteroides, inversão de polos e outras mudanças na Terra. 

Hon-Ming Chen 
O líder do culto Chen Tao pregou que um holocausto nuclear destruiria a Europa e a Ásia em 1999. 

James Gordon Lindsay 
Este pregador previu que a Grande Tribulação começaria antes do ano 2000. 

Timothy Dwight IV 
Este presidente da Universidade de Yale previu que o Milênio começaria em 2000. 

Nazim Al-Haqqani 
Previu que o Juízo Final ocorreria antes de 2000. 

Ano de 2000, Janeiro, dia 1 - Diversos 
Antes e durante 1999 havia diversas previsões sobre um bug Y2K (Bug do Milênio) que iria congelar diversos computadores à meia-noite do dia 1 de janeiro de 2000 e causar problemas técnicos levando a catástrofes globais que colocariam a sociedade em risco. 

Credonia Mwerinde, Joseph Kibweteere 
Cerca de 778 seguidores deste movimento religioso de Uganda pereceram num incêndio devastador e séries de envenenamentos que eram ou um suicídio em massa ou um assassinato em massa orquestrado por líderes após os fracassos de suas previsões. 

Jerry Falwell 
Falwell previu que Deus faria seu julgamento sobre o mundo neste dia. 

Tim LaHaye, Jerry B. Jenkins 
Estes autores cristãos afirmaram que o Bug do Milênio causaria caos econômico global e que o Anticristo ascenderia ao poder. À medida que a data foi se aproximando, no entanto, revogaram esta previsão. 

Ano de 2000, Abril, dia 6 - James Harmston 
O líder da Verdadeira e Viva Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias previu que a Segunda Vinda de Cristo ocorreria neste dia. 

Ano de 2000, Maio, dia 5 - Nuwaubian Nation 
Este movimento afirmou que um alinhamento planetário causaria um &quot;holocausto estelar&quot;, puxando planetas em direção ao Sol neste dia. 

Ano de 2000 - Peter Olivi 
Este teólogo do século XIII escreveu que o Anticristo chegaria ao poder entre os anos de 1300 e 1340 e que o último julgamento ocorreria por torno do ano 2000. 

Isaac Newton 
Newton previu que o Milênio de Cristo começaria no ano 2000 em seu livro Observações sobre as Profecias de Daniel e o Apocalipse de São João. 

Ruth Montgomery 
Este sensitivo cristão autoproclamado previu que o eixo da Terra mudaria e o Anticristo se revelaria neste ano. 

Edgar Cayce 
Este sensitivo previu a Segunda Vinda para este ano. 

Sun Myung Moon 
O fundador da Igreja da Unificação previu que o Reino do Céus seria estabelecido neste ano. 

Ed Dobson 
Este pastor previu que o fim ocorreria em seu livro O Fim: Por Que Jesus Pode Voltar em 2000 A.D.. 

Lester Sumrall 
Este ministro previu o fim em seu livro Eu Prevejo 2000. 

Jonathan Edwards 
Este pregador do século XVIII previu que o reino de mil anos de Cristo começaria neste ano. 

Século XXI
Defensor(es) 
Descrição 

Ano de 2001 - Tynnetta Muhammad 
Esta colunista da Nation of Islam previu que o fim do mundo ocorreria neste ano. 

Ano de 2003, Maio, dia 27 - Nancy Lieder
Lieder previu originalmente a data para a colisão com Nibiru para maio de 2003. De acordo com seu site, alienígenas do sistema estelar Zeta Reticuli contaram-na através de mensagens por um implante cerebral de um planeta que entraria em nosso Sistema Solar e causaria a inversão dos polos na Terra, o que destruiria a humanidade. 

Ano de 2003, Novembro, dia 29 - Aum Shinrikyo 
Este culto japonês previu que o mundo seria destruído por uma guerra nuclear entre 20 de outubro e 29 de novembro de 2003. 

Ano de 2006, Setembro, dia 12 - House of Yahweh 
Yisrayl Hawkins, pastor e supervisor da Casa de Yahweh, previu em seu boletim de notícias de fevereiro de 2006 que uma guerra nuclear começaria em 12 de setembro daquele ano. 

Ano de 2007, Abril, dia 29 - Pat Robertson 
Em seu livro de 1990, O Novo Milênio, Robertson sugere que esta data é o dia da destruição da Terra. 

Ano de 2010 - Ordem Hermética da Aurora Dourada 
Esta ordem previu que o mundo acabaria neste ano. 

Ano de 2011, Maio, dia 21 - Harold Camping 
Camping previu que o Arrebatamento e terremotos devastadores ocorreriam em 21 de maio de 2011 e que Deus levaria cerca de 3% da população do mundo para o céu e que o fim do mundo ocorreria cinco meses depois em 21 de outubro. 

Ano de 2011, Setembro, dia 29 - Ronald Weinland 
Ronald Weinland afirmou que Jesus Cristo retornaria neste dia. Ele profetizou explosões nucleares nas cidades portuárias americanas a partir de julho de 2008 como o soar da Segunda Trombeta do Apocalipse. Após sua profecia fracassar, ele mudou a data do retorno de Cristo para 27 de maio de 2012. 

Ano de 2011, Outubro, dia 21 - Harold Camping 
Após sua previsão original fracassar, Camping corrigiu sua previsão e disse que um &quot;Juízo Espiritual&quot; ocorreu em 21 de maio e que tanto o Arrebatamento físico como o fim do mundo ocorreriam em 21 de outubro de 2011. 

Ano de 2011, Agosto–Outubro - Diversos 
Houve pânico entre o público de que o Cometa Elenin, viajando quase diretamente entre a Terra e o Sol, causaria agitações na crosta terrestre, levando a tsunamis e terremotos massivos. Outros previram que Elenin colidiria com a Terra em 16 de outubro. Cientistas afirmaram que nenhum destes eventos era possível. 

Ano de 2012, Maio, dia 27 - Ronald Weinland 
Ronald Weinland afirmou que Jesus Cristo retornaria e que o mundo acabaria neste dia. 

Ano de 2012, Junho, dia 30 - José Luis de Jesús 
José Luis de Jesús previu que os governos e economias do mundo entrariam em colapso neste dia e que seus seguidores passariam uma transformação que lhes permitiria voar e atravessar paredes. 

Ano de 2012, Dezembro, dia 21 - Diversos 
O fenômeno 2012 dizia que o mundo acabaria no 13º b&#39;ak&#39;tun do calendário maia. O mundo seria destruído por um asteroide, por Nibiru ou outro objeto interplanetário, uma invasão alienígena ou uma supernova. Especialistas na história maia afirmaram que nenhum códice maia conhecido previa o fim dos tempos e que a ideia de que o calendário terminava em 2012 era uma representação errônea da cultura e história da civilização maia. Cientistas da NASA afirmaram que nenhum dos eventos astronômicos anunciados era possível. 

Ano de 2013, Agosto, dia 23 - Grigori Rasputin 
Rasputin profetizou uma tempestade que ocorreria neste dia em que o fogo destruiria a maior parte da vida na Terra e que Jesus Cristo retornaria à Terra para confortar os angustiados. 

Ano de 2014, Abril – Ano de 2015, Setembro - John Hagee e Mark Biltz 
A chamada Profecia da Lua de Sangue, anunciada pela primeira vez por Mark Blitz em 2008 e depois por John Hagee em 2014. Estes ministros cristãos afirmaram que a tétrade em 2014 e 2015 poderia representar profecias bíblicas relacionadas à Segunda Vinda de Cristo. 

Ano de 2016, Julho, dia 29 - End Time Prophecies (canal) 
Um vídeo viral do canal do YouTube &quot;End Time Prophecies&quot; afirmou que o mundo acabaria e a Terra passaria por uma &quot;inversão polar&quot;, o que aparentemente faria a atmosfera ser puxada para o chão à medida que a superfície titubearia como um vácuo, fazendo uma &quot;nuvem rolante&quot; cobrir o planeta. Também afirmaram que um &quot;megaterremoto&quot; seguiria. 

Ano de 2017, Maio, dia 13 - Horacio Villegas 
Villegas afirmou que o mundo seria destruído numa guerra nuclear em 13 de maio de 2017 devido às tensões cada vez maiores na Península da Coreia. Ele também disse que esta data coincidia com o centenário da visita de Nossa Senhora de Fátima. 

Datas futuras
Século XXI

Defensor(es) 
Descrição 

Ano de 2019 - Geraldo Lemos 
O médium espírita Geraldo Lemos afirma que teria ouvido de Chico Xavier uma previsão, com base em conversas de Chico com Jesus e em estudos da obra de Allan Kardec, de que 2019 será a &quot;data limite&quot; para uma transição da Terra de um &quot;planeta de provas e expiações&quot; para um &quot;planeta de regeneração&quot;. A humanidade, teria afirmado Chico, sofrerá ou um destino maligno ou um destino benigno, com base na ocorrência ou não de uma Terceira Guerra Mundial até este ano. 

Ano de 2020 - Jeane Dixon 
Jeane Dixon afirmou que o Armagedom acontecerá em 2020 e Jesus retornará entre 2020 e 2037 para derrotar a trindade maligna composta pelo Anticristo, Satã e o Falso Profeta. Ela também previu que o mundo acabaria em 4 de fevereiro de 1962. 

Ano de 2021 - F. Kenton Beshore 
F. Kenton Beshore tem como base para sua previsão a sugestão anterior de que Jesus retornaria em 1988, dentro de uma geração bíblica (40 anos) após a fundação de Israel em 1948. Beshore afirma que a previsão estava correta, mas a definição de uma geração bíblica estava errada e que era na verdade entre 70 e 80 anos, colocando a Segunda Vinda de Jesus entre 2018 e 2028 e o Arrebatamento no máximo até 2021. 

Ano de 2026 - Messiah Foundation International 
Membros preveem que o mundo acabará em 2026, quando um asteroide colidir com a Terra de acordo com previsões de Riaz Ahmed Gohar Shahi em A Religião de Deus. As chances são de apenas 1 em 300.000. 

Ano de 2060 - Isaac Newton 
De acordo com os estudos bíblicos de Isaac Newton, Jesus arrebatará sua Igreja um jubileu após Israel retomar Jerusalém. 

Séculos XXII a XXIII
Defensor(es) 
Descrição 

Ano de 2129 - Said Nursî 
De acordo com sua interpretação de um hádice, este teólogo islâmico sunita, que escreveu a coleção Risale-i Nur, afirma que o fim é esperado para 2129. 

Ano de 2239 - Talmude, Judaísmo ortodoxo 
De acordo com uma opinião sobre o Talmude nas principais vertentes do judaísmo ortodoxo, o Messias virá 6000 anos após a criação de Adão e o mundo será possivelmente destruído 1000 anos depois. Isto colocaria o começo do período de desolação no ano 2239 e o fim do período de desolação no ano 3239. 

Ano de p2280 - Rashad Khalifa 
De acordo com os estudos do Alcorão de Rashad Khalifa, o mundo acabará neste ano. 

Ano de 11120 - John A. Leslie 
De acordo com as imagens de Leslie para o argumento do fim do mundo, os últimos humanos nascerão nos próximos 9120 anos. 

Previsões científicas para o futuro distante

Diversos cientistas e grupos científicos de várias partes do mundo já teorizaram datas estimadas para possíveis eventos naturais com grande potência de ameaçar a vida ou existência na Terra como um todo, com a data mais próxima sendo daqui a 500 mil anos. 

Daqui a quantos anos? 
Defensor(es) 
Descrição 

Ano de 500.000 - Nick Bostrom 
A Terra será provavelmente atingida por um asteroide de 1 km de diâmetro durante este período, partindo do pressuposto que tal impacto não pode ser evitado. Bostrom escreve que &quot;Para causar a extinção da vida humana, o corpo teria que ter mais que 1 km de diâmetro (e provavelmente 1–10 km)&quot;. 

Ano de 1 milhão - Sociedade Geológica de Londres 
A Terra sofrerá, provavelmente, uma erupção supervulcânica forte o suficiente para ejetar 3.200 km3 de magma, evento comparável à supererupção do Toba de 75.000 anos atrás. 

Ano de 100 milhões - Stephen A. Nelson 
A Terra será provavelmente atingida por um asteroide de um diâmetro de 10–15 km (tamanho comparável ao que causou a Extinção do Cretáceo-Paleogeno que extinguiu os dinossauros há 66 milhões de anos), partindo do pressuposto que tal evento não pode ser evitado. 

Ano de 500 milhões - James Kasting 
O nível de dióxido de carbono na atmosfera cairá drasticamente, tornando a Terra inabitável. 

Ano de 500–600 milhões - Anne Minard 
Tempo estimado até que ocorra uma erupção de raios gama ou uma supernova massiva e hiperenergética a menos de 6.500 anos-luz da Terra, o que é perto o suficiente para seus raios afetarem a camada de ozônio e causarem uma potencial extinção em massa. Esta previsão parte do pressuposto de que uma explosão anterior similar a esta causou a extinção do Ordoviciano-Siluriano. No entanto, a supernova teria que estar orientada precisamente em relação à Terra para ter qualquer efeito negativo. 

Ano de 1–5 bilhões - Diversos 
O fim estimado da atual fase de desenvolvimento do Sol, depois da qual ele se expandirá até se transformar numa gigante vermelha, engolindo ou pulverizando a Terra no processo, ocorrerá por torno de cinco bilhões de anos no futuro. No entanto, à medida que o Sol for ficando mais quente (através de milhões de anos), as temperaturas na Terra também aumentarão, o que poderá ameaçar a vida no planeta dentro de um bilhão de anos. 

Ano de 1,3 bilhões - S. Franck, C. Bounama, W. Von Bloh 
É estimado que toda a vida eucariótica morrerá por falta de dióxido de carbono e apenas procariontes sobreviverão. 

Ano de 7.59 bilhões - David Powell 
Prevê-se que a Terra e a Lua serão destruídas pela expansão do Sol, pouco antes do Sol atingir o ápice de sua fase de gigante vermelha e um raio máximo 256 vezes o valor atual. Antes da colisão final, a Lua poderá cair em em espiral abaixo do limite de Roche da Terra, quebrando-se em um anel de detritos, a maioria dos quais cairá sobre o que restar da Terra. 

Ano de 22 bilhões - Diversos 
O fim do universo no cenário do Big Rip, presumindo um modelo de energia escura com w = −1,5. Observações de velocidades de aglomerados de galáxias pelo observatório de raios-X Chandra sugerem que o valor real de w é ~-0,991, o que significa que o Big Rip não irá ocorrer. 

Ano de 10 duotringitilhões - Diversos 
A morte térmica do universo é uma teoria científica que prevê uma diminuição universo a um estado onde não há energia livre termodinâmica, o que o tornaria incapaz de sustentar movimento e vida. 
FIM

Apocaliticismo
Armagedom
Fim do mundo
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&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;

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&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;b&gt;Templo em Jerusalém e Israel se arma para guerra
&lt;/b&gt;Publicado por Tiago Chagas em 29 de julho de 2015

&lt;b&gt;Rabinos divulgam maquete virtual do Terceiro Templo em Jerusalém e Israel se arma para guerra&lt;/b&gt;

Projeção do véu do templo

No último domingo, 26 de julho, os judeus relembraram o Tishá BeAv, nome dado ao dia do calendário judaico escolhido para chorar a destruição dos Templos Sagrados, o primeiro no ano 586 A.C., pelas mãos dos babilônios, e o segundo, no ano 70 D.C., pelos romanos. Para marcar a data, o Instituto do Templo divulgou um vídeo com uma projeção de como será o novo templo que pretendem erguer em Jerusalém.

O projeto do Terceiro Templo já tem toda a questão de engenharia e arquitetura definida, como mostra o vídeo de computação gráfica divulgado, além de já ter, produzidos, a maior parte dos objetos ritualísticos produzidos e guardados, apenas esperando que o templo seja erguido.

Ao longo do vídeo, a caminhada virtual passa pelo portal de entrada, o santuário principal, o acesso ao Santo dos Santos e o véu que o protege. O cuidado com a Halakhic, que é a lei judaica, fica evidenciado pela atenção aos detalhes, que envolvem a dimensão dos espaços, materiais usados nas peças e o local onde o templo será erguido.

Segundo informações da imprensa israelita, assim que o vídeo foi divulgado, diversos sites religiosos compartilharam o material assinalando-o como um “grande sinal”. O rabino Chaim Richman, diretor e fundador do Instituto, lembrou que “um terço de todos os mandamentos da Torá dizem respeito à construção do serviço no Templo Sagrado”, e lamentou que, por conta da inexistência do templo, os ritos judaicos estão incompletos: “Hoje, não apenas lamentamos a destruição dos dois Templos Sagrados, mas também nossa incapacidade de cumprir um terço da Torá”.

Guerra

Na tradição cristã, muitos teólogos interpretam que algumas circunstâncias simbólicas seriam evidências do início do fim dos tempos, indicando a proximidade do arrebatamento da igreja, o início da Grande Tribulação e a consequente Batalha do Armagedom.

Um dos indícios apontados por teólogos seria a reconstrução do Templo em Jerusalém, que seria conduzida pelo anticristo, e mais para frente, segundo a profecia, causaria uma guerra mundial contra Israel.

Curiosamente, horas após o Tishá BeAv, a Força de Defesa de Israel convocou milhares de militares da reserva para o maior exercício militar da história do país, desde 1948.

O treinamento militar irá simular diferentes tipos de ataques, de inimigos no Líbano, Sìria e a Faixa de Gaza, e incluirá situações com supostas perdas civis, desabamento de prédios e evacuação de espaços públicos.

A Força Aérea israelense colocará suas bases aéreas em estado de emergência durante os exercícios, dado o grau de realismo da simulação, e a Marinha vai testar sua infraestrutura de combate, segundo informações do Jerusalem Post.

&lt;b&gt;SINAIS DA CONCRETIZAÇÃO DAS PROFESIAS&lt;/b&gt;

Judeus afirmam que lua de sangue trará mudança na história de Israel
Ortodoxos veem fenômeno como sinal inequívoco
Judeus afirmam que lua de sangue trará mudança na história de Israel&quot;Lua de sangue trará mudança na história de Israel&quot;

Depois de vários líderes evangélicos, judeus messiânicos e os crentes que estudam as raízes hebraicas de sua fé destacarem a importância das luas de sangue, agora são os judeus ortodoxos.
A última das quatro luas que formam a tétrade de 2014-2015 aparecerá no céu de Israel dentro de 7 dias. Em 27 de setembro teremos uma “superlua de sangue”. O fenômeno em que a Lua atinge seu ponto máximo de aproximação da Terra. Por isso, a Lua parecerá estar maior, sendo neste dia o único eclipse do ano visível no mundo todo, inclusive no Brasil.

Cada vez mais, líderes e eruditos judeus ortodoxos estão dizendo que ela marcará um evento significativo para o futuro de Israel e do seu povo. Bob O’Dell e Gidon Ariel, fundadores da Root Source, programa educacional em que ortodoxos ensinam cristãos sobre o Antigo Testamento, dizem que o fato dessa lua de sangue ser no primeiro dia de Sukkot, ou a Festa dos Tabernáculos, não deve ser ignorado.
Pela quarta vez em dois anos, uma lua de sangue irá ocorrer em dias santos judaicos. As tétrades só ocorreram 9 vezes nos últimos dois mil anos. Todas as vezes que isso aconteceu no passado, ocorreram mudanças históricas significativas para o povo judeu: 1428-1429, 1493-1494, 1949-1950 e 1967-1968.
Os eruditos também destacam que a última lua de sangue ocorre no final de um ciclo Shemitá – período de sete anos que cumpre o mandamento de Deus para o descanso da terra e o perdão de dívidas em Israel. Se isso não bastasse, também marcam o início de um ano de Jubileu, período especial para os judeus que ocorre a cada 50 anos.
“Não estamos prevendo o fim do mundo nem a chegada do Messias em setembro”, disse O’Dell. “Mas se você olhar para todas as luas de sangue que ocorreram na história, ver que todas as vezes marcaram ‘pontos de virada’ na história do povo judeu.”
A tétrade em 1428-1429 marcou uma onda de conversões forçadas de judeus na Europa. A de 1493-1494 sinalizou o fim da Inquisição, que culminou na expulsão dos judeus da Espanha. A partir dali eles se espalharam pelo mundo de uma maneira até então inédita.
“Podemos olhar para trás e ver que a Espanha estava no auge do poder, enquanto Deus estava preparando um novo lar para os judeus na América através do descobrimento de Cristóvão Colombo”, disse O’Dell. “As luas de sangue que ocorrem nesses dias de festas judaicas são um testemunho de que Deus não esqueceu Sua promessa de trazer os judeus de volta à sua pátria.”
Além disso, as luas de sangue também marcaram o renascimento de Israel como nação (1948), após muitos séculos de domínio muçulmano. As de 1967 ocorreram quase ao mesmo tempo que a Guerra dos Seis Dias, que resultou na conquista de Jerusalém.  Alguns estudiosos acreditam que para 2015, a lua poderá marcar uma nova guerra, resultado da divisão do país imposta pela ONU.
Gidon Ariel explica que existem organizações dedicadas a acompanhar os movimentos lunares, base do calendário bíblico. Isso seria uma preparação para adequar o retorno dos cultos no [Terceiro] Templo”.
Lembra ainda que “sinais celestiais são mencionados em passagens sobre o final dos tempos bíblicos e a lua sempre tem destaque.” Para ele, o grande diferencial desta última lua é o fato de ser vista também no Hemisfério Sul, enquanto as outras só eram vistas no Hemisfério Norte. Com informações de WND

&lt;b&gt;ONU revela plano para dividir Israel em setembro&lt;/b&gt;
Ban Ki-moon convida países árabes a reunião sobre conflito Israel-palestinos

ONU revela plano para dividir Israel em setembro

Em meio a tantos eventos planejados para ocorrer em setembro que apontam para algo drástico acontecendo em Israel, mais uma notícia fortalece as análises de que a divisão é iminente.
Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, convidou Jordânia, Egito e Arábia Saudita para uma reunião este mês onde tratará dos conflitos no Oriente Médio. Mas ao contrário do que poderia se esperar, o foco não é a Síria ou o avanço do Estado Islâmico, mas uma “solução diplomática para o conflito israelense-palestino”.

Já estava programada a participação dos ministros das Relações Exteriores da Rússia e Estados Unidos, além da chefe da diplomacia da União Europeia, Federica Mogherini. Desde que assumiu o cargo, ela vem fazendo campanha pela divisão de Jerusalém.
As conversações ocorrerão em 30 de setembro, duas semanas depois da data prevista para que a França peça o reconhecimento oficial da Palestina como nação independente.
A ONU alega que incluirá países árabes em seu esforço diplomático “para retomar a paz entre Israel e palestinos”. Para Mogherini isto poderia ajudar a “reabrir horizontes futuros e políticos às conversações”.
As conversas de paz entre palestinos e israelenses não foram retomadas desde abril de 2014, por causa da guerra na Faixa de Gaza.
O primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu afirmou que estava disposto a retomar as negociações para paz “agora mesmo”. Porém, o premiê palestino Mahmoud Abbas prefere esperar até o final do mês, pois fará um discurso na Assembleia Geral da ONU em 30 de setembro, no mesmo dia da reunião em que os países árabes tratarão do assunto.
O maior indício que tudo é mera formalidade e que a presença de países árabes apenas tenta impor medo a Israel foi a declaração do embaixador palestino da ONU, Riyad Mansour. Em pronunciamento recente, afirmou esperar que Abbas poderá hastear a bandeira palestina em frente à sede da ONU pela primeira vez naquele dia. 
Com informações Prophecy News


&lt;b&gt;&lt;/b&gt;Obama diz que bombas choverão em Israel se EUA rejeitar acordo nuclear

Para Obama, o acordo nuclear irá manter a paz no Oriente Médio, pois os iranianos serão vigiados constantemente. Curiosamente, no mesmo dia, unidades do Hezbollah sob o comando de oficiais iranianos estavam disparando pesados mísseis Zelzal 3 contra os rebeldes sírios na cidade de Zabadani, que fica a apenas 200 km de Tel Aviv.
Em seu discurso no encontro que durou duas horas, Barack Obama declarou que se não houver acordo, dentro de pouco tempo haverá guerra entre os EUA e o Irã. Neste caso, quem pagará o preço será o Povo de Israel, pois seria impossível impedir os mísseis iranianos de atingirem Tel Aviv.
O presidente sabe que o lobby judeu é muito forte nos Estados Unidos e o fato dele não ter revelado todos os detalhes do acordo até agora, só aumentou as suspeitas.
O encontro do presidente ocorreu horas depois de o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ter participado de uma conferência on-line, onde dialogou com influentes judeus americanos, membros da Federação Judaica da América do Norte e os presidentes das principais organizações judaicas dos EUA.
“Eu não me oponho a este acordo porque quero guerra. Eu me oponho a este acordo porque quero evitar a guerra. Todo este acordo trará guerra”, enfatizou Neanyahu.  Segundo os organizadores,mais de 10 mil pessoas assistiram a conferência.
Ao contrário do que afirma Netanyahu, Obama disse que chamou o primeiro-ministro para conversar. Também enfatizou que os EUA vão continuar a apoiar e ajudar a fortalecer a segurança de Israel.
A votação do congresso americano ocorrerá em setembro, e a imprensa americana tem divulgado que a Casa Branca poderá ter dificuldades em conseguir a maioria.
Hoje (5) pela manhã, Obama fez um discurso nos mesmos termos, exortando o Congresso a aprovar o acordo nuclear com o Irã. Afirmou ainda que Netanyahu é sincero, mas está “errado”. Deixou claro que Israel está sozinho em sua oposição ao acordo.
O presidente alertou que “Se matar este acordo, o Congresso não irá apenas pavimentar o caminho do Irã para a bomba nuclear, mas acelerá-lo”. Com informações de Times of Israel [2] e Haaretz

&lt;b&gt; “Israel é a causa de todos os problemas dos países muçulmanos”, afirma líder islâmico
Reunião tratou de como lidar com o “tumor canceroso de Israel”&lt;/b&gt;

“Israel é a causa de todos os problemas dos países muçulmanos”, afirma líder islâmico&quot;Israel é a causa dos problemas dos países muçulmanos&quot;

Importantes clérigos muçulmanos reuniram-se em Beirute, Líbano, esta semana para lançar a União de Resistência Internacional Khomeinista, onde o principal tópico foi como lidar com o “tumor canceroso de Israel”.
O líder radical iraniano Mohsen Araki afirma que a destruição de Israel e a “luta contra o mundo arrogante” devem ser as duas principais prioridades para a “resistência”, numa menção ao grupo religioso.
Al Manar, órgão de imprensa muito ligado ao grupo terrorista libanês Hezbollah, relata que os estudiosos “elogiaram as conquistas” do regime do presidente Assad na Síria, ignorando a guerra civil que o país se encontra.

O secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, disse aos presentes que os sucessos obtidos na Síria, com a ajuda do Irã são “um sucesso puro, que será seguido por outros, se Alá quiser”.  Lembrou ainda que a lei islâmica permite para os jihadistas realizarem ataques suicidas contra Israel e que seu objetivo final é a destruição do Estado judeu.
Segundo a TV Press, canal estatal do Irã, todos os estudiosos muçulmanos presentes  concordaram que Israel é a “causa de todos os problemas econômicos, políticos e culturais que as nações muçulmanas enfrentaram nas últimas décadas.”
Sendo assim, por unanimidade os líderes religiosos concordaram que “confrontar o regime de Tel Aviv é a prioridade máxima dos movimentos de resistência islâmicos.” Por fim, os clérigos prometeram apoiar “a resistência” em sua missão de destruir Israel. Uma referência ao Hezbollah, o Hamas e outros grupos terroristas que atuam na região.
Em de janeiro de 2015, o movimento palestino Hamas apelou a todos os Estados islâmicos que os ajudassem em sua luta contra o governo israelense.  Khaled al-Qaddumi, o representante do Hamas no Irã, exortou as nações islâmicas a investirem tudo que puderem na formação da nação palestina.
Com informações de Breitbart
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&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;b&gt;5 mitos sobre a &#39;Bíblia manipulada&lt;/b&gt;&#39;

É impressionante a quantidade de lendas urbanas, preconceito e desinformação que grassa por aí quando o assunto é a maneira como a Bíblia foi escrita, editada e transformada num cânone, ou seja, num conjunto (mais ou menos) fechado de livros adotado por muitas religiões como algo dotado de autoridade religiosa. 
Mas nada tema, mui gentil leitor — este post abordará (e desmontará) cinco grandes mitos sobre o tema e, espero, trará alguma luz ao debate. Vamos a eles?

Mito 1: a Bíblia que temos hoje foi “inventada” no Concílio de Niceia

Naninanão, dileto leitor. O Primeiro Concílio de Niceia, realizado no ano 325 d.C. na cidade romana de mesmo nome (localizada na atual Turquia), foi uma grande reunião de bispos (cerca de 300) convocada pelo imperador Constantino. Seu principal tema foi a cristologia, ou seja, debates sobre a exata natureza de Jesus Cristo e sua relação com Deus Pai. O concílio deu o passo decisivo para definir que Jesus compartilhava da mesma natureza de Deus e existia desde o princípio dos tempos, não tendo sido “criado” em qualquer sentido ordinário. A agenda do concílio incluía várias questões menores, como a data correta da celebração da Páscoa cristã. Mas em NENHUM momento incluiu discussões sobre os livros que deveriam ou não ser incluídos na Bíblia. Repito: esse tema simplesmente NÃO foi debatido em Niceia.

Mito puro, portanto.

Mas, se é mito, quando diabos o cânone foi fixado, afinal? Bem, depende. De maneira geral, pode-se dizer que, no fim do século 4º d.C., uns 50 anos depois de Niceia, a maioria das igrejas cristãs aceitava mais ou menos os textos ainda aceitos hoje. Mas alguma variação continuou ocorrendo, e nenhum grande pronunciamento oficial e definitivo aconteceu ao longo do milênio seguinte. No Ocidente, foi só no século 16 que católicos e protestantes cristalizaram seus cânones ligeiramente diferentes, com alguns livros a mais ou a menos no Antigo Testamento, como veremos a seguir.

Mito 2: ao longo dos séculos, a Bíblia foi constantemente manipulada e alterada. Não fazemos a menor ideia de quais eram os textos originais

Esse mito é mais complicado porque contém alguns elementos de verdade. Vamos examinar a questão, pensando primeiro no cânone judaico (o nosso Antigo Testamento) e depois no cânone cristão.

Primeiro, o fato é que a tradição de manuscritos do Antigo Testamento é muito antiga e bastante bem documentada. Os famosos Manuscritos do Mar Morto, achados na Cisjordânia nos anos 1940 e 1950, remontam até o século 2º a.C., em alguns casos, e vão até o século 1º da Era Cristã, ou seja, têm cerca de 2.000 anos de idade. A maior parte desses manuscritos corresponde a trechos de quase todos os livros da Bíblia hebraica, ou Tanakh, como também é conhecida — só não há na coleção trechos do livro de Ester.

Rolo do livro do profeta Isaías achado perto do mar Morto (Crédito: Museu de Israel)

Tem variação quando comparamos os textos bíblicos dos Manuscritos do Mar Morto com os textos hebraicos preservados pela comunidade judaica, os chamados textos massoréticos, que datam do século 9º d.C.? Tem variação sim, e considerável – trechinhos a mais ou a menos, trocas de letras, confusões de significado etc. Isso é especialmente verdade em textos de natureza poética, que possuem vocabulário mais complexo e de difícil interpretação. Mas há relativamente pouca coisa que tenha algum significado teológico ou histórico muito importante nessa variação. Algumas versões dos Salmos dos Manuscritos do Mar Morto, por exemplo, parecem dar a entender a existência de outros deuses além do Deus bíblico, Yahweh (nome geralmente traduzido como “o Senhor”). Mas essa inferência também pode ser feita com base nos manuscritos mais conhecidos da Bíblia, por exemplo. Não é nada propriamente bombástico.

Já falamos dos textos do mar Morto e dos massoréticos, ambos em hebraico, que parecem concordar em muita coisa, ainda que não em tudo. Há ainda duas outras tradições importantes de textos do Antigo Testamento. A mais “estranha”, do nosso ponto de vista, é a dos samaritanos, o grupo de adoradores do Deus bíblico que vive ao norte de Jerusalém e era considerado herético pelos judeus. Os samaritanos possuem sua própria Torá, ou seja, o conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia, o Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). De novo, no geral, os textos batem, embora a Torá samaritana “puxe a brasa para a sardinha” de seus copistas, dizendo por exemplo que o local correto de adoração a Deus é o monte Gerizim, na atual Cisjordânia, e não Jerusalém, como defendem os judeus. Mas não passa muito disso — não é que a Torá deles diga “chutai a canela do seu pai e da sua mãe” em vez de “honrai pai e mãe”. Mais uma vez, trata-se de uma versão em hebraico.

Finalmente, há ainda a antiga tradução da Bíblia hebraica para o grego, a chamada Septuaginta, ou versão dos Setenta (assim chamada porque teria sido feita por setenta sábios judeus que viviam no Egito por volta do ano 200 a.C., segundo a tradição). De novo: há variantes significativas entre o texto da Septuaginta e os textos em hebraico? Tem bastante, de fato, o que indica que provavelmente os tradutores usaram um texto-base diferente da versão massorética. Mas, outra vez, é preciso ressaltar que essas diferenças não costumam ser radicais do ponto de vista semântico e teológico. Um dos problemas importantes da Septuaginta talvez seja a passagem na qual a palavra hebraica “almah”, que designa uma jovem do sexo feminino que ainda não teve filhos, foi traduzida como “parthenos”, que normalmente (mas nem sempre) significa “virgem” em grego. Foi essa passagem, do livro do profeta Isaías, que serviu de base para a ideia de que a concepção virginal de Maria nos Evangelhos cumpre a profecia de Isaías.

O primeiro capítulo do Evangelho de Mateus no Códex Vaticano (Crédito: Reprodução)

Esse detalhe é teologicamente importante, sem dúvida, mas é um dos poucos exemplos de diferenças de peso. Resumindo: no caso do Antigo Testamento, apesar das muitas variantes, estamos falando de uma tradição de manuscritos que manteve considerável estabilidade ao longo de muitos séculos. Não há sinal de nenhuma conspiração para manipular em larga escala o conteúdo desses textos. No geral, os antigos judeus (e samaritanos) parecem ter respeitado o conteúdo tradicional de tais textos.

E no caso do Novo Testamento? Bem, os mais antigos fragmentos em grego desses livros que chegaram até nós são do começo do século 2º d.C. — cerca de um século, portanto, depois da morte de Jesus. Mas textos maiores só aparecem no século 3º d.C. O consenso entre os historiadores, no entanto, é que a maior parte do Novo Testamento foi escrita bem antes, entre 65 d.C. e 100 d.C. Mais uma vez, existem variantes? Sim, centenas de milhares, mas a grande maioria delas não tem grande significado. Num post anterior já falei de uma das mais importantes, a do “final alternativo” do Evangelho de Marcos. Outros trechos que podem ter sido alterados por causa de disputas teológicas envolvem interpretações adocionistas, ou seja, a ideia de que Jesus teria sido apenas adotado por Deus, e não seria seu Filho desde sempre. No geral, porém, vale o mesmo que dizemos sobre o Antigo Testamento: quando comparamos todos os manuscritos que chegaram até nós, não há sinais de manipulações de larga escala dos textos.

O importante aqui, eu acho, é pensar no contexto e na maneira como funcionavam as tradições religiosas na Antiguidade. Os textos que acabaram compondo o cânone da Bíblia já circulavam e eram venerados havia séculos quando o cristianismo se consolidou. Eram lidos, comentados, estudados e muito bem conhecidos. Alterá-los totalmente provocaria muitas brigas e não serviria a grandes propósitos. O mais lógico era aceitá-los mais ou menos como eram e investir em interpretações que casassem bem com a teologia cristã nascente.

Mito 3: os Manuscritos do Mar Morto contêm evangelhos apócrifos que revelam verdades chocantes sobre Jesus

Esse mito é fácil de derrubar, em contraposição ao anterior. Não há NENHUM texto cristão em meio a esses manuscritos, gente. A única relevância deles para o estudo do Jesus histórico é o fato de que eles nos ajudam a entender como era o judaísmo na época em que Cristo viveu. Fora isso, nada.

Manuscrito do Evangelho de Tomé, texto apócrifo (Crédito: Reprodução)

Mito 4: os evangelhos apócrifos são uma fonte mais confiável sobre a figura histórica de Jesus do que os que foram incluídos na Bíblia.

Outro mito que vai ao chão com relativa facilidade. Hoje, quase todos os historiadores concordam que é preciso ler com muito cuidado os Evangelhos canônicos — Mateus, Marcos, Lucas e João — se a ideia é buscar informações historicamente confiáveis, porque o interesse dos evangelistas era fazer teologia, e não história no sentido moderno. Mas, e esse é um grande mas, a maioria dos historiadores também concorda que, se esses textos têm problemas do ponto de vista histórico, os evangelhos apócrifos, ou seja, não incluídos na Bíblia, são ainda mais problemáticos, em geral.

Isso porque tais textos foram, em geral, escritos bem depois dos Evangelhos canônicos e estão cheios de material lendário e especulações teológicas ainda mais ousadas do que os textos presentes na Bíblia. São quase “fan-fic” — aqueles textos escritos por fãs de um livro ou de um filme usando personagens criados por outra pessoa em suas próprias histórias.

Há uma possível exceção importante nesse caso, porém. Trata-se do Evangelho de Tomé, encontrado no Egito e feito quase que só de frases impactantes de Jesus, ou de parábolas contadas por ele. Alguns estudiosos importantes acreditam que Tomé preserva algumas versões das falas de Jesus que se aproximam mais do que ele teria realmente falado em vida. Mas muita gente discorda deles.

Mito 5: as Bíblias católicas e ortodoxas incluem textos apócrifos que não fazem parte do cânone “correto” do Antigo Testamento 

Esse é outro mito com nuances, como o mito 2. De fato, o que a Bíblia das igrejas protestantes inclui em seu Antigo Testamento é um conjunto de livros exclusivamente traduzidos do hebraico para as línguas modernas. São os mesmos livros incluídos pelos judeus atuais em seu Tanakh desde mais ou menos o ano 100 d.C. As Bíblias católicas e ortodoxas incluem ainda outros livros, como Judite, Sabedoria e Eclesiástico, que foram traduzidos do grego e a respeito dos quais se acreditava que tinham sido escritos originalmente em grego e/ou nunca teriam feito parte do cânone de qualquer grupo judaico.

Acontece, porém, que na época de Jesus o cânone judaico ainda estava “semiaberto”, e ao menos alguns grupos de judeus parecem, sim, ter considerado que tais livros eram canônicos. Trechos do Eclesiástico, por exemplo, foram achados entre os Manuscritos do Mar Morto, e em hebraico. A mesma coisa vale para o livro de Tobias – trechos em hebraico e aramaico também constam da “coleção” do mar Morto.

Isso significa que esses livros “devem” fazer parte do cânone? Depende. É claro que, no fundo, essa é uma discussão cultural e teológica. Mas o que claramente não funciona muito é dizer que o judaísmo nunca aceitou esses livros como parte das Escrituras — em alguns casos, essa informação parece não proceder.

Ah, e pros leitores que às vezes pedem minhas fontes, alguns livros ótimos para entender melhor os temas a seguir:

– Série “Um Judeu Marginal”, de John P. Meier, editora Imago;

– “The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings”, de Bart D. Ehrman, Oxford University Press;

– “Uma História Cultural de Israel”, de Júlio Paulo Tavares Zabatiero, editora Paulus.

E dois excelentes cursos gratuitos online.

Sobre Antigo Testamento:

http://oyc.yale.edu/religious-studies/rlst-145

E sobre Novo Testamento:

http://oyc.yale.edu/religious-studies/rlst-152

Ambas da Universidade Yale, nos EUA.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/feeds/7920842085512916067/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2015/02/os-5-mitos-sobre-biblia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/7920842085512916067'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/7920842085512916067'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2015/02/os-5-mitos-sobre-biblia.html' title='OS 5 MITOS SOBRE A BÍBLIA '/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601.post-7579740719075394875</id><published>2015-01-08T13:27:00.000-03:00</published><updated>2015-01-08T13:27:06.296-03:00</updated><title type='text'>HIERARQUIA DE ANJOS E DEMôNIOS</title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
A HIERARQUIA DOS ANJOS E DEMONIOS
Publicado por: Victor Ramide - 7 de jan de 2012

A Hierarquia é a distribuição ordenada dos poderes em ordem de importância.

A hierarquia pode ser também a graduação de diferentes categorias de membros ou funcionários de uma empresa, organização, instituição ou igreja. Levando desde sempre, o mais experiente e que tem mais tempo no topo e o com menos experiências e menos tempo em ultimo.

Não somente entre os humanos existe hierarquia, mas também no mundo espiritual tanto no lado do bem quanto no lado do mau.



HIERARQUIA DOS ANJOS


 - PRIMEIRA HIERARQUIA.

Esse nível da pirâmide hierárquica é formada pelos Santos Anjos que estão em maior contato com o DEUS. Dedicam-se ao amor, glorificação e adoração pelo CRIADOR numa constante e infinita freqüência.
SERAFINS

 

No Hebraico significa “Aquele que arde” ou &quot;queimar completamente”, por isso são conhecidos como anjos de seis asas envolvidos por chamas douradas e prateadas. Segundo o conceito hebraico, Serafim não é apenas uma figura que &quot;queima&quot; mas também que se consome no amor ao sumo bem, que é o nosso CRIADOR.

QUERUBINS

São mensageiros e guardiães dos Mistérios de Deus, com a importante missão de transmitir a Sabedoria. Eles ficaram responsáveis por guardar o símbolo da vida eterna, que é a Árvore da vida (Jardim do Eden). Eles possuem quatro asas, quatro rostos e muitos olhos.

TRONOS

Foram descritos como rodamoinhos de luz, que mantêm o trono do CRIADOR por meio do som por isso são considerados os músicos celestiais e estão sempre com cítaras ou harpas em mãos. Eles ajudam a manter a segurança do poder de DEUS. Acolhem em si a Grandeza de DEUS e a transmitem aos Santos Anjos de níveis inferiores de luz.


 - SEGUNDA HIERARQUIA.

Nível da hierarquia composto por Santos Anjos que administram os Planos da Eterna Sabedoria, comunicando aqueles projetos aos ocupantes da Terceira Hierarquia dos anjos, que policia o andamento e desenvolvimento da humanidade. Eles são responsáveis pelos acontecimentos universais.

DOMINAÇÕES

São conhecidos como os ministros de Deus. São munidos de um cetro e uma espada, símbolos do seu poder. Exercem um tamanho domínio sobre os coros angelicais de níveis inferiores. São responsáveis pela execução das vontades soberanas, e recebem as missões mais relevantes.

POTESTADES

Possuem um grande poder de concentração alcançando um grau elevado de contemplação ao CRIADOR, por isso ajudam na concretização dos pensamentos do mesmo e assim transmitem sempre aquilo que deve ser feito. Estão sempre munidos de uma espada flamejante da qual usam para proteger os homens contra as tentações dos demônios. Também cuidam dos quatro elementos básicos da natureza: água, ar, fogo e terra.

VIRTUDES

São auxiliares na execução das tarefas divinas, mais sobretudo auxiliam de modo que as coisas devem ser realizadas com perfeição. Assim possuem a missão de tirar os obstáculos do caminho. A representação de suas figuras são como jovens saudáveis e fortes munidos de um cajado ou bastão em mãos. Eles também possuem poder sobre a natureza acalmando assim; maremotos, terremotos e tempestades.


- TERCEIRA HIERARQUIA.

Nível hierárquico composto por Santos Anjos que executam as ordens do Altíssimo. São os mais próximos da humanidade e conhecem a fundo as características de cada individuo que devem assistir, a fim de poderem cumprir com exatidão as ordens Divina: avisando, insinuando ou castigando, conforme o caso.

PRINCIPADOS

São mensageiros de DEUS que dão instruções e avisos a reis, príncipes, líderes e governantes. São severos com aqueles que insistem em não agir de acordo com a vontade de Deus castigando-os com a dor de forma a conduzi-los de volta ao DEUS de amor e misericórdia. Carregam cruzes e um cetro em mãos.

ARCANJOS


São encarregados de Deus para a execução de missões extraordinárias e revelações acima da compreensão humana, Levam nas mãos uma espada e um escudo

ANJOS

Os Anjos executam as ordens dos Coros superiores. estão mais próximos da humanidade convivendo conosco e prestando um serviço silencioso mas de valor incomparável à cada individuo.

HIERARQUIA DOS DEMÔNIOS


- PRIMEIRA HIERARQUIA.

(Demônios que já foram príncipes, Serafins, Querubins ou Tronos).


LÚCIFER
 

Antigo príncipe de todos os anjos.


BELZEBU
 

Antigo príncipe dos Serafins.


LEVIATÃ
 
Um dos monstros marinhos que também é um dos príncipes do inferno, outrora príncipe dos Serafins. Tenta levar os homens à heresia.


ASMODEU
 
No passado foi um dos antigos príncipes dos Serafins, tenta induzir os homens a perderem o auto domínio.


BERITH
 

Antigo príncipe dos Querubins, tenta induzir os homens as desavenças e ao homicídio.


ASTAROTH

Antigo príncipe dos Tronos. Tenta levar o homem a preguiça e ao desleixo.


VERRINO
 
Também um antigo príncipe dos Tronos que caiu em desgraça. Leva aos homem o ato de ser impaciente.


GRESSIL
 
Também antigo príncipe dos Tronos. Tem como objetivo levar o homem para fora do seu estado de pureza.


SONNEILLON
 
Outro antigo príncipe dos Tronos. Tenta conduzir o ódio ao coração dos homens.



- SEGUNDA HIERARQUIA.

(Inclui Poderes. Domínios e Principados).


CARREAU
 
Ex príncipe dos Poderes. Tem como tentativa endurecer o coração dos homens.


CARNIVEAN
 
Também ex príncipe dos poderes e tem como objetivo, levar as pessoas a obscenidade.


OEILLET
 
Outrora príncipe dos Domínios que tenta levar os homens a quebrar o voto de pobreza.


ROSIER

Segundo comando na ordem dos Domínios. Leva as pessoas a tentação contra a pureza sexual.


VERRIER
 
Outrora príncipe dos Principados. Tem como objetivo desviar os homens da obediência.



- TERCEIRA HIERARQUIA.


BELIAS
 
Outrora Príncipe das Virtudes. Cobre os homens de arrogância induzindo-os ao pecado da vaidade.


OLIVIER
 
Antigo príncipe dos Arcanjos. Tenta lançar a frieza e a crueldade no coração dos homens.


LUVART
 
Outrora príncipe dos Anjos menores. É capaz implantar a criação de idolatrias religiosas, onde certas práticas tendem levar ao sacrifício à própria espécie, paraque não haja adversário na luz.

</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/feeds/7579740719075394875/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2015/01/hierarquia-de-anjos-e-demonios.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/7579740719075394875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/7579740719075394875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2015/01/hierarquia-de-anjos-e-demonios.html' title='HIERARQUIA DE ANJOS E DEMôNIOS'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601.post-5186457302163037494</id><published>2014-12-09T14:23:00.000-03:00</published><updated>2014-12-09T14:23:09.065-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
CURANDO FERIDAS
EMOCIONAIS
J. M.
BELEZA EM VEZ DE
CINZAS
Joyce Meyer
Gênero: Cura interior
Dedico este livro ao meu marido Dave, que me mostrou o amor
de Jesus enquanto minha cura ainda estava em andamento.
Obrigada, Dave, por me deixar ser eu mesma, embora eu não
fosse uma companhia tão agradável; por sempre ser paciente e
positivo; e por crer que Deus me transformaria quando isso
parecia impossível.
Creio que este livro ê tão seu quanto meu, e agradeço a Deus
por ter decidido colocar você em minha vida. Você,
verdadeiramente, sempre foi &quot;meu cavaleiro da armadura
brilhante&quot;.
Sumário
Introdução ............................................................................................................................. 3
PARTE UM ........................................................................................................................... 5
Eu Estive na Prisão ........................................................................................................... 5
1. Troféus da Graça ............................................................................................................... 5
2. As Cinzas do Abuso .......................................................................................................... 8
3. A Companhia do Medo .................................................................................................... 11
4. Distúrbios de Comportamento Causados pelo Abuso ..................................................... 20
5. Resgatados pelo Amor .................................................................................................... 27
6. Siga o Espírito Santo ....................................................................................................... 36
7. Os Dois Tipos de Dor ...................................................................................................... 41
8.A Única Saída É Prosseguir ............................................................................................. 48
9. Deixe o Passado .............................................................................................................. 53
10. Redimidos e Tornados Justos ........................................................................................ 64
11. AutoRejeição ou AutoAceitação ................................................................................... 74
12. O Efeito da Rejeição nos Relacionamentos .................................................................. 82
13. Confiança para Ser Você Mesmo .................................................................................. 87
14. O Perdão Torna Você Livre para Viver Novamente ...................................................... 95
PARTE DOIS .................................................................................................................... 101
Mas agora Sou Livre ..................................................................................................... 101
15. Perdoando ao Seu Abusador ....................................................................................... 101
16. Abençoando Seus Inimigos ......................................................................................... 106
17. A Vingança Pertence ao Senhor .................................................................................. 114
18. Livre para Alegrar-Se com os Outros .......................................................................... 119
19. Estabilidade Emocional ............................................................................................... 127
20. Intimidade e Confiança ............................................................................................... 130
21. Peça e Receba .............................................................................................................. 137
22. Fortalecidos por dentro ............................................................................................... 145
23. Livre Finalmente ......................................................................................................... 150
24. Edificando Pontes, e não Muros ................................................................................. 157
25. Nada Será Desperdiçado ............................................................................................. 161
26. Porção Dobrada pela Luta Enfrentada ........................................................................ 168
27. Sacuda Isso .................................................................................................................. 174
28. Uma Milagrosa Recompensa ...................................................................................... 183
Notas ................................................................................................................................. 187
Bibliografia ....................................................................................................................... 188
Sobre a Autora ................................................................................................................... 189
Introdução
Se sua alegria se perdeu por causa de feridas emocionais ou
se você foi abusado ou sofre com sentimentos de rejeição, quero
encorajá-lo a ler este livro. Se você já assistiu a algum dos meus
programas na TV, deve ter me ouvido contar que fui abusada em
minha infância e adolescência. De fato, minha vida era como um
amontoado de cinzas antes de eu conhecer o Senhor e ser
libertada pela verdade da Sua Palavra.
Esta não é uma história que relata todos os detalhes
desagradáveis do meu próprio passado, mas compartilho o
suficiente sobre minha vida para que você saiba que
compreendo o que significa sentir-se sem esperança e rejeitado.
Há alguns anos, Deus me inspirou a compartilhar essas verdades
para ajudar a libertar aqueles que estavam em situações
semelhantes. Desde a primeira edição deste livro, tenho ouvido
milhares de pessoas compartilhar quanto precisam de oração e
ensino para que possam caminhar em vitória na vida que Deus
planejou para elas. Elas têm testificado que este livro tem sido
de grande ajuda para isso.
Recentemente, o Senhor encorajou-me a expandir o conteúdo
deste livro a fim de trazer um fundamento sólido às pessoas que
estiverem prontas a deixar seu passado e a se moverem para a
vida que Deus deseja que elas desfrutem. Baseada em minha
própria experiência e nos estudos extensivos que tenho feito
sobre desajustes comportamentais causados pelo abuso,
compartilho como o amor de Deus pode fazê-lo superar os
resultados negativos do abuso no passado. Abordo também os
dois tipos de dor que uma pessoa abusada pode enfrentar - a dor
da mudança ou a dor de permanecer a mesma -, assim como
seis passos para alcançar a cura emocional.
Fugir do passado não leva à cura, por isso apresento várias
formas de como as pessoas fogem do passado para que você
não venha atrasar sua própria vitória. Explicarei como atravessar
as portas do sofrimento que têm se tornado um obstáculo para o
futuro.
Se você precisa abandonar o passado, receber fortalecimento
interior de Deus que o capacite a confiar nos outros, a
desenvolver e a manter relacionamentos íntimos, bem como
desfrutar sua vida novamente, então este livro é para você. Uma
vez que você comece, prossiga lendo até o fim para alcançar as
boas notícias da recompensa para a qual Deus o destinou.
Sei, por experiência própria, que Deus é recompensador
daqueles que diligentemente o buscam. Você pode aprender a
livrar-se do problema e receber dupla recompensa por tudo o
que já enfrentou.
PARTE UM
Eu Estive na Prisão
Alguns que se assentaram nas trevas e nas sombras da
morte, presos em aflição e em ferros, por se terem rebelado
contra a palavra de Deus e haverem desprezado o conselho do
Altíssimo.
S ALMO 107:10-11 (ARA)
1. Troféus da Graça
M UITAS PESSOAS PARECEM estar bem exteriormente, mas por dentro a
alma está em ruínas porque foram traumatizadas pelo abuso.
Uma vítima de um trauma é alguém que foi ferido física ou
emocionalmente por algum choque súbito ou substancial que
criou danos graves e duradouros para o seu desenvolvimento
psicológico.
Creio que há muitas pessoas traumatizadas no mundo que
foram tão abusadas no passado que se tornaram
psicologicamente deficientes, incapazes de agir normalmente
em sua vida cotidiana. Há pessoas que atravessaram traumas
tão graves que isso arruinou suas emoções e, por ter sido algo
tão doloroso, tornou-se até inexprimível.
Sobreviver ao trauma do abuso pode levar as pessoas a um
estado de dano psicológico que as impede de se relacionar
adequadamente com os outros. Tais vítimas não compreendem o
que está errado com elas ou como sair de seus padrões
destrutivos de comportamento para que possam viver uma vida
normal. Essa era a minha situação antes que eu aprendesse
como obter a vitória sobre o trauma em minha vida.
Ao buscar a Deus e ler a Sua Palavra, descobri que o principal
interesse do Senhor é a nossa vida interior, porque é nela que
desfrutamos a presença dEle. Jesus disse: &quot;Eis que o reino de
Deus está dentro de vós [em vossos corações] e entre vós [ao
vosso redor]&quot; (Lucas 17.21, grifo da autora).
Este livro é um resumo da maneira como Deus me ensinou a
triunfar por intermédio de Cristo sobre a tragédia do abuso em
minha vida. Após ter passado muitos anos pregando Sua Palavra,
Deus me levou a 2 Coríntios 2.14: &quot;Graças, porém, a Deus, que
em Cristo, sempre nos conduz em triunfo [como troféus da
vitória de Cristo] e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a
fragrância do Seu conhecimento&quot;.
Numa manhã do feriado de Ações de Graças, um sentimento
de gratidão começou a se levantar dentro de mim à medida que
eu considerava tudo o que Deus fizera em minha vida. Ele falou
algo ao meu coração naquele dia: &quot;Joyce, você é um troféu da
Minha graça, e você tem Me ajudado a obter outros troféus&quot;.
Então, tive uma visão de uma estante celestial cheia de troféus.
Compreendi que quando alguém ganha troféus é porque essa
pessoa é uma campeã naquilo que faz. Se as pessoas têm
troféus de beisebol, golfe ou boliche exibidos em casa, é óbvio
que elas gastaram tempo desenvolvendo suas habilidades
nesses esportes.
Deus é o Campeão em trazer pessoas de um lugar de
destruição para um lugar de vitória total. A medida que
alcançam tal lugar de vitória, elas se tornam como troféus da
Sua graça, postas em exibição como um memorial de aroma
suave da bondade de Deus. Compartilho meu testemunho neste
livro para ajudar aqueles que ainda estão no processo de tornar-
se um troféu para Deus.
Por meio das tragédias e triunfos, aprendi que Jesus é o meu
Rei, e Ele quer ser o seu Rei também. O Reino que Ele deseja
governar é a sua vida interior - sua mente, sua vontade, suas
emoções, seus desejos e seus pensamentos. A Palavra de Deus
ensina claramente que o Reino de Deus &quot;não se trata de [obter
a] comida e bebida [que alguém deseje], mas, pelo contrário, é
justiça (aquele estado que torna uma pessoa aceitável a Deus) e
paz e alegria [de coração] no Espírito Santo. Aquele que segue a
Cristo desta forma é aceitável e agradável a Deus e aprovado
pelos homens&quot; (Romanos 14. 17-18).
Em outras palavras, se o Reino de Deus governa nosso
interior, desfrutaremos justiça, paz e alegria no Espírito Santo.
Também seremos aceitáveis a Deus e aprovados pelos homens.
Jesus disse que não devemos nos preocupar com as coisas
exteriores, tais como comida e roupas, mas: &quot;Buscai (desejai e
lutai por) em primeiro lugar todo o Seu reino e a Sua justiça (Sua
forma de agir e de ser correto), e então todas essas coisas juntas
vos serão acrescentadas&quot; (Mateus 6.33).
Antes de tudo, devemos buscar o Reino de Deus, que está
dentro de nós, e, então, todas as nossas necessidades exteriores
serão supridas. Quando aceitamos Jesus como o nosso Senhor,
Ele governa nossa vida interior e traz consigo a justiça, a paz e a
alegria. Não importa quais dificuldades ou tribulações possamos
experimentar em nossa vida exterior, se nosso interior estiver
em harmonia, não apenas sobreviveremos, mas iremos desfrutar
nossa vida.
Nossa vida interior com Deus é muito mais importante do que
nossa vida exterior. Portanto, a cura emocional, à qual também
me refiro como cura interior, é um assunto que necessita ser
abordado biblicamente e de modo equilibrado para produzir
resultados proveitosos. O apóstolo Paulo disse que podemos nos
assegurar de que &quot;aquele que ressuscitou o Senhor Jesus
também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará... em Sua
Presença&quot; (2 Coríntios 4.14). Nos versículos 16-18, ele continuou:
Portanto não nos tornemos desanimados e (completamente
desencorajados, exaustos ou enfraquecidos pelo medo). Ainda
que nosso homem exterior esteja [progressivamente] se
corrompendo e se enfraquecendo, contudo, nosso ser interior
está sendo [progressivamente] renovado, dia após dia.
Pois a nossa leve e momentânea tribulação (essa
insignificante aflição passageira) está preparando, produzindo e
obtendo para nós mais e mais abundantemente um eterno peso
de glória [além de toda medida, excessivamente superior a toda
a comparação e a todos os cálculos, uma vasta e transcendente
glória e bênção que nunca cessa!].
Pois não consideramos, nem buscamos as coisas que se vêem,
mas sim as que não se vêem, pois as coisas que são visíveis são
temporais (breves e passageiras), mas as coisas invisíveis são
imortais e eternas.
Todos nós estamos sujeitos ao que Paulo chama de
&quot;momentânea tribulação&quot;, e alguns têm passado pelo que parece
ser um tempo de sofrimento emocional insuportável. Jesus veio
&quot;anunciar a libertação aos cativos e a recuperação de vista aos
cegos, a libertar aqueles que estão oprimidos [que foram
escravizados, machucados, esmagados e arruinados pela
calamidade]&quot; (Lucas 4.18-19).
A versão King James do versículo 18 diz que Jesus afirma que
Ele veio &quot;curar o quebrantado de coração&quot;. De acordo com a
Concordância Exaustiva de Strong, a palavra traduzida por
&quot;quebrantado de coração&quot; nesse versículo é uma combinação de
duas palavras gregas, kardia, que significa simplesmente
&quot;coração&quot;, 1 e suntribo, que significa &quot;esmagar completamente,
isto é, despedaçar... quebrar (em pedaços), machucar&quot;. 2 Creio
que Jesus veio curar aqueles que estão despedaçados
interiormente, aqueles que foram esmagados e feridos por
dentro.
Se você foi traumatizado pelo abuso, minha esperança é que
este livro sirva como um mapa para tirá-lo das cinzas da
devastação para a beleza da cura e integridade em seu interior.
Oro para que esta mensagem seja simples, clara e poderosa
para você e que o Espírito Santo o capacite a segui-Lo para o seu
destino de paz e alegria.
Minha oração por você é uma paráfrase de Efésios 3.16:
Oro para que você seja fortalecido em seu homem interior por
intermédio do poder do Espírito Santo e que Ele habite em seu
ser e em sua personalidade.
Encorajo-o também a lembrar-se sempre da promessa de
Deus encontrada em Hebreus 13.5-6:
Pois Ele, o próprio [Deus] disse: Eu, de forma alguma falharei
com você, nem o abandonarei, nem o deixarei sem apoio. (Eu)
nunca, nunca, de forma alguma, o deixarei sem ajuda ou nem o
abandonarei nem o desampararei (nem largarei você)!
[Seguramente não].
Assim sejamos confortados e encorajados de modo a dizer
confiante e ousadamente: O Senhor é o meu Ajudador, eu não
me assustarei [eu não temerei, nem me apavorarei, nem serei
aterrorizado]. O que me poderá fazer o homem?
2. As Cinzas do Abuso
CREIO QUE muitas pessoas sofrem abusos de uma forma ou
de outra durante a vida. Quase todas as pessoas podem se
lembrar de um tempo em que foram maltratadas. Também creio
que há multidões de pessoas gravemente traumatizadas pelo
abuso que lhes foi infligido.
Algumas das definições para o verbo abusar são: &quot;Usar de
forma imprópria ou errada&quot;, &quot; ENGANAR &quot;; &quot;Usar de forma a injuriar
ou danificar:  MALTRATAR &quot;; &quot;Atacar com palavras: INSULTAR&quot;. As
definições para o substantivo abuso incluem: &quot;Uma prática ou
costume corrupto&quot;; &quot;O uso ou tratamento impróprio ou
excessivo: MAU uso&quot;; &quot;uma atitude enganosa: ENGANO&quot;; &quot;A
linguagem que condena ou difama... de forma injusta,
desequilibrada e irada&quot;; &quot;Maus tratos físicos&quot;. 3
Algumas formas comuns de abuso são: físico, verbal, mental,
emocional e sexual. Qualquer forma de abuso contínuo pode
produzir uma raiz de rejeição no indivíduo que tem sido
maltratado, e esse sentimento de indignidade pode, então,
causar problemas graves nos relacionamentos interpessoais
desse indivíduo. Hoje vivemos numa sociedade cheia de pessoas
que não sabem como lidar com as outras; embora o abuso na
vida deles tenha cessado, o resíduo do trauma continua a afetar
sua habilidade de relacionar-se com os outros.
Deus nos criou para o amor e a aceitação, mas o diabo
trabalha arduamente para nos manter com o sentimento de
rejeição, porque ele sabe que a falta de valorização própria e o
sentimento de rejeição enraizado arruínam indivíduos, famílias e
relacionamentos.
Os tipos de abuso mencionados acima, sejam eles na forma
de relacionamentos quebrados, abandono, divórcio, acusações
falsas, exclusão de um grupo, rejeição por professores e outras
autoridades, ridicularização por colegas, ou qualquer uma de
centenas de ações ofensivas, podem causar feridas emocionais
que impedem as pessoas de manter relacionamentos saudáveis
e duradouros.
V OCÊ JÁ F OI A BUSADO ?
Se você foi tratado de forma indevida ou imprópria, isso pode
ter afetado profundamente seu estado emocional. Mas, para ser
curado da dor do abuso, você tem de desejar ser saudável.
Uma das minhas passagens favoritas (e que considero uma
das mais surpreendentes) das Escrituras está no evangelho de
João, capítulo 5. No versículo 5, é dito que Jesus viu um homem
deitado em seu leito junto ao tanque de Betesda, acometido por
profunda e prolongada enfermidade por 38 anos. Apesar de
saber por quanto tempo este pobre homem estava naquela
terrível condição, Jesus perguntou-lhe: &quot;Queres ser curado? [Você
realmente está determinado a receber sua cura?]&quot; (v. 6).
Que tipo de pergunta para se fazer a alguém que estava
padecendo por tanto tempo! Contudo, essa pergunta era
apropriada porque nem todos desejam a cura em intensidade
suficiente para fazer tudo o que é requerido. Feridas emocionais
podem se tornar uma prisão que mantém o &quot;eu&quot; do lado de
dentro e os outros do lado de fora. Jesus veio para abrir as portas
das prisões e libertar os cativos (veja Lucas 4.18-19).
Você pode pensar: Mas quem lidará com a pessoa que me
feriu? Abordaremos essa questão também. Você pode também
estar se perguntando: O que faz essa mulher pensar que é uma
autoridade neste assunto de emoções, especialmente as
minhas?Talvez haja perguntas que você gostaria de fazer-me,
tais como: &quot;Você tem formação em psicologia? Onde você
estudou? Você já passou por algumas das coisas pelas quais
passei? Como você sabe o que é estar numa prisão emocional&quot;?
Tenho respostas para todas essas perguntas, assim, se você
for corajoso o suficiente para enfrentar sua situação e
determinar-se realmente a ser curado, então continue lendo.
F UI A BUSADA
Minha formação escolar, minha experiência e minhas
qualificações para ensinar sobre esse assunto vêm da minha
experiência pessoal. Eu sempre digo: &quot;Sou graduada pela escola
da vida&quot;. Reivindico as palavras do profeta Isaías como meu
diploma:
O E SPÍRITO do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me
ungiu e me qualificou para pregar o Evangelho das boas-novas
aos humildes, aos pobres e aflitos; Ele enviou-me a por ligaduras
e a curar os quebrantados de coração; a proclamar libertação
aos cativos [físicos e espirituais] e a abertura das prisões e dos
olhos daqueles que estão algemados;
A proclamar o ano aceitável do Senhor [o ano do Seu favor] e
o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os que
choram,
e a pôr [consolação e alegria] sobre os que em Sião estão de
luto, um ornamento de beleza (uma grinalda ou diadema) em
vez de cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto, veste
[expressiva] de louvor, em vez de espírito angustiado, oprimido e
abatido — a fim de que se chamem carvalhos de justiça
[imponentes, fortes e suntuosos, destacados pela retidão, justiça
e postura correta com Deus], plantados pelo Senhor para que Ele
possa ser glorificado (Isaías 61.1-3, grifo da autora).
Deus transformou minhas cinzas em beleza e tem me
chamado para ajudar outros a aprender a permitir que Ele faça o
mesmo por eles.
Fui abusada sexual, física, verbal, mental e emocionalmente
desde que posso me lembrar, até que finalmente deixei minha
casa aos 18 anos. De fato, vários homens abusaram de mim em
minha infância. Fui rejeitada, abandonada, traída e enfrentei um
divórcio. Eu sei o que é ser uma &quot;prisioneira emocional&quot;.
Meu propósito ao escrever este livro não é dar meu
testemunho completo em detalhes, mas trazer-lhe o suficiente
de minha própria experiência para que você possa acreditar que
sei o que significa ser ferida. Posso mostrar-lhe como se
recuperar do sofrimento e do trauma do abuso. Quero ajudar
você, e posso fazer isso de uma forma melhor se realmente crer
que compreendo o que você está passando.
Antes de começar a abordar os detalhes da minha infância e
compartilhar algumas das coisas que experimentei, desejo dizer
que minha intenção não é difamar meus pais de forma alguma.
Desde a primeira edição deste livro, Deus tem sido fiel em
restaurar o meu relacionamento com eles.
Mas tenho aprendido que pessoas feridas ferem outras
pessoas; que a maioria das pessoas que ferem os outros foi
ferida por alguém. Deus capacitou-me pela sua graça a dizer:
&quot;Pai, perdoa-lhes, pois eles realmente não sabiam o que estavam
fazendo&quot;.
Conto esta história somente com o propósito de ajudar
aqueles que, como eu, foram abusados.
3. A Companhia do Medo
POR CAUSA do abuso sexual e emocional que sofri em meu
lar, minha infância foi cheia de medo. Meu pai me controlava
com sua ira e intimidação. Ele nunca me forçou fisicamente a
submeter-me a ele, mas eu tinha tanto medo de sua ira que fazia
tudo o que ele me pedia. Ele me forçava a fingir que eu gostava
daquilo que ele estava fazendo comigo e que eu desejava que
ele o fizesse.
As poucas vezes em que timidamente tentei falar com
honestidade sobre minha situação foram devastadoras. As
reações violentas de meu pai, sua fúria e cólera eram tão
amedrontadoras para mim que logo aprendi apenas a fazer o
que ele dissesse, sem objeção. Acredito que minha inabilidade
para expressar meus verdadeiros sentimentos sobre o que
estava acontecendo e ser forçada a agir como se eu gostasse
das coisas perversas que ele fazia a mim deixaram-me com
feridas emocionais bastante profundas.
Meu pai trabalhava à noite e voltava para casa cerca de meia-
noite. Posso me lembrar como todo meu ser tremia de medo logo
que ouvia sua chave mexendo na fechadura. Eu ficava
completamente tensa, porque eu nunca sabia se ele viria até
meu quarto e tentaria colocar suas mãos em mim, ou se
chegaria furioso com algo de que não gostou.
Uma das coisas mais difíceis para mim era a falta de
estabilidade por não saber o que esperar; eu vivia com medo por
nunca saber o que podia ou não podia fazer. Eu poderia fazer
alguma coisa um dia e meu pai se agradar daquilo, mas eu
poderia fazer exatamente a mesma coisa poucos dias mais tarde
e levar uma surra por isso.
O medo era minha constante companhia: medo de meu pai,
medo da sua ira, medo de ser exposta, medo de minha mãe
descobrir o que estava acontecendo e medo de ter amigos.
Meu medo de ter amigos vinha de dois fatores: se fossem
mulheres, eu tinha medo de que meu pai tentasse atraí-las para
sua armadilha também. Se fossem homens, eu tinha medo de
que meu pai os maltratasse ou a mim. Ele me acusava
violentamente de ter relacionamentos sexuais com os rapazes
da escola. Ele não permitia que ninguém se aproximasse de mim
porque eu &quot;pertencia&quot; a ele.
Durante o ensino médio, nunca me foi permitido ir a um jogo
de futebol, de beisebol ou de basquete. Eu tentava desenvolver
relacionamentos na escola, mas nunca permitia que tais
relacionamentos amadurecessem a ponto de convidar meus
novos amigos para irem a minha casa. Eu nunca deixei ninguém
se sentir livre para me visitar. Se o telefone tocava e era para
mim, eu pensava apavorada: E se for alguém da escola?
Durante todo o tempo, eu estava lidando com o medo, seja de
ter amigos, seja de permanecer solitária, e, assim, não me
envolvia com ninguém a ponto de tornar-se potencialmente um
desastre para eles, e que certamente me causaria mais
embaraço e vergonha.
M EDO ! M EDO ! M EDO !
Meu pai bebia muito a cada fim de semana e freqüentemente
me levava com ele em suas bebedeiras, bem como me usava
fisicamente de acordo com a sua vontade. Muitas vezes, ele
vinha para casa furioso e batia em minha mãe. Certa vez, ele
bateu nela porque achava que o nariz dela era grande. Ele não
me batia com freqüência, mas creio que vê-lo bater sem motivo
em minha mãe era tão terrível como se estivesse batendo em
mim.
Meu pai controlava tudo o que acontecia ao seu redor. Ele
decidia a que horas deveríamos acordar e dormir; o que
deveríamos comer, vestir; em que gastar; com quem nos
relacionarmos; ao que assistir na TV - em resumo, ele controlava
tudo em nossa vida. Era verbalmente abusivo tanto com minha
mãe quanto comigo e, à vezes, com meu único irmão, que
nasceu quando eu tinha 9 anos de idade. Lembro-me de desejar
desesperadamente que o novo bebê fosse uma menina. Eu
pensava que, talvez, se houvesse outra menina na família eu
poderia ser deixada em paz, ao menos parte do tempo.
Meu pai nos amaldiçoava quase constantemente, usando uma
linguagem extremamente vulgar e obscena. Ele era crítico a
respeito de tudo e de todos. Em sua opinião, nenhum de nós
fazia nada certo ou algo que valesse a pena. A maioria do
tempo, éramos lembrados de que &quot;não prestávamos&quot;.
As vezes, ele agia de forma justamente oposta. Ele nos dava
dinheiro e nos dizia para fazer compras; algumas vezes, até
comprava presentes para nós. Mas era manipulador e
controlador, fazendo o que precisasse para alcançar o que
desejava. Outras pessoas não tinham valor algum para ele,
exceto ao usá-las para cumprir seus propósitos egoístas.
Não havia paz em nosso lar. Realmente eu não sabia o que era
a paz real até crescer e mergulhar na Palavra de Deus por muitos
anos.
Nasci de novo com a idade de 9 anos, enquanto visitava
parentes fora da cidade. Uma noite, fui com eles até uma
reunião da igreja, pretendendo encontrar a salvação. Não sei
dizer como percebi que precisava ser salva, mas Deus deve ter
colocado esse desejo dentro de meu coração. Aceitei Jesus Cristo
como meu Salvador naquela noite e experimentei uma gloriosa
purificação. Antes daquele momento, sempre me sentia suja por
causa do incesto. Mas ali, pela primeira vez, me senti limpa,
como se tivesse recebido um banho interior. Contudo, como o
problema não terminou, assim que voltei para casa meu antigo
sentimento retornou. Eu pensava que tinha perdido Jesus, e
assim eu não conhecia ainda a paz real e a alegria interior.
A T RAIÇÃO
E quanto à minha mãe? Onde ela ficava nisso tudo? Por que
ela não me ajudava? Eu tinha entre oito e 9 anos de idade
quando lhe contei o que estava acontecendo entre meu pai e
mim. Ela me examinou e confrontou meu pai, mas ele alegou
que eu estava mentindo, e ela escolheu acreditar mais nele do
que em mim. Qual mulher não preferiria acreditar em seu marido
em tal situação? Penso que, no seu íntimo, minha mãe sabia a
verdade. Ela apenas tinha a esperança de que eu estivesse
errada.
Quando fiz 14 anos de idade, ela chegou em casa um dia,
tendo retornado mais cedo do que o esperado do supermercado,
e realmente pegou meu pai abusando sexualmente de mim. Ela
olhou, saiu e voltou duas horas depois agindo como se não
tivesse estado ali antes.
Minha mãe me traiu.
Ela não me ajudou e deveria tê-lo feito.
Muitos anos mais tarde (na verdade, trinta anos mais tarde),
ela me confessou que simplesmente não conseguia enfrentar
aquele escândalo. Ela nunca mencionou isso por trinta anos!
Durante esse período, ela tinha sofrido uma crise nervosa. Todos
que a conheciam achavam que se tratava de &quot;menopausa&quot;.
Por dois anos, ela submeteu-se a tratamentos de choque, o
que temporariamente apagou porções de sua memória. Nenhum
dos médicos sabia o que eles a estavam ajudando a esquecer,
mas todos concordaram que ela precisava esquecer-se de algo.
Era óbvio que havia algo em sua mente que estava afetando sua
saúde mental.
Minha mãe alegava que seu problema era causado por sua
condição física. Ela passou por um período muito difícil em sua
vida por causa de graves problemas ginecológicos. Após uma
completa histerectomia aos 36 anos, ela entrou em uma
menopausa prematura. Naquela época, a maioria dos médicos
não costumava dar hormônios para mulheres, por isso esse foi
um tempo muito duro para ela. Parecia que tudo em sua vida era
mais difícil do que ela poderia suportar.
Pessoalmente, creio que o colapso emocional de minha mãe
foi resultado de anos de abuso que ela suportou e da verdade
que ela se recusava a enfrentar. Lembre-se: em João 8.32 (ARA)
nosso Senhor nos diz: &quot;...e conhecereis a verdade, e a verdade
vos libertará&quot;.
A Palavra de Deus é a verdade e, se aplicada, tem poder em si
mesma para libertar o cativo. A Palavra de Deus também nos
coloca face a face com as questões de nossa vida. Se
escolhermos voltar e fugir quando o Senhor nos diz para
permanecermos e enfrentarmos, continuaremos em escravidão.
S AINDO DE C ASA
Com 18 anos, saí de casa enquanto meu pai estava no
trabalho. Pouco depois, casei-me com o primeiro jovem que
mostrou interesse por mim.
Como eu, meu novo marido era cheio de problemas. Era um
homem manipulador, ladrão e trapaceiro. Na maior parte do
tempo, ele nem mesmo trabalhava. Nós nos mudamos várias
vezes, e em certa ocasião ele me abandonou na Califórnia sem
nada, além de uma moeda de US$ 0,10 e uma caixa de
refrigerantes. Eu estava assustada, mas, como já estava
acostumada a sentir medo e traumas, provavelmente não fui tão
afetada como alguém com &quot;menos experiência&quot; seria.
Meu marido me abandonava várias vezes simplesmente indo
embora durante o dia enquanto eu estava trabalhando. Cada vez
que ele partia, sumia por poucas semanas ou por vários meses
e, então, subitamente voltava, e eu ouvia sua conversa mole e
desculpas, e o aceitava de volta, apenas para ver tudo acontecer
novamente. Quando estava comigo, ele bebia constantemente e
relacionava-se com outras mulheres regularmente.
Por cinco anos, fizemos de conta que tínhamos um casamento.
Nós éramos muito jovens, ambos com 18 anos, e não viemos de
famílias estruturadas. Éramos completamente mal equipados
para ajudar um ao outro. Meus problemas complicaram-se ainda
mais após um aborto com 21 anos e o nascimento de meu filho
mais velho quando eu tinha 22 anos. Isso aconteceu durante o
último ano do nosso casamento. Meu marido me deixou e foi
morar com outra mulher que vivia a dois quarteirões de nossa
casa, dizendo a todos que queriam ouvir que a criança que eu
carregava não era dele.
Eu me lembro de ter chegado quase à loucura durante o verão
de 1965. Durante minha gestação, perdi peso porque não comia.
Sem amigos, dinheiro, ou segurança, eu ia ao hospital, vendo um
médico diferente cada vez que era examinada. Na verdade, os
médicos que me atendiam eram residentes em treinamento.
Eu não conseguia dormir, e assim comecei a tomar soníferos
sem conta. Graças a Deus por isso não ter prejudicado meu bebê
ou a mim.
A temperatura daquele verão subiu muito e não havia
ventilador ou ar-condicionado em meu apartamento, localizado
em um sótão, no terceiro andar. Minha única possessão material
era um velho automóvel que apresentava sobreaquecimento
regularmente. Já que meu pai sempre insistiu em que algum dia
eu precisaria de sua ajuda e voltaria rastejando para ele, eu
estava determinada a tudo, menos a voltar, embora não
soubesse o que fazer.
Eu me lembro de ter estado sob tamanha pressão mental que
costumava me sentar e olhar fixamente para as paredes e pela
janela por horas, sem ao menos perceber o que estava fazendo.
Trabalhei até meu bebê estar prestes a nascer. Quando tive de
sair do trabalho, minha cabeleireira e a mãe dela tomaram conta
de mim.
Meu bebê nasceu quatro semanas e meia depois. Eu não tinha
idéia do que esperar e nenhuma noção de como cuidar dele
quando nasceu. Quando o bebê chegou, meu marido apareceu
no hospital. Já que o bebê se parecia muito com ele, não havia
como negar que era dele. Uma vez mais ele disse que se
desculpava e que iria mudar.
Quando chegou o momento de sair do hospital, não tínhamos
lugar para morar, e, então, meu marido contatou a ex-esposa do
seu irmão, que era uma maravilhosa mulher cristã, e ela nos
deixou morar ali por um tempo até que eu fosse capaz de voltar
a trabalhar.
Creio que você pode imaginar por esses poucos detalhes
como era minha vida. Realmente, tudo era muito ridículo! Não
havia nada estável em toda minha existência, e estabilidade era
algo que eu precisava e pela qual ansiava desesperadamente.
Finalmente, no verão de 1966, cheguei a ponto de não
suportar mais o que estava acontecendo. Eu não podia agüentar
o pensamento de continuar com meu marido. Eu não tinha
nenhum respeito por ele, especialmente porque, além de tudo,
ele estava com problemas com a polícia. Tomei meu filho e
aquilo que pude carregar e fui embora. Fui até a cabine
telefônica da esquina e liguei para meu pai, perguntando-lhe se
eu poderia voltar para casa. Com certeza, ele estava exultante!
Alguns meses após ter voltado para casa, soube que meu
divórcio fora concedido. Isso foi em setembro de 1966. Naquela
época, a saúde mental de minha mãe estava piorando. Ela
começou a ter ataques violentos, acusando os balconistas de
lojas de roubá-la, ameaçando pessoas com quem ela trabalhava
por detalhes sem sentido. Ela até mesmo carregava uma faca na
bolsa. Ela explodia por qualquer coisa. Claramente, lembro-me
de uma noite em que ela bateu em mim com uma vassoura
porque eu não havia limpado direito o chão do banheiro! Ao
mesmo tempo, me mantinha ocupada em me desviar de meu
pai. Tanto quanto possível, evitava ficar sozinha com ele.
Em resumo, minha vida era um verdadeiro inferno 1 .
Por &quot;lazer&quot;, comecei a ir a bares nos fins de semana. Creio que
estava procurando alguém que me amasse. Eu tomava uns
poucos drinques, mas raramente o bastante para ficar bêbada.
Realmente nunca me interessei muito por bebida. Também me
recusava a dormir com os vários homens que encontrava.
Embora minha vida fosse uma confusão, havia um profundo
desejo em meu coração de ser boa e pura.
Confusa, assustada, solitária, desencorajada e deprimida,
sempre orava: &quot;Querido Deus, ajude-me a ser feliz... algum dia.
Dê-me alguém que realmente me ame e que me leve à igreja&quot;.
M EU C AVALEIRO DA A RMADURA B RILHANTE
Meus pais moravam em um prédio de propriedade deles, onde
havia outra família. Um dos seus inquilinos trabalhava com um
homem chamado Dave Meyer. Certa tarde, Dave veio buscar seu
amigo para jogar boliche. Eu estava lavando o carro de minha
mãe. Ele me viu e tentou flertar comigo, mas eu, como sempre,
fui sarcástica. Ele me perguntou se eu queria lavar o carro dele
quando terminasse o meu, e respondi: &quot;Se você quiser seu carro
limpo, lave você mesmo&quot;! Por causa da experiência com meu pai
e meu ex-marido, eu não confiava em nenhum homem, isso só
para dizer o mínimo.
Dave, contudo, estava sendo guiado pelo Espírito de Deus.
Nascido de novo e cheio do Espírito, ele amava a Deus com todo
seu coração. Com 26 anos de idade, ele também estava pronto
para se casar, e orava há seis meses para que Deus o guiasse à
mulher certa. Ele tinha até mesmo pedido ao Senhor que ela
fosse alguém que necessitasse de ajuda!
Já que ele estava sendo dirigido pelo Espírito Santo, meu
sarcasmo somente serviu para encorajá-lo, em vez de insultá-lo.
Mais tarde, ele disse a seu colega de trabalho que ele gostaria
de encontrar-se comigo. A princípio, recusei, mas depois mudei
de idéia. Após cinco encontros, ele me pediu em casamento.
Dave me disse que sabia desde a primeira vez que saímos que
ele me queria como sua esposa, mas tinha decidido dar algumas
poucas semanas antes de propor o casamento, para não me
assustar.
De minha parte, certamente eu não sabia o que era o amor e
nem mesmo desejava me envolver com outro homem. Contudo,
como a situação estava cada vez pior em casa e já que eu
estava vivendo em total pânico todo o tempo, resolvi que
qualquer coisa seria melhor do que aquilo por que eu estava
passando naquele momento.
Dave perguntou-me se eu poderia ir à igreja com ele, o que eu
desejava fazer. Lembre-se: uma das minhas orações tinha sido
de que Deus me concedesse alguém para me amar, que ele
fosse uma pessoa que me levasse à igreja. Eu desejava
fortemente viver uma vida cristã, mas sabia que precisava de
alguém mais forte para me guiar pelo caminho. Dave também
prometeu ser bom para meu filho, que tinha 10 meses quando
nos conhecemos. Eu tinha lhe dado o nome de David, que era o
nome do meu irmão e meu nome favorito para um menino. Eu
ainda me admiro da forma como Deus trabalhava Seu plano para
o meu bem, mesmo em meio ao meu desespero e trevas.
Dave e eu nos casamos em 7 de janeiro de 1967, mas não
vivemos &quot;felizes para sempre&quot;! O casamento não resolveu meus
problemas e nem o fato de ir à igreja. Meus problemas não
estavam em meu lar ou em meu casamento, mas em mim, em
minhas emoções feridas e arruinadas.
O abuso deixa uma pessoa emocionalmente deficiente,
incapaz de manter relacionamentos saudáveis e duradouros, a
não ser que haja algum tipo de intervenção. Eu queria dar e
receber amor, mas não conseguia. Como meu pai, eu era
controladora, manipuladora, irada, crítica, negativa, dominadora
e julgadora. Tudo aquilo que eu presenciara em meu crescimento
me tornara. Cheia de autopiedade, eu era verbalmente abusiva,
depressiva e amarga. Poderia prosseguir descrevendo minha
personalidade, mas estou certa de que você já faz uma idéia da
situação.
Eu era uma pessoa ativa na sociedade. Eu trabalhava, Dave
trabalhava. Nós íamos à igreja juntos. Nós nos dávamos bem
parte do tempo somente porque Dave era uma pessoa
extremamente fácil de se relacionar. Ele, geralmente, me
deixava fazer as coisas que eu queria, mas, quando isso não
acontecia, eu ficava furiosa. Eu achava que sempre estava certa
sobre tudo. A meu ver, eu não tinha problemas, todos ao meu
redor é que os tinham.
Agora, lembre-se: eu era nascida de novo. Eu amava a Jesus.
Eu cria que meus pecados tinham sido perdoados e que eu iria
para o céu quando morresse. Mas não conhecia a vitória, a paz,
a alegria em minha vida diária. Embora cresse que cristãos
deveriam supostamente ser felizes, certamente eu não era! E
por nem saber o que era a justiça imputada por intermédio do
sangue de Jesus, sentia-me condenada o tempo todo. Eu estava
fora de controle. A única ocasião em que não odiava a mim
mesma era quando estava ocupada diante de algum alvo
pessoal que eu julgava que me daria senso de dignidade.
Eu vivia pensando que, se as coisas mudassem, se outras
pessoas mudassem, tudo estaria bem. Se meu marido, meus
filhos, minhas finanças, minha saúde, fossem diferentes, se eu
saísse de férias, comprasse um novo carro, um vestido, se
mudássemos de casa, se eu encontrasse um outro emprego, se
tivesse mais dinheiro, então eu seria feliz e ficaria satisfeita. Eu
estava fazendo o que está descrito em Jeremias 2.13: cavando
poços que não continham água.
Eu estava cometendo o erro frustrante e trágico de tentar
buscar o Reino de Deus, o qual é justiça, paz e alegria (veja
Romanos 14.17), nas coisas e nas outras pessoas. O que eu não
percebia é que o Reino de Deus está dentro de nós, como o
apóstolo Paulo explicou: &quot;O qual é Cristo dentro e entre vós, a
esperança de (perceber a) glória&quot; (Colossenses 1.27) Jesus disse:
&quot;Eis, o Reino de Deus está dentro de vós [em vossos corações] e
entre vós [ao vosso redor]&quot; (Lucas 17.21, grifo da autora). Minha
alegria seria encontrada em Cristo, mas passaram-se anos e
anos para que eu descobrisse isso.
Eu tentava merecer a justiça por meio de obras da carne.
Participava de um comitê de evangelismo e do conselho da
igreja. Meu marido era um presbítero. Nossos filhos
freqüentavam a escola dominical. Eu tentava fazer todas as
coisas certas. Tentava, tentava e tentava, mas parecia que não
conseguia deixar de cometer erros. Estava cansada, desgastada,
frustrada e sentindo-me miserável!
E U , S INCERAMENTE , I GNORAVA QUAL ERA O PROBLEMA
Nunca me ocorreu que estava sofrendo por causa dos anos de
abuso e rejeição que enfrentara. Eu pensava que tudo tinha
ficado para trás. Era verdade que aquilo não mais acontecia
comigo fisicamente, mas estava tudo registrado em minhas
emoções e em minha mente. Eu ainda sentia os efeitos e ainda
agia em função disso.
Eu precisava de cura emocional!
Legalmente, eu era uma nova criatura em Cristo. A Palavra
diz: &quot;Portanto se alguém que está [enxertado] em Cristo (o
Messias) é uma nova criação (completamente uma nova
criatura); a velha [antiga condição moral e espiritual] já passou.
Eis que o novo e fresco chegou&quot;! (2 Coríntios 5.17). Mas, em
minha experiência de vida, eu não havia assumido a realidade da
nova criação. Vivia baseada em minha própria mente, na minha
vontade e nas minhas emoções, que estavam arruinadas. Jesus
pagou o preço por minha libertação total, mas eu não tinha idéia
de como receber Seu dom gracioso.
4. Distúrbios de Comportamento
Causados pelo Abuso
A PRIMEIRA COISA A SER PERCEBIDA é que o fruto em nossa
vida nosso comportamento) se origina em algum lugar. Uma
pessoa que é violenta age assim por alguma razão; um mau
comportamento é como um fruto ruim de uma árvore ruim com
raízes ruins. Frutos podres vêm de raízes podres; e frutos bons
vêm de raízes boas.
É importante observar de perto as suas raízes. Se elas são
desagradáveis, dolorosas, abusivas, as boas novas são que você
pode ser arrancado desse solo ruim e transportado para o solo
de Jesus Cristo. Você pode ser enraizado e fundamentado nEle e
em Seu amor: &quot;Que Cristo possa, através de vossa fé
[realmente], habitar (estabelecer-se, permanecer, fazer Sua
morada permanente) em vossos corações! Que possais estar
profundamente arraigados e fundamentados seguramente em
amor, para terdes o poder e serdes fortes para compreender e
apreender com todos os santos [pessoas devotadas a Deus, a
experiência desse amor], qual é a largura, o comprimento, a
altura, e a profundidade [desse amor]&quot; (Efésios 3.17-18).
A Palavra ensina: &quot;Tendo as raízes [do vosso ser] firme e
profundamente plantadas [nele, fixadas e fundadas nele], sendo
continuamente edificados nele, tornando-vos, de maneira
crescente, cada vez mais confirmados e estabelecidos na fé,
assim como fostes ensinados, e abundando e transbordando nela
em ações de graças&quot; (Colossenses 2.7).
Jesus enxertou você nEle. Como você, um ramo está
enxertado nEle, que é a videira (veja João 15.5), você começará
a receber toda a seiva (as riquezas de Seu amor e graça), as
quais fluirão dEle. Em outras palavras, se enquanto você cresceu
não recebeu o que precisava para torná-lo forte e saudável, Jesus
prazerosamente lhe dará isso agora.
Em minha própria vida houve muitos frutos ruins, dos quais
tentei me livrar. Trabalhei arduamente tentando agir
corretamente. Contudo, parecia que não importava qual tipo de
mau comportamento eu tentasse controlar, duas ou três outras
atitudes ruins surgiam de algum outro lugar. É como se tentasse
me livrar de alguma erva inútil. Eu permanecia podando a parte
visível, mas não conseguia me livrar da raiz oculta do problema.
A raiz estava viva e se mantinha produzindo uma nova safra de
problemas.
Como revela a ilustração a seguir, as raízes podres produzem
frutos podres, mas bons frutos vêm de boas raízes:
Ira - hostilidade
Falta de autoconfiança
Controle
Obtendo bons sentimentos por meio de &quot;vícios&quot;
Crítica
Baixa auto-estima
Negativismo
Depressão
Sexo, comida, dinheiro, poder, drogas, álcool, ativismo
Se não posso obter bons sentimentos dentro de mim, tentarei
obtê-los exteriormente.
Confusão e tormento interior
FINGIMENTO
&quot;O Meu Eu Real não é Aceitável&quot;
Crises de aborrecimento
Ódio.
Autopiedade
Sentimentos são &quot;sufocados&quot; porque são muito dolorosos para
serem enfrentados.
Vergonha &quot;Alguma coisa está errada comigo&quot;
Espelhando e retratando &quot;a imagem inadequada&quot; recebida dos
pais
produz resultados
Aprendendo a ser
dirigido pelo
Espírito
&quot;Eu estou bem e estou prosseguindo em meu caminho&quot;
&quot;Eu sou aceitável no amado&quot; (Efésios 1:6) ENRAIZADA E
FUNDAMENTADA NO AMOR DE CRISTO
Obtendo bons sentimentos ao viver uma vida de &quot;domínio
próprio&quot;
CALMA
Porque a aceitação não é baseada no meu desempenho
AS EMOÇÕES NÃO ESTÃO &quot;SUFOCADAS&quot;
Valorização
Nenhuma culpa
Sentindo-se especial
Como ilustração, o Senhor me deu este exemplo: Você já
observou algum tipo de odor ao abrir a porta do refrigerador?
Você imediatamente percebeu que havia algo estragado ali, mas,
com o objetivo de encontrar o que causava o mau cheiro, você
teve de remover tudo o que havia no refrigerador.
O mesmo princípio se aplica à sua vida pessoal. Se você tem
problemas emocionais, pode haver algo profundamente
estragado dentro de você. Talvez você tenha de procurar, de
esvaziar-se e, até mesmo, de separar-se por algum tempo com o
objetivo de saber qual é a fonte do problema e, assim, removê-la
para que tudo se torne fresco e novo.
Lembre-se: arrancar raízes pode ser traumático e doloroso.
Ser replantado, tornar-se enraizado e fundamentado é um
processo que leva tempo. E pela fé e pela paciência que
herdamos as promessas de Deus (veja Hebreus 6.12), por isso
seja paciente.
Deus é o Autor e o Consumador da fé (veja Hebreus 12.2). Ele
completará o que começou e você: &quot;E eu estou convencido e
certo disso mesmo, que aquele que começou uma boa obra em
vós a continuará até o dia de Jesus Cristo [até o momento da Sua
volta], desenvolvendo [essa boa obra], aperfeiçoando-a e
levando-a até à plena consumação em vós&quot; (Filipenses 1.6).
M AU F RUTO
Tive tantos maus frutos em minha vida que experimentava
crises freqüentes de depressão, de negativismo, de autopiedade,
de explosões de ira e de amuamento. Eu tinha um espírito
controlador e dominador. Eu era áspera, dura, inflexível, legalista
e crítica. Guardava rancor e vivia com medo, especialmente de
ser rejeitada.
Eu era uma pessoa por dentro e outra por fora. Eu fingia ser
confiante e, de algumas formas, era. Contudo, eu possuía baixa
auto-estima. Minha &quot;confiança&quot; não era realmente baseada
naquilo que eu era em Cristo, mas na aprovação dos outros, na
minha aparência, nas minhas realizações e em outros fatores
externos. Muitas pessoas pensam que são confiantes, mas se a
aparência exterior delas é atingida, elas realmente se sentem
bastante inseguras! Eu era confusa e cheia de tormentos
interiores.
Sou extremamente abençoada por poder dizer que nunca me
tornei viciada em drogas ou álcool. Eu fumava cigarros, mas não
tinha outras dependências químicas. Eu simplesmente não
gostava de álcool. Eu tomava uns poucos drinques, mas, logo
que me sentia tonta, nunca bebia além do ponto.
Sempre tive bastante autocontrole. Fazia parte da minha
personalidade não deixar ninguém me controlar, assim eu
evitava as drogas. Penso que o fato de meu pai ter controlado
tanto minha vida causou uma determinação em mim de que
ninguém mais o faria. Embora não pudesse controlar meus
problemas interiores, eu parecia ter sabedoria suficiente para me
manter afastada das coisas que poderiam me tornar
dependente.
Tomei remédios para emagrecimento durante um período
porque sempre estive 10 quilos acima do meu peso. Embora um
médico os prescrevesse para mim, eles me excitavam. Eram
anfetaminas, mas eu não tinha idéia de que eles fossem
perigosos. Eu gostava da forma como eles me faziam sentir-me
durante o dia! Quando os tomava, eu podia trabalhar como uma
máquina, limpar a casa, ser criativa e amistosa. Estava sempre
para cima, para cima, para cima. Mas, quando o efeito acabava,
sentia-me destruída!
Embora eu não perdesse peso algum, aquelas pílulas
controlavam meu apetite até perderem o efeito. Eu não comia
durante todo o dia, mas à noite me sentia tão por baixo que
compensava tudo o que perdera durante o dia. Lembro-me de
ter me questionado se deveria repetir a receita, pois eu sabia
interiormente que me tornaria viciada se continuasse com as
pílulas, por isso parei.
Percebo agora que a habilidade de evitar coisas que poderiam
ter me destruído foi resultado de ter recebido Jesus quando eu
tinha 9 anos de idade. Embora eu não soubesse como
desenvolver um verdadeiro relacionamento com o Senhor por
falta de discernimento, Ele sempre me ajudou sem que eu não
percebesse. Anos mais tarde, essas bênçãos tornaram-se claras
para mim. Sei que a graça e misericórdia de Deus me livraram
de sérios problemas, como crimes, drogas, alcoolismo e
prostituição. Sou grata ao Senhor e ainda tenho consciência de
como Ele me guardou. Embora eu não tivesse esse tipo de
problemas, tive outros. Raízes ruins causaram em mim frutos
ruins.
F INGINDO
Eu era bastante miserável e infeliz. Contudo, como muitas
pessoas, eu fingia que tudo estava bem. Nós, seres humanos,
fingimos para impressionar os outros, não querendo que saibam
sobre nossa miséria, mas também fingimos para nós mesmos
para que não tenhamos de enfrentar e lidar com as questões
difíceis.
Penso que nem mesmo percebia quão miserável realmente
era até que passei algum tempo com a Palavra de Deus e
comecei a experimentar alguma cura emocional. Se uma pessoa
nunca conheceu a verdadeira felicidade, como ela pode saber o
que está perdendo? Não me lembro de ter sido realmente
tranqüila e feliz quando criança. Não acredito que alguém possa
desfrutar a vida enquanto convive com um medo constante.
Recordo-me de Dave ter me contado sobre sua infância, certa
noite, após nos casarmos. Ele cresceu entre sete irmãos e irmãs.
Eles tiveram muito amor em casa e muita alegria na infância.
Seus verões formam passados no campo com piqueniques, jogos
de bola, amigos e uma mãe cristã que brincava com eles e lhes
ensinava sobre Jesus. Eles não tinham muito dinheiro porque o
pai de Dave morreu de um problema no fígado causado pelo
alcoolismo. Contudo a influência, as orações e o exemplo cristão
da mãe de Dave mantiveram a família fora de problemas. Eles
tinham amor, que é tudo do que precisamos e realmente fomos
criados para ter.
Quando ele compartilhou comigo aquela noite sobre todos os
bons tempos que ele e sua família tiveram e como ele desfrutou
os seus anos de infância, subitamente percebi que eu não
gostara de ouvir aquilo. Não conseguia me lembrar de ter sido
feliz quando criança. Alguma coisa tinha sido roubada de mim
que eu não podia recuperar. Eu me sentia terrivelmente
defraudada. Talvez você sinta o mesmo. Se é assim, Deus fará
por você o que fez por mim. Ele mesmo será Seu recompensador
e o restituirá por tudo o que você perdeu.
Percebi que tinha de parar de fingir e enfrentar a verdade. Eu
tinha algumas atitudes distorcidas por causa do meu passado.
Esse passado não era falha de Dave nem de meus filhos. Era
desagradável culpá-los e fazê-los sofrer por algo do qual eles não
eram culpados.
C OMPORTAMENTOS D ISTORCIDOS
Os comportamentos distorcidos que podem ser desenvolvidos
por causa do abuso são provavelmente muitos, mas aqui vai
uma lista parcial:
♦♦♦ Abuso químico:
• Álcool
• Drogas (ilegais e sob prescrição)
♦♦♦ Obsessão monetária:
• Gasto excessivo
• Acúmulo
♦♦♦ Distúrbios alimentares:
• Bulimia (glutonaria-vômito)
• Anorexia (inanição)
• Obesidade causada pela glutonaria
Observação: Algumas pessoas que foram promíscuas podem
permanecer com sobrepeso tentando evitar parecer atraentes,
pois temem cair em tentação. Aqueles que foram privados de
amor podem comer para compensar-se daquilo de que foram
privados.
♦♦♦ Distúrbios emocionais:
• Raiva
• Tristeza
• Medo
• Excitação excessiva
• Justiça religiosa
• Fixação pela alegria (apresentar um sorriso contínuo e
congelado; nunca aparentar ira; rir em momentos inadequados;
falar somente de coisas alegres)
♦♦♦ Distúrbios de pensamento:
• Detalhista em excesso
• Preocupação
• Não parar de falar
• Pensamentos impuros
• Mente agitada (nunca descansa; sempre está pensando o
que dizer ou o que fazer, como reagir, etc.)
♦♦♦ Ativismo obsessivo:
• Trabalho
• Esportes
• Leitura
• Jogos
• Exercício físico
• Assistir à TV
• Possuir e cuidar de excessivo número de animais de
estimação
♦♦♦ Distúrbios da vontade
• Controladoras: pessoas controladoras sentem que devem
agir da sua própria maneira em cada situação. Elas não podem
submeter as emoções à lógica ou à razão. Elas sentem-se
seguras somente quando estão no controle.
• Controladas: pessoas controladas tornam-se muito passivas;
elas entregam sua vontade às pessoas e fazem o que qualquer
pessoa diz. Elas podem tornar-se possuídas e severamente
oprimidas por desistir de sua vontade diante de Satanás. Elas
possuem tal sentimento de vergonha que se sentem indignas,
sem direito a escolhas.
• Revivendo distúrbios: essas pessoas restabelecem seus
próprios abusos em seus filhos ou repetidamente colocam-se em
situações como adultos que reproduzem o mesmo tipo de coisa
que aconteceu com eles quando criança. Uma cena lhes traz
lembranças do passado, e eles reproduzem o papel do abusador
para não sentir as dolorosas memórias de serem as vítimas. Por
exemplo, um homem que apanhou de seu pai na infância pode,
fisicamente, abusar de seus próprios filhos. Ele faz isso como
resultado de rever lembranças das velhas cenas e assumir o
papel do abusador, para não se sentir vítima do abuso. Uma
mulher que foi física, sexual ou verbalmente abusada por seu pai
pode casar-se com alguém — ou mesmo ter vários casamentos
— que abusará dela da mesma forma. Ela pode sentir que não é
digna de alguma coisa melhor ou que merece mesmo ser
maltratada. Ela pode até sentir isso de tal forma que até mesmo
incite alguém a abusar dela.
• Cuidadosas: algumas pessoas encontram dignidade ao
cuidar de outros que precisem delas. Elas se sentem tão indignas
que se tornam viciadas em ajudar e agradar às pessoas, cuidar
delas e ser amáveis, porque isso faz com que se sintam bem
consigo mesmas.
C RIADOS PARA N OS S ENTIRMOS BEM I NTERIORMENTE
Como seres humanos, fomos criados por Deus para sermos
felizes e nos sentirmos bem (satisfeitos) com nós mesmos. De
fato, devemos nos sentir bem com nós mesmos ou acabaremos
desenvolvendo algum tipo de comportamento descontrolado,
porque tal comportamento nos traz &quot;bons sentimentos&quot;, ainda
que por pouco tempo.
Pense sobre isto: uma pessoa viciada em drogas,
provavelmente, começou a tomá-las porque sua dor era tão
intensa que ela se sentiu compelida a livrar-se disso e a sentir-se
bem, ainda que temporariamente. A mesma coisa acontece com
a bebida.
Muitas pessoas usam a comida como conforto. Comer é
agradável, e elas se sentem bem quando estão envolvidas nisso.
Muitas pessoas com distúrbios alimentares estão famintas de
amor. Elas querem sentir-se bem consigo mesmas. Se elas não
têm bons sentimentos por dentro, tentarão obtê-los de alguma
outra forma.
Se você tem atitudes distorcidas, este capítulo pode ajudá-lo a
compreender a raiz do seu problema. Você pode passar a vida
inteira tentando subjugar seu comportamento exterior (frutos
ruins), mas surgirão outros distúrbios se a raiz não for tratada.
5. Resgatados pelo Amor
SE VOCÊ É uma pessoa que tem sofrido algum tipo de abuso,
já deve provavelmente ter identificado algumas áreas
problemáticas em sua vida. Apontar os problemas sem propor
uma solução para eles seria desastroso. Se eu fizesse isso, você
terminaria mais frustrado do que quando começou a ler este
livro.
Pretendo destacar as importantes verdades que trouxeram a
cura à minha própria vida. Enquanto faço isso, gostaria de
lembrar-lhe que Deus não faz acepção de pessoas (veja Atos
10.34). O que Ele faz por uma pessoa Ele fará por outra, se isso
se baseia numa promessa encontrada em Sua Palavra.
O P ROCESSO DE C URA
Meu primeiro marido não sabia amar, por isso não recebi amor
algum em nosso relacionamento. Embora meu segundo marido,
Dave, realmente me amasse, eu não sabia como receber esse
amor. Eu balançava entre: 1) rejeitar seu amor e mantê-lo fora
da minha vida ao construir muros ao meu redor para me
assegurar de que não seria ferida (pelo menos assim eu
pensava), ou 2) tentar fazer com que ele me amasse com um
tipo de amor perfeito e completo que lhe era humanamente
impossível alcançar.
Em 1 João 4.18, lemos que o perfeito amor lança fora o medo.
Somente Deus pode amar perfeitamente e sem falhas. Não
importa o quanto alguém possa amar uma pessoa, ele ainda é
humano. Como o Senhor disse, &quot;... o espírito de fato está pronto,
mas a carne é fraca&quot; (Mateus 26.41). Pessoas sempre
desapontam outras pessoas, pois elas sempre amam de forma
imperfeita, simplesmente porque isso faz parte da natureza
humana.
Eu queria que Dave me desse algo que somente Deus poderia
me dar, ou seja, um senso do meu próprio valor e dignidade. Eu
queria que meu marido me amasse totalmente e me tratasse
perfeitamente, pois assim eu poderia finalmente me sentir bem
comigo mesma. Sempre que ele falhava comigo, ou me
desapontava, ou me magoava, eu construía muros entre nós e
não permitia que ele se aproximasse por dias ou, mesmo,
semanas.
Muitas pessoas que vêm de um passado abusivo e
desajustado não podem manter relacionamentos saudáveis e
duradouros porque talvez elas não saibam como receber amor
ou elas colocam exigências desequilibradas a seus cônjuges para
tentar receber o que somente Deus pode lhes dar. A frustração
resultante disso freqüentemente destrói o casamento.
Esse mesmo princípio pode ser aplicado para amizades. Certa
vez, uma mulher aproximou-se de mim numa fila de oração e
disse: &quot;Joyce, ajude-me. Eu sou muito solitária. Cada vez que
tenho uma amiga eu a sufoco&quot;. Essa senhora era tão carente de
amor que, quando encontrava alguém que lhe desse atenção,
tentava cobrar toda a dívida de seu passado emocional daquela
pessoa, que não lhe devia nada. Sua nova amiga
freqüentemente se assustava e se afastava.
O A MOR I LIMITADO , I NCONDICIONAL E P ERFEITO DE D EUS
Um dia, enquanto eu estava lendo a Bíblia, percebi essa
declaração em 2 Coríntios 5.7: &quot;Visto que andamos por fé e
[regulamos nossa vida e conduzimos a nós mesmos pela nossa
convicção ou crença a respeito do relacionamento do homem
com Deus e com as coisas divinas, com confiança e santo fervor;
e assim nós caminhamos] não por vista ou pela aparência&quot;.
O Espírito Santo interrompeu-me e perguntou: &quot;O que você
pensa, Joyce, de seu relacionamento com Deus? Você crê que Ele
a ama&quot;?
Enquanto honestamente comecei a sondar meu coração e a
estudar a Palavra de Deus sobre esse assunto, cheguei à
conclusão de que eu cria que Deus me amava, mas
condicionalmente.
A Bíblia nos ensina que Deus nos ama perfeita ou
incondicionalmente. Seu perfeito amor por nós não é baseado
em nossa perfeição. Não é baseado em qualquer outra coisa
exceto nEle mesmo. Deus é amor (veja 1 João 4.8). O amor não é
a Sua ocupação; é o que Ele é. Ele sempre nos ama, mas
freqüentemente paramos de receber Seu amor, especialmente
se nosso comportamento não for bom.
Aqui eu gostaria de parar por um momento e apresentar
várias passagens das Escrituras que vieram significar muito para
mim. Por favor, dê algum tempo para lê-las lentamente. Medite e
permita que elas se tornem parte de você:
E nós conhecemos (compreendemos, reconhecemos, estamos
conscientes de, pela observação e pela experiência) e cremos
(aderimos, colocamos fé em e confiamos) no amor que Deus tem
por nós. Deus é amor, e aquele que permanece e continua em
amor permanece e continua em Deus, e Deus permanece e
continua nele.
Nisto [na união e na comunhão com Ele] o amor é levado à
plenitude e atinge a perfeição conosco, para que possamos ter
confiança no Dia do Juízo, [com segurança e ousadia para
ficarmos face a face diante dele] porque como Ele é, também
nós somos neste mundo.
Não existe medo algum no amor [não existe temor]; mas o
amor maduro (completo, perfeito) expulsa para fora e expele
cada traço de terror! Pois, o medo traz com ele o pensamento de
punição; e [assim] aquele que teme não alcançou a plena
maturidade do amor [ainda não cresceu para a completa
perfeição do amor].
Nós o amamos porque Ele nos amou primeiro (1 João 4.16-19).
Nisto o amor de Deus se manifestou (foi demonstrado) no que
nos diz respeito: em haver Deus enviado o Seu Filho, o unigênito
ou único [Filho] ao mundo, para vivermos por meio dele.
Nisto consiste o amor: não em que tenhamos amado a Deus,
mas em que Ele nos amou e enviou o Seu Filho como propiciação
(sacrifício expiatório) pelos nossos pecados.
Amados, se Deus nos ama assim [tanto], devemos nós
também amar uns aos outros (1 João 4.9-11).
Quem nos separará do amor de Cristo? Será sofrimento,
aflição e tribulação? Ou calamidade e angústia? Ou perseguição,
ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? (Romanos 8.35)
Porque eu estou persuadido, sem dúvida alguma (estou
convicto) de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem
os principados, nem as coisas iminentes indesejáveis e
ameaçadoras, nem as coisas por vir, nem os poderes, nem a
altura, nem a profundidade, nem qualquer outra coisa em toda a
criação, será capaz de separar-nos do amor de Deus, que está
em Cristo Jesus, nosso Senhor (Romanos 8.38-39).
Que Cristo possa através de vossa fé [realmente] habitar
(estabelecer-se, permanecer, fazer Sua morada permanente) em
vossos corações! Que possais estar profundamente arraigados e
fundamentados seguramente em amor, para terdes o poder e
serdes fortes para compreender e apreender com todos os
santos [pessoas devotadas a Deus, a experiência desse amor],
qual a largura, o comprimento, a altura, e a profundidade [desse
amor].
[Que vós possais realmente vir a] conhecer [de forma prática,
experimentando-o por vós mesmos] o amor de Cristo, que
excede o mero conhecimento [sem experiência], para que sejais
cheios [em todo o vosso ser] até a plenitude de Deus [para que
tenhais a mais rica medida da Presença divina, e vos torneis um
corpo plenamente cheio e transbordante do próprio Deus]
(Efésios 3.17-19).
Tal esperança nunca nos desaponta, nem nos engana ou
envergonha, porque o amor de Deus tem sido derramado em
nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Romanos
5.5).
Eis que Eu te tenho gravado (tatuado teu retrato) nas palmas
das minhas mãos, de tal maneira que não pode se apagar (Isaías
49.16).
O trecho de 1 João 4.16 é um versículo-chave para mim,
porque diz que devemos conhecer e ter consciência do amor de
Deus e colocar nossa fé nele. Eu não conhecia, nem tinha
consciência do amor de Deus, portanto não tinha fé em Seu
amor por mim.
Quando o diabo me condenava, eu não sabia como dizer &quot;Sim,
eu cometi um erro&quot; e, então, ir até Deus, pedir-Lhe perdão,
receber Seu amor e prosseguir. Em vez disso, eu continuava a
gastar horas e mesmo dias sentindo culpa sobre cada pequena
coisa que eu fazia de errado. Eu vivia literalmente atormentada!
João nos diz que o medo gera tormento, mas que o perfeito amor
de Deus lança fora o medo (veja 1 João 4.18). O amor de Deus
por mim é perfeito porque é baseado nEle, não em mim. Assim,
mesmo quando eu errava, Ele continuava me amando.
O amor de Deus por você é perfeito e incondicional. Quando
você falha, Ele permanece amando você, porque Seu amor não é
baseado em você, mas nEle. Quando você falha, você pára de
receber o amor de Deus e começa a punir-se a si mesmo ao
sentir-se culpado e condenado? Eu me sentia culpada e mal a
respeito de mim mesma durante os primeiros 40 anos de minha
vida. Fielmente, carregava meu fardo da culpa em minhas costas
por onde eu ia. Era um fardo pesado e estava sempre comigo.
Cometia erros regularmente e me sentia culpada a respeito de
cada um deles.
Em Romanos 8.33-35, o apóstolo Paulo diz:
Quem poderá trazer alguma acusação contra os eleitos de
Deus? [Quando] é Deus quem os justifica [isto é, quem nos
coloca numa relação justa diante dele? Quem virá e acusará e
contestará aqueles a quem Deus escolheu? Será Deus, aquele
que nos absolve?].
Quem nos condenará? Será Cristo Jesus (o Messias), quem
morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de
Deus realmente nos defendendo à medida que intercede por
nós?
Quem realmente nos separará do amor de Cristo?
O alvo do diabo é nos separar do amor de Deus, porque o
amor dEle é o fator principal da nossa cura emocional.
Somos criados para amar. Em Efésios 2.4-6, Paulo diz que
Deus é tão rico em misericórdia que Ele nos salvou e nos deu o
que não merecemos, para satisfazer as exigências de Seu
intenso amor por nós. Pense sobre isso. Deus tenciona nos amar.
Ele tem de nos amar: Ele é amor!
Somos criados para amar! O pecado nos separa de Deus, mas
Ele nos ama tanto que enviou Seu único Filho, Jesus, para morrer
por nós, para nos redimir, para nos comprar de volta, para que
Ele pudesse derramar Seu grande amor sobre nós. Tudo de que
precisamos é crer naquilo que a Bíblia diz sobre nosso
relacionamento com Deus. Uma vez que fazemos isso, o
processo de cura pode começar.
Durante o primeiro ano em que meu marido Dave e eu
começamos nosso ministério chamado Vida na Palavra, o Espírito
Santo trabalhou comigo para me ensinar sobre o amor de Deus.
Eu mantinha um livro de memórias das coisas especiais que
Deus fazia por mim durante aquele tempo: pequenas coisas em
sua maioria, coisas pessoais que mostravam o cuidado de Deus.
Por meio desse método, comecei a me tornar mais consciente do
Seu amor incondicional. Isso me ajudou a lembrar de que Deus
me amava.
Se você pode acreditar que Deus, que é tão perfeito, ama
você, então pode acreditar que é digno de amor.
Uma vez que você crê que é aceito e amado por Deus, então
pode começar a aceitar-se e a amar a si mesmo. Dessa forma,
você não somente começará a amar a Deus, mas também amará
as outras pessoas.
V OCÊ NÃO P ODE D AR O Q UE NÃO T EM !
Muitas pessoas recebem Jesus e, imediatamente, começam a
tentar amar a todos. Muito freqüentemente elas terminam
sentindo-se condenadas porque descobrem que não podem fazer
isso. E impossível amar verdadeiramente os outros sem primeiro
receber o amor de Deus, porque não há amor em nós para
darmos.
Em 1 Coríntios 13, freqüentemente chamado de &quot;o capítulo do
amor&quot;, Paulo enfatiza essa verdade muito claramente. No
primeiro versículo, ele define o amor como &quot;aquela devoção
racional, intencional e espiritual que é inspirada pelo amor de
Deus por e em nós&quot;. Esse capítulo inteiro é focado no ensino de
como caminhar em amor, contudo, claramente, é dito que esse
amor deve, primeiramente, estar em nós.
A maioria das pessoas pode acreditar que Deus as ama
quando elas podem sentir que merecem esse amor. O problema
surge quando elas sentem que não merecem o amor de Deus e,
contudo, precisam desesperadamente dele.
As páginas a seguir ilustram os efeitos de receber ou não o
amor de Deus. Note que a crença de que o amor de Deus por nós
depende de nossa dignidade é um engano que causa muitos
problemas em nossa vida. De outro lado, crer que Deus nos ama
incondicionalmente traz muita alegria e encorajamento.
R ECEBENDO O A MOR DE D EUS
Determine em seu coração que você receberá o amor de
Deus. Aqui estão algumas sugestões práticas para ajudá-lo a
fazer isso. Essas são coisas que creio que o Senhor me levou a
fazer e que ajudarão você também. Contudo, lembre-se de que
somos pessoas especiais e únicas e que Deus tem um plano
individual e personalizado para cada um de nós. Não se perca
em métodos.
Teoria do &quot;Efeito Cascata&quot; do Amor Incondicional
Jesus me ama, eu sei.
Ele me ama incondicionalmente.
PORTANTO: Seu amor por mim é baseado no que Ele é.
PORTANTO: Não tenho de merecer Seu amor nem posso
merecê-lo.
PORTANTO: Não posso ser separada do Seu amor.
Quando Lhe obedeço, Ele me abençoa.
Quando Lhe desobedeço, haverá conseqüências pelo meu
comportamento. Ele pode não gostar do meu comportamento,
mas sempre me ama.
PORTANTO: Já que eu tenho experimentado o amor de Deus,
sei que sou digna de amor.
PORTANTO, já que eu sei que Deus me ama, sou capaz de crer
que existem pessoas que podem me amar também.
PORTANTO, sou capaz de confiar em pessoas que
genuinamente me amem.
PORTANTO, sou capaz de aceitar o amor que essas pessoas
me dão.
PORTANTO, já que minha necessidade básica por
PORTANTO, já que sei que sou especial e única amor e o senso
de dignidade própria têm sido para Deus, sei que o amor que
tenho para dar é satisfeitos por Deus, não preciso ser &quot;viciada&quot;
valioso, em aprovação de outras pessoas.
PORTANTO, não sinto que precise ter um &quot;bom
PORTANTO, embora eu tenha necessidades que espero que
outras pessoas satisfaçam (isto é, companhia, afeição,
diversão), creio que essas necessidades são equilibradas e
concedidas por Deus. Tento ser honesta em avaliar essas
necessidades e buscar aquilo de que preciso.
PORTANTO, espero que outras pessoas sejam honestas
comigo. Posso lidar com a crítica e confrontação se feitas com
amor.
PORTANTO,já que sei que sou especial e única para Deus, sei
que o amor que tenho para dar é valioso.
PORTANTO: não sinto que precise ter um “bom desempenho”
diante das outras pessoas. Ou elas me amam pelo que sou ou
não.É importante para mim, que eu seja amada pelo que sou.
PORTANTO: sou capaz de me livrar da idéia de me preocupar
com aquilo que os outros estão pensando SOBRE MIM e me focar
em outras pessoas e suas necessidades.
PORTANTO sou capaz de um relacionamento saudável,
amoroso e duradouro
Jesus me ama, mas...
Ele me ama condicionalmente.
PORTANTO: Seu amor é baseado no meu desempenho.
PORTANTO: Tenho que merecer Seu amor por agradar-Lhe
PORTANTO: Quando Lhe agrado, sinto-me amada.
Quando não Lhe agrado, sinto-me rejeitada.
PORTANTO: Se Deus, que é &quot;Todo amoroso&quot;, nem sempre me
ama, aceita ou me valoriza, como posso crer que sou preciosa e
digna de amor?
PORTANTO: Não creio que eu seja essencialmente uma pessoa
digna de amor e preciosa.
PORTANTO, não sou capaz de confiar nas outras pessoas que
dizem que me amam. Suspeito de suas motivações e imagino
que elas apenas não sabem quem realmente sou.
PORTANTO, já que não posso aceitar o amor de outras
pessoas, desvio-me delas. Tento provar que NÃO sou amável, e
que elas, finalmente, me rejeitarão. PORTANTO, elas geralmente
o fazem.
PORTANTO, uso os padrões do mundo (dinheiro, status,
roupas, etc.) para provar aos outros e a mim mesma que TENHO
VALOR. Preciso de carinho e retorno de outras pessoas para
provar a mim mesma e aos outros que sou DIGNA DE AMOR.
PORTANTO, preciso de uma &quot;dose&quot; de carinho todos os dias
apenas para atravessar o dia sentindo-me bem comigo mesma.
PORTANTO, busco que os outros me dêem algo que somente
Deus pode me dar, um senso de meu PRÓPRIO VALOR.
PORTANTO, estabeleço exigências impossíveis sobre as
pessoas que me amam e as deixo frustradas. Nunca me satisfaço
com aquilo que elas me dão. Não permito que elas sejam
honestas comigo e me confrontem. Sou fixada em mim mesma e
espero que eles sejam fixados em mim também.
PORTANTO, já que não amo quem sou, não espero que outros
me amem também. Por que alguém gostaria de algo que não
tem real valor?
PORTANTO, tento merecer Seu amor por aquilo que FAÇO. Não
me abro para o desejo de amar, mas, sim, de SER AMADA. A
maior parte das coisas que faço baseia-se no &quot;eu&quot;, e, assim, as
pessoas que declaro amar não se sentem realmente amadas.
Elas se sentem manipuladas. Tento evitar a rejeição em vez de
tentar edificar um relacionamento amoroso.
PORTANTO, não sou capaz de manter um relacionamento
saudável, amoroso e duradouro.
Eis algumas sugestões para ajudá-lo a receber uma revelação
do relação ao amor de Deus por você:
• Diga a si mesmo, em pensamento e em voz alta: &quot;Deus me
ama&quot;. Diga e, então, deixe isso entrar em seu coração. Repita
isso freqüentemente: quando despertar pela manhã, quando se
deitar à noite e durante o dia todo. Olhe-se no espelho, aponte
para si mesmo, chame-se pelo nome e diga, &quot;_______, Deus ama
você&quot;.
• Mantenha um diário, um livro de memórias, de coisas
especiais que Deus faz por você. Inclua tanto as pequenas coisas
quanto as grandes. Leia a sua lista pelo menos uma vez por
semana, e você será encorajado. Deixe isso se tornar um projeto
do Espírito Santo. Penso que você terá alegria nisso, como eu
tive.
• Aprenda e, mesmo, se comprometa a memorizar vários
trechos das Escrituras sobre o amor de Deus por você.
• Leia alguns bons livros sobre o amor de Deus. Recomendo-
lhe começar pelos que escrevi: Diga a Eles Que Os Amo e
Reduza-Me ao Amor?
• Ore para que o Espírito Santo, que é o Mestre, lhe dê uma
revelação do amor de Deus.
6. Siga o Espírito Santo
SE  VOCÊ CHEGOU à conclusão de que precisa de cura emocional
e de que muitos dos problemas que enfrenta resultam de raízes
ruins do passado, talvez você se torne ansioso em livrar-se
dessas raízes para que possa se sentir bem. Isso é
compreensível, mas é importante permitir que o Espírito Santo o
oriente e o direcione nesse processo de cura.
Deus já enviou Jesus Cristo à terra para comprar sua cura
completa. Uma vez que isso foi consumado, Ele enviou Seu
Santo Espírito para ministrar-lhe o que Jesus comprou com o
Sangue dEle.
Jesus disse a seus discípulos que seria melhor para eles que
Ele fosse estar com o Pai, porque, se Ele não fosse, o Consolador
não poderia vir (veja João 16.7). O Consolador é o Espírito Santo.
Na versão da Bíblia Amplificada, Jesus chama o Espírito Santo de
nosso Conselheiro, Ajudador, Advogado, Intercessor,
Fortalecedor e Auxiliador. Durante seu processo de recuperação,
você precisará experimentar cada faceta do ministério do
Espírito Santo.
B USQUE S OMENTE C ONSELHEIROS U NGIDOS
Não corra por aí buscando conselhos de qualquer pessoa. Ore
primeiro, perguntando ao Senhor se é da vontade dEle que você
vá a outro ser humano buscar aconselhamento, ou se Ele deseja
ser o Seu próprio conselheiro.
Em minha vida, tive muitos, muitos problemas, contudo nunca
busquei outra pessoa para me aconselhar, com exceção de uma
vez. Naquela ocasião, visitei uma senhora no ministério que
também tinha sofrido abuso. Eu não pretendo desacreditá-la,
mas ela realmente não foi capaz de me ajudar. E não era falha
dela; ela simplesmente não tinha sido ungida pelo Senhor para
fazê-lo.
Deus não é obrigado a ungir aquilo que Ele não planejou.
Assim, freqüentemente, as pessoas correm atrás de outras sem
seguir a orientação e a liderança do Espírito Santo, e isso nunca
traz um fruto duradouro e bom. Quando você está com
problemas, vá ao Trono antes de ir ao telefone.
Não pretendo sugerir que seja errado buscar conselhos. Estou
apenas sugerindo que você ore e permita ao Senhor orientá-lo
por intermédio do Espírito Santo. Deixe que Ele escolha o
conselheiro certo para você. Simplesmente porque uma pessoa
passou pelo que você está passando ou é um amigo íntimo não
significa que essa pessoa seja o conselheiro certo para você.
Assim, repito: ore!
Definitivamente, não estou dizendo que você não possa
buscar conselhos simplesmente porque não busquei. Cada um
de nós tem uma personalidade diferente. Posso ter uma
personalidade forte, determinada, com autodisciplina e
objetividade. Esses traços ajudaram-me a permanecer no meu
objetivo, que era a saúde emocional. Outros podem precisar de
alguma ajuda por algum tempo, alguém para auxiliá-lo a
estabelecer algo para si mesmo e manter-se buscando a
alcançar esses alvos.
E vital seguir a direção do Espírito Santo. Ele é o melhor
conselheiro. Seja ajudando-o diretamente ou guiando-o a alguém
por meio do qual Ele próprio ministrará a você. Em qualquer
caso, você deve fundamentalmente olhar para Ele como seu
socorro. Mesmo o conselho que qualquer outra pessoa possa lhe
oferecer não se tornará rhema (uma revelação pessoal de Deus)
para você sem a ajuda do Espírito Santo.
É também importante perceber que Deus tem diferentes
chamados em nossa vida. Já que Ele me chamou para ensinar
Sua Palavra, no meu caso foi melhor receber a verdade que eu
precisava diretamente dEle. Contudo, essa não é uma regra para
todos.
O M INISTÉRIO DO E SPÍRITO S ANTO
Outra razão pela qual o ministério do Espírito Santo é tão
importante é encontrada em João 16.8, onde Jesus diz que é o
Espírito Santo quem convence e gera convicção do pecado e da
justiça.
As pessoas que foram abusadas, na sua maioria, são
indivíduos com um sentimento de vergonha (o assunto da
vergonha será detalhado num capítulo posterior). Eles se sentem
mal a respeito de si mesmos. Eles não gostam de si mesmos,
portanto, eles experimentam muita culpa e condenação.
E o diabo que traz a condenação; o Espírito Santo traz
convicção (Há uma diferença. Eu aceito a convicção, mas resisto
à condenação, e assim deve ser com você.) Somente o Espírito
Santo, por intermédio da Palavra de Deus e de Seu poder para
mudar, pode convencer uma pessoa com esse sentimento de
vergonha de que ela se tornou justa por meio do sangue
derramado por Jesus Cristo: &quot;Por nossa causa Ele fez Cristo
tornar-se pecado, Aquele que não conheceu pecado, para que
nele e através dele nós pudéssemos tornar-nos [dotados, visto
como sendo, e exemplos da] justiça de Deus [o que nós devemos
ser, aprovados e aceitáveis e em correto relacionamento com
Ele, pela sua bondade]&quot; (2 Coríntios 5.21).
Jesus referiu-se ao Espírito Santo como o Espírito da verdade e
assegurou-nos que Ele nos guiará a toda a verdade, à total e
plena verdade (veja João 16.13). Jesus também disse que o
Espírito Santo nos faria lembrar: &quot;Mas o Consolador (Conselheiro,
Ajudador, Intercessor, Advogado, Fortalecedor, Auxiliador), o
Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome [em meu
lugar, para representar e agir em meu interesse] ensinará a
vocês todas as coisas. Ele fará vocês lembrarem (recordará a
vocês, trará à sua lembrança) tudo o que Eu tenho dito a vocês&quot;
(João 14.26). Todos esses aspectos do ministério do Espírito são
áreas importantes para ajudar aqueles que estão em
recuperação do abuso. Tais pessoas devem desistir da negação e
enfrentar a verdade. Pode haver coisas de que elas se
esqueceram porque eram muito dolorosas para lembrar, coisas
que terão de ser relembradas e enfrentadas durante o processo
de cura.
Se a pessoa responsável em ajudar na recuperação não é
dirigida pelo Espírito, ela, algumas vezes, pode conduzir a
pessoa abusada nesse processo de forma apressada. Se for
assim, pode se tornar mais doloroso do que a pessoa pode
suportar.
Lembro-me de uma jovem que, certa vez, me procurou na fila
de oração. Ela estava bastante descontrolada e emotiva, quase à
beira de um ataque de pânico. Ela começou a relatar que cada
semana quando visitava sua conselheira era sempre muito
doloroso, quase acima do que ela podia suportar. Em sua
ansiedade, eu a ouvi dizer várias vezes: &quot;É muito difícil, dói
muito, não posso agüentar&quot;.
Enquanto ela falava, eu orava e pedia ao Senhor para ajudar-
me a ajudá-la. Eu realmente estava preocupada de que ela
pudesse ter um ataque histérico ali mesmo diante do altar.
Subitamente, recebi uma resposta do Senhor. Senti que,
provavelmente, sua conselheira não era sensível ao Espírito e
que ela estava fazendo essa jovem enfrentar certas questões de
forma mais rápida do que sua mente e seu sistema emocional
podiam suportar.
Quando eu disse à jovem &quot;Ouça, acho que sei qual é o
problema&quot;, ela aquietou-se o suficiente para que eu pudesse
compartilhar o que Deus estava dizendo. Enquanto ouvia, ela
imediatamente começou sentir-se aliviada. Ela concordou que
aquilo que eu estava descrevendo era exatamente o que estava
acontecendo.
Compartilhei com ela que durante meu processo de cura o
Espírito Santo levou-me a muitos diferentes recursos para
orientação. O primeiro foi um livro que meu marido sugeriu que
eu lesse. Era o testemunho de uma mulher que tinha sido
abusada quando criança. Até aquele momento, eu não pensava
que alguns dos meus problemas resultassem do meu passado.
Foi muito difícil ler aquele livro. Quando cheguei à parte em
que a mulher começou a descrever em detalhes como o seu
padrasto abusava sexualmente dela, memórias, dores, ira e raiva
começaram a crescer em mim de algum lugar profundo do meu
coração. Atirei o livro no chão e reclamei em voz alta: &quot;Não vou
ler isso&quot;!
Em seguida, pude ouvir o Espírito Santo responder: &quot;Chegou a
hora&quot;!
Eu vinha caminhando com Deus por vários anos quando isso
ocorreu. Por que Ele não tinha me levado a algo que pudesse ter
me ajudado de forma mais rápida? A resposta é: Porque não era
tempo! O Espírito Santo sabe precisamente o tempo certo em
nossa vida. Sempre digo: &quot;Somente o Espírito sabe quando você
está pronto para algo&quot;. Em outras palavras, o Espírito do Senhor
é o único que sabe o que fazer para ajudá-lo, e quando você
estará pronto para receber essa ajuda.
A ajuda pode vir na forma de um livro, ou de um pregador, ou
de um amigo que diz exatamente o que você precisa ouvir no
momento. Ou pode vir por meio de um testemunho pessoal ou,
mesmo, de algo que vem diretamente do próprio Deus. Hoje
pode ser o tempo designado por Deus para você, enquanto está
lendo este livro. Se for assim, Deus usará este livro em alguma
área na qual você está ferido no presente. Pode ser o início da
sua recuperação, ou o próximo passo do processo, ou mesmo o
toque final na sua longa luta pela saúde emocional.
Muitas pessoas que vêm até mim buscar oração por cura
emocional estão preocupadas e mesmo perturbadas porque há
porções de seu passado que elas não conseguem relembrar. Elas
têm estado naquilo que chamo de &quot;expedições de escavação&quot;,
tentando desenterrar memórias esquecidas para que possam
enfrentá-las, lidar com elas e removê-las de seu pensamento.
Digo a essas pessoas que há ainda porções do meu próprio
passado que não posso relembrar. Realmente, muito da minha
infância parece ser cheia de páginas em branco.
Digo a essas pessoas que é o Espírito Santo que nos leva à
verdade e é capaz de trazer muitas coisas à nossa lembrança.
Mas devemos permitir que Ele assuma a direção nessa área
sensível. Deixei o Espírito Santo ser responsável pela minha
memória. Verdadeiramente, creio que se a lembrança de alguma
coisa do meu passado pode me ajudar, então eu a lembrarei. Se
isso não me ajudar, então é algo desnecessário ou, mesmo,
prejudicial para ser lembrado, e sou grata por não lembrar. Penso
que em certas situações, aquilo que não sabemos não pode nos
ferir.
Obviamente, esse não é sempre o caso. E, muitas vezes, as
pessoas experimentam grande alívio ao relembrar alguns
eventos traumáticos, lidam com isso e, então, avançam.
Algumas vezes, se as memórias têm sido excluídas de propósito
e suprimidas profundamente no recesso da mente, elas
envenenarão todo o nosso ser. Nesse caso, as memórias devem
ser expostas antes que a saúde integral possa ser estabelecida.
Contudo, repito, é importante lembrar que, se esse processo não
for feito com a direção e a orientação do Espírito Santo, pode ser
prejudicial e realmente causar maior dano em suas emoções já
tão feridas.
O Espírito Santo é gentil, meigo, atencioso, amável, amoroso e
paciente. Contudo, Ele é também forte, poderoso e capaz de
fazer o que as pessoas nunca fariam com sua própria força. O
salmista diz: &quot;Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham
os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão
vigia a sentinela.&quot; (Salmos 127.1). Perdi muitos anos da minha
vida trabalhando em vão. Encorajo-o a não desperdiçar os
preciosos anos da sua vida tentando &quot;fazer tudo sozinho&quot;.
Busque a Deus e ao Seu plano para sua recuperação. Ele o
orientará a cada passo, e você será transformado &quot;de glória em
glória&quot; (veja 2 Coríntios 3.18).
7. Os Dois Tipos de Dor
MESMO QUANDO permitimos que Espírito Santo nos dirija, a
cura emocional ainda é dolorosa. Mas creio que há dois tipos de
dor: a dor da mudança e a dor por nunca mudar e permanecer o
mesmo. Se você deixar o Espírito do Senhor dirigir seu programa
de recuperação, Ele sempre estará ali para prover a força de que
você precisa em cada fase, e, assim, sejam quais forem as
tribulações que você tiver de enfrentar, será capaz de suportá-
las.
O Senhor prometeu nunca nos deixar ou nos abandonar. Essa
promessa em Hebreus 13.5 é muito poderosa: &quot;Deixe seu caráter
ou disposição moral ser livre do amor ao dinheiro [incluindo a
ganância, avareza, luxúria e um desejo ardente por possessões
terrenas] e seja satisfeito com seu presente [circunstâncias e
com o que você tem]; pois Ele, o próprio [Deus] disse: &#39;Eu, de
forma alguma falharei com você, nem o abandonarei, nem o
deixarei sem apoio. (Eu) nunca, nunca, de forma alguma, o
deixarei sem ajuda ou nem o abandonarei nem o desampararei
(nem largarei você)! [Seguramente não]&#39;&quot;.
Precisamos nos agarrar a essa promessa quando formos
tentados a querer ultrapassar a Deus. Se começamos a &quot;fazer as
coisas do nosso próprio jeito&quot;, estaremos num território perigoso.
Nosso Pai Celestial não tem obrigação de nos ajudar a suportar
provações que nunca fizeram parte de Seu plano para nós.
Poderemos sobreviver, mas o processo envolverá muito mais
luta do que seria necessário.
A dor das feridas e do processo de cura das emoções pode
mesmo ser mais traumática do que a dor física. Quando você
estiver seguindo o plano revelado por Deus e atravessar
momentos dolorosos, lembre-se de que o Espírito Santo é o
Fortalecedor. Algumas vezes, pode parecer que você não vai
conseguir. Em tais momentos, peça ao Senhor que o fortaleça.
Um grande trecho das Escrituras para memorizar nessas horas
difíceis está em 1 Coríntios 10.13, no qual o apóstolo Paulo nos
lembra:
Porque nenhuma tentação (nenhuma tribulação como a
sedução ao pecado, não importa como venha ou para onde
aponte) vos tem subjugado ou prendido que não seja comum ao
homem [isto é, nenhuma tentação ou tribulação virá a vós, além
da resistência humana, e que não seja ajustada e adaptada e
pertencente à experiência humana, de tal forma que o homem
não possa suportar]. Mas Deus é fiel [à Sua Palavra e à sua
natureza compassiva], e Ele [em quem podemos confiar] não vos
deixará serdes tentados ou atribulados ou testados além da
vossa habilidade e força para resistir, e poder para perseverar;
mas com a tentação, Ele [sempre] provera o escape (o meio de
escapar para um lugar de pouso), para que sejais capazes e
fortes e poderosos para suportá-la pacientemente.
Em tais tempos difíceis vêm muitas tentações. Entre elas a
tentação de desistir e voltar aos velhos pensamentos e caminhos
ou tornar-se negativo, depressivo e irado com Deus, pois você
não compreende por que Ele não parece estar provendo o
escape de toda a dor que tem suportado em sua vida. Contudo,
essa passagem das Escrituras nos diz que Deus sempre intervém
em nosso favor e que sua ajuda sempre chegará a tempo.
Proponha em seu coração permanecer e não desistir!
Outra passagem bastante proveitosa é encontrada em 2
Coríntios 12.7-9, na qual Paulo se refere à sua própria dor por
causa daquilo que ele chama de &quot;um espinho (um estilhaço) na
carne&quot; (versículo 7). Realmente não importava qual era esse
espinho, mas sabemos que isso o incomodava e ele queria
removê-lo. Por três vezes Paulo pediu ao Senhor que o
removesse. Contudo, a resposta do Senhor para ele foi: &quot;Minha
graça (meu favor, benignidade e misericórdia) é o bastante para
você (suficiente contra qualquer perigo, e o capacita a enfrentar
o problema corajosamente); pois minha força e poder são
aperfeiçoados (consumados e completados) e mostram-se mais
efetivos em [sua] fraqueza&quot; (versículo 9).
Nem sempre somos libertos dos nossos sofrimentos no preciso
momento que invocamos o nome do Senhor. Algumas vezes,
devemos perseverar por um tempo, ser pacientes, continuar em
fé. Graças a Deus, durante esses momentos nos quais o Senhor
decide por qualquer razão não nos libertar imediatamente, Ele
sempre nos dá a graça e a força de que precisamos para
prosseguir em busca da vitória final.
Você já se perguntou por que Deus nem sempre nos liberta de
nossa escravidão e problemas imediatamente? A razão é que
somente Deus sabe tudo o que precisa ser feito na vida de seus
filhos e o tempo perfeito para isso acontecer.
Por minha própria experiência, tenho aprendido a confiar em
vez de questionar. Não é errado perguntar a Deus o motivo, a
menos que esse questionamento produza confusão, e nesse caso
é muito melhor simplesmente confiar no Senhor, sabendo que
Ele nunca erra e nunca se atrasa! Freqüentemente,
compreendemos o porquê por trás de cada evento ou situação
somente depois de tudo ter terminado e podermos chegar do
outro lado olhando para trás. Há muitas experiências em minha
vida que, certamente, não compreendi enquanto não as superei.
Agora, contudo, consigo compreender alguma coisa do seu
significado e propósito.
Atravessar tribulações é doloroso. Em meu ministério,
freqüentemente compartilho com as pessoas que o livro de
Apocalipse diz que vencemos o diabo pelo sangue do Cordeiro e
pela palavra do nosso testemunho (veja Apocalipse 12.11). Um
testemunho de vitória em qualquer área da vida é importante.
Contudo, para ter um testemunho positivo, é necessário ter
vencido de forma bem-sucedida qualquer sofrimento ou
oposição.
A parte dolorosa é que devemos prosseguir mesmo enquanto
estamos sendo tentados ou provados; a parte gloriosa vem após
terminarmos de atravessar a tribulação e podermos, então,
testificar a grande vitória e a grande fidelidade de Deus. Não
temos testemunho algum sem atravessar uma provação.
P ORTAS DO S OFRIMENTO
Porque pessoalmente experimentei muita dor emocional,
assim como você também pode ter experimentado, cansei-me
de sofrer. Eu tentava encontrar a cura ao seguir a liderança do
Espírito Santo. Contudo, não conseguia honestamente
compreender por que o processo tinha de ser tão doloroso. Eu
sentia que para poder continuar enfrentando aquela dor
precisaria ter algumas respostas do Senhor. Eu realmente
progredia, obtinha melhora, alcançava uma vitória aqui e ali,
mas parecia que cada vez que fazia algum progresso o Senhor
me levava a uma nova fase de recuperação que sempre
significava mais dor e tormento emocional.
Enquanto eu orava a respeito da minha situação, Deus me deu
uma visão. Em meu coração, pude ver uma série de portas, uma
após outra. Cada uma representava um evento traumático em
meu passado que causara DOR quando ocorreu. O Senhor
mostrou-me que cada vez que eu enfrentava um dos eventos ou
situações dolorosas (ser sexualmente abusada em meu lar; ser
ridicularizada na escola por ser obesa; ser incapaz de ter amigos
íntimos; ser sujeita ao medo constante; ser abandonada por meu
primeiro marido; ser traída por um grupo de amigos da igreja; e
assim por diante) essa era uma nova porta de  DOR , através da
qual eu era forçada a passar.
Portas do sofrimento
Eu podia recordar vividamente a angústia do medo, rejeição,
abandono, e traição, assim como você, caso tenha sido vítima de
algum desses abusos que colocam as pessoas em tais prisões.
Quando, finalmente, permiti que o Senhor trabalhasse em
minha vida, Ele me revelou que eu estava escondida atrás de
cada uma daquelas &quot;portas da dor&quot;. Estava em profunda prisão,
buscando refugio em uma personalidade falsa, em simulação e
fachadas. Era simplesmente incapaz de compreender como me
livrar. Quando o Senhor começou a me libertar da escravidão,
aquilo doeu.
Agora compreendo que para sermos levados da escravidão
para a liberdade devemos atravessar essas mesmas portas da
dor, ou portas semelhantes, pelas quais anteriormente
passamos, para que possamos sair do outro lado. Quando somos
levados para a escravidão pelas portas da dor, devemos passar
pelas mesmas portas para sair do cativeiro. Ambos os momentos
são dolorosos: primeiro; por causa do abuso real; depois, por
causa da lembrança disso.
Com o objetivo de nos libertar e curar, o Senhor deve nos
levar a enfrentar tais questões, tais pessoas e tais verdades que
achamos difíceis, senão impossíveis, de enfrentar sozinhos.
Deixe-me dar alguns exemplos a você:
P RIMEIRO E XEMPLO
Sempre tive pavor de meu pai. Mesmo como uma mulher
adulta em meus 40 anos, com quatro filhos, eu ainda o temia.
Muitos eventos dolorosos tinham trazido esse medo à minha
vida.
Eu estava com 47 anos quando o Senhor me levou a,
finalmente, confrontar meu pai. Compartilharei mais sobre esse
confronto mais tarde neste livro, mas tive de olhar para meu pai
diretamente nos olhos e dizer-lhe: &quot;Não terei mais medo de
você&quot;.
Quando, finalmente, falei com meu pai sobre a forma abusiva
com que ele me tratou, o fiz em obediência e pela fé, mas não
sem &quot;temor e tremor&quot; (veja Filipenses 2.12). Tive de estar cara a
cara com uma das minhas portas da dor. Eu sabia que poderia
escolher: ou atravessar e chegar à liberdade do outro lado, ou
continuar na dor atrás da porta, escondida e permanecendo
sempre com medo de meu próprio pai.
É importante notar que confrontei meu pai, que foi a causa
primaria da minha dor, somente porque o Espírito Santo me
levou a fazê-lo. Não confronte seu abusador apenas porque eu o
fiz. Você deve orar e ouvir a direção de Deus com relação aos
passos corretos para sua libertação.
S EGUNDO E XEMPLO
Algumas vezes, as pessoas são feridas na igreja por outros
cristãos. De alguma forma, parecemos pensar que os crentes
nunca ferem outros crentes, e eles não deveriam mesmo fazê-lo.
Mas as coisas raramente são como deveriam ser, mesmo na vida
do povo de Deus. Nós, na igreja, ferimos um ao outro, e isso
causa da dor.
Freqüentemente, quando isso acontece, a parte ferida afasta-
se de qualquer associação ou envolvimento com aqueles que
causaram o sofrimento. Escondida atrás da porta da dor, a
pessoa ferida pode decidir: &quot;Já que fui ferido na igreja,
continuarei indo às reuniões (talvez), mas nunca mais me
envolverei com essas pessoas novamente&quot;. Essa é uma forma de
escravidão, porque a pessoa está permitindo que seu passado a
controle.
Deus nos levará a um lugar no qual nós devemos sair do
esconderijo e correr o risco de sofrer novamente. Quando
saímos, isso é equivalente a passar novamente através da
mesma porta de dor que nos levou à escravidão.
T ERCEIRO E XEMPLO
Aprender a submeter-se à autoridade pode ser difícil para
algumas pessoas. Foi certamente doloroso para mim. Já que eu
tinha sido abusada por autoridades que conhecera, minha
atitude era: &quot;Por que eu deveria permitir que alguém me
dissesse o que fazer&quot;? Eu não confiava em ninguém,
especialmente nos homens.
Quando o Espírito Santo me levou à fase da minha
recuperação em que tive de me submeter ao meu marido, a
batalha começou! Experimentei um terrível sentimento de
rebelião em minha carne. Eu queria ser submissa, porque
verdadeiramente cria que isso era bíblico, mas a dor da
submissão era mais do que eu podia suportar.
Eu não compreendia o que estava errado comigo. Percebo
agora que submeter-me a alguém mais e permitir que essa
pessoa tomasse decisões por mim levava-me de volta aos velhos
medos e lembranças de quando era manipulada e alguém tirava
proveito de mim. Tendo meu pai (na figura de autoridade)
dizendo-me que as perniciosas decisões que ele tomava por mim
eram para meu bem e todo o tempo odiando tanto o que ele
estava fazendo comigo, além da minha frustração de ser incapaz
de tomar alguma atitude, enfim, tudo isso não me deixava muito
empolgada com a idéia de submissão.
Para ser livre e tornar-me a pessoa saudável que Deus
desejava que fosse, eu tinha de aprender a submeter-me ao meu
marido. Como muitos dos cristãos, eu cria que o ensino bíblico
sobre a submissão da esposa e filhos ao marido e pai como
cabeça da casa é o plano revelado de Deus para as famílias. Eu
estava convencida de que esse princípio está estabelecido em
Sua Palavra e, portanto, não tinha escolha a não ser submeter-
me ou permanecer em rebelião contra o Senhor. Mas,
certamente, era doloroso! Agora estou livre e posso sentir a
satisfação e a segurança na submissão piedosa.
Muitas pessoas sentem-se confusas sobre a submissão. Elas
pensam que isso significa fazer tudo o que uma autoridade lhes
diz para fazer, não importa o que seja. A Bíblia ensina que
devemos ser submissos somente &quot;como convém no Senhor&quot;
(Colossenses 3.18).
Creio que esses exemplos ajudarão você a compreender as
&quot;portas da dor&quot; e como elas devem ser enfrentadas. Não olhe
para elas como entradas para o sofrimento, mas como o começo
da recuperação. Jesus sempre estará com você para guiá-lo e
fortalecê-lo enquanto você atravessa essas portas rumo à saúde
plena.
Lembre-se: a dor é, realmente, uma parte do processo de
cura. Se uma pessoa cai no concreto e a pele dos seus joelhos se
esfola, ela se machuca. No dia seguinte, a dor pode mesmo estar
pior do que quando a ferida acabara de acontecer. Em certo
momento, começará a se formar uma casca sobre a ferida, que é
um sinal de que o corpo está envolvido no processo de cura.
Mas, embora agora coberta com a casca protetora, sua ferida
continua repuxando, queimando e ardendo, porque há maior
volume de corrente sangüínea circulando ali para trazer cura à
área afetada.
A ferida inicial traz dor, mas freqüentemente o processo de
cura traz uma dor pior. Contudo, não é o mesmo tipo de DOR E
nem traz o mesmo resultado. As feridas emocionais de algumas
pessoas têm sido ignoradas por tanto tempo que se tornam
infectadas. Esse tipo de DOR é totalmente diferente da dor da
cura. Esse deve ser evitado; o outro é bem-vindo.
S EM S OFRIMENTO ,  SEM L IVRAMENTO !
Aprendi algo bastante sábio por meio da minha experiência
pessoal: não tenha medo da  DOR ! Por mais estranho que isso
possa parecer, quanto mais você teme e resiste à dor da cura,
mais isso aumenta o efeito que o sofrimento tem sobre você.
Um exemplo dessa verdade aconteceu anos atrás quando fiz
um jejum pela primeira vez em minha vida. Deus me chamou
para 28 dias de jejum à base de sucos. No início, passei por
momentos realmente difíceis. Eu estava muito, muito faminta.
De fato, eu me sentia tão faminta que estava realmente sentindo
dores. Enquanto eu clamava ao Senhor, lamentando que não
estava agüentando mais, Ele me respondeu. Profundamente
dentro de mim, ouvi uma &quot;voz mansa e suave&quot; (veja 1 Reis
19.12) do Senhor me dizendo: &quot;Pare de lutar contra a dor, deixei-
a trabalhar em você&quot;. Daquele dia em diante, o jejum foi muito
mais fácil, mesmo aprazível, porque eu sabia que cada vez que
me sentia desconfortável era sinal de progresso.
A regra é que quanto mais resistimos à dor, mais forte ela se
torna. Quando uma mulher grávida está em trabalho de parto, o
aviso que ela recebe das enfermeiras é: &quot;Relaxe&quot;. Ela sabe que,
quanto mais ela lutar contra a dor, mais forte a dor se tornará e
mais o processo de parto demorará.
Quando você está atravessando um tempo difícil, quando a
dor se torna tão grande que parece maior do que você pode
suportar, lembre-se de Hebreus 12.2: &quot;Tirando os olhos [de tudo
o que nos distrai] e focando em Jesus, que é o Líder e a Fonte da
nossa fé [dando o primeiro incentivo para a nossa fé] e também
o Seu Consumador [levando-a à maturidade e à perfeição]. Ele,
pela alegria [de obter o prêmio] que estava diante de si,
suportou a cruz, desprezando e ignorando a vergonha, e está
agora assentado à direita do trono de Deus&quot;.
P ERSEVERANÇA P RODUZ A LEGRIA
Quando você experimenta alguma dor, não lute contra ela.
Permita que ela complete seu propósito. Lembre-se desta
promessa: &quot;Aqueles que semeiam com lágrimas, colherão com
alegria e cânticos&quot; (Salmos 126.5). Aprenda a perseverar naquilo
de que você precisa, sabendo que há alegria do outro lado!
A cura pode ser dolorosa, mas você não tem nada a perder.
Você estará sofrendo de qualquer maneira; então pode, pelo
menos, colher o pleno benefício dessa dor. Tanto quanto você
permitir ao abuso do passado mantê-lo em escravidão,
permanecerá em sofrimento. Ao menos, a dor da cura produz um
resultado positivo: a alegria, em vez da miséria.
Deixe sua dor levá-lo para fora da escravidão, e não
aprofundá-lo nela. Faça a coisa certa, mesmo que seja difícil.
Obedeça a Deus e siga a direção do Espírito Santo sabendo que
&quot;o choro pode durar por uma noite, mas a alegria vem pela
manhã&quot; (Salmos 30.5).
8.A Única Saída É Prosseguir
EM UM  DOS nossos encontros, uma mulher veio à frente nos
pedindo que orássemos para certa prisão ser quebrada em sua
vida. Logo que comecei a orar, ela desabou a chorar. Quase
imediatamente, tive uma visão na qual ela estava numa pista,
como se estivesse participando de uma corrida. Enquanto
observava, pude ver que cada vez que a corrida ia começar ela
se movimentava em direção à linha de chegada, ia até o meio do
caminho, dava meia-volta e voltava à linha de partida.
Após algum tempo, ela repetia o processo. Isso aconteceu
várias vezes. Compartilhei com ela o que estava vendo e lhe
disse que cria que Deus estava lhe dizendo: &quot;Desta vez, você
precisa seguir o caminho até o fim&quot;. Quando compartilhei essa
mensagem com ela, imediatamente ela concordou que Deus
estava falando consigo. Seu problema era que, embora
freqüentemente ela fizesse alguns progressos em direção à cura
emocional, sempre desistia ao sofrer alguma pressão. Agora ela
estava determinada a progredir até a completa vitória.
É sempre muito mais difícil terminar do que começar. Não
existem realmente métodos &quot;instantâneos&quot; para a cura
emocional. Em 2 Coríntios 3.18, o apóstolo Paulo fala dos
cristãos sendo transformados &quot;de um degrau de glória a outro
degrau&quot;. Se você está atravessando o difícil processo da cura
emocional, encorajo-o a desfrutar o degrau de glória em que
você se encontra enquanto se move para o próximo nível.
Muitas pessoas transformam a cura emocional ou a
recuperação do abuso em tal provação que nunca permitem a si
mesmas desfrutar algum aspecto daquilo. Não permita a si
mesmo ser tentado a focar quanto você ainda tem de andar. Em
vez disso, contemple o lugar onde você já conseguiu chegar!
Lembre-se de que você tem uma vida para viver enquanto
você está sendo curado! Adote isso como sua atitude: não estou
onde preciso estar, mas, graças a Deus, não estou onde
costumava estar. Estou melhorando e estou caminhando!
P ROSSIGA
Em alguns aspectos, o crescimento espiritual pode ser
comparado com o crescimento físico. Há certos estágios pelos
quais temos de passar com o objetivo de amadurecer. Penso
que, seguramente, muitas pessoas não desfrutam a infância de
seus filhos quando eles estão crescendo. Em cada estágio do
crescimento, os pais desejam que os filhos estejam em outro
estágio. Se o filho está engatinhando, eles desejam que ele
esteja andando, ou deixando as fraldas, ou indo à escola,
formando-se, casando-se, dando-lhes netos, e assim por diante.
Temos de aprender a desfrutar cada estágio da vida enquanto
ele ocorre, porque cada fase tem alegrias e desafios específicos.
Como cristãos, estamos crescendo durante toda nossa vida.
Nunca podemos parar de progredir. Tome uma decisão agora de
começar a desfrutar a si mesmo enquanto se esforça para
alcançar cada novo nível de vitória.
Em Deuteronômio 7.22, Moisés diz aos filhos de Israel que o
Senhor expulsaria os inimigos de diante deles &quot;pouco a pouco&quot;.
Entre cada vitória em nossa vida há um tempo de espera.
Durante esse tempo, o Espírito Santo lida conosco, trazendo
novas revelações, ajudando-nos a enfrentar e a receber
verdades maiores. A espera geralmente é difícil para a maioria
de nós porque a impaciência está sempre presente entre nós,
gerando insatisfação. Queremos tudo agora!
A P ACIÊNCIA C OLHE AS P ROMESSAS
Muitas pessoas querem as bênçãos, mas elas não querem
preparar-se para elas. João Batista saiu pelo deserto clamando:
&quot;Preparai o caminho do Senhor&quot; (Mateus 3.3). Ele queria que as
pessoas soubessem que Jesus estava vindo fazer uma obra na
vida deles, mas eles precisavam estar preparados.
A Bíblia diz: &quot;Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram e nem
entrou no coração do homem, [tudo o que] Deus tem preparado
(feito e aprontado) para aqueles que o amam [que o consideram
com reverência afetuosa, que prontamente o obedecem e que,
de forma grata, reconhecem os benefícios que Ele tem
concedido]&quot; (1 Coríntios 2.9).
Há necessidade de maturidade espiritual para caminhar nas
dificuldades crendo que Deus tem algo bom planejado para nós.
Mas precisamos compreender que prosseguir é geralmente a
única saída que temos. Precisamos de fé, de paciência e de
perseverança com o objetivo de receber o resultado final de tudo
que Deus nos prometeu. A passagem de Hebreus explica:
Portanto, não abandoneis a vossa confiança sem temor, pois
ela carrega uma grande e gloriosa recompensa.
Pois tendes necessidade de permanecer em paciência e
perseverança, para que possais realizar e completar a vontade
de Deus, e assim receberdes e vos apropriardes [e desfrutardes
da plenitude] do que é prometido.
Pois ainda por um pouco (muito pouco), Aquele que há de vir,
virá, e ele não tardará (Hebreus 10.35-37).
Em Hebreus 6.11, lemos: Mas nós [forte e determinadamente]
desejamos que cada um de vós mostre a mesma diligência e
sinceridade [por todo o caminho] em perceber e desfrutar da
plena segurança e desenvolvimento da [vossa] esperança até o
fim.
Em Isaías 43.1-2 ARA, o Senhor adverte Seu povo dizendo:
Não temas, pois Eu te remi [te resgatei pagando um preço, em
vez de deixar-te cativo]; chamei-te pelo teu nome; tu és meu.
Quando passares pelas das águas, Eu estarei contigo; pelos
rios, eles não te submergirão; quando passardes pelo fogo, não
te queimarás [nem te chamuscarás], nem a chama arderá em ti.
(Grifo da autora, trechos entre colchetes da Versão Amplificada).
Davi disse do Senhor: Embora eu caminhe pelo [profundo e
escuro] vale da sombra da morte, eu não temerei nem me
amedrontarei com nenhum mal, pois o Senhor está comigo; a tua
vara [para proteger-me] e teu cajado [para dirigir-me] me
confortam&quot; (Salmos 23.4).
Freqüentemente, uma pessoa que teve raízes no abuso
termina com fortalezas em sua mente e em sua carne, por isso
deve atravessar o vale da sombra da morte para que essas
fortalezas sejam derrubadas e destruídas.
Paulo explica que guerreamos contra o inimigo ao
capturarmos os nossos pensamentos que não se alinham com
aquilo que Cristo disse, e ao trazê-los em sujeição ao que a
Palavra diz para fazer e crer:
Pois embora caminhemos (vivamos) na carne, não temos que
lutar de acordo com a carne e usar meras armas humanas.
Pois as armas da nossa luta não são físicas [armas de carne e
sangue], mas elas são poderosas diante de Deus para a queda e
para a destruição de fortalezas, para refutar argumentações e
teorias e raciocínios e tudo que se levante orgulhosa e
soberbamente contra o [verdadeiro] conhecimento de Deus; e
para levar cada pensamento e propósito cativo à obediência de
Cristo (o Messias, o Ungido). (2 Coríntios 10.3-5.)
Por exemplo, como resultado de ter sido abusada por tanto
tempo, desenvolvi uma personalidade independente; eu não
confiava em mais ninguém. Cedo na vida, cheguei à conclusão
de que, se tomasse conta de mim mesma e nunca pedisse nada
a alguém, então, sofreria menos. Quando o Senhor começou a
revelar que minha atitude independente não era bíblica, tive de
&quot;caminhar pelo vale da sombra da morte&quot;. Em outras palavras,
tive de deixar que a velha natureza (parte da velha Joyce) fosse
para a cruz e morresse.
A tentação é fugir de nossos problemas, mas o Senhor diz que
devemos enfrentá-los. As boas novas é que Ele tem prometido
que nunca teremos de enfrentá-los sozinhos. Ele sempre estará
ali para nos ajudar a cada passo do caminho. Ele tem dito: &quot;Não
temas, pois estou contigo&quot;.
E enfrentando as coisas com o Senhor que nossa fé é
edificada nele. Gosto muito da história de Sadraque, Mesaque e
Abde-Nego, encontrada em Daniel, capítulo 3. O rei os tinha
alertado para se prostrarem e adorá-lo ou ele os atiraria numa
fornalha de fogo.
Eles disseram: &quot;Bem, se Deus quiser nos libertar, Ele o fará,
mas, mesmo que Ele não nos liberte, nós não nos prostraremos
nem adoraremos a você, ó rei&quot;. Eles sabiam que Deus era capaz
de libertá-los, mas, se esse não fosse o plano dEle, ainda
manteriam sua integridade diante do Senhor e não desistiriam
de servi-lo. Precisamos nos comprometer a servir a Deus com tal
determinação.
Assim, os três homens foram atirados na fornalha, e o rei
tornou o calor sete vezes mais forte do que estava antes. Isso
me lembra as vezes quando tomamos a decisão certa, mas
parece que nossos problemas pioram.
Gosto dessa história porque ela diz que Sadraque, Mesaque e
Abde-Nego foram amarrados e atirados na fornalha, mas,
quando o rei observou o fogo, eles estavam soltos. Algumas
vezes, entramos nos problemas totalmente presos, mas é em
meio aos problemas, enfrentando-os, que somos soltos e
libertos. O rei viu um quarto homem no fogo com eles. Lembre-
se de que Jesus disse: &quot;Não temas, pois eu estou com você&quot;.
Quando Sadraque, Mesaque e Abde-Nego foram trazidos para
fora, eles nem mesmo cheiravam a fumaça. Refiro-me a esses
homens porque o diabo também tentou me destruir.
Experimentei muito abuso em minha vida e, quando tentava me
libertar, deparava-me com tanto sofrimento que não conseguia
compreender. Então, Deus me mostrou que quando passamos
por certas situações que nos colocam em escravidão, temos de
enfrentá-las para sermos livres.
Quando começamos nossa jornada rumo à saúde plena com o
Senhor, somos geralmente perturbados com o medo. O medo é o
inimigo da confiança. As pessoas podem ter medo de muitas
coisas: de dirigir carros, de ficar sozinhas e de algumas fobias
internas.
Creio que o medo é uma falsa evidência que parece algo real.
Se o diabo consegue nos assustar, então estamos colocando
mais fé naquilo que ele diz do que naquilo que Deus diz. Uma
coisa é sentir medo, mas o medo nos controlará se não nos
posicionarmos e enfrentar nossos medos.
Uma mulher estava compartilhando o medo que ela tinha de
fazer as coisas de que precisava fazer. Assim, uma amiga lhe
disse: &quot;Bem, faça-as mesmo com medo&quot;. Esse foi um conselho
transformador para mim. Algumas vezes, precisamos enfrentar
nossos medos e simplesmente &quot;fazer as coisas, mesmo com
medo&quot;.
Quando permitimos que o Senhor opere, Ele começa a nos
fortalecer e a desatar &quot;cada nó do medo, a Seu tempo&quot;. Ele nos
ajuda a enfrentar as coisas difíceis e a descobrir que suas
promessas são verdadeiras.
Nós não podemos gastar nossa vida fugindo de tudo que
tememos.
Algumas pessoas têm tanto medo de elevador que até
desistem de um emprego que está localizado no andar superior
de um prédio. Se elas desejam o emprego, então precisam tomar
o elevador, orar, subir poucos andares, sair, respirar e repetir o
processo, até que vençam esse medo. Precisamos vencer os
medos que nos mantêm fora da vontade perfeita de Deus para
nossa vida.
A Bíblia é cheia de versículos que dizem &quot;Não temas&quot;, porque
Deus sabia que Satanás iria tentar usar o medo para manter Seu
povo longe de cumprir seu destino em Deus.
Jesus disse a alguns dos seus primeiros discípulos: &quot;Eu sou o
caminho, sigam-me&quot;. Quando você decide seguir a Jesus, logo
aprende que Ele nunca retrocedeu por causa de medo. Seu
caminho sempre foi seguir em frente até a linha de chegada. Não
seja como aquela mulher na fila de oração que sempre desistia
no meio do caminho. Por mais difícil que pareça, decida
permanecer na corrida e prosseguir!
9. Deixe o Passado
Encorajo as pessoas a abandonar seu passado, mas nunca a
fugir dele. A única forma de obter a vitória sobre o sofrimento do
nosso passado é deixar Deus caminhar conosco de volta pela
porta do sofrimento e entrar em vitória. Ninguém pode alcançar
a vitória por nós; temos de desenvolver nossa própria salvação.
Paulo explicou essa verdade em sua carta à igreja em Filipos
dizendo:
Portanto, meus queridos... desenvolvei (cultivai, levai ao alvo,
completai totalmente) vossa própria salvação com reverência e
consciência e temor (sem autoconfiança, com séria precaução,
escrúpulo, vigilância contra a tentação, recuando de tudo que
possa ofender a Deus e desacreditar o nome de Cristo).
[Não em vossa própria força] Pois é Deus quem está todo o
tempo efetivamente operando em vós [energizando e criando
em vós o poder e desejo], tanto para o querer quanto para o
realizar da Sua boa vontade, satisfação e deleite (Filipenses 2.12,
13).
Temos de deixar Deus nos levar a enfrentar as coisas e
trabalhar em nós para que nossa confusão se torne a nossa
mensagem. As dificuldades que temos de enfrentar do nosso
passado nos preparam para as bênçãos de Deus em nosso
futuro.
Mesmo Jesus teve um tempo de treinamento para seu futuro.
Hebreus 5-8-9 diz: Embora Ele fosse um Filho, aprendeu a
obediência [ativa e especial] através do que sofreu e, [após
passar integralmente por tudo] foi aperfeiçoado [equipado],
tornando-se o Autor e Fonte da eterna salvação para todos
aqueles que atentam para Ele e Lhe obedecem.
Houve um período na vida de Jesus do qual nada ouvimos
sobre o que Lhe aconteceu. Durante esse tempo, apenas
sabemos que Ele estava crescendo. Nós também passamos por
tempos de crescimento dos quais somos incapazes de falar a
respeito com alguém. E um tempo pessoal de crescimento que
devemos enfrentar. Pode tratar-se de coisas dentro de nós que
não compreendemos. Mas quando, finalmente, chegarmos ao
lugar ao qual Deus queria nos levar, constataremos como o
nosso passado nos preparou para aquilo que Deus desejava
durante todo o tempo.
Gosto da história sobre o casal que foi a um antiquário certa
vez e encontrou uma bela xícara de chá sobre uma prateleira.
Eles a pegaram na prateleira e, assim, puderam vê-la mais de
perto. Então disseram: &quot;Vamos comprar essa xícara
maravilhosa&quot;.
Subitamente, a xícara começou a dizer: &quot;Não fui sempre
assim. Houve um tempo em que eu era apenas um frio, áspero e
descolorido punhado de barro. Um dia, meu mestre pegou-me e
disse: &#39;Eu farei alguma coisa com isso&#39;. Então, ele começou a me
amassar, a me enrolar e a mudar minha forma.
Eu disse: &#39;O que você fazendo? Isso dói. Não sei se quero
parecer com isso! Pare&#39;! Mas ele disse: &#39;Não ainda&#39;.
Assim, ele me colocou-me numa roda e começou a girar-me, a
girar-me, até eu gritar, &#39;Pare com isso, estou ficando tonta&#39;! &#39;Não
ainda&#39;, &#39;ele disse&#39;.
Então ele me moldou na forma de uma xícara e colocou-me
em um forno quente. Gritei: &#39;Tire-me daqui! Está quente aqui,
estou sufocando&#39;. Mas ele apenas olhou-me através da pequena
janela de vidro e sorriu dizendo: &#39;Não ainda&#39;.
Quando ele me tirou dali, pensei que seu trabalho tinha
terminado, mas então ele começou a me pintar. Eu não podia
acreditar no que ele fez em seguida. Ele colocou-me de novo no
forno, e eu disse: &#39;Você tem de acreditar em mim, não posso
agüentar mais isso! Por favor, tire-me daqui!&#39;. Mas ele disse:
&#39;Não ainda&#39;.
Finalmente, ele me tirou do forno e colocou-me numa
prateleira onde eu pensei que ele havia se esquecido de mim.
Então, um dia, ele me tirou da prateleira e me levou diante de
um espelho. Eu não podia acreditar no que estava vendo. Eu
tinha sido transformada nessa linda xícara de chá que todos
desejam comprar.&quot;
S UBMETA -S E ÀS M ÃOS DO O LEIRO
Deus tem um plano maravilhoso para nossa vida, e algumas
vezes Ele começa a fazer mudanças tão rapidamente que nos
sentimos meio atordoados, como um punhado de barro na roda
do oleiro. Mas temos de confiar que Ele está trabalhando naquilo
que é melhor para nós (veja Romanos 8.28). Precisamos apenas
fluir com a corrente e deixar que Ele nos transforme em algo
belo. Isaías compreendeu esse processo quando ele escreveu,
&quot;... porque escondes de nós o rosto... Mas agora, ó Senhor, tu és
nosso Pai, nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós,
obra das tuas mãos&quot; (Isaías 64.7-8 ARA).
Para termos vitória na vida cristã, temos de desejar largar o
passado, morrer para o &quot;eu&quot;, perdoar àqueles que nos ferem e
deixar Deus nos levar ao lugar das bênçãos prometidas que Ele
preparou para nós. Ninguém pode prometer que tudo será
transformado da maneira que gostaríamos. Algumas coisas
podem nunca se tornar da forma que desejamos, mas Deus pode
nos mudar tanto que não iremos nos importar.
Nosso conforto tem de estar em Cristo. Precisamos esquecer
aquilo que os outros pensam a nosso respeito ou o que as
pessoas nos fizeram no passado. Temos de fixar nossa atenção
naquilo que Deus quer fazer em nós, conosco, e por nós agora.
Paulo escreveu: &quot;...pois nele vivemos, e nos movemos, e
existimos&quot; (Atos 17.28 ARA).
Abandonar o passado envolve olhar para tudo de nova forma.
Em Gaiatas 2.20, Paulo oferece uma promessa a nós que
necessitamos deixar as feridas do passado para podermos agora
confessar: &quot;Fui crucificado com Cristo [nele eu tenho
compartilhado de Sua crucificação]; não sou mais eu quem vive,
mas Cristo (o Messias) vive em mim; e a vida que eu agora vivo
no corpo, vivo pela fé (por aderir e apoiar-se e confiar
completamente) no Filho de Deus, que me amou e deu-se a si
mesmo por mim&quot;.
Precisamos aprender a ficar satisfeitos por estarmos na
vontade de Deus. Quanto mais nos tornarmos o que
verdadeiramente somos em Cristo, menos importa o que fomos
no passado ou mesmo aquilo que nos aconteceu. Paulo disse:
&quot;Considero tudo como perda, comparado com a possessão do
privilégio incalculável (a preciosidade grandiosa, o valor
insuperável, e o supremo privilégio) de conhecer a Cristo Jesus,
meu Senhor, e de progressivamente tornar-me mais profunda e
intimamente familiarizado com Ele [e percebê-lo, reconhecê-lo e
compreendê-lo mais plena e claramente]&quot; (Filipenses 3.8).
Ele acrescentou: Pois [meu firme propósito é] que eu possa
conhecê-lo [que eu possa progressivamente tornar-me mais
profunda e intimamente familiarizado com Ele, percebendo,
reconhecendo e compreendendo as maravilhas de sua pessoa,
mais forte e claramente], e que eu possa da mesma forma vir a
conhecer o poder que flui de sua ressurreição [que é exercido
sobre os crentes], de modo que possa assim compartilhar seus
sofrimentos para ser continuamente conformado [no espírito da
sua própria semelhança] à sua morte, [na esperança] de que
seja possível alcançar a ressurreição [espiritual e moral] (que me
levanta) dentre os mortos [mesmo enquanto no corpo]&quot;
(Filipenses 3.10-11).
Há lugares profundos para descobrirmos em Deus, e há
lugares profundos em nós que somente Deus pode preencher.
Precisamos compreender o poder da ressurreição de Deus, poder
que nos levantará dentre os mortos, mesmo enquanto vivermos
no corpo. Assim como a águia descansa suas asas nas correntes
do ar para plainar acima das nuvens, Cristo nos levantará acima
das tempestades de nossa vida.
Podemos ter um alvo de nos mover em direção à perfeição,
mas nunca chegaremos a esse estado da perfeição até que Jesus
volte. Devemos aceitar a nós mesmos, devemos nos amar e
desfrutar a jornada porque sabemos que Deus está trabalhando
em nosso futuro todo o tempo.
PROSSEGUINDO PARA O QUE ESTÁ ADIANTE Paulo continuou a
escrever: Não que eu agora já tenha alcançado [este ideal] ou,
que já tenha me tornado perfeito, mas eu prossigo em
conquistar (apoderar-me) e tornar meu, aquilo pelo qual Cristo
Jesus (o Messias) já conquistou para mim e tornou meu. Eu não
considero, irmãos, que já tenha capturado e conquistado [ainda];
mas uma coisa eu faço [e esta é a minha aspiração]:
esquecendo-me do que fica para trás e buscando o que está
adiante, eu prossigo para o alvo para conquistar o prêmio
[supremo e celestial] para o qual Deus, em Cristo Jesus, está nos
chamando a alcançar! (Filipenses 3.12-14, grifo da autora).
Se você tem se sentido miserável por causa das coisas que
aconteceram em seu passado, encorajo-o a fazer como eu fiz e
colocar seu foco numa nova direção. Determine ser o que Deus
quer que você seja, ter o que Deus quer que você tenha e
receber o que Jesus morreu para lhe dar.
Quando você estiver pronto para mudar, diga: &quot;Não vou mais
viver em escravidão. Não vou viver numa caixa, comparando-me
com os outros, e tentando ser o que eles dizem que eu devo ser.
Não posso fazer nada a respeito do que ocorreu no meu passado,
mas posso fazer algo sobre o meu futuro. Vou desfrutar minha
vida e ter o que Jesus morreu para que eu tenha. Vou abandonar
o passado e prosseguir buscando a Deus deste dia em diante&quot;.
Exige maturidade abandonar o passado, mas um cristão
maduro recebe a plenitude das bênçãos de Deus. Você pode
esquecer as falhas antigas, os antigos desapontamentos e os
antigos relacionamentos que não funcionaram. Em vez disso,
você pode descobrir as novas misericórdias que Deus está
pronto para lhe dar a cada dia por causa da aliança que Ele fez
com você quando você colocou sua confiança em Seu Filho Jesus
Cristo para salvá-lo.
O rei Davi procurou familiares de seu antecessor, o rei Saul,
porque ele queria abençoá-los, simplesmente porque ele tinha
um relacionamento de aliança com o filho de Saul, Jônatas. Em 2
Samuel 9, encontra-se a história de como Davi encontrou o filho
aleijado de Jônatas, Mefibosete, e o trouxe ao palácio real onde
poderia cuidar dele. Mefibosete não Unha. feito nada para
merecer essa proteção e provisão, exceto que ele tinha um
relacionamento com aquele que tinha uma aliança com Davi.
Essa é uma figura que nos mostra a razão pela qual Deus
cuida de nós. Ele nos abençoa porque nós, como crentes, temos
um relacionamento com Seu Filho. Não merecemos ser
abençoados. Não merecemos as bênçãos. Podemos até mesmo
ser aleijados emocionalmente por causa de algum incidente de
nosso passado. Mas Deus nos apanha e nos restaura para o
devido lugar em Seu reino de paz.
Deus não espera que façamos tudo certo antes de nos
abençoar. De fato, a oração mais ungida que podemos fazer é:
&quot;Senhor, ajude-me&quot;. Não podemos alcançar a perfeição sem
Deus. Devemos ser totalmente dependentes dEle para manter
suas promessas em nossa vida. Somos somente chamados para
ser aqueles que crêem, do contrário seríamos aqueles que fazem
(N.T.: João 6.28,29).
Os discípulos perguntaram a Jesus: &quot;O que devemos fazer para
que possamos (habitualmente) realizar as obras de Deus? (O que
devemos fazer para cumprir o que Deus requer?)&quot; (João 6.28).
Jesus respondeu, &quot;Esta é a obra (serviço) que Deus pede de
vocês: Que creiam naquele que Ele enviou (que se apeguem,
confiem, apóiem-se, tenham fé em seu Mensageiro)&quot; (v. 29).
Os versículos 1 -12 do Salmo 51 oferecem uma poderosa
oração para nós fazermos:
C OMPADECE - TE de mim, ó Deus, segundo o teu constante amor, e,
segundo a multidão das tuas misericórdias e bondade amorosa,
apaga as minhas transgressões.
Lava-me completamente (e repetidamente) da minha
iniqüidade e culpa, e purifica-me e torna-me completamente
limpo do meu pecado.
Pois eu conheço as minhas transgressões e as reconheço, e o
meu pecado está sempre diante de mim.
Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mal perante
os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e
puro no teu julgar.
Eu nasci na (num estado de) iniqüidade, e em pecado me
concebeu minha mãe (e eu também sou pecador).
Eis que te comprazes na verdade no íntimo e no recôndito me
fazes conhecer a sabedoria.
Purifica-me com hissopo, e ficarei (cerimonialmente) limpo;
lava-me, e ficarei (verdadeiramente) mais alvo que a neve.
Faze-me ouvir júbilo e alegria e satisfação, para que exultem
os ossos que esmagaste.
Esconde o rosto dos meus pecados e apaga toda a minha
culpa e as minhas iniqüidades.
Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de
mim um espírito reto, perseverante e inabalável.
Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo
Espírito.
Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um
espírito voluntário.
Se simplesmente pedirmos a Deus, Ele nos libertará do
sofrimento do nosso passado e criará em nós um espírito
inabalável. Mas, embora não tenhamos que fazer alguma coisa
para receber a libertação de Deus, podemos perder as bênçãos
se fugimos dos nossos problemas sem deixar que Deus nos leve
a enfrentá-los.
Moisés buscou um caminho mais fácil para sair de seus
problemas após ter antecipado o tempo de Deus. Ele matou um
egípcio, e houve uma testemunha do assassinato; assim, ele
fugiu para se esconder no deserto. Antes que Deus chamasse
Moisés para liderar a saída para a terra prometida, Ele lhe disse
para voltar ao Egito (veja Êxodo 3-1-10): &quot;Porque eu
seguramente tenho visto o abuso e opressão sobre o meu povo
no Egito, e tenho ouvido o seu gemido e clamor, Eu desci para
resgatá-lo. Então, venha! Eu te enviarei de volta ao Egito [como
meu mensageiro]&quot; (Atos 7.34).
Deus estava enviando Moisés de volta para o povo que O
tinha &quot;negado (ignorado e rejeitado)&quot; (Atos 7.35)- Seu próprio
povo tinha debochado dEle dizendo: &quot;Quem te pôs por príncipe e
juiz sobre nós&quot;? (veja Êxodo 2.14). Moisés, provavelmente, não
ficou empolgado em ter de voltar e enfrentar seus problemas no
Egito.
Deus nem sempre nos chama para voltarmos fisicamente a
um lugar em que estivemos. Mas se, por exemplo, tivemos um
tempo difícil submetendo-nos a um chefe com certa
personalidade, Deus pode nos chamar para continuar
trabalhando com alguém que tem a mesma personalidade até
que dominemos a situação de uma forma que Lhe agrade. Deus
não quer que estejamos em fuga; Ele quer que confrontemos
nossos medos e frustrações com o objetivo de encontrar paz
nEle.
Em 1 Reis 19, Elias fugia quando Deus lhe disse que voltasse e
completasse o que Ele lhe mandara fazer. Quando Jonas fugiu de
seus problemas, ele foi engolido por um grande peixe. Quando
Deus o libertou do peixe, Ele lhe disse que voltasse Nínive e
proclamasse sua mensagem para as pessoas ali (veja Jonas,
capítulos 1-3).
Se tentarmos resolver nossos próprios problemas sem esperar
em Deus, poderemos nos envolver em grandes confusões. Sara
fez isso quando convenceu seu marido Abraão a ter um filho com
sua serva Hagar, em vez de esperar pelo filho que Deus lhes
prometera (veja Gênesis 16). Hagar, finalmente, fugiu por causa
da maneira como Sara a tratava, mas o anjo do Senhor lhe disse:
&quot;Volte para sua senhora e (humildemente) submeta-se ao Seu
comando&quot; (v. 9). Ele prometeu abençoar sua obediência ao lhe
dar muitos descendentes (veja v. 10).
Deus pode lhe dizer para voltar ao lugar de sua frustração e
dor, para que Ele possa conduzi-lo através da porta do
sofrimento para um viver vitorioso. Não fuja do Seu convite para
a cura emocional.
F ORMAS PELAS Q UAIS AS P ESSOAS F OGEM DE S EUS P ROBLEMAS
É comum as pessoas fugirem dos seus problemas porque não
querem ter responsabilidade por suas ações. A maioria das
pessoas procura o caminho mais fácil em vez de procurar a
escolha certa. Alguns fogem fisicamente de seus problemas,
saindo de casamento para casamento, de emprego para
emprego. Outros fogem mentalmente de seus problemas usando
drogas e álcool. Mas os problemas não desaparecem ao evitá-
los.
Cada escolha que fazemos traz resultados. Se escolhermos
nunca limpar a casa, finalmente tudo se estragará. Se
decidirmos não ir ao supermercado, cedo ou tarde não teremos
mais comida em casa. O problema é que queremos fazer
escolhas erradas e obter resultados certos, mas isso não
funciona. Sempre colhemos o que semeamos (veja Gaiatas 6.7-
8). Se escolhermos fazer o que é certo, conseqüentemente,
quebraremos o ciclo de problemas que vêm contra nós.
Algumas pessoas fogem dos problemas dando desculpas.
Quando Deus as confronta com algo, elas dizem: &quot;Bem, estou
agindo assim porque estou cansado&quot;. Ou, &quot;Agi dessa forma
porque tenho sido maltratado toda a minha vida&quot;. Uma desculpa
é um motivo recheado com uma mentira. O problema com as
desculpas é que, enquanto permanecermos com elas, não
veremos mudanças.
Jesus contou a história de um homem que planejava um
grande banquete e convidou muitas pessoas (veja Lucas 14.16-
24), mas, um por um, eles deram desculpas com os motivos
pelos quais eles não poderiam ir. O primeiro disse que estava
muito ocupado com um pedaço de terra que tinha acabado de
comprar, o outro deu a desculpa de ter comprado bois que
precisavam ser cuidados e o terceiro disse que não poderia vir
porque tinha acabado de se casar. Assim, o homem convidou
todos os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos das ruas e
encheu sua casa com pessoas que desejavam ser abençoadas.
Aqueles com desculpas nunca experimentaram o grande
banquete que tinha sido preparado para eles.
Outra forma de as pessoas fugirem de problemas é culpando
outros por tudo que está errado. Adão culpou Eva por comer o
fruto proibido; ele culpou até Deus por ter-lhe dado a mulher,
enquanto Eva culpou a serpente por enganá-la (veja Gênesis 3).
Os israelitas culparam Moisés por sua miséria no deserto e
desejaram voltar ao seu lugar de escravidão no Egito (veja Êxodo
14.10-12).
Lembro-me de quando me cansei de culpar a todos pelos
meus problemas. Tudo era falha de Dave ou da minha educação.
Tive de ver que eu era meu único real problema.
Jesus disse: &quot;Por que você olha apenas para uma pequena
partícula que está no olho de teu irmão, mas não toma
consciência e considera na trave de madeira que está no teu
próprio olho&quot;? (Mateus 7.3).
Desfruto tremenda liberdade agora, mas isso foi conquistado
enfrentando a verdade sobre mim mesma. Deus me mostrou que
eu tinha má atitude, e meus problemas não seriam resolvidos
até que eu mudasse. É difícil mudar, mas tive de enfrentar o que
Deus tinha me revelado.
Somente conquistamos a liberdade ao ouvir a verdade e fazer
o que Deus nos diz para fazermos. Por exemplo, se Deus disser
que você tem problemas porque sente inveja, você continuará a
perder as bênçãos até lidar com isso. Você terá de começar a se
alegrar quando coisas boas acontecerem com outras pessoas.
Seja o que for que mantenha você em escravidão, terá de ser
confrontado com a verdade antes que você possa prosseguir.
As pessoas também fogem de seus problemas ao se
manterem muito ocupadas. Podemos nos manter ocupados até
mesmo ao fazermos a obra da igreja e não termos tempo para
ouvir a Deus. Eu estava no ministério em tempo integral,
ajudando pessoas a resolver seus problemas, quando Deus falou
comigo: &quot;Joyce, você está tão ocupada em fazer as coisas para
mim que você nunca passa tempo comigo&quot;. Tive de dar uma
olhada honesta em meu tempo e parar de fazer muitas coisas
que não estavam dando frutos. Permanecer ocupada estava me
ajudando a evitar questões que eu precisava resolver.
Paulo orou para que nós, a Igreja, aprendêssemos a perceber
o que é vital:
E isso eu oro: que o vosso amor possa abundar mais e mais e
estender-se ao seu pleno desenvolvimento em conhecimento e
em toda profunda percepção [que vosso amor possa manifestar-
se em maior profundidade de conhecimento e num
discernimento mais abrangente].
Assim, que vós possais aprender mais seguramente a
perceber o que é vital, e aprovar e valorizar o que é excelente e
de real valor [reconhecendo o excelente e o melhor, e
distinguindo as diferenças morais], e serdes imaculados, puros,
sem falhas e irrepreensíveis [assim que com corações sinceros,
corretos e imaculados possais chegar] no dia de Cristo [não
tropeçando nem levando outros a tropeçar] (Filipenses 1.9,10).
Precisamos saber ao que dizer sim e o que rejeitar. Tive de
aprender como dizer não porque decidi fazer cada dia
compensar o que eu tinha perdido nesta vida. Muitas vezes, o
que parece bom é um inimigo do melhor.
Por exemplo, Deus disse a uma mulher que eu conhecia que
ela precisava parar de gastar tanto tempo ajudando outras
pessoas e passar mais tempo com seu próprio filho. Precisamos
saber o que Deus quer que façamos com nosso tempo, e
somente aprendemos o que Ele quer passando tempo com Ele
em oração. Se ouvir a Deus é difícil para você, eu o encorajo a
ler meu livro intitulado How to Hear from God (Como Ouvir a
Deus). Nele eu compartilho muitas formas de Deus comunicar-se
conosco, e como isso sempre se alinha com Sua Palavra e nos
leva à paz.
A procrastinação é outra forma comum de fugir dos
problemas. Damos desculpas, acusamos os outros e dizemos que
estamos muito ocupados, e assim protelamos algo que Deus nos
disse para fazer. Pensamos que o faremos mais tarde, mas esse
mais tarde nunca chega. &quot;Tornamo-nos tardios ou surdos para
ouvir&quot;.
Ageu 1.2-7 mostra o que acontece com aqueles que
desprezam o que Deus lhes disse para fazer:
Assim fala o Senhor dos Exércitos: Este povo diz: Não veio
ainda o tempo, o tempo em que a Casa do Senhor deve ser
edificada (embora Ciro já tivesse ordenado que isso fosse feito
18 anos antes).
Veio, pois, a palavra do Senhor, por intermédio do profeta
Ageu, dizendo:
Acaso, é tempo de habitardes vós em casas apaineladas,
enquanto esta casa (do Senhor) permanece em ruínas?
Ora, pois, assim diz o Senhor dos Exércitos: Considerai os
vossos caminhos e ponderai no que tem acontecido a vocês.
Tendes semeado muito e recolhido pouco; colheis, mas não
chega para fartar-vos; bebeis, mas não dá para saciar-vos;
vestis-vos, mas ninguém se aquece; e o que recebe salário,
recebe-o para pô-lo num saquitel furado.
Assim diz o Senhor dos Exércitos: Considerai o vosso caminho
(sua conduta passada e presente) e como tendes vivido.
Temos de nos motivar a fazer o que Deus nos diz para fazer,
quando Ele nos diz para fazer. Salomão escreveu; &quot;Aquele que
observa o vento [que espera por todas as condições favoráveis]
nunca semeará, e aquele que considera as nuvens nunca
colherá&quot; (Eclesiastes 11.4).
Se você olhar para suas circunstâncias, você protelará o que
Deus está lhe dizendo para fazer. Pode mesmo parecer que seja
o pior momento para fazer o que Deus disse, mas há uma unção
no &quot;agora&quot;, se Deus lhe disse para agir.
Não é bom passar nosso tempo fugindo dos problemas.
Precisamos diminuir a marcha, discernir o que é vital, aceitar a
responsabilidade por nossas ações e, se necessário,
simplesmente dizer: &quot;Eu estou errado e peço desculpas&quot;. Não
devemos deixar a procrastinação nos roubar as bênçãos de
Deus.
Se quisermos desfrutar o melhor de Deus para nossa vida,
devemos parar de dar desculpas, de culpar os outros e de ser
ocupados demais para fazer o que Deus nos diz para fazer. Ele
pode nos pedir para dar, ajudar, orar, perdoar, para pedir perdão
ou alguma coisa mais. Mas seja o que for, precisamos aprender a
ser &quot;pessoas do agora&quot; que ouvem a Deus e agem rapidamente
quando Ele fala conosco.
10. Redimidos e Tornados Justos
JESUS C RISTO DEU sua vida para que possamos ter justiça. A
justiça é destinada a todos os que crêem com &quot;fé pessoal e
dependência confiante em Jesus Cristo (o Messias)&quot; (Romanos
3.22). Falando de Jesus, Pedro escreveu: Ele pessoalmente
carregou nossos pecados em Seu [próprio] corpo no madeiro
[como num altar e ofereceu-se a si mesmo nele], para que nós
pudéssemos morrer (cessar de existir) para o pecado e viver
para a justiça. Por suas chagas fostes sarados (1 Pedro 2.24).
Fomos criados por Deus para nos sentirmos satisfeitos e bem
a respeito de nós mesmos. Mas o diabo quer que nos sintamos
mal; ele quer que sintamos vergonha, culpa e condenação. Por
causa da presença do pecado no mundo e da natureza do
pecado que veio sobre nós por meio da queda da humanidade,
não podemos fazer tudo corretamente.
Para resistir à tentação do diabo de viver em constante
remorso em vez de contínua vitória, devemos conhecer e
compreender a verdade da Palavra de Deus. Quando aceitamos
Jesus como nosso Salvador, Ele transfere ou nos dá o dom da
justiça, e pela fé somos feitos justos diante de Deus. Não somos
feitos justos diante de Deus por causa da nossa própria perfeição
ou de nossas boas obras; somos considerados justos por causa
da nossa confiança em Jesus Cristo.
Em 2 Coríntios 5-21, o apóstolo Paulo nos diz o que Deus fez
por nós: &quot;Por nossa causa Ele fez Cristo [virtualmente] tornar-se
pecado, aquele que não conheceu pecado, para que nele e
através dele nós pudéssemos nos tornar [ser dotados da, visto
como sendo, e exemplos da] justiça de Deus [o que nós devemos
ser, aprovados e aceitáveis e em correto relacionamento com
Ele, pela sua bondade]&quot;.
Deus enviou Jesus Cristo para nos redimir (isto é, para nos
comprar de volta do diabo para quem nos vendemos como
escravos do pecado), para nos restaurar (para nos fazer como
deveríamos ser desde o início). Fomos criados e redimidos por
Deus para a justiça, não para a vergonha, a culpa ou a
condenação.
N ENHUMA C ONDENAÇÃO EM C RISTO
Se lermos e compreendermos a Palavra de Deus, podemos nos
libertar de pensamentos errados sobre nós mesmos. Paulo
escreveu em Romanos 8.1: &quot;Portanto, [não há] agora nenhuma
condenação (nenhuma sentença de culpa pelo erro) para
aqueles que estão em Cristo Jesus, que vivem (e) andam, não
segundo os ditames da carne, mas segundo os ditames do
Espírito&quot;.
Certamente, se seguirmos a direção do Espírito Santo, nunca
deveríamos fazer algo errado, e assim a culpa não teria lugar
para criar raiz em nós. Contudo, como somos humanos, estamos
sujeitos a cometer um erro. Como nosso Senhor apontou, &quot;o
espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca&quot; (Mateus
26.41-ARA).
Não conseguimos fazer tudo de forma perfeita, embora
gostaríamos de fazê-lo, mas podemos ser livres da culpa ao
caminharmos no Espírito. O Senhor prometeu nos dirigir em
nossa vida se atentarmos para Ele e obedecer-Lhe: &quot;Dai ouvidos
à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo;
andai em todo o caminho que eu vos ordeno, para que vos vá
bem&quot; (Jeremias 7.23-ARA, grifo da autora).
Pecamos quando paramos de fazer o que o Espírito Santo nos
manda fazer. Sentimentos de condenação e culpa vêm como
resultado desse pecado, porque o diabo vê uma brecha e
imediatamente se move para nos roubar de nossa confiança na
graça de Deus. Se realmente queremos viver sem culpa,
devemos lidar com a tentação de pecar tão logo estejamos
conscientes dela.
Se você entrar em tentação ou cair em pecado, em vez de
tentar restaurar-se por meio de boas obras, que significa
caminhar segundo a carne (sua natureza humana), peça a Deus
que lhe perdoe e escolha voltar-se para o Espírito. Você peca
porque deixa de seguir a direção do Espírito Santo. Se você se
mantiver seguindo a carne, somente se aprofundará mais e mais
no problema e na confusão. Se, pelo contrário, você se voltar
rapidamente e seguir o Espírito, permitirá que Ele o oriente e o
direcione para resolver sua situação.
O Espírito sempre tem a resposta certa para cada problema, e
Ele não o condena quando você retorna a Ele. Está escrito:
&quot;Porque Deus não nos destinou para [derramar] a [sua] ira [Ele
não nos escolheu para nos condenar], mas para alcançar a [Sua]
salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo (o Messias)&quot; (1
Tessalonicenses 5.9).
Por exemplo, o Espírito nos guiará ao arrependimento, que
produz o perdão de Deus:
Se nós [livremente] admitimos que temos pecado e
confessarmos nossos pecados, Ele é fiel e justo (verdadeiro em
sua própria natureza e promessas) para perdoar nossos pecados
[remover nossa iniqüidade] e [continuamente] nos purificar de
toda a injustiça [tudo o que não está em conformidade com a
sua vontade em propósito, pensamento e ação] (1 João 1.9).
Quando as pessoas seguem a carne, podem ser levadas a
pensar que Deus tem a obrigação de retribuir-lhes por suas
obras. Mas a carne sempre tenta reparar seus erros em vez de
simplesmente receber o dom do perdão e da restauração de
Deus.
L IDANDO COM A C ULPA
O Senhor, certa vez, deu-me uma grande revelação sobre a
culpa. Até onde posso me lembrar, eu vivia sentindo culpa, A
culpa era minha constante companhia. Andávamos sempre
juntas por todo lugar! Essa consciência do pecado começou
desde minha infância, quando fui abusada sexualmente. Ainda
que meu pai me dissesse que aquilo que ele fazia comigo não
era errado, eu me sentia suja e culpada. Certamente, ao me
tornar mais velha, consciente de que aquilo estava errado, mas
sem conseguir resolver a situação, minha culpa só continuou e
cresceu.
O que aprendi por experiência própria é que a culpa é um
peso insuportável, uma carga que oprime o espírito. A culpa faz
tudo parecer escuro e nos faz sentir cansados e fracos.
Realmente, ela tira nossa energia e suga a força de que
precisamos para resistir ao pecado e a Satanás. Assim, o
resultado é que a culpa e a condenação realmente fazem o
pecado crescer.
Creio que era viciada em culpa. Antes que aprendesse sobre a
graça de Deus, não me lembro de ter me sentido em algum
momento sem culpa! Mesmo não fazendo nada particularmente
mau ou pecaminoso, eu descobria alguma forma de me sentir
errada a respeito de algo.
Satanás quer nos empurrar para baixo. Ele é o acusador
daqueles que crêem em Cristo; ele continua a trazer acusações
contra nós diante de Deus (veja Apocalipse 12.10). Mas Davi, o
salmista, escreveu: &quot;Porém tu, Senhor, és o meu escudo, és a
minha glória e o que exaltas a minha cabeça&quot; (Salmos 3.3-ARA).
Por exemplo, fui fazer compras certo dia, e a minha constante
companhia de culpa estava comigo. Não me recordo do que
tinha feito de errado daquela vez; mas isso nem mesmo importa,
pois sempre havia algo. Eu estava saindo de meu carro para ir a
uma loja quando o Espírito Santo me disse: &quot;Joyce, como você
planeja obter o perdão para este pecado&quot;?
Eu sabia a resposta certa e disse: &quot;Aceitarei o sacrifício que
Jesus fez por mim quando Ele morreu no calvário&quot;. Podemos
saber a resposta (termos um conhecimento mental) e, ainda
assim, não aplicá-la para nossa própria situação.
Então o Espírito Santo continuou: &quot;Compreendo Joyce, mas
quando você planeja aceitar o sacrifício de Jesus&quot;?
Uma grande revelação começou a brilhar dentro de mim!
Naquele momento, percebi que podia esperar dois ou três dias
até me sentir culpada o suficiente e, então, aceitar o perdão de
Deus, ou poderia receber o perdão naquele mesmo momento.
Sempre pedi perdão por meus pecados imediatamente, mas
nunca os aceitava até sentir que já tinha sofrido o suficiente para
pagar por isso. Deus revelou-me o que eu estava fazendo,
quanta dor desnecessária eu estava causando a mim mesma. Ele
até me mostrou que aquilo que eu estava fazendo insultava a
Jesus, pois, em essência, eu estava dizendo: &quot;Senhor, o sacrifício
de sua vida e sangue foi bom, mas não foi bom o suficiente.
Devo acrescentar minha obra de sentimento de culpa antes que
eu possa ser perdoada&quot;.
Naquele mesmo dia comecei a me libertar da culpa e da
condenação. Encorajo você a fazer o mesmo. Lembre-se, a culpa
não resolve nada! Ela não alcança nada, exceto o seguinte:
• A culpa suga sua energia e pode mesmo levá-lo a adoecer
física ou mentalmente.
• A culpa bloqueia seu relacionamento com Deus. Hebreus
4.15-16 diz: &quot;Pois não temos um Sumo Sacerdote incapaz de
compreender e identificar-se e ter um sentimento de compaixão
por nossas fraquezas, enfermidades e deficiências durante os
ataques da tentação. Pelo contrário, Ele foi tentado em todas as
situações, como nós o somos, contudo sem pecar. Vamos, então,
sem medo, confiante e ousadamente aproximarmo-nos do trono
da graça (o trono do favor imerecido de Deus para nós,
pecadores), para que possamos receber misericórdia [por nossas
falhas] e encontrar a graça para nos ajudar no tempo apropriado
para cada necessidade [socorro oportuno a seu tempo, vindo
justamente quando precisamos dele]&quot;.
• A culpa, como obra da carne, exige que você tente pagar
pelos seus pecados.
• A culpa drena sua energia espiritual. Ela o deixa fraco e
incapaz de resistir a novos ataques do inimigo. Uma guerra
espiritual bem-sucedida requer a vestimenta da &quot;couraça da.
justiça&quot; (Efésios 6.14, grifo da autora). A culpa leva você a pecar
mais.
• A culpa exerce grande pressão em você, sugerindo que
manter um bom relacionamento com as pessoas é difícil. É
quase impossível viver sob o fardo da culpa e ainda operar no
fruto do Espírito (veja Gaiatas 5.22,23).
Certamente, você pode ver por esta lista que a culpa é algo do
qual devemos nos livrar. Deixe-a sair! Ela é do diabo e pretende
impedir você de desfrutar sua vida e seu relacionamento com o
Senhor.
Se você tem um sério problema nessa área da culpa, talvez
precise pedir a alguém que ore por você. Se sua fé é forte o
suficiente, então ore por si mesmo. Contudo, a culpa rouba a fé,
e se você tem vivido por um longo tempo carregando o fardo de
culpa e condenação, sua fé pode precisar ser fortalecida. Peça
ajuda se você precisar. Recuse-se a continuar vivendo
pressionado por um fardo de culpa e condenação. 6
E Q UANTO À V ERGONHA ?
Agora que já temos melhor compreensão da culpa, vamos
voltar nossa atenção para a &quot;vergonha&quot;.
Há um tipo de vergonha que é normal e saudável. Se perco ou
quebro algo que pertence a outra pessoa, sinto-me
envergonhada por meu erro. Eu desejaria não ter sido tão
descuidada ou negligente. Sinto-me mal, mas posso pedir
perdão, recebê-lo e, então, prosseguir com minha vida. A
vergonha saudável nos lembra que somos seres humanos com
fraquezas e limitações.
Em Gênesis 2.25, lemos que Adão e Eva estavam nus no
jardim do Éden e não se envergonhavam Além do fato de eles
não estarem vestindo qualquer roupa, creio que esse versículo
fala de que eles eram totalmente abertos e honestos um como o
outro e não se escondiam atrás de máscaras, papéis ou
simulações. Eles eram totalmente livres para serem eles mesmos
porque não tinham nenhum sentimento de vergonha. Uma vez
que eles pecaram, contudo, eles se esconderam (veja Gênesis 3-
6-8).
As pessoas deveriam ser capazes de desfrutar de perfeita
liberdade um com o outro e com Deus, mas poucos são capazes
de fazê-lo. As pessoas, na sua maioria, fingem. Elas criam uma
personalidade falsa e se escondem atrás disso. Agem como se
não estivessem feridas quando, na verdade, estão ou fingem que
não precisam de alguém quando, na verdade, precisam.
Há uma vergonha venenosa que pode afetar drasticamente a
qualidade da vida de uma pessoa. Isso ocorre quando um
indivíduo que foi abusado ou maltratado de alguma forma
começa a interiorizar a vergonha que ele sente. Ele não mais se
sente apenas envergonhado pelo que lhe foi feito, mas se torna
envergonhado de si mesmo por estar sendo sujeito àquela
situação.
Tal indivíduo leva a vergonha para dentro de si transformando-
a na essência do seu ser. Tudo em sua vida torna-se envenenado
pela suas emoções e, assim, ele desenvolve uma personalidade
baseada na vergonha.
Antigamente, eu era firmada num sentimento de vergonha,
mas não percebia que estava com vergonha de mim mesma. Eu
estava vendo os resultados da vergonha em minha vida, mas
tentava de forma malsucedida lidar com o fruto disso em vez de
tratar com a raiz.
A definição para a palavra &quot;envergonhavam&quot; na versão King
James de Gênesis 2.25 (não se envergonhavam), é:
&quot;desapontavam... detinham-se... confundiam-se&quot;. 7
A palavra confundir significa frustrar-se ou atordoar-se. O
dicionário Webster define o verbo confundir como &quot;desnortear&quot;,
&quot;desconcertar&quot;, &quot;condenar&quot;  8 . O Webster define o verbo
condenar como &quot;condenar para um destino infeliz&quot;, &quot;sentenciar&quot;;
&quot;julgar adversamente&quot;, &quot;causar a ruína de&quot;; &quot;fazer definhar&quot;. 9
Se você tiver tempo para realmente estudar essas definições,
poderá descobrir que a raiz do seu problema é a vergonha.
L IDANDO COM A V ERGONHA
Minha vida estava cheia de confusão, e eu tentava
desesperadamente fazer a coisa certa (pois, assim, eu poderia
&quot;me sentir bem&quot;), mas não importa quanto eu tentasse, sempre
falhava. Era como se eu fosse condenada a falhar. Contudo, eu
não falhava a respeito de tudo. Era bem-sucedida no mundo
profissional e em outras áreas, mas sempre falhava em manter
um comportamento bom. Sempre me sentia derrotada, porque,
não importava o que eu realizasse do lado de fora, eu ainda me
sentia mal a respeito de mim mesma interiormente.
Eu tinha vergonha de mim mesma!
Eu não gostava de quem eu era. Não gostava de minha
personalidade. Continuamente rejeitava meu próprio eu e
tentava ser alguém ou alguma coisa que não era e nunca
poderia ser (discutirei esse tópico mais detalhadamente em
outro capítulo).
Milhares de cristãos gastam sua vida inteira nessa condição
lamentável, vivendo bem abaixo da sua posição como herdeiros
de Deus e co-herdeiros com Jesus Cristo. Sei disso porque eu era
assim.
Paulo escreveu que o sofrimento que enfrentamos agora um
dia será digno da glória da herança devida a nós:
E se nós somos [Seus] filhos, então somos [Seus] herdeiros
também: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo
[compartilhando a Sua herança com Ele]; apenas devemos
compartilhar Seus sofrimentos se formos compartilhar Sua
glória.
[Mas, o que importa?] Pois eu considero que o sofrimento
deste tempo presente (essa vida presente) não é digno de ser
comparado com a glória que está para ser revelada a nós, em
nós, para nós e a ser conferida a nós! (Romanos 8.17-18).
Foi um grande dia quando o Espírito Santo levou-me a
compreender que a vergonha era a fonte de muitos dos meus
problemas! Há promessas na Palavra de Deus que nos
asseguram que podemos ser livres do sentimento de vergonha.
Por exemplo, está escrito em Isaías 61.7: &quot;Ao invés da sua antiga
vergonha você terá uma dupla, recompensa: ao invés de desonra
e da reprovação [seu novo] irá se alegrar em sua porção.
Portanto, em sua terra eles possuirão dobro [que perderam];
alegria eterna lhes pertencerá.
Vamos examinar mais detalhadamente essa passagem, que
oferece &quot;uma dupla recompensa&quot;. Uma recompensa pode ser
uma compensação ou retribuição por um dano. Em outras
palavras, quando você confia em Deus e faz as coisas da forma
dEle, Ele atentará para isto e você será reparado por toda a
injustiça cure lhe foi feita. Você: receberá o dobro do que perdeu
e que de que foi privado e terá eterna alegria! Essa é uma
promessa maravilhosa, e posso assegurar-lhe a realidade dela.
Deus tem feito exatamente isso por mim, e Ele fará por você
também.
Outra promessa do Senhor encontrado em Isaías 54.4: &quot;Não
temas, pois você não será envergonhada; nem fique confusa ou
deprimida, pois você não será colocada em vexame, pois você se
esquecerá da vergonha da sua mocidade, e não se lembrará
(seriamente) da rejeição da sua viuvez nunca mais&quot;.
Quão inspirador e encorajador é saber que você pode se
esquecer dos danos do seu passado e nunca ter de seriamente
se lembrar daqueles tempos difíceis! Você pode agarrar-se a
essa mesma promessa, caso você ainda esteja sendo abusado
ou maltratado.
Talvez você sinta que o Senhor quer que você permaneça
suportando por mais algum tempo um abuso verbal ou
emocional, enquanto Ele está fazendo uma obra na pessoa que
está ferindo você. Como você pode se guardar para não
desenvolver uma natureza baseada na vergonha? A oração do
salmista pode ser a sua também: &quot;Guarda-me a alma e livra-me;
não seja eu envergonhado, pois em ti me refugio&quot; (Salmos 25.20-
ARA).
Deus pode guardá-lo da vergonha. Sugiro que cada vez que
você sofrer algum abuso verbal e emocional, simplesmente, ore
e peça a Deus que o guarde da vergonha que tenta se instalar
dentro de você. Use essa palavra do Salmo 25.20 como uma
espada de dois gumes contra o inimigo (o qual, nesse caso é a
vergonha).
A seguir, dou um exemplo de como esse procedimento
trabalhará em seu favor. Conheço a esposa de um pastor que
não tinha problema algum em seu relacionamento sexual com
seu marido, embora seus parentes tivessem abusado
sexualmente dela por muitos anos. De outro lado, como
resultado do abuso sexual, tive muitos, muitos problemas para
confrontar e vencer em meu relacionamento sexual com meu
marido.
O que fez a diferença? Quando questionei minha amiga,
descobri que durante a infância ela tinha mantido uma fé
fortalecida em Deus. O abuso começou quando ela tinha
aproximadamente 14 anos de idade. Naquele tempo, ela já vinha
desfrutando muitos anos de um bom relacionamento cristão e
tinha uma ativa vida de oração. Ela orava cada vez que seus
abusadores a molestavam, pedindo a Deus que a cobrisse a fim
de que aquilo não afetasse seu &quot;relacionamento sexual com seu
futuro marido&quot;. Ela sabia que um dia se casaria com um pastor,
pois o Senhor já lhe revelara isso. Suas orações a protegeram da
vergonha e da escravidão nessa área.
Em meu caso, eu não conhecia o suficiente sobre Deus para
ativar minha fé por meio da oração. Portanto, sofri por causa da
vergonha, até descobrir que eu estava me firmando na vergonha
e aprender sobre as promessas de Deus para me libertar.
Você pode também ser liberto da vergonha, a qual é a fonte
de muitos complexos interiores, tais como:
• alienação;
• comportamentos compulsivos (drogas/álcool, distúrbios
alimentares; vício por dinheiro, por trabalho ou por outros
objetos ou atividades, perversões sexuais;
• necessidade excessiva de estar no controle, falta de
autocontrole ou autodisciplina, fofoca, espírito crítico, etc);
• depressão;
• profundo senso de inferioridade (o pensamento &quot;há-algo-
errado-comigo&quot;);
• síndrome de falha;
• isolamento, solidão;
• falta de confiança;
• comportamento neurótico (uma pessoa neurótica assume
muitas responsabilidades; em tempos de conflito ela
automaticamente presume que é a culpada);
• perfeccionismo;
• timidez (medo de todos os tipos);
• inabilidade de desenvolver e manter relacionamentos
saudáveis.
D EPRESSÃO
O que cremos em nosso coração a respeito de nós mesmos
influencia profundamente a nossa maneira de agir: &quot;Porque,
como uma pessoa imagina em sua alma, assim ela é&quot; (Provérbios
23.7, parafraseado). Se pensarmos de maneira miserável a
respeito de nós mesmos, ficaremos deprimidos.
Há muitas pessoas que sofrem dessa terrível condição de
depressão, a qual tem muitas causas complexas, sendo uma
delas a vergonha. Se você é inclinado à depressão, isso pode ser
um sinal de um problema mais profundo, uma raiz de vergonha.
Aqueles que têm um pensamento baseado na vergonha falam
negativamente sobre si mesmos. Tais pensamentos e palavras
erradas colocam um grande peso no espírito deles. Esse é um
grande problema, porque Deus criou os seres humanos para a
justiça, para o amor e para a aceitação. Deus está sempre
derramando essas virtudes de Seus filhos, mas muitos deles não
sabem como recebê-las.
Você não pode receber amor e aceitação de Deus se estiver
contra si mesmo. Se você tem um problema nessa área, não se
acomode e simplesmente deixe o diabo destruir você. Confronte
seu inimigo espiritual com uma ação espiritual. Mude seu
pensamento e seu modo de falar. Comece, propositadamente, a
pensar e a dizer somente coisas boas a respeito de si mesmo.
Faça uma lista de suas melhores qualidades e o que a Palavra diz
a seu respeito, bem como confesse isso várias vezes ao dia.
Medite nas verdades da Palavra de Deus tal como: &quot;Por nossa
causa Ele fez Jesus Cristo [virtualmente] tornar-se pecado,
Aquele que não conheceu pecado, para que nele e através dele
nós pudéssemos nos tornar [ser dotados de, visto como sendo, e
exemplos da] justiça de Deus [o que nós devemos ser, aprovados
e aceitáveis e em correto relacionamento com Ele, pela sua
bondade]&quot; (2 Coríntios 5.21); e, então, diga: &quot;Eu sou a justiça de
Deus em Cristo&quot;.
Diga em voz alta: &quot;Deus me ama&quot; quando você ler, &quot;porque
Deus tão grandemente amou e carinhosamente valorizou o
mundo que Ele [mesmo] deu o Seu Filho Unigênito (Único), para
que aquele que nele crê (acredita, se apega, confia), não pereça
(venha à destruição, se perca), mas tenha a vida eterna
(duradoura)&quot; (João 3.16).
Leia Romanos 12.6-8: &quot;Tendo dons (faculdade, talentos,
qualidades) que diferem de acordo com a graça que nos foi
dada, vamos usá-los: [Aquele cujo dom é] profecia (que
profetize) de acordo com a proporção na sua fé; [aquele cujo
dom é] serviço prático, que dedique-se a servir; aquele que
ensina, que ensine; aquele que exorta (encoraja), que encoraje;
aquele que contribui, faça-o em simplicidade e liberalidade;
aquele que dá ajuda e administra, faça-o com zelo e
honestidade; aquele que age com misericórdia, faça-o com
genuína alegria e vivacidade&quot;; e, então confesse: &quot;Tenho dons e
habilidades que Deus me deu&quot;.
Pondere em seu coração nas palavras do Senhor quando Ele
diz: &quot;Visto que foste precioso aos meus olhos, digno de honra, e
eu te amei, darei homens por ti e os povos, pela tua vida.&quot;
(Isaías 43.4-ARA). Regozije-se enquanto admite: &quot;Eu sou precioso
e valioso para Deus&quot;.
Busque a Palavra de Deus para outras confissões positivas
sobre si mesmo.
Outra atitude sábia é passar por um exame médico para
observar a possibilidade de alguma condição física que possa
afetar seu estado mental e emocional. A menos que sua
depressão seja causada por um problema de saúde, ela pode,
geralmente, ser gerada por pensamentos e palavras negativas.
Mesmo quando a depressão é causada por uma condição física
(desequilíbrio hormonal, químico, etc), o diabo tentará tirar
vantagem da situação. Ele oferecerá muitos pensamentos
negativos, os quais, se recebidos e meditados a respeito,
somente tornarão o problema muitas vezes pior do que
realmente é.
Repito: quando você se sente deprimido, cheque seu
pensamento. Não é a vontade de Deus que você esteja
deprimido. Alimente seus pensamentos com a Palavra de Deus.
Isaías 61.3 diz que o Senhor nos deu &quot;veste [expressiva] de
louvor, em vez de espírito enfraquecido, oprimido e abatido&quot;.
Neemias diz: &quot;A alegria do Senhor é a sua força e fortaleza&quot;
(Neemias 8.10). Creia no que a Palavra de Deus diz a seu
respeito e, assim, você se tornará. Creia no que diabo o diz e
assim você se tornará. A escolha é sua: &quot;escolhe, pois, a vida,
para que vivas, tu e a tua descendência,&quot; (Deuteronômio 30.19-
ARA).
11. AutoRejeição ou AutoAceitação
A VERGONHA CAUSA AUTOREJEIÇÃO e, em algumas situações,
auto-aversão. Em casos mais extremos, isso pode até mesmo
devolver o auto-abuso, incluindo a automutilação. Tenho
ministrado a várias pessoas que me mostram cicatrizes no corpo
por terem se cortado ou se queimado ou mordido a si mesmas,
assim como hematomas por terem batido ou ferido a si mesmas,
e partes calvas na cabeça por terem arrancado o próprio cabelo.
Algumas pessoas se ferem como uma forma de punição.
Outras se comportam de maneira detestável porque dessa forma
serão rejeitadas. Já que elas rejeitam a si mesmas, estão
convencidas de que outros também as rejeitarão, e assim elas
manifestam um comportamento de acordo com aquilo que
pensam a respeito delas. A lista de problemas em potencial é
interminável, mas estou certa de que você está vendo onde
quero chegar.
Você não conseguirá ir além da sua própria opinião a respeito
de si mesmo, não importa quantas coisas boas Deus possa dizer
a seu respeito em Sua Palavra. A despeito dos maravilhosos
planos que Deus possa ter para sua vida, nenhum deles virá a se
concretizar sem sua cooperação.
Você precisa acreditar no que Deus diz.
A CEITE A O PINIÃO DE D EUS A S EU R ESPEITO
Se você está buscando recuperar-se do abuso, então não deve
permitir que as opiniões das outras pessoas a seu respeito,
evidenciadas na maneira pela qual você foi maltratado no
passado, determinem seu valor. Lembre-se: pessoas que se
sentem sem valor sempre tentarão encontrar alguma coisa
errada em você para que possam se sentir um pouco melhor
sobre si mesmas. Tenha em mente que isso é um problema
delas, e não seu.
Em João 3.18, o Senhor Jesus declara que aquele que crê nele
nunca será rejeitado por Ele ou por seu Pai Celestial. Se Deus o
aceita por causa da sua fé em Seu Filho Jesus Cristo, então você
pode parar de rejeitar a si mesmo e deixar seu processo de cura
prosseguir.
Pode ser que você não tenha rejeitado a si mesmo totalmente,
mas somente algumas partes que não lhe agradam. Em meu
próprio caso, eu rejeitava minha personalidade. Eu não
compreendia que eu tinha um chamado divino em minha vida
para o ministério em tempo integral e que Deus escolheu meu
modo de ser para aquilo que Ele designara para minha vida.
Minha personalidade certamente tinha falhas por causa dos
anos de abuso. Eu tinha sofrido, e havia a necessidade de
ajustes do Espírito Santo, mas ainda era a personalidade que
Deus havia escolhido para mim. Contudo, por não compreender
esse fato, eu pensava que precisava ser alguém totalmente
diferente. Estava sempre tentando ser outra pessoa, o que não
era a vontade de Deus para mim, assim como não é a vontade
dEle que você se torne outra pessoa.
Lembre-se: Deus ajudará você a ser tudo o que você pode ser,
tudo o que você foi originalmente designado a ser, mas Ele
nunca permitirá que você seja bem-sucedido em se tornar outra
pessoa.
O T EMPERAMENTO C ONTROLADO PELO E SPÍRITO
Talvez você tenha observado alguma outra pessoa, um amigo
ou líder espiritual e pensado: E assim que as pessoas deveriam
ser, ou Ela é amada e aceita por todos. Você pode até ter
tentado ser como outro indivíduo sem conscientemente ter
planejado isso.
Certamente, as pessoas podem ser bons exemplos para nós,
mas, mesmo se seguirmos suas boas qualidades, ainda será o
nosso próprio &quot;toque&quot; pessoal dessas boas qualidades que nos
caracterizarão.
Tenho uma personalidade direta, resoluta, decidida. Deus
colocou em mim esse tipo de natureza para me ajudar a cumprir
o seu chamado em minha vida. Contudo, por muitos, muitos
anos, eu lutava e vivia em frustração porque vivia tentando ser
mais tímida, meiga, suave, gentil e doce. Eu tentava,
desesperadamente, não ser tão positiva e agressiva.
A verdade é que eu tentava em vão me moldar na esposa do
meu pastor, no meu marido e em vários amigos que eu
respeitava e admirava. Meus esforços somente resultaram em
frustração crescente, o que tornava mais difícil eu prosseguir. Eu
precisava aprender a desistir de tentar ser como os outros e
simplesmente me tornar &quot;o melhor que eu poderia ser&quot;. Sim, eu
precisei mudar. Precisei mais do fruto do Espírito, especialmente
da bondade, da mansidão, da benignidade, porque eu era muito
dura, áspera e severa. Mas, uma vez que aprendi a aceitar o
temperamento que Deus me deu, pude permitir que o Espírito
Santo começasse a me transformar naquilo que Ele queria que
eu fosse.
Uma vez que desistimos de lutar para sermos outra pessoa,
então o Espírito será capaz de usar nossos pontos fortes e
controlar nossas fraquezas. Então, começaremos a desenvolver
um &quot;temperamento controlado pelo Espírito&quot;. Esse
temperamento é explicado em Gaiatas 5.22-25:
Mas o fruto do Espírito [Santo] [a obra que sua presença
realiza em nosso interior] é amor, alegria (satisfação), paz,
paciência (um temperamento calmo, clemência), bondade,
benignidade (benevolência), fidelidade.
Gentileza (mansidão, humildade), autocontrole (autolimitação,
continência). Contra tais coisas não há lei (que possa trazer
acusação).
E aqueles que pertencem a Cristo Jesus (o Messias) tem
crucificado a carne (a natureza humana impiedosa) com suas
paixões, apetites e desejos.
Se nós vivemos pelo Espírito (Santo), vamos também
caminhar pelo Espírito, [se pelo Espírito Santo nós temos nossa
vida em Deus, vamos seguir em frente caminhando nessa linha,
com nossa conduta controlada pelo Espírito].
Muitos se passaram, até que finalmente aprendi que teria de
aceitar e amar a mim mesma e parar de me odiar ou de me
rejeitar. Descobri o segredo de desenvolver um temperamento
controlado pelo Espírito. A chave é gastar tempo pessoal de
qualidade com o Senhor e receber a ajuda dEle continuamente.
F ORTALECIDOS NO H OMEM I NTERIOR
Ainda tenho fraquezas em meu ser natural; contudo, à medida
que permaneço no Senhor, buscando-o em primeiro lugar, Ele
continuamente me transfere o poder de que preciso para
manifestar meus pontos fortes, e não minhas fraquezas.
O apóstolo Paulo orou para que os crentes fossem fortalecidos
&quot;em seu homem interior&quot;, para que o Espírito Santo habitasse
em sua personalidade e em seu ser interior:
Possa Ele conceder a vocês das riquezas de sua glória para
que sejam fortalecidos e revigorados com forte poder em seu
homem interior pelo Espírito [Santo] [Ele mesmo habitando em
seu interior e personalidade].
Que Cristo possa através da fé de vocês [realmente] habitar
(estabelecer-se, permanecer, fazer Sua morada permanente) em
seus corações! Que vocês possam estar profundamente
arraigados e fundamentados seguramente em amor, para que
tenham o poder e sejam fortes para compreender e apreender
com todos os santos [pessoas devotadas a Deus, a experiência
desse amor], qual é a largura, o comprimento, a altura, e a
profundidade [desse amor].
[Que vocês possam realmente vir a] conhecer [de forma
pratica, experimentado-o por si mesmos] o amor de Cristo, que
excede o mero conhecimento [sem experiência], para que sejam
cheios [em todo o seu ser] da plenitude de Deus [para que
tenham a mais rica medida da Presença divina, e se tornem um
corpo plenamente cheio e transbordante do próprio Deus]
(Efésios 3.16-19).
Esta é a nossa grande necessidade: sermos fortalecidos em
nosso &quot;homem interior&quot; pela presença do próprio Deus. Deus
disse a Paulo: Minha graça (meu favor e amorosa bondade e
misericórdia) é suficiente para você [suficiente contra qualquer
perigo, capacitando você a suportar o problema de forma
corajosa]; pois a minha força e poder se tornam perfeitos (plenos
e completos) e mostram-se mesmo mais efetivos em [sua]
fraqueza&quot; (2 Coríntios 12.9).
A força de Deus se aperfeiçoa em nossa fraqueza. Isso
significa que quando somos fracos em certa área, não temos de
nos odiar ou de nos rejeitar por causa disso. Como Paulo, temos
o grande privilégio de admitir nossa fraqueza e pedir ao Espírito
Santo que a controle.
Em minha carne, ainda tenho uma tendência a ser dura, rude
e áspera. Pela graça, pela força e pelo poder do Senhor, contudo,
sou capaz de manifestar &quot;o fruto do Espírito&quot; e ser amável,
agradável, compreensiva e longânima.
Isso não significa que eu nunca falho. Como qualquer ser
humano, cometo deslizes e erros. Mas compreendi que não
tenho de ser perfeita para receber aceitação, amor e ajuda do
Senhor. Nem você.
Deus é por você! Ele quer você para ser por você. O diabo é
contra você, ele quer você para ser contra você.
Você é a favor ou contra si mesmo? Você está cooperando
com o plano de Deus ou com o plano do diabo para sua vida?
Você está de acordo com Deus ou com o inimigo?
E LEITOS NO A MADO
Deus nos escolheu como Seus filhos amados e adotivos,
separando-nos para sermos dEle:
Assim como [em Seu amor] Ele nos escolheu [realmente nos
separou para si mesmo como Seu povo próprio] em Cristo antes
da fundação do mundo, para que nós sejamos santos
(consagrados e separados para Ele) e irrepreensíveis em sua
presença, bem acima da reprovação, diante dele em amor.
Pois Ele nos pré-ordenou (nos destinou, planejou em amor
para nós) ser adotados (revelados) como Seus próprios filhos
através de Jesus Cristo, em concordância com o propósito da sua
vontade [porque isso agradou a Ele e foi Seu terno intento]
[Assim para que nós possamos ser] para o louvor e exaltação
da sua gloriosa graça (favor e misericórdia), a qual Ele tão
livremente derramou sobre nós no Amado (Efésios 1.4-6).
Em Êxodo 19.5, o Senhor diz a Seu povo que eles são Seu
&quot;tesouro e possessão peculiar&quot;. Essa palavra se aplica a nós hoje
tanto quanto aos filhos de Israel naquela época. Em João 3.18,
Jesus disse a Nicodemos que ninguém que crê nEle será mesmo
condenado (rejeitado). Você pode não se sentir valorizado ou
mesmo aceitável, mas você é. Em Efésios 1.6, Paulo diz que
todos nós que cremos em Cristo temos sido &quot;aceitos no Amado&quot;.
Isso deveria nos dar um senso de valor pessoal e dignidade.
Lembro-me de estar numa fila de oração onde pude ouvir uma
mulher dizer ao pastor quanto ela odiava e desprezava a si
mesma. O pastor tornou-se bastante firme com ela e,
rispidamente, repreendeu-a dizendo: &quot;Quem você pensa que é?
Você não tem o direito de odiar-se. Deus pagou um alto preço
por você e por sua liberdade. Ele a amou tanto que enviou Seu
único Filho para morrer por você... para sofrer em seu lugar. Você
não tem o direito de odiar ou rejeitar a si mesma. Sua parte é
receber o que Jesus morreu para lhe dar&quot;!
A mulher ficou chocada. Fiquei chocada também, apenas
ouvindo. Contudo, algumas vezes é uma palavra dura necessária
para nos levar a perceber a armadilha que Satanás coloca diante
de nós.
A auto-rejeição pode até mesmo parecer piedosa em certo
sentido, podendo se tornar uma maneira de autopunição por
nossos erros, falhas e inabilidade. Como os seres humanos não
conseguem ser perfeitos, algumas pessoas terminam por rejeitar
e desprezar a si mesmas.
Peço-lhe que pense nas palavras proféticas de Isaías 53.3 que
descrevem nosso Senhor Jesus Cristo: &quot;Era desprezado e o mais
rejeitado e abandonado entre os homens; homem de dores e
sofrimentos e que sabe o que é padecer e estar enfermo; e,
como um de quem os homens escondem o rosto, era
desprezado, e dele não fizemos caso, nem lhe demos
importância&quot;.
Você não tem apreço por seu próprio valor e dignidade? Mas,
certamente, você é valioso, pois de outra forma o Pai Celestial
não teria pago um preço tão alto por sua redenção.
Isaías 53.4-5 continua a dizer que Cristo carregou nosso
sofrimento (enfermidades, fraquezas e angústias) e carregou
nossas dores e tormentos [da punição], contudo, nós [de forma
ignorante] consideramo-lo ferido, castigado e afligido por Deus
[como se fosse um leproso]. Mas Ele foi ferido por nossas
transgressões, Ele foi esmagado por nossa culpa e por nossas
iniqüidades; o castigo [necessário] para a nossa paz e bem-estar
estava sobre ele, e por suas feridas [que o machucaram] nós
somos curados e sarados.
O &quot;pacote de cura&quot; comprado por Jesus com Seu sangue é
disponível para todo aquele que nEle crê e O recebe. Esse pacote
inclui a cura das emoções, assim como do corpo. Se uma pessoa
fez algo errado, a justiça exige a rejeição, o desprezo e a
condenação. Contudo, Jesus carregou tudo isso por nós, assim
como também os nossos pecados. Que verdade gloriosa!
Já que Jesus carregou seus pecados na Cruz, junto com o ódio,
rejeição e condenação que eles mereciam, você não tem mais de
rejeitar nem odiar a si mesmo.
O dia em que iniciei nosso ministério, perguntei a Deus: &quot;O
que o Senhor quer que eu ensine no primeiro encontro&quot;?
Ele disse: &quot;Quero que você diga a meu povo que os amo&quot;.
Argumentei: &quot;Oh, eu quero uma mensagem de poder&quot;. Eu
queria ser a mulher de poder do momento! Eu queria algo que
surpreendesse as pessoas com uma grande revelação. Eu disse:
&quot;Todos sabem que o Senhor os ama. Eu não vou pregar João
3.16&quot;.
Ele disse: &quot;Não, poucas pessoas entre meu povo sabem que
Eu as amo. Se todas soubessem, elas agiriam de forma
totalmente diferente da forma que agem&quot;.
A Bíblia diz: &quot;Não há medo no amor [temor não existe], mas o
pleno (completo, perfeito), amor lança fora pelas portas e expele
todo vestígio de terror! Pois o medo traz consigo o pensamento
de punição, e [assim] aquele que teme não alcançou plena
maturidade no amor [ele ainda não cresceu até a completa
perfeição do amor]. Nós O amamos, porque Ele nos amou
primeiro&quot; (1 João 4.18-19). Compreendi que se o povo de Deus
soubesse o quanto Ele o ama, não teria medo. Se o povo de
Deus conhecesse o amor de Deus, não correria dEle, mas, sim,
para Ele.
Assim, depois de um ano daquele primeiro ensino, meditei no
amor de Deus. Eu dirigia meu carro dizendo: &quot;Deus me ama.
Deus me ama. Ele me ama. O Criador do Universo me ama&quot;. O
primeiro livro que escrevi, Diga a Eles Que Os Amo, foi o
resultado de passar esse ano enfocando o amor de Deus.
Uma vez que você compreende que Deus o ama, você pode
amar a si mesmo de forma equilibrada. Olhe-se no espelho e
diga: &quot;Deus me ama&quot;. Aceite-se e diga a si mesmo
freqüentemente: &quot;Eu me aceito&quot;.
Após dizer &quot;amarás, pois, o Senhor, teu Deus&quot;, Jesus
acrescentou: &quot;Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há
outro mandamento maior do que estes&quot; (Marcos 12.30-31-ARA).
Se você não pode amar a si mesmo, encontrará dificuldade para
amar qualquer outra pessoa. Deixe o amor curador de Deus
fazer uma obra em sua vida.
Dê um abraço a si mesmo algumas vezes, simplesmente lem-
brando-se de que Deus o ama e, portanto, você é amável.
Envolva-se num abraço e diga: &quot;Não me rejeitarei nunca mais!
Pelo contrário, eu me aceitarei em Cristo. Amo a mim mesmo,
não de forma egoísta, mas de forma equilibrada. Não sou
perfeito, mas, com a ajuda do Senhor, estou melhorando cada
dia&quot;.
E Q UANTO À R EJEIÇÃO V INDA DOS O UTROS ?
Muito comumente, mais cedo ou mais tarde, você
experimentará alguma forma de rejeição. Nem todos gostarão de
você. Algumas pessoas podem mesmo, ofendê-lo
agressivamente. É extremamente proveitoso que você
desenvolva uma atitude madura nessa área. Sabemos que Jesus
cresceu em sabedoria, estatura e em graça diante de Deus e dos
homens (veja Lucas 2.52). E, no meu próprio caso, peço a Deus
que me conceda graça diante dEle e das pessoas, e creio que Ele
tem feito isso. Sugiro-lhe que faça o mesmo. Aqui está uma
oração para ajudá-lo a conseguir uma atitude aceitável:
Hoje, Senhor, eu farei o meu melhor, com Sua ajuda e para
Sua glória. Percebo que hd muitas pessoas diferentes no mundo
com uma variedade de opiniões e expectativas. Provavelmente,
não agradarei a todos o tempo todo. Eu me concentrarei em ser
alguém que agrade a Deus e não a mim mesma ou aos homens.
O resto deixo em Suas mãos, Senhor. Conceda-me favor diante
do Senhor e diante dos homens e continue a me transformar na
imagem do Seu querido Filho. Obrigado, Senhor.
Ninguém gosta de ser rejeitado, mas podemos aprender a
lidar com a rejeição e prosseguir com nossa vida se nos
lembramos de que Jesus também foi rejeitado e desprezado. Ele
obteve vitória sobre a rejeição ao ser fiel ao plano de Deus para
a vida dEle.
A rejeição de outras pessoas fere nossas emoções. Isso
certamente dói, e, contudo, para o nosso próprio bem, devemos
nos lembrar de que, se nascemos de novo, o Ajudador (o Espírito
Santo) vive em nós para nos fortalecer, proteger e confortar.
Creio que gastamos tempo e energia valiosos tentando evitar
ser rejeitados. Nós nos tornamos &quot;pessoas que buscam agradar
aos homens&quot; (Efésios 6.6; Colossenses 3.22), pois raciocinamos
que, se pudermos manter todos felizes, eles não nos rejeitarão.
Para evitar a dor, alguns cristãos edificam muros ao redor de
si mesmos para não serem feridos, mas isso é inútil. Deus tem
me mostrado que é impossível viver neste mundo se não
desejamos ser feridos. As pessoas não são perfeitas, portanto
elas nos ferem e nos desapontam, assim como também ferimos
e desapontamos os outros.
Tenho um marido maravilhoso, mas ocasionalmente ele me
fere. Porque venho de um passado doloroso, no momento em
que esse tipo de coisa acontecia, eu costumava construir muros
ao meu redor para me proteger. Afinal, eu raciocinava, ninguém
poderá me ferir se eu não deixá-lo se aproximar. Contudo,
aprendi que, se mantiver os outros do lado de fora,
permanecerei isolada do lado de dentro.
O Senhor tem me mostrado que Ele quer ser meu Protetor,
mas Ele não pode fazê-lo se eu estiver ocupada tentando me
proteger. Ele não prometeu que eu nunca seria ferida, mas Ele
prometeu curar-me se eu for a Ele em vez de tentar tomar conta
de tudo sozinha.
Se você edificou muros ao redor de si mesmo por causa do
medo, então você deve derrubá-los pela fé. Vá a Jesus com cada
velha ferida e receba sua graça curadora. Quando alguém ferir
você, leve essa nova ferida a Jesus. Não a deixe inflamar. Leve-a
ao Senhor e deseje lidar com a situação da maneira dEle e não
da sua.
Receba este versículo como uma promessa pessoal do Senhor
para você: &quot;Porque te restaurarei a saúde e curarei as tuas
chagas, diz o Senhor; pois te chamaram a repudiada, dizendo: É
Sião, já ninguém pergunta por ela&quot;! (Jeremias 30.17-ARA).
Confesse como o salmista: &quot;Porque, se meu pai e minha mãe
me desampararem, o Senhor me acolherá (adotando-me como
Seu filho]&quot; (Salmos 27.10).
Com a ajuda do Senhor, você poderá sobreviver à rejeição e
encontrar sua plenitude &quot;nEle&quot;.
12. O Efeito da Rejeição nos
Relacionamentos
UMA PESSOA QUE tem uma raiz de rejeição em sua vida tem
dificuldades em seus relacionamentos. Com o objetivo de manter
relacionamentos saudáveis, amorosos e duradouros, uma pessoa
não pode ter medo da rejeição. Quando esse medo se torna o
fator motivador na vida de um indivíduo, ele gastará todo o seu
tempo tentando evitar a rejeição em vez de edificar
relacionamentos saudáveis.
Nenhuma pessoa atravessa a vida escapando totalmente de
momentos de rejeição. Todos experimentam algum tipo de
rejeição. Contudo, caso haja rejeição bastante para causar
feridas, isso pode levar o indivíduo a não somente a agir de
forma anormal em seu relacionamento com outros, mas também
em seu relacionamento com Deus.
Ele pode vir a acreditar que é amado condicionalmente.
Sentindo que tem de merecer o amor das pessoas, ele pode
devotar sua vida em tentar agradar aos outros. Ele pode temer
que, caso não agrade aos outros, eles deixarão de amá-lo, ou o
rejeitarão, ou até o abandonarão.
A lembrança do sofrimento de tais experiências
freqüentemente impede a liberdade da pessoa em seus
relacionamentos. As pessoas que têm medo da rejeição e do
conseqüente abandono e solidão, geralmente, terminam
permitindo a si mesmas serem controladas e manipuladas pelos
outros. Já que elas acreditam que a aceitação é baseada em seu
desempenho, tais pessoas são consumidas cm fazer em vez de
ser. Porque elas têm medo de ser simplesmente elas mesmas,
gastam a vida fingindo: fingindo gostar de pessoas que elas
detestam, fingindo gostar de ir a lugares e fazer coisas que elas
odeiam, fingindo que tudo está bem quando não está. Tais
pessoas vivem em contínua miséria porque temem ser honestas
o suficiente para confrontar as verdadeiras questões da vida.
F INGINDO ! F INGINDO ! F INGINDO !
Já que as pessoas que temem a rejeição não acreditam que
são amáveis em si mesmas, freqüentemente elas usarão os
padrões do mundo (dinheiro, status, roupas, talentos naturais,
etc.) para provar a si mesmas e aos outros que elas têm valor.
Elas vivem uma vida de miséria, sempre tentando provar que
são dignas e valiosas. Não importa quanto sucesso exterior uma
pessoa possa desfrutar, ela não será verdadeiramente bem-
sucedida se não souber quem ela é em Cristo. Em Filipenses 3.3,
Paulo nos exorta: &quot;Exultemos e gloriemos e nos vangloriemos em
Jesus Cristo, não colocando confiança ou dependência [naquilo
que somos] na carne e nos privilégios exteriores, vantagens
físicas e aparência externa&quot;. E importante lembrar que a
aparência é somente a nossa forma exterior, e não o que
realmente somos.
Uma pessoa fundamentada na rejeição é incapaz de receber
amor, mesmo quando o amor lhe está sendo livremente
oferecido. Tal pessoa aceita o amor somente quando acredita
que o mereceu por ter se comportado de maneira perfeita.
Lembro-me de uma mulher que certa vez trabalhou para meu
marido e para mim. Ela cresceu numa atmosfera em que o
&quot;merecimento gera aceitação&quot;. Quando ela ia bem na escola, ele
demonstrava-lhe amor; quando ela não ia tão bem como seu pai
esperava, negava-lhe amor. Ele se comportava assim não
somente com ela, mas também com todos os outros membros
da família; portanto, ela aprendeu que o amor era dado como
uma recompensa pelo desempenho perfeito e retirado como
uma punição pelos erros.
Como a maioria das pessoas, ela cresceu nem mesmo
percebendo que seus sentimentos e seu sistema de crença
estavam incorretos. Ela assumiu que todos os relacionamentos
eram conduzidos dessa mesma forma. Como ela era uma
funcionária de nosso ministério, havia ocasiões em que eu lhe
perguntava como estava indo seu trabalho, se ela estava
conseguindo realizar tudo ou se havia alguma tarefa que ela
tinha dificuldades em cumprir.
Comecei a notar que se eu lhe perguntava sobre algo que ela
não havia terminado isso a fazia agir de maneira muito estranha.
Ela se afastava, evitava falar comigo e mostrava-se trabalhando
num ritmo frenético, o que me fazia sentir desconfortável.
Realmente, eu me sentia, rejeitada.
Eu sabia que, como sua chefe, eu tinha o direito de perguntar-
lhe ela sobre o andamento do trabalho sem ter de sofrer um
trauma cada vez que isso acontecia. Então, finalmente a
confrontei sobre essa situação, o que só fez nosso
relacionamento tornar-se mais estremecido e confuso. Era óbvio
que nenhuma de nós realmente compreendia a raiz do problema.
Essa mulher verdadeiramente amava ao Senhor. Ela era
intensamente séria no seu relacionamento com Deus, e assim a
situação a fez orar e buscar ao Senhor por algumas respostas
sobre seu comportamento. Muito freqüentemente, jogamos a
culpa do nosso mau comportamento em outra pessoa em vez de
buscar o Senhor para perceber a raiz do problema e, assim,
sermos livres.
A mulher recebeu uma revelação de Deus que lhe mudou a
vida. O Senhor lhe mostrou que pelo fato de seu pai rejeitá-la
quando ela não agia de forma perfeita, isso a fez crer
erroneamente que todas as demais pessoas agiam dessa mesma
forma. Se algo do seu trabalho não estava completamente
terminado quando eu lhe perguntava a respeito, ela estava
convencida de que seria rejeitada porque eu não mais a
apreciaria e, portanto, se afastava de mim. Eu não tinha parado
de amá-la, mas ela tinha parado de receber o meu amor, e assim
eu acabava me sentindo rejeitada também.
Freqüentemente fazemos a mesma coisa com o Senhor. Seu
amor por nós não é baseado naquilo que fazemos ou não
fazemos. Em Romanos 5.8, Paulo nos diz que Deus nos amou
quando ainda éramos pecadores; isto é, quando nós ainda não O
conhecíamos e nem queríamos conhecê-Lo.
O amor de Deus está sempre fluindo para todos aqueles que o
recebem. Como essa funcionária que não podia receber o meu
amor, freqüentemente rejeitamos o amor de Deus quando
sentimos que não o merecemos porque o nosso desempenho
não foi tão perfeito.
O M EDO DE S ER R EJEITADO C AUSA R EJEIÇÃO EM O UTROS
Se você não acreditar que é uma pessoa amável e valiosa em
sua essência, você será incapaz de confiar quando outros lhe
expressarem amor. Se você acreditar que precisa ser perfeito
para ser digno de amor e aceitação, então você será um
candidato a uma vida miserável, porque nunca será perfeito o
bastante enquanto estiver neste corpo terreno.
Você pode ter um coração perfeito, no qual o seu desejo é
agradar a Deus em todas as coisas, mas seu desempenho não
acompanhará o desejo do seu coração até você chegar ao céu.
Você pode estar melhorando o tempo todo e mantendo-se em
direção ao alvo da perfeição, mas sempre precisará de Jesus
enquanto estiver aqui nesta terra. Nunca chegará o momento
em que você não precisará do perdão e do sangue purificador do
Senhor.
A menos que você aceite seu valor e dignidade pela fé, por
intermédio de Cristo, você sempre se sentirá inseguro e incapaz
de confiar naqueles que querem amá-lo. As pessoas que não têm
capacidade de confiar suspeitam das motivações das outras. Sei
disso porque tinha um problema real nessa área. Mesmo quando
outras pessoas me diziam que me amavam, eu sempre esperava
que elas me ferissem, ou me desapontassem, ou falhassem
comigo, ou abusassem de mim. Eu imaginava que elas deveriam
estar buscando alguma coisa; ou, de outra forma, elas não
seriam agradáveis comigo. Eu apenas não podia acreditar que
alguém quisesse gostar de mim apenas pelo que eu era. Deveria
haver alguma outra razão escondida!
Sentia-me tão mal a respeito de mim mesma, tão
envergonhada, condenada, com tanta auto-aversão e auto-
rejeição que se alguém tentava mostrar-me amor e aceitação eu
pensava: Bem, se essa pessoa gosta de mim agora, ela não
gostará mais ao me conhecer de verdade. Portanto, eu não
recebia o amor de outras pessoas ou de Deus. Afastava-me por
meio do meu comportamento, o qual se tornava mais e mais
detestável à medida que eu tentava provar a todos que eu não
era merecedora do amor deles, exatamente como eu pensava.
Seja o que for que você acredite sobre si mesmo interiormente
é o que você manifestará exteriormente. Se você se sente
indigno de amor, é isso que você demonstrará por meio de seu
comportamento. Em meu caso, eu cria que não era digna de
amor, e assim agia. Eu era uma pessoa muito difícil de lidar. Cria
que as outras pessoas, mais cedo ou mais tarde, me rejeitariam,
e assim geralmente faziam. Pelo fato de minha atitude se
manifestar por intermédio das minhas ações, eu não conseguia
manter relacionamentos saudáveis, amorosos e duradouros.
A SÍNDROME DO &quot;PROVE-QUE-VOCÊ-ME-AMA&quot;
Quando alguém tentava me amar, eu exercia grande pressão
sobre essa pessoa para que ela provasse que me amava...
continuamente! Eu precisava de uma nova dose de aceitação,
cada dia, apenas para manter um bom sentimento a respeito de
mim mesma. Eu tinha constantemente de ser elogiada sobre
tudo o que fazia; pois, de outra forma, não me sentia amada. Se
não recebesse o elogio esperado, sentia-me rejeitada.
Eu também tinha de fazer todas as coisas do meu próprio
jeito. Sempre que outros concordavam comigo e faziam o que eu
desejava, sentia-me bem a respeito de mim mesma. Contudo, se
alguém discordasse de mim ou negasse os meus pedidos, por
mais simples que fossem, isso causava uma reação emocional
que me fazia sentir-me rejeitada e não amada.
Eu colocava exigências impossíveis sobre as pessoas que me
amavam e, assim, as frustrava. Eu não estava satisfeita com
aquilo que elas me davam. Não podia permitir que elas fossem
honestas comigo ou me confrontassem. O meu foco estava
somente em mim, e eu esperava que o foco de todos também
estivesse. Eu realmente buscava nas pessoas o meu senso de
valor próprio, o que é algo que somente Deus pode dar.
Já aprendi que meu senso de dignidade depende de mim e
não em coisas ou outras pessoas. Até que eu aprendesse essa
verdade, contudo, fui muito infeliz e totalmente incapaz de
manter relacionamentos saudáveis.
Receber o amor de Deus é o fator-chave na cura emocional,
como mencionei no capítulo anterior. Uma vez que uma pessoa
genuinamente venha a crer que Deus, que é perfeito, a ama em
sua imperfeição, ela começará a crer que outras pessoas podem
amá-la também. A confiança começa a ser desenvolvida, e ela é
capaz de aceitar o amor que lhe está sendo oferecido.
Já que cri e recebi o amor de Deus por mim, minhas
necessidades básicas por amor e um senso de valor próprio
foram supridos. Eu não mais necessitava de outras pessoas para
permanecer &quot;bem&quot; todo o tempo, isto é, sentindo-me segura
sobre mim mesma. Como todos, tenho necessidades que outras
pessoas têm de satisfazer; todos nós precisamos de
encorajamento, exortação e edificação. Mas não sinto mais
necessidade de buscar por intermédio de outras pessoas a
afirmação do meu valor.
Agora quando meu marido falha em elogiar-me por algo que
fiz, posso ficar desapontada, mas não abalada, porque sei que
tenho valor a despeito do que faço. Todos gostam de ser
reconhecidos e elogiados pelo que fazem, mas é maravilhoso
não ficarmos abalados se não recebermos reconhecimento e tais
cumprimentos!
Uma vez que aprendi que o valor e a dignidade não estão
naquilo que faço, mas naquilo que sou em Cristo, não mais sinto
que tenho de fazer as coisas para buscar a aceitação das
pessoas. Decidi que ou elas me amarão pelo que eu sou, ou não.
De qualquer forma, estou segura sabendo que Deus ainda me
ama.
13. Confiança para Ser Você Mesmo
A CONFIANÇA É definida como um tipo de segurança que leva
lguém a realizar algo; a crença de que alguém é capaz e
aceitável; a certeza que leva alguém a ser corajoso, aberto e
transparente. Se você observar essa definição tríplice, perceberá
por que o diabo ataca alguém que mostre algum grau de
confiança.
Pessoas que foram abusadas, rejeitadas ou abandonadas
geralmente sofrem por falta de confiança. Como já
mencionamos, tais pessoas são fundamentadas na vergonha,
guiadas pela culpa e possuem baixa auto-imagem.
O diabo começa seu ataque na confiança pessoal sempre que
encontrar brecha, especialmente durante os vulneráveis anos da
infância. Mesmo enquanto uma criança ainda está no ventre, o
diabo inicia sua jornada rumo à total destruição daquela pessoa.
A razão é simples: um indivíduo sem confiança nunca avançará
para fazer algo edificante no Reino de Deus ou algo destruidor
para o reino das trevas e, portanto, nunca cumprirá o plano de
Deus para sua vida.
O F RACASSO E SPERADO +  O M EDO DE F RACASSAR = F RACASSO
Satanás não quer que você cumpra o plano de Deus para sua
vida porque sabe que você é parte da derrota das trevas. Se ele
puder fazê-lo pensar e crer que é incapaz, então você nunca
tentará realizar qualquer coisa digna de valor. Mesmo se você
fizer algum esforço, seu medo de fracassar selará sua derrota, o
que, em decorrência da sua falta de confiança, provavelmente,
pode ter experimentado desde o início. Isso é freqüentemente
referido como &quot;síndrome do fracasso&quot;.
Jesus morreu por nossas fraquezas e inabilidades, e deseja nos
transferir Sua força e Sua habilidade ao colocarmos nossa
confiança (nossa fé) nEle. Em João 15.5, Ele nos ensina esse
princípio importante: &quot;Sem Mim [separados de uma vital união
comigo], vocês nada podem fazer&quot;.
Uma vez que você aprender essa verdade, quando o diabo lhe
disser &quot;Você não pode fazer nada certo&quot;, sua resposta deve ser:
&quot;Talvez não, mas Jesus dentro de mim pode; e Ele o fará, porque
confio nele, e não em mim mesmo. Ele me levará ao sucesso em
tudo que eu colocar minhas mãos&quot; (veja Josué 1.7).
Talvez o inimigo lhe diga: &quot;Você não será capaz de fazer isso,
mesmo que tente, porque apenas falhará novamente, como no
passado&quot;. Mas sua resposta deve ser: &quot;É verdade que sem Jesus
eu não sou capaz de fazer absolutamente nada; mas, com Ele e
nEle, posso fazer tudo que preciso fazer&quot; (veja Filipenses 4.13).
Seja o que for que o diabo lembrar a você a respeito de seu
passado, lembre-o a respeito do futuro dele. Se você ler a Bíblia
do início ao fim, verá que o futuro de Satanás é terrível.
Realmente, ele já é um inimigo derrotado. Está escrito em
Colossenses 2.15: &quot;e, [Deus] despojando os principados e as
potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando
deles na cruz (e em Cristo)&quot; (grifo da autora).
Podemos resistir à tentação de Satanás de vivermos com
medo e tristeza, pois Jesus triunfou sobre os planos dele e fez
uma demonstração pública da sua derrota no reino espiritual.
Satanás está operando temporariamente, e ele sabe disso
melhor do que ninguém (veja Apocalipse 12.12). O único poder
que ele tem para usar contra nós é o que lhe damos ao
acreditarmos em suas mentiras.
Lembre-se sempre: o diabo é um mentiroso&#39;.
Sobre Satanás, Jesus disse: &quot;Ele é um assassino desde o início
e não permanece na verdade, porque não há verdade nele.
Quando ele fala uma mentira, ele fala o que lhe é natural, pois
ele é mentiroso e o pai das mentiras e de tudo o que é falso&quot;
(João 8.44).
A M ENTIRA SOBRE A A UTOCONFIANÇA
Todos falam sobre autoconfiança. Há todo tipo de seminário
disponível sobre confiança, tanto no mundo secular quanto na
igreja. A confiança é geralmente referida como &quot;autoconfiança&quot;
porque todos sabem que precisamos nos sentir bem sobre nós
mesmos se quisermos fazer qualquer coisa na vida. Temos sido
ensinados que todas as pessoas têm uma necessidade básica de
acreditar em si mesmas. Contudo, essa é uma concepção
incorreta.
Na verdade, não precisamos acreditar em nós mesmos:
precisamos acreditar em Jesus vivendo em nós. Não podemos ter
a ousadia de nos sentirmos bem a nosso respeito sem Ele.
Quando o apóstolo Paulo instruiu-nos para &quot;não colocar nossa
confiança na carne&quot; (veja Colossenses 3.3), ele quis dizer
exatamente isto: não coloque a confiança em si mesmo, como se
houvesse algo que você pode fazer sem Jesus.
Não precisamos de autoconfiança; precisamos da confiança
em Deus!
Muitas pessoas gastam a vida subindo a montanha do sucesso
somente para descobrir, quando chegam ao topo, que estavam
apoiadas na edificação errada. Outros lutam, tentando
comportar-se bem o suficiente para desenvolver uma medida de
confiança em si mesmos apenas para permanecerem repetindo
as falhas. Ambas as atividades produzem os mesmos resultados:
vazio e miséria.
Tenho descoberto que a maioria das pessoas falha numa
dessas duas categorias: 1) elas nunca realizam nada, não
importa quão duramente tentem, e, portanto, terminam odiando
a si mesmas pela falta de realizações; ou 2) elas têm talento
natural suficiente para fazer tais coisas, mas assumem todo o
crédito por suas realizações, o que as enche de orgulho. De
qualquer maneira, essas duas atitudes estão erradas aos olhos
de Deus.
A única pessoa verdadeiramente bem-sucedida aos olhos de
Deus é aquela que sabe que não é nada em si mesma, mas é
tudo em Cristo. Nossa glória e nossa exaltação estão apenas em
Cristo, e Ele merece toda a glória (o crédito devido) por qualquer
coisa que possamos realizar.
Todas as pessoas têm confiança (fé). A Bíblia confirma esse
fato em Romanos 12.3. Nascemos com uma medida de fé; mas o
importante é onde nós a colocaremos. Alguns colocam sua fé em
si mesmos ou em outras pessoas; outros a colocam em coisas; e,
finalmente, existem àqueles que realmente colocam sua fé em
Deus.
Não se preocupe consigo mesmo, com suas fraquezas ou
habilidades. Tire os olhos de si mesmo e os coloque no Senhor.
Se você é fraco, Ele pode fortalecê-lo. Se você tem alguma força,
é porque Ele a deu a você. De qualquer forma, seus olhos devem
estar nEle, e não em si mesmo.
Sem a verdadeira confiança (em Jesus), você criará muitos
problemas complicados para si mesmo. Aqui está uma lista
parcial:
• Você nunca alcançará seu pleno potencial em Cristo (como
nós comentamos em detalhes).
• Sua vida será regida pelo medo e cheia de tormentos.
• Você nunca conhecerá a verdadeira alegria, plenitude ou
satisfação.
• Você entristecerá o Espírito Santo, que é enviado para fazer
o plano de Deus se cumprir em sua vida, mas que será incapaz
de fazê-lo sem sua cooperação.
• Você abrirá para si mesmo muitas portas de tormentos sem
fim: auto-aversão, condenação, medo da rejeição, medo do
fracasso, medo do homem, perfeccionismo, busca do favor de
homens (o que elimina a possibilidade de agradar
exclusivamente a Deus), controle e manipulação dos outros, etc.
• Você perderá a visão do direito de ser um indivíduo e do
direito de ser você mesmo.
Este último perigo é o que eu gostaria de examinar agora. Já
temos abordado os outros de alguma forma na primeira parte
deste livro, mas este último é da maior importância e merece
grande consideração.
C ONFIANÇA PARA S ER UMA P ESSOA
Em 1 Coríntios 3.16-17 e Romanos 12.4-6, Paulo ensina que
formamos um corpo e cada qual é um membro individual desse
corpo. Essa é uma verdade muito importante para nos
apropriarmos dela porque nos tornamos miseráveis e sufocamos
o poder de Deus em nós quando tentamos ser algo ou alguém
que não fomos designados a ser.
Ouvimos, freqüentemente, que viemos de diferentes
formações, o que significa que ninguém é exatamente igual. Não
há nada de errado em ser diferente dos outros! Deus tem um
propósito em ter nos criado de forma diferente. Se Ele quisesse
que fôssemos exatamente iguais, facilmente nos teria feito
dessa forma. Pelo contrário, nossa peculiaridade é tão
importante para Deus que Ele chegou até ao extremo de dar a
cada um de nós uma impressão digital diferente!
Ser diferente não é algo ruim, é plano de Deus!
Somos parte de um único plano — o plano de Deus. Contudo,
cada um de nós tem uma função diferente, porque cada um de
nós é um indivíduo.
Defino o termo indivíduo como ser separado, distinto por
atributos específicos, com características identificadoras
distintas ou exclusivas.
Eu me achei estranha durante muito tempo, mas agora sei
que sou especial! Há uma grande diferença nisso. Se eu fosse
estranha, isso seria uma indicação de que algo em mim está
errado e não funciona da forma que deveria; enquanto ser uma
pessoa especial indica que não há outros como eu e, portanto,
tenho um valor exclusivo. Você deve acreditar que é um ser
único, especial e precioso.
N ÃO T ENTE S ER O UTRA P ESSOA
Uma das minhas características exclusivas é minha voz. A
maioria das mulheres tem voz fina e suave, mas a minha é grave
e grossa. Freqüentemente, quando alguém que não me conhece
telefona para nossa casa, pensa estar falando com o homem da
casa. Nem sempre me senti confortável com essa característica
em particular; na verdade, era bem insegura com relação a isso.
Eu pensava que minha voz tinha algo de errado!
Quando Deus me chamou para ensinar a Palavra dEle,
comecei a perceber que um dia teria de falar por meio de
sistemas de som (microfone) e até mesmo do rádio e da
televisão, e fiquei aterrorizada! Eu pensava que certamente seria
rejeitada porque falava de forma bastante diferente da maneira
que eu considerava certa para uma mulher. Eu estava me
comparando com aquilo que eu considerava normal.
Você tem se comparado com outras pessoas? Como isso o faz
sentir-se?
Não devemos nos comparar com os outros, mas deixar Jesus
ser o nosso exemplo e aprender a refletir sobre presença e
personalidade do Deus que habita em nós.
Um diamante tem muitas facetas. Deus é como um diamante
sem defeito, e cada um de nós representa uma diferente faceta
dEle. Ele tem colocado uma expressão de Si mesmo em cada um
de nós, e coletivamente formamos o seu corpo. E se nossos
corpos fossem totalmente feitos de bocas ou ouvidos, braços ou
pernas? Não teríamos problemas para falar ou ouvir, carregar
algo ou caminhar, mas e quanto às outras funções? Em que
confusão estaríamos se fosse intenção de Deus tornar-nos
exatamente iguais!
Por que tentamos tanto ser como outra pessoa em vez de
simplesmente desfrutar aquilo que somos? Porque acreditamos
nas mentiras do diabo. Acreditamos nele até ouvirmos a verdade
da Palavra de Deus, e a verdade nos tornar livres.
A graça de Deus nunca estará disponível para que você se
torne outra pessoa. Ele o criou para ser você, o melhor &quot;Você&quot;
que pode ser! Esqueça sobre tentar ser alguma outra pessoa.
Esse é sempre um erro, mesmo porque, geralmente, a pessoa
que você elegeu como &quot;perfeita&quot; não é aquilo que você pensa.
Vou lhe dar alguns exemplos:
P RIMEIRO E XEMPLO
Em certo ponto da minha vida, decidi que a esposa do meu
pastor era a &quot;mulher ideal&quot;. Ela era (e ainda é) uma mulher
graciosa: pequena, bonita, loira, com uma fala suave, gentil,
meiga e capacitada com o dom da misericórdia. Eu, por outro
lado, com minha voz grave e grossa, uma personalidade direta,
não parecia muito doce, gentil, meiga ou misericordiosa. Eu
tentava ser como ela, sem muito sucesso. Realmente tentava
baixar o volume da minha voz e mudar o tom para algo mais
&quot;feminino&quot;, mas minha voz acabava soando como uma
campainha de telefone.
Essa mulher e eu não conseguíamos nos relacionar muito
bem. Embora quiséssemos e tentássemos ser amigas, isso
parecia não funcionar. Finalmente, um confronto entre nós
revelou que eu realmente não gostava dela porque sua presença
me colocava sob pressão de ser como ela. A coisa realmente
interessante que descobrimos é que Satanás tentava vender-lhe
o mesmo pacote de mentiras que eu comprara: ela estava
lutando para ser como eu! Ela estava tentando ser menos frágil
e mais enérgica, lidar com as pessoas e coisas mais diretamente
e com maior ousadia. Não era de admirar que não pudéssemos
ter um relacionamento bem-sucedido, já que cada uma exercia
pressão sobre a outra!
Lembre-se disto: Deus nos disse: &quot;Não cobiçarás&quot; (Êxodo
20.17), e isso inclui a personalidade de outras pessoas.
S EGUNDO E XEMPLO
Minha vizinha do lado era uma jovem muito agradável e
dotada de muitas maneiras. Ela plantava, tinha um jardim e fazia
conservas, tocava guitarra é cantava, era habilidosa com vários
tipos de trabalho artesanal e trabalhos manuais, papéis de
parede, pintura, escrevia músicas - em resumo, todas as coisas
que eu não podia fazer. Como eu me achava &quot;estranha&quot;, não
podia apreciar os talentos que eu mesma tinha. Pensava
somente sobre as habilidades que me faltavam e sobre todas as
coisas que não podia fazer.
Como fui chamada por Deus para ensinar e pregar a Palavra
dEle, meus desejos eram diferentes daquelas outras mulheres
que eu conhecia. Enquanto elas freqüentavam eventos de
decoração de interiores, eu ficava em casa orando. Eu era muito
séria sobre tudo. Parecia que havia algo muito errado dentro de
mim. Enquanto as mulheres estavam relaxando e se divertindo,
eu estava constantemente me comparando com elas, sempre
sentindo que algo estava errado comigo. Esse tipo de sentimento
ocorre quando as pessoas são firmadas na vergonha e inseguras
sobre aquilo que elas são em Cristo.
Eu precisava aprender a &quot;relaxar&quot; um pouco e ter algum
divertimento, mas naquela época Deus estava fazendo algo em
mim que precisava ser realizado. Ele estava me levando a ver a
confusão em que algumas pessoas vivem e chamando-me para
ajudá-las a sair dessa confusão por intermédio da Palavra dEle.
Eu precisava ser afetada pelo peso e pela seriedade dos
problemas das outras pessoas.
Eu estava num período de espera durante o qual Deus não
estava me usando; era um tempo de preparação, aprimoramento
e crescimento que durou cerca de um ano inteiro. Durante
aquele ano, decidi que era tempo de me tornar o que eu
chamaria de &quot;mulher normal&quot;. Comprei uma máquina de costura
e fiz algumas aulas. Eu odiava aquilo, mas forcei-me a continuar.
Costura não era algo no qual eu me destacava. Quando uma
pessoa não é dotada numa área, ela simplesmente não será boa
naquilo.
Costurar é um esforço imenso para mim! Constantemente
cometia erros que me levavam a me sentir pior a meu respeito.
Eu só consegui fazer algumas lições e costurar umas poucas
roupas para minha.família, as quais eles obedientemente
usaram.
Na época, eu também decidi que deveria plantar tomates.
Aquilo parecia começar bem, eles ficavam quase prontos para a
colheita e, então, de repente, uma multidão de insetos os
atacava durante a noite deixando grandes buracos em todos
eles! Mas eu estava determinada a plantar tomates porque eu já
comprara todo o equipamento de plantio. Assim, fui até a loja e
comprei mais sementes! Trabalhei e suei, suei e trabalhei, até
que, finalmente, obtive os tomates em conserva! Uma vez mais,
odiei cada segundo que gastei fazendo aquilo, mas pensava que
eu estava provando ser &quot;normal&quot;.
Por meio dessas experiências, embora muito dolorosas,
entendi que me sentia miserável porque Deus não me ajudaria a
fazer algo que Ele não projetara para mim. Não devo ser outra
pessoa, devo ser eu mesma, assim como você deve ser você
mesmo.
S EJA V OCÊ M ESMO !
Você tem o direito de ser você mesmo!Não deixe o diabo
roubar seu direito&#39;.
Se alguém que você conhece é um exemplo de cristão ao
manifestar o caráter do Senhor ou o fruto do Espírito Santo, você
pode seguir o exemplo dEle. O apóstolo Paulo disse: &quot;I MITEM - ME
[sigam meu exemplo], como eu imito e sigo a Cristo (o Messias)&quot;
(1 Coríntios 11.1). Seguir o exemplo de uma pessoa é
inteiramente diferente de tentar ser como essa pessoa em sua
personalidade ou dons.
Eu o encorajo a pensar a este respeito: Você aceita o fato de
não ser criado como qualquer outra pessoa e ser alguém único e
especial? Você desfruta sua individualidade ou está em guerra
contra si mesmo como eu estava?
Assim, muitas pessoas estão travando uma guerra interna,
comparando-se com quase todos dos quais se aproximam, o que
lhes faz julgar a si mesmas ou as outras pessoas. Elas concluem
que ou devem ser como as outras pessoas, ou os outros devem
ser como elas.
Mentira!
Nenhum de nós deve ser como qualquer outra pessoa. Cada
um de nós deve ser a faceta que o Senhor pretende que seja,
exclusiva e individual, para que nós, coletivamente, possamos
cumprir o plano dEle e trazer-Lhe glória.
14. O Perdão Torna Você Livre para
Viver Novamente
RECEBER E CONCEDER PERDÃO por erros e pecados passados
são dois dos mais importantes fatores na cura emocional.
O perdão é um dom concedido para aqueles que não o
merecem.
Deus quer começar em nós esse processo de perdoar àqueles
que nos feriram, primeiramente, concedendo-nos o dom do
perdão. Quando Lhe confessamos nossos pecados, Ele nos
perdoa, afastando nossos pecados de si, assim como o Oriente
se afasta do Ocidente, e não se lembra nunca mais deles.
Quando você é tentado a olhar para trás, lembre-se das
promessas das Escrituras:
Se nós [livremente] admitimos que temos pecado e
confessarmos nossos pecados, Ele é fiel e justo (verdadeiro em
sua própria natureza e promessas) e perdoará os nossos pecados
[descartará a nossa ilegalidade] e [continuamente] nos purificará
de toda a injustiça [tudo o que não está em conformidade com a
Sua vontade em propósito, pensamento e ações] (1 João 1.9).
Como o oriente se afasta do ocidente, assim Ele afasta de nós
as nossas transgressões.
Como um pai ama e tem compaixão de seus filhos, assim o
Senhor ama e tem compaixão daqueles que o temem [com
reverência, adoração e respeito].
Pois Ele conhece a nossa estrutura, Ele [intensamente] se
lembra e tem gravado [em seu coração] que nós somos pó
(Salmos 103.12-14).
Já que Ele [Cristo], após ter oferecido um único sacrifício por
nossos pecados [que valerá] para sempre, sentou-se à direita de
Deus, e então espera até que seus inimigos sejam colocados
como estrado debaixo dos seus pés.
Por uma única oferta, Ele tem para sempre purificado e
aperfeiçoado aqueles que são consagrados e santificados.
E também o Espírito Santo acrescenta o seu testemunho a nós
[em confirmação a isso]. Pois foi dito, este é ó acordo
(testamento, aliança) que Eu estabelecerei e firmarei com eles
após esses dias, diz o Senhor: imprimirei a minha lei em seus
corações, e as inscreverei em suas mentes (no mais interior de
seus pensamentos e compreensão).
Então, Ele diz, de seus pecados e da quebra da lei, eu não me
lembrarei mais (Hebreus 10.12-17, grifo da autora).
Mas, para nos beneficiarmos do perdão prometido por Deus,
devemos recebê-Lo pela fé.
Muitos anos atrás, quando comecei a desenvolver meu
relacionamento com o Senhor, toda noite eu clamava pelo seu
perdão por meus pecados do passado. Uma noite, enquanto
estava ajoelhada ao lado da minha cama, ouvi o Senhor me
dizer: &quot;Joyce, Eu lhe perdoei desde a primeira vez que me pediu,
mas você não recebeu meu dom do perdão porque não perdoa a
si mesma&quot;.
Você já recebeu o dom do perdão de Deus? Se ainda não o fez
e está pronto a fazê-lo, peça ao Senhor que lhe perdoe por todos
os seus pecados agora mesmo. Então, faça a seguinte oração em
voz alta:
Eu recebo o seu perdão, Senhor, pelo pecado de
__________________(diga qual é o pecado).
Pode ser difícil verbalizar alguns de seus erros e pecados do
passado, mas expressá-los ajuda a trazer a libertação de que
você precisa.
Uma vez, enquanto orava, pedi a Deus que me perdoasse,
pois (conforme eu disse a Ele) &quot;eu tinha falhado&quot;.
&quot;Falhou em quê&quot;?, Ele perguntou.
&quot;Bem, o Senhor sabe&quot;, eu respondi, &quot;o Senhor sabe o que fiz&quot;.
Ele sabia, de fato. Mas, para o meu bem, tornou-se claro para
mim que eu precisava verbalizar qual era o pecado. O Senhor
mostrou-me que a língua é como um balde que vai até o poço
que está dentro de nós e traz à tona o que quer que esteja ali.
Uma vez que você claramente pede o dom do perdão, receba-
o como seu e repita em voz alta:
Senhor, recebo o perdão por_________________________
(diga qual é o pecado), em Cristo Jesus. Eu perdôo a mim
mesmo e aceito Seu dom de perdão como meu. Creio que o
Senhor remove completamente esse pecado de mim, afastando-
o para um lugar onde não pode mais pode ser encontrado, assim
como o Senhor afasta o Oriente do Ocidente. E creio, sim,
Senhor, que o Senhor não se lembra mais dele.
Você descobrirá que falar em voz alta é freqüentemente
benéfico porque, ao fazê-lo, você está declarando sua posição
em relação à Palavra de Deus. O diabo não pode ler sua mente,
mas pode compreender suas palavras. Declare diante de todos
os principados, poderes e dominadores das trevas (veja Efésios
6.12) que Cristo o libertou e você pretende caminhar nessa
liberdade.
Enquanto você fala, aja de acordo!
Se o diabo tentar novamente trazer esse pecado à sua mente
na forma de culpa ou condenação, repita sua declaração,
dizendo-lhe: &quot;Fui perdoado por esse pecado! Isso já foi resolvido,
portanto, não tratarei mais desse assunto&quot;. Satanás é legalista,
e, portanto, se você quiser, pode até mesmo mencionar a data
na qual você pediu e recebeu o perdão prometido por Deus.
Não fique apenas sentado ouvindo as mentiras do diabo e
suas acusações; aprenda a responder a ele!
C ONFESSEM S UAS F ALTAS U NS AOS O UTROS
Em Tiago, capítulo 5, a maneira de ser curado e restaurado é
muito clara:
Está alguém entre vocês aflito (maltratado, sofrendo algum
mal)? Ele deve orar. Está alguém alegre de coração? Ele deve
cantar louvores [para Deus].
Está alguém entre vocês doente? Ele deve chamar os
presbíteros da igreja (seus líderes espirituais). E eles devem orar
por ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor.
E a oração (que é) da fé salvará aquele que está enfermo, e o
Senhor o restaurará, e se ele tiver cometido pecados, será
perdoado.
Confessem uns aos outros, portanto, suas faltas (seus
deslizes, seus erros, suas ofensas, seus pecados) e orem
[também] uns pelos outros, para que vocês possam ser curados
e restaurados (para uma harmonia espiritual de mente e
coração). A oração intensa (de coração, contínua) de um homem
justo tem tremendo poder disponível [é dinâmica em sua
operação] (13-16).
Devemos confessar nossas faltas uns aos outros. Mas isso não
significa que toda vez que pecamos devemos confessar nosso
pecado a outra pessoa. Sabemos que Jesus é o nosso Sumo
Sacerdote. Não temos de ir às pessoas para receber o perdão de
Deus. Esse é o caso sob a Velha Aliança, mas não sob a Nova
Aliança.
Então, qual é a aplicação prática de Tiago 5.16? Creio que não
somente precisamos conhecer a Palavra de Deus, mas saber
como aplicá-la de forma prática em nossa vida diária. Uma
pessoa pode estar sangrando e possuir bandagens, mas, se ela
não souber como aplicá-las, poderá sangrar até a morte. Muitas
pessoas têm a Palavra de Deus e, contudo, estão &quot;sangrando até
a morte&quot; (vivendo em tormento) porque não sabem como aplicar
a Palavra em situações diárias.
Creio que Tiago 5.13-16 deve ser aplicado dessa forma.
Primeiro, esteja certo de que você sabe que o homem não pode
perdoar pecados; isso é trabalho de Deus. Contudo, os homens
podem pronunciar e declarar o perdão de Deus para você. Os
homens podem concordar com você com relação ao seu perdão.
Alguém pode até orar para que você seja perdoado (veja 1 João
5.16), assim como Jesus fez quando estava na cruz, orando por
aqueles que o tinham perseguido para que fossem perdoados.
Quando você precisa aplicar essa passagem? Creio que uma
ocasião para colocar Tiago 5-16 em prática é quando você está
se atormentando pelos seus pecados do passado. Ser
envenenado interiormente o impede de sentir-se bem física,
mental, espiritual ou emocionalmente.
Uma vez que sejam expostas à luz, as coisas ocultas das
trevas perdem seu poder. Pessoas ocultam coisas por causa do
medo. Satanás martela a mente das pessoas com pensamentos
tais como: O que as pessoas dirão se elas souberem que fui
abusada? Todos pensarão que eu sou uma pessoa horrível! Eu
serei rejeitada, etc.
Em meus encontros, numerosas pessoas vêm me pedir
oração, confidenciando-me: &quot;Eu nunca disse isso a ninguém, mas
senti que precisava confessar isso: eu fui abusada&quot;.
Freqüentemente tais pessoas choram incontrolavelmente. Com
esse choro, contudo, freqüentemente vem uma liberação que é
desesperadamente necessária. Pessoas feridas sentem-se
seguras comigo porque elas sabem que também fui abusada.
Agora, por favor, compreenda que não estou dizendo que
todos precisam admitir que foram abusados e pedir oração para
a cura. Se você está sofrendo pelos efeitos do abuso, seja
dirigido pelo Espírito Santo não somente para decidir se você
precisa confessar isso a alguém, mas também para decidir a
quem você deve fazer sua confissão. A pessoa deve ser
cuidadosamente escolhida. Sugiro um cristão maduro em quem
você sabe que pode confiar. Se você é casado e seu cônjuge
preenche esse requisito, considere-o como a primeira opção.
Você precisa saber que, freqüentemente, quando um cônjuge
toma conhecimento dessa situação, ele reage com ira em
relação ao abusador. Portanto, antes que você faça sua
confissão, esteja certo de que seu cônjuge é dirigido pelo Espírito
e deseja seguir a direção de Deus, e não seus sentimentos
pessoais.
Seu cônjuge pode fazer algumas perguntas que você pode
facilmente não entender se não estiver plenamente preparado
para elas. Por exemplo, quando contei a meu marido que meu
pai tinha abusado de mim sexualmente todos aqueles anos, ele
me perguntou: &quot;Você tentou fazê-lo parar&quot;? &quot;Por que você não
contou a ninguém&quot;? Tenha em mente que seu cônjuge pode não
compreender plenamente a sua situação e seus sentimentos, e
pode apenas precisar de algumas respostas. Em meu caso,
assim que eu disse ao meu marido que era controlada pelo
medo, ele compreendeu.
A prática de confessar nossas falhas uns aos outros e receber
oração é uma ferramenta poderosa para ajudar a quebrar
cadeias. Eu tinha problemas com inveja em certa área por algum
tempo e, certamente, não queria que alguém soubesse a
respeito, portanto me recusava a pedir oração. Pelo contrário,
escolhi lutar contra aquilo sozinha e, assim, como resultado não
obtive progresso algum. Assim que Deus me deu a revelação de
Tiago 5.16, &quot;Confesse um ao outro, portanto, suas falhas&quot;,
percebi que havia algumas poucas áreas em minha vida que
estavam mantendo poder sobre mim, simplesmente, porque eu
as ocultava e era bastante orgulhosa para revelá-las.
O medo pode nos levar a ocultar coisas, mas o orgulho pode
fazê-lo também. Humilhei-me e contei meu problema a meu
marido, e ele orou por mim. Depois disso, comecei a
experimentar a libertação nessa área.
U MA P ALAVRA DE C AUTELA
Algumas vezes, as pessoas se livram de um problema e, nesse
processo, deixam o problema com outra pessoa. Após me ouvir
ensinar sobre a importância da verdade e como ocultar as coisas
pode causar problemas, uma mulher que freqüentava nossos
encontros confessou-me que sempre me detestou intensamente
e sempre fizera mexericos a meu respeito. Ela me pediu perdão,
o que, certamente, desejei fazer. Ela saiu empolgada por estar
livre do seu problema, mas deixou-me lutando contra maus
pensamentos sobre ela. Eu ficava me perguntando o que ela
teria dito de mim, para quem teria falado, se eles teriam
acreditado nela e por quanto tempo isso aconteceu.
Equilíbrio, sabedoria e amor são palavras-chave da Bíblia.
Operar nessas qualidades acelerará o seu progresso. Uma
pessoa que é cheia de sabedoria e amor pensará sobre o
assunto, buscará receber a direção do Senhor e conduzirá a
situação de forma equilibrada.
PARTE DOIS
Mas agora Sou Livre
Se o Filho vos libertar [torná-los homens livres], então vocês
serão, real e inquestionavelmente, livres.
J OÃO 8.36-15
15. Perdoando ao Seu Abusador
PARA MUITAS PESSOAS, perdoar àqueles que abusaram delas
é a parte mais difícil da cura emocional, podendo até mesmo ser
um obstáculo que impede a cura. Aqueles que foram cruelmente
feridos por outros sabem que é muito mais fácil dizer a palavra
perdão do que praticá-la.
Tenho passando bastante tempo estudando e orando sobre
esse problema, pedido a Deus por respostas práticas para o
assunto. Oro para que aquilo que eu venha a lhe dizer a respeito
disso seja uma nova abordagem para uma questão tão
importante a tratar.
Primeiramente, deixe-me dizer que não é possível ter uma boa
saúde emocional enquanto a amargura, o ressentimentos e a
falta de perdão permanecerem abrigados. Agasalhar a falta de
perdão é como beber veneno e querer que seu inimigo morra. A
falta de perdão . envenena aquele que a mantém, levando-o a
tornar-se amargo. E é impossível ser amargo e sentir-se bem ao
mesmo tempo!
Se você é uma vítima de abuso, tem uma escolha a fazer:
permitir que cada problema ou ferida o torne pior ou melhor. A
decisão é sua.
Como pode uma ferida ou um problema torná-lo uma pessoa
melhor? Deus não causa dores e feridas em você, mas, uma vez
que elas lhe foram infligidas, Ele é capaz de levá-las a beneficiá-
lo, se você confiar nEle para fazê-lo.
Deus pode transformar erros em milagres!
Satanás pretende destruí-lo, mas Deus pode tomar tudo o que
Satanás envia contra você e transformá-lo para o seu bem. Você
deve crer nisso ou, então, cairá em desespero. Como o salmista
escreveu muito tempo atrás, &quot;[o que, que seria de mim] se eu
não cresse que eu veria a bondade do Senhor na terra dos
viventes ! (Salmos 27.13).
Recentemente, recebi a carta de uma mulher que dizia: &quot;Sei
que Deus não causou seu abuso, mas, se você não tivesse sido
abusada, não poderia me ajudar&quot;. Ela continuou: &quot;Por favor, não
se sinta tão mal a respeito disso, porque Deus está usando o seu
sofrimento para libertar outras pessoas&quot;.
Muitos anos atrás, tive de fazer uma escolha: eu poderia
escolher permanecer amarga, cheia de ódio e autopiedade,
ressentida com as pessoas que me feriram e com aquelas que
podiam desfrutar uma vida normal e agradável, aquelas que
nunca foram feridas como eu; ou escolher seguir o caminho de
Deus, permitindo que Ele me tornasse uma pessoa melhor por
causa daquilo que enfrentara. Agradeço a Deus por ter-me dado
a graça para escolher seu caminho em vez de escolher o
caminho de Satanás.
O caminho de Deus é o perdão.
Lembro-me de que, a principio, comecei a tentar caminhar
com Deus. Uma noite percebi que não poderia ser cheia de amor
e ódio ao mesmo tempo. Assim, pedi ao Senhor que removesse o
ódio que esteve por tanto tempo dentro mim. Era como se Ele
tivesse entrado dentro de mim e arrancado aquilo. Após a
experiência, nunca mais odiei meu pai, mas ainda sentia rancor,
aversão e desconforto quando estava próxima dele. Eu queria
ficar livre de todos os sentimentos ruins e más atitudes dentro
de mim, mas &quot;como fazer&quot; era uma grande questão para mim.
A medida que continuei a estudar e a meditar na Palavra de
Deus e relacionar-me com o Espírito Santo, o Senhor me ensinou
muitas coisas. Eu gostaria de compartilhar com você o que
aprendi nos anos do meu progresso rumo à cura completa.
P ASSOS PARA A C URA E MOCIONAL
Primeiramente, você deve escolher o caminho de Deus, que é
o caminho do perdão. Ele não o forçará a isso. Se você quiser
levar uma vida vitoriosa e desfrutar plena saúde emocional, deve
acreditar que o caminho de Deus é o melhor. Mesmo se você não
compreendê-lo, escolha segui-lo. Funciona.
Em seguida, aprenda sobre a graça de Deus. A graça é o
poder do Espírito Santo que vem para nos ajudar a realizar a
vontade de Deus. Tiago disse a respeito de Deus:
Mas Ele nos dá mais e mais graça (poder do Espírito Santo
para vencer essa tendência má e todas as outras plenamente).
Eis por que Ele diz: Deus se coloca contra o orgulhoso e altivo,
mas dá graça [continuamente] para o humilde (aquele que se
humilha o suficiente para recebê-la) (Tiago 4.6). 10
Você pode escolher perdoar e, contudo, ainda ter de lutar
contra a frustração porque você é tentado a perdoar por sua
própria força, quando, realmente, precisa da força do Senhor. O
profeta Zacarias nos diz que &quot;não por força nem por poder, mas
pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos&quot; (Zacarias 4.6-
ARA).
Não é necessário que você enfrente face a face seus
abusadores para receber o beneficio de perdoar-lhes em seu
coração. De fato, mesmo se aqueles que abusaram de você não
vivem mais, você ainda pode desfrutar grande libertação se você
decidir perdoar-lhes.
Após escolher perdoar e perceber que você não pode perdoar
sem a ajuda de Deus, ore e libere cada pessoa que o feriu.
Repita esta oração em voz alta:
Eu perdôo a______________(nome) por______________ (seja o que
for que ele fez contra você). Decido caminhar em Seus
caminhos, Senhor. Eu amo o Senhor e transfiro-Lhe essa
situação. Lanço meus cuidados ao Senhor, por isso creio na
minha total restauração. Ajude-me, Senhor; sare-me de todas as
feridas infligidas a mim.
Há muitos versículos que nos dizem que Deus defenderá o seu
povo (veja Isaías 54.17). Deus é aquele que nos retribui, Ele é a
nossa recompensa (veja Isaías 35.4). Ele é um Deus de justiça, a
qual somente Ele pode trazer. Somente Deus pode reparar você
pelo dano sofrido e somente Ele está qualificado para lidar com
seus inimigos humanos.
A Bíblia encoraja os crentes a viverem em paz com todos,
confiando no Senhor para cuidar deles:
Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira;
porque está escrito: A mim me pertence a vingança; Eu é que
retribuirei, diz o Senhor (Romanos 12.19-ARA).
Pois nós conhecemos Aquele que disse, A Vingança é Minha [a
retribuição e o comprimento de toda a justiça pertence a mim];
Eu retribuirei [Eu exigirei a compensação], diz o Senhor. E
novamente, o Senhor julgará, determinará, resolverá e decidirá a
causa e as causas de seu povo.
É algo amedrontador (formidável e terrível) incorrer nas
divinas penalidades e ser lançado nas mãos do Deus vivo!
(Hebreus 10.30-31).
Uma das principais verdades que o Senhor falou comigo
quando eu estava lidando com a questão do perdão foi: &quot;Pessoas
feridas ferem pessoas&quot;!
A maioria dos abusadores também sofreu abuso, de uma
forma ou de outra. Freqüentemente, aqueles que cresceram em
lares desestruturados criarão uma atmosfera desestruturada em
seus próprios lares.
Quando observei minha própria vida, pude ver esse padrão.
Eu tinha crescido num lar desestruturado, e assim estava criando
uma atmosfera desestruturada em meu próprio lar. Eu não
conhecia outra forma de me comportar. Essa percepção trouxe-
me grande ajuda.
P ESSOAS F ERIDAS F EREM P ESSOAS !
Realmente, não acredito que meu pai compreendia o que ele
estava fazendo comigo emocionalmente, nem creio que ele
percebia que estava me causando um problema com o qual eu
teria de lidar a maior parte de minha vida. Quando,
primeiramente, o confrontei sobre o que ele me fizera, ele agiu
como se suas ações fossem normais. Ele tinha sido abusado
quando criança, e o espírito de incesto o motivava a fazer o que
ele tinha visto outros membros da família fazerem.
Eu tinha aproximadamente 50 anos de idade quando Deus me
instruiu a conversar com meus pais sobre o abuso que eu
enfrentara. Eu realmente não queria falar com eles sobre isso,
mas Deus me disse que era tempo de fazê-lo. Meu pai não
demonstrou qualquer arrependimento no primeiro confronto, e
parecia claro para mim que aquilo que ele estava fazendo é o
que muitas pessoas que não são nascidas de novo fazem,
vivendo egocentricamente, satisfazendo seus próprios desejos
pervertidos e satanicamente controlados, sem nenhuma
consideração pelas conseqüências de suas ações. Meu pai
estava simplesmente determinado a obter o que ele queria, não
importando o que causasse a mim ou a qualquer outra pessoa.
Ao falar com meus pais naquela época, percebi que não
importava que meu pai não se lamentasse, ainda assim era
importante, para meu próprio bem, poder dizer-lhe que eu lhe
perdoava. Perdoar-lhe me liberaria para prosseguir com minha
vida.
Devemos nos lembrar do que Jesus disse enquanto estava
pendurado na Cruz, sofrendo por coisas que não eram sua culpa,
mas, sim, de outros, incluindo os próprios responsáveis pelos
seus tormentos. Ele disse: &quot;Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o
que fazem.&quot; (Lucas 23.34-ARA).
É fácil julgar, mas a Bíblia nos diz que &quot;a misericórdia triunfa
vitoriosamente sobre o juízo&quot; (Tiago 2.13). Não quero dizer que
os abusadores não sejam responsáveis por seus pecados, pois
todos nós devemos assumir a responsabilidade por nossos
próprios erros. O Senhor compartilhou comigo que a misericórdia
vê &quot;o porquê&quot; por trás do &quot;o quê&quot;. A misericórdia e a compaixão
não olham apenas para o comportamento errado; elas olham
para a infância, para o temperamento e para toda a vida do
indivíduo que comete o erro. Devemos nos lembrar de que Deus
odeia o pecado, mas ama o pecador.
Tive muitos problemas em minha personalidade que levaram
muitas pessoas a me julgar e a me rejeitar. Jesus nunca me
rejeitou nem me julgou. Meu pecado era julgado por aquilo que
ele era, mas Deus conhecia meu coração. Pecado é pecado,
minhas ações estavam erradas, não importava o que as
causasse. Mas Deus sabia que, como mulher abusada por 15
anos desde a sua infância, eu estava assim agindo por causa de
feridas profundas, e Ele teve misericórdia de mim.
Isaías profetizou sobre o Messias que viria: &quot;Não julgará
segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o
ouvir dos seus ouvidos.&quot; (Isaías 11.3-ARA).
Freqüentemente quando estou ensinando, mostro às pessoas
a figura de uma rocha. Essa rocha tem uma aparência áspera,
feia e bruta por fora, mas é maravilhosamente bela e guarnecida
com cristais azuis e ametistas por dentro.
Exterior bruto da rocha
Beleza interior da rocha
Olhando somente para o exterior, quem pensaria que toda
essa maravilhosa beleza estaria por baixo daquela superfície?
Assim são as pessoas. Deus vê o nosso interior. Ele vê as
possibilidades. Ele vê o espírito. Todos os outros vêem o homem
exterior. Sem que sejamos treinados por Deus para ver além do
que podemos perceber com os olhos naturais, sempre viveremos
julgando em nosso coração.
Lembre-se: pessoas feridas ferem pessoas!
16. Abençoando Seus Inimigos
JESUS FOI BASTANTE claro sobre o que devemos fazer àqueles
que nos ferem:
Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que
vos perseguem; (Mateus 5.44-ARA).
Invoquem bênçãos e orem pela felicidade daqueles os
amaldiçoam, e supliquem bênçãos (favor) sobre aqueles que
abusam de vocês [maltratam, reprovam, depreciam e desprezam
arrogantemente vocês]. Para aqueles que ferem sua face,
ofereçam-lhe também o outro lado da face, e para aqueles que
levam sua vestimenta exterior, não lhes negue também a sua
vestimenta interior (Lucas 6.28-29).
Paulo também instruiu os crentes a perdoar aos outros
dizendo: &quot;Abençoem aqueles que vos perseguem [que são cruéis
em suas atitudes com vocês]; abençoem e não amaldiçoem&quot;
(Romanos 12.14).
Quando comecei a ministrar às pessoas, notei que
freqüentemente elas expressavam um genuíno desejo de
perdoar seus inimigos, mas admitiam que eram incapazes de
fazê-lo. Eu buscava a Deus em oração por respostas para elas, e
Ele deu-me esta mensagem: &quot;Meu povo quer perdoar, mas não
está obedecendo às Escrituras com relação ao perdão&quot;. O Senhor
levou-me a várias passagens sobre orar e abençoar nossos
inimigos.
Muitas pessoas declaram perdão aos seus inimigos, mas não
oram e nem orarão por aqueles que as feriram. Orar por aqueles
que cometeram erros contra nós pode levá-los ao
arrependimento e à verdadeira percepção do mal que eles
causaram a outros. Sem tal oração, eles podem permanecer no
engano.
Ore para que Deus abençoe seus inimigos, aqueles que
abusam, ridicularizam e maltratam você. Você não estará orando
especificamente para que as suas atitudes sejam abençoadas,
mas para que eles sejam abençoados como indivíduos.
É impossível para alguém ser verdadeiramente abençoado
sem conhecer a Jesus. Como vítima de um abuso, se você orar
por seus abusadores, você ativará Romanos 12.21(ARA): &quot;Não te
deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.&quot;.
Peça a Deus que lhe mostre misericórdia, e não juízo, para
seus abusadores. Lembre-se: se você semear misericórdia,
colherá misericórdia (veja Gaiatas 6.7). Abençoar e não
amaldiçoar seus inimigos é uma parte muito importante do
processo do perdão. Uma definição da palavra abençoar é &quot;falar
bem de&quot;, e amaldiçoar significa &quot;falar mal de&quot;.
A L ÍNGUA E O P ERDÃO
Quando você foi maltratado, é muito tentador contar às outras
pessoas o que lhe aconteceu. De acordo com o propósito
previsto na Palavra de Deus, esse tipo de compartilhamento é
importante. Para receber cura, oração confortadora, é também
necessário revelar o que você sofreu nas mãos de outros. Mas
espalhar difamação e arruinar a reputação de alguém é contra a
Palavra de Deus. A Bíblia nos ensina a não fazer mexericos, a
não caluniar ou difamar pessoas. O escritor de Provérbios 17.9
(ARA) diz: &quot;O que encobre a transgressão adquire amor, mas o
que traz o assunto à baila separa os maiores amigos.&quot;.
Freqüentemente exercitamos fé para receber cura de nossas
feridas e, ao mesmo tempo, falhamos em obedecer à lei real do
amor. Em Gaiatas 5.6, o apóstolo Paulo nos diz que a fé opera e
é energizada pelo amor: &quot;porque o amor cobre multidão de
pecados.&quot; (1 Pedro 4.8-ARA).
Podemos ter uma conversa com o Senhor sobre aquilo que
ocorreu conosco. Podemos até mesmo revelar o acontecido para
aqueles a quem seja necessário por alguma razão, mas, se
quisermos perdoar e nos recuperar das dores e feridas, não
devemos falar a todos sobre o problema ou sobre a pessoa que o
causou. A Bíblia nos alerta sobre as palavras vãs (inúteis) (veja
Mateus 12.36). A menos que revelar nosso problema tenha
algum bom propósito, devemos nos disciplinar a suportá-lo
silenciosamente, confiando que Deus nos recompensará
publicamente por honrar a Sua Palavra.
Lembro-me do caso de uma mulher casada há mais de trinta
anos cujo marido envolveu-se num relacionamento com sua
melhor amiga. Ele desapareceu com a mulher, levando os
recursos economizados pela família. Essa era uma família cristã,
e, certamente, o adultério e a infídelidade eram totalmente
inesperados e chocaram a todos.
A esposa, desolada, caíra na armadilha de falar sobre o que
seu marido e sua amiga lhe fizeram, o que, a princípio, era
justificável. Contudo, três anos mais tarde, após ela ter recebido
o divórcio e seu ex-marido se casar com sua amiga, a mulher
ainda não tinha superado a dor. Ela também se casara com um
homem maravilhoso e dizia que queria esquecer o passado e
continuar com sua vida, mas era incapaz de perdoar e
prosseguir.
Ouvindo uma série de fitas com meus estudos sobre o assunto
da língua e o poder das palavras, ela percebeu que não obtinha
vitória porque permanecia continuamente falando a todos que
podiam ouvi-la sobre o que tinha acontecido. Trazendo, vez após
vez, todos os detalhes, ela sempre trazia de volta as memórias
dolorosas.
Deus me mostrou que algumas pessoas oram por cura e até
mesmo dizem &quot;Eu perdôo aqueles que me feriram&quot;, e assim Ele
começa a operar um processo de cura. Mas elas não permitem
que Ele complete Sua obra porque elas se mantêm reabrindo a
ferida.
Quando uma ferida física começa a ser curada, forma-se uma
casca, mas, se ela for continuamente tocada, nunca sarará. Pode
até mesmo se tornar infectada e deixar uma cicatriz. O mesmo
ocorre com as feridas emocionais. Falar sobre as feridas e sobre
a pessoa que as causou é semelhante a mexer constantemente
num machucado. Isso reabre a ferida e causa novo sangramento.
Uma das coisas mais úteis que Deus me revelou é que perdoar
requer disciplina sobre a língua. A carne sempre quer &quot;repetir ou
insistir no assunto&quot;, mas cobrir a ofensa trará bons resultados.
Se você precisa falar sobre seu problema para obter
aconselhamento, oração ou qualquer outro propósito, pode fazê-
lo de forma positiva.
Exemplo: o que soa mais parecido com a maneira de Deus?
&quot;Por 15 anos meu pai repetidamente abusou de mim
sexualmente. Minha mãe sabia a respeito e não fez nada.&quot;
— Ou —
&quot;Por 15 anos meu pai abusou sexualmente de mim. Deus está
me curando. Estou orando por meu pai. Percebo que ele tinha
feridas em seu passado e era controlado por forças demoníacas.
Minha mãe sabia a respeito do que ele estava fazendo e poderia
ter me ajudado, mas ela foi paralisada pelo medo e pela
insegurança. Ela, provavelmente, não sabia como enfrentar a
situação e, assim, omitiu-se.&quot;
Estou certa de que você concorda que o segundo exemplo soa
de forma mais amorosa. Palavras bem escolhidas podem mudar
toda a feição de um relato. Lembre-se: se você quer se tornar
uma pessoa melhor, não pode mais ser amargo. Se há qualquer
amargura em você, é bastante provável que isso seja
demonstrado por meio da sua conversa. O tom da sua voz e a
escolha das suas palavras podem revelar muitas coisas a seu
respeito se você quiser ser sincero. Em Mateus 12^34, Jesus
disse que &quot;da plenitude (da superabundância, da fartura) do
coração, a boca fala&quot;.
Se você quer vencer um problema, pare de falar a respeito
dele. Sua mente afeta sua boca e sua boca afeta sua mente. É
difícil parar de falar sobre a situação se você não parar de
pensar a respeito dela. E é também difícil parar de pensar a
respeito do assunto se você continuamente falar sobre ele. ., A
decisão certa é: Faça o que pode fazer, e Deus o ajudará a fazer
o que não pode fazer. Faça o seu melhor, confie em Deus, e Ele
fará o resto.
Pode levar algum tempo antes que você consiga disciplinar
sua boca completamente. Comece por obedecer aos &quot;toques&quot; do
Espírito Santo. Se você receber a convicção dEle para ficar
quieto, obedeça-Lhe e receberá um pouco mais de liberdade
cada vez que fizer isso.
Também esteja consciente de que Satanás vai tentá-lo você
nessa área. Ele conhece o poder das palavras. Palavras são
contêineres de poder! A língua é uma arma para ser usada em
favor de Satanás ou contra ele. Eis por que você deverá escolher
suas palavras cuidadosamente. Satanás usará até mesmo
amigos bem-intencionados, amorosos, para trazer seu problema
à tona. Tenha sabedoria e discrição. Não caia na armadilha que
pode reabrir sua ferida e fazê-la sangrar novamente.
C ONFIE EM D EUS PARA M UDAR S EUS S ENTIMENTOS
Sentimentos (emoções) constituem um fator importante no
processo de cura e na liberação do perdão. Você pode tomar
todas as decisões corretas e, por um longo tempo, não perceber
qualquer diferença na maneira como você se sente agora e
como se sentia antes de ter decidido ser obediente ao Senhor. E
aí que a fé é necessária para levá-lo diante.
Você fez a sua parte e agora espera que Deus faça a parte
dEle. A parte de Deus é curar suas emoções, fazer você se sentir
bem, e não ferido. Somente Deus tem o poder de mudar seus
sentimentos com relação à pessoa que o feriu. A cura interior
somente pode ser realizada por Deus, porque Ele, por intermédio
do poder do Espírito Santo, vive em você (se você nasceu de
novo), e somente Ele pode curar seu interior.
Por que Deus nos faz esperar pela cura? Esperar é a parte
mais difícil. Nossa atitude enquanto esperamos revela se temos
fé em Deus. De acordo com Hebreus 6.12, as promessas de Deus
são herdadas por meio da fé e da paciência. Em Gaiatas 5.5, o
apóstolo Paulo declara que devemos, &quot;pela fé, antecipar e
esperar pela bênção e pelo bem pelos quais nossa justiça e
posição correta com Deus [nossa conformidade à Sua vontade
em propósito, pensamento, e ação] aguardam&quot;.
Não temos que esperar qualquer resultado quando seguimos a
carne. Contudo, a forma de o homem natural lidar com aquilo
que o fere nunca produz bons resultados. O caminho de Deus
funciona, mas esse caminho opera por intermédio do princípio de
semear sementes e, pacientemente, esperar pela colheita. Você
semeia boa semente ao seguir o plano de Deus de forma
obediente, o qual é:
• Receba o perdão de Deus (e ame a si mesmo).
• Decida perdoar e liberar aqueles que o feriram.
• Ore por seus inimigos.
• Abençoe aqueles que o feriram.
• Acredite que Deus está curando suas emoções.
• Espere.
Esperar é onde a batalha é ganha no reino espiritual. Esperar
e manter seus olhos em Deus exerce pressão contra as forças
demoníacas que deram inicio ao problema, e elas terão que
retroceder, devolvendo o terreno que conquistaram. Quando
você mantém seus olhos em Deus, isso força o inimigo a sair do
seu território:
A QUELE QUE habita no lugar secreto do Altíssimo permanecerá
estável e seguro sob a sombra do Todo Poderoso (cujo poder
nenhum inimigo pode resistir).
Eu direi do Senhor, Ele é o meu Refúgio e a minha Fortaleza,
meu Deus, Nele eu me apoio e confio, e nele eu
(confiantemente) creio! (Salmos 91.1-2).
Quando você ler os demais versículos desse salmo, então verá
que são cheios de grandes promessas sobre como o inimigo não
poderá derrotá-lo. Uma nota de rodapé sobre o Salmo 91 na
Bíblia Amplificada diz: &quot;Mas as promessas de todo este capítulo
dependem das condições de os dois primeiros versículos do
salmo serem satisfeitas&quot;. Em outras palavras, ocorrerá o bem
para aqueles que habitam no lugar secreto de Deus e proclamam
o Senhor como seu refúgio e fortaleza, aqueles que confiam e
apóiam todo seu ser nEle.
Aqui está o relato de uma experiência que, creio, pode ajudar
a esclarecer esse ponto. Uma amiga, alguém a quem eu amava,
em quem confiava e a qual ajudara em muitas situações, feriu-
me profundamente. Mentiras foram espalhadas a meu respeito,
causando grandes problemas e angústia em mim. Críticas e
mexericos estavam envolvidos, e essa mulher, que foi uma das
maiores promotoras dessa confusão, deveria ter agido de forma
melhor.
Essa situação em particular foi, provavelmente, a maior ferida
emocional que já experimentei no ministério, porque veio de
uma colaboradora em Cristo em quem eu confiava e com quem
eu trabalhava. Eu sabia que eu tinha que perdoar-lhe ou a falta
de perdão envenenaria meu ministério e a mim.
Comecei esse processo que expliquei. O primeiro passo,
escolher perdoar, não foi tão difícil. O próximo, fazer a oração do
perdão, também não foi tão difícil. O terceiro passo, orar pela
própria mulher, foi um pouco mais complicado. Mas o quarto
passo, abençoá-la e recusar-me a falar mal dela, foi
provavelmente, o mais difícil de todos.
De fato, parecia que ela continuava a viver como se nada
tivesse acontecido, enquanto meus sentimentos estavam
feridos. Finalmente, comecei a entender que ela tinha sido
enganada por Satanás e que, realmente, acreditava estar sendo
obediente a Deus quando agiu daquela forma comigo.
Embora eu estivesse tentando aplicar o passo cinco crendo
que minhas emoções seriam curadas, meus sentimentos diante
dessa mulher não mudaram por cerca de seis meses. O passo
seis, esperar no Senhor, foi especialmente difícil para mim
porque eu tinha de conviver com essa mulher o tempo todo. Ela
nunca se desculpou por suas ações e nem indicou que tinha feito
algo errado. Algumas vezes, sentia-me tão mal que pensava não
poder suportar mais um dia!
Eu dizia a Deus: &quot;Fiz a minha parte. Confiei no Senhor para
mudar meus sentimentos&quot;. Aprendi que, para o processo
funcionar, você tem de permanecer em sua posição e não
desistir!
Cerca de seis meses se passaram. Algumas vezes, quando via
aquela mulher, eu queria explodir e repreendê-la! Mas tudo o
que eu podia fazer era continuar a pedir a Deus que me ajudasse
a me controlar. Atravessei várias fases de emoções durante
esses seis meses. Algumas vezes, eu podia ser mais
compreensiva do que em outras.
Um domingo pela manhã, durante uma reunião da igreja, senti
que Deus queria que eu fosse até essa mulher, a abraçasse e lhe
dissesse que eu a amava. Honestamente, devo dizer que minha
carne estava gemendo. Pense: Oh! Não, Senhor, não isso! O
Senhor certamente não me pedirá para ir até ela, quando ela é
que deveria vir até mim! E se eu for e isso a fizer pensar que
estou admitindo que errei?
Eu queria que a mulher viesse e se desculpasse, e, contudo,
sentia essa gentil pressão para ir até ela. O Espírito Santo estava
tentando me levar até as bênçãos que Deus, o Pai, tinha para
derramar sobre minha vida. Freqüentemente o Senhor tenta
mostrar que nos abençoará, e nós nunca recebemos tais
bênçãos porque nos rebelamos em fazer o que Ele nos diz.
Finalmente, comecei a ir na direção dela, odiando cada
segundo daquilo em minha carne, mas querendo ser obediente
ao Senhor. Quando comecei a andar, ela também veio em minha
direção. Aparentemente Deus também estava falando com ela.
Quando nos encontramos, simplesmente a abracei e disse:
&quot;Eu amo você&quot;. Ela fez exatamente o mesmo, e esse foi o final
da história. Ela nunca se desculpou comigo nem mesmo
mencionou o que acontecera; contudo, por causa de minha
obediência, Deus quebrou o jugo dessa escravidão. No tocante a
mim, todo o incidente faz parte do passado, ao menos em sua
maior parte. Ocasionalmente eu ainda sentia um pouco de dor
quando via aquela mulher ou quando alguém mencionava o
nome dela, mas nunca mais fui atormentada emocionalmente
pela situação daquele dia em diante.
V OCÊ D ESEJA A NDAR MAIS UMA M ILHA ?
Chegou o momento em que Deus começou a lidar comigo
sobre honrar e abençoar meus pais. Isso era difícil para mim
porque nenhum deles tinha mostrado qualquer arrependimento
pelas coisas que me aconteceram. Eu sabia que tinha de
continuar fazendo o que era certo aos olhos de Deus, muito
embora não sentisse vontade de fazê-lo. Lembre-se: o perdão
não depende de a pessoa a ser perdoada merecê-lo. O perdão é
uma decisão tomada como um ato de obediência à Palavra de
Deus.
Certa vez, quando meu pai estava doente no hospital, ele
pensou que iria morrer, e assim pediu que eu e Dave fôssemos
até lá e fizéssemos uma oração por ele. Perguntamos-lhe se ele
queria ser salvo, e ele respondeu que sim, mas, quando oramos
com ele, tudo o que ele disse foi: &quot;Simplesmente me sinto morto
por dentro. Simplesmente não há nada dentro de mim&quot;.
Ele queria ser salvo, mas ainda não estava arrependido das
coisas que fizera. Tivemos de conversar sobre o que ele tinha
feito a mim, e, então, ele fez uma declaração interessante:
&quot;Lamento por tê-la ferido, mas não posso realmente dizer que
estou arrependido de tê-lo feito&quot;.
Eu podia ver que meu pai não estava arrependido, mas ele
não poderia receber a salvação até que realmente se
arrependesse. Também pude claramente perceber que o
arrependimento é um dom. Quando uma pessoa se sente mal
em relação a alguma coisa que ela fez, isso é um dom de Deus.
Mas o coração de meu pai era tão duro que ele apenas não
conseguia deixar de lado seu orgulho, orar e confessar seus
pecados.
Finalmente, Deus nos permitiu trazer meus pais para St. Louis
para que eles pudessem estar mais próximos de nós e
pudéssemos cuidar deles. Isso foi muito difícil para mim, porque
eu tinha com eles um relacionamento superficial, polido, do tipo
&quot;vejo-vocês-no-feriado&quot;, até aquele momento. Eu não sentia
mais qualquer amargura ou ressentimento em meu coração, mas
não queria andar nenhuma milha extra para cuidar de suas
necessidades diárias.
Mas trazê-los para perto era algo que Deus especificamente
colocara em meu coração. Não recomendo que outros façam isso
simplesmente porque Deus me disse para fazê-lo. Obviamente,
se alguém ainda está em perigo de um iminente abuso, não
creio que Deus o dirigiria a fazer isso. Mas meus pais eram
idosos e precisavam de atenção que somente nós poderíamos
dar.
Quando Deus nos disse para comprar uma casa para eles,
pensei que deveríamos comprar uma casa qualquer, mas Deus
disse para comprar uma boa casa. E assim nós compramos uma
casa muito boa, que ficava a menos de dez minutos da nossa
casa. Compramos os móveis, um carro e, basicamente, tudo de
que eles precisavam.
Novamente, devo admitir que isso não foi fácil para mim, mas
eu sabia que Deus estava dizendo para fazê-lo. Não tenho
certeza do que aconteceria se eu não tivesse sido obediente,
mas sei que Deus tem me abençoado de formas específicas
porque me dispus a fazer o que Ele mandou. Deus tem
abençoado nosso ministério simplesmente porque fui fiel em
fazer o que Ele disse com relação aos meus pais, muito embora
fosse difícil. É importante compreender que algumas vezes Deus
nos pede coisas difíceis.
Nos primeiros três anos após meus pais terem mudado para
perto, não houve qualquer mudança em meu pai. Ele não
tentava mais abusar de mim, mas ainda era mesquinho,
rancoroso e amargo, sempre respondendo à vida com a mesma
atitude ruim. Suas expressões simplesmente faziam com que eu
me retraísse, porque ele agia de forma muito miserável. Ele
ainda não tratava bem minha mãe, mas nós, simplesmente,
continuamos mostrando-lhe ternura e amor.
Fizemos muitas coisas boas por meu pai por vários anos antes
que ele finalmente começasse a dizer: &quot;Obrigado. Eu gostei
disso. Vocês são bons para nós&quot;.
Senti que tínhamos feito tudo o que podíamos fazer por meu
pai. Chegou, então, o momento em que tínhamos apenas de
esperar. A coisa importante a lembrarmos enquanto esperamos
que Deus se mova na vida de alguém ou em nossa própria vida é
apenas nos mantermos fazendo o que sabemos que é certo
fazer.
Um bom conselho que aprendi com essa experiência é:
Obedeça a Deus e faça as coisas à maneira dEle Pode parecer
difícil algumas vezes, mas é mais difícil permanecer em
escravidão. Lembre-se sempre disso: embora doa tornar-se livre,
dói muito mais permanecer como escravo.
17. A Vingança Pertence ao Senhor
QUANDO VOCÊ É ferido por outra pessoa, há sempre o
sentimento de que ele deve algo a você. De outro lado, quando
você fere alguém, pode ter um sentimento de que precisa
compensá-lo ou pagar-lhe de alguma forma. Tratamento injusto e
abuso de qualquer tipo deixam &quot;uma dívida em aberto&quot; no reino
do espírito. Tais dívidas são sentidas na mente e nas emoções.
Se sentimentos de vingança por aquilo que os outros causaram a
você ou pelo que você causou a eles se tornarem uma carga
muito pesada e penetrarem profundamente em seu coração,
você pode até mesmo sentir resultados danosos em seu próprio
corpo.
Jesus ensinou seus discípulos a orar: &quot;Perdoa nossas dívidas,
assim como nós perdoamos (deixamos para trás, perdoamos,
liberamos os débitos, e desistimos de nos ressentir contra)
nossos devedores&quot; (Mateus 6. 12). Ele estava falando sobre pedir
a Deus que perdoe nossos pecados, e Jesus se referiu a eles
como &quot;dívidas&quot;. Uma dívida é algo que alguém tem de pagar a
outra pessoa. Jesus disse que Deus perdoaria nossas dívidas,
liberando-as e cancelando-as, agindo como se não estivéssemos
Lhe devendo coisa alguma.
Ele também ordenou que nos comportássemos da mesma
forma diante daqueles que nos devem algo. Novamente, deixe-
me dizer que isso pode soar difícil, mas é muito mais difícil odiar
alguém e passar a vida inteira tentando cobrar uma dívida que a
pessoa nunca poderá pagar.
A Bíblia diz que Deus nos dará a nossa recompensa (veja
Isaías 61.7-8 abaixo). Nunca prestei muita atenção nesses
versículos até alguns anos atrás, enquanto estudava sobre o
perdão e sobre liberar dívidas. Recompensa é uma palavra-chave
para aqueles que foram feridos. Quando a Bíblia diz que Deus
nos dará nossa recompensa, isso basicamente significa que o
próprio Deus nos pagará de volta aquilo que nos pertence!
Memorize esses versículos com relação a Deus nos dar nossa
recompensa:
Ao invés da sua [antiga] vergonha você terá uma dupla
recompensa; ao invés de desonra e da reprovação [seu povo] irá
se alegrar em sua porção. Portanto, em sua terra eles possuirão
o dobro [que perderam]; alegria eterna lhes pertencerá.
Pois Eu, o Senhor, amo a justiça; Eu odeio o roubo e a injustiça
com violência para uma oferta queimada. Eu fielmente darei a
eles a sua recompensa em verdade, e farei uma aliança ou
acordo eterno com eles (Isaías 61.7-8).
Discutiremos sobre a dupla recompensa novamente em
capítulos posteriores. Vários outros versículos dizem que Deus é
um Deus de recompensa e que a vingança pertence a Ele. Isaías
49,4 (ARA) é um dos trechos que o Espírito Santo usou em minha
vida: &quot;Eu mesmo disse: debalde tenho trabalhado, inútil e
vãmente gastei as minhas forças; todavia, o meu direito está
perante o Senhor, a minha recompensa, perante o meu Deus&quot;.
Buscar vingança é tentar retribuir às pessoas por algum mal
que elas causaram. O problema é que a vingança é sempre em
vão, ela não remove a dor ou restaura o dano. Ela realmente
causa mais dor e sofrimento.
Certamente trabalhei em vão por muitos anos. A palavra &quot;vã&quot;
significa &quot;inútil&quot;. Se você trabalha em vão, seus esforços são
inúteis. Isso desgastará você física, mental e emocionalmente,
caso você tente retribuir àqueles que o feriram, ou a todos
aqueles que você tem ferido.
Muitas vezes, aqueles a quem você tem odiado ou tentado se
vingar estão vivendo indiferentes a isso, nem mesmo
percebendo ou interessados em como você se sente. Querido
sofredor, isso é trabalhar em vão. Como as Escrituras dizem, eu
gastava minha força em vão; todos meus esforços eram fúteis
até que eu aprendesse a buscar a Deus por minha recompensa.
Recompensa é uma palavra semelhante em significado ao
pagamento de um trabalhador. Se você foi ferido quando
trabalhava para Deus, Ele o recompensará. A recompensa
também significa galardão. De acordo com a Bíblia, o próprio
Deus é nosso galardoador (veja Gênesis 15.1), mas Ele também
nos recompensa ao fazer coisas especiais para nós, dando-nos
&quot;uma alegria indizível&quot; (1 Pedro 1.8) e a paz &quot;que excede a todo
o entendimento&quot; (Filipenses 4.7). Deus tem abençoado minha
vida de tal forma que, freqüentemente, é difícil perceber que
realmente sou eu quem se sente tão bem e é tão abençoada.
Por longo tempo, vivi cheia de ódio e ressentimento. Eu era
amarga, com um peso nos ombros, sentindo-me infeliz comigo
mesma. Extravasava meu ressentimento em direção a todos,
especialmente àqueles que estavam tentando me amar. .. Você
tem de se lembrar de que daquilo que você se enche também
será alimentado. Quando você está cheio de ira, amargura e
ressentimento, não somente envenena outros relacionamentos,
mas também envenena a si mesmo. O que está em seu coração
brota em sua conversa, em suas atitudes, e mesmo na
linguagem do seu corpo e em seu tom da voz.
Se você está cheio de pensamentos e atitudes envenenadas,
não há maneira de impedi-los de afetar toda sua vida. Deixe
esse negócio de cobrar dívidas para o próprio Senhor. Ele é o
único que pode fazer o trabalho de maneira adequada. Alinhe-se
com os caminhos de Deus, e Ele cobrará suas dívidas e o
reparará por todas as feridas do passado. Realmente é glorioso
observá-lo fazer isso.
E STOU D ESEJOSO ,  MAS C OMO ?
Escreva sobre todas as dívidas que você tem e sobre tudo que
as pessoas lhe devem. Estou falando de débitos no reino
espiritual, e não de dívidas financeiras. Escreva por meio delas:
&quot;Cancelado&quot;! Diga em voz alta: &quot;Nenhuma pessoa me deve coisa
alguma, e eu não devo coisa alguma a ninguém. Cancelo todas
essas dívidas e as entrego a Jesus. Ele agora está encarregado
de pagar o que me é devido&quot;.
Se você feriu alguém, você pode pedir perdão a essa pessoa.
Mas, por favor, não gaste sua vida tentando compensar os outros
pelo mal que você lhes causou; isso seria inútil. Somente Deus
pode fazer isso por eles. Aqui está um exemplo prático.
Enquanto criei meus filhos, eu ainda tinha muitas crises
emocionais, por causa do abuso em meu passado. Tendo sido
ferida e sem conhecer ainda os caminhos de Deus para fazer as
coisas, terminei ferindo meus próprios filhos. Eu vivia
reclamando e gritando, eu tinha um mau temperamento e
nenhuma paciência. Eu era simplesmente difícil de lidar e de me
satisfazer.
Eu ditava muitas regras para meus filhos e lhes dava amor e
aceitação quando seguiam as regras, mas ficava furiosa quando
eles não as seguiam. Eu não era misericordiosa e não percebia
que estava tratando meus filhos da mesma forma que fui tratada
quando criança, o que acontece com a maioria das pessoas que
foram abusadas.
Como resultado de anos vivendo numa zona de guerra, meu
filho mais velho desenvolveu alguma insegurança emocional e
problemas de personalidade. Algumas vezes, parecia haver um
espírito de contenda entre nós, e geralmente não podíamos ficar
perto um do outro. Certamente, após receber o batismo no
Espírito Santo e estudar a Palavra de Deus, eu quis reparar o
dano que lhe causara e compensá-lo pela forma que o tratara.
Você poderia dizer que eu queria indenizar meu filho pelo dano
que lhe causara.
Na verdade, eu não sabia como reparar o prejuízo que fizera.
Desculpei-me, mas não sabia mais o que fazer. Por um tempo,
caí na armadilha de pensar que deveria dar-lhe tudo que ele
quisesse; mas depois de tudo eu ainda continuava em débito.
Meu filho tinha uma personalidade forte e, ao mesmo tempo,
ainda não estava caminhando com o Senhor. Ele aprendeu
rapidamente como me fazer sentir-me culpada. Ele estava me
manipulando e me controlando emocionalmente, assim como
tentando usar meu novo relacionamento com o Senhor em seu
favor.
Um dia, enquanto eu estava tentando corrigi-lo por seu
comportamento, ele respondeu: &quot;Bem, eu não seria dessa forma
se você tivesse me tratado direito&quot;. Minha reação foi &quot;normal&quot;
como de costume; retirei-me para um quarto, sentindo-me mal a
meu respeito.
Contudo, desta vez Deus mostrou-me algo. Ele disse: &quot;Joyce,
seu filho tem a mesma oportunidade de vencer seus problemas
quanto você. Você o feriu porque alguém feriu você. Você está
triste e se arrependeu; não há nada mais que você possa fazer.
Você não pode gastar o resto da sua vida tentando reverter o
que já foi feito. Eu o ajudarei, se ele permitir que eu o ajude&quot;.
Eu sabia que teria de falar com meu filho o que Deus me
dissera. Eu o fiz e tomei a decisão de que eu pararia de tentar
compensá-lo por meus erros. Ele atravessou um tempo difícil,
mas, finalmente, assumiu um compromisso com Deus e começou
o seu próprio caminho em direção à cura e à maturidade. Ele é
agora diretor de Missões do nosso ministério. Além de meu filho
e cooperador em Cristo, ele é também um dos meus melhores
amigos.
Realmente encorajo você a examinar essa área em sua vida e
permitir que Deus o recompense. Sua recompensa é grande. Há
sempre um tempo de espera pelas coisas relacionadas a Deus,
mas você deve manter-se fazendo o que sabe que Deus lhe
pediu, e seu rompimento virá. Você cometerá erros, mas, quando
isso acontecer, apenas se arrependa e prossiga.
Quando um bebê começa a caminhar, ele nunca o faz sem
cair algumas vezes. Então, ele apenas se levanta e começa a
caminhar novamente rumo ao seu destino. Vá a Jesus como uma
pequena criança. Ele está estendendo seus braços para você,
caminhando em sua direção. Mesmo se você cair
freqüentemente, levante-se e prossiga.
Antes que este capítulo termine, eu gostaria de enfatizar este
ponto: não somente caímos em armadilha ao tentar compensar
as pessoas que ferimos, mas algumas vezes também cobrando
nossas feridas de outros que nada fizeram para causá-las.
Por anos tentei cobrar meus débitos emocionais de meu
próprio marido, simplesmente por ele ser um homem e por estar
casado comigo. Esse é um problema complicado. Algumas
mulheres odeiam todos os homens porque algum homem a feriu.
Um garoto que foi ferido por sua mãe pode crescer e passar o
resto da sua vida adulta odiando e abusando de mulheres. Esse
é um tipo de cobrança de dívida. Por favor, perceba que tal
comportamento não resolve o problema e nunca trará um senso
interior de satisfação de que a dívida foi finalmente liquidada. Há
somente uma maneira de cancelar a dívida, e esta é à maneira
de Deus.
18. Livre para Alegrar-Se com os Outros
UMA VERDADEIRA  EVIDÊNCIA da cura emocional ocorre quando a
pessoa que foi abusada pode se alegrar quando outros são
abençoados. Em capítulos anteriores, abordamos o princípio
ensinado em Romanos 12.14, que diz: &quot;Abençoe aqueles que vos
perseguem (que são cruéis em sua atitude com você); abençoe e
não amaldiçoe&quot;. Mas a Palavra de Deus também nos ensina a
&quot;alegrar-nos com os que se alegram (compartilhe da alegria dos
outros), e chorar com os que choram (compartilhe o sofrimento
dos outros)&quot; (Romanos 12.15).
E fácil para as pessoas abusadas invejarem aqueles que nunca
sofreram como elas. Mas sinto que é importante encorajar
aqueles que têm sido abusados a evitar serem invejosos e
ciumentos para que possam desfrutar a completa cura
emocional.
O Senhor colocou essa necessidade em meu coração quando
eu estava ministrando uma palavra de encorajamento a várias
pessoas num encontro.
Subitamente, meu marido veio à plataforma porque Deus
tinha colocado uma forte palavra em seu coração que ele
precisava compartilhar. Dave disse: &quot;Cinco ou seis pessoas
receberam uma palavra pessoal de Deus por meio da
ministração da Joyce. Mas há uma sala cheia de pessoas
sentadas aqui que estão sentindo inveja e pensando: Eu
desejaria que isso tivesse acontecido comigo&quot;.
E ele continuou: &quot;Deus claramente falou ao meu coração para
que lhes dissesse: &#39;Até que você fique feliz por outras pessoas
quando elas forem abençoadas, você nunca terá esse tipo de
coisa acontecendo em sua vida&quot;. Realmente as pessoas ficaram
perturbadas ao perceberem que sentiam inveja até mesmo por
uma palavra de encorajamento que Deus tinha liberado para
outras.
Chegamos até a invejar os dons espirituais que outra pessoa
possui. Eu desejava poder cantar e, quando ouvia pessoas com
vozes bonitas, pensava: Eu gostaria de ter uma voz assim.
Um dia, Deus me disse: &quot;Joyce, coloquei esse dom em outra
pessoa para que você o desfrute, e não para que você se
ressinta por elas terem algo que você desejaria ter. Não coloquei
esse dom nelas por causa delas, Eu o coloquei nelas para
edificar você&quot;.
Da mesma forma, os dons de Deus que estão em mim são
para abençoar as outras pessoas. Meus dons me dão
responsabilidade e trabalho árduo, mas o que eles dão às outras
pessoas é bênção para elas. Assim, devemos desfrutar os dons
dos outros e não sentir inveja. Deus colocou algo em mim para
você, mas Ele também colocou algo em você para mim, o que
realmente remove a necessidade de sermos invejosos um dos
outros.
Creio que uma das maiores causas de inveja é a insegurança,
que vem da falta de conhecimento do que significa estar em
Cristo.
O diabo mente e nos diz que as outras pessoas são melhores
do que nós. Ele nos engana sucessivamente com padrões de
pensamentos negativos tais como: Se eu apenas tivesse o dom
que ele possui; ou, Se eu apenas fosse como ela; ou, Se somente
eu pudesse fazer o que eles fazem. Pensamos que se fôssemos
como os outros, então, seríamos tão &quot;bons&quot; quanto eles são.
Esse tipo de pensamento errado faz com que nos tornemos
cheios de inveja e ciúmes.
Um dos dez mandamentos é: &quot;Não cobiçarás a casa do teu
próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu
servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem
coisa alguma que pertença ao teu próximo&quot; (Êxodo 20.17-ARA).
Cobiçar significa &quot;desejar com inveja&quot;.&quot; Invejar é definido
como &quot;sofrimento ou consciência ressentida de uma vantagem
desfrutada por outro, juntamente com o desejo de possuir a
mesma vantagem&quot;. 12 Ser invejoso é a ser &quot;intolerante pela
rivalidade&quot;, ou &quot;hostil diante de um rival ou de alguém que
cremos desfrutar uma vantagem&quot;. 13 A pessoa invejosa nem
mesmo quer que os outros tenham o que ela tem. Em outras
palavras, ser tão bom como qualquer outra pessoa não é
suficiente para uma pessoa invejosa. Isso não a satisfaz; ela quer
ser melhor do que a outra pessoa.
A lei do Antigo Testamento declarava que uma pessoa tinha de
merecer o favor de Deus por meio perfeição e por oferecer
continuamente sacrifícios para compensar sua imperfeição. Isso
era impossível! Se as pessoas trabalhassem e se esforçassem o
suficiente, elas poderiam até ser capazes de manter os primeiros
nove mandamentos. Mas esse décimo, &quot;Não cobiçarás&quot;, ela não
poderia cumprir, pois isso tinha a ver com o coração e o desejo
do indivíduo.
Para ser justa pelos padrões da lei, uma pessoa deveria
guardar toda a lei de forma perfeita. Guardar a maior parte da lei
não era o suficiente. Portanto, todas as pessoas eram enredadas
no mandamento contra cobiçar a casa, ou servos, ou qualquer
coisa mais que seu vizinho possuísse. Esse mandamento fala
clara e expressamente quanto a humanidade precisa
desesperadamente de um Salvador. Nós, seres humanos,
precisamos de ajuda, ou nunca teremos esperança de estarmos
limpos diante de Deus.
Sob a Nova Aliança, a dignidade e o valor de cada pessoa são
baseados estritamente em estar &quot;Em Cristo&quot;, pela virtude de crer
nele totalmente como tudo de que a pessoa precisa. Cristo é a
nossa justiça. Somos justos não por possuirmos aquilo que
qualquer outra pessoa possui, mas pela fé em Jesus.
Compreender essa verdade traz um senso de segurança e
elimina completamente a necessidade de sermos invejosos ou
ciumentos.
P ARTES DE UM M ESMO C ORPO
Um dos melhores exemplos que Deus me deu para expressar
esse ponto veio à minha mente certo dia, enquanto eu estava
ensinando sobre a inveja. Use sua imaginação e pense nisto:
tenho um corpo, mas ele é feito de muitas partes. Cada uma das
partes do corpo físico é diferente, com formas diferentes,
cumprindo funções diferentes e com diferentes capacidades.
Algumas são mais visíveis, enquanto outras são ocultas e
raramente são vistas (em 1 Coríntios 12, o apóstolo Paulo usa
esse mesmo exemplo para comparar o Corpo de Cristo com o
nosso corpo físico).
Meus dedos podem colocar um anel, e meus olhos têm o
prazer de poder ver o dedo com o anel. Contudo, o olho nunca
poderia colocar o anel. Agora, se o olho sentisse inveja e
começasse a se lamentar, e quisesse o anel para si mesmo, e se
Deus decidisse satisfazer o olho invejoso e atender ao meu
pedido, pense na confusão em que meu corpo estaria!
Se você tirar o anel do seu dedo e tentar colocá-lo em seu
olho, rapidamente compreenderá essa mensagem. Se o olho
estivesse usando um anel, a cabeça teria que de inclinar para
trás de tal forma que o olho nunca mais traria direção para o
resto do corpo, porque ele seria incapaz de ver.
Portanto, o primeiro ponto a destacar é que quando tentamos
ser alguma coisa que Deus nunca pretendeu que fôssemos, isso
nos impede de cumprir a função dada por Deus a nós no Corpo
de Cristo. Também, se o olho tentasse colocar o anel, seria
incapaz de desfrutar do fato de ver o anel no dedo, o que é um
prazer que Deus pretendeu que o olho tivesse. Lembre-se: o
dedo coloca o anel, mas o olho é que pode vê-lo no dedo. O olho
foi criado para desfrutar o fato de ver o que o resto do corpo
recebe.
O ponto dois é óbvio: quando uma pessoa está tentando ser
alguma coisa que ela não foi destinada a ser, isso a impede de
desfrutar aquilo que lhe caberia se tomasse seu correto lugar no
corpo e simplesmente se satisfizesse em cumprir a parte que
Deus lhe designou. Creio que essa é a razão pela qual muitas
pessoas estão indo para o céu, mas não desfrutam a viagem.
Como eu disse, Deus colocou esse exemplo em meu coração
enquanto eu ensinava. Ele o ampliou ao usar as mãos e pés
como uma ilustração adicional. Pense nisto: quando meus pés
ganham um novo par de sapatos, minhas mãos ficam tão
satisfeitas que, se meus pés não forem capazes de colocar os
sapatos sem ajuda, poderão ajudá-los a entrar nos novos
sapatos!
É assim que o corpo deveria agir: nenhuma parte sendo
invejosa ou tendo ciúmes da outra. Cada parte sabe que o
Senhor a criou exclusivamente para um propósito. Cada parte
desfruta a função que lhe foi designada no corpo, percebendo
que aos olhos de Deus nenhuma parte é melhor do que a outra.
Ter diferentes funções não significa que uma parte seja inferior
à outra. Cada parte é livre para desfrutar e seu lugar ou papel e
ajudar as outras partes, quando precisarem, sem qualquer
hesitação. A mão não diz ao pé: &quot;Bem, se você pensa que vou
ajudar você a colocar seus sapatos, você está enganado!
Realmente, penso que eu deveria ter sapatos também! Estou
cansada somente de vestir luvas e anéis. Quero sapatos e quero
ser como você&quot;.
Não! Essa não é a forma de as mãos responderem quando os
pés obtêm novos sapatos e precisam de ajuda para calçá-los.
Essa não é a maneira que devemos responder quando alguém
que conhecemos precisa de alguma ajuda. Devemos estar
prontos a dar aos outros toda a ajuda que pudermos para que
eles possam se tornar tudo que foram designados a ser e
desfrutar e todas as bênçãos que Deus desejou derramar sobre
eles.
Pergunte a si mesmo: &quot;Eu estou colocando meu anel em meu
olho, ou meus sapatos em minhas mãos&quot;? Se você está, não me
admiro de que se sinta tão miserável e sem alegria.
No terceiro capítulo do evangelho de João, os discípulos de
João Batista vieram-lhe relatar que Jesus estava começando a
batizar, assim como João fazia, e que agora mais pessoas
estavam indo para Jesus, e não vindo a ele. Tal mensagem foi
levada a João com um espírito errado: pretendendo fazê-lo sentir-
se invejoso. Os discípulos que trouxeram o relatório estavam
obviamente sentindo-se inseguros e sendo usados pelo diabo,
tentando atiçar alguns sentimentos errados em João com relação
a Jesus.
João respondeu: &quot;O homem não pode receber [ele nada pode
reivindicar, não pode tomar para si mesmo] coisa alguma se do
céu [não de alguma outra fonte] não lhe for dada.&quot; (João 3.27).
O que João estava dizendo aos seus discípulos era que, seja o
que fosse que Jesus estivesse fazendo, tinha sido determinado
do céu dessa forma. João sabia o que Deus tinha lhe
determinado fazer, e ele sabia o que Jesus tenha sido chamado a
fazer. Ele também sabia que uma pessoa não pode ir além do
seu chamado e dons. João estava dizendo aos seus seguidores:
&quot;Fiquem contentes&quot;. Ele sabia que Deus o tinha chamado para
ser precursor de Jesus, para preparar o caminho para Ele, e,
quando chegasse o tempo de Jesus vir à linha de frente, ele teria
que se tornar menos visível para as pessoas.
Aqui estão as palavras de João para seus discípulos em
resposta à sua declaração com relação às multidões que
estavam seguindo a Jesus: &quot;Convém que Ele cresça e que eu
diminua. (Ele deve crescer de forma mais destacada; e eu devo
diminuir cada vez mais.)&quot; (João 3.30). Que gloriosa liberdade João
desfrutava! E maravilhoso sentir-se tão seguro em Cristo que não
tenhamos de estar em competição com qualquer outra pessoa.
L IVRE DA C OMPETIÇÃO
O apóstolo Paulo escreveu: &quot;Não nos tornemos vangloriosos
ou presunçosos, competitivos e desafiadores e provocadores e
irritando uns aos outros, e invejando e enciumando-nos uns dos
outros&quot; (Gaiatas 5-26).
Pelo contrário, Paulo nos exortou a crescermos no Senhor até
chegarmos a &quot;ter uma satisfação pessoal e alegria de fazer algo
recomendável [em si mesmo somente] sem [recorrer à]
comparação vangloriosa&quot; (Gaiatas 6.4).
Graças a Deus, pois, uma vez que sabemos quem somos em
Cristo, somos livres do estresse da comparação e competição.
Sabemos que somos dignos e valorosos, a despeito das nossas
obras e realizações. Portanto, podemos fazer o nosso melhor
para glorificarmos a Deus e não tentarmos ser melhores que
qualquer outra pessoa.
Freqüentemente as pessoas perguntam a meu marido e a mim
o que significa para ele ser casado com uma mulher que faz as
coisas que eu faço. Sou a voz que aparece no rádio, o rosto que
aparece na televisão! Sou aquela que fica na plataforma em
frente às pessoas. Sou aquela que é mais vista e comentada. Em
outras palavras, sou o foco de atenção do nosso ministério. Dave
é o administrador, uma função importante, mas de retaguarda.
Seu trabalho está por trás dos bastidores, e não em destaque
como o meu.
Nossa situação é peculiar e diferente daquilo que costuma
acontecer. Geralmente, na equipe, é o homem que ocupa o local
de destaque, enquanto sua esposa trabalha por trás dos
bastidores para ajudá-lo. Acontece que meu marido sabe
seguramente que seu senso de dignidade e valor não são
afetados pelo que ele faz ou não faz. De fato, ele é tão seguro
nisso (em obediência ao Senhor) que é capaz de me ajudar a ser
tudo o que posso ser em Cristo. Ele está satisfeito em me ajudar
a cumprir o chamado de Deus em minha vida e, nesse processo,
a cumprir aquilo que Deus deseja para sua própria vida.
O chamado e a posição de Dave certamente são tão
importantes quanto os meus. Simplesmente não são notados
pelo público. Como administrador do ministério, ele supervisiona
as finanças, os contratos com emissoras de rádio e televisão
interessadas em transmitir o programa Desfrutando a Vida
Diária, observando cuidadosamente todas as estações que já
exibem nosso programa, para estar certo de que estão dando
bom fruto e gerenciando todos os detalhes com relação às
nossas viagens.
Em nossos encontros, Dave gosta muito de trabalhar atrás da
mesa onde nosso material de ensino é exibido, para conversar
com as pessoas e ministrar a elas. Tenho lhe pedido numerosas
vezes que compartilhe a plataforma comigo, e sua resposta tem
sempre sido a mesma: &quot;Esse não é o meu lugar. Conheço o meu
lugar e vou permanecer nele&quot;. Essa é a declaração de um
homem maduro e seguro.
As pessoas têm a tendência de perguntar a Dave: &quot;Você é o
marido da Joyce&quot;? Ele geralmente responde: &quot;Não, Joyce é minha
esposa&quot;.
Dave cumpre muitas, muitas funções importantes em nosso
ministério, mas, ao resumir seu papel, ele geralmente diz: &quot;Fui
chamado por Deus para ser a cobertura da Joyce, para colocá-la
onde Deus quer que ela esteja. Eu me certifico de que ela não
será ferida e velo para que ela não tenha problemas&quot;.
Algumas vezes, há coisas que quero fazer e que Dave não
permite, porque ele sente que não seria prudente ou que não é o
momento. Não digo que seja sempre fácil submeter-me aos
desejos dele se não estão de acordo com os meus, mas tenho
aprendido que seus dons trazem equilíbrio à nossa vida e ao
nosso ministério compartilhado.
Dave lutou contra a nossa situação por vários anos no início.
Realmente, ele não queria estar no ministério de forma alguma.
Contudo, Deus lhe mostrou que me dera o dom de ensinar Sua
Palavra. Dave diz: &quot;Deus não me pediu para me submeter à
minha esposa, mas Ele para me submeter ao dom que Ele
colocou sobre ela&quot;. Ele diz que Deus mostrou-lhe que o dom era
do Senhor e que, ao submeter-se ao dom e ao permitir-me fazer
o que Ele me chamara a fazer, estava se submetendo ao próprio
Deus.
Ele não somente permitiu-me fazer o que Deus me chamou
para fazer, mas me ajuda a fazê-lo. Considero uma grande honra
ser casada com Dave Meyer. Até onde sei, ele é o melhor homem
que já conheci. Ele também é a pessoa mais feliz e realizada que
conheço.
Quando digo que Dave está sempre feliz, digo-o
honestamente. Ele desfruta a vida em plenitude. Creio, assim
como Dave, que essa alegria é resultado da sua submissão a
Deus e por não tentar tornar-se algo que Deus não lhe chamou
para ser. Ele não está em competição com ninguém, ele não está
tentando provar algo a qualquer pessoa.
S EGURAMENTE E NRAIZADO E F IRMADO
Minha oração no início deste livro foi: Que vocês possam estar
profundamente arraigados e fundamentados seguramente em
amor, para que tenham o poder e sejam fortes para
compreender e apreender com todos os santos [pessoas
devotadas a Deus, a experiência desse amor], qual é a largura, o
comprimento, a altura, e a profundidade [desse amor] (Efésios
3.17-18).
Quando somos libertos da necessidade de competir com os
outros, somos livres para ajudá-los a ser bem-sucedidos. Quando
realmente sabemos quem somos, não temos e gastar nossa vida
tentando provar nossa dignidade ou valor para nós mesmos ou
para os outros.
Dave sabe que ele é importante para Deus e, assim, o que o
mundo pensa da sua posição comparando-a com a minha não
importa para ele de forma alguma. Creio que a decisão e a vida
de Dave podem ser um testemunho para muitos. Há muito a ser
realizado no Reino de Deus, e será feito da melhor maneira se
todos trabalharmos juntos na capacidade individual que Deus
destinou a cada um.
Vamos deixar de lado o ciúme, a inveja, a competição e a
comparação. Lembre-se; esses problemas são enraizados na
insegurança. A boa nova é que podemos ser livres de
insegurança e, portanto, livres dos problemas que ela causa.
Isaías 54.17 diz: &quot;Esta [paz, justiça, segurança, triunfo sobre a
oposição] é a herança dos servos do Senhor&quot;. Isso significa que
parte da nossa herança como filhos e filhas de Deus é a
segurança! Comece a desfrutar sua herança agora.
Alegre-se pelos outros e desfrute o contentamento, a
satisfação, a paz e a alegria que vem de saber que Deus o ama e
vê você como justo e valoroso por meio da sua fé em seu Filho
Jesus Cristo. Seja firmemente enraizado e seguramente firmado
no amor de Deus por você.
19. Estabilidade Emocional
ANTERIORMENTE, NESTE LIVRO, mencionei a expressão
&quot;distúrbios de comportamento&quot; para descrever tipos de
comportamento que podem ser desenvolvidos quando uma
pessoa foi abusada e tem uma natureza baseada na vergonha.
Neste capítulo, gostaria de lidar especificamente com o que
chamo de &quot;vícios emocionais&quot; e como quebrá-los para se
desfrutar estabilidade emocional.
Nesse contexto, um vício pode ser definido como um
comportamento compulsivo, freqüentemente em resposta a
algum estímulo, sem que se tenha consciência disso. As pessoas
que foram feridas tendem a reagir em vez de agir. O que quero
dizer é que elas tendem a reagir com base em suas emoções
feridas, em vez de agir de acordo com a sabedoria e a Palavra de
Deus.
Por muitos anos, sempre que enfrentava uma situação ou
alguém que me lembrava meu passado, respondia
emocionalmente, reagindo com medo, em vez de agir pela fé.
Esse tipo de incidente pode ser bastante confuso para as vítimas
feridas, porque tudo acontece tão rapidamente que elas
realmente nem mesmo compreendem por que estão agindo
dessa forma.
Por exemplo, a pessoa que abusava de mim tinha uma
personalidade muito forte e dominante. Estive sujeita a tanta
manipulação e controle durante toda a minha infância que decidi
e repetidamente prometi a mim mesma que, quando fosse
adulta o suficiente para deixar minha casa e cuidar de minha
própria vida, ninguém mais me controlaria novamente.
Nos anos subseqüentes, adquiri uma visão deturpada sobre
autoridade. Eu via todas as figuras de autoridade como minhas
inimigas. Temia tanto ser controlada e manipulada que quando
qualquer pessoa em minha vida tentava me dizer o que fazer, eu
não queria fazê-lo. Reagia com ira ou afastamento.
Freqüentemente os incidentes eram bem insignificantes. Até
mesmo uma sugestão de alguém que não estava em linha com
meus desejos podia me fazer agir de forma estranha. Assim
como as outras pessoas, eu não compreendia minhas ações.
Logicamente sabia que estava agindo incorretamente, e não
queria agir dessa forma, mas eu parecia sem capacidade para
mudar.
Deus começou a me ensinar sobre vícios emocionais
mostrando-me que, da mesma forma como as pessoas se
tornam viciadas em certas substâncias químicas em seu corpo
físico (isto é, drogas, álcool, nicotina, cafeína, açúcar), elas
podem também desenvolver vícios mentais e emocionais.
Lembre-se: um vício é um comportamento compulsivo sem que
se tenha consciência disso. Minhas reações violentas eram
basicamente uma forma de dizer aos outros: &quot;Vocês não vão me
controlar&quot;!
Eu tinha tanto medo de ser controlada que reagia de forma
exagerada em qualquer situação, tentando me proteger mesmo
quando não havia um problema real. A raiva dizia: &quot;Eu não
deixarei você me controlar&quot;! E o afastamento dizia: &quot;Recuso-me
a envolver-me com você&quot;! Uma pessoa não pode ser ferida se
ela se recusa a se envolver com outra. Portanto, quando
qualquer coisa dolorosa que ocorria em meus relacionamentos,
ou eu atacava, ou me recusava a lidar com aquilo. Ambos os
comportamentos estão fora de equilíbrio e não são bíblicos; eles
somente aumentam o problema ao alimentá-lo.
Provavelmente, se uma pessoa é viciada em drogas, então,
quanto mais drogas tomar, mais dependente se tornará. Quanto
mais ela permitir que seu vício a controle, mais o vício exigirá
dela. Finalmente, isso a consumirá. O vício deve ser quebrado.
Isso significa negar à carne a substância com a qual está
acostumada e passar pela dor da negação para poder se livrar
daquilo. Esses princípios também se aplicam aos vícios mentais
ou emocionais.
V ICIADA EM P REOCUPAÇÃO E EM R ACIONALIZAR
Um dos meus vícios mentais era a preocupação. Eu me
preocupava, e preocupava, e preocupava. Mesmo quando não
havia nada para me preocupar, eu encontrava algo. Desenvolvi
um falso senso de responsabilidade, sempre tentando resolver
problemas pelos quais não tinha qualquer responsabilidade ou
solução. Raciocinava, imaginava e vivia em constante confusão.
Como resultado, minha mente estava continuamente cheia de
preocupação e argumentação. Embora isso me deixasse física e
mentalmente exausta e roubasse qualquer vestígio de alegria
em minha vida, eu não sabia como controlá-lo. Preocupação e
raciocínio eram minhas respostas automáticas para qualquer
problema. Embora meu comportamento fosse anormal, era
normal para mim, porque essa era a forma que eu sempre reagia
aos problemas.
A Palavra de Deus diz: &quot;Confie (apóie-se, conte com, tenha fé)
no Senhor&quot; (Salmos 37.3). Contudo, confiar não é uma coisa fácil
se você foi abusado. As pessoas em que você confiou para
cuidarem de você não o fizeram; ao contrário, elas o usaram.
Elas o feriram terrivelmente, e assim você fez uma promessa de
que ninguém mais o feriria novamente. Você não esperará para
descobrir se alguém irá feri-lo ou não; você simplesmente
construirá muros de proteção ao seu redor para guardar-se de
tais feridas.
Uma das formas de buscar proteger a si mesmo é tentar
imaginar tudo. Isso o fará pensar que tem tudo sob controle e
não será surpreendido com nada.
Quando Deus começou a trabalhar em minha vida, Ele me
mostrou claramente que eu era viciada em preocupação e
raciocínio, e tinha de desistir disso. Se havia um problema em
minha vida e eu não conseguia resolvê-lo, então me sentia
totalmente descontrolada. Você deve se lembrar que eu
desejava estar no completo controle a respeito de tudo ao meu
redor, pois dessa forma eu pensava que não seria ferida.
Eu cria que podia tomar conta de mim mesma e que ninguém
mais poderia fazê-lo.
N EGUE A S I M ESMO
Jesus disse: &quot;Se alguém pretende vir após Mim, nega-se a si
mesmo [esqueça a si mesmo, ignore-se, prive-se, perca de vista
a si mesmo e a seus próprios interesses] e... siga-me
[continuamente, apegando-se firmemente em mim]&quot; (Marcos
8.34).
A medida que o Senhor continuou a trabalhar comigo de sua
forma paciente, Ele me ensinou que eu podia confiar nEle e
acreditar que Ele estava trabalhando em meu problema mesmo
quando eu não estava. Minha parte era permanecer em fé e
recusar-me a me preocupar ou raciocinar. Tive de negar à minha
mente o comportamento viciado a que estava acostumada, e, à
medida que o fazia, finalmente, fiquei totalmente livre daquilo.
Eu ainda tinha alguns sintomas de retraimento, sentia-me
temerosa, sem controle e, até mesmo, tola, às vezes. (O diabo
tentará tudo para manter uma pessoa em escravidão, mesmo
fazendo-a sentir-se ridícula.)
Em Marcos 8.34, Jesus ensina que, para segui-lo, devemos
negar a nós mesmos e à nossa maneira de agir, e escolher o
caminho do Senhor. Meu caminho era tomar conta de mim
mesma, mas o caminho de Jesus é nos entregarmos em suas
mãos e aprender pela experiência que Ele nunca nos deixará
nem nos abandonará (veja Hebreus 13.5). Para aprender essa
verdade, de que primeiramente desistir do meu próprio caminho.
C OMO UMA C RIANÇA D ESMAMADA
O salmista deve ter experimentado as mesmas coisas que
estamos abordando neste capítulo quando escreveu:
&quot;Certamente eu tenho acalmado e aquietado a minha alma;
como uma criança desmamada com sua mãe; como uma criança
desmamada é minha alma comigo [cessando de espernear]&quot;
(Salmos 131.2). Ele até menciona o fato de sua alma ser
desmamada.
A alma, freqüentemente, é definida como mente, vontade e
emoções. Nós vemos nesse versículo que essas áreas podem se
tornar viciadas em certos tipos de comportamentos, assim como
o corpo pode se viciar com certos tipos de substâncias.
Ao negar à minha mente o privilégio de preocupar-se ou
raciocinar, eu estava desmamando meu vício mental, assim
como um bebê é desmamado de sua mamadeira ou chupeta. E,
assim como um bebê tem crises de choro e tenta todo tipo de
coisa para obter a mamadeira ou a chupeta de volta, eu também
tinha crises de raiva, de choro e de autopiedade. Houve até
ocasiões em que tive ataques de medo, mas continuei a trilhar
os caminhos de Deus até ser totalmente liberta de fazer as
coisas à minha maneira.
Jesus disse que Ele veio para libertar os cativos (veja Lucas
4.18) e aquele que o Filho libertar será livre de fato (veja João
8.36).
20. Intimidade e Confiança
PARA UMA PESSOA que foi abusada, ter intimidade,
freqüentemente, é muito difícil. Intimidade requer confiança, e,
uma vez que o fator confiança foi destruído, deve ser restaurado
antes de a intimidade ser algo confortável.
Já que pessoas sempre ferem pessoas, não podemos confiar
que elas nunca nos machucarão. Não posso lhe dizer: &quot;Apenas
confie nas pessoas; elas não o ferirão&quot;. Eles podem não ter a
intenção de ferir você, mas temos de enfrentar a realidade de
que pessoas ferem pessoas.
Como já mencionei, embora meu marido seja um homem
agradável, maravilhoso e amável, há momentos em que ele me
fere, assim como há momentos em que eu o firo. Mesmo pessoas
que se amam, às vezes, se ferem ou se desapontam
mutuamente.
Levou muitos anos até que eu me sentisse confortável para
ter intimidade com meu marido e poder honestamente dizer que
desfrutava minha vida sexual. Eu tinha tanto medo de ser ferida
e de que alguém se aproveitasse de mim que eu não conseguia
relaxar. Minha atitude básica era: &quot;Se temos de fazer isso, então
vamos logo, assim eu posso esquecer do assunto e continuar a
fazer qualquer outra coisa&quot;. Certamente, meu marido percebia
minha atitude, embora eu tentasse ocultar meus sentimentos
verdadeiros e fingir que desfrutava nosso relacionamento sexual.
Minha atitude fazia Dave se sentir rejeitado, e se ele não fosse
um homem cristão maduro, com algum discernimento do Senhor
sobre o que ocorria comigo, minha atitude poderia ter causado
sério dano ao seu conceito a respeito de si mesmo como homem
e como marido. Certa vez, ele me disse: &quot;Se eu dependesse de
você para saber que tipo de homem eu sou, eu estaria em sérios
problemas&quot;.
Sou grata ao Senhor por me ter dado um cristão maduro como
marido. Sou grata por não tê-lo destruído enquanto estava sendo
curada. Freqüentemente, pessoas problemáticas se casam com
pessoas problemáticas. Após eles se destruírem mutuamente,
seus problemas são transferidos para os filhos que, por sua vez,
se tornam a geração seguinte de pessoas problemáticas e
atormentadas.
Por muitos anos evitei tratar dessa questão. Mas, dentro de
mim, eu sabia que precisava lidar com minha atitude com
relação ao sexo e à intimidade, mas continuava a adiá-la mês
após mês, ano após ano. Você tem uma tendência a adiar as
coisas que Deus está tentando fazer que você resolva? Fazemos
isso porque algumas questões são bastante dolorosas para se
pensar a respeito, quanto mais para serem enfrentadas.
Finalmente, tomei a decisão de parar de protelar e resolvi
enfrentar a verdade. Nessa situação, a verdade era a seguinte:
1) eu tinha um problema, mas eu estava punindo Dave por isso;
2) ele tinha sido muito paciente comigo, mas chegara o
momento de lidar com o problema; 3) enquanto eu continuasse a
me comportar daquele jeito, o diabo continuaria a me derrotar
porque eu estava permitindo que meu passado afetasse meu
presente e meu futuro; 4) adiar o problema seria nada mais do
que diretamente desobedecer ao Espírito Santo.
Certamente, tive muito medo. Nem mesmo sabia como
começar. Lembro-me de ter clamado a Deus: &quot;Mas como o
Senhor quer que eu confie em Dave? E se ele se aproveitar de
mim? E se...&quot;. O diabo nunca deixa os &quot;E se...&quot;.
Especificamente me lembro de o Senhor ter-me dito: &quot;Não
estou pedindo que você confie em Dave; estou pedindo que
confie em Mim&quot;. Isso colocava a questão numa perspectiva
totalmente diferente. Era mais fácil confiar em Deus do que nas
pessoas, e foi assim que comecei.
Simplesmente me comprometi a fazer o que Senhor colocasse
em meu coração e a confiar nEle com relação aos meus
sentimentos sobre o assunto. Por exemplo, sempre quis as luzes
apagadas, enquanto eu e Dave fazíamos amor. Eu me recordo de
que comecei a sentir em meu coração que deveria deixá-las
acesas, e assim fiz. Isso era difícil, mas, uma vez que assim o fiz
algumas vezes, foi ficando mais fácil. Agora sou livre para deixar
as luzes acesas ou não; isso não importa mais, porque não estou
me escondendo de ninguém.
Outro exemplo: eu nunca me aproximava de Dave para
demonstrar algum interesse em ter sexo com ele. Muitas vezes
eu o desejava, meu corpo físico tinha necessidade, mas eu não
lhe demonstrava isso. Comecei a perceber que, quando sentia
que o desejava, eu precisava tomar alguma atitude para deixá-lo
saber. Isso era particularmente difícil para mim, porque eu
sempre senti que sexo era algo errado e sujo, porque ele assim
fora inicialmente apresentado na minha infância.
Minhas primeiras experiências sexuais foram pervertidas, por
isso minha atitude diante do sexo era pervertida. Mentalmente,
eu sabia que sexo era originalmente uma idéia de Deus, mas eu
não conseguia superar esses sentimentos. Novamente, tomar
uma &quot;atitude em obediência&quot; quebrou o laço da escravidão, e
agora sou livre nessa área também.
Por favor, compreenda que quando o Espírito Santo o orienta a
fazer algo, Ele o faz para ajudá-lo, para abençoá-lo e torná-lo
livre de alguma forma. O Espírito Santo é o Ajudador e somente
tem seu bem em mente. As pessoas podem feri-lo, mas Deus
não o fará.
Algumas das coisas que Ele o leva a enfrentar podem doer por
um tempo, mas Deus finalmente trabalhará nelas para seu bem.
E, à medida que continuei nesse processo de escolher fazer o
que Deus me mostrava, fui desfrutando progressiva liberdade, e
assim será com você. Houve muitos exemplos que eu poderia
mencionar aqui, mas penso que você já compreendeu o que
estou dizendo. Você terá suas próprias situações a enfrentar, e o
Espírito Santo caminhará ao seu lado no seu processo de cura
com relação à intimidade e confiança.
Recuse-se a viver o resto da sua vida numa prisão de suspeita
e medo!
C ONFIE NO S ENHOR
Sei que mencionei isso em outras paginas deste livro, mas
sinto que devo dizê-lo novamente. Algo que me ajudou muito na
área da confiança, assim como em outras áreas, foi
simplesmente perceber que Deus não está nos pedindo para
colocar nossa confiança em pessoas, mas nEle.
Podemos também aprender a confiar nas pessoas de forma
equilibrada. Se não estivermos em equilíbrio, seremos feridos.
Freqüentemente, Deus usa essas situações para nos ensinar a
sabedoria de manter os relacionamentos em equilíbrio.
Ao lidar com essa questão, sempre me lembro de Jeremias 17:
Maldito [com grande mal] o homem que confia no homem, faz
da carne mortal, do homem frágil, o seu braço e aparta a sua
mente e o seu coração do Senhor! Porque será como o arbusto
nu e solitário no deserto e não verá quando vier o bem; antes,
morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e
inabitável (versículos 5-6).
Pense sobre esses versículos. Eles dizem claramente que
seremos amaldiçoados (teremos problemas) se devotarmos ao
homem a confiança que pertence somente ao Senhor. O braço
da carne mencionado aqui pode se referir a confiar em si mesmo
ou nos outros.
Quando confio em mim mesma, tentando satisfazer minhas
necessidades, falho; e quando busco que outros satisfaçam
minhas necessidades eles falham comigo. O Senhor quer ter a
permissão de satisfazer nossas necessidades. Quando buscamos
a Deus, Ele freqüentemente usa pessoas para satisfazer nossas
necessidades, mas estamos buscando-O e dependendo dEle, não
de pessoas por meio das quais Ele trabalha, e esse é o equilíbrio
que Ele requer de nós.
E agora a boa nova: &quot;[bastante] abençoado é o homem que
crê, confia e se apoia no Senhor, cuja esperança e confiança está
no Senhor (v. 7)&quot;.
Houve momentos no passado em que me senti desencorajada
e bastante irada com as pessoas ao meu redor, porque elas não
me davam o encorajamento de que eu precisava. Como
resultado, eu tinha uma ressentida atitude de autopiedade que
minha família e outros não podiam compreender. Isso
certamente não resultava em ter minhas necessidades supridas
porque eu estava buscando as pessoas quando deveria buscar
ao Senhor.
O Senhor me ensinou que quando eu precisasse de
encorajamento deveria pedir a Ele. Quando aprendi a fazê-lo,
descobri que Ele providenciaria o encorajamento necessário por
meio da fonte que Ele escolhesse. Aprendi que não era
necessário colocar pressão nos relacionamentos num esforço de
obter das pessoas o que somente Deus poderia me dar. O
versículo seguinte dessa passagem anuncia a esperança que
temos ao colocar nossa confiança em Deus:
Pois ele será como árvore plantada junto às águas que
estendem suas raízes até o ribeiro; e não deverá perceber e
temer quando o calor chegar; mas sua folha será sempre verde.
Não ficará ansioso e preocupado no ano da seca, nem cessará de
produzir frutos (versículo 8).
Esse versículo nos assegura que, quando colocamos nossa
confiança em Deus em vez de no braço frágil da carne, nos
tornamos estáveis. Enfatizo essa palavra porque ela é muito
importante para nossa abordagem. Nunca haverá qualquer
prazer em desfrutar a vida sem um senso de estabilidade.
Deixe esses versículos encorajá-lo a colocar sua confiança em
Deus, e não em pessoas. Não busque nos outros a satisfação de
suas necessidades; busque em Deus. Tudo o que as pessoas
puderem fazer por você Deus pode determinar.
Um pensamento final com relação à intimidade: Deus nos
criou para desfrutarmos totalmente um ao outro. Em particular, a
Bíblia diz que marido e esposa devem desfrutar um ao outro,
conforme escrito em Provérbios 5.18: &quot;Seja bendito [com as
recompensas da fidelidade] o teu manancial [de vida humana] e
alegra-te com a mulher da tua mocidade&quot;.
Parte de desfrutar seu cônjuge e seu casamento é desfrutar
intimidade. Tome um passo de fé e perceba que o medo de ser
ferido pode estar ferindo você muito mais do que enfrentar esse
medo e encontrar a liberdade. Confie em Deus com relação às
pessoas em sua vida. Você pode não ser capaz de lidar com elas,
mas Deus é.
A I MPORTÂNCIA DE E QUILÍBRIO NOS R ELACIONAMENTOS
Pergunte a si mesmo se você tem qualquer relacionamento
que esteja fora de equilíbrio. Há alguém em sua vida de quem
você é muito dependente? Quando você tem problemas, você
corre para o trono ou para o telefone? Você está buscando por
pessoas para mantê-lo feliz ou está buscando ao Senhor?
Lembro-me de um tempo em que fui atacada pelo medo de
que algo pudesse acontecer ao meu marido. Comecei a pensar:
O que eu faria se Dave morresse? Era um tipo de pensamento
cheio de pânico, que era incomum para mim. Eu nunca antes
pensara nisso. Como a maioria de mulheres que têm bons
casamentos, dependo muito do meu marido. Dave é bom para
mim, e, quando eu pensava em todas as coisas boas que ele
fazia por mim, eu me tornava mais e mais assustada.
Então, o Senhor disse algo profundamente ao meu coração:
&quot;Joyce, se Dave morresse, você se manteria fazendo exatamente
o que faz. Não é Dave que está sustentando você e quem a faz
agir da forma que age, sou Eu; assim, coloque sua confiança em
mim, que é onde ela deve estar. Confie em Dave, mas não saia
do equilíbrio&quot;.
Um exemplo final que eu gostaria de compartilhar com você
diz respeito a determinado relacionamento de amizade em
minha vida. A intimidade sexual não é a única forma de
intimidade que precisa ser restaurada na vida das pessoas
feridas. Aqueles que sofreram abuso freqüentemente
experimentam dificuldades de manter qualquer tipo de
relacionamento. Seu relacionamento conjugai é afetado, e
Satanás também busca usar suas feridas e desapontamentos
para arruinar todos os seus relacionamentos íntimos.
Como muitos outros no mundo, não somente fui abusada nos
meus primeiros anos em meu lar, mas, mesmo depois que me
livrei dessa situação, continuei a ser facilmente ferida por
qualquer pessoa que encontrava. Quando, finalmente, me casei
e comecei a freqüentar uma igreja, pensava que certamente as
pessoas da Igreja não me feririam. Mas logo descobri que o
sofrimento não acabara simplesmente porque me tornara
membro de uma igreja. De fato, de alguma forma, ele se tornou
mais sério. Como resultado do abuso, eu não confiava nos
homens porque foi um homem que me ferira, o que afetava
minha intimidade conjugal. Eu também havia sido ferida
duramente por amigos e parentes várias vezes, e assim,
honestamente, eu tinha medo de confiar em qualquer pessoa.
Com o passar dos anos e com o fato de Dave e eu nos
envolvermos no ministério em tempo integral, um casal veio
trabalhar conosco. Eles foram, definitivamente, enviados pelo
Senhor. Eles eram ungidos por Deus para serem nossos &quot;fiéis
escudeiros&quot;. Isso significava que eles oravam por nós
regularmente, trabalhavam lado a lado conosco e estavam
disponíveis para fazer o que fosse preciso, sempre que algo era
necessário. Eles eram muito bons para nós e facilitaram bastante
nossa vida.
A abrangência do nosso ministério teria sido muito diferente
se não tivéssemos esse maravilhoso casal ou alguém como eles
para nos ajudar. Por causa dos anos de sofrimento que eu tinha
experimentado, não abri meu coração tão prontamente, mas,
com o passar do tempo, vim a confiar nessas pessoas e a
depender muito delas.
Um dia, li o versículo no qual o salmista disse: &quot;Mesmo o meu
próprio amigo íntimo, em quem confiei (me apoiei e acreditei),
que comia do meu pão, levantou seu calcanhar contra mim&quot;
(Salmos 41.9). Eu sabia que esse versículo se aplicava a mim e
comecei a me perguntar sobre o que o Senhor estaria me
alertando. Eu sabia que Ele estava tentando me mostrar algo,
porque eu deparava sobrenaturalmente com esse versículo
várias vezes. Comecei a me perguntar se Ele estaria me
mostrando que esse casal estava prestes a me ferir.
Finalmente, o Senhor fez-se claro o suficiente para que eu
compreendesse que Ele estava apenas me alertando a não
deixar nosso relacionamento sair do equilíbrio. Ele me ensinou
que poderíamos ter um relacionamento íntimo, desfrutar anos de
fidelidade, serviço leal, e produzir bastante fruto para seu reino.
Mas eu estava sendo especificamente alertada a não colocar a
confiança, que pertence somente a Deus, naqueles pessoas. O
Senhor me fez perceber que Ele tinha trazido esse casal para
minha vida, e Ele certamente os afastaria se eu colocasse meus
olhos neles como minha fonte de ajuda em vez de conservar
minha confiança em Deus.
Mesmo a intimidade numa boa amizade é algo bíblico, mas
não deve sair do equilíbrio. Pensem em Davi e Jônatas. A Bíblia
diz: &quot;A alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou
como à sua própria alma&quot; (com 1 Samuel 18.1-ARA). Eles
ajudaram um ao outro e desfrutaram um relacionamento de
aliança. Um bom relacionamento é muito importante, mas tem
de estar em equilíbrio.
Enfatizo a importância de equilíbrio porque o apóstolo Pedro
diz: &quot;Sejam sóbrios... pois vosso adversário, o diabo, anda em
derredor como um leão rugindo [com fome feroz], buscando
alguém para devorar&quot; (1 Pedro 5.8). Permaneça em equilíbrio, e
o diabo não será capaz de devorar você ou seu relacionamento
com os outros.
21. Peça e Receba
A BÍBLIA DIZ em Tiago 4.2(ARA): &quot;Nada tendes, porque não
jí\pedis&quot;. Eu me lembro de que isso foi uma grande revelação
para mim porque eu estava tentando fazer as coisas acontecer
baseada na minha própria força, de acordo com meu próprio
plano e como resultado de minhas próprias obras. Estava
tentando mudar a mim mesma, tentando mudar meu marido,
tentando mudar minhas circunstâncias, tentando me livrar de
todas as coisas do meu passado que me feriram. Mas não estava
pedindo ajuda a Deus.
Quando Deus me revelou que eu não tinha coisas boas porque
não estava Lhe pedindo, comecei a pedir-Lhe tudo o que eu
desejava e de que necessitava.
A Bíblia diz: &quot;Deleite-se também no Senhor, e Ele lhe
concederá os desejos e petições secretas de teu coração&quot;
(Salmos 37.4). Deus começou a fazer muitas coisas por mim
como resultado dos meus pedidos, provando-me que Ele queria
cuidar de mim. Ele mostrou-me que se eu lhe pedisse algo, indo
a Ele como uma pequena criança, então Ele faria isso por mim,
Ele cuidaria de mim, Ele satisfaria minhas necessidades.
Você pode estar lendo este livro porque espera obter cura do
seu passado de sofrimentos, precisando que Deus cure seu
coração ferido ou está cansado de se sentir confuso e frustrado,
como eu me sentia. Talvez você precise pedir a Deus por ajuda.
Se é assim, simplesmente ore:
Senhor, cure-me. Peço ao Senhor por um rompimento. Dê-me
uma resposta. Mostre-me a direção que preciso seguir. Ajude-
me, Senhor.
P EÇA EM N OME DE J ESUS
Creio que pode haver uma dúvida em seu coração antes que
você possa vir a crer que Deus satisfaz suas necessidades. Uma
importante chave com relação a seu rompimento está em João
16.24. Jesus estava falando a seus discípulos pouco antes da sua
crucifi-cação, quando Ele disse: &quot;Até agora vocês não pediram
uma [simples] coisa em Meu nome [apresentando tudo o que Eu
sou]; mas agora, peçam e mantenham-se pedindo, e vocês
receberão, para que a sua alegria (satisfação, deleite) possa ser
plena e completa&quot;.
A Bíblia Amplificada nos diz que isso significa pedir em nome
de Jesus. Se você puder compreender o que significa pedir em
nome de Jesus, isso lhe colocará num novo nível, habilitando-o
para o milagre de que você necessita.
Pedir em nome de Jesus significa apresentar ao Pai tudo o que
Jesus é. Portanto, quando estamos diante do Trono, não
apresentamos quem nós somos, mas a autoridade que Jesus tem
por causa de seu relacionamento de aliança com o Pai.
Não estamos apresentando nosso próprio registro de boas
obras. Não temos perfeição para apresentar. Mas vamos diante
do Pai e dizemos: &quot;Senhor, venho em nome de Jesus&quot;. Quando
fazemos isso, estamos realmente dizendo ao Pai: &quot;Eu estou
apresentando ao Senhor o que Jesus é&quot;.
Quando você vai a algum lugar em nome de alguém, você vai
com a autoridade que aquela pessoa representa. Por exemplo,
tenho um bom relacionamento com o nosso pastor em St. Louis.
Considero-o um bom amigo nosso. Eu poderia ir até seu
escritório e dizer aos seus funcionários: &quot;E importante que eu
veja o pastor agora&quot;. Seus funcionários me reconhecem e
confiam em mim o suficiente para me deixar entrar.
Mas, se eu não pudesse ir pessoalmente, enviaria alguém que
não fosse conhecido no escritório do pastor. Se essa pessoa
simplesmente dissesse &quot;Eu preciso ver o pastor agora&quot;, o
assistente do pastor, provavelmente, não o deixaria entrar. Mas,
se ele dissesse &quot;Joyce Meyer me enviou&quot;, os funcionários o
receberiam em meu nome por causa do relacionamento que
tenho com o pastor.
Esse é um exemplo do que significa orar em nome de Jesus;
eis por que você pode esperar ter suas necessidades atendidas
quando você vai a Deus, o Pai, em nome de seu Filho, não
porque você o merece. Se há alguma coisa que estou tentando
lhe ensinar nestas poucas páginas é que não merecemos nada
de Deus, exceto talvez morrer e sermos punidos eternamente.
Mas Ele fez uma nova aliança conosco para nos dar o que só
Jesus merece. Essa abençoada aliança imerecida é a glória da
mensagem da graça.
Não merecemos nada, mas obtemos o que Jesus conquistou e
mereceu. E isso é de graça! Graça é uma palavra empolgante.
Não temos de tentar merecer bênçãos com nossas boas obras ou
um bom comportamento. Em João 16.24 (parafraseando), Jesus
disse: &quot;Até agora você não tem pedido uma coisa sequei&quot; em
meu nome (isto é, apresentando tudo o que Eu sou)&quot;. Nesse
mesmo versículo, Ele nos deu nova instrução: &quot;Mas agora&quot;, Ele
disse, &quot;peça, e você receberá, e assim a sua alegria será
completa&quot;. Jesus deu duas instruções aqui: &quot;Não apenas peça,
mas peça e receba, para que sua alegria possa ser completa&quot;.
R ECEBENDO AS B ÊNÇÃOS DE D EUS
Muitas pessoas simplesmente não sabem como receber de
Deus. Por exemplo, elas gastam metade da vida clamando a
Deus para Ele lhes perdoar por algum pecado, mas elas nunca
recebem o perdão. Elas apenas permanecem na atitude de pedir.
Pedi perdão por vários anos, toda noite, de fato.
Quando Dave e eu nos casamos, eu não sabia muito sobre a
Palavra de Deus. íamos à igreja, eu amava a Deus, era nascida
de novo, mas, certamente, eu não sabia quem eu era em Cristo,
e ainda tinha um coração ferido. Creio que uma das coisas a
respeito de ser ferido é ter a personalidade danificada.
Se nossa personalidade foi danificada e ferida, então não
funcionamos da forma que Deus planejou. Cada pessoa deveria
ser um indivíduo saudável e equilibrado. Mas o diabo quer nos
levar a um ponto em que sejamos feridos em nossa
personalidade. Quando isso acontece, podemos tentar nos
relacionar uns com os outros, mas nossos relacionamentos
simplesmente não funcionam.
Como já mencionei, eu costumava ajoelhar-me ao lado da
minha cama toda noite e clamar: &quot;Oh Deus, perdoe-me. Deus,
perdoe-me. Deus, perdoe-me&quot;. Toda noite, eu repetia essa
oração: &quot;Deus, perdoe-me. Oh, Deus, perdoe-me&quot;. Eu ainda
estava falando sobre a carga da culpa que eu carregava desde
minha adolescência e os primeiros anos de juventude.
Isso prosseguiu por vários anos, até o dia em que eu ouvi o
Senhor me dizer: &quot;Joyce, eu lhe perdoei da primeira vez que você
me pediu. Agora você precisa perdoar a si mesma&quot;. Ouvir a voz
de Deus não era algo comum para mim naqueles dias, mas
compreendi que o Senhor estava me dizendo que eu precisava
receber o perdão dEle.
Se você pedir a alguém um copo com água e essa pessoa lhe
der a água mas você recusar-se a tomá-la, o que o indivíduo
pensará a respeito? Seria sem sentido você dizer &quot;Estou com
sede; alguém me traga água, pois estou com sede&quot; e, então,
apenas permanecer segurando o copo de água que você já
recebeu. Se você não beber a água, sua sede não será saciada.
Você pode ter recebido a Palavra a respeito do perdão, mas
pode não ter se decidido a crer nela. Pode querer sentir-se
perdoado primeiro. Mas nunca se sentirá perdoado até que
decida que já foi perdoado. Você tem que dizer em fé: &quot;Estou
perdoado&quot;. E você pode ter que dizer isso por semanas ou
meses, antes que seus sentimentos também estejam de acordo
com sua fé.
Na Bíblia somos instruídos a receber de Deus. Mas parece que
os cristãos estão sempre tentando obter algo. Paulo não
perguntou aos discípulos de Corinto: &quot;Obtivestes, porventura, o
Espírito Santo...&quot;? Ele perguntou-lhes: &quot;Recebestes, porventura, o
Espírito Santo quando crestes (em Jesus como o Cristo)&quot;? (Atos
19.2).
A Bíblia não diz: &quot;Mas, a todos quantos o obtiveram, deu-lhes
o poder de serem feitos filhos de Deus&quot;. Ela diz: &quot;Mas a todos
quantos o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de
Deus, isto é, para aqueles que crêem em seu nome&quot; (João 1.12-
ARA, grifo da autora).
Jesus é como um rio de vida que está derramando água viva,
e nós somos convidados a receber, receber e receber. Ele disse:
Aquele que crê em Mim [que se apega e confia e conta
comigo] como dizem as Escrituras, de seu interior deverão fluir
[continuamente] fontes e rios de água viva. Mas Ele estava
falando do Espírito, que aqueles que cressem (confiassem,
tivessem fé) nele posteriormente receberiam. Pois o Espírito
[Santo] ainda não tinha sido dado, porque Jesus não tinha sido
ainda glorificado (ressuscitado em honra) (João 7.38-39).
Tenho ensinado extensivamente sobre esse assunto de
receber de Deus, porque estou bastante convencida de que as
pessoas não estão recebendo as bênçãos que Deus quer lhes
transferir. Desejo muito ver cada um no Corpo de Cristo tornar-se
maduro e poder dizer: &quot;Sim, essa promessa de Deus é para mim,
e eu a receberei para que eu não tenha que viver sob culpa e
condenação&quot;.
D EUS A MA V OCÊ DE F ORMA P ERFEITA
Posso falar sobre o amor de Deus durante toda uma
conferência, posso demonstrar todas as diferentes formas como
Deus prova Seu amor para conosco, mas não posso forçar
ninguém a receber o amor dEle. Essa é uma escolha pessoal que
cada um tem de fazer. Mesmo quando cometemos erros e
sabemos que não merecemos o amor de Deus, ainda devemos
receber o amor dEle com o objetivo de desfrutar a plenitude do
que Ele quer que tenhamos.
Encorajo-o a praticar isso numa base diária, abrindo sua boca
e dizendo:
Deus, sei que o Senhor me ama e vou caminhar nesse amor
hoje. Vou desfrutar Seu amor, porque sei que o Senhor me ama,
mesmo que eu não mereça, e, Deus, isso torna tudo melhor.
O amor de Deus é uma das mais importantes mensagens para
o Corpo de Cristo nos dias de hoje. O amor de Deus é o principal
tema sobre o qual as pessoas precisam ter uma revelação. As
pessoas não precisam de um ensino sobre o amor de Deus tanto
quanto precisam de uma experiência pessoal e a compreensão
de quanto Deus as ama como indivíduos.
O amor de Deus levará você para a vitória quando todos os
poderes e principados do inferno parecerem se unir contra você.
O amor de Deus conduzirá você em meio às tempestades da
vida para um lugar de paz e calma. Mas você nunca será mais
que um vencedor (veja Romanos 8.37) se não tiver uma
revelação de quanto é amado por Deus.
Temos de saber que Deus nos ama mesmo durante os
momentos em que cometemos erros. Seu amor não é restrito
aos dias em que pensamos que nos comportamos bem.
Precisamos ter confiança no amor dEle especialmente quando
estamos em tri-bulação e quando o diabo está nos atormentando
com acusações, tais como;, &quot;Bem, você deve ter feito algo
errado&quot;.
Quando o acusador se aproxima, temos de saber que Deus
nos ama.
Mesmo se fizermos algo errado, mesmo se abrirmos uma
porta para o diabo entrar, mesmo se agirmos em ignorância,
Deus ainda nos ama. Deus está do nosso lado (veja Romanos
8.28) e vai nos mostrar o que precisamos fazer para sair da
confusão em que nos metemos. Mas Satanás quer nos afastar do
amor de Deus, para que nunca encontremos o caminho de volta
para a graça de Deus, para vivermos como filhos e filhas justos.
J ESUS E NVIA A S UA P ALAVRA
Quando nós estamos em problemas, o Senhor nos promete
em Sua Palavra nos libertar. Está escrito no Salmo 107.20: &quot;Ele
envia a Sua Palavra e nos cura e nos resgata do abismo e da
destruição&quot;. Jesus enviou seu Espírito Santo para nos ensinar o
que precisamos saber. Ele disse a seus discípulos:
Eu ainda tenho muitas coisas para dizer, mas vocês não
seriam capazes de suportá-las ou recebê-las ou compreendê-las
agora.
Mas quando Ele, o Espírito da Verdade (o Espírito doador da
verdade), vier, Ele os guiará a toda a verdade [a plena, total
verdade]. Pois Ele não falará sua própria mensagem [em sua
própria autoridade]; mas dirá tudo o que Ele ouvir [do Pai; Ele
dará a mensagem que lhe for transmitida], e Ele anunciará e
declarará a vocês as coisas que virão [que acontecerão no
futuro].
Ele me honrará e glorificará, porque tomará (receberá, se
abastecerá) do que é meu e revelará (declarará, desvendará,
transmitirá) isso a vocês.
Tudo que o Pai tem é meu. E é isso o que Eu quero dizer
quando falo que Ele [o Espírito] tomará as coisas que são minhas
e as revelará (declarará, desvendará, transmitirá) a vocês (João
16.12-15).
Sou muito grata por Jesus nos prometer que o Espírito Santo
nos guiará — Ele não nos empurrará ou pressionará — à
verdade. O diabo quer nos pressionar e manipular, mas o Espírito
Santo quer nos guiar gentilmente. Essa é uma das formas como
reconhecemos se estamos ouvindo a Deus ou ao inimigo.
Se você se sente pressionado, confuso, controlado ou
perturbado por alguma coisa, então isso não é de Deus; e essa
não é a maneira como Ele trabalha. Pelo contrário, o Espírito
Santo, gentilmente, revelará [declarará, desvendará, transmitirá]
a verdade a você.
Mas a revelação não o beneficiará se não recebê-la. Temos
transmissões pela televisão, mas precisamos sintonizar o
programa para receber as mensagens que nos são enviadas. Da
mesma forma, devemos receber a verdade que Deus está nos
transmitindo por intermédio da Sua Palavra.
Jesus conquistou todas as coisas que poderíamos precisar
para viver uma vida vitoriosa, triunfante e cheia de poder.
Quando Jesus subiu ao céu, o Espírito Santo tomou o que Jesus
conquistara e, em essência, disse: &quot;Agora, eu irei aos crentes e
trabalharei com eles, ministrando-lhes tudo o que Jesus
conquistou e proveu para eles. Eu os guiarei e os orientarei a
toda a verdade&quot;.
Jesus mencionou que havia muito mais que Ele desejava dizer,
mas Ele sabia que não poderíamos suportar tudo de uma vez.
R ECEBA O E SPÍRITO S ANTO
Eu havia nascido de novo há bastante tempo antes de
desfrutar a presença do Espírito Santo em minha vida. Eu amava
a Deus e iria para o céu quando morresse; mas teria chegado lá
em cacos. Sem o relacionamento com o Espírito Santo, nunca
teria sido uma cristã frutífera.
Minha vida nunca teria glorificado a Deus aqui na terra. Eu
nunca teria sido uma testemunha para qualquer pessoa. De fato,
se eu não tivesse recebido o Espírito Santo, declarar ser uma
cristã poderia realmente prejudicar a obra de Deus em minha
vida, porque eu não estava agindo como cristã.
Eu vivia fora de controle e não conseguia superar isso. Fazia
tudo o que sabia que uma boa cristã deveria fazer, mas não
tinha vitória porque não tinha nenhum conhecimento da Palavra
de Deus. E não tinha o poder do Espírito Santo para me guiar à
verdade e revelar como essa Palavra operaria em minha vida.
Foi um dia glorioso quando, pela primeira vez, pude dizer: &quot;Eu
sou a justiça de Deus em Jesus Cristo&quot; (veja 1 Coríntios 1.30).
Senti meu espírito vibrar; literalmente, senti a vida saltando
dentro de mim. Lembro-me de pensar: O que é uso? Era como o
sentimento de uma mãe quando seu bebê se mexe dentro do
seu ventre pela primeira ver, com a diferença de que, desta vez,
era o Espírito Santo!
Antes de receber o Espírito Santo, eu não sabia que era justa.
Pensava que era detestável, má e atrapalhada. Sentia que não
havia esperança para mim, e isso é o que o diabo quer que
acreditemos, mas é mentira!
Se você quiser aprender mais sobre o relacionamento com o
Espírito Santo, eu o encorajo a ler meu livro Conhecendo a Deus
Intimamente. NEle, explico como você pode ser tão próximo de
Deus quanto quiser e como receber a plenitude do Espírito Santo
em sua vida. É realmente tão simples quanto orar: Senhor,
recebo Seu Espírito Santo em minha vida. Enche-me com Sua
presença e ensine-me claramente a ouvir sua voz para que eu
possa seguir o Senhor todos os dias da minha vida.
V OCÊ É P RECIOSO PARA D EUS
Você é precioso e valoroso, e Deus tem um plano para
manifestar sua bondade e benignidade por intermédio daquilo
que Ele deseja fazer para você. E, não importa o que tenha feito
ou o que tenha sido feito a você, o passado permanece no
passado. Deus tem um grande futuro para você. Você pode ter
uma vida maravilhosa, mas tem de recebê-la. Como eu disse,
você tem de concordar e dizer: &quot;Isto é para mim&quot;.
Jesus bradou para nos dizer que Ele tem aquilo de que
precisamos: &quot;No último dia, o grande dia da festa, levantou-se
Jesus e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba&quot;
(João 7.37). Aquilo que você não pode fazer por si mesmo Ele já
fez por você. Ele o convida agora a vir e receber, beber, tomar
para si mesmo. Você faz isso ao crer que isso é para você.
Beber é definido como &quot;tomar e receber avidamente&quot;;
&quot;receber sem pensar&quot;. 14 Lembre-se de que Jesus disse: &quot;...agora,
peçam e mantenham-se pedindo, e vocês receberão, para que a
sua alegria (satisfação, deleite) possa ser plena e completa&quot;
(João 16.24). Se você pedir e receber, então sua alegria será
completa.
Como podemos impressionar um mundo deprimido se nós,
crentes, formos tão deprimidos quanto aqueles que não têm
Cristo? Deus quer que seu povo mostre a glória da sua bondade
sobre eles. Quando recebemos a provisão de Deus, nossa alegria
é completa, e é assim que a Igreja deveria ser.
Aja como um receptáculo das bênçãos de Deus. Tome o que
Jesus comprou com sua própria vida para lhe dar. Estude a
Palavra para que você possa assegurar-se das promessas de
Deus. Ore a Ele, dizendo:
Aqui estou, Senhor. Faça fluir em minha vida a plenitude
daquilo que o seu Espirito Santo tem para mim.
22. Fortalecidos por dentro
O PROPÓSITO deste livro é ajudar você a receber libertação do
passado. Se esse passado aconteceu há 5 minutos ou há 50
anos, você sempre precisará desta mensagem... sempre. Você
não tem de ter um passado horrível para precisar de libertação
do sofrimento do seu passado. Se você se levantou ontem de
manhã planejando ser bom e, então, perdeu o equilíbrio antes do
café da manhã, você está precisando de libertação do passado.
O diabo quer mantê-lo preso a alguns erros que você tenha
cometido, ou a algum comentário que não deveria ter feito, ou a
algum pecado que você cometeu ou que alguém cometeu contra
você. Deus quer que você seja livre daquilo que você fez e
daquilo que lhe fizeram; ambos são igualmente importantes para
Deus.
Vimos pelas Escrituras que Jesus veio curar o quebrantado de
coração, sarar nossas feridas, restaurar nossos sentimentos. Ele
veio nos dar o óleo de alegria em vez de lamento, vestes de
louvor em vez de espírito angustiado, uma coroa de glória em
vez de cinzas. Ele veio nos transformar em árvores de justiça,
uma plantação do Senhor, para que Ele possa ser glorificado
(veja Isaías 61.1-3).
O próprio Jesus disse: O Espírito do Senhor [está] sobre Mim [o
Ungido, o Messias], porque Ele me ungiu para pregar as boas
novas (o Evangelho) ao pobre; Ele enviou-me para anunciar a
libertação aos cativos e recuperação de vista aos cegos, a
libertar aqueles que estão oprimidos [que foram escravizados,
machucados, esmagados e arruinados pela calamidade] (Lucas
4.18).
Creio que Deus está aí com você agora mesmo; e Ele lhe
trouxe a esse momento em sua vida para libertá-lo de algo
doloroso do seu passado. Talvez você precise de libertação de
feridas emocionais que foram infligidas anos atrás, ou talvez
alguém recentemente o tenha ofendido, mas a falta de perdão
está impedindo-o de ser tudo o que Deus quer que você seja.
Jesus veio colocar os cativos em liberdade. Ele sabia que você e
eu precisaríamos dEle, todo dia.
Cada vez que prego essa mensagem de libertação de um
coração ferido, sou encorajada a ser tudo o que Deus quer que
eu seja. Desejo que você se determine a não ser apenas a
metade do que Deus planejou ou três quartos do que Ele quer,
mas a ser tudo o que Ele projetou para você.
Em Efésios 3.16, o apóstolo Paulo orou: &quot;Possa Ele conceder a
vocês das riquezas de sua glória para que sejam fortalecidos e
revigorados com forte poder em seu homem interior pelo Espírito
[Santo] [Ele mesmo habitando em seu interior e personalidade]
(grifo da autora).
O homem interior é que precisa de cura emocional. Nossas
emoções são parte da nossa alma. Somos um espírito e temos
uma alma. Nossa alma é composta da nossa mente, de nossa
vontade e de nossas emoções. Nossa mente nos diz o que
pensar, nossa vontade nos diz o que queremos e nossas
emoções dos dizem como nos sentimos.
Satanás trabalha para manter suas emoções feridas quando
outras pessoas o machucam. Provérbios 18.14 (ARA) diz: &quot;O
espírito firme sustem o homem na sua doença, mas o espírito
abatido, quem o pode suportar&quot;? O diabo quer você permaneça
ferido interiormente, e assim você não poderá lidar com os
problemas que sobrevém a todos nós na vida.
Mas o Espírito Santo move em seu homem interior e em sua
personalidade e habita ali para fortalecê-lo e restaurá-lo com
grande poder. Ele o relembra da Palavra de Deus que diz: &quot;Lance
seu fardo ao Senhor [livrando-se desse peso] e Ele o sustentará;
Ele nunca permitirá que o [consistentemente] justo se desvie
(escorregue, caia ou fracasse)&quot; (Salmos 55.22).
Se tivermos força interior, poderemos enfrentar os problemas
da vida. Sem a força interior, não conseguimos lidar nem com
um congestionamento! Eu costumava ficar tão exasperada que
isso era tudo o que eu conseguia fazer para lidar com os
problemas comuns do dia-a-dia.
Nossas feridas emocionais nos impedem de enfrentar os
problemas cotidianos. Precisamos de libertação das emoções
feridas para lidar com um balconista mal-humorado, ou com uma
criança que não quer fazer o que pedimos, ou com um esposo
que não seja maduro espiritualmente.
Quando temos problemas interiores, temos também
problemas exteriores. Mas, quando somos fortalecidos
internamente, quando somos revestidos com toda a força e
poder em nosso homem interior, pelo poder do Espírito Santo,
então podemos lidar com todas essas outras coisas que surgem
em nosso caminho.
S ENDO T RANSFORMADOS À S UA I MAGEM
Todas as pessoas têm pontos fortes e fracos, e você e eu não
somos exceções. Deus deseja nos libertar das coisas que nos
mantêm na escravidão do sofrimento. Ele nos fortalecerá por
intermédio do poder do Espírito Santo e moldará nossa
personalidade de tal forma que teremos um temperamento
controlado pelo Espírito. Se não recebemos ajuda de Deus,
poderemos nos tornar confusos em muitas áreas de nossa
personalidade. Nossos desejos naturais se opõem à natureza do
Espírito Santo (veja Gaiatas 5-17). Se abrirmos espaço para o
nosso egocentrismo, viveremos praticando as coisas definidas
em Gaiatas 5-19-20, que inclui coisas como contendas, inveja e
ira. E, então, ao nos relacionarmos com outras pessoas também
feridas, simplesmente nos manteremos ferindo um ao outro cada
vez mais. Mas os relacionamentos constituem a maior parte da
vida, e não podemos deixar de lidar com outras pessoas.
A Bíblia trata, em sua essência, do nosso relacionamento com
Deus (a Divindade), com nós mesmos e com o próximo. Como eu
disse, se não gostarmos de nós mesmos, não conseguiremos ir
muito longe com qualquer outra pessoa. Muitas das batalhas que
temos com outras pessoas existem porque estamos em guerra
com nós mesmos.
O Espírito Santo está disponível para nos ajudar a nos
moldarmos à imagem de Cristo. Está escrito a respeito de Deus
em Romanos 8.29: &quot;Pois aqueles que Ele de antemão conheceu
[de quem Ele estava consciente e amou antecipadamente], Ele
também destinou desde o início [preordenando a seu respeito] a
serem moldados à imagem de seu Filho [e compartilhar
interiormente sua semelhança], para que Ele pudesse se tornar o
primogênito entre muitos irmãos&quot;.
Se concluirmos que precisamos de libertação do nosso
passado de feridas, poderemos receber o poder de Deus para
transformar nossa personalidade, para que ela seja como a de
Cristo, e aperfeiçoar nosso relacionamento com Deus, com nós
mesmos e com os outros. Podemos lidar com nossos próprios
conflitos e receber cura em nossa atitude com relação a nós
mesmos.
Você pode ainda estar se acusando pelos abusos dos quais
não teve culpa. O diabo pode estar lhe dizendo que deve haver
algo errado com você, pois, de outra forma, as pessoas não o
tratariam da forma que trataram. Se você foi sexualmente
abusado, o diabo pode dizer que deve ter algo errado com você,
senão a outra pessoa — ou as outras pessoas — não teria agido
de forma indevida.
Mas você não foi criado para propósitos impróprios, e qualquer
abuso que você tenha sofrido consistiu numa injustiça.
Uma criança que é abusada não tem condições de olhar nos
olhos do abusador e dizer: &quot;Você tem um problema, e eu não sou
seu problema. Você está tentando me transferir um problema,
mas não vou recebê-lo&quot;.
Quando o abuso continua em nossa fase adulta, encontramos
muito mais dificuldade para nos defender das mentiras
enganosas de Satanás. Satanás estabelece um registro em
nossos pensamentos que se repete continuamente:
O que estou fazendo de errado? O que estou fazendo de
errado? Deve haver algo de errado comigo ou isso não estaria
acontecendo. O que estou fazendo de errado?
O que estou fazendo de errado para você falar comigo desse
jeito? O que estou fazendo de errado para você nunca querer me
abraçar e me amar?
O que estou fazendo de errado, pois quando busco um abraço
de meu pai ou de minha mãe, eles me empurram? O que fiz de
errado, pois meus pais nem mesmo me quiseram e deram-me
para outras pessoas? O que estou fazendo de errado por você
querer me tratar como uma empregada e não como sua filha? O
que estou fazendo de errado? O que há de errado comigo?
Ninguém mais que conheço é tratado dessa forma. Deve
haver algo de errado comigo.
Algumas pessoas ouvem esse registro de sofrimento interno,
vez após vez, ano após ano, até se tornarem adultos buscando
alguém que as ame, já que nunca receberam o amor de que
precisavam e que mereciam. Elas estão tão carentes de amor
que são incapazes de amar alguém da forma que Deus
pretendeu que fizessem.
Falo por experiência pessoal, quando digo que se você ainda
sente esse tipo de dor interna, provavelmente, descobrirá que é
difícil entrar num relacionamento normal e ter expectativas
normais dos outros. Você pode querer que seu amigo ou cônjuge
o compensem por todos os anos de abuso que você sofreu. Mas
tal expectativa irrealista em relação às pessoas coloca sobre elas
uma carga que lhes é impossível carregar. Elas podem tentar lhe
dar tudo o que sabem, mas, até que você seja liberto das feridas
do seu passado, nada que alguém faça por você será suficiente.
Lembro-me de ter atravessado um período no qual nunca me
sentia satisfeita. Sempre queria que Dave fizesse algo além, que
fizesse mais alguma coisa. E ele, sinceramente, tentou por anos.
Ele fez tudo o que podia para me ajudar em minhas crises de
sofrimento.
Dave é uma pessoa tranqüila e tentou arduamente me fazer
feliz. Mas um dia ele olhou para mim e disse: &#39;&quot;Mulher&quot;&#39; (a única
ocasião em que Dave me chama de &#39;Mulher&#39; é quando está
irritado, o que não ocorre freqüentemente), &quot;agora ouça isto:
tenho tentado fazer você feliz, e quer saber? Percebi que não
posso fazê-lo. Não importa o que eu faça, não conseguirei fazer
você feliz&quot;. E então, ele disse: &quot;Assim, fique sabendo: parei de
tentar&quot;!
P ERMITINDO Q UE D EUS E NCHA O S EU C ORAÇÃO V AZIO
Graças a Deus, o Espírito Santo estava trabalhando em mim
por meio dessa crise para me fortalecer. Eu estava apenas
começando a ler a Palavra e a perceber que todos os meus
problemas, toda a minha infelicidade não eram culpa de alguém;
eu tinha um problema dentro de mim. Assim, comecei a
cooperar com Deus para que minha vida fosse transformada.
Muitas pessoas casadas procuram o divórcio quando
percebem que seu cônjuge não irá fazê-las feliz. Elas dizem: &quot;Se
você não me faz feliz, não continuarei com esse
relacionamento&quot;. Assim, elas procuram outra pessoa para fazê-
las feliz, mas sua raiz de rejeição as mantém feridas.
Uma raiz de rejeição o deixará inseguro, com baixa auto-
estima e sem confiança. Até que você seja liberto, sempre
esperará por alguém mais para fazê-lo sentir-se bem sobre si
mesmo. Eu precisava de doses diárias de auto-estima, assim
como um viciado precisa de suas drogas. Eu precisava de
reafirmação constantemente; não havia fim para minha carência,
e algumas vezes, quanto mais atenção recebia, mais eu
precisava de atenção.
As pessoas que têm raiz de rejeição na vida sentem-se não
amadas e inseguras. A personalidade delas está destruída; elas
estão despedaçadas interiormente. Como resultado, elas estão
constantemente procurando algo que as faça se sentir bem. Elas
tentarão tudo: um emprego melhor, uma promoção, um dom
espiritual, uma posição na igreja, os amigos certos, a grife da
moda para suas roupas, o tipo certo de carro para dirigir, o tipo
certo de casa para morar, o tipo certo de grupo social para
pertencer e outros complementos infindáveis. Elas parecem
sempre dizer; &quot;Diga-me que estou bem, encha-me de elogios,
deixe-me sempre ser a pessoa certa&quot;. Pessoas inseguras não
podem ser corrigidas porque elas já se sentem bastante mal
sobre si mesmas.
Sei dessas coisas sobre pessoas inseguras porque tive cada
um desses problemas até que o Conselheiro, o Espírito Santo, e a
Palavra de Deus me tirassem desse abismo de desespero, das
cinzas para a beleza.
O Espírito Santo é o único que pode fazer uma obra dentro de
nós. Ele enche nosso coração do próprio Deus. Eu o encorajo a
olhar cuidadosamente e considerar novamente a oração que
Paulo fez por nós: &quot;[Que vocês possam realmente vir a] conhecer
[de forma pratica, experimentado-o por si mesmos] o amor de
Cristo, que excede o mero conhecimento [sem experiência], para
que sejam cheios [em todo o seu ser] da plenitude de Deus [para
que tenham a mais rica medida da Presença divina, e se tornem
um corpo plenamente cheio e transbordante do próprio Deus]
(Efésios 3.19, grifos da autora).
Se nos tornarmos completamente cheios do próprio Deus, não
ficaremos dependentes da reafirmação vinda de outras pessoas.
Seremos tão plenos do amor de Deus que esse amor
transbordará no nosso relacionamento com Ele, com nós
mesmos e com os outros.
Se você permitir que Deus faça isso, Ele o libertará do
sofrimento do seu passado. Receba a cura de Deus e permita
que o Espírito Santo opere em seu coração. Ele o encherá com
toda a reafirmação de que você precisa para desfrutar a vida. Ele
lhe mostrará como você pode colocar o passado para trás para
que nem mesmo sinta qualquer sofrimento ao se lembrar
daquilo. Eclesiastes 5-20 (ARA) promete às pessoas que estão
totalmente comprometidas com Deus: &quot;Porque não se lembrará
muito (seriamente) dos dias da sua vida, porquanto Deus lhe
enche o coração de alegria (a tranqüilidade de Deus é espelhada
nele)&quot;.
23. Livre Finalmente
O CAMINHO RUMO À cura emocional e à libertação para
desfrutar sua vida não é, necessariamente, fácil. Contudo,
prosseguir para a liberdade é definitivamente melhor do que
permanecer na escravidão:
A SSIM , J Á QUE Cristo sofreu na carne por nós, por vocês, armem-
se com o mesmo pensamento e propósito [pacientemente; para
agradar a Deus, sofrendo em vez de cair). Pois quem sofre na
carne [tendo a mente de Cristo] está livre do pecado
(intencional) [parou de agradar-se a si mesmo e ao mundo, e
agrada a Deus].
Assim, não mais gasta o resto da sua vida natural vivendo
pelos [seus] apetites e desejos humanos, mas [vivendo] para
aquilo que Deus deseja (1 Pedro 4.1-2).
Um estudo cuidadoso dessa passagem das Escrituras revela
que precisamos nos armar com os pensamentos apropriados,
tais como: Eu preferiria sofrer com Cristo fazendo o que é certo
do que permanecer na escravidão para pecar.
Ter um padrão de pensamento correto é importante para obter
a vitória. Quando comecei a perceber que Jesus podia e desejava
me libertar, quis ter essa liberdade, mas minha atitude era: &quot;Não
sofrerei mais; já sofri o bastante, e não me submeterei a mais
nada que possa remotamente representar algum sofrimento
emocional&quot;. O Espírito Santo levou-me a várias passagens das
Escrituras que me ajudaram a perceber que eu estava pensando
incorretamente e precisava me preparar para agir corretamente.
Comecei a pensar desta forma: Não quero sofrer mais, mas
prefiro sofer a permanecer na escravidão. Enquanto permanecer
na escravidão, vou sofrer de qualquer modo, mas será um tipo
de sofrimento interminável. Se eu deixar Jesus me levar em tudo
o que tiver de que enfrentar para ser livre, pode ser doloroso por
um tempo, mas ao menos será um tipo de sofrimento que me
levará à vitória, para uma nova vida, livre do sofrimento
emocional.
Um bom exemplo disso é o exercício físico. Se o meu corpo
estivesse fora de forma por causa dos maus hábitos alimentares
e da falta de exercícios, eu sofreria, porque estaria bastante
cansada e sentindo-me mal o tempo todo. Se não tomasse
atitude alguma a respeito do meu problema, o sofrimento
simplesmente continuaria indefinidamente. Se decidisse entrar
em forma, começaria a me exercitar, escolheria os alimentos
certos e evitaria as coisas erradas.
Por um período, eu sofreria por causa dos músculos doloridos.
Meu corpo poderia reclamar se não lhe desse certas comidas
indevidas, às quais estava acostumado. Esse é um tipo de dor.
Eu precisaria redimensionar um pouco do meu tempo para me
exercitar, o que poderia produzir certo tipo de dor, porque eu
precisaria tomar decisões sábias, e não decisões emocionais.
Podemos ver por meio desse exemplo que, para se livrar de
um sofrimento sem sentido produzido por um desajuste físico,
uma pessoa deve sofrer de outra forma, mas é um tipo de
sofrimento que leva à vitória e, finalmente, acaba com o
sofrimento.
O S OFRIMENTO C ERTO E O S OFRIMENTO E RRADO
Meditar nos versículos a seguir revela que devemos escolher
pela fé sermos alegres enquanto estamos atravessando
transições difíceis, sabendo que, porque Deus nos ama, mesmo o
nosso &quot;sofrimento certo&quot; produzirá um bom final, o qual é, neste
caso, um caráter maduro:
Ainda mais (vamos também ser cheios de alegria agora!)
vamos exultar e triunfar em nossos problemas e rejubilarmos em
nosso sofrimento, sabendo que a pressão e a aflição e a
dificuldade produzem paciência e perseverança inabaláveis.
E a perseverança [constância] desenvolve maturidade de
caráter (fé aprovada e integridade testada). E o caráter [desse
tipo] produz [o hábito da] esperança alegre e confiante da eterna
salvação.
Tal esperança nunca desaponta ou desilude ou nos
envergonha, pois o amor de Deus tem sido derramado em
nossos corações através do Espírito Santo que Ele nos tem
concedido (Romanos 5-3-5)
Em decorrência de um padrão de pensamento errado, muitas
pessoas nunca amadurecem a ponto de experimentar a alegria
de viver. Maturidade sempre inclui estabilidade. Sem
estabilidade, nunca experimentaríamos realmente a paz e a
alegria.
Existe um &quot;sofrimento certo&quot; e um &quot;sofrimento errado&quot;. O
apóstolo Pedro encorajou os crentes a se assegurarem de que
não estavam sofrendo por agir de forma incorreta, mas, caso
sofressem, deveria ser por agir corretamente. Em 1 Pedro 3.14,
ele observa: &quot;Mas... caso você sofra por causa da justiça (você
é), bem-aventurado&quot;.
No versículo 16, ele nos exorta a vivermos de tal forma que
nos sintamos seguros de que nossa consciência está totalmente
limpa, e no versículo 17 ele diz: &quot;Pois (é) melhor sofrer
[injustamente] por fazer o certo, se esta for a vontade de Deus,
do que sofrer [justamente] por agir de forma errada&quot;.
Essa é uma área importante. Muitas pessoas nunca
experimentam a alegria da liberdade por causa de um padrão de
pensamento incorreto com relação à dor. Em algum ponto da sua
vida cristã, você deve ter ouvido que Jesus quer libertá-lo de
toda sua dor, e isso é verdade — Ele quer. Contudo, uma
transição está envolvida nesse processo, e a transição nunca é
fácil.
Durante o trabalho de parto, a parte de esforço conhecida
como a fase mais difícil é chamada de &quot;transição&quot;. Por 33 anos
vivi uma vida de sofrimentos. Quando, finalmente, descobri que
Jesus queria me fazer livre do sofrimento, entrei em transição. Eu
estava sendo mudada, transformada na idéia original que Deus
tinha para mim antes que eu fosse arruinada pelo mundo. Eu
ainda sofri por mais algum tempo, mas de forma diferente. Não
era uma dor desesperadora, mas algo que realmente trazia
esperança, porque eu podia ver mudanças por meio da
transição.
Nem sempre aconteceram grandes mudanças, mas o Senhor
sempre me impediu de desistir. Quando eu pensava que não
poderia mais suportar a dor, Ele vinha com uma bênção especial
que me fazia saber que Ele estava ali o tempo todo, cuidando de
mim.
O F OGO R EFINADOR
Se você compreende que o sofrimento correto opera como o
fogo refinador, então os seguintes versículos terão um
significado especial que lhe trarão grande consolo:
Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda? E quem poderá
subsistir quando ele aparecer? Porque ele é como o fogo do
ourives e como a potassa dos lavandeiros.
Assentar-se-á como derretedor e purificador de prata;
purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata;
eles trarão ao Senhor justas ofertas (Malaquias 3-2-3-ARA).
Gostaria de compartilhar com você uma história que ouvi
certa vez, a qual ilustrará essa passagem. Na Europa, um
homem foi até a loja de um ourives e encontrou alguns itens que
ele desejava comprar. Durante todo o tempo em que esteve na
loja, ele não conseguiu ver o ourives. Para concluir suas
compras, ele começou a procurar pelo proprietário e, ao fazê-lo,
notou que no fundo da loja havia uma porta aberta que levava a
outro local. Quando ele se aproximou da porta, pôde ver o
proprietário (de fato, o refinador) sentado próximo ao fogo onde
havia um grande caldeirão. Ele não tirava os olhos do caldeirão
fervente, embora o interessado comprador tentasse lhe falar
sobre a compra de algumas das suas mercadorias.
O comprador perguntou-lhe se ele não poderia deixar o que
estava fazendo por um tempo e sair dali para concluir a
transação. Contudo, o refinador disse: &quot;Não&quot;. Ele explicou que
não poderia abandonar o metal no caldeirão, nem mesmo por
um minuto, explicando desta forma: &quot;E muito importante que
esse metal, que é o ouro, não seja tirado daqui até que todas as
impurezas sejam removidas. Quero que ele seja ouro puro. Se o
fogo estiver muito alto, poderá estragá-lo; se estiver muito
baixo, o ouro poderá permanecer com as impurezas&quot;.
Ele explicou que não poderia deixar o lugar nem tirar seus
olhos do processo. Ele precisaria ficar ali sentado até que tudo
estivesse completamente terminado. O comprador perguntou-lhe
quando isso aconteceria, e o refinador explicou-lhe: &quot;Só saberei
que terminou quando olhar para o metal e puder ver meu reflexo
nele bem claramente&quot;.
Para mim, essa é uma bela história, porque isso me faz saber
que Deus está guardando minha vida e observando as
tribulaçóes que surgem em meu caminho para certificar-se de
que elas não se tornarão muito intensas. Mas Ele também se
assegura de que haverá suficiente pressão para continuar
operando sua obra em mim.
Em 1 Coríntios 10.13, Paulo diz que Deus nunca permitirá que
venha sobre nós mais do que poderemos suportar, mas com
cada tentação Ele também provera um escape. Podemos confiar
que Deus não espera que enfrentemos algo além da nossa
própria habilidade de suportar.
Creia-me, Deus sabe o que você é capaz de suportar melhor
do que você mesmo. Confie nEle, e Ele o acompanhará no
processo de refinação para que você possa emergir como ouro
puro.
PROSSEGUINDO PARA O ALVO
Será fácil para você suportar o sofrimento correto se
compreender que o fogo refinador é um processo que dura a
vida toda. Percebendo essa verdade, o apóstolo Paulo escreveu:
&quot;Não que eu tenha obtido [este ideal] ou, que já tenha me
tornado perfeito, mas eu prossigo para (conquistar) e tornar
meu, aquilo pelo qual Cristo Jesus... tem me conquistado&quot;
(Filipenses 3.12).
Em seus escritos, Paulo freqüentemente compara a vida cristã
a uma corrida:
Vocês não sabem que numa corrida todos os participantes
competem, mas [somente] um recebe o prêmio? Assim, corra [a
sua corrida] para que você possa alcançá-lo [o prêmio] e fazê-lo
seu.
Agora, todo atleta que está em treinamento se conduz de
forma equilibrada e restringe-se de tudo. Ele o faz para
conquistar uma coroa que logo se desfaz, mas nós [que
receberemos uma coroa de bênção eterna] algo que não se
desfará.
Portanto, eu não corro incertamente (sem um alvo definido).
Eu não luto como desferindo golpes no ar e lutando sem um
adversário, mas [como um boxeador] eu esmurro o meu corpo
[conduzindo-o severamente, disciplinando-o através das
dificuldades], subjugando-o, por medo de que, após proclamar
aos outros o evangelho e as coisas pertencentes a ele, eu
mesmo me torne desqualificado [não suportando o teste, sendo
inapto e rejeitado, como um impostor] (1 Coríntios 9.24-27).
Confie no Senhor, e Ele o ajudará a cruzar a linha de chegada.
Seja determinado em prosseguir e em conquistar aquilo pelo
qual Cristo conquistou você. Ele o conquistou para lhe salvar a
vida.
Sua salvação incluiu muitos benefícios para sua vida agora,
não apenas um lar no céu quando você morrer. A sua eterna
salvação começou no dia que você nasceu de novo, e ela nunca
terminará. Deus conquistou você para restaurá-lo naquilo que o
inimigo o roubou, mas você precisará ser determinado em tê-lo
de volta.
Não seja passivo, esperando que a vitória simplesmente caia
sobre você. Ela vem pela graça de Deus, e não pelas nossas
obras, mas devemos cooperar ativamente com o Espírito Santo a
cada passo do caminho.
Em seu livro The Great Lover&#39;s Manifesto, Dave Grant afirma
que nunca crescemos quando as coisas estão tranqüilas.
Definhamos quando não há esforço. Como seres humanos,
somos essencialmente acomodados e sempre buscamos o
caminho mais fácil, mas, na verdade, precisamos de alguma
tensão para nos esforçarmos e crescer. Nunca cresceremos até
que concordemos que os desafios nos beneficiam, e esses
desafios são bons porque eles nos mantêm ativos. Paulo disse
que ele &quot;prosseguia&quot;. Sua frase indica tensão e luta; indica que a
caminhada cristã não é fácil.
No livro de Grant, ele relata a seguinte história: &quot;Algumas
abelhas estavam voando pelo espaço para ver com elas se
conduziriam na experiência da falta de gravidade. Na atmosfera
sem gravidade, elas seriam capazes de flutuar no espaço sem
qualquer esforço. O relato da experiência termina com as
seguintes palavras: Elas desfrutaram do passeio, porém
morreram (ênfase minha). 15 Concordo cem por cento com Grant,
que prosseguiu dizendo que nós dificilmente &quot;flutuamos&quot; ao
fazermos algo realmente digno.
P ERMANEÇA F IRME EM T EMPOS D IFÍCEIS !
Nos seguintes versículos, o profeta do Antigo Testamento,
Habacuque, fala de tempos difíceis, que ele chama de &quot;lugares
altos&quot;, e declara que Deus lhe daria pés como da corça para
permanecer firme durante esses tempos:
Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o
produto da oliveira minta, e os campos não produzam
mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos
currais não haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto
no [vitorioso] Deus da minha salvação.
O Senhor Deus é a minha fortaleza, minha bravura pessoal e
meu exército invencível; e faz os meus pés como os da corça, e
me faz andar [não permanecer aterrorizado, mas prosseguir] e
fazer progresso [espiritual] sobre os lugares altos [de problemas,
sofrimento ou responsabilidade] (Habacuque 3.17-19).
O termo corça refere-se a certo tipo de animal que é um ágil
escalador de montanhas. Ele pode escalar o que pareceria ser
um rochedo íngreme sem nenhuma dificuldade, pulando de beira
a beira com grande facilidade. Essa, seguramente, é a vontade
de Deus para nós, para que quando os tempos difíceis surgirem
em nosso caminho não sejamos intimidados nem aterrorizados.
Para sermos verdadeiramente vitoriosos, devemos crescer
para um nível no qual não temamos os tempos difíceis, mas
realmente sejamos desafiados por eles. Na Bíblia Amplificada,
esses versículos referem-se a esses &quot;lugares altos&quot; como
&quot;problemas, sofrimentos ou responsabilidades&quot;. Isso porque
durante esses momentos é que crescemos.
Se você olhar novamente para sua vida, perceberá que nunca
cresceu durante os tempos fáceis, mas, sim, durante as
dificuldades. Durante os momentos tranqüilos, você é capaz de
desfrutar aquilo que alcançou durante os tempos difíceis. Esse é
realmente um princípio na vida e é dessa forma que ela
funciona. Você trabalha toda a semana e, então, recebe o seu
salário (nos Estados Unidos, o pagamento de salário geralmente
é semanal) e desfruta seu final de semana. Você faz exercícios,
come de forma correta, cuida de si mesmo e, então, desfruta um
corpo saudável. Você arruma sua casa, ou porão, ou garagem e,
então, desfruta um ambiente claro e limpo cada vez que passa
por ele.
Lembro-me de Hebreus 12.11: &quot;Pois, no momento, a disciplina
não traz alegria, mas parece desagradável e dolorosa; porém
depois alcança pacifico fruto de justiça para aqueles que têm
sido treinados por ela&quot;.
A pessoa que serve a Deus porque O ama age de forma
correta porque isso é certo. Ela não o faz para obter alguma
vantagem, embora no final as bênçãos recaiam sobre si. Busque
ser íntegro para glorificar a Deus e, no final, desfrutará uma vida
gloriosa.
24. Edificando Pontes, e não Muros
UM MURO REPRESENTA PROTEÇÃO. Temos uma tendência a
edificar nossos próprios muros na tentativa de nos proteger
contra a possibilidade de sermos feridos. Como já mencionei
várias vezes, embora eu tenha um marido maravilhoso e muito
carinhoso, há momentos em que ele me fere. Finalmente percebi
que sempre que meu marido me causava algum sofrimento
emocional, eu construía um muro (estou falando
espiritualmente) atrás do qual eu poderia me esconder e impedi-
lo de me ferir novamente. Mas o Espírito Santo me mostrou que,
quando eu construía um muro para conservar os outros do lado
de fora, eu também ficava presa num solitário local de
confinamento.
Muitas pessoas vivem isoladas porque construíram seus
próprios muros para se protegerem. Contudo, esses muros
tornam-se prisões, e elas são enredadas em amargura e solidão.
Elas construíram muros para protegê-las do sofrimento
emocional, mas são incapazes de amar e ser amadas, a menos
que permitam ser feridas.
Passar toda sua vida tentando evitar a dor é mais doloroso do
que viver normalmente e lidar com cada questão quando ela
surgir. Jesus é o curador e sempre estará disponível para lhe
ministrar conforto em situações dolorosas.
Creio que o Senhor quer que eu o encoraje agora mesmo a
tomar um passo de fé e derrubar os muros que você mesmo
construiu. Tal pensamento, provavelmente, será assustador,
especialmente se você tem vivido atrás desses muros por longo
tempo. Deus pode derrubar esses muros emocionais que
separam você dos outros, assim como Ele fez com as muralhas
de Jerico (veja Josué 2.1-21; 6.1-27). A versão King James da
Bíblia, em Hebreus 11.30, destaca que &quot;pela fé&quot;, os muros
caíram.
Eu tenho de tomar um passo de fé cada vez que Jesus me
mostra que estou edificando muros para manter os outros do
lado de fora. Eu devo escolher colocar minha fé nele como meu
protetor, ao invés de tentar me proteger sozinha.
Existem vários versículos da Bíblia que prometem a proteção
de Deus. Isaías 60.18 (ARA) é dos que me falam ao coração:
&quot;Nunca mais se ouvirá de violência na tua terra, de desolação ou
ruínas, nos teus limites; mas aos teus muros chamarás Salvação,
e às tuas portas, Louvor&quot;.
O que esse versículo me diz é que há salvação por intermédio
de Jesus Cristo e um muro de proteção ao meu redor. Desde o
momento em que me torno dEle, Ele assume a responsabilidade
de me proteger. Contudo, para ativar suas bênçãos em minha
vida, devo crer que Ele está cuidando de mim. Enquanto eu
continuar a rejeitar a proteção de Deus, tentando cuidar de mim
mesma, permanecerei vivendo em escravidão e miséria.
Outro versículo maravilhoso no assunto da proteção de Deus
está em Isaías 30.18: &quot;E, portanto, o Senhor (ardentemente)
espera [aguardando, buscando, ansiando] ser gracioso para
você; e, por isso, Ele se detém, para que possa ter misericórdia
de você e mostrar—lhe benignidade. Pois o Senhor é um Deus de
justiça. Bem-aventurado (feliz, afortunado, para ser invejado)
são todos aqueles que [intensamente] aguardam por Ele,
esperam e buscam e anseiam por Ele [por sua vitória, seu favor,
Seu amor, Sua paz, Sua alegria e Sua companhia incomparável e
constante]&quot;!
Um estudo cuidadoso desse versículo revela Deus como
aquele que, literalmente, aguarda uma oportunidade de ser bom
conosco, trazendo justiça às nossas situações. Contudo, Ele só
pode fazer isso por aqueles que esperam que Ele o faça. Desista
do esforço da &quot;autoproteção&quot; e comece a permitir-se
experimentar a proteção de Deus sobre sua vida.
Deixe Deus ser Deus!
A medida que você entra nesse novo reino, pela fé, não posso
lhe prometer que você nunca será ferido, mas posso prometer
que Deus é &quot;um Deus de justiça&quot;, o que significa que Ele,
finalmente, trará equilíbrio e o recompensará por escolher os
caminhos dEle.
Qualquer pessoa que escolhe o caminho de Deus para lidar
com seus problemas e situações dolorosas é destinada às
grandes coisas: &quot;Como está escrito... nós somos considerados e
contados como ovelhas para o matadouro. Contudo, em meio a
todas essas coisas, nós somos mais do que vencedores e
ganhamos uma vitória insuperável através daquele que nos
amou&quot; (Romanos 8.36,37, grifo da autora).
Como podemos ser mais do que vencedores, ao mesmo tempo
que parecemos como ovelhas sendo levadas para o matadouro?
A resposta é simples: ainda que pareça que estamos sendo
explorados, ainda que pareça que o Senhor não irá nos resgatar,
somos mais que vencedores porque, em &quot;meio à confusão&quot;,
temos a certeza de que nosso Deus nunca nos deixará nem nos
abandonará e que, no momento certo, nossa libertação e nossa
recompensa chegarão.
C ONSTRUINDO P ONTES
Um dia, enquanto estava orando, o Espírito Santo me mostrou
que minha vida tinha se tornado uma ponte para que os outros
passassem e encontrassem seu lugar em Deus. Por muitos anos,
eu apenas construíra muros em minha vida, mas, agora, onde
antes havia muros foram construídas pontes. Todas as coisas
difíceis e desagradáveis que me aconteceram tinham se tornado
em estradas, sobre as quais outros podiam passar e encontrar a
mesma liberdade que eu experimentara.
Eu tinha aprendido a edificar pontes em vez de muros.
Como declarei no capítulo 5 deste livro, Deus não faz acepção
de pessoas (veja Atos 10.34). O que Ele faz por alguém Ele fará
por outra pessoa, uma vez que Seus preceitos sejam seguidos.
Se você seguir os princípios que têm sido destacados nestas
páginas, descobrirá a mesma liberdade que experimentei. Então,
você pode se tornar uma ponte para outros passarem, em vez de
um muro que mantém as pessoas do lado de fora.
Em Hebreus 5.9, Jesus é referido como &quot;o autor e a fonte de
eterna salvação&quot;. Ele desbravou o caminho a Deus em nosso
favor. Ele se tornou uma estrada pela qual podemos passar. E
como se Ele enfrentasse uma floresta gigante e fosse à nossa
frente para desbravá-la, de forma que, ao caminharmos,
pudéssemos passar sem ter de pelejar com qualquer elemento
ou com a densidade da floresta. Ele sacrificou-se por nós, e
agora que somos beneficiados por Seu sacrifício Ele nos dá uma
chance de nos sacrificarmos pelos outros para que eles também
possam alcançar os mesmos benefícios que desfrutamos.
Hebreus 12.2 diz que Jesus enfrentou a cruz pela alegria de
obter o prêmio que estava diante de Si. Gosto de me lembrar
desse fato quando o caminho parece difícil. Digo a mim mesma:
&quot;Mantenha-se firme, Joyce; há alegria adiante&quot;.
Tome a decisão de derrubar seus muros e edificar pontes. Há
muitas, muitas pessoas que estão perdidas em seus conflitos e
precisam de alguém que vá à frente delas e lhes mostre o
caminho. Por que não ser tal pessoa para elas?
Muros ou pontes? A escolha é sua.
B ELEZA EM VEZ DE C INZAS
Não somente Deus quer transformar seus muros em pontes,
mas, como Ele promete em sua palavra, Ele também quer dar-
lhe beleza em vez de cinzas:
O E SPÍRITO do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me
ungiu e me qualificou para pregar o Evangelho das boas-novas
aos humildes, aos pobres e aflitos; Ele enviou-me a por
ligaduras, e a curar os quebrantados de coração; a proclamar
libertação aos cativos [físicos e espirituais] e a abertura das
prisões e dos olhos daqueles que estão algemados; A proclamar
o ano aceitável do Senhor [o ano do Seu favor] ... e a pôr
[consolação e alegria] sobre os que em Sião estão de luto um
ornamento de beleza (uma grinalda ou diadema) em vez de
cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto, veste [expressiva] de
louvor, em vez de espírito enfraquecido, oprimido e abatido
(Isaías 61.1, 2, 3).
Essas promessas em Isaías 61 são ricas e abundantes. Leia e
tome a decisão de não perder nem sequer uma delas. Estarei em
concordância com você, já que estou orando para que cada
pessoa que ler este livro herde tais promessas.
Deus tem feito sua parte ao nos dar Jesus. Tenho feito minha
parte ao agir de acordo com a Palavra de Deus, obter liberdade
e, então, escrever este livro para ajudá-lo a fazer o mesmo.
Agora, você deve fazer sua parte e tomar uma decisão de
qualidade de que nunca desistirá até que tenha permitido a Ele:
• ligar suas feridas;
• curar seu coração quebrantado;
• libertá-lo em cada área de sua vida;
• abrir as portas de sua prisão;
• dar-lhe alegria em vez de pranto, vestes de louvor em vez
de um espírito enfraquecido, oprimido e abatido; e
25. Nada Será Desperdiçado
NENHUMA  EXPERIÊNCIA EM sua vida será desperdiçada ou em vão
se você entregar todos os seus cuidados ao Senhor. Mesmo se
sua vida despedaçada se parece com um campo de batalha
abandonado, Jesus pode juntar todas as peças do seu passado e
transformá-las em algo belo.
Após Jesus ter alimentado 5 mil pessoas com apenas poucos
pedaços de pão e dois peixinhos, Ele disse a seus discípulos:
&quot;Juntem agora o que sobrou (os pedaços partidos que foram
deixados), para que nada se perca ou seja desperdiçado&quot; (João
6.12). Os discípulos juntaram doze cestos daquilo que sobrou,
muito mais do que a pequena oferta de pães e peixes que lhe
foram feitas a princípio.
Deus me fez livre do medo, insegurança, vícios emocionais, da
escravidão e de um senso profundo de rejeição. Então, Ele
reformulou minha vida despedaçada e me deu o glorioso
privilégio de ensinar a Seu povo como ele pode ser restaurado,
como ele pode ter vidas e ministérios frutíferos e felizes, e como
ele pode desfrutar relacionamentos saudáveis e amorosos.
Tenho aprendido a receber amor incondicional de Deus, de
Dave e até de mim mesma. Meu marido não faz tudo o que eu
gostaria que fizesse, da forma que eu gostaria, quando quero
que Ele faça; mas isso não é problema agora, porque aprendi
como amá-Lo incondicionalmente também.
No princípio do nosso casamento, eu não sabia nada sobre o
amor incondicional. Minha família tinha de fazer tudo do meu
jeito ou eu assumiria que eles não me amavam.
Como eu sofria por um coração ferido, todos que se
relacionavam comigo tinham de se esforçar bastante para tentar
me fazer feliz. Eles sofriam porque não podiam ser sinceros
comigo. Eles nunca podiam honestamente dizer-me a verdade
sobre qualquer coisa. Eles tinham de falar o que eu queria ouvir
se quisessem viver em paz.
Se eu dissesse a Dave &quot;Vamos tomar uma xícara de café&quot;, ele
não poderia dizer &quot;Bem, eu não queria fazer isso agora&quot;, pois eu
ficaria aborrecida. Essa era a minha forma de controlar as coisas.
Eu estava fragilizada, despedaçada, quebrada, esmagada e
desestruturada. Eu tinha sido violada e fazia todos pagarem pelo
meu sofrimento, mesmo que eles não fossem aqueles que o
causaram.
Se você foi violado pelo abuso, seus direitos como ser humano
foram desonrados, e isso o faz sentir-se oprimido. Assim, muitas
vítimas de abuso finalmente chegam a um ponto em que dizem:
&quot;Não posso lidar mais com isso&quot;. Elas não estão realmente
atormentadas pelos problemas da vida diária; elas estão
subjugadas pelos problemas de um coração partido. Aqueles que
cresceram num lar desestruturado são freqüentemente tão
inseguros que criam lares desestruturados também.
Precisamos de força interior para evitar que sejamos
esmagados pelas circunstâncias exteriores. Devemos permitir
que Deus junte nossos sonhos despedaçados e nos refaça à
imagem de Cristo. Para fazer isso, Ele pode ter de esmagar as
poucas peças que sobraram e transformá-las num barro fino,
molhando-o com Sua Palavra e remodelando nossa massa de
sobras irregulares, colocando-nos de volta em sua roda do oleiro.
Mas Ele é mais do que capaz de formar algo miraculoso daquilo
que deixamos para Lhe entregar.
Jesus nos disse que no mundo teríamos aflições: Eu tenho dito
essas coisas para que em Mim vocês possam ter paz [perfeita] e
confiança. No mundo vocês terão tribulações e aflições e abalos
e frustrações; mas tenham bom ânimo [tenham coragem; sejam
confiantes, firmes, inabaláveis], pois Eu venci o mundo [Eu tenho
privado o mundo do poder de feri-los e Eu o tenho vencido por
vocês]&quot; (João 16.33).
Ninguém pode evitar as tribulações desta vida, mas aqueles
que colocam sua fé em Jesus podem ter bom ânimo: &quot;Muitas são
as aflições do justo, mas o Senhor de todas o livra.&quot; (Salmos
34.19-ARA). Mas a Palavra não diz que Deus nos libertará
imediatamente. Podemos ter de suportar algumas coisas antes
disso.
A vida sempre vence a morte, e a luz sempre vence as trevas.
Sem a Palavra de Deus, o futuro pode ser tenebroso, mas Jesus
disse que Ele veio para nos libertar das trevas: &quot;Eu vim como
uma luz neste mundo, para que aquele que crê em mim [que
realmente se apega e confia e conta comigo] não continue a
viver em trevas&quot; (João 12.46). Em vez de viver em trevas e
miséria, devemos continuar a seguir a Jesus e nos conformar
totalmente ao seu exemplo de vida (João 12.26).
Você não pode prosseguir se estiver despedaçado, oprimido,
esmagado. Mas, agora, você tem recebido o suficiente da
Palavra de Deus por meio dos testemunhos deste livro para
compreender que você não mais está preso ao seu passado se
você seguir ao Senhor. Jesus disse: &quot;Se vocês permanecerem em
Minha palavra [firmarem-se nos meus ensinos e viver em
concordância com eles], verdadeiramente serão meus discípulos.
E vocês conhecerão a verdade, e a verdade vos libertará&quot; (João
8.31-32).
C ONTINUE S EGUINDO AO S ENHOR
Deus planta sonhos no coração das pessoas. Mas muitas
pessoas não continuam todo o caminho até o fim ao seguirem ao
Senhor para o cumprimento desses sonhos. Muitas começam e
desistem; começam e desistem; começam e desistem. Elas não
continuam porque seus corações despedaçados esmagaram-lhes
as esperança. Elas não têm qualquer força interior para levá-los
até o fim.
Jesus curará suas feridas. Sua palavra é remédio para sua
alma (veja Provérbios 4.20-22). Leia a Palavra de Deus todos os
dias, mesmo que seja apenas um versículo por dia. Quero
encorajá-lo a ler meu devocional diário, Starting Your Day Right
(Começando Seu Dia Corretamente), e, então, quando você for
dormir, pense nas coisas inspiradas por Deus, tais como: Eu sou
a justiça de Deus em Cristo Jesus. Deus me ama, Ele tem um
bom plano para o meu futuro. Então, faça orações cheias de fé,
tais como esta:
Senhor, creio que o Senhor me ama e que pode tomar todas
as peças quebradas da minha vida e fazer algo delas para o meu
bem. Em Romanos 8.28, a Palavra diz, &#39;Todas as coisas
cooperam juntamente e são (ajustadas num plano) para o bem e
para aqueles que amam a Deus e são chamados de acordo com
(Seu) desígnio e propósito)&#39;. Eu o amo, Senhor. Creio que o
Senhor me perdoa. Pai, eu recebo Sua cura para o meu coração
partido.
E não vá para a cama à noite pensando na horrível confusão
em que você se encontra, como você nunca vai vencê-la, ou
como nada está melhorando, ou como nada mudou. Tome a
Palavra de Deus como seu remédio. Ela é um medicamento para
seu corpo, para sua alma e para seu espírito. Estude-a para que
o poder da Palavra e do Espírito possa trabalhar juntamente em
sua vida.
Quando você ler um versículo da Bíblia do qual você quer se
apropriar, adicione-o em suas orações. Por exemplo, o Salmo
30.11-12 pode tornar-se parte das suas orações antes de dormir;
juntamente com o salmista, você pode adorar a Deus, dizendo:
O Senhor tem transformado meu pranto em dança para mim; O
Senhor tem tirado meu pano de saco e me vestido de satisfação,
para que, finalmente, minha língua e meu coração e tudo que é
glorioso dentro de mim possam cantar louvores ao Senhor, e não
se calar. Senhor meu Deus, dou graças ao Senhor para sempre.
Deus anseia derramar Seu Espírito em sua vida. Apenas ore:
Senhor, mova-se em minha vida. Faça o que Senhor quer fazer.
Cure as pessoas que tenho ferido e me cure também.
S EU S OFRIMENTO NÃO S ERÁ D ESPERDIÇADO
Quando criança, nunca fui capaz de me sentir à vontade,
nunca fui capaz de viver sem preocupações, de simplesmente
acordar e brincar. Sempre me senti infeliz comigo mesma porque
parecia que minha infância e minha adolescência tinham sido
perdidas. Então, vivi um casamento infeliz por cinco anos e senti
que aquilo foi um desperdício também. Como adulta, sentia que
tinha perdido muitos anos apenas desperdiçando minha vida.
Mas Deus juntou esses anos desperdiçados e fez da minha
confusão a minha mensagem.
Ele descobriu valor e transformou cada situação triste que
vivi. Você pode se perguntar: Como Deus pode fazer algo de
bom de toda a confusão que criei? Deus tem caminhos que
desconhecemos. Ele tem usado todos os meus anos
desperdiçados para alcançar milhares e milhares de pessoas que
me dizem: &quot;Ouço você todos os dias&quot;.
Algumas vezes, sinto-me maravilhada com aquilo que eles
estão ouvindo. Eles me ouvem falar sobre a confusão em que eu
costumava estar e como Deus me restaurou, e essa mensagem
lhes dá esperança e fé de que Ele fará o mesmo por eles. Deus
extraiu valor das minhas ruínas e usou isso para curar outras
pessoas arruinadas.
Talvez você sinta que tem desperdiçado sua vida até agora,
mas ficar pensando nisso não o levará a lugar algum. Se você
confiar em Deus, Ele pode fazer algo glorioso a respeito desse
tempo que você perdeu. Ele pode realizar uma obra tão
maravilhosa no tempo que lhe resta que tudo o que passou
parecerá ter valido a pena, simplesmente por vê-Lo tomar tudo
isso e fazer o que só Ele pode fazer em sua vida.
Seria impossível eu estar fazendo o que faço hoje. Quando
Deus me chamou para o ministério, dizer que eu vivia em
confusão não é descrever precisamente o que acontecia. Mas eu
amava a Deus e não queria continuar a viver do jeito que vivia.
Eu não sabia como mudar, ser diferente e melhor. Levou anos
para Deus me trazer ao lugar em que Ele queria que eu
estivesse, mas creio que Ele está fazendo uma obra de justiça
mais rápida nesses últimos dias.
D EUS F ARÁ O Q UE P ARECE I MPOSSÍVEL
Mesmo se levar décadas, é melhor você estar no seu no
caminho de subida do que permanecer descendo. Ore: Sim,
Deus, aqui estou. Tome minha vida despedaçada, junte os
fragmentos para que nada se perca. Não permaneça
despedaçado; tome uma decisão de confiar seu passado e seu
futuro ao Senhor.
Você pode se sentir como Marta se sentiu quando seu irmão
Lázaro morreu. Marta disse a Jesus: &quot;Mestre, se você estivesse
aqui, meu irmão não teria morrido&quot; (João 11.21). Jesus poderia
ter chegado à cena bem antes, mas a Bíblia diz que Ele,
propositadamente, esperou até Lázaro morrer e ser sepultado.
Ele esperou até que a situação se tornasse impossível, pois,
quando algo extremamente bom viesse dela, todos saberiam
que aquilo era uma obra de Deus (veja João 11.1-11).
Precisamos compreender que quando Deus não move em
nossas circunstâncias, ou quando não move tão rapidamente
quanto gostaríamos, Ele pode estar esperando
propositadamente. Somente quando nós pensamos que não há
maneira de resolver nossa confusão, Deus nos provará quão
forte e maravilhoso Ele é a nosso favor (veja 2 Crônicas 16.9).
Eu tinha tentado servir a Deus por anos. Por que Ele esperou
tanto para me tocar com o poder de Espírito Santo? Por que Ele
não o fez dois anos antes? Quatro anos antes? Penso que Ele
estava apenas esperando até que fosse necessário um milagre
para provar que Ele estava trabalhando em minha vida. O fato
de Deus usar minha vida para ministrar já é um grande milagre
em si mesmo.
Se Jesus escolhesse Seus doze discípulos por meio de testes
de personalidade, o resultado teria indicado que eles não tinham
as qualidades necessárias para formar uma boa equipe de
ministério. O analista teria de aconselhar Jesus a continuar sua
busca por homens que fossem mais adequados para o trabalho
requerido deles. Os relatórios teriam dito: &quot;Pedro é
emocionalmente instável e tem explosões de temperamento,
eTomé é cheio de dúvidas&quot;, e, um por um, cada discípulo teria
sido semelhantemente desqualificado.
E interessante notar que antes de Jesus escolher esses doze
homens (veja Lucas 6.12-16), Ele orou a noite inteira! Não me
pergunte quanto Ele orou antes de me escolher e de escolher
você para fazer o que fomos chamados a fazer. Jesus sabe tudo a
respeito de cada um de nós, contudo Ele nos escolheu da mesma
forma. Por quê? Ele quer curar o quebrantado. Ele quer juntar os
fragmentos e mostrar Seu poder. Quanto mais fracas são as
pessoas que Ele escolhe, mais o Seu poder se torna visível por
meio delas.
Quando comecei a servir a Deus, passava metade de cada
semana chorando com autopiedade. A despeito desse fato, eu
ainda era ungida para dar estudos bíblicos e podia pregar tanto
quanto faço hoje. Mas Deus me manteve presa à minha sala de
estar, ministrando a 25 pessoas por anos, antes de começar a
me levar ao ministério mundial que tenho hoje.
Entendi que Deus não me liberaria para o ministério público
até que eu o deixasse fazer uma obra em minha vida particular.
Mas, durante todo aquele templo de fidelidade nas pequenas
coisas, eu estava progredindo pouco a pouco, de glória em glória
(2 Coríntios 3.18).
Algo maravilhoso sobre Deus é que Ele não apenas vê onde
estamos, mas também vê aonde chegaremos. Ele nos trata
tendo em mente o final, durante toda a viagem. Ele nos ama
com amor incondicional desde o início do nosso relacionamento.
Tentamos muitas vezes obter Seu amor de todas as formas
imagináveis, mas tudo de que precisamos é apenas recebê-Lo.
Algumas vezes, tentamos arduamente entrar na presença de
Deus, mas a verdade é que é impossível sair da presença dEle.
Ele está em constante busca da nossa presença.
No Salmo 139.7-10 (ARA), o salmista escreveu a respeito de
Deus:
Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da
tua face?
Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais
profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada
e me detenho nos confins dos mares,
ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me
susterá.
No versículo 16 dessa passagem, o salmista diz que todos os
dias de nossa vida &quot;estavam escritos antes mesmo deles
existirem, quando nenhum deles havia ainda&quot;. E, nos versículos
17 e 18, ele diz o que Deus pensa sobre nós todo o tempo: &quot;Que
preciosos para mim, ó Deus, são os teus pensamentos! E como é
grande a soma deles! Se os contasse, excedem os grãos de
areia; contaria, contaria, sem jamais chegar ao fim.&quot;.
Não determine a tua dignidade pela maneira como os outros
têm tratado você. Receba seu valor e dignidade por meio daquilo
que você é em Cristo. Você pode algumas vezes sentir que o
Senhor não está perto, mas eis por que conhecer a Sua Palavra é
tão importante. O profeta Isaías trouxe um lamento diante de
Deus, relatando o que Seu povo estava dizendo:
O Senhor me desamparou, o Senhor se esqueceu de mim. (E o
Senhor respondeu): Acaso, pode uma mulher esquecer-se do
filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho
do seu ventre? (Sim, ela pode se esquecer) Mas ainda que esta
viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.
Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei (tatuei teu
retrato) (Isaías 49.14-16).
Os pais não criaram a idéia de guardar retratos dos seus
filhos. Deus carrega um retrato de Seus filhos onde quer que Ele
vá. Da próxima vez que você se questionar sobre sua própria
dignidade, lembre-se de que Deus tem seu retrato tatuado nas
palmas das mãos dEle!
26. Porção Dobrada pela Luta
Enfrentada
NÃO IMPORTA o QUE você esteja enfrentando, se você buscar
a Deus, Ele o recompensará. A Palavra diz em Hebreus 11.6:
&quot;Mas sem fé é impossível agradar a Deus e satisfazê-Lo. Pois
aquele que se aproxima de Deus deve [necessariamente] crer
que Ele existe e que é o recompensador daqueles que sincera e
diligentemente o buscam&quot;.
Muitas pessoas parecem acreditar que Deus é um punidor.
Mas elas, obviamente, não possuem conhecimento íntimo dEle.
Pela sua própria natureza de amor (veja 1 João 4. 8), Deus é um
recompensador.
Deus quer que esperemos uma recompensa; Ele quer que
acreditemos que essa recompensa existe e que a busquemos.
Sua Palavra diz que aquele que vem a Ele deve acreditar que Ele
é um recompensador. Não devemos nos concentrar naquilo que
temos enfrentado; devemos fixar nossos pensamentos no que
Deus está fazendo por nós, enquanto permanecemos fiéis a Ele.
Nosso testemunho deveria ser cheio de louvor a Deus enquanto
proclamamos: &quot;Minha recompensa está chegando&quot;!
A expectativa de uma recompensa nos enche de esperança.
Isso nos ajuda a enfrentar as dificuldades. A Bíblia diz que Jesus
não fez caso da humilhação que sofreria na cruz, mas Ele a
enfrentou pela alegria do prêmio que estava à sua frente.
Conseqüentemente, devemos continuar a &quot;olhar fixamente
[livres de toda a distração] para Jesus, que é o Líder e a Fonte da
nossa fé [dando o primeiro incentivo para nossa fé] e também é
o Consumador [levando-a à maturidade e perfeição]&quot; (Hebreus
12.2).
Ninguém desejaria trabalhar se não pensasse que receberia
um salário. Quando há um prêmio por suportar algo, há uma
motivação que nos dá a energia para prosseguirmos. Nós
dizemos: &quot;Está bem; eu posso enfrentar isso, porque sei que vou
obter algo depois&quot;.
É importante perceber que Deus é um Pai amoroso e que Ele
está cuidando de nós. Nós somos fiéis a Ele por causa de sua
bondade conosco. Ele nos traz uma recompensa e bênçãos
especiais para nossa vida não porque Ele nos deve alguma coisa,
mas porque faz parte de Sua própria natureza demonstrar amor
para aqueles que diligentemente o buscam.
Se você não fosse diligente em buscar a Deus, já teria
colocado esse livro de lado páginas atrás. Mas aqui está você,
ainda lendo, esperando aprender algo sobre Deus que não sabia
antes. Isso me diz que você está na posição de receber a
recompensa dEle como alguém que está fielmente buscando-O.
D EUS E STÁ O BSERVANDO V OCÊ
Deus está observando você e vendo tudo o que você faz. O
salmista disse: &quot;Sabes quando me assento e quando me levanto;
de longe penetras os meus pensamentos.&quot; (Salmos 139.2-ARA. A
Bíblia diz: &quot;Porque, quanto ao Senhor, seus olhos passam por
toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo
coração é totalmente dele&quot; (2 Crônicas 16.9). Deus está
buscando oportunidades para recompensá-lo por sua fé nEle.
fazendo, para que suas obras de caridade possam permanecer
em secreto, e seu Pai que vê em secreto recompensará vocês
publicamente&quot; (Mateus 6.3-4).
Em outras palavras, faça boas obras com motivações puras,
mas não se vanglorie disso. O que você é capaz de fazer
secretamente Deus o recompensará publicamente. Jesus falou
até mesmo sobre orar secretamente dizendo: &quot;Mas quando
vocês orarem, entrem em seu quarto (mais) íntimo, e fechando a
porta, orem a seu Pai que está em secreto, e seu Pai, que vê em
secreto, recompensará vocês publicamente&quot; (Mateus 6.6).
Você pode sentir que faz um trabalho ingrato. Talvez você
tenha trabalhado no berçário da igreja por dez anos, e o único
retorno que obteve foi de alguns poucos pais que reclamaram
pela forma como você cuidou dos seus filhos. Ou, quem sabe,
tenha sido introdutor na igreja por cinco anos, e ninguém mesmo
disse obrigado por sua fidelidade. Ou, talvez, você seja um
intercessor, e ninguém sabe que você está orando por eles. Mas
você é motivado a fazer o que faz &quot;como para o Senhor&quot;.
Não se desencoraje em fazer o bem, pois Deus está vendo
tudo o que você está fazendo pelos outros, como se fosse a favor
dEle. Nenhuma boa obra que você faça com a motivação correta
passará despercebida ao Senhor. Deus vê todas as pessoas que
você ajuda, cada pessoa de quem você cuida. Ele sabe de cada
momento que demonstrou a alguém um pouco de misericórdia,
cada vez que perdoou a alguém; e Ele o recompensará por isso.
Se você estiver buscando a recompensa de Deus, continuará a
fazer as coisas com a motivação correta.
O Q UE F AZER QUANDO OS P ROBLEMAS V ÊM
Cedo ou tarde, temos alguns problemas na vida. Enfrentam
algumas aflições e tribulações. Atravessamos momentos de
prova. E nem todas as tempestades são previstas. As vezes
acordamos e pensamos que tudo irá bem naquele dia. Antes que
o dia termine, podemos ter sido testados com todo o tipo de
problema que nem esperávamos.
Problemas fazem parte da vida, e assim simplesmente temos
de estar preparados para eles. Precisamos ter uma resposta
planejada para o problema, porque é mais difícil obter
fortalecimento após o problema chegar. É melhor estar
preparado sempre permanecendo fortes.
A primeira coisa que precisamos fazer quando o problema
chega é orar: Deus, ajude-me a permanecer emocionalmente
estável. Não deixe que suas emoções o subjuguem. A próxima
coisa que você precisa fazer é confiar em Deus. No instante em
que o medo brotar, ore.
Permaneça emocionalmente estável, confie em Deus e ore. E,
então, enquanto você espera pela resposta de Deus,
simplesmente continue fazendo o bem. Mantenha seus
compromissos. Não pare de servir a Deus apenas porque você
tem um problema. O maior momento no mundo para manter
seus compromissos com Deus é em meio às dificuldades e
adversidades. Quando o diabo vê que as tribulações e aflições
não podem parar você, ele vai parar de atormentá-lo por um
tempo.
“E não vamos nos desanimar e nos desencorajar e desfalecer
em agir de forma nobre e fazendo o que é certo, pois no devido
tempo e na estação apropriada nós colheremos, se não
desanimarmos e perdermos nossa coragem e desfalecermos&quot;
(Gálatas 6.9).
Assim, existem quatro coisas a fazer quando os problemas
chegarem: permaneça emocionalmente estável, confie em Deus,
ore__ imediatamente para evitar ser tomado pelo medo e
mantenha-se fazendo o bem. A quinta coisa a fazer é esperar
uma recompensa.
Raramente fazemos alguma dessas coisas quando o problema
chega, mas isso pode acontecer por não termos um plano. Creio
que precisamos nos fortalecer praticando esses passos, mesmo
quando não estamos em problemas.
Para estar preparado da próxima vez que se encontrar em
dificuldades, pratique dizendo: &quot;Eu serei fiel a Deus, e Deus me
dará uma recompensa dobrada pelas lutas enfrentadas. Satanás,
você pensa que vai me ferir, mas receberei uma dupla bênção,
porque sou aquele que diligentemente busca ao Senhor&quot;.
A V ONTADE DE D EUS PARA V OCÊ
Esta é a vontade de Deus para você: bênçãos dobradas estão
estocadas para sua vida porque você crê que a &quot;Ele é
recompensador daqueles que sincera e diligentemente o
buscam&quot; (Hebreus 11.6).
Como você pode ver, há uma condição, e essa condição é crer.
Onde há um privilégio, também há uma responsabilidade. Se
você fizer sua parte, Deus nunca falhará em fazer a parte dEle.
Você terá problemas, mas o que importa é como você
responde a eles. Não fique desencorajado, desapontado,
deprimido, negativo, sem esperança, quando as tribulações
vierem. Em vez disso, apenas lance-as fora e mantenha-se
prosseguindo. Há um lado bom do problema: quando você está
em meio aos problemas, pode experimentar o conforto de Deus.
Jesus disse: &quot;Bem-aventurado e invejavelmente feliz [com
uma alegria produzida pela experiência do favor de Deus e
especialmente condicionada pela revelação de sua graça
incomparável] são aqueles que choram, pois eles serão
consolados&quot; (Mateus 5.4).
Se realmente compreendermos quão maravilhoso é o conforto
de Deus, quase valerá a pena ter um problema apenas para
experimentar Seu maravilhoso consolo. A Bíblia diz: &quot;Bendito
seja o Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de
misericórdia (piedade e compaixão) e o Deus [que é a Fonte]) de
toda a consolação (conforto e encorajamento). Que nos conforta
(consola e encoraja) em cada problema (calamidade e aflição),
para que possamos também ser capazes de confortar (consolar e
encorajar) aqueles que estão com qualquer tipo de problema ou
aflição, com o conforto (consolação e encorajamento) com o qual
nós mesmos somos confortados (consolados e encorajados) por
Deus&quot; (2 Coríntios 1.3-4).
Deus nos conforta para que possamos confortar os outros.
D ESFRUTANDO O F AVOR DE D EUS
Algo mais que precisamos confessar todos os dias é: &quot;Tenho
favor diante de Deus, e Deus me concede favor diante dos
homens. Caminho no favor de Deus&quot;. Quando você tem o favor
de Deus, as pessoas gostam de você e querem fazer coisas para
você, e elas nem mesmo sabem por quê. Não há uma razão
natural, mas elas são atraídas a você e querem ser boas, apenas
querem ser uma bênção para você.
O favor de Deus é maravilhoso. As pessoas que têm sido
abusadas precisam aprender a lançar fora suas ofensas e apenas
desfrutar esse livre dom da graça de Deus. Aquele que se
humilha desfrutará mais e mais favor em sua vida.
Pedro foi alguém que facilmente se ofendia, mas que
aprendeu a se humilhar e desfrutar o favor de Deus.
A S B ÊNÇÃOS DE D EUS S ÃO M AIORES DO Q UE V OCÊ P OSSA
I MAGINAR
Se eu não tivesse aprendido a lançar meus cuidados sobre o
Senhor e não o deixasse me fortalecer e firmar, não estaria
desfrutando as bênçãos dobradas sobre as quais agora ministro.
Quando Deus nos chamou para irmos para a TV, o Espírito de
Santo visitou Dave certa manha enquanto ele penteava o cabelo.
Deus lhe disse: &quot;Tenho preparado você e Joyce todo esse tempo
para irem a TV,
Não sabíamos que estávamos num tempo de preparação
durante todos aqueles anos quando fomos fiéis em viajar por
qualquer lugar para conduzir encontros para 50 a 100 pessoas;
dormindo em estacionamentos do Mcdonalds por não termos
dinheiro para ficar em hotéis, porque nós desejávamos pregar a
qualquer preço; enfrentando e suportando a rejeição da igreja
local. Tudo isso foi preparação para um trabalho maior.
Soubemos permanecer fiéis, mas nunca sonhamos que a
recompensa de Deus seria assim tão grande. Agora desfrutamos
o prazer de pregar a Palavra a um público de vários milhares de
pessoas por reunião, que estão famintas para conhecer a Deus
mais intimamente. Nosso programa Vida na Palavra (atualmente,
Desfrutando a Vida Diária) é transmitido diariamente para mais
de 400 estações de TV, com uma audiência potencial de 2,5
bilhões de pessoas, em aproximadamente dois terços do mundo.
Desde 1988, já editamos mais de 50 livros, 36 dos quais têm
sido traduzidos para 45 idiomas, e distribuímos cerca de 3
milhões de cópias. Atribuo isso somente a Deus. O Senhor tem
uma recompensa em mente para nós, e suas bênçãos continuam
a crescer cada ano.
Não sei se era isso que Deus tinha em mente quando Ele me
disse: &quot;Apenas prossiga, Joyce, Eu lhe darei a você a porção
dobrada por suas lutas. O que o diabo intentou para o mal contra
você Eu o tornarei em bem, para que você esteja numa posição
de ajudar muitas pessoas&quot;.
Deus tem essa mesma mensagem para todos. Devemos
suportar um tempo de preparação, mas podemos estar seguros,
&quot;sabendo que [Deus sendo o nosso parceiro em nosso esforço]
todas as coisas cooperam juntamente e são [ajustadas no plano]
para o bem daqueles que amam a Deus e são chamados de
acordo com o [Seu] desígnio e propósito&quot; (Romanos 8.28).
Assim, da próxima vez que você enfrentar um problema, não
faça caso disso. Se você ama a Deus e faz a vontade dEle em
sua vida dando o seu melhor, então pode estar certo de que tudo
cooperará para o seu bem. Servimos a um Deus que toma as
coisas más e trabalha nelas para o bem.
A G RANDE T ROCA DE D EUS
Deus está no negócio de trocas; Ele toma toda a sucata que
não queremos e as transforma em todo o bem que tem
reservado para nós.
Por exemplo, quando me casei com Dave, não tinha dinheiro
algum. Não tinha carro, mas Dave tinha. Quando me casei,
subitamente passei a ter carro e dinheiro, porque, quando Dave
e eu nos casamos, tudo o que ele tinha instantaneamente
tornou-se meu também.
Da mesma forma acontece quando nos comprometemos com
Jesus. Ele é o noivo, e nós somos a noiva dEle. Nós não nos
tornamos herdeiros da sua promessa simplesmente porque O
namoramos, mas ao nos comprometermos plenamente com Ele
numa aliança de casamento. Algumas pessoas querem apenas
&quot;namorar&quot; Jesus, esperando que ainda assim consigam bênçãos
dobradas.
O poder que está no nome de Jesus é desfrutado somente por
aqueles que pertencem a Ele. Não tive o nome de Dave até que
me casasse com ele. Quando você vem ao Senhor e Lhe entrega
tudo em sua vida, inclusive o sofrimento e injustiça, Deus
promete tomar tudo o que está errado e transformá-lo no que é
certo.
Jesus disse:
Se você [realmente] me ama, guardará (obedecerá) os meus
mandamentos (João 14.15). Aqueles que O amam e obedecem a
Ele receberão sua grande troca, descrita em Isaías 61.7: &quot;Ao
invés da sua [antiga] vergonha você terá uma dupla
recompensa; ao invés de desonra e da reprovação [seu povo] irá
se alegrar em sua porção. Portanto, em sua terra eles possuirão
o dobro [que perderam]; alegria eterna lhes pertencerá&quot;.
27. Sacuda Isso
SEMPRE  HAVERÁ novas oportunidades para aplicarmos os
princípios de abandonarmos o passado e prosseguirmos para
obter a recompensa de Deus, como nós já abordamos neste livro.
Alguém que é importante para você, inevitavelmente, acabará
fazendo algo que o ferirá. Quando isso acontecer, você terá de
novamente decidir receber o amor de Deus e perdoar àquele que
o feriu, orar por ele e abençoá-lo, crer que Deus transformará a
situação para o seu bem e, então, esperar pelo prêmio de sua
recompensa.
Para encorajar sua fé a prosseguir e obter o supremo prêmio
da liberdade do sofrimento emocional, Deus incluiu muitas
histórias de vitória na Bíblia para lembrá-lo de pessoas que
aprenderam a livrar-se das ofensas e permaneceram fiéis ao
Senhor. De fato, a Bíblia é cheia de histórias daqueles que
receberam a dupla recompensa por permanecerem fiéis.
José saiu da cisterna para o palácio. Daniel saiu da cova dos
leões para um lugar de promoção.
Rute começou comendo sobras no campo porque ela foi fiel à
sua sogra que ficaria sozinha se ela não a acompanhasse. Os
maridos de ambas tinham morrido e Rute poderia ter voltado
para a segurança do seu próprio povo. Sua sogra lhe disse:
&quot;Apenas volte&quot;. Mas ela disse: &quot;Não, eu ficarei com você, e seu
povo será o meu povo, e seu Deus será o meu Deus&quot; (veja Rute
1.16). Então Deus lhe concedeu favor, e Rute acabou se casando
com Boaz, que simplesmente era o homem mais rico do país.
Ester começou como uma assustada serva do rei, que não
estava realmente feliz com a posição que lhe fora oferecida. Mas
ela foi obediente ao que Deus lhe orientara a fazer e passou de
órfã à rainha que salvou toda sua nação.
Então, certamente, temos a história de Jó.
A coisa admirável sobre Jó é que Deus permitiu que ele
atravessasse aquelas dolorosas experiências porque sabia que
ele as enfrentaria de forma bem-sucedida. Deus conhecia Jó
como um homem em quem Ele podia confiar. Se você nunca leu
todo o livro de Jó, encorajo-o a fazê-lo.
O diabo pensava que Jó era fiel a Deus somente porque Ele o
protegia. Assim Deus disse a Satanás: &quot;Muito bem, então, nós
removeremos um pouco da sua proteção, e você descobrirá que
ele permanecerá fiel a mim&quot; (veja Jó 1.12). E assim Deus
permitiu que Satanás atacasse e destruísse cada coisa boa que
Jó possuía. Ele tomou tudo de Jó, exceto sua vida, mas Jó, ainda
assim, não negou sua aliança com o Senhor.
Como resultado da sua fidelidade &quot;mudou o Senhor a sorte de
Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o Senhor deu-lhe o
dobro de tudo o que antes possuíra.&quot; (Jó 42.10-ARA). É
importante notar que o Senhor mudou o cativeiro de Jó e
restaurou sua fortuna quando ele orou por seus amigos. Esses
eram os mesmos &quot;amigos&quot; que grandemente desapontaram a Jó,
que não o apoiaram e que o julgaram e criticaram. Mas o Senhor
deu a Jó o dobro do que ele tinha, porque ele foi fiel em
continuar a fazer a coisa certa, embora isso fosse doloroso.
O Senhor deu o dobro do que Jó tinha antes de o problema
começar. Deus deu-lhe uma bênção dupla por todos os
problemas que ele enfrentara. Os versículos 12 e 13 do capítulo
42 dizem que Jó: &quot;... veio a ter catorze mil ovelhas, seis mil
camelos, mil juntas de bois e mil jumentas. Também teve outros
sete filhos e três filhas&quot;.
Agora, você pode não desejar ter ovelhas ou camelos, bois ou
jumentos ou, mesmo, mais filhos, mas Deus sabe qual tipo de
bênção dobrada lhe dar pela sua fidelidade. Porém, para
permanecer prosseguindo e colher sua bênção dupla, você terá
de aprender a &quot;sacudir&quot; (livrar-se de) os problemas que surgem
em seu caminho.
Uma das minhas histórias favoritas é sobre o jumento de um
fazendeiro que caiu num poço vazio. O animal urrava
dolorosamente por horas enquanto o fazendeiro tentava
imaginar o que fazer pelo seu pobre jumento. Finalmente, ele
concluiu que o poço era muito fundo e, realmente, precisava ser
coberto de alguma forma; além disso, o jumento estava velho, e
haveria muito problema para tirá-lo dali. O fazendeiro decidiu
que não valia a pena tentar recuperar o animal, e assim ele
pediu aos vizinhos que o ajudassem a encher o poço e sepultar o
jumento.
Todos eles pegaram pás e começaram a lançar entulho no
poço. O jumento, imediatamente, percebeu o que estava
acontecendo e começou a urrar horrivelmente. Gritar seria nossa
resposta normal se alguém estivesse nos maltratando dessa
forma tão cruel, assim o jumento respondeu da mesma forma
que fazemos a princípio, mas, então, finalmente se aquietou.
Após algumas pás de entulho mais tarde, o fazendeiro olhou
para o fundo do poço e ficou espantado com o que viu. A cada pá
de entulho que ele lançava sobre o animal, o jumento
simplesmente os sacudia e subia sobre o entulho.
A medida que os vizinhos e o fazendeiro continuavam a jogar
o entulho sobre o animal, ele continuava sacudindo-o e subindo
sobre ele. Logo, o jumento sacudiu a última porção de entulho,
endireitou-se e saiu do poço.
Podemos aprender muito com essa história. Quando os
problemas surgem, se pararmos de lamentar o tempo suficiente
para nos aquietarmos e atentarmos, Deus nos dirá o que fazer.
Pela graça e misericórdia de Deus, tornei-me capaz de sacudir
muitas coisas em minha vida: sentimentos ruins, maus tratos,
abuso, muitas coisas injustas, desleais, desagradáveis. Mas
agradeço a Deus por, finalmente, ter aprendido enquanto as
sacudia e também crer em minha recompensa.
A expectativa da recompensa de Deus lhe dá a esperança de
que Ele não o deixará sem defesa e está fazendo algo a seu
favor. Da próxima vez que as pessoas que você conhece se
irarem com alguma coisa, diga-lhes: &quot;Sacuda isso&quot;. Quando você
encontrar alguém que está deprimido, diga: &quot;Sacuda isso&quot;. Se as
pessoas que você conhece estão se lamentando porque alguém
as feriu, diga: &quot;Sacuda isso&quot;. Eu lhe dou a permissão para pregar
essa mensagem a todos que precisarem ouvi-la.
P ROBLEMAS V IRÃO
Você pode pensar que estará completamente livre de
enfrentar problemas porque está servindo a Deus, mas isso não
é verdade. De fato, se Deus o envia para ministrar aos outros,
você pode estar quase certo de que terá problemas. Mas, como
os três jovens hebreus que foram lançados na fornalha de fogo,
você pode esperar passar pelo fogo da provação sem mesmo
cheirar fumaça ao sair, como Sadraque, Mesaque e Abede-Nego
fizeram (veja Daniel 3.23-27). Jesus deu aos seus discípulos
autoridade sobre os espíritos imundos que tentariam lhes trazer
problemas. Ele também lhes disse o que fazer quando as
pessoas que eles tentavam alcançar os rejeitassem:
E Ele chamou para si os doze [apóstolos] e começou a enviá-
los [como Seus embaixadores] de dois em dois e deu-lhes
autoridade e poder sobre os espíritos imundos.
Ele os orientou a não levar nada para sua jornada, exceto seu
bordão, nem pão, nem alforje, nem dinheiro em seus cintos
(bolsas, cintas).
Eles deveriam ir apenas com sandálias em seus pés e não
levarem duas túnicas (vestimentas).
E Ele lhes recomendou, Quando vocês entrarem numa casa,
permaneçam ali até deixarem aquela cidade.
E se alguém não receber, aceitar e acolher vocês, e
recusarem-se a ouvi-los, quando vocês partirem, sacudam o pó
sob seus pés, como testemunho contra eles. Verdadeiramente
Eu lhes digo, que haverá mais tolerância para Sodoma e
Gomorra no dia do juízo do que para aquela cidade (Marcos 6.7-
10).
Jesus está nos mostrando que Ele provera tudo o que for
necessário para servi-lo. Os discípulos não precisavam de roupa
extra ou dinheiro. Eles receberam autoridade sobre o problema
que viria contra eles, e se alguém não os aceitasse eles
deveriam simplesmente &quot;sacudir&quot; isso. Assim, eles foram e
pregaram em vários lugares a mensagem de arrependimento e
salvação.
Se você quer ser usado por Deus ou quer caminhar com Deus,
experimentará certo nível de rejeição, e muito provavelmente
essa rejeição virá de pessoas que importam muito para você:
sua família ou amigos íntimos.
Se Deus o toca e você quer ter um relacionamento mais
profundo com Ele do que com alguns dos seus amigos da igreja,
até mesmo eles provavelmente o rejeitarão. As pessoas não
querem que outras cheguem onde elas mesmas não estão
desejando ir. Se elas querem perseguir interesses carnais e você
quer seguir o Espírito, elas podem abertamente rejeitá-lo por sua
escolha.
Jesus disse das pessoas dos seus dias que resistiram e se
opuseram a ele: &quot;Eles me odiaram sem motivo&quot; (João 15.25).
Realmente me chocou pensar quão triste isso deve ter sido.
Jesus tentou ser bom para as pessoas, mas, em vez de amá-Lo e
apreciá-Lo por isso, elas O odiaram.
José teve um sonho, e seus irmãos o odiaram por isso (veja
Gênesis 37.5). Estevão era cheio de graça e poder e realizava
grandes sinais e milagres entre o povo, mas os líderes religiosos
o odiaram por sua inteligência, sabedoria e inspiração do Espírito
por intermédio de quem ele falava, e assim eles o prenderam e,
finalmente, o apedrejaram (veja Atos 6.8-12; 7.58).
É admirável quão facilmente pode-se atrair ódio, inveja e
ciúmes dos outros. Se você tentar ser bom, alguém o odiará por
isso. Mas, se você responder-lhes com a mesma ira que eles
demonstram, estará sendo impedido de ser abençoado. Não
permita que as pessoas o reduzam ao nível delas, mas sacuda
isso e levante-se.
E difícil sacudir a rejeição. Ela machuca. Mas machuca ainda
mais viver por sentimentos. Aprenda a sacudir a poeira da
rejeição e do desapontamento.
Certa vez, eu estava tentando ajudar alguém e realmente
senti que estava fazendo a coisa certa. Sempre fui muito
ocupada e nunca tive de procurar alguma coisa para fazer, e
assim eu sentia que realmente estava fazendo um sacrifício de
tempo e esforço ao tentar ajudar essa pessoa. Mas, não
importava o que eu fizesse, essa pessoa sentia que não era o
suficiente, e, assim, eu me sentia atormentada por isso.
Eu pensava que Deus queria que a ajudasse porque essa era a
minha missão como cristã. Mas parecia que, a despeito dos
meus melhores esforços, nada que eu fizesse era bem-sucedido,
compreendido ou apreciado. Finalmente, cheguei a um ponto em
que percebi que minha responsabilidade era tentar ajudar a
pessoa, mas eu não era responsável pela felicidade dela.
Quase sempre queremos que todos estejam felizes com tudo o
que fazemos. Mas temos de desistir de pensar que sempre
faremos as pessoas felizes. Temos de fazer o que acreditamos
ser o correto, o que acreditamos que Deus está nos levando a
fazer, mas temos de perceber que cada um é responsável pela
sua própria felicidade.
Jesus disse a Seus discípulos que pregassem. Eles fizeram o
que deveriam fazer. Mas Ele lhes disse que, se as pessoas não os
recebessem ou ouvissem sua mensagem, eles não deveriam
deixar a indiferença dos outros se tornar um bloqueio para o seu
próprio chamado.
Não desista do seu ministério nem se sente e lamente
tristemente por horas apenas porque nem todos o recebem ou o
apreciam. Sacuda isso e prossiga para a próxima cidade, para a
próxima pessoa que precisa ouvir o testemunho daquilo que
Deus tem feito em sua vida.
Se a rejeição paralisar você, então o espírito de rejeição
prevalecerá. Você não pode parar de fazer o que é certo
simplesmente porque alguém não gosta do que você está
fazendo.
De fato, eu me aventuraria a dizer que cada vez que Deus
está prestes a promovê-lo e a levá-lo a um novo nível, você
experimentará um ataque de rejeição no lugar onde se encontra
agora. Satanás usará a rejeição para tentar paralisá-lo ou mesmo
levá-lo a um nível mais baixo.
Por isso muitas pessoas são rejeitadas por seus próprios
familiares quando elas são cheias do Espírito Santo. Elas vão
para casa bastante empolgadas para dizer a todos que elas
estão vivendo i para o Senhor somente para perceber que
subitamente se tornam a &quot;estranha&quot; da família. Satanás usa as
pessoas que são mais significativas para nós a fim de nos rejeitar
e tentar nos levar de volta \ aos nossos antigos caminhos.
S UBA DE N ÍVEL
Como o jumento no poço, você precisa sacudir cada pá cheia
de abuso e rejeição e usá-la para manter-se subindo de nível até
que esteja livre para desfrutar a vida que Deus planejou. Você já
chegou a um novo nível com Deus. Sua fé já é mais forte hoje do
que era ontem. Você está mais preparado para a próxima vez em
que o abuso for lançado contra sua vida.
Desse dia em diante, você caminhará num nível mais
poderoso com Deus porque está determinado a ser fiel a Ele, não
importa o custo. Você é mais perigoso para o inimigo quando se
apropria do poder do Espírito Santo que habita dentro de você.
Porque você crê em Jesus e recebe seu Espírito Santo, pode
orar e receber o melhor de Deus em sua vida. Você é livre para
avançar com determinação em direção à recompensa de Deus, e
seu testemunho causará grande dano à obra do inimigo. Em
razão disso, ele tentará influenciar tantas pessoas quanto for
possível para criticá-lo e se opor a você.
Mas lembre-se do jumento: humilhe-se e sacuda isso! Use o
que o inimigo planeja contra você para chegar mais perto do
lugar onde Deus quer que você esteja.
Por exemplo, pediram a mim e a Dave que deixássemos nossa
igreja local quando Deus começou a se mover em nossa vida,
mas, então, Ele nos levou a outra igreja na qual o pastor nos
aceitou e nos cobriu com oração e aceitação.
A Bíblia diz que não lutamos contra a carne e o sangue, mas
contra principados, poderes e as forças da maldade nos lugares
celestiais (veja Efésios 6.12). Satanás continuará a tentar usar as
pessoas para nos impedir de prosseguir. Se for possível, ele
usará as pessoas que conhecemos e amamos para que as
feridas de sua rejeição e desaprovação sejam mais profundas e
dolorosas.
Algumas vezes, tememos a desaprovação das pessoas de tal
forma que não damos um passo para o próximo nível com Deus
porque já sabemos que alguém não irá gostar disso. E
impressionante o número de vezes que nos submetemos às
pessoas em vez de nos submetermos a Deus.
Jesus disse: &quot;Aquele que ouve e dá atenção a vocês [como
meus discípulos] ouve e dá atenção a mim; e aqueles que
desprezam e rejeitam a vocês, desprezam e rejeitam a mim, e
quem despreza e rejeita a mim, despreza e rejeita Aquele que
me enviou&quot; (Lucas 10.16). Ele está nos dizendo que não
devemos tomar a rejeição de forma pessoal. Se as pessoas estão
nos rejeitando quando seguimos ao Senhor, então elas estão
rejeitando a Jesus e ao Pai.
Agora, compreenda que, antes mesmo de você entregar seu
coração ao Senhor, o diabo conhecia o plano de Deus para sua
vida e fez tudo o que podia para impedir você de recebê-Lo. E
possível que quanto maior o chamado de Deus em sua vida,
maior o abuso que virá contra você. Se você considerar a guerra
do mundo espiritual à luz da Palavra de Deus, compreenderá que
Satanás enviou todos os problemas que existem contra sua vida
porque ele sabia que Deus estava buscando você para abençoá-
lo.
Mas Jeová é o Senhor dos Exércitos. Ele está lutando por você,
e isso o faz mais que vencedor. A batalha contra você já foi
vencida. Você tem a promessa de receber uma bênção dobrada
em razão da luta que enfrentou
P ERMANEÇA C HEIO DA A LEGRIA DO S ENHOR
O apóstolo Paulo disse: &quot;Agora, estou tentando ganhar favor
de homens ou de Deus? Busco eu agradar aos homens? Se ainda
buscasse a popularidade dos homens, não seria um servo de
Cristo (o Messias)&quot; (Gaiatas 1.10).
Podemos ver na passagem das Escrituras abaixo que Paulo
aprendeu a sacudir a rejeição e continuar em alegria:
E a Palavra do Senhor [com relação à eterna salvação através
de Cristo] propagou-se e espalhou-se através de toda a região.
Mas os judeus incitaram mulheres devotas de alta posição e
homens de destaque da cidade, e os instigaram a perseguir
Paulo e Barnabé e expulsá-los de seus limites. Mas [os apóstolos]
sacudiram seus pés contra eles e prosseguiram para Icônio.
E os discípulos eram continuamente cheios [em suas almas]
da alegria e do Espírito Santo (Atos 13.49-52).
Permaneça continuamente cheio da alegria e do Espírito Santo
em sua alma; mantenha sua mente, sua vontade e suas
emoções fixadas na alegria que está disponível por intermédio
da presença do Senhor que habita em nós. Você perderá sua
alegria caso se preocupe com aquilo que as pessoas pensam a
seu respeito. Sacuda sua autoconsciência e &quot;seja cheio e
estimulado com o Espírito [Santo]&quot; (Efésios 5.18). Permaneça
cheio de alegria, não importa qual problema venha contra você.
Faça o melhor que acredita ser a vontade de Deus em cada
situação.
Se as pessoas não têm amor suficiente para mostrar um
pouco de misericórdia simplesmente porque você não faz tudo o
que elas querem, então, esse é um problema entre elas e Deus.
Não viva tentando ser popular; viva para fazer a vontade de
Deus.
Para obedecer a Deus, José teve de sacudir muitas feridas e
desapontamentos, tais como a traição de seus irmãos, as
mentiras da esposa de Potifar e a promessa esquecida do
copeiro que ajudara. Mas, como resultado de permanecer firme,
José era colocado numa posição de destaque por onde quer que
fosse. Deus lhe deu uma dupla recompensa por suas lutas, e ele
foi tremendamente abençoado (veja Gênesis 37-Êxodo 1).
Da mesma forma, as pessoas não gostaram de Daniel porque
ele era um homem piedoso que se manteve sacudindo a
rejeição. Ele foi tão rejeitado que foi atirado na cova de leões
famintos, mas Deus fechou a boca dos leões. Quando o rei viu o
que Deus tinha feito por Daniel, proclamou: &quot;Eu emito um
decreto de que em todo o meu domínio real os homens temam e
tremam diante do Deus de Daniel, pois Ele é o Deus vivo,
permanente e inabalável para sempre, e seu reino não será
destruído e seu domínio não terá fim&quot; (Daniel 6.26).
A firmeza de Daniel em permanecer caminhando com Deus
inspirou toda uma nação a crer que Deus &quot;é Salvador e
libertador, e Ele opera sinais e maravilhas no céu e na terra, e foi
Ele quem libertou Daniel do poder dos leões&quot; (Daniel 6.27).
Na carta de Paulo aos Tessalonicenses, começando em 2
Tessalonicenses 1.3, ele dá graças porque os crentes estavam
crescendo em fé, no amor uns pelos outros, e estavam firmes em
meio às perseguições e aflições.
No versículo 6, Paulo assegura aos crentes que Deus
retribuiria com aflição e angústia aqueles que os afligiram e os
angustiaram. Então, ele escreveu sobre a determinação de Deus
em recompensá-los:
E para [recompensar] vocês que estão tão aflitos e
angustiados [para lhes conceder] confiança e descanso
juntamente conosco [seus companheiros sofredores] quando o
Senhor Jesus for revelado do céu com seus poderosos anjos
numa chama de fogo; para retribuir (com castigo e vingança)
àqueles que não reconhecem nem percebem, nem se aproximam
de Deus, e [sobre aqueles] que ignoram e se recusam a
obedecer o evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo (2
Tessalonicenses 1.7-8).
Assim, se você é perseguido por fazer o que é certo aos olhos
de Deus, alegre-se. O apóstolo Pedro disse: &quot;[Afinal] que tipo de
glória há [nisso] se, quando vocês fizeram algo errado e forem
punidos por isso, tiverem que suportar pacientemente? Mas se
vocês suportarem pacientemente com sofrimento [resultante de]
por fazer o que é certo e forem mal compreendidos, isso é
aceitável e agradável a Deus&quot; (1 Pedro 2.20).
Quando você sofre por fazer o que é certo, Jesus o chama de
abençoado, dizendo: &quot;Abençoado, feliz, afortunado e
espiritualmente próspero (num estado no qual um filho recém-
nascido de Deus desfruta e encontra satisfação no favor e
salvação de Deus, a despeito de suas condições exteriores) são
aqueles que são perseguidos por causa da justiça (por serem
retos e fazer o que é reto), pois deles é o reino dos céus!&quot;
(Mateus 5.10).
Pedro sacudiu seus fracassos, Paulo sacudiu a rejeição, e você
tem de sacudir tanto o fracasso quanto a rejeição se quiser ser
usado por Deus. Mas uma dupla recompensa lhe está reservada.
Sacuda a falta de perdão, o ressentimento, os problemas, a
autopiedade. Sacuda a rejeição, a ofensa, a traição, a fofoca, a
crítica e o beijo de Judas. Sacuda as discussões com familiares,
amigos íntimos, estranhos. Sacuda suas próprias falhas e erros.
Sacuda o desapontamento por sua própria imperfeição.
Apenas supere isso e prossiga.
A estação do choro acabou. É tempo de se alegrar.
28. Uma Milagrosa Recompensa
ENQUANTO EU estava revisando os manuscritos para a
primeira edição deste livro, Deus moveu-se de forma poderosa e
trouxe libertação e cura para o meu relacionamento com meu
pai. Não creio que foi por acaso que a miraculosa conclusão da
minha história tenha ocorrido no mesmo momento em que a
estava incluindo neste livro.
Embora eu tivesse perdoado ao meu pai, nosso
relacionamento permanecia estremecido e desconfortável. Ele
nunca admitira plenamente a responsabilidade por seus atos ou
quão devastador seu comportamento tinha sido para minha vida.
Através dos anos, eu me esforçava ao máximo para ter algum
tipo de relacionamento com meus pais, mas esse era um
continuo desafio.
Eu tentei em duas ocasiões confrontá-los, mas nenhum desses
esforços foi bem-sucedido. Cada confronto trazia muita ira,
descontrole e vergonha, sem qualquer resultado positivo. Ao
menos, a porta tinha sido aberta, e Deus estava trabalhando em
secreto, por trás dos bastidores, mesmo quando parecia que
nada havia mudado.
Após ter trazido meus pais para morar perto de mim, Deus
começou a lidar comigo sobre o mandamento bíblico: &quot;Honra teu
pai e tua mãe&quot; (veja Êxodo 20.12). Devo ser sincera em dizer
que, embora desejasse honrá-los, eu me perguntava como
poderia fazê-lo. Eu os visitava, telefonava, orava por eles, dava-
lhe presentes, mas o Senhor continuava a me dizer: &quot;Honra a teu
pai e tua mãe&quot;. Eu sabia que Deus estava tentando me mostrar
algo, mas não compreendia o que era.
Finalmente, numa noite, enquanto ouvia novamente &quot;Honra a
teu pai e tua mãe&quot;, eu disse ao Senhor que já fizera por eles tudo
o que sabia e que não compreendia o que Ele desejava.
Então eu o ouvi dizer: &quot;Honre-os em seu coração&quot;. Respondi:
&quot;Pelo que eu poderia honrá-los&quot;? Deus me mostrou que eu podia
honrá-los e estimá-los em meu coração por terem me dado a
vida, por terem me alimentado e vestido e por terem me enviado
à escola.
Eu fazia coisas por eles externamente, mas Deus via o meu
coração. Eu achava difícil ter sentimentos de apreciação quando
tudo de conseguia me lembrar era do sofrimento, mas, após
ouvir a mesma coisa do Senhor por um ano, percebi que isso era
importante, e fiz o que Ele dissera.
Orei: Obrigada, Deus, por meus pais e pelo fato de les terem
me dado vida física, Eles me trouxeram ao mundo; eles me
alimentaram, me vestiram e me enviaram à escola, e eu os
honro por terem feito isso. Realmente percebi o que Deus estava
dizendo, e naquele momento, sinceramente, agradeci pelo papel
que meus pais desempenharam em minha vida.
Uma semana mais tarde, surgiu uma questão com relação ao
nosso recém-lançado programa de TV, Vida na Palavra. Recebi
notícias de que alguns familiares tinham visto o programa e
disseram aos meus pais que assistissem a ele. Meu pai e minha
mãe me perguntaram em qual canal eles poderiam sintonizar o
programa, e percebi que precisava avisá-los de que eu fazia
referência ao abuso da minha infância porque Deus me chamara
para ajudar pessoas que tinham sido abusadas e maltratadas.
Eu não podia imaginar o que lhes causaria sintonizar um canal
de TV e me ouvirem dizendo: &quot;Eu vim de um passado de abuso
na infância&quot;. Eu não queria feri-los. Fiquei preocupada, mas o
que eu poderia fazer? Sabendo que as pessoas encontram
facilidade em se relacionar comigo porque compartilho meu
passado tão abertamente, orei muito e, então, reuni-me com
Dave e nossos filhos. Decidimos que, embora o fato de meus
pais tomarem conhecimento do que eu estava fazendo pudesse
acabar com o pouco relacionamento que tínhamos, ainda assim
eu tinha de seguir a vontade de Deus para minha vida.
Fomos visitá-los, e lhes contei a verdade, explicando-lhes que
não estava fazendo isso para feri-los, mas que não tinha escolha
se quisesse ajudar as pessoas que Deus me chamara para
ajudar.
Vi o miraculoso poder de Deus em operação!
Meu pai e minha mãe sentaram-se ali e ouviram calmamente.
Nenhuma ira foi demonstrada, não houve acusações, nem desvio
da verdade.
Meu pai, então, compartilhou conosco o quanto ele lamentava
por tudo que fizera comigo, que Deus sabia como ele estava
triste e que se houvesse alguma maneira de voltar atrás ele o
faria. Ele comentou que era dominado por algo e não conseguiu
deixar de agir da forma que agiu. Contou que também tinha sido
abusado quando criança e estava agindo como aprendera e
tinha se acostumado a viver.
Ele ainda compartilhou que recentemente assistira a vários
programas de TV sobre abuso e tinha começado a perceber quão
devastador o abuso sexual era realmente. Ele me liberou para
compartilhar o que eu achasse necessário e disse para não me
preocupar com nada. Ele me disse que queria construir um
relacionamento comigo e tentar ser meu pai e meu amigo. Minha
mãe, obviamente, ficou empolgada com a idéia de poder ter um
relacionamento verdadeiro com sua filha, seus netos e bisnetos.
Desse dia em diante, começamos a ver algumas mudanças
em meu pai. Ele ia à igreja para reuniões especiais na Páscoa e
no Natal, mas realmente nunca comentava muito a respeito. Ele
ainda não tinha entregado seu coração a Jesus e ainda era
alguém difícil de lidar. Finalmente, minha mãe me disse ter
percebido que Deus estava lidando com meu pai. Ela disse: &quot;Eu o
tenho visto várias vezes sentado à beira da cama chorando&quot;.
Então, num dia de Ações de Graças, minha mãe me telefonou
e disse: &quot;Seu pai está muito doente para ir ao jantar da família
hoje. Ele desejaria ir, mas se sente muito mal, mas ele quer
saber se você e Dave poderiam vir aqui para vê-lo. Ele quer falar
com você sobre algo&quot;.
Fomos. Quando entramos no quarto, ele começou a chorar e a
dizer: &quot;Eu apenas quero lhe dizer como lamento o que fiz com
você. Estou tentando dizer-lhe há três anos, mas simplesmente
não tinha coragem&quot;.
Essas foram suas exatas palavras. É interessante notar que
havia três anos que eu trouxera meus pais para morar próximo
de nós. Assim, nosso ato inicial de obediência ao Senhor foi uma
semente plantada para quebrar o domínio de Satanás sobre a
situação de meu pai. Então, ele chorou verdadeiramente
arrependido. Eu disse: &quot;Está tudo bem, papai, eu lhe perdôo&quot;.
Ele pediu a Dave que também lhe perdoasse, e Dave disse:
&quot;Eu lhe perdôo&quot;.
Então, lhe perguntei: &quot;Você quer receber Cristo como seu
Salvador&quot;?
Ele disse: &quot;Sim&quot;.
Porque ele verdadeiramente tinha se arrependido, foi
totalmente diferente desta vez quando ele orou. Ele recebeu o
Senhor e, embora ainda lutasse com dúvidas por vários dias
pensando que agira muito mal para ser perdoado, finalmente
pediu para ser batizado.
Nós o batizamos dez dias mais tarde, e eu lhe digo
honestamente que nunca vi tal mudança no caráter de uma
pessoa. Ele ainda está doente e se sente mal durante a maior
parte do tempo, mas nunca reclama. Ele é realmente um dos
homens mais doces que conheço.
Meu pai colheu resultados pelo que fez? Certamente! Ele já
está velho e não tem muitos amigos. Ele não pode realmente
sair muito. Mas, verdadeiramente, creio que mostrar-lhe amor,
amor consistente, e obedecer a Deus por honrá-lo em meu
coração foi o que finalmente destruiu os muros ao seu redor e o
levou ao arrependimento.
Dave disse que o dia em que meu pai se arrependeu foi um
dos maiores dias de sua vida. E ele disse isso a meu pai. Quanto
a mim, agora compreendo plenamente a promessa de Deus, dita
por intermédio do profeta Isaías: &quot;Em vez da sua [antiga]
vergonha, você terá uma dupla recompensa; em vez de desonra
e da reprovação [seu povo], irá se alegrar em sua porção.
Portanto, em sua terra eles possuirão o dobro [que perderam];
alegria eterna lhes pertencerá&quot; (Isaías 61.7).
Recebemos uma bênção dobrada! Deus restaurou tanto a
abusada quando o abusador!
Deus é fiel! Sonhe grandes sonhos e nunca desista de
esperar!

Notas
1. STRONG, James. Greek dictionary of the New Testament.
STRONCs exhaustive concordance of the Bible. Nashville:
Abingdon, 1890, p. 39, item # 2588, heart (ed) Lucas 4.18.
2. STRONG, p. 69, item # 4937, &quot;broken&quot;, Lucas 4.18.
3. MERRIAM-WEBSTER&#39;s collegiate dictionary. 10. edition,
&quot;abuse&quot;.
4. Para ouvir meu testemunho completo, escreva para nosso
ministério e peça minha série de fitas &quot;Trophies of Gods Grace&quot;
(Troféus da Graça de Deus).
5. Eu também tenho disponível uma série de fitas chamada
&quot;Loving God, Loving Yourself and Loving Others&quot; (Amando a
Deus, Amando a Si Mesmo e Amando aos Outros&quot;, que você
pode solicitar ao nosso ministério.
6. Para aprender mais sobre a libertação da culpa e
condenação, escreva e peça meus estudos em fitas, Giált and
Condemnation (Culpa e Condenação).
7. STRONG. Hebrew andchaldee dictionary, p. 19, #954,
&quot;ashamed&quot;, Gênesis 2.25 .
8. WEBSTER&#39;s new world dictionary. 3. editiond college ed.,
&quot;counfound&quot;.
9. Ibidem, &quot;damn&quot;.
10. Se você quiser aprender mais sobre a graça de Deus,
escreva para nosso ministério e peça meu estudo em fitas
&quot;Grace, grace and more grace&quot; (Graça, graça e mais graça).
11. MERRIAM-WEBSTER&#39;s collegiate dictionary. Tenth edition,
&quot;covet&quot;.
12. Ibidem, &quot;envy&quot;.
13. Ibidem, &quot;jealously&quot;
14. Ibidem, &quot;drink&quot;.
15. Eugene, OR: Harvest House, 1986, p. 13.
Bibliografia
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Publishers, 1985.
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Minneapolis, Minnesota: Betany House Publishers, 1980.
BEATTIE, Melody. Co-dependent-no more: how to stop
controlling others and starting caring for yourself. New York, New
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CARLSON, David E. Counseling and self-esteem. Texas: Word
Inc. Waco, 1988.
CARTER Les. Putting thepast behind: biblical solutions to your
unmet needs. Chicago, Illinois: Moody Press, 1989.
GALLOWAY, Dale E. Confidence without conceit. Old Tappan,
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GRANT, Dave E. Thegreat lover&#39;s manifesto. Harvest House
Publishers, Eugene, Oregon, 1986.
Sobre a Autora
J OYCE M EYER é uma autora reconhecida mundialmente. Ela
ministra e ensina a Palavra de Deus a milhões de pessoas em
todo o mundo por intermédio do Ministério Joyce Meyer.
Em seu ministério, abordou centenas de assuntos diferentes,
escreveu mais de 70 livros e conduz, aproximadamente, 20
conferências por ano. Em 2004, quase 2,5 milhões de cópias de
seus livros foram vendidas e mais de 1 milhão doadas ao redor
do mundo. Seu programa de TV é transmitido para 2/3 do globo
e seu programa de rádio é transmitido a centenas de emissoras
em vários países.
Joyce acredita que o chamado do Senhor em sua vida é o de
restabelecer os irmãos na fé e na Palavra de Deus. Como assim
se encontrou, certa vez, uma cristã com necessidade de vitória
muitos anos atrás, ela descobriu liberdade para viver em vitória
por meio da Palavra de Deus. Ela crê que todos que andam nesta
vitória conduzem muitos outros à mesma vitória.
Joyce Meyer fala abertamente como foi abusada ainda criança,
do fracasso de seu primeiro casamento e de sua luta nesses
anos. Sua vida transparente e sua entrega à Deus se mostram
em seus ensinos práticos que podem ser usados na vida diária.
É Doutora em Divindade pela Universidade Oral Roberts e PHD
na Universidade Life Christian, ambas nos EUA. Em fevereiro de
2005, foi honrada por ser incluída na lista dos 25 líderes
evangélicos mais influentes nos EUA pela revista Times.
Joyce Meyer é um testemunho incrível da obra salvadora e
dinâmica de Jesus Cristo. Ela acredita e ensina que Deus tem um
lugar para todas as pessoas e que Ele deseja ajudá-las no
percurso do desfrutar da vida diária a despeito do passado ou
dos erros que cometeram!
Para contactar a autora, escreva para:
Ministério Joyce Meyer
Caixa Postal 4048
Belo Horizonte / MG - Brasil
CEP 31250-970
Internet:
www.joycemeyer.org
www.joycemeyer.com.br
Por favor, inclua seu testemunho ou a ajuda recebida por
intermédio deste livro, quando você escrever. Seus pedidos de
oração são bem-vindos.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/feeds/5186457302163037494/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/12/curando-feridasemocionaisj.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/5186457302163037494'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/5186457302163037494'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/12/curando-feridasemocionaisj.html' title=''/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601.post-4299376157353723948</id><published>2014-08-06T21:04:00.000-03:00</published><updated>2014-08-06T21:04:33.344-03:00</updated><title type='text'>TERCEIRO TEMPLO EM ISRAEL</title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
1 - Finalmente! Israel fez uma chamada oficial para o Terceiro Templo que irá substituir al-Aqsa!
Postado Por: Gisele Emerick  Data: 13:41  /  comentario : 1

O ministro Israel de Habitação e Construção Uri Ariel na sexta-feira expressou seu desejo de ver a construção de um &quot;Terceiro Templo&quot; no lugar da mesquita Al-Aqsa, que atualmente ocupa o monte do templo. Uri Ariel disse: &quot;O primeiro templo foi destruído em 586 aC, o segundo Templo em 70 dC, e desde então o povo judeu foram lamentando sua perda.&quot;

Ele então passou a dizer &quot;Al-Aqsa está atualmente em lugar do templo, apesar de o templo ser muito mais santo do que ele. Al-Aqsa é apenas a terceira mesquita mais sagrada no Islã. &quot;&quot; Agora que Israel voltou a ser um estado soberano judeu, o desejo de reconstruir o templo é cada vez mais forte e forte &quot;, acrescentou.

Fonte: http://www.israelvideonetwork.com/finally-israel-officially-calling-for-third-temple-to-replace-al-aqsa-mosque

2- Rabino ordena que judeus parem de orar no Muro das Lamentações. Vinda do &#39;messias&#39; judeu e construção do 3º Templo está próxima
Postado Por: Marcos Paulo Goes  Data: 08:52  /  comentario : 0

Por Gisele Emerick

Rabino Yehuda Glick, de uma organização chamada &quot;Movimento para o Estabelecimento do Templo&quot;, diz que o povo judeu tornaram-se psicologicamente ligados, ao longo dos séculos, para o Muro das Lamentações do Monte do Templo, em Jerusalém, porque a reconstrução do templo parece como uma tarefa impossível. Rabino Glick diz que cerca de 25 anos atrás, os judeus começaram a subir ao Monte do Templo apesar de ter sido um grupo muito pequeno, mas agora centenas estão agora em uma base regular subindo para o Monte do Templo para oferecer suas orações.

O rabino está chamando agora para os judeus a se unir e fazer todos os esforços para continuar a este local sagrado para todos os judeus, o Monte do Templo, e tornar-se focado na reconstrução do próximo templo em Jerusalém.

Jimmy Profético prospectivo de Notícias

A chamada por um rabino em Jerusalém para subir ao Monte do Templo, em preparação para o próximo templo judaico neste local sagrado, é o próximo passo para o cumprimento da profecia bíblica.

Rabino Yehuda Glick para um número de anos dirigiu os esforços do Instituto do Templo para se preparar para a construção do próximo templo judeu no Monte do Templo em Jerusalém. O Instituto do Templo tem todos os instrumentos necessários para operar o templo incluindo o conhecimento da localização da Arca da Aliança. Todos os 28.000 sacerdotes, a serem utilizados na próxima templo, foram treinados e até mesmo suas vestes sacerdotais ou são feitos ou sendo feito agora.

No entanto, o rabino Glick agora acredita que é hora de preparar o povo judeu para se acostumar com ascendente do Monte do Templo, não só para o aprendizado e oração, mas para ser envolvido nas práticas do templo também. Por isso ele diz que não há mais orações no Muro das Lamentações, mas em vez disso, vamos subir para o Monte do Templo.

Palavra profética de Deus diz que nos últimos dias o Messias, Jesus Cristo, vai voltar a construir o templo no Monte do Templo (Zacarias 1:16, 6:12). Esse templo construído pelo Messias será seu templo reino onde Ele reina por 1000 anos. No entanto, antes do templo do Messias é construído sobre o Monte do Templo, haverá um templo da Tribulação (Daniel 9:27, Mateus 24:15, II Tessalonicenses 2:04 e Apocalipse 11:1).

Judeus ascendente sobre o Monte do Templo hoje estão realmente preparando o palco para a profecia bíblica para ser cumprida.

Via http://news.prophecytoday.com/

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II Parte
Guerra dos Judeus Contra os Romanos

Advertência

Se a História dos Judeus mostrou-nos que josefo merece ser colocado entre os melhores escritores de todos os tempos, a sua obra que trata da guerra contra os romanos, a qual compreende a primeira e a maior parte deste segundo volume, não permite duvidar de que ele superou a si mesmo.
Várias razões contribuíram para tornar este livro uma obra-prima: a magnitude do assunto, os sentimentos que produzia em seu coração a ruína de sua pátria e a parte que ele tivera nos principais acontecimentos dessa sangrenta guerra.
Que outro assunto poderia igualar-se ao deste grande assédio que mostrou a toda a terra como uma única cidade teria sido obstáculo à glória dos romanos, se Deus, por castigo de seus crimes, não a tivesse fulminado com os raios de sua cólera? Que sentimentos de dor podem ser mais vivos que os de um judeu e de um sacerdote ao ver em subverterem-se as leis do seu país, das quais nenhum outro jamais foi tão zeloso e reduzir-se a cinzas o soberbo Templo, objeto de sua devoção e de seu zelo? Que parte maior pode ter um historiador em sua obra, do que ser obrigado a mencionar as principais ações de sua vida e a trabalhar para sua própria glória, revelando, sem bajulação, a dos vencedores e ao mesmo tempo referindo-se ao que devia à generosidade desses dois admiráveis príncipes, Vespasiano e Tito, aos quais cabe a honra de ter terminado essa grande guerra?
Mas, como encontramos nesta história tantas coisas notáveis, creio que os que a lerem descobrirão com prazer, num resumo mais exato — como o de Josefo, em seu prefácio — o que ela contém para passar, em seguida, da idéia geral aos particulares que dela dependem. A obra está dividida em sete livros.
O primeiro e o segundo, até o capítulo 28, são um resumo da história dos judeus, referida no primeiro volume, já publicado, desde Antíoco Epifânio, rei da Síria, que depois de ter saqueado o Templo, quis abolir a religião, até Floro, governador da Judéia, cuja avareza e crueldade foram a primeira causa dessa guerra, que eles sustentaram contra os romanos. Esse resumo é tão agradável que Josefo aparentemente quis mostrar que podia, como excelente pintor, representar com tanta arte os mesmo objetos, em maneiras diferentes, que não sabemos à qual dar o prêmio.
No primeiro volume, essas histórias foram interrompidas pela narração de coisas acontecidas ao mesmo tempo; aqui, são escritas na seqüência e dão aos leitores a satisfação de ver num único quadro, o que havia visto em vários, separadamente. Depois do capítulo 28 do segundo livro e até o fim, Josefo narra o que se passou depois da perturbação suscitada por Floro, até a derrota do exército romano, comandado por Céstio Galo, governador da Síria.
No começo do terceiro livro, Josefo mostra o espanto que causou ao imperador Nero esse infeliz resultado de suas armas, o que poderia ter suscitado a revolta de todo o Oriente e diz que tendo lançado os olhos para todos os lados, só encontrou Vespasiano, que poderia sustentar o peso de uma guerra tão importante e lhe deu, então, a chefia e o comando. Em seguida, aborda de que modo esse grande general, acompanhado por Tito, seu filho, entrou na Galiléia, de que Josefo, autor desta história, era governador e o sitiou em jotapate, onde depois da maior resistência que se poderia imaginar, ele foi aprisionado e levado a Vespasiano, e como Tito tomou várias outras praças e realizou feitos de incrível valor.
Vemos no quarto livro: Vespasiano conquistar o restante da Galiléia; a divisão dos judeus em Jerusalém; os facciosos, que tomavam o nome de zelotes, tornarem-se senhores do Templo, sob o comando de João de Giscala; Anano, sumo sacerdote, levar o povo a sitiá-los; os idumeus virem em seu auxílio, praticarem crueldades incríveis e depois se retirarem; Vespasiano tomar diversas praças da Judéia, bloquear Jerusalém com a resolução de sitiá-la e desistir desse intento por causa da morte dos imperadores Nero, Galba e Oton; Simão, filho de Joras, outro chefe dos facciosos, ser recebido pelo povo em Jerusalém; Vitélio, que se havia apoderado do império, depois da morte de Oton, tornar-se odioso e desprezível por sua crueldade e por sua devassidão; o exército comandado por Vespasiano declará-lo imperador; e, por fim, Vitélio ser assassinado em Roma, depois da derrota de suas tropas, por Antônio Primo, que tinha abraçado o partido de Vespasiano.
O quinto livro aborda a formação em Jerusalém de uma terceira facção, da qual Eleazar foi o chefe, e depois, como essas três facções se reduziram a duas, como era antes, e de que modo elas se faziam guerra; aí vemos também a descrição de Jerusalém, das torres de Hípicos, de Fazael e de Mariana, da fortaleza Antônia, do Templo, do sumo sacerdote e de várias outras coisas notáveis: o cerco dessa grande cidade, executado por Tito; as incríveis amarguras e os atos de valor extraordinários que se praticaram de ambos os lados; a extrema carestia que afligiu a cidade e as espantosas crueldades dos facciosos.
O sexto livro apresenta a horrível miséria a que Jerusalém se viu reduzida: a continuação do assédio com o mesmo ardor que antes; e de que maneira, depois de um grande número de combates, Tito, tendo forçado o primeiro e o segundo muros da cidade, tomou e destruiu a fortaleza Antônia e atacou o Templo, que foi incendiado, não obstante o que esse príncipe tentou fazer para impedi-lo e como, finalmente, se apoderou de todo o restante.
No sétimo e último destes livros vemos como Tito destruiu Jerusalém, exceto as torres de Hípicos, de Fazael e de Mariana; a maneira como louvou e recompensou seu exército; os espetáculos que deu ao povo da Síria, as horríveis perseguições feitas aos judeus em várias cidades; a incrível alegria com a qual o imperador Vespasiano e Tito, que tinha sido declarado César, foram recebidos em Roma e seu soberbo triunfo; a tomada dos castelos de Herodiom, de Macherom e de Massada, que eram os únicos lugares que os judeus ainda ocupavam na Judéia, e como os que defendiam esta última mataram-se todos com suas mulheres e filhos.
Eis, em geral, o que contém a História da Guerra dos judeus contra os Romanos: não há ornamentos com que esse grande personagem não a tenha enriquecido. Ele não perdeu nenhuma ocasião de embelezá-la, com descrições admiráveis de províncias, de lagos, de rios, de fontes, de montanhas, de diversas raridades e de edifícios, cuja magnificência passaria por uma fábula, se o que ele diz pudesse ser posto em dúvida. Mas vemos que ninguém houve que ousasse contradizê-lo, embora a excelência de sua história tivesse suscitado contra ele tanta inveja.
Podemos dizer com verdade que, quer ele fale da disciplina dos Romanos na guerra, quer descreva os combates, as tempestades, os naufrágios, a carestia ou o triunfo, tudo aí é de tal modo perfeito, que ele se torna senhor da atenção de todos os que o lêem. Eu não tenho receio de acrescentar, que nenhum outro, sem excetuarmos Tácito, lhe foi superior nos discursos, tão nobres eles são, fortes, persuasivos, sempre presos ao assunto e proporcionados às pessoas que falam e às quais se fala.
Podemos louvar também o juízo e a boa fé desse verdadeiro historiador, pelo equilíbrio que ele conserva entre os louvores que os romanos merecem por terem terminado tão grande guerra e os que são devidos aos judeus, por tê-la sustentado, embora vencidos, com indômita coragem, sem que seu reconhecimento pelos favores que devia a Vespasiano e a Tito, nem seu amor pela pátria, o tenham feito pender contra a justiça mais do lado de uns do que de outros.
Mas, o que eu encontro nele de mais estimável é que ele não deixa, em todos os fatos, de louvar a virtude, de estigmatizar o vício e de fazer reflexões excelentes sobre o adorável proceder de Deus e sobre o temor que devemos ter de seus juízos rigorosos.
Podemos afirmar com sinceridade que jamais se viu um exemplo maior que o da ruína dessa ingrata nação, dessa soberana cidade e desse augusto Templo, pois que ainda que os romanos fossem os senhores do mundo e esse cerco tenha sido obra de um dos maiores príncipes de que eles possam vangloriar-se em ter tido por imperador, o poder desse povo vitorioso sobre todos os outros e o heróico valor de Tito lhe teriam, em vão, formado o desígnio, se Deus não os tivesse escolhido para executores da justiça.
O sangue de seu filho derramado pelo mais horrível de todos os crimes foi a única causa verdadeira da ruína dessa infeliz cidade. Foi a mão de Deus que pesou sobre o infeliz povo; que, apesar da terrível guerra que o acossava de fora, era ainda internamente muito mais espantosa, pela crueldade daqueles judeus desnaturados, mais semelhantes a demônios do que a homens. Eles fizeram perecer pelas armas e pela horrível carestia de que eles eram os autores um milhão e cem mil pessoas, e reduziram o restante a não poder esperar a salvação a não ser dos próprios inimigos, lançando-se nos braços dos romanos.
Efeitos tão prodigiosos da vingança pela morte de Jesus poderiam passar por incríveis aos que não têm a felicidade de ser iluminados pela luz do evangelho, se não fossem referidos por um homem, dessa mesma nação, tão ilustre como Josefo, pelo seu nascimento, pela sua condição de sacerdote e pela sua virtude. Claro, parece-me, que Deus querendo se servir do seu testamento para autorizar verdades tão importantes, conservou-o por um milagre, quando, depois da tomada de jotapate, dos quarenta que se haviam retirado com ele numa caverna, foi lançada a sorte, tantas vezes, para se saber quais seriam os que deveriam ser mortos primeiros. Ele e um outro, somente, ficaram com vida.
Isso mostra que devemos dar a esse historiador uma posição bem diferente do que a todos os demais, pois, enquanto eles abordam acontecimentos humanos, embora dependentes das ordens da divina providência, parece que Deus lançou seus olhos sobre ele para fazê-lo servir ao maior dos seus desígnios.
Não devemos considerar somente a ruína dos judeus como o mais espantoso efeito da justiça de Deus e a imagem mais terrível da vingança que ele exercerá no último dia, contra os réprobos. Devemos também considerá-la como uma das provas mais brilhantes que lhe aprouve dar aos homens acerca da divindade de seu filho, pois tão prodigioso acontecimento tinha sido predito por JESUS CRISTO, em termos precisos e claros. Ele tinha dito aos seus discípulos, mostran-do-lhes o Templo de Jerusalém, que todos aqueles grandes edifícios seriam de tal modo destruídos que não ficaria pedra sobre pedra. Ele lhes havia dito que quando vissem as armas rodear Jerusalém deviam saber que sua desolação estaria próxima (Mc 1 3.2; Lc 19.44; 21.20; 21.23,24).
Ele tinha notado em particular as espantosas circunstâncias dessa desolação: &quot;Ai&quot;, disse Ele, &quot;das mulheres que estiverem grávidas ou tiverem crianças de peito, naqueles dias, pois esse país será oprimido por males e a cólera do céu cairá sobre esse povo. Eles passarão pelo fio da espada; serão levados escravos para todas as nações e Jerusalém será calcada aos pés pelos gentios&quot;.
Por fim, Ele tinha declarado que o efeito dessas profecias estava prestes a acontecer; que o tempo se aproxima (Mt 23.33) e mesmo que aqueles que eram do seu tempo poderiam vê-lo. &quot;Eu vos digo, em verdade&quot;, disse ele, &quot;que tudo isso virá acontecer sobre essa raça que existe hoje&quot; (Mt 23.36).
Todas estas coisas tinham sido preditas por JESUS CRISTO e escritas pelos evangelistas, antes da revolta dos judeus, e quando não havia ainda nenhuma probabilidade de tão estranha mudança.
Assim como a profecia é o maior milagre e a maneira mais poderosa com que Deus autoriza a sua doutrina, essa profecia de JESUS CRISTO, à qual nenhuma outra é comparável, pode ser o encerramento e término das provas que deram a conhecer aos homens a sua missão e origem divina, pois nenhuma outra jamais foi tão pontualmente realizada. Jerusalém foi destruída por completo pelo primeiro exército que a sitiou e não ficou o menor vestígio daquele soberbo Templo, admiração do universo e objeto de orgulho dos judeus, e os males que os oprimiram correspondem claramente a essa terrível predição de JESUS CRISTO.
Mas, para que tão grande acontecimento pudesse servir também de aviso aos que deviam ainda nascer no correr dos tempos, como aos que dele foram espectadores, era além disso necessário, como eu já disse, que a história fosse escrita por uma testemunha fidedigna. Para isso, era necessário que fosse um judeu e não um cristão, para que dele não se pudesse suspeitar, de ter anexado os fatos às profecias. Era ainda necessário que fosse uma pessoa de alto nível social, a fim de que estivesse a par de tudo. Era necessário que tivesse visto com os próprios olhos tantas coisas prodigiosas que deveria relatar, a fim de que se lhe pudesse dar fé. Por fim, era preciso que fosse um homem capaz de corresponder, pela grandeza de sua eloqüência e de sua inteligência, à magnitude de tal assunto.
Todas essas qualidades exigidas para tornar esta história perfeita, em todos os seus particulares, encontram-se em Josefo, o que torna evidente que Deus o escolheu para convencer a todos os entes racionais da verdade desse maravilhoso acontecimento.
E certo que não parece que tendo contribuído dessa maneira à divulgação do evangelho, ele tenha aproveitado, nem tenha tomado parte nas graças que se difundiram no seu tempo, com tanta abundância, sobre toda a terra. Mas se nisso temos motivo de lastimar a sua infelicidade, temos também motivo de abençoar a providência de Deus, que fez servir sua cegueira ao nosso bem, pois as coisas que ele escreveu de sua pátria, com relação aos incrédulos são incomparavelmente mais fortes para a consolidação da fé cristã do que se ele tivesse abraçado o cristianismo. Assim, podemos dizer dele, em particular, o que o apóstolo diz de todos os judeus: &quot;Que sua infelicidade enriqueceu o mundo com os tesouros da fé e que sua pouca luz serviu para iluminar todos os povos: Delictum corum divitae sunt mundi et diminutio eorum divitae gentium&quot; (Rm 11.12).
A segunda obra de Josefo, contida neste segundo volume, além de sua vida, escrita por ele mesmo, é uma resposta dividida em dois livros, ao que Ápio e outros tinham escrito contra sua história dos judeus, contra a antigüidade de sua descendência, contra a pureza de suas leis e contra o proceder de Moisés. Nada pode ser mais forte do que esta resposta. Josefo prova irrefutavelmente a antigüidade de sua nação, pelos historiadores egípcios, fenícios, caldeus e mesmo pelos gregos. Ele mostra que tudo o que Ápio e esses outros autores alegaram em desabono dos judeus são fábulas ridículas, tal como a pluralidade de seus deuses, e revela de maneira admirável a grandeza dos feitos de Moisés e a santidade das leis que Deus entregou aos judeus por seu intermédio.
O martírio dos macabeus vem em seguida. É um trabalho que Erasmo, tão célebre entre os sábios, chama de obra-prima de eloqüência: confesso que, não compreendo como, tendo dela com razão uma opinião tão vantajosa, ele a parafraseou e não a introduziu. Jamais cópia saiu mais diferente do original. Apenas sp reconhecem alauns dos seus traços principais e se eu não me engano, nada pode elevar mais a fama de Josefo, do que sendo ele tão hábil, tendo querido embelezar sua obra, ao contrário, tanto lhe diminuiu a beleza. Mostra também como devemos apreciar Josefo porque não escreve como quase todos os gregos, de maneira muito extensa, mas com um estilo conciso, afirma que só quer dizer o necessário.
Muito me admiro de que não se fez até agora nenhuma tradução desse martírio, a partir do grego, quer para o latim, quer para o francês, pelo menos que tenha chegado ao meu conhecimento. Genebrard, em vez de traduzir Josefo, traduziu Erasmo. Eu me limitei fielmente ao original grego, sem seguir em absolutamente, esta paráfrase de Erasmo, o qual inventa nomes que não estão, nem em Josefo, nem na Bíblia, para dá-los à mãe dos macabeus e a seus filhos. Parece que Josefo só relata esse célebre martírio, autorizado pela Escritura Sagrada, para provar a verdade das palavras que escreveu no princípio, cujo fim é mostrar que a razão é a senhora das paixões; ele lhe atribui um poder sobre elas, de que haveria motivo de se admirar, se fosse estranho que um judeu ignorasse que esse poder só pertence à graça de JESUS CRISTO. Ele contenta-se em dizer que só entende falar da razão acompanhada de justiça e de piedade.
Assim, todas as obras de Josefo estão compreendidas nestes dois volumes, que eu determinei traduzir. Fílon, embora judeu como ele, também escreveu em grego sobre uma parte do mesmo argumento, mas que ele trata como filósofo e não como historiador; entre seus escritos, que são tão apreciados, nenhum o é mais, do que aquele que descreve sua embaixada ao imperador Caio Calígula, de que Josefo fala com elogio no capítulo 10 do livro 18 de sua história dos judeus.
Julguei que esse trabalho, tendo tanta relação com ele, nos daria muito prazer, vermos pela tradução que eu fiz, a maneira diferente de escrever desses dois grandes personagens. A de Josefo é sem dúvida muito mais breve e não tem nada do estilo asiático, que muitas vezes me obrigou a dizer em poucas palavras o que Fílon diz em muitas linhas. Poderíamos escrever a história deste imperador, unindo o que estes dois célebres autores escreveram, pois Fílon aborda tão particular e eloqüentemente os feitos de sua vida, como Josefo nobre e excelentemente escreveu sobre o que se passou em sua morte. Uma e outra foram tão extraordinárias que convém se conservem tais imagens, para a posteridade, a fim de animar cada vez mais os bons príncipes a merecer, por sua virtude, tanto amor por sua memória, quanto de horror se sente por aqueles que se mostraram indignos da posição que ocupam no mundo.
Uma exposição muito longa obriga a grande atenção, porque não se sabe onde descansar; por isso dividi em capítulos este tratado de Fílon, os dois livros de Josefo contra Ápio e o martírio dos macabeus, onde não havia nenhum. Quanto à história da guerra dos judeus contra os romanos, eu não segui nos livros e nos capítulos a divisão de Rufino, que encontramos nas publicações bilíngües, gregas e latinas, porque me pareceu ruim. Mas limitei-me, como fez Genebrard, à das publicações gregas, que são sem dúvida muito melhores.
Nada mais me resta a acrescentar; como estes dois volumes compreendem toda a antiga história sagrada, desejo que não sejam lidos apenas por divertimento e por curiosidade, mas que se procure aproveitar, pelas considerações úteis de que fornecem tanta matéria. Foi esse o motivo que me levou a empreender esta tradução; do contrário, ela ter-me-ia, aos oitenta anos, feito empregar em vão muito tempo e dar-me muito trabalho numa idade na qual só devemos pensar em nos preparar para a morte.
O tradutor
 </content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/feeds/4868305133836274601/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/livro-historia-dos-hebreus-guerra-dos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/4868305133836274601'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/4868305133836274601'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/livro-historia-dos-hebreus-guerra-dos.html' title='LIVRO HISTÓRIA DOS HEBREUS - GUERRA DOS JUDEUS CONTRA OS ROMANOS'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601.post-1119776651309108112</id><published>2014-07-29T20:47:00.002-03:00</published><updated>2014-07-29T21:17:11.192-03:00</updated><title type='text'>LIVRO HISTÓRIA DOS HEBREUS - 2ª PARTE</title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;

Livro Nono

CAPITULO 1
O PROFETA JEÚ REPREENDE JOSAFÁ, REI DEJUDÁ, POR TER UNIDO ARMAS
COM O REI ACABE, DE ISRAEL. ELE RECONHECE A SUA FALTA, E DEUS O
PERDOA. SEU ADMIRÁVEL PROCEDER. VITÓRIA MIRACULOSA QUE ELE OBTÉM
SOBRE OS MOABITAS, OS AMONITAS E OS ÁRABES. IMPIEDADE E MORTE DE
ACAZIAS, REI DE ISRAEL, COMO O PROFETA ELIAS HAVIA PREDITO, FORÃO, SEU
IRMÃO, SUCEDE-O. ELIAS DESAPARECE. JORÃO, AUXILIADO POR JOSAFÁ E
PELO REI DA IDUMÉIA, OBTÉM UMA GRANDE VITÓRIA SOBRE MESA, REI DOS
MOABITAS. MORTE DE JOSAFÁ, REI DE JUDÁ.

370. 2 Crônicas 19. Quando Josafá, rei de Judá, após ter unido as suas tropas com as de Acabe, rei de Israel, contra Hadade, rei da Síria, como vimos, voltou de Samaria a Jerusalém, o profeta )eú veio à sua presença e repreendeu-o por ter ajudado um rei tão ímpio. Disse-lhe que Deus estava muito irritado e que lhe conservara a vida, tirando-o das mãos dos inimigos, por causa de sua virtude. O religioso príncipe, comovido com grande arrependimento pela sua falta, recorreu a Deus e aplacou-lhe a cólera com orações e sacrifícios.
Percorreu então todo o reino, para instruir o povo nos mandamentos de Deus e para exortá-lo a adorar e a servir a Deus de todo o coração. Colocou magistrados em todas as cidades e recomendou-lhes muito expressamente que fizessem justiça a todos, sem se deixar corromper, quer pela nobreza, quer pelas riquezas, quer pelo talento de qualquer pessoa, pois deviam lembrar que Deus, que conhece todas as coisas, mesmo as mais ocultas, vê todas as ações dos homens.
Depois de regressar a Jerusalém, constituiu também juizes, escolhidos por ele dentre os principais sacerdotes e levitas, e recomendou-lhes, como aos demais, que administrassem com perfeita justiça. Ordenou que, quando houvesse em outras cidades assuntos importantes e difíceis, que merecessem ser examinados com mais cuidado e precisão que os comuns, eles os deveriam levar a Jerusalém perante os magistrados, porque se deveria crer que a justiça não seria em nenhum outro lugar tão bem distribuída quanto na capital do reino, onde estavam o Templo de Deus e o palácio onde os reis habitavam. Nos cargos principais, colocou Amarias, sacerdote, e Zebadias, que era da tribo de Judá.
371.  2 Crônicas 20. Nesse entretempo, os moabitas e os amonitas, unidos aos árabes, a quem haviam chamado em seu socorro, entraram com um grande exército nas terras de Josafá e acamparam a trezentos estádios de Jerusalém, perto do lago Asfaltite, no território de En-Gedi, muito fértil em bálsamos e em palmeiras. Josafá, surpreendido que tivessem adentrado tanto o seu reino, mandou reunir no Templo todo o povo de Jerusalém para rogar a Deus que o ajudasse contra tão poderosos inimigos e os castigasse pelo seu atrevimento. Disse-lhe com humildade que tinha o direito de esperar auxílio, porque Ele mesmo dera ao seu povo a posse do país do qual aquelas nações os queriam expulsar, e, quando os seus antepassados construíram e consagraram o Templo em honra a Ele, eles puseram toda a sua confiança no auxílio dEle, sem duvidar que Ele lhes seria sempre favorável. O príncipe fez acompanhar essa oração com lágrimas, e o povo em geral, tanto os homens quanto as mulheres, fez o mesmo.
Então, o profeta Jaaziel adiantou-se e disse em alta voz, dirigindo-se ao rei e àquela grande multidão, que os seus votos haviam sido ouvidos. Deus combateria por eles e lhes daria a vitória. Deveriam partir no dia seguinte para enfrentar o inimigo, até uma colina denominada Ziz (isto é, &quot;eminência&quot;, em hebreu), que está entre Jerusalém e En-Gedi, pois ali os encontrariam. Não teriam necessidade de se servir das armas, porque seriam apenas espectadores do combate que Deus travaria, Ele mesmo, em favor deles. Ante as palavras do profeta, o rei e todo o povo prostraram-se com o rosto em terra, deram graças a Deus e o adoraram. Os levitas, com acompanhamento de música, cantaram hinos em seu louvor.
372.  No dia seguinte, ao raiar do dia, o rei Josafá se pôs em campo e, quando chegou ao deserto que está abaixo da cidade de Tecoa, disse às tropas que não havia necessidade de combater, como num dia de luta, pois toda a sua forca consistia em sua perfeita confiança no auxílio que Deus prometera por meio de seu profeta. Seria suficiente fazer marchar os sacerdotes com as suas trombetas e os levitas com os seus cantores, para dar graças a Deus pela vitória alcançada e pelo triunfo já obtido sobre os inimigos. Essa ordem tão santa, de tão piedoso rei, foi recebida com respeito por todo o exército e rigorosamente executada.
Deus infundiu então tal cegueira no Espírito dos amonitas e dos povos que a eles se haviam juntado que eles próprios se tomaram por inimigos e, transportados de furor, mataram-se uns aos outros, com tanta animosidade e raiva que não restou um só com vida de todo aquele imenso número, e o vale onde isso ocorreu ficou juncado de cadáveres, josafá, transbordando de alegria, deu graças a Deus por aquela vitória tão milagrosa, pois quem obteve a glória de conquistá-la não havia tomado parte nela nem corrido perigo algum. Ele permitiu depois que os soldados saqueassem o campo dos inimigos e despojassem os mortos. Levaram três dias inteiros para isso, tão grande era o número de mortos e tantas as riquezas. No quarto dia, o povo reuniu-se num vale para cantar louvores a Deus e as maravilhas de seu poder, por isso deu-se àquele lugar o nome de Vale dos Louvores, que conserva ainda hoje.
Esse piedoso e glorioso príncipe, após regressar com o seu exército para Jerusalém, passou vários dias fazendo sacrifícios e festas públicas, em regozijo e ação de graças pelo favor que ele e todo o seu povo haviam recebido de Deus, tendo Ele mesmo combatido no lugar deles e destruído os inimigos com o efeito prodigioso de seu soberano poder. A fama dessa vitória sobrenatural espalhou-se entre as demais nações, e não puderam elas duvidar de que esse grande soberano fosse particularmente querido de Deus. Conceberam um tão alto conceito de sua justiça e honestidade que a conservaram durante todo o resto de seu reinado.
373.  Como ele era amigo de Acazias, rei de Israel, filho de Acabe, equiparam juntos uma grande frota para navegar ao Ponto e à Trácia, mas esses navios naufragaram, porque não eram grandes o suficiente para ser dirigidos, e assim eles abandonaram o projeto.
374.  2 Reis 1. Vamos agora falar de Acazias. Ele sempre morou em Samaria e foi tão mau quanto o seu pai e o seu avô. Foi grande imitador da impiedade de jeroboão, que por primeiro levou o povo a se afastar da adoração ao verdadeiro Deus. No segundo ano do reinado desse rei jovem e mau, os moabitas recusaram-se a pagar-lhe o tributo que deviam a Acabe, seu pai.
Um dia, ao descer uma galeria do palácio, ele caiu e, tendo-se ferido muito, mandou consultar o oráculo de Myiode, deus de Ecrom, para saber se ele ficaria curado daquele ferimento. Deus ordenou ao profeta Elias que fosse à presença dos enviados do rei perguntar-lhes se o povo de Israel não tinha Deus, pois o rei os estava mandando consultar um deus estrangeiro. Depois que Elias desempenhou a sua incumbência, ordenou-lhes que fossem dizer ao seu senhor que ele morreria daquele ferimento, e eles voltaram ao seu país. Acazias, assustado por vê-los voltar tão depressa, perguntou-lhes o motivo, e eles responderam que haviam encontrado um homem, o qual os impedira de ir além e ordenara que lhe dissessem, da parte de Deus, que aquela doença iria agravar-se gradualmente.
O rei perguntou como era o homem, e eles relataram que era todo coberto de pêlos e trazia as vestes presas por um cinto de couro. Acazias percebeu então que se tratava de Elias, e enviou um oficial com cinqüenta soldados para prendê-lo. O oficial achou-o sentado no alto de um monte e ordenou-lhe que o seguisse, para ir falar com o rei. E, se ele não o fizesse espontaneamente, levá-lo-ia à força. Elias respondeu que lhe mostraria com fatos que era um verdadeiro profeta. Dizendo essas palavras, rogou a Deus que fizesse descer fogo do céu para castigar aquele oficial e todos os seus soldados. Imediatamente apareceu no céu um turbilhão de chamas, que os reduziu a cinzas.
A notícia foi levada ao rei, e ele enviou outro oficial, com igual número de soldados, que ameaçou do mesmo modo levar à força o profeta, se ele não quisesse ir de boa vontade. Elias renovou a sua oração, e fogo do céu devorou também aquele oficial e todos os seus soldados, tal como sucedera aos anteriores.
O rei enviou então um terceiro oficial e mais cinqüenta soldados. Como esse era mais sensato, ele aproximou-se do profeta, saudou-o cortesmente e disse-lhe: &quot;Não ignorais sem dúvida que é contra o meu desejo e somente para obedecer à ordem do rei que vos venho falar, como os precedentes. Por isso rogo-vos que tenhais compaixão de nós e venhais voluntariamente falar com o rei&quot;. Elias, comovido pelas maneiras respeitosas do oficial, seguiu-o. Quando chegou junto do rei, Deus inspirou-lhe o que devia dizer, e ele assim falou ao soberano: &quot;O Senhor diz: Como não me quisestes reconhecer por vosso Deus e não me julgastes capaz de predizer o que vos aconteceria de mal, mas mandastes consultar o deus de Ecrom, declaro-vos que morrereis&quot;.
375. Pouco tempo depois, essa profecia realizou-se. Como Acazias não tinha filho, Jorão, seu irmão, sucedeu-o no trono. Imitou igualmente o seu pai em impiedade e abandonou, como ele, o Deus de seus antepassados, para adorar os deuses estrangeiros. Fora isso, ele era muito hábil. Foi sob o seu reinado que Elias desapareceu, sem que jamais se tenha podido saber o que aconteceu a ele. Ele deixou, como já disse, Eliseu, seu discípulo. E bem podemos ver nas Sagradas Escrituras que Elias e Enoque, o qual viveu antes do dilúvio, desapareceram do meio dos homens, mas nunca se soube que tenham morrido.
376. 2 Reis 3. Jorão, depois de ocupar o trono de Israel, resolveu fazer guerra a Mesa, rei dos moabitas, porque este se recusava a pagar-lhe o tributo de duzentos mil carneiros com sua lã, que pagava ao rei Acabe, seu pai. Mandou então pedir ao rei josafá que o ajudasse, tal como fizera a Acabe, seu pai. josafá respondeu que não somente o ajudaria, mas levaria com ele o rei da Iduméia, que era seu dependente. Jorão ficou muito grato por essa resposta e foi a Jerusalém agradecer-lhe. Josafá recebeu com grande magnificência esse príncipe e o rei da Iduméia, e eles resolveram entrar no país inimigo pelos desertos da Iduméia, que era o lado pelo qual os moabitas menos esperavam ser atacados.
Os três reis partiram juntos em seguida e, depois de haver marchado durante sete dias e de ter perdido o rumo, por falta de bons guias, encontraram-se em tão grande penúria e com tanta sede que os cavalos morriam por falta de água. Como Jorão era de natureza impaciente, ele perguntava a Deus, murmurando contra Ele, que mal haviam feito para entregar assim três reis nas mãos dos inimigos, sem combate. Josafá, que, ao contrário, era um príncipe muito religioso, consolava-o, e indagou se não havia no exército algum profeta de Deus a quem pudessem consultar a respeito do que fazer em tal contingência. Um dos servidores de Jorão declarou ter visto Eliseu, filho de Safate, que era discípulo de Elias. Logo os três reis, por conselho de Josafá, foram procurá-lo em sua cabana, que ficava fora do acampamento, e pediram-lhe, particularmente jorão, que lhes revelasse o resultado daquela guerra.
Ele respondeu ao príncipe que o deixasse descansar e fosse consultar os profetas de seu pai e de sua mãe, que também eram verdadeiros. Jorão insistiu e rogou-lhe que falasse, pois estava em jogo a vida de todos. Eliseu tomou então a Deus por testemunha e afirmou com juramento que só lhe responderia em consideração a Josafá, que era um príncipe justo e temente a Deus. Disse em seguida que fizessem vir um músico com instrumentos. Quando ele começou a tocar, o profeta, cheio do Espírito de Deus, disse aos três reis que mandassem fazer uns regos na torrente, e eles veriam que, embora o ar permanecesse imóvel, sem vento algum, e sem que caísse do céu uma gota de água, os regos ficariam cheios e forneceriam a eles e a todo o exército água para matar a sede. Disse mais o profeta: &quot;E esse não será o único favor que recebereis de Deus, pois com o auxílio dEle vencereis os vossos inimigos, tomareis as mais belas e as mais fortes de suas cidades e devastareis o seu país: cortareis as suas árvores, fareis secar as suas fontes e desviareis o curso de seus regatos&quot;.
Assim falou-lhes o profeta, e no dia seguinte, antes do nascer do sol, viu-se a torrente completamente cheia de água, proveniente da Iduméia, distante três dias de caminho, onde Deus fizera cair chuva, e todo aquele grande exército teve água em abundância para beber. O rei dos moabitas, ao saber que os três reis marchavam contra ele pelo deserto, reuniu todas as suas forças para enfrentá-los nas fronteiras de seu território, a fim de barrar-lhes a entrada. Mas quando ele chegou perto da torrente, o revérbero dos raios de sol na água fizeram-nas parecer vermelhas, e todos as tomaram por sangue, imaginando que o desespero causado pela sede fizera os inimigos matarem-se reciprocamente. Com essa falsa convicção, os moabitas pediram permissão ao seu rei para saquear o acampamento e, tendo-a obtido, partiram precipitada e desordenadamente, como quem tem certeza de encontrar presa fácil. Mas logo se viram rodeados de todos os lados pelos inimigos, que mataram parte deles e puseram o resto em fuga.
Os três reis entraram no país, tomaram o que quiseram, destruíram várias cidades, espalharam o cascalho da torrente sobre as terras mais férteis, cortaram as melhores árvores e entupiram as fontes. Destruíram tudo e sitiaram o próprio rei, que procurava pôr-se a salvo. (Vendo-se em perigo, o soberano tudo fizera para escapar. Saiu da cidade com setecentos homens escolhidos e tentou atravessar o campo inimigo do lado que ele julgava menos defendido. Mas isso não lhe foi possível, e ele teve de voltar.) O desespero então levou-o a fazer o que não se pode descrever sem horror. Ele tomou o príncipe, seu filho mais velho e sucessor, e sacrificou-o sobre as muralhas da cidade, à vista dos sitiantes. Tão terrível espetáculo comoveu os três reis, enchendo-os de tanta compaixão que, levados por um sentimento de humanidade, levantaram o cerco, e cada qual voltou para o seu país.
josafá viveu muito pouco depois disso. Morreu em Jerusalém, na idade de sessenta anos, dos quais reinara apenas vinte e cinco. Enterraram-no com a magnificência que merecia tão notável soberano e tão grande imitador das virtudes de Davi.

CAPÍTULO 2
JEORÃO, FILHO DEJOSAFÁ, SUCEDE-O. ÓLEO MULTIPLICADO MILAGROSAMENTE
POR ELISEU EM FAVOR DA VIÚVA DE OBADIAS. HADADE, REI DA SÍRIA,
MANDA TROPAS PARA PRENDÊ-LO, MAS DEUS OS FERE COM CEGUEIRA, E
ELISEU OS CONDUZ A SAMARIA. HADADE SITIA FORÃO, REI DE ISRAEL.
ASSÉDIO LEVANTADO MILAGROSAMENTE, SEGUNDO APREDIÇÃO DE ELISEU.
HADADE É ESTRANGULADO POR HAZAEL, QUE USURPA O REINO DA SÍRIA E
DE DAMASCO. HORRÍVEL IMPIEDADE E IDOLATRIA DE JEORÃO, REI DE JUDÁ.
ESTRANHO CASTIGO COM QUE DEUS O AMEAÇA.

377.  2 Crônicas 21. josafá, rei de ]udá, deixou vários filhos, jeorão, que era o mais velho, sucedeu-o no trono, como ele havia ordenado. A mulher de Jeorão, como vimos, era irmã de Jorão, rei de Israel, filho de Acabe, que, ao regressar da guerra contra os moabitas, levara Eliseu com ele para Samaria. Os feitos desse profeta são tão memoráveis que julguei dever relatá-los aqui, segundo o que está escrito nos Livros Santos.
378.  2 Reis 4. A viúva de Obadias, mordomo do rei Acabe, veio dizer ao profeta que, não tendo meios de restituir o dinheiro que seu marido havia emprestado para alimentar os cem profetas que, como Eliseu devia saber, ele salvara da perseguição de jezabel, os credores queriam tomá-la como escrava e também aos seus filhos. E, por causa dessa dificuldade em que se encontrava, recorria a ele, para rogar que tivesse piedade dela.
Eliseu perguntou-lhe se ela possuía alguma coisa. A mulher respondeu que só lhe restava um pouco de óleo. O profeta então mandou-lhe que tomasse emprestado dos vizinhos algumas vasilhas vazias, fechasse a porta do quarto e enchesse os vasos com óleo, com a firme confiança de que Deus os encheria a todos. Ela fez o que ele ordenou, e a promessa do profeta realizou-se. Ela foi logo contar-lhe o resultado. Ele disse-lhe então que vendesse o óleo: uma parte do dinheiro serviria para pagar as dívidas, e o resto deveria ser guardado para sustentar os filhos. Assim, ele satisfez a pobre mulher e livrou-a da perseguição dos credores.
379.  2 Reis 6. Eis um outro grande feito do profeta: Hadade, rei da Síria, pôs homens de emboscada para matar Jorão, rei de Israel, quando este fosse à caça, mas Eliseu foi avisá-lo e impediu assim que ele fosse morto. Hadade ficou encolerizado por ver frustrada a sua esperança, tanto que ameaçou matar todos os que havia encarregado daquela missão, pois, tendo falado somente a eles, alguém devia tê-lo traído e avisado o inimigo. Um deles então protestou, dizendo que eram todos inocentes daquele crime e que o rei deveria entender-se com Eliseu, a quem nenhum de seus intentos era segredo, os quais o profeta referia a Jorão. Hadade aceitou essas razões e ordenou que procurassem saber em que cidade estava o profeta.
Hadade soube que ele estava em Dota e para lá enviou um grande número de soldados, a fim de prendê-lo. Penetraram na cidade à noite, para que ele não pudesse escapar, porém o criado de Eliseu o soube e bem cedo, todo trêmulo, correu a contar ao profeta. Este, que confiava no socorro do alto, disse-lhe que nada temesse e rogou a Deus que o tranqüilizasse, fazendo-lhe conhecer a grandeza de seu poder infinito. Deus o ouviu e permitiu que o servo contemplasse uma grande multidão de cavaleiros e carros armados, prontos para defender o profeta. Eliseu rogou a Deus também que cegasse de tal modo os sírios que eles nada pudessem ver. Deus consentiu, e o profeta meteu-se no meio deles, perguntando a quem procuravam. Responderam que procuravam Eliseu, o profeta. Ele disse-lhes: &quot;Se quiserdes seguir-me, levar-vos-ei até a cidade onde ele está&quot;. E, como Deus não somente lhes tirara a vista, mas obscurecera-lhes também o Espírito, eles o seguiram.
Eliseu levou-os a Samaria. O rei Jorão, por seu conselho, rodeou-os com todas as suas tropas e fechou as portas da cidade. Então o profeta rogou a Deus que lhes tirasse a cegueira, e assim se fez. Não se pode descrever a surpresa e o terror daqueles homens ao se acharem no meio dos inimigos. Jorão perguntou ao homem de Deus se queria que os matasse, a flechadas, e ele respondeu que o proibia terminantemente, porque não era justo matar prisioneiros que não haviam sido vencidos na guerra e que nenhum mal tinham feito ao país, mas que Deus os entregara nas mãos do rei por um milagre. Ele devia, ao contrário, tratá-los bem e enviá-los de volta ao seu rei. Jorão seguiu o conselho, e Hadade concebeu tal admiração pelo homem de Deus e pelas graças com que Ele favorecia o seu profeta que enquanto Eliseu viveu não usou mais de ardil algum contra o rei de Israel, determinando combatê-lo somente em luta aberta.
Dessa forma, entrou em Israel com um grande exército. Jorão, não se julgando capaz de lhe resistir, encerrou-se em Samaria, confiando em suas fortificações. Hadade, julgando que não podia tomar a cidade à força, resolveu cortar-lhe os víveres e assim começou o cerco. A falta de todas as coisas necessárias à vida foi logo tão grande que a cabeça de um asno era vendida por oitenta peças de prata, e um sextário de estrume de pomba, de que se serviam em lugar de sal, custava cinco. Tal miséria fez Jorão temer que alguém, levado pelo desespero, fizesse os inimigos entrar na cidade e por isso inspecionava pessoalmente todos os guardas.
Numa dessas rondas, uma mulher veio lançar-se aos seus pés, rogando-lhe que tivesse piedade dela. Ele julgou que ela desejava alguma coisa para comer e rudemente respondeu que ele não tinha nem eira nem lagar de onde lhe pudesse tirar alimento. A mulher retrucou que não era isso o que estava pedindo, mas apenas que fosse juiz de uma questão entre ela e uma de suas vizinhas. O rei, então, pediu-lhe que expusesse a sua dúvida. A mulher contou que ela e a vizinha estavam morrendo de fome e, tendo cada uma um filho, entraram em acordo para comê-los, pois não viam outro modo de salvar a própria vida. Ela matara o seu, e ambas o haviam comido, mas agora a outra mulher, contrariando o ajuste, não queria matar o dela e até o havia escondido.
Essas palavras comoveram tanto o soberano que ele rasgou as próprias vestes e começou a gritar. Cheio de cólera contra Eliseu, determinou matá-lo, porque, podendo o profeta obter de Deus, com as suas orações, o livramento de tantos males, se negava a pedi-lo. Assim, ordenou que fossem imediatamente cortar-lhe a cabeça, e os soldados partiram para executar a ordem. O profeta, que estava descansando em sua casa, ciente da ordem por uma revelação de Deus, disse aos seus discípulos: &quot;O rei, sendo filho de um homicida, mandou os seus homens para me cortar a cabeça. Ficai perto da porta, porém, para mantê-la fechada a esses assassinos, quando virdes que se aproximam, pois o rei se arrependerá de ter dado essa ordem e virá aqui ele mesmo, em seguida&quot;. Fizeram o que ele havia determinado, e Jorão, arrependido de ter dado a ordem e com receio de que a executassem, veio apressadamente para impedi-los e lamentou o pouco interesse do profeta pelos seus sofrimentos e pela infelicidade do povo, pois não se dignava pedir a Deus que os livrasse de tantos males.
2 Reis 7. Então Eliseu prometeu que, no dia seguinte, à mesma hora, ele teria tal abundância de víveres em Samaria que a medida de farinha de trigo seria vendida a um sido no mercado, e duas medidas de cevada não custariam mais. Como o príncipe não podia duvidar das predições do profeta, após haver constatado tantas vezes a sua veracidade, a esperança de um feliz futuro deu-lhe tal alegria que o fez esquecer a infelicidade presente. Os que o acompanhavam não ficaram menos alegres, exceto um dos oficiais, que comandava o terço das tropas e em quem o rei tinha plena confiança. Ele disse a Eliseu: &quot;O profeta, o que prometeis ao rei não é possível, ainda que Deus faça chover do céu farinha e cevada&quot;. Respondeu Eliseu: &quot;Não duvideis, porque o vereis com os vossos próprios olhos. Mas somente o vereis, não participareis dessa felicidade&quot;. E aconteceu como ele predisse.
Havia entre os samaritanos um costume segundo o qual os leprosos não podiam ficar nas cidades. Por esse motivo, quatro homens de Samaria, vítimas dessa doença, residiam fora dos muros. Como não tinham absolutamente nada para comer e nada podiam esperar da cidade, por causa da extrema carestia a que estava reduzida, e como sabiam que não deixariam de morrer de fome, quer fossem pedir esmola, quer ficassem em casa, julgaram melhor entregar-se aos inimigos. Porque se estes tivessem compaixão deles, lhes salvariam a vida, e se os matassem, seria uma morte muito mais suave que a outra, que lhes era inevitável. Depois de tomar essa resolução, partiram para o acampamento dos sírios.
No entanto Deus tinha feito aquele povo ouvir durante a noite um rumor semelhante ao de cavalos e de carros, como se um grande exército os viesse atacar. Isso causou-lhes tal espanto que eles abandonaram as suas tendas e disseram a Hadade, seu rei, que o rei do Egito e os reis das ilhas tinham vindo em auxílio de Jorão, e já se ouvia o retinir de suas armas. Como Hadade havia também escutado o ruído, facilmente prestou fé às palavras deles, sem que ele ou os seus soubessem o que fazer. Então fugiram, com tanta precipitação e em tal desordem que nada levaram de seus bens e das riquezas de que o acampamento estava cheio.
Os leprosos entraram no campo inimigo e lá encontraram em abundância toda espécie de bens, sem ouvir o menor ruído. Avançaram ainda mais e entraram numa tenda, onde, não encontrando ninguém, beberam e comeram o quanto quiseram. Apoderaram-se de vestes, de dinheiro e de grande quantidade de ouro e prata, que enterraram num campo fora do acampamento. Passaram a outra tenda e ainda a duas outras, onde fizeram o mesmo, sem encontrar ninguém. Então não tiveram mais dúvidas de que os inimigos haviam fugido e lastimaram não terem levado ainda aquela notícia ao rei e aos seus concidadãos. Por isso se apressaram e foram gritar às sentinelas que os inimigos se haviam retirado.
As sentinelas avisaram o corpo da guarda mais próximo da pessoa do rei, que ao tomar ciência do fato reuniu em conselho os seus chefes e servidores particulares e disse-lhes que aquela retirada dos sírios era suspeita. Tinha motivo para temer que Hadade, ansioso por tomar a cidade pela fome, tivesse fingido retirar-se, a fim de que os sitiados fossem saquear o acampamento. Assim, ele voltaria de repente, cercá-los-ia de todas as partes, matando-os facilmente, e tomaria a cidade sem resistência alguma. Seu parecer era de que não se incomodassem com o que acontecera e continuassem como antes.
Um dos presentes a esse conselho, que estava entre os mais sensatos, acrescentou, depois de elogiar tal parecer, que julgava muito apropriado enviar dois cavaleiros para observar o que se passava no campo até o Jordão. Se fossem apanhados pelos inimigos, os outros saberiam conservar-se prudentemente em guarda, para não cair no mesmo perigo. E, se eles fossem mortos, estariam apenas antecipando um pouco a própria morte, pois não tinham como conter a carestia.
O rei aprovou a proposta e ordenou imediatamente aos cavaleiros que fossem observar o campo inimigo. Eles voltaram dizendo que não haviam encontrado uma pessoa sequer no acampamento e tinham visto o caminho inteiramente coberto de armas e de grãos, que eles haviam lançado fora para fugir mais depressa. Então Jorão permitiu aos seus que fossem saquear o campo dos sírios. Recolheram uma enorme riqueza de despojos, pois, além de grande quantidade de ouro, prata, cavalos e gado, encontraram tanto trigo e cevada que parecia um sonho. Assim esqueceram logo os males passados, e houve abundância, tal como Eliseu havia predito: duas medidas de cevada se vendiam por um sido, e a medida de farinha, pelo mesmo preço. Essa medida continha um módio e meio, da Itália.
O único que não teve parte em tão feliz mudança foi o oficial que acompanhava do rei quando este fora falar com Eliseu. O príncipe ordenara-lhe que ficasse à porta da cidade, para impedir que as pessoas, na pressa de sair, matassem umas às outras. E ele foi sufocado, vindo a morrer, como o profeta havia predito.
380. 2 Reis 8. Hadade retirou-se para Damasco e lá soube do terror que invadira o seu exército sem que aparecesse qualquer inimigo, mas sabia também que aquele pavor fora enviado por Deus. Sentiu muito desgosto ao constatar que Ele lhe era tão contrário, e ficou gravemente enfermo. Avisaram-no então de que Eliseu vinha a Damasco, e ele ordenou ao mais fiel de seus servos, de nome Hazael, que fosse encontrá-lo com presentes e perguntasse se ele sararia. Hazael mandou carregar quarenta camelos com os mais saborosos frutos do país e com objetos preciosos e, depois de saudar o profeta, apresentou-lhe as dádivas do rei, perguntando em seu nome se devia esperar a cura. O profeta respondeu que Hadade morreria, mas proibiu Hazael de dar-lhe a notícia.
Essas palavras deixaram Hazael muito aflito, e Eliseu, por seu lado, derramou lágrimas à vista dos males que se seguiriam ao seu povo após a morte de Hadade. Hazael rogou a Eliseu que lhe dissesse o motivo daquele penar, e o profeta respondeu: &quot;Choro por causa dos males que fareis sofrer os israelitas. Pois fareis morrer os seus melhores homens, reduzireis a cinzas as suas pra-ças-fortes, esmagareis os seus filhos com pedras e não poupareis nem mesmo as grávidas&quot;. Hazael, assustado com essas palavras, perguntou-lhe como aquilo poderia acontecer e que probabilidade havia de ele conquistar tão grande poder. Então o profeta declarou que Deus havia revelado que ele reinaria sobre a Síria.
Hazael contou a Hadade que este devia esperar a saúde e, no dia seguinte, asfixiou-o com um pedaço de linho molhado e apoderou-se do reino. Ele tinha, ademais, muitos méritos e conquistou de tal modo o afeto dos sírios e dos habitantes de Damasco que eles o têm ainda hoje, tal como a Hadade, no número de suas divindades e prestam-lhe contínua honra, por causa dos benefícios que receberam de ambos, dos soberbos templos que eles construíram e de tantos embelezamentos de que a cidade de Damasco lhes é devedo-ra. Enaltecem também a antigüidade de sua descendência, pois ainda vivem, mil e cem anos depois. Jorão, rei de Israel, informado da morte de Hadade, julgou que nada mais tinha a temer e que passaria tranqüilo o resto de seu reinado.
381. 2 Reis 11; 2 Crônicas 21. Voltemos a Jeorão, rei de Judá. Não havia ele subido ao trono, e seu mau governo logo se revelou, pelo assassinato dos próprios irmãos e dos homens mais ilustres do reino, aos quais Josafá, seu pai, dedicara grandíssima estima. Ele não se contentou em imitar aqueles reis de Israel que primeiro violaram as leis de nossos antepassados e mostraram a sua impiedade para com Deus, mas os sobrepujou a todos em muitas espécies de crimes e aprendeu de Atalia, sua mulher, filha de Acabe, a prestar aos deuses estrangeiros sacrílegas adorações. Assim, dia a dia, ele cada vez mais irritava a Deus, por causa de sua impiedade e pela profanação das coisas mais santas de nossa religião. Deus, no entanto, não o quis exterminar, por causa da promessa que fizera a Davi.
Os idumeus, todavia, que antes lhe eram submissos, sacudiram o jugo, começando Dor matar o seu próprio rei, que sempre fora fiel a josafá, e colocando outro em seu lugar. Jeorão, para vingar-se, entrou à noite naquele país com muitos carros e soldados de cavalaria e destruiu algumas cidades e aldeias da fronteira, sem ousar contudo ir além. Mas essa expedição, em vez de torná-lo temível àqueles povos, levou ainda outros a se revoltar contra ele, e os que habitam o país de Libna não o quiseram mais reconhecer como soberano.
A loucura e o furor desse rei chegou a tal excesso que ele obrigou os súditos a adorar falsos deuses nos lugares mais elevados dos montes. Certo dia, estando ele muito agitado, trouxeram-lhe uma carta de Eliseu, na qual o profeta o ameaçava com uma terrível vingança da parte de Deus, pois, em vez de observar as suas leis, como os seus predecessores, ele preferira imitar os erros abomináveis dos reis de Israel, obrigando a tribo de Judá e os habitantes de Jerusalém, tal como Acabe fizera aos israelitas, a abandonar o culto ao verdadeiro Deus para adorar ídolos. E, a tudo isso acrescentara ainda o assassinato dos próprios irmãos e de tantos homens de bem. Por isso receberia o merecido castigo: o seu povo cairia sob a espada dos inimigos, e os cruéis vencedores não poupariam nem as esposas nem os filhos dele. Ele veria com os próprios olhos saírem-lhe as entranhas de seus corpos e então iria se arrepender, porém seria tarde demais, e o seu arrependimento não o impediria de morrer em meio a muitas dores.

CAPÍTULO 3
MORTE HORRÍVEL DE JEORÃO, REI DE JUDÁ. ACAZIAS, SEU FILHO, SUCEDE-O.

382. Algum tempo depois, os árabes que estão perto da Etiópia, auxiliados por um grande número de outros bárbaros, entraram no reino de Jeorão. Saquearam-no totalmente e mataram todas as suas mulheres e filhos, com exceção de um, chamado Acazias. Jeorão, segundo a predição com que o profeta o havia ameaçado, contraiu uma horrível doença e morreu depois de haver sofrido o que não se pode descrever. O povo, em vez de lastimá-lo, sentiu tal aversão por sua memória que, julgando-o indigno de receber qualquer honra, não quis que ele fosse enterrado no sepulcro de seus antepassados. E Deus assim o permitiu, segundo a minha opinião, para mostrar o horror que Ele nutria pela impiedade desse soberano. Jeorão reinou quarenta e oito anos, e Acazias, seu filho, sucedeu-o.

CAPÍTULO 4
JORÃO, REI DE ISRAEL, SITIA RAMOTE. É FERIDO E RETIRA-SE AJEZREE PARA SE MEDICAR, DEIXANDO JEÚ NO COMANDO DO EXÉRCITO PARA CONTINUAR O CERCO. O PROFETA ELISEU CONSAGRA JEÚ REI DE ISRAEL, COM ORDEM DE DEUS PARA ELE EXTERMINAR TODA A FAMÍLIA DE ACABE. JEÚ DIRIGE-SE A JEZREEL, ONDE ESTÁ JORÃO, REI DE ISRAEL. ACAZIAS, REI DEJUDÁ, SEU SOBRINHO, VISITA JORÃO.

383. Jorão, rei de Israel, acreditando poder reconquistar a cidade de Ramote-Gileade, sitiou-a, depois da morte do rei da Síria, com grande exército, sendo ferido nesse cerco por uma flecha atirada por um sírio. Como o ferimento não era mortal, ele retirou-se para a cidade de Jezreel, a fim de tratar a ferida, deixando o cerco a cargo de Jeú, filho de Josafá, que comandava as suas tropas.
Esse general tomou a cidade num assalto, e Jorão resolveu continuar a guerra aos sírios logo que se tivesse curado do ferimento. Nesse mesmo tempo, o profeta Eliseu ordenou a um de seus discípulos que tomasse o óleo santo e fosse a Ramote consagrar Jeú rei de Israel e declarar-lhe que o fazia por ordem de Deus. Feito isso, o discípulo deveria se retirar em seguida, como quem está fugindo, a fim de que ninguém fosse tido como suspeito de cumplicidade naquele ato.
O discípulo encontrou Jeú assentado entre os seus oficiais, conforme dissera o profeta, e pediu para falar-lhe em particular. Jeú levantou-se e levou-o ao seu aposento. Ali o profeta derramou-lhe o óleo santo sobre a cabeça e disse-lhe: &quot;Deus vos consagra rei de Israel, para vingar o crime cometido por Jezabel, quando, contra toda espécie de justiça, derramou o sangue dos profetas. Ele vos ordena que extermineis completamente a descendência de Acabe, bem como a de Jeroboão, a de Nabate, seu filho, e a de Baasa, por causa de sua impiedade&quot;. Terminando de falar essas palavras, o profeta retirou-se do quarto apressadamente.
Jeú voltou para junto daqueles que havia deixado. Perguntando eles o que viera fazer aquele homem, que parecia ter perdido o juízo, ele respondeu: &quot;Tendes razão em falar assim, pois ele falou-me como um louco&quot;. A curiosidade de saber o que o homem dissera os fez insistir em que jeú contasse o que se passara, e ele disse: &quot;Revelou-me ele que a vontade de Deus é fazer-me rei&quot;. A essas palavras, eles puseram os seus mantos em terra, uns sobre os outros, para que Jeú se sentasse sobre eles, como em um trono, e o proclamaram rei ao som de trombetas.
O novo soberano marchou em seguida com todo o exército para Jezreel, onde, como dissemos, o rei estava fazendo curar o seu ferimento. Acazias, rei de Judá, filho de sua irmã, tinha vindo visitá-lo. Jeú, para surpreender Jorão e não falhar em sua empresa, pediu a todos os soldados que, se quisessem dar uma prova de que o haviam escolhido de boa mente para rei, impedissem que Jorão soubesse de sua chegada.

CAPÍTULO 5
JEÚ MATA JORÃO, REI DE ISRAEL, E ACAZIAS, REI DE JUDÁ.

384. O exército de Jeú obedeceu com alegria a essa ordem e ocupou de tal modo as estradas que iam a Jezreel que era impossível avisar o rei de sua chegada. Jeú, sobre o seu carro, acompanhado pelo melhor de sua cavalaria, marchou para a cidade. Quando já estava perto, a sentinela avisou que via aproximar-se um grupo de cavaleiros. O rei ordenou a um dos seus que fosse verificar quem eram. O cavaleiro foi a Jeú e disse-lhe que o rei o mandava para saber como iam as coisas no exército. Jeú respondeu-lhe que não se devia impressionar e que o seguisse. A sentinela, vendo que o cavaleiro, em vez de voltar, tinha-se reunido ao grosso dos cavaleiros, foi avisar jorão, que mandou um segundo, ao qual Jeú também reteve.
A sentinela avisou Jorão novamente, e então ele subiu ao carro, acompanhado por Acazias, rei de Judá, para ver ele mesmo o que se passava. Jeú marchava vagarosamente. Jorão alcançou-o no campo de Nabote e perguntou-lhe se tudo ia bem no exército, jeú, em vez de responder, perguntou-lhe como se podia vangloriar de ter por mãe uma feiticeira e uma mulher sem honra. Essas palavras fizeram Jorão ver claramente que jeú havia tramado a sua ruína, e ele disse ao rei Acazias: &quot;Fomos traídos!&quot; Ao mesmo tempo, girou o carro, para voltar à cidade, mas Jeú o deteve com uma flechada, que lhe atravessou o coração e o fez cair morto fora do carro. E, lembrando-se de ter ouvido o profeta Elias dizer ao rei Acabe, pai de Jorão, que ele e toda a sua geração morreriam no mesmo lugar em que injustamente se insurgira contra Nabote, ordenou a Bidcar, general de um terceiro grupo de suas tropas, que lançasse o corpo de jorão nas terras de Nabote. E assim a profecia realizou-se.
Temendo receber o mesmo tratamento que Jorão, o rei Acazias desviou o seu carro para tomar outro caminho. Jeú perseguiu-o até uma pequena colina, onde lhe desferiu também uma flechada, que o feriu. Acazias desceu do carro, montou num cavalo e fugiu a todo galope até a cidade de Megido, onde morreu em conseqüência do ferimento. Levaram o seu corpo a Jerusalém, onde ele foi enterrado, após haver reinado somente um ano e mostrado que era muito pior que seu pai.

CAPÍTULO 6
JEÚ, REI DE ISRAEL, FAZ MORRER JEZABEL, OS SETENTA FILHOS DE ACABE,
TODOS OS PARENTES DESSE SOBERANO, QUARENTA E DOIS PARENTES DE
ACAZIAS, REI DE JUDÁ, E EM GERAL TODOS OS SACERDOTES DE BAAL, O FALSO
DEUS DOS TÍRIOS, AO QUAL ACABE MANDARA CONSTRUIR UM TEMPLO.

385.  Quando jeú fez a sua entrada em Jezreel, a rainha Jezabel veio a uma janela, para vê-lo chegar. Estava adornada e bem vestida e disse ao vê-lo aproximar-se: &quot;Eis o fiel servidor, que assassinou o seu senhor!&quot; A essas palavras, Jeú ergueu os olhos, perguntou quem ela era e mandou que descesse. Ela não quis fazê-lo, e ele então ordenou aos eunucos que estavam com ela que a atirassem para baixo. Os homens obedeceram, e a miserável princesa, caindo, espatifou-se de tal modo sobre as pedras do calçamento que elas ficaram manchadas com o seu sangue. Ela morreu depois, sob as patas dos cavalos que lhe passaram por cima. Jeú ordenou que ela fosse sepultada com a honra devida à grandeza de seu nascimento, sendo de família real, mas apenas foram encontradas as extremidades de seu corpo, pois os cães haviam comido o resto. Isso fez o novo rei lembrar a profecia de Elias, o qual predissera que ela morreria daquele modo, em Jezreel.
386.  Acabe deixara setenta filhos, e estavam todos em Samaria. Jeú, para experimentar a disposição dos samaritanos para com ele, escreveu aos precepto-res dos jovens príncipes e aos principais magistrados da cidade, dizendo que escolhessem para rei um dos filhos de Acabe que julgassem digno de reinar e que se vingasse de quem lhe matara o pai, pois eles possuíam armas, cavalos, carros, soldados e praças-fortes. Os magistrados e os habitantes, não se julgando em condições de resistir a um homem que matara dois reis tão poderosos, responderam-lhe que não conheciam outro soberano senão ele e que estavam prontos a fazer tudo o que ele lhes mandasse.
Diante de tal resposta, ele escreveu aos magistrados que, se deveras estavam assim dispostos, lhe mandassem as cabeças de todos os filhos de Acabe. Ao receber essa carta, mandaram eles chamar os preceptores dos príncipes e ordenaram-lhes que fizessem o que Jeú lhes mandara. Homens cruéis obedeceram no mesmo instante, puseram as cabeças num saco e enviaram-nas a )eú. Ele estava à mesa com alguns de seus familiares quando as trouxeram, e ordenou que as colocassem em dois montes de ambos os lados da porta do palácio. No dia seguinte, de manhã, foi vê-las e disse ao povo: &quot;É verdade que matei o rei meu senhor. Mas quem matou estes?&quot; Queria assim dar-lhes a entender que tudo acontecera por vontade de Deus e por ordem dEle, pois, como fora predito pelo profeta Elias, Ele exterminaria Acabe e toda a sua descendência.
Mandou em seguida matar todos os parentes de Acabe que ainda estavam vivos e depois partiu para Samaria. Encontrou pelo caminho quarenta e dois parentes de Acazias, rei de Judá, e perguntou-lhes para onde iam. Responderam que iam saudar Jorão, rei de Israel, e Acazias, o rei que estava com ele, pois não sabiam que ele havia matado ambos. Jeú mandou prendê-los e os fez morrer também. Logo depois, Jonadabe, que era um homem de bem e seu velho amigo, veio procurá-lo e louvou-o por haver fielmente cumprido as ordens de Deus, exterminado toda a descendência de Acabe. Jeú disse-lhe que subisse ao seu carro para acompanhá-lo a Samaria e ter a satisfação de constatar que ele não perdoaria a um só dentre os maus, mas faria passar a fio de espada todos os falsos profetas e sedutores do povo, que o levavam a abandonar a Deus para adorar falsas divindades, pois nada poderia ser mais agradável a um homem de bem como ele que ver sofrerem os ímpios o castigo que merecem.
Jonadabe obedeceu, subiu ao carro e foi com ele a Samaria. Jeú continuou a procurar e a matar todos os parentes de Acabe e, para impedir que algum dos profetas dos deuses falsos daquele príncipe pudesse escapar, serviu-se de um ardil. Mandou reunir todo o povo e declarou que, tendo resolvido intensificar o culto que se prestava aos deuses de Acabe, nada queriam fazer acerca daquele assunto sem o parecer dos sacerdotes e dos profetas. Assim, queria que todos, sem exceção, viessem ter com ele, a fim de oferecerem um grande número de sacrifícios a Baal, deus deles, no dia de sua festa, e quem faltasse seria castigado com a pena de morte. Marcou depois um dia para a cerimônia e mandou publicar a sua ordem em todas as partes do reino.
Depois que chegaram os sacerdotes e os profetas, mandou entregar-lhes as vestes e, acompanhado por Jonadabe, seu amigo, foi encontrá-los no templo, cuidando para que ninguém se misturasse a eles, pois, dizia ele, não queria que os profanos tomassem parte naquelas santas cerimônias. Quando os profetas e os sacerdotes estavam se preparando para oferecer os sacrifícios, ele ordenou a oitenta de seus guardas, de toda confiança, que os matassem a todos, a fim de vingar com a morte deles o desprezo que por tanto tempo manifestaram para com a religião de seus antepassados. E ameaçou-os de morte também, caso poupassem um só deles. Os guardas executaram rigorosamente a ordem recebida e, também por ordem do rei, atearam fogo ao palácio real, a fim de purificar Samaria das muitas abominações e sacrilégios ali cometidos.
Baal era o deus dos tírios, ao qual Acabe, para agradar a Etbaal, rei de Tiro e de Sidom, seu sogro, mandara construir e consagrar um templo em Samaria, ordenando profetas e todas as outras coisas necessárias para prestar honra a esse deus. Jeú permitiu, no entanto, que os israelitas continuassem a adorar os bezerros de ouro. Embora Deus tivesse isso como coisa muito desagradável, não deixou de prometer, por meio de seu profeta, que a posteridade de Jeú, por ter este castigado a impiedade, reinaria sobre Israel até a quarta geração.

CAPÍTULO 7
ATALIA, VIÚVA DEJEORÃO, REI DEJUDÁ, TENTA EXTERMINAR TODA A
DESCENDÊNCIA DE DAVI.JOIADA, SUMO SACERDOTE, SALVA JOÁS, FILHO DE
ACAZIAS, REI DE JUDÁ, COLOCA-O NO TRONO E MANDA MATAR ATALIA.

387. 2 Reis 7 7; 2 Crônicas 22 e 23. Atalia, filha de Acabe, rei de Israel, e viúva de Jeorão, rei de Judá, vendo que Jeú matara Jorão, irmão dela, e que exterminava toda a sua descendência, não tendo poupado nem mesmo Acazias, seu filho, rei de Judá, resolveu também exterminar toda a descendência de Davi, para que nenhum dos descendentes deste pudesse subir ao trono. Nada ela omitiu na execução de seu desígnio, e apenas um dos filhos de Acazias escapou, o que aconteceu deste modo:
Jeoseba, irmã de Acazias e mulher de Joiada, sumo sacerdote, entrou no palácio e encontrou no meio daquela carnificina um menino de nome Joás, de apenas um ano de idade, o qual fora ocultado por sua ama. Ela então o apanhou e levo-o, sem que nenhum outro, a não ser o marido, tivesse ciência disso. Criou-o no Templo durante os seis anos em que Atalia reinou em Jerusalém.
No fim desse tempo, joiada persuadiu cinco oficiais a se unir a ele para tirar a coroa de Atalia e colocá-la sobre a cabeça de Joás. Obrigaram-se todos, com juramento, a guardar segredo e conceberam firme esperança de realizar o seu intento. Esses cinco oficiais foram depois a toda parte convocar, em nome do sumo sacerdote, os sacerdotes, os levitas e os principais das tribos a se dirigirem a Jerusalém. Depois que lá chegaram, Joiada disse-lhes que, se lhe prometessem com juramento guardar um segredo inviolável, comunicaria a eles um assunto muito importante para todo o reino, no qual ele tinha necessidade de seu auxílio. Eles prometeram-no e juraram.
Então ele mostrou-lhes o único príncipe que restava da descendência de Davi e disse: &quot;Eis aí o vosso rei, o único que resta da família daquele que, bem sabeis, Deus revelou e predisse que reinaria para sempre sobre vós. Assim, se quiserdes seguir o meu conselho, sou de opinião que uma terça parte de vós tome o cuidado de conservar este príncipe no Templo, outra terça parte se apodere de todas as avenidas e a terça parte restante monte guarda à porta pela qual se vai ao palácio real, que ficará aberta. Os que não tiverem armas fiquem no Templo, onde ninguém entrará armado, exceto os sacerdotes&quot;.
Escolheu em seguida alguns sacerdotes e levitas para que, armados, ficassem junto da pessoa do novo rei, a fim de lhe servirem de guardas, com ordem de matar a todos os que lá quisessem entrar com armas e cuidar somente da conservação da pessoa do príncipe. Todos aprovaram o conselho e se puseram a executá-lo. Joiada então abriu o depósito de armas que Davi construíra no Templo, distribuiu tudo o que lá encontrou aos sacerdotes e aos levitas e colocou-os ao redor do Templo, tão próximos uns dos outros que poderiam dar-se as mãos e impedir a entrada de outras pessoas. Levaram em seguida o jovem rei e o coroaram. Joiada consagrou-o com óleo santo, e todos os assistentes, batendo palmas em sinal de alegria, exclamaram: &quot;Viva o rei!&quot;
388. Atalia ficou não menos surpresa que perturbada com essa notícia e saiu do palácio acompanhada pelos seus guardas. Os sacerdotes deixaram-na entrar no Templo, mas os que haviam sido colocados ao redor dele repeliram os guardas e o resto do séquito. Quando a altiva princesa viu o jovem príncipe sentado no trono e com a coroa na cabeça, rasgou as próprias vestes e ordenou que matassem aquela criança, da qual se estavam servindo para organizar uma revolta contra ela e usurpar o reino. )oiada, em oposição, ordenou aos oficiais de que falamos que a agarrassem e a levassem à torrente de Cedrom, para que lá recebesse o castigo merecido, pois não se deveria macular o Templo com o sangue de tão detestável pessoa. Acrescentou que matassem também imediatamente qualquer um que se pusesse a defendê-la. Executou-se em seguida a ordem: quando ela estava fora da porta, por onde saíam as cavalgaduras do rei, mataram-na.
389. Depois de tão grande mudança, Joiada mandou reunir no Templo todos os que estavam armados, bem como o povo, e os fez jurar que serviriam fielmente o novo rei, velariam pela sua conservação e trabalhariam pelo progresso do reino. Obrigou Joás a prometer, de sua parte, também com juramento, que prestaria a Deus a honra que lhe era devida e jamais violaria as leis outorgadas por Moisés.
Todos correram em seguida ao templo de Baal, que Atalia e seu marido, o rei jeorão, haviam feito construir para agradar ao rei Acabe, em detrimento do Deus verdadeiro e Todo-poderoso, e o derrubaram, arrasando-o completamente. Mataram ainda Mata, que nele era o sacerdote. Joiada, segundo a determinação do rei Davi, entregou a guarda do Templo aos sacerdotes e aos levitas, determinando que duas vezes por dia oferecessem a Deus sacrifícios solenes, como a Lei o mandava, acompanhados de incensação, e escolhessem algum dos levitas para guardar as portas do Templo, para só deixarem entrar quem estivesse purificado.
Depois que o sumo sacerdote assim dispôs todas as coisas, levou do Templo para o palácio real o jovem príncipe, acompanhado por aquela grande multidão. Puseram-no sobre o trono. As aclamações de júbilo renovaram-se, e, como não havia ninguém que não se julgasse feliz, porque a morte de Atalia lhes causava grande tranqüilidade, toda a cidade de Jerusalém passou vários dias em festas e banquetes. O jovem rei, cuja mãe se chamava Zíbia, era da cidade de Berseba e tinha então, como já dissemos, apenas sete anos. Foi muito religioso e zeloso das leis de Deus durante o tempo em que Joiada viveu e desposou, por conselho deste, duas mulheres, das quais teve filhos e filhas.
CAPÍTULO 8
MORTE DEJEÚ, REI DE ISRAEL. JEOACAZ, SEU FILHO, SUCEDE-O. JOÁS, REI DE JUDÁ, RESTAURA O TEMPLO EM JERUSALÉM. MORTE DE JOIADA, SUMO SACERDOTE. JOÁS ESQUECE-SE DE DEUS E ENTREGA-SE A TODA ESPÉCIE DE
IMPIEDADE. MANDA APEDREJAR ZACARIAS, SUMO SACERDOTE E FILHO DE
JOIADA, QUE O REPREENDIA. HAZAEL, REI DA SÍRIA, CERCA JERUSALÉM.
JOÁS ENTREGA-LHE TODOS OS SEUS TESOUROS PARA FAZÊ-LO LEVANTAR O
CERCO. É MORTO PELOS AMIGOS DE ZACARIAS.

390.  Hazael, rei da Síria, fez guerra a Jeú, rei de Israel, e devastou todo o país que as tribos de Rúben, Gade e metade da de Manasses ocupavam, além do Jordão. Sem que jeú pensasse em impedi-lo, saqueou também as cidades de Gileade e de Basã, incendiou tudo e não poupou nenhum dos que lhe caíram nas mãos. Esse infeliz rei de Israel, cujo zelo aparente havia sido mera hipocrisia, desprezou as leis de Deus por um orgulho sacrílego. Reinou vinte e oito anos e jeoacaz, seu filho, sucedeu-o.
391.  2 Reis 12; 2 Crônicas 24. Como a conservação do Templo fora inteiramente negligenciada sob o reinado de Jeorão, de Acazias e de Atalia, Joás, rei de judá, resolveu restaurá-lo e ordenou a joiada que enviasse levitas a todo o reino para obrigar os súditos a contribuir cada qual com meio sido de prata. Joiada julgou que o povo não daria de boa mente essa contribuição e assim não cumpriu a ordem. Joás, no vigésimo terceiro ano de seu reinado, declarou-lhe que o considerava malvado e ordenou-lhe que fosse mais cuidadoso no futuro e provesse a restauração do Templo.
O sumo sacerdote então imaginou um meio de obrigar o povo a contribuir de boa vontade. Mandou fazer um cofre de madeira, bem fechado, com uma abertura por cima, como uma fenda, que foi posto no Templo, junto do altar. Cada um, segundo a sua devoção, deveria depositar ali uma contribuição para a restauração do Templo. Essa maneira de pedir a restauração foi agradável ao povo, que se acotovelava, à porfia, para nele depositar ouro e prata. O sacerdote e o secretário encarregado da guarda do tesouro do Templo esvaziavam todos os dias o cofre na presença do rei e, depois de contar e anotar a soma que lá havia, tornavam a colocá-lo no lugar. Quando já havia dinheiro suficiente, o sumo sacerdote e o rei mandaram vir os operários e o material necessário. Terminada a obra, empregaram o restante do ouro e da prata, que era em grande quantidade, para fazer as taças, os copos e outros vasos próprios para o serviço divino. Não se passava um dia em que não se oferecesse a Deus um grande número de sacrifícios.
Observou-se essa praxe com rigor durante todo o tempo em que o sumo sacerdote viveu. Ele morreu na idade de cento e trinta anos, e o sepultaram no túmulo dos reis, tanto por causa de sua rara probidade quanto por haver ele conservado a coroa na família de Davi. Logo o rei Joás e, à sua imitação, os principais do país se esqueceram de Deus. Entregaram-se a toda sorte de impiedade e pareciam ter prazer em calcar aos pés a religião e a justiça. Deus repreendeu-os severamente, por meio dos profetas, que lhes mostraram o quanto Ele estava irritado contra eles. Mas eles estavam tão empedernidos no pecado que nem as ameaças nem o exemplo dos horríveis castigos que seus antepassados haviam sofrido por caírem nos mesmos crimes os trouxeram de volta ao cumprimento do dever.
Tanto cresceu o seu frenesi que Joás, esquecendo os favores que devia a Joiada, mandou apedrejar Zacarias no próprio Templo pelo fato de este, por inspiração divina, havê-lo exortado na presença de todo o povo a agir com justiça no futuro e por ameaçá-lo com grandes castigos, caso continuasse no pecado. Zacarias era filho de joiada e lhe sucedera no cargo de sumo sacerdote. Esse santo homem, ao morrer, tomou a Deus por testemunha de como o príncipe, em recompensa ao salutar serviço que lhe prestava e também pelo trabalho de seu pai, fora injusto e cruel a ponto de fazê-lo morrer daquele modo.
392. Deus não tardou muito tempo em castigar esse tão grande crime. Hazael, rei da Síria, entrou com um grande exército no reino de Joás. Ele tomou, saqueou e destruiu a cidade de Gate e sitiou Jerusalém. Joás foi tomado de tal medo que, para se ver livre desse grande perigo, lhe entregou todos os tesouros do Templo, bem como os dos reis seus predecessores, e todos os presentes oferecidos a Deus pelo povo. Isso contentou a ambição daquele soberano, que levantou o cerco e retirou-se. Mas Joás não pôde evitar o castigo que merecia. Foi vítima de uma grave enfermidade, e os amigos de Zacarias o mataram no leito, para vingar a morte do amigo e do filho de um homem cuja memória era tida em tão grande veneração. O mau príncipe tinha então quarenta e sete anos. Enterraram-no em Jerusalém, porém não no sepulcro dos reis, porque não foi julgado digno disso.

CAPÍTULO 9
AMAZIAS SUCEDE A JOÁS, SEU PAI, NO REINO DE JUDÁ.JEOACAZ, REI DE
ISRAEL, QUASE DOMINADO POR HAZAEL, REI DA SÍRIA, RECORRE A DEUS, E ELE
O AJUDA.JEOÁS, SEU FILHO, SUCEDE-O. MORTE DO PROFETA ELISEU, QUE PREDIZ
A VITÓRIA DEJEOÁS SOBRE OS SÍRIOS. O CORPO DO PROFETA RESSUSCITA UM
MORTO. MORTE DE HAZAEL, REI DA SÍRIA. HADADE, SEU FILHO, SUCEDE-O.

393.  2 Reis 14; 2 Crônicas 25. Amazias sucedeu a Joás, seu pai, no reino de Judá. No reino de Israel, Jeoacaz já havia sucedido a Jeú, seu pai, no vigésimo primeiro ano do reinado de Joás. Jeoacaz reinou dezessete anos e não somente se assemelhou ao pai, mas também aos primeiros reis de Israel que tão abertamente haviam desprezado a Deus. E, embora tivesse grande poder, Hazael, rei da Síria, obteve tão grandes vantagens sobre ele, tomou-lhe tantas praças-fortes e fez tão grande mortandade entre os seus soldados que lhe restavam somente dez mil homens de infantaria e quinhentos cavaleiros. Realizava-se o que vatici-nara o profeta Eliseu a Hazael, quando garantiu que este reinaria na Síria e em Damasco, depois de matar o rei Hadade.
Jeoacaz, estando reduzido a tal extremo, recorreu a Deus, rogando-lhe que o protegesse e não permitisse que ele caísse sob o domínio de Hazael. O soberano Senhor do Universo fez então ver que Ele não somente concede os seus favores aos justos, mas também aos que se arrependem de tê-lo ofendido, e que, em vez de destruí-los, como eles merecem — e Ele bem pode fazê-lo —, se contenta em castigá-los. Ele escutou favoravelmente esse príncipe e restituiu a paz ao seu país, fazendo-o reconquistar a primitiva felicidade.
394.  2 Reis 13. Depois da morte de Jeoacaz, Jeoás, seu filho, sucedeu-o no reino de Israel, no trigésimo sétimo ano do reinado de Joás, rei de Judá, e reinou dezesseis anos. Não se pareceu com Jeoacaz, seu pai, mas foi um homem de bem. O profeta Eliseu, que então estava muito avançado em anos, caiu gravemente enfermo. Jeoás foi visitá-lo e, vendo-o prestes a exalar o último suspiro, começou a chorar e a lastimá-lo, dizendo que o profeta era o seu pai, o seu protetor e todo o seu amparo e que enquanto ele viveu não tivera necessidade de recorrer às armas para vencer os inimigos, porque sempre os sobrepujara sem combater, graças ao auxílio de suas profecias e orações. Mas agora que ele ia deixar o mundo ficava desarmado e sem defesa, exposto ao furor dos sírios e dos outros povos que lhe eram contrários. Assim, ser-lhe-ia muito mais vantajoso morrer com ele que ficar com vida, porém abandonado e sem o seu auxílio.
O profeta ficou tão comovido com essas queixas que, depois de o consolar, ordenou que lhe trouxessem um arco e flechas e disse em seguida ao príncipe que entesasse o arco e atirasse as flechas. Jeoás atirou apenas três, e então o profeta lhe disse: &quot;Se tivésseis atirado mais, teríeis destruído toda a Síria. Como, porém, vos contentastes em atirar somente três, vencereis os sírios somente em três combates e reconquistareis somente as cidades que eles tiraram de vossos antecessores&quot;.
Eliseu, pouco depois de assim falar, morreu. Era um homem de eminente virtude e visivelmente ajudado por Deus. Viram-se os efeitos maravilhosos e quase incríveis de suas profecias, e a sua memória ainda hoje é tida em grande veneração por todos os hebreus. Fizeram-lhe um magnífico túmulo, como merece uma pessoa a quem Deus cumula de tantas graças.
Aconteceu que alguns ladrões, depois de matarem um homem, lançaram-no nesse túmulo. E o cadáver, apenas por tocar o corpo do profeta, voltou à vida, ressuscitado, o que nos mostra que não somente durante a vida, mas também depois da morte, ele havia recebido de Deus o poder de fazer milagres.
395.  Morreu Hazael, rei da Síria, e Hadade, seu filho, sucedeu-o. Jeoás, rei de Israel, venceu-o em três batalhas e reconquistou as cidades que Hazael, seu pai, havia tirado aos israelitas, como predissera o profeta Eliseu. jeoás, morrendo também, foi substituído por seu filho jeroboão II no trono do reino de Israel.

CAPÍTULO 10
AMAZIAS, REI DEJUDÁ, AJUDADO POR DEUS, DERROTA OS AMALEQUITAS,
OS IDUMEUS E OS GABALITANOS. ESQUECE-SE DE DEUS E OFERECE
SACRIFÍCIOS AOS ÍDOLOS. COMO CASTIGO PELO SEU PECADO, É VENCIDO E
FEITO PRISIONEIRO POR JEOÁS, REI DE ISRAEL, A QUEM É OBRIGADO A
ENTREGAR JERUSALÉM. É ASSASSINADO PELOS SEUS PARTIDÁRIOS.
UZIAS, SEU FILHO, SUCEDE-O.

396.  No segundo ano do reinado de Jeoás, rei de Israel, Amazias, rei de Judá, cuja mãe, Jeoadã, era de Jerusalém, sucedeu-o, como dissemos, no reino de seu pai. Embora fosse ainda muito jovem, manifestou extremo amor pela justiça. Começou o seu reinado vingando a morte de seu pai e não perdoou aos que, declarando-se amigos dele, o haviam tão cruelmente assassinado. Porém não causou mal algum aos seus filhos, porque a Lei proíbe castigar os filhos pelos pecados dos pais. Resolveu fazer guerra aos amalequitas, aos idumeus e aos gabalitanos e recrutou para esse fim, em seus territórios, trezentos mil homens, os mais jovens com cerca de vinte anos. Deu-lhes chefes e mandou cem talentos de ouro a jeoás, rei de Israel, a fim de que o ajudasse com cem mil homens.
2 Reis 14; 2 Crônicas 25. Quando estava prestes a se pôr em campo com aquele grande exército, um profeta ordenou-lhe, da parte de Deus, que devolvesse os israelitas, porque eram ímpios, e certamente ele seria vencido caso se servisse deles. Ao passo que, com o auxílio de Deus, as suas próprias forças lhe seriam suficientes para derrotar os inimigos. Isso o surpreendeu e deixou-o aborrecido, porque já entregara o dinheiro combinado para a manutenção da tropa. O profeta, contudo, exortou-o a obedecer à ordem de Deus, que podia compensá-lo generosamente por aquela perda.
Ele obedeceu e devolveu os cem mil homens sem exigir a devolução do dinheiro. Marchou contra os inimigos, venceu-os num grande combate, matou dez mil no campo e fez um número igual de prisioneiros, aos quais mandou levar para um lugar denominado A Grande Rocha, perto da Arábia, de onde mandou lançar todos abaixo. Conseguiu também ricos despojos. Nesse mesmo tempo, todavia, os israelitas que ele havia despedido, julgando-se ofendidos, devastaram-lhe o país até Bete-Semes, levaram um grande número de cabeças de gado e mataram três mil habitantes dessa cidade.
397. Amazias, orgulhoso com o êxito de suas armas, esqueceu-se de que tudo devia a Deus e, por uma ingratidão sacrílega, em vez de lhe referir toda a glória, abandonou o seu divino culto para adorar as falsas divindades dos amalequitas. O profeta veio falar com ele e disse que muito se admirava de vê-lo agora ter em boa conta e adorar como verdadeiros os deuses que não haviam sido capazes de defender contra ele os seus próprios adoradores nem de impedir que matasse um grande número deles e aprisionasse também uma grande quantidade e levasse escravos outros ainda, com os seus ídolos, a Jerusalém, juntamente com os despojos.
Essas palavras encolerizaram Amazias de tal modo que ele ameaçou matar o profeta, caso este se atrevesse a continuar falando daquele modo. Ele respondeu que ficaria quieto, mas Deus não deixaria de castigá-lo como ele merecia. O orgulho de Amazias crescia cada vez mais, e ele sentia prazer em ofender a Deus, em vez de reconhecer que toda a sua felicidade vinha dEle e de dar-lhe graças. Ele escreveu pouco depois a Jeoás, rei de Israel, ordenando-lhe que o obedecesse com todo o seu povo, assim como as dez tribos que ele governava haviam obedecido a Salomão e a Davi, seus antepassados. E, se não o fizesse voluntariamente, que se preparasse para a guerra, pois ele a declararia e resolveria a questão pelas armas.
Jeoás respondeu-lhe nestes termos: &quot;O rei Jeoás ao rei Amazias. Havia antigamente no monte Líbano um cipreste muito grande e um cardo. O cardo mandou pedir ao cipreste a filha deste em casamento para o seu filho, mas ao mesmo tempo que lhe fazia esse pedido uma fera veio sobre ele e o esmagou. Servi-vos deste exemplo, para que não empreendais coisa alguma acima de vossas forças e não vos orgulheis demasiado por causa da vitória que conquistastes contra os amalequitas, pondo-vos em risco de vos perderdes com todo o vosso reino&quot;.
Amazias, irritadíssimo com essa carta, preparou-se para a guerra, e Deus a ela o impelia, sem dúvida para fazer cair sobre ele a sua vingança. Quando os exércitos se enfrentaram e enquanto a luta se preparava, o exército de Amazias viu-se de repente tomado de grande terror, enviado por Deus, por Ele não lhes ser favorável, de modo que fugiram incontinenti, mesmo antes de travarem combate, abandonando Amazias à mercê do inimigo. Jeoás, tendo-o em seu poder, disse-lhe que não podia evitar a morte senão abrindo a ele e a todo o seu exército as portas de Jerusalém. O desejo de salvar a própria vida fez com que ele persuadisse os habitantes da cidade a aceitar aquela condição.
Jeoás, depois de abater quatrocentos côvados das muralhas da cidade, entrou triunfante sobre o seu carro na capital do reino, seguido por todo o seu exército, tendo Amazias perto de si como prisioneiro. Ele carregou todos os tesouros que estavam no Templo e todo o ouro e toda a prata que encontrou no palácio do rei. Deu liberdade a Amazias e voltou a Samaria. Isso aconteceu no décimo quarto ano do reinado de Amazias.
Vários anos depois, esse infeliz príncipe, vendo que os próprios amigos tramavam contra ele, fugiu para a cidade de Laquis. Mas isso não o salvou. Eles o perseguiram e o mataram, levando o seu corpo a Jerusalém, onde foi enterrado com as cerimônias ordinárias das homenagens aos reis. Eis de que modo terminou miseravelmente os seus dias, no vigésimo ano de seu reinado, que foi o qüinquagesimo quarto de sua vida, castigado como merecia por haver desprezado a Deus e abandonado a verdadeira religião para adorar os ídolos. Uzias, seu filho, sucedeu-o.

CAPITULO 11
O PROFETA JONAS PREDIZ A JEROBOÃO II, REI DE ISRAEL, QUE ELE VENCERÁ OS
SÍRIOS. HISTÓRIA DESSE PROFETA, ENFIADO POR DEUS A NÍNIVE PARA
PREDIZER A RUÍNA DO IMPÉRIO DA ASSÍRIA. MORTE DEFEROBOÃO II.
ZACARIAS, SEU FILHO, SUCEDE-O. EXCELENTES QUALIDADES DE UZIAS, REI DE
JUDÁ, QUE FAZ GRANDES CONQUISTAS E FORTIFICA JERUSALÉM. SUA
PROSPERIDADE O FAZ ESQUECER DE DEUS. DEUS O CASTIGA DE MANEIRA
TERRÍVEL. JORÃO, SEU FILHO, SUCEDE-O. SALUM ASSASSINA ZACARIAS, REI DE
ISRAEL, E USURPA A COROA. MENAÉM MATA SALUM E REINA DEZ ANOS.
PECAÍAS, SEU FILHO, SUCEDE-O. PECA ASSASSINA-O E REINA EM SEU LUGAR.
TIGLATE-PILESER, REI DA ASSÍRIA, FAZ-LHE CRUEL GUERRA. VIRTUDES DEFOTÃO,
REI DEFUDÁ. O PROFETA NAUM PREDIZ A DESTRUIÇÃO DO IMPÉRIO ASSÍRIO.

398. 2 Reis 14. No décimo quinto ano do reinado de Amazias, rei de Judá, Jeroboão II sucedeu a Jeoás, seu pai, no reino de Israel e durante os quarenta anos em que ele reinou sempre teve, tal como os seus predecessores, sua residência em Samaria. Nada se poderia acrescentar à impiedade desse soberano e à sua inclinação para a idolatria, que o levou a fazer coisas extravagantes, atraindo sobre o seu povo males infinitos. O profeta Jonas predisse-lhe que ele venceria os sírios e levaria os limites do reino até a cidade de Hamate, do lado norte, e até o lago Asfaltite, do lado sul, que eram os antigos limites da terra de Canaã, fixados por Josué. Jeroboão II, animado por essa profecia, declarou guerra aos sírios e conquistou todo o país, conforme Jonas havia predito, do qual se tornaria senhor.
Como prometi narrar sincera e fielmente tudo o que está escrito nos Livros Santos, não devo passar em silêncio o que eles referem acerca desse profeta. Deus ordenou a Jonas que fosse anunciar aos habitantes de Nínive, grande e poderosa cidade, que o império da Assíria, de que era a capital, seria destruído. Essa ordem pareceu-lhe perigosa a ponto de ele decidir não a executar. Como se pudesse esconder-se dos olhos de Deus, ele embarcou em Jope, a fim de fugir para a Cilícia. Porém se levantou uma tão grande tempestade que o piloto do barco e os marinheiros, vendo-se em perigo de naufragar, faziam votos pela sua salvação.
Jonas era o único que, retirado a um canto e coberto com a sua capa, não imitava o exemplo deles. A tempestade crescia cada vez mais, e eles imaginaram logo que alguém dentre eles atraíra aquela infelicidade. Para saber quem era, tiraram a sorte, e ela caiu sobre o profeta. Perguntaram-lhe quem ele era e que motivos o levavam a empreender aquela viagem. Ele respondeu que era hebreu e profeta do Deus Todo-poderoso, e, se queriam evitar o perigo de que estavam ameaçados, teriam de lançá-lo ao mar, porque era o único culpado.
De início, não quiseram fazê-lo, pois julgavam desumanidade atirá-lo às águas, expondo assim a uma morte certa um estrangeiro que lhes havia confiado a vida. Quando se viram prestes a morrer, todavia, o desejo de salvar as próprias vidas e a insistência do profeta fizeram-nos decidir lançá-lo ao mar. No mesmo instante, a tempestade cessou. Diz-se que um grande peixe o engoliu e, depois de ele ter passado três dias em seu ventre, ele o restituiu vivo e sem ferimento algum à praia do Ponto Euxino, de onde ele partiu para Nínive, depois de pedir perdão a Deus, e anunciou ao povo que eles perderiam bem depressa o império da Ásia.
399.  2 Reis 14 e 15. Voltemos agora a jeroboão II, rei de Israel. Ele morreu depois de reinar feliz durante quarenta anos, e foi enterrado em Samaria. Zacarias, seu filho, sucedeu-o. Uzias, do mesmo modo, no quarto ano do reinado de Jeroboão II, sucedeu a Amazias no reino de Judá. Nasceu este de Jecolias, mulher de Amazias. Ela era de Jerusalém.
400. 2 Crônicas 26. O rei Urias tinha tanta bondade e amor pela justiça e era tão corajoso e previdente que essas excelentes qualidades, unidas, levaram-no a realizar grandes empreendimentos. Venceu os filisteus e tomou-lhes muitas cidades, entre as quais Gate e Jabné, da qual abateu as muralhas. Atacou os árabes, vizinhos do Egito, e construiu uma cidade perto do mar Vermelho, onde deixou uma forte guarnição. Ele também subjugou os amonitas, tornando-os tributários. Reduziu ao seu domínio todos os países que se estendem até o Egito e empregou em seguida todo o seu cuidado na restauração e fortificação de Jerusalém.
Mandou consertar e refazer as muralhas, que estavam em muito mau estado, pela incúria de seus predecessores, inclusive aquele espaço de quatrocentos côvados que Jeoás, rei de Israel, mandara derrubar ao entrar triunfante na cidade, após aprisionar o rei Amazias. Mandou também reedificar várias torres com altura de cento e cinqüenta côvados e construiu fortificações nos lugares mais afastados da cidade. Fez ainda vários aquedutos.
Ele criava um número enorme de cavalos e de gado, porque a região é rica em pastagens. Como amava muito a agricultura, mandou plantar uma grande quantidade de árvores frutíferas e toda espécie de plantas. Mantinha trezentos e setenta mil soldados, todos escolhidos, armados com espadas, arcos, fundas, escudos e couraças de bronze, distribuídos em regimentos e comandados por dois mil bons oficiais. Mandou também fazer uma grande quantidade de máquinas de atirar pedras e dardos, grandes ganchos e instrumentos semelhantes, próprios para os ataques e as guerras.
O orgulho de tão grande prosperidade envenenou o Espírito do soberano e corrompeu-o de tal modo que esse poder passageiro e temporal o fez desprezar o poder eterno e subsistente de Deus. Não observou mais as suas santas leis e, em vez de continuar a praticar a virtude, procedeu à imitação do pai na impiedade, entregando-se ao crime. Assim os seus felizes empreendimentos e a glória de tantas ações beneméritas só serviram para destruí-lo e para fazer ver o quanto é difícil aos homens conservar a moderação na prosperidade.
No dia de uma festa solene, ele revestiu-se dos paramentos sacerdotais e entrou no Templo para oferecer a Deus as incensações no altar de ouro. O sumo sacerdote Azarias, acompanhado por oitenta sacerdotes, correu e disse-lhe que aquilo não era permitido. Proibiu-lhe passar além e ordenou que saísse, para não irritar a Deus com aquele incrível sacrilégio. Uzias ficou de tal modo encolerizado que o ameaçou de morte, bem como a todos os outros sacerdotes, se não permitisse que ele fizesse o que desejava. Mal pronunciou essas palavras, sentiu-se um terrível tremor de terra. O alto do Templo abriu-se, e um raio de sol feriu o ímpio rei no rosto. No mesmo instante, ele ficou coberto de lepra. O mesmo tremor de terra dividiu também em dois, num lugar próximo da cidade, de nome Eroge, o monte que está voltado para o ocidente, do qual uma metade foi levada a quatro estádios dali contra outro monte, que está voltado para o levante, o que barrou toda a estrada principal e cobriu de terra os jardins do rei.
Os sacerdotes, vendo o rei coberto de lepra, imaginaram facilmente a causa. Disseram que aquele castigo era um sinal visível da justiça de Deus e ordenaram que ele saísse da cidade. A sua extrema confusão tirou-lhe a ousadia de resistir, e ele obedeceu. Assim, foi castigado pela sua impiedade para com Deus e pela temeridade que o levara a se elevar acima da sua condição humana. Ele passou algum tempo fora da cidade, onde viveu como um homem qualquer, enquanto Jotão, seu filho, dirigia os destinos da nação. Urias morreu de desgosto por ver-se reduzido àquele estado. Tinha sessenta e oito anos, dos quais reinara cinqüenta e dois. Foi enterrado em seus jardins, em um sepulcro separado, e Jotão sucedeu-o.
401. 2 Reis 15. Quanto a Zacarias, rei de Israel, ele reinava havia apenas seis meses, quando Salum, filho de jabes, assassinou-o e usurpou o trono. Mas Salum desfrutou somente um mês do governo que tão grande crime lhe outorgara. Menaém, general do exército, que então estava na cidade de Tirza, marchou com todas as suas forças para Samaria, combateu-o, venceu-o e o matou. Por sua conta, pôs a coroa na própria cabeça e voltou a Tirza com o exército vitorioso. Os seus habitantes, porém, não quiseram reconhecê-lo e fecharam-lhe as portas. Então ele devastou toda a área, tomou a cidade à força e matou todos os seus habitantes, não poupando nem mesmo as crianças. Desse modo, foi cruel contra a sua própria nação, tanto que não se teria coragem de agir assim nem mesmo para com os bárbaros. E ele não procedeu com maior humanidade durante os dez anos de seu reinado em Israel.
Pul, rei da Assíria, declarou-lhe guerra, e ele, não se sentindo bastante forte para resistir, deu-lhe mil talentos de dinheiro para conservar a paz. Exigiu em seguida a mesma quantia do povo, por uma imposição de cinqüenta dracmas por cabeça. Morreu logo depois, e foi enterrado em Samaria.
Pecaías, seu filho, sucedeu-o e não herdou menos a sua crueldade que o trono, porém reinou somente dois anos. Peca, filho de Remalias, chefe de campo de um regimento de mil homens, matou-o à traição num banquete com vários outros de seus familiares. Ele apoderou-se do trono e reinou vinte anos, sem que se possa dizer se ele era mais ímpio ou mais injusto. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, fez-lhe guerra, apoderou-se de toda a área de Gileade, de toda a região que está além do Jordão e daquela parte da Galiléia próxima de Quedes e de Hazor, aprisionou todos os habitantes e levou-os escravos para o seu reino.
402.  2 Crônicas 27. jotão, filho de Uzias, rei de Judá, e de )erusa, que era de Jerusalém, reinava nessa época. Nenhuma virtude faltava a esse príncipe, pois ele foi tanto religioso para com Deus quanto justo para com os homens. Tomou grande cuidado em restaurar e embelezar essa grande cidade. Mandou refazer o átrio e as portas do Templo e reerguer uma parte das muralhas, que havia caído. A isso acrescentou torres grande e fortes e eliminou todas as desordens do reino. Venceu os amonitas, impôs-lhes um tributo de cem talentos, dez mil medidas de trigo e outras tantas de cevada por ano. Aumentou de tal modo a extensão e a força do país que ele era não menos temido por seus inimigos quanto amado pelo seu povo.
403.  Durante o seu reinado, um profeta, de nome Naum, predisse a ruína do império da Assíria e a destruição de Nínive, nestes termos: &quot;Tal como às vezes as águas de um grande reservatório são agitadas pelo vento, assim se verá igualmente todo o povo de Nínive agitado e perturbado pelo temor, e a sua hesitação será tão grande que num mesmo tempo dirão uns aos outros: Fujamos! Outros dirão: Não! Fiquemos para apanhar o nosso ouro e a nossa prata. Mas nenhum deles seguirá esse conselho, porque eles preferirão salvar a vida, e não os seus bens. Assim, só se ouvirão entre eles gritos e lamentações. O seu terror será tão grande que muito mal sobreviverão, e as suas cidades ficarão irreconhecíveis. Para onde irão então os leões e as mães dos leõezinhos? Nínive, diz o Senhor, eu te exterminarei, e não se verão mais sair de ti os leões aue assustavam o mundo&quot;.
O profeta acrescentou várias outras coisas semelhantes com relação a essa poderosa cidade, as quais não refiro para não aborrecer os leitores. Cento e quinze anos depois, constatou-se a veracidade dessa profecia.

CAPÍTULO 12
MORTE DEJOTÃO, REI DEJUDÁ. ACAZ, SEU FILHO, QUE ERA MUITO ÍMPIO,
SUCEDE-O. REZIM, REI DA SÍRIA, E PECA, REI DE ISRAEL, FAZEM-LHE GUERRA.
ESSES REIS SE SEPARAM. PECA É VENCEDOR, EM UMA BATALHA SANGRENTA.
O PROFETA OBEDE LEVA OS ISRAELITAS A RESTITUIR OS PRISIONEIROS.

404. 2 Reis 18; 2 Crônicas 28. Jotão, rei de Judá, morreu na idade de quarenta e um anos, depois de reinar dezesseis, e foi enterrado no sepulcro dos reis. Acaz, seu filho, sucedeu-o. Esse soberano foi muito ímpio: calcou aos pés as leis de Deus e imitou os reis de Israel em suas abominações. Ergueu em Jerusalém altares sobre os quais sacrificou aos ídolos, chegando a oferecer o próprio filho em holocausto, segundo o costume dos cananeus, e cometeu vários outros crimes detestáveis.
Rezim, rei da Síria e de Damasco, e Peca, rei de Israel, que já era inimigo de Acaz, declararam-lhe guerra e o sitiaram em Jerusalém. Mas a cidade estava tão fortemente defendida que eles foram obrigados a levantar o cerco. Rezim tomou em seguida a cidade de Elá, situada à beira do mar Vermelho. Mandou matar todos os seus habitantes e lá estabeleceu uma colônia síria. Tomou também várias outras cidades fortes, matou um grande número de judeus e, carregado de des-pojos, voltou a Damasco com o seu exército. Quando Acaz viu que os sírios se retiravam, julgou não ser mais fraco que o rei de Israel sozinho e assim marchou contra ele. Eles travaram uma batalha na qual Deus, para castigar Acaz pelos seus crimes, permitiu que este fosse vencido, com uma perda de cento e vinte mil homens e de Maaséias, seu filho, morto por Zicri, general do exército de Peca, que matou também Azricão, comandante da guarda, e aprisionou Elcana, general do exército. O rei de Israel levou também um grande número de escravos, de ambos os sexos.
Quando os israelitas voltavam triunfantes e carregados de despojos para Samaria, o profeta Obede veio à presença deles e disse-lhes que eles não deviam atribuir a vitória às próprias forças, mas à cólera de Deus contra Acaz. Censurou-os acremente porque, não se contentando com a sua felicidade, atreviam-se a levar tantos prisioneiros que, sendo pessoas da tribo de Judá e de Benjamim, tinham a sua origem no mesmo sangue que eles. Disse-lhes ainda que, se eles não os pusessem em liberdade, Deus os castigaria severamente.
Os israelitas reuniram-se em conselho, e Berequias, homem de grande autoridade entre eles, e três outros com ele disseram que não tolerariam que aqueles prisioneiros entrassem em suas cidades, para não atrair sobre eles a cólera e a vingança de Deus, e que eles já haviam cometido muitos outros pecados, de que os profetas os haviam recriminado, não sendo necessário acrescentar novas im-piedades. Os soldados, comovidos por essas palavras, dispuseram-se a fazer o que eles julgassem melhor e mais conveniente. Então esses quatro homens tão sábios retiraram as cadeias dos prisioneiros, cuidaram deles, deram-lhes os meios para regressar e os acompanharam não somente até jerico, mas até próximo de Jerusalém.

CAPÍTULO 13
ACAZ, REI DE JUDÁ, PEDE AUXÍLIO A TIGLATE-PILESER, REI DA ASSÍRIA, QUE
DEVASTA A SÍRIA, MATA REZIM, REI DE DAMASCO, E TOMA A CIDADE.
HORRÍVEL IMPIEDADE DE ACAZ. SUA MORTE. EZEQUIAS, SEU FILHO, SUCEDE-O.
PECA, REI DE ISRAEL, É ASSASSINADO POR OSÉIAS, QUE USURPA O TRONO,
MAS É VENCIDO POR SALMANESER, REI DA ASSÍRIA. EZEQUIAS RESTAURA
INTEIRAMENTE O CULTO A DEUS, VENCE OS FILISTEUS E DESPREZA AS
AMEAÇAS DO REI DA ASSÍRIA.

405. 2 Reis 16 e 17. Depois de tão grande perda, Acaz, rei de Judá, enviou embaixadores com ricos presentes a Tiglate-Pileser, rei da Assíria, para pedir-lhe socorro contra os israelitas, os sírios e os damasquinos, prometendo-lhe uma grande quantia de dinheiro. O soberano veio em pessoa com um poderoso exército, devastou toda a Síria, tomou a cidade de Damasco e matou Rezim, que era o seu rei. Mandou os habitantes para a Alta Média e fez vir no lugar deles os assírios. Marchou depois contra os israelitas e levou vários escravos. Acaz foi a Damasco agradecer-lhe e levou-lhe não somente todo o ouro e prata que havia em seus tesouros, mas também o que estava no Templo, sem excetuar os presentes que se haviam oferecido a Deus.
Esse detestável príncipe tinha tão pouco juízo que, mesmo sendo os sírios seus inimigos declarados, não deixava de adorar os seus deuses, como se devesse pôr toda a sua esperança no auxílio deles. Quando ele viu, porém, que eles haviam sido derrotados pelos assírios, passou a adorar os deuses dos vencedores. Não havia falsa divindade que ele não estivesse pronto a reverenciar, no lugar do verdadeiro Deus, o Deus de seus pais, cuja cólera ele havia atraído sobre si e era a causa de todos os seus males. A sua impiedade chegou ao cúmulo de não se contentar em despojar o Templo de todos os seus tesouros, mas mandou mesmo fechá-lo, a fim de que lá não se pudesse adorar ao verdadeiro Deus com os sacrifícios solenes que se costumavam oferecer. E, depois de o haver irritado com tantos crimes, morreu na idade de trinta e seis anos, dos quais reinou dezesseis. Deixou Ezequias, seu filho, como sucessor.
406.  Nesse mesmo tempo, Peca, rei de Israel, foi morto à traição por Oséias, um de seus mais fiéis servidores, que usurpou o reino e reinou nove anos. Oséias era um homem ímpio e muito mau. Salmaneser, rei da Assíria, fez-lhe guerra e não teve dificuldade em vencê-lo e impor-lhe um tributo, porque Deus lhe era adverso.
407.  2 Reis 18; 2 Crônicas 29, 30 e 31. No quarto ano do reinado do rei Oséias, Ezequias, filho de Acaz e de Abi, a qual era de Jerusalém, sucedeu-o no reino de judá, como já dissemos. Esse príncipe era um homem de bem, tão justo e religioso que desde o princípio do reinado julgou nada poder fazer de melhor para si e para os seus súditos que restaurar o culto a Deus. Reuniu para isso todo o povo, os sacerdotes e os levitas, e falou-lhes: &quot;Não podeis ignorar os males que sofrestes por causa dos pecados do rei meu pai, desde que ele deixou de prestar a Deus a soberana honra que lhe é devida e pelos crimes que vos fez cometer, persuadindo-vos a adorar os falsos deuses que ele adorava. Assim, experimentastes os castigos que seguem à impiedade. Exorto-vos a renunciar a tudo isso, a purificar as vossas almas da sordidez que as desonra e a vos unirdes aos sacerdotes e aos levitas para abrirmos o Templo do Senhor, purificá-lo com solenes sacrifícios e restaurá-lo à sua primitiva magnificência, pois é o meio de aplacarmos a cólera de Deus e de torná-lo novamente favorável a nós&quot;.
Depois de o rei haver falado, os sacerdotes abriram o Templo, purificaram-no, prepararam os vasos sagrados e puseram as ofertas sobre o altar, segundo o costume de seus antepassados. Ezequias ordenou em seguida que todo o povo de seu território viesse a Jerusalém, a fim de ali celebrar a festa dos Asmos, que fora abandonada havia muitos anos, pela impiedade dos reis seus predecessores. Seu zelo foi além: ele exortou os israelitas a abandonar as superstições e a voltar aos antigos e santos costumes, prestando a Deus o culto que lhe é devido. Prometeu recebê-los em Jerusalém se eles quisessem vir celebrar a festa com os compatriotas.
Ele acrescentou que unicamente o desejo de vê-los felizes, e nenhum outro interesse particular, levava-o a convidá-los a aceitar um conselho tão salutar. Mas os israelitas não somente se recusaram a escutar propostas tão vantajosas, como também zombaram de seus embaixadores e os trataram do mesmo modo como aos profetas, que os exortavam a seguir um conselho tão sensato e prediziam os males que lhes sobreviriam se persistissem na impiedade. Sua loucura e sua raiva, porém, cresciam cada vez mais, e eles chegaram a matar esses profetas, juntando novos crimes aos antigos, até que Deus, para castigá-los, os entregou nas mãos dos inimigos, como diremos a seu tempo.
Somente um grande número dos da tribo de Manasses, de Zebulom e de Issacar, comovido pelas palavras dos profetas, converteu-se, e eles foram a Jerusalém adorar a Deus. Depois que lá chegaram, o rei, acompanhado por todos os grandes e por todo o povo, subiu ao Templo, onde ofereceu por si mesmo sete touros, sete bodes e sete carneiros. Depois que ele e os nobres puseram as mãos sobre as cabeças das vítimas, os sacerdotes as mataram, e elas foram totalmente consumidas pelo fogo, como sendo oferecidas em holocausto.
Os levitas, em torno deles, cantavam ao som de diversos instrumentos de música hinos de louvor a Deus, segundo o que Davi determinara. Os sacerdotes tocavam as trombetas, enquanto o rei e todo o povo prostravam-se de rosto em terra para adorar a Deus. O soberano sacrificou em seguida setenta bois, cem carneiros e duzentos cordeiros e deu ao povo seiscentos bois e quatro mil outros animais. E, depois que os sacerdotes terminaram todas as cerimônias, segundo o que a Lei determinava, desejou o rei comer com todo o povo e com ele dar graças a Deus.
A festa dos Asmos aproximava-se, e eles começaram por celebrar a Páscoa e a oferecer a Deus durante sete dias outras vítimas. Além das que eram oferecidas pelo povo, o rei ofereceu dois mil touros e sete mil outros animais. Os nobres, para imitá-lo em sua liberalidade, deram também mil touros e mil e quarenta outros animais. Desde os tempos de Salomão não se via celebrar com tanta solenidade essa festa religiosa.
Purificou-se em seguida Jerusalém e todo o país das abominações introduzidas pelo culto sacrílego aos ídolos. O rei desejou dar ele mesmo, do que lhe pertencia, as vítimas necessárias para se oferecer todos os dias os sacrifícios instituídos pela Lei. Determinou que o povo pagasse aos sacerdotes e aos levitas as décimas e as primícias dos frutos, a fim de que eles tivessem meios de se dedicar inteiramente ao serviço de Deus, e mandou construir para eles lugares apropriados para receber o que era dado às suas mulheres e filhos. Assim, a antiga ordem, no que se referia ao culto a Deus, foi completamente restabelecida.
408.  Depois que esse sábio e religioso soberano realizou todas essas coisas, declarou guerra aos filisteus, venceu-os e tornou-se senhor de todas as cidades desde Gaza até Gate. O rei da Assíria ameaçou destruir-lhe o país se ele não pagasse o tributo que seu pai estava acostumado a pagar. Mas a confiança que a sua piedade o fazia ter em Deus e a fé que ele prestava às predições do profeta Isaías, que o instruía particularmente a respeito do que devia suceder, o fez desprezar essas ameaças.

CAPÍTULO 14
SALMANESER, REI DA ASSÍRIA, TOMA SAMARIA, DESTRÓI INTEIRAMENTE O
REINO DE ISRAEL, LEVA ESCRAVOS O REI OSÉIAS E TODO O POVO E MANDA
UMA COLÔNIA DE CHUTEENSES HABITAR O REINO DE ISRAEL.

409.  2 Reis 17. Salmaneser, rei da Assíria, tendo sabido que Oséias, rei de Israel, enviara secretamente embaixadores ao rei do Egito para convidá-lo a tomar parte numa aliança contra ele, marchou com um grande exército para Samaria, no sétimo ano do reinado desse soberano. Depois de um cerco de três anos, apoderou-se da cidade, no nono ano do reinado desse príncipe e no sétimo ano do reinado de Ezequias, rei de Judá. Salmaneser aprisionou Oséias, destruiu inteiramente o reino de Israel e levou todo o povo como escravo para a Média e para a Pérsia. Mandou a Samaria e a todos os outros lugares do reino de Israel colônias de chuteenses, que são povos de uma província da Pérsia e têm esse nome por causa do rio Chute, ao longo do qual habitam.
Foi assim que as dez tribos que compunham o reino de Israel foram expulsas de seu país, novecentos e quarenta e sete anos depois que os seus antepassados o haviam conquistado pela força das armas, após a saída do Egito, oitocentos anos depois da dominação de Josué e duzentos e quarenta anos, sete meses e sete dias depois que eles se revoltaram contra Roboão, neto de Davi, para tomar o partido de Jeroboão, seu súdito, reconhecendo-o como rei. Foi assim que aquele povo infeliz foi castigado por desprezar tanto a lei de Deus quanto a voz dos profetas, que tantas vezes haviam predito as desgraças em que eles cairiam se continuassem na impiedade. Jeroboão foi o seu ímpio e infeliz autor, quando, ao subir ao trono, levou o povo, pelo seu exemplo, à idolatria e atraiu contra si a cólera de Deus, que o castigou como merecia.
O rei da Assíria fez então sentir o peso de suas armas à Síria e à Fenícia. Faz-se menção dele nos anais dos tírios porque ele lhes fez guerra durante o reinado de Eluleu, seu rei, como narra Menandro na história dos tírios, que foi traduzida para o grego. Eis como ele fala: &quot;Eluleu reinou trinta e seis anos. E os giteenses revoltaram-se, e ele partiu contra eles com uma esquadra e os reduziu à sua obediência. O rei da Assíria enviou também um exército contra eles e apoderou-se de toda a Fenícia. Tendo feito a paz, voltou ao seu país. Pouco tempo depois, as cidades de Arcé, da antiga Tiro, e várias outras, quebraram o jugo dos tírios para se entregar ao rei da Assíria. Como os tírios eram os únicos que não se queriam submeter a ele, enviou contra eles sessenta navios, que os fenícios haviam equipado e nos quais havia oitocentos remadores. Os tírios foram com doze navios ao encontro dessa frota, dispersaram-na, fizeram quinhentos prisioneiros e granjearam reputação de valentes por essa vitória. O rei da Assíria regressou, mas deixou muitas tropas ao longo do rio e dos aquedu-tos, para impedir que os tírios pudessem tirar água, o que, havendo-se prolongado por cinco anos, obrigou-os a cavar poços&quot;. Encontramos isso nos anais dos tírios, que é relativo a Salmaneser, rei da Assíria.
410. Esses novos habitantes de Samaria, que se chamavam chuteenses, por razão que já explicamos, eram de cinco nações diferentes, tendo cada uma um deus particular, e eles continuaram a adorá-los, como faziam em seu país. Deus ficou tão irritado que lhes mandou uma terrível peste, para a qual não se encontrou remédio no país. Eles foram então avisados por um oráculo que adorassem ao Deus verdadeiro e Todo-poderoso, e Ele os livraria. Mandaram então pedir logo ao rei da Assíria que lhes mandasse alguns dos sacerdotes hebreus, que estavam prisioneiros. O soberano concordou, e eles os instruíram na lei de Deus, prestaram-lhe as honras devidas, e logo a peste cessou.
Esses povos, a que os gregos chamam samaritanos, continuam ainda hoje na mesma religião. E mudam com relação a nós segundo a diversidade dos tempos. Pois, quando a nossa situação é boa, eles declaram que nos consideram irmãos, porque sendo uns e outros descendentes de José, temos a nossa origem num mesmo ramo. Quando a sorte nos é contrária, eles dizem que não nos conhecem e que não são obrigados a nos amar, pois, vindo nós de um país tão afastado para se estabelecer naquele em que eles habitam, nada têm de comum conosco. Mas é necessário deixarmos esse assunto para um outro momento, mais conveniente.
Livro Décimo

CAPÍTULO 1
SENAQUERIBE, REI DA ASSÍRIA, ENTRA COM UM GRANDE EXÉRCITO NO
REINO DE JUDÁ, FALTANDO À PALAVRA AO REI EZEQUIAS, QUE LHE
ENTREGARA UMA GRANDE SOMA DE DINHEIRO PARA OBRIGÁ-LO A SE
RETIRAR. SENAQUERIBE VAI FAZER GUERRA NO EGITO E DEIXA RABSAQUÉ,
SEU LUGAR-TENENTE, SITIAR FERUSALÉM. O PROFETA ISAÍAS GARANTE A
EZEQUIAS O AUXÍLIO DE DEUS. SENAQUERIBE VOLTA DO EGITO SEM TER
FEITO LÁ PROGRESSO ALGUM.

411. 2 Reis 18. No décimo quarto ano do reinado de Ezequias, rei de Judá, Senaqueribe, rei da Assíria, entrou no reino com um exército poderoso e, após tomar todas as outras cidades das tribos de judá e de Benjamim, marchou contra Jerusalém. Ezequias, por meio de embaixadores, ofereceu-se para cumprir quaisquer condições que o rei da Assíria lhe impusesse e para lhe servir como tributário. O soberano aceitou a oferta e prometeu com juramento retirar-se para o seu país sem qualquer ato hostil, contanto que lhe fossem pagos trinta talentos de ouro e trezentos talentos de prata. Ezequias, confiando na palavra de Senaqueribe, esvaziou todos os seus tesouros, a fim de poder enviar-lhe aquela soma, na esperança de ter paz.
Senaqueribe, todavia, depois de receber o dinheiro, não manteve a palavra e, enquanto marchava em pessoa contra os egípcios e os etíopes, deixou Rabsaqué, seu lugar-tenente e general, com numerosas tropas, auxiliado pelos seus chefes principais, dois generais, de nome Tartã e Rabe-Saris, para continuar na Judéia a guerra que lá havia começado. Esse general aproximou-se de Jerusalém e mandou chamar Ezequias, a fim de conferenciarem. Mas o príncipe, desconfiando dele, contentou-se em mandar-lhe três servidores da maior confiança: Eliaquim, mordomo-mor do palácio, Sebna, secretário, e Joá, intendente dos registros.
 
Disse Rabsaqué, em presença de todos os oficiais de seu exército: &quot;Voltai a vosso amo e dizei-lhe que Senaqueribe, o grande rei, pergunta em quem ele confia para recusar receber o seu exército em Jerusalém. Se for no auxílio dos egípcios, é de se dizer que ele perdeu o juízo e que se parece com quem se apoia num caniço, o qual, em vez de sustentá-lo, quebrar-se-á, ferindo-lhe as mãos. Quanto ao mais, saiba ele que é por ordem de Deus que o rei empreendeu esta guerra, e assim, o resultado será como o daquela que fez aos israelitas, e ele se tornará do mesmo modo senhor desses dois reinos&quot;.
Rabsaqué falava em hebreu, que conhecia muito bem. Eliaquim, temendo que os colegas se assustassem, pediu-lhe que falasse em siríaco. Rabsaqué, porém, deduzindo facilmente com que fim era feito aquele pedido, continuou a falar em hebreu: &quot;Agora que não podeis ignorar a vontade do rei e quanto vos importa a ela vos submeterdes, por que demorais em nos receber em vossa cidade? Por que continua o vosso senhor, e vós com ele, a enganar o povo com vãs e loucas esperanças? Se vos julgais bastante fortes para nos poder resistir, mostrai-no-lo, opondo dois mil de vossos cavaleiros ao mesmo número que eu farei avançar de nosso exército. Mas como poderíeis fazê-lo, se não os tendes? E por que vos demorais em vos submeterdes àqueles aos quais não podeis resistir? Acaso ignorais a vantagem de fazer voluntariamente o que não é possível evitar e o grande perigo que é esperar ser a isso obrigado pela força?&quot;
2 Reis 19, Essa resposta pôs o rei Ezequias em tal aflição que ele deixou as vestes reais para se revestir de um saco, segundo o costume de nossos pais. Prostrou-se com o rosto em terra e rogou a Deus que o ajudasse naquela contingência, em que não podia esperar outro socorro senão o dEle. Mandou alguns de seus principais oficiais e sacerdotes rogarem ao profeta Isaías que oferecesse a Deus sacrifícios e lhe pedisse para ter compaixão de seu povo e abater o orgulho que dava aos inimigos tão grandes esperanças. O profeta fez o que ele desejava e logo depois, por uma revelação de Deus, disse-lhe que nada temesse, garantindo que Deus confundiria de maneira estranha a ousadia daqueles bárbaros, e eles se retirariam voluntariamente, sem combater. A isso acrescentou que o rei dos assírios, até então temível, seria assassinado pelos seus, em seu próprio país, ao regressar da guerra do Egito, cujo resultado lhe seria desfavorável.
 
Nesse mesmo tempo, o rei Ezequias recebeu cartas daquele soberano, pelas quais lhe dizia que ele, Ezequias, parecia ter perdido o juízo, para persuadir-se de poder isentar-se da submissão ao vencedor de tão poderosas nações, e ameaçava exterminá-lo com todo o seu povo se ele não abrisse às suas tropas as portas de Jerusalém. A firme confiança que Ezequias tinha em Deus levou-o a desprezar essa carta. Então dobrou-a, colocou-a no Templo e continuou as suas orações a Deus. O profeta mandou dizer-lhe que elas haviam sido ouvidas por Deus, que nada devia temer das armas assírias e que logo ele e todos os seus súditos ver-se-iam em condições de poder cultivar em completa paz as terras que a guerra os obrigara a abandonar.
Senaqueribe estava na ocasião ocupado com o cerco de Pelusa, no qual já gastara muito tempo. E, no momento em que as plataformas se elevaram à altura das muralhas e ele estava para dar o assalto, foi avisado de que Targise,* rei da Etiópia, marchava com um poderoso exército em auxílio dos egípcios e vinha pelo deserto, para surpreendê-lo. Ele então levantou o cerco e retirou-se.
Heródoto, falando de Senaqueribe, diz que ele fazia guerra ao sacerdote de Vulcano (é assim que ele chama o rei do Egito, que era sacerdote dessa falsa divindade). E acrescenta que o que o obrigou a levantar o cerco de Pelusa foi que, tendo aquele rei e sacerdote implorado o auxílio de seu deus, veio à noite uma tão grande quantidade de ratos ao exército do rei dos árabes (no que esse historiador se engana, pois devia dizer &quot;dos assírios&quot;) que as cordas dos arcos foram roídas e todas as outras armas ficaram inutilizadas. Isso o obrigou a levantar o cerco. Berose, que escreveu a história dos caldeus, também faz menção a Senaqueribe. Diz que ele era rei dos assírios e fez guerra em toda a Ásia e no Egito. Assim ele fala.

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* Ou Tiraca.

CAPÍTULO 2
UMA PESTE ENVIADA POR DEUS MATA NUMA SÓ NOITE CENTO E OITENTA
E CINCO MIL HOMENS DO EXÉRCITO DE SENAQUERIBE, QUE SITIAVA
JERUSALÉM. ISSO O OBRIGA A LEVANTAR O CERCO E VOLTAR AO SEU PAÍS,
ONDE É ASSASSINADO POR SEUS FILHOS.

41 2. Diz ele: &quot;Senaqueribe encontrou ao seu regresso do Egito o seu exército diminuído de cento e oitenta e cinco mil homens, por causa de uma peste enviada por Deus na primeira noite, quando ele começava o ataque a Jerusalém, sob o comando de Rabsaqué. Ele ficou tão impressionado que, com medo de perder ainda o que lhe restava, retirou-se a toda pressa para Nínive, capital de seu reino, onde pouco tempo depois Adrameleque e Sarezer, seus dois filhos mais velhos, assassinaram-no no templo de Nisroque, seu deus. O povo sentiu tanto horror que os expulsou. Eles fugiram para a Armênia, e Esar-Hadom, o mais jovem de seus filhos, sucedeu-o&quot;.

CAPÍTULO 3
EZEQUIAS, REI DEJUDÁ, ESTANDO NOS EXTREMOS, PEDE A DEUS QUE
PROLONGUE A SUA VIDA E LHE DÊ UM FILHO. DEUS O CONCEDE, E O PROFETA
ISAÍAS DÁ-LHE UM SINAL, FAZENDO ATRASAR DEZ GRAUS A SOMBRA DO SOL.
BALADA, REI DOS BABILÔNIOS, ENVIA EMBAIXADORES A EZEQUIAS PARA
FAZER ALIANÇA COM ELE. EZEQUIAS MOSTRA-LHE TUDO O QUE TEM DE MAIS
PRECIOSO. DEUS ACHA ISSO RUIM E LHE DIZ, POR MEIO DO PROFETA, QUE
TODOS OS SEUS TESOUROS E ATÉ OS SEUS FILHOS SERIAM UM DIA
TRANSPORTADOS PARA A BABILÔNIA. MORTE DE EZEQUIAS.

413. 2 Reis 20. Eis como Ezequias, rei de Judá, contra toda esperança, ficou livre da ruína completa que o ameaçava. Ele só pôde atribuir tão milagroso êxito a Deus, que expulsou os inimigos, em parte por meio da peste com que os feriu, em parte pelo medo que teve o rei de ver perecer do mesmo modo o resto do exército. O príncipe, seguido por todo o povo, deu à divina Majestade infinitas ações de graças, por ter obrigado os assírios a levantar o cerco.
Algum tempo depois, Ezequias ficou tão doente que os médicos e todos os seus familiares perderam as esperanças de que se salvasse. Mas não era isso o que lhe causava maior sofrimento. Sua grande dor era que, não tendo filhos, a sua descendência terminaria com ele, e o trono passaria a outra família. Nessa aflição, ele rogou a Deus que prolongasse os seus dias, até que gerasse um filho. Deus, vendo em seu coração que era verdadeiramente por esse motivo que ele fazia tal pedido e não para gozar por mais tempo das delícias inerentes à vida dos reis, mandou o profeta Isaías dizer-lhe que ele ficaria curado dentro de três dias: viveria ainda quinze anos e teria filhos.
A gravidade da doença pareceu-lhe ter tão pouca relação com tão grande felicidade que ele teve dificuldade em prestar-lhe inteiro crédito. Por isso rogou ao profeta que lhe manifestasse um sinal de que falava da parte de Deus, a fim de fortificar a fé, pois só assim se prova a veracidade das coisas quando elas são tão extraordinárias e inimagináveis. O profeta perguntou-lhe que sinal ele desejava que lhe desse. Ele respondeu que desejaria ver a sombra do sol retroceder dez graus no seu quadrante. O profeta fez o pedido a Deus, e Ele o atendeu. Ezequias, depois desse grande prodígio, ficou curado no mesmo instante. Foi ao Templo adorar a Deus e fazer orações.
414. Por essa mesma época, os medos tornaram-se senhores do império dos assírios, como diremos a seu tempo. Balada, rei dos babilônios, enviou embaixadores a Ezequias para propor uma aliança. Ele os recebeu e tratou magnificamente, mostrou-lhes os seus tesouros, as suas pedras preciosas, os seus arsenais e tudo o que possuía de mais rico e despediu-os com presentes para o rei. Isaías veio vê-lo em seguida e perguntou-lhe de onde eram aqueles homens que tinham vindo visitá-lo. Ele respondeu que eram embaixadores enviados pelo rei da Babilônia e que lhes havia mostrado tudo o que tinha de mais precioso, a fim de que pudessem referir ao seu senhor as suas riquezas e o seu poder.
Disse-lhe o profeta: &quot;Eu vos declaro, da parte de Deus, que em pouco tempo as vossas riquezas serão levadas para Babilônia e os vossos descendentes serão feitos eunucos, indo servir como tais ao rei da Babilônia&quot;. Ezequias, amargurado pela dor de ver o seu reino e a sua posteridade ameaçados com tanta desgraça, respondeu ao profeta que, visto nada poder impedir o que Deus já havia determinado, ao menos lhe fizesse a graça de deixá-lo viver em paz o resto de seus dias.
O historiador Berose faz menção desse Balada, rei da Babilônia. Quanto a Isaías, admirável profeta de Deus que jamais deixou de dizer a verdade, a confiança em tudo o que predizia fez com que ele não temesse escrevê-lo, a fim de que os pósteros não pudessem duvidar. E ele não foi o único que assim procedeu, pois doze outros profetas fizeram o mesmo. Quanto a nós, vemos que todo bem ou todo mal que nos acontece concorda perfeitamente com essas profecias, como há de mostrar a continuação desta história. O rei Ezequias, segundo a promessa que Deus lhe fez, viveu quinze anos em paz após ser curado de sua enfermidade e morreu com cinqüenta e quatro anos, dos quais reinou vinte e nove.

CAPÍTULO 4
MANASSES, REI DEJUDÁ, ENTREGA-SE A TODA ESPÉCIE DE IMPIEDADE.
DEUS O AMEAÇA POR SEUS PROFETAS, MAS ELE NÃO SE IMPORTA. UM EXÉRCITO DO REI DE BABILÔNIA DEVASTA O SEU PAÍS E LEVA-O PRISIONEIRO.
ELE RECORRE A DEUS, ÉPOSTO EM LIBERDADE E CONTINUA A SERVIR A
DEUS FIELMENTE PELO RESTO DE SUA VIDA. SUA MORTE. AMAM, SEU FILHO,
SUCEDE-O. AMOM É ASSASSINADO, FOSIAS, SEU FILHO, SUCEDE-O.

415. 2 Reis 21. Manasses, que Ezequias, rei de judá, teve de Hefzibá, que era de Jerusalém, sucedeu-o no trono. Tomou um caminho contrário ao que seu pai havia trilhado, entregando-se a toda sorte de vícios e impiedades, e imitou perfeitamente os reis de Israel que Deus havia exterminado por causa de suas abominações. Ele ousou mesmo profanar o Templo, toda a cidade de Jerusalém e o resto do país. Não sendo mais contido pelo temor da justiça de Deus e desprezando os seus mandamentos, mandou matar muitos homens de bem, não poupando nem mesmo os profetas. Não se passava um dia sem que pelo menos um deles pagasse com a vida os caprichos do rei, manchando a cidade com o seu sangue.
Deus, irritado com tantos crimes, mandou os seus profetas ameaçá-lo, bem como a todo o povo, com os mais terríveis castigos, os quais os israelitas seus antepassados haviam experimentado por terem, como ele, atraído a sua indignação e a sua cólera. Mas nem o desventurado rei nem aquele povo infeliz prestaram fé a essas palavras, as quais, se eles se tivessem comovido, poderiam ter impedido as muitas desgraças que lhes sucederam. Mas eles só as reconheceram verdadeiras depois de lhes sentir os efeitos. Continuaram, portanto, a ofender a Deus, e Ele suscitou contra eles o rei dos babilônios e dos caldeus, que os atacou com um grande exército, o qual não somente devastou o país, mas levou prisioneiro o próprio Manasses.
Então, esse miserável príncipe percebeu que fora o excesso de pecados que o reduzira àquele estado. E recorreu a Deus, rogando-lhe que tivesse compaixão dele. A sua oração foi ouvida, e o rei vitorioso mandou-o livre para Jerusalém. Essa mudança em sua vida mostrou que a sua conversão fora sincera. Seu único pensamento agora era destruir a memória das ações passadas, e empregou todos os seus esforços em restaurar o culto a Deus: consagrou novamente o Templo, mandou reconstruir o altar para os sacrifícios, segundo a lei de Moisés, e purificou toda a cidade. E, para mostrar como era grato a Deus por ter sido liberto da escravidão, empregou o resto de sua vida em tornar-se agradável aos olhos dEle, tanto por virtude quanto por contínuas ações de graças.
Assim, por um proceder contrário ao anterior, levou os súditos a imitá-lo no arrependimento tal como o haviam imitado em seus pecados, que tantos males atraíram sobre eles. E, depois de restaurar as cerimônias da antiga religião, pensou em fortificar Jerusalém. Não se contentando em restaurar as antigas muralhas, mandou construir outras, acrescentando-lhes altas torres. Fortificou os arrabaldes, dando-lhes provisões de trigo e de tudo o que era necessário. Enfim, a mudança foi tão grande que desde aquele dia em que começou a servir a Deus até o fim de sua vida não mais se lhe amorteceu o zelo pela piedade. Morreu na idade de sessenta e sete anos, após reinar cinqüenta e cinco, e foi enterrado em seus jardins.
Amom, seu filho que ele tivera de Mesulemete, a qual era da cidade de Jotbá, sucedeu-o. Ele imitou a impiedade em que seu pai caíra na juventude e não tardou muito em ser castigado. Após reinar somente dois anos e ter vivido vinte e quatro, foi assassinado pelos próprios servidores. O povo o fez morrer e enterrou-o no sepulcro de seu pai. Josias, seu filho, que tinha então apenas oito anos, sucedeu-o.

CAPÍTULO 5
GRANDES VIRTUDES E INSIGNE PIEDADE DE JOSIAS, REI DEJUDÁ. ELE AFASTA COMPLETAMENTE A IDOLATRIA DO REINO E RESTAURA O CULTO A DEUS.

416. 2 Reis 22. A mãe de Josias, rei de Judá, chamada Jedida, era da cidade de Bozcate. Esse príncipe era tão bom e tão inclinado à virtude que durante toda a sua vida se propôs imitar o rei Davi, tomando-o como modelo. E, desde a idade de doze anos, deu prova ilustre de sua piedade e justiça, pois exortou o povo a renunciar o culto aos falsos deuses e adorar ao Deus de seus antepassados. Começou, a partir de então, a restaurar a antiga observância às leis, com a prudência de quem já era de muito mais idade. Fazia observar inviolavelmente o que piedosamente era determinado. Além dessa prova de sabedoria natural, serviu-se do conselho dos mais velhos e experimentados para restaurar o culto a Deus e restabelecer a ordem em suas terras. Assim, não corria perigo de cair nas faltas que haviam provocado a ruína de alguns de seus predecessores.
Ele mandou indagar de todos os lugares do reino e de Jerusalém onde se adoravam falsas divindades. Ordenou que se cortassem as árvores e derrubassem os altares que lhes eram consagrados e desfez-se com desprezo de tudo o que os outros reis haviam feito para prestar honras e homenagens sacrílegas. Assim, conseguiu tirar o povo de sua louca veneração e levou-o a prestar ao verdadeiro Deus a adoração que lhe era devida. Mandou em seguida oferecer os holocaustos e sacrifícios de costume e nomeou magistrados e censores para a administração de uma exata justiça e para o extremo cuidado em que cada qual cumprisse o seu dever. Ordenou que todas as cidades submetidas ao seu domínio fizessem, por sua ordem, donativos de ouro e prata para a restauração do Templo, como cada qual quisesse, sem se coagir quem quer que fosse. Entregou a direção e a responsabilidade dessa obra a Amasa, governador de Jerusalém, a Safa, secretário, a joatão, intendente dos registros, e a Hilquias, sumo sacerdote. Eles trabalharam com tanta solicitude que logo o Templo foi remodelado e restaurado, e todos comentavam com prazer aquela ilustre demonstração da piedade do devoto rei.
No décimo oitavo ano de seu reinado, ele ordenou ao sumo sacerdote que mandasse fazer taças e vasos para o serviço do Templo, não somente com o restante do ouro e da prata doados para a preparação, mas também com tudo o que estava no tesouro. Ao executar a ordem, o sumo sacerdote encontrou os Livros Santos deixados por Moisés, que eram guardados no Templo. Entregou-os a Safa, o secretário, que os leu e levou-os ao rei. E, depois de informá-lo que tudo o que ele ordenara fora executado, leu-lhe os livros. O piedoso príncipe ficou tão comovido que rasgou as próprias vestes e mandou Safa, o sumo sacerdote, e alguns dos que lhe eram mais fiéis falar com a profetisa Hulda, mulher de Salum, que era um homem ilustre e de família nobre. Eles pediram, em nome do rei, que ela aplacasse a cólera de Deus, de modo que Ele lhe fosse favorável (pois tinha motivo para temer o castigo pelos pecados cometidos pelos reis seus predecessores, que transgrediram as leis de Moisés) e ele não fosse expulso de seu país com todo o povo e levado a uma terra estrangeira, onde terminaria miseravelmente a vida.
A profetisa respondeu que comunicassem ao rei que nenhuma prece seria capaz de obter de Deus a revogação de sua sentença: eles seriam expulsos de sua terra e despojados de todas as coisas, porque, tendo violado as santas leis, não se arrependeram, embora tivessem tido tempo suficiente para fazer penitência pelos seus pecados e os profetas os houvessem exortado a isso e predito muitas vezes qual seria o castigo. Assim, Deus os faria cair em todas as desgraças de que haviam sido ameaçados, para que reconhecessem que Deus e os seus profetas nada lhes haviam anunciado de sua parte que não fosse verdadeiro. No entanto, por causa da piedade do rei, Ele retardaria a execução até depois de sua morte. E então não seria mais adiada.
2 Reis 23. Ante essa resposta, o rei ordenou a todos os sacerdotes, a todos os levitas e aos demais súditos que fossem a Jerusalém. Lá reunidos, começou por ler-lhes o que estava escrito nos Livros Santos. Depois colocou-se num lugar elevado e obrigou-os a prometer, com juramento, servir a Deus de todo o coração e observar as leis de Moisés. Eles prometeram e ofereceram sacrifícios para implorar o auxílio divino. O rei, em seguida, ordenou ao sumo sacerdote que verificasse se restava ainda no Templo algum vaso que os reis seus predecessores houvessem oferecido para culto aos falsos deuses. Muitos foram ainda encontrados, e ele os fez reduzir a pó, lançou a poeira ao vento e mandou matar todos os sacerdotes dos ídolos, que não eram da descendência de Arão.
Depois de praticar em Jerusalém todos esses atos de piedade, foi ele mesmo às províncias para destruir inteiramente tudo o que o rei Jeroboão estabelecera em honra aos deuses estrangeiros. Mandou queimar os ossos dos falsos profetas sobre o altar que aquele rei havia construído, cumprindo o que predissera um profeta ao ímpio príncipe, quando este oferecia um sacrifício naquele altar, na presença de todo o povo: que um sucessor do rei Davi, de nome Josias, executaria todas essas coisas. Viu-se assim a sua realização, trezentos e sessenta anos mais tarde.
A piedade de Josias foi ainda além. Ele mandou investigar cuidadosamente todos os israelitas que se haviam salvado do cativeiro assírio e persuadiu-os a abandonar o detestável culto aos ídolos e a adorar, como os seus antepassados, o Deus Todo-poderoso. Não houve cidade, aldeia ou vila em que ele não tivesse mandado fazer, em todas as casas, uma diligente eliminação de tudo o que servira à idolatria. Mandou também queimar todos os carros que os seus predecessores haviam consagrado ao Sol e nada deixou que pudesse levar o povo a um culto sacrílego.
Quando terminou de purificar todo o território, mandou reunir o povo em Jerusalém para lá celebrar a festa dos Pães Ázimos, que nós chamamos Páscoa, e deu ao povo, para a celebração dos festins públicos, trinta mil cordeiros e cabritos e três mil bois. Os principais sacerdotes deram também aos outros sacerdotes dois mil e seiscentos cordeiros. Os principais levitas deram aos outros levitas cinco mil cordeiros e quinhentos bois. Nenhum desses animais deixou de ser imolado segundo a lei de Moisés, pelo cuidado que disso tiveram os sacerdotes. Assim, não houve, desde os tempos do profeta Samuel, uma festa celebrada com tanta solenidade, porque nelas se observaram todas as cerimônias prescritas na Lei e segundo a antiga tradição. O rei Josias, depois de ter vivido em grande paz, cumulado de riquezas e de glória, terminou os seus dias do modo que vou dizer.

CAPÍTULO 6
JOSIAS, REI DEJUDÁ, OPÕE-SE À PASSAGEM DO EXÉRCITO DE NECO, REI DO
EGITO, QUE IA FAZER GUERRA AOS MEDOS E AOS BABILÔNIOS. É FERIDO POR
UMA FLECHADA, DE QUE VEM A MORRER. JEOACAZ, SEU FILHO,
SUCEDE-O E É MUITO ÍMPIO. O REI DO EGITO LEVA-O PRISIONEIRO. QUANDO ELE MORRE, O REI DO EGITO FAZ REI EM SEU LUGAR A ELIAQUIM,
IRMÃO MAIS VELHO DE JEOACAZ, A QUEM CHAMA DE JEOAQUIM.

41 7. Neco, rei do Egito, levado pelo desejo de se tornar senhor da Ásia, marchou para o Eufrates com um grande exército, para fazer guerra aos medos e aos babilônios, que haviam devastado o império da Assíria. Quando chegou próximo da cidade de Megido, no reino de Judá, o rei Josias opôs-se à sua passagem. Neco mandou dizer-lhe por meio de um arauto que não era a ele que pretendia atacar, mas que marchava para o Eufrates, e que ele não se devia opor à sua passagem, pois isso o obrigaria, contra a sua intenção, a declarar-lhe guerra.
Josias não se deixou comover por essas razões. Permaneceu em sua resolução, e parece que a sua infelicidade o levava a demonstrar tão grande altivez. Pois, enquanto dispunha o exército para a batalha e ia de coluna em coluna, sobre o seu carro, animando os soldados, um egípcio atirou-lhe uma flecha. Ficou tão ferido que a dor o obrigou a ordenar ao exército que se retirasse, e ele voltou a Jerusalém, onde veio a morrer por causa do ferimento. Foi sepultado com grande pompa, no sepulcro de seus antepassados, após viver trinta e nove anos, dos quais reinou trinta e um.
O povo ficou imensamente aflito com a perda de tão grande príncipe. Lamentou-o durante vários dias, e o profeta Jeremias compôs versos fúnebres em seu louvor, os quais ainda hoje são conhecidos. Esse profeta também predisse — e deixou por escrito — os males que haveriam de afligir Jerusalém e o cativeiro que sofremos sob os babilônios. Nisso ele não foi o único, pois o profeta Ezequiel, antes dele, compusera também dois livros sobre esse mesmo assunto. Eles eram ambos da casta sacerdotal, e Jeremias ficou em Jerusalém, desde o ano terceiro do reinado de Josias até a destruição da cidade e do Templo, como direi a seu tempo.
418.  Depois da morte de Josias, seu filho Jeoacaz, que ele tivera de Hamutal, sucedeu-o. Ele tinha vinte e três anos e foi muito ímpio. O rei do Egito, voltando da guerra de que acabamos de falar, mandou dizer-lhe que viesse a Hamate, que é uma cidade da Síria. Lá chegando, fê-lo prisioneiro e como rei em seu lugar colocou Eliaquim, seu irmão mais velho, porém filho de outra mãe, de nome Zebida, que era da cidade de Ruma. Deu ao novo rei o nome de Jeoaquim e obrigou-o a pagar todos os anos um tributo de cem talentos de prata e um talento de ouro. Levou Jeoacaz ao Egito, onde ele morreu. Jeoacaz reinou somente três meses e dez dias. O rei Jeoaquim, filho de Zebida, foi também um príncipe muito mau. Não tinha temor de Deus nem bondade para com os homens.

CAPÍTULO 7
NABUCODONOSOR, REI DA BABILÔNIA, DERROTA NECO, REI DO EGITO, NUMA
GRANDE BATALHA E TORNA JEOAQUIM, REI DEJUDÁ, SEU TRIBUTÁRIO.
JEREMIAS PREDIZ A JEOAQUIM AS DESGRAÇAS QUE LHE IRIAM SUCEDER,
E ESTE DESEJA MATAR O PROFETA.

419.   2 Reis 24. No quarto ano do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, Nabucodonosor, rei da Babilônia, avançou com um grande exército até a cidade de Carabesa, junto do Eufrates, para fazer guerra à Síria. O príncipe desse país veio ao combate com grandes forças, e travou-se a batalha junto desse rio. Ele foi vencido e obrigado a se retirar, com muitas perdas. Nabucodonosor passou depois o Eufrates e conquistou toda a Síria até Pelusa. Não entrou dessa vez na Judéia, mas no quarto ano de seu reinado, que era o oitavo de Jeoaquim, avançou com um poderoso exército e ameaçou fortemente os judeus, caso não lhe pagassem tributo. Jeoaquim, atônito, resolveu aceitar a paz e pagou o tributo durante três anos.
No ano seguinte, porém, ante o boato de que o rei do Egito iria fazer guerra ao da Babilônia, recusou-se a continuar pagando. Foi enganado, todavia, em suas esperanças. Os egípcios não se atreveram a combater os babilônios, como tantas vezes afirmara o profeta Jeremias — ele havia predito que isso não aconteceria e que Jeoaquim punha em vão a sua confiança no auxílio egípcio. Dissera ainda esse profeta que o rei da Babilônia tomaria Jerusalém e que os judeus seriam feitos escravos.
Por mais verdadeiras que fossem essas profecias, entretanto, ninguém nelas acreditava. Não somente o povo as desprezava, como também os grandes zombavam delas. E ficaram de tal modo enraivecidos pelo fato de ele só predizer desgraças que o denunciaram ao rei, pedindo que o mandasse matar. Ele entregou o assunto ao seu conselho, do qual a maior parte foi de opinião que o condenassem. Outros, mais sensatos, aconselharam-no a mandá-lo embora sem lhe fazer mal algum, porque ele não fora o único a profetizar as desgraças que deveriam acontecer a Jerusalém. O profeta Miquéias e outros ainda haviam profetizado a mesma coisa, sem que os reis que então viviam os tivessem maltratado por esse motivo. Ao contrário, haviam-nos honrado como profetas de Deus.
Assim, embora condenado à morte pela maior parte dos votos, Jeremias teve a sua vida preservada graças a esse conselho tão sensato. Ele escreveu todas essas profecias num livro e leu publicamente tudo o que nele havia escrito. Fez isso diante do povo que estava reunido no Templo depois de um jejum geral, no nono mês do quinto ano do reinado de Jeoaquim,- anunciando o que aconteceria à cidade, ao Templo e ao povo. Os principais da assembléia arrancaram-lhe o livro das mãos, disseram a ele e a Baruque, seu secretário, que se retirassem para um lugar onde eles não os pudessem encontrar e levaram o livro ao rei. Ele mandou que fosse lido e ficou tão irritado que o rasgou e jogou-o no fogo. Ordenou então que fossem buscar Jeremias e Baruque a fim de matá-los. Porém eles já haviam fugido para evitar o furor do rei.

CAPÍTULO 8
JEOAQUIM, REI DEJUDÁ, RECEBE NABUCODONOSOR, REI DA BABILÔNIA, EM JERUSALÉM, O QUAL LHE FALTA À PALAVRA E O MATA, BEM COM A VÁRIOS
OUTROS. LEVA ESCRAVOS TRÊS MIL DOS PRINCIPAIS JUDEUS, DENTRE OS
QUAIS O PROFETA EZEQUIEL. JOAQUIM É COLOCADO NO TRONO COMO REI DE
JUDÁ, NO LUGAR DE JEOAQUIM, SEU PAI.

420.  Pouco tempo depois, o rei Nabucodonosor veio com um grande exército, e o rei Jeoaquim, que não desconfiava dele e estava perturbado pelas predições do profeta, não se havia preparado para a guerra. Assim, ele o recebeu em Jerusalém, confiante na palavra que dera Nabucodonosor de não lhe fazer mal algum. Mas ele faltou à palavra: mandou matá-lo, juntamente com a fina flor da juventude da cidade, e ordenou que lançassem os corpos fora de Jerusalém, sem lhes dar sepultura. Depois de tal perfídia e de tão grande crueldade, ele constituiu como rei em lugar de Jeoaquim o filho deste, Joaquim (antes chamado Jeconias), e levou escravos para a Babilônia três mil dos principais judeus, dentre os quais estava o profeta Ezequiel, ainda muito jovem. Esse foi o fim de Jeoaquim, rei de Judá. Viveu apenas trinta e seis anos e reinou treze. Joaquim, seu filho, que ele tivera de Neústa, a qual era de Jerusalém, reinou somente três meses e dez dias.

CAPÍTULO 9
NABUCODONOSOR ARREPENDE-SE DE TER ESCOLHIDO JOAQUIM COMO REI.
MANDA BUSCÁ-LO COMO PRISIONEIRO, JUNTAMENTE COM SUA MÃE, OS
PRINCIPAIS AMIGOS E UM GRANDE NÚMERO DE HABITANTES DE
JERUSALÉM.

421.  Nabucodonosor arrependeu-se bem depressa de ter escolhido Joaquim para rei de Judá. Ele temia que o ressentimento pela maneira como fora tratado o pai levasse o filho a se revoltar, e mandou um grande exército sitiá-lo em Jerusalém. Sendo Joaquim um príncipe muito bom e justo, o seu amor pelos súditos e o desejo de preservá-los daquela tempestade levaram-no a entregar como refém a sua mãe e alguns de seus principais amigos e parentes aos comandantes do exército inimigo, depois de obter desses mesmos comandantes, sob juramento, a promessa de que não lhe fariam mal algum, nem à cidade. Não se passou um ano, porém, e Nabucodonosor faltou novamente à palavra. Ordenou aos seus generais que lhe enviassem prisioneiros todos os moços e artífices de Jerusalém. Elevou-se o seu número a dez mil oitocentos e trinta e dois, e entre eles estavam o próprio rei Joaquim, sua mãe e os seus principais servidores. O pérfido príncipe mandou que fossem guardados com o maior cuidado.

CAPÍTULO 10
NABUCODONOSOR CONSTITUI ZECLEQUIAS REI DEJUDÁ NO LUGAR DE
JOAQUIM. ZEDEQUIAS FAZ ALIANÇA CONTRA ELE COM O REI DO EGITO.
NABUCODONOSOR CERCA-O EM JERUSALÉM. O REI DO EGITO VEM EM SEU
AUXÍLIO. NABUCODONOSOR LEVANTA O CERCO PARA COMBATER O REI DO
EGITO, DERROTA-O E VOLTA PARA CONTINUAR O CERCO. O PROFETA JEREMIAS
PREDIZ TODAS AS DESGRAÇAS QUE DEVERÃO ACONTECER. METEM-NO NUMA
PRISÃO E DEPOIS NUM POÇO, PARA FAZÊ-LO MORRER. ZEDEQUIAS MANDA
RETIRÁ-LO E PERGUNTA-LHE O QUE DEVE FAZER. O PROFETA ACONSELHA-O A
ENTREGAR JERUSALÉM. ZEDEQUIAS DIZ NÃO PODER TOMAR TAL DECISÃO.

422. 2 Reis 25. Nabucodonosor, rei da Babilônia, constituiu Zedequias* rei de Judá no lugar de Joaquim, seu tio paterno, depois de fazê-lo prometer com juramento que seria fiel e não faria nenhum entendimento com os egípcios. O soberano tinha então somente vinte e um anos e era irmão de Jeoaquim — ambos eram filhos do rei Josias. Como mantinha junto de si apenas jovens de sua idade, que não eram homens de valor, mas ímpios, ele desprezava também a virtude e a justiça. O povo, à sua imitação, entregava-se a toda sorte de desordens.
O profeta Jeremias ordenou-lhe diversas vezes, da parte de Deus, que se arrependesse, se corrigisse e não acreditasse mais nos homens de mau Espírito que o rodeavam nem nos falsos profetas que o enganavam, afirmando que o rei da Babilônia não sitiaria Jerusalém e que o rei do Egito far-lhe-ia guerra e o venceria. As palavras do profeta fizeram impressão no Espírito do príncipe, e ele queria mesmo seguir aqueles conselhos. Mas os seus favoritos, que o manipulavam como queriam, faziam-no mudar de opinião.
Ezequiel, que estava então na Babilônia, como dissemos, predisse também a destruição do Templo e mandou dar a notícia a Jerusalém. Mas Zedequias não prestou fé às suas profecias porque, embora se assemelhassem em todo o resto com as de Jeremias, e os dois profetas estivessem de acordo no que se referia à ruína e ao cativeiro de Zedequias, parecia que eles não combinavam nisto: Ezequiel afirmava que ele não veria a Babilônia, e Jeremias sustentava que o rei da Babilônia o levaria prisioneiro para lá. Essa discordância fazia com que o rei não prestasse fé às profecias. Mas os fatos lhe mostraram a verdade, como diremos mais detalhadamente a seu tempo.
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* Zedequias antes chamava-se Matanias.

423.  Oito anos depois, Zedequias renunciou a aliança com o rei da Babilônia para fazer outra, com o rei do Egito, na esperança de que unindo com este as suas forças aquele não lhes pudesse resistir. Nabucodonosor, logo que soube disso, pôs-se em campo com um poderoso exército. Ele devastou a judéia, apoderou-se das maiores praças-fortes e sitiou Jerusalém. O rei do Egito veio com grandes forças em auxílio de Zedequias, e então o rei da Babilônia levantou o cerco para dar-lhe combate. Venceu-o numa grande batalha e o expulsou da Síria. Os falsos profetas, contudo, depois que Nabudonosor levantou o cerco, continuaram a enganar Zedequias, dizendo-lhe que, em vez de ter motivo para temor de que ele fizesse guerra novamente, veria logo o regresso dos seus súditos que estavam na Babilônia, com todos os vasos sagrados que haviam sido roubados do Templo.
Jeremias, ao contrário, afirmou que aqueles homens o enganavam ao dar-lhe tal confiança, pois ele nada deveria esperar do auxílio dos egípcios; que o rei da Babilônia os venceria; que voltaria para continuar o cerco e tomaria Jerusalém pela fome; que levaria escravizado para a Babilônia o que restasse dos habitantes, depois de os despojar de todos os seus bens; que saquearia o Templo e todos os seus tesouros e depois o incendiaria; que destruiria completamente a cidade; e que esse cativeiro duraria setenta anos, mas os persas e os medos destruiriam a Babilônia e seu império, e os hebreus, libertos por eles da escravidão, voltariam a Jerusalém e reconstruiriam o Templo.
As palavras de Jeremias persuadiram a muitos, no entanto os príncipes e os que como eles se vangloriavam de serem ímpios zombaram dele, como de um insensato. Algum tempo depois, indo esse profeta a Anatote, que era o lugar de seu nascimento, distante vinte estádios de Jerusalém, encontrou no caminho um dos magistrados, o qual o deteve e o acusou de estar indo procurar o rei da Babilônia. Jeremias respondeu-lhe que não tinha absolutamente aquela intenção, ia somente fazer uma visita à sua terra natal. O magistrado, não acreditando em suas palavras, levou-o perante o tribunal, para instaurar-se o processo. Declararam-no culpado e meteram-no numa prisão, para fazê-lo morrer.
424.  No nono ano do reinado de Zedequias, no décimo dia do último mês, o rei da Babilônia recomeçou o cerco de Jerusalém e durante dezoito meses empregou todos os esforços para apoderar-se dela. E as armas não eram o único meio de que esse soberano se servia para oprimir os seus habitantes. Eles eram ao mesmo tempo atormentados por dois dos mais temíveis flagelos: a fome e a peste, ambos violentos e graves. No entanto jeremias continuava a clamar e a exortar o povo a abrir as portas ao rei da Babilônia, pois não lhes restava outro meio de salvação, por maiores que fossem os males vindouros.
Os príncipes e os principais magistrados, em vez de se convencerem com as palavras do profeta, irritaram-se de tal sorte que o acusaram perante o rei de ser insensato e de procurar fazer com que eles e todo o povo perdessem a coragem, predizendo-lhes tantas desgraças. Quanto a eles, estavam dispostos a morrer pelo serviço do rei e pela sua pátria, ao passo que aquele sonhador, por meio de ameaças, os exortava a fugir, dizendo que a cidade seria tomada e que todos pereceriam.
O rei, por uma certa bondade natural e amor à justiça, não estava irritado contra Jeremias. Porém, temendo em tal contingência descontentar os maiorais do país, permitiu-lhes fazer o que quisessem. Foram eles então ao cárcere, tiraram de lá o profeta e o desceram por meio de cordas a um poço cheio de lama, a fim de que morresse afogado. Ele ficou ali, mergulhado até o pescoço. Entretanto um criado do rei, que era etíope e gozava de grande estima perante ele, contou-lhe o que se havia passado, dizendo que aqueles homens agiam errado ao tratar daquele modo o profeta e que seria muito melhor deixá-lo morrer na prisão. O rei, comovido com essas palavras, arrependeu-se de o ter deixado à discrição dos inimigos e ordenou ao etíope que tomasse trinta de seus oficiais e fosse imediatamente tirá-lo do poço. Ele executou a ordem no mesmo instante e colocou Jeremias em liberdade.
O rei, em segredo, mandou chamar Jeremias e perguntou se o profeta não conhecia um meio de obter de Deus um livramento do perigo que os ameaçava. Ele respondeu que sabia de um apenas, mas seria inútil dizê-lo, pois estava certo de que aqueles em quem o rei mais confiava, em vez de acreditar, se levantariam contra ele, como se estivesse cometendo um grande crime ao declará-lo, e procurariam eliminá-lo. Continuou o profeta: &quot;Onde estão agora aqueles que vos enganavam, dizendo com tanta certeza que o rei da Babilônia não voltaria? E, não deverei eu ter medo de dizer-vos a verdade, sendo que nisso vai a minha vida?&quot; O rei prometeu-lhe com juramento que ele não correria perigo algum, nem de sua parte nem da parte dos nobres.
Jeremias, tranqüilizado por essas palavras, disse-lhe que o conselho que lhe dava era por ordem de Deus. Ele deveria entregar a cidade aos babilônios, nas mãos do próprio rei, pois era o único meio de se salvarem e de impedir que a cidade fosse destruída e o Templo incendiado. Se não o fizesse, seria a causa de todos esses males. O rei respondeu que gostaria de seguir o conselho, mas temia que os seus, os quais se haviam passado para o lado do rei da Babilônia, viessem prejudicá-lo perante ele e até o matassem. Diante disso, o profeta garantiu-lhe que, se seguisse o seu conselho, nenhum mal sucederia a ele nem às suas mulheres e filhos e nem ao Templo.
O rei proibiu-o de contar a quem quer que fosse o que se passara entre ambos, particularmente aos nobres. Se lhe perguntassem o motivo da entrevista ou qualquer outra coisa, dissesse apenas que fora pedir para ser posto em liberdade. Os grandes e os nobres não deixaram de perguntar ao profeta o que se havia passado entre ele e o rei, e ele respondeu conforme o príncipe lhe havia ordenado.

CAPÍTULO 11
O EXÉRCITO DE NABUCODONOSOR TOMA JERUSALÉM, SAQUEIA O TEMPLO E
O QUEIMA, BEM COMO AO PALÁCIO REAL, DESTRUINDO COMPLETAMENTE A
CIDADE. NABUCODONOSOR MANDA MATAR SERAÍAS, SUMO SACERDOTE, E
VÁRIOS OUTROS. FAZ VAZAR OS OLHOS DE ZEDEQUIAS E LEVA-O ESCRAVO À
BABILÔNIA, BEM COMO UM GRANDE NÚMERO DE JUDEUS. ZEDEQUIAS
MORRE. NOMES DOS SUMOS SACERDOTES. GEDALIAS É CONSTITUÍDO POR
NABUCODONOSOR CHEFE DOS HEBREUS ESTABELECIDOS NA JUDÉIA. ISMAEL
MATA-O E LEVA OS PRISIONEIROS. JOÃO E SEUS AMIGOS PERSEGUEM-NO E
OS LIVRAM. RETIRAM-SE PARA O EGITO CONTRA O CONSELHO E A OPINIÃO DE
JEREMIAS. NABUCODONOSOR, APÓS VENCER O REI DO EGITO, LEVA OS
ESCRAVOS PARA A BABILÔNIA. FAZ EDUCAR COM MUITO CUIDADO AS
CRIANÇAS JUDIAS QUE ERAM DA NOBREZA. DANIEL E TRÊS DE SEUS
COMPANHEIROS, TODOS PARENTES DO REI ZEDEQUIAS, ESTÃO ENTRE ELES.
DANIEL, ENTÃO CHAMADO BELTESSAZAR, EXPLICA A NABUCODONOSOR UM
SONHO. O REI DIGNIFICA DANIEL E SEUS COMPANHEIROS COM OS MAIS
ALTOS CARGOS DO IMPÉRIO. OS TRÊS COMPANHEIROS DE DANIEL, SADRAQUE. MESAQUE E ABEDE-NEGO, RECUSAM-SE A ADORAR A ESTÁTUA QUE NABUCODONOSOR MANDOU FAZER. SÃO ATIRADOS A UMA FORNALHA ARDENTE, E DEUS OS SALVA. NABUCODONOSOR, DEPOIS DE OUTRO SONHO,
QUE DANIEL TAMBÉM IBE EXPLICA, PASSA SETE ANOS NO DESERTO COM OS
ANIMAIS. VOLTA AO SEU ESTADO PRIMITIVO. SUA MORTE. TRABALHOS
SOBERBOS POR ELE EXECUTADOS EM BABILÔNIA.

425. Nabucodonosor apertava cada vez mais o cerco. Mandou construir altas torres, com as quais sobrepassava as muralhas da cidade, e também grande quantidade de plataformas tão altas quanto os muros. Os habitantes, por sua vez, defendiam-se com todo o empenho e com toda a coragem possível, sem que a fome e a peste pudessem esmorecê-los. A coragem dava-lhes ânimo contra todos os males e perigos. E, sem se espantar com as máquinas de que seus inimigos se serviam, opunham-lhes outras. Assim, não era somente à força aberta, mas também com muita arte que a guerra transcorria entre essas duas valentes nações. Era principalmente por esse último meio que alguns esperavam conquistar a praça, e outros, ao invés, conservá-la.
Passaram-se dezoito meses desse modo. Por fim, os sitiados, consumidos pela fome, pela peste e pela quantidade de dardos que os inimigos lhes atiravam do alto das torres, cederam, e a cidade foi tomada pela meia-noite do décimo primeiro ano, no nono dia do quarto mês do reinado de Zedequias, por Nergelear, Aremante, Emegar, Nabazar e Ercarampsar, generais de Nabucodonosor que então estavam em Ribla. Eles marcharam diretamente para o Templo. O rei Zedequias, sua esposa, seus filhos, seus parentes e as pessoas da nobreza que ele mais estimava saíram da cidade para fugir por lugares desconhecidos rumo ao deserto.
Os babilônios, porém, foram avisados por um dos que eles haviam deixado de lado ao fugir, e ao despontar do dia puseram-se a persegui-los. Alcançaram-nos perto de Jerico e quase todos os que acompanhavam Zedequias o abandonaram. Ele foi aprisionado com sua mulher, seus filhos e os poucos que lhe restavam, e todos foram levados ao rei. Nabucodonosor chamou-o de ímpio e pérfido por faltar à promessa de lhe conservar inviolavelmente o reino, pois para isso pusera a coroa na sua cabeça. Reprovou-lhe a ingratidão, por esquecer-se da obrigação que lhe devia por tê-lo preferido a Joaquim, seu sobrinho, ao qual pertencia o reino, e por ter empregado contra o seu benfeitor o poder que este lhe concedera. E terminou com estas palavras: &quot;Mas o grande Deus, para castigar-vos, vos entregou em minhas mãos&quot;. Então, na presença dele e diante dos outros escravos, mandou matar os seus filhos e amigos. Vazou-lhe os olhos e ordenou que o acorrentassem para levá-lo escravo à Babilônia.
Assim, cumpriram-se ambas as profecias, a de Jeremias e a de Ezequiel, que esse desventurado príncipe tão erradamente desprezara: a de Jeremias, que afirmava que ele seria feito prisioneiro, seria levado a Nabucodonosor, falaria com ele e o veria face a face; a de Ezequiel, que dizia que ele seria levado à Babilônia, mas não a poderia ver. Esse exemplo ensina, mesmo aos mais ignorantes, o poder e a sabedoria infinita de Deus, que sabe fazer realizar por diversos meios e no tempo por Ele marcado tudo o que determina e prediz. Esse mesmo exemplo faz também ver a ignorância e incredulidade dos homens: a primeira os impede de prever o que lhes sucederá; a segunda faz com que eles caiam, quando menos esperam, na infelicidade e na desgraça de que foram ameaçados e só as conheçam quando as sentirem e quando não mais estiver em seu poder evitá-las.
Esse foi o fim da estirpe de Davi, depois que vinte e um reis seus descendentes sucessivamente ocuparam o trono e empunharam o cetro do reino de Judá. E todos os seus governos, juntamente, duraram quinhentos e quatorze anos, seis meses e dez dias.
Nabucodonosor, depois da vitória, enviou Nebuzaradã, general de seu exército, a Jerusalém, com ordem de incendiar o Templo após retirar de lá tudo o que encontrasse e de também reduzir a cinzas o palácio real e de destruir a cidade por completo. Deveria trazer depois todos os habitantes como escravos para a Babilônia. Assim, no décimo oitavo ano do reinado desse príncipe, que era o décimo primeiro do reinado de Zedequias, no primeiro dia do quinto mês, esse general, para executar tal ordem, despojou o Templo de tudo o que lá encontrou: levou todos os vasos de ouro e de prata, o grande vaso de cobre chamado mar, que Salomão mandara fazer, as duas colunas de bronze, as mesas e os candelabros de ouro. Em seguida, incendiou o Templo e o palácio real e destruiu completamente a cidade. Isso aconteceu quatrocentos e setenta anos, seis meses e dez dias desde a construção do Templo, mil seiscentos e dois anos, seis meses e dez dias desde a saída do Egito e mil novecentos e cinqüenta anos, seis meses e dez dias desde o dilúvio.
Nebuzaradã ordenou então que se levasse o povo como escravo para a Babilônia, até mesmo o rei, que então estava em Ribla, cidade da Síria, e também Seraías, sumo sacerdote, Cefã,* que era o segundo dos sacerdotes, os três oficiais a quem estava confiada a guarda do Templo, o primeiro dos eunucos, sete dos que desfrutavam maior favor perante Zedequias, o secretário de Estado e sessenta outras pessoas de classe, que ele apresentou ao príncipe com os despojos do Templo. Nabucodonosor, naquele mesmo lugar, mandou cortar a cabeça ao sumo sacerdote e aos mais nobres. Em seguida mandou levar para a Babilônia o rei Zedequias, Jeozadaque, filho de Seraías, e todos os outros escravos.
Depois de haver registrado a série dos reis que empunharam o cetro do povo de Deus, julgo dever referir também a dos sumos sacerdotes que se sucederam desde que Salomão construiu o Templo. O primeiro foi Zadoque, cujos descendentes foram: Aquimas, Azarias, Jorão, His, Aciorão, Fideas, Sudeas, Jul, Jotão, Urias, Nerias, Odeas, Saldum, Elcias, Seraías e jeozadaque, que foi levado escravo para a Babilônia.
O rei Zedequias morreu na prisão, e Nabucodonosor sepultou-o à maneira dos reis. Quanto aos despojos do Templo, ele os consagrou aos seus deuses. Enviou os escravos dentre o povo para certos lugares, nos arredores da Babilônia, a fim de que lá vivessem, e pôs Jeozadaque, sumo sacerdote, em liberdade.

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* Ou Sofonias.

426. Nebuzaradã, posto por Nabucodonosor como governador da Judéia, deixou lá o povo, os pobres e os fugitivos. Deu-lhes Gedalias, filho de Aicão, que era de família nobre e homem de bem, como governador e lhes impôs um tributo em favor do rei. O mesmo Nebuzaradã tirou Jeremias da prisão e rogou insistentemente ao profeta que o acompanhasse até a Babilônia, pois tinha ordem do rei, seu senhor, de ali fornecer-lhe tudo o que precisasse. E, caso não o quisesse seguir, bastava apenas dizer em que lugar gostaria de morar, a fim de comunicá-lo ao soberano. O profeta disse-lhe que não desejava nem uma coisa nem outra, mas desejava terminar os seus dias no meio das ruínas de sua pátria, para não perder de vista aquelas tristes relíquias de tão deplorável naufrágio. Nabuzaradã ordenou a Gedalias que tivesse dele um cuidado particular e, depois dar ao santo profeta grandes presentes e de conceder liberdade a Baruque, filho de Nerias, que também era de família nobre e muito instruída na língua de seu país, voltou para a Babilônia. Jeremias estabeleceu moradia na cidade de Mispa.
Quando os hebreus que haviam fugido durante o cerco de Jerusalém e se retirado a diversos lugares souberam do regresso dos babilônios ao seu país, vieram de todos os lados ter com Gedalias em Mispa. Os principais eram Jorão, filho de Careá, Jezanias, Seraías e alguns outros. Ismael, que era de família real, porém muito mau e fingido junto de Batal,* rei dos amonitas, veio também. Gedalias aconselhou-os a trabalharem as suas terras sem nada mais temer da parte dos babilônios, que com juramento haviam prometido ajudá-los, caso alguém os incomodasse. Eles precisavam tão-somente dizer em que cidade queriam estabelecer-se, e ele daria ordens para as necessárias reparações, a fim de torná-las habitáveis. E não deveriam deixar passar a estação sem trabalhar com afinco, para poderem recolher o trigo e fazer vinho e óleo para se alimentarem durante o inverno. Ele permitiu em seguida que escolhessem os lugares que desejavam cultivar.
Espalhou-se logo por várias províncias vizinhas da Judéia a notícia desse fato e da bondade com que Gedalias recebia todos os que se dirigiam a ele, dando-lhes terras para cultivar, com a condição de se pagar um tributo ao rei da Babilônia. Assim, muitos vieram procurá-lo de todos os lugares, e cada qual se pôs ao trabalho com entusiasmo. A grande humanidade de Gedalias granjeou-lhe depressa o afeto de João** e de todos os outros, até mesmo das pessoas mais importantes. E eles avisaram-no de que o rei dos amonitas enviara Ismael com o fim de matá-lo à traição e de se declarar rei de Israel, pois era de família real. O único meio de remediar o problema era ele permitir que matassem Ismael, a fim preservar o resto da nação da ruína que seria inevitável, caso Ismael cumprisse o seu perverso desígnio.
Ele respondeu que não havia a menor probabilidade de Ismael, que recebera dele somente benefícios, atentar contra a sua vida e que, não tendo feito más ações durante os dias difíceis que vivera, ousasse cometer agora tão grande crime contra o seu benfeitor, ao qual deveria ajudar com todas as suas forças se algum outro o combatesse. Mesmo que fosse verdade aquilo de que o avisavam, ele preferia correr o risco de ser assassinado a fazer morrer um homem que viera buscar asilo junto dele e que nele havia confiado.
Trinta dias depois, Ismael, acompanhado por dez de seus amigos, veio a Mispa visitar Gedalias — que os recebeu e tratou muito bem — e bebeu diversas vezes à saúde dele, para mostrar-lhe o seu afeto. Quando Ismael e os que com ele estavam perceberam que o vinho começava a perturbar Gedalias e que ele adormecera, mataram-no, bem como a todos os outros convidados, que haviam bebido bastante. Depois, auxiliados pela escuridão da noite, foram degolar os soldados babilônios e os judeus adormecidos na cidade.
No dia seguinte de manhã, cerca de oitenta pessoas vieram do campo oferecer presentes a Gedalias. Ismael disse-lhes que falassem com ele. Depois de entrarem na casa, Ismael e seus cúmplices mataram-nos e os lançaram num poço muito profundo, para que ninguém percebesse o que se passara, com exceção de uns poucos que lhe prometeram mostrar no campo o lugar onde haviam escondido móveis, vestes e trigo. Ismael aprisionou também alguns habitantes de Mispa, mulheres e crianças, entre as quais estavam as filhas do rei Zedequias, deixadas por Nebuzaradã sob a custódia de Gedalias. Esse péssimo homem, depois de cometer tantos crimes, pôs-se a caminho, para voltar ao rei dos amonitas.
João e outros homens da nobreza, seus amigos, ao saber o que se passara, ficaram muito irritados e reuniram o que puderam de homens armados, perseguiram Ismael e o alcançaram próximo da fronteira de Hebrom. Os que o acompanhavam pensaram que João e seus amigos vinham socorrê-los e passaram para o lado dele, com grandes demonstrações de alegria. Ismael, seguido apenas por uns oito dos seus, fugiu para o rei dos amonitas. João, seus amigos e os que ele havia salvado foram a Mandra, onde passaram todo aquele dia, mas ele teve a idéia de se dirigir para o Egito, temendo que os babilônios os mandassem matar por causa da morte de Gedalias, que eles lhes haviam dado como comandante. Antes, porém, foram se aconselhar com Jeremias. Rogaram-lhe que consultasse a Deus, prometendo com juramento fazer o que Ele ordenasse.
O profeta assim fez, e dez dias depois Deus lhe apareceu e ordenou que dissesse a João, a seus amigos e a todo o povo que se eles ficassem onde estavam cuidaria deles e impediria que os babilônios lhes fizessem mal. Se fossem para o Egito, porém, Ele os abandonaria e lhes infligiria, em sua cólera, os mesmos castigos que aplicara aos seus outros irmãos. Jeremias deu-lhes essa resposta da parte de Deus, mas eles não prestaram fé às suas palavras nem acreditaram que era por ordem de Deus que ele lhes ordenava ficar. Convenceram-se de que ele dava aquele conselho para ser agradável a Baruque, seu discípulo, e para expô-los ao furor dos babilônios. Desprezaram então as ordens de Deus e foram para o Egito, levando com eles também Jeremias e Baruque. Deus então falou ao seu profeta e ordenou-lhe que dissesse ao seu povo que o rei da Babilônia faria guerra ao rei do Egito e o venceria. Então parte deles seria morta, e o resto, levado como escravo para a Babilônia.
Os fatos confirmaram a veracidade dessa profecia, pois cinco anos depois da ruína de Jerusalém, que era o vigésimo terceiro ano do reinado de Nabucodonosor, esse soberano entrou com um grande exército na Baixa Síria e dela se apoderou. Venceu os amonitas e os moabitas e fez depois a guerra ao Egito. Conquistou-o, matou o rei que então governava e escolheu outro para o seu lugar. Em seguida, levou como escravos para a Babilônia todos os judeus que estavam no país.
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* Ou Baalis.
** Ou Joana.
 

427.  A nação dos hebreus estava então reduzida a esse estado miserável, e por dois fatos foi duas vezes levada para além do Eufrates. A primeira, quando sob o reinado de Oséias, rei de Israel, Salmaneser, rei dos assírios, depois de tomar Samaria, levou escravas dez tribos. A segunda quando Nabucodonosor, rei dos caldeus e dos babilônios, depois de tomar Jerusalém, levou as duas tribos que restavam. Salmaneser, porém, mandou para Samaria, da longínqua Pérsia e da Média, os chuteenses, para que a habitassem. Nabucodonosor, por sua vez, não mandou colônia alguma para as terras das duas tribos que derrotara. De modo que a Judéia, Jerusalém e o Templo ficaram desertos durante setenta anos. E assim, passaram-se cento e trinta anos, seis meses e dez dias desde o cativeiro das dez tribos que formavam o reino de Israel e o das duas que formavam o reino de Judá.
428.  Daniel 1. Dentre todos os filhos da nação judaica, parentes do rei Zedequias e outros de origem mais ilustre, Nabucodonosor escolheu os que eram mais perfeitos e competentes e deu-lhes preceptores e mestres para que os educassem e instruíssem com grande cuidado. A alguns fez eunucos, como costumava fazer a todas as nações que derrotava. Ordenou que os alimentassem com as mesmas iguarias de sua mesa e os fez aprender não somente a língua dos caldeus e dos babilônios, mas também todas as ciências em que esses povos eram peritos. Dentre os moços que eram parentes de Zedequias, havia quatro perfeitamente honestos e inteligentes: Daniel, Hananias, Misael e Azarias, porém Nabucodonosor trocou-lhes os nomes. Deu a Daniel o nome de Beltessazar e a Hananias chamou Sadraque, a Misael, Mesaque e a Azarias, Abede-Nego.
O excelente caráter deles, a beleza de sua inteligência e a sua grande sabedoria fez com que o príncipe lhes dedicasse um grande afeto. Eram tão sóbrios que preferiam comer apenas coisas simples, abstendo-se de seres vivos e das iguarias da mesa real. Assim, rogaram ao eunuco Aspenaz, sob cujos cuidados estavam, que tomasse para si o que era destinado a eles e lhes desse somente legumes, tâmaras e coisas semelhantes, que não tivessem tido vida, porque aqueles manjares os aborreciam. Ele respondeu que faria de muito boa vontade o que eles desejavam, mas temia que o rei viesse a percebê-lo pela mudança do rosto deles, porque a cor e a face têm sempre relação com o alimento que se come, e isso seria ressaltado ainda mais pela diferença entre eles e os outros moços, alimentados com melhores iguarias. Também não era justo que, para lhes ser agradável, ele se pusesse em risco de perder a vida.
Quando viram que o eunuco estava disposto a servi-los, continuaram a insistir e conseguiram dele permissão para experimentar pelo menos por uns seis dias essa maneira de se alimentar e depois continuá-la, se não causasse alteração na saúde deles. Caso fosse notada alguma mudança em seus rostos, retomariam à antiga nutrição. Ele consentiu e, depois de constatar que não somente eles não se apresentavam mal, como ainda pareciam mais fortes e robustos que os outros moços de sua idade alimentados com as comidas da mesa do rei, continuou sem temor a tomar para si o que era destinado a eles e a alimentá-los do modo como desejavam. O corpo deles tornou-se mais belo e mais apropriado para o trabalho, e a sua inteligência, mais pronta e capaz, porque não era enfraquecida pelas delícias que tornam os homens efeminados. Fizeram grande progresso nas ciências dos egípcios e dos caldeus, particularmente Daniel, que se dedicou também à interpretação dos sonhos, e Deus o favorecia com revelações.
429. Daniel 2. Dois anos depois da vitória obtida por Nabucodonosor sobre os egípcios, esse príncipe teve um sonho estranho, do qual Deus lhe deu a explicação enquanto ele dormia. Depois que acordou, porém, esqueceu o sonho e o seu significado. Por isso mandou chamar os maiores sábios dentre os caldeus, os que se dedicavam à predição do futuro, chamados magos devido à sua sabedoria. Disse-lhes que tivera um sonho, mas o havia esquecido, e ordenou-lhes que lhe dissessem qual era e o que significava. Eles responderam que era impossível aos homens o que ele desejava. Tudo o que podiam fazer era explicar o sonho depois que ele o tivesse narrado. O rei ameaçou-os de morte se não obedecessem, e, como continuassem a dizer a mesma coisa, mandou matá-los.
Daniel soube de tudo e, vendo que ele e seus companheiros corriam o mesmo risco, foi ter com Arioque, comandante da guarda real, para saber o motivo. Arioque contou, e então Daniel suplicou-lhe que rogasse ao rei para suspender a execução até o dia seguinte, porque estava confiante de que se pedisse a Deus para revelar o sonho, Ele ouviria a sua oração. O oficial foi referir tudo ao rei, e este consentiu em esperar. Daniel e seus companheiros passaram toda a noite em oração a fim de obter de Deus o livramento para os magos — e para eles também, pelo perigo em que os colocava a cólera do rei — e a manifestação do sonho que o rei havia esquecido. Deus, movido de compaixão, revelou a Daniel o sonho e o seu significado, para que fosse dizê-lo ao rei. A alegria de Daniel foi tão grande que ele se levantou no mesmo instante para comunicar aos companheiros a graça recebida de Deus. E, tendo-os encontrado muito tristes, pensando já na morte, animou-os a tomar coragem e alimentar maiores esperanças. Deram todos juntos muitas graças a Deus por ter tido piedade de sua juventude. Logo depois que raiou o dia, Daniel foi pedir a Arioque que o levasse à presença do rei, a fim de lhe dizer qual fora o sonho.
Apresentando-se diante do soberano, ele disse que, embora fosse lhe manifestar o sonho, rogava que o não julgasse mais hábil que os magos que não o puderam fazer, pois na realidade não era mais sábio que eles: a revelação que tivera foi motivada pela compaixão que Deus sentira pelo perigo em que ele e seus companheiros se encontravam, por isso Ele lhe revelara o sonho e a sua significação.
E acrescentou: &quot;Eu, majestade, não estava menos apreensivo pelo risco que corríamos eu e os meus companheiros que pela tristeza de ver a injustiça que vossa majestade cometeu, condenando à morte tantos homens de bem por não terem conseguido fazer uma coisa inteiramente impossível aos homens, por mais inteligentes que sejam, e que somente Deus pode fazer. E vossa majestade não estava menos apreensivo pelo risco que corria e estava ansioso para saber quem dominaria depois de vossa majestade sobre todo o mundo. Deus, para vos fazer conhecer esses monarcas, fez-vos ver em sonhos uma grande estátua, cuja cabeça era de ouro, os ombros e os braços de prata, o ventre e as coxas de bronze e as pernas e os pés de ferro. Vossa majestade viu depois uma pedra rolar da montanha sobre a estátua, quebrando-a em pedaços e reduzindo-a a um pó mais fino que a farinha, o qual o vento levou sem que tivesse ficado o menor vestígio. Por fim, vossa majestade viu essa pedra crescer de tal modo que esmagou com o seu peso toda a terra. Esse foi, majestade, o vosso sonho, e esta é a explicação: a cabeça de ouro representa os reis da Babilônia vossos predecessores. Os ombros e os braços de prata significam que o vosso império será destruído por dois reis poderosos. As coxas de bronze dizem que outro rei, vindo do lado do ocidente, destruirá esses dois reis. As pernas e os pés de ferro mostram que, sendo o ferro mais duro que o ouro, a prata e o cobre, virá um outro conquistador, que subjugará esse&quot;.
Daniel explicou também a Nabucodonosor o que significava a pedra, mas como o meu intento é narrar somente coisas passadas, e não as que estão por se realizar, nada mais direi. Se alguém desejar saber mais alguma coisa em particular, leia nas Sagradas Escrituras o livro de Daniel. Nabucodonosor, com transportes de alegria e de admiração por Daniel, prostrou-se diante dele para adorá-lo e ordenou a todos os seus súditos que lhe oferecessem sacrifícios, como ao seu Deus. Deu-lhe o nome daquEle que ele reconhecia antes por Deus e honrou-o, bem como aos seus parentes, com os primeiros cargos no seu império. Essa rápida e prodigiosa felicidade suscitou tão grande inveja contra essas quatro pessoas que poderia lhes ter custado a vida, como direi a seguir.
430.  Daniel 3. Nabucodonosor mandou fazer uma estátua de ouro de sessenta côvados de altura e seis de largura, que foi colocada no grande campo da Babilônia. Quando de sua consagração, mandou vir de todas as partes de seu território as pessoas mais importantes e ordenou que ao primeiro som de trom-betas todos se prostrassem por terra para adorá-la, sob pena de ser lançado numa fornalha ardente quem não o fizesse. Todos obedeceram à ordem, exceto os amigos de Daniel, que disseram não poder fazê-lo sem violar as leis de seu país. Imediatamente acusaram-nos, e foram lançados na fornalha. Mas Deus os salvou por um efeito de seu infinito poder: o fogo, parecendo reconhecer a sua inocência, respeitava-os, em vez de consumi-los. Eles venceram as chamas, e tão grande milagre aumentou ainda mais o respeito e a estima que o rei já lhes devotava, porque os considerava pessoas de virtude extraordinária e muito particularmente queridos de Deus.
431.  Daniel 4. Algum tempo depois, o príncipe teve outro sonho, no qual parecia que ele fora privado do reino e passara sete anos no deserto com os animais, sendo em seguida restaurado à primitiva dignidade. Mandou chamar os magos, contou-lhes o sonho e perguntou qual o seu significado. Mas nenhum deles soube responder. Daniel foi o único a explicá-lo, com tal perfeição que tudo o que disse depois se realizou. O príncipe tornou a subir ao trono depois de haver passado sete anos no deserto e aplacado a cólera de Deus com uma grande penitência, sem que ninguém durante todo esse tempo ousasse apoderar-se do trono. Quanto a isso, não devo ser censurado por narrar o que se pode ler nas Sagradas Escrituras, pois desde o princípio desta minha história preveni-me dessa acusação, declarando que não pretendia fazer outra coisa senão escrever em grego, em boa fé, o que encontro nos livros dos hebreus, sem nada aumentar nem diminuir.
432.  Nabucodonosor morreu após reinar quarenta e três anos. Era um príncipe muito inteligente e foi muito mais feliz que os seus predecessores. Berose assim o descreve, no seu terceiro livro da História dos Caldeus: &quot;Nabopolassar, pai daquele de quem acabamos de falar, tendo sabido que os governadores que ele pusera no Egito, na Baixa Síria e na Fenícia se haviam revoltado contra ele e não estando mais na idade de suportar as dificuldades de uma guerra contra eles, enviou Nabucodonosor, seu filho, com uma parte de suas forças. O jovem príncipe venceu os rebeldes, recolocou todas as províncias sob a obediência do rei seu pai e, tendo sabido que naquele mesmo tempo este morrera na Babilônia, após reinar vinte e um anos, passou a dirigir os destinos do Egito e das outras províncias. Deixou aos oficiais em quem mais confiava o encargo de levar o seu exército para a Babilônia com os escravos judeus, sírios, fenícios e egípcios. Acompanhado por alguns poucos, passou pelo deserto e marchou rapidamente. Depois de chegar, governou o império que fora administrado na sua ausência pelos magos caldeus, dos quais o principal e de maior autoridade nada levara tanto a peito para conservar-lhe o trono. E assim, ele sucedeu em todo o reino ao rei seu pai. Uma das primeiras coisas que fez foi distribuir em colônias os escravos recém-chegados. Consagrou no templo de Bel, seu deus, e em outros templos os ricos despojos que havia conquistado. Não se contentou em restaurar os antigos edifícios de Babilônia: aumentou também a cidade e fortificou o canal. Para impedir que a atacassem e a pudessem tomar depois de atravessar o rio, mandou fazer outro dentro. E fora, ergueu uma tríplice muralha, muito alta, de tijolos refratários. Fortificou também todas as outras partes da cidade. Fez portas monumentais e construiu um novo palácio perto do que fora do falecido rei seu pai, do qual seria inútil referir a beleza e a magnificência. Não poderia mesmo eu dizer que esse soberbo edifício foi construído em quinze dias. E, como a rainha, sua mulher, que fora educada na Média, desejava ver alguma semelhança com o seu país, mandou fazer, para lhe ser agradável, arcos por cima desse palácio, com grandes pedras que pareciam montes. Mandou cobrir esses arcos com terra e plantou sobre eles uma tal quantidade de árvores de todas as espécies que esse jardim, suspenso no ar, passou a ser uma das maravilhas do mundo&quot;.
Megastene, no seu quarto livro da História das índias, faz menção desse admirável jardim e procura provar que esse príncipe sobrepujou muito a Hércules pela grandeza de seus feitos e conquistou não somente a capital da África, mas também a Espanha. Diocles também o cita na História da Pérsia, e Filóstrato, na da índia e da Fenícia, declarando que ele sitiou durante trinta anos a cidade de Tiro, da qual Stobal então era rei. Eis tudo o que pude encontrar nos vários historiadores com relação a esse príncipe.

CAPÍTULO 12
MORTE DE NABUCODONOSOR, REI DA BABILÔNIA. EVIL-MERODAQUE, SEU
FILHO, SUCEDE-O E PÕE JECONIAS, REI DE JUDÁ, EM LIBERDADE. SÉRIE DOS
REIS DA BABILÔNIA ATÉ BELSAZAR. CIRO, REI DA PÉRSIA, E DARIO, REI DOS
MEDOS, CERCAM-NO NA BABILÔNIA. VISÃO QUE ELE TEM, EXPLICADA POR
DANIEL. CIRO TOMA A BABILÔNIA E APRISIONA O REI BELSAZAR. DARIO
LEVA DANIEL PARA A MÉDIA E O ELEVA A GRANDES HONRAS. A INVEJA DOS
NOBRES CONTRA ELE É CAUSA DE ELE SER LANÇADO NA COVA DOS LEÕES.
DEUS O SALVA, E ELE TORNA-SE MAIS PODEROSO DO QUE NUNCA.
SUAS PROFECIAS E SEU LOUVOR.

433.  Depois da morte do rei Nabucodonosor, de que acabamos de falar, Evil-Merodaque, seu filho, sucedeu-o e não somente pôs Jeconias (que antes se chamava Joaquim), rei de Judá, em liberdade, como também deu-lhe ricos presentes, tornou-o mordomo-mor de seu palácio e dedicou a ele um afeto muito particular. E assim, tratou-o de uma maneira bem diferente da que Nabucodonosor o havia tratado, quando o amor pelo bem de seu país, como vimos, o fez entregar-se em boa fé nas mãos deste, com sua mulher, seus filhos e todos os seus bens, para que fosse levantado o cerco de Jerusalém, sendo que Nabucodonosor lhe faltou à palavra.
Evil-Merodaque reinou dezoito anos. Niglizar, seu filho, sucedeu-o e reinou quarenta anos. Seu filho Labofordá, que o sucedeu, reinou somente nove meses. Belsazar, filho deste, a quem os babilônios chamam Naboandel, substituiu-o. Ciro, rei dos persas, e Dario, rei dos medos, fizeram-lhe guerra e o sitiaram na Babilônia.
434.  Daniel 5. Enquanto a cidade era cercada, esse soberano oferecia um banquete aos nobres da corte e às suas concubinas numa sala onde havia um armário riquíssimo, em que se conservavam os preciosos vasos de que os reis se costumam servir. A isso ele quis acrescentar uma nova magnificência e ordenou então que fossem trazidos os vasos sagrados do templo de Jerusalém, os quais Nabucodonosor mandara colocar junto com os de seus deuses, porque não se atrevera a servir-se deles. Como Belsazar estava turvado pelo vinho, teve a ousadia de beber num daqueles vasos e de blasfemar contra Deus. No mesmo instante, ele viu uma mão sair da parede e escrever nela algumas palavras.
A visão deixou-o atônito, e ele mandou buscar da Caldéia e de outras nações alguns dos maiores sábios que sabiam interpretar os sonhos e ordenou-lhes que dissessem o significado daquelas palavras. Eles responderam que era impossível. O seu sofrimento aumentou de tal modo que ele mandou apregoar que daria uma cadeia de ouro, uma túnica de púrpura, como as que usam os reis da Caldéia, e a terça parte do reino a quem interpretasse aquelas palavras.
A promessa de tão grande recompensa fez chegar de todos os lados candidatos que passavam pelos mais hábeis e peritos. Todavia, por maiores esforços que todos fizessem, ninguém foi capaz de interpretá-las. A princesa sua avó, vendo-o em tal aflição, disse-lhe para não perder a esperança de que alguém lhe desse a explicação que desejava, porque havia entre os escravos que Nabucodonosor trouxera para a Babilônia depois da ruína de Jerusalém um certo Daniel, cuja ciência era extraordinária. Ele explicava coisas que somente eram conhecidas por Deus e interpretara um sonho que nenhum outro conseguira explicar. Precisava apenas mandar chamá-lo e dizer-lhe do seu desejo de saber o significado daquelas palavras, pois talvez até fosse algo inquietante que Deus quisesse comunicar.
Diante de tal conselho, Belsazar mandou imediatamente chamar Daniel, disse-lhe o quanto se sentia feliz por saber que ele recebera de Deus o dom de penetrar e conhecer o que os outros ignoravam e rogou que lhe dissesse o que significavam as palavras escritas naquela parede, prometendo-lhe, se o fizesse, dar-lhe uma túnica de púrpura, uma cadeia de ouro e a terça parte de seu reino, para mostrar a todos, com aquelas demonstrações de honra, a sua sabedoria, quando fosse conhecida a causa de ele merecê-las. Daniel, ciente de que a sabedoria que vem de Deus deve sempre ter em vista fazer o bem sem pretender outra recompensa, suplicou ao rei que o dispensasse de aceitá-las.
Disse-lhe em seguida que aquelas palavras significavam que o fim da vida de Belsazar estava próximo, porque ele não havia aprendido com o castigo com o qual Deus punira a impiedade de Nabucodonosor e nem aproveitara aquele exemplo para evitar colocar-se acima da sua condição de simples homem, pois não podia ignorar que aquele príncipe fora obrigado a viver durante sete anos à maneira dos animais e que só depois de muitas preces Deus, movido pela compaixão, o reconduziu ao convívio dos homens e o restabeleceu no trono. E Nabucodonosor foi tão grato que pelo resto de sua vida não deixou de dar a Deus contínuas ações de graças e de admirar o seu poder onipotente. No entanto Belsazar, em vez de se deixar levar por aquele exemplo, não tivera medo de blasfemar contra Deus e de beber com as suas concubinas nos vasos consagrados em honra dEle. Por isso Ele estava tão irritado que desejou manifestar por meio daquelas palavras qual seria o fim de sua vida.
Daniel acrescentou ainda que esta era a explicação das palavras: Mene, isto é, &quot;número&quot;, significava que o número que Deus marcara aos anos do reinado de Belsazar iria se completar, e lhe restava muito pouco tempo de vida. Tequel, isto é, &quot;peso&quot;, significava que Deus havia pesado na sua justa balança a duração daquele reinado, e que ele tendia ao fim. Peres, que quer dizer &quot;fragmento&quot; e &quot;divisão&quot;, significava que o reino seria dividido entre os medos e os persas. Por maior que fosse a dor que sentia, o rei Belsazar, sabendo pela explicação dessas palavras misteriosas as desgraças que o aguardavam, julgou que Daniel agira como um homem de bem e lhe dissera somente a verdade, e seria muito injusto maltratá-lo por essa razão. Por isso não deixou de o recompensar, dando-lhe o que prometera.
435. Naquela mesma noite, Babilônia foi tomada e Belsazar, morto. Isso aconteceu no dédicmo sétimo ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia. Dario, filho de Astíages, ao qual os gregos dão outro nome, tinha sessenta e dois anos quando, com o auxílio de Ciro, seu parente, destruiu o império da Babilônia. Levou consigo para a Média o profeta Daniel e, para mostrar até que ponto o estimava, nomeou-o um dos três governadores supremos, cujo poder se estendia sobre outros trezentos e sessenta, pois o considerava um homem todo divino e só se aconselhava com ele nos assuntos mais importantes.
Os outros ministros, como geralmente acontece na corte dos reis, não podendo tolerar que ele fosse tão preferido, sentiram tal inveja que tudo fizeram para encontrar um motivo de caluniá-lo. Mas isso lhes foi impossível, porque a virtude de Daniel era tão grande e as suas mãos tão puras que ele julgava que seriam manchadas se recebessem presentes e considerava coisa vergonhosa desejar recompensa pelo bem que se faz. Eles, porém, não se arrependeram nem desistiram. E, faltando-lhes outros meios, imaginaram um pelo qual, pensaram, poderiam destruí-lo.
Tendo notado que três vezes por dia ele fazia as suas orações a Deus, foram ter com o rei e disseram-lhe que todos os grandes e governadores do império haviam julgado conveniente elaborar um edito pelo qual seria proibido a todos os súditos, durante trinta dias, fazer orações a qualquer deus ou a qualquer homem, senão a ele, o rei, devendo ser lançados na cova dos leões todos os que desprezassem essa ordem. Dario, que não desconfiava de sua malícia, aceitou a proposta e mandou publicar esse edito em todo o seu território. Todos o observaram, exceto Daniel, que sem se impressionar continuou a fazer as suas orações a Deus, como era seu costume.
Os seus inimigos não deixaram de ir imediatamente ao rei acusá-lo de ter violado a ordem. Afirmaram que ele fora o único a ousar desobedecer, e era tanto mais culpado porque não o fizera por um sentimento de piedade apenas, mas por saber que aqueles que não o estimavam observavam as suas ações. E, como esses nobres temiam que a grande afeição de Dario por Daniel o levasse a perdoá-lo, insistiram tanto em que fosse inflexível em fazer observar o seu edito e ordenasse que Daniel fosse atirado na cova dos leões que não lhe foi possível defender-se. Mas ele esperava que Deus libertasse Daniel do furor daqueles temíveis animais e exortou-o a suportar generosamente a sua desdita. E assim, foi Daniel atirado àquele lugar, e fecharam a porta com uma grande pedra. Dario mandou selá-la com o seu sinete e voltou para o palácio imerso em tão grande aflição pelo que poderia acontecer a Daniel que não quis comer e passou toda a noite sem dormir.
No dia seguinte, ao despontar do sol, o rei foi à cova dos leões e viu que o seu selo estava intacto. Chamou Daniel por uma abertura que havia na entrada e perguntou, gritando com todas as suas forças, se ele ainda estava vivo. Daniel respondeu que não sofrerá mal algum, e o soberano no mesmo instante mandou que o retirassem de lá. Os inimigos de Daniel, em vez de reconhecerem que Deus o salvara por um milagre, disseram ousadamente ao rei que aquilo acontecera porque antes se dera demasiado alimento aos leões, os quais, não tendo mais fome, não o quiseram devorar. O rei ofendeu-se com a malícia deles e ordenou que se desse grande quantidade de carne aos leões e que depois de eles estarem fartos fossem atirados à cova os acusadores de Daniel, para ver se os animais os poupariam, como diziam haverem poupado Daniel. A ordem foi imediatamente executada, e ninguém mais pôde duvidar de que Deus salvara Daniel, porque os leões devoraram os caluniadores com tanta avidez que pareciam os mais esfomeados do mundo. Minha opinião, porém, é que foi o crime desses malvados, e não a fome, o que irritou os leões contra eles, porque Deus quis que esses animais irracionais fossem ministros de sua justiça e de sua vingança.
Depois que os inimigos de Daniel foram assim punidos, Dario mandou publicar em todo o seu território que o Deus que Daniel adorava era o único verdadeiro e Todo-poderoso e elevou esse grande personagem a tão alto grau de honras que ninguém duvidava que ele fosse o homem mais estimado pelo rei em todo o império, e todos admiravam tão grande glória e tão extraordinário favorecimento da parte de Deus.
Dario mandou construir em Ecbátana,* capital da Média, um soberbo palácio, que ainda hoje se vê e que parece ter sido recém-concluído, pois conserva o seu primitivo brilho, ao contrário do comum dos edifícios, aos quais o tempo apaga a beleza, envelhecendo-os como aos homens. É nesse palácio que está a sepultura dos reis dos medos, dos persas e dos partos. A sua guarda ainda hoje está confiada a um sacerdote de nossa nação.
Nada encontro de mais admirável nesse grande profeta que esta felicidade particular e quase incrível de que desfrutou, acima dos demais: ter sido durante toda a sua vida honrado pelos reis e pelos povos e deixar depois de sua morte uma memória imortal. Os livros que ele escreveu, lidos ainda hoje, comprovam que Deus mesmo lhe falou e que ele não somente predisse em geral, como os outros profetas, as coisas que deviam acontecer, mas também determinou o tempo em que sucederiam. E, enquanto eles prediziam somente desgraças, o que os tornava odiosos aos soberanos e aos súditos, ele predisse coisas favoráveis, que levaram os reis a amá-lo. E a veracidade de suas palavras, confirmada depois pelos fatos, fez com que todos não somente prestassem fé às suas palavras, mas cressem que havia nele algo de divino.
Narrarei uma de suas profecias, para mostrar como eram corretas. Ele disse que, tendo saído com os seus companheiros da cidade de Susã, que é a capital do reino da Pérsia, para tomar ar no campo, houve um tremor de terra, que surpreendeu e espantou de tal modo os que estavam com ele que todos fugiram e o deixaram sozinho. Ele lançou-se então com o rosto em terra e, estando assim nesse estado, percebeu que alguém o tocava e lhe dizia para levantar, a fim de ver as coisas que sucederiam muito tempo depois aos de sua nação.
Depois que ele se ergueu, viu um carneiro que tinha vários chifres, sendo o último maior que os outros. Voltando os olhos para o lado do ocidente, viu aproximar-se um bode, que se chocou com o carneiro, derrubou-o e o pisou. Viu depois sair da fronte desse bode um chifre bem grande, que foi quebrado, e dele saíram outros quatro, voltados para os quatro ventos. Entre esses quatro chifres, surgiu um menor. Deus lhe disse que esse chifre, quando crescesse, faria guerra à sua nação, tomaria Jerusalém, aboliria todas as cerimônias do Templo e durante mil e duzentos e noventa e seis dias proibiria que ali se oferecessem sacrifícios.
Depois que Deus lhe manifestou essa visão, explicou-a deste modo: o carneiro significava o império dos medos e dos persas, cujos reis eram representados pelos chifres. O maior era o último deles, porque sobrepujava a todos em riquezas e em poder. O bode significava que viria da Grécia um rei que venceria os persas e se tornaria senhor daquele grande império — o chifre grande significava esse rei. Os quatro chifres pequenos nascidos desse grande chifre e que se dirigiam para as quatro partes do mundo representavam aqueles que depois da morte desse soberano dividiriam entre si esse grande império, embora não fossem nem seus filhos nem seus descendentes. Eles reinariam durante vários anos, e de sua posteridade viria um rei que faria guerra aos judeus, aboliria todas as suas leis e toda a forma de sua república, saquearia o Templo e durante três anos proibiria que ali se oferecessem sacrifícios. Isso tudo aconteceu sob o reinado de Antíoco Epifânio.
Esse grande profeta deu também notícia do império de Roma e da extrema desolação a que reduziria o nosso país. Deus lhe tornou patentes todas essas coisas, e ele as deixou por escrito para serem admiradas pelos que lhe vissem os efeitos, para mostrar os favores que recebera dEle e para confundir os erros dos epicureus, que, em vez de adorarem a Providência, dizem que Ele não se importa com os interesses deste mundo e que a terra não é conservada nem governada por essa suprema Essência, igualmente bem-aventurada, incorruptível e onipotente, mas subsiste por si mesma. Se eles considerassem verdade o que dizem, ver-se-iam logo perecendo como um navio que, não tendo piloto, é batido pela tempestade ou como um carro sem condutor, que é arrastado pelos cavalos. Não pode haver melhor prova que as profecias de Daniel para nos fazer constatar a loucura de quem não aceita que Deus tenha cuidado com o que se passa sobre a terra. Pois se tudo o que acontece no mundo é por acaso, como explicar o cumprimento de todas essas profecias? Julguei meu dever relatar tudo isso conforme o que encontrei nos Livros Santos, mas deixo a cada qual liberdade para ter outras opiniões ou acreditar no que quiser.

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* Ou Acmetá.

Livro Décimo Primeiro

CAPÍTULO 1
CIRO, REI DA PÉRSIA, PERMITE QUE OS JUDEUS VOLTEM AO SEU PAÍS E RECONSTRUAM JERUSALÉM E O TEMPLO.

436. Esdras 1 e Neemias 3. No primeiro ano do reinado de Ciro, rei dos persas, setenta anos depois que as tribos de Judá e de Benjamim foram levadas escravas para a Babilônia, Deus, tocado de compaixão pelo sofrimento delas, realizou o que havia predito pelo profeta Jeremias, antes mesmo da ruína de Jerusalém: que, passados setenta anos em dura escravidão, sob Nabucodonosor e seus descendentes, voltaríamos ao nosso país, reconstruiríamos o Templo e desfrutaríamos a nossa primeira felicidade. Assim, pôs Ele no coração de Ciro escrever uma carta e enviá-la por toda a Ásia. Eis o que declara o rei Ciro: &quot;Cremos que o Deus Todo-poderoso, que nos constituiu rei de toda a terra é o Deus que o povo de Israel adora, pois Ele predisse por meio de seus profetas que nós traríamos o nome que trazemos e reconstruiríamos o Templo em Jerusalém, na Judéia, consagrado à sua honra&quot;.
Esse soberano falava assim porque lera nas profecias de Isaías, escritas duzentos e dez anos antes que ele tivesse nascido e cento e quarenta anos antes da destruição do Templo, que Deus lhe tinha feito saber que constituiria a Ciro rei sobre várias nações e inspirar-lhe-ia a resolução de fazer o povo voltar a Jerusalém para reconstruir o Templo. Essa profecia causou-lhe tal admiração que, desejando realizá-la, mandou reunir na Babilônia os principais dos judeus e anunciou que lhes permitia voltar ao seu país e reconstruir a cidade de Jerusalém e o Templo, que eles não deveriam duvidar de que Deus os auxiliaria nesse desígnio e que escreveria aos príncipes e governadores de suas províncias vizinhas da judéia para que lhes fornecessem o ouro e a prata de que iriam precisar e as vítimas para os sacrifícios.
Depois desse favor, os chefes das tribos de Judá e de Benjamim dirigiram-se imediatamente a Jerusalém com sacerdotes e levitas. Os que não quiseram deixar os seus bens ficaram na Babilônia. Chegaram depois os nobres aos quais o rei havia escrito e contribuíram com ouro e prata. Alguns deram-lhe animais, como cavalos. Outros, que haviam feito votos, ofereciam sacrifícios solenes para cumpri-los, tal como fariam se tivessem de começar a construir a cidade e realizar pela primeira vez as cerimônias que nossos pais observavam.
Ciro restituiu nesse mesmo tempo os vasos sagrados tomados do Templo no reinado de Nabucodonosor e que haviam sido levados para a Babilônia. Encarregou disso Mitredate, seu tesoureiro-mor, com ordem de confiá-los aos cuidados de Sesbazar, para os que guardasse até que o Templo fosse reconstituído e os entregasse então aos sacerdotes e aos principais dos judeus, para que fossem recolocados no Templo.
Escreveu também esta carta aos governadores da Síria: &quot;O rei Ciro, a Sisina* e a Sarabazam, saudação. Nós permitimos a todos os judeus que moram em nosso território e que quiserem voltar ao seu país que para lá se retirem com toda liberdade e reconstruam a cidade de Jerusalém e o Templo de Deus. Enviamos Zorobabel, seu príncipe, e Mitredate, nosso tesoureiro-mor, para que lhe lancem os alicerces e o elevem à altura de sessenta côvados, com a mesma largura, e três ordens de pedras polidas e uma da madeira que existe naquela província. Queremos também que lá se erga um altar para se oferecerem sacrifícios a Deus e entendemos que todas as despesas sejam feitas por nossa conta. Restituímos também, por meio de Mitredate e de Zorobabel, os vasos sagrados que o rei Nabucodonosor retirou do Templo, para que lá sejam recolocados. Seu número é de cinqüenta bacias de ouro e quatrocentas de prata; cinqüenta vasos de ouro e quatrocentos de prata; cinqüenta baldes de ouro e quinhentos de prata; trinta grandes pratos de ouro e trezentos de prata; trinta grandes taças de ouro e duas mil e quatrocentas de prata; e, além disso, mil outros grandes vasos. Concedemos ainda aos judeus as mesmas rendas de que seus predecessores desfrutavam e lhes damos como compensação animais, vinho e óleo, duzentas e cinco mil e quinhentas medidas de trigo, que queremos que sejam tomadas nas terras de .Samaria. Os sacerdotes oferecerão a Deus todas as vítimas em Jerusalém, segundo a lei de Moisés, e rogarão pela nossa prosperidade, pela de nossos descendentes e pelo império dos persas. E, se alguns forem tão obstinados que não queiram obedecer às nossas ordens, queremos que sejam crucificados e que os seus bens sejam confiscados em nosso proveito&quot;. Era o que diziam as cartas de Ciro. O número de judeus que voltaram a Jerusalém foi de quarenta e dois mil quatrocentos e sessenta e dois.

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* Ou Tatenai.

CAPÍTULO 2
OS JUDEUS COMEÇAM A RECONSTRUIR JERUSALÉM E O TEMPLO. DEPOIS DA
MORTE DE CIRO, OS SAMARITANOS E AS OUTRAS NAÇÕES VIZINHAS
ESCREVEM AO REI CATNBISES, SEU FILHO, PARA QUE MANDE
SUSPENDER O TRABALHO.

437. Esdras 4. Depois da ordem expedida por Ciro, os judeus lançaram os alicerces do Templo e trabalharam com ardor para reconstruí-lo. As nações vizinhas, particularmente os chuteenses, que Salmaneser, rei da Assíria, fizera vir da Pérsia e da Média para povoar Samaria depois de haver levado os israelitas, pediram aos governadores e aos que tinham o encargo da direção dessa obra que ordenassem aos israelitas cessar os trabalhos e suspender a reconstrução da cidade. Esses indivíduos, subornados por elas, venderam-lhes a negligência com a qual executaram a sua comissão, mas Ciro não lhes deu atenção porque estava ocupado com a guerra contra os massagetas, na qual veio a morrer.
Cambises,* seu filho, sucedeu-o, e logo que subiu ao trono os sírios, os fenícios, os amonitas, os moabitas e os samaritanos escreveram-lhe esta carta: &quot;Majestade, Reum, vosso chanceler, Sinsai, vosso secretário, e todos os outros oficiais da Síria e da Fenícia, vossos servidores. Nós nos julgamos obrigados a vos advertir de que os judeus, que haviam sido transferidos para a Babilônia, retornaram a este país. Eles reconstroem a sua cidade, que foi destruída por causa de sua revolta. Eles ergueram novamente as suas muralhas, estabeleceram os seus mercados, e também reconstroem o Templo. Se isso lhes for mesmo permitido, majestade, e eles continuarem os trabalhos, logo que os terminarem certamente hão de se recusar a pagar o tributo a vossa majestade e a fazer o que vossa majestade lhes determinar, porque estão sempre prontos a opor-se aos reis, pela sua inclinação a querer mandar e nunca obedecer. Por isso, vendo com que entusiasmo eles trabalham na reconstrução do Templo, julgamos nosso dever avisar vossa majestade que, se vos aprouver ler os registros dos reis vossos prede-cessores, vereis que os judeus são naturalmente inimigos dos soberanos e que por esse motivo a sua cidade foi destruída. A isso podemos acrescentar que, se vossa majestade permitir que eles a reconstruam e a cerquem de novo com muralhas, eles vos fecharão a passagem da Fenícia e da Baixa Síria&quot;.

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* Ou Artaxerxes.

CAPÍTULO 3
CAMBISES, REI DOS PERSAS, PROÍBE AOS JUDEUS CONTINUAR A RECONSTRUIR
O TEMPLO E JERUSALÉM. ELE MORRE AO SEU REGRESSO DO EGITO. OS MAGOS
GOVERNAM O REINO DURANTE UM ANO. DARIO É CONSTITUÍDO REI.

438. Essa carta deixou Cambises muito irritado. E, sendo naturalmente mau, respondeu: &quot;O rei Cambises, a Reum, nosso chanceler, a Sinsai, nosso secretário, a Belcem e aos outros habitantes de Samaria e da Fenícia, saudação. Depois de receber a vossa carta, mandamos consultar o registro dos reis nossos predecessores e lá encontramos que a cidade de Jerusalém foi sempre, desde todos os tempos, inimiga dos reis, que os seus habitantes são sediciosos, sempre prontos a se revoltar, e que ela foi governada por príncipes poderosos e muito empreendedores, os quais exigiram à força grandes tributos da Síria e da Fenícia. Para impedir que o atrevimento desse povo possa levá-lo a novas rebeliões, proibimos que eles continuem a reconstruir a cidade&quot;.
Mal receberam essa carta, Reum, Sinsai e os outros rumaram para Jerusalém com um grande séquito e proibiram aos judeus reconstruir a cidade e o Templo. Assim, o trabalho ficou interrompido durante nove anos, até o segundo ano do reinado de Dario, rei da Pérsia. Cambises reinou apenas dois anos e morreu em Damasco, ao seu regresso do Egito, que ele havia subjugado. Os magos, depois de sua morte, governaram o reino durante um ano, com poder absoluto. Mas os chefes das sete principais famílias da Pérsia os depuseram e de comum acordo constituíram Dario, filho de Histaspe, rei.

CAPÍTULO 4
DARIO, REI DA PÉRSIA, PROPÕE A ZOROBABEL, PRÍNCIPE DOS JUDEUS, E A
DOIS OUTROS QUESTÕES PARA SEREM RESOLVIDAS. ZOROBABEL RESOLVE-AS E
RECEBE COMO RECOMPENSA A RESTAURAÇÃO DE JERUSALÉM E DO TEMPLO.
UM GRANDE NÚMERO DE JUDEUS VOLTA EM SEGUIDA PARA JERUSALÉM
SOB O COMANDO DE ZOROBABEL E TRABALHA NESSA OBRA.
OS SAMARITANOS E OUTROS POVOS PEDEM A DARIO QUE A IMPEÇA.
MAS ESSE PRÍNCIPE FAZ JUSTAMENTE O CONTRÁRIO.

439. Esdras 5 e 6. Dario era ainda um simples cidadão, mas fizera a Deus um voto: se um dia subisse ao trono, restituiria ao Templo em Jerusalém tudo o que estava ainda na Babilônia dos vasos sagrados. Quando ele foi proclamado rei, aconteceu que Zorobabel, príncipe dos judeus, que era seu velho amigo, estava próximo dele. E assim, confiou a ele e a dois outros dos principais a direção de sua casa e de tudo o que mais de perto se referia à sua pessoa.
O grande rei, no primeiro ano de seu reinado, ofereceu um suntuoso banquete aos seus principais auxiliares, aos maiorais dos medos e dos persas e aos governadores das cento e vinte e sete províncias sobre as quais estendia o seu domínio, que ia desde as índias até a Etiópia. Terminado o banquete, todos se retiraram, e Dario dormiu um pouco, mas logo acordou. Não podendo conciliar o sono novamente, pôs-se a conversar com aqueles três oficiais.
Ele prometeu conceder a quem melhor resolvesse o problema que iria propor que se vestisse de púrpura, usasse um colar de ouro, bebesse em taça de ouro, dormisse em um leito de ouro, passeasse num carro em que os arreios dos cavalos eram de ouro, usasse uma tiara de fino linho, se sentasse perto dele e fosse considerado seu parente. Perguntou então ao primeiro se a mais forte de todas as coisas do mundo não era o vinho. Ao segundo, se não eram os reis. Ao terceiro, se não eram as mulheres ou a verdade. Disse-lhes que pensassem. No dia seguinte, pela manhã, mandou chamar os príncipes, os grandes senhores da Pérsia e da Média, sentou-se no trono de onde costumava distribuir a justiça e ordenou aos três oficiais que respondessem na presença de toda a assembléia às perguntas que havia feito.
O primeiro, para mostrar a força do vinho, falou assim: &quot;Parece-me não haver melhor prova para mostrar que tudo cede à força do vinho que vermos como ele perturba a razão e põe os próprios reis em tal estado que eles se tornam como crianças, as quais têm necessidade de serem guiadas; como dá aos escravos a liberdade de falar, deles tirada pela escravidão, e torna os pobres tão contentes quanto os ricos; como muda de tal sorte o Espírito dos homens que, mesmo nas maiores misérias, afoga os sentimentos de sua desgraça; como os faz esquecer a própria desdita e os persuade de que estão em tal abundância que só falam de milhões; como lhes põe na boca as palavras que usam os que se encontram no cume da glória e lhes tira o medo das pessoas mais temíveis e dos maiorais monarcas; como os faz não conhecer e até odiar os seus melhores amigos. Depois eles adormecem e, despertando, encontram-se com o Espírito tranqüilo e nem se lembram mais do que disseram ou fizeram durante a embriaguez. Assim, creio que o vinho deve passar pela coisa mais forte do mundo&quot;.
Depois que o primeiro assim falou em favor do vinho, o outro, encarregado de mostrar que nada iguala ao poder dos reis, procurou prová-lo com estas palavras: &quot;Ninguém pode duvidar de que os homens são os senhores do universo, pois dominam toda a terra e o mar e fazem uso dos elementos para o que bem lhes parece. Mas os reis governam os homens e reinam sobre aqueles que dominam todos os animais. Que há, pois, que se possa comparar ao seu poder? Eles governam os seus súditos, e estes estão sempre prontos a obedecê-lo. Ele os põe, quando lhe apraz, em todos os perigos da guerra, e, embora seja necessário forçar muralhas ou combater em campo aberto ou atacar em montes inacessíveis, eles não impõem dificuldade para se expor à morte e obedecê-lo. Depois de vencerem as batalhas, obtendo vitórias à custa do próprio sangue, toda a vantagem e toda a glória reverte em favor do rei, bem como o fruto dos trabalhos e dos suores daqueles dentre o povo que, enquanto os demais pegam em armas, cultivam a terra. Assim, os príncipes recolhem o que não tiveram o trabalho de semear, desfrutam todas as espécies de prazer e dormem à vontade, enquanto os seus guardas velam à porta sem dela se afastar, por maiores que sejam as necessidades que os chamem a outros lugares. Pode-se, pois, duvidar de que o poder dos reis não supere a todos os outros?&quot;
Zorobabel, que devia falar por último, para mostrar que o poder das mulheres e da verdade é o mais forte, assim se expressou: &quot;Estou de acordo com a força do vinho e o poder dos reis, mas ouso afirmar que o poder das mulheres é ainda maior. Os homens e os reis têm nelas a sua origem, e, se elas não tivessem posto no mundo os que cultivam as terras, a vinha não produziria o fruto cujo suco é tão agradável. De tudo teríamos falta sem as mulheres. Devemos ao seu trabalho as principais comodidades da vida: elas fiam a lã e o tecido com que nos vestimos. Têm cuidado de nossas famílias, e não poderíamos passar sem elas. A sua beleza tem tanto encanto que nos fazem desprezar o ouro, a prata e tudo o que há de mais rico no mundo para ganharmos o seu afeto. Para segui-las, abandonamos sem pesar mãe, pai, parentes, amigos e a nossa própria pátria. Fazemo-las senhoras não somente de tudo o que conquistamos com mil trabalhos na terra e no mar, mas de nós mesmos. Acrescentarei que vi o rei, senhor de tantas nações, permitir que Apaméia, sua senhora, filha de Rapsacés Temasim, lhe batesse no rosto e lhe arrancasse a coroa para pô-la na própria cabeça e vi o grande príncipe rir-se quando ela estava de bom humor, afligir-se quando ela estava triste, adulá-la, unificar-se aos sentimentos dela e rebaixar-se até pedir-lhe desculpas quando julgava tê-la desgostado em alguma coisa&quot;.
Todos os assistentes ficaram tão impressionados com essas palavras que começaram a se entreolhar. Zorobabel então passou do louvor às mulheres ao da verdade: &quot;Mostrei qual o poder das mulheres, mas nem as mulheres nem os reis são comparáveis à verdade. Por maior que seja a terra, por mais alto que seja o céu, por mais rápido que seja o curso do Sol, é Deus que os move e governa. Deus é justo e verdadeiro, e assim é evidente que nada se iguala ao poder da verdade. A injustiça nada pode contra ela. Enquanto todas as demais coisas são perecíveis e passam como um relâmpago, ela é imortal e subsiste eternamente. Além disso, as vantagens com que nos enriquece não duram menos que ela mesma: a fortuna não poderia tirá-la de nós nem o tempo alterá-la, porque está acima do alcance deles. E ela é tão pura que nada a pode corromper&quot;.
Zorobabel assim falou, e muitos louvaram-no e confessaram que ele havia provado muito bem que nada é mais poderoso que a verdade, a qual jamais envelhece e não está sujeita a mudanças. O rei disse-lhe que declarasse o que desejava daquilo que prometera ao que melhor respondesse às questões propostas, e o concederia de boa vontade, reconhecendo-o como o mais sábio e mais inteligente de todos. Disse ainda que desejava, no futuro, receber os seus conselhos e ter tanta consideração por ele como a um parente.
Zorobabel respondeu-lhe que não lhe pedia outra graça senão que cumprisse o voto que havia feito antes de ser elevado à dignidade da coroa: mandar reconstruir Jerusalém, restaurar o Templo de Deus e restituir todos os vasos sagrados que o rei Nabucodonosor mandara tirar e levar para a Babilônia. O rei então levantou-se do trono com o rosto alegre, beijou Zorobabel e ordenou que se escrevesse aos governadores de suas províncias, para que o ajudassem a reconstruir o Templo, bem como aos que o acompanhassem na viagem a Jerusalém. Deu também aos magistrados da Síria e da Fenícia ordem para que mandassem cortar cedros sobre o monte Líbano e os fizessem levar a Jerusalém e para que ajudassem os que iam reconstruir a cidade.
Essas mesmas cartas diziam que o rei desejava que todos os judeus que fossem a Jerusalém de volta do cativeiro fossem libertados, proibiam a todos os seus oficiais fazer-lhes imposições ou obrigá-los a pagar tributo e ordenavam que lhes fosse permitido cultivar todas as terras aproveitáveis. O rei ordenava aos idumeus, aos samaritanos e aos da Baixa Síria que lhes entregassem tudo o que os seus pais haviam possuído e contribuíssem com cinqüenta talentos para a construção do Templo. Permitia também aos judeus oferecer a Deus os mesmos sacrifícios e observar as mesmas cerimônias que seus antepassados. Podiam ainda tomar do fundo dos bens reais o que fosse necessário para as vestes dos sumos sacerdotees e dos outros sacerdotes e para os instrumentos de música com os quais os levitas cantavam louvores a Deus, e a cada ano se daria aos guardas do Templo e da cidade terras e o dinheiro necessário à sua manutenção. Por fim, Dario confirmou tudo o que Ciro havia determinado, tanto para a restauração da nação judaica quanto para a restituição dos vasos sagrados.
440. Depois que Zorobabel obteve do soberano tudo o que podia desejar, a primeira coisa que fez ao sair do palácio foi elevar os olhos ao céu e agradecer a Deus o favor que Ele lhe fizera, ou seja, torná-lo perante o príncipe o mais hábil e inteligente de todos. Confessou que devia toda a sua felicidade ao auxílio dEle e pediu que Ele continuasse a ajudá-lo. Quando chegou à Babilônia e deu essa grata notícia aos de sua nação, eles também deram graças a Deus por Ele haver permitido que se restabelecessem em sua pátria e passaram sete dias inteiros em festas de regozijo. As famílias escolheram em seguida pessoas de sua tribo para que fossem levadas a Jerusalém e procuraram cavalos e outros animais para carregar as suas mulheres e filhos. Assim uma grande multidão de todas as idades e ambos os sexos, guiadas por aqueles que Dario havia posto à frente, fez toda a caminhada com incrível alegria, ao som de flautas e de timbales.
O temor de aborrecer o leitor e de interromper o fio de minha narração não me deixará mencionar nomes em particular. Contentar-me-ei em dizer o seu número. Havia nas tribos de Judá e de Benjamim, da idade de doze anos para cima, quatro milhões seiscentas e vinte e oito mil pessoas. A multidão era seguida por quatro mil e setenta levitas e quarenta mil setecentos e quarenta e duas mulheres e crianças. Da estirpe dos levitas, havia cento e vinte e oito cantores, cento e dez porteiros e trezentos e vinte e dois que serviam no Santuário. Seis-centos e cinqüenta e dois se diziam israelitas, rrias, sem poder prová-lo, não foram reconhecidos como tais. Quinhentos e vinte e cinco haviam desposado mulheres que eles diziam ser da descendência dos sacerdotes e dos levitas, mas os seus nomes não constavam das genealogias. Sete mil trezentos e trinta e sete escravos caminhavam atrás deles, bem como duzentos e quarenta cantores e cantoras. Havia ainda quatrocentos e trinta e cinco camelos e quinhentos e vinte e cinco cavalos ou outros animais de carga no transporte das bagagens.
Zorobabel, de que falamos há pouco, era filho de Sealtiel, da tribo de Judá e da estirpe de Davi. Ele chefiava essa grande multidão, auxiliado por Jesua, filho de Jozadaque, sumo sacerdote, Mardoqueu e Cerebeu, escolhidos pelas outras duas tribos. Os dois últimos contribuíram, das próprias economias, com cem peças de ouro e cinco mil de prata para as despesas dessa viagem. Os sacerdotes, os levitas e uma parte do povo judeu que estava na Babilônia voltaram para morar novamente em Jerusalém, e os que lá ficaram os acompanharam durante uma parte do caminho e depois retornaram.
441. Sete meses depois, Jesua, sumo sacerdote, e o príncipe Zorobabel enviaram a toda parte convites aos de sua nação, para que se dirigissem a Jerusalém. Eles foram com grande alegria e, depois de construírem um altar no mesmo local onde estivera o primeiro, ofereceram sacrifícios a Deus segundo o que Moisés havia determinado. As nações vizinhas viram isso com grande desprazer, por causa do ódio que lhe votavam. Os judeus celebraram também nesse mesmo tempo a festa dos Tabernáculos, segundo fora instituída anteriormente: fizeram as oblações e os sacrifícios que se deviam fazer todos os dias, como também os dos sábados, das festas sagradas e das solenidades ordinárias. Os que haviam feito votos cumpriram-nos, oferecendo sacrifícios depois da lua nova do sétimo mês.
Começaram depois a trabalhar na construção do Templo, sem lastimar a despesa necessária para o pagamento e a alimentação dos operários. Os sidônios enviaram, com bastante agrado, grandes vigas de cedro, que haviam cortado nas florestas do monte Líbano e ligado umas às outras, fazendo-as flutuar nas águas do mar até o porto de Jope, como Ciro e Dario haviam determinado.
Depois de no segundo mês do segundo ano lançarem os alicerces do Templo, começaram, no dia primeiro de dezembro, a construir a parte superior. Todos os levitas com vinte anos ou mais, e Jesua, com os seus três filhos e seus irmãos, e Cadmiel, irmão de Judá, filho de Aminadabe, com os seus filhos, que haviam sido encarregados da direção dessa obra, nela trabalharam com tanto empenho e solicitude que a concluíram muito antes do esperado. Então os sacerdotes, revestidos de seus vestes sacerdotais, marcharam ao som de trom-betas, enquanto os levitas e os descendentes de Asafe cantavam em louvor a Deus hinos e salmos compostos pelo rei Davi. Os mais antigos do povo, que haviam contemplado a magnificência e a riqueza do primeiro templo, considerando o quanto esse estava longe de igualá-lo e julgando assim a grande diferença entre a sua prosperidade no passado e a presente, sentiram tão profunda dor que não puderam reter as lágrimas e soluços. O povo em geral, porém, ao qual somente o presente podia impressionar, não fazia tal comparação. Estava tão contente que as queixas de uns e os gritos de júbilo de outros impediam que se ouvisse o som das trombetas.
442. Essa notícia chegou até Samaria, e os habitantes dessa cidade vieram indagar o que se passava. Ao saber que os judeus, regressando do cativeiro da Babilônia, haviam reconstruído o Templo, rogaram a Zorobabel, a Jesua, sumo sacerdote, e aos principais das tribos que lhes permitissem contribuir para aquelas despesas, dizendo que adoravam o mesmo Deus e que não tinham outra religião desde que Salmaneser, rei da Assíria, os trouxera da Chutéia e da Média para morar em Samaria. Todos de comum acordo responderam que não podiam fazer o que desejavam, porque Ciro e Dario haviam permitido que só eles, os judeus, reconstruíssem o Templo, mas que isso não impediria que eles e todos os de sua nação viessem adorar a Deus, o que podiam fazer com toda a liberdade.
Os chuteenses (pois é assim que chamamos os samaritanos) ficaram tão ofendidos com essa resposta que persuadiram os sírios e seus governados a empregar, para impedir a construção do Templo, os mesmos meios de que se haviam servido outrora, nos tempos de Ciro e de Cambises, acrescentando que não havia um momento a perder, por causa da pressa com que os judeus trabalhavam naquela obra. Naquele mesmo tempo, Sisina, governador da Síria e da Fenícia, acompanhado por Sarabazam e por alguns outros, veio a Jerusalém e perguntou aos principais dos judeus quem lhes permitira reconstruir o Templo, fazendo-o tão robustecido que mais parecia uma fortaleza, e também cercar toda a cidade com muralhas tão espessas.
Zorobabel e o sumo sacerdote responderam que eram servidores do Deus Todo-poderoso; que o Templo fora outrora construído em sua honra por um de seus reis, que era um dos mais bem-aventurados príncipes do mundo, ao qual nenhum outro jamais se igualara em sabedoria e em inteligência; que aquele soberbo edifício fora conservado intacto durante vários séculos; que seus antepassados, tendo desgostado a Deus com os seus pecados, haviam permitido que Nabucodonosor, rei de Babilônia e da Caldéia, tomasse a cidade e a destruísse e incendiasse, bem como ao Templo, depois de retirar dele tudo o que existia de mais precioso, e levasse o povo escravo para a Babilônia; que Ciro, depois rei da Pérsia e da Babilônia, ordenara expressamente, por cartas escritas a esse respeito, que se reconstruísse o Templo e que depois de terminado se levassem para lá os vasos sagrados que haviam sido dele retirados e que os confiara a Zorobabel e a Mitredate, seu tesoureiro-mor; que antes, para apressar a construção do Templo, havia mandado Abazar a Jerusalém, o qual então já lhe lançara os alicerces; que desde então somente as nações inimigas haviam feito esforços para impedir os trabalhos; e que, como prova daquela afirmação, ele precisava apenas escrever ao rei, para que este lhe mostrasse nos registros dos reis precedentes se tudo não se havia passado como estavam dizendo.
Sisina e os que o acompanhavam ficaram satisfeitos com essas razões e não impediram a continuação dos trabalhos, mas indagaram antes da vontade do rei e para isso lhe escreveram. No entanto os judeus temiam que esse príncipe se arrependesse da permissão concedida, porém os profetas Ageu e Zacarias disseram-lhes que nada temessem, nem de Dario nem dos persas, porque estavam informados da vontade de Deus sobre aquele assunto. Assim, tranqüilizaram-se e continuaram a trabalhar com o mesmo ardor. Os samaritanos ou chuteenses não deixaram, por sua vez, de escrever ao rei Dario, contando que os judeus fortificavam a sua cidade e construíam um templo que mais parecia uma fortaleza que um lugar destinado ao culto a Deus. E, para testemunhar ao rei o quanto aquilo lhe seria prejudicial, mandaram-lhe as cartas do rei Cambises pelas quais ele havia proibido a continuação daquelas obras, pois não as julgava proveitosas para o seu serviço.
Quando Dario recebeu essas cartas e as de Sisina, mandou procurar os registros dos reis. Encontraram um deles no castelo de Ecbátana, na Média, onde estava escrito assim: &quot;O rei Ciro ordenou no primeiro ano de seu reinado que se construísse em Jerusalém um templo de sessenta côvados de altura e outros tantos de largura, com três ordens de pedras polidas e uma da madeira que se encontra naquele país; que se edificasse um altar naquele templo; que tudo seria feito às suas expensas; que os vasos sagrados retirados por Nabucodonosor seriam levados para lá; e que Abazar, governador da Síria e da Fenícia, e os oficiais da província tomariam o cuidado de mandar prosseguir a obra sem no entanto ir a Jerusalém, porque os judeus, que eram servidores de Deus, e seus príncipes deveriam assumir a direção. Seria suficiente ajudá-los com o dinheiro que se obteria dos tributos das províncias e dar-lhes para os seus sacrifícios touros, carneiros, cordeiros, cabritos, farinha, óleo, vinho e todas as outras coisas que os sacerdotes lhes pedissem, a fim de que rogassem pela prosperidade dos reis e pelo império dos persas. E, se alguém se atrevesse a desobedecer a essa ordem, que fosse crucificado e tivesse todos os seus bens confiscados. A isso acrescentou uma imprecação que atingiu a todos os que quisessem impedir a construção do Templo. Ele rogava a Deus que fizesse desencadear sobre eles a sua justa vingança, para castigá-los por tal impiedade&quot;.
Dario, tendo visto os registros de Ciro, escreveu a Sisina e aos seus outros oficiais o que segue: &quot;O rei Dario a Sisina, lugar-tenente-general de nossa cavalaria, a Sarabazam e aos outros governadores, saudação. Mandamo-vos a cópia das ordens do rei Ciro que encontramos nos seus registros e queremos que o que elas contêm seja rigorosamente executado. Adeus!&quot; Sisina e os outros aos quais era endereçada essa carta, tendo conhecido a intenção do rei, nada esqueceram, no que dependia deles, para executá-la e ajudaram os judeus com todas as suas forças para que pudessem continuar as obras do Templo.
Com esse auxílio, as obras progrediram e, pelo entusiasmo que as profecias de Ageu e de Zacarias continuavam a dar ao povo, o Templo foi terminado ao fim de sete anos, no nono ano do reinado de Dario e no vigésimo terceiro dia do décimo primeiro mês a que chamamos adar, e os macedônios, distro. Os sacerdotes, os levitas e o resto do povo deram graças a Deus por lhes permitir recuperar a antiga felicidade depois de tão longo cativeiro e por lhes dar o novo Templo. Ofereceram-lhe em sacrifício cem touros, duzentos carneiros, quatrocentos cordeiros e doze bodes pelos pecados das doze tribos. Os levitas escolheram entre eles alguns porteiros, para distribuí-los por todas as portas do Templo, segundo ordenava a lei de Moisés.
A festa dos Pães Ázimos aproximava-se e devia ser celebrada no primeiro mês, a que os macedônios denominam xântico, e nós, nisã. O povo das aldeias e das cidades veio a Jerusalém com as suas mulheres e filhos e, depois de se haverem purificado, ofereceram o cordeiro pascal no décimo quarto dia da lua do mesmo mês, segundo o costume de nossos antepassados. Passaram sete dias em banquetes de regozijo, sem deixar de oferecer a Deus os holocaustos e de agradecer-lhe por haver tocado o coração do rei, que lhes permitira regressar ao seu país.
Estabeleceram em seguida uma nova forma de governo aristocrático, no qual os sumos sacerdotes tiveram sempre autoridade soberana, até que os hasmoneus chegaram à realeza e assim os judeus tornaram a entrar no governo monárquico, sob o qual tinham vivido durante quinhentos e trinta e dois anos, seis meses e dez dias, desde Saul e Davi até o cativeiro. Antes também haviam sido governados durante mais de quinhentos anos, desde Moisés e Josué, por aqueles aos quais davam o nome de juizes.
No entanto os samaritanos, que além do ódio e da inveja que tinham de nossa nação, não podiam tolerar a obrigação de contribuir com as coisas necessárias para os nossos sacrifícios e além disso se vangloriavam de ser do mesmo país que os persas, não deixavam do mesmo modo de nos fazer todo o mal que podiam. E os governadores da Síria e da Fenícia não perdiam ocasião alguma de secundá-los em seus desígnios. O senado e o povo de Jerusalém, vendo-os tão animados contra si, resolveram enviar Zorobabel e quatro outros dos mais ilustres a Dario para se queixar dos samaritanos.
Logo que esse príncipe escutou os deputados, mandou que lhes dessem cartas endereçadas aos principais oficiais de Samaria, cujas palavras são estas: &quot;O rei Dario a Tangar e Sembabe, que comandam a cavalaria em Samaria, e a Sadrague, Bobelom e outros, que estão encarregados dos nossos negócios nesse país, saudação. Zorobabel, Ananias e Mardoqueu, deputados pelos judeus junto de nós, queixaram-se das dificuldades que lhes moveis na construção do Templo e de que recusais contribuir para os sacrifícios com aquilo que ordenamos. Escrevemo-vos esta carta a fim de que logo que a tenhais recebido não deixeis de cumprir as vossas obrigações e de tomar para esse fim, no nosso tesouro proveniente dos tributos da Samaria, tudo o que os sacerdotes de Jerusalém tiverem necessidade, porque a nossa intenção é que não se deixe de oferecer sacrifícios a Deus pela nossa prosperidade e pela do império dos persas&quot;.



CAPÍTULO 5
XERXES SUCEDE A DARIO, SEU PAI, NO REINO DA PÉRSIA. PERMITE QUE
ESDRAS, SACERDOTE, RETORNE COM GRANDE NÚMERO DE JUDEUS A
JERUSALÉM E CONCEDE TUDO O QUE ELE DESEJA. ESDRAS OBRIGA OS QUE
HAVIAM DESPOSADO MULHERES ESTRANGEIRAS A RESTITUÍ-LAS. SUA MORTE.
NEEMIAS OBTÉM DE XERXES LICENÇA PARA RECONSTRUIR OS MUROS DE
JERUSALÉM E TERMINA ESSA GRANDE OBRA.

443. Esdras 7. Xerxes sucedeu a seu pai, Dario, e não foi menos herdeiro de sua piedade para com Deus que sucessor no trono. Nada mudou a respeito do que fora determinado com relação ao culto a Ele, e Xerxes teve sempre uma grande afeição pelos judeus. Joaquim, filho de jesua, era sumo sacerdote durante o seu reinado, e Esdras era o primeiro e o mais considerável dentre todos os sacerdotes que haviam ficado na Babilônia. Era um homem de bem e muito instruído nas leis de Moisés. Desfrutava grande fama no meio do povo e era muito amado pelo rei.
Assim, quando resolveu voltar a Jerusalém e levar consigo alguns judeus que estavam morando na Babilônia, ele obteve desse príncipe algumas cartas de recomendação endereçadas aos governadores da Síria, nestes termos: &quot;Xerxes, rei dos reis, a Esdras, sacerdote e leitor da lei de Deus, saudação, julgando que é de nossa bondade permitir a todos os judeus, quer sacerdotes, quer levitas, bem como a outros que desejarem voltar a Jerusalém para lá servir a Deus, nós, com o conselho de nossos sete auxiliares, concedemos essa graça e vos encarregamos de apresentar ao vosso Deus o que nós e nossos amigos fizemos voto de lhe oferecer. Damo-vos o poder de levar todo o ouro e toda a prata que os vossos conterrâneos ainda espalhados pelo reino da Babilônia quiserem ofertar a Deus, a fim de que seja empregado na aquisição de vítimas a serem oferecidas sobre o altar, na confecção de vasos de ouro e de prata para o seu serviço e no que mais vós e vossos irmãos desejarem. Devereis oferecer também ao vosso Deus os vasos sagrados que vos entregaremos. Damo-vos o poder de fazer, além disso, tudo o que julgardes conveniente e entendemos que o fundo necessário deva ser tirado de nosso tesouro. Para isso, estamos escrevendo ao nosso tesoureiro-mor da Síria e da Fenícia que vos entregue sem demora tudo o que lhe pedirdes. E, para que Deus seja favorável a nós e à nossa posteridade, queremos que lhe sejam oferecidas, por nós, cem medidas de trigo, de conformidade com a Lei. Proibimos a todos os nossos oficiais exigir algo dos sacerdotes, dos levitas, dos cantores, dos porteiros e dos outros que servem no Templo de Deus ou impor-Ihes tributos e obrigações. Quanto a vós, Esdras, usareis da prudência e da sabedoria que Deus vos concedeu para estabelecer na Síria e na Fenícia juizes que administrem a justiça, e que os já instruídos nas vossas leis ensinem aos que ainda as ignoram e castiguem com multas ou mesmo com a morte os que não temerem violar os vossos mandamentos e os nossos&quot;.
Esdras, ao receber essa carta, adorou a Deus e deu-lhe imensas graças, pois só podia atribuir ao seu auxílio demonstrações de bondade tão extraordinárias da parte do rei. Reuniu em seguida todos os judeus que estavam na Babilônia, leu-lhes as cartas e, conservando o original, enviou cópias aos judeus que estavam na Média. Pode-se imaginar a alegria que eles sentiram por saber da piedade do rei para com Deus e de seu afeto por Esdras. Muitos decidiram dirigir-se imediatamente à Babilônia com o que possuíam de bens a fim de irem com Esdras a Jerusalém. Mas o resto dos israelitas não quis abandonar esse país. Assim, somente as tribos de Judá e de Benjamim voltaram a Jerusalém, e estão ainda hoje sujeitas, numa parte da Ásia e da Europa, ao domínio dos romanos. As outras dez tribos permaneceram além do Eufrates, e é incrível o quanto se multiplicaram.
Dentre os que se dirigiram em grande número a Esdras, havia muitos sacerdotes, levitas, porteiros, cantores e outros consagrados ao serviço de Deus. Ele os reuniu ao longo do Eufrates e, depois de jejuarem durante três dias e orarem a Deus pedindo proteção na viagem, puseram-se a caminho no décimo segundo dia do primeiro mês do sétimo ano do reinado de Xerxes, sem que Esdras quisesse receber a escolta da cavalaria, oferecida pelo príncipe, declarando que confiava no auxílio de Deus, que cuidava dele e de seu povo.
Chegaram no quinto mês do mesmo ano a Jerusalém. Esdras entregou logo aos que tinham a guarda dos tesouros do Templo e que eram da descendência dos sacerdotes o depósito sagrado que o rei, os amigos dele e os judeus que moravam na Babilônia lhe haviam confiado e que consistia de seiscentos e cinqüenta talentos de prata, vasos de prata no valor de cem talentos, vasos de ouro no valor de vinte talentos e vasos de cobre, mais preciosos que o ouro, no peso de doze talentos.
Em seguida, Esdras ofereceu a Deus em holocausto, como a Lei ordenava, doze touros para a salvação do povo e, pelos pecados, setenta e dois carneiros e cordeiros e doze bodes. Na Síria e na Fenícia, entregou aos governadores e oficiais do rei a carta que o soberano lhes escrevera. E, como não podiam deixar de obedecer, prestaram grandes honras à nação judaica e nos ajudaram em nossas necessidades. Deve-se a Esdras a honra dessa transmigração. E ele não somente a idealizou, como também não tenho dúvidas de que a sua virtude e a sua piedade foram a causa do feliz êxito que Deus lhe quis outorgar.
444. Pouco tempo depois, ele soube que alguns sacerdotes e levitas, não querendo se sujeitar à disciplina, haviam, por um insolente desprezo às leis de seus maiores, desposado mulheres estrangeiras e manchado a pureza da ordem sacerdotal. Os que lhe deram esse aviso rogaram-lhe que se armasse do zelo da religião para impedir que o crime de alguns atraísse a cólera divina sobre todo o povo e os precipitasse de novo na desgraça da qual acabavam de sair. Como eram de qualidade as pessoas culpadas desse pecado, esse santo homem, considerando que uma ordem para despedir as mulheres e os filhos não seria obedecida por eles, foi tomado de tão viva dor que rasgou as próprias vestes, arrancou a barba e os cabelos e lançou-se por terra banhado em lágrimas. Os outros homens de bem reuniram-se a ele e juntaram as suas lágrimas às dele.
Nessa amargura de coração, ele elevou os olhos e as mãos ao céu e disse: &quot;Tenho vergonha, meu Deus, de ousar levantar os meus olhos ao céu, quando penso que este povo recai sempre mais no pecado e perde logo a lembrança dos castigos com que punistes a impiedade de seus maiores. Todavia, Senhor, como a vossa misericórdia é infinita, tende, por favor, piedade destes que restaram do antigo cativeiro que suportamos e que quisestes reconduzir à antiga pátria. Perdoai-lhes, Senhor, mais esse crime e, embora eles mereçam a morte, não vos canseis de lhes demonstrar a vossa bondade, conservando-lhes a vida&quot;.
Esdras 10. Enquanto assim falava e todos os presentes, homens e mulheres, choravam com ele, Secanias, que era o primeiro cidadão de Jerusalém, aproximou-se e disse que, não se podendo duvidar de que os que tomaram esposas estrangeiras haviam cometido um grande pecado, era preciso convencê-los a restituí-las, bem como aos filhos que delas haviam gerado, e castigar os que recusassem obedecer à lei de Deus. Esdras aprovou essa proposta e fez jejuar os principais sacerdotes, os levitas e o povo, o qual os ajudaria a obrigá-los a isso. Depois que saiu do Templo, foi para a casa de Joana, filho de Eliasibe, e passou ali o resto do dia sem comer nem beber, tão abatido estava pela dor. Mandou em seguida publicar por toda parte que todos os que haviam voltado da escravidão deveriam vir dentro de dois ou três meses a Jerusalém, sob pena de serem excomungados e de terem os seus bens confiscados em favor do tesouro do Templo, segundo o juízo que seria pronunciado pelos anciãos.
No terceiro dia, que era o vigésimo do nono mês, que os hebreus chamam tebete, e os macedônios, apeléia, os da tribo de Judá e de Benjamim dirigiram-se à parte superior do Templo, e os principais assentaram-se. Esdras levantou-se e disse-lhes que os que haviam desposado mulheres estrangeiras, contra a proibição da Lei, tinham cometido um grande pecado e que Deus só tornaria a ser-lhes favorável se as mandassem embora. Todos responderam em voz alta que o fariam de boa vontade, mas o número delas era tão grande e a estação tão contrária, pois era inverno, de frio intenso, que aquilo não podia ser feito imediatamente. Assim, seria necessário um pouco de paciência. Enquanto isso, os principais dentre o povo que estivessem isentos desse pecado, ajudados pelos anciãos, informar-se-iam com exatidão a respeito dos que haviam transgredido a determinação da Lei.
A proposta foi aprovada, e no primeiro dia do décimo mês começou-se a indagação dos que haviam contraído matrimônio ilícito. A investigação durou até quase o primeiro dia do mês seguinte, e vários parentes de Jesua, sumo sacerdote, dos outros sacerdotes, dos levitas e de outros dentre o povo devolveram imediatamente as suas mulheres, preferindo assim a observância da Lei à paixão que sentiam por elas, por maior que fosse. Depois ofereceram a Deus carneiros em sacrifício, para aplacar-lhe a cólera. Eu poderia citar nomes, mas não julgo necessário. Dessa forma, Esdras remediou o erro cometido por esses matrimônios profanos e aboliu esse mau costume, no qual ninguém mais caiu.
No sétimo mês, que era o tempo de se comemorar a festa dos Tabernáculos, quase todo o povo reuniu-se próximo da porta do Templo, a qual está do lado do oriente, e rogou a Esdras que lhes desse a lei de Moisés. Ele consentiu, e essa leitura durou desde a manhã até a tarde. Eles se foram tão comovidos que derramavam lágrimas, porque aquelas santas leis não somente lhes mostraram o que eles deviam fazer no tempo presente e no futuro, como também revelaram que, se as tivessem observado no passado, não teriam caído em tantas desgraças. Esdras, vendo-os naquela aflição, disse-lhes que se retirassem para as suas casas e enxugassem as lágrimas, pois não deviam chorar no dia de uma festa tão solene, e sim alegrar-se e regozijar-se e aproveitar o arrependimento que demonstravam pelas suas faltas passadas para não cometer outras semelhantes no futuro. Essas palavras consolaram-nos, e eles celebraram alegremente durante oito dias essa grande festa, gratos a Esdras pela reforma de seus costumes, e voltaram cantando hinos de louvor a Deus. Um feito tão importante, somado às outras obrigações de que a nação lhe era devedora, conquistou-lhe tanta glória que quando ele terminou os seus dias, em venturosa velhice, enterraram-no em Jerusalém com grande magnificência. Joaquim, sumo sacerdote, morreu também nesse mesmo tempo, e Eliaquim, seu filho, substituiu-o.
445. Neemias 1. Depois da morte de Esdras, um judeu dentre os escravos, de nome Neemias, que era mordomo do rei Xerxes, passeando um dia fora da cidade de Susã, capital da Pérsia, viu uns estrangeiros que vinham de províncias distantes e percebeu que eles falavam a língua hebraica. Aproximou-se deles para perguntar de onde vinham e soube que eram da Judéia. Perguntou-lhes como ia aquele país, particularmente Jerusalém. Responderam-lhe que tudo estava em muito mau estado, que as muralhas da cidade estavam em ruínas e que não havia males que os povos vizinhos não lhes causassem, pois devastavam continuamente os campos, levavam prisioneiros os habitantes da cidade, e freqüentemente encontravam-se cadáveres pelas estradas.
Neemias ficou tão desconsolado pela aflição do povo de seu país que não pôde reter as lágrimas. E, elevando os olhos ao céu, disse a Deus: &quot;Até quando, Senhor, permitireis que a vossa nação seja perseguida e torturada por tantos males? Até quando permitireis que ela seja presa de vossos inimigos?&quot; O sofrimento fez-lhe esquecer até o momento em que se encontrava, pois vieram dizer-lhe que o rei estava prestes a se pôr à mesa, e ele correu para servi-lo.
Neemias 2. O príncipe, que estava de bom humor, tendo notado ao sair da mesa que Neemias estava muito triste, perguntou-lhe o motivo. Ele respondeu, depois de rogar a Deus em seu coração que tornasse as suas palavras bem persua-sivas: &quot;Como poderia, majestade, não estar triste pela aflição de saber a que estado se acha reduzida a cidade de Jerusalém, minha querida pátria, onde estão os sepul-cros de meus antepassados? Os seus muros estão completamente em ruínas, e as suas portas, reduzidas a cinzas. Fazei-me, Senhor, o favor de permitir que eu vá reerguê-las e de fornecer o que falta para completar a restauração do Templo!&quot;
O soberano recebeu tão bem esse pedido que não somente concedeu o que ele desejava, como também prometeu escrever aos seus governadores para que o tratassem com muita honra e o ajudassem em tudo o que ele desejasse. Acrescentou o príncipe: &quot;Esquecei então a vossa aflição e continuai a servir-me, com alegria&quot;. Neemias adorou a Deus e deu ao rei os seus humildes e sinceros agradecimentos por tão grande favor. O seu rosto tornou-se tão alegre quanto antes estava triste.
No dia seguinte, o rei entregou-lhe as cartas endereçadas a Sadé, governador da Síria, da Fenícia e de Samaria, pelas quais ordenava tudo o que dissemos há pouco. Neemias partiu com essas cartas para a Babilônia, de onde levou várias pessoas de sua nação, e chegou a Jerusalém no vigésimo quinto ano do reinado de Xerxes. Depois de entregar as cartas a Sadé e as que eram endereçadas aos outros, mandou reunir todo o povo e falou: &quot;Não ignorais o cuidado que o Deus Todo-poderoso teve de Abraão, de Isaque e de Jacó, nossos antepassados, por causa da piedade deles e de seu amor pela justiça. E hoje ainda Ele nos faz ver que não nos abandonou, pois obtive do rei, por auxílio dEle, permissão para reedificar as nossas muralhas e ultimar a construção do Templo. No entanto, como não posso duvidar do ódio que nos têm as nações vizinhas, as quais, quando virem o entusiasmo com que trabalhamos nestas obras, tudo farão para nos atrapalhar, creio que temos duas coisas a fazer. A primeira é pormos toda a nossa confiança no auxílio de Deus, que pode sem dificuldade confundir os desígnios de nossos inimigos. A segunda é trabalhar dia e noite com ardor infatigável, para terminarmos a nossa empresa sem perda de tempo, pois este nos é favorável e deve ser para nós muito precioso&quot;.
Depois dessas palavras, Neemias ordenou aos magistrados que mandassem medir o perímetro das muralhas. Dividiu o trabalho entre o povo, fixou a cada porção um número de aldeias e de vilas, para também trabalharem com eles, e prometeu ajudá-los o quanto possível. Todos animaram-se com essas palavras e puseram mãos à obra. Foi então que se começou a chamar de judeus os que de nossa nação regressaram da Babilônia e da judéia ao país, porque fora outrora propriedade da tribo de Judá.
Neemias 4 e 6. Quando os amonitas, os moabitas, os samaritanos e os habitantes da Baixa Síria souberam que a obra progredia, sentiram grande desgosto, e nada houve que não fizessem para dificultar o empreendimento: faziam emboscadas aos nossos, matavam os que lhes caíam nas mãos e, como Neemias era o principal objeto de seu ódio, deram dinheiro a alguns assassinos, para que o matassem. Procuraram também assustar os judeus com vãos terrores, fazendo correr o boato de que um exército formado por diversas nações avançava para atacá-los. Tantos esforços e artifícios acabaram assustando o povo, e pouco faltou para que abandonassem o empreendimento.
Nada, porém, foi capaz de assustar ou desanimar Neemias. Intrépido em meio a tantas dificuldades, continuou a trabalhar com mais ardor do que nunca e fez-se acompanhar por alguns soldados, para lhe servirem de guardas, não que tivesse medo da morte, mas por saber que os seus concidadãos perderiam a coragem se não o tivessem mais entre eles para animá-los na execução de tão santa empresa. Ordenou aos operários que, no trabalho, mantivessem a espada sempre ao lado e perto de si os seus escudos, para deles se servirem em caso de necessidade. Colocou trombeteiros de quinhentos em quinhentos passos, para dar o alarme e obrigar o povo a tomar logo as armas se aparecessem os inimigos. Ele mesmo fazia, durante toda a noite, a ronda pela cidade. Para fazer o trabalho progredir não bebia, não comia e não dormia, exceto quando obrigado pela necessidade. Isso ele fez não por pouco tempo, mas de forma contínua pelo espaço de vinte e sete meses, que foi o quanto empregaram na restauração das muralhas da cidade. Por fim, a obra foi concluída, no nono mês do vigésimo oitavo ano do reinado de Xerxes.
Então Neemias e todo o povo ofereceram sacrifícios a Deus e passaram oito dias em festas e banquetes de regozijo, o que causou aos sírios visível desprazer. Neemias, vendo que Jerusalém não estava bastante povoada, induziu os sacerdotes e os levitas que moravam no campo a vir para a cidade morar nas casas que ele mandara construir e obrigou os camponeses a lhes trazer os dízimos (o que eles fizeram com prazer), a fim de que nada os pudesse impedir de se dedicar inteiramente ao serviço de Deus. Assim, Jerusalém povoou-se, e esse grande homem, após realizar ainda outras coisas dignas de mérito, morreu em idade avançada. Era um homem tão bom, justo e zeloso do bem de sua pátria, a quem ela é devedora de tantos benefícios, que a sua memória jamais há de perecer entre os judeus.

CAPÍTULO 6
ARTAXERXES, SUCEDE A XERXES, SEU PAI, NO REINO DA PÉRSIA. REPUDIA A RAINHA VASTI, SUA MULHER, E DESPOSA ESTER, SOBRINHA DE MARDOQUEU.
HAMÃ PERSUADE ARTAXERXES A EXTERMINAR TODOS OS JUDEUS E
ENFORCAR MARDOQUEU, MAS ELE MESMO É ENFORCADO. MARDOQUEU É
POSTO EM SEU LUGAR COM GRANDE AUTORIDADE.

446. Ester 1. Depois da morte do rei Xerxes, Ciro, seu filho, que os gregos chamam Artaxerxes,* sucedeu-o. Os judeus correram grande perigo de ser inteiramente exterminados durante o seu reinado, conforme vamos narrar. Antes, porém, falaremos do soberano, dizendo que ele desposou uma mulher judia que era de família real e à qual toda a nossa nação reconhece dever, abaixo de Deus, a sua salvação. Quando esse novo rei subiu ao trono de seu pai e estabeleceu governadores nas cento e vinte e sete províncias sujeitas ao império, desde as índias até a Etiópia, ele resolveu, no terceiro ano de seu reinado, entreter a eles e aos amigos durante cento e oitenta dias na cidade de Susã, capital da Pérsia, com uma suntuosidade extraordinária. Os embaixadores de várias nações lá ficaram durante sete dias.
Os banquetes realizaram-se sob os pavilhões sustentados por colunas de ouro e de prata e cobertos de ricos tapetes, tão espaçosos que podiam abrigar um grande número de pessoas. Toda a baixela de que se serviam era de ouro e enriquecida de pedras preciosas. Artaxerxes ordenou aos seus serventes que não obrigassem ninguém a beber segundo o costume dos persas, mas deixassem a cada qual a liberdade de fazer como quisesse. Mandou ao mesmo tempo proclamar por toda parte de seu território que o povo deixasse de trabalhar durante alguns dias e pensasse apenas em se regozijar e em desejar-lhe um feliz reinado.
A rainha Vasti, ao mesmo tempo, cuidava das damas de seu palácio com magnificência igual à que o rei dispensava aos grandes e aos príncipes. Artaxerxes, querendo mostrar que ela sobrepujava a todas as outras mulheres em beleza, mandou que comparecesse à grande assembléia. Mas como o costume dos persas não permite às mulheres se apresentarem diante de estrangeiros, ela decidiu não aparecer, embora o rei enviasse diversas vezes os eunucos para buscá-la.
Essa teimosia o aborreceu. Ele saiu do banquete, reuniu os magos, que entre os persas interpretam as leis, e queixou-se a eles de ter várias vezes pedido à rainha que comparecesse ante a assembléia e que ela não queria obedecer. Ordenou-lhes então que dissessem a que a lei se obrigava naquele caso. Memucã, um deles, respondeu que aquela desobediência da rainha e a injúria que ela fizera ao rei não somente atingia e ofendia o soberano, mas também a todos os persas. Porque as suas mulheres, vendo que a rainha não temia ofender tão poderoso príncipe com aquele insolente desprezo, seriam também levadas a desprezar os maridos, para imitar-lhe o exemplo. E assim, aconselhava-o a castigá-la severamente e a mandar publicar em todo o seu território o que fosse determinado contra ela. Os outros magos, depois dessa opinião, deram também cada qual o seu parecer e chegaram à conclusão de que o rei deveria repudiar a rainha e desposar uma outra.

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* A Bíblia chama-o Assuero.

447. Ester 2. Tal determinação deixou o príncipe muito aflito porque, de um lado, ele não queria contrariar as leis e, de outro, nutria uma violenta paixão pela rainha, por causa de sua extrema beleza. Seus amigos, vendo-o tão agitado, aconselharam-no a afastar do coração aquele afeto que o atormentava inutilmente, a mandar procurar em todas as províncias as mais belas jovens e a despo-sar a que mais lhe agradasse. O amor que teria por ela diminuiria cada vez mais a paixão por Vasti, até desaparecer por completo. O rei aprovou a proposta e mandou imediatamente, para esse fim, que em todo o seu território se escolhessem as mais belas jovens.
Trouxeram-lhes as moças mais formosas, dentre as quais distinguia-se uma da Babilônia, de nome Ester, que não tinha nem pai nem mãe e fora criada por seu tio, de nome Mardoqueu, da tribo de Benjamim, um dos mais ilustres dentre os judeus. A beleza dessa moça, a sua modéstia e a sua graça eram tão extraordinárias que atraíam os olhares e a admiração de todos. Puseram-na entre quatrocentas outras que foram entregues ao cuidado dos eunucos, e tudo se fez para que fossem cercadas de todos os bens. Durante seis meses, foram alvo de todas as atenções. Eram bem alimentadas e cuidadas e adornavam-se e perfumavam-se com requinte. Passado esse tempo, julgou-se que já estavam em condições de agradar ao rei. Assim, eles lhe mandavam uma por dia, a qual o príncipe devolvia no dia seguinte.
Quando chegou a vez de Ester, Artaxerxes agradou-se tanto dela que a escolheu para esposa, e as bodas foram celebradas no sétimo ano de seu reinado, no décimo segundo mês, de nome adar. Ele mandou em seguida aos chamados agares que proclamassem por todo o seu território que o povo deveria festejar o seu matrimônio e tratou magnificamente durante um mês os principais cidadãos, tanto dos persas e dos medos quanto dos de outras nações que lhe estavam sujeitas. Depois de instalar a nova rainha em seu palácio, pôs-lhe a coroa na cabeça e amou-a sempre como sua esposa, sem lhe perguntar de que nação ela era e sem que ela também nada dissesse a esse respeito. Mardoqueu, que a amava como se fosse sua própria filha, deixou a Babilônia para ir morar em Susã. E não se passava um dia sem que ele desse uma volta ao redor do palácio, para ter notícias dela.
Nesse entretempo, o rei publicou uma ordem pela qual proibia a todos os de sua casa, sob pena de morte, vir procurá-lo sem serem chamados quando ele estivesse assentado no trono. Guardas armados junto de sua pessoa tinham ordem para afastar qualquer um que ousasse se aproximar. Ele empunhava uma vara de ouro e, quando queria conceder graça a alguém que se apresentara sem ser chamado, ele o tocava com ela. A pessoa então deveria beijá-la, e assim evitava a morte.
Algum tempo depois, dois eunucos, chamados Bigtã e Teres, fizeram uma conspiração para matar o rei. Um judeu de nome Barnabas, que servia a um deles, avisou Mardoqueu. Este comunicou-o imediatamente ao rei, por meio de sua sobrinha, a rainha Ester. Eles foram presos e enforcados. Artaxerxes não recompensou a Mardoqueu pelo serviço prestado, mandou apenas registrar o fato em suas crônicas e permitiu-lhe entrar no palácio como se fosse um de seus familiares.
Ester 3. Um amalequita chamado Hamã, filho de Hamedata, desfrutava então tal prestígio que quando ele entrava no palácio os persas e os estrangeiros eram obrigados, por ordem do rei, a se prostrar diante dele. Mardoqueu era o único que não lhe prestava essa homenagem, porque a lei de Deus o proibia. Hamã, tendo notado isso, perguntou-lhe de que nação ele era. Sabendo que era judeu, ficou muito irritado e exclamou: &quot;Ora! Os persas, que são livres, põem o joelho em terra diante de mim, e esse escravo não se digna fazer o mesmo!&quot; Como ele era por natureza inimigo mortal dos judeus, porque os amalequitas haviam sido outrora vencidos por eles, o seu furor cresceu tanto que seria muito pouco, para a sua vingança, mandar matar Mardoqueu: seria necessário exterminar toda a nação judaica.
Ele foi então falar com o rei e disse-lhe que existia espalhado por todo o seu território um certo povo que era inimigo de todos os demais e cujas leis, cerimônias e costumes eram totalmente estranhos, sendo odiosos aos outros homens, e que o maior favor que podia fazer aos seus súditos era exterminá-lo. Mas, para que as rendas do soberano não fossem diminuídas com isso, ele lhe oferecia de boa mente quarenta mil talentos de prata, por prestar tão grande serviço, ou seja, livrar o império de tal peste. O rei respondeu que, quanto ao dinheiro, ele o restituiria de boa vontade. E, quanto ao que se referia àquela classe de gente, deixava tudo ao critério de Hamã.
Hamã, depois de haver obtido o que desejava, mandou publicar, em nome do rei, em todo o seu território um edito, cujas palavras eram estas: &quot;O grande rei Artaxerxes, aos cento e vinte e sete governadores que constituímos desde as índias até a Etiópia, saudação. Muitas e várias nações estão sujeitas ao nosso império, e estendemos o nosso domínio sobre a terra o quanto quisemos, porque, em vez de tratar os nossos súditos com rigor, não temos mais prazer que lhes dar todas as demonstrações de nossa estima e bondade, fazendo-os desfrutar muita paz. E, para isso, envidamos os maiores esforços para que a sua felicidade seja eterna. Por isso, tendo sido avisados por Hamã, a quem honramos mais que a qualquer outro com o nosso afeto, pela sua fidelidade, probidade e sabedoria, de que há um povo espalhado por toda a terra o qual é inimigo de todos os outros e possui leis e costumes próprios e tem por inclinação natural um grande ódio aos reis, não tolerando dominação alguma, nem a nossa, nem a prosperidade do nosso império, desejamos e ordenamos que quando Hamã, a quem consideramos como pai, vos der a ordem, extermineis inteiramente esse povo, com as suas mulheres e filhos, sem poupar um sequer e sem que a compaixão seja mais forte sobre o vosso Espírito que a obediência. O que entendemos seja feito no décimo terceiro dia do décimo segundo mês do presente ano, a fim de que, sendo mortos num mesmo dia esses inimigos públicos, possais passar em paz e tranqüilidade o resto de vossas vidas&quot;.
Depois que essa carta em forma de edito foi publicada por toda parte, todos se prepararam para exterminar os judeus no tempo determinado e se dispuseram a fazer a mesma coisa na cidade de Susã, capital da Pérsia, que por isso estava muito agitada. No entanto, o rei e Hamã passavam os dias em banquetes.
Ester 4. Quando Mardoqueu soube do conteúdo daquele cruel edito, rasgou as próprias vestes, cobriu-se com um saco, espalhou cinza sobre a cabeça e saiu clamando por toda a cidade que era horrível querer destruir daquele modo uma nação inocente. Mas ele foi obrigado a ficar à porta do palácio, porque no estado em que se encontrava não lhe foi permitido entrar. A aflição de todos os judeus não era menor em todas as outras cidades onde o edito fora publicado, e, em tão geral desolação, o ar repercutia gritos e lamentações. A rainha, perturbada por saber que Mardoqueu estava à porta do palácio no deplorável estado em que o descrevi, mandou-lhe outras vestes, para que as trocasse. Ele, porém, as recusou, porque a causa de seu penar subsistia ainda e ele não podia se desfazer dos sinais.
A princesa, ante a recusa, mandou o eunuco Hataque perguntar o motivo de tão grande aflição e de ele não querer deixar aqueles trajes tão tristes. Mardoqueu mandou dizer-lhe pelo mesmo eunuco que Hamã oferecera ao rei uma grande soma de dinheiro a fim de obter permissão para exterminar todos os judeus e que sua majestade lhe concedera a licença. Assim, em Susã e em todas as províncias do império fora publicado um edito, do qual lhe mandava uma cópia. Tratava-se portanto da ruína de toda a nação judaica, na qual a própria rainha tinha a sua origem. Ele suplicava que ela não temesse humilhar-se a ponto de se prostrar aos pés do rei para suplicar-lhe graça, pois somente ela o podia fazer. Além disso, Hamã, ao qual ninguém igualava em prestígio e em autoridade, fazia continuamente crescer a irritação do rei contra eles. A rainha respondeu que a menos que o rei solicitasse não podia ir ter com ele, sob pena de perder a vida, caso ele não a tocasse com a vara de ouro que tinha na mão.
Mardoqueu então rogou ao eunuco que dissesse à rainha que ela não devia, em tal contingência, considerar tanto a sua vida quanto a de sua nação. Se ela o fizesse, Deus não deixaria de ter cuidado dela, mas se ela fosse insensível à ruína de seu próprio povo, Ele mesmo a castigaria, destruindo-a com toda a nação. A rainha, comovida por essas palavras, mandou dizer-lhe pelo mesmo eunuco que reunisse todos os judeus que estavam em Susã e ordenasse um jejum de três dias e que fizessem orações a Deus em favor dela. Ela faria o mesmo com as outras mulheres e iria em seguida falar com o rei sem ser chamada, o que talvez lhe custasse a vida.
Mardoqueu executou a ordem e durante o jejum rogou a Deus que não permitisse a destruição de seu povo, mas o ajudasse naquela ocasião, tal como fizera tantas outras vezes, que lhes perdoasse os pecados e que os livrasse de tão grave perigo, pois nele não se haviam metido por culpa própria. Disse ainda: &quot;Vós sabeis, meu Deus, que a cólera de Hamã, que jurou a nossa ruína, provém de eu não ter querido violar as vossas santas leis, prostrando-me diante dele para lhe prestar uma homenagem que somente a vós é devida&quot;.
Essa fervorosa oração foi acompanhada por todo o povo, que pedia a Deus com não menor ardor que os ajudasse naquela grave contingência. A rainha, por seu lado, em vestes de luto, passou esses três dias prostrada por terra, sem comer nem beber e sem cuidar de sua pessoa. Ela pedia a Deus, sem cessar, que tivesse compaixão dela, pondo-lhe na boca o que devia dizer ao rei e tornando-a mais agradável aos seus olhos do que nunca, a fim de que, em tal perigo, pudesse não somente atrair a sua clemência sobre ela e sobre os de sua nação, mas fazer ele voltar a sua cólera contra os inimigos, de modo que caíssem na mesma desgraça em que os queriam precipitar.
Ester 5. Depois de assim orar durante três dias, ela tirou as vestes tristes e revestiu-se de outras, magnificamente ricas, às quais ajuntou os ornamentos com os quais se podem enfeitar uma grande rainha. Foi em seguida falar com o rei, acompanhada somente por suas damas, sobre uma das quais se apoiava, enquanto outra sustentava a cauda de suas vestes, cujas dobras pareciam flutuar sobre o pavimento. Via-se um modesto rubor tingir as suas faces, e a majestade e a beleza resplandeciam igualmente em seu temor. Quando ela viu o soberano assentado no trono resplandecente de pedras e jóias a contemplá-la, quem sabe, de maneira pouco favorável, ficou tomada de tanto medo que as forças quase lhe faltaram, e ela teve de se apoiar na mulher que vinha ao seu lado.
O rei, cujo coração Deus sem dúvida tocou naquele momento, temeu tanto por ela que desceu apressadamente do trono e a tomou nos braços. E, com palavras repassadas de amor e ternura, disse-lhe que nada temesse por ter vindo sem ser chamada, porque aquela lei havia sido feita somente para os seus súditos, e não para ela, que com ele partilhava a coroa e por isso estava acima de todas as leis. Depois de assim falar, ele pôs-lhe o cetro na mão e, para tranqüilizá-la completamente e não transgredir a lei, tocou-a docemente com a vara de ouro.
Então a virtuosa rainha voltou a si, tomou ânimo e falou deste modo: &quot;Não vos posso dar outra razão do desfalecimento que de mim se apoderou senão a grande surpresa de ver-vos cheio de glória, de beleza e de majestade e ao mesmo tempo tão temível. Não sei o que se passou comigo&quot;. Ela pronunciou essas poucas palavras com uma voz tão fraca que a apreensão do rei aumentou, e ele tudo fez para tranqüilizá-la, garantindo que concederia qualquer favor que ela pedisse: ainda que fosse metade de seu reino, lhe daria com prazer. Ela respondeu que o único favor que almejava era obter consentimento para cear com ele no dia seguinte, e que ele levasse também Hamã. Ele o concedeu de boa mente. E, quando se puseram à mesa, ele insistiu em que ela dissesse o que desejava, asseverando-lhe ainda que nada havia que ele não lhe concedesse com prazer, mesmo que fosse uma parte de seu reino. Ela suplicou que o seu pedido fosse protelado até o dia seguinte e que ele lhe concedesse ainda a honra de vir novamente cear com ela, trazendo Hamã em sua companhia. Isso ela também obteve facilmente.
Hamã estava muito satisfeito ao sair do banquete, pela honra insigne que a rainha lhe concedia, escolhendo a ele somente para ter a honra de comer com ela à mesa do rei. Contudo, encontrando Mardoqueu no palácio, ficou fora de si pela cólera, ao constatar que ele continuava a não se prostrar diante dele. Quando voltou ao seu aposento, contou à sua mulher, de nome Zeres, e aos seus amigos o favor singular que o rei e a rainha lhe haviam concedido, convidando a ele somente para sentar-se à sua mesa e repetindo o convite também para o dia seguinte. Porém ele acrescentou: &quot;Como poderia eu estar plenamente satisfeito, tendo encontrado Mardoqueu, o judeu, no palácio, que tem a ousadia de me desprezar?&quot; Sua mulher respondeu-lhe que, para livrar-se dele, devia mandar erguer uma forca de cinqüenta côvados de altura e pedir ao rei licença para nela pendurar Mardoqueu no dia seguinte. Ele aprovou o conselho e mandou erguer a forca em sua casa, o que foi feito.
Ester 6. Deus, que via o que estava para acontecer, zombou de sua detestável esperança. Para confundir os seus desígnios, fez com que na noite seguinte o rei não pudesse dormir e que para empregar utilmente o tempo para o bem de sua nação mandasse trazer alguns registros, nos quais ele e os seus predecessores faziam escrever as coisas mais importantes, a fim de lhes conservar a memória. Ele ordenou ao seu secretário que o lesse e lá encontrou que se haviam dado muitas terras a um homem para recompensá-lo por uma ação insigne. Um outro recebera grandes presentes por haver se mostrado fiel, e Mardoqueu descobrira a conjuração feita pelos eunucos Bigtã e Teres.
O secretário queria continuar a ler, mas o rei o deteve, para saber se havia menção de alguma recompensa a Mardoqueu por tão grande serviço. O secretário respondeu que sobre isso nada havia escrito, e o soberano mandou-o então suspender a leitura. Perguntou em seguida a um dos oficiais da guarda que horas eram e mandou que fossem ver se havia à porta do palácio algum daqueles aos quais ele mais estimava. Hamã lá estava, porque viera pedir a morte de Mardoqueu. O rei mandou chamá-lo e, quando ele entrou, disse-lhe: &quot;Como estou certo de que ninguém tem mais afeto por mim do que vós, rogo-vos que me digais o que posso fazer para honrar de maneira digna de mim um homem ao qual estimo muitíssimo&quot;.
Hamã, que sabia que nenhum outro era mais estimado pelo rei, julgou logo que aquelas palavras se referiam a ele. Assim, persuadido de que as suas sugestões seriam aceitas e ainda reverteriam em seu favor, respondeu: &quot;Se vossa majestade quer cumular de favores aquele que merece toda a vossa estima, ordenai que o façam montar sobre um de vossos cavalos vestido à maneira dos reis e com uma cadeia de ouro e que um daqueles que vossa majestade mais estima caminhe diante dele por toda a cidade, clamando como um arauto: E assim que se deve honrar aquele a quem o rei concede os seus favores&quot;.
O rei acolheu com alegria essa sugestão, que Hamã pensava estar dando em favor de si mesmo, e disse-lhe: &quot;Tomai então um de meus cavalos e levai um de meus mantos de púrpura e uma cadeia de ouro para pôr no judeu Mardoqueu. E, estando ele assim revestido como acabais de descrever, ide diante dele, clamando como um arauto o que julgastes conveniente dizer, pois como não amo ninguém mais do que vós, é justo que sejais o executor do sábio conselho que me destes para recompensar um homem ao qual sou devedor da vida&quot;.
Hamã não ficou menos surpreendido com essas palavras do que teria ficado se fosse atingido por um raio. Sendo, porém, obrigado a obedecer a uma ordem tão clara, saiu do palácio com um cavalo, uma veste de púrpura e uma cadeia de ouro e foi procurar Mardoqueu. Encontrou-o perto da porta e ordenou-lhe que tomasse as vestes reais, a cadeia e montasse no cavalo. Mardoqueu, que não tinha a menor idéia do que se passava e do que o levava a falar daquele modo, pensou que Hamã estava zombando dele e respondeu: &quot;Homem mau, o mais perverso de todos os homens! É assim que zombais de nossa infelicidade?&quot; Mas, quando ele soube que o rei o honrava com aquele favor em consideração ao serviço que lhe prestara, vestiu os trajes reais, pôs a cadeia, montou no cavalo e assim percorreu a cidade, levado por Hamã, que clamava diante dele: &quot;É assim que se deve fazer àquele a quem o rei deseja honrar&quot;.
Mardoqueu saiu em seguida do palácio, e Hamã, coberto de confusão, foi com lágrimas contar à mulher e aos amigos o que lhe havia acontecido. Eles disseram que, como parecia visivelmente que Deus ajudava Mardoqueu, ele não podia mais esperar vingar-se dele. Ainda falavam desse assunto quando dois eunucos da rainha vieram dizer-lhe que se apressasse para ir ao banquete. Um deles, de nome Harbona, vendo a forca levantada, perguntou o motivo e soube que estava preparada para Mardoqueu e que Hamã queria pedir ao rei para o executar ali.
Ester 7. O rei, no meio do banquete, disse à rainha que lhe pedisse o que quisesse, pois podia estar certa de o obter. Ela respondeu que o perigo em que ela e todos os de sua nação se encontravam não lhe permitia falar de outra coisa e que não tomaria a liberdade de importuná-lo se se tratasse de condená-los todos a uma dura escravidão, pois tal aflição, por maior que fosse, seria de algum modo suportável. Tratava-se, porém, de sua inteira destruição e do extermínio de todo o seu povo, por isso ela não podia, em tão extremo perigo, deixar de recorrer à sua clemência.
O rei, surpreendido com essas palavras, perguntou-lhe quem havia concebido aquela trama. Ela respondeu que fora Hamã, o qual, pelo ódio mortal que tinha aos judeus, deliberara exterminá-los. A surpresa do rei foi tão grande que ele se levantou da mesa e, muito perturbado, foi para o jardim. Então Hamã não duvidou mais de que estava perdido. Suplicou à rainha que o perdoasse e, como naquele momento se inclinava, caiu junto do assento onde ela estava. O rei entrou e, vendo-o naquela posição, exclamou, ainda mais irritado: &quot;Celerado! O mais pérfido de todos os homens! Quer ainda violar a rainha?!&quot; Essas palavras infundiram tão grande terror no Espírito e no coração de Hamã que ele nada pôde responder. O eunuco Harbona, que estava presente, disse ao rei que quando estivera na casa de Hamã, para chamá-lo ao banquete, vira uma forca de cinqüenta côvados erguida na sua casa e soubera por um de seus servidores que era destinada a Mardoqueu.
O rei ordenou que Hamã nela fosse enforcado imediatamente, para castigá-lo com justiça com o mesmo suplício que ele tão injustamente queria infligir a outro. Nisso eu não saberia admirar suficientemente a sabedoria e o proceder de Deus, que não somente castigou Hamã como ele merecia, mas empregou para isso o mesmo expediente de que ele planejara servir-se para se vingar de seu inimigo. Os maus deveriam aproveitar-se desse exemplo, pois vemos o mal que eles desejam para os outros cair muitas vezes sobre a cabeça deles próprios.
Hamã assim veio a perecer, por haver insolentemente abusado da excessiva afeição com que Artaxerxes o honrava. O soberano deu à rainha o confisco de todos os seus bens. Sabendo então que Mardoqueu era tio da princesa, entregou-lhe o anel que antes Hamã usava. A rainha deu-lhe também todos os bens de Hamã e suplicou ao rei que a tirasse da dúvida em que a punham as cartas que aquele malvado escrevera em nome do rei a todas as províncias do império para fazer massacrar todos os judeus num mesmo dia, pois a morte ser-lhe-ia muito mais doce que sobreviver à ruína de seu povo. O soberano não teve dificuldade em lhe conceder o que ela pedia. Prometeu escrever outras cartas como ela o desejasse, selá-las com o seu sinete e enviá-las a todas as províncias, a fim de que ninguém ousasse desobedecer. Mandou depois escrever as cartas e endereçá-las aos governadores e magistrados das cento e vinte e sete províncias do império.
As cartas estavam assim exaradas: &quot;O grande rei Artaxerxes, a todos os governadores de nossas províncias e a todos os nossos oficiais, saudação. Acontece muitas vezes que aqueles aos quais os reis, por um excesso de bondade, cumulam de benefícios e de honras deles abusam, não somente desprezando os seus inferiores, mas se elevando com insolência contra os seus próprios benfeitores, como se tivessem deliberado abolir toda espécie de gratidão entre os homens e julgassem poder enganar a Deus e esquivar-se à justiça. Assim, eles, quando o favor de seus príncipes os constitui em autoridade no governo de seus Estados, em vez de cuidar somente do bem público, não temem surpreendê-los pelo excesso de suas inimizades particulares e nem receiam em oprimir os inocentes com calúnias. E isso não é apenas uma idéia ou simples suposição ou exemplos passados, mas um crime que os nossos próprios olhos testemunharam e que nos obriga a no futuro não prestar fé tão facilmente a qualquer acusação, mas cuidar antes de indagar da verdade, a fim de castigar severamente os culpados e proteger os inocentes, julgando de uns e de outros por suas ações, e não pelas palavras. Hamã, filho de Hamedata, amalequita de nacionalidade e por isso estrangeiro, e não persa, educado por nós com tal honra que o chamávamos nosso pai, razão pela qual havíamos ordenado que todos se prostrassem diante dele, e considerado o primeiro depois de nós, não pôde conservar-se em tanta honra nem guardar moderação em tão grande prosperidade. Sua ambição levou-o a atentar contra o nosso país, chegando mesmo a querer persuadir-nos de mandar matar Mardoqueu, a quem devemos a vida, e a procurar, com os seus artifícios, fazer a rainha Ester, nossa esposa, correr o mesmo perigo, a fim de que, privando-nos das pessoas mais queridas, afeiçoadas e fiéis, ele pudesse apoderar-se da coroa. Como, porém, reconhecemos que os judeus, cuja ruína ele nos fez decretar, não são culpados, mas, ao contrário, observam uma disciplina muito santa e adoram ao Deus que nos pôs o cetro nas mãos, tal como nas de nossos predecessores, e que conserva este império, não nos contentamos em apenas isentar esse povo do castigo que lhe seria infligido pelas cartas que Hamã nos persuadiu a escrever, das quais não deveis fazer nenhuma conta, mas ordenamos que os trateis com muita honra. Assim, para fazer-lhes justiça e obedecer à vontade de Deus, que nos governa e nos manda castigar os crimes, mandamos enforcar às portas de Susã esse pérfido homem. Ordenamos que cópias destas cartas sejam levadas a todas as províncias, a fim de que todos sejam informados de nossa vontade e deixem viver em paz os judeus na observância de suas leis, e que eles sejam até mesmo auxiliados na vingança que lhes permitimos tomar dos ultrajes que sofreram durante esse tempo de amargura, escolhendo para esse fim o décimo terceiro dia do décimo segundo mês, de nome adar, em que Deus quer torná-los felizes — o mesmo dia que fora destinado à sua completa ruína. Quanto a nós, desejamos que esse dia traga felicidade a todos os que nos são fiéis e seja para sempre um sinal do devido castigo aos maus. Todas as nações e cidades saberão também que os que deixarem de obedecer ao determinado nas presentes cartas serão destruídos pelo ferro e pelo fogo. E, para que ninguém possa duvidar, queremos que elas sejam publicadas em todas as terras de nosso domínio, a fim de que os judeus se preparem para a vingança contra os seus inimigos, no dia que determinamos&quot;.
Logo que essas cartas foram escritas, enviaram-se mensageiros a levá-las por toda parte, com a maior rapidez possível. Mardoqueu, ao mesmo tempo, saiu do palácio real vestido majestosamente, com uma coroa de ouro na cabeça e uma cadeia de ouro. Os judeus que estavam em Susã, vendo o grande prestígio que ele desfrutava, tomavam também parte na sua felicidade. Os judeus das províncias, para onde as cartas do rei haviam sido levadas, consideraram-nas, em transportes de alegria, uma luz favorável que lhes anunciava a libertação, e os seus inimigos sentiram tanto medo do ressentimento deles que vários se fizeram cir-cuncidar, a fim de não perecer. Os correios do rei não deixaram de comunicar aos judeus que eles podiam, no décimo terceiro dia do décimo segundo mês, ao qual chamamos adar, e os macedônios, distro, vingar-se impunemente dos inimigos. Assim, não havia príncipe, governador, grande ou magistrado que não prestasse honras aos judeus, de tanto que eles temiam Mardoqueu.
Quando chegou o dia marcado para a vingança dos judeus, eles mataram, em Susã, cerca de quinhentos homens. O rei disse-o à rainha e perguntou-lhe se ela estava satisfeita, porque nada havia que ele não fizesse para contentá-la. Ela rogou-lhe que prolongasse a vingança até o dia seguinte e mandasse enforcar os dez filhos de Hamã. Ele a satisfez, e assim, no décimo quarto dia daquele mesmo mês, os judeus mataram ainda em Susã cerca de trezentos homens, sem tocar em coisa alguma de seus bens. O número dos que eles mataram no dia precedente, em todas as outras cidades, foi de setenta e cinco mil. Empregaram o dia seguinte em regozijar-se com banquetes, e, ainda hoje, os judeus espalhados por todo o mundo solenizam esse dia e enviam uns aos outros parte do que é servido nas festas e nos banquetes.
Mardoqueu escreveu a todos os judeus súditos do rei Artaxerxes que soleni-zassem aqueles dois dias e ordenassem aos seus descendentes fazer o mesmo, para que fosse conservada a memória daquele fato, pois era muito justo que, tendo o ódio mortal de Hamã feito com que corressem o grande perigo de serem exterminados, eles agradecessem a Deus para sempre, não somente por tê-los salvo do furor de seus inimigos, mas por lhes providenciar um meio de se vingarem deles. Os judeus deram àquele mesmo dia o nome de Purim, isto é, &quot;dia de conservação&quot;, porque eles haviam sido milagrosamente preservados. O prestígio de Mardoqueu crescia sempre, e o rei o elevou a tal grau de autoridade que ele governava, sob dependência do soberano, todo o reino e tinha também todo poder perante a rainha, de modo que a felicidade dos judeus ia muito além do que eles podiam desejar.
O que acabo de narrar foi o que aconteceu de mais importante à nossa nação durante o reinado de Artaxerxes.

CAPÍTULO 7
JOÃO, SUMO SACERDOTE, MATA SEU IRMÃO JESUA NO TEMPLO. MANASSES,
IRMÃO DEJADO, SUMO SACERDOTE, DESPOSA AFILHA DE SANABALETE,
GOVERNADOR DE SAMARIA.

448. Depois da morte de Eliasibe, sumo sacerdote, Judas, seu filho, sucedeu-o. Tendo morrido Judas, João, seu filho, sucedeu-o, e foi causa de que Bagose, general do exército de Artaxerxes, profanasse o Templo e impusesse aos judeus um tributo de quinhentas dracmas, pagas à custa do público, para cada cordeiro que oferecessem em sacrifício. Isso aconteceu por um motivo, que relatarei a seguir.
Bagose estimava muito Jesua, irmão de João, e prometera obter-lhe o cargo de sumo sacerdote. Um dia, quando os dois irmãos estavam no Templo, tiveram por esse motivo uma discussão, e João, arrebatado pela cólera, matou o irmão naquele santo lugar, cometendo assim um crime abominável, tanto que não há exemplo de semelhante impiedade entre os gregos e nem mesmo entre os povos mais bárbaros. E Deus não deixou impune esse sacrilégio: por essa causa, os judeus perderam a liberdade, e o Templo foi profanado pelos persas. Logo que Bagose soube disso, veio gritando com furor: &quot;Ai! Miserável que sois, não tendes medo de cometer no vosso próprio santuário um crime tão espantoso?&quot; Ele quis em seguida entrar lá e, como quisessem impedi-lo, disse com voz ainda mais forte: &quot;Credes-me então mais impuro que esse corpo morto que vejo aí estendido?&quot; Dizendo essas palavras, entrou no Templo e serviu-se desse pretexto para perseguir os judeus durante sete anos.
Depois da morte de João, Jado, seu filho, sucedeu-o no cargo de sumo sacerdote. Ele tinha um irmão de nome Manasses, o qual havia desposado Nicasis, filha de Sanabalete, chuteense, e governador de Samaria, criado por Dario, rei dos persas. Sanabalete o escolhera para genro, porque, vendo que Jerusalém era uma cidade célebre e que causara muitas preocupações aos assírios e à Baixa Síria, tentou por esse meio conquistar o afeto dos judeus.

CAPÍTULO 8
ALEXANDRE, O GRANDE, REI DA MACEDÔNIA, PASSA DA EUROPA PARA A
ÁSIA E DESTRÓI O IMPÉRIO DOS PERSAS. QUANDO SE JULGA QUE VAI DESTRUIR JERUSALÉM, ELE PERDOA OS JUDEUS E TRATA-OS FAVORAVELMENTE.

449.  Nesse mesmo tempo, Filipe, rei da Macedônia, foi morto à traição na cidade de Egéia, por Pausânias, filho de Ceraste, que era da família dos Orestes. Alexandre, o Grande, seu filho, sucedeu-o. E, passando o estreito do Helesponto, entrou na Ásia e venceu, numa grande batalha perto do rio Grânico, os que comandavam o exército de Dario. Conquistou em seguida a Lídia e a Jônia, e atravessando a Caria, entrou na Panfília.
450.  No entanto, os mais ilustres de Jerusalém não podiam tolerar que Manasses, irmão de jado, sumo sacerdote, tivesse desposado uma estrangeira, porque isso violava as leis referentes aos casamentos e estabelecia uma mistura profana com nações idolatras. Além disso, fora exatamente essa a causa do cativeiro e de tantos males que haviam sofrido. Assim, eles insistiam em que Manasses ou despedisse a sua mulher ou não servisse mais no altar. Jado, forçado pelas queixas dos outros, fez valer essa proibição.
Manasses então procurou Sanabalete, seu sogro, e disse-lhe que, ainda que amasse extremamente a sua mulher, o sacerdócio era uma tão grande honra entre os seus nacionais que ele não podia privar-se dela. Sanabalete respondeu-lhe que, se ele conservasse consigo sua filha, não somente o faria desfrutar aquela honra, mas obteria para ele o cargo de sumo sacerdote e príncipe da Judéia e conseguiria do rei Dario o consentimento para construir um templo semelhante ao de Jerusalém sobre o monte Gerizim, que é o mais alto da região e situa-se em Samaria.
Sanabalete era então muito idoso, porém Manasses não deixou de sentir o efeito de suas promessas, pelo favor de Dario. Assim, estabeleceu-se em Samaria, e vários outros sacerdotes e judeus, que também haviam contraído semelhantes matrimônios, uniram-se a ele. Sanabalete, secundando a ambição do genro, deu-lhe dinheiro, casas e terras. Tudo isso veio causar grande agitação em Jerusalém.
451.  Dario, tendo sabido da vitória obtida por Alexandre sobre os seus generais, reuniu todas as suas forças, para marchar contra ele antes que se tornasse senhor de toda a Ásia. Depois de passar o Eufrates e o monte Tauro, que está na Cilícia, resolveu dar-lhe combate. Quando Sanabalete viu que ele se aproximava de Jerusalém, disse a Manasses que cumpriria a sua promessa logo que Dario tivesse vencido Alexandre, pois tanto ele quanto os povos da Ásia duvidavam que os macedônios, sendo em tão pequeno número, ousassem combater o formidável exército dos persas. Os fatos, no entanto, mostraram o contrário. A batalha travou-se, e Dario foi vencido, com graves perdas. Sua mãe, sua mulher e seus filhos foram feitos prisioneiros, e ele foi obrigado a fugir para a Pérsia.
Alexandre, depois da vitória, chegou à Síria. Tomou Damasco, apoderou-se de Sidom e sitiou Tiro. Durante o tempo em que esteve empenhado nessa empresa, escreveu a Jado, sumo sacerdote dos judeus, pedindo-lhe três coisas: auxílio, comércio livre com o seu exército e a mesma assistência dispensada a Dario. Se o fizesse, garantia-lhe que não teria motivo para se arrepender de ter preferido a sua amizade à de Dario. O sumo sacerdote respondeu que os judeus haviam prometido com juramento a Dario jamais tomar armas contra ele, e por isso não podiam fazê-lo enquanto ele vivesse.
Alexandre ficou tão irritado com essa resposta que mandou dizer-lhe que, logo que tivesse tomado Tiro, marcharia contra ele com todo o seu exército para ensinar a ele e aos demais a quem se devia guardar um juramento. Em seguida, atacou Tiro com tanta força que dela se apoderou. E, depois de haver regularizado todas as coisas, foi sitiar Gaza, onde Baemes governava em nome do rei da Pérsia.
452.  Voltemos, porém, a Sanabalete. Enquanto Alexandre ainda estava ocupado no cerco de Tiro, ele julgou que o tempo era próprio para realizar o seu intento. Assim, abandonou o partido de Dario e levou oito mil homens a Alexandre. O grande príncipe recebeu-o muito bem. Sanabalete disse-lhe então que tinha um genro de nome Manasses, irmão do sumo sacerdote dos judeus, que vários daquela nação se haviam juntado a ele pelo afeto que ele lhes tinha e que desejava construir um templo próximo de Samaria, sendo que o rei poderia disso tirar grande vantagem, porque assim dividiria as forças dos judeus e impediria que aquela nação pudesse se revoltar por inteiro e causar-lhe dificuldades, tal como fizeram os antepassados deles aos reis da Síria.
Alexandre consentiu nesse pedido, ordenou que se trabalhasse com incrível diligência na construção do templo e constituiu Manasses sumo sacerdote. Sanabalete sentiu grande alegria por ter granjeado tão grande honra aos filhos que ele teria de sua filha. Ele morreu depois de passar sete meses junto de Alexandre no cerco de Tiro e dois no de Gaza. O ilustre conquistador, depois que tomou essa última cidade, avançou para Jerusalém, e o sumo sacerdote Jado, que bem conhecia a sua cólera contra ele, vendo-se com todo o povo em tão grave perigo, recorreu a Deus, ordenou orações públicas para implorar o seu auxílio e ofereceu-lhe sacrifícios. Deus apareceu-lhe em sonhos na noite seguinte e disse-lhe que espalhasse flores pela cidade, mandasse abrir todas as portas e fosse ao encontro de Alexandre revestido de suas vestes sacerdotais, acompanhado pelos demais, que deveriam estar vestidos de branco, sem nada temer do soberano, porque ele os protegeria.
Jado comunicou com grande alegria a todo o povo a revelação que tivera, e todos se prepararam para esperar a vinda do rei. Quando se soube que ele já estava perto, o sumo sacerdote, acompanhado pelos outros sacerdotes e por todo o povo, foi ao seu encontro com essa pompa tão santa e tão diferente da de outras nações até o lugar denominado Safa, que em grego significa &quot;mirante&quot;, porque de lá se pode ver a cidade de Jerusalém e o Templo. Os fenícios e os caldeus que integravam o exército de Alexandre não duvidavam de ele, na cólera em que se achava contra os judeus, lhes permitiria saquear Jerusalém e daria um castigo exemplar ao sumo sacerdote.
Mas aconteceu justamente o contrário, pois o soberano, apenas viu aquela grande multidão de homens vestidos de branco e os sacerdotes revestidos com os seus paramentos de linho e o sumo sacerdote com o seu éfode de cor azul adornado de ouro e com a tiara sobre a cabeça, que continha uma lâmina de ouro sobre a qual estava escrito o nome de Deus, aproximou-se sozinho dele, adorou aquele augusto nome e saudou o sumo sacerdote, ao qual ninguém ainda havia saudado. Então os judeus reuniram-se em redor de Alexandre e elevaram a voz para desejar-lhe toda sorte de felicidade e de prosperidade. Porém os reis da Síria e os grandes que o acompanhavam ficaram tão espantados que julgaram que ele havia perdido o juízo.
Parmênio, que desfrutava grande prestígio, perguntou-lhe como ele, que era adorado em todo mundo, adorava o sumo sacerdote dos judeus. Respondeu Alexandre: &quot;Não é a ele, ao sumo sacerdote, que adoro, mas ao Deus de quem ele é o ministro, pois quando eu estava ainda na Macedônia e imaginava como poderia conquistar a Ásia, ele me apareceu em sonhos com essas mesmas vestes e exortou-me a nada temer. Disse-me que passasse corajosamente o estreito do Helesponto e garantiu que Deus estaria à frente de meu exército e me faria conquistar o império dos persas. Eis por que, jamais tendo visto antes alguém revestido de trajes semelhantes a esses com que ele me apareceu em sonho, não posso duvidar de que tenha sido por ordem de Deus que empreendi esta guerra, e assim vencerei Dario, destruirei o império dos persas, e todas as coisas suceder-me-ão segundo os meus desejos&quot;.
Alexandre, depois de assim responder a Parmênio, abraçou o sumo sacerdote e os outros sacerdotes, caminhou no meio deles até Jerusalém, subiu ao Templo e ofereceu sacrifícios a Deus da maneira como o sumo sacerdote lhe disse para fazer. O sumo sacerdote mostrou-lhe em seguida o livro de Daniel, no qual estava escrito que um príncipe grego destruiria o império dos persas e disse-lhe que não duvidava de que era dele que a profecia fazia menção. Alexandre ficou muito contente. No dia seguinte, mandou reunir o povo e ordenou que dissessem que favores desejavam receber dele. O sumo sacerdote respondeu que eles suplicavam permissão para viver segundo as suas leis e as de seus antepassados e isenção, no sétimo ano, do tributo que lhe pagariam nos outros anos. Ele concordou. E, tendo eles também pedido que os judeus que moravam na Babilônia e na Média desfrutassem os mesmos favores, ele o prometeu com grande bondade e disse que se alguém desejasse servir em seus exércitos ele permitiria a tal pessoa viver segundo a sua religião e observar todos os seus costumes. Vários então alistaram-se.
Esse grande príncipe, depois de agir desse modo em Jerusalém, passou às cidades vizinhas, que lhe abriram as portas. Os samaritanos, cuja capital então era Siquém, situada sobre o monte Gerizim e habitada por judeus desertores de sua nação, vendo que o conquistador tratara com bondade os de Jerusalém, resolveram dizer-lhe que também eram judeus. Pois, como dissemos há pouco, eles não nos reconhecem por compatriotas quando as coisa vão mal para nós e então falam a verdade. Mas quando a sorte nos é propícia eles procuram provar que têm a mesma origem, que são do nosso sangue, como descendentes de José por Manasses e Efraim, seus filhos.
Assim, logo que Alexandre saiu de Jerusalém, eles foram, acompanhados pelos soldados que Sanabalete lhes havia mandado, à presença do soberano com grande aparato e demonstrações de alegria para pedir-lhe que fosse à sua cidade e honrasse o seu templo com a sua presença. Ele prometeu fazê-lo na volta. Quanto a um pedido para que também lhes perdoasse no sétimo ano os tributos, porque eles não semeavam a terra nessa ocasião, ele perguntou de que nação eles eram. Responderam que eram hebreus, mas que os sidônios os chamavam de siquemitas. Ele perguntou-lhes então se eram judeus. Eles responderam que não, e então ele lhes disse: &quot;Eu concedi esse favor somente aos judeus, mas vou me informar desse assunto quando voltar e, depois que souber de tudo detalhadamente, farei o que for mais justo&quot;. Depois de assim lhes falar, despediu-os, mas ordenou às tropas de Sanabalete que o seguissem ao Egito, onde lhes daria terras, o que ele fez logo em seguida, e os aquartelou como guarnições da Tebaida.
Depois da morte de Alexandre, o império foi dividido entre os seus sucessores, e o templo construído no monte Gerizim permaneceu em seu primitivo estado. Os judeus que moravam em Jerusalém e pecavam contra a fé, quer comendo alimentos proibidos, quer não observando o sábado, ou coisa semelhante, refugiavam-se entre os siquemitas, alegando que haviam sido injustiçados. Jado, sumo sacerdote, morreu nessa época, e Onias, seu filho, sucedeu-o.
Livro Décimo Segundo

CAPÍTULO 1
OS CHEFES DOS EXÉRCITOS DE ALEXANDRE, O GRANDE, DIVIDEM O IMPÉRIO
DEPOIS DE SUA MORTE. TOLOMEU TORNA-SE DE IMPROVISO SENHOR DE
JERUSALÉM. MANDA VÁRIAS COLÔNIAS DE JUDEUS AO EGITO E CONFIA
NELES. GUERRAS CONTÍNUAS ENTRE JERUSALÉM E OS SAMARITANOS.

453. Alexandre, o Grande, morreu, depois de vencer os persas e tratar Jerusalém do modo como falamos. Seu império foi dividido entre os chefes de seu exército: Antígono recebeu a Ásia; Seleuco, a Babilônia e as nações vizinhas; Lisímaco, o Helesponto; Cassandro, a Macedônia e Tolomeu, filho de Lago, o Egito. Houve divergências entre eles com relação ao governo, as quais causaram sangrentas e longas guerras, desolação em várias cidades e a morte de um grande número de pessoas.
A Síria sofreu todos esses males sob o reinado de Tolomeu, de quem acabamos de falar e ao qual se dava o nome de Sóter, isto é, &quot;salvador&quot;, mas ele mostrou que não o tinha por justo título, pois veio a Jerusalém num dia de sábado com o pretexto de oferecer sacrifícios, e os judeus — como não desconfiaram dele, pois era dia de descanso — receberam-no sem dificuldade. Então esse príncipe tirou vários habitantes dos montes da Judéia, dos arredores de Jerusalém, da Samaria e do monte Cerizim e enviou-os para o Egito. Agatarchide, cnídio, que escreveu a história dos sucessores de Alexandre, censura por esse motivo a nossa tradição, dizendo que ela nos fez perder a liberdade. Disse ele: &quot;Um povo, que traz o nome de judeu e que habita numa cidade grande e forte de nome Jerusalém, não tendo querido, por uma longa superstição, tomar as armas, permitiu que Tolomeu dela se tornasse senhor e rude dominador&quot;.
 
Tolomeu, sabendo da resposta que os judeus tinham dado a Alexandre depois que vencera Dario — o que lhe deu a certeza de que eles observavam muito religiosamente os seus juramentos — confiou-lhes a guarda de diversos lugares, deu-lhes em Alexandria direitos de burguesia iguais aos dos macedônios e os obrigou, por juramento, a serem fiéis a ele e à sua posteridade. Vários outros judeus foram de boa mente estabelecer-se no Egito, para onde se dirigiam atraídos pela fertilidade do país e pelo afeto que Tolomeu testemunhava aos de sua nação.
Os descendentes desses judeus fizeram contínua guerra aos samaritanos, porque nem uns nem outros queriam deixar os seus costumes. Os de Jerusalém sustentavam que somente o Templo de Jerusalém era santo e que não se deviam fazer sacrifícios em outros lugares. Por outro lado, os samaritanos sustentavam que era necessário oferecê-los no monte Gerizim.

CAPÍTULO 2
TOLOMEU FILADELFO, REI DO EGITO, LIBERTA CENTO E VINTE MIL JUDEUS QUE
ESTAVAM ESCRAVOS NO SEU REINO. MANDA VIR SETENTA E DOIS HOMENS
DA JUDÉIA PARA TRADUZIR EM GREGO AS LEIS DOS JUDEUS, ENVIA
RIQUÍSSIMOS PRESENTES AO TEMPLO E TRATA OS DEPUTADOS COM
MAGNIFICÊNCIA REAL.

454. Tolomeu, cognominado Filadelfo, sucedeu no reino do Egito a Tolomeu Sóter, seu pai, e reinou trinta e nove anos. Mandou traduzir em grego as leis dos judeus e permitiu a cento e vinte mil homens que estavam nessa nação voltar ao seu país, e disso devo dar a razão.
Demétrio Falero, diretor da biblioteca do príncipe, trabalhava com extremo cuidado para reunir, de todos os lugares do mundo, os livros que julgava merecerem essa honra e tinha isso como coisa que seria muito agradável ao soberano. Um dia, o rei perguntou-lhe quantos livros possuía, e ele respondeu que eram mais ou menos duzentos mil, mas esperava dentro de pouco tempo chegar a quinhentos mil, e que soubera haver entre os judeus muitas obras referentes às suas leis e aos seus costumes, escritas em sua língua e em seus caracteres e muito dignas de ocupar um lugar naquela soberba biblioteca. Porém, dariam muito trabalho para serem traduzidas em grego, porque a língua e os caracteres hebraicos tinham grande semelhança com os siríacos. No entanto, isso poderia ser feito, pois sua majestade não se importava com as despesas.
O rei aprovou essa proposta e escreveu ao sumo sacerdote dos judeus, para que este lhe enviasse os livros. Aconteceu que naquele mesmo tempo Aristeu, a quem o príncipe amava extremamente por causa de sua moderação e sabedoria, tinha em mente pedir que pusessem em liberdade os judeus que estavam em seu reino. E essa ocasião pareceu-lhe muito favorável ao seu desígnio. No entanto, ele julgou dever comunicá-lo a Zozibe, a Tarentino e a André, chefes de seus guardas, antes de fazer a proposta ao rei, a fim de que eles apoiassem o que ia dizer. E todos foram da mesma opinião.
Então ele falou deste modo ao soberano: &quot;Tendo sabido que vossa majestade tem a intenção de ter não somente uma cópia das leis que os judeus observam, mas fazê-las traduzir, eu não estaria falando com sinceridade se fingisse não ver que isso não pode ser feito honestamente, quando vossa majestade conserva escravos neste reino um grande número de pessoas dessa nação. Mas seria, sem dúvida, digno de vossa bondade e generosidade libertar todos eles dessa miséria, pois, segundo o que pude concluir, após ter-me seguramente informado, o mesmo Deus que governa o vosso império e que adoramos sob o nome de Júpiter, porque nos conserva a vida, foi o autor da lei desse povo. Sendo, pois, que nenhuma outra nação lhe presta tão grande honra e culto tão particular, a sua piedade parece me obrigar a encaminhá-los ao seu país. Por isso, suplico humildemente que vossa majestade creia que a liberdade que tomo de vos falar assim não provém de nenhuma ligação ou aliança com esse povo, mas somente por eu saber que Deus é o Criador de todos os homens, em geral, e que as boas ações lhe são agradáveis&quot;.
O rei escutou com atenção essas palavras e, com rosto alegre, perguntou a Aristeu qual seria o número de judeus aos quais ele propunha a liberdade. André, que estava presente, respondeu que podiam ser uns cento e vinte mil. Disse então o rei a Aristeu: &quot;Credes, então, Aristeu, que o que me pedis é um pequeno presente?&quot; Zozibe e Tarentino tomaram, então, a palavra e disseram ao rei que nada poderia seria mais digno de sua majestade que reconhecer com tão grandiosa ação o dever de agradecer a Deus por tê-lo elevado ao trono. O soberano sentiu tanto prazer ao constatar que todos pensavam do mesmo modo que prometeu — para satisfazer plenamente a vontade de Deus, segundo o desejo de Aristeu — pagar aos soldados, além do soldo, cento e vinte dracmas para cada judeu que tivessem como escravo. Eles disseram-lhe que essa despesa subiria a mais de quatrocentos talentos, mas ele respondeu que isso não o impediria de fazê-lo.
Inclino-me a relatar as próprias palavras desse grande príncipe a esse respeito, a fim de que melhor se conheça a sua generosidade: &quot;Queremos que todos os judeus aos quais os soldados do falecido rei, nosso pai, aprisionaram na Síria, na Fenícia e na judéia e venderam no Egito, como também os que antes ou mesmo depois foram vendidos em nosso reino, sejam libertados da servidão, e que se dêem de nossa moeda a cada um deles cento e vinte dracmas, que os nossos soldados receberão, além do soldo, pelos que forem de sua propriedade, e que os nossos tesoureiros paguem o resgate dos outros aos respectivos senhores. Porque tenho motivos para crer que isso ocorreu contra a vontade do rei, nosso pai, e contra toda a eqüidade, e que os soldados trouxeram ao Egito esse grande número de escravos pelo único desejo de se aproveitarem deles. O amor à justiça e a compaixão que se deve ter dos infelizes nos obriga a libertar todos esses escravos, depois de paga aos seus senhores a quantia que estipulamos. E, como não duvidamos de que a bondade da qual usamos nesta ocasião não nos será vantajosa, queremos que a presente determinação seja cumprida em boa fé, e, depois que for publicada, os que possuírem tais escravos nos dêem disso uma relação, dentro de três dias. Será permitido denunciar a quem não nos obedecer, e todos os seus bens serão confiscados em nosso favor&quot;.
Esse documento foi apresentado ao rei, e ele achou que não estava bem explícito, pois deveria incluir expressamente os que haviam sido feito escravos antes e depois de tão grande número ser trazido ao Egito, quando Tolomeu Sóter se tornou senhor de Jerusalém. Ele queria, por uma bondade e magnificência reais, conceder a esses a mesma graça. Então ordenou que se tomasse a quantia necessária dos cofres dos tributos, para que fosse entregue aos tesoureiros e distribuída aos soldados como resgate desses judeus. A ordem foi executada em sete dias, e veio a custar ao soberano quatrocentos e sessenta talentos, porque os senhores dos escravos judeus cobraram também pelas crianças as cento e vinte dracmas de que falava a ordem real.
Depois de uma libertação tão extraordinária, o rei, que nada fazia sem madura reflexão, ordenou a Demétrio que fizesse publicar a sua determinação a respeito da tradução dos livros hebraicos para a língua grega. Registrou-se o pedido apresentado a sua majestade por Demétrio, bem como as cartas escritas a esse respeito, o número e a riqueza dos presentes que foram enviados a fim de se dar a conhecer a extraordinária magnificência do soberano e o que os operários haviam feito como contribuição para a arte.
A proposta apresentada ao rei por Demétrio, em forma de pedido, estava exarada nestes termos: &quot;Demétrio, ao grande rei. Como vossa majestade me ordenou, fiz uma indagação a mais exata possível dos livros que ainda faltam para tornar perfeita a biblioteca real. Não houve cuidado ou solicitude que eu não empregasse nisso, e tenho de comunicar à vossa majestade que os livros que contêm as leis dos judeus estão no número dos que faltam, tanto porque estão escritos em caracteres hebraicos, que não conhecemos, quanto porque não nos incomodamos em procurá-los, porque vossa majestade ainda não havia manifestado o desejo de possuí-los. No entanto, é necessário possuí-los e que sejam fielmente traduzidos, porque contêm as mais sábias e perfeitas leis do mundo, pois foi o próprio Deus quem as outorgou, o que fez o historiador Hecateu Abderita dizer que não há poeta nem historiador que tenha falado assim, nem homem que tenha cumprido o que elas determinam, porque, sendo todas santas, não devem estar na boca dos profanos. É necessário, pois, se vossa majestade bem o julgar, que se escreva ao sumo sacerdote dos judeus para que ele escolha, entre os principais de cada tribo, os mais inteligentes e os que conhecem com mais perfeição essas leis e vo-los envie, a fim de que se reúnam e façam uma tradução exata e capaz de satisfazer plenamente os desejos de vossa majestade&quot;.
Depois que o rei leu essa petição, ordenou que se escrevesse conforme o que nela se dizia a Eleazar, sumo sacerdote dos judeus, e determinou que se desse liberdade a todos os judeus que eram ainda escravos no seu reino. Ordenou que se enviassem cinqüenta talentos de ouro, para a confecção de taças, vasos e outros objetos próprios para as oblações, muitas pedras preciosas, que os guardas do tesouro haviam entregado aos joalheiros para que escolhessem e trabalhassem as que podiam ser usadas em adornos, e cem talentos de prata, para os sacrifícios e outros usos do Templo.
Falarei das obras e dos ornamentos em que foram empregados, mas é preciso antes apresentar uma cópia da carta escrita ao sumo sacerdote e dizer de que modo ele foi elevado a essa dignidade. Depois da morte do sumo sacerdote Onias, Simão, seu filho, sucedeu-o e foi cognominado o Justo, por sua piedade e extrema bondade para com a nação. Deixou apenas um filho, de nome Onias, tão jovem que Eleazar, irmão de Simão, de quem se trata agora, exerceu no lugar dele o sumo sacerdócio.
Foi a esse Eleazar que Tolomeu escreveu a seguinte carta: &quot;O rei Tolomeu a Eleazar, sumo sacerdote, saudação. O falecido rei, nosso pai, tendo encontrado em seu reino vários judeus que os persas para lá haviam levado como escravos, tratou-os tão favoravelmente que os engajou em grande parte no seu exército, com bom soldo. Colocou vários deles como guarnição em diversos lugares, con-fiando-lhes até mesmo a defesa. Isso os tornou temíveis aos egípcios. E nós, depois de nossa ascensão ao trono, não lhes testemunhamos menos bondade, particularmente aos de Jerusalém — pois pusemos em liberdade mais de cem mil deles depois de pagar o resgate aos seus senhores — tanto estamos persuadidos de nada mais poder fazer de agradável a Deus para agradecer-lhe a dádiva de haver colocado o cetro em nossas mãos para o governo de tão grande reino. Fizemos também alistar em nossas tropas aqueles que pela idade são os mais aptos a pegar em armas e destacamos mesmo alguns deles para servir junto de nós, como prova de nossa confiança na sua fidelidade. Mas, para vos mostrar mais particularmente a nossa afeição pelos judeus de todo o mundo, queremos que se traduzam as vossas leis do hebraico para o grego, e colocaremos essa tradução em nossa biblioteca. Assim, far-nos-eis coisa muito grata se escolherdes em todas as vossas tribos pessoas que, pela idade e inteligência, tenham adquirido um grande conhecimento de vossas leis e sejam capazes de as traduzir com exata fidelidade. Não duvidamos de que essa obra, saindo como nós esperamos, nos trará grande glória. Para tratar convosco desse assunto, enviamo-vos André, comandante de nossos guardas, e Aristeu, que são dois dos nossos servidores de mais confiança. Eles vos estão levando, de nossa parte, cem talentos de prata, para serem empregados nas oblações dos sacrifícios e em outros usos do Templo. Esperamos a vossa resposta, e ela nos causará grande alegria&quot;.
Eleazar, para responder a essa carta o mais respeitosamente possível, assim escreveu ao rei: &quot;O sumo sacerdote Eleazar, ao rei Tolomeu, saudação. Recebi com o sentimento que devo ter pela vossa real benevolência a carta que vossa majestade se dignou escrever-me. Ela foi lida na presença de todo o povo, e nela notamos, com grande satisfação, sinais de vossa piedade para com Deus. Recebemos também e mostramos a todos os vinte vasos de ouro e os trinta de prata, as cinco taças e a mesa que devem ser consagradas e empregadas nos sacrifícios e no serviço do Templo, bem como os cem talentos que nos foram trazidos, da parte de vossa majestade, por André e Aristeu, cujos méritos os tornam tão dignos da afeição com que os honra vossa majestade. Vossa majestade pode ficar certo de que tudo faremos para mostrar o nosso reconhecimento pelos tantos favores com que vos dignais cumular-nos. Oferecemos também sacrifícios a Deus por vossa majestade, pela princesa vossa irmã, pelos príncipes, por vossos filhos e por todas as pessoas que vos são caras. Todo o povo pediu a Deus em suas orações que escute os vossos desejos, confirme o vosso reino em perfeita paz e faça com que essa tradução de nossas leis vos dê toda a satisfação que possais desejar. Escolhemos, majestade, seis homens de cada uma de nossas tribos para levar até vós as nossas santas leis e esperamos de vossa bondade e justiça que, quando não tiverdes mais necessidade deles, sejam mandados de volta em segurança com os que vos irão apresentá-los&quot;.
Seria inútil, segundo a minha opinião, citar aqui os nomes das setenta e duas pessoas que levaram as leis dos judeus ao rei Tolomeu, embora todas sejam mencionadas na carta do sumo sacerdote. Não creio, porém, dever passar em silêncio a magnificência e a beleza dos presentes que o príncipe ofereceu a Deus, pois podem nos manifestar ainda mais a sua piedade. Não se contentou ele em fazer grandes despesas para esse fim, mas ofereceu presentes até aos operários, para incitá-los a trabalhar com maior cuidado e diligência. Assim, embora a continuação da história não me obrigue a falar disso, não deixarei de fazê-lo, pois tão extraordinária liberalidade merece que dela fiquem indícios para a posteridade.
Começarei pela soberba mesa. Como o príncipe desejava que ela sobrepujasse em muito a que estava no Templo em Jerusalém, mandou tomar a medida desta, e era seu desejo que a sua fosse cinco vezes maior. Contudo, como ele também tinha em mente a comodidade e a magnificência, o temor de torná-la inútil ao uso a que era destinada obrigou-o a contentar-se em fazê-la do mesmo tamanho que a outra. Todavia, para embelezá-la e enriquecê-la, usou o mesmo que teria gasto para fazê-la maior, pois era perito em todas as artes e tão hábil em inventar coisas novas e admiráveis que ele mesmo fornecia os desenhos aos operários e os instruía sobre a maneira de executá-los.
O comprimento da mesa era de dois côvados e meio, a largura, de um côvado e a altura, de um côvado e meio. Era de ouro maciço, muito puro. As bordas, cuja largura era de um palmo, tinham florões em relevo, também em escultura, dispostos ao redor de alguns cordões muito bem trabalhados. Os diversos lados desses florões, que eram de forma triangular, eram tão iguais e tão justos que de qualquer lado mostravam sempre a mesma figura. A parte inferior da mesa era muito bem trabalhada, mas a superior era ainda mais, porque ficava mais expôsta à vista, e, para qualquer lado que estivesse voltada, era sempre perfeitamente bela. Pedras preciosas de grande valor estavam presas com broches de ouro, a distância iguais, aos cordões de que falamos.
Havia também ao redor de toda a mesa grande quantidade de outras pedras preciosas, cortadas de forma oval e entremeadas de adornos em relevo. E, ainda ao redor da mesa, estavam representadas, sob a forma de uma coroa, diversas espécies de frutos, tais como cachos de uvas, espigas de trigo e romãs. Todos esses frutos eram feitos de pedras preciosas coloridas e encastoadas no ouro. Viam-se também, sob essa coroa, uma fila de pérolas em forma de ovos e, abaixo das pérolas, uma fileira de pedras preciosas deforma oval, misturadas com obras de relevo, como as outras.
A mesa era tão bela em si mesma e em todas as suas partes, e tão ricamente trabalhada, que de qualquer lado que fosse vista não se notava diferença alguma. Havia por baixo uma lâmina de ouro de quatro dedos de largura, que a atravessava inteiramente e na qual os pés da mesa estavam presos com grampos de ouro, a igual distância. Esses grampos prendiam de tal modo a parte inferior da mesa que, estando colocada em qualquer posição, apresentava sempre o mesmo aspecto.
Gravado sobre a mesa estava um meandro,* assinalado por grande quantidade de pedras preciosas, como se fossem estrelas. Era um prazer ver brilhar os rubis, as esmeraldas e tantas outras pedras de valor, todas estimadas e procuradas pela sua excelência. Ao longo desse meandro, havia nós de escultura cujo centro, em forma de losango, era enriquecido com cristais e com âmbar, em intervalos iguais e tão bem dispostos que nada podia ser mais belo ou perfeito. As cornijas dos pés eram em forma de lírios, cujas folhas se dobravam por baixo da mesa, embora a haste fosse reta. Sua base, da largura de um palmo, era enriquecida com rubis e tinha uma dobra ao redor. Era de oito dedos o espaço entre os pés, e eles estavam apoiados sobre essa base.
A figura dos pés era admirável. Viam-se heras e ramos de videira com os cachos entrelaçados de maneira muito delicada, tão agradável e semelhantes ao natural que, quando soprava o vento, os olhos se enganavam, parecendo vê-los mover-se, como se não fossem obras de arte, mas da natureza.
As três peças de que toda a mesa era composta estavam tão bem adaptadas que não era possível perceber as junturas. A espessura da mesa era de meio côvado. Assim, a riqueza da matéria e a excelência e variedade dos ornamentos de tão magnífico presente mostravam muito bem que esse grande príncipe, não tendo podido, pelas razões que citamos, fazer essa mesa maior que a que estava no Templo, nada economizou para que a superasse em tudo o mais.

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* Meandro é um rio da Frígia, que tem várias voltas e contravoltas.

Havia também dois grandes vasos de ouro em forma de taça e talhados em escamas. Neles estavam encaixadas, desde os pés até em cima, diversas fileiras de pedras preciosas, que compunham um meandro de um côvado de largura, e acima dele havia gravuras excelentes. Um tecido em forma de rede, da largura de quatro dedos, que ia até o alto dos vasos e dos compartimentos feitos em losangos, aumentava ainda a beleza daquela obra. As bordas dos vasos eram enriquecidas com lírios e outras flores, e com ramos de videira carregados de cachos de uvas entrelaçados. Cada um desses vasos continha duas grandes medidas. Já as taças de prata eram mais brilhantes que espelhos e reproduziam o rosto dos que as contemplavam.
O rei mandou também trinta vasos, nos quais o que não estava coberto de pedras preciosas tinha folhas de hera e de vinha muito bem gravadas. Não era possível contemplar essas obras sem admiração, porque o zelo a elas dedicado e a sua magnificência contribuíam mais para isso que o trabalho e a ciência daqueles excelentes artífices. O príncipe não se contentou em não medir despesas, mas deixava até mesmo negócios importantes para ir ver os operários trabalharem. E animava-os de tal modo com a sua presença que eles, para contentá-lo, duplicavam os esforços. Depois que o sumo sacerdote Eleazar recebeu esses ricos presentes, consagrou-os a Deus no Templo, em nome do príncipe, e prestou muita honra aos que os haviam levado, despe-dindo-os com muitos presentes.
O rei, ao regresso deles, interrogou André e Aristeu sobre diversas coisas e mostrou tanta solicitude em conversar com os deputados que tinham vindo com eles que despediu, contra o seu costume, os que ali estavam para a audiência ordinária que ele dava a cada cinco dias aos seus súditos (ele também concedia uma, todos os meses, aos embaixadores). Esses sábios anciãos ofereceram-lhe os presentes do sumo sacerdote e apresentaram a lei que lhes fora entregue. O soberano fez perguntas sobre o que ela continha e, depois que a desdobraram, ficou admirado com a delicadeza do pergaminho sobre o qual estava escrita, em letras de ouro, bem como com as folhas presas tão juntamente que não era possível perceber as costuras. Depois de a observar por muito tempo, disse que lhes agradecia por terem vindo, e mais ainda aos que os tinham enviado, e que não podia agradecer suficientemente a Deus por haverem trazido a ele as suas leis.
Os deputados, com demonstrações de afeto, desejaram-lhe toda sorte de prosperidade. O rei ficou tão comovido que não pôde reter as lágrimas, porque elas não são somente sinal de grande tristeza, mas também de imensa alegria. Ele ordenou em seguida que entregassem os livros aos que os deviam guardar, abraçou-os e disse-lhes que era justo, depois de haver falado do objetivo de sua viagem, falar também do que lhes competia fazer. Assim, para mostrar o quanto a vinda deles lhe era agradável, queria que durante o resto de sua vida se renovasse a memória daquela data, que coincidia também com o dia em que ele vencera uma batalha naval sobre Antígono. Concedeu-lhes ainda a honra de estarem à sua mesa e ordenou que fossem muito bem alojados, nos altos da fortaleza que fica próxima do promontório.
Nicanor, que era encarregado de receber os estrangeiros, teve particular cuidado deles e ordenou o mesmo a Doroteu, pois o rei havia ordenado que, para melhor se tratarem os estrangeiros, as cidades fornecessem o que tinham do gosto deles e que tudo fosse preparado segundo o costume do país de onde vinham. Porque ele sabia que, por mais apetitosas que sejam as iguarias, não podem ser consideradas boas se não se adaptarem ao gosto da pessoa ou não forem preparadas da maneira a que ela está habituada.
Como Doroteu estava encarregado disso, Nicanor ordenou-lhe que fizesse duas fileiras de bancos, nos quais os deputados deveriam sentar-se, nos banquetes do rei, metade deles à sua direita e metade à esquerda. Tudo ele fez para honrá-los e ordenou a Doroteu que os servisse à maneira do país deles. Os sacerdotes egípcios, que tinham o costume de orar antes da refeição do rei, não o fizeram. Então o soberano disse a Eliseu, um dos deputados, que era sacerdote, que fizesse a oração. Ele levantou-se e rogou a Deus pela prosperidade do rei e de seus súditos. Todos os que estavam presentes proferiram aclamações de alegria e depois puseram-se à mesa.
O rei, durante a refeição, fez perguntas Fílonsóficas aos deputados e ficou tão satisfeito com as respostas que continuou por doze dias a tratá-los do mesmo modo. Se alguém quiser saber mais particulares a esse respeito, terá apenas de ler o que Aristeu escreveu. Mas o rei não foi o único que lhes admirou as respostas. O filósofo Menedemo confessou que elas o confirmavam na opinião de que todas as coisas são governadas pela Providência e lhe forneciam razões para sustentar o seu parecer. O rei chegou a conceder-lhes a honra de dizer que obtivera tanto proveito de suas conservações que aprendera até mesmo de que modo devia proceder para bem governar o seu reino. Ordenou em seguida que fossem levados aos aposentos já para eles preparados.
Três dias depois, Demétrio levou-os por uma estrada longa sete estádios, pela ponte que une a ilha a terra firme, a uma casa situada à beira-mar, do lado norte, afastada de qualquer barulho, para que nada pudesse perturbá-los em seu trabalho, o qual exigia muita atenção e cuidado, e rogou-lhes que, tendo naquele lugar tudo o que podiam desejar, começassem sem mais tardar o grande empreendimento para o qual haviam sido trazidos. Eles o fizeram com toda a dedicação e constância, trabalhando assiduamente para que a tradução fosse exatíssima. Trabalhavam ininterruptamente até as nove horas da manhã, quando lhes levavam o alimento. (Nisso eles eram muito bem tratados, pois Doroteu seguia exatamente as ordens recebidas, apresentando-lhes os mesmos alimentos que haviam sido preparados para a mesa real.) Eles iam todas as manhãs ao palácio saudar o soberano e depois punham-se a trabalhar, após lavar as mãos nas águas do mar. Empregaram apenas setenta e dois dias para traduzir toda a Lei.
Terminada a obra, Demétrio reuniu todos os judeus e leu-lhes a tradução na presença dos setenta e dois intérpretes. Eles a aprovaram, elogiaram muito Demétrio por haver imaginado uma coisa tão proveitosa para eles e rogaram-lhe que também mandasse fazer aquela leitura aos chefes de sua nação. Eliseu, sacerdote, o mais idoso dos intérpretes e os magistrados constituídos para governo do povo pediram em seguida que nada mais se viesse a mudar naquela obra, que fora concluída com tão raro êxito. Essa proposta foi aprovada, dando a esse ato força de lei, porém com a condição de que antes seria permitido a cada um examinar a tradução, para ver se nada havia a acrescentar ou a suprimir e a fim de que, tendo sido o assunto muito bem ponderado, nunca mais se tivesse de voltar a ele.
O rei viu com grande prazer que o seu desígnio tivera muito bom êxito, e com proveito para o povo. E a sua alegria aumentou em muito ainda quando ele ouviu a leitura das santas leis. Não se cansava de admirar a prudência e a sabedoria do legislador que as elaborara. E, um dia, quando conversava com Demétrio, perguntou-lhe como nenhum historiador ou poeta havia falado daquelas leis, sendo elas tão excelentes. Ele respondeu-lhe que, como eram divinas, ninguém se animara a fazê-lo, e os que o haviam feito foram castigados por Deus. Teopompo, disse ele ainda, teve essa intenção, isto é, inserir alguma coisa delas em sua história, e perdeu o juízo durante trinta dias. Depois de reconhecer, em intervalos de lucidez e em um sonho, que aquilo lhe acontecera por ele haver querido penetrar as coisas divinas e dar notícia delas a homens profanos, a cólera de Deus foi aplacada com preces, e ele voltou ao seu juízo normal. O profeta Teodecto, tendo misturado em uma de suas tragédias algo que tirara dos livros divinos, perdeu a visão e só a recobrou depois de reconhecer a sua falta e rogar a Deus que o perdoasse.
Quando o rei recebeu os livros das mãos de Demétrio, adorou-os e ordenou que fossem guardados com o máximo cuidado, a fim de que em nada pudessem ser modificados. Disse depois aos sábios intérpretes que era justo permitir-lhes o regresso ao seu país, e rogava que viessem muitas vezes visitá-lo, pois os receberia com muito prazer e dar-lhes-ia tantos presentes que não se arrependeriam da viagem. Depois de lhes falar de maneira tão gentil, despediu-os com muitos e magníficos presentes. Deu a cada um diversas espécies de vestess, dois talentos de ouro, uma taça do peso de um talento e assentos para se deitarem e para as refeições.
Ao sumo sacerdote Eleazar, mandou dez leitos cujos pés eram de prata, um vaso do peso de trinta talentos, dez túnicas de púrpura, uma belíssima coroa de ouro, cem peças de fazenda de fino linho, diversos vasos para beber e turíbulos e taças de ouro para serem consagrados a Deus. Na carta que lhe escreveu, rogou-lhe que permitisse aos deputados vir visitá-lo todas as vezes que quisessem, pois teria grande prazer em conversar com eles, pela sua ciência e capacidade, e far-Ihes-ia ainda sentir os efeitos de sua liberalidade. Pode-se avaliar, pelo que acabo de referir, com que magnificência Tolomeu Filadelfo, rei do Egito, tratou os judeus.

CAPÍTULO 3
FAVORES RECEBIDOS PELOS JUDEUS DOS REIS DA ÁSIA. ANTÍOCO, O
GRANDE, CONTRAI ALIANÇA COM PTOLOMEU, REI DO EGITO, QUE LHE DÁ
CLEÓPATRA, SUA FILHA, EM CASAMENTO E DIVERSAS PROVÍNCIAS COMO
DOTE, ENTRE AS QUAIS AJUDÉIA. ONIAS, SUMO SACERDOTE, IRRITA O REI
DO EGITO PELA RECUSA EM LHE PAGAR TRIBUTO.

455. Os reis da Ásia trataram também os judeus com grande honra, por causa das provas que estes, nas guerras, lhes davam de sua fidelidade e coragem. Seleuco, cognominado Nicanor, deu-lhes o direito de burguesia, tal como aos macedônios e aos gregos, em todas as cidades que construiu na Ásia, na Baixa Síria e mesmo em Antioquia, que é a capital. Eles desfrutam ainda hoje esse direito, pois, não querendo usar o óleo dos estrangeiros, os que têm o encargo do comércio são obrigados a dar-lhes uma certa soma de dinheiro no valor do óleo.
Os habitantes de Antioquia esforçaram-se, durante as últimas guerras, por abolir esse costume. Mas Múcio, governador da Síria, impediu-o. E esses mesmos habitantes e os de Alexandria não puderam obter dos imperadores Vespasiano e Tito que os privassem de seu direito de burguesia. Nisso os romanos, e particularmente esses dois grandes príncipes, mostraram a sua justiça e generosidade. As tribulações que sofreram nas guerras contra nós e o ressentimento pela nossa revolta não os persuadiram a tocar em nossos privilégios. Em vez de se deixarem levar pela cólera e pelas instâncias de dois povos tão importantes como o de Alexandria e o de Antioquia, eles tiveram mais consideração aos antigos méritos de nossa nação que às ofensas que dela receberam e ao desejo manifestado por nossos inimigos de nos maltratarem. E deram-lhes esta razão, digna deles: aqueles dentre nós que tomaram armas contra os romanos já haviam sido castigados por isso na mesma guerra, e não seria justo privar de um direito adquirido com justo título os que não os haviam ofendido.
Sabe-se também que Marco Agripa fez semelhante justiça aos judeus, quando os jônios instaram com ele para privá-los do direito de burguesia concedido por Antíoco, neto de Seleuco, ao qual os gregos dão o nome de Deus. Pois, se quisessem ser tratados como eles, então que adorassem os mesmos deuses. Esse assunto foi posto em deliberação, e os judeus, defendidos por Nicolau de Damasco, ganharam a causa, sendo-lhes permitido continuar a viver segundo as suas leis e costumes. O soberano declarou, até mesmo em favor dele próprio, que não era permitido fazer inovação alguma. Se alguém desejar saber mais particularmente como o assunto decorreu, terá apenas de ler os livros cento e vinte e três e cento e vinte e quatro desse historiador.
E verdade que não há motivo de admiração pelo juízo pronunciado por Agripa, pois não havíamos ainda tomado armas contra os romanos. Mas sem isso não saberíamos admirar o bastante a grandeza da coragem de Vespasiano e de Tito, os quais, depois de se haverem exposto a tantos perigos e dificuldades na guerra que sustentamos contra eles, em vez de se deixarem levar pelo ressentimento, procederam com tanta moderação e justiça. Devemos, porém, retomar agora o fio de nossa narração.
456. Durante o tempo em que Antíoco, o Grande, reinava na Ásia e fazia guerra a Ptolomeu Filopater, rei do Egito, e a seu filho, não ainda vencedor nem vencido, a Judéia e a Baixa Síria sofriam do mesmo modo e eram como um barco batido pelas ondas, pela boa ou má sorte desse príncipe. Mas, por fim, Antíoco, vitorioso, submeteu a judéia. Após a morte de Ptolomeu Filopater, Ptolomeu, seu filho, cognominado Epifânio, enviou contra a Síria um grande exército, sob o comando de Escopas, que se apoderou de várias cidades e pôs a nossa nação sob o domínio desse príncipe. Pouco tempo depois, Antíoco venceu Escopas numa grande batalha perto da nascente do Jordão e reconquistou a Síria e Samaria. Os judeus, então, entregaram-se inteiramente a ele, receberam o seu exército na cidade, alimentaram os seus elefantes e ajudaram as tropas que atacaram as guarnições deixadas por Escopas na fortaleza de Jerusalém.
Antíoco, para recompensá-los pela afeição que lhe haviam demonstrado, escreveu aos generais de seu exército e aos seus mais féis servidores, que disso sabiam, que resolvera gratificá-los. Transcreverei a cópia da carta, depois de dizer de que modo Políbio Megalopolitano fala dela no décimo sexto livro de sua história. Diz ele: &quot;Escopas, general do exército de Ptolomeu, entrou no inverno pela parte superior do país e submeteu os judeus&quot;. Ele acrescenta pouco depois: &quot;Quando Antíoco venceu Escopas, tornou-se senhor das cidades de Samaria, Gadara, Batanea e Aíla, e imediatamente os judeus que moram em Jerusalém, onde está o célebre Templo, abraçaram o seu partido&quot;. Estas são palavras do próprio historiador.
A carta de Antíoco, após a qual retomarei o fio da história, assim estava exarada: &quot;O rei Antíoco, a Ptolomeu, saudação. Os judeus nos testemunharam grande afeto logo que penetramos no seu território. Eles vieram à nossa presença com os seus chefes, receberam-nos em sua cidade com toda espécie de honras, deram alimento às nossas tropas e aos nossos elefantes e uniram-se aos nossos contra a guarnição egípcia da fortaleza de Jerusalém. Cremos que é dever de nossa bondade manifestar-lhes a nossa gratidão. Assim, para lhes darmos os meios de repovoar a sua cidade, que tantos revezes tornaram deserta, e para lá reunir os anciãos esparsos por diversas nações, ordenamos o que segue. Primeiramente que, em favor da religião e por um sentimento de piedade lhes seja dada a importância de vinte mil peças de prata, para a compra de animais para os sacrifícios, e medidas de trigo recolhidas na província, para delas se tirar a flor da farinha, e trezentos e sessenta e cinco medidas de sal. Queremos também que lhes sejam fornecidos todos os artigos de que necessitarem para a reparação das portas e das outras dependências do Templo e que a madeira, que para esse fim será obtida da Judéia, das províncias vizinhas e do monte Líbano, não pague tributo, bem como todos os outros materiais de que tiverem necessidade para a reedificação do Templo. Permitimos também aos judeus viver segundo as suas leis e costumes e isentamos os seus governadores, sacerdotes, escribas e cantores do tributo ordenado por cabeça, do presente que costumavam oferecer ao rei — uma coroa de ouro — e de tudo o mais em geral. E, para que a cidade de Jerusalém possa ser mais rapidamente repovoada, isentamos também de todo tributo, durante três anos, todos os que nela residem agora e os que vierem habitá-la no mês de hiperbereteom. Diminuímo-lhes, para futuro, o terço de todos os tributos, em consideração às perdas que sofreram. Queremos ainda que todos os cidadãos que foram aprisionados e feitos escravos sejam postos em liberdade com seus filhos e restaurados em todos os seus bens&quot;.
O príncipe não se contentou em escrever essa carta, mas, para mostrar o seu respeito pelo Templo, fez um edito contendo o que segue: que jamais seria permitido a um estrangeiro lá penetrar sem o consentimento dos judeus, assim como ao judeu que não se tivesse purificado segundo o que a Lei determina; que não se levaria à cidade carne de cavalo, de mula ou de asno, quer domesticado, quer selvagem, de pantera, de raposa, de lebre ou de qualquer outro animal imundo que fosse proibido comer entre os judeus; que nem mesmo se levariam as suas peles e não se criaria nenhum deles, mas somente animais de que os seus antepassados estavam acostumados a se servir para os sacrifícios, sob pena de os contraventores pagarem uma multa de três mil dracmas de prata em favor dos sacerdotes.
O mesmo príncipe deu-nos ainda outra prova de seu afeto e da confiança que depositava em nós, pois, quando soube que havia rebelião na Frígia e na Lídia, escreveu a Zêuxis, que comandava o seu exército nas províncias superiores e era o mais querido de seus generais, que mandasse para a Frígia alguns dos judeus que moravam em Jerusalém.
Assim estava escrita a sua carta: &quot;O rei Antíoco a Zêuxis, seu pai, saudação. Tendo sabido que alguns provocam rebelião na Frígia e na Lídia, julgamos que esse assunto merece a nossa atenção e cuidado. Depois de termos tratado disso em nosso conselho, julgamos conveniente mandar para lá, aos lugares onde seja mais necessário, uma guarnição de dois mil judeus dentre os que moram na Mesopotâmia e na Babilônia, porque a sua piedade para com Deus e as provas que os reis nossos prede-cessores receberam de seu afeto e de sua fidelidade nos dão motivo para crer que eles nos serão muito úteis. Assim, é nosso desejo que, não obstante todas as dificuldades, os encaminheis para lá. Que vivam segundo as suas leis e se lhes dêem espaço para construir e terras para cultivar e plantar vinhas, sem que sejam obrigados, durante dez anos, a contribuir com qualquer coisa dos frutos que colherem. Queremos também que lhes forneçais o trigo de que precisarem para viver até que tenham colhido o fruto de seu trabalho, a fim de que, depois de receberem tantas provas de nossa benevolência, nos sirvam ainda de melhor vontade. Recomendamos que tomeis grande cuidado deles, de modo que ninguém se atreva a lhes causar desprazer&quot;.
457.  Isso basta para mostrar o afeto de Antíoco, o Grande, pelos judeus. Esse príncipe fez aliança com Ptolomeu, rei do Egito, e deu-lhe Cleópatra, sua filha, em casamento. E, como dote, entregou-lhe a Baixa Síria, a Fenícia, a judéia e metade dos tributos de suas províncias, pagos pelos principais habitantes a esses dois reis, que entregavam a soma aos seus tesouros.
458.  Ao mesmo tempo, os samaritanos, que então eram poderosos, causaram muitos males aos judeus, quer por devastações no campo, quer por fazerem prisioneiros. Onias, filho de Simão, o justo, e sobrinho de Eleazar, havia sucedido no cargo de sumo sacerdote a Manasses, que o havia ocupado depois da morte de Eleazar. Onias era um homem de pouco Espírito e tão avaro que não queria pagar o tributo de vinte talentos de prata que seus predecessores estavam acostumados a pagar ao rei do Egito. Ptolomeu, cognominado Evérgete, pai de Filopater, ficou tão irritado com isso que mandou Ateniom, que desfrutava grande prestígio perante ele, a Jerusalém para ameaçá-lo de entregar o país ao saque de suas tropas se ele não cumprisse a obrigação. E ele foi o único dentre os judeus que não se atemorizou, pois seu amor pelo dinheiro o tornava insensível a tudo o mais.

CAPÍTULO 4
JOSÉ, SOBRINHO DO SUMO SACERDOTE ONIAS, OBTÉM DE PTOLOMEU, REI
DO EGITO, O PERDÃO PARA O TIO, CONQUISTA AS BOAS GRAÇAS DO PRÍNCIPE
E FAZ GRANDE FORTUNA. HIRCANO, FILHO DE JOSÉ, COLOCA-SE TAMBÉM
OTIMAMENTE NO ESPÍRITO DE PTOLOMEU. MORTE DE JOSÉ.

459.  José, filho de Tobias e de uma irmã de Onias, o qual, embora muito jovem, era tão sensato e virtuoso que todos o honravam em Jerusalém, tendo sabido de sua mãe, no seu país natal, de nome Ficola, que chegara um homem da parte do rei para o fim de que falamos, foi imediatamente ter com Onias, seu tio, e disse-lhe que era estranho que, tendo sido escolhido pelo povo para a honra do sumo sacerdócio, tivesse tão pouco interesse pelo bem público, a ponto de não temer colocar todos os seus concidadãos em perigo por não pagar o que devia. Se a sua paixão pelo dinheiro era tão grande que o fazia desprezar os interesses do país, ele devia pelo menos ir ter com o rei e pedir-lhe que perdoasse toda ou parte da soma a pagar.
Onias respondeu-lhe que pouco se importava com o sumo sacerdócio e preferia renunciá-lo a procurar o rei. José, então, rogou que lhe permitisse falar ao rei em nome dos habitantes de Jerusalém. Tendo obtido com facilidade a permissão, mandou reunir todo o povo no Templo e disse-lhes que a negligência de seu tio não os devia atemorizar e que se oferecia para ir falar com o rei, da parte deles, a fim de provar-lhe que nada haviam feito que pudesse desagradá-lo. O povo agradeceu-lhe muito, e José foi imediatamente procurar o deputado do rei, levou-o à sua casa, tratou-o bem durante alguns dias, deu-lhe muitos presentes e disse que o seguiria até o Egito. Tanta delicadeza, unida à franqueza e às excelentes qualidades de José, ganharam de tal modo o coração de Ateniom que ele mesmo o exortou a fazer aquela viagem e prometeu-lhe uma boa ajuda, a fim de que ele sem dificuldade conseguisse do rei tudo o que desejava.
Quando o deputado regressou para junto do rei, censurou muito a ingratidão de Onias, mas não poupou elogios a José e garantiu-lhe as razões do povo, cuja defesa fora obrigado a empreender por causa da negligência do tio. O mesmo deputado continuou a prestar tão bons serviços a José que o rei e a rainha Cleópatra, sua mulher, conceberam grande afeto por ele, mesmo antes de tê-lo visto. José arranjou dinheiro com amigos que tinha em Samaria. Empregou vinte mil dracmas nos preparativos e partiu para Alexandria. Encontrou no caminho os mais ilustres das cidades da Síria e da Fenícia, que iam tratar com o rei sobre o tributo que deviam pagar, o qual o príncipe impunha todos os anos aos mais ricos. Eles zombaram da pobreza de José, e aconteceu que, quando chegaram, o rei voltava de Mênfis.
José foi à sua presença e encontrou-o ainda no carro com a rainha sua esposa. Ateniom lá estava também e, logo que viu José, disse ao rei que era aquele o judeu de quem havia falado. O rei saudou-o, pediu que subisse ao carro e fez-lhe amargas queixas de Onias. José respondeu que o rei devia perdoar a velhice do tio, pois os velhos em nada diferem das crianças, e que ele e todos os outros, que eram jovens, nada fariam que pudesse desagradá-lo. Essa resposta tão sensata aumentou ainda a afeição que o rei já concebera por ele. Ordenou que o alojassem no palácio e convidou-o à sua mesa. Isso causou não pouco desprazer aos sírios que José havia encontrado no caminho.
No dia da adjudicação dos tributos, os da Síria, da Fenícia, da judéia e de Samaria, todos juntos, chegaram à soma de oito mil talentos. José, então, censurou-os por se reunirem para contribuir com tão pouco e ofereceu-se para dar duas vezes aquela importância e deixar ainda, em favor do rei, o confisco dos condenados, do qual pretendiam aproveitar-se. O rei viu com prazer que José aumentava as suas rendas, mas perguntou que cauções oferecia. José respondeu, com gentileza, que eram muito boas, as quais o rei não poderia recusar. O rei pediu-lhe que as apresentasse, e ele disse: &quot;Minhas cauções, majestade, serão vossa majestade e a rainha, pois ambos respondereis por mim&quot;. O príncipe sorriu e adjudicou-lhe os tributos sem exigir caução. Assim, os homens ilustres das outras cidades, que também estavam ali, voltaram confusos para os seus países.
José tomou depois dois mil homens das tropas do rei, a fim de forçar os recusantes a pagar os tributos, e, depois de entregar a Alexandre quinhentos talentos da parte dos que estavam em melhor condição na corte, foi para a Síria. Os habitantes de Asquelom foram os primeiros a desprezar as suas ordens. E, não se contentando em não querer pagar, ultrajaram-no com palavras. Mas ele soube castigá-los. Ordenou imediatamente a prisão de vinte dos principais do povo e os mandou matar. Depois escreveu ao rei, para prestar contas do que havia feito, e enviou-lhe mil talentos, provenientes do confisco. O príncipe ficou tão satisfeito com o seu proceder que o elogiou magnificamente e permitiu que, dali por diante, fizesse do confisco o uso que desejasse.
O castigo dos ascalonitas encheu de temor as outras cidades da Síria, que lhe abriram as portas e pagaram o tributo sem dificuldade alguma. Os habitantes de Citópolis, contudo, também recusaram pagar e igualmente ultrajaram José. Ele os tratou como aos ascalonitas e enviou também ao rei o que obteve do confisco. Aumentando as rendas do rei, fez a si mesmo um grande benefício. E, como era muito sensato, julgou dever servir-se disso para aumentar o próprio prestígio. Por isso, não se contentou em dar inteira satisfação ao príncipe, mas fez grandes presentes aos que desfrutavam o favor do soberano e aos mais ilustres da corte.
460. José passou vinte e dois anos desse modo, sempre em franca prosperidade. Teve sete filhos de uma esposa e um oitavo, de nome Hircano, de outra, que era filha de Solim, seu irmão, e que desposara como vou narrar. Partiu ele para Alexandria com Solim, que para lá levara a filha a fim de casá-la com alguma personalidade importante de sua nação. José ceava com o rei, e uma jovem muito bela dançou com tanta graça diante do príncipe que conquistou o coração de José. Ele falou com o irmão e rogou-lhe que, como a sua lei não lhe permitia desposá-la, providenciasse um meio para que pudesse tê-la como senhora. Solim o prometeu, mas à noite, em vez disso, mandou colocar na cama de José a própria filha, muito bem trajada. José, que naquele dia estava muito contente, não percebeu a fraude.
O amor de José aumentou ainda mais, e ele disse ao irmão que, não podendo vencer aquela paixão, temia que o rei não lhe quisesse mais dar aquela jovem. Solim disse-lhe para não ficar apreensivo, pois poderia, sem temor, satisfazer o seu desejo e desposá-la. Disse-lhe depois quem ela era e de como preferira permitir que a própria filha sofresse aquela vergonha a deixar que ele se submetesse a outra ainda maior. José agradeceu-lhe o afeto demonstrado e desposou a filha dele, da qual teve Hircano, de quem acabamos de falar. Este demonstrou, desde a idade de treze anos, tanta inteligência e sabedoria que sobrepujava todos os outros irmãos. Mas as suas excelentes qualidades, em vez de fazê-lo amado, despertaram neles ódio e inveja.
José, querendo saber qual dos filhos do primeiro matrimônio era o melhor, mandou educá-los e instruí-los com grande cuidado por excelentes mestres. Eram, porém, tão preguiçosos que voltaram dos estudos tão ignorantes como quando partiram. Mandou depois Hircano, que era o mais jovem de todos, com trezentos pares de bois para o deserto, a sete dias dali, a fim de fazê-lo trabalhar a terra e semeá-la, mas deu ordem para que, secretamente, se tirassem os arreios necessários para os atrelar. Assim, quando Hircano chegou ao lugar determinado, aconselharam-no a voltar ao seu pai para obter os arreios. Como, no entanto, ele não queria perder tempo, serviu-se de um expediente que superava a sua idade. Mandou matar uns vinte daqueles bois, deu a carne para os servos comerem e usou o couro para fazer os arreios. Assim, arou e semeou a terra. O pai, ao regresso dele, abraçou-o e o louvou muito por aquela atitude. Essa demonstração de juízo e inteligência aumentou ainda mais o afeto que o pai sentia por ele, e José sempre o amou como se fosse o único filho. Entretanto crescia cada vez mais entre os irmãos de Hircano o despeito e a inveja.
A notícia de que o rei Ptolomeu tivera mais um filho causou muita alegria e regozijo em toda a Síria. Os mais ilustres do país foram, por esse motivo, com grande aparato a Alexandria. José foi obrigado a ficar, por causa da idade avançada, mas pediu aos filhos do primeiro matrimônio que fizessem aquela viagem. Eles não quiseram ir porque, diziam, não conheciam os costumes da corte nem sabiam tratar com os reis, mas que ele poderia enviar Hircano, o irmão mais moço. José ficou muito satisfeito com essa proposta e perguntou a Hircano se estava disposto a ir. Ele respondeu que sim e que dez mil dracmas lhe seriam suficientes, porque não queria fazer muitas despesas. Quanto aos presentes que devia oferecer ao rei, julgava que não seria preciso enviá-los por ele, mas poderia mandar que lhe fosse entregue em Alexandria o dinheiro necessário para comprar algo raro e de grande valor e oferecê-lo, de sua parte, ao príncipe.
O pai, que era bom administrador, ficou tão satisfeito com a moderação e sabedoria do filho que julgou que dez talentos bastariam para os presentes e escreveu a Ariom que os entregasse. Ariom era o encarregado de manusear todo o dinheiro que se mandava da Síria para Alexandria para pagar ao rei os tributos quando o prazo expirasse. Passavam-lhe todos os anos pelas mãos mais ou menos três mil talentos. Hircano partiu com as cartas e, chegando a Alexandria, entregou-as a Ariom. Este perguntou a Hircano quanto iria querer, julgando que ele pediria dez talentos ou um pouco mais. Mas ele exigiu mil talentos.
O homem ficou tão encolerizado que o repreendeu, dizendo-lhe que, em vez de seguir o exemplo do pai, que economizara e ajuntara riquezas com trabalho e moderação, ele queria gastá-las em superfluidades e em coisas desnecessárias e que só lhe daria dez talentos, conforme a ordem recebida e ainda com a condição de serem empregados unicamente na compra de presentes para o rei. Hircano, irritado com essa resposta, mandou prender Ariom, mas como esse homem tinha grande prestígio perante a rainha Cleópatra, mandou a esposa procurá-la para informar o que se passava e suplicar que mandasse castigar tão grande insolência.
A princesa falou com o rei, que logo mandou perguntar a Hircano por que, tendo sido enviado a ele por seu pai, não viera ainda cumprimentá-lo e por que mandara colocar Ariom na prisão. Ele respondeu que a lei de seu país proibia aos filhos de família provar carnes imoladas antes que entrassem no Templo para oferecer sacrifícios a Deus, e ele julgara que não devia comparecer diante de sua majestade até poder oferecer os presentes de que seu pai o havia encarregado, nara demonstrar o seu reconhecimento pelos favores que devia ao soberano.
Quanto a Ariom, ele o havia castigado com justiça por não ter querido obedecer-lhe, pois os senhores, quer grandes, quer pequenos, têm igual poder sobre os seus servidores, e, se os particulares não fossem obedecidos pelos seus senhores, os próprios reis poderiam ser desprezados pelos seus súditos. O rei sorriu e admirou a resolução do moço. Assim, Ariom não fez mais oposição a ele e, para sair da prisão, entregou os mil talentos que ele pedia.
Três dias depois, Hircano foi prestar a sua homenagem ao rei e à rainha, que o receberam muito favoravelmente, concedendo-lhe a grande honra de comer à sua mesa, pelo afeto que nutriam por seu pai. Ele comprou depois secretamente cem moços belos e apresentáveis e instruídos nas letras, que lhe custaram um talento cada um, e também cem moças, pelo mesmo preço. O rei, em seguida, deu um banquete aos mais ilustres de suas províncias e mandou convidá-lo, porém o colocaram no lugar mais afastado. Os outros convidados desprezavam-no por sua pouca idade e por isso puseram diante dele os ossos das iguarias que haviam comido, sem que Hircano se mostrasse ofendido.
Então, um certo Trifom, que fazia alarde ao zombar de todos e divertia o rei com os seus chistes, disse, para fazer rir os convidados: &quot;Majestade! Veja a quantidade de ossos que está diante de Hircano e poderá assim imaginar de que maneira o seu pai rói toda a Síria&quot;. Essas palavras provocaram gargalhadas, e o rei perguntou a Hircano como é que ele tinha diante de si tantos ossos. Respondeu ele: &quot;Vossa majestade não se deve admirar, pois os cães comem os ossos com a carne, como vossa majestade pode ver que fizeram os que estão à mesa&quot; — e indicou os convidados —, &quot;pois nada mais resta diante deles. Mas os homens se contentam em comer a carne e deixar os ossos, como eu fiz, pois sou homem&quot;. O rei ficou tão satisfeito com essa resposta que proibiu aos convidados se ofenderem.
No dia seguinte, Hircano foi à casa dos mais estimados pelo rei e perguntou aos servidores que presentes os seus amos haviam preparado para dar ao rei pelo nascimento do príncipe seu filho. Disseram-lhe que uns dariam doze talentos, outros, um pouco mais ou um pouco menos, cada qual segundo as suas posses. Ele fingiu-se aborrecido porque, dizia, não tinha meios para dar o mesmo e apenas poderia oferecer-lhe cinco. Os servidores contaram tudo aos seus senhores, que se alegraram, convencidos de que o rei ficaria insatisfeito ao receber de Hircano um presente tão mesquinho.
Chegou o dia, e os que maior presente deram ao rei ofereceram-lhe vinte talentos. Hircano ofereceu ao príncipe os cem moços que havia comprado, cada qual apresentando-lhe um talento, e à rainha, as cem moças de que falamos, cada uma delas entregando também o mesmo presente à soberana. O rei, a rainha e toda a corte ficaram extraordinariamente admirados com tão grande e surpreendente magnificência. Mas Hircano não se limitou a isso. Deu também presentes de grande valor aos que desfrutavam maior prestígio perante o rei e aos seus oficiais, a fim de que lhe fossem favoráveis e o salvassem do perigo em que o colocaram algumas cartas de seus irmãos, que pediam para a qualquer custo a sua morte.
O rei ficou tão comovido com a sua generosidade que lhe disse para pedir o que quisesse. Ele respondeu que desejava apenas que sua majestade escrevesse em seu favor ao seu pai e a seus irmãos. O príncipe o fez e escreveu também aos governadores de suas províncias, recomendando-o. E, depois de lhe dar provas de muito particular afeição, despediu-o com grandes presentes.
Os irmãos de Hircano souberam, com grande desprazer, da grande honra que o rei lhe prestara, e partiram ao seu encontro com a deliberação de matá-lo, sem que o pai se atrevesse a impedi-los, embora o soubesse, mas estava encole-rizado por haver ele gastado nos presentes tão grande soma de dinheiro. Só não ousava manifestar-se por temer o rei. Assim, os irmãos atacaram Hircano no caminho. Ele, porém, defendeu-se tão valentemente que matou dois deles e vários dos que os acompanhavam. O resto fugiu para Jerusalém, e Hircano ficou muito surpreso, quando lá chegou, por ver que ninguém o vinha receber. Então retirou-se para além do Jordão e ocupou-se em receber os tributos que os bárbaros deviam pagar.
Seleuco, cognominado Sóter, filho de Antíoco, o Grande, reinava então na Ásia. José, pai de Hircano, morreu nessa época, depois de recolher os tributos da Síria, da Fenícia e da Samaria durante vinte e dois anos. Era um homem de bem, de grande inteligência e tão hábil nos negócios que tirou os judeus da pobreza em que jaziam e os pôs em condições de viver comodamente. Onias, seu tio, morreu também pouco depois e deixou Simão, seu filho, como sucessor no sumo sacerdócio, o qual teve também um filho, de nome Onias, que o substituiu no cargo. Ario, rei da Lacedemônia,* escreveu-lhe a seguinte carta.

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* Ou Esparta.

CAPÍTULO 5
ARIO, REI DA LACEDEMÔNIA, ESCREVE A ONIAS, SUMO SACERDOTE, PARA
FAZER ALIANÇA COM OS JUDEUS, SENDO OS LACEDEMÔNIOS DESCENDENTES
DE ABRAÃO. HIRCANO CONSTRÓI UM SOBERBO PALÁCIO E SE SUICIDA, PARA
NÃO CAIR NAS MÃOS DE ANTÍOCO.

461.  &quot;Ario, rei da Lacedemônia, a Onias, saudação. Vimos por certos títulos que os judeus e os lacedemônios têm a mesma origem, sendo ambos os povos descendentes de Abraão. Sendo nós então irmãos, nossos interesses devem ser comuns, e é justo que nos façais saber com inteira liberdade o que desejais de nós, e nos portaremos da mesma maneira a vosso respeito. Demoteles vos entregará esta carta, escrita numa folha quadrada e selada com um sinete, onde está impressa a figura de uma águia que tem uma serpente nas garras&quot;.
462.  Depois da morte de José, a divisão entre os filhos suscitou graves perturbações, pois a maior parte favorecia os mais velhos, contra Hircano, que era o mais jovem, e particularmente Simão, sumo sacerdote, porque eram parentes. Assim, Hircano não quis voltar a Jerusalém, mas ficou além do Jordão. Fazia continuamente guerra aos árabes, matando muitos deles e fazendo prisioneiros a outro tanto. Construiu um castelo bem forte, cujos muros externos desde a base até o alto eram de mármore branco, cheio de figuras de animais maiores que o natural. Rodeou-o com um fosso profundo, cheio de água, e mandou cavar no rochedo de uma montanha vizinha grandes cavernas, cuja entrada era tão estreita que permitia somente passar uma pessoa por vez, para lhe servirem de refúgio, caso fosse acossado pelos seus irmãos. Havia nesse castelo grandes salas, quartos com todos os móveis necessários e fontes que jorravam água em abundância. Nada podia ser mais belo e mais vistoso.
Esse majestoso edifício, situado além do Jordão e próximo de Essedom, na fronteira da Arábia e da Judéia, era rodeado de belos jardins. Hircano deu-lhe o nome de Tiri e de lá não se afastou durante os sete anos em que Seleuco reinou na Síria. Vindo a morrer esse príncipe, Antíoco, seu irmão, cognominado Epifânio, sucedeu-o. Ptolomeu, rei do Egito, cognominado Epifânio, morreu também e deixou dois filhos ainda muito jovens, dos quais o mais velho se chamava Fílonmetor, e o mais novo, Fiscom. O grande poder de Antíoco espantou Hircano, e ele teve tanto medo de cair em suas mãos e de ser castigado severamente pela guerra que fizera contra os árabes que se matou. Esse príncipe, então, apoderou-se de todos os seus bens.


CAPÍTULO 6
ONIAS, COGNOMINADO MENEIAU, VENDO-SE EXCLUÍDO DO SUMO
SACERDÓCIO, RETIRA-SE PARA JUNTO DO REI ANTÍOCO E RENUNCIA A RELIGIÃO
DE SEUS ANTEPASSADOS. ANTÍOCO ENTRA NO EGITO, MAS OS ROMANOS O
OBRIGAM A SE RETIRAR.

463.  Onias, sumo sacerdote, morreu nesse mesmo ano, e Antíoco, rei da Síria, de que acabamos de falar, deu o sumo sacerdócio a Jesus, cognominado Jasão, irmão de Onias, pois este só deixara um filho de pouca idade, de que falaremos a seu tempo. Mas Antíoco, depois, tendo ficado insatisfeito com Jasão, tirou-lhe essa dignidade e deu-a a Onias, cognominado Meneiau, seu irmão mais novo, que era um dos três filhos que Simão havia deixado e que foram sucessivamente sumo sacerdotes, como dissemos.
Jasão, não se podendo conformar por ter sido excluído do cargo, tornou-se inimigo de Meneiau, e os filhos de Tobias declararam-se a favor deste. A maior parte do povo, porém, apoiava Jasão, e assim eles foram obrigados a se refugiar junto de Antíoco. Disseram ao soberano que haviam decidido renunciar os costumes de seu país para abraçar a religião e a maneira de viver dos gregos e pediram-lhe permissão para construir uma praça de esportes em Jerusalém. Ele consentiu, e então eles ocultaram os sinais da circuncisão, para não serem distin-guidos dos gregos quando, correndo ou lutando, tivessem de se despir. Eles abandonaram assim todas as leis de seus antepassados e não se diferenciavam em nada dos estrangeiros.
464.  A profunda paz de que Antíoco desfrutava e o seu desprezo pela pouca idade dos filhos de Ptolomeu, que os tornava incapazes de tomar conhecimento das coisas, fizeram-no conceber a idéia de conquistar o Egito. Então declarou-lhe guerra e entrou no país com um poderoso exército. Foi diretamente a Pelusa, enganou o rei Filopater, tomou Mênfis e marchou para Alexandria, a fim de se apoderar da cidade e do rei. Mas os romanos declararam que lhe fariam guerra se ele não se retirasse para o seu país. E assim, ele foi obrigado a abandonar essa empresa, como já dissemos em outro lugar. Como referi apenas de passagem a maneira pela qual ele se apoderou da Judéia e do Templo, quero descrevê-la particularmente aqui e retomar, para esse fim, ao assunto de antes.

CAPÍTULO 7
O REI ANTÍOCO, RECEBIDO NA CIDADE DE JERUSALÉM, DESTRÔI-A
COMPLETAMENTE, SAQUEIA O TEMPLO E CONSTRÓI UMA FORTALEZA. ABOLE
O CULTO A DEUS. VÁRIOS JUDEUS ABANDONAM A RELIGIÃO. OS
SAMARITANOS RENUNCIAM A SUA NACIONALIDADE E CONSAGRAM O
TEMPLO DE GERIZIM AO JÚPITER GREGO.

465. O temor de se meter numa guerra contra os romanos obrigou o rei Antíoco a abandonar a conquista do Egito. Ele veio então com o seu exército a Jerusalém, cento e quarenta e três anos depois que Seleuco e seus sucessores começaram a reinar na Síria. Sem dificuldade, tornou-se senhor dessa praça, porque os de seu partido abriram-lhe as portas, e mandou matar vários do partido contrário, apoderou-se de grande quantidade de dinheiro e voltou a Antioquia.
Dois anos depois, no vigésimo quinto dia do mês que os hebreus chamam quisleu, e os macedônios, apeleu, na centésima qüinquagésima terceira Olimpíada, ele voltou a Jerusalém e não poupou nem mesmo os que o acolheram na esperança de que ele não faria nenhum ato de hostilidade. Sua insaciável avareza fez com que ele não temesse violar-lhes também a fé, despojando o Templo das muitas riquezas de que, sabia ele, estava cheio. Tomou os vasos consagrados a Deus, os candelabros de ouro, a mesa sobre a qual se punham os pães da proposição e os turíbulos. Levou até mesmo as tapeçarias de escarlate e de linho fino e pilhou tesouros que estavam escondidos havia muito tempo. Afinal, nada deixou lá. E, para cúmulo da maldade, proibiu aos judeus oferecer a Deus os sacrifícios ordinários, como a sua lei os obrigava.
Depois de saquear toda a cidade, mandou matar uma parte dos habitantes e levou dez mil escravos com suas mulheres e filhos. Mandou queimar os mais belos edifícios, destruiu as muralhas e construiu, na Cidade Baixa, uma fortaleza com grandes torres, as quais dominavam o Templo, e lá colocou uma guarnição de macedônios, entre os quais estavam vários judeus, tão maus e ímpios que não havia males que não infligissem aos habitantes. Mandou também construir um altar no Templo e ordenou que lá se sacrificassem porcos, o que é uma das coisa mais contrárias à nossa religião. Obrigou então os judeus a renunciar o culto ao verdadeiro Deus e a adorar os seus ídolos, e ordenou que se construíssem templos para eles em todas as cidades, determinando que não se passasse um dia sem que lá se imolassem porcos. Proibiu também aos judeus, sob graves penas, circuncidar os filhos, e nomeou fiscais para saber se eles estavam observando as suas determinações e as leis que ele impunha e obrigá-los a isso, caso recusassem obedecer.
A maior parte do povo obedeceu, voluntariamente ou por medo, mas essas ameaças não puderam impedir aos que possuíam virtude e generosidade de observar as leis de seus pais. O cruel príncipe os fazia morrer por meio de vários tormentos. Depois de os mandar retalhar a golpes de chicote, a sua horrível desumanidade não se contentava em fazê-los crucificar, mas, enquanto ainda respiravam, fazia enforcar e estrangular perto deles as suas mulheres e os filhos que haviam sido circuncidados. Mandava queimar todos os livros das Sagradas Escrituras e não poupava ninguém na casa em que os encontrava.
466. Os samaritanos, vendo os judeus afligidos por tantos males, evitavam dizer que tinham a mesma origem, que eram da mesma raça e que o seu templo em Gerizim era consagrado ao Deus Todo-poderoso. Diziam, ao contrário, que eram descendentes dos persas e dos medos e que tinham sido enviados a Samaria para lá morar; o que era verdade.
Eles enviaram deputados ao rei Antíoco e apresentaram-lhe a seguinte petição: &quot;Petição que os sidônios, habitantes de Siquém, apresentam ao rei Antíoco, deus visível. Nossos antepassados, tendo sido amargurados por grandes e freqüentes pestes, haviam deliberado celebrar, por uma antiga superstição, uma festa à qual os judeus dão o nome de Sabat e construíram sobre o monte Gerizim um templo em honra a um Deus anônimo, onde imolavam vítimas. Agora que vossa majestade se julga obrigado a castigar os judeus como eles merecem, os que executam as vossas ordens querem nos tratar como a eles, porque pensam que temos a mesma origem. Mas é fácil verificar, pelos nossos arquivos, que somos sidônios. Assim, como não podemos duvidar, majestade, de vossa bondade e proteção, suplicamos que ordeneis a Apolônio, nosso governador, e a Nicanor, procurador-geral de vossa majestade, que não nos considerem mais culpados dos mesmos crimes que os judeus, cujos costumes e origem diferem inteiramente dos nossos. E, se julgarem bem e for do agrado de vossa majestade, seja o nosso templo, que até agora não teve o nome de Deus algum, chamado futuramente templo do Júpiter grego, a fim de que fiquemos em paz e, trabalhando sem temor, possamos pagar maiores tributos a vossa majestade&quot;.
Antíoco, depois de ler a petição, escreveu a Nicanor, nestes termos: &quot;O rei Antíoco a Nicanor. Os sidônios que moram em Siquém nos apresentaram a petição anexa a esta carta. Aqueles que a trouxeram provaram suficientemente, a nós e ao nosso conselho, que eles não têm parte nos crimes e faltas dos judeus, antes desejam viver segundo os costumes gregos. Por isso nós os declaramos inocentes dessa acusação, concedemo-lhes o pedido que nos fizeram — dar ao seu templo o nome de Júpiter grego — e ordenamos o mesmo a Apolônio, seu governador. Dado no ano quarenta e seis e no décimo primeiro dia do mês de hecatombeom&quot;.

CAPÍTULO 8
MATATIAS (OU MATIAS) E SEUS FILHOS MATAM OS QUE O REI ANTÍOCO ENVIOU
PARA OBRIGÁ-LOS AFAZER SACRIFÍCIOS ABOMINÁVEIS E RETIRAM-SE PARA O
DESERTO. MUITOS OS SEGUEM, E UM GRANDE NÚMERO DELES É SUFOCADO NAS
CAVERNAS, POR NÃO QUERER SE DEFENDER EM DIA DE SÁBADO. MATATIAS
ABOLE ESSA SUPERSTIÇÃO E EXORTA OS SEUS FILHOS A LIBERTAR O PAÍS.

467.  1 Macabeus 2. Naquele mesmo tempo, numa aldeia da Judéia chamada Modim, havia um sacerdote da descendência de Joaribe, nascido em Jerusalém, que se chamava Matatias, filho de João, filho de Simão, filho de Asmoneu. Matatias tinha cinco filhos: João, cognominado Gadis; Simão, cognominado Martés; Judas, cognominado Macabeu; Eleazar, cognominado Auram; jônatas, cognominado Afo. Esse virtuoso e nobre judeu queixava-se freqüentemente a seus filhos do estado deplorável em que a nação se encontrava: da ruína de Jerusalém, da desolação do Templo e de tantos outros males que a afligiam. E acrescentava que lhes seria muito melhor morrer pela defesa das leis e da religião de seus pais que viver sem honra em meio a tantos sofrimentos.
468.  Quando os enviados do rei chegaram àquela aldeia para obrigar os judeus a executar as suas ordens, dirigiram-se primeiramente a Matatias, por ser o principal, a fim de forçá-lo a oferecer os abomináveis sacrifícios, pois não duvidavam que os outros lhe seguiriam o exemplo. Disseram-lhe que o rei demonstraria a todos, por meio de recompensas, a gratidão de que lhes seria devedor. Ele respondeu que, mesmo que todas as outras nações obedecessem, pelo medo, a tão injuriosa determinação, nem ele nem seus filhos abandonariam jamais a religião de seus antepassados.
Como um judeu se encaminhasse para sacrificar segundo a intenção do rei, Matatias e os filhos, inflamados de justo zelo, lançaram-se sobre ele de espada em punho e não somente o mataram como também a esse oficial, de nome Apeles, e aos soldados que ele tinha levado para obrigar o povo a cometer tão grande impiedade. Matatias derrubou depois o altar e exclamou: &quot;Se há ainda alguém aqui que ame a nossa religião e o serviço de Deus, que me siga&quot;. Em seguida, deixando todos os seus bens, partiu com os filhos para o deserto. Todos os outros habitantes seguiram-no com as suas mulheres e filhos e refugiaram-se nas cavernas.
Imediatamente os que comandavam as tropas do rei souberam o que se havia passado. Reuniram então uma parte da guarnição da fortaleza de Jerusalém e os perseguiram. Quando os alcançaram, procuraram convencê-los a se arrepender do que haviam feito e seguir um conselho melhor, a fim de não terem de induzi-los pela força. Não podendo convencê-los, os soldados os atacaram num sábado e os sufocaram nas cavernas, porque a reverência que os judeus dedicavam a esse dia era tão grande que o temor de violá-lo, mesmo em tal extremo, fez com que eles, para manter o descanso que a Lei ordenava, não somente deixassem de se defender como também nada fizessem para obstruir a entrada das cavernas. Assim, cerca de mil judeus foram sufocados, contando-se as suas mulheres e filhos. Os que se salvaram foram ter com Matatias e o escolheram para seu chefe.
Ele disse-lhes que não deviam ter receio de combater num sábado, porque, do contrário, violariam a Lei, tornando-se homicidas de si mesmos, pois os seus inimigos não deixariam de escolher tais dias para atacá-los e, se ninguém se defendesse, todos facilmente morreriam. Assim resgatou-os daquele erro, e depois não tiveram mais dificuldades em tomar as armas nesse santo dia, quando a isso a necessidade os obrigava. O generoso chefe em pouco tempo reuniu uma tropa considerável, e aqueles aos quais o temor obrigara a se refugiar nas nações vizinhas vieram unir-se a ele. Então, derrubou os altares consagrados aos falsos deuses, não poupando, dos que lhe caíram nas mãos, ninguém que se tivesse deixado conduzir à idolatria.
Mandou circuncidar todos os meninos que ainda não haviam passado por esse rito e rechaçou os que Antíoco enviara para impedi-lo.
469.  Depois que esse grande homem governou o povo durante um ano, caiu doente e, vendo-se prestes a morrer, mandou chamar os filhos e disse-lhes: &quot;Meus filhos, eis-me chegado à última hora, que é inevitável a todos os homens. Bem sabeis qual o desígnio a que me propus. Rogo-vos que não o abandoneis, mas mostreis a todos como vos é querida a memória de vosso pai, pelo zelo que ireis demonstrar na observância de nossas santas leis e em reerguer a honra de nossa pátria. Nunca tenhais relações com os que a atraiçoam, voluntariamente ou à força, para entregá-la aos nossos inimigos. Fazei ver que sois verdadeiramente meus filhos, calcando aos pés tudo o que puder impedir a defesa de nossa religião, e sede sempre solícitos em dar a vida para mantê-la. Estejais certos de que, agindo assim, Deus vos contemplará com olhos favoráveis, aceitará a vossa virtude, vos restabelecerá naquela ditosa liberdade e vos dará os meios de observar com alegria a maneira de viver de nossos antepassados. Nossos corpos estão sujeitos à morte, porém a memória de nossas boas obras nos torna de algum modo imortais. Concebei, então, meus filhos, um tão grande amor pela verdadeira e sólida glória e não tenhais receio em expor a vossa vida para conquistá-la. Segui este conselho que vos dou: vivei em grande união, de modo que todos se alegrem ao ver o esforço com que empregais em uma causa comum e tão justa os talentos que Deus vos concedeu. Assim, como Simão é muito sensato, sou de opinião que sigais sempre o seu conselho, como se fosse o vosso pai. O extremo valor de Macabeu vos obriga a dar-lhe o comando das tropas, pois, sob suas ordens, vingareis sem dúvida os ultrajes feitos à nossa nação pelos seus inimigos, e não haverá homem algum de virtude e de piedade que não se una a vós numa tão santa empresa&quot;.

CAPÍTULO 9
MORTE DE MATATIAS.JUDAS MACABEU, UM DE SEUS FILHOS, TOMA A
DIREÇÃO DOS EMPREENDIMENTOS, LIBERTA O PAÍS E O PURIFICA DAS
ABOMINAÇÕES QUE NELE SE HAVIAM COMETIDO.

470.   1 Macabeus 3. Matatias, depois de falar desse modo, rogou a Deus que ajudasse os seus filhos naquele tão glorioso e justo empreendimento que era restaurar o seu povo à antiga maneira de viver. Ele morreu logo depois, e foi enterrado em Modim. Todo o povo lamentou-o com sensível pena, no ano cento e quarenta e seis. Judas, seu filho, cognominado Macabeu, tomou em seu lugar a direção dos interesses do povo. Seus irmãos secundaram-no generosamente, e ele expulsou os inimigos, matou todos os falsos judeus, que tinham violado as leis de seus pais, e purificou a província de todas as abominações que nela se haviam cometido.

CAPÍTULO 10
JUDAS MACABEU DERROTA E MATA APOLÔNIO, GOVERNADOR DE SAMARIA, E SEROM, GOVERNADOR DA BAIXA SÍRIA.

471. Quando Apolônio, governador de Samaria pelo rei Antíoco, soube dos progressos e dos feitos de Judas Macabeu, marchou contra ele com o seu exército. Esse valente chefe do povo de Deus foi também contra ele, derrotou-o e matou um grande número de soldados. Saqueou em seguida todo o seu acampamento, tirou-lhe a espada e a levou em triunfo. E assim, saiu-se completamente vencedor.
472. Reuniu depois um exército considerável, e Serom, governador da Baixa Síria, que recebera do rei Antíoco ordem para reprimir a ousadia daqueles revoltosos, veio acampar com todas as suas tropas e com judeus ímpios e traidores da pátria que se haviam refugiado entre eles numa aldeia da Judéia, de nome Bete-Horom. Judas marchou contra ele para dar-lhe combate. Mas vendo que os seus soldados não estavam dispostos a isso, tanto por causa do número dos inimigos quanto em razão de não estarem alimentados, disse-lhes que a vitória não dependia do número de homens, mas da confiança que eles tivessem em Deus, pois podiam ver, pelos exemplos de seus antepassados, quantas vitórias gloriosas foram obtidas contra inimigos de número incontável. Além disso, eles estavam combatendo pela defesa de suas leis e pela salvação de suas esposas e filhos, e assim, nada seria capaz de lhes resistir, pois tinham a justiça do seu lado, e a força que dela provém é invencível. Essas palavras os animaram de tal modo que, desprezando o temível exército dos sírios, eles os atacaram, desbaratando-os. Mataram o seu general, puseram os outros em fuga e os perseguiram até um lugar chamado O Campo. Oitocentos morreram na luta, e o resto salvou-se fugindo para a região à beira-mar.

CAPÍTULO 11
JUDAS MACABEU DERROTA UM GRANDE EXÉRCITO ENVIADO POR ANTÍOCO CONTRA OS JUDEUS. LÍSIAS RETORNA NO ANO SEGUINTE COM UM EXÉRCITO AINDA MAIS FORTE. JUDAS MATA CINCO MIL HOMENS E OBRIGA LÍSIAS A SE RETIRAR. PURIFICA E RESTAURA O TEMPLO. OUTROS GRANDES FEITOS DESSE PRÍNCIPE DOS JUDEUS.

O rei Antíoco ficou tão irritado com a derrota de seus dois generais que não se contentou em reunir todas as suas tropas, mas tomou ainda, sob pagamento, soldados das ilhas e resolveu marchar contra os judeus no começo da primavera. Porém o seu tesouro ficou esgotado depois do pagamento das tropas, tanto porque as revoltas de seus súditos o impediam de receber os tributos quanto pelo fato de ele ser naturalmente muito amigo do luxo, fazendo enormes despesas. Assim, julgou conveniente ir antes à Pérsia receber o que lhe era devido.
Ao partir, deixou a Lísias, em quem depositava toda a sua confiança, a direção dos negócios, o governo das províncias que se estendem desde o Eufrates até o Egito e a Ásia Menor, e uma parte de suas tropas e de seus elefantes. Recomendou-lhe que tivesse grande cuidado de seu filho, o príncipe Antíoco, durante a sua ausência, e que destruísse toda a Judéia, levando escravos todos os seus habitantes, aniquilasse Jerusalém e exterminasse a nação dos judeus. Depois de dar essas ordens, partiu para a viagem à Pérsia, no ano cento e quarenta e sete, passando o Eufrates e marchando para as províncias superiores.
473. Lísias escolheu, dentre os mais valentes generais e os de maior confiança do rei, Ptolomeu, filho de Dorímenes, Górgias e Nicanor e os enviou à Judéia com quarenta mil soldados de infantaria e sete mil de cavalaria. Depois que chegaram a Emaús e acamparam na planície vizinha, foram aumentados com o reforço dos sírios e das nações limítrofes e com grande número de judeus. Vieram também alguns negociantes com dinheiro para comprar os escravos e com cadeias para ligá-los. Judas, vendo aquela grande multidão de inimigos, exortou os seus soldados a não temer, mas a colocar toda a sua confiança em Deus e a se revestir de um saco, como faziam os seus pais nos grandes perigos, a fim de pedir a Ele que lhes concedesse a vitória, pois era o único meio de atrair a sua misericórdia e obter a força de que precisavam para vencer os inimigos.
Ordenou em seguida aos chefes de campo e oficiais que assumissem o comando das tropas, como se fazia antigamente. Despediu os recém-casados e os que haviam adquirido alguma propriedade recentemente, de modo que a má disposição deles por haverem deixado a mulher ou a propriedade não viesse diminuir a coragem dos outros. Depois fez uma exortação aos soldados com estas palavras: &quot;Jamais encontraremos ocasião em que nos seja mais necessário mostrar coragem e desprezar o perigo do que esta, pois, se combatermos generosamente, a liberdade será a recompensa de nosso valor, e, por mais desejável que ela seja por si mesma, tanto mais a devemos desejar, porque não poderemos sem ela conservar a nossa santa religião. Considerai então que o resultado desta jornada ou nos cumulará de felicidade, dando-nos os meios de observar em paz as leis e os costumes de nossos antepassados, ou nos lançará a toda espécie de misérias, cobrindo-nos de infâmia, se, por nossa pusilanimidade, formos causa de que o resto de nossa nação seja completamente exterminado. Lembrai-vos de que nem os covardes nem os corajosos podem evitar a morte, mas, expondo-se a vida pela religião e pelo país, é possível conquistar uma glória imortal. E não duvideis de que, indo ao combate com a firme resolução de morrer ou de vencer, o dia de amanhã vos fará triunfar sobre os vossos inimigos&quot;.
474. As palavras de judas animaram-nos, e, ante o aviso de que Górgias, guiado por alguns judeus trânsfugas, vinha atacá-los durante a noite com mil cavaleiros e cinco mil soldados de infantaria, ele decidiu antecipar-se e ir-lhes ao encontro, atacando naquela mesma noite o acampamento dos inimigos, que então estaria mais fraco, pela diminuição de seus homens. Assim, depois de dar a refeição aos seus homens e acender várias fogueiras, marchou protegido pelas trevas para Emaús. Górgias não deixou de vir e, como não encontrou ninguém no acampamento dos judeus, julgou que o medo os obrigara a se esconder nos montes. Marchou então para ir procurá-los.
Judas, ao despontar do dia, chegou ao acampamento dos inimigos, com três mil homens somente, todos muito mal armados, tanto era triste a sua situação. Quando ele viu que aqueles aos quais queria atacar estavam bem armados e tinham o seu campo muito bem defendido, disse aos seus homens que nada deveriam temer, pois Deus sentiria prazer vendo que eles não temiam atacar, naquele estado, um exército tão numeroso e de inimigos tão bem armados, e certamente lhes daria a vitória. Ordenou em seguida que se tocasse o sinal de avançar. A surpresa dos inimigos foi tão grande que muitos foram mortos de imediato, e os outros, perseguidos até Gadara e aos campos da Iduméia, de Azoto e de jamnia, de modo que eles perderam três mil homens. Judas proibiu aos seus de se entregarem ao saque, porque tinham ainda de combater Górgias, mas lhes prometeu que, após tê-lo vencido, iriam se enriquecer com tantos despojos.
Judas ainda falava, quando viram Górgias, que regressava com as suas tropas, aparecer num elevado. Quando ele viu a mortandade, a derrota do exército do rei e o campo incendiado, não teve dificuldade em imaginar o que havia acontecido. Vendo que judas se preparava para atacá-lo, ficou tomado de tanto medo que fugiu. Assim, Judas venceu-o sem combate e permitiu então aos seus soldados que se entregassem ao saque. Eles encontraram grande quantidade de ouro, de prata, de escarlate e de púrpura e voltaram com grande alegria, cantando hinos em louvor a Deus, o autor da vitória que contribuiu para a reconquista da liberdade.
475.  No ano seguinte, Lísias, para reparara vergonha daquela derrota, reuniu um novo exército, composto de tropas escolhidas, em número de sessenta mil soldados de infantaria e cinco mil cavaleiros, entrou na Judéia e veio pelos montes acampar próximo de Bete-Zur. Judas marchou contra ele com dez mil homens. Vendo a potência dos inimigos, rogou a Deus que lhe fosse favorável e confiou no seu auxílio. Então atacou pela vanguarda e a desfez, matou cinco mil homens e lançou tal medo nos outros que Lísias, vendo que os judeus estavam resolvidos ou a perecer ou a reconquistar a liberdade e temendo deles mais o desespero que as forças, retirou-se para Antioquia com o resto de seu exército. Ali, tomou soldados estrangeiros sob pagamento e preparou-se para voltar à Judéia com um exército ainda mais poderoso que o primeiro.
476. Judas, após obter tão grandes vitórias sobre os generais do exército de Antíoco, persuadiu os judeus a ir a Jerusalém dar graças a Deus, como lhe eram devidas, purificar o Templo e oferecer sacrifícios. Quando lá chegaram, no entanto, encontraram as portas queimadas e os muros cheios de mato, o qual havia crescido durante aquele período de inteiro abandono. Tão grande desolação arrancou suspiros do coração e lágrimas dos olhos de Judas. E, depois de ordenar que uma parte da tropa sitiasse a fortaleza, pôs mãos à obra para purificar o Templo.
Fez-se tudo com o máximo cuidado. Judas colocou nele um candelabro, uma mesa e um altar de ouro completamente novos. Mandou colocar também portas novas e cobriu-as com cortinas. Depois destruiu o altar dos holocaustos, porque fora profanado, e mandou fazer um novo, com pedras que não houvessem sido trabalhadas a martelo. No dia vinte e cinco do mês de quisleu, que os macedônios chamam apeleu, acenderam-se as luzes do candelabro, incensou-se o altar, colocaram-se os pães sobre a mesa e ofereceram- se holocaustos sobre o novo altar.
Isso se deu no mesmo dia em que, três anos antes, o Templo fora indigna-mente profanado por Antíoco e abandonado, no dia vinte e cinco do mês de apeleu, no ano cento e quarenta e cinco, e na Olimpíada cento e cinqüenta e três. A renovação ocorreu no mesmo dia do ano cento e quarenta e oito e da Olimpíada cento e cinqüenta e quatro, como o profeta Daniel havia predito, quatrocentos e oito anos antes, dizendo clara e distintamente que o Templo seria profanado pelos macedônios.
Judas celebrou durante oito dias com todo o povo, por meio de solenes sacrifícios, a festa da restauração do Templo, e não houve regozijo honesto a que não se entregassem durante esse período. Eram festins e banquetes públicos. O ar ressoava os hinos e cânticos que se elevavam em louvor a Deus, e a alegria de se ver, depois de tantos anos, quando menos se esperava, a restauração dos antigos costumes de nossos pais e a prática de nossa religião foi tão grande que foi determinado realizar-se todos os anos aquela festa, durante oito dias. Chamaram-na festa das luzes porque, segundo a minha opinião, essa felicidade foi como uma luz agradável que dissipou as trevas de nossos longos sofrimentos, aparecendo numa ocasião em que não poderíamos sequer imaginá-la. Judas, em seguida, mandou restaurar as muralhas da cidade, fortificou as grandes torres e colocou soldados para defendê-las contra os inimigos. Fortificou também a cidade de Bete-Zur, para dela se servir como fortaleza contra os ataques.
477. Os povos vizinhos, não podendo tolerar a ressurreição do poder de nossa nação, armaram ciladas aos judeus e mataram vários deles. Judas, que estava continuamente no campo, para impedir tais incursões, atacou ao mesmo tempo Acrabatena,* matou um grande número de idumeus, descendentes de Esaú, e apoderou-se de grandes despojos. Tomou também o forte de onde os filhos de Baam, seu príncipe, incomodavam os judeus, matou os que o defendiam e incendiou-o. Marchou depois contra os amonitas, que eram em grande número, comandados por Timóteo, venceu-os, tomou-lhes a cidade de Jasor, saqueou-a e levou como escravos todos os seus habitantes.
As nações vizinhas, porém, logo que souberam que ele havia voltado para Jerusalém, reuniram todas as suas forças e atacaram os judeus que moravam na fronteira de Galaade. Estes refugiaram-se no castelo de Atemam e mandaram contar a Judas que corriam o perigo de cair nas mãos de Timóteo. Judas recebeu ao mesmo tempo cartas da Galiléia, pelas quais lhe davam aviso de que os de Ptolemaida, de Tiro e de Sidom e outros povos vizinhos se reuniam para atacá-lo.

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* Ou Acrabim.
CAPÍTULO 12
FEITOS DE SIMÃO, IRMÃO DE JUDAS MACABEU, NA GALILÉIA. VITÓRIA
OBTIDA POR JUDAS EJÔNATAS, SEU IRMÃO, SOBRE OS AMONITAS.
OUTROS JEITOS DE JUDAS.

478. Judas Macabeu, a fim de atender às necessidades dos dois povos que se encontravam ao mesmo tempo ameaçados, entregou três mil homens escolhidos a Simão, seu irmão, para que fosse em socorro dos judeus da Galiléia, enquanto ele e Jônatas, seu outro irmão, e oito mil homens marcharam para a Galatida. O resto das tropas ficou para a guarda da Judéia, sob o comando de José, filho de Zacarias, e de Azarias, com ordem de velarem cuidadosamente pela conservação dessa província e de não se meterem em combate algum até a sua volta.
Simão, logo que chegou à Galiléia, combateu os inimigos e colocou-os em fuga. Perseguiu-os até as portas de Ptolemaida, livrou de suas mãos os judeus que haviam sido feito prisioneiros e voltou para a Judéia com grandes despojos.
Judas, por seu lado, acompanhado por Jônatas, seu irmão, depois de passar o Jordão, marchou durante três dias, sendo recebido como amigo pelos nabateenses. Estes disseram-lhe que os judeus da Galatida estavam sitiados em sua cidade e oprimidos pelos inimigos, e o exortaram a se apressar em socorrê-los. Esse aviso o fez marchar com rapidez através do deserto. Atacou e tomou, a caminho, a cidade de Bozra, incendiou-a e mandou matar todos os habitantes que estavam em condições de pegar em armas. Então continuou a marchar durante toda a noite até chegar perto do castelo onde os judeus estavam sitiados por Timóteo.
Ele chegou ao despontar do dia e viu que os inimigos já aprontavam as escadas para escalá-lo e mandavam as máquinas avançar. Assim, ordenou aos trom-beteiros que dessem o toque para avançar. Ele exortou os soldados a se mostrarem corajosos no combate, auxiliando os irmãos, e, depois de dividir as tropas em três grupos, atacou os inimigos por trás. Não teve dificuldade em destroçá-los, porque, quando os inimigos souberam que era o valente Macabeu quem os atacava, cuja coragem já era deles conhecida, bem como a sua rara perícia e felicidade nos combates, apressaram-se em abandonar o campo, fugindo. Ele os perseguiu tão ferozmente que oito mil foram mortos. Em seguida, atacou uma cidade dos bárbaros, de nome Mala, tomou-a, mandou matar todos os seus habitantes, exceto as mulheres, e reduziu-a a cinzas. Destruiu também Bezer, Cáspora e ainda outras cidades da Galátida.
Pouco tempo depois, Timóteo reuniu grandes forças e tomou como tropas auxiliares, dentre outras, um grande número de árabes. Acampou além da torrente, em frente à cidade de Rafa, e exortou os seus soldados a fazer todos os esforços possíveis para impedir que os judeus passassem, porque nisso residia toda a sua esperança de vitória. Logo que Judas soube que Timóteo se preparava para o combate, avançou com todas as suas tropas, passou a torrente e atacou os inimigos. A maior parte dos que lhe resistiram foram mortos, e os outros abandonaram as armas. Uma parte salvou-se, e o resto refugiou-se no templo de Carnaim, onde esperavam salvação. Judas, porém, tomou a cidade, queimou o templo e matou todos eles a ferro e fogo.
479.  Depois de tantos e tão felizes resultados, esse general reuniu todos os judeus que estavam na província de Galaade, com as suas mulheres, filhos e bens, a fim de reconduzi-los à Judéia. E, como não podia, sem alongar demasiado o caminho, evitar passar pela cidade de Efrom, mandou pedir aos habitantes que lhe permitissem a passagem. Mas eles lhe fecharam as portas, entupindo-as com pedras, judas, irritado com a recusa, exortou os seus a exigir satisfação. Então sitiou a cidade e a tomou em vinte e quatro horas. Mandou matar todos os seus habitantes, exceto as mulheres, e a incendiou. O número dos que pereceram foi tão grande que não era possível atravessar as ruas, tão juncadas estavam de cadáveres.
Depois de passar o Jordão e o Grande Campo, onde estava a cidade de Bete-Seã, que os gregos chamam Citópolis, chegou com o exército a Jerusalém, cantando hinos e loas para glorificar a Deus. Muitas outras demonstrações de regozijo davam eles então pelas grandes vitórias conquistadas. Ele ofereceu em seguida sacrifícios a Deus, em ação de graças, não somente por Ele os haver feito triunfar de seus inimigos, mas também por conservar, de maneira miraculosa, a vida de todos os seus, pois, apesar de tantos e tão sangrentos combates, nenhum deles havia perecido.
480.  José, filho de Zacarias, o qual Judas, como dissemos, tinha deixado para guardar a Judéia ao partir com Jônatas, seu irmão, para Galaade, contra os amonitas, e depois de enviar Simão, seu outro irmão, à Galileia, contra os habitantes de Ptolemaida, desejou também conquistar alguma honra. Marchou com todas as suas tropas contra a cidade de jamnia, mas Górgias, que lá estava com o seu exército, veio contra ele, derrotou-o e matou dois mil homens. O resto fugiu, retirando-se para a Judéia. Assim, ele foi com justiça castigado por não haver obedecido à ordem que Judas lhe dera, ou seja, não travar combate com os inimigos até o seu regresso. Isso deu motivo a que se admirasse ainda mais a previdência e a sábia orientação desse excelente chefe dos israelitas.
Judas e seus irmãos não deixavam de fazer guerra aos idumeus e os oprimiam de todos os lados: tomaram-lhes a cidade de Hebrom, destruíram todas as suas fortificações, incendiaram as suas torres, devastaram a região vizinha e tornaram-se senhores das cidades de Maressa e Azoto, a qual saquearam e depois voltaram a Jerusalém, com grandes despojos.

CAPÍTULO 13
O REI ANTÍOCO EPIFÂNIO MORRE DE TRISTEZA POR TER SIDO OBRIGADO A
LEVANTAR VERGONHOSAMENTE O CERCO DA CIDADE DE ELIMAIDA, NA
PÉRSIA, ONDE PRETENDIA SAQUEAR UM TEMPLO CONSAGRADO A DIANA,
E POR CAUSA DA DERROTA DE SEUS GENERAIS PELOS JUDEUS.

481. 1 Macabeus 6. Por esse mesmo tempo, o rei Antíoco Epifânio, que, como vimos, havia partido para as províncias superiores, soube que havia, numa cidade muito rica da Pérsia, de nome Elimaida, um templo consagrado a Diana, cheio de dádivas, dentre as quais escudos e couraças presenteados por Alexandre, o Grande, filho de Filipe da Macedônia. Resolveu apoderar-se dela e então cercou-a. Mas foi enganado em suas esperanças, porque os habitantes da cidade demonstraram tanta coragem que não somente o obrigaram a levantar o cerco como também o perseguiram. Pode-se até mesmo dizer que foi fugindo, e não se retirando, que ele chegou à Babilônia, com muitas e preciosas perdas.
Curtia ele ainda a mágoa de tão triste acontecimento, quando lhe trouxeram a notícia de que os judeus haviam derrotado os seus generais e se tornavam cada vez mais fortes. Esse acréscimo de aflição deixou-o de tal modo abatido que ele adoeceu, a ponto de perceber que o seu fim se aproximava. Mandou então chamar os servidores de mais confiança e contou-lhes como se sentia, bem como a causa de sua enfermidade, e que merecia aquele castigo, por haver perseguido os judeus, saqueado o seu Templo e desprezado o Deus que eles adoravam. E, acabando de dizer essas palavras, morreu.
A esse respeito, admiro-me de que Políbio Megalopolitano, homem de reconhecida probidade, tenha atribuído a morte desse soberano ao seu desejo de saquear o templo de Diana. É muito mais verossímil que a morte lhe tenha sido o castigo do sacrilégio que ele cometera, saqueando os tesouros que estavam no Templo em Jerusalém. Não quero, no entanto, altercar nem discutir com aqueles que estão mais pela opinião de Políbio que pela minha.

CAPÍTULO 14
ANTÍOCO EUPÁTOR SUCEDE AO REI ANTÍOCO EPIFÂNIO, SEU PAI. JUDAS MACABEU CERCA A FORTALEZA DE JERUSALÉM. ANTÍOCO VEM CONTRA ELE COM UM GRANDE EXÉRCITO E CERCA BETE-ZUR. AMBOS LEVANTAM O CERCO E TRAVAM UMA BATALHA. MARAVILHOSO FEITO DE CORAGEM E MORTE DE ELEAZAR, UM DOS IRMÃOS DE JUDAS. ANTÍOCO TOMA BETE-ZUR E CERCA O TEMPLO EM JERUSALÉM. QUANDO OS JUDEUS ESTAVAM QUASE REDUZIDOS AOS EXTREMOS, ELE LEVANTA O CERCO ANTE A NOTÍCIA DE QUE FILIPE SE DECLARARA REI DA PÉRSIA.

482.  O rei Antíoco Epifânio, pouco antes de sua morte, que se deu no ano cento e quarenta e nove, havia constituído Filipe, que era um de seus mais íntimos confidentes, governador do reino. Confiou a ele a coroa, o manto real e o seu anel, para que os entregasse ao filho, recomendando-lhe grande cuidado na sua educação e formação, até que ele estivesse na idade de governar por si mesmo. Logo que Lísias, preceptor do jovem Antíoco, soube da morte do rei, comunicou-a ao povo e apresentou-lhe o novo rei, ao qual deu o nome de Eupátor.
483.  Nesse mesmo tempo, os macedônios que estavam como guarnição na fortaleza de Jerusalém, ajudados pelos judeus que se haviam juntado a eles, faziam muito mal aos outros judeus. E, como essa fortaleza dominava o Templo, faziam arremetidas e matavam os que vinham oferecer sacrifícios. Judas Macabeu, não podendo mais tolerar semelhante abuso, resolveu sitiar a fortaleza. Reuniu o maior número de soldados possível e a atacou fortemente, no ano cento e cinqüenta desde que aquelas províncias haviam sido submetidas a Seleuco. Empregou duas máquinas, elevou as plataformas e tudo fez para realizar o seu intento.
Alguns daqueles judeus trânsfugas saíram à noite e, na companhia de outros homens tão ímpios quanto eles, foram procurar o jovem rei Antíoco. Disseram-lhe que era próprio do cargo dele salvá-los, juntamente com outros de sua nação, no extremo perigo em que se encontravam, pois eram perseguidos unicamente por haverem renunciado aos costumes judaicos, em obediência ao rei seu pai. Além disso, a fortaleza de Jerusalém e a guarnição real que lá ele havia colocado em breve cairiam sob o poder de judas, caso ele não mandasse imediatamente algum socorro.
O jovem soberano, cheio de cólera ante essas palavras, mandou chamar imediatamente o comandante das tropas e ordenou-lhe não somente recrutar homens em seu território, mas tomar soldados estrangeiros sob pagamento. Assim ele reuniu um exército de cem mil soldados de infantaria, vinte mil de cavalaria e trinta e dois elefantes, e deu o comando a Lísias. O rei partiu de Antioquia com essas tropas, veio à Iduméia e sitiou Bete-Zur. Nisso levou muito tempo, porque os habitantes se defendiam corajosamente e queimavam em grandes arremetidas as máquinas com que ele batia nas muralhas.
Judas, sabendo da marcha do rei, levantou o cerco e veio com todas as suas tropas contra ele, acampando a setenta estádios do exército inimigo, num lugar muito estreito, chamado Bete-Zacarias. Logo que Antíoco soube disso, levantou também o cerco de Bete-Zur, para marchar contra ele. Quando estava próximo, mandou colocar os seus homens em ordem de batalha, ao despontar do dia. Mas como o lugar era demasiado estreito para fazer marchar à frente os elefantes, ele foi obrigado a fazê-los caminhar um atrás do outro.
Quinhentos cavaleiros e mil soldados de infantaria acompanhavam cada animal, e todos levavam uma torre cheia de arqueiros. Quanto ao resto das tropas, ele ordenou aos comandantes que se encaminhassem pelos dois flancos do monte. O exército do soberano, desse modo, lançou-se ao ataque, soltando grandes gritos, que ressoavam pelas quebradas, enquanto os seus escudos de ouro e de cobre rebrilhavam com tanto resplendor que ofuscavam a vista. Nada, porém, foi capaz de abater o ânimo de Judas Macabeu. Ele os enfrentou com tanta coragem que seiscentos dos primeiros que o atacaram caíram mortos na mesma hora.
Eleazar, seu irmão, cognominado Auran, vendo que dentre todos os elefantes havia um mais soberbamente ajaezado que os outros, julgou que o rei estaria sobre ele. Assim, sem medir a extensão do perigo a que se expunha, abriu caminho através dos que rodeavam esse elefante, matando vários deles e afugentando os demais, chegou até junto do prodigioso animal, colocou-se por baixo de seu ventre e matou-o a golpes de espada. Porém ficou esmagado sob o peso do elefante e morreu. Terminou assim gloriosamente a vida, depois de vendê-la bem caro aos inimigos.
Judas, vendo que eles eram muito superiores em número, retirou-se para Jerusalém, a fim de continuar o cerco da fortaleza. Antioco, depois de enviar parte de suas tropas contra Bete-Zur, marchou para Jerusalém com o resto do exército. Quando os habitantes de Bete-Zur, que tinham falta de víveres, se viram tão fortemente atacados, entregaram-se, depois de os inimigos prometerem com juramento não lhes fazer mal algum. Mas Antioco faltou-lhes à palavra, pois lhes conservou somente a vida, expulsando-os nus da cidade, onde estabeleceu uma guarnição. Sitiou em seguida o Templo, em Jerusalém, e o cerco durou muito tempo, porque os judeus se defendiam valentemente, derrubando as máquinas com outras máquinas. Os víveres, porém, começavam a faltar, porque era o sétimo ano, no qual a nossa lei proíbe semear e cultivar a terra. Assim, muitos foram obrigados a se retirar, e só uns poucos ficaram para continuar a resistir ao cerco.
Estavam as coisas nesse pé, quando o rei e Lísias souberam que Filipe se declarara rei e vinha da Pérsia avançando contra eles. Essa notícia os obrigou a levantar o cerco, sem que se falasse de Filipe aos comandantes ou aos soldados. Lísias teve do rei somente ordem para dizer-lhes que o Templo era tão forte que seria necessário muito tempo para conquistá-lo, que o exército começava a sentir falta de víveres e que interesses do Estado chamavam o rei a outros lugares. E, como os judeus, ciosos da observância de suas leis, preferiam a morte e estavam sempre prontos a recomeçar a guerra, era preferível fazer amizade e aliança com eles e voltar à Pérsia. Lísias falou-lhes desse modo, e as suas palavras foram aprovadas e aceitas.

CAPÍTULO 15
O REIANTÍOCO EUPÁTOR FAZ A PAZ COM OS JUDEUS. CONTRA A SUA
PALAVRA, MANDA DESTRUIR OS MUROS QUE RODEIAM O TEMPLO. MANDA
CORTAR A CABEÇA DE ONIAS, COGNOMINADO MENELAU, SUMO SACERDOTE, E
DÁ O CARGO AALCIM. ONIAS, SOBRINHO DE MENELAU, RETIRA-SE PARA O
EGITO, ONDE O REI E A RAINHA CLEÓPATRA LHE PERMITEM CONSTRUIR,
EM HELIÓPOLIS, UM TEMPLO SEMELHANTE AO DE JERUSALÉM.

484.  Depois dessa resolução, o rei Antíoco mandou dizer a Judas Macabeu e a todos os que com ele estavam sitiados no Templo, por meio de um arauto, que queria oferecer a paz e permitir-lhes viver segundo as suas leis. Eles receberam a proposta com alegria. Depois que o príncipe deu a sua palavra e a confirmou com juramento, saíram do Templo, e Antíoco lá entrou. Mas, tendo observado bem o lugar, viu que era muito forte e, violando o próprio juramento, fez destruir até os alicerces o muro que o rodeava. Depois voltou para Antioquia, levando o sumo sacerdote Onias, cognominado Menelau, e, em Beroé, na Síria, mandou que lhe cortassem a cabeça.
Foi Lísias quem deu conselho para tal, dizendo que se o rei queria que os judeus vivessem em paz e não lhe perturbassem o reino com novas rebeliões, tinha de matar Menelau, porque ele levara o rei seu pai a obrigar o povo a abandonar a sua religião, causando assim os males que lhes haviam sucedido. Com efeito, o sumo sacerdote era um homem tão mau e ímpio que, para chegar àquele cargo, o qual exerceu por dez anos, não tivera medo de levar a sua nação a violar as santas leis. Alcim, também chamado Jacim, sucedeu-o.
485.  Depois que Antíoco pôs em ordem os interesses da Judéia, marchou contra Filipe e encontrou-o já de posse do reino. Mas logo soube castigar o usurpador, pois venceu-o numa grande batalha, aprisionou-o e o mandou matar.
486.  O filho do sumo sacerdote Onias, que era apenas uma criança quando o pai morreu, vendo que o rei, a conselho de Lísias, mandara matar Menelau, seu tio, e dado o cargo a Alcim, que não era da casta sacerdotal, transferindo assim aquela honra para outra família, refugiou-se junto de Ptolomeu, rei do Egito. Foi muito bem recebido por este e pela rainha Cleópatra, sua esposa, que lhe permitiram construir na cidade de Heliópolis um templo semelhante ao de Jerusalém, de que falaremos a seu tempo.

CAPÍTULO 16
DEMETRIO, FILHO DE SELEUCO, FOGE DE ROMA, VEM À SÍRIA, FAZ-SE COROAR REI E MANDA MATAR O REI ANTIOCO E LÍSIAS. ENVIA BACIDA COM UM EXÉRCITO À JUDÉIA, PARA EXTERMINAR JUDAS MACABEU E
TODO O SEU PAÍS. CONSTITUI ALCIM COMO SUMO SACERDOTE, QUE
PRATICA ATOS DE GRANDE CRUELDADE. JUDAS, PORÉM, O OBRIGA A IR
PEDIR AUXÍLIO A DEMETRIO.

487. 1 Macabeus 7. Nesse mesmo tempo, Demetrio, filho de Seleuco, fugiu de Roma, apoderou-se da cidade de Trípoli, na Síria, engajou um grande número de soldados e se fez coroar rei. Os povos vieram de todos os lados para se juntar a ele e aceitaram o seu domínio com tanta alegria que lhe entregaram o rei Antioco e Lísias, aos quais ele mandou matar imediatamente. Antioco havia reinado somente dois anos. Vários judeus, que haviam fugido por causa de sua impiedade, voltaram para junto desse novo rei, e Alcim, sumo sacerdote, uniu-se a eles para acusar os seus compatriotas, particularmente Judas Macabeu e seus irmãos, de haverem matado os de seu partido quando estes lhes caíram nas mãos, obrigando assim os outros a abandonar o país para viver em segurança noutros lugares. Isso os impelia a suplicar-lhe que mandasse alguém de confiança para se informar das acusações que se faziam contra Judas.
Demetrio, animado por essas palavras contra Judas, enviou para lá Bacida,* governador da Mesopotâmia, com um exército. Esse homem era um valente general e fora muito querido do rei Antioco Epifânio. Demetrio deu-lhe ordem expressa de exterminar todos os que seguiam Judas, e este por primeiro. Recomendou-lhe particularmente que ajudasse Alcim, que deveria acompanhá-lo nessa guerra.
O general partiu de Antioquia e, quando chegou à Judéia, mandou dizer a Judas e a seus irmãos, com o fim de surpreendê-los, que queria fazer a paz e contrair aliança com eles. Judas, porém, desconfiou de suas palavras, visto que ele vinha com uma tropa considerável, mais parecendo desejar a guerra que a paz. Outros, que não eram tão prudentes, prestaram fé às palavras de Bacida, julgando que nada tinham a temer de Alcim, pois era um compatriota. Foram, portanto, ter com eles, depois que ambos prometeram com juramento não lhes fazer mal algum, nem aos de seu partido. Mas Bacida, contra a palavra que empenhara, mandou matar sessenta deles. Essa perfídia impediu que os demais lhe dessem fé, e ele afastou-se imediatamente de Jerusalém, chegando a Bete-Zaíte, onde matou todos os que conseguiu aprisionar e ordenou ao povo que obedecesse a Alcim, com quem deixou parte das tropas. Depois voltou para Antioquia, a fim de falar com o rei Demétrio.

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* Ou Báquides.

488. Alcim, para conquistar a afeição do povo e firmar sua autoridade, falava com tanta doçura a todos que muitos, dos quais a maior parte era composta de ímpios e fugitivos, se alinharam ao lado dele. Começou então a devastar o país e mandou matar, do partido de Judas, os que lhe caíram nas mãos. Judas, vendo que ele se fortificava cada dia mais e que tantos homens de bem pereciam pela sua crueldade, pôs-se em campo e matou, do partido de Alcim, todos os que pôde apanhar. Então esse inimigo de seu próprio país, não se julgando forte o bastante para enfrentá-lo, voltou a Antioquia para pedir socorro ao rei Demétrio, deixando o rei ainda mais irritado contra Judas. Alcim acusou-o de muitos males e da intenção de causar outros ainda maiores, caso sua majestade não enviasse poderosas forças para castigá-lo.

CAPÍTULO 17
O REI DEMÉTRIO, A PEDIDO DE ALCIM, MANDA NICANOR COM UM
GRANDE EXÉRCITO CONTRA JUDAS MACABEU, A QUEM PROCURA
SURPREENDER. TRAVAM UMA BATALHA, E NICANOR É MORTO. MORTE DE
ALCIM POR UM TERRÍVEL CASTIGO DE DEUS. JUDAS É CONSTITUÍDO SUMO
SACERDOTE EM SEU LUGAR E FAZ ALIANÇA COM OS ROMANOS.

489.  1 Macabeus 7. Ante essas queixas de Alcim, o rei Demétrio julgou conveniente, para a segurança do reino, não permitir que Judas Macabeu se fortificasse ainda mais, e enviou contra ele um grande exército, sob o comando de Nicanor, que com ele havia escapado de Roma e desfrutava grande prestígio perante o rei. Esse general partiu com ordem de não poupar um só dos judeus.
Quando chegou a Jerusalém, no entanto, não julgou conveniente revelar a Judas o propósito de sua vinda. Resolveu agir pela astúcia e mandou-lhe dizer que não compreendia por que razão ele queria entregar-se aos perigos de uma guerra e que estava disposto a afirmar-lhe com juramento que nada devia temer, pois viera com os seus amigos apenas para lhe manifestar as intenções do rei, muito favoráveis à sua nação. Judas e seus irmãos deixaram-se persuadir por estas palavras. O juramento foi feito de parte a parte, e eles o receberam com o seu exército. Nicanor saudou Judas e, enquanto ainda falavam, fez sinal aos seus para que o aprisionassem. Judas, porém, percebeu-o e escapou. Assim foi descoberta a traição de Nicanor, e Judas só pensava agora em se preparar para a guerra. O combate travou-se perto da aldeia de Cafarsalama, onde judas levou a pior e foi obrigado a se retirar para Jerusalém.
490. Um dia, quando Nicanor descia da fortaleza e vinha para o Templo, alguns sacerdotes e anciãos foram à sua presença, com algumas vítimas que diziam desejar oferecer pela prosperidade do rei Demétrio. Mas ele, em vez de recebê-las favoravelmente, proferiu blasfêmias contra Deus e ameaçou destruir o Templo se não lhe entregassem Jerusalém. Assim, no temor de que se viram possuídos, tudo o que puderam fazer foi rogar a Deus, com lágrimas, que os protegesse. Nicanor foi acampar em Bete-Horom, onde recebeu, da Síria, um novo esforço. Judas acampou a trinta estádios dele, num lugar de nome Adasa, com mil homens somente. Exortou-os a não se assustarem com o número dos inimigos nem com outras aparentes vantagens que eles desfrutavam nos requisitos para a luta, mas que se lembrassem de que eram judeus e da causa pela qual combatiam, pois isso seria suficiente para livrá-los de todo o temor.
O combate logo iniciou, com grande entusiasmo de parte a parte. Vários inimigos foram mortos, e Nicanor também morreu, depois de fazer tudo o que é próprio de um grande general. Com a sua morte, as tropas perderam a coragem, abandonaram as armas e fugiram. Judas perseguiu-os com tenacidade, matou a todos os que apanhou e comunicou a todas as terras da vizinhança, pelo som de trombetas, que Deus lhe concedera a vitória. Os judeus, avisados por esse sinal, saíram imediatamente com armas, cortaram o caminho dos fugitivos e os atacaram. Não escapou um sequer dos nove mil homens que formavam aquele exército. Essa vitória deu-se no dia treze do mês de adar, que os macedônios chamam distro. E nós celebramos essa festa todos os anos, a partir dessa data. Nossa nação desfrutou, em seguida, paz e descanso durante algum tempo e pôde saborear os frutos da paz até enfrentar novamente outros perigos e novos combates.
491. Alcim, sumo sacerdote, queria mandar demolir os antigos muros do santuário, construídos pelos santos profetas, mas Deus o castigou imediatamente com uma doença tão cruel que ele caiu por terra e morreu, depois de sofrer durante vários dias dores contínuas e insuportáveis. Ele exerceu esse cargo durante quatro anos, e o povo, por um consentimento unânime, escolheu Judas Macabeu para sucedê-lo.
492.  O novo sumo sacerdote, constatando que o poder dos romanos era tão grande que eles haviam submetido os gaiatas, os espanhóis e os cartagineses, subjugado a Grécia e vencido os reis Perseu, Filipe e Antíoco, o Grande, resolveu fazer amizade com eles e enviou a Roma, para esse fim, dois de seus amigos: Eupotemo, filho de João, e Jasão, filho de Eleazar, com o fim de rogar aos romanos que os recebessem em aliança e em amizade, e escrevessem ao rei Demétrio que os deixasse em paz.
O senado os recebeu muito favoravelmente, concedeu-lhes o que pediam e mandou exarar o pedido como decreto, em tábuas de cobre, que foram colocadas no Capitólio. Deram-lhes uma cópia, cujas palavras eram estas: &quot;Nenhum dos que estão sujeitos aos romanos fará guerra aos judeus, tampouco auxiliará os seus inimigos com trigo, navios ou dinheiro. Os romanos ajudarão os judeus com todas as suas posses contra os que os atacarem, e os judeus auxiliarão os romanos do mesmo modo, se estes forem atacados. Se os judeus quiserem acrescentar ou diminuir alguma coisa a esta aliança que contraem com os romanos, não o poderão fazer sem o consentimento de todo o povo romano, que deverá ratificá-lo&quot;. Essa cópia foi escrita por Eupotemo e por Jasão, sendo então Judas o sumo sacerdote, e Simão, seu irmão, o general de todo o exército. Esse tratado foi o primeiro que os judeus fizeram com os romanos.

CAPÍTULO 18
O REI DEMÉTRIO MANDA BACIDA COM UM NOVO EXÉRCITO CONTRA JUDAS MACABEU, QUE, EMBORA TENHA SOMENTE OITOCENTOS HOMENS, DECIDE COMBATÊ-LO.

493.   1 Macabeu 9. O rei Demétrio, tendo sabido da morte de Nicanor e da inteira derrota de seu exército, enviou um outro contra os judeus, comandado por Bacida. Ele partiu de Antioquia, entrou na Judéia, acampou perto de Arbelas, na Galiléia, forçou as cavernas para onde vários judeus se haviam retirado e avançou pelo lado de Jerusalém. Soube, a caminho, que Judas estava numa aldeia chamada Bersete e marchou imediatamente contra ele. Judas tinha então somente dois mil homens, a maior parte dos quais, mil e duzentos homens, ficou atemorizada pelo número dos inimigos e fugiu, ficando-lhe somente oitocentos. Mesmo abandonado desse modo e não tendo nenhum meio de fortificar as suas tropas, ele resolveu combater com os poucos soldados que lhe restavam. Exortou-os a suprir pela coragem o que lhes faltava e a superar pelo valor a grandeza do perigo. Eles lhe fizeram ver a desproporção entre as suas forças e as dos inimigos, dizendo que era melhor se retirarem para reunir novos soldados e então voltar para combatê-los, mas ele respondeu: &quot;Deus me livre ser tão infeliz. Que o Sol jamais me veja voltar as costas ao inimigo. Embora me deva custar a vida, não irei obscurecer por uma fuga vergonhosa o brilho de tantas vitórias que conquistei sobre eles. Recebê-los-ei com armas na mão e, combatendo generosamente, aceitarei o que prouver a Deus permitir que me aconteça&quot;. Essas palavras, vindo de tão corajoso comandante, tiveram tanta força que persuadiram o pequeno número a desprezar tão grande perigo e a sustentar sem temor o ímpeto daquele poderoso exército.

CAPÍTULO 19
JUDAS MACABEU ENFRENTA COM OITOCENTOS HOMENS TODO O EXÉRCITO DO REI DEMÉTRIO E É MORTO, DEPOIS DE PRATICAR INCRÍVEIS PROEZAS DE 
VALOR. ELOGIO A ELE.

494. Bacida dispôs as suas tropas em ordem de batalha e colocou a cavalaria em duas alas, pondo no meio os que estavam armados à ligeira, com os arquei-ros sustentados pelas falanges macedônias. Ele comandava em pessoa a ala direita. Depois de marchar nessa ordem, aproximou-se dos inimigos, ordenou aos trombeteiros que dessem o toque de avançar e aos demais que iniciassem o ataque. Judas, por seu lado, fez a mesma coisa, e a luta foi tão acirrada, de parte a parte, que durou até o pôr-do-sol.
Judas, tendo notado que Bacida combatia na ala direita com a elite de suas tropas, tomou os mais valorosos dentre os seus e foi atacá-lo, com tanta coragem que atravessou os seus temíveis batalhões e os desbaratou. Colocou-os em fuga e os perseguiu até os montes de Asa. Os da ala esquerda, vendo que ele tinha avançado demais, seguiram-no e o rodearam de todos os lados. Na impossibilidade de se retirar, Judas continuou firme e, depois de matar uma porção deles, ficou tão esgotado que caiu exausto e morreu gloriosamente, coroando assim as suas grandes e imortais vitórias.
Os soldados, não podendo mais resistir após a perda de tal comandante, só pensaram em se salvar. Simão e Jônatas, seus irmãos, levaram-lhe o corpo durante algumas tréguas e foram a Modim, onde ele foi enterrado com grande magnificência na sepultura de seu pai. Todo o povo lamentou-o durante vários dias e prestou-lhe todas as homenagens que a nossa nação costuma prestar à memória dos filhos mais ilustres.
Tal foi o glorioso fim de Judas Macabeu, grande general e comandante, homem admirável, que, tendo sempre diante dos olhos os mandamentos que recebera de seu pai, empreendeu corajosamente muitas ações difíceis e perigosas, para o bem e a liberdade de sua pátria. Será, pois, motivo de admiração que a honra de tê-la libertado da escravidão dos macedônios, com um número infinito de feitos extraordinários, lhe tenham granjeado uma reputação que nenhum século verá terminar? Exerceu ele durante três anos o sumo sacerdócio.
Livro Décimo Terceiro

CAPÍTULO 1
DEPOIS DA MORTE DE JUDAS MACABEU, JÔNATAS, SEU IRMÃO, É
ESCOLHIDO PELOS JUDEUS PARA GENERAL DE SUAS TROPAS. BACIDA,
GENERAL DO EXÉRCITO DE DEMÉTRIO, TENTA MATÁ-LO À TRAIÇÃO E, NÃO
CONSEGUINDO, ATACA-O. GRANDE COMBATE E BELA RETIRADA DE JÔNATAS.
OS FILHOS DE AMAR MATAM JOÃO, SEU IRMÃO. JÔNATAS SE VINGA.
BACIDA CERCA JÔNATAS E SIMÃO, SEU IRMÃO, EM BETALAGA.
ELES O OBRIGAM A LEVANTAR O CERCO.

495. 1 Macabeus 9. Vimos no livro precedente que os judeus se libertaram da escravidão dos macedônios pela coragem e valor de Judas Macabeu, que foi morto no último dos muitos combates nos quais se empenhara para reconquistar a liberdade. Depois da perda desse generoso chefe, aqueles de nossa nação que haviam abandonado as leis de seus pais fizeram mal, como nunca antes, aos que permaneciam fiéis a Deus. E uma grande carestia afligiu de tal modo a judéia que vários dentre aqueles passaram para os macedônios, a fim de garantir a própria subsistência. Bacida entregou a esses desertores o encargo dos negócios da província, e eles começaram por lhe entregar todos os que puderam apanhar, tanto os amigos particulares de Judas Macabeu quanto os que eram favoráveis ao seu partido. Não se contentando em mandá-los matar, o cruel general valia-se de tormentos desconhecidos e inauditos.
Os judeus, vendo-se reduzidos à extrema miséria, qual nem mesmo haviam sofrido após o cativeiro na Babilônia, e tendo motivo para temer a completa ruína, pediram a Jônatas, irmão de judas, que imitasse o valor de seu admirável irmão, o qual terminara a vida combatendo até o último suspiro pela salvação de sua pátria, e não permitisse que toda a nação perecesse por falta de um chefe tão competente quanto ele. Jônatas respondeu que estava pronto a sacrificar a sua vida pelo bem público, e, como todos julgassem que não podiam confiar o cargo a pessoa mais digna, escolheram-no para chefe com o consentimento geral.
496. Bacida, apenas o soube, com medo de que jônatas causasse tantas preocupações quanto o irmão ao rei e aos macedônios, resolveu mandar matá-lo à traição. Mas Jônatas e Simão descobriram o seu intento e se retiraram com vários dos de seu partido para o deserto próximo de Jerusalém, detendo-se junto do lago de Asfar. Bacida, pensando que eles estavam com medo, marchou imediatamente contra eles com todas as suas tropas e acampou além do Jordão.
Quando Jônatas soube disso, enviou João, seu irmão, cognominado Gadis, com a bagagem, aos árabes nabateenses, que eram seus amigos, para lhes pedir que a guardassem até que tivessem terminado a luta com Bacida. Porém os filhos de Amar saíram da cidade de Medeba e o atacaram, saquearam toda a bagagem e o mataram, bem como a todos os que o acompanhavam. Tão negra ação não ficou impune. Os irmãos de João tiraram vingança, como diremos em seguida.
Bacida, sabendo que Jônatas se retirara aos pantanais do Jordão, escolheu o sábado para atacá-lo, na persuasão de que a observância da Lei os impediria de combater. Jônatas fez ver aos seus que os inimigos que tinham à frente e o rio, que estava por trás, tirando-lhes a passagem e os meios de fuga, exigiriam deles toda a coragem e todo o empenho na luta, se quisessem salvar-se de tão grande perigo. Em seguida, fez a Deus uma oração para pedir-lhe a vitória e atacou os inimigos, matando vários deles. Bacida, vendo-o aproximar-se de maneira tão ousada, reuniu todas as suas forças para desferir-lhe um tremendo golpe. Jônatas, porém, o evitou e, percebendo que não estava em condições de resistir por muito tempo a um inimigo tão numeroso, lançou-se com o seu exército ao rio, passando-o a nado, o que os inimigos não ousaram fazer.
Assim, Bacida, que perdeu no combate uns dois mil homens, voltou para a fortaleza de Jerusalém e fortificou várias cidades que haviam sido destruídas, isto é, Jerico, Emaús, Bete-Horom, Betei, Tamnata, Faraton, Tefon e Gazara,* rodean-do-as com muralhas com torres grandes e fortes e colocando nelas guarnições, a fim de poder usá-las como base nas incursões contra os judeus. Fortificou de modo particular a fortaleza de Jerusalém, onde mantinha prisioneiros os principais dos judeus, que lhe haviam sido entregues como reféns.
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* Ou Cezer.
497.  Por esse mesmo tempo, Jônatas e Simão souberam que os filhos de Amar iriam levar, da cidade de Gatala, com grande pompa e magnificência, a filha de um dos principais dos árabes, que um deles recebera como noiva, para celebrar as bodas. Os dois irmãos julgaram que não haveria ocasião melhor para vingar a morte de João, seu irmão. Assim, marcharam com grandes forças para Medeba e puseram-se de emboscada no monte que está à passagem. Logo que viram a noiva aproximar-se com o noivo e seus amigos, atiraram-se sobre eles, mataram todos, levaram o que eles tinham de mais precioso e voltaram, depois de se sentirem plenamente vingados. Eles mataram cerca de quatrocentos, entre homens, mulheres e crianças, e sua moradia agora era nos pantanais do Jordão.
498.  Bacida, depois de colocar as guarnições na Judéia, voltou para visitar o rei Demétrio. Assim, os judeus ficaram em paz durante dois anos. Mas os ímpios desertores, vendo que Jônatas e os seus viviam tranqüilos, sem nada temer, foram pedir ao rei que enviasse Bacida novamente, para os aprisionar, pois então nada seria mais fácil que os surpreender durante a noite e matar todos eles. Bacida partiu, por ordem do príncipe, e logo que chegou à Judéia escreveu aos seus amigos e aos judeus que eram de seu partido, ordenando que prendessem Jônatas. Eles tudo fizeram para consegui-lo, mas inutilmente, porque ele vivia de sobreaviso. Bacida ficou de tal modo encolerizado contra aqueles falsos judeus, pensando que eles o haviam enganado, bem como ao rei, que mandou matar uns cinqüenta dentre os principais.
Jônatas e seu irmão, não se sentindo bastante fortes, retiraram-se com os seus homens para uma aldeia do deserto, de nome Betalaga,* e a rodearam com muralhas e fortificaram as torres, a fim de poderem ficar em segurança. Bacida sitiou-os com todas as suas tropas e com os judeus de seu partido, procurando atacá-los durante vários dias, mas eles se defendiam corajosamente. Jônatas, deixando o irmão na cidade, para continuar resistindo ao cerco, saiu secretamente e, com os soldados de que dispunha, atacou à noite o acampamento dos inimigos, matando muitos deles. Depois mandou avisar o irmão, que saiu também e incendiou as máquinas com que eram atacados, matando um grande número de inimigos. Bacida, vendo-se acossado de todos os lados e não tendo esperança de tomar a cidade, ficou de tal modo perturbado que parecia ter perdido a razão. Então descarregou a sua cólera sobre os miseráveis trânsfugas, que ele julgava terem enganado o rei ao persuadir o soberano a enviá-lo para a Judéia. Depois disso, pensava apenas em como levantar o cerco sem desonra e retirar-se.

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* Ou Bete-Busi.

CAPÍTULO 2
JÔNATAS FAZ A PAZ COM BACIDA.

499.  1 Macabeus 9. Quando Jônatas soube da disposição de Bacida, mandou fazer-lhe uma proposta de paz, dizendo-lhe que, se concordasse, deveria começar por entregar os prisioneiros, e ele faria o mesmo. Bacida, não querendo perder uma ocasião tão favorável para levantar honestamente o cerco, não teve dificuldade em fazer o tratado. Prometeram com juramento não fazer mais guerra entre si, e os prisioneiros foram postos em liberdade. Bacida voltou para junto do rei, seu senhor, a Antioquia, e nunca mais veio com armas à Judéia.
jônatas, depois de assim cuidar da tranqüilidade e da segurança de sua pátria, fixou moradia na cidade de Micmás, onde se entregou ao governo do povo: apaziguava os litígios, castigava os maus e os ímpios, e de nada se esquecia para reformar os costumes de sua nação.

CAPÍTULO 3
ALEXANDRE BALAS, FILHO DO REI ANTÍOCO EPIFÂNIO, ENTRA COM ARMAS NA SÍRIA. A GUARNIÇÃO DE PTOLEMAIDA ABRE-LHE AS PORTAS, POR CAUSA DO ÓDIO QUE TINHA AO REI DEMÉTRIO, QUE SE PREPARA PARA A GUERRA.

500.  No ano cento e sessenta, Alexandre, cognominado Balas, filho do rei Antíoco Epifânio, entrou com armas na Síria, e a guarnição da cidade de Ptolemaida entregou-lhe a praça, pelo ódio que tinha ao rei Demétrio, por causa do seu orgulho, que o tomava inacessível. Ele ficava encerrado num palácio real muito próximo de Antioquia e fortificado por quatro grandes torres, onde não permitia a ninguém ir vê-lo. Ali, sem se incomodar com os destinos do reino, passava a vida ociosamente, o que lhe valeu o desprezo e a aversão de seus súditos, como o dissemos em outro lugar. Mas quando ele soube que Alexandre fora recebido em Ptolemaida, reuniu todas as suas forças a fim de marchar contra ele.

CAPÍTULO 4
O REI DEMÉTRIO PROCURA ALIANÇA COM JÔNATAS, QUE SE SERVE DESSA OCASIÃO PARA REPARAR AS FORTIFICAÇÕES DE JERUSALÉM.

501. 1 Macabeus 10. O príncipe enviou, ao mesmo tempo, embaixadores a Jônatas para convidá-lo a se unir com ele num pacto de amizade e de aliança, pois desejava antepor-se a Alexandre, não duvidando de que este se propunha também obter o auxílio de Jônatas, e julgou poder consegui-lo tanto mais facilmente quanto não desconhecia o ódio que havia entre eles. Mandava-o ainda reunir tropas, quantas pudesse, para ajudá-lo naquela guerra e permitia-lhe retomar os reféns judeus que Bacida havia deixado na fortaleza de Jerusalém.
Jônatas, logo que recebeu as cartas, foi a Jerusalém e leu-as na presença de todo o povo e da guarnição da fortaleza. Os judeus ímpios e fugitivos que lá se haviam refugiado ficaram muito surpreendidos, porque o rei permitia a Jônatas reunir soldados e retirar os reféns. Depois que estes lhe foram entregues, ele os enviou todos aos seus respectivos parentes e serviu-se da ocasião para fazer grandes restaurações em Jerusalém. Estabeleceu aí a sua moradia, sem que houvesse oposição, e mandou reconstruir as muralhas, com grandes pedras quadradas, para que pudessem resistir aos ataques dos inimigos. Quando as guarnições dispersas pelas cidades fortificadas da Judéia o viram agir desse modo, abandonaram o seu posto e se retiraram para Antioquia, exceto os de Bete-Zur e os da fortaleza de Jerusalém, porque eram guarnições compostas principalmente de judeus desertores e sem religião.

CAPÍTULO 5
O REI ALEXANDRE BALAS PROCURA JÔNATAS AMIGAVELMENTE E DÁ-LHE O
CARGO DE SUMO SACERDOTE, VACANTE PELA MORTE DE JUDAS MACABEU,
SEU IRMÃO. O REI DEMÉTRIO FAZ-LHE AINDA MAIORES PROMESSAS. OS
DOIS REIS TRAVAM UMA BATALHA, E DEMÉTRIO É MORTO.

502. Como o rei Alexandre Balas conhecia os grandes feitos de Jônatas na guerra contra os macedônios e sabia, além disso, o quanto ele fora afligido por Demétrio e por Bacida, general do exército, disse aos seus servidores, logo que soube do oferecimento que esse príncipe lhe fizera, que julgava não poder, em tal conjuntura, contrair uma aliança cujo auxílio lhe fosse mais vantajoso do que com jônatas, porque este, além de seu grande valor e experiência na guerra, tinha motivos particulares para odiar Demétrio, pelo mal que dele havia recebido e pelas angústias suportadas. Se eles julgassem conveniente, faria aliança com ele, contra Demétrio, pois nada haveria de mais útil para eles. Todos aprovaram esse projeto.
Ele escreveu imediatamente a Jônatas a seguinte carta: &quot;O rei Alexandre a Jônatas, seu irmão, saudação. A estima que temos há muito pelo vosso valor e fidelidade nas promessas nos leva a desejar unirmo-nos a vós com uma aliança de amizade, e estamos vos enviando emissários para esse fim. Para dar provas disso, vos constituímos, com a presente, sumo sacerdote, vos recebemos no número de nossos amigos e vos fazemos presente de um traje de púrpura e de uma coroa de ouro, porque não duvidamos que tantos sinais de honra recebidos de nós e unidos ao pedido que fazemos não vos obriguem a desejar reconhecê-los&quot;.
Jônatas, depois de receber essa carta, revestiu-se de ornamentos de sumo sacerdote, no dia da festa dos Tabernáculos, quatro anos depois da morte de Judas Macabeu, seu irmão. Durante esse tempo, o cargo esteve vago. Ele então reuniu um grande número de pessoas e mandou forjar uma grande quantidade de armas.
503.  Demétrio soube disso com sensível desprazer, mas culpou a sua própria demora, que dera ocasião a Alexandre de atrair ao seu partido com tantas demonstrações de estima um homem de tanto mérito. Não deixou, porém, de escrever a Jônatas e ao povo, nestes termos: &quot;O rei Demétrio a Jônatas e à nação dos judeus, saudação. Sabendo de que modo resististes às solicitações que os nossos inimigos vos fizeram de violar a nossa aliança, não podemos louvar o bastante a vossa fidelidade nem exortar-vos em demasia a agir sempre desse modo. Podeis contar com a nossa palavra: não há favores que não possais esperar de nós, como recompensa. E, para vos provar o que dissemos, dispensamo-vos da maior parte dos tributos e vos desobrigamos, desde já, do que estáveis acostumados a pagar a nós e aos nossos predecessores, como também do sal, das coroas de ouro de que nos fazeis presentes e do terço das sementes, da metade das frutas das árvores e do imposto por cabeça devido pelos que moram na Judéia e nas três províncias vizinhas, isto é, Samaria, Galiléia e Peréia, e isso para sempre. Queremos ainda que a cidade de Jerusalém, sendo sagrada, desfrute o direito de asilo e seja isenta, com o seu território, das décimas e de toda espécie de imposto. Permitimos a jônatas, vosso sumo sacerdote, que constitua para a guarda da fortaleza de Jerusalém os que mais merecerem a sua confiança, a fim de vô-la conservar. Colocamos em liberdade os judeus aprisionados na guerra e ainda escravizados entre nós. Isentamo-vos de fornecer cavalos para os correios. E nosso desejo que todos os sábados, as festas solenes e os três dias que as precedem sejam dias de liberdade e de franquia, e que os judeus que moram em nossos territórios sejam livres e possam usar armas a nosso serviço, até trinta mil, recebendo o mesmo soldo que os nossos soldados. Eles podem ser postos nas guarnições de nossas praças e recebidos em nossas guardas pessoais, e os seus chefes serão tratados favoravelmente em nossa corte. Permitimos a todos os das três províncias vizinhas de que acabamos de falar que vivam segundo as leis de vossos antepassados e encarregamos o vosso sumo sacerdote de cuidar para que nenhum judeu vá adorar a Deus em outro templo que não o de Jerusalém. Ordenamos que seja tomada de nossas rendas, todos os anos, a soma de cento e cinqüenta mil dracmas de prata, para as despesas dos sacrifícios, e que o que sobrar seja empregado em vosso proveito. Quanto às dez mil dracmas que os reis estavam acostumados a receber do Templo cada ano, nós as deixamos aos sacerdotes e aos outros ministros desse lugar sagrado, porque sabemos que elas lhes pertencem. Proibimos que se atente contra qualquer pessoa que se retirar ao Templo em Jerusalém ou ao oratório que lhe está próximo, ou contra os seus bens, seja pelo que nos deve, seja por qualquer outro motivo. E permitimos que, à nossa custa, repareis o Templo e as muralhas da cidade e que eleveis altas torres. E ainda, se houver na Judéia lugar próprio para se construírem cidadelas, queremos que tal se faça também à nossa custa&quot;.
O rei Alexandre, após reunir grandes forças, tanto as tropas tomadas sob pagamento quanto as que na Síria se haviam revoltado contra Demétrio, marchou contra este, e travou-se a batalha. A ala esquerda do exército de Demétrio rompeu a ala direita do de Alexandre, obrigando-o a fugir. Perseguiu-o por muito tempo, com grande mortandade, e saqueou o seu acampamento. Porém, a ala direita de Demétrio, na qual ele combatia, não pôde resistir à ala esquerda de Alexandre, que a atacava. O príncipe fez, nessa ocasião, atos extraordinários de valor. Matou com as próprias mãos muitos inimigos e, enquanto perseguia outros, o seu cavalo caiu num pântano, do qual não pôde mais sair. Assim, a pé, abandonado, rodeado por inimigos e acossado pelas flechas, caiu crivado de feridas, depois de se defender com invencível coragem. Ele reinou onze anos, como já dissemos.

CAPÍTULO 6
ONIAS, FILHO DE ONIAS, SUMO SACERDOTE, CONSTRÓI NO EGITO UM TEMPLO
SEMELHANTE AO DE JERUSALÉM. CONTESTAÇÃO ENTRE OS JUDEUS E OS
SAMARITANOS ANTE PTOLOMEU FILOMETER, REI DO EGITO, COM RELAÇÃO AO
TEMPLOS DE JERUSALÉM E DE GERIZIM. OS SAMARITANOS PERDEM A CAUSA.

504. Onias, filho de Onias, sumo sacerdote, que, como dissemos, se retirara para Alexandria, a Ptolomeu Filometer, rei do Egito, vendo que a Judéia fora destruída pelos macedônios e pelos seus reis, e desejando eternizar-lhe a memória, escreveu ao rei e à rainha Cleópatra para suplicar que lhe permitissem construir no Egito um templo semelhante ao de Jerusalém e lá constituir sacerdotes e levitas de sua nação. Uma profecia de Isaías, que havia predito, cem anos antes, que um judeu edificaria no Egito um templo em honra ao Deus Todo-poderoso, fortaleceu ainda mais o seu desígnio.
Sua carta assim estava escrita: &quot;Quando, com a ajuda de Deus, prestei a vossa majestade grandes serviços na guerra, notei, passando pela Baixa Síria, pela Fenícia e por Leontópolis, que é do governo de Heliópolis, e por outros lugares, que os judeus lá haviam construído diversos templos sem observar as regras necessárias para esse fim, o que causou entre eles grande divergência. Os egípcios cometem a mesma falta, pela multidão de templos e pela diversidade de seus sentimentos nas coisas da religião. Mas encontrei em um castelo chamado Bubaste, o Selvagem, um lugar muito apropriado para a construção de um templo, porque lá se encontram animais em abundância e outras coisas próprias para os sacrifícios, e onde já existe um templo, meio destruído e que não está consagrado a divindade alguma, cuja demolição, se vossa majestade o permitir, poderá servir à construção de um outro, em honra ao Deus Todo-poderoso, que será semelhante ao de Jerusalém e nele se rogará pela prosperidade de vossas majestades e dos príncipes vossos filhos. Ele congregará todos os judeus que moram no Egito, porque eles aí se reunirão para cantar louvores a Deus, como o predisse profeta Isaías, nestas palavras: Haverá no Egito um lugar consagrado a Deus (ao que ele acrescenta diversas coisas referentes a esse lugar)&quot;.
O rei Ptolomeu e a rainha Cleópatra, a qual era ao mesmo tempo sua mulher e irmã, mostraram a sua piedade em uma resposta cujos termos lançavam sobre Onias todo o pecado, se houvesse naquilo transgressão à Lei. Eis as palavras: &quot;O rei Ptolomeu e a rainha Cleópatra a Onias, saudação. Vimos por vossa carta o pedido que nos fazeis de permitir-vos reconstruir o templo em rumas de Bubaste, o Selvagem, perto de Leontópolis, que é do governo de Heliópolis, e temos dificuldades em crer que seja coisa agradável a Deus consagrar-lhe um templo num lugar tão impuro e cheio de animais. Como nos afirmais, todavia, que o profeta Isaías predisse há muito tempo que isso iria acontecer, nós vô-lo permitimos, caso seja coisa que se possa fazer sem desobedecer à vossa lei, pois não queremos absolutamente ofender a Deus&quot;.
Onias, depois dessa permissão, construiu um templo igual ao de Jerusalém, contudo um pouco menor e não tão rico. Não lhe citarei as medidas nem os vasos que foram consagrados, pois disso já falei no sétimo livro da Guerra dos Judeus. Onias não teve dificuldade em encontrar entre os judeus sacerdotes e levitas com os mesmos sentimentos para servirem naquele templo.
505. Suscitou-se por aquele mesmo tempo, em Alexandria, uma tão grande questão entre os judeus e os samaritanos, os quais haviam, sob o reinado de Alexandre, o Grande, construído um templo no monte Gerizim, que o rei Ptolomeu desejou ser informado a esse respeito. Os judeus diziam que o Templo de Jerusalém, tendo sido construído segundo as Leis de Moisés, era o único que devia ser reverenciado. Os samaritanos, ao contrário, sustentavam que o de Gerizim era o verdadeiro.
O soberano reuniu um grande conselho para decidir a questão, e começou por dizer que os advogados que perdessem a causa seriam condenados à morte. Sabeu e Teodósio falaram pelo samaritanos, e Andrônico, filho de Messalam, pelo judeus e pelos de Jerusalém. Todos protestaram com juramento, diante de Deus e do rei, que não trariam outras provas senão as da Escritura e da Lei e rogaram ao soberano que mandasse matar aqueles que violassem o juramento. Os judeus de Alexandria estavam muito aflitos por aqueles que defendiam a sua causa e não podiam ver, sem extrema dor, que se pusesse em dúvida o direito do mais antigo e augusto Templo do mundo.
Sabeu e Teodósio consentiram que Andrônico falasse primeiro, e ele demonstrou, por meio de provas tiradas da Lei e pela série contínua dos sumo sacerdotes, a santidade e a autoridade do Templo de Jerusalém. Provou-as também pelos ricos e magníficos presentes que todos os reis da Ásia haviam oferecido e pela honra que lhe prestaram, os quais não tinham, ao invés, nenhum apreço pelo Templo de Gerizim. A isso ele acrescentou outras razões, persuadindo o rei de tal modo que ele declarou que o Templo de Jerusalém era o que realmente fora construído conforme as Leis de Moisés. E mandou matar Sabeu e Teodósio.

CAPÍTULO 7
ALEXANDRE BALAS, DE POSSE PACÍFICA DO REINO DA SÍRIA, PELA MORTE DE
DEMETRIO, DESPOSA AFILHA DE PTOLOMEU FILOMETER, REI DO EGITO. GRANDES
HONRAS PRESTADAS POR ALEXANDRE AFÔNATAS, SUMO SACERDOTE.

506. 1 Macabeus 11. Depois que o rei Demetrio, como dissemos, morreu na batalha e Alexandre Balas, por sua morte, se tornou senhor de toda a Síria, este escreveu a Ptolomeu Filometer, rei do Egito, para pedir-lhe a princesa Cleópatra, sua filha, em casamento, dizendo que era muito justo, visto que Deus lhe havia concedido a graça de vencer Demetrio e reconquistar o reino de seu pai, que ele o recebesse como aliado quando outras considerações não o tornassem indigno disso. Ptolomeu recebeu essa carta com satisfação e respondeu que tivera conhecimento, com bastante prazer, de que ele voltara aos seus domínios, os quais lhe pertenciam com justo título, e de boa mente lhe dava a sua filha. Ele devia apenas vir a Ptolemaida, para onde ela seria levada, a fim de lá celebrarem as bodas.
Tudo isso se realizou. Ptolomeu deu como dote à filha uma soma digna de tão grande rei. Alexandre escreveu a jônatas, sumo sacerdote, convidando-o para o casamento. Ele compareceu, deu magníficos presentes aos dois reis e foi por eles recebido com grandes honras. Alexandre obrigou-o a mudar de trajes para vestir um manto de púrpura, obrigou-o a sentar-se perto dele, no trono, e ordenou aos seus principais oficiais que o levassem pela cidade clamando que o rei proibia a quem quer que fosse dizer algo contra ele ou causar-lhe algum desprazer. Tantos favores mostraram a todos o prestígio de Jônatas perante o rei, e os seus inimigos, que tinham vindo para acusá-lo, retiraram-se, temendo que o mal que lhe desejavam viesse a cair sobre eles próprios. O afeto que Alexandre lhe dedicava era tão grande que esse príncipe o considerava o homem a quem mais estimava sobre a terra.

CAPÍTULO 8
DEMETRIO NICANOR, FILHO DO REI DEMETRIO, ENTRA NA CILÍCIA COM UM EXÉRCITO. O REI ALEXANDRE BALAS DÁ O COMANDO DE SEU EXÉRCITO A
APOLÔNIO, QUE INJUSTAMENTE ATACA JÔNATAS, SUMO SACERDOTE. JÔNATAS O DERROTA, TOMA AZOTO E INCENDEIA O TEMPLO DE DAGOM.
PTOLOMEU FILOMETER, REI DO EGITO, VEM EM AUXÍLIO DO REI ALEXANDRE,
 


SEU GENRO, QUE LHE ARMA EMBOSCADAS POR MEIO DE AMORNO.
PTOLOMEU TIRA-LHE AFILHA E A DÁ EM CASAMENTO A DEMÉTRIO. OS
HABITANTES DE ANTIOQUIA RECEBEM PTOLOMEU, E EXPULSAM ALEXANDRE,
QUE RETORNA COM UM EXÉRCITO. PTOLOMEU E DEMÉTRIO COMBATEM E
VENCEM ALEXANDRE. PTOLOMEU MUITO FERIDO, MORRE, PORÉM ANTES VÊ
A CABEÇA DE ALEXANDRE, ENVIADA POR UM PRÍNCIPE ÁRABE, FÔNATAS
CERCA A FORTALEZA DE JERUSALÉM E APLACA COM PRESENTES O REI
DEMÉTRIO, QUE CONCEDE NOVAS GRAÇAS AOS JUDEUS. ESSE PRÍNCIPE,
VENDO-SE EM PAZ, DISPENSA OS SEUS ANTIGOS SOLDADOS.

507. No ano cento e sessenta e cinco, Demétrio, cognominado Nicanor, filho do rei Demétrio, tomou sob pagamento um grande número de soldados que Lastene, de Creta, lhe forneceu, embarcou nessa ilha e foi à Cilícia. Essa notícia deixou muito perturbado o rei Alexandre Balas, que então estava na Fenícia. Ele partiu imediatamente para Antioquia, a fim de prevenir-se antes da chegada de Demétrio, e deu o comando de seu exército a Apolônio Davo. Esse general avançou para )amnia e mandou dizer a Jônatas, sumo sacerdote, que era estranho que ele fosse o único a viver à vontade e em paz sem prestar nenhum serviço ao rei; que não permitiria por mais tempo a censura que todos lhe moviam de não obrigá-lo ao cumprimento do dever; que ele não se iludisse na esperança de que não o poderiam atacar nos montes; que, se de fato ele era valente e tinha confiança em suas forças, como queria que se pensasse, viesse então à planície para encerrar aquela questão por meio de um combate, cujo resultado haveria de mostrar qual dos dois era o mais valente; que ele estivesse avisado de que tinha os melhores soldados, recrutados em todos os lugares da terra, os quais estavam acostumados a vencer; e que aquele combate se daria num lugar onde se teria necessidade de armas, e não de pedras, e onde os vencidos não podiam esperar a salvação pela fuga.
Jônatas, irritado com tais bravatas, partiu imediatamente de Jerusalém com dez mil homens escolhidos, acompanhado por Simão, seu irmão, e foi acampar próximo da cidade de Jope. Os habitantes fecharam-lhes as portas. Vendo, porém, que ele se preparava para forçá-las, abriram-nas. Quando Apolônio soube que ele havia se apoderado da cidade, marchou por Azoto com oito mil soldados de infantaria e três mil de cavalaria. Em seguida, aproximou-se de Jope em marchas pequenas, sem rumor, e depois afastou-se um pouco para atacar Jônatas na planície, porque confiava na sua cavalaria. Jônatas avançou e o perseguiu até Azoto.
Apolônio, mal o viu na planície, mudou de idéia e mandou sair ao mesmo tempo mil cavaleiros de uma emboscada que havia preparado numa torrente a fim de atacar os judeus pela retaguarda. Jônatas, que previra o movimento, não se admirou. Formou um batalhão compacto, em quadrados, para poder resistir de todos os lados, e exortou os seus a mostrar toda a sua coragem naquela eventualidade.
O combate durou até a tarde. Jônatas deu o comando de uma parte do exército a Simão, seu irmão, e ordenou às tropas perto dele que se cobrissem com os escudos, para receber os dardos da cavalaria inimiga. Eles fizeram assim, e a cavalaria gastou todos os seus dardos sem conseguir causar-lhes mal algum. Quando Simão viu que os inimigos estavam cansados por terem lançado tantos dardos inutilmente o dia todo, atacou-os com tanta violência, principalmente a infantaria, que os derrotou. A fuga atemorizou também a cavalaria, e assim ela foi desbaratada e fugiu desordenadamente, jônatas os perseguiu até Azoto e matou um grande número deles. O resto refugiou-se num templo de Dagom, mas ele entrou na cidade e mandou incendiá-la, fazendo o mesmo com as cidades da vizinhança. Também não respeitou o templo e o incendiou, e assim morreram queimados todos os que nele se haviam refugiado.
O número dos inimigos que pereceram nesse dia, tanto pelas chamas quanto pelas armas, foi de dez mil homens. Jônatas, ao sair de Azoto, acampou próximo de Asquelom. Os habitantes ofereceram-lhe presentes. Ele os recebeu, agradeceu-lhes a boa vontade e retornou vitorioso a Jerusalém, com ricos despojos. O rei Alexandre Balas mostrou-se satisfeito com a derrota de Apolônio, porque este havia atacado o seu amigo e os seus confederados contra a sua vontade. E, para mostrar a Jônatas em que estima ele tinha o seu valor, mandou-lhe um broche de ouro que somente os parentes dos reis podiam usar e deu-lhe perpetuamente Acarom e seu território.
508.  Nesse mesmo tempo, o rei Ptolomeu Filometer veio à Síria com forças de terra e de mar, em socorro de Alexandre, seu genro, por ordem de quem todas as cidades o receberam com alegria, exceto Azoto, que lhe fez grandes queixas de jônatas, por ele haver incendiado o templo de Dagom e todo o país, passando-o a ferro e fogo, ao que esse rei nada respondeu. Jônatas dirigiu-se a Jope, onde ele estava, e foi muito bem recebido. Depois de acompanhá-lo até o rio de Eleutério, voltou a Jerusalém com ricos presentes, ofertados pelo príncipe.
509.  Enquanto Ptolomeu estava em Ptolemaida, pouco faltou que não perecesse numa emboscada que Alexandre lhe armara por meio de Amônio, seu amigo. Mas ele descobriu e escreveu a Alexandre, dizendo que punisse aquele traidor como merecia. Vendo que ele não fazia caso, não duvidou em pensar que fora o próprio Alexandre o autor de tão grande traição e ficou irritado contra o pérfido príncipe, que já se tornara odioso aos habitantes de Antioquia por causa desse mesmo Amônio, que lhes havia feito muito mal. O detestável ministro de tão negra ação não deixou, no entanto, de receber o castigo que merecia. Tendo se vestido de mulher, para se salvar, foi morto nessa ocasião, perdendo a vida de forma vergonhosa, como diremos mais tarde.
510.  Ptolomeu, arrependendo-se da aliança que fizera com Alexandre e de havê-lo ajudado, tirou-lhe a filha e enviou embaixadores a Demetrio para oferecê-la a este em matrimônio, com a promessa de restaurá-la no seu reino. Ele recebeu o oferecimento com grande alegria, e assim, nada mais restava a Ptolomeu senão persuadir os de Antioquia a receber esse jovem príncipe, contra o qual estavam indispostos, por causa da lembrança do que haviam sofrido sob o reinado de seu pai. E eles, devido ao ódio que sentiam de Alexandre, por causa de Amônio, resolveram, sem mais, expulsá-lo da cidade.
Alexandre retirou-se para a Cilícia, e Ptolomeu Filometer entrou em Antioquia, onde foi saudado como rei pelos habitantes e pelo seu exército. Por isso foi obrigado permitir que lhe colocassem na cabeça dois diademas: um de rei da Ásia e outro de rei do Egito. Mas ele era naturalmente justo, muito prudente, moderado e pouco ambicioso, e não queria ofender os romanos. Por essa razão reuniu todos habitantes dessa grande cidade e os persuadiu a receber Demetrio como rei, garantindo-lhes que, por lhe dever Demetrio muitas obrigações, este esqueceria a inimizade que houvera entre seu pai e eles. A isso ele acrescentou que o orientaria sobre a maneira de bem governar e recomendar-lhe-ia que nada fizesse que fosse indigno de um príncipe. Quanto a ele, contentava-se com o reino do Egito. Assim, esse sábio rei os persuadiu a receber Demetrio.
511.  Alexandre, depois de reunir um grande exército, entrou na Cilícia e na Síria, devastou-as e incendiou tudo. Ptolomeu e Demetrio, então seu genro, combateram-no e o venceram, obrigando-o a fugir para a Arábia. Aconteceu nessa batalha que o cavalo de Ptolomeu assustou-se com o barrido de um elefante e jogou-o por terra. Os inimigos imediatamente o rodearam de todos os lados e o teriam matado os seus guardas não o tivessem tirado daquele perigo. Mas ele recebeu tantas feridas na cabeça que ficou quatro dias sem poder falar nem compreender o que lhe diziam. No quinto dia, quando começava a voltar a si, um príncipe árabe, de nome Zabez, mandou-lhe a cabeça de Alexandre. Assim ele soube ao mesmo tempo da morte de seu inimigo e viu com os próprios olhos que a notícia era verdadeira. Mas a sua alegria não durou muito, pois logo em seguida ela também terminou, junto com a sua vida. Alexandre Balas reinou apenas cinco anos, como já dissemos.
512.  Demetrio Nicanor, com a morte de Alexandre, entrou na posse do reino e logo deu mostras de seu mau gênio. Esquecendo-se de todas as obrigações que devia a Ptolomeu Filometer e da aliança que fizera com ele, pelo casamento com Cleópatra, tratou tão mal os seus soldados que eles se retiraram para Alexandria, detestando a sua ingratidão. Deixaram-lhe, porém, os elefantes.
513.  Nesse mesmo tempo, Jônatas, sumo sacerdote, reuniu todas as suas forças na Judéia, para atacar a fortaleza de Jerusalém, onde havia uma guarnição de macedônios e para onde os judeus desertores da religião de seus antepassados se haviam retirado. A confiança na resistência da praça fez com que eles, no início, zombassem daquela empresa, e alguns desses judeus foram avisar Demetrio do assédio. Ele ficou tão encolerizado que partiu de Antioquia com o seu exército, para marchar contra Jônatas. Quando chegou a Ptolemaida, escreveu-lhe dizendo que viesse encontrá-lo, e jônatas foi, sem abandonar o cerco. Fez-se acompanhar por alguns sacerdotes e anciãos do povo, e levou-lhe ouro, prata, ricos vestess e grande quantidade de outros presentes, que aplacaram a sua cólera.
Ele o recebeu com grande honra, confirmou-o no sumo sacerdócio, como os reis seus predecessores haviam feito, e não somente deixou de prestar fé às acusações dos judeus trânsfugas como ainda decretou que toda a Judéia e as três províncias que a ela estavam unidas, a saber, Samaria, Jope e a Caliléia, pagariam doravante apenas trezentos talentos de tributo, no total, como se vê pelas cartas que ele fez expedir, nestes termos: &quot;O rei Demetrio a Jônatas, seu irmão e à nação dos judeus, saudação. Mandamo-vos cópia da carta que escrevemos a Lastenes, nosso parente, a fim de que vejais o que ela contém: O rei Demetrio, a Lastenes, nosso pai, saudação. Querendo mostrar aos judeus o quanto estamos satisfeitos pela maneira como correspondem por suas ações ao afeto que lhes dedicamos e dar-lhes provas disso, ordenamos que os três bailiados de Aferema, Lida e Ramate, com os seus territórios, sejam tirados de Samaria e anexados à Judéia e lhes restituímos tudo o que os reis nossos predecessores estavam habituados a receber dos que iam oferecer sacrifícios em Jerusalém, bem como os outros tributos que deles tiravam, provenientes dos frutos da terra e das árvores. Nós os dispensamos, além disso, do imposto do direito de gabela e dos presentes que davam aos reis, sem que nada mais, por esse motivo, se exija deles para o futuro. Dai, pois, ordem para que o nosso desejo seja satisfeito e enviai uma cópia desta carta a Jônatas, para ser conservada num lugar muito digno do santo Templo&quot;.
514.  Demétrio, vendo-se em paz, julgou nada mais ter a recear. Licenciou as suas tropas, das quais antes havia diminuído o soldo, e conservou somente os estrangeiros por ele trazidos de Creta e das outras ilhas. Assim, ele atraiu a ira de seus próprios soldados, os quais os reis predecessores não trataram do mesmo modo, pagando-os mesmo em tempo de paz, a fim de que eles estivessem sempre prontos para servi-los com afeto quando deles tivessem necessidade na guerra.

CAPÍTULO 9
TRÍFON TENTA RESTABELECER ANTÍOCO, FILHO DE ALEXANDRE BALAS, NO
REINO DA SÍRIA.JÔNATAS CERCA A FORTALEZA DE JERUSALÉM E MANDA
SOCORRO AO REI DEMÉTRIO NICANOR, QUE POR ESSE MEIO REPELE OS
HABITANTES DE ANTIOQUIA, QUE O HAVIAM SITIADO EM SEU PALÁCIO. SUA
INGRATIDÃO PARA COM JÔNATAS. É VENCIDO PELO JOVEM ANTÍOCO E FOGE
PARA A CILÍCIA. GRANDES HONRAS PRESTADAS POR ANTÍOCO A JÔNATAS,
QUE O AJUDA CONTRA DEMÉTRIO. GLORIOSA VITÓRIA OBTIDA POR JÔNATAS
SOBRE O EXÉRCITO DE DEMÉTRIO. JÔNATAS RENOVA A ALIANÇA COM OS
ROMANOS E OS LACEDEMÔNIOS. SEITAS DOS FARISEUS, SADUCEUS E DOS
ESSÊNIOS. OUTRO EXÉRCITO DE DEMÉTRIO NÃO OUSA COMBATER JÔNATAS.
ESTE TENTA FORTIFICAR JERUSALÉM. DEMÉTRIO É VENCIDO E APRISIONADO
POR ÁRSACES, REI DOS PARTOS.

515.  Quando Diodoro, cognominado Trífon — que era de Apaméia e fora um dos chefes e comandantes do exército de Alexandre Balas — viu que os soldados de Demétrio Nicanor estavam indispostos contra ele, foi procurar um árabe de nome Male, que educava Antíoco, filho de Alexandre. Contou-lhe do descontentamento dos soldados de Demétrio e rogou que lhe entregasse o jovem príncipe, pois queria colocá-lo no trono de seu pai. O árabe, que não podia prestar fé a essas palavras, recusou-o de início, mas Trífon insistiu tanto que por fim ele se deixou vencer pelos pedidos.
516. jônatas, sumo sacerdote, persistia no seu intento de expulsar os macedônios da fortaleza de Jerusalém, os quais ainda faziam parte da guarni-ção, bem como aqueles judeus ímpios que nela se haviam refugiado. Ele queria também libertar todas as outras fortalezas da Judéia das guarnições que as ocupavam e então enviou embaixadores com presentes ao rei Demétrio para pedir-lhe permissão. O príncipe não somente consentiu como disse que faria ainda mais, tão logo se tivesse livrado da guerra que estava empreendendo e que o impedia de executar imediatamente o seu desejo. Enquanto isso, rogava a Jônatas que lhe mandasse auxílio, porque os seus soldados o haviam abandonado e passado para o lado dos inimigos. Jônatas enviou três mil soldados escolhidos.
Quando os antioquenses, que esperavam apenas o momento de matar Demétrio pelos grandes males que lhes causara e pelos ultrajes que haviam recebido do rei seu pai, viram o auxílio que ele recebia de Jônatas, o receio de que ele reunisse forças ainda maiores, caso não se antecipassem, levou-os a tomar as armas. Eles o sitiaram em seu palácio e apoderaram-se das ruas e avenidas, para impedi-lo de escapar. Demétrio tentou fugir com os soldados estrangeiros e com os judeus auxiliares, mas depois de um grande combate foi obrigado, devido ao número dos oponentes, a voltar para o palácio. Então os judeus, servindo-se da vantagem que tinham num lugar assaz elevado, lançaram-lhes dardos do alto das ameias, que os obrigaram a abandonar as casas vizinhas e incendiá-las, o que destruiu imediatamente toda a cidade, pois as casas estavam muito próximas umas das outras e eram feitas de madeira.
Os habitantes, não podendo resistir à violência do fogo, pensaram somente em salvar as suas mulheres e filhos. O rei, enquanto os judeus os perseguiam por um lado, atacou-os pelo outro, por diversos lugares. Vários foram mortos, e o resto foi obrigado a deixar as armas e se entregar. Ele perdoou-lhes a revolta, acalmou a sedição, deu aos judeus os despojos que haviam apanhado e enviou-os a Jerusalém, a Jônatas, com grandes elogios, dizendo que lhe devia a vitória alcançada sobre os seus súditos. Mas bem depressa mostrou também a sua ingratidão, pois, não se contentando em não cumprir o que prometera a Jônatas, ainda ameaçou fazer-lhe guerra, caso os judeus não lhe pagassem o mesmo tributo que pagavam ao seus predecessores
Essas ameaças teriam sido seguidas por fatos se Trífon não o tivesse obrigado a voltar as armas contra ele. Vindo da Arábia para a Síria com o jovem Antíoco, filho de Alexandre Balas, que fizera coroar rei, e com os soldados de Demetrio que não haviam mais recebido o seu soldo, os quais agora estavam unidos a ele, deu combate a Demetrio. Venceu-o, tomou-lhe os elefantes, apoderou-se de Antioquia e obrigou-o a fugir para a Cilícia.
517. O jovem Antioco enviou depois embaixadores a Jônatas, com cartas pelas quais o chamava de amigo e aliado, confirmando-o no cargo de sumo sacerdote e concedendo-lhe as quatro províncias que haviam sido unidas à judéia. Mandou-lhe também vasos de ouro, uma veste de púrpura, um broche de ouro com a autorização de usá-lo e afirmou que o considerava um de seus maiores amigos. Além disso, constituiu a Simão, irmão de Jônatas, general das tropas que ele mantinha desde Tiro até o Egito. Jônatas, cumulado de tantos favores e honras, enviou, por seu lado, embaixadores ao jovem príncipe e a Trífon para afirmar que jamais lhes faltaria à amizade e à fidelidade, e que se unia a eles para combater Demetrio, de quem tinha muitos motivos para se lamentar, pois este lhe pagara com ingratidão os auxílios dele recebidos.
Antioco permitiu-lhe em seguida recrutar soldados na Síria e na Fenícia, a fim de marchar contra as tropas de Demetrio, e ele foi logo às cidades vizinhas. Estas o receberam muito bem, mas não lhe deram soldados. Ele partiu para a Asquelom, cujos habitantes compareceram à sua presença com muitos presentes. Ele os exortou, como aos das outras cidades e da Baixa Síria, a abraçar, como ele havia feito, o partido de Antioco e abandonar o de Demetrio, para se vingarem das injúrias que dele tinham recebido. As razões de que se serviu foram tão poderosas que eles se deixaram persuadir e prometeram-lhe auxílio.
Dali ele partiu para Gaza, a fim de ganhar também os seus habitantes em favor de Antioco. Estes, porém, em vez de fazer o que ele desejava, fecharam-lhe as portas. Para vingar-se, ele devastou os campos, sitiou a cidade e, depois de deixar parte de suas tropas para continuar o assédio, foi com o resto incendiar as aldeias vizinhas. Os habitantes de Gaza, não podendo numa alternativa tão difícil esperar socorro de Demetrio, pois, ainda que ele estivesse em condições de atendê-los, a distância faria com que não o pudesse enviar imediatamente, foram então obrigados a ceder. Assim, enviaram embaixadores a Jônatas, contraíram aliança com ele e obrigaram-se a unir as suas armas naquela guerra. Esse exemplo nos faz ver que a maior parte dos homens não sabe o que lhes é útil, a não ser pela experiência dos males que sofrem, quando a prudência os deveria levar a preveni-los e a fazer voluntariamente o que não poderiam deixar de fazer, jônatas, depois de tomar dentre eles alguns reféns, os quais mandou a Jerusalém, visitou toda a província até Damasco.
518. Nesse entretempo, um grande exército reunido por Demétrio veio acampar próximo da cidade de Cedasa,* junto ao território de Tiro e da Galiléia, a fim de obrigar jônatas a deixar a Síria para socorrer a Galiléia, que era de seu governo. Com efeito, ele avançou imediatamente para aquele lado, mas deixou Simão, seu irmão, na Judéia. Este, com as tropas que pôde reunir, sitiou Bete-Zur, que é a praça mais forte da província e o lugar onde, como dissemos, Demétrio conservava uma guar-nição. Ele atacou com tanto vigor, fazendo funcionar tantas máquinas, que os sitiados, temendo ser vencidos e perder a vida, capitularam e se retiraram para Demétrio, depois de entregar a Simão aquela praça, e ele colocou ali a sua guarnição.
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* Ou Quedes.

519. jônatas, que estava na Galiléia, deixou as margens do lago de Genezaré e avançou para Azoto, onde julgava não encontrar os inimigos. Estes, porém, que desde o dia precedente tinham notícia de sua marcha, puseram soldados de emboscada no monte e avançaram contra ele na planície. Logo que os viu marchando, dispôs os seus homens em ordem de batalha, para iniciar o combate. Mas quando os judeus viram surgir os que estavam de emboscada, tiveram tanto medo de ser envolvidos ao mesmo tempo pela vanguarda e pela retaguarda que fugiram todos, exceto Matatias, filho de Absalão, Judas, filho de Capso, generais de Jônatas, e cinqüenta outros dos mais valentes, os quais, levados pelo desespero, atacaram os inimigos com tanta fúria e tão prodigioso valor que os assustaram. Os inimigos fugiram, e tão inesperado êxito fez voltar do susto os que haviam abandonado Jônatas. Ele os perseguiu até o seu acampamento, próximo de Cedasa, e dois mil deles foram mortos.
Jônatas, após obter, com o auxílio de Deus, tão gloriosa vitória, voltou a Jerusalém e enviou embaixadores a Roma para renovar a aliança com o povo romano, dando-lhes ainda o encargo de passar, no regresso, pela Lacedemônia e renovar também a aliança com eles e a recordação de sua consangüinidade. Esses embaixadores foram tão bem recebidos em Roma que não somente obtiveram tudo o que desejavam, mas também cartas dirigidas aos reis da Ásia, da Europa e aos governadores de todas as cidades, a fim de poderem voltar com toda segurança.
Quanto à Lacedemônia, a carta que lá apresentaram estava assim escrita:
&quot;jônatas, sumo sacerdote, o senado e o povo judeu, aos éforos, ao senado e ao povo da Lacedemônia, nossos irmãos, saudação. Há alguns anos, Demoteles entregou a Onias, então sumo sacerdote de nossa nação, uma carta de Ario, vosso rei, da qual vos mandamos uma cópia, pela qual vereis que nela se fazia menção do parentesco que há entre nós. Recebemos com alegria essa carta e a manifestação a Ario e a Demoteles, embora tal parentesco não nos fosse desconhecido, porque os nossos santos livros o dizem. O que nos impediu de vos falar disso foi que julgamos não dever desejar a vantagem de vos anteceder. E, desde o dia em que renovamos a nossa aliança, não deixamos de rogar a Deus, em nossos sacrifícios e nas festas solenes, que vos conserve e vos faça vitoriosos sobre os vossos inimigos. Embora a ambição desmesurada de nossos vizinhos nos tenha obrigado a sustentar grandes guerras, não quisemos depender de nossos aliados. E, após triunfarmos honrosamente em todas elas, enviamos aos romanos dois embaixadores, Numênio, filho de Antímaco, e Antípatro, filho de Jasão, ilustres senadores, e lhes ordenamos que vos entregassem esta carta, a fim de renovarmos a amizade e as boas relações entre nós. Dar-nos-ei um grande prazer fazendo-nos saber em que vos poderemos ser úteis, não havendo serviços que não estejamos prontos a vos prestar&quot;. Os lacedemônios receberam muito bem os embaixadores e deram-lhes uma demonstração pública da renovação de sua amizade e aliança.
520.  Havia então entre nós três seitas, divergentes nas questões relativas às ações humanas. A primeira era a dos fariseus; a segunda, a dos saduceus; a terceira, a dos essênios. Os fariseus atribuem certas coisas ao destino, porém nem todas, e crêem que as outras dependem de nossa liberdade, de sorte que podemos realizá-las ou não. Os essênios afirmam que tudo geralmente depende do destino e que nada nos acontece que ele não determine. Os saduceus, ao contrário, negam absolutamente o poder do destino, dizendo que ele é uma quimera e que as nossas ações dependem tão absolutamente de nós que somos os únicos autores de todos os bens e males que nos acontecem, conforme seguimos um bom ou um mau conselho. Mas tratei particularmente dessa matéria no segundo livro das Guerras dos (udeus.
521.  Os chefes do exército de Demétrio, querendo reparar a perda que haviam sofrido, reuniram grandes forças, maiores que as anteriores, para marchar contra Jônatas. Logo que ele soube disso, veio contra eles ao campo de Hamate, para impedir que entrassem na Judéia. Acampou a cinqüenta estádios deles e enviou exploradores até o seu acampamento. Depois de saber, pelas informações deles e de alguns prisioneiros, que eles os queriam surpreender, tomou providências imediatamente: colocou guardas e sentinelas avançadas e conservou o exército em armas durante toda a noite.
Quando os inimigos, que não se julgavam bastante fortes para combatê-lo em campo raso, viram que o seu intento fora descoberto, levantaram acampamento e acenderam uma grande quantidade de fogueiras, para cobrir a sua retirada. Jônatas partiu ao alvorecer, para atacá-los em seu acampamento, e, vendo que estava abandonado, perseguiu-os, mas em vão: eles já haviam passado o rio de Eleutério e estavam salvos. Voltou então à Arábia, devastou o país dos nabateenses, conquistou grandes despojos e levou uma grande quantidade de prisioneiros, os quais vendeu em Damasco.
522.  Nesse mesmo tempo, Simão, irmão de jônatas, percorreu toda a Judéia e a Palestina até Asquelom e colocou guarnições em todas as praças-fortes onde julgou conveniente. Depois de assim haver assegurado e fortificado o país, marchou para Jope, tomou-a e lá deixou uma forte guarnição, porque soubera que os seus habitantes queriam entregar a cidade a Demétrio.
523.  Os dois irmãos, depois de tantos feitos assinalados, voltaram a Jerusalém. Jônatas reuniu o povo e aconselhou-o a refazer os muros da cidade, a reconstruir os do Templo, que o rodeavam, acrescentando-lhes grandes torres, para torná-los ainda mais fortes, e também a fazer outro, no meio da cidade, a fim de cortar a entrada da guarnição da fortaleza e impedir-lhe assim o fornecimento de viveres. A isso ele acrescentou que era de opinião que se fortificasse e guarnecesse, mais do que já estavam, as praças mais fortes e importantes da província. Todas essas propostas foram aprovadas. Ele encarregou-se de fortificar a cidade, e Simão, seu irmão, de providenciar a fortificação das outras.
524.  O rei Demétrio, depois de passar o rio, foi para a Mesopotâmia, para dela se apoderar, e à Babilônia, para lá estabelecer a capital de seu império depois que as outras províncias lhe estivessem também sujeitas, pois os gregos e os macedônios, que as habitavam, enviavam-lhe continuamente embaixadores para garantir que se submeteriam a ele e o serviriam na guerra que fizesse a Arsaces, rei dos partos. Demétrio, iludido com tais esperanças, apressou-se em marchar para aquele país, julgando que se vencesse os partos seria fácil expulsar Trífon da Síria. Os povos dessas províncias receberam-no com alegria, e ele, depois de reunir um grande exército, fez guerra a Ársaces, mas este o derrotou completamente, e Demétrio caiu vivo em suas mãos, como dissemos alhures.
 

CAPÍTULO 10
TRÍFON, VENDO DEMÉTRIO DERROTADO, PENSA EM SE DESFAZER DE
ANTÍOCO, PARA REINAR EM SEU LUGAR, E EM ELIMINAR JÔNATAS.
ELE ENGANA JÔNATAS, MANDA ESTRANGULAR MIL DE SEUS HOMENS
EM PTOLEMAIDA E O CONSERVA PRISIONEIRO.

525. 1 Macabeus 13. Quando Trífon viu que Demétrio estava completamente perdido, esqueceu a fidelidade que devia a Antíoco e só pensou matá-lo, para reinar em seu lugar. Como não via outro obstáculo senão a amizade entre jônatas e Antíoco, resolveu começar por se desfazer deste e depois eliminar também o príncipe judeu. Com essa intenção, foi de Antioquia a Bete-Seã, que os gregos chamam Citópolis, e viu que Jônatas reunira quarenta mil homens escolhidos, para opor resistência a quem o quisesse atacar.
Trífon, não vendo outro meio de alcançar o seu objetivo, recorreu à astú-cia. Mandou presentes a jônatas e cumulou-o de gentilezas. Para desfazer qualquer desconfiança e eliminá-lo quando fosse possível, determinou que os oficiais de suas tropas obedecessem a Jônatas como a ele mesmo. Disse-lhes depois que, como tudo estava em paz e era inútil aquele grande número de soldados, ele o aconselhava a dispensá-los e a conservar somente uma pequena parte deles, para acompanhá-lo até Ptolemaida, que ele lhe queria entregar, bem como as outras praças-fortes do país, pois para esse fim viera procurá-lo.
Jônatas, pensando que Trífon lhe falava com sinceridade, dispensou todas as suas tropas, exceto três mil homens, dos quais deixou dois mil na Galiléia, e acompanhou Trífon a Ptolemaida com os mil que restavam. Quando chegaram à cidade, os habitantes, segundo ordem que haviam recebido de Trífon, fecharam as portas e estrangularam todos os soldados, exceto Jônatas, que ficou prisioneiro. Trífon enviou ao mesmo tempo uma parte de seu exército à Galiléia, a fim de eliminar também os dois mil soldados que lá haviam ficado. Estes, porém, sabendo o que havia acontecido a Jônatas, pelos boatos que se haviam espalhado, tomaram as armas e retiraram-se sem perda alguma, porque as tropas de Trífon os viram tão decididos a vender caro a própria vida que não ousaram atacá-los e retornaram sem lhes causar nenhum mal.
 

CAPÍTULO 11
OS JUDEUS ESCOLHEM SIMÃO MACABEU PARA SEU GENERAL, NO LUGAR DE JÔNATAS, SEU IRMÃO, PRISIONEIRO DE TRÍFON, O QUAL, APÓS RECEBER CEM
TALENTOS E DOIS DE SEUS FILHOS COMO REFÉNS PARA LIBERTÁ-LO, FALTA À
PALAVRA E O MANDA MATAR. SIMÃO ERGUE-LHE UM SOBERBO TÚMULO E É
CONSTITUÍDO PRÍNCIPE E SUMO SACERDOTE DOS JUDEUS. SEU ADMIRÁVEL
PROCEDER. ELE LIBERTA A NAÇÃO DA ESCRAVIDÃO DOS MACEDÔNIOS.
TOMA DE ASSALTO A FORTALEZA DE FERUSALÉM, ARRASANDO-A,
BEM COMO AO MONTE SOBRE O QUAL ESTAVA CONSTRUÍDA.

526. A notícia do que havia acontecido a Jônatas encheu de dor os habitantes de Jerusalém, tanto pelo afeto que lhe dedicavam quanto pelo temor de que as nações vizinhas, as quais eram contidas apenas pelo medo que tinham dele, vendo-os privados de seu auxílio e de tão sábio e generoso chefe, lhes viessem mover guerra no futuro e os reduzissem aos extremos. Ao que parece, eles não se enganavam, pois esses povos, mal souberam da notícia da morte de Jônatas, que se espalhara, declararam-lhes guerra. Trífon, por sua vez, reuniu um grande exército para também entrar na Judéia.
Simão, para dar coragem aos judeus, que via tão assustados, mandou reunir o povo no Templo e falou: &quot;Não ignorais, meus irmãos, a quantos e terríveis momentos meu pai, meus irmãos e eu nos vimos expostos para reconquistar e conservar a nossa liberdade. Assim, tendo na minha família exemplos que me obrigam a desprezar a morte para manter as leis e a religião de meus antepassados, perigo algum me impedirá de preferir a minha honra e o meu dever à minha vida. E agora, que já não vos falta um chefe zeloso de vosso bem e que nada há de difícil que ele não esteja pronto a empreender para consegui-lo, segui-me corajosamente aonde eu vos levar. Como não tenho maiores méritos que meus irmãos, não devo poupar a minha vida, assim como eles não pouparam a sua. Eu não poderia, sem faltar à coragem, deixar de seguir-lhes as pegadas, mas teria a glória de imitá-los, morrendo feliz pela defesa de nossa pátria, de nossas leis e de nossa religião. Espero que se conheça, pelos meus atos, que não sou um indigno irmão daqueles ilustres e generosos chefes, cuja feliz e sábia orientação nos levou a tantas e tão grandes vitórias. Vingar-vos-ei, com o auxílio de Deus, de vossos inimigos, defender-vos-ei, bem como às vossas mulheres e filhos, dos ultrajes que vos quiserem fazer e impedirei que a sua insolência venha a nos profanar o Templo, pois esses idolatras vos desprezam e vos atacam com tanta ousadia apenas porque imaginam que não tendes mais um chefe&quot;.
O povo, animado por essas palavras, retomou o ânimo e alimentou melhores esperanças. Clamaram todos a uma voz que o escolhiam para ocupar o lugar de judas e de Jônatas e que lhe obedeceriam com prazer. O novo general reuniu imediatamente todos os que ele julgava aptos para a guerra e não tardou em rodear Jerusalém com muralhas e com altas e fortes torres. Ele enviou o seu grande amigo Jônatas, filho de Absalão, a Jope, com muitas tropas e com ordem de expulsar de lá todos os seus habitantes, para que não entregassem a cidade a Trífon, e ficou em Jerusalém.
527.  Trífon partiu de Ptolemaida com um grande exército, para entrar na Judéia, e levou consigo Jônatas, seu prisioneiro. Simão, com as forças de que dispunha, foi contra ele, até a aldeia de Adida, situada sobre um monte, abaixo do qual estão os campos da Judéia. Logo que Trífon soube que Simão comandava o exército dos judeus, enviou alguns homens a ele, para enganá-lo também. Propôs-lhe que, se quisesse libertar o irmão, mandasse cem talentos de prata e também dois dos filhos de Jônatas, como reféns e como prova da palavra, que o pai deles lhe daria, de não afastar os judeus da sujeição ao rei. Acrescentou que conservaria Jônatas prisioneiro até que ele pagasse também ao príncipe uma soma que lhe devia.
Simão facilmente percebeu que a proposta era um ardil e que, ainda que lhe desse o que pedia e entregasse os filhos de seu irmão, ele não o libertaria. No entanto, temendo que o acusassem de sua morte, caso recusasse pagar, reuniu todo o exército e contou-lhes as exigências de Trífon, dizendo que não duvidava de que ele os queria enganar mais uma vez. Todavia era de opinião que se mandasse o dinheiro e esses dois filhos, antes de ser considerado suspeito de não ter querido salvar a vida de seu irmão. E assim, mandaram o dinheiro e os dois filhos. E Trífon faltou à palavra: não libertou Jônatas e ainda devastou os campos com o seu exército. Dirigiu-se depois para a Iduméia e chegou em Adora, que é uma cidade desse país, com intenção de avançar até Jerusalém. Simão seguiu-o de perto com as suas tropas e acampou diante dele.
528.  A guarnição da fortaleza de Jerusalém, nesse meio tempo, rogava com insistência a Trífon que viesse em seu auxílio e enviasse víveres imediatamente.
Ele mandou a cavalaria, que deveria chegar naquela mesma noite, mas isso não foi possível por causa da neve que caiu e cobriu as estradas, de modo que os homens e os animais não puderam passar.
529. Trífon foi à Baixa Síria e, atravessando o país de Galaade, mandou matar e enterrar Jônatas. Logo depois, voltou a Antioquia. Simão transportou os despo-jos do irmão da cidade de Basca a Modim, onde o sepultou. O povo sofreu imensamente a sua perda, e Simão mandou construir, tanto para seu pai quanto para sua mãe e seus irmãos, um soberbo túmulo de mármore branco e polido, tão alto que podia ser visto de longe. Ao redor dele, havia arcos em forma de pórtico, e cada uma das suas colunas era feita de um único bloco de pedra. Para indicar as sete pessoas da família, ele colocou sete pirâmides de grande altura e de maravilhosa beleza. Essa obra tão magnífica pode ser vista ainda hoje.
530. Com isso, pode-se imaginar o amor e a ternura que Simão nutria pelos parentes, particularmente por seu irmão Jônatas, que morreu quatro anos depois de ter sido elevado à honra e à dignidade de príncipe de sua nação e sumo sacerdote. O povo escolheu Simão de comum acordo para substituí-lo. Desde o primeiro ano, quando foi constituído nesses dois elevados cargos, ele libertou os judeus da escravidão dos macedônios, aos quais não pagavam mais os tributos, o que aconteceu cento e setenta anos depois que Seleuco, cognominado Nicanor, se apoderou da Síria.
Toda a nossa nação apreciou e admirou tanto a virtude de Simão, que não somente nos atos particulares, mas também nos públicos, se dizia: &quot;Feito no ano tal do governo de Simão, príncipe dos judeus, ao qual toda a sua nação tanto deve&quot;. Pois eles desfrutaram durante o seu governo toda espécie de prosperidade e obtiveram diversas vitórias sobre os povos vizinhos, que lhes eram contrários.
Essa grande personagem saqueou as cidades de Cazara, Jope e de Jamnia, tomou de assalto a fortaleza de Jerusalém, que arrasou até os alicerces, para impedir que os inimigos se pudessem servir dela para fazer ainda algum mal ao povo judeu. Mandou também arrasar o monte sobre o qual estava situada, a fim de que somente o Templo estivesse em lugar elevado. Para realizar tão grande obra, mandou reunir todo o povo e falou-lhe com tanta energia dos males que eles haviam sofrido das guarnições daquelas fortalezas e dos que poderiam ainda sofrer, se algum príncipe estrangeiro a reconstruísse, que todos resolveram iniciar esse tão grande trabalho. Empregaram nessa obra três anos, sem parar, nem de dia nem de noite, aplainaram todo o monte, e nada mais ficou de elevado ao redor do Templo.

CAPÍTULO 12
TRÍFON MATA ANTIOCO, FILHO DE ALEXANDRE BALAS, E É RECONHECIDO COMO REI. SEUS VÍCIOS TORNAM-NO TÃO ODIOSO AOS SOLDADOS QUE ELES
SE OFERECEM A CLEÓPATRA, VIÚVA DE DEMÉTRIO. ELA DESPOSA E FAZ
COROAR REI ANTIOCO SÓTER, IRMÃO DE DEMÉTRIO. TRÍFON É VENCIDO POR
ESTE E FOGE PARA ADORA E DE LÁ A APAMÉIA, ONDE ÉPRESO E MORTO.
ANTIOCO CONCEBE UMA GRANDE AMIZADE POR SIMÃO, SUMO SACERDOTE.

531. 7 Macabeus 15. Pouco tempo depois que o rei Demétrio Nicanor foi aprisionado pelos partos, Trífon, secretamente, mandou matar Antioco, filho do rei Alexandre Balas, cognominado Deus, do qual empreendia a educação havia quatro anos. Fez em seguida correr a notícia de que ele se matara, sem querer, nos exercícios de costume, e, por meio de seus amigos, pediu aos soldados que o escolhessem e o constituíssem rei, prometendo-lhes muito dinheiro e dizendo que, se Antioco, irmão de Demétrio, viesse a reinar, ele os castigaria severamente, por causa da revolta.
Essas esperanças e razões persuadiram-nos, e assim, reconheceram-no como rei. Quando ele se viu elevado a essa suprema dignidade, todavia, não se preocupou mais em dissimular as suas más inclinações, as quais ele procurara tanto esconder enquanto simples cidadão, a fim de conquistar as boas graças de todos. Mostrou que era realmente o que o seu nome significava, isto é, &quot;voluptuoso&quot; e dado a toda sorte de vícios. Essa mudança de proceder não foi pouco vantajosa a seus inimigos, pois os seus soldados sentiram tanto ódio contra ele que o abandonaram e foram se oferecer à rainha Cleópatra, viúva de Demétrio, que se havia retirado a Selêucia com os filhos.
Quando a princesa se viu fortalecida com essas tropas, mandou chamar Antioco, cognominado Sóter, isto é, &quot;religioso&quot;, irmão de Demétrio, o qual, com medo de Trífon, andava errante de cidade em cidade. Propôs desposá-lo e pôr-lhe a coroa sobre a cabeça. Diz-se que ela foi levada a isso por conselho de amigos e também pelo temor de que os habitantes de Selêucia abrissem as portas a Trífon. Antioco veio imediatamente encontrá-la. O número de suas tropas crescia cada vez mais, e assim ele marchou contra Trífon, combateu-o, venceu-o e o obrigou a abandonar a Síria. Ele fugiu para Adora, que é uma praça da Fenícia, muito fortificada. Antioco lá o sitiou, enquanto mandava convidar Simão, sumo sacerdote, para fazerem uma aliança. Ele aceitou de muito boa vontade e o ajudou com víveres e dinheiro a continuar o cerco. Antíoco ficou tão grato que o considerou durante algum tempo um de seus maiores amigos. Trífon fugiu de Adora para Apaméia, onde foi aprisionado e morto, após reinar três anos.

CAPÍTULO 13
INGRATIDÃO DE ANTÍOCO SÓTER PARA COM SIMÃO MACABEU.
ELES TRAVAM UMA GUERRA. SIMÃO LEVA VANTAGEM E RENOVA
A ALIANÇA COM OS ROMANOS.

532.  Antíoco, que era naturalmente muito avarento, esqueceu-se bem depressa do auxílio que recebera de Simão, e enviou Cendebeu com o seu exército para agarrá-lo e devastar a Judéia. O sumo sacerdote ficou tão sentido com tal perfídia, que, embora fosse bastante idoso, mostrou nessa ocasião o vigor de um jovem. Mandou seus filhos com suas melhores tropas contra os inimigos, seguiu-os por outro caminho com o restante e colocou muitos soldados de emboscada em diversos lugares, nos montes. Isso deu ótimos resultados, tanto que ele não teve necessidade de travar uma batalha nessa guerra, na qual também sempre levou vantagem. E assim, passou o resto de sua vida em paz, após renovar a aliança com os romanos.

CAPÍTULO 14
SIMÃO MACABEU, PRÍNCIPE DOS JUDEUS E SUMO SACERDOTE,
É MORTO À TRAIÇÃO POR PTOLOMEU, SEU GENRO, QUE APRISIONA
A VIÚVA E DOIS DE SEUS FILHOS.

533.  1 Macabeus 16. Esse grande homem, após comandar por oito anos os judeus, foi morto à traição num banquete por Ptolomeu, seu genro, que ao mesmo tempo aprisionou a viúva e dois de seus filhos e mandou matar o terceiro, de nome João, cognominado Hircano. Mas este foi avisado a tempo e fugiu para Jerusalém, confiando no afeto que o povo nutria por seu pai, ao qual era devedor de tantos benefícios, e ao ódio que tinham por Ptolomeu. Ao que parece, ele tinha razão, pois Ptolomeu quis entrar por outra porta, mas foi repelido pelo povo, que já havia recebido Hircano.

CAPÍTULO 15
HIRCANO, FILHO DE SIMÃO, CERCA PTOLOMEU NO CASTELO DE DAGOM.
O AMOR PELA MÃE E PELOS IRMÃOS, QUE PTOLOMEU AMEAÇA MATAR,
IMPEDE-O DE TOMAR A PRAÇA. PTOLOMEU MATA-OS QUANDO ELE
LEVANTA O CERCO.
1
534. 1 Macabeus 16. Ptolomeu, não havendo conseguido o que desejava, retirou-se para a fortaleza de Dagom, que está acima de Jerico. Hircano, após ser elevado ao cargo de sumo sacerdote, que seu pai deixara vago ao morrer, e depois de oferecer sacrifícios a Deus, perseguiu-o com um grande exército e o sitiou. Todavia, embora sendo mais forte que o seu inimigo em tudo o mais, deixou-se vencer pelo amor à mãe e aos irmãos, pois Ptolomeu levou-os à muralha e os mandou açoitar à vista de todos, com a ameaça de os lançar abaixo se ele não levantasse o cerco.
Hircano ficou imensamente aflito, e o desejo de poupar sangue e tormentos a pessoas tão queridas enfraqueceu sua coragem. Sua mãe, ao contrário, fazia-lhe sinais com a mão para que continuasse o cerco com maior coragem e exortava-o a não se deixar vencer pela fraqueza, mas seguir o movimento de sua justa cólera, a fim de vingá-los daquele detestável inimigo e fazê-lo sofrer o merecido castigo pela sua horrível crueldade. Quanto a ela, morreria com prazer em meio a tormentos, contanto que um homem tão mau recebesse um castigo proporcional aos seus crimes. Essas palavras animaram Hircano a novos esforços para tomar o castelo. Mas, quando via que se descarregavam novos golpes sobre sua mãe, o ardor arrefecia, e a cólera cedia ao seu extremo afeto por ela.
Assim, o cerco prolongou-se, e chegou o sétimo ano, que é um ano de descanso para os judeus, o qual veio a livrar Ptolomeu da vingança de Hircano. O traidor, livre do medo, matou a mãe e os dois irmãos de Hircano e fugiu para junto de Zemom, cognominado Cotilã, que havia usurpado o governo na cidade de Filadélfia.

CAPÍTULO 16
O REI ANTÍOCO SÓTER SITIA HIRCANO NA FORTALEZA DE JERUSALÉM E EM
SEGUIDA LEVANTA O CERCO, DEPOIS DE UM TRATADO. HIRCANO
ACOMPANHA-O NUMA GUERRA CONTRA OS PARTOS, ONDE ANTÍOCO É
MORTO, E DEMÉTRIO, SEU FILHO, QUE ÁRSACES, REI DOS PARTOS, HAVIA
POSTO EM LIBERDADE, APODERA-SE DO REINO DA SÍRIA.

535. Antíoco Sóter, que conservava ainda ressentimento pelas vantagens que Simão, pai de Hircano, obtivera sobre ele, atacou a Judéia no quarto ano de seu reinado, que era o primeiro do principado de Hircano e a centésima septuagési-ma segunda Olimpíada. Após devastar os campos e obrigar Hircano a se retirar para Jerusalém, ele a sitiou, dividindo o exército em sete corpos, a fim de cercar toda a praça. Ficou algum tempo sem poder avançar, por causa das muralhas e do valor dos sitiados, e pela falta de água, que uma grande chuva remediou. Mandou depois construir, do lado do norte, que era de acesso mais fácil que o resto, cem torres de três andares, sobre as quais colocou muitos soldados a martelar constantemente as muralhas. A isso acrescentou uma dupla circunvalação, muito grande e larga, para tirar aos judeus toda espécie de comunicação de dentro para fora.
Os sitiados, por seu lado, faziam muitas arremetidas, com grandes perdas para os que os cercavam, sempre que os encontravam desprevenidos. E, quando se viam em perigo, fugiam apressadamente para a cidade. Hircano, vendo que uma grande quantidade de pessoas ociosas ocupava a praça e consumia inutilmente boa parte dos víveres, obrigou-as a sair, conservando apenas os que, pela sua força e vigor, eram aptos para a guerra. Mas Antíoco os impediu de alcançar os campos, e assim eles ficaram errantes dentro do recinto dos muros da cidade, onde a fome assolava miseravelmente.
A festa dos Tabernáculos chegou, e os sitiados, compadecidos da sorte de seus companheiros, fizeram-nos voltar para dentro da cidade. O sumo sacerdote Hircano rogou ao rei uma trégua de sete dias, para dar-lhes ocasião de celebrar aquela data, que era uma de suas grandes festas. O príncipe não somente consentiu, mas, levado por um sentimento de piedade, mandou-lhe liberalmente e com magnificência touros para sacrificar, os quais tinham os chifres dourados, e vasos de ouro e de prata cheios de toda espécie de perfumes preciosos. Isso foi recebido às portas e levado ao Templo. O rei mandou também viveres para os soldados, mostrando que não se parecia com Antioco Epifânio, o qual, após tomar cidade, mandara imolar porcos sobre o altar, poluindo o Templo com o sangue deles e violando as leis dos judeus, que por tal desprezo à sua religião conceberam um ódio irreconciliável contra ele. Esse outro Antioco, porém, foi cognominado Religioso por deliberação unânime, devido à sua extrema piedade.
Hircano ficou tão comovido pela sua virtude e humanidade que enviou embaixadores a ele para pedir-lhe que permitisse aos judeus viver segundo as leis de seu país. O sábio príncipe rejeitou o conselho daqueles que lhe insinuavam o extermínio de nossa nação, cujos costumes e maneira de viver eram inteiramente diferentes dos de outros povos. Ele julgou, ao contrário, que a devia tratar com toda a bondade. Respondeu então aos embaixadores que concederia a paz, contanto que lhe entregassem as armas, cedessem os tributos de Jope e das outras cidades que estavam fora da Judéia e recebessem uma guarnição. Os judeus aceitaram as condições, exceto a guarnição, porque não queriam misturar-se com nações estrangeiras. E, para se isentarem disso, entregaram reféns e quinhentos talentos de prata, dos quais trezentos foram pagos em moedas, e o irmão de Hircano foi um dos reféns. Abateram-se em seguida as ameias das muralhas da cidade, e o cerco terminou.
536.Hircano mandou abrir o sepulcro de Davi, que fora o mais rico de todos os reis, e de lá se retiraram três mil talentos. O sumo sacerdote foi o primeiro de todos os judeus a manter soldados estrangeiros. Fez depois uma aliança com Antioco, recebeu-o na cidade com todo o seu exército e marchou com ele contra os partos. O historiador Nicolau de Damasco presta testemunho do que acabo de narrar, com estas palavras: &quot;O rei Antioco, depois de ter feito erguer um arco de triunfo à beira do rei Lico, por causa da vitória que obtivera sobre Indato, general do exército dos partos, ficou dois dias, a rogo de Hircano, judeu, por causa de uma festa dessa nação, durante a qual as suas leis não lhes permitem pôr-se em campo&quot;. Nisso esse historiador diz a verdade, pois a festa de Pentecostes estava para chegar, depois do sábado, e então não nos é permitido iniciar qualquer caminhada.
Antioco deu combate a Ársaces, rei dos partos, e foi vencido, perdendo a batalha e a vida. Demétrio, seu irmão, que Ársaces havia posto em liberdade assim que Antioco entrou em suas terras, apoderou-se do reino da Síria, como já dissemos em outro lugar.

CAPÍTULO 17
HIRCANO, DEPOIS DA MORTE DO REIANTÍOCO, RETOMA VÁRIAS PRAÇAS NA
SÍRIA E RENOVA A ALIANÇA COM OS ROMANOS. O REI DEMÉTRIO É VENCIDO
POR ALEXANDRE ZEBIM, QUE ERA DA FAMÍLIA DO REI SELEUCO. PRESO EM TIRO,
MORRE MISERAVELMENTE. ANTÍOCO DE CÍZICO, FILHO DE ANTÍOCO SÓTER,FAZ
GUERRA A SEU IRMÃO ANTÍOCO GRIPO. HIRCANO DESFRUTA PAZ NA JUDÉIA.

537.  Logo que Hircano soube da morte do rei Antíoco, marchou com o seu exército para as cidades da Síria, esperando encontrá-las desarmadas e sem soldados. Apoderou-se de Medeba, depois de um cerco de seis meses, tomou Samega, as aldeias vizinhas, Siquém e Gerizim. Subjugou também os chuteenses que moravam no templo construído à imitação do de Jerusalém com a permissão que Alexandre, o Grande, dera a Sambalate, governador de Samaria, em favor de Manasses, seu genro, irmão de Jado, sumo sacerdote, como dissemos há pouco. A destruição desse templo deu-se duzentos anos após ele ter sido edificado.
538.  Hircano tomou ainda aos idumeus as cidades de Adora e Maressa e, depois de subjugar toda essa grande província, permitiu-lhes lá ficar, contanto que se fizessem circuncidar e adotassem a religião e as leis dos judeus. O temor de serem expulsos de seu país levou-os a aceitar essas condições, e desde então eles foram para sempre considerados judeus.
539.  Hircano enviou em seguida embaixadores a Roma para renovar a aliança, e o senado, depois de ler as suas cartas, mostrou-se favorável. A ata foi redigida desta maneira: &quot;No dia doze de fevereiro, o pretor Fânio, filho de Marco, fez reunir o senado no campo, na presença de Lúcio Maneio, filho de Lúcio Mentina, e de Caio Semprônio, filho de Caio Falerma, para deliberar a respeito do que Simão, filho de Ofiteu, Apolônio, filho de Alexandre, e Diodoro, filho de Jasão, embaixadores dos judeus, pessoas de virtude e de mérito, vinham pedir em nome de sua nação, isto é, a renovação da aliança com o povo romano; que, em conseqüência desse tratado, lhes sejam entregues as cidades de Jope, Gazara, as fontes e as outras cidades usurpadas pelo rei Antíoco com desprezo à determinação do senado; que se proíbam aos soldados dos reis passar às terras dos judeus e às de seus súditos; que tudo o que foi tentado na última guerra pelo mesmo Antíoco seja declarado nulo; e que o senado lhe envie embaixadores para obrigá-lo a entregar o que ele usurpou e a ressarcir os judeus dos prejuízos que causou ao seu país. Esses embaixadores também rogam que se lhes dêem cartas de recomendação endereçadas aos reis e aos povos livres, a fim de poderem voltar com toda segurança. Esse assunto foi posto à deliberação do senado, e este determinou que se renovasse o tratado de amizade e de aliança com esses embaixadores, homens de bem, enviados por um povo tão amigo dos romanos e tão fiel às suas promessas&quot;.
Quanto ao que se referia às cartas, o senado respondeu que logo que tivesse resolvido alguns negócios urgentes procuraria, no futuro, fazer com que se impedisse qualquer mal aos judeus. Ordenou-se ao pretor Fânio que lhes entregasse determinada soma do dinheiro público, a fim de que pudessem mais comodamente regressar ao seu país, e cartas de recomendação para os lugares por onde deveriam passar, bem como o decreto do senado, para servir-lhes de garantia.
540.  No entanto Demétrio desejava ardentemente fazer guerra a Hircano, mas não o pôde porque a sua maldade o tornava tão odioso aos sírios e aos seus próprios soldados que estes, não podendo mais tolerá-lo, mandaram pedir a Ptolomeu, cognominado Físcon, rei do Egito, que lhes enviasse alguém da família de Seleuco, para que o fizessem rei. Ele mandou-lhes Alexandre, cognominado Zebim, com um exército, e travaram batalha. Demétrio foi vencido e quis fugir para Ptolemaida, onde estava a rainha Cleópatra, sua mulher, mas ela fechou-lhe as portas. Ele foi para Tiro, onde caiu prisioneiro e morreu miseravelmente, depois de haver sofrido muito.
541.  Alexandre Zebim, ao se tornar senhor do reino da Síria, fez aliança com o sumo sacerdote Hircano. Mas algum tempo depois foi vencido e morto numa batalha por Antíoco, cognominado Gripo, filho de Demétrio. Este, vendo-se de posse do reino da Síria, desejou muito fazer guerra aos judeus. Não ousou, porém, empreendê-la, por causa da notícia que recebeu de que seu irmão por parte de mãe, de nome Antíoco, como ele, cognominado Cizicênio, reunia em Cízico, onde fora educado, grandes forças para atacá-lo.
Esse outro Antíoco era filho de Antíoco Sóter, o Religioso, o qual fora morto pelos partos. Cleópatra, como vimos, desposara os dois irmãos. Ele entrou na Síria, e se travaram vários combates. No entanto Hircano, que logo depois da morte de Antíoco Sóter sacudira o jugo dos macedônios e não lhes dava mais nenhum auxílio, nem como súdito nem como amigo, viu-se em franco progresso durante o reinado de Alexandre Zebim e ainda mais durante o dos dois irmãos, porque, vendo que ambos se enfraqueciam pelas contínuas guerras e que Antíoco não recebia auxílio do Egito, não lhes dava importância e usufruía pacificamente todos os tributos da Judéia, economizando assim muito dinheiro.

CAPÍTULO 18
HIRCANO TOMA SAMARIA E A DESTRÓI INTEIRAMENTE. COMO ESSE SUMO
SACERDOTE ERA FAVORECIDO POR DEUS. ELE DEIXA A SEITA DOS FARISEUS E
ABRAÇA A DOS SADUCEUS. SUA MORTE.

542. Quando Hircano se viu tão poderoso, resolveu sitiar Samaria, então chamada Sebaste. Diremos a seu tempo de que modo ela foi depois reconstruída por Herodes. Nada se poderia acrescentar ao vigor com que ele apertava o cerco, tanto estava irritado contra os samaritanos por causa dos maus-tratos que haviam infligido aos mariceenses, os quais, embora súditos do rei da Síria, moravam na Judéia e eram aliados dos judeus. Depois de rodear a cidade como uma dupla circunvalação, cuja extensão era de oitenta estádios, entregou a direção dos trabalhos a Aristóbulo e a Antígono, seus filhos.
Eles de tal modo assediaram a praça que os samaritanos ficaram reduzidos a uma grande carestia, de forma que, para sustentar a vida, tinham de recorrer a coisas que os homens não estão acostumados a comer. Em tal aperto, imploraram o socorro de Antíoco Cizicênio, e ele veio imediatamente, porém as tropas de Aristóbulo o venceram. Ele e o irmão perseguiram-no até Citópolis. Voltaram depois ao assédio e de tal modo oprimiram os samaritanos que eles se viram obrigados a pedir uma segunda vez o auxílio de Antíoco.
Antíoco obteve de Ptolomeu, cognominado Latur, mais ou menos seis mil soldados e, contra a opinião e ordem de sua mãe, que o queria dissuadir desse intento, foi com esses egípcios devastar a região sujeita a Hircano sem, porém, ousar combater, pois se sentia muito fraco, mas se iludia com a esperança de que Hircano, para impedir o saque, abandonaria o assédio. No entanto, depois de perder vários dos seus, devido às emboscadas que os judeus lhe armaram, retirou-se para Trípoli e deixou o encargo da guerra a Calimandro e a Epícrates. O primeiro travou temerari-amente um combate e foi derrotado e morto. Epícrates deixou-se corromper pelo dinheiro e entregou Citópolis e outras praças aos judeus, sem prestar auxílio algum aos samaritanos. Assim, Hircano, após um ano de sítio, tomou a cidade e, não se contentando em se tornar senhor dela, destruiu-a completamente, fazendo passar por ela várias torrentes, de modo que ela perdeu todo e qualquer aspecto de cidade.
Dizem-se coisas incríveis desse sumo sacerdote. Afirma-se que o próprio Deus lhe falava e que, estando sozinho no Templo, onde oferecia incenso, no mesmo dia em que os filhos se empenhavam numa batalha contra Antíoco Cizicênio, ele ouviu uma voz dizer-lhe que seria vitorioso. Saiu imediatamente para dar essa grande notícia ao povo, e os fatos provaram que aquela revelação era verdadeira.
543.  Todavia, não era somente em Jerusalém, na Judéia, que os judeus estavam em franco progresso. Eles também eram poderosos em Alexandria, no Egito, e na ilha de Chipre. A rainha Cleopatra, estando incompatibilizada com Ptoiomeu Latur, deu o comando de seu exército a Chelcias e a Ananias, filho de Onias que, como vimos, construiu no território de Heliópolis um templo semelhante ao de Jerusalém. A princesa nada fazia sem o conselho deles, como refere Estrabão da Capadócia, com estas palavras: &quot;Vários daqueles que tinham vindo conosco a Chipre e dos que para lá foram enviados depois pela rainha Cleopatra abandonaram o seu partido para seguir o de Ptoiomeu. Somente os judeus, que conservam o afeto a Onias, mantiveram-se fiéis à princesa, por causa da confiança que ela depositava em Chelcias e em Ananias, seus compatriotas&quot;.
544. A felicidade de Hircano despertou a inveja dos judeus, particularmente entre os que pertenciam à seita dos fariseus, de que falamos há pouco, os quais desfrutam tal prestígio perante o povo, que este acolhe os seus sentimentos, ainda que contrários aos dos reis e dos sumo sacerdotes. Hircano, que fora um discípulo muito amado por eles, deu-lhes um grande banquete. Quando viu que todos estavam bem alegres, disse-lhes que, conhecendo os sentimentos dele, sabiam que não tinha maior desejo que não fosse trilhar sempre o caminho da justiça e nada fazer que fosse desagradável a Deus, e por isso estavam obrigados a avisá-lo quando julgassem que ele falhava em alguma coisa, a fim de corrigi-lo.
Os convidados, por esse motivo, elogiaram-no muito, e ele com isso mostrou-se bastante satisfeito. Porém um deles, de nome Eleazar, homem muito mau, tomou a palavra e disse: &quot;Se desejais, como dizeis, que vos falemos com franqueza e segundo a verdade, dai-nos uma prova de vossa virtude, renunciando o sumo sacerdócio e contentando-vos em ser apenas príncipe do povo&quot;. Hircano perguntou-lhe o que o levava a fazer tal proposta, e ele respondeu: &quot;É porque soubemos de nossos antepassados que a vossa mãe foi escrava durante o reinado do rei Antíoco Epifânio&quot;. Como esse boato era falso, Hircano ficou muito ofendido com tais palavras, e os outros fariseus mostraram-se também tão ultrajados quanto ele.
Então Jônatas, o mais íntimo dos amigos de Hircano, que era da seita dos saduceus, inteiramente contrária à dos fariseus, disse-lhe saber que fora com o consentimento deles que Eleazar lhe fizera tão grande ultraje e que era fácil descobri-lo: perguntando-lhes como ele devia ser castigado. Hircano perguntou em seguida qual era a opinião deles, e, como não são muito severos no castigo dos crimes, responderam que ele merecia apenas a prisão e o azorrague, pois achavam que só a maledicência torna um homem réu de morte. Essa resposta deu a entender a Hircano que eles mesmos haviam induzido Eleazar àquela grande injúria. Ele ficou muito irritado, e Jônatas aumentou-lhe a irritação, de modo que ele não somente renunciou à seita dos fariseus, para abraçar a dos saduceus, como aboliu todos os seus estatutos e mandou castigar os que continuavam a observá-los. Isso tornou ele e os filhos odiosos a todo o povo, como veremos a seu tempo.
Contentar-me-ei agora em dizer que os fariseus, que receberam essas constituições pela tradição de seus antepassados, as ensinaram ao povo. Os saduceus, porém, as rejeitavam, porque elas não estão compreendidas entre as leis dadas por Moisés, que estes afirmam serem as únicas que são obrigados a observar. Isso fez surgir entre eles uma grande divergência, que deu origem a diversos partidos. As pessoas de classe mais elevada abraçaram o dos saduceus, e o povo alinhou-se com os fariseus. Mas já falamos amplamente, no segundo livro da Guerra dos Judeus, sobre essas duas seitas e sobre uma terceira, que é a dos essênios.
545. Hircano, depois de pacificar todas as divergências e conservar o poder e o principado entre os judeus durante trinta e um anos, bem como o sumo sacerdócio, terminou honrosamente a sua vida. Ele deixou cinco filhos. Deus julgou-o digno de desfrutar três maravilhosas honras, a saber: o principado de sua nação, o sumo sacerdócio e o dom da profecia. Pois Deus mesmo se dignava falar-lhe e dava-lhe tal conhecimento das coisas futuras que ele predisse que seus filhos mais velhos não usufruiriam por muito tempo a autoridade que lhes deixava. Isso nos obriga a relatar o seu fim, para melhor conhecermos a graça que Deus lhe havia concedido de penetrar as coisas futuras.


CAPÍTULO 19
ARISTÓBULO, FILHO MAIS VELHO DE HIRCANO, PRÍNCIPE DOS JUDEUS, FAZ-SE
COROAR REI. ASSOCIA O SEU IRMÃO ANTTGONO À COROA, PÕE OS OUTROS NA
PRISÃO E TAMBÉM A SUA MÃE, A QUAL FAZ MORRER DE FOME.
DESCONFIA DE ANTTGONO, MANDA MATÁ-LO E MORRE DE TRISTEZA.

546. Aristóbulo, que era o mais velho dos filhos de Hircano, cognominado Filelés, isto é, &quot;amigo dos gregos&quot;, mudou em reino, após a morte de seu pai, o principado dos judeus e foi assim o primeiro que se fez coroar rei. Isso aconteceu quatrocentos e oitenta e um anos depois da volta dos judeus libertados do cativeiro da Babilônia ao seu país. Como estimava muito Antígono, o segundo dos irmãos, chamou-o à coroa, associando-o no governo, e mandou colocar na prisão os outros três. Mandou também lá encerrar a própria mãe, porque ela também queria reinar e porque Hircano, ao morrer, colocara o governo nas mãos dela. Sua horrível crueldade chegou a tal excesso que ele a deixou morrer de fome na prisão. A esse crime acrescentou o de mandar matar o seu irmão Antígono, que ele demonstrara amar tanto. Calúnias foram a causa disso, embora de início ele as tenha rejeitado, em parte pelo afeto que lhe nutria e parte por estar persuadido de que haviam sido maliciosamente inventadas. Esse crime tão deplorável aconteceu assim:
Estava ele enfermo, e Antígono voltou da guerra com grande aparato, quando se celebrava a festa dos Tabernáculos. Nessa ocasião, Antígono subiu ao Templo acompanhado de alguns homens armados, sem outra intenção além de fazer orações a Deus pela saúde do rei seu irmão. Maus Espíritos, porém, serviram-se dessa oportunidade, dos felizes resultados de Antígono na guerra e de ter ele se apresentado no Templo com tanto aparato, para colocar divisão entre os irmãos. Disseram maliciosamente a Aristóbulo que Antígono, tendo se apresentado naquela circunstância com tal aparato, durante uma festa tão solene, bem mostrava aspirar ao trono e que voltaria bem depressa com um grande número de soldados para matá-lo, porque estava persuadido de que, podendo tornar-se senhor de todo o reino, seria tolice contentar-se apenas com uma parte.
Aristóbulo, que naquele instante estava numa torre (que depois foi chamada Antônia), não quis acreditar nessas palavras. No entanto, para garantir a própria vida sem condenar o irmão, mandou esconder alguns guardas num lugar escuro e subterrâneo, com ordem de não fazerem mal a Antígono se ele viesse desarmado e de matá-lo se viesse armado. Mandou em seguida dizer-lhe para que viesse falar-lhe sem armas. Porém, a rainha e os outros inimigos de Antígono apanharam esse emissário e obrigaram-no a dizer que o rei, tendo sabido que ele tinha armas muito belas, pedia-lhe que fosse como estava, para lhe dar o prazer de mostrá-las. O príncipe, que de nada desconfiava e se fiava no afeto do rei seu irmão, veio armado como estava. E, quando chegou à torre de Estratão, onde a passagem era escura, os guardas do rei o mataram.
Essa morte tão trágica mostra de que é capaz a inveja e o que pode a calúnia: elas são tão fortes que abafam os sentimentos mais ternos de amizade natural. Não é, pois, de admirar que um certo Judas, essênio de nascimento, cujas predi-ções jamais deixavam de ser verdadeiras, tendo visto Antígono subir ao Templo, disse aos discípulos e amigos que costumavam segui-lo para verificarem os efeitos daquela ciência que o fazia penetrar o futuro e que ele quisera estar morto, porque a vida de Antígono faria conhecer a superfluidade de suas predições, pois afirmara que ele morreria naquele mesmo dia, na torre de Estratão, o que era impossível, porque ela distava de Jerusalém uns seiscentos estádios, e a maior parte do dia já se havia passado. Quando ele assim falava, vieram dizer-lhe que Antígono fora morto num lugar subterrâneo com esse mesmo nome, Estratão, que tem uma torre à beira mar (chamada depois Cesareia). Essa semelhança de nomes havia sido a causa de sua confusão e inquietação.
547. Aristóbulo não tardou a se arrepender de haver tirado a vida a seu irmão, o que aumentava ainda mais a sua enfermidade. Recriminava-se continuamente por ter cometido tão horrível crime, e seu sofrimento foi tanto que ele vomitou grande quantidade de sangue. Quando um de seus servidores levava esse sangue, aconteceu que ele o deixou cair, creio eu por permissão divina, e parte dele derramou-se no mesmo lugar onde ainda se viam vestígios do sangue de Antígono, irmão do rei. Os que o viram, julgando que ele o fazia de propósito, soltaram um grande grito, que foi ouvido pelo rei.
Ele perguntou o motivo, mas ninguém ousava dizer-lhe. O rei, porém, insistia cada vez mais, porque os homens naturalmente ficam suspeitosos quando se lhes procuram ocultar alguma coisa e passam a imaginá-la muito pior do que é na realidade. Assim, Aristóbulo, por meio de ameaças, obrigou-os a dizer a verdade, a qual fez sobre o seu Espírito tão forte impressão que ele disse, após derramar muitas lágrimas, soltando um profundo suspiro: &quot;Bem parece que não se pode ocultar aos olhos de Deus uma ação tão detestável, pois Ele descarregou depressa sobre mim a sua justa vingança. Até quando este meu miserável corpo reterá a minha alma criminosa? Não é preferível morrer de uma vez que derramar o meu sangue gota a gota, como um sacrifício de expiação à memória daqueles aos quais fiz tão cruelmente perder a vida?&quot;
Dizendo essas palavras, ele morreu, após reinar somente um ano. Seu país foi-lhe devedor de muitos benefícios, porque ele declarou guerra aos idumeus, conquistou grande parte do território deles, que anexou à Judéia, e obrigou os seus habitantes a receber a circuncisão e a viver segundo as nossas leis. Era de natureza doce e muito modesto, como refere Estrabão, com estas palavras, ante a relação de Timagenes: &quot;Esse príncipe era muito afável, e os judeus não lhe são devedores de pouco, porque ele levou bem longe os limites de seu país, que aumentou com uma parte da Ituréia e uniu esse povo a eles pelo laço da circuncisão&quot;.

CAPÍTULO 20
SALOMÉ, ANTES CHAMADA ALEXANDRA, VIÚVA DO REI ARISTÓBULO, TIRA JANEU, COGNOMINADO ALEXANDRE E IRMÃO DESSE PRÍNCIPE, DA PRISÃO E O CONSTITUI REI. ELE MANDA MATAR UM DE SEUS IRMÃOS E CERCA PTOLEMAIDA.
O REI PTOLOMEU LATUR, QUE HAVIA SIDO EXPULSO DO EGITO PELA RAINHA
CLEÓPATRA, SUA MÃE, VEM DE CHIPRE PARA SOCORRER PTOLEMAIDA, QUE SE
RECUSA A RECEBÊ-LO. ALEXANDRE LEVANTA O CERCO E TRATA PUBLICAMENTE
COM PTOLOMEU E SECRETAMENTE COM A RAINHA CLEÓPATRA.

548.  Depois da morte do rei Aristóbulo, a rainha Salomé, sua esposa, que os gregos chamam Alexandra, pôs em liberdade os irmãos desse príncipe, que ele mantinha na prisão, como vimos, e fez rei Janeu, antes chamado Alexandre, que era o mais velho e o mais moderado de todos. Ele havia sido tão infeliz que Hircano, seu pai, sentiu aversão por ele já logo após o nascimento. Esse sentimento era tão forte que até morrer Hircano jamais consentiu que ele comparecesse à sua presença. Penso dever dizer a causa disso.
Hircano, que amava muito Aristóbulo e Antígono, os dois mais velhos de seus filhos, perguntou a Deus, que lhe havia aparecido em sonhos, qual deles deveria sucedê-lo no trono, e Deus revelou-lhe, mostrando Alexandre, que este deveria reinar. O desprazer que ele então concebeu levou-o a mandar educá-lo na Galiléia. Mas o que Deus havia predito não deixou de acontecer, pois ele foi elevado ao trono depois da morte de Aristóbulo. Mandou em seguida matar um de seus irmãos, que quis fazer-se rei, e tratou muito bem ao outro, que se contentou em levar vida privada.
549.  Depois de colocar em ordem os negócios do Estado, Alexandre marchou com um exército contra os de Ptolemaida e, depois de vencê-los num grande combate, obrigou-os a se encerrar na sua cidade, onde os sitiou. De todas as cidades marítimas, Gaza era a única que ele ainda não havia tomado, e para isso era necessário subjugar Zoilo, que se apoderara de Adora e da torre de Estratão. Os habitantes de Ptolemaida não podiam esperar auxílio do rei Antíoco nem de Antíoco Cízico, seu irmão, pois eles tinham empenhadas todas as suas forças em outra guerra.
Zoilo, porém, que esperava aproveitar-se da divisão entre esses príncipes para ocupar Ptolemaida, para lá enviou algum auxílio enquanto os dois reis tão pouco se importavam em ajudá-la, pois estavam tão irritados um contra o outro que não se incomodavam com mais nada, semelhante aos atletas que, embora cansados de combater, têm vergonha de se confessar vencidos e não cedem ao competidor, mas depois de recobrarem um pouco de alento recomeçam o combate. Assim, o único recurso que restava aos sitiados era pedir socorro ao Egito, principalmente a Ptolomeu Latur, que havia sido expulso do reino pela rainha Cleopatra, sua mãe, e se retirado para a ilha de Chipre. Mandaram então pedir-lhe que os livrasse do perigo em que se encontravam, dando-lhe a entender que logo que viesse para a Síria, os de Gaza, Zoilo, os sidônios e vários outros passariam imediatamente para o seu lado.
O príncipe, com essa esperança, cuidou em equipar imediatamente uma grande frota. Mas nesse ínterim, Demeneto, que desfrutava grande prestígio em Ptolemaida, persuadiu os habitantes a mudar de opinião, mostrando-lhes que era muito mais vantajoso permanecer na incerteza do êxito na guerra em que estavam empenhados contra os judeus que cair na servidão, a qual lhes seria inevitável se, chamando o rei Ptolomeu, o recebessem por senhor. E assim, não teriam somente de sustentar aquela guerra, mas também uma outra, maior ainda e mais perigosa, com o Egito, porque a rainha Cleopatra, mão de Ptolomeu, que tinha a intenção de expulsá-lo da ilha de Chipre, vendo que ele procurava fortalecer-se à custa das províncias vizinhas, viria contra eles com um poderoso exército. E se então Ptolomeu, enganado em suas esperanças, os abandonasse a fim de fugir para a ilha de Chipre, eles ficariam expostos a um perigo maior do que poderiam imaginar.
550. Ptolomeu soube a caminho que os de Ptolemaida haviam mudado de idéia, mas continuou a viagem. Desembarcou em Sicamim com o seu exército, que era de trinta mil homens, tanto de infantaria quanto de cavalaria, e avançou para Ptolemaida. Viu-se, porém, em graves dificuldades quando os embaixadores não puderam falar aos habitantes da cidade, que se recusaram a recebê-los e nem quiseram ouvir as suas propostas. Então Zoilo e os de Gaza foram ter com ele para pedir-lhe socorro contra os judeus e contra o seu rei, que lhes devastava o país.
Assim, Alexandre foi obrigado a levantar o cerco de Ptolemaida. Retirou o exército e, querendo agir com astúcia, enviou secretamente emissários à rainha Cleopatra para fazer aliança com ela contra Ptolomeu, enquanto tratava publicamente com ele e prometia dar-lhe quatrocentos talentos de prata se este lhe entregasse o tirano Zoilo e cedesse aos judeus as praças e as terras que ele possuía. Ptolomeu, de boa mente, fez aliança com Alexandre e mandou prender Zoilo. Mas quando soube que o príncipe negociava secretamente com a rainha sua mãe, rompeu com ele e sitiou Ptolemaida, que, como vimos, se recusara a recebê-lo. Deixando alguns dos chefes com uma parte das forças, para continuar o cerco, foi com o resto devastar a Judéia. Alexandre, por sua vez, para resistir-lhe, reuniu um exército de cinqüenta mil homens ou, segundo outros, de oitenta mil. Ptolomeu, tendo num sábado atacado de improviso a cidade de Azoto, na Galiléia, tomou-a de assalto e levou dez mil escravos e grande quantidade de despojos.

CAPÍTULO 21
GRANDE VITÓRIA OBTIDA POR PTOLOMEU LATUR SOBRE ALEXANDRE, REI DOS
JUDEUS, E SUA HORRÍVEL DESUMANIDADE. CLEOPATRA, MÃO DE PTOLOMEU,
VEM EM AUXÍLIO DOS JUDEUS, E LATUR TENTA INUTILMENTE TORNAR-SE
SENHOR DO EGITO. ALEXANDRE TOMA GAZA E PRATICA GRANDES ATOS DE
CRUELDADE. DIVERSAS GUERRAS REFERENTES AO REINO DA SÍRIA. ESTRANHO
ÓDIO DA MAIORIA DOS JUDEUS CONTRA ALEXANDRE, SEU REI,
QUE CHAMAM DEMÉTRIO EUCERO EM SEU AUXÍLIO.

551. Depois que Ptolomeu Latur tomou Azoto de assalto, foi a Séforis, que fica próxima, e atacou-a, mas foi repelido, com grandes perdas. Em vez de continuar esse assédio, ele marchou contra Alexandre, rei dos judeus. Encontrou-o em Azofe, muito perto do Jordão, e acampou em frente dele. A vanguarda de Alexandre era composta de oito mil homens, soldados veteranos, todos armados com escudos de bronze. Os da vanguarda de Ptolomeu também o eram, mas o resto de suas tropas não estava bem armado, o que os fazia recear o combate. Um certo Fílonstevão, muito experimentado na guerra, tranqüilizou-os e fê-los passar o rio que separava os dois acampamentos, sem que Alexandre se opusesse a isso, porque ele julgava vencer mais facilmente quando os inimigos, tendo o rio por trás, não pudessem mais fugir.
O combate foi deveras sangrento, e era difícil julgar para que lado pendia a vitória. Por fim, as tropas de Alexandre começaram a prevalecer, enquanto as de Ptolomeu estavam se esfacelando. Mas Fílonstevão as susteve com um corpo de tropas que ainda não havia combatido e as reanimou. Os judeus, espantados com tal mudança e sem receber nenhum reforço, fugiram, e todos os outros seguiram-lhes o exemplo. Os inimigos perseguiram-nos tão vivamente e fizeram tal morticínio que só cessaram a matança quando não agüentaram mais o cansaço e a ponta de suas espadas começava a se entortar. O número de mortos foi de trinta mil ou, segundo uma relação de Timagenes, cinqüenta mil. O resto do exército foi aprisionado ou salvou-se na fuga.
552.  Depois de tão assinalada vitória e de tão longa perseguição, Ptolomeu retirou-se, à tarde, para algumas aldeias da Judéia e, encontrando-as cheias de mulheres e de crianças, ordenou aos seus soldados que as estrangulassem, fizessem-nas em pedaços e as lançassem numa caldeira de água fervente, a fim de que os judeus que haviam escapado da batalha, ao chegar àquele lugar, pensassem que os inimigos comiam carne humana e tivessem ainda maior medo deles. Estrabão não é o único que faz menção dessa horrível desumanidade, pois Nicolau a refere também. Ptolomeu apoderou-se depois de Ptolemaida, à força, como já dissemos em outro lugar.
553.  Quando a rainha Cleópatra viu que o seu filho crescia daquele modo em poder e devastava, sem resistência, toda a Judéia, submetendo Gaza à sua obediência e estando já quase às portas do Egito, e que ele nada mais pretendia além de se apoderar do país, julgou não dever esperar mais para enfrentá-lo. Assim, sem perder tempo, reuniu grandes forças de terra e mar, cujo comando confiou a Chelcias e a Ananias, judeus de nascimento. Colocou em segurança, na ilha de Choos, a maior parte de suas riquezas, seus netos e seu testamento, mandou Alexandre, seu outro filho, para a Fenícia com uma grande esquadra, porque aquela província estava para se revoltar, e veio em pessoa a Ptolemaida. Os seus habitantes, porém, fecharam-lhe as portas, e ela sitiou-os. Quando Ptolomeu viu que ela havia deixado o Egito, para lá partiu, na esperança de que facilmente dele se poderia apoderar, mas viu-se enganado em seus intentos. Por aquele mesmo tempo, Chelcias, um dos generais do exército de Cleópatra, que perseguia Ptolomeu, morreu na Baixa Síria.
554.  Cleópatra, ao saber que as intenções do filho a respeito do Egito haviam sido frustradas, enviou para lá uma parte de suas forças, que o rechaçaram totalmente. Assim, ele foi obrigado a voltar e passou o inverno em Gaza. Então Cleópatra tomou Ptolemaida, onde Alexandre, rei dos judeus, veio encontrar-se com ela, trazendo-lhe muitos presentes. Ela o recebeu com prazer e como um príncipe que, tendo sido tão maltratado por Ptolomeu, somente a ela podia recorrer. Alguns servidores propuseram que ela se apoderasse do país, para não permitir que um número tão grande de judeus, homens de bem, estivesse sujeito a um único homem. Mas Ananias aconselhou o contrário, dizendo que ela não podia com justiça despojar um príncipe que fizera aliança com ela e era parente próximo dele. Também não podia evitar dizer-lhe que, se ela fizesse aquela injustiça, nenhum judeu deixaria de se tornar inimigo dela. Essas razões persuadiram-na, e assim, ela não somente evitou causar desprazer a Alexandre como renovou a aliança com ele em Citópolis, que é uma cidade da Baixa Síria.
555. Logo que o príncipe se viu livre dos receios quanto a Ptolomeu, entrou na Baixa Síria, tomou a cidade de Gadara depois de um cerco de dez meses e Hamate logo em seguida, que é a mais resistente de todas as fortalezas situadas sobre o Jordão e na qual Teodoro, filho de Zenão, havia posto tudo o que tinha de mais precioso. Teodoro, para vingar-se, atacou os judeus quando menos esperavam, matou cerca de dez mil e tomou toda a bagagem de Alexandre. Esse príncipe, sem se abater com tal perda, não deixou de sitiar e de tomar Rafa, que está à beira-mar, e Antedom, que Herodes depois chamou Agripíada. Vendo que Ptolomeu abandonara Gaza para voltar a Chipre e que a rainha Cleópatra, sua mãe, retomara também o caminho para o Egito, o seu ressentimento pelo fato de os moradores de Gaza haverem chamado Ptolomeu em seu auxílio, contra ele, levou-o a devastar-lhes o país e a sitiá-los.
Apolodoto, que os comandava, atacou o acampamento dos judeus com dois mil soldados estrangeiros e mil servidores que pôde reunir. Durante a noite, ele obteve vantagem, porque os judeus estavam certos de que Ptolomeu viera em socorro dos sitiados, mas quando raiou o dia eles viram que se haviam enganado, retomaram ânimo e atacaram Apolodoto com tanta coragem que mataram ali mesmo mil de seus soldados. Os sitiados, porém, não perderam a coragem, embora fossem ainda acossados pela fome. Preferiam sofrer até o fim a se entregar. Aretas, rei dos árabes, que lhes prometia auxílio, fortalecia-os em seu intento. Mas Apolodoto foi morto à traição antes que esse rei tivesse chegado, e a cidade foi tomada. Foi Lisímaco, seu próprio irmão, quem cometeu esse crime, por inveja do prestígio que os próprios e grandes méritos haviam granjeado a Apolodoto. Lisímaco então reuniu um grupo de soldados e entregou a praça a Alexandre.
Quando esse príncipe lá entrou, parecia ter Espírito de paz, mas depois enviou tropas às quais permitiu castigar o povo com toda espécie de crueldade. Eles não pouparam um sequer de todos os que puderam matar, porém isso custou também a vida a vários judeus, pois uma parte dos habitantes morreu com armas na mão, defendendo-se valentemente, outros incendiaram as próprias casas, para impedir que fossem presa do inimigo, e outros mataram as próprias mulheres e filhos, para evitar-lhes uma vergonhosa escravidão. Sabendo que o senado estava reunido quando essas tropas sanguinárias entravam na cidade, eles fugiram para o templo de Apoio, a fim de ali buscar asilo seguro, mas não o encontraram. Alexandre mandou matá-los e, depois de destruir a cidade, que conservava sitiada durante um ano, voltou a Jerusalém.
556. Por esse mesmo tempo, o rei Antioco Gripo foi morto à traição por Heracleu, na idade de quarenta e cinco anos, após reinar vinte e nove. Seleuco, seu filho, sucedeu-o e fez guerra a Antioco Cizicenio, seu tio, aprisionou-o numa batalha e mandou matá-lo. Pouco tempo depois, Antioco, filho de Cizicenio, e Antonino, cognominado Eusébio, vieram a Arade, onde foram coroados reis. Eles fizeram guerra a Seleuco, venceram-no numa batalha e o expulsaram da Síria. Ele fugiu para a Cilícia, onde foi recebido pelos mopseatas, mas, em vez de reconhecer a obrigação que lhes devia, quis ainda exigir deles tributo. Então eles, não o podendo suportar, puseram fogo ao seu palácio, onde morreu queimado com os seus amigos.
557.  Enquanto esse Antioco reinava na Síria, um outro Antioco, irmão de Seleuco, fez-lhe guerra. Mas foi derrotado com todo o seu exército. Filipe, seu irmão, fez-se coroar rei e reinou numa parte da Síria. No entanto, Ptolomeu Latur mandou chamar Demétrio Eucero, seu quarto irmão, em Gnida, o constituiu rei em Damasco. Antioco resistiu valentemente a esses dois irmãos, mas não viveu por muito tempo. Tendo partido para Laodicéia em auxílio da rainha dos galadenianos, que faziam guerra aos partos, foi morto numa batalha, lutando corajosamente. Filipe e Demétrio, que eram irmãos, com a morte dele ficaram de posse pacífica do reino da Síria, como já dissemos em outro lugar.
558.  Ao mesmo tempo, Alexandre, rei dos judeus, viu turbar-se o seu reino, pelo ódio que o povo tinha contra ele. No dia da festa dos Tabernáculos, quando se levam ramos de palmas e de limoeiros, ele preparava-se para oferecer sacrifício. O povo não se contentou de lhe lançar limões à cabeça, mas o ofendeu com palavras, dizendo que, tendo sido escravo, ele não merecia honra alguma e era indigno de oferecer sacrifícios a Deus. Ele ficou de tal modo enfurecido que mandou matar uns seis mil deles e em seguida reprimiu o esforço da multidão irritada com uma cerca de madeira que mandou fazer ao redor do Templo e do altar, e que se estendia até o lugar onde somente os sacerdotes têm direito de entrar.
Ele assalariou soldados pisídios e cilícios porque, sendo inimigo dos sírios, não se servia deles. Venceu depois os árabes, impôs tributos aos moabitas e aos galaditas e destruiu Hamate sem que Teodoro se atrevesse a dar-lhe combate. Fez também guerra a Obede, rei dos árabes, mas, tendo caído numa emboscada perto de Gadara, na Galiléia, impelido por um grande número de camelos a um estreito muito apertado e difícil de transpor, chegou a salvo com muita dificuldade em Jerusalém. Esse mau resultado foi seguido de uma guerra que seus súditos lhe moveram durante seis anos. Ele matou mais ou menos uns cinqüenta mil deles e, embora tudo fizesse para estar bem com eles, o ódio que lhe tinham era tão violento que, quanto mais queria acalmá-lo, tanto mais ele aumentava. Assim, perguntando-lhes um dia o que queriam que fizesse para contentá-los, todos exclamaram que ele devia se matar. Mandaram então imediatamente chamar Demétrio Eucero, para pedir-lhe auxílio.

CAPÍTULO 22
DEMÉTRIO EUCERO, REI DA SÍRIA, VEM EM AUXÍLIO DOS JUDEUS CONTRA
ALEXANDRE, SEU REI. DERROTA-O NUMA BATALHA E RETIRA-SE. OS JUDEUS
CONTINUAM SOZINHOS A FAZER-LHE GUERRA. ELE OS VENCE EM DIVERSOS
COMBATES E USA DE ESPANTOSA CRUELDADE CONTRA ELES. DEMÉTRIO SITIA
FILIPE, SEU IRMÃO, EM BEROÉ. MITRÍDATES SINACÉS, REI DOS PARTOS,
MANDA CONTRA ELE UM EXÉRCITO QUE O FAZ PRISIONEIRO E O ENVIA A
ESSE REI. MORRE LOGO DEPOIS.

559. Demétrio Eucero, fortalecido por aqueles que o convocavam, veio em seu auxílio com um exército de três mil cavaleiros e quarenta mil soldados de infantaria. Alexandre marchou contra ele com seis mil e duzentos soldados estrangeiros contratados e vinte mil judeus que se lhe conservaram fiéis. Os dois príncipes fizeram todos os esforços. Demétrio, para ganhar esses estrangeiros, que eram gregos, e Alexandre, para ganhar ao seu partido os judeus que haviam passado para Demétrio. Mas nem um nem outro conseguiu o seu intento. E assim, foi necessário travar-se uma batalha.
Demétrio venceu, e os estrangeiros que estavam do lado de Alexandre mostraram seu valor e fidelidade, pois foram todos mortos, sem exceção de um. Demétrio, por sua vez, perdeu também muitos soldados. Alexandre fugiu para os montes e então, por uma estranha mudança, a compaixão pela sua infelicidade fez com que seis mil judeus fossem procurá-lo. Isso causou tanto temor a Demétrio que ele se retirou. Os outros judeus continuaram sozinhos a guerra a Alexandre, mas foram vencidos, e muitos pereceram em diversos combates. Ele obrigou os chefes a se retirarem a Betom, tomou a cidade e os mandou prisioneiros a Jerusalém, onde, para vingar-se das ofensas que havia recebido, usou contra eles de horrível crueldade: enquanto se entregava a um banquete com suas concubinas num lugar bastante elevado, de onde podia ver tudo, mesmo ao longe, fez crucificar cerca de oitocentos na sua presença e estrangular diante deles, enquanto ainda viviam, suas mulheres e filhos.
É verdade que eles o haviam ofendido e, não se contentando em lhe fazer guerra eles mesmos, tinham ainda chamado estrangeiros em seu auxílio, levando-o muitas vezes a correr o risco de perder a vida e o reino e reduzindo-o a grande miséria, tanto que ele foi obrigado a entregar ao rei dos árabes as praças que havia conquistado no país dos moabitas e dos galatidas, a fim de impedir que se unissem aos seus súditos revoltados, isso sem falar dos muitos ultrajes que lhe fizeram. Tudo isso, porém, não impede o horror a tão espantosa desumani-dade, que o fez merecer, com razão, o nome de Trácida, para indicar a sua extrema barbaridade. Oito mil soldados dos que haviam tomado armas contra ele retiraram-se na noite seguinte a essa ação mais que desumana e não apareceram mais durante o seu reinado, que depois foi bastante pacífico.
560. Demétrio, saindo da Judéia, foi com dois mil cavaleiros e dez mil soldados de infantaria sitiar Filipe, seu irmão, em Beroé. Estratão, que a governava e que ajudava Filipe, chamou Zizo, general dos árabes, em seu socorro, e Mitrídates Sinacés, rei dos partos. Eles mandaram-lhe grandes forças, que sitiaram Demétrio em seu acampamento e obrigaram os seus soldados a se entregar, tanto pela multidão de dardos e flechas com que os cobriram quanto pela falta de água que provocaram. Mandaram-nos prisioneiros a Mitrídates e voltaram carregados de despojos, permitindo aos de Antioquia, que estavam entre os prisioneiros, retirar-se sem pagar resgate. Mitrídates tratou Demétrio com grande honra até o fim de sua vida, que não foi longa, pois ele caiu doente e morreu. Quanto a Filipe, logo depois da prisão de Demétrio, foi para Antioquia e reinou na Síria.

CAPÍTULO 23
DIVERSAS GUERRAS DOS REIS DA SÍRIA. ALEXANDRE, REI DOS JUDEUS, TOMA VÁRIAS PRAÇAS. SUA MORTE E CONSELHO QUE DÁ À RAINHA ALEXANDRA, SUA MULHER, PARA CONQUISTAR OS FARISEUS E SER AMADA PELO POVO.

561.  Antioco, cognominado Dionísio, irmão de Filipe, apoderou-se de Damasco, fez-se declarar rei e para isso serviu-se da ausência do irmão, que tinha ido fazer guerra aos árabes. Logo que Filipe o soube, voltou apressadamente e entrou em Damasco por meio de Mileze, comandante da fortaleza. Mas, para fazer crer que era o terror do seu nome, e não apenas a habilidade, que o fizera reconquistar aquela praça, mostrou-se muito ingrato. Mileze, para vingar-se, aproveitou a sua ida ao hipódromo, para assistir a uma corrida de cavalos, e fechou-lhe a porta da cidade, conservando-a para Antioco. Logo que este soube disso, voltou imediatamente da Arábia e entrou na Judéia com oito mil soldados de infantaria e oitocentos cavaleiros.
O rei Alexandre, surpreendido com essa repentina incursão, mandou fazer uma grande trincheira, desde Caparsabé, que se chama agora Antípatra, até o mar de Jope, que era o único lugar por onde se podia entrar. A isso ele acrescentou um muro com defesas de madeira distantes uma da outra cerca de cento e cinqüenta estádios. Antioco queimou-as todas e passou com o seu exército à Arábia. Os árabes permitiram-no a princípio, mas depois apareceram com dez mil cavaleiros. Antioco atacou-os com muita valentia. Mas foi morto quando, já quase certo da vitória, correu para defender uma das alas de seu exército, que estava para ser desbaratada. Essa desgraça abateu a coragem de seus soldados, que fugiram todos para a aldeia de Cana, onde a maior parte morreu de fome.
562. Aretas reinou depois na Baixa Síria, para onde fora chamado pelos habitantes de Damasco, por causa do ódio que eles votavam a Ptolomeu, filho de Meneu. Ele entrou com soldados na Judéia, venceu o rei Alexandre perto de Adida e retornou, depois de conversar com ele.
563. Alexandre tomou a cidade de Diam e sitiou Essa, onde Zenão havia posto o que possuía de mais precioso, começando por fazê-la rodear de uma tríplice muralha. Depois tomou-a de assalto. Apoderou-se também de Gaulam, de Selêucia, do vale que tinha o nome de Antíoco e da fortaleza de Gamala. E, por ser Demétrio, que antes governava aqueles lugares, acusado de muitos crimes, despojou-o do principado. Depois de empregar cerca de três anos em todas essas expedições militares, voltou com o seu exército a Jerusalém, onde tantos felizes resultados o fizeram ser recebido com demonstrações de grande alegria.
564. Os judeus possuíam então várias cidades na Síria, na Iduméia e na Fenícia, isto é: ao longo do mar, a torre de Estratão, Apolônia, Jope, Jamnia, Hazor, Gaza, Atedom, Rafia e Rinosura; no meio da Iduméia, Adora, Maressa, Samaria, os montes do Carmelo e do Itaburim, Citópolis, Gadara, Gaulanítide, Selêucia e Gabara; no país dos moabitas, Essebom, Medeba, Lemba, Orom, Telitom e Zara; na Cilícia, Aulom e Pela, a qual eles destruíram, porque os habitantes não se decidiram por observar as nossas leis. Nossa nação possuía ainda na Síria outras cidades assaz importantes, que haviam sido destruídas.
565. Alexandre deixou-se dominar por sua intemperança, bebeu vinho em excesso e por esse motivo foi acometido de uma febre que durou três anos. Como isso, porém, não o impedia de se dedicar aos interesses da guerra, suas forças ficaram esgotadas de tal modo que ele veio a morrer na fronteira dos gerasianos, quando sitiava a fortaleza de Ragaba, situada além do Jordão. Estando ele nos seus últimos momentos, quando não havia mais esperança de cura, a rainha Alexandra, sua mulher, aflita pela dor e pela tristeza em que se encontrava, por ficar sozinha com os filhos, disse-lhe, banhada em lágrimas: &quot;Nas mãos de quem me deixais, a mim e aos nossos filhos, nesta tão grande necessidade de auxílio em que nos achamos, como sabeis, pela aversão que o povo sente por vós?&quot;
Ele respondeu: &quot;Se quiserdes seguir o meu conselho, podereis conservar o reino e também os nossos filhos. Ocultai a minha morte aos meus soldados até que esta praça tenha sido tomada. Depois que voltardes vitoriosa a Jerusalém, procurai conquistar o afeto dos fariseus, dando-lhes alguma autoridade, a fim de que essa honra os induza a louvar publicamente, perante o povo, a vossa magnanimidade. Eles desfrutam tanto poder sobre o Espírito do povo que o fazem amar ou odiar quem eles querem, sem que se considere se eles agem por interesse ou — quando falam mal de alguém — por inveja ou por ódio, como eu mesmo pude experimentar, pois a aversão do povo contra mim foi motivada pela minha inimizade com eles. Mandai, pois, chamar os chefes dessa seita logo que tiverdes chegado, mostrai-lhes o meu corpo morto e dizei, como se o desejásseis do fundo do coração, que me entregais nas mãos deles para que façam o que quiserem: ou recusar-me a honra da sepultura, para vingarem-se dos males que lhes causei, ou acrescentar maiores ultrajes, para se satisfazerem plenamente. Dai-lhes em seguida a vossa palavra de que nada fareis no governo do reino senão por seu conselho. Digo-vos que, se assim fizerdes, eles ficarão tão satisfeitos com essa deferencia, que, em vez de desonrar a minha memória, me farão magníficos funerais, como eu não ousaria esperar nem mesmo de vós, e reinareis com inteira autoridade&quot;. Dizendo essas palavras, morreu, na idade de quarenta e nove anos, dos quais reinou vinte e sete.

CAPÍTULO 24
O REI ALEXANDRE DEIXA DOIS FILHOS: HIRCANO, QUE FOI SUMO SACERDOTE,
E ARISTÓBULO. A RAINHA ALEXANDRA, SUA MÃE, CONQUISTA O POVO POR
MEIO DOS FARISEUS, DANDO-LHES GRANDE AUTORIDADE. FAZ MORRER, A
CONSELHO DELES, OS MAIS FIÉIS SERVIDORES DO REI SEU MARIDO E DÁ AOS
OUTROS, PARA ACALMÁ-LOS, A GUARDA DAS PRAÇAS MAIS FORTES. INCURSÃO
DE TIGRANO, REI DA ARMÊNIA, NA SÍRIA. ARISTÓBULO QUER FAZER-SE REI.
MORTE DA RAINHA ALEXANDRA.

566.  A rainha Alexandra, depois de se apoderar da fortaleza de Ragaba e de voltar a Jerusalém, falou aos fariseus como lhe dissera o rei seu marido, declaran-do-lhes que nada queria fazer sem a opinião deles, com relação ao seu corpo e ao governo do reino. Assim, eles mudaram em afeto por ela o ódio que concebiam por ambos e falaram ao povo dos grandes feitos do soberano, dizendo que haviam perdido um ótimo rei. Instigaram em seu Espírito tal tristeza pela sua morte que lhe fizeram funerais como a nenhum outro soberano.
567.  Esse príncipe deixou dois filhos, Hircano e Aristóbulo, e determinou em seu testamento que a rainha sua esposa seria a regente. Hircano, o mais velho, era pouco capaz de governar e só cuidava em viver na ociosidade. Aristóbulo, ao contrário, tinha muita inteligência, era ousado e empreendedor. A rainha, que havia conquistado o coração do povo, pois sempre demonstrara tristeza pelas faltas do rei seu marido, criou Hircano para sumo sacerdote, não tanto por ele ser o mais velho quanto por sua incapacidade. Ela deixava os fariseus disporem de tudo e até ordenava ao povo que lhes obedecesse, porque, se Hircano, seu sogro, abolira algo de suas tradições, ela queria que fossem restauradas. Assim, tinha ela de rainha apenas o nome, e os fariseus desfrutavam todo o poder que lhes dava a realeza: faziam voltar os exilados, libertavam prisioneiros e em nada se diferenciavam dos soberanos.
Havia somente algumas coisas de que a princesa dispunha. Mantinha ela um grande número de tropas estrangeiras e parecia muito poderosa, para causar temor aos príncipes vizinhos. Obrigou-os até mesmo a lhe mandarem reféns. Assim, reinava pacificamente, mas os fariseus perturbavam a tranqüilidade, insistindo em que ela mandasse matar os que haviam aconselhado o rei seu marido a crucificar aqueles oitocentos homens de que falamos há pouco. Começaram por Diógenes e continuaram pelos outros, fazendo-os morrer, até que alguns dentre os mais ilustres vieram procurar a rainha em seu palácio, tendo à frente Aristóbulo, que demonstrava, pela sua atitude, não aprovar o que estava acontecendo e que se tivesse oportunidade diria à rainha sua mãe que ela não devia abusar assim do poder.
Apresentaram-se à princesa falando dos assinalados benefícios que haviam prestado ao falecido rei seu marido e dos favores com que ele os honrara, como recompensa pelo seu valor e por sua fidelidade. Pediam-lhe que não permitisse, depois de correrem tantos riscos na guerra, que os seus inimigos os fizessem morrer em plena paz, como vítimas, sem receber por isso o devido castigo. Acrescentaram que, se aqueles injustos perseguidores se contentassem com o sangue que já haviam derramado, o respeito deles pela autoridade real, sob cujo nome se acobertavam, os faria suportar com paciência o que haviam sofrido até então. Mas se eles quisessem continuar a exercer tão horrível crueldade, suplicavam então, se ela julgasse bem, que eles pudessem procurar segurança fora de seus estados, porque não o queriam fazer sem licença dela. Ou, se ela lhes recusasse tão justo pedido, eles preferiam que ela os massacrasse ali no palácio, pois nada poderia ser mais vergonhoso que permitir serem eles tratados daquele modo por inimigos jurados do rei seu marido, dando a Aretas, rei dos árabes, e aos outros príncipes o prazer de verem como ela se privava de tantos homens valorosos, cujo nome somente fazia tremer. Por fim, eles concluíram, se ela lhes recusasse essa graça e resolvesse abandoná-los à paixão dos fariseus, que ao menos os espalhasse pelas fortalezas, para lá terminarem miseravelmente a vida, pois a sorte perseguia cruelmente os servidores de Alexandre.
Depois dessas palavras e de outras semelhantes, eles invocaram os manes do rei seu senhor, como para induzi-los a ter compaixão daqueles que já haviam sido mortos e dos que corriam ainda o mesmo risco. Os presentes ficaram todos comovidos e não puderam reter as lágrimas. Aristóbulo manifestou mais que todos os outros os seus sentimentos, pelas censuras que fez à rainha sua mãe. Mas disse também que eles deviam recriminar a si mesmos pela sua infelicidade, pois eles próprios a causaram ao escolher uma mulher tão ambiciosa para entregar o reino, como se o falecido rei não tivesse deixado filhos varões para substituí-lo.
568.  A princesa ficou bastante embaraçada nessa circunstância e julgou que nada melhor poderia fazer além de confiar aos descontentes a guarda das fortalezas e das praças-fortes, exceto Hircânia, Alexandriom e Macherom, onde havia colocado tudo o que possuía de mais precioso. Pouco tempo depois, ela mandou Aristóbulo, seu sobrinho, com um exército a Damasco contra Ptolomeu Meneu, que oprimia esses vizinhos, mas ele voltou sem nada ter feito de memorável.
Por esse mesmo tempo, soube-se que Tigrano, rei da Armênia, entrara na Síria com um exército de quinhentos mil homens e vinha rapidamente para a Judéia. Tão grande e tão imprevisto perigo assustou a rainha Alexandra e todo o reino. Ela então mandou a esse príncipe ricos presentes, por meio de embaixadores, que o encontraram ocupado no cerco de Ptolemaida. A rainha Selene, outrora chamada Cleopatra, que então reinava na Síria, exortou todos os seus súditos a se defenderem generosamente contra o usurpador. Os embaixadores de Alexandre tudo fizeram para induzir Tigrano a sentimentos favoráveis para com a sua rainha e a sua nação. Ele os recebeu muito bem e despediu-os com muitas esperanças. Tendo tomado Ptolemaida, soube que Lúculo, que perseguira o rei Mitrídates sem poder alcançá-lo, porque este já se havia posto a salvo na Libéria, entrara na Armênia e saqueava e devastava todo o país. Tal notícia o fez regressar.
569. A rainha Alexandra ficou então gravemente enferma, e Aristóbulo julgou ter encontrado o momento mais propício para os seus desígnios. Saiu à noite, acompanhado de um único servo, para ir às praças-fortes, que eram guardadas, como acabamos de dizer, pelos servidores de maior confiança do falecido rei seu pai. Estando havia muito tempo insatisfeito com o proceder de sua mãe e temendo mais do que nunca que a sua família viesse a cair sob o domínio poderoso dos fariseus, caso ela morresse, via, por outro lado, que seu irmão Hircano era inteiramente incapaz de governar. Ele confiou o seu segredo somente à esposa, que deixou em Jerusalém com os filhos.
Foi primeiro a Ágaba, onde Galesto, que era um de seus fiéis servidores e do falecido rei, o recebeu com grande alegria. No dia seguinte, a rainha percebeu que Aristóbulo estava ausente, mas não suspeitou de que ele se havia afastado para organizar uma rebelião. Quando soube, porém, que ele se apoderara de uma fortaleza e depois de mais outra, compreendeu que assim, uma após outra, todas ficariam em seu poder. Ela e os seus caíram em grande consternação, pois concluíram que já bem pouco faltava para que Aristóbulo usurpasse o poder. Eles temiam que ele se vingasse terrivelmente pela maneira como haviam tratado os seus mais afeiçoados servidores.
Em tão grande aflição, não tiveram outra deliberação a tomar senão prender na fortaleza próxima do Templo a mulher e os filhos de Aristóbulo. Enquanto isso os judeus acorriam de todas as partes para junto desse príncipe, e em quinze dias ele conseguiu apoderar-se de vinte e duas praças. Tomou então as insígnias da realeza e da dignidade real e não perdeu tempo em reunir tropas. Recrutou-as no monte Líbano e na Traconítida e com os príncipes vizinhos, que o ajudaram de boa vontade, na esperança de que ele reconhecesse o benefício que lhe prestavam, ajudando-o a subir ao trono quando até então ele não ousara fazê-lo, por mais desejo que tivesse de ocupá-lo.
Hircano, acompanhado pelo judeus mais ilustres, foi procurar a rainha para que ela se dignasse dizer-lhes o que julgava conveniente fazer em tal contingência, pois Aristóbulo já era senhor de quase todo o território, pela rendição de tantas praças, e, ainda que ela se encontrasse tão enferma, era dever dele nada empreender, estando ela ainda viva, sem consultá-la, visto que o perigo estava muito próximo. Ela respondeu que deixava a eles a escolha e que fizessem o que pensassem ser mais vantajoso para o reino, pois eles tinham soldados, homens competentes e grande soma de dinheiro no tesouro público. Quanto a ela, não estava mais em condições de cuidar de assuntos do governo, porque se sentia inteiramente esgotada e no fim da vida. E, dizendo essas palavras, morreu, após reinar nove anos e viver setenta e três.
Essa rainha nada tinha da fraqueza de seu sexo, pois mostrou, pelas suas ações, que era capaz de governar e de envergonhar os príncipes que se mostram indignos da posição que ocupam no mundo. Cuidou unicamente da utilidade do reino, sem se afastar de uma ocupação tão importante por causa de vãos pensamentos ou preocupações com o futuro. Ela afirmava que a moderação no governo é preferível a tudo, e que jamais se deve fazer algo que não seja justo e honesto. Mas todas essas boas qualidades não impediram que os seus descendentes perdessem, depois de sua morte, o poder que a sua ambição lhes havia conquistado por meio de inúmeras dificuldades e perigos, tão grande a falta que ela cometeu: seguir o pernicioso conselho dos inimigos de sua família, privando o Estado da cooperação daqueles que muito poderiam ter feito. Assim, a sua morte foi seguida de perturbações e de infelicidade, mas todo o seu reinado passou-se em paz.
Livro Décimo Quarto

CAPÍTULO 1
APÓS A MORTE DA RAINHA ALEXANDRA, HIRCANO E ARISTOBULO, SEUS FILHOS,
TRAVAM UMA BATALHA. ARISTOBULO VENCE, E ELES FAZEM UM TRATADO: A
COROA FICA COM ARISTÓBULO E HIRCANO CONTENTA-SE COM A VIDA PRIVADA.

570. Mostramos no livro precedente qual foi a vida e a morte da rainha Alexandra. Falemos agora do que aconteceu em seguida, pois devemos cuidar em nada omitir, por negligência ou por esquecimento. Embora aqueles que fazem a narração de fatos históricos e procuram esclarecer as coisas que o tempo obscureceu não se devam descuidar da elegância do estilo e dos ornamentos que a podem tornar agradável, o seu cuidado principal deve ser relatar exatamente a verdade, a fim de comunicá-la aos leitores e aos que prestarão fé às suas palavras.
Depois que Hircano foi feito sumo sacerdote, no terceiro ano da Olimpíada cento e setenta e sete, quando eram cônsules Quinto Hortêncio e Quinto Metelo, também chamado Metelo de Creta, Aristobulo declarou-lhe guerra, e a batalha travou-se perto de Jerico. Uma grande parte das tropas de Hircano passou para o lado de Aristobulo. Hircano fugiu para a fortaleza de Jerusalém onde a mulher e os filhos de Aristobulo estavam prisioneiros por ordem da rainha Alexandra. O resto de seus soldados retirou-se ao recinto do Templo, mas logo se entregaram. Começaram depois a falar de paz entre os dois irmãos, e ela foi concluída, sob a condição de que Aristobulo reinaria e Hircano, de posse de seus bens, contentar-se-ia com a vida privada. Esse tratado foi feito no próprio Templo. Ambos o confirmaram com juramento, apertaram-se as mãos e se abraçaram na presença do povo. Depois retiraram-se, Aristobulo para o palácio real e Hircano para a casa onde Aristobulo antes residia.
 

CAPÍTULO 2
ANTÍPATRO, IDUMEU, PERSUADE HIRCANO A FUGIR E SE REFUGIAR JUNTO DE ARETAS, REI DOS ÁRABES, QUE PROMETE RESTAURÁ-LO NO TRONO DA JUDÉIA.

571. Um idumeu, de nome Antípatro, muito rico, empreendedor e hábil, era amicíssimo de Hircano e inimigo de Aristobulo. Nicoiau de Damasco fá-lo descender de uma das principais famílias dos judeus que vieram da Babilônia para a Judéia, mas ele o diz em favor de Herodes, seu filho, que a fortuna elevou depois ao trono de nossos reis, como veremos a seu tempo. Antes não o chamavam Antípatro, mas Antipas, como o seu pai, que, tendo sido feito pelo rei Alexandre e pela rainha sua esposa governador de toda a Iduméia, contraiu amizade com os árabes, os gazeenses e os ascalonitas, conquistando o afeto deles por meio de grandes presentes.
O poder de Aristobulo tornou-se suspeito a Antípatro, que já o temia, por causa da inimizade que havia entre eles, e assim, secretamente, fez-lhe todo o mal que pôde ante os judeus mais ilustres, dizendo não haver motivos para se permitir que ele usurpasse o trono que pertencia por direito a Hircano, que era o irmão mais velho. Não se contentava em dizer a mesma coisa a Hircano, mas acrescentava que a vida deste não estaria segura se não se retirasse imediatamente, porque os amigos de Aristobulo não perderiam a oportunidade de matá-lo, para consolidar aquela injusta autoridade. Como Hircano era naturalmente bom e não dava facilmente crédito a suspeitas, essas palavras não o persuadiram. A sua afabilidade e o seu amor pela paz e pela tranqüilidade faziam-no julgar aquilo uma simples suposição. Aristobulo, ao contrário, era muito inteligente, corajoso, hábil, empreendedor e capaz de realizar grandes feitos.
Antípatro não se zangou por ver que Hircano não o escutava. Continuou a falar-lhe, insistindo em dizer-lhe que Aristobulo tinha intenção de lhe tirar a vida. Com muita dificuldade, levou-o a decidir-se por fugir para junto do rei Aretas, soberano dos árabes. Fez-lhe ver que essa retirada seria facílima, porque a Arábia está perto da Judéia, e prometeu-lhe ajudá-lo o mais possível. Foi depois falar com Aretas, da parte de Hircano, para obter a sua palavra de que não o entregaria ao inimigo. Após obter tal promessa, com juramento, voltou a Jerusalém para falar com Hircano. E, certa noite, alguns dias depois, levou-o em marcha forçada até a cidade de Petra, onde o rei dos árabes tinha a sua corte. Como Antípatro desfrutava grande estima junto dele, rogou-lhe com tanta insistência que restaurasse Hircano no reino da Judéia e deu-lhe tantos presentes que por fim o persuadiu. Hircano, por sua vez, prometeu-lhe em paga, se fosse restaurado no trono da Judéia, entregar-lhe o país e as doze cidades que o rei Alexandre, seu pai, havia tomado dos árabes, isto é, Medeba, Nabalo, Lívias, Tarabaza, Agala, Atom, Zoara, Oroné, Maressa, Rida, Lussa e Oriba.

CAPÍTULO 3
ARISTÓBULO É OBRIGADO A SE RETIRAR PARA A FORTALEZA DE JERUSALÉM. O REI
ARETAS AÍ VEM CERCÁ-LO. IMPIEDADE DE ALGUNS JUDEUS, QUE APEDREJAM
ONIAS, UM HOMEM JUSTO, E CASTIGO QUE RECEBEM POR ESSE CRIME.

572. O rei Aretas, levado pelas promessas de Hircano, atacou Aristóbulo com um exército de cinqüenta mil homens, deu-lhe combate e o venceu. Vários judeus passaram imediatamente para o lado de Hircano. Aristóbulo, vendo-se abandonado desse modo, fugiu para o Templo, em Jerusalém. Aretas foi sitiá-lo com todo o seu exército, fortalecido ainda pelo povo, que havia abraçado o partido de Hircano. Somente os sacerdotes ficaram fiéis a Aristóbulo. A festa dos Pães Asmos, a que chamamos Páscoa, estava próxima, e os mais ilustres dos judeus deixaram o país a fim de fugir para o Egito.
Onias era um homem justo e querido de Deus, o qual havia obtido chuva durante uma grande carestia. Vendo aquela guerra civil, ele foi se esconder. Mas foi achado, e levaram-no ao campo. Os judeus rogaram-lhe que, tendo ele outrora debelado a carestia com as suas orações, fizesse agora imprecações contra Aristóbulo e os de seu partido. Por muito tempo ele resistiu, mas por fim o povo o obrigou a orar. Ele dirigiu-se a Deus e assim falou, na presença de todos: &quot;Grande Deus, que sois o soberano Monarca do universo, sendo que todos os que estão aqui são o vosso povo, e os que estão sitiados, os vossos sacerdotes, rogo-vos que não escuteis as orações nem de uns nem de outros&quot;. Mal havia ele pronunciado tais palavras, alguns judeus celerados e maus cobriram-no de pedradas. Deus, porém, não adiou muito a sua vingança por esse crime.
O dia da Páscoa chegou. Nesse dia, costumamos oferecer um grande número de sacrifícios. Aristóbulo e os sacerdotes que estavam com ele não tinham vítimas e rogaram então aos judeus que estavam com os sitiantes que as fornecessem, pois estavam dispostos a pagar quanto eles exigissem. Eles pediram mil dracmas por cada animal e as exigiram adiantadas. Aristobuio e os sacerdotes aceitaram e desceram com uma corda pela muralha a importância exigida. Mas esses perversos, depois de receber o dinheiro, não entregaram as vítimas e, não se contentando em faltar à palavra aos homens, tentaram pela sua impiedade arrebatar ao próprio Deus as honras que lhe são devidas. Os sacerdotes, vendo-se assim enganados, rogaram a Deus que castigasse todos aqueles pérfido judeus, e a sua oração foi ouvida naquele mesmo instante. Ele enviou por toda aquela região um vento impetuoso que destruiu todos os frutos da terra, de modo que uma medida de trigo veio a custar onze dracmas.

CAPÍTULO 4
ESCAURO, MANDADO POR POMPEU, É CONQUISTADO POR ARISTOBUIO.
O REIARETAS É OBRIGADO A LEVANTAR O CERCO DE JERUSALÉM.
ARISTOBUIO GANHA UMA BATALHA CONTRA ARETAS E HIRCANO.

573. Nesse mesmo tempo, Pompeu, estando empenhado na guerra da Armênia contra Tigrano, mandou Escauro para a Síria. Quando este chegou a Damasco, que pouco antes havia sido capturada por Metelo e por Lólio, resolveu entrar na judéia. Estando a caminho, encontrou-se com embaixadores que vinham a ele tanto da parte de Aristobuio quanto da de Hircano, cada qual buscando a sua aliança e pedindo socorro, oferecendo-lhe ao mesmo tempo quatrocentos talentos. Escauro preferiu Aristobuio, porque este, além de rico e liberal, era moderado em suas aspirações, ao passo que não lhe parecia que Hircano, sendo pobre e avaro, pudesse cumprir o que prometia, embora o que este desejasse fosse mais fácil que o que Aristobuio pedia. Isso porque é incomparavelmente mais difícil tomar uma praça-forte bem defendida que expulsar os que a sitiavam, que eram fugitivos e nabateenses, pouco interessados na guerra.
Essas razões fizeram Escauro decidir-se por aceitar a soma que Aristobuio lhe oferecia e obrigá-los a levantar cerco. Para cumprir a sua promessa precisou somente pedir a Aretas que se retirasse, dizendo-lhe que, se não o fizesse, o declararia inimigo do povo romano. Escauro depois voltou a Damasco. Aristobuio reuniu um grande exército, deu combate a Hircano e a Aretas, num lugar chamado Papirom, e venceu-os, matando sete mil homens, dentre os quais Cefalé, irmão de Antípatro.

CAPÍTULO 5
POMPEU VEM À BAIXA SÍRIA. ARISTOBULO MANDA-LHE UM RICO PRESENTE.
ANTÍPATRO VEM PROCURÁ-LO DA PARTE DE HIRCANO. POMPEU ESCUTA OS DOIS
IRMÃOS E DEIXA A QUESTÃO DELES PARA RESOLVER DEPOIS QUE SUBJUGAR OS
NABATEENSES. ARISTOBULO, SEM ESPERÁ-LO, RETIRA-SE PARA A JUDÉIA.

57A. Pouco tempo depois, Pompeu veio a Damasco e visitou a Baixa Síria, onde os embaixadores de toda a Síria, do Egito e da Judéia vieram encontrá-lo. Aristobulo mandou-lhe uma vinha de ouro no valor de quinhentos talentos. Estrabão de Capadócia faz menção desse magnífico presente nestes termos: &quot;Vieram embaixadores do Egito que apresentaram a Pompeu uma coroa pesando quatro mil peças de ouro. Outros trouxeram-lhe da Judéia uma vinha ou jardim de ouro, a que chamavam Térpolis, isto é, &#39;delicioso&#39;. Vi esse rico presente em Roma, no Templo de Júpiter Capitolino, a quem ele foi consagrado, com esta inscrição: ALEXANDRE, REI DOS JUDEUS, e o avaliavam em quinhentos talentos. Diz-se que fora mandado por Aristobulo, príncipe dos judeus&quot;.
Antípatro veio procurar Pompeu logo depois, da parte de Hircano, e Nicodemos, enviado por Aristobulo, tornou Gabinio e Escauro seus inimigos, acusando a um de ter se apoderado de trezentos talentos e a outro de quatrocentos. Pompeu ordenou que Hircano e Aristobulo viessem procurá-lo, a fim de se resolver a questão.
Quando chegou a primavera, suas tropas deixaram os quartéis de inverno, puseram-se em campo e devastaram de passagem a fortaleza de Apaméia, que Antíoco Cizicênio construíra. Pompeu observou o país que Ptolomeu Meneu ocupava, o qual não perdia em maldade para Dionísio Tripolitano, seu parente, que tivera a cabeça truncada, sendo que Meneu resgatou a sua por mil talentos. Pompeu os distribuiu às suas tropas, arrasou o castelo de Lusíada, do qual um judeu chamado Silas se havia apoderado, passou por Heliópolis e pela Cálcida, atravessou o monte para descer à Baixa Síria e veio de Pela a Damasco. Ouviu Hircano e Aristobulo com relação ao litígio entre eles e também os judeus que se queixavam de um e de outro, dizendo que não queriam estar sujeitos à dominação dos reis, pois Deus lhes havia ordenado que obedecessem apenas aos sacerdotes, e que reconheciam que os dois irmãos eram da casta sacerdotal, mas estes queriam mudar a forma de governo para usurpar a suprema autoridade e reduzir assim o seu país à escravidão.
Hircano queixava-se de que, sendo o mais velho, Aristobulo queria privá-lo do que lhe pertencia por direito de nascimento e obrigá-lo a se contentar com uma pequena parte, usurpando todo o resto; que ele fazia incursões pelas terras contra os povos vizinhos e praticava a pirataria nos mares; que não se precisava de outra prova de seu mau caráter, de sua violência e de seu partidarismo senão o fato de haver levado o povo a se revoltar; e que mais de mil dentre os ilustres judeus que Antípatro tinha ganho apoiavam com o próprio testemunho essas queixas.
Aristobulo afirmava, ao contrário, que o irmão era indigno da realeza pela sua covardia e incapacidade, que o tornavam inapto para o governo e o faziam desprezado por todo o povo, e que por essa razão fora obrigado a tomar a suprema autoridade, para que ela não passasse a outra família. Quanto à qualidade de rei, não a assumira senão pelo fato de que o seu pai sempre a tivera também. Com relação às testemunhas, eram uns moços que ninguém tolerava que viessem ali tão bem vestidos e enfeitados, mais parecendo ter vindo para ostentar a própria vaidade que para ouvir o pronunciamento de uma sentença.
Pompeu, depois de ouvir os dois irmãos, não teve dificuldade em constatar que Aristobulo era violento. Disse-lhes que voltassem mais tarde, que procuraria dar remédio a tudo depois que dominasse os nabateenses e os reduzisse à obediência. Por enquanto, ordenava-lhes que vivessem em paz. Ele tratou Aristobulo com urbanidade e gentileza, temendo que este lhe cortasse a passagem, mas no entanto não lhe conquistou a confiança, pois Aristobulo, sem esperar a realização de suas promessas, partiu para a cidade de Délio e de lá retirou-se para a judéia.

CAPÍTULO 6
POMPEU, OFENDIDO PELA RETIRADA DE ARISTÓBULO, MARCHA CONTRA ELE. DIVERSAS ENTREVISTAS ENTRE ELES, SEM RESULTADO.

575. Pompeu sentiu-se ofendido com a retirada de Aristobulo. Tomou as tropas que havia destinado aos nabateenses, mandou vir todas as que tinha em Damasco e no resto da Síria e com as legiões que comandava marchou contra ele. Depois de passar por Pela e Citópolis chegou a Core, onde começa aquela parte da )udéia que está no meio das terras, encontrou um castelo muito forte, de nome Alexandriom, situado no vértice de um monte, e soube que Aristobulo lá estava. Mandou dizer-lhe que viesse procurá-lo, e ele foi, porque o aconselharam a não se meter numa guerra contra os romanos. Depois de lhe falar do litígio com o irmão, relativo à primazia da Judéia, Pompeu deixou-o voltar ao castelo. O mesmo aconteceu ainda duas ou três vezes, nada deixando Aristóbulo de fazer, com a esperança de obter o reino e agradar a Pompeu. Ele, porém, não deixava de se preparar para a guerra, pois temia muito que Pompeu se pronunciasse em favor de Hircano. Pompeu ordenou-lhe que entregasse as fortalezas e escrevesse de próprio punho aos governadores, a fim de que não criassem dificuldades. Ele o fez, mas com tanta tristeza que se retirou para Jerusalém, a fim de poder resistir. Pompeu marchou também imediatamente contra ele e, no caminho, um enviado que vinha do Ponto trouxe-lhe a notícia de que o rei Mitridates fora morto por Farnaces, seu filho.

CAPÍTULO 7
ARISTÓBULO ARREPENDE-SE, VEM PROCURAR POMPEU E CONVERSA COM ELE.
OS SOLDADOS DE ARISTÓBULO RECUSAM-SE A DAR O DINHEIRO QUE ESTE
HAVIA PROMETIDO, BEM COMO A RECEBER OS ROMANOS EM JERUSALÉM.
POMPEU O RETÉM PRISIONEIRO E SITIA O TEMPLO, PARA ONDE OS
PARTIDÁRIOS DE ARISTÓBULO SE HAVIAM RETIRADO.

576. O primeiro lugar onde Pompeu acampou foi Jerico, região abundante em palmeiras e onde cresce o bálsamo, que é o mais precioso de todos os perfumes, destilado de arbustos que o produzem mediante incisões com pedras bem afiadas. No dia seguinte, ele avançou para Jerusalém, e então Aristóbulo arrependeu-se do que havia feito. Foi procurá-lo, ofereceu-lhe uma soma de dinheiro, disse que o receberia em Jerusalém e rogou que ordenasse e dispusesse de tudo como lhe aprouvesse, mas sem guerra.
Pompeu aceitou a proposta e concordou com esse desejo. Mandou Gabínio com tropas para receber o dinheiro e entrar na cidade. Mas ele voltou sem nada conseguir, porque os soldados de Aristóbulo não quiseram cumprir o tratado: não entregaram o dinheiro e ainda lhe fecharam as portas da cidade. Pompeu ficou de tal modo encolerizado que manteve Aristóbulo prisioneiro e marchou em pessoa contra Jerusalém. A cidade estava bem fortificada por todos os lados, exceto o norte, onde um vale largo e profundo rodeava o Templo, que era assim cercado por uma grossa muralha.

CAPÍTULO 8
POMPEU, DEPOIS DE UM CERCO DE TRÊS MESES, TOMA O TEMPLO DE
ASSALTO, MAS NÃO O SAQUEIA. DIMINUI O PODER DOS JUDEUS. DEIXA O
COMANDO DO EXÉRCITO A ESCAURO. LEVA ARISTÓBULO PRISIONEIRO A
ROMA, COM ALEXANDRE E ANTÍGONO, SEUS DOIS FILHOS, E SUAS DUAS
FILHAS. ALEXANDRE ESCAPA DA PRISÃO.

577. A cidade de Jerusalém estava dividida. Uns diziam que era preciso abrir as portas a Pompeu. Os do partido de Aristóbulo afirmavam, ao contrário, que deviam fechá-las e se preparar para a guerra, pois ele era mantido prisioneiro. E, sem adiar mais, apoderaram-se do Templo, destruíram a ponte que o unia à cidade e resolveram defendê-lo. Os outros receberam o exército de Pompeu e entregaram-lhe a cidade e o palácio real. Ele logo mandou Pisão, seu lugar-te-nente-general, com as tropas para tomar posse dela. Pompeu, por sua vez, fortificava também as casas e os outros lugares próximos do Templo. Mas antes de tentar qualquer outro esforço, ofereceu condições de paz aos que pretendiam defendê-lo. Quando viu que eles as recusavam, fortificou com muralhas o que estava em redor. Hircano fornecia com prazer tudo o que era necessário.
Pompeu escolheu atacá-lo pelo lado norte, porque era o mais fraco, embora fortificado por altas e fortes torres e por um grande fosso, feito com grande dificuldade num vale muito profundo, pois do lado da cidade onde ele havia estabelecido o seu quartel havia somente um precipício, por onde, depois que a ponte fora destruída, não se podia mais passar. Os romanos trabalharam com infatigável ardor para elevar as plataformas e cortaram para isso todas as árvores em redor. Depois, atacaram o Templo com máquinas que Pompeu fizera vir de Tiro e que lançavam grandes pedras à maneira de balas.
Eles não teriam podido realizar esse feito com as plataformas se as leis de nossos antepassados, que proíbem trabalhar no dia de sábado, não tivessem impedido os sitiados de se opor a essa atividade naquele dia. Os romanos, sabendo disso, não lançavam pedras nem atacavam de qualquer outro modo, mas continuavam a elevar as plataformas e a fazer avançar as máquinas, para se servirem delas no dia seguinte. Pode-se, pois, imaginar o nosso zelo para com Deus e pela observância de nossas leis, pois nem o medo de sermos atacados nos afastou da celebração de nossos sacrifícios. Os sacerdotes não deixavam um dia sequer de oferecer sacrifícios a Deus sobre o altar, pela manhã e às nove horas. O perigo, por maior que fosse, não conseguia interrompê-los.
Depois de três meses de cerco, o Templo foi tomado, num dia de jejum, na Olimpíada cento e setenta e nove, sendo cônsules C. Antônio e M. Túlio Cícero. Embora os romanos matassem todos os que encontravam, o medo da morte não impediu os que estavam ocupados nas sagradas cerimônias de continuar a celebrá-las, tanto estavam persuadidos de que o maior de todos os males é o abandono dos altares e a não-observância das santas leis. Para provar que o que digo não são palavras ditas apenas por mera formalidade, para pôr em evidência o espírito de piedade de nossa nação, basta ler o que referem todos os que narram os feitos de Pompeu, como Estrabão, Nicolau e particularmente Tito Lívio, que escreveu a História Romana. Mas devemos retomar a nossa narração.
Quando a maior das torres cedeu à potência das máquinas e, caindo, fez cair também o muro que estava perto, os romanos apressaram-se a entrar pela brecha. O primeiro que subiu foi Cornélio Fausto, filho de Sila, seguido por seus comandados. Fúrio entrou pelo outro lado com a sua companhia, e Fausto passou entre ambos e entrou com a sua. Todos os lugares ficaram juncados de cadáveres. Parte dos judeus foi morta pelos romanos, os outros matavam-se entre si ou se precipitavam do alto ou incendiavam as próprias casas. A morte parecia-lhes mais doce que tão horrível desolação. Doze mil judeus vieram a perecer, mas poucos romanos. Absalão, tio e sogro de Aristóbulo, foi aprisionado.
A santidade do Templo foi violada de maneira singular. Até então os profanos não somente jamais tinham posto o pé no Santuário, como nem mesmo o tinham visto. Pompeu, todavia, entrou nele com o seu séquito e viu o que não era permitido, senão aos sacerdotes. Lá encontrou a mesa, os candelabros e as taças de ouro, grande quantidade de perfumes e, no tesouro sagrado, cerca de dois mil talentos. Sua piedade impediu-o de tocar em qualquer coisa, e nada ele fez então que não fosse digno de sua virtude. No dia seguinte, ordenou aos oficiais do Templo que o purificassem, para oferecer sacrifícios a Deus, e deu a Hircano o cargo de sumo sacerdote, tanto por causa dos auxílios que dele recebera quanto porque impedira os judeus de abraçar o partido de Aristóbulo. Mandou em seguida cortar a cabeça aos que haviam insuflado a guerra e deu a Fausto e a outros, por terem sido os primeiros a subir às muralhas, recompensas dignas de seu valor.
Quanto à cidade de Jerusalém, ele a tornou tributária dos romanos. Tirou ao judeus as cidades que haviam conquistado na Baixa Síria, determinou que obedecessem aos governadores e fixou, assim, em seus primeiros limites, o poder de nossa nação, antes tão grande e tão extenso. A cidade de Gadara algum tempo antes fora destruída, mas foi reconstruída em favor de Demétrio, seu liberto, que dela era oriundo. Pompeu restituiu aos seus antigos habitantes as que estavam bem dentro, em terra firme, a saber: Hipona, Citópolis, Pela, Diom, Samara, Maressa, Azoto, Jamnia e Aretusa, como também as que a guerra destruíra completamente. Quis ele que as cidades marítimas ficassem livres e fizessem parte da província, a saber: Gaza, Jope, Adora e a torre de Estratão, que Herodes depois mandou reconstruir com grande magnificência e enriqueceu com portos e belos Templos, mudando-lhe o nome para Cesaréia.
Foi assim que a divergência entre Aristóbulo e Hircano causou tantos males, fazendo-nos perder a liberdade, sujeitando-nos ao Império Romano e nos obrigando a entregar o que havíamos conquistado da Síria pelas armas. A isso devemos acrescentar que esses novos senhores exigiram de nós, logo depois, mais de dez mil talentos e transferiram o reino, que antes sempre pertencera à casta sacerdotal, a homens cujos nascimentos nada tinham de ilustre. Falaremos mais particularmente, a seu tempo, de todas essas coisas.
578.  Pompeu deixou a Escauro o governo da Baixa Síria até o Eufrates e as fronteiras do Egito, dirigiu-se para a Cilícia com duas legiões e foi para Roma rapidamente, levando consigo Aristóbulo como prisioneiro, bem como os seus dois filhos e as suas duas filhas. O mais velho chamava-se Alexandre, e o mais novo, Antígono. O mais velho, Alexandre, porém, conseguiu escapar, e o mais novo, Antígono, chegou a Roma com as suas irmãs.

CAPÍTULO 9
ANTÍPATRO SERVE PROVEITOSAMENTE A ESCAURO NA ARÁBIA.

579.  Escauro marchou com o seu exército para Petra, capital da Arábia, e, como as passagens e os caminhos para lá eram muito difíceis, os soldados, acossados pela fome, saqueavam os países da redondeza. Antípatro fez com que lhes trouxessem da Judéia, por ordem de Hircano, trigo e outras coisas necessárias. Sendo Hircano muito conhecido de Aretas, Escauro mandou-o a esse rei como embaixador. Ele saiu-se tão bem que o persuadiu a entregar trezentos talentos para impedir a ruína de seu país. Assim, a guerra terminou apenas começada. Escauro não sentiu menos alegria que Aretas.

CAPÍTULO 10
ALEXANDRE, FILHO DE ARISTÓBULO, ARMA-SE NAJUDÉIA E FORTIFICA AS
PRAÇAS. GABÍNIO DERROTA-O NUMA BATALHA E O CERCA NO CASTELO DE
ALEXANDRIOM. ALEXANDRE ENTREGA-LHE O CASTELO E OUTRAS PRAÇAS.

580. Pouco tempo depois, Gabínio, general do exército romano, veio à Síria, onde fez coisas dignas de memória. Hircano, sumo sacerdote, desejou reconstruir os muros de Jerusalém, que Pompeu havia destruído, mas foi obstado pelos romanos. Alexandre, seu sobrinho, filho de Aristóbulo, reuniu e armou na Judéia dez mil homens de infantaria e mil e quinhentos cavaleiros, fortificou o castelo de Alexandriom, situado perto de Core, como também o de Macherom, nos montes da Arábia, e fazia incursões na Judéia sem que Hircano a isso se opusesse. Gabínio marchou contra ele e enviou Marco Antônio com outros oficiais, que se uniram aos judeus fiéis aos romanos, comandados por Pitolau e Malico, reforçados com o auxílio das tropas de Antípatro. Gabínio seguiu com o resto do exército, e Alexandre retirou-se para perto de Jerusalém, onde a se travou batalha. Os romanos venceram, mataram três mil homens e fizeram muitos prisioneiros. Gabínio sitiou em seguida o castelo de Alexandriom e prometeu perdão aos que o defendiam, caso se entregassem.
Um grupo considerável, que fazia guarda fora da fortaleza, foi atacado pelos romanos, que mataram um grande número. Antônio distinguiu-se muito nessa ocasião, pois matou muitos com as próprias mãos. Gabínio deixou parte de seu exército para continuar o cerco, avançou com o resto para a Judéia e fez reconstruir todas as cidades que estavam destruídas. Desse modo, Samaria, Azo-to, Citópolis, Antedom, Rafia, Adora, Maressa, Gaza e várias outras foram restauradas e, depois de estar por tanto tempo desertas, puderam ser habitadas com segurança. Gabínio deixou tudo organizado e voltou ao cerco de Alexandriom. Apertando bastante o castelo, fez com que Alexandre se visse obrigado a pedir-lhe perdão e se dispusesse a entregar-lhe não somente aquela fortaleza, mas também Hircânia e Macherom. Gabínio aceitou o oferecimento e destruiu todas essas praças.
A mulher de Aristóbulo, mão de Alexandre, que era afeiçoada aos romanos e cujo marido e os outros filhos ainda estavam prisioneiros em Roma, veio procurar Gabínio e obteve tudo o que desejava. Depois de dar as suas ordens, ele levou Hircano a Jerusalém, a fim de que cuidasse do Templo e se entregasse às outras funções do cargo de sumo sacerdote. Dividiu toda a província em cinco partes e estabeleceu muitos tribunais para a administração da justiça: um em Jerusalém, outro em Gadara, um terceiro em Hamate, um quarto em Jerico e um quinto em Seforis, na Galiléia. Assim os judeus, livres do domínio dos reis, passaram a um governo aristocrático.

CAPÍTULO 11
ARISTÓBULO, PRISIONEIRO EM ROMA, SALVA-SE COM ANTÍGONO, UM DE
SEUS FILHOS, E VEM ÀJUDÉIA. OS ROMANOS VENCEM-NO NUMA BATALHA.
ELE SE RETIRA PARA ALEXANDRIOM, ONDE É SITIADO E PRESO. GABÍNIO O
DEVOLVE PRISIONEIRO A ROMA, DERROTA ALEXANDRE, FILHO DE ARISTÓBULO,
NUMA BATALHA E VOLTA A ROMA, DEIXANDO CRASSO EM SEU LUGAR.

581. Aristóbulo escapou de Roma e voltou para a Judéia, com o propósito de restaurar o castelo de Alexandriom, destruído de novo, como dissemos. Mas Gabínio enviou Cisena, Antônio e Servílio para impedi-lo de se apoderar dessa praça e para prendê-lo. Vários judeus uniram-se a ele, quer pelo respeito que tinham por um nome ilustre como o dele, quer por serem naturalmente inclinados à rebelião e à revolta. Pitolau, governador de Jerusalém, levou-lhes mil bons soldados. Vieram-lhe ainda outros, em grande número, porém a maior parte não estava armada, e ele os despediu como inúteis. Marchou depois para Macherom com o objetivo de tomá-la.
Os romanos seguiram-no, alcançaram-no e o atacaram. Ele e os seus, embora se defendessem valentemente, foram derrotados, e cinco mil foram mortos. O resto salvou-se como pôde. Aristóbulo, com uns mil somente, refugiou-se em Macherom. O mau êxito de suas empresas, porém, não lhe abateu o ânimo nem o fez perder a esperança. Ele pôs-se a trabalhar para fortificá-la. Mas foi imediatamente sitiado e, após resistir por dois dias, ferido em várias partes do corpo, foi aprisionado junto com Antígono, seu filho, que fugira com ele de Roma, e levado a Gabínio. A má sorte desse príncipe levou-o segunda vez a Roma como prisioneiro. Ele havia reinado e exercido durante três anos e meio o sumo sacerdócio, com não menos brilho que coragem. O senado pôs os seus filhos em liberdade, porque Gabínio escreveu que o prometera à mãe deles, em consideração à entrega que ela fizera das praças, e eles foram encaminhados para a Judéia.
582.  Gabínio preparava-se para marchar contra os partos. Já havia passado o Eufrates quando mudou de idéia e foi para o Egito, a fim de restaurar Ptolomeu, como dissemos em outro lugar. Antipatro, por ordem de Hircano, forneceu-lhe trigo para o exército, armas e dinheiro e persuadiu os judeus que moravam em Pelusa, que eram como os guardas da entrada no Egito, a fazer aliança com os romanos.
583.  Gabínio, ao seu regresso do Egito, encontrou toda a Síria perturbada. Alexandre, filho de Aristóbulo, ocupara à força o governo e atraíra grande número de judeus para o seu partido. Assim, havendo reunido tropas, ele percorria toda a província e matava quantos romanos encontrava. Os outros retiraram-se para o monte Gerizim, e ele os cercou. Gabínio, encontrando as coisas nesse estado, enviou Antipatro, cuja prudência conhecia, para tentar persuadir os revoltosos a tomar melhor deliberação. Ele conduziu-se com tanta habilidade que convenceu vários, porém, não pôde persuadir Alexandre. Resolveu então, com os trinta mil judeus que o seguiam, travar batalha. Esta aconteceu perto do monte de Itabírio. Os romanos venceram, e os judeus perderam dez mil homens.
Gabínio, depois de colocar em ordem as questões principais em Jerusalém, segundo o conselho de Antipatro, marchou contra os nabateenses e venceu-os também numa batalha. Mandou de volta para o país de origem dois senhores partos, de nome Mitridates e Orsano, que se haviam refugiado junto dele, e fez ao mesmo tempo correr a notícia de que eles escaparam para voltar ao seu país. Esse grande general, depois de tantos e tão belos feitos militares, voltou para Roma, e Crasso sucedeu-o no governo das províncias. Nicolau de Damasco e Estrabão da Capadócia escreveram os feitos de Pompeu e de Gabínio contra os judeus, e eles estão perfeitamente de acordo.

CAPÍTULO 12
CRASSO SAQUEIA O TEMPLO. É DERROTADO PELOS PARTOS COM TODO O SEU
EXÉRCITO. CÁSSIO RETIRA-SE PARA A SÍRIA E A DEFENDE CONTRA OS PARTOS.
GRANDE PRESTÍGIO DE ANTIPATRO, SEU CASAMENTO E SEUS FILHOS.

584.  Crasso foi fazer guerra aos partos. Passou à Judéia e levou do Templo não somente os dois mil talentos em que Pompeu não havia tocado, mas tudo o que lá encontrou, no valor de mais ou menos oito mil talentos. Tomou também ouro maciço, no peso de trezentas minas. (Cada mina pesa duas libras e meia.) O sacerdote Eleazar, que tinha a guarda dos tesouros do Templo, deu-lhe a barra de ouro não com mau fim, pois era homem de bem, mas por ter ao mesmo tempo a guarda de toda a tapeçaria, de extrema beleza e de altíssimo valor, que estava dependurada a essa barra. O temor de que Crasso, possuído de ambição desmedida e cioso de se enriquecer, apanhasse todos os ornamentos do Templo fê-lo pensar que podia entregar a barra de ouro quase como para resgatar as outras riquezas, o que ele fez somente após Crasso haver jurado não tocar em nada do que restava e contentar-se com tão grande presente. Essa barra de ouro estava encerrada e escondida propositadamente numa barra de madeira, e somente Eleazar o sabia. Crasso, porém, sem se incomodar em violar o seu juramento, apanhou tudo o que havia no Templo, e não é de admirar que encontrasse muitas riquezas, pois todos os judeus da Ásia e da Europa que ainda amavam a Deus as haviam oferecido durante muitos anos.
Para provar que não exagero e que não é por orgulho de nossa nação que digo que o que Crasso roubou do Templo alcançava uma enorme soma, eu poderia citar vários historiadores. Contentar-me-ei, contudo, em relatar o que diz Estrabão da Capadócia, com estas palavras: &quot;Mitridates mandou para a ilha de Cós, a fim de apanhar o dinheiro que a rainha Cleópatra lá havia depositado e oitocentos talentos dos judeus&quot;. Como não temos dinheiro público, a não ser o que consagramos a Deus, claramente se deduz dessas palavras que, pelo medo da guerra que Mitridates fazia aos judeus da Ásia, eles haviam mandado aqueles oitocentos talentos para a ilha de Cós. Do contrário, que necessidade tinham os da judéia, que possuíam além do Templo uma cidade tão forte, de enviar dinheiro para essa ilha? É possível que os de Alexandria tenham sido levados pelo mesmo temor a fazer a mesma coisa, se não tinham motivo para temer Mitridates?
O mesmo Estrabão, falando da passagem de Silas pela Grécia para fazer guerra a Mitridates e das tropas que Lúculo mandou a Cirene para dominar a revolta de nossa nação, confirma a mesma coisa e mostra que o povo estava espalhado por toda a terra. Eis as palavras desse autor: &quot;Havia na cidade de Cirene burgueses trabalhadores, estrangeiros e judeus. Estes se acham disseminados por todas as cidades, e seria difícil encontrar um lugar em toda a terra que não os tenha recebido ou onde eles não se tenham pacificamente estabelecido. O Egito e Cirene, quando estavam submetidos a um mesmo soberano, e várias outras nações tanto apreciaram os judeus que abraçaram os seus costumes. E, tendo sido criados e educados com eles, observaram as mesmas leis. Há também no Egito várias colônias de judeus, sem falar de Alexandria, onde eles ocupam uma grande parte da cidade e onde têm magistrados para resolver todas as suas questões segundo as suas leis e confirmar os contratos e outros atos entre eles, como nas repúblicas mais absolutas. O que fez essa nação se estabelecer de tal sorte no Egito foi que os egípcios tem a sua origem dos judeus, e esses dois países são tão próximos que facilmente se pode passar de um ao outro. Assim também Cirene, que não somente está perto do Egito, mas é parte dele&quot;.
585.  Depois de fazer o que quis na Judéia, Crasso marchou contra os partos, mas foi derrotado por eles, com todo o seu exército, como dissemos alhures. Cás-sio retirou-se para a Síria, de onde resistia aos partos, que, orgulhosos com a vitória, lá faziam incursões. Depois veio a Tiro e passou à Judéia, onde tomou Tariquéia, levando escravos cerca de trinta mil homens. Pitolau, que havia abraçado o partido de Aristóbulo, estava entre os prisioneiros. Cássio os matou, a conselho de Antipatro, que, além de ter grande prestígio perante ele e na Iduméia, desposara uma mulher das mais ilustres famílias da Arábia, de nome Ciprom, da qual teve quatro filhos — Fazael, Herodes, que depois foi rei, José e Feroras — e uma filha, de nome Salomé. Antipatro conquistou a amizade de vários príncipes pela maneira respeitosa como os tratava e particularmente a do rei dos árabes, ao qual ele confiou os seus filhos quando fazia guerra a Aristóbulo. Cássio, depois de reunir mais forças, marchou para o Eufrates a fim de combater os partos, como o dizem outros historiadores.

CAPÍTULO 13
POMPEU CORTA A CABEÇA A ALEXANDRE, FILHO DE ARISTÓBULO. FELIPIOM,
FILHO DE PTOLOMEU MENEU, PRÍNCIPE DA CÁLCIDAT DESPOSA ALEXANDRA,
FILHA DE ARISTÓBULO. PTOLOMEU, SEU PAI, O MATA E DESPOSA ESSA PRINCESA.

586.  Pouco tempo depois, César apoderou-se de Roma. Pompeu e todo o senado de lá fugiram, passando para além do mar Jônico. Aristóbulo foi então libertado e mandado com duas legiões para a Síria, a fim de defender aquela província. Mas esse príncipe não desfrutou por muito tempo a esperança que a proteção de César lhe outorgava: os partidários de Pompeu envenenaram-no, e os de César embalsamaram o seu corpo com mel e o enterraram. Por muito tempo ele ficou nesse estado, até que Antônio mandou-o para a Judéia, para ser colocado no sepulcro dos reis.
587.  Cipião, por ordem de Pompeu, cortou a cabeça de Alexandre, filho de Aristóbulo, em Antioquia, porque de novo ele se havia revoltado contra os romanos. Ptolomeu Meneu, príncipe da Cálcida, que está situada no monte Líbano, mandou seu filho Felipiom a Asquelom, à viúva de Aristóbulo, pedindo que lhe mandasse Antígono, seu filho e suas filhas. Felipiom enamorou-se de uma delas, de nome Alexandra, e a desposou. Algum tempo depois, Ptolomeu, seu pai, mandou matá-lo e desposou a mesma princesa, o que não o impediu de continuar a cuidar de seus irmãos e de suas irmãs.

CAPÍTULO 14
ANTÍPATRO, POR ORDEM DE HIRCANO, AJUDA CÉSAR NA GUERRA DO EGITO E MOSTRA MUITO VALOR.

588. Quando César, depois da vitória e da morte de Pompeu, fez guerra ao Egito, Antípatro, governador da Judéia, ajudou-o muito, por ordem de Hircano. Isso porque Mitridates, pergameniano, que levava socorro a César, fora obrigado a se deter perto de Asquelom, pois não se sentia forte o bastante para passar por Pelusa. Antípatro uniu-se a ele com três mil judeus bem armados e não somente fez com que os árabes viessem também em seu socorro como foi a principal causa da obtenção de um grande auxílio da Síria, particularmente do príncipe Jamblique, de Ptolomeu, seu filho, de Ptolomeia, filha de Soeme, que habitava o monte Líbano, e de quase todas as cidades. Assim, Mitridates, reforçado com tantas tropas, veio a Pelusa, cujos habitantes recusaram-se a abrir as portas, e ele então os sitiou.
Antípatro distinguiu-se muito nessa ocasião, pois foi o primeiro a dar o assalto, após abrir uma brecha, e assim permitiu a tomada da praça. Depois foi com Mitridates unir-se a César. Os judeus que moravam naquela província do Egito, denominada Onias, queriam opor-se à sua passagem, mas Antípatro persuadiu-os a abraçar o partido de César, servindo-se para isso das cartas do sumo sacerdote Hircano, com as quais não somente os animava, mas também dizia que ajudassem o seu exército com víveres e outras coisas necessárias. Os habitantes de Mênfis souberam-no e chamaram Mitridates. Ele se dirigiu para lá, e todos passaram para o seu lado.

CAPITULO 15
ANTIPATRO CONTINUA A GRANJEAR GRANDE REPUTAÇÃO NA GUERRA DO
EGITO. CÉSAR VEM À SÍRIA, CONFIRMA HIRCANO NO CARGO DE SUMO
SACERDOTE E PRESTA GRANDES HONRAS A ANTIPATRO, NÃO OBSTANTE AS
QUEIXAS DE ANTÍGONO, FILHO DE ARISTÓBULO.

589.  Quando Mitridates e Antipatro chegaram a Delta, deram combate aos inimigos em um lugar chamado Campo do judeus. Mitridates comandava a ala direita, e Antipatro, a esquerda. A de Mitridates foi desbaratada e seria completamente destruída se Antipatro, que já tinha por sua vez vencido os inimigos, não tivesse vindo prontamente em seu auxílio, ao longo do rio, e não os tivesse salvo de tão grande perigo. Ele derrotou os egípcios, que se julgavam vencedores, perseguiu-os, devastou o seu acampamento e convidou Mitridates e os seus, que estavam na retaguarda, a tomar parte nos despojos.
Mitridates perdeu oitocentos homens nesse combate, e Antipatro, somente cinqüenta. Mitridates não deixou de escrever a César, dizendo que a honra daquela vitória não somente era devida a Antipatro, mas que ele também o havia salvo, bem como aos seus. Esse glorioso testemunho fez César conceber altíssima estima por Antipatro, pois, além dos elogios que lhe fez, serviu-se dele nas ocasiões mais perigosas da guerra. Antipatro deu ainda provas de inteligência e de coragem não menores que o seu valor e chegou a ser ferido várias vezes.
César, depois de terminada a guerra, veio por mar à Síria. Prestou grandes honras a Hircano e a Antipatro, confirmou aquele no cargo de sumo sacerdote e deu a este a prerrogativa de cidadão romano com todos os privilégios a ele inerentes. Muitos dizem que Hircano esteve naquela guerra e passara ao Egito, o que Estrabão da Capadócia confirma, com a autoridade de Asínio. Eis as suas palavras: &quot;Depois que Mitridates entrou no Egito, Hircano, sumo sacerdote dos judeus, também entrou com ele&quot;. O mesmo Estrabão diz, em outro lugar, citando para isso Ifícrates, que &quot;Mitridates primeiro veio sozinho, mas quando estava em Asquelom chamou Antipatro, governador da Judéia, em seu auxílio, que lhe levou três mil judeus e foi causa de que todos os outros grandes, entre os quais Hircano, sumo sacerdote, unissem as suas armas às dele&quot;.
590.  Por esse mesmo tempo, Antígono, filho de Aristóbulo, foi procurar César e queixou-se de que seu pai fora envenenado por ter seguido o seu partido e que Cipião mandara cortar a cabeça de seu irmão. Rogou-lhe que tivesse compaixão dele, pois se via despojado do principado que pertencia ao irmão. Acusou também Hircano e Antípatro de o haverem usurpado pela força.
Antípatro respondeu que Antígono era faccioso, sempre ocupado em suscitar rebeliões. Lembrou as dificuldades que haviam sofrido e os serviços prestados na última guerra, de que não queria outras provas senão ele mesmo. Disse também que Aristóbulo, ao contrário, tendo sido sempre inimigo do povo romano, fora com muita razão levado prisioneiro a Roma e que Cipião fizera muito bem em cortar a cabeça de seu irmão, devido aos desmandos e crimes deste. César, persuadido por essas razões, confirmou Hircano no cargo de sumo sacerdote e entregou a Antípatro a administração dos negócios e interesses da Judéia, oferecendo-lhe o governo que ele quisesse.

CAPÍTULO 16
CÉSAR PERMITE A HIRCANO RECONSTRUIR OS MUROS DE JERUSALÉM.
HONRAS PRESTADAS A HIRCANO PELA REPÚBLICA DE ATENAS. ANTÍPATRO
RECONSTRÓI OS MUROS DE JERUSALÉM.

591. César acrescentou aos muitos favores que fizera a Hircano o de permitir-lhe reconstruir os muros de Jerusalém, os quais ainda não haviam sido restaurados depois que Pompeu os derrubara. Escreveu depois a Roma, aos cônsules, para que colocassem o decreto aos arquivos do Capitólio, nestes termos: &quot;Valério, filho de Lúcio Pretor, referiu ao senado reunido no dia treze do mês de dezembro, no Templo da Concórdia, na presença de L. Copônio, filho de Lúcio, e de C. Papiro Quirino: que Alexandre, filho de Jasão, Numênio, filho de Antíoco, e Alexandre, filho de Doroteu, embaixadores dos judeus, pessoas de mérito e nossos aliados, vieram renovar a antiga amizade e a aliança de sua nação com o povo romano. Para nos dar uma prova disso, eles nos trouxeram uma taça e um escudo no valor de cinqüenta mil peças de ouro e nos rogaram que lhes déssemos cartas endereçadas às cidades livres e aos reis, para poderem passar em segurança pelas suas terras e pelos seus portos. A esse respeito, o senado determinou que eles serão recebidos na amizade e na aliança do povo romano, que tudo o que pedem lhes seja concedido e que serão aceitos os presentes. Isso aconteceu no nono ano do sumo sacerdócio e do principado de Hircano e no mês de paneme&quot;.
592.  Esse príncipe dos judeus recebeu também outra grande honra da República de Atenas, que, para demonstrar a gratidão que sentia, lhe mandou um decreto nestes termos: &quot;Na lua vigésima do mês de paneme, sendo Dionísio Asclepíades juiz e sumo sacerdote, apresentou-se aos governadores um decreto dos atenienses, dado sob Agátocles, de que Eucles, filho de Menandro, faz menção na undécima lua de muniquiom. Depois que Doroteu, sumo sacerdote e os presidentes dentre o povo recolheram os votos, Dionísio, filho de Dionísio, disse que Hircano, filho de Alexandre, sumo sacerdote e príncipe dos judeus, sempre mostrou afeto por toda a nossa nação em geral e por todos os cidadãos em particular, que não perdeu ocasião de disso nos dar provas, quer pela maneira como recebeu os nossos embaixadores e os que foram procurá-lo para assuntos particulares, quer pelo cuidado que teve de os fazer chegar em segurança até aqui, como diversas pessoas o afirmam. E, pelo que disse em seguida Teodoro, filho de Teodoro Símias, da virtude desse príncipe e de sua disposição em nos prestar todos os bons ofícios que dele dependerem, decretou-se honrá-lo com uma coroa de ouro, erguer-lhe uma estátua de bronze no Templo de Demos e das Graças e fazer-se publicar por um arauto, nos lugares de exercícios públicos, de luta e de corrida e no teatro, quando aí se representarem novas comédias ou tragédias em honra de Baco, de Ceres e de outras divindades, que essa coroa lhe foi dada por causa de sua virtude. E também, enquanto ele continuar a nos demonstrar tão grande afeto, nossos principais magistrados cuidarão em reconhecê-lo por toda espécie de honras e serviços, para que todos saibam de nossa gratidão e de nossa estima por todas as pessoas de mérito, e assim todos venham a desejar a nossa amizade. Determinou-se ainda que se nomearão embaixadores para levar-lhe este decreto e agradecer-lhe por tantos sinais de honra que teve a gentileza de nos conceder&quot;.
593.  Depois que César pôs em ordem todos os negócios da Síria, tornou a embarcar em seu navio, e Antípatro, depois de o acompanhar, voltou à Judéia, onde a primeira coisa que fez foi reerguer os muros de Jerusalém. Em seguida, passou por toda a província para impedir, com os seus conselhos e advertências, as rebeliões e sedições, fazendo o povo ver que, obedecendo a Hircano, como era seu dever, poderia desfrutar em paz todos os seus bens. Mas se a esperança de obter vantagens nas perturbações da ordem os fizesse suscitar revoltas e rebeliões, eles descobririam que, em vez de governador, ele seria um senhor muito severo, que Hircano, em vez de um rei cheio de amor pelos seus súditos, seria um rei sem piedade, e que César e os romanos, em vez de príncipes, seriam inimigos mortais e irreconciliaveis, pois jamais tolerariam que se suscitassem agitações e mudanças no que haviam ordenado. Essas palavras de Antípatro tiveram tal força que produziram uma feliz tranqüilidade.

CAPÍTULO 17
ANTÍPATRO CONQUISTA GRANDE PRESTÍGIO POR SUA VIRTUDE. FAZAEL, SEU FILHO MAIS VELHO, EFEITO GOVERNADOR DE FERUSALÉM, E HERODES MANDA MATAR VÁRIOS LADRÕES CONDENADOS À MORTE. INVEJA DE ALGUNS GRANDES
CONTRA ANTÍPATRO E SEUS FILHOS. ELES OBRIGAM HIRCANO A PROCESSAR
HERODES POR CAUSA DAQUELES HOMENS QUE MANDARA MATAR. HERODES
COMPARECE PERANTE O TRIBUNAL E DEPOIS RETIRA-SE. VEM SITIAR JERUSALÉM
E A TERIA TOMADO SE ANTÍPATRO E FAZAEL NÃO O TIVESSEM FEITO DESISTIR.
HIRCANO RENOVA A ALIANÇA COM OS ROMANOS. DEMONSTRAÇÕES DE
ESTIMA E DE AFETO DOS ROMANOS POR HIRCANO E PELOS JUDEUS. CÉSAR É
MORTO NO CAPITÓLIO POR CÁSSIO E BRUTO.

594. A incapacidade e a indolência de Hircano deram a Antípatro motivo para lançar as bases da grandeza em que a sua família mais tarde se viu elevada. Ele constituiu Fazael, seu filho mais velho, governador de Jerusalém e de toda a província. Herodes, o segundo filho, foi feito governador da Galiléia. Este, embora não tivesse ainda quinze anos, era tão inteligente e corajoso que bem depressa mostrou uma virtude superior à idade. De uma feita, prendeu Ezequias, chefe de uns ladrões que assaltavam todo o país e mandou matá-lo, havendo-o condenado à morte com todos os seus companheiros. Esse ato tão útil à província suscitou-lhe tanto afeto entre os sírios que estes proclamavam em todas as cidades e nos campos que lhes eram devedores da tranqüilidade e da posse pacífica de seus bens.
Obteve ainda outra vantagem: travou conhecimento com Sexto César, governador da Síria e parente do grande César. Essa estima produziu grande emulação em Fazael, que, não querendo ser inferior ao irmão em mérito e em virtude, não media esforços para conquistar o afeto do povo de Jerusalém. Ele desempenhava em pessoa os cargos públicos e com tanta justiça e de maneira tão agradável que ninguém tinha motivo de queixa nem podia acusá-lo de abuso de poder. Como a glória dos filhos vem recair sobre o pai, a nossa nação concebeu tanto amor por Antípatro que lhe prestava as mesmas honras, como se ele fosse rei. Tão sábio ministro, em vez de se deixar dominar pelo brilho de tão grande prosperidade, como a maior parte dos homens, conservou sempre o mesmo afeto e a mesma fidelidade para com Hircano.
Mas os grandes dos judeus, vendo-o elevado — com os seus filhos — a tão grande autoridade, tão amado pelo povo e tão rico com o que recebia das rendas da Judéia e das gratificações de Hircano, deixaram-se dominar por uma extrema inveja, que aumentou quando souberam que ele havia conquistado também o afeto dos imperadores. Diziam que ele persuadira Hircano a enviar-lhes uma grande soma de dinheiro e, em lugar de apresentá-la em nome do rei, oferecera-a em seu próprio nome. Disseram o mesmo de Hircano, mas ele riu-se disso. O que os aborrecia acima de tudo era que Herodes lhes parecia tão violento e ousado que não duvidavam de que ele aspirava a um governo tirânico.
Resolveram então procurar Hircano para acusar abertamente Antípatro e lhe falaram deste modo: &quot;Até quandoVossa Majestade permitirá o que acontece debaixo dos vossos olhos? Não vedes que Antípatro e seus filhos desfrutam todas as honras da soberania e deixam-vos somente o nome de rei? Não vos importa então saber disso? Não vos importa dar a tudo um remédio? Julgais estar em segurança descuidando-vos da salvação do Estado e de vossa própria vida? Esses indivíduos não agem mais por vossa ordem nem como vossos dependentes. Seria bajular a si mesmo acreditar neles, mas eles agem abertamente como soberanos. QuerVossa Majestade prova melhor do que ver que, embora as nossas leis proíbam mandar matar um homem, por mais perverso que seja, antes de ele ser condenado juridicamente, Herodes não teve receio de violar essas leis, mandando matar Ezequias e seus companheiros sem mesmo vos pedir licença para isso?&quot;
595. Essas palavras persuadiram Hircano. As mães daqueles que Herodes condenara à morte aumentaram ainda a sua cólera, pois não se passava um dia sem que elas fossem ao Templo rogar a ele e a todo o povo que obrigasse Herodes a se justificar perante os judeus por uma ação tão criminosa. Assim, ele intimou-o a comparecer perante o tribunal. Logo que Herodes recebeu a notificação, pôs em ordem as coisas da Galiléia e partiu para Jerusalém. Mas, em vez de levar uma comitiva particular, se fez acompanhar, a conselho de seu pai, por tantas pessoas quantas julgou necessárias, para não despertar suspeitas a Hircano e estar ao mesmo tempo em condições de se defender, caso o atacassem.
Sexto César, governador da Síria, não se contentou em escrever a Hircano em favor de Herodes, mas ordenou que ele fosse absolvido, empregando até mesmo ameaças, para o caso de não ser atendido. Tão forte recomendação, porém, não era necessária, pois Hircano amava Herodes como se fosse seu filho. Quando ele compareceu diante dos juizes com os que o acompanhavam, os seus acusadores ficaram tão atônitos que nem um sequer ousou abrir a boca e sustentar o que haviam dito contra ele na sua ausência.
Saméias, então, que era homem de grande virtude e não tinha receio de se expressar com toda a liberdade, levantou-se e falou, dirigindo-se a Hircano e aos juizes: &quot;Majestade e vós, senhores, que aqui estais reunidos para julgar este acusado: quem já viu um homem obrigado a se justificar apresentar-se desta maneira? Creio que se teria dificuldade em citar exemplo semelhante. Todos os que até aqui compareceram a esta assembléia vieram com humildade e temor, vestidos de preto e com os cabelos em desalinho, em atitude de mover à compaixão. Este, ao contrário, acusado de haver cometido vários assassínios, quer evitar o castigo e comparece diante de nós vestido de púrpura, com os cabelos bem penteados e acompanhado por uma tropa de homens armados, a fim de que, se o condenarmos, segundo as leis, ele zombe delas e estrangule a todos nós também. Não o censuro, porém, de agir assim, pois se trata de salvar a própria vida, que lhe é mais cara que a observância de nossas leis, mas censuro a todos vós por tolerá-lo, e particularmente ao rei&quot;. E, voltando-se para os juizes, acrescentou: &quot;Mas vós sabeis, senhores, que Deus não é menos justo que poderoso, e assim, Ele permitirá que este mesmo Herodes, que quereis absolver para agradar a Hircano, nosso rei, vos castigue por isso um dia e castigará também a ele&quot;.
596. Essas palavras foram uma profecia, que mais tarde se verificou: Herodes, tendo sido constituído rei, mandou matar todos aqueles juizes, exceto Saméias, a quem sempre tratou com grande honra, tanto por sua virtude quanto porque, quando junto com Sósio sitiou Jerusalém, ele exortou o povo a recebê-lo, dizendo que faltas passadas não deveriam impedir que se submetessem a Herodes, como diremos mais particularmente a seu tempo. Mas, voltando ao nosso assunto, Hircano, vendo que o sentimento dos juizes tendia a condenar Herodes, adiou o julgamento para o dia seguinte e mandou dizer-lhe secretamente que escapasse. Assim, com o pretexto de temer Hircano, ele retirou-se para Damasco e, quando se viu em segurança junto de Sexto César, declarou em voz alta que, se o citassem uma segunda vez, estava resolvido a não comparecer.
Os juizes, irritados com essa declaração, esforçaram-se por demonstrar a Hircano que o propósito de Herodes era destruí-lo, o rei não podia mais ignorá-lo. Mas ele era tão covarde e estúpido que não sabia que deliberação tomar.
 
Enquanto isso, Herodes obteve de Sexto César, por meio de uma soma de dinheiro, a nomeação para governador da Baixa Síria, e então Hircano começou a temer que Herodes tomasse as armas contra ele. Seu temor não foi em vão. Herodes, para vingar-se por o haverem citado em juízo, pôs-se em campo com um exército, a fim de tomar Jerusalém. E nada o impediria, não fossem os rogos de Antípatro, seu pai, e de Fazael, seu irmão.
Eles foram procurá-lo e lhe fizeram ver que já era suficiente fazer tremer os inimigos; que ele não devia tratar como inimigos os que não o haviam ofendido; que não poderia, sem ingratidão, tomar as armas contra Hircano, a quem devia a sua elevação e a sua grandeza; que não se devia lembrar de ter sido chamado a juízo, e sim de não ter sido condenado; que a prudência o obrigava a considerar que os eventos da guerra são duvidosos, pois somente Deus tinha a vitória nas mãos, para dá-la como lhe aprouvesse; e que ele não tinha motivos para esperar obtê-la combatendo contra o seu rei e benfeitor, que jamais lhe fizera mal algum, pois só fora levado àquele ato pelos maus conselhos que recebera. Herodes, persuadido por essas razões, contentou-se em haver mostrado a toda a nação até onde chegava o seu poder e adiou a execução de seus grandes desígnios e o gozo do efeito de suas esperanças.
597. As coisas na Judéia chegaram a esse estado. César, que tinha voltado a Roma, preparou-se para passar à África, a fim de combater Cipião e Catão. Hircano enviou-lhe embaixadores para rogar que renovasse a aliança. Creio dever relatar, a esse respeito, as honras que a nossa nação recebeu dos imperadores romanos e os tratados de aliança feitos entre eles, a fim de que todos saibam da estima e do afeto que os soberanos da Ásia e da Europa tiveram por nós em razão de nosso valor e de nossa fidelidade.
Os historiadores persas e macedônios escreveram muitas coisas que nos são muito honrosas — não somos os únicos a ter a própria história: outros povos também as possuem. Porém, como a maior parte daqueles que nos odeiam recusam-se a prestar-lhes fé, com o pretexto de que ninguém a conhece, pelo menos não poderão contradizer os documentos emanados dos romanos, publicados em todas as cidades e gravados em tábuas de cobre postas no Capitólio. Júlio César quis também, pela inscrição que mandou colocar sobre uma coluna de bronze, em Alexandria, dar testemunho do direito de burguesia que têm os judeus nessa poderosa cidade. E acrescentarei a essas provas determinações dos imperadores e decretos do senado concernentes a Hircano e a toda a nossa nação.
&quot;Caio Júlio César, imperador, sumo sacerdote e ditador, pela segunda vez, aos governadores, ao senado e ao povo de Sidom, saudação. Mandamo-vos a cópia da carta que escrevemos a Hircano, filho de Alexandre, príncipe e sumo sacerdote dos judeus, a fim de que a façais traduzir para o grego e para o latim nos vossos arquivos&quot;. Eis o que dizia essa carta:
&quot;Júlio César, imperador, ditador pela segunda vez e sumo sacerdote. Depois de reunidos em conselho, determinamos o que se segue. Como Hircano, filho de Alexandre, judeu de nascimento, sempre nos deu provas de seu afeto, tanto na paz como na guerra, como vários generais do exército no-lo demonstraram, e por ter na última guerra de Alexandria levado por nossa ordem a Mitridates mil e quinhentos soldados, não sendo em valor inferior aos outros, queremos que ele e os seus descendentes sejam perpetuamente príncipes e sumos sacerdotes dos judeus para exercer esses cargos segundo as leis e os costumes de seu país, como também que sejam nossos aliados e amigos, e que desfrutem todos os direitos e privilégios que pertencem ao sumo sacerdócio. E, se alguma divergência surgir com relação à disciplina que se deve observar entre os de sua nação, seja ele o juiz e não seja obrigado a dar quartéis de inverno aos soldados nem a pagar qualquer tributo&quot;.
[Seguem-se outras cartas.]
&quot;Caio César, cônsul, ordena que o principado dos judeus fique para os filhos de Hircano, com o usufruto das terras que eles possuem e que ele seja sempre príncipe e sumo sacerdote de sua nação e administre a justiça. Queremos também que lhes sejam enviados embaixadores para firmar amizade e aliança e que sejam colocadas no Capitólio e nos Templos de Tiro, de Sidom e de Asquelom tábuas de cobre, onde todas essas coisas deverão ser gravadas em caracteres romanos e gregos, e que esse ato seja comunicado a todos os magistrados de todas as cidades, a fim de que todos saibam que consideramos os judeus nossos amigos e desejamos que os seus embaixadores sejam bem recebidos. A presente ata será mandada a toda parte&quot;.
&quot;Caio César, imperador, ditador e cônsul. Determinamos, quer por motivo de honra, de virtude e de amizade, quer para o bem e benefício do senado e do povo romano, que Hircano, filho de Alexandre e seus filhos sejam sumos sacerdotes de Jerusalém e da nação do judeus, usufruindo esse cargo com os mesmos direitos e privilégios de que desfrutaram os seus predecessores&quot;.
&quot;Caio César, cônsul pela quinta vez. Ordenamos que seja fortificada a cidade de Jerusalém; que Hircano, filho de Alexandre, sumo sacerdote e príncipe dos judeus, governe segundo o que julgar mais conveniente; que coisa alguma se diminuirá aos judeus no segundo ano da renda de seus tributos; e que eles não serão inquietados e ficarão isentos dos impostos&quot;.
&quot;Caio César, imperador pela segunda vez. Ordenamos que os habitantes de Jerusalém paguem todos os anos um tributo, do qual a cidade de Jope estará isenta, mas que no sétimo ano, a que eles chamam ano do sábado, nada pagarão, porque nesses anos eles não semeiam nem cultivam a terra, nem recolhem os frutos das árvores; que pagarão de dois em dois anos, em Sidom, o tributo que consiste em um quarto das sementes e os dízimos a Hircano e seus filhos, como pagaram os seus predecessores. Determinamos também que nenhum governador, comandante de tropas ou embaixador poderá recrutar soldados ou fazer imposição alguma nas terras dos judeus, quer quanto aos quartéis de inverno, quer por qualquer outro pretexto, mas que eles sejam isentos de todas as coisas e desfrutem pacificamente tudo o que conquistaram ou compraram. Queremos ainda que a cidade de Jope, que eles possuíam ao fazer aliança com o povo romano lhes pertença, e que Hircano e seus filhos usufruam os rendimentos que dela provierem, tanto do que lhes pagam os lavradores quanto do direito de ancoragem ou da alfândega das mercadorias que se transportam a Sidom, que perfazem a cada ano vinte mil e seiscentos e setenta e cinco medidas, exceto no sétimo ano, a que os judeus chamam ano de descanso, no qual eles não cultivam nem colhem os frutos das árvores. Quanto às cidades que Hircano e seus predecessores possuíam no Grande Campo, apraz ao senado que Hircano e os judeus delas desfrutem da mesma maneira que antes. Ele quer também que as convenções feitas em todos os tempos entre os judeus e os sacerdotes sejam observadas e que eles usufruam todos os favores que lhes foram concedidos pelo senado e pelo povo romano, o que terá lugar mesmo com relação a Lida. Quanto às terras e outras coisas que os romanos haviam cedido aos reis da Síria e da Fenícia por causa da aliança que havia entre eles, o senador ordena que Hircano, príncipe dos judeus delas também desfrute e que, como ele, os seus filhos e os embaixadores tenham o direito de sentar-se com os senadores para assistir aos combates de gladiadores e outros espetáculos públicos. E ainda, quando tiverem alguma coisa que pedir ao senado, o ditador ou o coronel da cavalaria os introduzirá e lhes fará saber dentro de dez dias a resposta que se lhes tiver de dar&quot;.
&quot;Caio César, imperador, ditador pela quarta vez, cônsul pela quinta vez e declarado ditador perpétuo, falou deste modo quanto aos direitos que pertencem a Hircano, filho de Alexandre, sumo sacerdote e príncipe dos judeus: Os que antes governaram as nossas províncias, tendo prestado valiosos testemunhos a Hircano, sumo sacerdote dos judeus e aos de sua nação, de que o senado e o povo romano testemunharam o seu contentamento, é bem razoável que disso conservemos a memória e procuremos que o senado e o povo romano continuem a manifestar a Hircano, aos seus filhos e a toda a nação dos judeus todo o seu afeto&quot;.
&quot;Caio Júlio, ditador e cônsul, aos magistrados, ao conselho e ao povo dos parianianos, saudação. Os judeus vieram de diversos lugares procurar-nos em Delos e nos fizeram queixas, na presença de vossos embaixadores, da proibição que lhes haveis feito de viver segundo as suas leis e de fazer sacrifícios. Isso é exercer contra amigos e aliados nossos um rigor que não podemos permitir, não sendo justo obrigá-los no que se refere à sua disciplina e impedir-lhes de entregar o seu dinheiro, segundo o costume de sua nação, em festins públicos e em sacrifícios, pois isso lhes é permitido na própria cidade de Roma. E, pelo mesmo edito com que Caio César, cônsul, proibiu as assembléias públicas nas cidades, ele excetuou os judeus. Assim, embora proibamos essas assembléias, como ele o fez, permitimos aos judeus continuar as suas, como eles fazem e fizeram em todos os tempos. Assim, se ordenastes alguma coisa que fere os nossos amigos e aliados, é bem razoável que a revogueis em consideração à sua virtude e afeição por nós&quot;.
Depois da morte de César, Antônio e Dolabela, que então eram cônsules, reuniram o senado, fizeram lá entrar os embaixadores dos judeus e apresentaram o que eles pediam. Foi-lhes concedido tudo, e renovou-se por um decreto o tratado de confederação e de aliança. O próprio Dolabela, tendo recebido cartas de Hircano, escreveu também para toda a Ásia, particularmente à cidade de Éfeso, que era a principal.
Eis o que dizia a carta: &quot;O imperador* Dolabela, aos magistrados, ao conselho e ao povo de Éfeso, saudação. Alexandre, filho de Teodoro, embaixador de Hircano, sumo sacerdote, príncipe dos judeus, nos disse que os de sua nação não podem presentemente ir à guerra porque nos dias de sábado as leis de seu país lhes proíbem usar armas, empreender viagem e até mesmo cuidar do alimento. Eis por que, tencionando agir do mesmo modo como agiram os nossos predecessores, em cuja dignidade estamos, nós os isentamos de ir à guerra e permitimo-lhes viver segundo as suas leis e reunir-se como estão habituados a fazer, segundo a sua religião o determina, a fim de se entregarem às coisas santas e oferecerem sacrifícios. Entendemos que o comuniqueis a todas as cidades de vossa província&quot;.

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* A palavra &quot;imperador&quot; era então um título de honra que se dava aos generais que houvessem obtido alguma importante vitória sobre os inimigos.
O cônsul Lúcio Lêntulo disse, opinando no senado, que os judeus eram cidadãos romanos e viviam em Éfeso segundo as leis que a religião deles prescrevia e que lá anunciara, do alto de seu tribunal, a dezoito de setembro, que eles estavam isentos de ir à guerra.
Há vários decretos do senado e atos dos imperadores romanos em favor de Hircano e de nossa nação e cartas escritas às cidades e aos governadores das províncias relacionadas aos nossos privilégios. Os que os lerem sem prevenção não terão dificuldade em lhes prestar fé. Assim, tendo mostrado com provas tão claras e tão constantes a nossa amizade com o povo romano, e sendo que as colunas e as tábuas de cobre que ainda hoje se vêem no Capitólio são e serão sempre sinais indubitáveis disso, creio que nenhuma pessoa sensata delas ainda queira duvidar. Ao contrário, estou certo de que se julgará, pelo que acabo de dizer, da verdade das outras provas que eu ainda poderia trazer, mas que suprimo como supérfluas, para não aborrecer o leitor.
598.  Sobreveio nesse mesmo tempo, pelo motivo que vou dizer, uma grande agitação na Síria. Basso, que era do partido de Pompeu, mandou matar Sexto César à traição e apoderou-se da província com tropas que comandava. Os do partido de César imediatamente marcharam contra Basso, com todas as suas forças. Os arredores de Apaméia foram teatro dessa guerra. Antipatro, para mostrar a sua gratidão pelos favores que devia a César e vingar a morte deste, prestou-lhes socorro, sob o comando de seu filho. Como essa guerra se prolongava, Marcos foi enviado para substituir Sexto. César foi morto no senado por Cássio, por Bruto e por outros conjurados após reinar três anos e meio, como se poderá ver mais particularmente em outras histórias.

CAPÍTULO 18
CÁSSIO VEM À SÍRIA E TOMA SETECENTOS TALENTOS EM DINHEIRO DA
JUDÉIA. HERODES GANHA O SEU AFETO. INGRATIDÃO DE MALICO
PARA COM ANTIPATRO.

599.  Depois da morte de César, surgiu uma grande guerra civil entre os romanos. Os principais do senado iam por toda parte recrutar soldados. Cássio veio à Síria, tomou o comando das tropas que sitiavam Apaméia, levantou o cerco e conquistou Basso e Marcos para o seu partido. Em seguida, foi de cidade em cidade, reunindo soldados e exigindo grandes tributos, principalmente na Judéia, de onde levou mais de setecentos talentos de dinheiro. Antipatro, vendo as coisas malparadas, ordenou aos seus dois filhos que levassem parte dessa soma. Malico, que não o estimava, e outros foram encarregados do resto.
Herodes viu que a prudência o obrigava a ganhar o partido dos romanos, às custas de outrem, e foi o primeiro a executar a comissão na Galiléia, tornando-se querido de Cássio. Os outros governadores, não tendo agido do mesmo modo, irritaram-no muito, e ele pôs em leilão os habitantes de várias cidades, das quais as principais eram Gosna, Emaús, Lida e Tamna, e teria mandado matar Malico, se Hircano não lhe tivesse aplacado a cólera, mandando-lhe cem talentos por meio de Antipatro. Depois que Cássio partiu, Malico conspirou contra Antipatro, na esperança de que a morte deste confirmaria a dominação de Hircano. Antipatro, porém, veio a sabê-lo e partiu imediatamente para além do Jordão, a fim de reunir tropas tanto entre os habitantes dessas províncias quanto entre os árabes.
Quando Malico, que era um homem muito astucioso, viu que a sua traição fora descoberta, protestou com juramento que jamais tivera aquela intenção e que, sendo Fazael, filho mais velho de Antipatro, governador de Jerusalém e Herodes, seu segundo filho, comandante das tropas, não havia motivos para que semelhante pensamento lhe tivesse vindo à mente. Assim, ele reconciliou-se com Antipatro, porém Marcos, governador da Síria, descobriu o plano, que perturbaria toda a Judéia, e o teria matado se Antipatro não lhe salvasse a vida com os seus rogos, e nisso os fatos mostraram que ele cometeu uma grande imprudência.

CAPÍTULO 19
CÁSSIO E MARCOS, PARTINDO DA SÍRIA, DÃO A HERODES O COMANDO DO
EXÉRCITO QUE HAVIAM REUNIDO E PROMETEM FAZÊ-LO REI. MALICO MANDA
ENVENENAR ANTIPATRO. HERODES DISSIMULA, FINGINDO NÃO O SABER.

600. Cássio e Marcos, após terem reunido um exército, deram o comando a Herodes, bem como o de seus navios, e o fizeram governador da Baixa Síria, prometendo fazê-lo rei depois que terminasse a guerra empreendida contra Antônio e o jovem César (depois cognominado Augusto). Tão grande autoridade, unida a esperanças ainda maiores, aumentou o temor que Malico tinha de Antipatro. Resolveu por isso matá-lo. Para executar o seu projeto, subornou um camareiro de Hircano, que o envenenou um dia, quando ambos jantavam em casa desse príncipe dos judeus. Então Malico, seguido por soldados, foi à cidade para impedir que essa morte causasse alguma agitação. Herodes e Fazael, filhos de Antípatro, sentiram imenso a perda do pai e, tendo descoberto a maldade daquele camareiro, não tiveram dificuldade em deduzir que fora Malico o autor do crime, mas ele o negou terminantemente.
Esse foi o fim de Antípatro. Ele era um homem de bem e afeiçoadíssimo à sua pátria. Herodes quis partir imediatamente com um exército contra Malico, mas Fazael julgou mais conveniente dissimular, para surpreendê-lo, a fim de que não os pudessem acusar de suscitar uma guerra civil. Assim, Herodes fingiu prestar fé aos protestos que Malico fazia de não ter tido parte em tão negra ação e ocupou-se em enriquecer o túmulo que fizera edificar para o pai. Nesse meio tempo, ele veio a Samaria e a encontrou em grande desordem. Então procurou acomodar as coisas e remediar as dificuldades entre os habitantes.
Pouco tempo depois, próximo da celebração de uma grande festa em Jerusalém, ele para lá se dirigiu com os seus soldados. Malico, espantado por vê-lo chegar em tal companhia, convenceu Hircano a impedi-lo de entrar daquela maneira, dizendo que não era permitido a profanos, como os que estavam com Herodes, assistir às santas cerimônias. Herodes, porém, sem se deter ante tal proibição, entrou de noite na cidade e assim tornou-se ainda mais temível a Malico. O traidor recorreu aos seus embustes ordinários: chorava em público a morte de Antípatro, que dizia ter sido seu amigo íntimo, enquanto reunia soldados em segredo, para garantir a própria segurança. Herodes, vendo-o desconfiado, julgou melhor não dar a conhecer que sabia de sua hipocrisia. Preferiu fingir viver em paz com ele, para tranqüilizá-lo.

CAPÍTULO 20
CÁSSIO, A ROGO DE HERODES, MANDA ORDEM AOS CHEFES DAS TROPAS
ROMANAS PARA QUE VINGUEM A MORTE DE ANTÍPATRO, E ELES
APUNHALAM MALICO. FÉLIX, QUE COMANDAVA A GUARNIÇÃO ROMANA EM
JERUSALÉM, ATACA FAZAEL, QUE OBRIGA FÉLIX A PEDIR A CAPITULAÇÃO.

601. Quando Cássio, que sabia ser Malico um homem muito mau, soube por Herodes que ele mandara envenenar o seu pai, pediu-lhe para vingar a sua morte e enviou ordem secretas aos comandantes das tropas romanas que estavam em Tiro, a fim de que o ajudassem num ato tão justo. Cássio depois tomou Laodicéia, e os maiorais do país vieram trazer-lhe coroas e dinheiro. Herodes não duvidou de que Malico também viria e julgou ser aquela a ocasião mais propícia para executar o seu desígnio. Malico, estando já perto de Tiro, na Fenícia, começou a desconfiar e imaginou então uma empresa de vulto: levar de Tiro para a judéia o seu filho que lá estava como refém, incitar o povo a se revoltar e usurpar o governo enquanto Cássio estava ocupado na guerra contra Antônio.
Esse projeto tão ousado ter-se-ia realizado se a sorte lhe tivesse sido favorável. Mas como Herodes, que era extremamente hábil, suspeitava de que Malico tinha em mente algum projeto importante, enviou um dos seus sob o pretexto de preparar uma ceia para vários amigos; na realidade, ele estava indo rogar aos chefes das tropas romanas que comparecessem à presença de Malico levando punhais. Eles partiram imediatamente, alcançaram-no perto da cidade, ao longo do mar, e o mataram a golpes de punhal. Ao saber disso, o espanto de Hircano foi tão grande que ele perdeu a fala. Depois, mais calmo, mandou perguntar a Herodes o motivo daquela ação e soube que tudo se fizera por ordem de Cássio. Então louvou-o e disse que Malico era um homem muito mau e inimigo de sua pátria. Assim, a morte de Antípatro foi por fim vingada.
602. Depois que Cássio partiu da Síria, surgiram perturbações na Judéia. Félix, que fora deixado em Jerusalém com as tropas romanas, atacou Fazael, e o povo tomou as armas para defendê-lo. Herodes avisou Fábio, governador de Damasco, sobre isso e, quando se preparava para ir socorrê-lo, uma doença o reteve. Fazael, porém, não teve necessidade desse auxílio, pois obrigou Félix a se retirar a uma torre, de onde só lhe permitiu sair por capitulação. Em seguida, fez graves censuras a Hircano, por favorecer os seus inimigos depois de lhe haver prestado tantos serviços. Isso porque o irmão de Malico se havia apoderado de várias praças, dentre outras, Massada, que é um castelo muito forte. Herodes, quando sarou, retomou todas as praças e deixou-o partir, depois de terem feito um acordo.

CAPÍTULO 21
ANTÍGONO, FILHO DE ARISTÓBULO, REÚNE UM EXÉRCITO. HERODES DERROTA-O
E VOLTA TRIUNFANTE A JERUSALÉM. HIRCANO PROMETE DAR-LHE EM
CASAMENTO MARIANA, SUA NETA, FILHA DE ALEXANDRE,
FILHO DE ARISTÓBULO.

603.  Antígono, filho de Aristóbulo, conquistou Fábio por dinheiro e reuniu um exército. Ptolomeu Meneu adotou-o por causa do parentesco que havia entre eles. Foi também ajudado por Mariom, que, tendo sido feito príncipe de Tiro por intermédio de Cássio, governava tiranicamente a Síria — ele pusera guarnições em diversas praças e ocupara umas três delas na Galiléia. Herodes retomou-as todas, tratou bem os tírios que as ocupavam e até mesmo deu presentes a alguns, pela afeição que eles tinham à sua cidade. Marchou depois contra Antígono, deu-lhe combate e o venceu, mal tinha ele chegado à fronteira da judéia. Assim, voltou triunfante a Jerusalém. O povo ofereceu-lhe coroas, e também o próprio Hircano, pois o considerava então como da família, porque ele iria desposar Mariana, filha de Alexandre, filho de Aristóbulo e de Alexandra, filha de Hircano. O casamento realizou-se depois, e Herodes dele teve três filhos e duas filhas. Ele havia desposado em primeiras núpcias uma mulher de nome Dóris, que era de sua nação, e dela tivera Antípatro, seu filho mais velho.

CAPÍTULO 22
DEPOIS DA DERROTA DE CÁSSIO, PERTO DE FILIPOS, ANTÔNIO VEM À ÁSIA.
HERODES GANHA A SUA AMIZADE POR MEIO DE GRANDES PRESENTES.
DETERMINAÇÕES FEITAS POR ANTÔNIO EM FAVOR DE HIRCANO E DA
NAÇÃO JUDAICA.

604.  Cássio foi vencido em Filipos por Antônio e por Augusto. Este último passou para as Cálias, e Antônio veio para a Ásia. Quando chegou a Bitínia, embaixadores de diversas nações foram procurá-lo, e alguns dos mais influentes judeus acusaram Fazael e Herodes, dizendo que Hircano era rei apenas na aparência e que eles é que reinavam de verdade. Herodes veio justificar-se e por uma grande soma de dinheiro conseguiu ganhar Antônio, de tal modo que este, não se contentando em tratá-lo com muita distinção, nem mesmo quis ouvir os seus acusadores.
Quando Antônio estava em Éfeso, Hircano, sumo sacerdote, e o povo judeu enviaram-lhe embaixadores, que levaram para ele uma coroa de ouro e rogaram que escrevesse às províncias, mandando pôr em liberdade os de sua nação levados como escravos por Cássio, contra o direito da guerra, como também ordenando que devolvessem as terras que injustamente lhes haviam tirado. Ele achou o pedido razoável, concedeu-lhes o que pediam e escreveu a Hircano e aos tírios as seguintes cartas:
&quot;Marco Antônio, imperador, a Hircano, sumo sacerdote dos judeus, saudação. Lisímaco, filho de Pausânias, José, filho de Meneu, e Alexandre, filho de Teodoro, vossos embaixadores, vieram procurar-nos em Éfeso para confirmar as promessas já feitas em Roma acerca do afeto que vós e toda a vossa nação tendes por nós, e nós os recebemos com grande alegria, porque as vossas ações, a vossa virtude e a vossa piedade nos persuadem ainda mais que as vossas palavras. Como os inimigos nossos e do povo romano devastaram toda a Ásia sem poupar as cidades e os lugares santos e não tiveram escrúpulos em faltar à palavra e violar os seus juramentos, não foi tanto o nosso interesse particular quanto o bem geral de todos que nos levou a vingar tanta crueldade para com os homens e tanta impiedade ofensiva aos deuses, pois o próprio sol parece ter escondido os seus raios para não ver esse horrível crime cometido na pessoa de César. A Macedônia recebeu esses celerados em seu seio, e, como eles agiam furiosos, praticaram ali todo o mal possível e imaginável, particularmente em Filipos. Apoderaram-se em seguida de todos os lugares vantajosos, acobertaram-se nas muitas defesas dos montes, que se estendem até o mar, e julgaram-se em segurança por haver uma única estrada pela qual se podia ir a eles. Mas os deuses, horrorizados pelos seus detestáveis desígnios, concederam-nos a graça de vencê-los. Bruto fugiu para Filipos, onde o cercamos. Cássio pereceu com ele. Depois de termos castigado esses pérfidos como eles mereciam, esperamos desfrutar no futuro uma paz feliz, e a Ásia será libertada de tantas misérias que a guerra a fez sofrer. Parece que a nossa vitória começa já a fazê-la respirar, como um doente que convalesce de grave enfermidade. Tenhais vós e a vossa nação a certeza de ter parte nessa felicidade, porque eu vos estimo muito para deixar de nesta ocasião procurar o vosso benefício. Para vos dar prova disso, enviamos a todas as cidades ordem para que ponham em liberdade todos os judeus, tanto livres quanto escravos, que Cássio e os de seu partido venderam em leilão. Desejamos que todos os favores que nós e Dolabela vos concedemos tenham a sua validade. Proibimos também aos tírios empreender qualquer coisa contra vós e ordenamos que vos entreguem tudo o que ocuparam no vosso país. Recebemos a coroa de ouro que nos enviastes&quot;.
&quot;Marco Antônio, imperador, aos magistrados, ao senado e o povo de Tiro, saudação. Hircano, sumo sacerdote e príncipe dos judeus, nos fez saber, por meio de embaixadores, que ocupastes terras em seu país quando os nossos inimigos se apoderaram daquela província. Mas, como empreendemos esta guerra apenas para o bem do império, para proteger a justiça e a piedade, e para punir os ingratos e os maus, queremos que vivais em paz com os nossos amigos e aliados e que lhes restituais o que os nossos inimigos vos deram e que lhes pertence. Pois nenhum daqueles que vos deram tal posse recebeu esse encargo ou o comando do exército por autoridade do senado, e sim por usurpação, concedendo parte disso aos ministros de suas violências. E agora que eles receberam o castigo de que eram dignos, é justo e razoável que os nossos aliados entrem na posse pacífica de seus bens. Assim, se ainda ocupais alguma das terras pertencentes a Hircano, príncipe dos judeus, da qual vos apoderastes quando Cássio veio fazer uma guerra injusta no nosso governo, certamente as restituireis sem dificuldade. E, se pretendeis ter nelas algum direito, podereis dizer-nos as vossas razões quando passarmos por essa província, e os nossos aliados, por sua vez, apresentarão também as suas&quot;.
&quot;Marco Antônio, imperador, aos magistrados, ao senado e ao povo de Tiro, saudação. Nós vos enviamos a nossa ordem e desejamos que ela seja escrita em grego e em romano e posta nos vossos arquivos, em lugar de destaque, a fim de que todos as possam ler&quot;.
Numa assembléia em que os tírios travavam de seus negócios, Marco Antônio, imperador, disse: &quot;Depois de termos reprimido pelas armas o orgulho e a insolência de Cássio, que por mercê de agitações apoderou-se de um governo que não lhe pertencia absolutamente e se serviu de soldados que não estavam sob seu comando, devastando a judéia, embora essa nação seja amiga do povo romano, queremos reparar por justas sentenças e determinações eqüitativas as injustiças e violências que ele cometeu. Para isso, determinamos que todos os bens tomados ao judeus lhes sejam restituídos e que os que dentre eles foram feitos escravos sejam postos em liberdade. E, se alguém ousar desobedecer à presente determinação, seja castigado segundo a sua falta o merece&quot;.
Antônio escreveu a mesma coisa aos de Sidom, de Antioquia e de Arade.
 

Julguei dever referir aqui tudo isso para mostrar o interesse que o povo romano sempre teve pela nossa nação.

CAPÍTULO 23
COMEÇO DO AMOR DE ANTÔNIO POR CLEÓPATRA. ELE MALTRATA OS JUDEUS
QUE VÊM ACUSAR HERODES E FAZAELPERANTE ELE. ANTÍGONO, FILHO DE
ARISTÓBULO, FAZ AMIZADE COM OS PARTOS.

605. Quando Antônio estava para entrar na Síria, Cleópatra, rainha do Egito, veio procurá-lo na Cilícia e deu-lhe amor. Cem dos mais ilustres dos judeus dirigiram-se a ele em Dafne, que é um arrabalde de Antioquia, para acusar Herodes e Fazael e para isso escolheram os mais eloqüentes dentre eles. Messala tomou a defesa dos dois irmãos e foi ajudado por Hircano. Antônio, depois de escutar todos eles, perguntou a Hircano qual daqueles diferentes partidos era o mais capaz de governar o país. Ele respondeu que era o de Herodes, e então Antônio, que havia muito tempo nutria um afeto particular por esses dois irmãos (porque Antípatro o recebera muito bem em sua casa quando Gabínio fazia guerra na Judéia), os fez tetrarcas dos judeus e deu-lhes o encargo dos negócios da nação. Escreveu também cartas em seu favor. Mandou meter na prisão alguns dos inimigos deles, e os teria mandado matar se Herodes não tivesse intercedido por eles.
Esses ingratos, no entanto, em vez de reconhecer tal favor, mal regressaram de sua embaixada organizaram outra, com umas mil pessoas de seu partido, as quais foram a Tiro esperar Antônio. Mas Herodes e seu irmão já o tinham inteiramente a seu favor, por uma grande soma com que lhe haviam obsequiado. Assim, ele ordenou aos magistrados que castigassem esses deputados, pois queriam suscitar novas agitações, e ajudassem Herodes em tudo o que ele desejasse deles para se estabelecer na tetrarquia. Herodes mostrou ainda a sua generosidade nessa ocasião, pois fora procurar aqueles deputados enquanto passeavam à beira-mar e exortara-os a se retirar. Hircano, que estava com eles, deu-lhes o mesmo conselho, mostrando a gravidade do perigo em que se poriam, caso se obstinassem naquele empreendimento. Mas eles desprezaram esse aviso. Imediatamente os judeus, junto com os habitantes do lugar, lançaram-se sobre eles, feriram-nos e mataram alguns. Os outros fugiram e depois viveram em paz. Mas o povo não deixou de clamar contra Herodes, e Antônio ficou de tal modo encolerizado que mandou matar todos os que estavam presos.
606.  No ano seguinte, Pacoro, filho do rei dos partos, e um dos grandes de seu país, de nome Barzafarnés apoderou-se da Síria, e Ptolomeu Meneu veio a morrer nesse mesmo tempo. Lisânias, seu filho, sucedeu-o no reino e por meio de Barzafarnés, que tinha grande poder sobre ele, contraiu amizade com Antígono, filho de Aristóbulo.

CAPÍTULO 24
ANTÍGONO, AJUDADO PELOS PARTOS, CERCA INUTILMENTE FAZAEL E
HERODES NO PALÁCIO DE JERUSALÉM. HIRCANO E FAZAEL DEIXAM-SE
PERSUADIR PARA PROCURAR BARZAFARNÉS.

607.  Antígono prometeu aos partos mil talentos e quinhentas mulheres se eles tirassem o reino de Hircano e o entregassem a ele e mandassem matar Herodes com todos os seus partidários. Eles marcharam então para a )udéia, embora ainda não tivessem recebido aquela soma. Pacoro avançou ao longo do mar, e Barzafarnés, pelo meio das terras. Os tírios recusaram-se a receber Pacoro, mas os sidônios e os tolemaidos abriram-lhe as portas. Ele mandou adiante, para a Judéia, um corpo de cavalaria comandado pelo seu mordomo-mor, que se chamava Pacoro, como ele, para fazer um reconhecimento por todo o país e ordenou-lhe agir em conjunto com Antígono.
Os judeus que moravam no monte Carmelo dirigiram-se a Antígono, e ele julgou poder, por esse meio, apoderar-se daquela parte do país, que se chama Druma. Os judeus uniram-se a eles e então avançaram até Jerusalém, onde, aumentando ainda mais o seu poder com um maior número de homens, sitiaram Fazael e Herodes no palácio real. Os dois irmãos atacaram-nos no grande mercado, repeliram-nos, obrigaram-nos a se retirar ao Templo e puseram soldados nas casas que estavam próximas. O povo sitiou-os lá, incendiou as casas e queimou os que as defendiam. Herodes não demorou muito para se vingar, atacando e matando um grande número deles. Não se passava um dia em que não houvesse alguma escaramuça.
Antígono e os de seu partido esperavam com impaciência a festa de Pente-costes, que estava próxima, porque uma grande multidão de povo viria de todas as partes para celebrá-la. Aquela oportunidade veio, e o povo começou a chegar. Uns vinham armados, e outros, sem armas. Encheram o Templo e toda a cidade, exceto o palácio, do qual Herodes guardava o interior com poucos soldados, enquanto Fazael guardava o exterior. Herodes atacou os inimigos que estavam nos arrabaldes e, depois de um renhido combate, pôs em fuga a maior parte, muitos dos quais se retiraram para a cidade, outros para o Templo e outros ainda para trás das defesas que estavam próximas. Fazael agiu então muito bem e com acerto.
Pacoro, o mordomo, entrou na cidade com poucos homens, a rogo de Antígono, com o pretexto de apaziguar a perturbação, mas tinha na realidade o propósito de fazê-lo rei. Fazael veio à sua presença e o recebeu muito bem no seu palácio. Pacoro, para fazê-lo cair na armadilha, aconselhou-o a ir procurar Barzafarnés. Fazael, que de nada desconfiava, deixou-se persuadir, contra a opinião de Herodes, que, conhecendo bem a perfídia daqueles bárbaros, o aconselhava a fazer o contrário, isto é, a se desfazer de Pacoro e de todos os que tinham vindo com ele. Assim, Hircano e Fazael se puseram a caminho, e Pacoro cedeu-lhes duzentos cavaleiros e dez daqueles que se chamavam livres, para acompanhá-los.
Chegando à Galiléia, os governadores das praças vieram com armas encontrá-los, e Barzafarnés, de início, recebeu-os muito bem e deu-lhes presentes, mas depois ficou pensando em como se desfazer deles. Levou-os a uma casa perto do mar, onde Fazael soube que Antígono tinha prometido a Barzafarnés mil talentos e quinhentas mulheres. Começou então a desconfiar, e também o avisaram de que naquela mesma noite lhe dariam guardas para se apoderar de sua pessoa, o que de fato teria sido feito sem se esperar que os partos que estavam em Jerusalém tivessem se apoderado de Herodes, para que este não escapasse quando soubesse que Hircano e Fazael haviam sido presos.
Pareceu logo que aquele aviso era verdadeiro, pois viram chegar os guardas. Aconselharam então Fazael, particularmente um certo Ofélio, que descobrira o segredo por meio de Saramala, o mais rico de todos os sírios, a montar imediatamente num cavalo para se salvar. Ofereceu-lhe navios para esse fim, porque não estavam longe do mar. Mas Fazael julgou que não devia abandonar Hircano e deixar Herodes, seu irmão, em perigo. Assim tomou a deliberação de ir procurar Barzafarnés e disse-lhe que não podia, sem uma extrema injustiça e sem desonrá-lo, atentar contra a vida de pessoas que o tinham vindo procurar de boa fé e das quais não tinha motivo para se queixar. Se precisava de dinheiro, ele poderia dar-lhe muito mais que Antígono. Barzafarnés protestou com juramento que nada havia de mais falso que aquilo que lhe haviam dito e foi procurar Pacoro.

CAPÍTULO 25
BARZAFARNÉS CONSERVA PRESOS FAZAEL E HIRCANO. MANDA SOLDADOS A
JERUSALÉM PARA PRENDER HERODES. DURANTE A NOITE, HERODES SE RETIRA
COM TODOS OS SEUS SOLDADOS E PARENTES. E ATACADO NO CAMINHO, MAS
LEVA VANTAGEM. FAZAEL SUICIDA-SE. INGRATIDÃO DO REI DOS ÁRABES PARA
COM HERODES, QUE VAI A ROMA.

608. Logo que Barzafarnés partiu, prenderam Hircano e Fazael, que nada mais pôde fazer senão execrar tal perfídia. Aquele bárbaro mandou ao mesmo tempo um eunuco a Jerusalém, a Herodes, com 
ordem de atraí-lo para fora do palácio e prendê-lo. Mas este sabia que os partos haviam aprisionado os que Fazael lhe mandara para avisá-lo da traição. Fez graves queixas a Pacoro e a todos os outros chefes, e eles, embora de tudo soubessem, fingiram completa ignorância do que se passava e disseram-lhe que ele não devia criar dificuldades para sair do palácio a fim de receber as cartas que lhe queriam entregar, pois traziam somente boas notícias de seu irmão. Herodes não prestou fé a essas palavras porque já sabia da prisão de Fazael, confirmada por Alexandra, filha de Hircano, cuja filha ele devia desposar. Embora os outros zombassem de seus avisos, ela não deixava de os considerar atentamente, porque era uma mulher muito hábil.
Os partos, embaraçados quanto ao que deviam fazer, porque não ousavam atacar abertamente um homem tão destemido, deixaram para o dia seguinte a sua determinação. Então Herodes, não podendo mais duvidar de sua perfídia e da prisão de seu irmão, embora outros afirmassem o contrário, resolveu aproveitar para fugir naquela mesma tarde, evitando permanecer em tal risco no meio de seus inimigos. Para realizar essa resolução, tomou tudo o que tinha de soldados, fez subir em carros puxados por cavalos sua mãe, sua irmã, sua noiva Mariana, Alexandra, mãe dela, seu irmão, todos os criados e o resto dos servidores. Assim, tomou o caminho para a Iduméia sem que os inimigos o soubessem.
Teria sido impossível permanecer insensível diante de tão triste espetáculo. Mulheres banhadas em lágrimas e aflitas pela dor arrastavam os filhos, abandonavam o seu país e deixavam parentes na prisão, não podendo esperar também para si mesmas uma sorte melhor. Nada, porém, pôde abater a coragem de Herodes. Nessa contingência, ele mostrou que o seu valor era maior que a sua infelicidade e durante toda a viagem não deixava de exortá-los a suportar corajosamente a situação a que se encontravam reduzidos, sem se deixar dominar pela tristeza ou por queixumes inúteis, que só iriam retardar a fuga, sua única esperança de salvação. Mas aconteceu um acidente, e este o tocou de tal modo que pouco faltou para que não se suicidasse: o carro no qual estava a sua mãe tombou, e ela ficou tão ferida que se pensava que viesse a morrer.
A grande dor que ele sentiu, unida ao temor de que seus inimigos chegassem de repente, aproveitando o atraso de sua retirada, deixou-o tão fora de si que ele puxou a espada, e atravessá-la-ia no próprio corpo se alguns dos que estavam perto não tivessem impedido aquele gesto. Eles rogaram-lhe que não os abandonasse ao furor dos inimigos, mostrando que aquela não era uma ação digna de sua generosidade, isto é, pensar somente em se esquivar daqueles males, mais temíveis que a própria morte, sem se incomodar que pessoas que lhe eram tão caras ficassem a eles expostas. Assim, em parte pela força e em parte pela vergonha de sucumbir ante a infelicidade, ele desistiu daquele fúnebre desígnio, mandou medicar a mãe como se poderia fazer naquela contingência, e retomaram o caminho para a fortaleza de Massada.
Os partos atacaram-no várias vezes durante o caminho, e ele os venceu em todas as ocasiões. Até mesmo alguns judeus o atacaram, quando ele ainda não estava afastado de Jerusalém mais que uns sessenta estádios, mas ele os venceu também num grande combate, porque não se defendia como um homem que foge e é surpreendido, e sim como um grande general preparado para sustentar um ataque violento. E, quando ele foi elevado ao trono, mandou construir naquele mesmo lugar um soberbo palácio e uma cidade, a que chamou Herodiom.
Quando chegou a Tressa, aldeia da Iduméia, José, seu irmão, veio encontrá-lo, e juntos consideraram sobre o que fazer com o grande número de soldados que Herodes trouxera, além dos que estavam sob pagamento, porque a fortaleza de Massada, onde ele queria abrigar-se, não era bastante grande para recebê-los todos. Resolveu então mandar embora a maior parte deles, mais ou menos umas nove mil pessoas. Deu-lhes víveres e disse-lhes que poderiam se estabelecer do melhor modo possível nas diversas regiões da Iduméia. Ficou com os parentes e mais alguns valentes e peritos. Deixou as mulheres na fortaleza, bem como as pessoas para servi-las, em número de oitocentos mais ou menos. Como a fortaleza tinha bastante trigo e água e todas as outras coisas necessárias para a sua subsistência, ele tranqüilizou-se. Depois de tomar todas as providências, partiu para Petra, capital da Arábia.
Despontando o dia, os partos saquearam e roubaram tudo o que Herodes havia deixado em Jerusalém, até mesmo no palácio. Não tocaram, porém, em trezentos talentos que pertenciam a Hircano, e uma parte do que pertencia a Herodes também foi salva, com tudo o que a sua previdência o fizera mandar para a Iduméia. Os bárbaros não se contentaram em saquear a cidade, devastaram também os campos e destruíram inteiramente Maressa, cidade muito rica. Assim, Antígono apoderou-se da Judéia, 
tomando-lhe o governo por intermédio do rei dos partos. Entregaram-lhe também Hircano e Fazael como prisioneiros, mas ele ficou muito envergonhado, porque as mulheres que ele prometera dar ao príncipe junto com os quinhentos talentos haviam escapado. E, com medo de que o povo restaurasse Hircano no trono, mandou cortar-lhe as orelhas, para torná-lo inapto ao sumo sacerdócio, porque a Lei proíbe que se conceda essa honra aos que têm qualquer defeito físico.
609.  Não poderemos deixar de admirar a grandeza da coragem de Fazael. Ele não temia tanto a morte, à qual sabia estar destinado, quanto a vergonha de recebê-la das mãos do inimigo. Não podendo matar-se, porque estava acorrentado, quebrou a cabeça contra uma pedra. Diz-se que Antígono lhe mandou alguns médicos, os quais, em vez de medicá-lo, envenenaram-lhe as feridas. Antes de morrer, ele teve a consolação de saber por uma mulher pobre que Herodes estava a salvo e suportou a morte alegremente, acreditando que deixava um irmão que a vingaria e que seus inimigos receberiam dele o castigo pela sua perfídia.
610.  Herodes, cuja coragem não se abatia ante a fortuna adversa, tudo fazia para se pôr em condições de superá-la. Foi procurar Malco, rei dos árabes, que lhe devia grandes favores, para pedir-lhe que demonstrasse reconhecimento em tão pungente necessidade e, principalmente, que o ajudasse com dinheiro, quer como donativo, quer como empréstimo. Como ainda não sabia da morte do irmão, estava resolvido a empregar até trezentos talentos para resgatá-lo. Havia até mesmo levado consigo, para esse fim, o filho de Fazael, de apenas sete anos de idade, para dá-lo como refém aos árabes. Porém, alguns homens enviados por esse príncipe vieram ordenar-lhe, da parte dele, que saísse de suas terras, porque os partos o haviam proibido de recebê-lo, dizendo-lhe que os grandes de seu reino tinham dado aquele covarde conselho para dele se isentarem, com o pretexto de entregar a Herodes o dinheiro que Antípatro havia confiado em depósito. Herodes respondeu que não o queria atacar, mas desejava apenas falar-lhe de assuntos importantes.
611. Depois de pensar, ele julgou que era melhor retirar-se e dirigiu-se para o Egito, tão insatisfeito como se pode imaginar alguém diante de uma ação tão indigna de um rei. Deteve-se num Templo onde havia deixado vários dos que o acompanhavam, chegando no dia seguinte a Rinosura, e lá soube da morte de Fazael. No entanto, o rei dos árabes reconheceu o seu erro e, sentido, veio ao seu encalço, mas não pôde alcançá-lo, porque ele caminhava rapidamente, a fim de chegar logo a Pelusa. Alguns marinheiros que iam para Alexandria, porém, recusaram-se a recebê-lo em seu navio, e Herodes dirigiu-se então aos magistrados, que lhe prestaram grandes honras. A rainha Cleópatra quis retê-lo, mas não conseguiu persuadi-lo a ficar, tanto ele estava ansioso para ir a Roma, embora fosse pleno inverno e corresse a notícia de que as coisas na Itália estavam muito difíceis, com grandes perturbações e motins.
Assim, ele embarcou para a Panfília, mas foram acossados por uma violenta tempestade, que os obrigou a lançar ao mar muitas das coisas que estavam no navio. Chegou por fim a Rodes. Lá encontrou dois amigos, Sapinas e Ptolomeu. Ficou tão comovido ao ver a cidade destruída pela guerra contra Cássio que nem a necessidade em que se encontrava o impediu de fazer-lhe grandes benefícios, muito acima de suas posses. Ali equipou uma galera, embarcou com os seus amigos, chegou a Brindisi e de lá foi para Roma, onde primeiramente se dirigiu a Antônio. Contou-lhe tudo o que havia acontecido na Judéia: que seu irmão Fazael fora aprisionado e morto pelos partos; que eles ainda retinham Hircano prisioneiro; que haviam constituído Antígono rei porque ele lhes prometera mil talentos e quinhentas mulheres, as quais escolheu dentre as pessoas de maior destaque, particularmente da família dele, de Herodes; que para salvá-las de suas mãos ele as levara à noite, com muita dificuldade, deixando-as em grandíssimo perigo; e que por fim enfrentara os risco do mar em pleno inverno para vir procurá-lo, como sendo o seu refúgio e o único de quem esperava algum auxílio.

CAPÍTULO 26
HERODES É DECLARADO EM ROMA REI DA JUDÉIA POR ANTÔNIO, COM O
AUXÍLIO DE AUGUSTO. ANTÍGONO SITIA MASSADA, DEFENDIDA POR JOSÉ,
IRMÃO DE HERODES.

612. A compaixão que Antônio sentiu da infelicidade a que a inconstância da sorte — que sente prazer em perseguir os homens mais ilustres — reduzira Herodes, a lembrança da maneira gentil com que Antípatro, seu pai, o havia recebido em casa, a consideração do dinheiro que ele lhe prometia se o fizesse rei, tal como já o fizera tetrarca, e principalmente o ódio contra Antígono, que ele considerava faccioso e inimigo declarado dos romanos, fizeram-no decidir-se por ajudá-lo com todas as suas posses. Augusto fez o mesmo, tanto em consideração à amizade particular que César tivera por Antípatro, por causa do auxílio dele recebido na guerra do Egito, quanto pelo desejo de obsequiar Antônio, a quem via abraçar com tanto ardor os interesses de Herodes. Assim, reuniram o Senado.
Messala e Atratino introduziram Herodes, elogiaram grandemente os serviços que seu pai e ele haviam prestado ao povo romano, lembrando que Antígono, ao contrário, não somente era um inimigo declarado, tal como o provavam as suas ações precedentes, como também demonstrara total desprezo pelos romanos ao receber a coroa das mãos dos partos. Essas palavras incitaram o senado contra Antígono, e Antônio acrescentou que na guerra que se travaria contra os partos seria, sem dúvida, muito vantajoso constituir Herodes rei da Judéia. Todos aceitaram a proposta, e o favor que Herodes ficou devendo a Antônio foi tanto maior quanto era inesperada aquela extraordinária graça, pois os romanos não costumavam outorgar coroas senão aos de família real. Ele havia pensado apenas em pedir a coroa da Judéia para Alexandre, irmão de Mariana e neto de Aristóbulo do lado paterno e de Hircano do lado materno. (Herodes depois mandou matar Alexandre, como diremos a seu tempo.) Podemos acrescentar que a pressa de Antônio aumentou ainda esse favor, pois esse importante assunto foi concluído em sete dias.
Ao sair do Senado, Antônio e Augusto levaram Herodes em sua companhia e, seguidos pelos cônsules e senadores, foram ao Capitólio, onde ofereceram sacrifícios e colocaram como num sagrado depósito o decreto do senado. Antônio em seguida ofereceu um lauto banquete ao novo príncipe, cujo reinado se iniciava na centésima octogésima quarta Olimpíada, no consulado de Caio Domício Calvino e Caio Asínio Polião.
61 3. Enquanto isso se passava em Roma, Antígono sitiava a fortaleza de Massada. José, irmão de Herodes, a defendia. Estava ela bem provida de todas as coisas, mas faltava água. Como José sabia que Malco, rei dos árabes, estava sentido por ter dado motivos para que Herodes ficasse descontente com ele, resolveu, naquela contingência, sair à noite com duzentos homens para ir procurá-lo, mas naquela mesma noite caiu tão forte chuva que as cisternas se encheram. E assim, não tendo mais necessidade de água, cuidou apenas em defender-se bem. Aquele auxílio, que ele e os seus julgaram vir do céu, elevou-lhes de tal modo a coragem que eles faziam contínuas arremetidas contra os sitiantes, quer em pleno dia, quer à noite, e assim conseguiram matar muitos deles.
614.  Ventídio, general de um exército romano, expulsou os partos da Síria, entrou na Judéia e acampou perto de Jerusalém, sob o pretexto de socorrer José, mas na realidade viera tirar dinheiro de Antígono, como de fato tirou. Ele retirou-se em seguida com a maior parte das tropas e deixou o resto sob o comando de Silom. Antígono foi obrigado a dar dinheiro também a este, para que ele não lhe fosse contrário durante o tempo em que ele aguardava socorro, que lhe deveria vir dos partos.

CAPÍTULO 27
HERODES, VOLTANDO DE ROMA, REÚNE UM EXÉRCITO, TOMA ALGUMAS PRAÇAS E SITIA JERUSALÉM, MAS NÃO CONSEGUE TOMÁ-LA. DERROTA OS
INIMIGOS NUM GRANDE COMBATE. SEU ESTRATAGEMA PARA VENCER
JUDEUS PARTIDÁRIOS DE ANTÍGONO, QUE FAZIA A GUERRA AOS PARTOS.
BELOS COMBATES QUE TRAVA A CAMINHO. JOSÉ, IRMÃO DE HERODES, É
MORTO EM COMBATE. ANTÍGONO MANDA CORTAR-LHE A CABEÇA, E
HERODES VINGA ESSA MORTE. SITIA JERUSALÉM, ONDE SÓSIO SE UNE A ELE
COM UM EXÉRCITO ROMANO. HERODES DESPOSA MARIANA.



615.  Herodes, voltando de Roma, reuniu em Ptolemaida uma grande quantidade de tropas, tanto de sua nação quanto estrangeiras, que tomou sob pagamento, sendo ajudado ainda por Ventídio e por Silom, a quem Gélio havia trazido uma ordem de Antônio para se unir a ele. Ambos antes estavam ocupados: o primeiro acalmando agitações em algumas cidades, devido à invasão dos partos, e o segundo estava na Judéia, onde Antígono o subornara com dinheiro. Herodes entrou na Caliléia para marchar contra Antígono. Suas forças aumentavam sempre, à medida que ele avançava, e quase toda a Galiléia abraçou o seu partido.
A primeira coisa que ele resolveu empreender foi fazer levantar o cerco de Massada, para livrar os seus parentes, que lá estavam encerrados. Mas era antes necessário tomar Jope, a fim de não deixar atrás de si nenhuma praça-forte quando avançassem para Jerusalém. Silom aproveitou a oportunidade para se retirar, e os judeus do partido de Antígono perseguiram-no. Mas Herodes, embora tivesse poucos soldados, deu-lhes combate, derrotou-os e salvou Silom, que já não lhes podia resistir. Depois tomou Jope e avançou rapidamente para Massada. O seu exército fortificava-se dia a dia com os compatriotas que se uniam a ele, uns pelo afeto que tinham tido por seu pai, outros pela estima que tinham por ele e outros ainda pelos favores que deviam a ambos. A maior parte, porém, vinha pela esperança dos benefícios que imaginavam receber dele como rei. Antígono fez-lhe diversas emboscadas pelo caminho, mas sem grande vantagem. Assim, Herodes fez levantar o cerco de Massada e, aumentando ainda as suas forças com os que estavam nessa praça, tomou o castelo de Ressa e avançou para Jerusalém, seguido pelas tropas de Silom e por vários habitantes daquela grande cidade, que temiam o seu poder.
Herodes sitiou-a do lado do ocidente, e os que a defendiam atiraram grande número de flechas e grande quantidade de dardos, e fizeram várias arremetidas contra as suas tropas. Ele começou anunciando por um arauto que não viera com outro objetivo senão o bem da cidade e que esqueceria as ofensas feitas a ele pelos seus maiores inimigos, não excetuando ninguém dessa anistia geral. Antígono respondeu, dirigindo-se a Silom e aos romanos, que era coisa indigna da justiça, de que o povo romano fazia profissão, colocar no trono um simples particular, ainda mais um idumeu, isto é, um semijudeu, contra as leis da nação, que só concedia aquela honra a quem o nascimento tornava digno dela, e que, se estavam descontentes por ele haver recebido a coroa das mãos dos partos, restavam ainda outros, de família real, que não haviam ofendido os romanos e aos quais podiam oferecê-la, e também sacerdotes, aos quais não era justo privar de uma honra à qual tinham o direito de aspirar.
Antígono e Herodes assim discutiram e chegaram mesmo às injúrias. Antígono permitiu aos seus repelir os inimigos, e eles atiraram-lhes flechas e lançaram tantos dardos do alto das torres que os obrigaram a se retirar. Viu-se então claramente que Silom se deixara subornar por dinheiro, pois ele permitiu que vários de seus soldados começassem a gritar que lhes dessem víveres e dinheiro com quartéis de inverno, porque os campos haviam sido inteiramente devastados pelas tropas de Antígono. Todo o acampamento se revoltou então, preparando-se para se retirar, mas Herodes pediu aos oficiais das tropas romanas que não o abandonassem daquela maneira, lembrando-lhes que haviam sido enviados por Antônio, Augusto e pelo senado para ajudá-lo e que, quanto aos víveres, ele daria uma ordem, e nada haveria de faltar.
Essa promessa ele cumpriu imediatamente. Mandou buscar alimento em tão grande quantidade que tirou qualquer pretexto de Silom para se retirar. Pediu também aos amigos em Samaria que levassem a jerico trigo, vinho, óleo, gado e todas as outras coisas necessárias a um exército. Logo que Antígono soube disso, deu ordem que se reunissem as tropas de seu partido, as quais ocuparam as passagens dos montes e armaram ciladas aos que traziam esses víveres de Jerico.
Herodes, que por seu lado de nada se descuidava, tomou cinco coortes romanas, cinco dos judeus, alguns soldados estrangeiros e parte de sua cavalaria e foi a jerico. Achou a cidade abandonada, e quinhentos de seus habitantes haviam fugido para os mortes com as suas famílias. Ele os mandou prender e depois os soltou. Os romanos encontraram a cidade cheia de toda espécie de bens e a saquearam. Herodes lá deixou uma guarnição e deu quartéis de inverno para as tropas romanas na Iduméia, na Galiléia e em Samaria. Antígono, como recompensa pelos presentes que concedera a Silom, obteve dele 
que mandasse uma parte de suas tropas a Lida, para ganhar as boas graças de Antônio. Assim, os romanos puderam viver em paz e em grande abundância.
616. Herodes, que não queria ficar inativo, enviou José, seu irmão, à Iduméia com mil homens de infantaria e quatrocentos cavaleiros, enquanto ele foi a Samaria, onde deixou a sua mãe e os demais parentes que havia retirado de Massada. Passou depois à Galiléia para tomar as praças nas quais Antígono havia colocado guarnições. Chegou a Seforis numa ocasião em que caía muita neve, e os que a defendiam para Antígono fugiram. Ele aí encontrou grande quantidade de víveres. Mandou de lá um corpo de cavalaria e três coortes contra os ladrões que se refugiavam nas cavernas próximas à aldeia de Arbela.
Quarenta dias depois, ele avançou com o seu exército, e os inimigos apareceram com muita coragem e ousadia. Travou-se logo um grande combate. A ala esquerda do exército de Herodes foi desbaratada, mas ele a socorreu com tanta força e energia que a fez voltar a sua frente para aqueles dos seus que lhes tinham voltadas as costas, pondo assim em fuga os inimigos, que já se julgavam vitoriosos, e perseguindo-os até o Jordão. Tão belo feito trouxe ao seu partido o resto da Galiléia, exceto os que se haviam retirado para as cavernas. Deu aos seus soldados cento e cinqüenta dracmas por cabeça, tratou os oficiais de acordo com o cargo e os enviou aos quartéis de inverno.
Silom foi obrigado a abandonar os seus soldados e vir procurá-lo com os seus oficiais, porque Antígono só forneceria víveres às suas tropas durante um mês, e dera ordem aos habitantes dos lugares vizinhos que lhes retirassem todas as coisas necessárias à vida e fugissem para as montanhas, a fim de fazê-los morrer de fome. Herodes tomou providências e entregou essa incumbência a Feroras, seu irmão mais novo, ao qual ordenou que também restaurasse o castelo de Alexandriom, que estava completamente abandonado.
617. Antônio estava então em Atenas, e Ventídio, na Síria, de onde mandou dizer a Silom que fosse procurá-lo para marchar com as tropas auxiliares das províncias contra os partos, mas somente depois que tivesse prestado a Herodes o auxílio de que este necessitava. Herodes, no entanto, não quis retê-lo e foi com as suas tropas contra os ladrões que estavam em famílias nas cavernas do monte. A dificuldade era lá chegar, porque os caminhos são muito estreitos e cercados de rochedos pontudos e precipícios que impedem subir até lá quando se está ao pé do monte e descer quando se está em cima. Para remediar essa dificuldade, Herodes mandou fazer caixas amarradas a cadeiras de ferro, que eram descidas da montanha por meio de máquinas. As caixas eram cheias de soldados armados com alabardas, para ferir os que lhes opusessem resistência.
A descida era muito perigosa por causa da altura, e os que se haviam escondido nas cavernas tinham abundância de víveres. Quando as caixas chegavam à entrada das cavernas, um soldado armado com espada, escudo e vários dardos agarrava com as duas mãos as cadeias às quais a caixa estava presa e lançava-se por terra. Se ninguém aparecia, ele aproximava-se da entrada de uma das cavernas, matava quantos encontrasse a golpes de dardos, fisgava com a alabarda os que lhe queriam resistir e precipitava-os do alto dos rochedos. Entrava depois na caverna, onde matava mais alguns, e em seguida voltava para a caixa. Os gritos espantavam os demais e os faziam desesperar da própria salvação. Mas a noite obrigou os soldados de Herodes a se retirar, e ele mandou avisar que perdoaria a todos os que se entregassem.
No dia seguinte, começaram a atacar do mesmo modo, e vários soldados saíram das caixas para combater à entrada das cavernas. Lançaram-lhes fogo, sabendo que dentro havia grande quantidade de matéria combustível. Numa das cavernas havia um velho escondido com a sua mulher e sete filhos, os quais, vendo-se reduzidos a tal extremo, pediram-lhe permissão para entregar-se. Em vez de a conceder, o velho pôs-se à entrada da caverna e matou-os um a um, inclusive a mulher, à medida que tentavam sair, lançando os corpos do alto do monte. Depois lançou-se ele mesmo, preferindo assim a morte à escravidão. Antes de se precipitar, porém, fez mil censuras a Herodes, dizendo-lhe palavras ofensivas, embora o príncipe, que o avistava, fizesse sinais com a mão, a indicar que desejava perdoá-lo. Assim, todos os que estavam nas cavernas foram obrigados a se entregar, porque não podiam mais se esconder nem resistir.
618.  O hábil Herodes, depois de constituir Ptolomeu governador do país, foi a Samaria com seiscentos cavaleiros e três mil soldados de infantaria, com o intuito de combater Antígono. Ptolomeu saiu-se mal nesse cargo. Foi atacado e morto por aqueles que antes haviam perturbado a Galiléia. Eles fugiram em seguida para os pântanos e outros lugares inacessíveis, de onde devastavam os campos. Herodes não se demorou muito em castigá-los, pois veio combatê-los e matou uma parte deles. 
 
 
Apoderou-se dos lugares para onde os outros se haviam retirado e matou-os também. Destruiu em seguida esses lugares e condenou as cidades a pagar uma multa de cem talentos, cortando assim as sublevações pela raiz.
619.  Os partos foram vencidos numa grande batalha onde Pacoro, seu rei, foi morto. Ventídio, por ordem de Antônio, enviou Maquera ao rei Herodes com duas legiões e mil cavaleiros. Antígono subornou Maquera com dinheiro, e assim, embora Herodes tentasse impedir que ele fosse procurar Antígono, Maquera para lá se dirigiu, sob o pretexto de observar o estado das forças. Mas Antígono não confiou nele e não somente se recusou a recebê-lo como mandou atacá-lo. Então ele reconheceu a sua falta e foi para Emaús. Cheio de cólera, mandou matar todos os judeus que encontrou em seu caminho, sem indagar se eram amigos ou inimigos.
Esse proceder de Maquera enfureceu Herodes, que foi a Samaria resolvido a procurar Antônio e rogar-lhe que não mais lhe mandasse tal auxílio, pois causava mais mal a ele que aos seus inimigos, e ele muito bem o poderia dispensar, porque se sentia forte o bastante para combater Antígono. Maquera veio procurá-lo no caminho e pediu-lhe que ficasse ou pelo menos lhe cedesse José, seu irmão, para juntos fazerem a guerra a Antígono. Assim, eles reconciliaram-se, e Herodes acedeu aos pedidos de Maquera, deixando-lhe a maior parte do exército, sob o comando de José, ao qual recomendou que não se arriscasse nem se indispusesse com Maquera.
620.  Em seguida, Herodes foi com um corpo de cavalaria e de infantaria procurar Antônio, que sitiava a cidade de Samosata, situada sobre o rio Eufrates. Encontrou em Antioquia um grande número de pessoas que também queriam falar com Antônio, mas não se atreviam a se pôr a caminho para continuar a viagem porque os bárbaros espalhados pelas redondezas matavam todos os que lhes caíam nas mãos. Ele os tranqüilizou e se ofereceu para lhes servir de chefe, já estavam eles há dois dias em Samosata.
Os bárbaros, que se haviam reunido em grande número para atacar os que iam procurar Antônio, só saíram de sua emboscada quando os viram atravessando a planície. Deixaram, porém, passar a primeira tropa de Herodes e atacaram com quinhentos cavaleiros a que veio depois, onde ele estava em pessoa. Puseram em fuga as primeiras linhas, mas o príncipe atacou-os tão violentamente que ergueu a coragem e o ânimo dos seus, fazendo voltar ao combate os que já haviam desistido da luta. Ele dizimou a maior parte daqueles bárbaros, atacando-os até reconquistar todos os despojos e os prisioneiros que eles haviam feito. Continuando a viagem, derrotou outro grande número de bárbaros, que estavam nos bosques próximos daqueles campos com o propósito de se lançar sobre os viandantes, e matou grande quantidade deles. Assim, garantiu a passagem aos que vinham atrás dele, os quais o chamavam de protetor e salvador.
Aproximando-se eles de Samosata, Antônio, que já soubera como ele havia derrotado os bárbaros e do auxílio que lhe trazia, mandou o que havia de melhor em suas tropas para recebê-lo com honras e demonstrações de alegria. Depois abraçou-o, louvou o seu valor e o tratou como um príncipe, ao qual ele mesmo havia posto a coroa na cabeça. Logo depois, Antíoco entregou Samosata, e a guerra terminou. Antônio deixou Sósio como comandante do exército e da província, com ordem de ajudar o rei Herodes em tudo o que ele viesse precisar, e partiu para o Egito. Sósio mandou adiante, para a judéia, duas legiões com Herodes e depois seguiu-o com o resto no exército.
621.  Enquanto isso se passava, José, irmão de Herodes, perdeu a vida na Judéia, por não ter cumprido a ordem que dele recebera, ou seja, de não se arriscar, como vou narrar a seguir. Ele marchou para Jerico com as suas tropas e cinco companhias de cavalaria cedidas por Maquera, pretendendo fazer a colheita do trigo, e acampou nos montes. Mas a cavalaria romana era composta de moços pouco habituados à guerra, a maior parte recrutada na Síria. Os inimigos os atacaram em lugares pouco vantajosos e os derrotaram, bem como ao corpo de cavalaria que José comandava. Ele morreu combatendo valentemente. Os mortos ficaram em poder de Antígono, e ele mandou cortar a cabeça a José, embora Feroras, seu irmão, lhe quisesse pagar cinqüenta talentos para ter o corpo intacto. Em seguida, os galileus revoltaram-se contra os seus governadores e lançaram no lago os que seguiam o partido de Herodes. Vários outros movimentos de agitação rebentaram na judéia. Maquera fortificou o castelo de Gethe.
Herodes soube de tudo quando estava num arrabalde de Antioquia chamado Dafne e quase o esperava, por causa de alguns sonhos que tivera, os quais previam a morte do irmão. Assim, apressou a marcha ao chegar ao monte Líbano e tomou oitocentos homens do país e uma legião romana, com os quais foi a Ptolemaida, de onde partiu na mesma noite para avançar contra a Galiléia. Os inimigos atacaram-no, mas ele os venceu e obrigou-os a se encerrar num castelo, de onde haviam saído no dia anterior. No dia seguinte, pela manhã, foi sitiá-los, mas uma grande tempestade o obrigou a se retirar para as aldeias vizinhas. A outra legião que ele havia recebido de Antônio veio unir-se a ele, e o medo dos sitiados os fez abandonar o castelo durante a noite.
Como Herodes estava impaciente para vingar a morte do irmão, avançou rapidamente para Jerico, onde conversou com os maiorais da cidade. Apenas os convidados se retiraram para as suas casas, a sala onde se realizava o banquete desabou, e todos imaginaram que Deus tinha um cuidado particular de Herodes, pois o livrara por milagre de um grande perigo. No dia seguinte, seis mil inimigos, que haviam descido dos montes, encheram de espanto os romanos, e seus filhos, perdidos, atacaram-nos a golpes de dardos e de pedras. Herodes ficou ferido no lado, e Antígono, querendo dar a entender que era bastante forte para fazer guerra ao mesmo tempo em diversos lugares, enviou tropas a Samaria, comandadas por Papo. Porém, Maquera enfrentou-o, e Herodes, por sua vez, tomou cinco cidades, matou cerca de dois mil homens que nelas estavam como guarnição, incendiou-as e se voltou contra Papo, que estava acampado em Isanas, para onde vários se dirigiam, tanto de Jerico quanto da Judéia.
Logo que Herodes soube que os inimigos eram tão ousados que se atreviam a combater, atacou-os e os venceu. Inflamado pelo desejo de vingar a morte do irmão, perseguiu-os, matando sempre até uma aldeia. As casas encheram-se imediatamente e muitos foram obrigados a subir aos telhados. Esses logo foram mortos. Depois os tetos foram removidos, e viram-se então onde estavam escondidos todos os outros, os quais de tão apertados não se podiam defender. Foram mortos a pedradas, e não houve em toda essa guerra espetáculo mais deplorável, pois causava horror tão grande quantidade de cadáveres. Esse feito, mais que qualquer outro, abateu a ousadia dos inimigos, porque os fez perder a esperança de um êxito favorável. Eram vistos fugindo em grandes grupos, e, não fora uma grande tempestade que sobreveio, os vencedores poderiam ter ido a Jerusalém com a certeza da vitória, e a guerra teria terminado. Antígono já pensava também em abandonar a cidade e fugir.
Quando chegou a noite, Herodes deu ordem que se servisse a refeição aos soldados. Como estava extremamente cansado, retirou-se para o seu quarto, a fim de tomar um banho. A providência de Deus livrou-o então de um grave perigo, pois estando nu e tendo consigo apenas um de seus criados, três dos inimigos, que o medo fizera esconder-se naquela casa, apareceram de espada em punho para se salvar e ficaram tão assustados com a presença do rei no banho que, em vez de matá-lo, como poderiam ter feito facilmente, só pensaram em escapar. No dia seguinte, Herodes, depois de mandar cortar a cabeça Papo, que estava no número dos mortos, mandou-a a Feroras, para consolá-lo da perda do irmão, pois fora Papo quem matara José.
622.  Cessada a tempestade, esse grande general marchou para Jerusalém, acampou perto da cidade e sitiou-a, três anos após ser declarado rei em Roma. Escolheu o lugar que julgou mais apropriado para tomar a cidade e colocou o seu acampamento diante do Templo, como outrora Pompeu havia feito. Usando uma grande quantidade de trabalhadores, fez elevar três plataformas. Também construiu torres e derrubou muitas árvores. Enquanto o cerco continuava, ele foi a Samaria para desposar Mariana, filha de Alexandre e neta do rei Aristóbulo, que ele tinha como noiva, conforme dissemos anteriormente.

CAPÍTULO 28
HERODES, AJUDADO POR SÓSIO, GENERAL ROMANO, TOMA JERUSALÉM E RESGATA O SAQUE. SÓSIO APRISIONA ANTÍGONO E LEVA-O A ANTÔNIO.

623.  Herodes levou para o seu exército, depois de suas núpcias, um reforço de trinta mil homens. Sósio, que havia mandado a ele o seu exército, que era poderoso tanto em cavalaria quanto em infantaria, veio ao mesmo tempo pela Fenícia. Assim, reuniram-se tropas de todos os lados para se juntar no cerco de Jerusalém, que era atacada pelo norte. Havia cerca de onze legiões e seis mil cavaleiros, além das tropas auxiliares da Síria. Os dois chefes desse célebre cerco eram Sósio, enviado por Antônio em auxílio de Herodes, e este, que fazia guerra por si mesmo, para arruinar Antígono, inimigo declarado do povo romano, e assim garantir-se na coroa que o decreto do senado lhe havia conferido.
Os judeus, vindos de todas as partes do reino para reunir-se naquela praça, defendiam-na com extrema coragem. Vangloriando-se da santidade do Templo, afirmavam ao povo que Deus os livraria daquele perigo e faziam secretamente incursões pelos campos, para estragar os víveres e a forragem, a fim de que viessem a faltar aos que o cercavam. Herodes, para remediar isso, colocou em diversos lugares tropas de emboscada e fez vir comboios de longe, que trouxeram abundância de víveres e todas as coisas necessárias para o exército. Empregou também um grande número de trabalhadores, pois, sendo verão, a estação favorável os ajudava, sem retardar os trabalhos, de modo que ele terminou as três plataformas que iniciara a construir. Batia ao mesmo tempo nos muros da cidade com as suas máquinas e tudo fazia para chegar logo ao termo de tão grande empresa.
Os sitiados, por sua vez, faziam todos os esforço imagináveis para bem se defender: queimavam os trabalhos, não somente os começados, mas também os já concluídos, e faziam ver, pelo seu extremo valor, que os romanos os superavam somente na ciência da guerra. No lugar dos muros derrubados pelas máquinas, eles construíam logo outros, retribuíam astúcia por as-túcia e combatiam às vezes corpo a corpo. Assim, embora sitiados por um poderoso exército e ao mesmo tempo oprimidos pela fome, porque aquele ano era de sábado, o próprio desespero os animava, e nada os convencia a se entregar. Por fim, no quadragesimo dia do cerco, vinte dos mais valentes soldados romanos subiram a muralha seguidos por um de seus oficiais, que estava sob o comando de Sósio, e, ajudados por outras tropas, apoderaram-se dela.
Quinze dias depois, o segundo muro também foi tomado, e alguns pórticos do Templo foram incendiados, mas Herodes disso acusou Antígono, para torná-lo odioso ao povo. A parte externa do Templo e a cidade baixa também foram tomadas, e os sitiados retiraram-se para a cidade alta e para o Templo, temendo que os romanos os impedissem de oferecer a Deus os sacrifícios ordinários, e rogaram aos sitiantes que lhes permitissem fazer entrar somente os animais necessários para esse fim. Herodes consentiu, na esperança de que esse favor os dobrasse. Mas, vendo que se obstinavam mais do que nunca em manter Antígono na realeza, redobrou os esforços para tomar a praça.
Viu-se então surgir, mais do que antes e de todas as partes, a figura horrorosa da morte, pois os romanos estavam irritados porque o cerco se prolongava demasiado, e os judeus afeiçoados a Herodes queriam destruir inteiramente os compatriotas que haviam abraçado o partido contrário. Assim, matavam-nos nas ruas, nas casas e mesmo quando se refugiavam no Templo. Não poupavam velhos nem moços, e a fraqueza do sexo não lhes despertava a menor compaixão pelas mulheres. E, embora Herodes ordenasse que fossem poupadas e unisse rogos às suas ordens, eles não lhe obedeciam, pois estavam tão inflamados pelo furor que haviam perdido todo o senso de humanidade.
624. Antígono, com um proceder indigno de seu glorioso passado, desceu da torre onde estava e veio lançar-se aos pés de Sósio, que, em vez de se comover, insultou-o ainda na sua infelicidade, chamando-o não de Antígono, mas de Antígona. Tratou-o, porém, como mulher porque não confiou nele e fez com que o custodiassem com muito cuidado.
625.  Herodes, depois de tanta dificuldade para vencer os inimigos, teve ainda graves embaraços para reprimir a insolência daqueles estrangeiros que havia chamado em seu auxílio. Eles lançaram-se em massa sobre o Templo e queriam até mesmo entrar no Santuário. Para impedi-los, ele empregou não somente rogos e ameaças, mas também a força, porque se julgava mais infeliz como vencedor do que se tivesse sido vencido, uma vez que a sua vitória estava expondo a olhos profanos o que não lhes era permitido ver.
Fez tudo o que foi possível para impedir o saque da cidade, dizendo energicamente a Sósio que, se os romanos a queriam despovoar e saquear, concluir-se-ia que ele fora constituído rei de um deserto. Declarou também que não compraria nem mesmo o império do mundo, se lhe custasse o sangue de um número tão grande de seus súditos. A isso Sósia respondeu que não se podia negar aos soldados o saque de uma praça que eles haviam tomado. Herodes então prometeu compensá-los com dinheiro. Assim, preservou a cidade e cumpriu magnificamente a sua promessa, tanto para com os soldados quanto para com os oficiais, particularmente Sósio.
Essa tomada de Jerusalém aconteceu sob o consulado de M. Agripa e de Canísio Calo, na centésima octogésima quinta Olimpíada, no terceiro mês, e durante um jejum solene, no mesmo dia em que Pompeu a havia tomado, vinte e sete anos antes.
626. Sósio, depois de consagrar a Deus uma coroa de ouro, partiu de Jerusalém e levou Antígono prisioneiro a Antônio. Isso pôs Herodes em grande ansiedade, pois receava que Antônio o deixasse partir ou que Antígono, quando chegasse a Roma, dissesse ao senado que, sendo de família real, devia ser preferido a Herodes, o qual nada tinha de ilustre por nascimento, e que mesmo que a sua revolta contra os romanos o impedisse de manter-se no reino, pelo menos não poderiam com justiça privar dele os seus filhos, que não os haviam ofendido. Para livrar-se dessas apreensões, conseguiu fazer com que Antônio, por meio de uma grande soma de dinheiro, mandasse matar Antígono.
627. Assim, a família dos asmoneus, após reinar cento e vinte e seis anos, perdeu o trono. Essa família foi ilustre não somente por ter sido elevada ao poder, mas também porque sempre foi honrada com o sumo sacerdócio e porque as muitas e ilustres ações de seus reis elevaram em muito a glória de nossa nação. As dissensões domésticas, no entanto, causaram por fim a sua ruína, e a sua grandeza passou à família de Herodes, filho de Antipatro, o qual tinha origem numa família que nada possuía de nobre, para que fosse distinguida do comum dos demais súditos dos reis.
Livro Décimo Quinto

CAPÍTULO 1
ANTÔNIO MANDA CORTAR A CABEÇA DE ANTÍGONO, REI DOS JUDEUS.

628. Vimos no livro precedente a tomada de Jerusalém por Sósio e Herodes e o aprisionamento de Antígono. Vou agora falar de suas conseqüências. Quando Herodes se viu senhor da Judéia, demonstrou muita gratidão para com aqueles que lhe dedicaram afeto enquanto ele era apenas um homem da vida privada. Mas não se passava um dia em que não matasse algum dos que haviam seguido o partido de Antígono. Poliom, fariseu, e Saméias, discípulo deste, foram os únicos aos quais tratou com consideração, para recompensá-los, porque durante o cerco eles haviam aconselhado o povo a recebê-lo. Poliom era aquele que durante o julgamento de Herodes, quando os juizes o queriam condenar, predissera a Hircano e aos outros juizes que, se o absolvessem, ele os mataria a todos, o que Deus confirmou em seguida.*

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* Foi dito, no artigo 595, que Saméias fez tal predição.

629. Herodes mandou levar para o palácio real tudo o que encontrou de móveis preciosos, mais o ouro e a prata que tomou dos ricos, e reuniu assim uma grande soma de que fez presente a Antônio e aos que este mais estimava. Mandou matar quarenta e cinco dos principais seguidores de Antígono e colocou guardas às portas para ver, quando trouxessem os corpos, se estavam mortos de verdade. Ordenou também que lhe trouxessem tudo o que se encontrasse de ouro e de prata. Os que haviam seguido o partido de Antígono não viam o termo de seus males. Os bens todos que possuíam eram insuficientes para satisfazer a ambição de Herodes ou para contentar a sua insaciável avareza, pois as suas finanças estavam então esgotadas. Havia ainda motivos para se temer uma carestia, porque as terras estavam em descanso, sendo aquele o sétimo ano, no qual não nos é permitido cultivar nem semear a terra.
Antônio queria conservar Antígono como ornamento ao seu triunfo. Porém, vendo que os judeus o favoreciam e estavam prestes a se revoltar por causa do ódio que sentiam contra Herodes, julgou que o único meio de conservá-los no cumprimento do dever era matando-o. Assim, mandou cortar-lhe a cabeça em Antioquia. Estrabão da Capadócia relata esse fato da seguinte maneira: &quot;Antônio, em Antioquia, mandou cortar a cabeça a Antígono, rei dos judeus, e foi o primeiro dos romanos que desse modo fez morrer um rei, porque julgou que não havia outro meio de fazer com que os judeus obedecessem a Herodes, que havia sido feito rei em seu lugar, pois estavam tão enraivecidos contra ele e tão afeiçoados a Antígono que nem mesmo a violência dos tormentos poderia obrigá-los a dar a Herodes o nome de rei. Foi isso o que levou Antônio a se servir de um suplício tão vergonhoso para um soberano, a fim de obscurecer a memória de um e moderar a aversão que se tinha pelo outro&quot;.
630. Já vimos como Barzafarnés e Pacoro, generais do exército dos partos, retive-ram presos Hircano, sumo sacerdote, e Fazael, irmão de Herodes, que se suicidou para evitar a vergonha da escravidão. Devemos dizer agora de que modo Hircano foi posto em liberdade e como veio procurar Herodes depois que este foi feito rei.

CAPÍTULO 2
FRAATE, REI DOS PARTOS, PERMITE A HIRCANO, SEU PRISIONEIRO, VOLTAR À
JUDÉIA. HERODES OUTORGA O SUMO SACERDÓCIO A UM HOMEM SEM
MÉRITO. ALEXANDRA, SOGRA DE HERODES E MÃE DE ARISTÓBULO, DIRIGE-SE
A CLEÓPATRA PARA OBTER ESSE CARGO PARA O FILHO POR MEIO DE
ANTÔNIO. HERODES DESCOBRE E CONCEDE O CARGO A ARISTÓBULO.
FINGE RECONCILIAR-SE COM ALEXANDRA.

631.  Hircano foi levado a Fraate, rei dos partos, e esse príncipe tratou-o muito bem por causa da nobreza de sua família. Tirou-lhe as cadeias e permitiu que morasse na Babilônia, onde havia um grande número de judeus. Ele era honrado como sumo sacerdote e rei não somente pelos que se haviam estabelecido naquela poderosa cidade, mas também por todos os outros judeus que moravam além do Eufrates, e ele sentia-se feliz em sua desdita. E, quando soube que Herodes subira ao trono, concebeu as maiores esperanças, tanto porque o rei naturalmente amava os seus parentes e aliados quanto por julgar que, tendo lhe salvado a vida quando ele corria o risco de ser condenado, nada mais esperava dele senão reconhecimento. Assim, desejou ardentemente ir procurá-lo e falou de seus planos àqueles em quem mais confiava.
Aconselharam-no, porém, a ficar, dizendo-lhe, para convencê-lo disso, que todos os seus compatriotas naquele país já estavam prestando a ele todas as honras que podiam prestar a seu sumo sacerdote e rei; que ele não podia esperar a mesma coisa da Judéia, por causa da maneira ultrajosa como Antígono o havia tratado; que a mudança de sorte muda também os sentimentos dos homens, e jamais os reis se lembram dos favores recebidos enquanto simples cidadãos; e que ele não devia esperar tanto afeto da parte de Herodes. Essas opiniões, embora tão sensatas, não fizeram impressão no espírito de Hircano, tanto ele estava ansioso para voltar. E Herodes escreveu-lhe também, rogando que pedisse ao rei e aos judeus para não lhe invejarem o contentamento de compartilhar o poder da realeza, pois chegara o tempo de agradecer os favores que lhe devia, tanto por Hircano havê-lo elevado como por lhe salvar a vida.
Esse fingido soberano não se contentou em escrever-lhe nesses termos, mas também enviou Saramala como embaixador a Fraate, com muitos presentes, para obter deste a liberdade de seu benfeitor e a oportunidade para recompensá-lo pelos favores que recebera. Todas essas demonstrações de amizade, no entanto, eram pura mentira e hipocrisia. A única coisa verdadeira nisso tudo era que ele havia usurpado a coroa e temia uma reviravolta. Por isso desejava com ardor ter Hircano ao seu alcance, para poder matá-lo, caso julgasse tal coisa conveniente para a sua própria segurança, como nos faz ver a continuação da história.
632. Hircano foi posto em liberdade pelo rei dos partos, e os judeus que estavam na Babilônia forneceram-lhe o dinheiro necessário para a viagem. Herodes tratou-o com muita deferência. Dava-lhe sempre o primeiro lugar nas assembléias e nos banquetes, chamava-o de pai e tudo fazia para que ele não suspeitasse de sua traição, porque desejava a todo custo conservar a posse da coroa e reforçar a sua recente autoridade. Isso causou dissensões domésticas que excitaram grande perturbação, por motivo que vou relatar.
O temor de que uma pessoa de origem ilustre fosse constituída no sumo sacerdócio levou Herodes a mandar vir da Babilônia um sacerdote chamado Ananel, oriundo de uma das mais obscuras famílias, e investiu-o nesse cargo. Alexandra, mãe de Hircano e viúva de Alexandre, filho do rei Aristobulo, de quem ela tivera um filho de nome Aristobulo, como o avô, e uma filha de nome Mariana, mulher de Herodes, ficou muito sentida com a injustiça que este fez ao filho, preterindo-o para honrar com tão excelsa dignidade um homem de nenhum mérito.
Ela então escreveu a Cleópatra, por meio de um músico, rogando-lhe que pedisse a Antônio o cargo para o filho. A rainha prestou-lhe de boa mente aquele favor, mas nada pôde obter. Ao mesmo tempo, Célio, que era muito amigo de Antônio, veio à Judéia para alguns negócios e admirou-se da beleza extraordinária de Aristobulo e de Mariana, e da felicidade de Alexandra, por ter posto no mundo tais filhos. Aconselhou-a a mandar retratos deles a Antônio, não duvidando que ele, depois de os ter visto, faria tudo o que ela desejava. Ela acreditou, e Gélio, ao regressar para junto dele, exagerou a beleza deles, afirmando que mais pareciam divindades que criaturas humanas, e tudo fez para suscitar nele o amor por Mariana. Antônio, porém, julgou que não seria justo obrigar um rei seu amigo a enviar-lhe a própria mulher. Além disso, temia a inveja e o ciúme de Cleópatra. Assim, contentou-se em escrever a Herodes, pedindo que lhe enviasse Aristobulo por algum pretexto honesto, se isso não lhe viesse a causar nenhuma aflição.
Herodes julgou arriscado enviar uma pessoa da origem, beleza e idade de Aristobulo, que então contava apenas dezesseis anos, a um homem de posição tão elevada como Antônio, que era também o mais voluptuoso dos romanos, pois podia ocultar a sua volúpia pela confiança que tinha em seu poder. Assim, respondeu-lhe que Aristobulo não poderia sair da Judéia sem perigo de uma guerra, pela esperança que tinham os judeus de ser beneficiados por uma troca de rei.
633. Herodes, depois de se desculpar perante Antônio, julgou conveniente dar atenção também a Aristobulo e a Alexandra e não descontentar Mariana, que insistentemente pedia o sumo sacerdócio para o irmão. Ele julgou também vantajoso tirar a Aristobulo qualquer ocasião de sair do país sob pretexto de viagem. Reuniu em seguida os seus amigos mais íntimos e queixou-se muito de Alexandra, dizendo que ela trabalhava secretamente para tirar-lhe a coroa e para fazer com que Antônio, por meio de Cleópatra, a entregasse ao filho, e que nisso ela era ainda mais culpada, pois não poderia obtê-lo sem fazer a filha descer do trono e sem tirar ao genro uma honra que ele conquistara com muitos sofrimentos e perigos, mas que ele desejava, no entanto, esquecer essa injustiça e demonstrar em atos o seu afeto por ela e pelos seus, outorgando ao filho dela o sumo sacerdócio que Ananel exercera até então por causa da pouca idade de Aristóbulo.
Essas palavras, que Herodes premeditara para enganar as princesas e os amigos, comoveram Alexandra, tanto pela alegria de obter o que tão ardentemente desejava quanto pelo temor de ver que Herodes havia descoberto os seus desígnios, e de tal modo que, banhada em lágrimas, ela lhe confessou que tudo o que tentara referente ao sumo sacerdócio fora na persuasão de que seria vergonhoso para o filho ver outro homem no cargo. Quanto ao que se referia ao reino, porém, não tivera a menor idéia de pretendê-lo para o filho, e, ainda que o oferecessem, ela não aceitaria, pois era uma grande honra ver a filha reinar com ele e sua família, e nada tinha a temer. Por isso, vencida pelos benefícios, ela recebia com gratidão a honra que ele fazia ao filho, e Herodes podia ter a certeza de que ele lhe seria submisso. Rogou-lhe ainda que perdoasse tudo o que os sentimentos de sua origem e a injustiça que julgava se fazia a Aristóbulo a tinham levado a empreender. Em seguida, depois dessas palavras, apertaram-se as mãos, para mostrar que a reconciliação era verdadeira. E todos julgaram que, de fato, não havia mais entre eles nenhum motivo de desconfiança.

CAPITULO 3
HERODES TIRA O CARGO DE SUMO SACERDOTE DE ANANEL E O ENTREGA A
ARISTÓBULO. MANDA PRENDER ALEXANDRA E ARISTÓBULO QUANDO ELES
TENTAM PROCURAR CLEÓPATRA PARA SE SALVAR. FINGE RECONCILIAR-SE COM
ELES. MANDA AFOGAR ARISTÓBULO E ORDENA-LHE MAGNÍFICOS FUNERAIS.

634. Logo depois, o rei Herodes tirou o sumo sacerdócio de Ananel, o qual, embora fosse da família dos sacerdotes, passava por estrangeiro porque era da raça dos judeus que moravam em grande número além do Eufrates. Herodes honrara-o com aquela dignidade logo que subira ao trono, mas apenas porque era um grande amigo. E tirou-a somente porque julgou necessário, para acalmar as divergências em família, pois aquele cargo era concedido não por algum tempo, mas para sempre, e não se podia tirá-lo de alguém sem cometer uma injustiça. Antíoco Epifânio foi o primeiro a violar essa lei, quando depôs Jesus para colocar Onias em seu lugar. Aristóbulo foi o segundo, quando tirou o cargo de Hircano, seu irmão, a fim de tomá-lo para si mesmo. E Herodes foi o terceiro, quando, para ter paz em casa, o entregou a Aristóbulo, vivendo ainda Ananel.
635.  Essa reconciliação, todavia, não impediu que Herodes continuasse com as suas desconfianças. Julgou que Alexandra, depois do que ela havia feito, não deixaria de provocar uma rebelião, se ocasião para tal se apresentasse. Assim, proibiu-a de sair do palácio e de intrometer-se em qualquer coisa. Mandou vigiá-la com tanto cuidado que nada fazia ela que não lhe fosse logo relatado. Como era muito orgulhosa, coisa natural nas mulheres, ela suportava com grande revolta aquele indigno tratamento, pois preferia sofrer qualquer coisa a perder a liberdade. Sob pretexto de honra, faziam-na passar a vida numa verdadeira escravidão e em contínuo temor. Assim, ela resolveu escrever à rainha Cleópatra, rogando-lhe que tivesse compaixão dela e de sua infelicidade e a ajudasse. A princesa mandou dizer-lhe que tentasse fugir com o filho para o Egito.
Alexandra aprovou o conselho e ordenou a dois de seus servidores de mais confiança que fizessem duas caixas em forma de ataúde, numa das quais ela se encerraria, e na outra estaria o seu filho, para de noite serem levados a bordo de um navio que já estava preparado para partir para o Egito. Esopo, um desses servidores, falou disso a Sabiom, julgando que ele sabia do caso, pois passava por muito amigo de sua senhora e grande inimigo de Herodes — até mesmo se suspeitava que ele fosse um dos cúmplices no envenenamento de Antipatro. Esse homem, porém, feliz por haver encontrado tão favorável ocasião para conquistar o afeto de Herodes, foi manifestar-lhe a intenção de Alexandra de fugir para o Egito. Herodes, que não era menos vingativo que inteligente, deixou-a executar livremente o seu intento com o filho, sem detê-los, senão quando já eram levados naquelas caixas em forma de ataúde.
Como ele não ousava causar mal a Alexandra, para que Cleópatra não ficasse ressentida, fingiu perdoá-la e mostrou-se clemente para com mãe e filho, num excesso de bondade. Mas no seu coração resolveu eliminar Aristóbulo de qualquer maneira. Esperaria mais um pouco, no entanto, para melhor ocultar os seus intentos. A festa dos Tabernáculos, uma das que nós celebramos com maior solenidade, havia chegado, e ele a quis passar em banquetes com o povo. Mas um fato que aconteceu nessa ocasião aumentou de tal modo a sua inveja por Aristóbulo que ele não pôde esperar mais para executar o seu projeto. Eis como as coisas se passaram:
636.  Esse príncipe, que então contava dezessete anos, revestido com os ornamentos de sumo sacerdote, subiu ao altar para oferecer a Deus os sacrifícios ordenados na Lei. A sua extraordinária beleza e a figura esbelta, que sobrepujava em muito os de sua idade, fizeram brilhar de tal modo em sua pessoa a majestade de sua descendência que ele atraiu sobre si os olhos e o afeto de toda aquela grande multidão. Esse fato renovou no espírito do povo a lembrança dos grandes feitos de Aristobulo, seu avô. O povo não pôde esconder a sua alegria, e as aclamações e votos ao jovem príncipe foram manifestados com excessiva liberdade, não recomendável sob o reinado de um soberano tão invejoso e cioso de sua autoridade como Herodes.
Essa demonstração de sentimentos pela família de Aristobulo e de gratidão pelos favores dele recebidos irritaram-no tanto que ele não quis adiar mais a execução do que tinha em mente. Assim, passada a festa, foi a um banquete que Alexandra oferecia em Jerico. Ali, como para homenagear Aristobulo, ele demonstrou prazer em assistir aos divertimentos dos moços. Com essa intenção, foi a um lugar ideal para o seu propósito. Sendo um dia de muito calor, os moços ficaram logo cansados de jogar e foram descansar e abrigar-se dos ardores do sol do meio-dia num jardim, onde se puseram a contemplar alguns dos companheiros e servidores que se banhavam. Herodes fez com que Aristobulo fosse banhar-se com eles, e então aqueles que ele havia levado para esse fim atiraram-se também à água e, como brincadeira, fizeram Aristobulo mergulhar, mas não o deixaram emergir, até que ele morreu afogado. Esse foi o triste fim de Aristobulo, que contava apenas dezoito anos e somente por um ano exercera o sumo sacerdócio. Herodes logo o restituiu a Ananel.
Quem poderia exprimir a dor da mãe e da irmã desse infeliz príncipe? Elas derramavam lágrimas junto ao seu corpo e estavam inconsoláveis. A notícia espalhou-se logo por toda a Jerusalém e encheu a cidade de luto. Não havia uma casa ou família que não considerasse aquela perda como própria. Nenhuma outra dor, porém, se igualava à de Alexandra, e o conhecimento da traição que tão cruelmente lhe arrebatara o filho aumentava-a ainda mais. Era, no entanto, obrigada a dissimular, pelo temor de um mal maior. Veio-lhe muitas vezes à mente a idéia de matar-se, mas se conteve, na esperança de que, sobrevivendo ao filho sem mostrar o que sabia a respeito de sua morte, encontraria talvez ocasião para vingá-la. Herodes, por sua vez, usava de todos os meios para persuadir a todos de que não tivera naquilo a mínima participação, e não somente com palavras procurava demonstrar a sua tristeza e pesar, mas a elas ajuntava lágrimas, as quais pareciam tão espontâneas que poderiam passar por verdadeiras.
A verdade, porém, é que ele julgava que a sua segurança dependia daquela morte. No entanto não podia deixar de se comover pela morte de um príncipe de tão rara beleza, tirado do mundo na flor da idade. Fosse como fosse, ele fazia todo o possível para dar a entender que não era culpado daquele crime, e não poupou despesas para lhe organizar um magnífico funeral. Se a dor das princesas pudesse ter sido mitigada por demonstrações exteriores de afeto, tê-lo-ia sido, sem dúvida, pela quantidade de preciosos perfumes que ele fez queimar sobre o túmulo e pelos ornamentos de que o enriqueceu, com magnificência mais que real.

CAPÍTULO 4
HERODES É OBRIGADO A JUSTIFICAR-SE DIANTE DE ANTÔNIO PELA MORTE DE
ARISTÓBULO E O CONQUISTA POR MEIO DE PRESENTES. ANTES DE PARTIR,
ORDENA A JOSÉ, SEU CUNHADO, QUE MANDE MATAR MARIANA, CASO
ANTÔNIO O CONDENE À MORTE. JOSÉ CONTA-O IMPRUDENTEMENTE À
PRINCESA, E HERODES MANDA MATÁ-LO, POR CIÚME. AVAREZA INSACIÁVEL
E AMBIÇÃO DESMESURADA DE CLEÓPATRA.

637. A perda de um filho tão amável fez uma ferida tão profunda no coração de Alexandra que nada podia consolá-la. Seu penar renovava-se todos os dias, com sentimentos tão vivos que todos a animavam continuamente a se vingar. Ela escreveu então a Cleópatra, narrando como Herodes lhe havia arrebatado o filho, com tão detestável traição. A rainha, que sempre fora inclinada a ajudá-la, teve tanta pena de sua desdita que tudo fez para persuadir Antônio a vingar uma morte tão deplorável. Falou-lhe como de coisa horrível, na qual ia também algo da honra dele, pois Herodes, depois de ter sido por seu intermédio elevado ao trono, ao qual não tinha direito, praticara aquela rara crueldade, derramando o sangue daquele que era o legítimo possessor. Antônio ficou impressionado com essas palavras e, como não podia aprovar tão negra ação, caso fosse verdadeira, dirigiu-se a Laodicé, dando ordem para que Herodes fosse procurá-lo a fim de se justificar do crime de que o acusavam.
Herodes, que se sentia culpado e receava a ira de Cleópatra, que ele sabia incitar continuamente Antônio contra ele, temia muito essa viagem. A necessidade de obedecer, no entanto, o obrigou a empreendê-la, e ele deixou o governo do reino a )osé, seu cunhado,* ordenando-lhe em segredo que, se Antônio o condenasse, ele deveria imediatamente matar a rainha Mariana, sua mulher, pois ele a amava com tanta paixão que não podia tolerar que, depois de sua morte, ela passasse para outro homem. Além disso, considerava que ela era a causa de sua infelicidade, pois a fama de sua extraordinária beleza suscitara havia muito o amor de Antônio por ela. Depois de dar essas ordens, ele se pôs a caminho, com pouca esperança de um feliz êxito.

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* A continuação da história nos faz ver que José era cunhado de Herodes, e não seu tio, como nos refere o texto grego.

638.  Na ausência de Herodes, José ia freqüentemente visitar Mariana, quer para prestar-lhe a honra que lhe era devida, quer para tratar dos negócios do reino, e lhe falava constantemente do extremo amor que o rei seu marido tinha por ela. Quando ele notou que, em vez de mostrar que acreditava, ela se punha a zombar, e Alexandra, sua mãe, mais que ela ainda, um imprudente desejo de fazê-las mudar de sentimento levou-o a revelar a ordem que recebera, o que comprovava que Herodes não podia tolerar que a morte o separasse dela. Essas palavras, todavia, em vez de persuadir as princesas do afeto de Herodes, causaram-lhes horror, pela tirânica desumanidade que, mesmo após a morte, o tornava tão cruel para com a pessoa a quem ele mais amava na terra.
639.  Os inimigos desse príncipe então fizeram correr a notícia de que Antônio mandara matar Herodes, depois de submetê-lo a diversos tormentos. Toda a cidade de Jerusalém ficou agitada, principalmente no palácio real e no das princesas. Alexandra exortou José a sair com ela e com Mariana, a fim de se colocarem sob a proteção das águias romanas — da legião comandada por Júlio, que estava acampada fora da cidade — e assim ficarem em segurança, caso houvesse algum tumulto, e também porque ela não duvidava de que quando Antônio visse Mariana obteria dele tudo o que quisesse, até mesmo a restauração ao trono e todas as outras honras e privilégios que o seu nascimento lhe permitia esperar.
Pensavam assim, quando receberam cartas de Herodes, contrariando essas notícias. Diziam que, tendo chegado onde Antônio estava, havia acalmado o seu espírito com grandes presentes, tornando-o tão favorável nas conversações que tivera com ele que não havia mais motivo para temer os maus ofícios de Gleópatra, porque Antônio afirmava que um refnão era obrigado a prestar contas a ninguém de suas ações com relação ao governo de seu território, pois se assim fosse deixaria de ser rei, não podendo agir com a autoridade que tal posição lhe concede, e que não importava, nem mesmo a Cleópatra, a maneira como os reis governam.
As cartas acrescentavam que não havia honras que ele não tivesse recebido de Antônio, o qual se servia de seus conselhos e o convidava todos os dias para banquetes, embora Cleópatra fizesse todos os esforços para destruí-lo, pelo desejo que tinha de ser rainha da Judéia. Mas a justiça de Antônio estava à porta dos artifícios e calúnias da princesa, e assim ele voltaria logo, mais consolidado do que nunca em seu reino e no afeto de Antônio, sem que restasse a Cleópatra esperança alguma de prejudicá-lo, porque Antônio entregara a ela a Baixa Síria, com a condição de que desistisse das pretensões que tinha sobre a Judéia.
640. Essas cartas fizeram Alexandra — e também Mariana — abandonar a idéia de ficar sob a proteção das águias romanas, mas Herodes veio a sabê-lo. Salomé, sua irmã, e sua mãe disso lhe falaram logo que ele chegou a Jerusalém e depois que Antônio partiu em marcha contra os partos. Salomé fez ainda mais. Para se vingar de Mariana, que tinha o coração extremamente grande, mas havia censurado numa contestação entre ambas a baixeza da origem da outra, ela acusou José, seu próprio marido, de ter se portado muito familiarmente com a princesa. Herodes, que amava ardentemente Mariana, sentiu então até onde iam os seus ciúmes. Conteve-se, todavia, embora com dificuldade, para que não percebessem que a sua paixão o fazia perder o juízo. E, em particular, perguntou a Mariana que relações ela tivera com José. Ela protestou com juramento, do qual uma pessoa inocente pode se servir para a sua justificação, que nada houvera entre eles que ele viesse a ter motivo para se queixar.
Herodes, vencido pelo amor que lhe devotava, não somente acalmou o espírito como também pediu perdão por ter, ainda que levemente, prestado fé às palavras que lhe haviam dito. Demostrou ainda toda a satisfação que sentia por saber que ela era tão fiel e tudo fez para mostrar-lhe com que paixão a amava. Tantas provas de ternura fizeram, como acontece em casos semelhantes, com que ambos se pusessem a chorar e se abraçassem. Porém, ainda que Herodes se esforçasse por lhe incutir cada vez mais o seu amor, ela não pôde deixar de lhe dizer: &quot;Achais então que é grande prova de amor ter ordenado que me mandassem matar, caso Antônio também vos tirasse a vida, embora eu jamais tivesse dado motivo para que ficásseis insatisfeito comigo?&quot;
Essas palavras foram como uma punhalada no coração de Herodes. Ele afastou Mariana, a quem ainda estava abraçado, arrancou os cabelos e disse que já não podia duvidar de seu crime, pois era impossível que José lhe tivesse manifestado um segredo daquela importância sem que ela se tivesse entregado a ele, para recompensá-lo pela traição. Ficou de tal modo transtornado pela cólera que a teria matado naquele mesmo instante, se a violência do amor não tivesse combatido a força do ciúme. Quanto a José, mandou imediatamente matá-lo, sem nem mesmo querer vê-lo ou ouvi-lo, e mandou meter Alexandra numa prisão, como sendo a causadora de todo aquele mal.
641. Nesse ínterim, a Síria estava convulsionada pela insaciável avareza de Cleópatra, a qual, abusando do poder que exercia sobre o espírito de Antônio, incitava-o continuamente contra os grandes do país, a fim de que ele os privasse de suas terras e possessões e as entregasse a ela. O amor que ela nutria pelas riquezas era tão grande que nada havia que não julgasse lícito para obtê-las. A sua ambição era tão desme.surada que ela mandou envenenar o irmão de quinze anos, ao qual pertencia o reino, e fez com que Antônio mandasse matar Asinoé, sua irmã, enquanto esta orava em Éfeso, no Templo de Diana. Ela não temia violar a santidade dos Templos, dos sepuicros ou dos asilos, se deles pudesse obter dinheiro. Não tinha escrúpulos em cometer sacrilégios, se lhe fossem úteis, nem diferençava os caminhos santos dos profanos, quando se tratava de seus interesses. Não tinha nenhuma dificuldade em calcar aos pés a justiça, contanto que daí lhe viesse alguma vantagem. Os tesouros todos da terra dificilmente seriam suficientes para satisfazer essa ambiciosa e voluptuosa princesa. Não devemos, portanto, nos admirar de que ela instigasse continuamente Antônio a despojar os outros para enriquecê-la.
Assim, não havia ainda entrado com ele na Síria, quando sonhou apoderar-se de toda a região. Mandou então matar Lisânias, filho de Ptolomeu, dizendo que ele favorecia os partos. Depois insistiu com Antônio que tirasse a Arábia e a Judéia de seus reis as entregasse a ela. No entanto, embora a paixão de Antônio por ela fosse tão violenta que parecia havê-lo enlouquecido, ele não quis cometer uma injustiça tão patente, que com certeza teria mostrado ao mundo que ele era escravo de uma mulher. E, para não aborrecê-la com uma negativa a todos os seus pedidos e também para não passar por injusto perante todos se neles consentisse, deu-lhe tudo o que se havia suprimido dessas duas províncias e todas as cidades situadas desde o rio de Eleutério até o Egito, exceto Tiro e Sidom, que ele sabia terem sido sempre cidades livres, não obstante os esforços que ela fazia para obtê-las.
 

CAPÍTULO 5
CLEÓPATRA VAI ÀJUDÉIA E INUTILMENTE PROCURA SUSCITAR AMOR EM
HERODES. ANTÔNIO, APÓS CONQUISTAR A ARMÊNIA, CONTEMPLA ESSA
PRINCESA COM MAGNÍFICOS PRESENTES.

642. Cleópatra, depois de acompanhar Antônio até o Eufrates, veio a Apaméia e a Damasco, enquanto ele marchava com o seu exército pela Armênia, e desejou também ver a Judéia. Herodes recebeu-a com grandes honras e tratou com ela a respeito das rendas da parte da Arábia a ela concedida por Antônio e do território de Jerico, o único lugar onde cresce o bálsamo, que passa pelo mais excelente de todos os perfumes, e onde se vêem em abundância as mais belas palmeiras no mundo.
Durante as diversas entrevistas que Herodes teve com a princesa, ela tudo fez para envolvê-lo amorosamente. E, como era muito impudica, certamente sentia atração por ele. No entanto, o mais verossímil é que o seu intento fosse o de por esse meio encontrar ocasião para destruí-lo. De qualquer modo, ela demonstrou sentir grande paixão por Herodes. Ele, que, ao contrário, nutria por ela grande aversão havia muito tempo, pois essa princesa sentia prazer em fazer mal a todos, não somente permaneceu insensível às suas carícias como se sentiu horrorizado pela sua falta de pudor, chegando a consultar os amigos se não era o caso fazê-la morrer e assim livrar muita gente dos males que ela causava, bem como dos que poderia vir a causar. Alegou ainda que estaria fazendo um favor a Antônio, pois se a sorte deixasse de lhe ser favorável, ele só poderia esperar dela infidelidade, em vez de auxílio. A sua intenção era libertar o mundo daquela inimiga declarada da virtude e da justiça.
Os amigos, porém, foram de opinião contrária. Disseram que não era vantagem um príncipe tão hábil como ele lançar-se em tão grave perigo; que não devia agir com tal precipitação; que era impossível Antônio não descobrir o seu ato; que, por maior benefício que Antônio viesse a obter com aquilo, a cólera por se ver daquele modo privado da princesa aumentaria ainda mais o seu amor por ela; que ele não escutaria nenhuma alegação em justificativa ao atentado à mais poderosa rainha de seu tempo, pois ainda que a sua morte lhe fosse útil, não se poderia negar que ele com isso seria grandemente ofendido; e que, sendo evidente que Herodes nada podia empreender contra Cleópatra sem atrair sobre si e sobre a sua família grandíssimos males, julgavam que a melhor deliberação a tomar, depois que ele recusara corresponder ao amor da princesa, era fazer em tudo o mais o que fosse possível para contentá-la. Herodes deixou-se persuadir por essas razões. Então, serenou Cleópatra com grandes presentes e levou-a até o Egito.
Depois que Antônio conquistou a Armênia, mandou Artabaso, filho de Tigrano, e os príncipes seus filhos como prisioneiros ao Egito e deles fez presente a Cleópatra, junto com o que havia conquistado de mais precioso naquele reino. Artáxio, filho mais velho de Artabaso, que havia fugido ante a notícia dessa guerra, reinou depois no lugar de seu pai. Mas Arquelau e o imperador Nero o expulsaram do reino, colocando Tigrano, o mais novo de seus irmãos, no trono.
Quanto aos tributos dos países que Antônio entregara a Cleópatra, Herodes pagava-os rigorosamente à princesa, porque ele bem sabia o quanto lhe era conveniente não dar a ela motivo para que o odiasse. Depois que a cobrança desses tributos passou a pertencer a Herodes, os árabes pagaram-lhe durante algum tempo duzentos talentos por ano. Depois passaram a lhe tributar apenas parte desse valor.

CAPÍTULO 6
HERODES PRETENDE SOCORRER ANTÔNIO CONTRA AUGUSTO. ANTÔNIO,
PORÉM, OBRIGA-O A CONTINUAR OS PLANOS DE GUERRA AOS ÁRABES.
HERODES ENTRA NO PAÍS DOS ÁRABES, VENCE-OS, MAS PERDE OUTRA LUTA,
QUANDO JULGAVA TER VENCIDO A GUERRA.

643. Herodes, cuja coragem não podia tolerar tal injustiça e desprezo dos árabes, preparava-se para entrar com armas no país deles, quando uma grande guerra civil rebentou entre os romanos, para se decidir a quem pertenceria o império do mundo, se a Antônio ou a Augusto. A batalha de Áccio, que se travou na centésima octogésima sétima Olimpíada, decidiu a sorte em favor de Augusto. Como o rei dos judeus devia a Antônio muitas obrigações e o longo e pacífico domínio de um país tão abundante em pastagens e gado, além de outras grandes rendas, que o haviam tornado extremamente rico, ele preparou grandes forças para ir em seu auxílio. Mas Antônio mandou dizer-lhe que não precisava delas e que, tendo sabido por ele e pela rainha Cleópatra da perfídia dos árabes, preferia que Herodes marchasse contra eles. Cleópatra, que estava muito satisfeita por ver os judeus e os árabes em luta, enfraquecendo-se uns aos outros, foi causa dessa resposta de Antônio, que obrigou Herodes a mudar de idéia.
Em seguida, Herodes entrou na Arábia com um poderoso exército e avançou para Dióspolis, e os árabes vieram contra ele. Travou-se o combate, que foi muito sangrento, mas os judeus foram vitoriosos. Os árabes reuniram um novo exército perto de Canate, na Baixa Síria. Herodes marchou contra eles com a maior parte de suas tropas e, quando estava perto, decidiu acampar e fortificar o seu acampamento, a fim de esperar o tempo mais conveniente para atacá-los. Os soldados, porém, instaram com ele em altos brados para que não adiasse mais a luta e os levasse logo à batalha, pois a vitória que haviam conquistado e a confiança nas próprias forças tornara-os corajosos.
Herodes julgou que não devia deixar esfriar aquele entusiasmo e aproveitou a ocasião para dizer que não lhes seria inferior em coragem. Então pôs-se à frente deles e marchou contra os inimigos. A ousadia com a qual partiu contra os árabes encheu estes de admiração, de modo que a maior parte fugiu — e teriam sido completamente derrotados, se Ateniom, general das tropas de Cleopatra naquele país, não o tivesse impedido. Como ele odiava Herodes, esperou com as suas tropas, em boa ordem, o advento da batalha, com a intenção de não se declarar por nenhum partido, caso os árabes levassem vantagem. Mas quando viu que estavam sendo derrotados, atacou os judeus, já cansados do combate. Apanhou-os justamente quando já se julgavam vitoriosos e, pensando que nada mais tinham a temer, começavam a se desorganizar. Não foi difícil par ele matar um grande número deles, tendo ainda a vantagem de conhecer a região, que era muito pedregosa e difícil.
Então os árabes retomaram coragem e voltaram para atacar os judeus, que não estavam mais em condições de resistir. A mortandade foi tão grande que apenas uma pequena parte das tropas pôde, com dificuldade, retirar-se do campo. Herodes correu a toda brida para trazer outras tropas em socorro, mas não pôde impedir que o acampamento fosse saqueado. Assim, os árabes, por uma facilidade inesperada, obtiveram a vitória quando já se julgavam vencidos e destruíram um poderoso exército. Herodes evitou desde aquele dia travar novo combate. Contentou-se em acampar nos montes e fazer pequenas incursões naquele país e com isso obteve grande lucro, pois esse trabalho, ao qual acostumou os seus, permitiu-lhes reparar a perda que haviam sofrido.

CAPÍTULO 7
ESTRANHO TREMOR DE TERRA EM JERUSALÉM. OS ÁRABES ATACAM OS
JUDEUS E MATAM OS EMBAIXADORES ENVIADOS
POR ESTES PARA PEDIR A PAZ.

644.  No sétimo ano do reinado de Herodes, o mesmo em que se deu a batalha de Áccio, entre Augusto e Antônio, aconteceu na Judéia o maior terremoto de que ali se teve notícia. A maior parte do gado morreu, e cerca de dez mil homens ficaram esmagados sob as ruínas de suas casas. Os soldados não sofreram mal algum porque estavam acampados ao ar livre. Não se pode calcular como essa perda, que se dizia ainda maior, pelo ódio que as outras nações tinham da nossa, levantou o ânimo dos árabes. Eles imaginaram que todas as nossas cidades haviam sido destruídas e que não restava mais ninguém para lhes resistir. Assim, em vez de sentir pena da infelicidade dos judeus, eles mataram os embaixadores que estes lhes haviam mandado para pedir a paz e marcharam contra o nosso povo com ardor não menor que a solicitude ou a alegria.
Os judeus não ousaram esperá-los, porque o infeliz resultado na guerra, as perdas que o terremoto havia causado e a pouca probabilidade de receber socorro os abateram de tal modo que, não sendo mais movidos pelo amor do bem público, estavam prestes a se abandonar a um completo desespero. Em tão extrema consternação, Herodes tudo fez para despertar a coragem de seus chefes e, vendo que os mais valentes começavam a conceber melhores esperanças, atreveu-se a falar às tropas, coisa que antes não ousara fazer, pois notara, em outras ocasiões, que quando a sorte lhes era contrária, eles nada queriam escutar.

CAPÍTULO 8
DISCURSO DO REI HERODES AOS SOLDADOS, QUE LHES RESTITUI A CORAGEM,
E ELES OBTÊM VITÓRIA CONTRA OS ÁRABES E OS OBRIGAM A TOMAR
HERODES COMO SEU PROTETOR.

645.  Disse-lhes o soberano: &quot;Não ignorais, certamente, as desgraças que retardaram o nosso progresso de algum tempo para cá. Elas foram tão grandes que não se pode achar estranho que tenham amedrontado até mesmo os mais ousados. Mas, como os podemos vencer com a nossa virtude — toda a razão está do nosso lado —, por que não esperar mais do futuro e não retomar aqueles primitivos sentimentos de generosidade que nos tornaram temíveis aos inimigos? A única razão dessa guerra deve ser suficiente para vos animar, pois não a tendo empreendido senão para repelir injúrias intoleráveis, nada pode ser mais justo. Os males que nos afligem não nos devem fazer desesperar da vitória. Torno-vos a todos como testemunhas dos ultrajes que recebemos desses bárbaros, os mais pérfidos e ímpios de todos os homens. Por maiores que sejam os motivos que todos os seus vizinhos tenham para se queixar deles, ninguém experimentou como nós os efeitos de sua avareza e inveja. Que direi de sua ingratidão, sem falíir das outras obrigações que eles nos devem? Pois, podem eles negar que fui eu, pelo afeto que Antônio sempre me demonstrou, quem impediu que eles caíssem sob o domínio de Cleópatra? Quando essa princesa obteve de Antônio parte do país deles e do nosso, acaso deixei de ajudá-los ou não procurei a tranqüilidade dos dois povos com os presentes que lhes fiz de meus próprios bens? Por esse motivo, pago duzentos talentos cada ano e sou fiador de outros tantos, e, embora as terras das quais se exige esse tributo nos pertençam, são esses bárbaros que as possuem. Sendo judeus como nós, que motivo têm para nos obrigar a pagar esse tributo e nos tirar parte de nossos bens para dá-los a outro país que nos é devedor de sua salvação? É ainda mais injusto, porém, que aqueles que não podem negar ter obtido a liberdade pelo nosso auxílio, os quais nos apresentaram os seus agradecimentos por isso, tenham recusado, em plena paz e no tempo em que se diziam nossos amigos, pagar o que nos deviam. Como se pode, sem infâmia, faltar à palavra aos amigos, quando se é obrigado a mantê-la aos próprios inimigos? Um povo tão brutal só acha honesto aquilo que lhe é útil e julga que as injúrias devem ficar impunes quando são vantajosas aos que as fazem. Quem pode então duvidar de que não somos obrigados a nos vingar pelas armas das ofensas que recebemos desses bárbaros? Deus mesmo no-lo ordena, quando nos manda odiar a insolência e a injustiça, e esta guerra não é somente justa, mas necessária. Pois, matando os nossos embaixadores, como fizeram, não cometeram eles, segundo o juízo dos gregos e mesmo o das nações selvagens, o maior de todos crimes? Quem não sabe que entre os gregos o nome de arauto é sagrado e inviolável? Com muito maior razão deve sê-lo entre nós, que recebemos de Deus as nossas santas leis, pelo ministério dos anjos, que são os seus arautos e mensageiros. E essa uma prerrogativa que não podemos deixar de honrar, pois serve para levar os homens ao conhecimento de Deus e reconciliar os mais mortais inimigos. O que então é mais horrível que manchar as próprias mãos no sangue daqueles que vêm fazer propostas muito razoáveis e que feliz êxito podem esperar os que cometeram tão detestável ação? Dir-se-á, talvez, que é verdade que a razão está conosco, mas que eles são mais fortes. Respondo que isso não tem valor, pois Deus está sempre do lado da justiça e em toda parte onde Ele está o seu poder infinito aí também se faz presente. E, considerando apenas as nossas próprias forças, não os vencemos no primeiro combate e não os desbaratamos no segundo, sem que eles ao menos tivessem ousado resistir aos primeiros ataques? E não teríamos sido plenamente vitoriosos se Ateniom, por uma pérfida manobra, à qual não se pode dar o nome de valor, não nos tivesse atacado, sem antes nos declarar guerra? Por que então agora, que temos mais motivo de bem esperar, demostraríamos menor coragem que no passado? Por que temeríamos àqueles aos quais sempre vencemos quando não usam de fraude e a quem somente a traição faz obter a vitória? Se eles fossem mesmo tão temíveis como querem fazer crer, não deveria isso fortalecer a nossa coragem, em vez de enfraquecê-la? Pois o verdadeiro valor não consiste em sobrepujar os fracos e os tímidos, e sim em vencer os mais bravos e os mais valentes. Se eles julgam que os nossos problemas domésticos e esse último tremor de terra nos deixaram atônitos, devem considerar que foi isso mesmo o que enganou os árabes, pois eles julgaram o mal maior do que ele era na realidade, e nada nos seria mais vergonhoso que sentir medo daquilo que lhes dá coragem. Pois na verdade o valor que eles demonstram não procede da confiança nas próprias forças, mas por nos considerarem abatidos e esmagados por tantos males. Assim, quando nos virem marchar corajosamente contra eles, o seu ardor esvair-se-á, o seu medo aumentará a nossa coragem e teremos apenas de combater homens semivencidos. Os nossos males não foram tão grandes como eles e outros apregoam, pois o terremoto não foi causado pela cólera de Deus contra nós, mas por um daqueles acidentes com causas naturais. E, mesmo que tivesse acontecido pela vontade de Deus, não poderíamos duvidar de que a sua cólera já está satisfeita com esse castigo, pois de outro modo Ele não o teria feito cessar nem manifestaria, como fez, com sinais evidentes, que aprova a justa guerra que empreendemos. Esse terremoto foi geral para todo o resto do reino, e somente vós, que estáveis em armas, dele fostes preservados. Assim, se todo o povo estivesse como vós, na guerra, ninguém teria sofrido mal algum. Depois de termos ativamente considerado todas essas coisas, principalmente sabendo que Deus em tempo algum deixou de ser o nosso protetor, marchai com firme confiança na justiça de vossa causa contra essa pérfida nação, que violou os tratados mais sagrados, que sempre fugiu diante de nós e que só demonstrou coragem para assassinar os nossos embaixadores&quot;.
646. As palavras de Herodes animaram de tal modo as tropas que nada mais queriam senão partir para a luta. Ele ordenou sacrifícios segundo o costume e, sem perda de tempo, fez com que todos os soldados atravessassem o Jordão para marchar contra os árabes e acampou perto deles. Havia entre os exércitos um castelo do qual ele poderia tirar vantagem, tanto se fosse travada a batalha quanto se fosse necessário passar além para escolher um acampamento mais seguro. Ele resolveu tomá-lo. Os árabes tinham o mesmo objetivo, e a batalha teve início, depois de algumas pequenas escaramuças. Vários foram mortos, e os árabes fugiram. Os judeus perseguiram-nos, com intenção de atacá-los até mesmo no acampamento, e eles então foram obrigados a parar para se defender, embora estivessem em completa desordem e sem esperança de vitória.
Depois desse grande combate, onde muitos perderam a vida, os árabes fugiram definitivamente, e cinco mil foram mortos pelos judeus e por eles mesmos, tanto se esforçavam e se comprimiam para salvar-se. O resto retirou-se para o acampamento, embora já tivessem falta de víveres e de água e se vissem cercados pelos judeus. Tal contingência obrigou-os a propor a Herodes fazer tudo o que ele desejava, contanto que os deixasse partir e lhes permitisse matar a sede. Mas ele não quis escutar os embaixadores nem receber o dinheiro que ofereciam como resgate e nem aceitar qualquer outra condição, tal o seu desejo de vingar-se daqueles que tinham violado o direito das gentes. Então, não podendo mais suportar tão ardente sede, quatro mil árabes se apresentaram no quinto dia do cerco para ser acorrentados como escravos.
No dia seguinte, o resto resolveu sair para morrer de armas na mão, preferindo isso a expor-se a tão grande infâmia. Fizeram o que intentavam, mas estavam tão fracos e com o espírito tão abatido que nenhum esforço puderam fazer. Desejavam apenas morrer, temendo unicamente ficar vivos. Cerca de sete mil morreram desde o primeiro choque. Tão grande perda abateu completamente o orgulho daquela nação, que se admirou, em sua desgraça, do valor e do proceder de Herodes e tomou-o como protetor.

CAPÍTULO 9
ANTÔNIO É DERROTADO POR AUGUSTO NA BATALHA DE ÁCCIO. HERODES
MATA HIRCANO E QUAL O PRETEXTO PARA ISSO. DECIDE PROCURAR AUGUSTO.
ORDENS QUE DÁ ANTES DE PARTIR.

647. Depois de tão vantajoso resultado, Herodes voltou a Jerusalém cheio de honras e de glória. Mas, quando parecia viver na mais franca prosperidade, a vitória de Augusto sobre Antônio, em Áccio, o colocou em tão grande perigo que ele se julgou perdido. Todos os seus amigos e inimigos eram do mesmo parecer, pois ninguém se podia persuadir de que aquela grande amizade entre ele e Antônio não lhe viesse causar a própria ruína. Assim, os que deveras o amavam não podiam dissimular a dor que sentiam. Os que o odiavam fingiam lamentá-lo, embora no coração sentissem grande alegria, pois assim podiam esperar alguma mudança nos acontecimentos.
Como Hircano era o único de família real, Herodes julgou necessário mandar matá-lo, a fim de que, se conseguisse escapar de tão grande perigo, ninguém pudesse pretender a coroa, com prejuízo seu. Ou, se Augusto mandasse matá-lo, ele teria pelo menos a consolação de saber que Hircano não teria o prazer de sucedê-lo. Alimentava ele esses pensamentos, quando a família onde ele se havia hospedado ofereceu-lhe uma oportunidade para executar o seu desígnio.
Hircano era por natureza excessivamente manso e jamais se ocupara completamente dos negócios. Tudo ele entregava à sorte e recebia de sua mão o que ela mandava, sem demonstrar descontentamento. Sua filha Alexandra, que, ao invés, era ambiciosa, não se podia contentar com a esperança de uma modificação. Ela solicitava-lhe sem cessar que não permitisse por mais tempo a Herodes perseguir assim a sua família e pensasse em sua segurança, conservando-se para uma sorte melhor. Aconselhou-o a escrever a Malque, que então governava a Arábia, e pedir-lhe proteção e refúgio junto dele, não havendo dúvida de que, se a sorte de Herodes fosse tão má como o ódio de Augusto contra ele dava motivos para crer, a nobreza de sua família e o afeto que todo o povo lhe consagrava poderiam fazê-lo voltar ao trono.
Hircano de início rejeitou a proposta, mas Alexandra não deixava de apresentar as probabilidades que ele tinha: de um lado, esperar chegar à coroa; de outro, temer a traição e ^crueldade de Herodes. Ele deixou-se convencer, por fim, à insistente importunação. Escreveu a Malque por meio de um amigo, de nome Dositeu, rogando que lhe mandasse alguns cavaleiros que pudessem levá-lo até o lago Asfaltite, distante trezentos estádios de Jerusalém. Hircano e Alexandra escolheram Dositeu por julgarem-no um homem inteiramente dedicado a eles e inimigo de Herodes, pois era parente de José, a quem o rei mandara matar e também porque Antônio matara em Tiro dois de seus irmãos. Ele, porém, foi-lhes infiel. Na esperança de obter vantagens, entregou a carta nas mãos de Herodes.
O soberano demonstrou muita satisfação e reconhecimento e pediu a ele outro favor: levar a carta ao destinatário, Malque, e trazer-lhe a resposta, pois importava conhecer os sentimentos deste. Dositeu cumpriu fielmente todas essas incumbências, e o árabe, por meio dele, mandou a Hircano a resposta, dizendo que o receberia, bem como a todos os judeus de seu partido, que mandaria uma escolta para conduzi-lo em segurança e que o ajudaria em tudo. Herodes, de posse dessa carta, mandou chamar Hircano ao seu conselho e perguntou-lhe que tratado ele fizera com Malque. Respondeu este que nenhum tratado havia feito. O rei então apresentou-lhe a carta e ordenou imediatamente que o matassem.
Foi assim que o próprio Herodes narrou esse fato nos seus comentários. Outros dizem que não foi por esse motivo que ele mandou matar Hircano, mas porque este havia atentado contra a sua vida, e contam o caso deste modo: Herodes perguntou a Hircano, num banquete, sem manifestar a sua desconfiança, se ele havia recebido alguma carta de Malque. Ele respondeu que sim, mas somente de saudação. Herodes acrescentou: &quot;Não recebestes presentes, também?&quot; Hircano respondeu: &quot;Sim, mas somente quatro cavalos para o meu carro&quot;. Herodes então, acusou-o de traição e de se ter deixado subornar e ordenou que o matassem.
Esses mesmos escritores, para mostrar que Hircano era inocente, dizem que, tendo desde a sua mocidade — e mesmo depois de ser feito rei — demonstrado excessiva mansidão, grande prudência e moderação e tendo agido quase sempre a conselho de Antípatro, pai de Herodes, não havia nenhuma razão, visto que o rei Herodes estava bem firme no trono, para ele ter saído, na idade de oitenta anos, de além do Eufrates, onde era muito honrado, para viver sob a sua dominação e se entregar a um empreendimento tão alheio à sua natureza. Porém, há muito mais motivo para se crer que esse pretenso crime lhe tenha sido atribuído pelo próprio Herodes.
Assim morreu Hircano, cuja vida foi agitada por muitas e graves perturbações. Ele foi constituído sumo sacerdote sob o reinado de Alexandra, sua mãe, e exerceu esse cargo durante nove anos. Sucedeu no reino a essa princesa e foi deposto três meses depois por Aristóbulo, seu irmão. Pompeu restaurou-o, e ele governou durante quarenta anos. Foi depois exilado por Antígono, castigado e levado como escravo pelos partos. O rei colocou-o em liberdade, e ele voltou à Judéia. E não somente não viu a realização das promessas que Herodes havia feito, como, após passar uma vida cheia de incertezas e amarguras, terminou os seus dias em adiantada velhice com uma morte deplorável, que não havia absolutamente merecido. Como era muito manso, moderado e amante da tranqüilidade e sabia não ter as condições necessárias para governar, servia-se em quase tudo do ministério de outrem. Essa excessiva bondade deu a Antípatro e a Herodes ocasião para se elevarem ao auge da autoridade e levarem a coroa à família deles. A morte foi a recompensa que esse infeliz príncipe recebeu da ingratidão de Herodes.
648. Depois que Herodes se desfez de Hircano, foi procurar Augusto, de quem nada esperava de favorável, por causa da inimizade que havia entre este e Antônio. Temia ao mesmo tempo que Alexandra aproveitasse a sua ausência para amotinar o povo contra ele e perturbar a nação. Ele deixou o governo a Feroras, seu irmão. Colocou Cipro, sua mãe, sua irmã e todos os seus parentes na fortaleza de Massada e ordenou a Feroras que, se na sua viagem algo de mal lhe viesse a suceder, tomasse o governo do reino.
Quanto a Mariana, que não se acertava com Cipro nem com Salomé, ele a colocou com Alexandra, sua mãe, no castelo de Alexandriom, cuja guarda confiou a José, seu tesoureiro, e a Soeme Itureu, em quem desde o começo de seu reinado depositara sempre a sua inteira confiança. Tomou como pretexto querer prestar às princesas essa honra, mas deu a esses dois homens ordens secretas, caso a viagem lhe corresse mal: deveriam matá-las logo que tivessem notícias de sua morte e depois ajudar Feroras com todas as suas forças a conservar o reino aos seus filhos.

CAPÍTULO 10
HERODES FALA COM TODA GENEROSIDADE A AUGUSTO E CONQUISTA A SUA AMIZADE. ACOMPANHA-O AO EGITO E O RECEBE EM PTOLEMAIDA COM TÃO EXTRAORDINÁRIA MAGNIFICÊNCIA QUE GRANJEIA A ESTIMA DE TODOS OS ROMANOS.

649. Depois que Herodes providenciou tudo, embarcou para Rodes, onde foi procurar Augusto. Compareceu à sua presença com todos os ornamentos da dignidade real, exceto a coroa, e jamais demonstrou maior coragem na maneira de falar. Pois, em vez de usar de rogos e amáveis desculpas, para induzir o rei a perdoá-lo, como se faz ordinariamente em tão grande golpe da fortuna, prestou-lhe contas de seu proceder sem demonstrar o mínimo temor. Confessou que nada podia acrescentar ao afeto que nutrira por Antônio; que contribuíra com todas as suas posses para conservar o império do mundo em seu poder; que se não estivesse ocupado com os árabes, teria unido as suas armas às dele; que esse motivo o impedira, mas ainda assim lhe enviara trigo e dinheiro; que desejaria ter feito muito mais, empregando não somente os seus bens, mas a sua vida por um amigo e benfeitor, como sempre fora Antônio para ele; que, pelo menos, não poderiam acusá-lo de ter abandonado Antônio na batalha de Accio, nem de que a mudança de sorte o tivesse feito mudar de idéia, para abraçar outros interesses e abrir caminho a novas esperanças.
Ele acrescentou: &quot;Quando me vi sem condições de ajudá-lo com as minhas tropas e com a minha pessoa, dei-lhe um conselho que teria impedido a sua ruína se ele o tivesse seguido: matar Cleópatra, apoderar-se do seu reino e poder assim fazer convosco uma paz muito vantajosa. Ele desprezou esse conselho e contribuiu assim para o aumento de vossa fortuna, em vez de conservar a dele. O vosso ódio por ele vos faz condenar o meu afeto. Eu, porém, não deixarei de confessá-lo e nada me impedirá de proclamar em alta voz quão grande era a minha paixão por seus interesses e por sua pessoa. Mas se quiserdes, sem considerar o que se passou entre mim e ele, experimentar que amigo eu sou e o meu reconhecimento para com os meus benfeitores, podeis fazer a prova: bastará mudarmos os nomes, e haverá sempre a mesma amizade, digna dos mesmos louvores&quot;.
Herodes, ao pronunciar essas palavras, manifestara tanta coragem que Augusto, extremamente generoso, ficou muito impressionado, pois aquele rei dos judeus não somente evitou o perigo que o ameaçava como também conquistou o seu afeto com aquela maneira tão nobre de se justificar e defender. Permitiu-lhe então que retomasse a coroa e exortou-o a ser tão amigo seu quanto o fora de Antônio. Tratou-o honrosamente, manifestando também a sua gratidão por ter ele ajudado Lépido parente vários príncipes. Para dar-lhe uma prova de sua amizade, confirmou-o na posse do reino por um decreto do senado. Herodes, cumulado de tantos favores, que sobrepujavam em muito as suas esperanças, acompanhou Augusto ao Egito e deu a ele e aos seus adjuntos magníficos presentes, que iam mesmo além de suas posses. Pediu a Augusto com muita insistência graça para Alexandre, que havia sido amigo de Antônio, mas não pôde obtê-la, pois Augusto jurara não concedê-la.
650.  A volta de Herodes à Judéia com um novo acréscimo de honra e de autoridade causou grande admiração a todos os que esperavam o contrário. E eles só podiam considerar tal fato uma prova da proteção de Deus sobre ele, que escapava com rara felicidade de todos os perigos que o ameaçavam e ainda tornava a sua vida mais brilhante e mais ilustre.
651. Quando Augusto passou da Síria ao Egito, Herodes não se contentou em recebê-lo com incrível magnificência em Ptolemaida, mas forneceu a todo o exército víveres em abundância. Essa generosa maneira de agir conquistou-lhe tanta familiaridade perante o imperador que este, quando marchava a cavalo pelo campo, o fazia ficar ao seu lado. Herodes escolheu cento e cinqüenta dentre aqueles em quem mais confiava para servir Augusto e os seus amigos com toda a suntuosidade e gentileza. Se o exército era obrigado a passar por lugares estéreis, onde não havia água, a sua previdência nada lhes deixava faltar, mas fazia com que tivessem até mesmo vinho. Deu ainda a Augusto oitocentos talentos, e os romanos ficaram muito satisfeitos com ele, a ponto de afirmar que a grandeza de sua alma o elevava muito acima de sua coroa.
O fato de ele haver assim tratado, nessa ocasião, os homens mais ilustres do império, quando estes voltavam do Egito, incutiram tão grande estima no espírito de Augusto e dos romanos que eles não se cansavam de louvá-lo e de dizer que nenhum outro príncipe o superava em magnificência e em liberalidade.

CAPÍTULO 11
MARIANA RECEBE HERODES COM FRIEZA, A QUAL, UNIDA ÀS CALÚNIAS DA
MÃE E DA IRMÃ DO PRÍNCIPE, A TERIA LEVADO À MORTE, MAS HERODES É
OBRIGADO A VOLTAR PARA JUNTO DE AUGUSTO. HERODES MATA MARIANA
QUANDO REGRESSA. COVARDIA DE ALEXANDRA, MÃE DE MARIANA.
DESESPERO DE HERODES APÓS A MORTE DE MARIANA. ELE ADOECE
GRAVEMENTE. ALEXANDRA PROCURA APODERAR-SE DAS DUAS FORTALEZAS DE
JERUSALÉM. ELE A MATA, BEM COMO A COSTOBARO E ALGUNS OUTROS. EM
HONRA DE AUGUSTO, ESTABELECE JOGOS E ESPETÁCULOS, IRRITANDO A MAIOR
 


PARTE DOS JUDEUS, E DEZ DELES TENTAM MATÁ-LO. CONSTRÓI DIVERSAS
FORTALEZAS E RECONSTRÓI SOBRE AS RUÍNAS DE SAMARIA UMA BELA E
FORTÍSSIMA CIDADE, A QUE CHAMA SEBASTE.

652.  Herodes, na volta ao seu reino, em vez de desfrutar a doçura da paz ou um descanso tranqüilo, encontrou apenas perturbação em sua própria família, pelo descontentamento de Mariana e de Alexandra. Elas julgavam, com razão, que não era para cuidar de sua segurança que ele as encerrara naquele castelo, e sim para mantê-las prisioneiras, pois não tinham liberdade para dispor do que quer que fosse. Mariana, além disso, estava convencida de que o grande amor que ele lhe demonstrava era simulação, que ele apenas a julgava útil aos seus interesses. Como sempre se recordava da ordem que ele dera a José, pensava nisso com horror, pois, mesmo que ele viesse a morrer, ela não esperava continuar vivendo depois da morte dele. Assim, não havia meios que ela não empregasse para conquistar os guardas, particularmente Soeme, de quem ela sabia que dependia a sua morte ou a sua vida.
No começo, ele era muito fiel a Herodes, mas pouco a pouco os presentes e a cordialidade das princesas o conquistaram. Ele não imaginava que Herodes, mesmo evitando o perigo que o ameaçava, viesse a conquistar tão grande autoridade. Julgava também que podia esperar mais das princesas do que dele e que a gratidão que elas lhe demonstravam por tão grande serviço o manteria não somente na estima em que se achava, mas aumentaria ainda o seu prestígio. E, ainda que sucedesse a Herodes tudo o que este poderia desejar, a sua incrível paixão por Mariana o tornaria onipotente. Tantas considerações, juntas, levaram-no a revelar às princesas o segredo que lhe fora confiado. Mariana ficou fora de si de despeito e de cólera ao ver que os males que ela devia temer não tinham limites, e fazia continuamente votos de que tudo fosse contrário a Herodes. Nada agora lhe parecia mais insuportável que passar a vida com ele, e esses sentimentos fizeram tal impressão em seu espírito que ela já não os podia dissimular.
653.  Os resultados da viagem sobrepujaram as esperanças de Herodes, e a primeira coisa que ele fez ao chegar foi procurar Mariana, para abraçá-la e dizer-lhe que ela era a pessoa a quem mais ele amava no mundo e que a amava ainda mais e para contar de que modo tudo lhe havia sucedido maravilhosamente. Enquanto ele falava, ela ficou sem saber se devia alegrar-se ou afligir-se, mas a sua extrema sinceridade não lhe permitia ocultar a agitação de seu espírito, e os seus suspiros faziam ver que aquelas palavras lhe davam mais tristeza que alegria. 
Herodes então não pôde mais duvidar do que ela trazia na alma: uma aversão tão patente que ele a percebeu em seguida. E o seu excessivo amor por ela tornava aquele desprezo insuportável. Ao mesmo tempo, contudo, a sua cólera era de tal modo combatida pelo afeto que ele passava do ódio ao amor e do amor ao ódio. Assim, hesitando entre as duas paixões, não sabia que partido tomar, pois, ao mesmo tempo em que desejava matá-la, para vingar-se daquela ingratidão, sentia em seu coração que a morte dela o tornaria o mais infeliz de todos os homens.
654. Quando a mãe e a irmã de Herodes, que odiavam mortalmente Mariana, viram-no sob aquela agitação, julgaram ter encontrado uma ocasião mais que favorável para destruí-la. Não houve calúnias de que não se servissem para aumentar a irritação do príncipe e inflamar cada vez mais os seus ciúmes. Eles as escutava e demonstrava não reprovar que elas falassem contra Mariana, mas não se resolvia a matar uma pessoa a quem ele amava mais que a própria vida. No entanto irritava-se contra ela cada dia mais, e ela, por sua vez, não dissimulava os seus sentimentos. Por fim, o amor dele transformou-se em ódio, e ele teria então executado a sua cruel resolução, não fosse a notícia de que Augusto se tornara senhor do Egito pela morte de Antônio e de Cleopatra.
Essa notícia obrigou-o a deixar tudo para ir procurá-lo. Recomendou Mariana a Soeme com grandes demonstrações de satisfação, pelo cuidado que tivera dela, e deu a ele um governo na Judéia. Como já havia adquirido muita familia-ridade com Augusto e tinha parte na sua amizade, Herodes recebeu dele não somente honras, mas grandes benefícios. Augusto deu-lhe quatrocentos gauleses que serviam de guardas a Cleopatra e entregou-lhe aquela parte da judéia que Antônio entregara a ela, bem como as cidades de Gadara, Hipona e Samaria e, à beira-mar, Gaza, Antedom, Jope e a torre de Estratão, o que aumentou em muito o seu reino.
655.   Herodes acompanhou Augusto até Antioquia e, quando voltou a Jerusalém, sentiu que o seu casamento, que antes considerava a sua maior felicidade, o tornava agora tão infeliz em seu próprio reino quanto era bem-sucedido fora de sua pátria. Ele amava tão ardentemente Mariana que não se lê em história alguma que outro homem tenha sido mais arrebatado que ele por um amor ilegítimo a sua própria mulher. A princesa, não obstante ser extremamente sensata e muito casta, era de mau gênio e abusava de tal modo da paixão que ele sentia por ela que o tratava às vezes com desprezo, chegando mesmo a ofensas, sem teimem consideração o respeito que lhe era devido.
Ele dissimulava, no entanto, e sofria mesmo as censuras que ela fazia a sua mãe e a sua irmã pela baixeza do nascimento delas, causa do ódio irreconciliável que as levou a usar de tantas acusações falsas para arruiná-la. E assim, os ânimos acirravam-se cada vez mais, e um ano passou-se desse modo depois que Herodes retornou da visita a Augusto. Mas, por fim, o desígnio que ele vinha alimentando desde muito tempo em seu espírito chegou ao seu termo, pelo motivo que passo a expor.
Um dia, Herodes retirou-se para o seu quarto, a fim de descansar, pelo meio-dia, e mandou chamar Mariana, a quem ele não conseguia deixar de amar com paixão. Ela veio. No entanto, por mais instâncias que ele lhe fizesse, ela não quis aproximar-se dele e censurou-o ainda pela morte de seu pai e de seu irmão. Essas palavras ofensivas, bem como o desprezo dela, irritaram Herodes de tal modo que ele foi tentado a feri-la. Salomé, ao saber do que se passara, fez entrar no quarto um criado do príncipe. O homem, que ela havia subornado, instruído por ela disse que a rainha lhe oferecera uma grande recompensa para levar ao rei certa bebida. Herodes, perturbado por essas palavras, perguntou-lhe que bebida era. O criado respondeu-lhe que a rainha não lhe dera o que colocar dentro da taça, queria somente que a apresentasse. E, como ignorava a força daquela poção, julgara seu dever advertir sua majestade.
Tal resposta aumentou ainda mais a perturbação de Herodes. Então ele mandou torturar um eunuco de Mariana, que ele sabia ser-lhe muito fiel, pois não duvidava de que ela lhe confiasse tudo. O homem nada confessou, mas deixou escapar dos lábios, no meio dos tormentos, que o ódio de Mariana provinha do que ela soubera por meio de Soeme. Diante dessas palavras, Herodes disse que Soeme, antes tão fiel, jamais lhe teria revelado o segredo se não tivesse abusado de Mariana e ao mesmo tempo mandou matar Soeme.
Quanto à rainha, quis submetê-la a julgamento. Reuniu para isso os conselheiros nos quais ele mais confiava e ordenou a Mariana que se defendesse. Acusou-a do falso crime de tentar dar-lhe uma bebida para envenená-lo. E, em vez de se manter nos limites da moderação, como convém a um juiz, falou com tanta veemência e fúria que os outros juizes não tiveram dificuldade em lhe conhecer a intenção, e eles condenaram à morte a inocente princesa. No entanto julgaram — e ele também foi da mesma opinião — que não se devia apressar a execução, que era preferível aprisioná-la no palácio. Porém, Salomé e os de seu partido, não podendo tolerar qualquer demora, procuraram por todos os meios mudar essa deliberação, e uma das mais fortes razões de que-se serviram para persuadir Herodes foi o temor que ele devia ter de que o povo se sublevasse, caso viessem a saber que a rainha ainda estava viva. Assim, levaram-na imediatamente ao suplício.
Alexandra, julgando que não seria tratada com mais benignidade que a filha, esqueceu, por vergonhosa mudança, a coragem de que até então sempre dera provas e mostrou-se tão fraca e covarde quanto antes fora altiva. Assim, para insinuar que não tivera parte no crime da filha, tratou-a ultrajosamente na presença de todos. Dizia que ela era má, ingrata e indigna do extremo amor que o rei lhe dedicara e sofria o que merecia tão grande crime. Falando assim, parecia querer ela mesma lançar-se sobre a filha e arrancar-lhe os cabelos. Não houve quem não condenasse essa covarde dissimulação. Mariana, mais que todos, com o seu silêncio, tampouco se comoveu com tais injúrias e nem se dignou responder-lhe, mas contentou-se em mostrar no rosto, com a coragem de costume, a vergonha que sentia por tal baixeza. E, sem demonstrar o menor medo, nem ao menos mudando de cor, manifestou até a morte a mesma coragem que havia demonstrado durante toda a sua vida.
656. Assim terminou a sua existência essa princesa tão casta e corajosa, porém muito altiva e de natureza muito áspera. Sobrepujava infinitamente em beleza, em majestade e em graça todas as outras mulheres de sua época, e tantas e tão raras qualidades foram a causa de sua infelicidade, pois, vendo o rei seu marido tão apaixonado por ela, julgou que nada tinha a temer, perdeu o respeito que lhe devia e não teve receio de confessar o ressentimento que conservava por ter ele mandado matar o seu pai e o seu irmão. Semelhante imprudência tornou também a mãe e a irmã do soberano adversárias suas e por fim obrigou ele mesmo a tornar-se também seu inimigo.
657.  Por mais violenta que fosse a paixão de Herodes por Mariana durante a vida, e o que referimos nô-lo mostra suficientemente, ela aumentou após a sua morte. Ele não a amava como os outros maridos amam a suas esposas, mas chegava quase à loucura. E, por mais estranha a maneira como ambos viveram, ele não conseguia deixar de amá-la. Depois que ela já não era deste mundo, parecia-lhe que Deus exigia dele o sangue da mulher. Ele ouvia a todo instante pronunciarem o nome dela. Lamentava-se de maneira indigna da sua condição de rei e buscava em vão nos banquetes e nos outros divertimentos algum alívio para o seu sofrer. Chegou o seu penar a tal excesso que ele abandonou o cuidado do reino. E ordenava que fossem chamar Mariana como se ela ainda estivesse viva.
Vivia ele nesse estado jjuando sobreveio uma horrível peste, que ceifou não somente grande parte do povo, mas várias pessoas da nobreza. Todos consideraram esse terrível mal uma justa vingança de Deus pelo crime cometido na injusta condenação de Mariana. Esse acréscimo de sofrimento acabou por abater completamente Herodes, que se abandonou ao desespero e foi esconder-se no deserto, sob o pretexto de ir à caça. Depois caiu doente, com uma inflamação e uma dor de cabeça tão violenta que lhe perturbou o juízo. Os remédios só serviam para aumentá-la, e os médicos, vendo a obstinação do mal, bem como a do doente, que queria governar-se por si mesmo, sem lhes permitir um tratamento segundo as regras da medicina, foram obrigados a abandoná-lo à sorte de sua enfermidade e quase perderam a esperança de lhe salvar a vida. Ele então estava em Samaria, que agora se chama Sebaste.
658. Quando Alexandra, que estava em Jerusalém, soube que ele corria tão grande perigo, fez todos os esforços possíveis para se apoderar das duas fortalezas, uma das quais estava na cidade, e outra, perto do Templo. Porque, se conseguisse tomá-las, seria também, de certo modo, dona de todo o país, visto que não se poderia, sem o seu consentimento, oferecer sacrifícios a Deus, e os judeus são tão apegados à sua religião que preferem os deveres aos quais ela obriga à própria vida.
Assim, Alexandra insistiu com os comandantes dessas fortalezas que as entregassem a ela e aos filhos de Herodes e Mariana. Disse-lhes que, se ele viesse a faltar, não era justo que elas caíssem em poder de outra família e, se ele sarasse, ninguém melhor para possuí-las que os seus próprios parentes. Mas essas razões não os convenceram, tanto porque havia muito tempo eram fiéis e bastante afeiçoados ao rei, não tendo perdido a esperança de sua saúde, quanto pelo ódio que sentiam por Alexandra. Um deles, de nome Aquiabe, que era sobrinho de Herodes, mandou com urgência avisar o rei das intenções de Alexandra, e este ordenou imediatamente que a matassem.
659. Por fim, o soberano, com grande dificuldade, restabeleceu-se de sua doença. Mas as forças refeitas do corpo e do espírito tornaram-no tão colérico e tão violento que não havia crueldade a que não fosse levado, pelo menor motivo. Não poupou nem mesmo os seus mais íntimos amigos: mandou matar Costobaro, Lisímaco, Gadias, cognominado Antípatro, e Doziteu, pelo motivo que vou dizer agora.
Costobaro era oriundo de uma das mais importantes famílias da Iduméia, e os seus antepassados haviam sido sacerdotes de Cosas, que era o deus que esses povos adoravam com grande veneração, antes de Hircano obrigá-los receber a religião dos judeus. Herodes, logo que foi feito rei, deu a Costobaro o governo da Iduméia e de Gaza e o fez desposar Salomé, sua irmã, depois de haver matado José, seu primeiro marido, como dissemos. Quando se viu elevado a tamanha grandeza, a qual jamais ousaria pretender, Costobaro tornou-se tão altivo que não quis mais tolerar a submissão a Herodes, e julgava que era vergonhoso aos idumeus reconhecê-lo por rei, por terem as mesmas leis que os judeus. Assim, mandou dizer a Cleópatra que, tendo sido a Iduméia sempre sujeita aos seus predecessores, ela podia com justiça pedir a Antônio que desse a ele essa terra, e por isso estaria pronto a obedecer-lhe. Não que ele preferisse estar sob a dominação de Cleópatra, mas queria diminuir o poder de Herodes, para mais facilmente tornar-se senhor da Iduméia. Ele se comprazia na esperança de obtê-lo, tanto pelo esplendor de sua família quanto pelas suas grandes riquezas. Depois de fazer esses projetos, não houve meios baixos ou ignominiosos de que ele não se servisse para ajuntar dinheiro.
Cleópatra fez todos os esforços possíveis junto de Antônio, mas inutilmente. Herodes teria logo mandado matar Costobaro, se os rogos de sua mãe e de sua irmã não o tivessem impedido. Contentou-se em não ter mais nenhuma confiança nele. Costobaro teve depois uma séria divergência com Salomé, sua mulher, e ela mandou-lhe o libelo do divórcio, contra o costume de nossas leis, que permitem esse ato somente aos maridos e não consentem nem mesmo às mulheres repudiadas tornar a casar-se sem a licença deles. Ela, porém, fez com a sua própria autoridade o que não tinha direito de fazer e foi em seguida procurar o rei seu irmão. Disse-lhe que o afeto por ele a obrigara a abandonar o marido, pois descobrira que conspirava contra ele, juntamente com Antipatro, Lisímaco e Doziteu. E, como prova do que dizia, acrescentou que ele retinha havia doze anos os filhos de Babas, a quem havia salvo a vida, o que era verdade.
Essas palavras deixaram Herodes muito surpreendido porque outrora deliberara matá-los, como eternos inimigos, mas o tempo o fizera esquecer tudo. A causa desse ódio contra eles vinha desde quando ele sitiava Jerusalém, sob o reinado de Antígono. A maior parte do povo queria abrir-lhe as portas, cansados dos males que aqueles cercos os faziam sofrer. Os filhos de Babas, porém, que tinham muita autoridade e eram muito fiéis a Antígono, opuseram-se a isso, persuadidos de que era muito mais vantajoso para a nação ser governada por príncipes da família real que por Herodes. Depois que ele tomou a cidade, deu ordem a Costobaro para vigiar as saídas, a fim de impedir a fuga dos que lhe eram contrários. Mas Costobaro, conhecendo o prestígio dos filhos de Babas entre o povo, julgou muito útil conservá-los, para deles se servir, caso houvesse no futuro alguma mudança. Assim, deixou-os escapar, mandando-os para as suas terras.
Herodes desconfiara disso, mas Costobaro declarou com tanta firmeza e com juramento não saber que fim haviam eles levado que a suspeita se dissipou de seu espírito. Depois, fez tudo para encontrá-los. Mandou publicar a som de trombetas que daria grande recompensa a quem lhe indicasse onde eles estavam, mas Costobaro nada confessou porque, tendo uma vez negado sabê-lo, foi obrigado a mantê-los escondidos, não tanto pelo afeto que lhes dedicava, mas por seu próprio interesse. Logo que Herodes veio a sabê-lo, por meio de sua irmã, mandou buscá-los onde estavam escondidos e mandou matar todos eles, bem como aos que ele julgava culpados do mesmo crime, a fim de que, não ficando nem um sequer da descendência de Hircano, ninguém mais ousasse resistir à sua vontade, por mais injusta que fosse.
660. Assim, Herodes, com poder absoluto e plena liberdade para fazer o que queria, não teve receio de se afastar cada vez mais das tradições de nossos antepassados. Aboliu os nossos antigos costumes, que lhe deveriam ser invioláveis, para introduzir outros, trazendo assim uma estranha mudança na disciplina que mantinha o povo no cumprimento do dever. Começou por instituir jogos, lutas e corridas, que se faziam cada cinco anos em honra de Augusto, e mandou construir para esse fim um circo em Jerusalém e um grande anfiteatro fora da cidade. Esses dois edifícios eram soberbos, mas contrários aos nossos costumes, que não nos permitem assistir a semelhantes espetáculos.
Como ele queria tornar célebres esses jogos, mandou publicá-los não somente nas províncias vizinhas, mas também nos lugares mais afastados, com a promessa de grandes recompensas para os vencedores. Vieram então de todas as partes os candidatos à luta e às corridas, músicos tocadores de toda espécie de instrumentos, homens peritos em corridas de carros com uma parelha de cavalos, com duas, três e até quatro. Outros corriam em cavalos muito velozes. Nada se podia acrescentar à magnificência e aos cuidados que Herodes usava para tornar esses espetáculos os mais belos e agradáveis do mundo.
O circo era rodeado de inscrições em louvor a Augusto e de troféus das nações que ele tinha vencido. Havia ouro e prata, ricos vestuários e pedras preciosas. Mandou também vir de todas as partes grande quantidade de animais ferozes, como leões e outros animais, cuja força extraordinária ou alguma qualidade rara suscitava admiração e curiosidade. Fazia-os lutar uns contra os outros e, às vezes, com homens condenados à morte. Tais espetáculos não causavam menos prazer que admiração aos estrangeiros. Mas os judeus o consideravam uma deturpação e uma corrupção da disciplina de seus antepassados. Nada lhes parecia mais ímpio que expor homens ao furor das feras por um prazer tão cruel ou abandonar os santos costumes para abraçar os de nações idolatras. Os troféus, que lhes pareciam cobrir figuras de homens, não lhes eram menos insuportáveis, porque violavam inteiramente as nossas leis.
Herodes, vendo-os com esses sentimentos, julgou não dever usar de violência. Falou-lhes com muita afabilidade, procurando fazê-los compreender que aquele temor procedia apenas de uma vã superstição. Mas não conseguiu persuadi-los. Convictos de que ele cometia um gravíssimo pecado, declararam que, ainda que tolerassem o resto, não permitiriam jamais em suas cidades imagens ou figuras de homens, porque a sua religião o proibia expressamente. Herodes facilmente concluiu, por essas palavras, que o único meio de acalmá-los era livrá-los daquele engano. Levou alguns deles ao circo, mostrou-lhes vários troféus e perguntou-lhes o que pensavam que eram. Eles responderam que eram figuras de homens. Então ele mandou tirar todos os ornamentos, restando apenas os cabides sobre os quais estavam pendurados. Todos acharam graça, e o tumulto acalmou-se.
Quase todos vieram a tolerar com facilidade o resto, mas alguns não mudaram os seus sentimentos nem a sua opinião. O horror que tinham aos costumes estrangeiros lhes fazia crer que não podiam ser introduzidos sem prejuízo das tradições de nossos antepassados e sem causar a ruína da nação. Assim, não consideraram mais Herodes seu rei, e sim um inimigo. E resolveram antes expor-se a qualquer coisa que tolerar tão grande mal.
661. Dez dentre eles, desprezando a gravidade do perigo, esconderam punhais sob as vestes e, fortalecidos em seu desígnio por um cego, que não podia ter parte na ação mas quisera expor-se ao risco que eles corriam, foram ao teatro, certos de que o rei não faltaria, pois de nada desconfiava, e eles o atacariam todos de uma vez. Se viessem a falhar, pelo menos matariam muitos dos que o acompanhavam e morreriam com a consolação de torná-lo odioso ao povo por ter violado as leis e de ao mesmo tempo mostrar a outros o caminho para a realização de uma justa empresa. Herodes, porém, tinha vários espiões, que tudo observavam, e um deles descobriu a trama. Ele acreditou nela facilmente, porque sabia do ódio que lhe votavam e do que este é capaz. Então retirou-se ao palácio e mandou prender os conjurados, que, não se podendo salvar, se entregaram sem resistência.
A coragem deles tornou-lhes a morte gloriosa, pois não demonstraram o menor temor nem negaram o seu intento. Com rosto firme e tranqüilo, mostraram os punhais que haviam preparado para executar o crime e declararam que a piedade e o bem público os levara a empreendê-lo, para conservar as leis de seus antepassados, pois não há homem de bem que não deva preferi-las à própria vida. Depois de terem assim falado, morreram com a mesma firmeza, em meio aos tormentos que Herodes os fez sofrer. O ódio que o povo então concebeu contra o delator foi tão intenso que não se contentaram em matá-lo: picaram-no em pedaços e o deram a comer aos cães, sem que nenhum judeu fosse acusá-los. Herodes, após cuidadosa indagação, descobriu os autores por meio de mulheres — a violência dos tormentos obrigou-as a confessar.
662. Herodes mandou matá-lo*s, com suas famílias, mas vendo que o povo se obstinava cada vez mais em defender os seus costumes e as suas leis e que aquilo os levaria a uma revolta se ele não empregasse os meios mais violentos para reprimi-los, decidiu fazê-lo. Assim, além das duas fortalezas que havia em Jerusalém, uma no palácio real, onde ele morava, e outra de nome Antônia, que estava perto do Templo, ele mandou fortificar Samaria porque, estando longe de Jerusalém apenas um dia, podia impedir as rebeliões tanto na cidade quanto no campo. Fortificou também de tal modo a torre de Estratão, a que chamou de Cesaréia, que ela parecia dominar todo o país.
Construiu um castelo no lugar chamado O Campo, onde colocou uma guar-nição de cavalaria, cujos soldados eram indicados por sorte. Construiu outro em Gabara da Galiléia e outro, de nome Estmonita, na Peréia. Essas fortalezas, dispostas nos lugares mais convenientes para os fins a que ele as destinava e nas quais colocou fortes guarnições, tiraram ao povo, tão inclinado à revolta, todos os meios de se sublevar, porque ao menor sinal de agitação aqueles que estavam encarregados de vigiar a impediam logo ou a sufocavam apenas iniciada.
Como ele tinha intenção de reconstruir Samaria, cuja posição a fazia vantajosa e forte, porque estava sobre uma colina, mandou lá construir um Templo, colocou um grande corpo de tropas estrangeiras e das províncias vizinhas e mudou-lhe o nome para Sebaste. Dividiu entre os habitantes as terras da vizinhança, as quais eram muito férteis, a fim de logo deixá-los bem à vontade para que o lugar se povoasse rapidamente. Rodeou-a de fortes muralhas, e assim aumentou e lhe fortificou o perímetro, que era de vinte estádios, tornando-a comparável às maiores cidades. Fez no meio dela uma espaçosa praça, que media um estádio e meio, e construiu um Templo soberbo. Trabalhou continuamente e de todos os modos para tornar célebre a cidade, porque ele considerava a força necessária à segurança e à beleza, um monumento à sua grandeza e magnificência, que conservaria a memória de seu nome através dos séculos.

CAPÍTULO 12
AJUDÉIA É AMARGURADA POR ENORMES MALES, PARTICULARMENTE POR UMA VIOLENTA PESTE E UMA GRANDE CARESTIA. CUIDADOS E LIBERALIDADES
INCRÍVEIS DE HERODES PARA REMEDIAR OS GRAVES INCONVENIENTES.
RECONQUISTA DESSE MODO Â AFETO DO POVO E RESTAURA A ABUNDÂNCIA.
SOBERBO PALÁCIO QUE ELE CONSTRÓI EM JERUSALÉM. DESPOSA AFILHA DE
SIMÃO, QUE ELE CONSTITUI SUMO SACERDOTE. OUTRO SOBERBO CASTELO QUE
ELE CONSTRÓI NO LUGAR ONDE OUTRORA VENCERA OS JUDEUS.

663. Naquele mesmo ano, que era o décimo terceiro do reinado de Herodes, a Judéia foi torturada por grandíssimos males, por uma vingança de Deus ou por algum dos funestos acidentes que de tempos em tempos sucedem no mundo. Começou por uma prolongada seca, e a terra não dava mais os frutos que produz naturalmente, sem que se cultive. A necessidade obrigou o povo a sustentar a vida com um alimento que antes lhes era desconhecido, e contraíram assim graves doenças. E ainda, por uma concatenação de males que se sucediam uns aos outros, sobreveio uma violenta peste.
Esse terrível flagelo aumentava, porque os que eram por ela atacados não tinham assistência nem alimento. Muitos morriam logo, e o desespero por não terem recursos e não poderem auxiliar os enfermos tirava aos que não haviam sido contaminados a coragem de prestar aos seus semelhantes cuidados que lhes seriam inúteis. Todos os frutos dos anos precedentes haviam sido consumidos. Naquele ano, nada se colhera, e inutilmente se teria semeado a terra, porque estava tão árida e seca que deixava morrer em seu seio as sementes lançadas. Como aquilo continuasse por mais de um ano, o mal crescia sempre, em vez de diminuir.
Em tal desolação, a riqueza de Herodes, por maior que fosse, não seria bastante, pois a esterilidade da terra lhe impedia de receber os tributos, e ele havia empregado enormes somas na construção de cidades e fortalezas. Sem esperança de socorro, ele via unir-se a tantos males o ódio de seus súditos contra ele, porque é costume dos povos lançar sobre os governantes a culpa dos males que sofrem. Ele procurava sem cessar o remédio para aliviá-los, mas inutilmente, pois os vizinhos também estavam angustiados pela fome e não lhe podiam vender trigo. Ele tampouco tinha dinheiro suficiente para repartir com uma multidão tão grande e tão necessitada de auxílio. Por fim, convencido de que tinha de fazer algo em tal conjuntura, mandou fundir tudo o que havia de ouro e prata, sem mesmo poupar as obras dos mais célebres artistas. Com isso, reuniu uma grande soma e enviou-a ao Egito, onde Petrônio governava, no lugar de Augusto.
O governador era solicitado com insistência por muitos outros, atingidos também por semelhante desgraça, que a ele recorriam. Mas, como era muito amigo de Herodes, concedeu-lhe, em consideração aos seus súditos, uma partida de trigo, dando-lhe preferência a todos os outros. Ele próprio ajudou-os a realizar a compra e o transporte e assim contribuiu mais do que ninguém para a salvação de nossa gente. A gratidão por se ver aliviado e socorrido em sua miséria pelos extremos cuidados do rei não somente fez o povo esquecer o ódio que lhe tinha, mas o levou a tecer os elogios que a sua bondade merecia. Ele distribuiu o trigo primeiro aos que podiam fazer o pão e enviou padeiros àqueles que, pela velhice ou pela doença, não o podiam fazer. Ajudou-os também contra o rigor do inverno, dando-lhes vestes, de que tinham também grande necessidade, pois o gado morrera quase todo, e eles não tinham lã nem outras coisas de que se servir.
Depois de atender às necessidades de seus súditos, Herodes levou os seus cuidados às cidades da Síria, vizinhas da Judéia. Deu-lhes trigo para semear e não obteve para si menor vantagem que eles, pois a terra produziu em tal abundância o trigo semeado que a fartura voltou. E, quando veio o tempo da messe, ele enviou cinqüenta mil homens, aos quais salvara a vida, para fazer a ceifa. Assim, ele foi não só benfeitor de seu reino, pela sua vigilância e proceder, mas também de seus vizinhos, que não recorreram a ele inutilmente, mas receberam o que precisavam. Ele calculou haver fornecido aos estrangeiros dez mil coros de trigo, contendo cada coro dez medidas áticas. O que ele distribuiu no seu reino montava a oitenta mil coros.
Tantos cuidados e favores realizados em favor do povo numa tão premente necessidade fizeram-no admirado por todo o mundo. Ele ganhou de tal modo o coração de todos que a gratidão pelos favores recentes os fez esquecer o ódio causado pelas modificações qtie ele havia introduzido no reino e na observância dos antigos costumes. Julgaram que aquele mal fora compensado pelos grandes bens que haviam recebido de sua maravilhosa liberalidade, no tempo em que ela lhes foi tão necessária. Não foi menor a glória que ele conquistou também perante os estrangeiros. Assim, tantos males só serviram para tornar o seu nome ainda mais ilustre. Os sofrimentos do povo aumentaram, em seu reino, a sua fama. A gratidão pelos benefícios e a extraordinária bondade que ele demonstrou em tão dura provação, mesmo para com os que não eram seus súditos, fizeram-no ser considerado no exterior não como antes, mas tal como o haviam conhecido naquela extrema necessidade.
664.  O generoso soberano, ainda para demonstrar o seu afeto por Augusto, mandou ao mesmo tempo quinhentos dos mais valentes de seus guardas a Hélio Galo, ao qual prestaram grandes serviços na guerra que ele fazia na Arábia, perto do mar Vermelho. E, depois de haver restaurado a prosperidade em seu território, mandou construir no lugar mais elevado da cidade de Jerusalém um grande e soberbo palácio, resplandecente de ouro e de mármore, onde, entre os magníficos aposentos que lá se viam, havia um com o nome de Augusto e outro com o de Agripa.
665.  Ele pensou então em casar-se novamente e, como não procurava prazer nesse ato, quis escolher uma pessoa em quem pudesse depositar todo o seu afeto. Assim, recebeu uma jovem apenas por amor, do modo que vou narrar. Simão, filho de Boeto, Alexandrino de família nobre e que era sacerdote, tinha uma filha de tão extraordinária beleza que só se falava disso em Jerusalém. A notícia chegou até Herodes, e ele quis vê-la. Jamais houve amor maior à primeira vista que o que ele sentiu por ela. Mas julgou que não devia usar de seu poder, tomando-a, como teria podido fazer, para não passar por tirano. Pensou que devia desposá-la. E, como Simão não era de posição bastante nobre para tal aliança e nem tampouco de condição desprezível, elevou-o então, para torná-lo mais ilustre: tirou o sumo sacerdócio de Jesus, filho de Fabete, e entregou-a a ele, desposando-lhe depois a filha.
666.  Logo após as núpcias, ele construiu, a sessenta estádios de Jerusalém, um magnífico castelo, no lugar onde outrora tinha vencido os judeus, quando Antígono lhe fazia guerra. A localização era muito vantajosa, pois trata-se de um pequeno monte arredondado, muito forte e agradável. Ele embelezou-o e o fortificou ainda mais. O castelo era rodeado de torres às quais se subia por duzentos degraus de pedra. Havia no interior soberbos aposentos, porque Herodes não media despesas para unir a beleza à força. A seus pés, havia diversos e vistosos edifícios, particularmente ricos pela quantidade de lagos e de tanques, cujas águas eram trazidas de longe por aquedutos. Os campos das redondezas estavam tão cheios de casas que poderiam formar uma boa cidade, da qual aquele magnífico castelo construído sobre o monte seria a fortaleza, dominando tudo o mais.
667.  Quando deu por terminadas todas essas obras, Herodes não teve mais receios de revoltas em seu território. O temor do castigo, do qual não excetuava ninguém, mantinha os súditos no cumprimento do dever. A liberalidade com que cuidava das necessidades públicas granjeava-lhe o afeto e a solicitude, os quais empregava para se fortificar cada vez mais. E, como a sua conservação particular fosse a mesma do reino, ela o punha em absoluta segurança. Ele tornou-se popular em todas as cidades, mostrando-lhes muita bondade. E, como era de alma elevada, sabia também ganhar-lhes a estima nas adversidades com a magnificência e o coração dos grandes. Assim, ele tornou-se querido a todos, e a sua prosperidade crescia cada vez mais.
668. A paixão de tornar célebre o seu nome e de cultivar a amizade de Augusto e dos romanos mais poderosos, porém, levou-o a se descuidar da observância dos nossos costumes e a violar em muitos pontos as nossas santas leis. Ele construiu em sua própria honra cidades e Templos, mas não na judéia, porque a nossa nação jamais o teria permitido, sendo coisa abominável entre nós reverenciar imagens e estátuas, como fazem os gregos. Ele alegava, como desculpa para essas obras sacrílegas, que não o fazia voluntariamente, mas para homenagear àqueles aos quais não podia desobedecer. Herodes ganhava por esse meio o afeto de Augusto e dos romanos, os quais viam que, para agradá-los, ele não temia contrariar os costumes de seu país. O benefício particular e o ardente desejo de eternizar a sua memória eram, contudo, o principal motivo de ele gastar tão prodigiosas somas na construção e embelezamento dessas cidades.

CAPÍTULO 13
HERODES MANDA CONSTRUIR UMA SOBERBA CIDADE EM HONRA DE
AUGUSTO, À QUAL DÁ O NOME DE CESARÉIA. ENVIA A AUGUSTO OS SEUS
DOIS FILHOS, ALEXANDRE E ARISTÓBULO, QUE TIVERA DE MARIANA. AUGUSTO
CONCEDE-LHE AINDA NOVOS FAVORES. CAUSA DO BOM TRATAMENTO QUE
HERODES DISPENSAVA AOS ESSÊNIOS.

669. Herodes, tendo notado ao longo do mar a torre de Estratão, cuja situação era muito vantajosa, edificou ali uma cidade de forma e beleza admiráveis. Não somente os palácios eram magníficos, construídos de mármore branco, como também apresentavam belíssima arquitetura as casas dos particulares. E o porto, com dimensões semelhantes às do Pireu, onde os navios podiam ancorar em segurança, sobrepujava a tudo o mais. A estrutura era maravilhosa. Havia dentro grandes magazines para receber toda sorte de mercadoria e de objetos. Foi necessário, para levar a cabo tão grande obra, um trabalho extraordinário e uma despesa fabulosa, porque era preciso trazer de muito longe todo o material.
Essa cidade está na Fenícia, situada no lugar onde se embarca para passar ao Egito, entre Jope e Adora, que são duas pequenas cidades marítimas. Os portos destas, porém, não são seguros, porque são batidos pelo vento áfrico, cuja impe-tuosidade levanta tão grande quantidade de areia contra a praia que os navios carregados de mercadorias aí não podem estar seguros, e os pilotos são obrigados a lançar as âncoras ao mar. Para remediar esse inconveniente, Herodes mandou construir o porto de Cesaréia em forma de crescente, capaz de conter um grande número de navios. E, como o mar mede ali vinte braças de profundidade, mandou lançar pedras de tamanho enorme, a maior das quais tinha cinqüenta pés de comprimento, dezoito de largura e nove de altura. E havia ainda maiores.
A extensão do cais era de duzentos pés, cuja metade servia para quebrar a violência nas ondas, e construiu-se na outra metade um muro fortificado com torres, sendo que a maior e mais bela recebeu de Herodes o nome de Druso, filho da imperatriz Júlia,* mulher de Augusto, que morreu jovem. Havia ainda diversos arcos em forma de pórticos, para alojar os marinheiros. Uma descida muito suave e que poderia servir de belíssimo passeio rodeava todo o porto, cuja entrada estava exposta ao aquilão, que é o mais forte de todos os ventos. Havia do lado esquerdo, por onde se entrava no porto, uma torre construída sobre uma plataforma muito larga, feita para resistir à violência das vagas.
Do lado direito, estavam duas colunas de pedra, tão grandes que superavam a altura da torre. Via-se ao redor do porto uma fileira de casas cujas pedras eram muito bem talhadas, e construiu-se sobre uma colina que está meio o Templo consagrado a Augusto. Os que navegam podem vê-lo de bem longe, e há duas estátuas, uma de Roma e outra desse príncipe, em honra do qual Herodes deu o nome de Cesaréia a essa cidade, não menos admirável pela riqueza de suas construções que pela magnificência de seus ornamentos.
Fizeram-se em terra longos arcos, distantes igualmente uns dos outros, que se dirigiam todos para o mar, e havia um que os atravessava para levar até ele a água da chuva e as imundícies da cidade e receber ao mesmo tempo as águas do mar, quando este se achasse muito agitado, a fim de lavar assim a maior parte das ruas. Herodes mandou também construir um circo de pedra e, ao lado do porto que está voltado para o sul, um enorme anfiteatro, de onde se pode ver bem ao longe por sobre o mar. E, como ele não economizava nem trabalho nem dinheiro em tão grandes obras, empregou doze anos para fazê-la chegar à sua maior perfeição.

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* Josefo chama-a Júlia, mas na verdade é a princesa Lívia.

670.  Depois que construiu essas duas grandes cidades, Sebaste e Cesaréia, o magnífico monarca enviou a Roma Alexandre e Aristóbulo, filhos que tivera de Mariana, para que se fixassem na corte de Augusto. Poliom, que era seu íntimo amigo, preparou-lhes um belo alojamento, mas sem necessidade, porque Augusto quis hospedá-los no palácio real. Esse grande imperador recebeu-os com singular gentileza e demonstrações de afeto, deixando ao pai deles a liberdade de tomar por sucessor aquele que quisesse escolher para tal. Aumentou ainda o reino de Herodes em três províncias: Traconites, Batanéia e Auranite, pelo fato que vou narrar.
671.  Zenodoro, que se havia apoderado dos bens de Lisânias, não se contentando com os rendimentos que deles podia tirar legitimamente, tentou aumentá-los, favorecendo os roubos pelos de Traconites, que costumavam assaltar os arredores de Damasco. Assim, em vez de se opor a eles, Zenodoro tinha parte no produto do roubo. Foram então queixar-se a Varo, governador da província, e ele escreveu a Augusto, que lhe ordenou destruir completamente os redutos desses salteadores e que desse o país a Herodes, a fim de que ele impedisse, com os seus cuidados, a continuação de tal desordem.
Seria muito difícil remediá-la, pois os que viviam desses roubos não iam nem para as cidades nem para as aldeias, mas para as cavernas, onde viviam como animais. Fazendo provisões de víveres e de água, lá se escondiam quando eram atacados ou perseguidos. A entrada dessas cavernas é tão estreita que só é possível entrar uma pessoa por vez, porém no interior são muito espaçosas, mais do que se pode imaginar. A terra que as cobre é plana, mas tão pedregosa e áspera que dificilmente sexonsegue andar ali. Não se pode percorrer sem um guia as estradas que levam a essas cavernas, tão tortuosas e emaranhadas elas são. Aqueles homens eram ainda tão maus que quando não podiam roubar mais ninguém, roubavam uns aos outros.
Logo que Herodes se tornou senhor dessas terras, pela doação de Augusto, ele conseguiu, valendo-se de bons guias, chegar até as cavernas e reprimir todos os assaltos, restituindo a calma a todos os países das redondezas. Zenodoro, abatido de dor pela perda de seus bens e pelo ódio contra Herodes, que os havia tirado, foi a Roma para queixar-se, mas inutilmente.
672.  Por esse mesmo tempo, Augusto enviou Agripa, a quem ele tinha uma estima muito particular, para governar a Ásia. Herodes foi procurá-lo em Mitilene e voltou depois a Jerusalém. Os habitantes de Cadara, querendo fazer queixas dele a Agripa, dirigiram-se para lá. Agripa, no entanto, não somente não os escutou como ainda os despediu acorrentados.
673.  Então os árabes, que não toleravam o domínio de Herodes, procuravam havia muito oportunidade para se revoltar e julgaram ter encontrado uma ocasião favorável. Zenodoro, de quem acabamos de falar, vendo malparados os seus negócios, vendeu Auranite, que fazia parte do que ele antes possuía, por cinqüenta talentos. E, como estava compreendida na doação feita por Augusto a Herodes, os árabes julgaram que lhes estavam fazendo uma enorme injustiça e não iriam tolerá-la. Assim, esforçam-se de todos os modos para conservar a província, tanto afirmando o seu direito perante os juizes quanto pela força, servindo-se de alguns soldados que se compraziam em tomar parte em agitações. Herodes, para evitar que sucedesse alguma rebelião, julgou conveniente remediar esse mal mais pela conciliação que pela violência.
No décimo sétimo ano de seu reinado, Augusto veio à Síria e ouviu ali muitas queixas contra Herodes, da parte dos habitantes de Gadara, que o acusavam de tirania. Zenodoro, principalmente, os levava a isso, prometendo-lhes com juramento jamais descansar até libertá-los da dominação de Herodes e trazê-los de volta à de Augusto. Mas o que os tornou ainda mais atrevidos em se rebelar contra Herodes foi o fato de este não castigar os que Agripa lhe mandara acorrentados, pois quanto ele era severo com os seus súditos tanto era afável com os estrangeiros. E atreveram-se ainda a acusá-lo de haver feito exações. Herodes, sem se comover, preparava-se para se justificar, mas Augusto o recebeu muito bem e demonstrou que de nenhum modo se deixara impressionar para aquelas queixas. Disse-lhe somente alguma coisa no primeiro dia e depois não tocou mais no assunto.
Quando os habitantes viram que os sentimentos de Augusto e dos de sua maior confiança eram favoráveis a Herodes, o temor de serem abandonados à vontade dele levou alguns a cometer suicídio na noite seguinte, outros a se precipitar nos abismos e outros ainda a se afogar. Assim, tendo eles mesmos se condenado, Augusto não encontrou dificuldade em absolver Herodes. Aconteceu também a esse rei dos judeus outro fato auspicioso: Zenodoro morreu em Antioquia, por causa de uma disenteria, e Augusto deu-lhe então todos os outros bens que ele possuía na Galiléia e Traconites, que era muito extensa, porque compreendia Ulata, Paneada e as terras vizinhas. Augusto acrescentou-lhe ainda outro favor: ordenou aos governadores da Síria que nada fizessem sem ordem do rei da Judéia.
Augusto reinava sobre quase toda a terra, e podia-se dizer que Agripa governava depois dele esse poderoso império. Nisso era grande a felicidade de Herodes, pois Augusto, depois de Agripa, não estimava ninguém como a ele, e Agripa não estimava ninguém mais que a Herodes, depois de Augusto. Dois apoios tão poderosos davam-lhe motivo de esperar todo poder, então ele pediu e obteve de Augusto para Feroras, seu irmão, a vice-govemança de todo o seu reino e recolheu imediatamente cem talentos de sua renda a fim de que o irmão tivesse com que viver depois de sua morte, sem depender dos filhos. Depois acompanhou Augusto até o embarque e construiu em sua honra, nas terras de Zenodoro, perto de Panio, um soberbo Templo de mármore branco. Panio é uma enorme caverna sob um monte muito agradável, onde nascem as águas do Jordão. Como esse lugar era já muito célebre, Herodes escolheu para lá consagrar esse Templo a Augusto.
674. Nesse mesmo tempo, Herodes dispensou os seus súditos da terça parte dos tributos, dizendo que o fazia para que se refizessem dos males causados pela carestia. Mas a verdadeira razão era que ele queria acalmar-lhes o espírito por aquelas grandes obras, tão contrárias à sua religião e pelas quais eles não dissimulavam o seu descontentamento. Temendo as conseqüências dessa indisposição, tudo ele fez para diminuí-la e mesmo impedi-la. Ordenou que cada qual se ocupasse apenas de seus assuntos particulares e proibiu, sob grandes castigos, as assembléias e os banquetes em Jerusalém. Prezava tanto a observância desse edito que havia guardas nas cidades e nos grandes caminhos para vigiar e prender os que desobedecessem, os quais eram secreta ou mesmo abertamente levados à fortaleza de Hrrcânia e ali castigados com rigor. Diz-se que ele próprio se disfarçava-eom freqüência e à noite misturava-se com o povo para auscultar-lhe os sentimentos com relação ao governo. E castigava sem misericórdia os que condenavam o seu proceder, obrigando os outros com juramento a jamais lhe faltar à fidelidade.
Assim, a maior parte fazia por medo tudo o que ele ordenava, e não havia meios de que ele não se servisse para condenar os que, não suportando aquele tratamento, tinham a coragem de se queixar. Quis também obrigar Poliom Fariseu, Sameas e a maior parte de seus discípulos ao mesmo juramento. Porém, ainda que eles recusassem fazê-lo, não os castigou como aos demais, pelo respeito que tinha a Poliom, e dispensou também do juramento os que nós chamamos essênios, cujos sentimentos são semelhantes aos dos filósofos e aos quais os gregos chamam pitagóricos, como já dissemos alhures. Sobre isso, creio não me afastar do assunto de minha história se disser a razão que levou Herodes a ter deles uma opinião tão favorável.
675. Um essênio, de nome Manaém, que levava uma vida muito virtuosa e era louvado por todos, recebeu de Deus o dom de predizer o futuro. Tendo ele visto Herodes ainda bastante jovem estudar com as crianças de sua idade, disse-lhe que ele reinaria sobre os judeus. Herodes julgou que ele não o conhecia ou que estava zombando dele e por isso respondeu-lhe que bem via que ele desconhecia a sua origem e o seu nascimento, que não eram tão ilustres que o fizessem esperar tal honra.
Manaém retrucou, sorrindo e dando-lhe uma palmadinha nas costas: &quot;Eu vo-lo disse e vo-lo digo ainda que sereis rei e reinareis venturosamente, porque Deus assim o quer. Lembrai-vos então desta pancadinha que vos acabo de dar, para indicar as diversas mudanças de sorte, e nunca vos esqueçais de que um rei deve ter continuamente diante dos olhos a piedade que Deus lhe pede, a justiça que deve ministrar a todos e o amor que é obrigado a ter pelos seus súditos. Mas sei que não o fareis quando fordes elevado a tão alto grau de poder. Pois sereis feliz em tudo o mais e digno de glória imortal tanto quanto sereis infeliz por vossa impiedade para com Deus e vossa injustiça para com os homens. Mas não podereis escapar à vista desse Senhor soberano do universo. Ele penetrará os vossos pensamentos mais ocultos, e experimentareis no fim de vossa vida os efeitos de sua cólera&quot;.
Herodes não deu então grande importância a essas palavras, mas quando se viu elevado ao trono e em tão grande prosperidade, mandou buscar Manaém e perguntou-lhe sobre a duração de seu reinado, se chegaria a dez anos. Ele respondeu: &quot;De vinte a trinta&quot;, sem nada determinar de positivo. Herodes, muito satisfeito com essa resposta, despediu-o corwnuita gentileza e depois disso tratou sempre os essênios muito favoravelmente. Não duvido de que isso, para muitos, pareça inacreditável. No entanto, julguei dever relatá-lo, porque há vários dessa seita aos quais Deus se digna revelar os seus segredos, por causa da santidade de sua vida.

CAPÍTULO 14
HERODES RECONSTRÓI INTEIRAMENTE O TEMPLO EM JERUSALÉM, PARA TORNÁ-LO AINDA MAIS BELO.

676. Depois de tantas e tão grandes realizações e de tão soberbos edifícios feitos por Herodes, ele imaginou, no décimo oitavo ano de seu reinado, um empreendimento que sobrepujava em muito todos os outros: construir um Templo a Deus, maior e mais alto que o que já existia, porque julgava, e com razão, que tudo o que fizera até então, por maior e mais brilhante que fosse, estava de tal modo abaixo de tão alta empresa que nada poderia contribuir mais para tornar a sua memória imortal.
Como temia que o povo, espantado pela dificuldade de tal obra, tivesse dificuldade em iniciá-la, reuniu-o e falou: &quot;Seria inútil falar-vos de todas as coisas que fiz após a minha ascensão ao trono, pois sendo mais úteis a vós que a mim mesmo, não poderieis ignorá-las. Sabeis que nas calamidades públicas esqueci os meus próprios interesses para vos ajudar, e não teríeis dificuldade em reconhecer que as muitas obras grandiosas que empreendi e concluí, com a ajuda de Deus, e nas quais não visava tanto a minha satisfação particular quanto as vantagens que disso poderieis receber elevaram a nossa nação a um grau de estima nunca antes alcançado. Seria inútil, pois, falar-vos das cidades que construí e das que embelezei na judéia e nas províncias que nos são tributárias. Mas quero propor-vos uma iniciativa muito maior e mais importante que todas as outras, pois se refere à nossa religião e ao culto que devemos prestar a Deus. Sabeis que o Templo que os nossos antepassados construíram depois de seu regresso do cativeiro da Babilônia mede em altura sessenta côvados a menos que o construído por Salomão, mas não devemos culpá-los, pois desejavam torná-lo mais suntuoso que o primeiro, porém, estando então sujeitos aos persas è depois aos macedônios, foram obrigados a seguir as medidas que lhes deram os reis Ciro e Dario, filho de Histapes. Agora que sou devedor a Deus da coroa que possuo e uso sobre minha cabeça, da paz de que desfrutamos, das riquezas que acumulei e, o mais importante, da amizade dos romanos, que hoje são senhores do mundo, esforçar-me-ei por demonstrar o meu reconhecimento por tantos favores, dando a essa obra a maior perfeição&quot;.
677. As palavras de Herodes surpreenderam a todos de modo extraordinário. A grandeza da idéia a fazia parecer inexeqüível. E, mesmo que não o fosse, eles temiam que, depois de demolido o Templo, não o pudessem reconstruir inteiramente, e assim achavam a empresa muito perigosa. Mas ele os tranqüilizou, prometendo não tocar no antigo edifício antes de preparar tudo o que fosse necessário para a construção do novo, e os fatos seguiram-se às palavras. Ele empregou mil carretas para trazer as pedras, reuniu todo o material, escolheu dez mil operários dos melhores e sobre eles constituiu mil sacerdotes, vestidos à sua custa, inteligentes e práticos nos trabalhos de pedreiro e de carpinteiro.
Depois que tudo estava preparado, mandou demolir os antigos alicerces, para serem reconstruídos, e sobre eles ergueu-se o Templo, que media cem côvados de comprimento e cento e vinte de altura. Porém mais tarde os alicerces cederam, e essa altura ficou reduzida a cem côvados. Nossos antepassados quiseram, no reinado de Nero, levantar o Templo, para recuperar esses vinte côvados de rebaixamento. Esse trabalho foi realizado com pedras duras e muito brancas que mediam vinte e cinco côvados de comprimento por oito de altura e doze de largura.
A frente desse soberbo edifício parecia a de um palácio real. As duas extremidades de cada frente eram mais baixas que o centro, e esse centro era tão alto que os que estavam em frente do Templo ou que para lá se dirigiam podiam vê-lo, ainda que estivessem muito longe, mesmo a vários estádios de distância. A arquitetura dos pórticos era quase semelhante ao resto. Viam-se estendidas tapeçarias de diversas cores adornadas com flores de púrpura, com colunas entre elas, nas cornijas, das quais pendiam ramos de videira feitos de ouro, com os cachos e as folhas tão bem trabalhados que nessas obras, tão ricas, a arte nada ficava a dever à natureza.
Herodes mandou fazer galerias ao redor do Templo, tão largas e tão altas que correspondiam à magnificência de todo o resto, sobrepujando em beleza todas as que antes haviam sido vistas, de sorte que parecia que ninguém mais a não ser esse príncipe havia trabalhado para adornar o Templo. Duas dessas galerias eram sustentadas por muralhas fortes e espessas, e nada fora visto até então de mais belo que essa obra.
Havia um outeiro pedregoso muito áspero e inclinado, mas que pendia em descida, mais suave, em direção a cidade, do lado do oriente, e Salomão foi o primeiro, por ordem de Deus, a rodear o seu vértice com muralhas. Herodes fez rodear com outro muro todo o sopé desse montículo, abaixo do qual, do lado sul, há um profundo vale. Esse muro, construído com grandes pedras ligadas com chumbo, ia até a extremidade embaixo do montículo e o rodeava por inteiro. Era de forma quadrangular e tão alto e forte que não se podia contemplá-lo sem admiração. As pedras, de tamanho extraordinário, faziam frente para fora e estavam ligadas entre si com ferro, por dentro, para que pudessem resistir a todas as injúrias do tempo. Depois que esse muro foi erguido, tão alto quanto o vértice do montículo, encheu-se todo o vazio que havia dentro dele. Formou-se assim uma plataforma, cujo perímetro era de quatro estádios, pois cada uma das frentes tinha um estádio de comprimento, e havia um grande pórtico, colocado no meio dos dois ângulos.
Fez-se nesse quadrado um outro muro, também de pedra, para rodear o vértice do montículo, cujo lado, oposto ao oriente, tinha um duplo pórtico, que estava em frente à entrada do Templo, a qual estava construída no meio, e vários de nossos reis adornaram e enriqueceram muito essa entrada. Todo o perímetro do Templo estava cheio de despojos, obtidos sobre os nossos inimigos, e Herodes consagrou-os de novo, depois de acrescentar-lhes os troféus conquistados aos árabes.
Do lado do norte, havia uma torre bastante forte e bem municiada, que fora construída pelos reis da família dos asmoneus, os quais detinham ao mesmo tempo a soberana autoridade e o sumo sacerdócio. Eles haviam dado a essa torre o nome de Baris, porque aí se conservava o veste de que o sumo sacerdote se revestia somente quando oferecia sacrifícios a Deus, e Herodes ordenou que ali se colocasse essa vestimenta sagrada.
Depois da morte de Herodes, os romanos tiveram-no em seu poder até os tempos do imperador Tibério. Mas quando, durante o seu reinado, Vitélio veio tomar posse do governo da Síria, os habitantes de Jerusalém o receberam com tanta honra que este, para lhes demonstrar a sua satisfação, obteve de Tibério para eles, ante os reiterados pedidos que lhe faziam, outra vez a guarda desse santo depósito. Eles desfrutaram essa graça até depois da morte do rei Agripa, o Grande. Então Cássio Longino, governador da Síria, e Cúspio Fado, governador da Judéia, ordenaram aos judeus que o colocassem na torre Antônia, a fim de niiP PIP firassp ramo antes, em Dosse dos romanos. Os judeus, a esse respeito, enviaram embaixadores ao imperador Cláudio. Mas o jovem rei Agripa, que estava em Roma, pediu para ter a posse dele, o que lhe foi concedido, sendo a ordem comunicada a Vitélio.
Era assim que se fazia outrora: a preciosa veste era guardada sob o selo do sumo sacerdote e dos tesoureiros do Templo. Na vigília das festas solenes, eles iam procurar o comandante na torre dos romanos, onde, após a confirmação de que o selo estava intacto, recebiam de suas mãos essa veste e a devolviam, selada como antes, depois de terminada a festa. Essa torre já era forte, mas Herodes a fortificou muito mais ainda, a fim de fortalecer também o Templo, e a chamou Antônia, para honrar a memória de Antônio, que lhe havia demonstrado tanta amizade.
678. Do lado do ocidente, havia quatro portas. Por uma delas, ia-se ao palácio real, atravessando-se um vale que estava entre eles. Pelas outras duas, ia-se aos arrabaldes e, pela quarta, à cidade. Mas era preciso, para isso, descer vários degraus até o fundo do vale e tornar a subir por outros tantos, pois a cidade, em forma de circo, está situada em frente ao Templo e termina naquele vale do lado do sul. E, desse mesmo lado, à frente do quadrado, havia no meio uma outra porta igualmente distante dos dois ângulos e uma tríplice e soberba galeria, que se estendia desde o vale que estava do lado do oriente até o que estava do lado do ocidente. Essa galeria não podia ser mais longa porque compreendia todo esse espaço.
Tal obra era uma das mais admiráveis que o sol jamais iluminou. O vale era tão profundo e tão alta a cúpula elevada acima da galeria que não se podia contemplá-la do fundo do vale, porque a vista não alcançava tão longe sem se obscurecer e turbar. Essas galerias eram sustentadas por quatro séries de colunas igualmente distantes, e um muro de pedra preenchia os espaços entre as colunas da quarta fileira. Essas colunas eram tão grossas que eram necessários três homens para abraçar uma delas. Tinham vinte e sete pés de circunferência, e a sua base media o dobro. Havia ao todo cento e sessenta e duas. Eram de estilo coríntio e tão artisticamente trabalhadas que causavam admiração. Entre essas quatro fileiras de colunas, estavam três galerias, cada uma medindo trinta pés de largura, mais de cinqüenta pés de altura e um estádio de comprimento. Mas a do meio era uma vez e meia mais larga e duas vezes mais alta que as outras. Viam-se nos forros dessas galerias diversas figuras, muito bem talhadas. A arcada da galeria do meio, que superava as outras, apoiava-se sobre cornijas de pedra, tão bem talhadas e entremeadas de colunas e feitas com tanta arte que as junturas não eram percebidas a olho nu — poder-se-ia pensar que toda a obra era feita de um único bloco de pedra.
Assim estava construído esse primeiro recinto. Havia um segundo, feito com um muro de pedra e que estava a pouca distância. A ele se subia por alguns degraus, e havia uma inscrição que proibia aos estrangeiros lá entrar, sob pena de morte. Esse recinto interior tinha três portas do lado do sul e três do lado norte, igualmente distantes, e uma grande do lado do oriente, pela qual os que estavam purificados entravam com as suas mulheres, mas a estas era proibido transpô-la.
Somente os sacerdotes podiam adentrar o espaço que ficava entre esses dois recintos, porque ali estava construído o Templo, e era onde também se localizava o altar sobre o qual se ofereciam os sacrifícios a Deus. Assim, nem mesmo Herodes ousava entrar ali, porque não era sacerdote. Por isso deixou aos sacerdotes o cuidado dessa obra. Eles a concluíram em dezoito meses. Para tudo o mais, haviam-se empregado oito anos.
Não se pode descrever a alegria do povo ao ver tão grandiosa obra terminada em tão pouco tempo. Começaram por dar ações de graças a Deus e em seguida fizeram também elogios ao rei, pois o seu zelo bem os merecia. Depois, promoveram uma grande festa para celebrar a memória da nova construção. Herodes ofereceu a Deus trezentos bois como sacrifício, e os outros também ofereceram vítimas, segundo as suas posses. O número delas foi tão grande que se pode dizer incalculável, e a festa realizou-se no mesmo dia do início do reinado de Herodes e que ele solenizava todos os anos com grande pompa. Esse grande príncipe mandou fazer um subterrâneo, que ia desde a torre Antônia até a porta oriental do Templo, perto da qual mandou construir outra torre, a fim de que ele e os outros reis lá pudessem refugiar-se em caso de rebelião.
Diz-se que durante todo o tempo em que se trabalhou para a reconstrução do Templo choveu somente à noite, para que os trabalhos dessa santa obra não fossem retardados. Esse pormenor veio por tradição de nossos antepassados até nós, mas não devemos ter dificuldade em lhe prestar fé, quando se apresentam aos nossos olhos tantas graças e favores recebidos da mão liberal e onipotente de Deus.
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&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;

Livro Décimo Sexto

CAPÍTULO 1
O REI HERODES ESTABELECE UMA LEI QUE O FAZ SER TIDO COMO TIRANO. VAI
A ROMA E TRAZ DE VOLTA ALEXANDRE E ARISTÓBULO, SEUS FILHOS. SALOMÉ,
SUA IRMÃ, E SEUS PARTIDÁRIOS PROCURAM TORNÁ-LOS ODIOSOS A ELE.

679.  Como o rei Herodes estava persuadido de que um de seus principais cuidados no governo de seu território era impedir que se fizessem injustiças aos particulares, tanto em Jerusalém quanto nos campos, ele ordenou, por uma nova lei, que aquele que furasse a parede para entrar numa casa seria tratado como escravo e vendido fora do reino. Não o fazia, no entanto, para punir o crime, mas para abolir um costume observado havia muito tempo entre nós e se colocar assim acima das leis.
Um castigo tão severo como o de viver escravo em terras estrangeiras, cuja maneira de viver é muito diferente da nossa, muito mais fere a religião que mantém a justiça, e as nossas antigas leis já haviam provido o suficiente quanto a isso, ordenando que aqueles que possuíam riquezas pagassem o quádruplo do que haviam roubado. Os que não tivessem seriam vendidos como escravos. Como, porém, as leis só permitiam que fossem vendidos aos de sua própria nação, a servidão não seria perpétua, porque no sétimo ano eles recobravam a liberdade. Assim, essa lei foi tida como muito injusta e considerada tirânica, porque o soberano, por um orgulho insuportável, julgava que lhe era permitido calcar aos pés as leis do reino e criar novas penas. Todos se queixavam em alta voz. Esse fato suscitou contra ele um ódio tal que não era possível dissimulá-lo.
680.  Ele foi nessa mesma ocasião a Roma para visitar o imperador e ver os filhos, que lá se educavam e que já estavam suficientemente instruídos nas letras.
Augusto recebeu-o com grandes demonstrações de honra e amizade e os entregou para que fossem trazidos de volta ao seu país. Os judeus receberam-nos com muita alegria, porque eles eram muito belos e de porte elegante. Tudo neles demonstrava majestade real.
Esse afeto do povo causou muita inveja a Salomé, irmã do rei, bem como a todos os que com ela haviam causado, por suas calúnias, o fim trágico de Mariana. Temiam eles que esses príncipes logo que fossem elevados ao trono quisessem vingar a morte de sua mãe e resolveram usar contra eles dos mesmos artifícios de que se haviam servido contra aquela inocente e infeliz princesa, a fim de obrigar o pai deles a renunciar o afeto que lhes devotava. Depois dessa deliberação, fizeram correr a notícia de que aqueles príncipes não o estimavam, porque ainda o imaginavam com as mãos tintas com o sangue de sua mãe. Não ousavam, no entanto, falar disso ao rei. Mas não duvidavam de que tal notícia logo chegaria aos seus ouvidos, e o ódio que suscitaria em seu coração contra os filhos sufocaria os sentimentos da ternura paternal.

CAPÍTULO 2
HERODES CASA ALEXANDRE E ARISTÓBULO, SEUS FILHOS, E RECEBE MAGNIFICAMENTE AGRIPA EM SEUS ESTADOS.

681.  Essa conspiração de Salomé e dos outros autores da morte de Mariana contra os filhos dele não produzira ainda nenhum efeito no espírito de Herodes, que continuava a tratá-los como eles poderiam desejar. E, como estavam na idade de se casar, ele fez Alexandre desposar Glafira, filha de Arquelau, rei da Capadócia, e casou Aristóbulo com Berenice, filha de Salomé.
682.  Nesse mesmo tempo, soube que Agripa navegava da Itália para a Ásia. Foi procurá-lo e convidou-o, pela amizade que havia entre eles, a visitar o seu reino. Agripa não pôde recusá-lo, e Herodes tudo fez para agradar a ele e aos seus amigos, tratando-os com toda a magnificência possível. Levou-o às novas cidades que havia construído, Sebaste e Cesaréia — onde mostrou-lhes o soberbo porto, às fortalezas de Alexandriom e Hircânia —, e depois a Jerusalém, onde todo o povo, vestido como em dia de festa, veio encontrá-lo com grandes aclamações. Agripa ofereceu a Deus em sacrifício uma hecatombe,* deu um banquete a todo o povo e ficou tão satisfeito com a maneira como foi recebido que manifestou o desejo de ficar ainda alguns dias. Todavia, como o inverno se aproximava e haveria perigo, caso se demorasse em pôr-se ao mar; foi obrigado a embarcar para a Jônia. Antes, porém, Herodes ofereceu-lhe magníficos presentes, bem como aos principais dentre os que o acompanhavam.

____________________
* Sacrifício de cem vítimas.

CAPÍTULO 3
HERODES VAI PROCURAR AGRIPA NO PONTO COM UMA ESQUADRA, E COM
ELA REFORÇA O EXÉRCITO ROMANO. AO RETORNAR COM ELE, FAZ BENEFÍCIOS
A VÁRIAS CIDADES DURANTE O CAMINHO.

683.  Quando chegou a primavera, Herodes soube que Agripa navegava com a sua esquadra para o Bósforo, e embarcou para encontrar-se com ele em Lesbos. Porém, depois de passar Rodes e Cós, um vento do norte impeliu-o para a ilha de Quios, onde foi obrigado a permanecer alguns dias. Muitos vieram cumprimentá-lo, e ele lhes deu magníficos presentes. Percebendo que os mercados da cidade, que eram muito grandes e belos, haviam sido destruídos durante a guerra de Mitridates e que os habitantes não tinham meios de os reconstruir, forneceu-lhes dinheiro mais que o necessário para as despesas e exortou-os a trabalhar prontamente para restituir à cidade a sua primitiva beleza.
684.  Quando o vento mudou, ele tornou a embarcar. Aportou em Mitilene e depois em Bizâncio, onde soube que Agripa já passara os rochedos cianeanos. Seguiu-o rapidamente e o alcançou em Sinope, que é uma cidade do Ponto. Agripa ficou tão satisfeito quanto surpreso por vê-lo chegar com uma frota, quando menos esperava. Recebeu-o com as demonstrações de reconhecimento que merece tão grande prova de amizade, pois Herodes deixara o seu reino e os interesses de Estado para trazer-lhe um considerável auxílio. Esse fortalecimento de amizade uniu-os de tal modo que eles estavam sempre juntos, e Agripa nada fazia sem a participação de Herodes. Chamava-o a todos os conselhos, comunicava-lhe a execução de todas as suas empresas e, quando queria dar-se a algum divertimento para aliviar o espírito, ele era o único a quem convidava para lhe fazer companhia. E deu-lhe não somente provas de sua amizade nas coisas agradáveis, mas também de sua confiança nas ocasiões mais importantes e difíceis.
Depois que esse general romano concluiu no Ponto os negócios que haviam sido o motivo de sua viagem, resolveu continuar a rota por terra. Atravessou a Paflagônia, a Capadócia e a Alta Frígia para chegar a Éfeso e depois tornou a embarcar para Samos. A magnificência e a generosidade de Herodes brilharam nessa viagem, pelo bem que ele fez a todas as cidades que sofriam por alguma necessidade. Ajudou-as não somente com o seu dinheiro, mas também com a sua recomendação e favor junto de Agripa, perante o qual ele tinha mais crédito que qualquer outro.
Herodes achava aí tanto mais facilidade quanto esse grande homem tinha a alma nobre e elevada, estando sempre pronto a conceder o que lhe era pedido, contanto que não se fizesse injustiça a ninguém. E assim, Agripa concedia ainda mais do que Herodes podia desejar dele, tanto prazer sentia em servi-lo. Ante pedido seu, perdoou os ilíricos, contra os quais estava muito irritado. Herodes pagou ao tesoureiro do imperador o que os habitantes de Quios lhe deviam e ajudou todas as outras cidades em tudo o que elas necessitavam.

CAPÍTULO 4
OS JUDEUS DAJÔNIA QUEIXAM-SE A AGRIPA, NA PRESENÇA DE HERODES, DE QUE OS GREGOS OS ESTÃO PREJUDICANDO EM SEUS PRIVILÉGIOS.

685. Apenas Agripa e Herodes chegaram à Jônia, um grande número de judeus moradores daquela província vieram queixar-se de que, com prejuízo dos privilégios a eles conferidos pelos romanos e da liberdade que estes lhes haviam concedido para viver segundo as suas próprias leis, estavam sendo obrigados a comparecer nos dias de festas diante dos juizes. Eram também obrigados a ir à guerra e forçados a contribuir para as despesas públicas. Isso os impedia de enviar a Jerusalém o dinheiro destinado às cerimônias sagradas. Herodes não quis perder essa ocasião de ajudar os judeus. E escolheu um amigo, de nome Nicolau, para defender a causa. Agripa então reuniu os principais romanos que estavam com ele, alguns reis e vários príncipes.
Esse amigo de Herodes assim falou: &quot;Grande e generoso Agripa. Não é de se admirar que pessoas oprimidas recorram àqueles cuja autoridade possa aliviá-los dos males que sofrem. E não duvidamos de que obteremos o que vos iremos pedir, pois não desejamos outra coisa senão sermos mantidos na mesma condição em que vos dignastes permitir-nos viver, mas da qual os nossos inimigos se esforçam por nos privar, embora não se possam opor à vossa vontade, sendo-vos tão sujeitos quanto nós. Que motivos eles podem ter? Se é grande a graça que nos fizestes, é porque nos julgastes dignos de recebê-la. E, se é pequena, ser-vos-ia vergonhoso não permitir que as desfrutem os que a receberam de vossa liberalidade. Assim, é evidente que a injúria que eles nos fazem recai sobre vós, pois desprezam o vosso desejo e tornam inúteis os vossos benefícios. Se lhes for perguntado o que preferem: perder a vida ou ser impedidos de observar as leis de seu país e as suas festas, cerimônias e sacrifícios, acaso não responderão que é preferível sofrer qualquer castigo a privar-se de todas essas coisas? Que guerras não empreenderão para se manter na posse de um bem tão precioso e tão caro a todas as nações? E, que há de mais doce, na paz que se desfruta sob o Império Romano, senão a liberdade de viver segundo as leis do próprio país? Mas esses bárbaros querem impor aos outros um jugo que não podem suportar, como se houvesse menos impiedade em nos impedir prestarmos a Deus o culto ao qual a nossa religião nos obriga que em faltarem eles mesmos aos deveres aos quais a sua os mantém sujeitos. E outra razão torna-os ainda mais inexcusáveis. Existe cidade ou povo, que, a menos que tenha perdido o juízo, não considere uma grande felicidade viver sob a dominação de tão poderoso império como o romano e queira dele ser privado? Pois é isso o que fazem os nossos inimigos quando se esforçam por nos privar do bem que recebemos de vossa bondade. Eles estão também renunciando ao direito de usufruir os benefícios de que vos são devedores e de que não podem assaz estimar. Pois, se considerarmos as outras nações, quase todas obedecem a reis e vivem numa feliz tranqüilidade, sob a proteção dos imperadores, não se julgando súditos, mas pessoas livres. E, por maior que seja a nossa felicidade em desfrutar a tranqüilidade que encontramos sob o vosso domínio, eles não têm o direito de a invejar, quando a única coisa que pedimos é não sermos perturbados no exercício de nossa religião. Pode-se com justiça no-lo recusar quando há vantagem em no-lo conceder? Porque Deus não somente honra aqueles que lhe prestam honra, mas também aqueles que permitem que elas sejam prestadas. Porventura existe em todas as nossas leis e costumes algo que se possa com razão criticar ou que não seja, ao contrário, pleno de justiça e de piedade? As nossas leis são tão puras e santas que não tememos que sejam conhecidas em todo o mundo. Empregamos o sétimo dia, que para nós é dia de descanso, em estudá-las e em aprendê-las e experimentamos o quanto são úteis para corrigir defeitos e nos levar à virtude. E, ainda que não fossem tão louváveis em si mesmas, não deveria a sua antigüidade, que alguns ousam vãmente contestar, torná-las ainda mais veneráveis, já que não se poderia sem impiedade abandonar leis consagradas pela aprovação de tantos séculos? Muitos motivos temos nós, portanto, de nos queixarmos daqueles que praticam contra nós tão grande injustiça, pois roubam, por um horrível sacrilégio, o dinheiro que ofertamos para ser empregado no serviço de Deus, fazem sobre nós imposições de que estamos isentos e nos obrigam, nos dias de nossas festas, a comparecer perante os juizes para tratar de negócios temporais, e isso somente para nos impedir o exercício de nossa religião. E nisso são tão injustos quanto conscientes de que não lhes damos nenhum motivo para que nos odeiem e não podem ignorar que a eqüidade de vosso governo tem por único objetivo unir os vossos súditos e impedir tudo o que possa vir a alterar-lhes a união. Livrai-nos, pois, senhor, de tal opressão, por vossa autoridade, fazendo com que não nos impeçam mais a observância de nossas leis e que aqueles que nos odeiam não tenham mais poder sobre nós, assim como não pretendemos dominar sobre eles. O que pedimos é justo, pois se trata da execução dó que já nos foi concedido, como se pode ver ainda hoje nos muitos decretos do senado, gravados sobre as tábuas de cobre do Capitólio. Não se pode também duvidar de que a nossa afeição e fidelidade ao povo romano não tenham sido causa de tantas demonstrações que ele nos deu de sua amizade. E, mesmo que não tivéssemos merecido esses privilégios, seria suficiente dizer que eles nos foram concedidos uma vez a fim de serem para sempre invioláveis, pois a vossa maneira de agir para com todas as outras nações é tão generosa que, em vez de diminuir os vossos benefícios, sentis prazer em aumentá-los além das esperanças dos que já vos são reconhecidos. Os favores que recebemos do Império Romano são tão numerosos que eu seria demasiado prolixo se os fosse enumerar. Para que não pareça que o meu testemunho acerca do nosso acatamento ao povo romano e de nossas benemerências seja pura vaidade e sem fundamento, não citarei os séculos passados. Contentar-me-ei em falar-vos«,do rei que agora nos governa e que vejo sentado junto de vós. Que demonstrações não vos deu ele de sua grande afeição? Que provas não recebestes de sua fidelidade? Que honras não vos prestou? Tivestes necessidade de algum auxílio que ele não tenha sido o primeiro a vo-lo conceder? Poderieis então recusar, diante de tantos méritos, o favor que vos pedimos? E, poderia eu passar em silêncio os grandes serviços de Antípatro, seu pai? Quem não sabe que ele, quando César estava empenhado na guerra contra o Egito, levou a esse rei dois mil homens e que nenhum outro obteve maior glória que ele pelo seu valor em todos os combates de terra e mar ou serviu mais proveitosamente ao império? Não precisamos de outra prova. Bastam os presentes que César lhe fez e as cartas que escreveu ao senado, plenas da estima e do afeto que lhe devotava, obtendo assim para ele grandes honras e a qualidade de cidadão romano. Seja essa única prova suficiente para mostrar que merecemos essas graças e que assim não temos razão para temer que recuseis confirmá-las. Esperamos mesmo que as aumenteis, pois vemos a amizade que dedicais ao nosso rei e sabemos das honras que prestastes a Deus em Jerusalém com os vossos sacrifícios e com os banquetes que oferecestes ao povo, da bondade com a qual recebestes deles presentes e do prazer que demonstrastes pela maneira como o nosso rei vos recebeu em seu reino e na sua capital. Que mais se poderia desejar, pois, para não haver dúvida de que sereis levados a reverenciar a nossa nação? Depois de tantas considerações, não temos como recear que venhais a permitir que a malícia de nossos inimigos nos impeça fruir os favores que recebemos de vossa generosidade&quot;.
Nicolau assim falou pelos judeus, e nenhum dos gregos o contradisse, porque não era um assunto tratado diante dos juizes, mas uma intercessão que pretendia fazer cessar uma injustiça que sofriam. Os inimigos de nossa nação outra coisa não puderam alegar contra nós senão que éramos estrangeiros e que estávamos sob os seus cuidados. A isso os judeus responderam que não deviam passar por estrangeiros, pois eram cidadãos que viviam segundo as leis de seu país, sem fazer injustiça a ninguém.

CAPÍTULO 5
AGRIPA CONCEDE AOS JUDEUS O QUE ELES PEDEM. HERODES VOLTA AO SEU REINO E PERDOA AOS SEUS SÚDITOS A QUARTA PARTE DO QUE ELES LHE PAGAM.

686. Agripa percebeu que os judeus estavam sendo violentamente oprimidos e lhes deu uma resposta. Disse que não somente a amizade pelo seu rei, mas também a justiça de seu pedido o levava a conceder o que pediam. E, se tivessem desejado dele mais alguma coisa, nada lhes teria recusado, desde que não fosse prejudicial ao império. Mas, como se tratava de confirmar favores já concedidos, ele o fazia de muito boa vontade, e daria ordem para que não fossem mais perturbados. Eles podiam continuar a observar os seus costumes, pois não sofreriam mais injúrias. Depois dessas palavras, ele dissolveu a assembléia, e Herodes agradeceu-lhe por essa resposta tão favorável.
Os dois príncipes separaram-se em seguida, com grandes demonstrações de afeto e partiram de Lesbos. Herodes, tendo vento favorável, pôde chegar a Cesaréia e, poucos dias depois, a Jerusalém, onde reuniu todo o povo. Informou-os do que se passara na viagem e contou como conseguira fazer com que os judeus que moravam na Ásia vivessem em plena tranqüilidade, sem serem mais importunados. Ao falar da felicidade que desfrutava no seu reinado, afirmou que coisa alguma havia negligenciado em benefício deles e acrescentou que, para dar uma prova do que estava dizendo, dispensava-os da quarta parte dos impostos. Essas palavras, acompanhadas de tal favor, foram recebidas pelo povo com grandes demonstrações de regozijo, e eles desejaram ao rei toda sorte de prosperidade.

CAPÍTULO 6
SALOMÉ, IRMÃ DE HERODES, PROCURA INDISPÔ-LO CONTRA ALEXANDRE E
ARISTÓBULO, OS FILHOS QUE ELE TIVERA DE MARIANA. ELE MANDA
ANTÍPATRO, QUE TIVERA DO PRIMEIRO MATRIMÔNIO, A ROMA.

687.  Enquanto isso, a divisão na família de Herodes aumentava, pelo ódio irre-conciliável de Salomé contra Alexandre e Aristóbulo, porque eles se referiam a ela e a Feroras, seu irmão, de maneira muito ofensiva e porque temia que eles vingassem a morte de Mariana. Como já havia cumprido o detestável intento de eliminar a mãe, queria também agora fazer perecer os irmãos, filhos desta. Não lhe faltavam pretextos, porque os dois príncipes demonstravam pouco afeto pelo rei seu pai, quer pela lembrança da morte tão injusta de sua mãe, quer pelo desejo de reinar.
Assim, o ódio era igual de parte a parte, mas eles agiam diferentemente. Os dois irmãos não dissimulavam o seu, tanto pela ousadia que dá a grandeza da origem quanto pela pouca experiência. Salomé e Feroras, ao contrário, para preparar o caminho às suas calúnias, irritavam a altivez dos dois pnncipes, a fim de levar o pai a crer que, estando eles persuadidos de que ele lhes matara a mãe injustamente e convictos da honra de terem nascido de tão grande princesa, poderiam vingar-lhe a morte com as próprias mãos.
Já não se falava de outra coisa em toda a cidade, e, como acontece com os espectadores dos combates, quando as partes não são iguais, todos sentiam compaixão pelo perigo em que a imprudência dos jovens príncipes os lançaria. Salomé não perdia ocasião para daí tirar proveito, encobrindo com alguma aparência de verdade as falsas acusações de que se servia para arruiná-los. Estavam eles tão sentidos pela morte da mãe que não se contentavam em lamentá-la ou em manifestar o seu sofrimento: diziam também que se consideravam infelizes por serem obrigados a viver com aqueles que tinham as mãos manchadas com o sangue dela.
688. A confusão aumentava grandemente, e a ausência de Herodes contribuía para agravar a situação. Depois que ele regressou e falou ao povo da maneira que há pouco referimos, Feroras e Salomé falaram-lhe como se ele estivesse em grande perigo, dizendo que os jovens declaravam que haveriam de vingar a morte da mãe, acrescentando maliciosamente que eles esperavam, por meio de Arquelau, rei da Capadócia, comunicar-se com o imperador, para acusá-lo perante este. Herodes ficou impressionado com essas palavras porque outros também lhe davam o mesmo aviso. Ele repassava em sua memória as aflições passadas, que lhe haviam arrebatado os melhores amigos e uma mulher a quem amara com verdadeira paixão.
O infeliz soberano, julgando do futuro pelo passado e temendo males ainda maiores que os que já lhe haviam acontecido, viu-se em aflitivo tormento. Podia-se dizer que ele era tão feliz fora da pátria, onde tudo lhe saía melhor do que ele esperava, quanto era infeliz em casa, além do que se poderia imaginar, devido às aflições domésticas. De sorte que, em tal excesso de bem e de mal, era difícil saber qual dos dois sobrepujava o outro, e se não lhe teria sido mais vantajoso passar a vida em descanso, privadamente, que usar uma coroa cuja grandeza e cujo brilho eram acompanhados de tantas dores e tormentos.
689. Por fim, após haver refletido, resolveu chamar o mais velho de seus filhos, de nome Antípatro, que ele havia feito educar privadamente, e iniciá-lo no governo. Não que tencionasse dar-lhe inteira autoridade, como o fez depois, mas para fazer oposição aos irmãos, a fim de lhes reprimir a insolência e para que se tornassem mais sensatos quando vissem que a sucessão ao trono não pertencia a eles somente. Então mandou vir Antípatro como para torná-lo participante de sua confiança e encarregá-lo de várias incumbências, mas na realidade com o propósito de rechaçar o orgulho dos outros dois, certo de que esse era o meio apropriado para isso.
Aconteceu, porém, exatamente o contrário. Os dois príncipes sentiram-se muito ofendidos, e Antípatro, quando se viu revestido de uma autoridade que nunca imaginara merecer e à qual jamais havia aspirado, pensou em ocupar o primeiro lugar no afeto do rei seu pai. Como sabia que Herodes estava descontente com os dois irmãos e facilmente daria ouvidos a calúnias, tudo fez para aumentar ainda mais a sua aversão por eles e para torná-los odiosos a ele. Agiu com tanta habilidade que nenhuma suspeita o atingiu, pois, para prejudicá-los, valia-se de pessoas que eram amadas pelo rei e das quais este não podia desconfiar. Algumas delas já cultivavam a amizade de Antípatro, na esperança de obter por meio deste alguma vantagem. Assim, ele podia ter toda a confiança de que elas convenceriam Herodes de que lhe falavam daquele modo unicamente pelo interesse em seu bem-estar.
Muitos agiam mesmo de comum acordo para destruir os jovens príncipes. Não perdiam oportunidade para acusá-los, e os dois irmãos davam eles próprios motivo para isso. Não podendo tolerar a maneira tão injuriosa como aqueles os tratavam, muitas vezes eram vistos banhados em lágrimas. Às vezes invocavam o nome de sua mãe e queixavam-se abertamente da injustiça de seu pai aos amigos. Os partidários de Antípatro observavam com grande cuidado todas essas coisas e não se contentavam em referi-las a Herodes, mas inventavam ainda outras, aumentando, por sua malícia, essa tão grande divisão.
Esses artifícios e calúnias irritavam Herodes cada vez mais, e ele resolveu impor ainda maiores humilhações a Aristóbulo e Alexandre. Para esse fim, elevou Antípatro a novas honras e consentiu, em face dos instantes pedidos que ele lhe fazia, receber a sua mãe no palácio. Escreveu também diversas vezes a Augusto, recomendando-o com muito afeto. Quando ele embarcou para se encontrar com Agripa, que voltava para Roma após governar a Ásia por dez anos, Antípatro foi o único de seus filhos que o acompanhou. Herodes rogou a Agripa que admitisse o filho na viagem e o apresentasse a Augusto — ao qual mandava, por meio dele, valiosos presentes —, introduzindo-o em suas boas graças. Desse modo, ninguém mais duvidava de que Antípatro sucederia a Herodes no trono e que os seus irmãos estavam definitivamente rejeitados.

CAPÍTULO 7
ANTÍPATRO INCITA DE TAL MODO O PAI CONTRA ALEXANDRE E ARISTÓBULO,
SEUS IRMÃOS, QUE HERODES OS LEVA A ROMA E OS ACUSA PERANTE
AUGUSTO DE HAVEREM ATENTADO CONTRA A SUA VIDA.

690. A viagem de Antípatro a Roma, com as cartas de recomendação do rei seu pai a todos os seus amigos, foi-lhe muito honrosa. Mas ele estava pesaroso, temendo que a sua ausência o impedisse de continuar a caluniar os irmãos e que Herodes retomasse para com eles sentimentos mais favoráveis. Assim, não deixava de incitá-lo com as suas cartas. Tomava como pretexto o cuidado pela sua conservação, mas na realidade pretendia chegar por esses meios perversos à realização de suas esperanças e à posse da coroa. E foi bem-sucedido em seu intento. Herodes perdeu todo o afeto que lhe restava pelos infelizes filhos da desventura-da Mariana e passou a considerá-los apenas inimigos.
Para não parecer que ele, após se haver despojado de toda ternura paterna, agia contra eles por pura paixão, resolveu ir a Roma e acusá-los perante Augusto. Não o encontrou em Roma, mas em Aquiléia, e começou por lhe pedir que se compadecesse de sua infelicidade, pois lhe trazia os dois filhos para acusá-los de terem sido levados, devido à sua paixão pelo poder, à horrível impiedade de odiar o próprio pai e atentar contra a sua vida; que César antes lhe permitira escolher para sucessor o filho cujo caráter e virtude o tornasse digno disso; que aqueles estavam bem longe de possuir aquelas qualidades, pois o ódio que tinham por ele, que os havia posto no mundo, ultrapassava os limites, pois não se incomodavam em perder o trono ou mesmo a vida, contanto que pudessem matá-lo; que por muito tempo suportara aqueIa extrema aflição, mas agora era obrigado a denunciá-los e a importuná-lo com um discurso tão desagradável.
E acrescentou: &quot;Mereço eu que eles me tratem desse modo? Que motivos lhes dei para se queixarem? Em que se baseiam para afirmar não ser justo que eu, após conquistar o reino com tantos perigos e dificuldades, o possua e não possa escolher o filho que pela sua virtude e dedicação mais motivo me deu para estar satisfeito? Que há de mais apropriado para promover entre eles uma nobre emulação que propor a todos tal recompensa pelo mérito? Pode um filho, vivendo ainda o pai, pensar em apossar-se da coroa sem ao mesmo tempo lhe desejar a morte, já que não se sucede a um homem que ainda vive? Poderiam estes filhos desnaturados queixar-se de que não lhes dei tudo o que desejam os filhos dos reis, e não somente o necessário, mas também a magnificência e o prazer? Não os fiz casar, segundo a sua condição, um com a filha de Arquelau, rei da Capadócia, e outro com a filha de minha irmã? O que mostra claramente a minha moderação e paciência é que, em vez de usar o poder que tenho para castigá-los, quer como pai, porque faltaram aos de-veres da natureza, quer como rei, porque ousaram empreender um atentado contra a minha vida, eu os trago até vós, como a um benfeitor comum, para que sejais juiz entre mim e eles. Peço-vos somente que não os deixeis sem castigo, a fim de que eu não seja tão infeliz que tenha de passar o resto de meus dias em contínuo temor. Que não tenham eles o prazer de ver a luz do sol após terem calcado aos pés, por tão horrível atentado, os direitos mais invioláveis entre os homens&quot;.
Herodes falou com muito ardor, e os dois jovens, que durante todo o discurso não haviam podido reter as lágrimas, desataram em pranto, porque, ainda que se sentissem inocentes, era para eles uma dor insuportável ver o próprio pai como acusador. O respeito que lhe deviam tirava-lhes a liberdade de responder, porém lhes importava acima de tudo não abandonar a justiça de sua causa. Assim, não sabendo que deliberação tomar, defendiam-se somente com suspiros e com lágrimas. Mas essa maneira de se justificar fazia-os temer que o seu silêncio fosse tomado como prova de culpa, embora fosse motivado apenas pela sua comoção e pouca experiência. Augusto compreendeu, por sua extrema prudência, os diversos sentimentos que agitavam os espíritos dos príncipes, e todos os presentes ficaram compadecidos. O próprio Herodes não pôde deixar de se mostrar impressionado.

CAPÍTULO 8
ALEXANDRE JUSTIFICA-SE DE TAL MODO QUE AUGUSTO OS JULGA INOCENTES E RECONCILIA-OS COM O PAI. HERODES VOLTA ÀJUDÉIA COM OS TRÊS FILHOS.

691. Quando os dois irmãos perceberam que Augusto, os presentes e mesmo o seu pai tinham o coração enternecido pela compaixão de sua infelicidade e que alguns não podiam reter as lágrimas, Alexandre, o mais velho, tomou a palavra para se justificar dos crimes de que seu pai os acusava e disse, dirigindo-se a ele: &quot;Não é necessária, senhor, outra prova de vossa bondade por nós senão o lugar em que nos encontramos, porque, se tivesseis querido destruir-nos, não nos teríeis trazido à presença deste grande príncipe, que deseja unicamente merecer o glorioso título de salvador, fazendo bem a todos. Poderíeis servir-vos contra nós do poder que vos dá a qualidade de rei e pai, mas, se a nossa vida não vos fosse cara, não nos teríeis feito vir a Roma, a fim de termos o imperador como juiz e testemunha de nossa morte. Pois não se levam aos lugares sagrados e aos Templos aqueles a quem se deliberou tirar a vida. Essa mesma bondade, de que temos motivos para nos gloriar, aumentaria ainda o nosso crime, se fôssemos culpados, pois ela nos obriga a reconhecer que não podemos, sem nos tornamos indignos de ver a luz do dia, faltar ao amor e ao respeito por tão bom pai. Ser-nos-ia muito mais vantajoso morrer inocentes que viver torturados pelas suspeitas de tão negra ingratidão. Se Deus nos ajudar em nossa defesa, de modo que vos possamos persuadir da verdade, não nos regozijaremos tanto por escapar de tão grande perigo quanto por sermos tidos como inocentes no vosso julgamento. Mas se as calúnias de que se servem para vos incitar contra nós prevalecerem no vosso espírito, inutilmente nos conservaríeis a vida, pois nos seria insuportável. Confessamos que a nossa idade, unida à infelicidade da rainha nossa mãe, pode tornar-nos suspeitos de aspirar ao trono. Considerai, porém, eu vos suplico, se não se poderia fazer a mesma acusação a todos os filhos de rei que já não tivessem mãe e se uma simples suspeita é bastante para convencer as pessoas de um crime tão detestável como o de atentar contra a vida do próprio pai a fim de reinar em seu lugar. Como a simples suspeita não basta, não temos razão em pedir que se apresentem provas dessa horrível acusação? Nada há que a calúnia não invente na corte dos reis. Poderá alguém dizer que preparamos veneno ou fizemos conjuração ou subornamos servidores domésticos ou escrevemos cartas contra o vosso governo? A esperança de reinar, que apresentastes como a recompensa pelo respeito e piedade dos filhos para com os pais, é muitas vezes causa de que maus espíritos cometam péssimas ações. E estamos certos de que não há absolutamente nenhuma de que nos possam culpar. Quanto às calúnias que vos incitaram contra nós, como poderíamos vos fazer conhecer a falsidade delas, se não nos quisestes escutar? Confessamos que fizemos queixas abertamente. Não de vós, o que nos teria feito culpados, mas daqueles que vos relatavam tais coisas. Reconhecemos também que choramos nossa mãe, mas as nossas lágrimas não procediam tanto de sua morte quanto da dor de ver que ainda há pessoas que procuram desonrar a sua memória. Dizem mesmo que nós, durante a vossa vida, aspiramos à coroa. Que probabilidade pode ter tal acusação? Se desfrutamos todas as honras que os vossos sucessores podem pretender, como de fato desfrutamos, que mais podemos desejar? E, se não as desfrutamos, não nos seria lícito esperá-lo? Ao passo que, cometendo um crime tão detestável como o de manchar as mãos no sangue daquele que nos deu a vida, não poderíamos esperar outra coisa senão que a terra se abrisse para nos tragar ou que o mar nos sepultasse em seus abismos. Poderia a santidade de nossa religião e a fidelidade de vossos súditos tolerar que reis parricidas entrassem no santo Templo, que construístes para honra de Deus? Ainda que não temêssemos tais castigos, acaso ficaríamos impunes enquanto vivesse um monarca tão justo quanto César? Se tendes em nós, senhor, os filhos mais indesejáveis no que convém à vossa tranqüilidade, sabei pelo menos que não somos ímpios nem desprovidos de juízo, como vos querem fazer crer. Estamos certos de que nada se encontrará de verdade em tudo quanto nos acusam. Com relação à morte de nossa mãe, a sua desgraça nos deve tornar mais sensatos, em vez de nos incitar contra vós. Eu poderia apresentar várias outras razões para a nossa defesa, se fosse necessário justificar aquilo que jamais foi cogitado. A única coisa que pedimos ao imperador, nosso soberano árbitro, se vos persuadirdes da verdade de nossa inocência e deixardes de suspeitar de nós, é que vivamos, ainda que infelizes, pois haveria maior desgraça que ser acusado falsamente do mais horrível de todos os crimes? Mas se continuais a desconfiar de nós, morramos então, pelo julgamento que trouxemos contra nós mesmos, sem que sejais acusado pela nossa condenação. A vida não nos é tão cara que a queiramos conservar à custa da reputação daquele de quem a recebemos&quot;.
692. Augusto, que desde o começo não pudera acreditar em tão estranhas acusações e que enquanto Alexandre falava e mantinha os olhos sobre Herodes percebeu que este ficava comovido com as palavras do filho, convenceu-se ainda mais da inocência dos dois irmãos. Além disso, os presentes sentiram tão grande compaixão e estavam tão ansiosos pelo final do julgamento, para ver o que aconteceria aos moços, que não podiam deixar de desejar mal a Herodes. Aquelas acusações pareciam-lhes incríveis, e a mocidade dos príncipes, unida à sua beleza, tornava-os tão sensíveis à sua infelicidade que estavam dispostos a prestar-lhes qualquer auxílio. Essa afeição aumentou quando eles viram Alexandre responder tão sabiamente às palavras do pai e com tanta moderação e modéstia. Depois de concluir a sua defesa, ele e o irmão continuaram com os olhos baixos, banhados em lágrimas. Surgiu então um vislumbre de esperança, pois se notava no rosto de Herodes que ele julgava ter agido erradamente e se desculpava pela maneira leviana como acreditara naquelas acusações sem provas.
Augusto, depois de refletir por uns instantes, disse que julgava os príncipes inocentes dos crimes de que os acusavam, embora não se pudesse eximi-los de terem dado ao pai, com o seu proceder, motivo para que se aborrecesse. Em seguida, pediu a Herodes que os recebesse em suas boas graças e não alimentasse mais contra eles suspeita alguma, pois não era justo acatar semelhantes acusações contra os próprios filhos. Assim, tinha certeza de que eles lhe prestariam ainda bons serviços, que ele esqueceria o descontentamento que lhe haviam causado e retomaria para com eles a antiga afeição e que cada qual trabalharia para restabelecer a amizade e a confiança que deve existir entre parentes, e a união entre eles seria ainda maior que antes.
Depois de assim falar, Augusto fez sinal aos príncipes, para que se caminhassem até o pai, ainda cheios de lágrimas, a fim de pedir-lhe perdão. Mas Herodes antecipou-se e os abraçou com tantas demonstrações de afeto e de ternura que todos ficaram comovidos. O pai e os filhos agradeceram efusivamente ao imperador, e Antípatro mostrou também estar satisfeito com a reconciliação de seus irmãos com o pai.
693. Alguns dias depois, Herodes presenteou Augusto com trezentos talentos, pois nessa época davam-se espetáculos e se faziam donativos ao povo romano. César, por sua vez, deu-lhe metade das rendas das minas da ilha de Chipre e a direção da outra metade, acrescentando, com grandes demonstrações de afeto, diversos outros presentes. Permitiu-lhe escolher para sucessor o filho que ele desejasse e até mesmo dividir o reino entre eles, embora não para desfrutarem isso enquanto ele vivesse, porque era justo que permanecesse como senhor de seu território e de seus filhos.
694.  Herodes partiu depois com os três filhos para regressar à Judéia. E, durante a sua ausência, Traconites, que representava uma parte considerável de seus domínios, havia se revoltado, mas os comandantes das tropas a obrigaram a capitular. Quando ele passou por Eleusem, na Cilícia, que agora se chama Sebaste, Arquelau, rei da Capadócia, recebeu-o com grandes honras, bem como aos seus filhos, demonstrando alegria por terem os dois mais novos reconquistado as suas boas graças e porque Alexandre, seu genro, se havia justificado tão bem das acusações feitas contra eles.
Os dois reis separaram-se depois de trocar magníficos presentes. Herodes, quando chegou a Jerusalém, mandou reunir o povo no Templo, falou-lhe de sua viagem, das honras que recebera de Augusto e de todas as outras coisas que julgou conveniente informá-los. No fim de seu discurso, para dar a seus filhos uma solene lição, exortou todos os de sua corte e da assembléia a viver unidos, declarando-Ihes que os filhos reinariam depois dele, a começar por Antípatro, continuando com Alexandre e Aristóbulo. Enquanto ele vivesse, porém, queria ser reconhecido como o único rei e senhor, porque, embora a idade fosse um impedimento para bem governar, ela o tornava ainda mais capacitado, quer pela longa experiência adquirida, quer pelas outras vantagens que ele tinha sobre os filhos, e assim eles e os soldados viveriam felizes enquanto obedecessem somente a ele.
A assembléia, depois disso, dissolveu-se. A maior parte achou que ele havia falado bem. Alguns, porém, julgaram diferente, porque a esperança de reinar que ele dera aos filhos poderia causar entre estes muitas divergências e contestações, as quais seriam causa de grandes turbulências.

CAPÍTULO 9
HERODES, DEPOIS DE CONSTRUIR CESARÉIA, CONSAGRA-A EM HONRA DE
AUGUSTO E NELA PROMOVE ESPETÁCULOS DE INCRÍVEL MAGNIFICÊNCIA
PARA O POVO. CONSTRÓI AINDA OUTRAS CIDADES E DIVERSOS EDIFÍCIOS.
SUA EXTREMA LIBERALIDADE PARA COM OS ESTRANGEIROS
E SEVERO RIGOR PARA COM OS SÚDITOS.

695.  Nesse mesmo tempo, a cidade de Cesaréia, cujos alicerces tinham sido lançados havia dez anos, foi terminada, no ano vinte e oito do reinado de Herodes e na centésima nonagésima segunda Olimpíada. Ele quis celebrar a dedicação com toda a suntuosidade possível e imaginável. Mandou vir de todas as partes todos os que tinham fama de excelentes músicos, lutadores ou atletas de corridas e das outras espécies de exercícios. Reuniu um grande número de gladiadores, animais ferozes, cavalos rapidíssimos e tudo o que se usa nesses espetáculos tão apreciados pelos romanos e por outras nações. Consagrou todos esses jogos em honra de Augusto e ordenou que fossem repetidos cada cinco anos.
A imperatriz Lívia quis contribuir para essa soberba festividade, em que Herodes não havia poupado despesa alguma. Mandou-lhe de Roma muitas coisas preciosas, cujo valor chegava a quinhentos talentos. Além de uma multidão enorme de povo que acorreu de toda as partes para ver tão grandiosa festa, vieram embaixadores de diversas nações, convidados por Herodes. Ele recebeu-os, alojou-os e os tratou com grande fidalguia. Dava-lhes todos os dias novos divertimentos e, quando a noite caía, reunia-os em grandes banquetes, dos quais eles não se cansavam de admirar a magnificência. Sentia tanto prazer em se distinguir que se esforçava para que o brilho das últimas ações superasse sempre o das anteriores. Afirmava-se que Augusto e Agripa disseram muitas vezes que a sua alma estava tão acima de sua coroa que ele teria merecido reinar sobre toda a Síria e todo o Egito.
696. Depois dessas festas e jogos celebrados com tanta pompa, ele construiu uma cidade no campo de Cafarbasa, num lugar em que as águas e os bosques a tornavam muito agradável. Era cercada por um rio e por uma grande floresta de árvores muito altas. Deu a essa cidade o nome de Antipátride, por causa de seu pai, Antípatro. Construiu, acima de Jerico, um castelo a que chamou Cipro, nome de sua mãe, e tornou-o tão ilustre pela força quanto pela beleza. Como não podia se esquecer de Fazael, seu irmão, a quem amara extremamente, erigiu vários e excelentes edifícios para honrar-lhe a memória. O primeiro foi uma torre em Jerusalém, que não era inferior à de Faraó. Chamou-a Fazaela, sendo uma das principais fortalezas da cidade. Construiu depois, no vale de Jerico, do lado do norte, uma cidade à qual deu o nome de Fazaela e que foi causa de que o território das redondezas, antes deserto e abandonado, fosse repovoado e recebesse também esse nome.
Seria difícil enumerar os bens que Herodes proporcionou não somente a várias cidades da Síria e da Grécia, mas às de outros países por onde ele passava em suas viagens. Costumava ajudar parte delas com a construção de novas obras públicas ou fornecendo dinheiro para que concluíssem aquelas que, após começadas, haviam sido abandonadas pela falta de recursos dos moradores. Dentre as suas generosas doações, a mais digna de nota foi a do Templo de Apoio Pítio, em Rodes, que ele mandou reconstruir à sua custa, contribuindo também com vários talentos para que se restaurasse a frota da cidade. Ele também ajudou na construção de obras públicas em Nicópolis, erigida por Augusto depois da batalha de Accio. Ele ordenou ainda que se fizessem galerias dos dois lados da praça que atravessa Antioquia, importantíssima cidade, e mandou que lhe pavimentassem as ruas com pedra polida, tanto para embelezá-la quanto para a comodidade de seus habitantes.
697. Como os jogos olímpicos não correspondiam à sua fama, porque faltavam os recursos para cobrir as despesas, Herodes reservou para esse fim uma importância anual, de modo que pudessem ser celebrados, cuidando também da suntuosidade dos sacrifícios e dos ornamentos. Essa liberalidade tão extraordinária fez com que lhe concedessem a honra de superintendente perpétuo desses jogos.
Alguns ficam admirados com as grandes contradições que se acham em Herodes. Quando consideramos a generosidade que ele dispensava com tanta profusão, somos obrigados a confessar que ele era caridoso por natureza. Quando se observa, no entanto, as crueldades e injustiças que ele cometia para com os seus súditos e até mesmo para com os mais próximos, não há como negar o seu gênio duro e o caráter violento e inexorável, que não conhecia limites. Embora essas qualidades sejam tão opostas que parece não poderem ser encontradas na mesma pessoa, é minha opinião que elas procedem de uma mesma causa.
Como a ambição pela honra era a paixão dominante desse soberano, a glória e o desejo de merecer elogios durante toda a vida e imortalizar a sua memória levaram-no a ser tão munificente. Em contrapartida, os seus bens, por maiores que fossem, não bastavam a despesas tão desmedidas. Ele era então obrigado a tratar rudemente os seus súditos e receber assim, por meios indignos, o que a sua vaidade o levava a dissipar. Desse modo, como ele, para não empobrecer, tinha de insistir em fazer tais exações, que o tornavam odioso aos seu súditos e o impediam de conquistar-lhes o afeto, tirava então proveito desse ódio. Em vez de tentar acalmá-los, quando alguém não obedecia cegamente a tudo o que ele ordenava ou quando ele desconfiava de alguma intenção de mudança em seu governo, devido à dura servidão, ele os tratava com rigor semelhante ao que dispensaria aos piores inimigos. Não poupava nem os parentes nem aqueles a quem mais amava, porque exigia que todos lhe prestassem respeito e submissão absolutos, por mais injusto que fosse o seu governo.
Não precisamos de prova melhor dessa paixão desmesurada pela glória pessoal que as honras excessivas que ele prestava a Augusto, a Agripa e aos seus amigos, pois o seu intento era mostrar, pelo exemplo, de que maneira ele gostaria de ser reverenciado. Como as nossas leis, todavia, têm por objetivo unicamente a justiça, e não a vaidade, elas não permitiam aos judeus ganhar o afeto dos príncipes levantando-lhes estátuas, consagrando-lhes Templos ou usando de bajulações para contentar a própria ambição. Essa seria a razão, julgo eu, pela qual Herodes era tão magnânimo para com os estrangeiros quanto era injusto e cruel para com os próprios súditos.

CAPÍTULO 10
TESTEMUNHO DO AFETO QUE OS IMPERADORES ROMANOS TINHAM PELOS JUDEUS.

698. Nesse mesmo tempo, os judeus que moravam na Ásia e na África, aos quais os reis haviam concedido o direito de burguesia, eram maltratados pelos gregos, que desviavam o dinheiro sagrado e lhes eram contrários em todas as coisas. Então enviaram embaixadores a Augusto, de modo que se pusesse um fim àquele bárbaro tratamento que recebiam. Esse príncipe escreveu às províncias, reafirmando a manutenção daqueles privilégios, como se poderá ver pela cópia da carta que julgo bem reproduzir, a fim de mostrar a afeição dos imperadores romanos para conosco.
&quot;César Augusto, sumo sacerdote e administrador da República, ordena o que se segue. Sendo a nação dos judeus, não somente no tempo presente, mas também no passado, sempre fiel e afeiçoada ao povo romano, particularmente ao imperador César, meu pai, quando Hircano era o seu sumo sacerdote, ordenamos, com o consentimento do senado, que os judeus vivam segundo as suas leis e costumes, tal como faziam no tempo de Hircano, sumo sacerdote do Deus Altíssimo; que os seus Templos desfrutem sempre o direito de asilo; que lhes seja permitido enviar a Jerusalém o dinheiro consagrado ao serviço de Deus; que não sejam obrigados a comparecer a julgamento no dia de sábado nem na vigília do sábado, após as nove horas; que seja punido como sacrílego e tenha os seus bens confiscados em proveito do povo romano aquele que roubar os seus livros santos ou o dinheiro destinado ao serviço de Deus. E, como desejamos, em todas as ocasiões, dar provas de nossa bondade para com todos os homens, é nosso desejo que o pedido apresentado por Caio Márcio Censorino em nome do ju-deus seja colocado com a presente ordem em um lugar eminente, no Templo de Ancira, o qual toda a Ásia consagrou ao nosso nome. E seja severamente castigado aquele que ousar desobedecer a estas ordens&quot;.
Vê-se também o seguinte decreto gravado sobre uma coluna no Templo de Augusto: &quot;César, a Norbano Flacco, saudação. Seja permitido aos judeus de algumas províncias, onde eles moram, enviar dinheiro a Jerusalém, como sempre o fizeram, para ser empregado no serviço de Deus, sem que isso lhes seja impedido&quot;.
Agripa escreveu também em favor dos judeus, desta maneira: &quot;Agripa, aos magistrados, ao senado e ao povo de Éfeso, saudação. Ordenamos que a guarda e o emprego do dinheiro sagrado que os judeus da Ásia enviam a Jerusalém, segundo o costume de sua nação, fique a cargo deles, e se alguém, tendo-o roubado, recorrer aos asilos para se salvar, seja de lá tirado e entregue aos judeus, para que o façam sofrer a pena que os sacrílegos merecem&quot;. O mesmo Agripa escreveu também ao governador Silvano, para impedir que se obrigassem os judeus a comparecer a julgamento em dia de sábado.
&quot;Marcos Agripa, aos magistrados e ao senado de Cirene, saudação. Os judeus que moram em Cirene fizeram-nos queixas de que, embora Augusto tenha ordenado a Flávio, governador da Líbia, e aos oficiais dessa província que lhes dessem plena liberdade para enviar o dinheiro sagrado a Jerusalém, como sempre fizeram, há pessoas maldosas que o querem impedir, sob pretexto de alguns tributos de que os judeus lhes seriam devedores, quando na verdade não devem. A esse respeito, ordenamos que eles sejam mantidos no usufruto de seus direitos, sem que os tais lhes sejam impedidos ou dificultados, por qualquer meio. E, se em alguma cidade o dinheiro sagrado for desviado, ele deverá ser restituído aos judeus por aqueles que forem nomeados para esse fim&quot;.
&quot;Caio Norbano Flacco, procônsul, aos magistrados de Sardes, saudação. César nos ordenou, por meio de cartas, impedirmos que se perturbe a liberdade que os judeus sempre tiveram de enviar a Jerusalém, segundo o costume de sua nação, o dinheiro que eles destinam para esse fim, o que me obriga a escrever-vos esta carta, a fim de vos informar da vontade do imperador e da nossa&quot;.
Júlio Antônio, procônsul, escreveu também: &quot;Júlio Antônio, procônsul, ao senado e ao povo de Éfeso, saudação. Quando eu administrava a justiça no décimo terceiro dia de fevereiro, os judeus que moram na Ásia disseram-me que César Augusto e Agripa lhes haviam permitido enviar com toda a liberdade a Jerusalém, conforme as suas leis e costumes, as primícias que cada qual desejasse oferecer livremente a Deus, por um sentimento de piedade. Eles rogaram-me que lhes confirmasse essa graça. Por isso, conforme o desejo de Augusto e de Agripa, faço-vos saber que permito aos judeus que nisso observem os seus costumes, e que ninguém ouse impedi-los&quot;.
Como sei que esta história pode cair nas mãos dos gregos, julguei dever relatar todas essas provas, para mostrar-lhes que não é de hoje que os detentores da suprema autoridade nos permitem observar os costumes de nossos antepassados e servir a Deus da maneira como ordena a nossa religião. Julgo que devo repeti-lo muito, a fim de que as nações estrangeiras percam o ódio que sem motivo nutrem contra nós. O tempo causa mudanças nos costumes de todos os povos, e quase não há cidade onde isso não aconteça. Mas a justiça deve ser igualmente reverenciada por todos os homens. Assim, as nossas leis podem ser muito úteis, não somente aos gregos, mas também aos bárbaros, o que os obriga a ter afeto por nós, pois elas são inteiramente conformes à justiça, e nós as observamos fielmente. Por isso, rogo que nos não odeiem pela nossa maneira diferente de viver, mas que, como nós, amem a virtude, pois ela deve ser comum a todos os homens. Precisamos agora retomar a nossa história.

CAPÍTULO 11
O REI HERODES MANDA ABRIR O SEPULCRO DE DAVI, PARA TIRAR DINHEIRO,
E DEUS O CASTIGA. DIVISÕES E PERTURBAÇÕES NA FAMÍLIA. CRUELDADE
DESSE SOBERANO CAUSADA POR SUAS DESCONFIANÇAS E PELA MALÍCIA DE
ANTÍPATRO. MANDA METER ALEXANDRE, SEU FILHO, NA PRISÃO.

699. As excessivas despesas feitas por Herodes dentro e fora do reino haviam esgotado as suas finanças. Ele sabia que Hircano, seu predecessor, retirara três mil talentos de prata do sepulcro de Davi e imaginava que outros lá ainda restassem, em número suficiente para cobrir todas as suas necessidades. Havia muito tempo ele desejava recorrer a esse meio, e por fim o fez. Começou por usar de todas as precauções possíveis, para impedir que o povo descobrisse o seu intento. Mandou abrir o sepulcro à noite e lá entrou acompanhado somente pelos seus amigos mais fiéis. Não encontrou dinheiro em moedas, como Hircano, porém achou muitos vasos de ouro e outras preciosas dádivas que ali haviam sido colocadas. Mandou levar tudo, no entanto isso lhe fez desejar mais. Mandou então rebuscar até mesmo no ataúde onde estava o corpo de Davi e o de Salomão. Conta-se, porém, que de lá saiu uma chama, que matou dois de seus guardas. Esse fato prodigioso assustou-o e, para expiar tal sacrilégio, ele depois mandou construir à entrada do sepulcro um soberbo monumento de mármore branco.
Nicolau, que escreveu a história dessa época, faz menção desse fato, mas não diz que Herodes entrou no sepulcro, porque julgava prejudicial à imagem do rei. Em seu livro, ele tem a mesma atitude com relação a muitas outras coisas referentes a esse soberano porque, tendo escrito essa história enquanto Herodes ainda vivia, o desejo de agradá-lo levou-o a falar somente o que lhe podia redundar em glória. Assim, ele registra, com grandes elogios, os seus belos feitos, mas suprime, tanto quanto possível, os seus crimes mais notórios, ou pelo menos procura disfarçá-los. Esforça-se mesmo por desculpar, com pretextos especiosos, a crueldade para com Mariana e os filhos desta. Ele assim procede em toda a sua obra, dirigindo pomposos encômios às suas justas ações, mas principalmente fazendo apologia de suas injustiças. Quanto a mim, que tenho a honra de descender dos asmoneus e ter o meu lugar entre os sacerdotes e que não ousaria pronunciar qualquer falsidade contra eles, narro as coisas sinceramente e não creio ofender aos reis descendentes de Herodes ao preferir a verdade, a qual em certos momentos pode lhes causar desgosto.
700. Desde o dia em que Herodes violou o respeito devido à santidade dos sepulcros, a agitação em sua família aumentou cada vez mais, fosse por uma vingança do céu, o que teria tornado essa chaga ainda mais dolorosa, fosse por ocorrer num tempo em que se podia vincular a causa a esse sacrilégio. Uma guerra civil não agitaria mais uma nação que as paixões dos diversos partidos da corte desse príncipe. Parecia que cada qual desejava superar os demais em calúnias. E era Antípatro quem sobrepujava a todos em artifícios para destruir os irmãos. Fazia com que fossem acusados de falsos crimes e ocultava a sua perigosa malícia tomando-lhes muitas vezes a defesa, a fim de poder, com esse amor aparente, oprimi-los sem muita dificuldade e enganar o rei seu pai, que pensava ser ele o único a se interessar pela sua conservação. Assim, Herodes ordenou a Ptolomeu, seu principal ministro, que nada fizesse no governo sem antes comunicar a Antipatro. Dava também à mãe dele participação em todas as coisas, e Antipatro servia-se dessa influência para insuflar o ódio na mente de todos os que julgava importante tornar inimigos do rei.
Alexandre e Aristóbulo, por sua vez, cujo coração correspondia à grandeza de sua origem, não podiam tolerar um tratamento tão indigno da parte daqueles que lhes eram inferiores, e as suas mulheres eram do mesmo parecer. Glafira odiava Salomé mortalmente, tanto por causa do afeto que tinha por Alexandre, seu marido, quanto por não tolerar que ela fizesse prestar à filha, que desposara Aristóbulo, as mesmas honras que a ela mesma.
Feroras contribuía para essa divisão, levando Herodes a desconfiar dele e a odiá-lo, porque recusara desposar a filha deste por causa de uma serviçal a quem amava perdidamente. Esse injurioso desprezo feriu Herodes profundamente, porque nada lhe podia ser mais doloroso que ver o irmão* a quem agraciara com tantos benefícios e que era quase associado ao governo pela autoridade que lhe concedera, corresponder tão pouco ao seu afeto. E, vendo que não conseguiria afastá-lo daquela loucura, deu essa princesa em casamento ao filho de Fazael, seu irmão mais velho. Mais tarde, quando julgou que Feroras, tendo já realizado os seus desejos, se havia tornado mais razoável, fez-lhe graves censuras pela maneira ofensiva como procedera para com ele e convidou-o ao mesmo tempo a desposar Cipro, sua outra filha.
Ptolomeu repreendeu Feroras, dizendo que este ofendera gravemente o irmão ao se deixar conduzir daquele modo por uma tão vergonhosa paixão, podendo por isso ser privado da boa vontade do rei para com ele, que tivera a generosidade de perdoá-lo de sua primeira falta, e provocar o seu ódio e a própria desgraça, quando devia conservar aquela amizade. Feroras, persuadido por essas razões, despediu a mulher, de quem tivera um filho, e prometeu ao rei, com juramento, não vê-la mais e desposar a princesa dentro de um mês. Chegado esse tempo, no entanto, ele esqueceu todas as promessas, retomou aquela mulher e amou-a ainda mais ardentemente que antes.
Herodes, ofendido com esse proceder, não pôde reter por mais tempo a sua cólera, e com freqüência escapavam-lhe palavras que traduziam toda a sua ira. Alguns, vendo-o daquela maneira indisposto contra Feroras, incitavam-no ainda mais por meio de calúnias. Não se passava um dia, ou mesmo uma hora, em que ele não recebesse novos motivos de desgosto por aquela cisão e pelas disputas contínuas entre os parentes e as pessoas que lhe eram muito queridas.
O ódio de Salomé pelos filhos de Mariana era tão grande que ela não podia tolerar que a própria filha, que havia desposado Aristóbulo, vivesse em paz com o marido. Exigia dela que lhe referisse as coisas mais secretas que o casal tinha entre si e, se acontecia entre eles alguma pequena rusga, como é natural, em vez de lhe acalmar o espírito, irritava-a ainda mais com as suspeitas que lhe despertava. Obrigava-a também a revelar o que se passava entre os dois irmãos.
A jovem princesa contou-lhe que, quando eles estavam sozinhos, faziam menção à rainha Mariana e à aversão que tinham pelo pai, dizendo que, se um dia chegassem ao trono, não dariam outro emprego aos filhos que Herodes tivera das outras mulheres senão o de tabeliães nas aldeias, pois, com a educação que haviam recebido, era o cargo que estavam aptos a exercer. E, se eles vissem as mulheres de Herodes se adornando com os trajes da rainha sua mãe, dar-lhes-iam por vestes apenas cilícios e as encerrariam em lugares onde jamais veriam a luz do sol. Salomé relatava todas essas coisas a Herodes. Ele as ouvia com pesar e procurava remediá-las, porque preferia corrigir os filhos a castigá-los. Assim, embora ele se tornasse cada dia mais triste e propenso a crer no que lhe contavam, contentou-se em repreender severamente os filhos e ficou satisfeito com as suas justificativas.
Porém esse mal, que parecia curado, bem depressa se manifestou muito maior. Feroras disse a Alexandre ter sabido de Salomé que o rei concebia pela princesa Glafira — esposa de Alexandre — uma paixão tão forte que era impossível controlar. Essas palavras despertaram tal ciúme no príncipe que ele passou a enxergar com maldade qualquer demonstração de afeto da parte de Herodes pela nora. O seu penar foi tão intenso que, não o podendo mais suportar, foi falar com o rei seu pai. Narrou-lhe em lágrimas o que Feroras lhe dissera. Jamais Herodes tivera surpresa maior. Ele ficou tão chocado com aquela abominável acusação que começou a lamentar profundamente a horrível malícia de seus domésticos, os quais pagavam com a ingratidão os muitos benefícios de que lhe eram devedores.
Mandou imediatamente chamar Feroras e disse-lhe, encolerizado: &quot;Sois o pior de todos os homens! É assim que reconheceis tantos favores que de mim recebestes? Como podem penetrar em vosso espírito e sair de vossa boca pensamentos e palavras tão injuriosas contra a minha reputação e tão contrárias à verdade? Bem compreendo o vosso desígnio. Não foi somente para me ofender que falastes desse modo a meu filho, mas para o induzir a me envenenar, pois qual filho, mesmo possuindo um gênio pacífico, deixaria de vingar tamanho ultraje? Ou pensais que há grande diferença entre incentivar tal ciúme em seu espírito e pôr-lhe a espada na mão, para que me mate? Qual é o vosso desígnio, fingindo amar um irmão que sempre vos quis bem, quando na verdade me tendes ódio mortal e me acusais falsamente de praticar uma ação na qual não se pode sem impiedade nem mesmo pensar? Ide-vos, ingrato, que renunciastes a todos os sentimentos de humanidade por vosso benfeitor e irmão. Sejam as recriminações de vossa consciência o vosso carrasco pelo resto de vossa vida. Quanto a mim, para vos cobrir de confusão, contentar-me-ei em confundir a vossa malícia com a minha bondade, não vos castigando como mereceis, mas vos tratando com a mansidão de que vos tornastes indigno&quot;.
Feroras, não podendo se desculpar de tamanho crime, de que se havia tão claramente culpado, lançou a culpa sobre Salomé, dizendo que aquilo partira dela. Aconteceu que ela estava presente, e, como era tão fingida quanto má, afirmou altivamente que nada havia de mais falso e exclamou que parecia que todos haviam conspirado para torná-la odiosa ao rei e levá-la a perder a vida, e que a sua preocupação pelo bem-estar de Herodes diante dos perigos que o ameaçavam era motivo para que a odiassem, e Feroras mais que todos, pois fora ela a causa de que ele despedisse a mulher que mantinha. Enquanto falava, arrancava os cabelos e batia no peito, mas ninguém deu crédito ao que ela dizia.
Feroras, no entanto, ficou aflitíssimo, porque não podia negar ter dito aquelas palavras a Alexandre nem provar que as ouvira de Salomé. E ambos discutiram por muito tempo: ele para acusá-la e ela para se justificar. Herodes, cansado daquela discussão, mandou-os embora, louvando o filho pela sua moderação e por haver lhe manifestado o seu penar. Como já era tarde, foi pôr-se à mesa. Ninguém deu razão a Salomé, e não se duvidava de que fora ela quem inventara aquela calúnia. As mulheres do rei, que a odiavam por causa de seu mau humor e de sua inconstância nos afetos, difamavam-na continuamente perante Herodes.
701. Obodas reinava então na Arábia. Era um príncipe preguiçoso, que só amava a ociosidade. Sileu, que era hábil, bem apessoado e em plena mocidade, governava sob a sua autoridade. Veio ele falar com o rei Herodes sobre alguns negócios e, um dia, quando estava com o rei à mesa, Salomé, que também estava presente, caiu-lhe nas suas boas graças. Sabendo que ela era viúva, propôs-lhe casamento. Como Sileu também lhe agradasse e ela já não estivesse bem afinada com o espírito do rei seu irmão, não rejeitou a proposta. As mulheres do rei logo o foram informar dessa nova amizade, acrescentando os seus próprios comentários e críticas. Ele ordenou a Feroras que os observasse, e este disse-lhe que era fácil de se julgar, pelos olhares e pelos sinais que ambos trocavam, que estavam de acordo. Então Herodes não duvidou mais, e Sileu despediu-se.
Dois ou três meses depois, ele veio pedir Salomé em casamento, declarando que tal união seria muito vantajosa a Herodes, por causa do comércio de seu reino com a Arábia, pois era ele, Sileu, quem a governava de fato no presente, e o reino com certeza, no futuro, lhe pertenceria. Herodes falou com a irmã. Ela deu-lhe voluntariamente o seu consentimento, e ele disse a Sileu que podia satis-fazer-lhe o pedido, contanto que abraçasse a religião dos judeus. O árabe respondeu-lhe que não o podia fazer, porque os de sua nação o apedrejariam. E assim, desfez-se o contrato. Feroras acusou Salomé de ter pouco cuidado com a sua reputação, e as mulheres do rei diziam abertamente que ela nada havia recusado àquele estrangeiro.
702.  Algum tempo depois, Herodes deixou-se vencer pela importunação de Salomé e resolveu dar em casamento ao filho que ela tivera de Costobaro a princesa sua filha que Feroras, apaixonado pela serva, recusara desposar. Mas Feroras o fez mudar de idéia, dizendo que aquele moço jamais a amaria, por causa do ressentimento que conservava pela morte de seu pai. Se ele achasse melhor, que a desse ao seu filho, que tinha também a honra de ser seu sobrinho e deveria sucedê-lo na tetrarquia. Herodes aprovou a proposta, deu cem talentos à filha, como dote, e perdoou Feroras pelas faltas passadas.
703.  As perturbações na família de Herodes não cessaram. Ao contrário, aumentaram com novos fatos, vergonhosos em seu início e funestos em suas conseqüências. O soberano tinha três eunucos aos quais muito estimava, porque eram muito belos. Um era o seu mordomo, o outro, o seu camareiro e o terceiro, o principal criado de quarto. O rei servia-se deles até mesmo nos negócios mais importantes. Mas lhe contaram que Alexandre, seu filho, os havia subornado com uma grande quantia de dinheiro. Herodes interrogou-os, e eles confessaram que era verdade; todavia, negaram que ele os houvesse induzido a empreender algo contra o rei.
Torturaram-nos uma segunda vez e os trataram com tanta violência que eles, não podendo mais suportar, disseram que Alexandre ainda conservava no coração o ódio que sempre tivera pelo rei seu pai e os havia exortado a abandoná-lo, pois era um homem já inútil para tudo, por causa da velhice que ele se esforçava tanto para ocultar, fazendo pentear a barba e os cabelos, e que, se quisessem unir-se a ele, prometia elevá-los aos mais altos cargos quando viesse a reinar. E isso iria acontecer muito em breve, mesmo que o seu pai não o quisesse, pois, além de o reino lhe pertencer por direito de nascimento, estava tudo preparado para que logo o assumisse, e os seus amigos estavam dispostos a fazer qualquer coisa por amor a ele.
Essas palavras suscitaram terrível cólera a Herodes, causando-lhe ao mesmo tempo um angustioso temor, pois não podia tolerar que o filho tivesse ousado falar a seu respeito de modo tão ultrajoso. Ele temia ainda não poder fugir de imediato ao perigo que o ameaçava. Julgou também que não era conveniente agir às claras para resolver aquele assunto. Era preferível empregar para isso, secretamente, pessoas de sua inteira confiança. No entanto, ele desconfiava de todos e, julgando que a sua segurança dependia dessa desconfiança, suspeitava de muitos que eram inocentes. Quanto mais íntimo lhe era alguém, mais ele o julgava capaz de conspirar contra ele. Quanto aos que não lhe eram próximos, bastava alguém acusá-los para que logo os mandasse matar.
As coisas chegaram a tal ponto que os seus criados, convencidos de que só se poderiam salvar arruinando os outros por meio de calúnias, passaram a acusar os companheiros. Mas eram, por sua vez, acusados por outros, e assim recebiam também um justo castigo, sofrendo as mesmas penas que haviam causado aos inocentes e caindo em ciladas semelhantes às que preparavam para os outros. Herodes logo se arrependia de supliciar pessoas que não haviam cometido crime algum, mas isso não o impedia de insistir na prática dessa injustiça. Ele se contentava em impor aos delatores os mesmos suplícios sofridos pelos que haviam sido falsamente acusados por eles.
Esse deplorável estado de coisas em que se encontrava a corte do soberano chegou a tal ponto que ele proibiu de comparecer à sua presença e de entrar no palácio vários dentre os que ele mais amava ou estimava por merecimento. Andrômaco e Gamelo estavam nesse número. Eram seus amigos de longa data e lhe haviam prestado grandes serviços com os seus conselhos e embaixadas nos mais importantes negócios do reino. Haviam cuidado da educação dos príncipes, e em ninguém tinha ele mais confiança. Mas ele afastou Andrômaco, porque o príncipe Alexandre era muito achegado a Demétrio, filho daquele, e a causa da aversão por Gamelo foi o afeto que ele nutria por esse mesmo príncipe, que fora seu discípulo e o acompanhara na viagem a Roma. Herodes com certeza os trataria mais rudemente se não lhes conhecesse os méritos, que eram notórios. Por isso, contentou-se em afastá-los e em lhes tirar toda a autoridade, a fim de que, não vivendo mais em sua presença, pudesse agir com inteira liberdade.
Antipatro era a causa principal de todos esses males, pois, quando viu que o rei se deixava transportar facilmente a tantos temores e suspeitas, retomou com mais crueldade os seus propósitos anteriores, sugerindo-lhe, como se lhe prestasse um grande serviço, que mandasse matar todos os que estavam em condições de lhe resistir. Assim, Herodes, depois do afastamento de Andrômaco e de outros que lhe poderiam falar com liberdade, fez torturar os que eram fiéis a Alexandre, para obrigá-los a confessar qualquer participação em alguma conspiração contra o rei. Eles morriam nos tormentos afirmando que eram inocentes, mas isso o fazia obstinar-se ainda mais em torturar os suspeitos. E Antipatro era tão mau, que dizia que eles eram impedidos de confessar a verdade por causa de sua extrema fidelidade para com Alexandre. Com isso, um grande número de pessoas foi submetido a tormentos, a fim de se extrair delas o que o rei desejava saber.
Um deles, sucumbindo ante a violência da dor, afirmou que ouvira Alexandre dizer diversas vezes, quando lhe louvavam a grandeza e a beleza do porte e a habilidade em atirar com o arco e em todas as outras espécies de exercícios, que tais virtudes, recebidas da natureza, eram mais desgraças que favores, porque causavam inveja ao rei seu pai, pois quando o acompanhava, era obrigado a se curvar para não parecer mais alto que ele e quando ia à caça, devia atirar mal, de propósito, porque o rei não podia tolerar que o louvassem. Quando ouviram o homem falar desse modo, deixaram de o atormentar, e ele, sentindo-se aliviado, acrescentou que Aristóbulo conspirava com o irmão para matar o rei quando este fosse à caça e que, se o plano fosse executado sem empecilhos, eles fugiram e iriam a Roma reivindicar o reino. Encontraram também cartas desse príncipe ao irmão, nas quais se queixava de Herodes haver concedido a Antipatro terras que podiam render anualmente duzentos talentos. Tudo isso fez Herodes crer que já havia o suficiente para um justo motivo de desconfiança dos filhos.
704. Irritou-se então novamente contra Alexandre e o encerrou na prisão. Mas ele não estava convencido de todas aquelas acusações contra os príncipes, pois, ainda que ousassem atentar contra a sua vida, não havia probabilidade de que lhes tivesse ocorrido a idéia de ir a Roma após cometerem semelhante crime. Parecia-lhe mais verossímil ser aquilo fruto do descontentamento dos moços, pois possuíam uma grande ambição e tinham inveja de Antípatro. Assim, querendo maiores provas, para achá-los culpados e evitar que o acusassem de haver levianamente mandado prender o filho, mandou que se torturassem os principais amigos do príncipe e ordenou a morte de outros, ainda que nada tivessem confessado.
A corte estava tão agitada e cheia de terror, que alguém anunciou que Alexandre havia preparado veneno em Asquelom e depois escrevera aos seus amigos em Roma para que comunicassem a Augusto que descobrira um plano contra ele: o rei seu pai deixara o partido dos romanos para unir-se a Mitridates, rei dos partos. Herodes prestou fé a essas acusações, e não faltaram aduladores que, para consolá-lo no seu sofrimento, diziam que era muito justo tudo o que ele havia feito. Todavia, por mais indagações que ele fizesse, esse pretenso veneno nunca foi encontrado.
Alexandre, embora amargurado por tantos males, não se deixou abater. Manifestou mais coragem do que nunca em sua infelicidade: não se dignava defender-se. Em vez de se justificar, falava de uma maneira que irritava ainda mais o rei, de um lado cobrindo-o de confusão, pois deixava transparecer que era facilmente enganado pelas calúnias, e de outro pondo-o em amargura e o colocando em sérias dificuldades, caso prestasse fé ao que o filho dizia. Escreveu-lhe quatro cartas nas quais dizia que era inútil torturar tantas pessoas para saber se conspiravam contra ele, pois isso era coisa certa. Os seus amigos mais fiéis tomavam parte naquela conspiração, até mesmo Feroras. A própria Salomé viera, secretamente, à noite, deitar-se em seu leito. Assim, todos pensavam unicamente em tirá-lo deste mundo para depois viver com tranqüilidade. Por meio delas, apontava até mesmo a cumplicidade de Ptolomeu e Sapínio, em quem Herodes depositava toda a confiança.
Parecia que todos estavam dominados pela raiva e que aqueles que outrora eram os melhores amigos se haviam tornado inimigos mortais. Não se escutavam as justificativas dos acusados, não se procurava esclarecer a verdade. O suplício precedia o julgamento, e a prisão de uns, a morte de outros e o desespero daqueles que não esperavam melhor tratamento enchiam o palácio de tal temor que não restava sequer um pequeno indício da felicidade passada. O próprio Herodes, em meio a tão grande perturbação, enfadara-se da vida. O temor contínuo pela sua vida e o desprazer de não poder confiar em ninguém mantinham-no em cruel e incessante tormento. Assim, como ele noite e dia não pensava em outra coisa, imaginava freqüentemente ver o filho vir a ele de espada em punho para matá-lo, e pouco faltou para que esse terror, que o agitava continuamente, não o fizesse perder o juízo.

CAPÍTULO 12
ARQUELAU, REI DA CAPADÓCIA, RECONDUZ O PRÍNCIPE ALEXANDRE, SEU GENRO, ÀS BOAS GRAÇAS DE HERODES.

705. Quando Arqueiau, rei da Capadócia, soube que as coisas haviam chegado a esse extremo, o afeto pela filha e pelo príncipe Alexandre, seu genro, bem como a compaixão por ver Herodes, seu amigo, em tão deplorável estado, levaram-no a procurá-lo. Ele viu com os próprios olhos que o que lhe haviam relatado era verdade, mas julgou inconveniente censurar Herodes por haver acreditado em tudo e se guiado pela paixão, para não o irritar ainda mais, obrigando-o a se justificar. Como era muito sensato, tomou um caminho contrário para lhe acalmar o espírito. Disse-lhe que também estava muito irritado com o genro e aprovava o castigo que Herodes lhe aplicara. Afirmou ainda que estava pronto, se ele quisesse, a romper o casamento, retomar a filha e ainda castigá-la, se descobrisse que ela sabia da falta do marido e não tinha avisado o rei.
Herodes ficou surpreso ao ver Arqueiau defendê-lo com tanto ardor, mostrando-se ainda mais irritado com Alexandre do que ele. Sentiu então amortecer o fogo de sua cólera e mostrou-se disposto a agir com plena justiça nesse particular. Retomou pouco a pouco pelo filho os sentimentos de ternura que a natureza depositou no coração dos pais. Antes não podia tolerar que alguém desculpasse o jovem, mas quando viu que Arqueiau, longe de absolvê-lo, ainda o acusava, ficou tão comovido que não pôde reter as lágrimas. Rogou-lhe que não se deixasse levar pelo desgosto para com o genro e não rompesse o casamento. Arqueiau, vendo-o mais calmo, começou a refutar as acusações feitas contra Alexandre, dizendo que com certeza foram os amigos do rei que, com o seu comportamento, lhe corromperam o espírito, tão desprovido de malícia, principalmente Feroras.
 
Feroras, que já caíra no desagrado do rei de modo a não conseguir a reconciliação, julgou, ao saber disso, que ninguém, a não ser Arqueiau, seria capaz de reintegrá-lo às boas graças de Herodes. Então veio procurá-lo com vestes de luto e todos os outros sinais de dor que pode apresentar um homem que se crê à beira do abismo. Esse rei, tão prudente, julgou que podia aproveitara ocasião. Disse-lhe que o que ele desejava não era fácil, e o melhor conselho que lhe podia dar era que ele mesmo fosse procurar o rei seu irmão, confessasse ter sido causa de todo o mal e lhe pedisse perdão. Depois disso, se ele estivesse disposto a permitir que falassem em seu favor, tentaria prestar-lhe o auxílio que estava pedindo.
Feroras seguiu o conselho e saiu-se tão bem que voltou às boas graças do rei. Alexandre, superando todas as expectativas, foi justificado de todos os crimes que lhe imputavam. Arqueiau, após restituir a paz a todos com o seu excelente modo de agir, conquistou o coração de Herodes, que começou a considerá-lo um de seus maiores amigos. Deu-lhe ricos presentes e, lembrando que escrevera a Augusto relatando o seu descontentamento com os filhos, julgou-se obrigado a lhe prestar contas do que se havia passado. Os dois reis decidiram que Herodes deveria ir a Roma para informá-lo de tudo. Arqueiau retornou em seguida para o seu reino. Herodes acompanhou-o até Antioquia e, depois de conversar com Tito, governador da Síria, voltou à Judéia.

CAPÍTULO 13
HERODES INICIA UMA GUERRA CONTRA OS ÁRABES POR CAUSA DA PROTEÇÃO DESTES AOS LADRÕES DE TRACONITES.

706. Herodes, nesse mesmo tempo, viu-se obrigado a entrarem guerra com os árabes pelo motivo que passo a expor. Depois que Augusto tirou Traconites de Zenodoro para entregá-la a Herodes, os seus habitantes, não ousando continuar os assaltos que costumavam fazer, foram obrigados a se ocupar com o cultivo da terra. Embora esse trabalho fosse contrário à sua inclinação e a terra fosse muito estéril, de modo que pouco proveito dela tiravam, a vigilância de Herodes os impediu, durante algum tempo, de molestar os vizinhos, e nisso ele mereceu muitos elogios. Mas quando viajou a Roma para acusar Alexandre perante Augusto e recomendar-lhe Antípatro, correu a notícia de que ele havia morrido, e então eles retomaram o hábito de roubar os povos vizinhos, mas foram castigados pelos comandantes das tropas de Herodes.
Os principais desses ladrões, surpresos com os infelizes resultados, fugiram para a Arábia, onde Sileu, irritado por Herodes lhe haver recusado a irmã, recebeu-os e deu-lhes asilo em um lugar defendido, de onde saíam para realizar assaltos na Judéia e na Baixa Síria e devastar os campos. Herodes, ao regressar de Roma, não conseguindo castigá-los como mereciam, porque eram protegidos pelos árabes, mas também não podendo admitir que tratassem daquele modo os seus súditos, entrou em Traconites e matou todos os que tinham parentesco com eles. Os outros ficaram furiosos e, obrigados por uma de suas leis, que os manda vingar a morte dos parentes, passaram a devastar, com impunidade, tudo o que encontravam nos domínios de Herodes, que então se dirigiu a Saturnino e a Volúmnio, constituídos por Augusto governadores daquelas províncias, pedindo-lhes que os castigassem.
Essa queixa, todavia, em vez de atemorizar os ladrões, encolerizou-os ainda mais. Então, reuniram-se em grande número, cerca de mil homens, e intensificaram as incursões aos campos e aldeias, sem poupar nem um sequer dos que lhes caíam nas mãos. Já não se tratava mais de roubo ou depredação, mas de uma verdadeira guerra. Herodes pediu então insistentemente aos árabes que lhe entregassem aqueles ladrões e pagassem os seiscentos talentos que ele havia emprestado ao rei Obodas, por meio de Sileu, pois o prazo para o pagamento já se esgotara. Mas Sileu, que expulsara Obodas e se apoderara do reino, adiava sempre o reembolso e afirmava que os ladrões não se haviam retirado para a Arábia. Por fim, Saturnino e Volúmnio ordenaram-lhe que efetuasse o pagamento dentro de trinta dias e que cada qual entregasse os trânsfugas que estivesse acolhendo. Viu-se então a malícia dos árabes, pois não se encontrou ninguém dessa nação nas terras de Herodes, enquanto os ladrões se haviam retirado todos para a Arábia.

CAPÍTULO 14
SILEU RECUSA-SE A CUMPRIR AS ORDENS DOS GOVERNADORES CONSTITUÍDOS
POR AUGUSTO E VAI PROCURÁ-LO EM ROMA. HERODES ENTRA ARMADO NA
ARÁBIA E TOMA O CASTELO EM QUE OS LADRÕES SE HAVIAM REFUGIADO.

707. Sileu recusou-se a fazer o que lhe havia sido ordenado e foi a Roma procurar Augusto. Herodes, então, entrou com um exército na Arábia. Marchou com tanta rapidez que percorreu em três dias de caminho o que se costuma fazer em sete e atacou os ladrões no castelo de Repta, para onde eles se haviam retirado. Ele tomou e destruiu o lugar, mas não causou nenhum mal aos habitantes do país. Nacebe, general das tropas dos árabes, marchou contra os soldados de Herodes, mas foi morto no combate, com vinte e cinco de seus homens. Os outros fugiram, e Herodes não perdeu nenhum homem. Assim, tendo castigado os ladrões, ele enviou três mil idumeus para Traconites, a fim de impedir que os assaltos continuassem, e escreveu aos chefes das tropas romanas na Fenícia, contando o que se havia passado e como se limitara a valer-se do poder que lhe fora concedido, sem nada mais empreender. Eles se informaram e constataram que era verdade.

CAPÍTULO 15
SILEU INDISPÕE DE TAL MODO AUGUSTO COM HERODES QUE O IMPERADOR
SE RECUSA A RECEBER OS SEUS EMBAIXADORES. NEGA-SE TAMBÉM A
ESCUTAR OS EMBAIXADORES DEARETAS, REI DOS ÁRABES, QUE SUCEDERA A
OBODAS, O QUAL SILEU MANDARA ENVENENAR PARA SE APODERAR DO
REINO. HERODES ENVIA UMA TERCEIRA EMBAIXADA A AUGUSTO.

708. Os árabes enviaram com urgência emissários a Roma para contar a Sileu, de forma distorcida, o que acontecera. Quando lhe deram a notícia, ele passeava diante do palácio de Augusto, que já o conhecia. Tomou então uma veste de luto e foi procurar o imperador. Unindo lágrimas às queixas, contou-lhe que Herodes havia entrado com armas na Arábia e a destruíra completamente, matando dois mil e quinhentos dos principais dentre os árabes e Nacebe, seu parente, amigo e general do exército. Disse também que ele havia roubado grandes riquezas no castelo de Repta e que o desprezo de Herodes por Obodas — cuja negligência fora tão grande que nem se havia preparado para a guerra, faltando-lhe ainda um bom chefe —, na sua ausência, o havia levado a empreender uma guerra injusta. Acrescentou que, se não confiasse nos cuidados do imperador em manter todas as províncias em paz, não teria deixado o seu país para vir a Roma e, se lá tivesse ficado, jamais permitiria que Herodes saísse vencedor naquela guerra.
Augusto, impressionado com essas palavras, limitou-se a indagar de alguns amigos de Herodes e uns romanos recém-chegados da Síria se era verdade que aquele príncipe havia entrado com armas na Arábia. E, como não podiam negá-lo, não se informou o motivo que a isso o havia obrigado. César ficou muito encolerizado e escreveu a Herodes uma carta cheia de ameaças, que dizia, entre outras coisas, que até então ele o considerara um amigo, mas que dali em diante o trataria como súdito.
Sileu, por sua vez, escreveu à Arábia, do modo como bem se pode imaginar, e as suas cartas levantaram tanto o ânimo daquela nação que, vendo eles o imperador irritado contra Herodes, não restituíram os fugitivos e não pagaram o que deviam nem o que era de direito pelas pastagens que haviam arrendado. Os habitantes de Traconites também se aproveitaram da ocasião: rebelaram-se contra as guarnições iduméias enviadas por Herodes, uniram-se a outros ladrões árabes e saquearam o país, causando muitos outros males, não tanto para se aproveitar deles quanto pelo desejo de vingança. Herodes foi obrigado a suportá-los, porque nada ousava empreender, ao ver que Augusto, de tão enfurecido contra ele, nem se dignara escutar os primeiros embaixadores que lhe enviara, tampouco dar uma resposta aos que foram em seguida.
A presença de Sileu em Roma aumentava ainda mais a angústia de Herodes, pois sabia que estavam dando crédito às palavras daquele impostor e que ele aspirava à coroa da Arábia. O rei Obodas morrera por aquele tempo, e Enéias, cognominado Aretas, o substituiu. Sileu valia-se de todas as calúnias que podia para forçar a sua destituição e usurpar o trono. Para isso, agradava com valiosos presentes os que desfrutavam prestígio perante Augusto, prometendo muitos mais ao imperador, esperando que ele os recebesse tão favoravelmente quanto estava indignado com Aretas, que se atrevera a apoderar-se do reino sem lhe pedir permissão.
Esse novo rei, por fim, escreveu a Augusto e enviou-lhe, entre outros presentes, uma coroa de ouro de grande valor. Nas suas cartas, ele acusava Sileu de ser um pérfido, que envenenara o rei Obodas, seu senhor, e lhe usurpara o governo quando ele ainda vivia e que havia abusado insolentemente das mulheres dos árabes e emprestado grandes somas para abrir caminho à tirania. Mas Augusto não quis receber os presentes nem ouvir os embaixadores, e os despediu sem resposta.
Assim, as coisas se indispunham cada vez mais entre os judeus e os árabes, e não havia ninguém capaz de apaziguar tamanha divergência. Aretas ainda não se havia consolidado no novo reino para poder reprimir as insolências de seus súditos, e Herodes, temeroso de irritar ainda mais o imperador, caso repelisse as injúrias que lhe faziam, era obrigado a suportá-los. Nessa aflição em se encontrava, resolveu enviar uma terceira embaixada para tentar, por intermédio de amigos, apaziguar os ânimos de César, e para isso escolheu Nicolau de Damasco.

CAPÍTULO 16
HERODES, MAIS IRRITADO DO QUE NUNCA CONTRA ALEXANDRE E
ARISTOBULO, POR CAUSA DE SUAS CALÚNIAS, MANDA-OS PARA A PRISÃO.
AUGUSTO RECONHECE A MALDADE DE SILEU E O CONDENA À MORTE.
CONFIRMA ARETAS NO REINO DA ARÁBIA E LASTIMA TER SE IRRITADO
CONTRA HERODES. ACONSELHA-O A REUNIR UMA GRANDE ASSEMBLÉIA EM
BERITO E LÁ JULGAR OS FILHOS.

709. A agitação na família de Herodes aumentava, pelo crescente ódio deste contra Alexandre e Aristobulo, seus filhos. A desconfiança, que é um mal muito perigoso para os reis, não tinha fim e fortaleceu-se ainda mais por este fato: um certo Euriclés, lacedemônio, nobre de nascimento, muito perverso, grande bajulador e extremamente astucioso, que usava de todos os meios para parecer o que de fato não era, veio procurar Herodes com presentes, recebendo também outros maiores. Ele se insinuou de tal modo nas boas graças do rei que este o recebeu no número dos seus principais amigos. Indo morar em casa de Antípatro, introduziu-se também na vida íntima de Alexandre e lhe fez crer que o rei Arqueriau, seu sogro, tinha um afeto particular por ele e lhe faria qualquer favor em consideração à princesa Glafira, sua filha.
Como ele era bem recebido por toda parte e não demonstrava tendência a nenhum partido, era fácil para ele observar o que se dizia e disso se servir para caluniar quem quisesse, pois havia conquistado a todos de tal modo que cada qual julgava tê-lo por único amigo e que era apenas para servi-lo em seus interesses que mantinha relacionamento com os outros. Alexandre, que tinha pouca experiência, facilmente deixou-se envolver, a ponto não confiar em mais ninguém senão nele. Assim, o jovem príncipe abriu-lhe o coração e manifestou a sua dor pela distância que o rei seu pai mantinha dele e pela morte da rainha sua mãe. Queixou-se também de que Antipatro sozinho desfrutava todas as honras que o irmão e ele podiam pleitear e tinha poder sobre todas as coisas. Por fim, confessou que não podia mais suportar o excessivo ódio do pai contra ele e Aristobulo, que por isso não mais se dignava convidá-los para os banquetes e nem mesmo lhes dirigia a palavra.
Esse traidor referiu tudo a Antipatro, dizendo que os favores que lhe devia o levavam a avisá-lo do perigo que o ameaçava, a fim de que ele ficasse alerta, pois Alexandre não dissimulava que podia passar das palavras aos fatos. Antipatro recebeu esse aviso com grandes demonstrações de gratidão para com Euriclés, deu-lhe ricos presentes e o incitou a dizer a mesma coisa ao rei. Ele o fez, e Herodes facilmente acreditou nas palavras ambíguas de que esse infeliz se servia para fazer aumentar as suspeitas e desconfianças. O ódio do rei por Alexandre tornou-se irreconciliável, e ele deu cinqüenta talentos a Euriclés. O traidor foi imediatamente procurar o rei Arquelau para elogiar o príncipe seu genro, dizendo que ele fora muito feliz em contribuir para a conciliação entre pai e filho. Deu ainda grandes presentes a Arquelau e voltou à Lacedemônia antes que pudessem descobrir as suas intrigas. Porém, como em seu país não vivia com mais probidade que entre os estrangeiros, foi expulso e mandado para o exílio.
710.  Herodes já não se contentava, como antes, em prestar fé às calúnias que levantavam contra Alexandre e Aristobulo. O seu ódio por eles era tão grande que, ainda que pessoalmente não os acusasse, não deixava de os fazer vigiar e dava inteira liberdade para que falassem contra eles. E, como não escutava outra coisa com melhor disposição, contaram-lhe, entre outras histórias, que um certo Varate, de Cós, havia elaborado um plano de comum acordo com Alexandre.
711.   Além dessas contínuas calúnias, que tantos levantavam tão obstinadamente contra os dois príncipes perante o rei, sob pretexto de cuidado pela sua conservação, aconteceu ainda um outro fato, que o prejudicou mais que todas as outras coisas. Entre os guardas de Herodes havia dois, chamados Jucundo e Tirano, aos quais ele muito estimava, por causa de sua estatura e força extraordinárias. Mas, por algum desprazer que lhe causaram, acabou afastando-os. Alexandre os recebeu em sua companhia de guardas e, como eram homens de muita habilidade nos exercícios, ele os agraciava com ouro e muitos presentes.
O rei, logo que o soube, passou a suspeitar deles e mandou torturá-los. Eles suportaram o castigo durante longo tempo, mas por fim, não podendo resistir a tantas dores, confessaram que Alexandre os havia solicitado para matar o rei quando ele fosse a caça e lhes havia dito que seria fácil fazer acreditar que ele morrera vítima de suas próprias armas, caindo do cavalo, pois, algum tempo antes, pouco havia faltado para que aquilo lhe acontecesse de verdade. Acrescentaram que encontrariam dinheiro escondido na estrebaria do príncipe e acusaram o monteiro-mor de lhes ter dado, por ordem de Alexandre e de alguns que estavam sob o comando do príncipe, os dardos de que o rei se servia nas caçadas.
712. Herodes mandou também prender e torturar o governador de Alexandriom, porque o acusavam de haver prometido aos dois príncipes que os receberia e lhes entregaria o dinheiro que Herodes lá fazia conservar. Ele nada confessou, mas o seu filho disse que era verdade e trouxe algumas cartas, que pareciam escritas por Alexandre e diziam: &quot;Logo que tivermos feito, com a ajuda de Deus, o que deliberamos, iremos procurá-lo e não duvidamos de que nos recebereis em vossa fortaleza, como me prometestes&quot;. Herodes, depois de ler as cartas, não duvidou mais de que seus filhos atentariam contra a sua vida. Mas Alexandre afirmou que o secretário Diofante havia falsificado a sua assinatura por ordem de Antipatro, que era o autor de toda a maldade. Diofante era deveras um grande falsificador e já havia sido castigado por um crime semelhante.
713. Herodes, que então estava em Jerico, mandou apresentar em público os que haviam sido torturados e tinham acusado os seus filhos. O povo os matou a pedradas e queria também apedrejar Alexandre. Mas Herodes destacou Ptolomeu e Feroras para impedi-lo e depois mandou-o para a prisão, juntamente com Aristóbulo. Eles eram rigorosamente vigiados, tanto que ninguém podia aproximar-se deles, e não somente se observavam as suas ações, mas até as mínimas palavras. Assim, já eram considerados mortos. Eles mesmos também assim pensavam.
714. Aristóbulo, para induzir Salomé, que era ao mesmo tempo sua tia e sua sogra, a ter compaixão de sua infelicidade e a conceber ódio pelo seu verdadeiro autor, disse-lhe: &quot;Julgais vós mesma que estais em segurança depois de terem dito ao rei que é a esperança de desposar Sileu que vos faz avisá-lo de tudo o que se passa no reino?&quot; Ela repetiu imediatamente essas palavras a Herodes. Ele ficou tão furioso que, não se podendo mais se conter, ordenou que atassem os dois irmãos em separado e os obrigassem a declarar por escrito tudo o que se havia passado naquele empreendimento contra ele. Em obediência à ordem, eles fizeram a declaração. Diziam que jamais haviam pensado em trair ou conspirar contra o rei, mas que pretendiam fugir, e que por causa do sofrimento que experimentavam a vida se lhes tornara incerta e tediosa.
715. Nesse mesmo tempo, Arquelau enviou como embaixador à Judéia um dos maiorais de sua corte, de nome Mela. Herodes, para mostrar que tinha grandes motivos de queixa contra Arquelau, mandou buscar Alexandre na prisão e perguntou-lhe na sua presença como e para que lugar ele havia deliberado fugir. Ele respondeu que iria procurar o rei seu sogro, o qual havia prometido mandá-lo a Roma, mas que não tivera a menor intenção de empreender algo contra o rei seu pai, que não havia uma só palavra verdadeira em tudo o que fora dito contra ele, que desejara que Tirano e seus companheiros tivessem sido mais particularmente interrogados e que, para impedir, pela morte deles, que se pudesse conhecer a verdade, Antípatro havia ordenado a alguns dos seus partidários que incitassem o povo a apedrejá-los.
Em seguida, Herodes mandou que levassem no mesmo instante Alexandre e Mela à princesa Glafira e perguntassem diante deles se ela não sabia da conspiração contra ele. Quando a princesa viu o príncipe seu marido em cadeias, foi tomada de tão viva dor que dava pancadas na cabeça e fazia retinir o ar com os seus gemidos e soluços. Alexandre, por seu lado, derramava lágrimas. Esse triste espetáculo causou compaixão a todos os presentes, que ficaram muito tempo sem proferir uma só palavra e sem um único movimento. Por fim, Ptolomeu, a quem fora entregue a guarda do príncipe, ordenou a Alexandre que declarasse se a princesa sua esposa tinha ou não conhecimento dos seus atos.
Ele respondeu: &quot;Como não o saberia, se a amo mais que a minha vida e se ela me deu filhos que me são tão caros?&quot; Ela então tomou a palavra e disse que estava inocente, mas que, se uma confissão de culpa pudesse contribuir para a salvação do marido, estava disposta a declarar-se culpada, por maiores que fossem os males que lhe pudessem acontecer. Alexandre disse-lhe em seguida: &quot;É verdade que nem vós nem eu fizemos qualquer coisa de tudo o que nos acusam. Mas não ignorais que havíamos resolvido nos retirar para junto do rei vosso pai, para de lá irmos a Roma&quot;. Ela disse que sim, e Herodes julgou não ter mais necessidade de outra prova da má vontade de Arquelau.
Enviou imediatamente Olímpio e Volúmnio até ele a fim de se queixarem de sua participação no mau desígnio dos filhos. Ordenou a esses enviados que desembarcassem em Eluza, que é uma cidade da Cilícia, e, depois de entregar as cartas, passassem além, para ir a Roma. Ou, caso soubessem que Nicolau fora bem-sucedido na sua embaixada, apresentassem a Augusto as cartas que então lhe escrevia e as memórias, para mostrar que seus filhos eram culpados.
Arquelau respondeu que verdadeiramente prometera a Alexandre e a Aristóbulo recebê-los, porque julgava que aquilo lhes seria vantajoso, bem como ao rei seu pai, que teria podido com simples suspeitas deixar-se levar pela cólera, mas que não tinha nenhuma intenção de enviá-los a Roma nem de os conservar indispostos contra ele.
716. Olímpio e Volúmnio, chegando a Roma, não encontraram dificuldade para entregar as cartas a Augusto, porque Nicolau conseguira, pela maneira como vou dizer, tudo o que Herodes desejava. Sabedor de que havia divisão entre os árabes e informado por alguns deles dos crimes cometidos por Sileu e que os mesmos árabes estavam dispostos a ajudá-lo nas acusações e podiam provar, por meio de algumas cartas que haviam sido interceptadas, que Sileu mandara matar vários parentes do rei Obodas, Nicolau julgou ser aquela a ocasião mais propícia para reconduzir o seu senhor às boas graças de Augusto. Era muito melhor que combater com argumentos a grande aversão que o imperador demonstrava estar sentindo por aquele soberano, pois, se começasse por acusar Sileu, poderia encontrar uma oportunidade favorável para justificar Herodes.
Quando chegou o dia de pleitear a causa diante de Augusto, Nicolau, ajudado pelos embaixadores do rei Aretas, acusou fortemente Sileu de haver matado o rei Obodas, seu senhor, e vários árabes, de pedir dinheiro emprestado para empregá-lo em perturbar a ordem do Estado e de cometer diversos adultérios, não somente na Arábia, mas também em Roma. E acrescentou que, além de todos esses crimes, ele ousara enganar o imperador com mentiras e falsidades, acusando Herodes de diversas coisas, das quais nem sequer uma era verdadeira. A essas palavras, Augusto o interrompeu. Ordenou que esquecesse o resto e declarasse se era verdade que Herodes havia entrado com um exército na Arábia, matado dois mil e quinhentos homens, levado um grande número de prisioneiros e saqueado o país.
Nicolau garantiu-lhe que todas aquelas coisas eram pura invenção e que Herodes nada fizera que pudesse desagradá-lo. Augusto, surpreendido com essa resposta, continuou a escutá-lo, com maior atenção ainda, e ele disse que Herodes havia emprestado quinhentos talentos* e que o termo do empréstimo dizia expressamente que, se o tempo marcado para a restituição fosse ultrapassado, ele poderia reaver o dinheiro confiscando parte do país. E assim, não se podia dar o nome de exército aos soldados de que ele fora obrigado a se servir para esse fim. Eram apenas tropas executando uma ação judiciária. Disse também que a moderação de Herodes fora tamanha que, embora pudesse agir por si mesmo, pois estava fundado em seu direito, ele preferiu falar antes com Saturnino e Volúmnio, governadores da Síria; que Sileu, depois disso, jurara na presença deles, na cidade de Berito, pela saúde de César, pagar aquela soma em trinta dias e restituir os trânsfugas; que, tendo Sileu faltado à palavra, Herodes voltou a procurar esses mesmos governadores; que eles lhe permitiram usar do direito que lhe cabia, ou seja, de receber aquele pagamento pelas armas; e que fora esse o motivo de sua incursão na Arábia.
Ele acrescentou: &quot;Foi isso, ó poderoso príncipe, que eles chamaram guerra, e da qual se fala com tanto exagero. Mas como dar o nome de guerra ao que se fez com a permissão de vossos governadores, em virtude de uma obrigação e após tão grande perjúrio, pelo qual não se teve receio de violar o respeito devido aos deuses e ao vosso nome? Devo agora justificar o que se refere aos prisioneiros que Herodes levou consigo, e não me será difícil fazê-lo. Os ladrões que moravam em Traconites, que eram menos de quarenta no início, mas que depois tiveram o seu número aumentado, temendo que Herodes os castigasse, fugiram para a Arábia, onde Sileu não somente os recebeu como também, para praticar maldades por meio deles, lhes deu terras e compartilhava com eles o produto dos roubos, sem temor de violar o juramento que fizera de entregar esses criminosos a Herodes com o dinheiro que lhe era devido. Assim, como poderia ele provar que Herodes fizera outros prisioneiros além dos da Arábia, dos quais uma parte ainda escapou? Já houve, acaso, maior impostura? Mas esta não é menor, se não a sobrepujar ainda. Disseram-vos que Herodes havia matado dois mil e quinhentos homens, mas vos afirmo que nenhum de seus homens pôs mão à espada a não ser depois que Nacebe, com as forças que comandava, os atacou e matou alguns. Mas ele próprio depois foi morto, com vinte e cinco outros árabes. Vedes assim, ó poderoso príncipe, que esse número foi, por um estranho cálculo, multiplicado até dois mil e quinhentos&quot;.
Essas palavras comoveram Augusto tão fortemente que ele, encolerizado, voltando-se para Sileu, perguntou-lhe quantos árabes haviam sido mortos naquele combate. Ele disse, não sabendo o que responder, que se enganara no número. Leram-se em seguida as cláusulas da obrigação do empréstimo, as ordens do governador e as cartas das cidades que se queixavam daqueles ladrões. Então Augusto, plenamente informado do assunto, ficou sentido por se haver deixado levar pelas mentiras daquele impostor e por escrever tão rudemente a Herodes. Então condenou Sileu à morte, censurando-o por suas calúnias, pois haviam sido a causa daquela indisposição contra o seu amigo. Ordenou depois que ele fosse reconduzido à Arábia, para acertar-se com os credores antes de ser executado.
Quanto a Aretas, não conseguia perdoá-lo pelo fato de ele haver se apoderado do reino sem a sua licença. Ele desejava entregar a Arábia a Herodes, mas as cartas deste o fizeram mudar de idéia, porque, não contendo elas outra coisa senão acusações contra os próprios filhos, julgou não ser conveniente acrescentar os cuidados de um outro reino a um velho afligido por tantas amarguras domésticas. Assim, permitiu aos embaixadores de Aretas que viessem saudá-lo e, depois de repreender severamente aquele rei pelo atrevimento de colocar a coroa na própria cabeça sem a ter recebido de suas mãos, aceitou os presentes e confirmou-o no reino.
Escreveu depois a Herodes, lastimando que os filhos lhe causassem tanta dor. E, se eles eram tão desnaturados a ponto de tramar contra a sua vida, era justo tratá-los como parricidas, e assim, sobre esse assunto, dava-lhe plena liberdade. Todavia, se o único desígnio deles era fugir, a piedade paterna o obrigava a se contentar com um ligeiro castigo. Por fim, aconselhava-o a reunir uma assembléia em Berito, onde havia um grande número de romanos, a fim de que lá, com os governadores das províncias vizinhas, Arquelau, rei da Capadocia, e outras pessoas de sua confiança, tanto por sua posição quanto pelo afeto que lhe dedicavam, decidisse esse assunto.

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* Não parece, pelo que precede, que Herodes tenha emprestado tão grande soma.

CAPÍTULO 17
HERODES ACUSA ALEXANDRE E ARISTÓBULO NUMA GRANDE ASSEMBLÉIA REUNIDA EM BERITO E OS CONDENA À MORTE.

717. Essa carta de Augusto deu grande alegria a Herodes, tanto por lhe mostrar que estavam reconciliados quanto pela inteira liberdade que lhe concedia para agir com os filhos. Não sei como chegou a tal excesso, o de querer matá-los e de tratar o caso com tal precipitação, porque, embora ele demonstrasse muita severidade para com os filhos no tempo de sua prosperidade, isso nunca havia acontecido. Agora não tinha medidas o seu ódio, ainda que os negócios estivessem em tão boa situação que ele não poderia desejar melhor. Enviou convites a todas as partes, para que todos os que Augusto havia julgado conveniente se reunissem em Berito, exceto Arqueiau, porque o odiava e por temer que ele se opusesse ao seu desígnio. Os governadores das províncias e as personagens mais importantes de diversas cidades para lá se dirigiram, mas ele não quis que os filhos estivessem presentes e mandou-os para uma aldeia dos sidônios, chamada Platana, próxima daquela cidade e de onde podiam ser levados, caso fosse necessário.
Ele adentrou sozinho a assembléia, que constava de cento e cinqüenta pessoas, e a maneira como acusou os filhos, em vez de despertar compaixão pela sua infelicidade e persuadir os presentes da necessidade que o obrigava a chegar a tão grandes extremos, pareceu, ao invés, muito inconveniente na boca de um pai. Ele falou com muita veemência, perturbado pela cólera, esforçando-se para mostrar a verdade dos crimes de que os jovens eram acusados, e não trouxe nenhuma prova daquelas acusações. Via-se, enfim, um pai que, longe de instruir os juizes, não tinha vergonha de tentar convencê-los a se unir a ele no litígio contra os filhos. Leu as cartas deles, mas nada continham que demonstrasse algum plano organizado contra ele ou que se tivessem deixado levar a alguma impiedade. Pareciam confirmar somente que haviam decidido fugir, além de algumas palavras pelas quais expressavam o descontentamento que sentiam contra ele.
Nesse ponto das cartas, ele exclamou, como se tais palavras fossem uma clara confissão, que eles haviam atentado contra a sua vida e jurou que elas lhe eram mais insuportáveis que a morte. Acrescentou que a natureza e Augusto lhe davam pleno poder sobre os filhos e que uma das leis de sua nação era clara a esse respeito, pois ordenava que, quando um pai ou uma mãe acusassem os filhos e pusessem a mão sobre a cabeça deles, os que estivessem presentes eram obrigados a apedrejá-los. Assim, ele teria podido, sem outra forma de processo, condenar à morte os seus filhos em seu país e no seu reino, mas desejara ouvir o parecer daquela ilustre assembléia. Não os reunira, portanto, como juizes, pois o crime deles era manifesto, porém somente por formalidade, a fim de que participassem de seu justo ressentimento e para que a posteridade soubesse, pelos seus sufrágios, quão importante é não tolerar tão horríveis atentados como o dos filhos contra aqueles que lhes deram a vida.
Herodes assim falou e, como não havia trazido os filhos para que se defendessem, a assembléia não teve dificuldade em constatar que não havia mais probabilidade de reconciliação e confirmou-lhe o poder que Augusto lhe dera para dispor dele como quisesse. Saturnino, que havia sido cônsul e desempenhara cargos honrosos, opinou primeiro, com muita moderação. Ele disse que era de opinião que fossem castigados, não, porém, com a morte. Porque, sendo ele pai, não podia ter sentimentos tão cruéis nem crer que se deveria acrescentar à infelicidade de Herodes aquela nova aflição, que seria o cúmulo de todas as outras. Os três filhos dele, que eram os seus lugar-tenentes, opinaram em seguida e foram do mesmo parecer. Volúmnio, ao contrário, achou melhor sentenciá-los a morte. Os que falaram depois dele foram, em sua maioria, da mesma opinião, e assim não restou mais esperança aos dois príncipes.
718. Herodes partiu imediatamente para Tiro e levou também os filhos. Nicolau, que voltava de Roma, encontrou-o lá, e Herodes contou-lhe o que se havia passado em Berito e depois perguntou qual era em Roma a opinião de seus amigos com respeito aos filhos. Ele respondeu que a maior parte os condenava, julgando que ele devia encerrá-los na prisão para fazê-los morrer, se o achasse justo, mas somente depois de madura reflexão, a fim de que não parecesse que, em assuntos tão delicados, ele agia mais pela cólera que pela razão. Ou então, para não se envolver numa aflição sem remédio, devia absolvê-los e pô-los em liberdade. Herodes, ouvindo-o falar assim, ficou muito tempo pensativo, sem dizer palavra. Ordenou em seguida que subisse com ele ao navio, e partiram para Cesaréia.
Esse estado de coisas tornou-se o motivo de todas as conversas; não se falava de outra coisa. A infelicidade dos dois príncipes e o ódio que o pai nutria por eles havia tanto tempo criou uma imensa expectativa quando ao que iria acontecer com os jovens. Mas, na inquietação em que o reino se encontrava, era perigoso expressar ou dar ouvidos a qualquer coisa que lhes fosse favorável. Era preciso esconder no coração a compaixão que se tinha deles e dissimular a dor, sem ousar manifestá-la.
719.  Apenas Tirom, um velho e corajoso cavalheiro, cujo filho era da idade de Alexandre e muito afeiçoado ao príncipe, não ficou calado e ousou dizer o que os outros somente pensavam. Não temia mesmo dizer em voz alta e publicamente que não havia mais verdade nem justiça entre os homens, que a mentira e a malícia reinavam nos corações e que a cegueira era tal que, por maiores que fossem as suas faltas, eles não as reconheciam. Tinha-se prazer em ouvi-lo falar com aquela perigosa liberdade, e ninguém podia condenar a sua ousadia. Porém todos se mantinham em silêncio, pois não queriam se arriscar, embora a apreensão pelo destino dos infelizes príncipes bem podia ter incentivados outros a imitá-lo. Ele atreveu-se mesmo a pedir uma audiência com o rei, para conversar a sós com ele.
Herodes concedeu-a, e então ele lhe disse: &quot;Majestade! Eu não poderia deixar de falar-vos com esta liberdade, que me pode ser perigosa, mas também pode ser muito útil a vós, para que reflitais no que vou dizer. Em que estais pensando, majestade? Onde está agora aquela extraordinária sagacidade com que tratáveis os assuntos mais complicados, e que é feito de vossos amigos e parentes? Poder-se-ia incluir nesse número os que não se preocupam em resolver um assunto que põe em grave perturbação uma corte tão feliz quanto a vossa? Não percebeis o que se passa? Estaríeis desejando a morte desses dois príncipes, oriundos de tão digna rainha — nobres, portanto, de nascimento —, para vos colocardes, na idade em que estais, nas mãos de um filho que concebeu esperanças criminosas e para vos entregardes aos vossos parentes, que tantas vezes julgastes indignos de viver? Não percebeis que o silêncio do povo condena o vosso proceder, achando-o abominável? Não vos ocorre que os vossos soldados, particularmente os oficiais, sentem compaixão pela infelicidade desses dois príncipes e horror pelos que os puseram em tal desgraça?&quot;
Como o rei se achava muito sensibilizado em sua aflição e bem convencido da maldade de seus parentes, não reprovou, de início, as palavras de Tirom. Mas, vendo que ele o apertava com brutal liberdade, sem se impor nenhum limite, começou a se inquietar. E, considerando o que ele lhe dizia mais como censura que como advertência, que a preocupação pelo bem-estar do rei o levava a dizer, perguntou quem eram os oficiais e os soldados que condenavam o seu proceder. Quando tomou conhecimento dos nomes, mandou colocar todos eles na prisão.
Um certo Trifom, que era barbeiro de Herodes, veio contar em seguida que Tirom lhe havia pedido várias vezes para que cortasse a garganta do rei com a navalha quando lhe fizesse a barba, garantindo que ele seria muito bem recompensado e que poderia esperar, depois disso, qualquer favor da parte de Alexandre. Herodes imediatamente ordenou que prendessem o barbeiro e o mandou torturar, bem como a Tirom e seu filho, o qual, vendo o pai padecer os tormentos sem nada confessar e percebendo que a crueldade do rei não dava esperança alguma de que os aliviassem para ele também, disse que declararia toda a verdade contanto que os deixassem de torturar. Herodes prometeu que o faria, e ele contou que o pai, tendo obtido a liberdade de falar a sós com o rei, havia resolvido matá-lo e se expor a todas as conseqüências, tal o seu afeto por Alexandre. Essa declaração livrou Tirom dos tormentos, mas não se sabe se era essa a verdade ou se o filho falara daquele modo apenas para poupar o pai e a si mesmo de tantas dores.
720.  Herodes baniu então de seu espírito qualquer compaixão que lhe viesse impedir de ordenar a morte dos dois filhos. E, não querendo dar lugar ao arrependimento, apressou-se em realizar a execução. Mandou então apresentar em público os trezentos oficiais do exército cujos nomes haviam sido citados, bem como a Tirom, o filho deste e o barbeiro, e os acusou diante do povo, que se lançou imediatamente sobre eles e os matou. Quanto a Alexandre e Aristóbulo, o impiedoso pai os enviou a Sebaste, onde, por sua ordem, foram estrangulados. Os corpos foram levados a Alexandriom, ao túmulo de seu avô materno, onde vários de seus antepassados estavam sepultados.
721.  Não é de admirar, talvez, que um ódio alimentado por tanto tempo tenha crescido até esse ponto, conseguindo afogar no espírito de Herodes todos os sentimentos da natureza. Pode-se duvidar, todavia, e com razão, se foi justa a condenação desses dois príncipes, os quais, tendo continuamente irritado o pai, obrigaram-nos por fim a considerá-los mortais inimigos, ou se não deveríamos atribuí-la à dureza de Herodes e à sua violenta paixão pelo poder, pois ele, quando se tratava de conservar a sua absoluta autoridade, não tolerava a mínima resistência e se achava no direito de não poupar ninguém. Talvez se possa ainda atribuí-la à sorte, que é mais poderosa que todos os sentimentos humanos e pode levar os homens a tais resoluções.
Quanto a mim, estou convencido de que todas as nossas ações são preordenadas por uma inevitável necessidade a que chamamos destino, sem cuja ordem nada se faz no mundo. Mas é suficiente havermos tocado nisso de passagem, isto é, acerca do destino, que é muito mais elevado que o raciocínio pelo qual busquei a causa da morte dos príncipes — se ocorreu pela imprudência deles ou pela crueldade de Herodes. Todavia, como se pode julgar pelo que encontramos escrito a esse respeito nos livros da nossa Lei, não se deve crer que essa doutrina nos isente de qualquer participação nos acontecimentos ou nivele de tal modo os diferentes costumes dos homens que exima de toda culpa os maus e os criminosos.
Mas, voltando às duas primeiras causas de tão trágico e deplorável acontecimento, é verdade que se pode acusar os dois príncipe da ousadia que é comum aos de sua idade, ainda mais quando herdeiros do fausto de um nascimento real; de haverem escutado demais as palavras dos que falavam em desabono de seu pai; de julgarem sem eqüidade as suas ações; de suspeitarem dele injustamente; de falarem com excessiva liberdade; de terem eles mesmos dado motivo para calúnias aos que observavam as suas mínimas palavras com o propósito ganhar a estima do rei.
Quanto a Herodes, como se poderá perdoar uma ação tão desumana e desnaturada como a de matar os próprios filhos sem ter conseguido provar que eles haviam atentado contra a sua vida, privando assim a nação de dois príncipes tão formosos, hábeis em todos os exercícios, capazes de ser valorosos na guerra e que falavam com tanta graça — particularmente Alexandre — que não eram somente queridos de todo o povo judeu, mas também dos estrangeiros? E, mesmo que os tivesse julgado culpados, por que não se contentou em mantê-los numa prisão ou em bani-los do reino, uma vez que nada tinha a temer, nem dentro nem fora, garantido como estava pela poderosa proteção dos romanos? Que maior prova poderia ele dar senão a de se ter deixado governar pela paixão, demonstrando, ao ordenar a morte dos filhos, uma insuperável impiedade?
O que aumenta a sua culpa é o fato de que ele estava já numa idade em que jamais poderia alegar pouca experiência para deixar ir tão longe uma questão. Sua falta teria sido menor se a surpresa de um atentado contra a sua vida o tivesse impelido imediatamente cometer aquela ação, ainda que tão cruel. Porém, agir depois de tão grande demora e após tantas deliberações é indício de uma alma sanguinária e endurecida pelo mal, como o provaram os fatos seguintes, pois ele não perdoou nem mesmo aqueles a quem antes demonstrara amar sinceramente, embora pouco se tenha a lamentar por causa deles, porque eram culpados. Mas nisso se vê também a grande crueldade de Herodes.
 
Livro Décimo Sétimo

CAPÍTULO 1
ANTÍPATRO QUER ANTECIPAR A MORTE DO REI HERODES, SEU PAI, PARA REINAR EM SEU LUGAR. FILHOS QUE HERODES TEVE DE SUAS NOVE MULHERES.

722. Embora Antípatro tivesse, pela morte de seus irmãos, feito um grande progresso em seu abominável desígnio, de atentar contra a vida de seu pai, sua impaciência por reinar era tão grande, que ele não podia suportar os outros obstáculos que retardavam a realização de suas esperanças. Livre do temor de que seus irmãos viessem a dividir com eles o governo, ele se encontrava, no entanto, numa ansiedade maior ainda, pelo ódio que todo o povo lhe votava e pela versão que tinham por ele os mesmos soldados, que são os únicos que podem sustentar o trono dos reis, quando sobrevêm os acontecimentos e as revoluções; ele não podia atribuir senão a si mesmo toda a culpa dessa aversão geral por ele, pois ele mesmo a havia atraído sobre si, procurando a ruína de seus irmãos. Não deixava, porém, de governar todo o reino com seu pai, como se já estivesse de posse do trono, porque Herodes tinha nele a máxima confiança e em vez de sentir horror pela sua traição para com seus irmãos, ele se lhe mostrava agradecido, na persuasão de que não era o ódio que ele lhes tinha, que o havia levado a agir assim, mas seu afeto por ele e o interesse que tinha pela sua conservação, embora a verdade fosse que se insurgia contra ele com tal furor, que não odiava somente suas pessoas, mas também por causa de seu pai, porque ele temia todos os que podiam descobrir-lhe a traição e opor-se ao desígnio que ele tinha formado de tirá-lo do mundo, para tomar o seu lugar. Mas como esse mesmo temor de ser descoberto e de não ter então maior inimigo do que seu pai, não podia acabar, enquanto ele vivesse, ele se apressava de levar a cabo a sua detestável empresa. Assim, tudo ele fazia com esse objetivo, para conquistar por ótimos presentes os principais amigos de seu pai e principalmente os que ele tinha em Roma, e mais que qualquer outro, a Saturnino, governador da Síria e seu irmão. Esperava também conquistar para o seu partido Salomé, sua tia, que então tinha desposado um dos maiores amigos de Herodes; pois não havia homem mais fingido e mais astucioso do que Antípatro, nem capaz de enganar com pretexto de amizade. Mas como Salomé conhecia perfeitamente o seu espírito, foi-lhe impossível surpreendê-la, embora ele tivesse encontrado o meio de fazer que sua filha, viúva de Aristóbulo, tivesse desposado seu tio materno. Quanto à outra filha, tinha desposado Calleas e ela mesma, continuando sua paixão por Silleu, queria ainda desposá-lo; mas Herodes a obrigou a se casar com Alexas e empregou para decidi-la a isso o auxílio da imperatriz, que a fez saber, que o rei, seu irmão, tendo jurado não amá-la nunca, se recusasse esse partido, ela não poderia tomar uma melhor resolução, do que dobrar-se ao seu desejo.
723. Nesse mesmo tempo, Herodes mandou a princesa Glafira, viúva de Alexandre, de volta a Arquelau, seu pai, pagando de seus bens, o que ela tinha trazido ao casamento, para eliminar todo pretexto de queixa. Ficavam dois filhos daquele casamento e Aristóbulo tinha deixado três de Berenice e duas filhas. Herodes tudo fez para bem educá-las, recomendava-as freqüentemente aos amigos, deplorava a infelicidade de seus filhos, rogava a Deus que seus netos fossem mais felizes e crescendo em virtude bem como em idade, eles lhe agradecessem o cuidado que tomava de sua educação. Deu como esposa ao filho mais velho de Alexandre a filha de Feroras, seu irmão; ao filho mais velho de Aristóbulo, a filha de Antípatro, ao filho do mesmo Antípatro, uma das filhas de Aristóbulo e a Herodes, seu filho, que ele tivera da filha do sumo sacerdote, com a permissão que nossas leis nos dão, de ter várias mulheres, a outra filha de Aristóbulo. Seu principal intento nessas alianças era levar Antípatro a ter compaixão e ternura para com esses órfãos; mas ele não os odiava menos do que havia odiado seus pais; e o afeto do rei por eles, em vez de lho causar, punha-o, ao invés, em grave tristeza. Ele temia que, quando fossem adiantados em anos, se opusessem ao seu poder, com o auxílio de Arquelau, seu avô, e do tetrarca Feroras, do qual, se o projeto se realizasse, o filho teria desposado uma das filhas de Aristóbulo. Seu temor aumentava ainda, pela compaixão que o povo demonstrava por esses jovens príncipes, pelo ódio que ele sabia que lhe tinham, por ter sido a causa da sua infelicidade e pela disposição em que ele o via de manifestar ao rei sua maldade, quando se apresentasse a ocasião e de lhe relatarem as astúcias e artifícios de que ele se servia para arruinar seus irmãos. Assim, para impedir que seus sobrinhos pudessem dividir um dia com ele a autoridade, nada havia que ele não fizesse, para mudar a resolução tomada por Herodes, com relação aos casamentos e por fim ele obteve com seus rogos que lhe permitisse desposar a filha de Aristobulo e que seu filho desposasse a filha de Feroras.
724.  Herodes tinha então nove mulheres, a primeira das quais era a mãe de Antipatro. A segunda era filha do sumo sacerdote Simão e dela tivera um filho de nome Herodes, como ele. A terceira era filha de seu irmão. A quarta era sua prima-irmã e não tivera filhos nem de uma nem de outra. A quinta era samaritana e dela tivera dois filhos, Arqueiau e Antipas, e uma filha de nome Olímpia, que José seu cunhado desposou depois; Arqueiau e Antipas tinham sido educados em Roma, por um de seus amigos. A sexta, chamada Cleópatra, era de Jerusalém e dela tivera dois filhos, Herodes e Filipe, o último dos quais também tinha sido educado em Roma. A sétima chamava-se Padas; dela tivera um filho de nome Fazael. A oitava chamava-se Fedra e dela tivera uma filha de nome Roxana. A nova chamava-se Elpídia, da qual tivera uma filha chamada Salomé. Quanto às suas duas filhas, irmãs de Alexandre e de Aristobulo, que tivera de Mariana e que Feroras tinha recusado desposar, uma, ele havia casado Antipatro, filho de Salomé, sua irmã, e a outra, com o filho de seu irmão Fazael, como dissemos há pouco.

CAPÍTULO 2
SOBRE UM CERTO ZAMARIAS, JUDEU, QUE ERA UM HOMEM DE GRANDE VIRTUDE.

725.  Herodes para poder estabelecer inteira segurança na Traconítida, fortificou uma aldeia que estava no meio país, tornou-a tão grande como uma cidade, lá colocou uma guarnição que fazia incursões sobre os inimigos. Em seguida, tendo sabido que um judeu, chamado Zamaris, que tinha vindo de Babilônia, com quinhentos cavaleiros, armados de aljavas e de flechas e quase todos seus parentes, se tinha estabelecido, com a permissão de Saturnino, governador da Síria, num castelo de nome Valate, perto de Antioquia, mandou chamá-lo com todos os seus, prometeu-lhe dar terras no território de Batanéia, que está na fronteira da Traconítida e isentá-lo de todos os impostos, com a condição de que ele se opusesse às incursões que se poderiam fazer contra o país. Zamaris aceitou o oferecimento e construiu castelos e uma aldeia, a que chamou Batira. Assim ele defendia o país contra os ataques dos traconítas e preservava de seus roubos os judeus, que vinham de Babilônia a Jerusalém, para lá oferecer sacrifícios.
Muitos daqueles que observavam religiosamente as leis dos nossos antepassados uniram-se a ele, e esse país povoou-se rapidamente, por causa das imuni-dades concedidas por Herodes e das quais gozaram durante todo o seu reinado. Mas Filipe, seu filho, tendo-o substituído no reino, tirou alguma coisa deles, pouco, na verdade, e durante pouco tempo. Agripa, o Grande, e seu filho, que tinha o mesmo nome, fizeram sobre eles grandes imposições, mas deixaram-nos gozar de sua liberdade, e os romanos agiram do mesmo modo, como diremos a seu tempo. Zamaris que era um homem muito virtuoso, deixou filhos semelhantes a ele, e dentre outros, um de nome jacim que, de tal modo se distinguiu pelo seu valor, que acompanhava sempre os reis, com um grupo dos seus. Morreu muito idoso e deixou um filho de nome Filipe, de virtude tão elevada e de tantos méritos, que o rei Agripa não somente teve por ele uma afeição muito particular, mas o fez general de seu exército.

CAPÍTULO 3
CABALA DE ANTÍPATRO, DE FERORAS E DE SUA MULHER CONTRA HERODES.
SALOMÉ AVISA-O. ELE MANDA MATAR FARISEUS QUE ERAM DESSA
CONJURAÇÃO E QUER OBRIGAR FERORAS A REPUDIAR SUA MULHER,
MAS ELE NÃO PODE DECIDIR-SE A ISSO.

726. Estando as coisas neste estado e Herodes, que se julgava muito querido de Antípatro, tinha tanta confiança nele, que lhe dava plena autoridade e a ambição desmesurada desse filho desnaturado faziam-no abusar do poder. Mas ele ocultava sua malícia com tanta habilidade que seu pai não o percebia e ele tornava-se assim, cada vez mais temível a todos, pela sua maldade e pelo seu poder. Prestava grandes serviços a Feroras, e este, por sua vez, sendo enganado pelas mulheres que favoreciam Antípatro, lhe fazia a Vorte, porque ele não ousava desgostar sua mulher, nem sua sogra e sua irmã, embora as odiasse, por causa dos maus tratos que infligiam às filhas, que ainda não eram casadas, mas ele era obrigado a suportá-las, para não aborrecê-las, porque elas sabiam muito dos seus planos, sendo assaz inteligentes e Antípatro tinha uma estreita união com elas, por si mesmo e por sua mãe; essas quatro mulheres estavam de acordo em tudo. Feroras e Antípatro tiveram, porém, uma séria divergência por alguns motivos, aliás leves, à qual foram impelidos pela habilidade de Salomé que, observando cuidadosamente todas as coisas, tinha descoberto que eles conspiravam juntos contra o rei e estava prestes a avisá-lo. Mas isso chegou ao seu conhecimento e eles resolveram não mais entreter-se publicamente; fingiram estar antipatizados um com o outro, falavam mal um do outro, principalmente na presença do rei, ou daqueles que lho podiam relatar, e em segredo, mantinham relações e conversas, mais que nunca. Todavia, eles nada puderam fazer para que Salomé, que tinha os olhos abertos sobre todas as suas ações, não os descobrisse. Ela foi imediatamente contar ao rei que eles ceavam juntos, sem que ninguém soubesse, que armavam planos de rebelião para matá-lo, se ele não desse imediatamente um remédio ao caso, que fingiam, na sua presença e na dos demais, estar em inimizade, usando palavras ofensivas, mas em particular, tinham mais amizade do que nunca, não se podia duvidar de que eles conspiravam contra aqueles aos quais tinham tanto cuidado em ocultar as suas relações. Herodes já sabia algo, pois tinham desconfiado; mas ia com precaução, porque conhecia o caráter de sua irmã, que não tinha escrúpulos em inventar calúnias, e sabia que ela e todas as outras mulheres de que falamos eram muito afeiçoadas a uma seita de homens que querem que os julguemos mais instruídos que os outros na religião, que eles são tão queridos de Deus, que Ele se lhes comunica e dá-lhes o conhecimento das coisas futuras. São chamados fariseus. Eles são muito astuciosos e atrevidos, não temendo, nem mesmo às vezes, erguer-se contra os reis e atacá-los abertamente. Assim, toda a nação dos judeus obrigou-se por juramento a ser fiel ao rei e ao imperador; mais de seis mil deles, porém, recusaram-se a fazer esse juramento. Herodes condenou-os a uma multa e a mulher de Feroras pagou-a por eles. Para agradecer esse favor, eles disseram-lhe que a vontade de Deus era que se tirasse o reino a Herodes e aos seus descendentes para dá-lo a Feroras, seu marido, e aos filhos que tivesse dele. Salomé descobriu ainda essa conjuração e disse que alguns da corte a ela haviam sido conquistados, por meio de presentes. Ela avisou ao rei e ele mandou matar os fariseus que foram descobertos como principais autores da trama, como também o eunuco Bagoas Caro que ele amava pela sua extrema beleza e, em geral, todos os seus domésticos que eles acusaram de ter aderido àquela conspiração. Os fariseus tinham feito Bagoas crer que não somente o novo rei, cuja grandeza prediziam, considerá-lo-ia como seu benfeitor e como seu pai, mas ele mesmo casar-se-ia e poderia ainda gerar filhos.
727. Depois que Herodes fez morrer os fariseus, reuniu seus amigos e disse-lhes que a mulher de Feroras, que estava presente, tinha sido a causa da injúria que ele lhe tinha feito de recusar desposar as princesas suas filhas; que ela nada tinha esquecido naquela ocasião e em todas as outras, para ajuntá-los; que ela tinha pago a multa à qual ele tinha condenado os fariseus rebeldes, e que ela era culpada daquela última conspiração. E assim, Feroras não devia esperar que ele lhe rogasse, para repudiar uma pessoa que só procurava lançar a divisão entre eles, pois não podia conservá-la sem romper com ele.
Feroras, embora muito impressionado com estas palavras, disse, depois de ter protestado, que ele conservaria sempre muito religiosamente o afeto e a fidelidade que era obrigado a conservar pelo rei, seu irmão, que não podia resolver-se a repudiar sua mulher, pois a amava tanto que a morte lhe seria mais suave, do que a separação. Herodes ficou muito ofendido com essa resposta, não lhe manifestou, porém, sua cólera; contentou-se em proibir a Antipatro e à sua mãe, que se comunicassem com ele, nem tivessem relação alguma com as rainhas, suas esposas. Eles prometeram-lhe, mas não deixavam, todavia, quando podiam encontrar a ocasião, de cear secretamente, juntos, principalmente Feroras e Antipatro, que se julgava estarem de combinação com sua mulher e que a mãe de Antipatro era sua confidente.

CAPÍTULO 4
HERODES MANDA ANTIPATRO PROCURAR AUGUSTO COM SEU TESTEMUNHO
PELO QUAL ELE O DECLARAVA SEU SUCESSOR. SILLEU SUBORNA UM DOS
GUARDAS DE HERODES, PARA QUE O ASSASSINE, MAS A TRAMA É DESCOBERTA.
 

728.  Como Antípatro temia que a ira do rei caísse, por fim, sobre ele, escreveu aos amigos que tinha em Roma, para rogá-los que obtivessem, com suas cartas, quanto antes, que ele pudesse ir ter com Augusto. Fizeram eles o seu desejo e Herodes mandou-o grandes presentes e seu testamento, pelo qual o declarava seu sucessor, se ele o sobrevivesse; no caso de que ele morresse antes, escolheria para sucedê-lo a Herodes, outro seu filho, que ele tivera da filha do sumo sacerdote.
729.  Por esse mesmo tempo, Silleu foi também a Roma, sem ter cumprido o que Augusto ordenara. Antípatro acusou-o perante o imperador, dos mesmos crimes de que Nicolau o havia acusado e Aretas fê-lo acusar também, de ter, contra sua intenção, feito morrer em Petra, várias pessoas ilustres, particularmente Soeme, que era um homem muito virtuoso. A isso ele acrescentava, que ele tinha mandado matar um dos servidores de Augusto, de nome Sábado, pelo motivo que vou relatar. Havia entre os guardas de Herodes um coríntio em quem muito ele confiava. Silleu subornou-o com uma grande soma de dinheiro e fê-lo prometer matar o rei, seu amo. Sábado soube-o da própria boca de Silleu, e avisou imediatamente a Herodes que mandou prender o coríntio e fê-lo torturar. Ele confessou tudo e acusou dois árabes, dos quais um era um grande senhor e o outro, um amigo particular de Silleu. Herodes fê-los também torturar e eles confessaram que tinham vindo expressamente para obrigar o coríntio a fazer o que tinha prometido e ajudá-lo na execução, se fosse necessário. Herodes mandou-os com informações a Saturnino, que os mandou levar a Roma, para se instaurar o processo.

CAPÍTULO 5
MORTE DE FERORAS, IRMÃO DE HERODES.

730.  Quando Herodes viu que Feroras se obstinava em conservar sua mulher, ordenou-lhe que se retirasse para o seu tetrarcado. Não somente ele obedeceu de boa vontade, mas fez o juramento de jamais voltar à corte, durante sua vida, o que cumpriu. Herodes depois caiu enfermo e mandou chamá-lo, porque queria antes de morrer, dar-lhe ordens secretas e importantes, e ele respondeu que não podia violar seu juramento. Herodes, porém, não procedeu do mesmo modo, pois em nada diminuiu o afeto que lhe consagrava; tendo sabido depois, que ele estava doente, foram procurá-lo sem que ele tivesse rogado. Ele morreu dessa doença e foi enterrado em Jerusalém onde se lhe prestaram honras fúnebres e luto em sua memória. Essa morte foi o começo da infelicidade de Antípatro, que então estava em Roma, pois Deus queria assim castigá-lo por ter sido tão mau, causando a morte de seus irmãos. Relatarei em particular, tudo isso, a fim de mostrar a todos com esse exemplo, como é importante ter-se por regra de suas ações a justiça e a virtude, e jamais fazer algo que lhes seja contrário.

CAPÍTULO 6
HERODES DESCOBRE A CONSPIRAÇÃO FEITA POR ANTÍPATRO, SEU FILHO, PARA
ENVENENÁ-LO.
731. Dois traconítidas, libertos de Feroras, aos quais muito ele estimava, foram depois de sua morte procurar Herodes, para rogar-lhe que não a deixasse impune, mas fizesse uma cuidadosa indagação, para descobrir quem lhe era o causador e o culpado. Herodes escutou-os atentamente e mostrou acreditar em suas palavras; eles disseram-lhe que seu amo tinha ceado em casa de sua mulher, no dia em que a doença se manifestou, pois tinha-lhe dado veneno, misturando com certa bebida, que, apenas ele sorveu, sentiu-se mal; esse veneno tinha sido levado por uma mulher árabe, que dissera não ter ele outro efeito, que despertar o amor, embora fosse, ao contrário, um poderoso veneno; entre aquelas mulheres árabes, que são grandes envenenadoras, principalmente a que era acusada, tinha grande familiaridade com a mulher que Silleu mantinha. A mãe e a irmã da mulher de Feroras, tinham ido procurar essa mulher, para comprar-lhe aquele veneno e haviam-no trazido no dia anterior, ao em que fizeram Feroras beber aquele líquido mortal. Esta comunicação despertou tão grande cólera em Herodes, que ele mandou torturar as mulheres, tanto escravas como livres, da mãe e da irmã da mulher de Feroras. Nada elas confessaram; uma delas, porém, por fim, vencida pela violência das dores, disse que rogava a Deus que a mãe de Antípatro sofresse os mesmos tormentos, pois ela era causa dos que todas sofriam. Esta confissão fez Herodes empregar indagações ainda mais cuidadosas, para descobrir a verdade. Tanto fez atormentar aquelas mulheres, que soube delas tudo o que se havia passado: as refeições, as reuniões secretas, e as coisas mesmo que ele havia dito somente a Antipatro e que Antipatro tinha confiado àquelas mulheres. Elas acrescentaram que ele lhes havia dado cem talentos, para não falarem a Feroras, das obras que ele tinha recebido do rei, seu pai; que tinha por ele um grande ódio, que ele se queixava freqüentemente à sua mãe, por ele viver tanto tempo, pois ele mesmo estava ficando velho, e herdaria tão tarde a coroa, que muito mal poderia dela gozar; que seu pai tinha outros filhos e netos, que ele não podia mesmo esperar ter o reino com plena segurança; e se ele viesse a faltar, não seria seu filho, mas um de seus irmãos, que Herodes teria destinado para sucedê-lo. Essas mulheres disseram também que ele falava freqüentemente da crueldade de Herodes, dizendo que ele não tinha poupado nem mesmo seus próprios filhos, e que aquilo o fizera ir a Roma, e Feroras retirar-se à sua tetrarquia. Como todas essas coisas se referiam aos avisos que Herodes tinha recebido de Salomé, ele não pôs dificuldade em prestar-lhes inteira fé. Prendeu Doris, mãe de Antipatro, como culpada de ter tido parte nessa conjuração, tirou-lhe todas as jóias e pedras preciosas de grandíssimo valor, que lhe havia dado e a expulsou do palácio. Quanto às outras mulheres que eram da família de Herodes, acalmou-se e não as castigou porque confessaram tudo. Nada, porém, o irritou tanto contra Antipatro, como o que ele soube de um samaritano, seu intendente, que também se chamava Antipatro. Esse homem confessou, entre outras coisas, à tortura, que seu amo havia entregado a Feroras um veneno mortal, para dá-lo de presente ao rei, em sua ausência, a fim de que não o pudessem acusar. Que aquele veneno tinha sido trazido do Egito por AntiFílon, amigo de Antipatro, e que Teudiom, seu tio, irmão de Doris, sua mãe, tinha trazido a Feroras, que o havia confiado à sua mulher, para guardá-lo. Herodes mandou imediatamente interrogar a viúva de Feroras, sobre estas informações. Ela confessou que tinha o veneno e correu, como para ir buscá-lo. Mas em vez trazê-lo ela atirou-se de uma janela alta, de uma galeria do palácio; no entanto, não morreu, porque caiu de pé. Depois de ter voltado a si, o rei prometeu perdoá-la, e a toda família, contanto que lhe declarasse a verdade; e ameaçou-a, ao contrário, fazê-la sofrer toda sorte de tormentos se se obstinasse em ocultar-lhe o que sabia. Ela protestou com juramento que nada lhe esconderia, e a persuasão comum foi que ela procedeu sinceramente: &quot;AntiFílon&quot;, disse ela, &quot;Majestade, trouxe este veneno do Egito, onde ele foi preparado por seu irmão, que é médico; Antipatro, filho de vossa majestade, comprou para dele se servir contra vossa majestade e Teudiom levou-oa Feroras, que me deu para guardá-lo. Meu marido, depois, caiudoente, ficou tão comovido com a afeição que vossa majestade lhe demonstrava, vindo vê-lo, que me mandou chamar e me disse: Minha esposa, eu me deixei enganar por Antípatro, quando ele me confiou seu desígnio, de envenenar seu pai. Mas agora que eu vejo que o rei nada diminui no afeto fraterno, que sempre me demonstrou e como se aproxima o fim de minha vida, não quero levar para o outro mundo a alma manchada pelo crime de ter tomado parte numa conspiração, de fazer morrer o rei, meu irmão. Por isso rogo-te que queimes esse veneno, na minha presença. Assim ele me falou e eu fui logo buscar o veneno e o queimei na sua presença, com exceção de uma pequena parte, que eu guardei pra me servir dele se depois de sua morte vossa majestade me quisesse tratar com o mesmo rigor.&quot; Dizendo isso mostrou a Herodes o resto do veneno e a caixa na qual estava guardado. O irmão de AntiFílon e sua mãe confessaram, ante os tormen-tos, a mesma coisa e reconheceram a caixa. Acusaram também uma das mulheres do rei, filha do sumo sacerdote, de ter tomado parte nesta conspiração, mas ela nada confessou. Herodes repudiou-a, riscou do seu testamento a Herodes, o filho que dela tivera e que tinha citado como seu sucessor ao trono, no caso de Antípatro morrer antes dele, tirou o sumo sacerdócio de Simão, seu pai e seu sogro e confiou Matias, filho de TeóFílon.
No entanto, Batilo, liberto de Antípatro, veio de Roma e o submeteram ao interrogatório com torturas; ele confessou que tinha levado veneno para entregá-lo à mãe de Antípatro e a Feroras, a fim de que, se o primeiro que se desse ao rei não surtisse efeito, ministrassem-lhe o segundo. Entregaram ao mesmo tempo a Herodes umas cartas que seus amigos, que estavam em Roma, lhe haviam escrito a pedido de Antípatro, que os havia ganho por grandes presentes. Essas cartas diziam quer Arquelau e Filipe, seus filhos, acusavam-no freqüentemente da morte de Alexandre e de Aristóbulo, seus irmãos; de que eles mostravam estar sensivelmente tristes e que eles julgavam que não os mandariam voltar de Roma para a Judéia, para tratá-los como os outros haviam sido tratados. Antípatro, por seu lado, escreveu ao rei sobre seu assunto, como para desculpá-los, dizendo que se devia perdoar à sua mocidade e durante sua permanência junto de Augusto, ele continuou sempre a trabalhar para ganhar o afeto dos mais ilustres da sua corte, aos quais deu presentes, para mais de duzentos talentos. A esse respeito parece que há motivo de se admirar, de que durante sete meses em que ele ficou em Roma, nada soubesse do que se passava na judéia. Mas além de se guardarem cuidadosamente todas as passagens para impedir que ele pudesse saber notícias, o ódio que lhe votavam era tão grande, que não havia ninguém que quisesse se arriscar por amor dele.

CAPÍTULO 7
ANTÍPATRO VOLTA DE ROMA PARA AJUDÉIA E É ACUSADO NA PRESENÇA
DE VARO, GOVERNADOR DA SÍRIA, DE TER QUERIDO ENVENENAR O REI, SEU
PAI. HERODES FÁ-LO PÔR NUMA PRISÃO E ESCREVE
A AUGUSTO A ESSE RESPEITO.

732. Herodes dissimulava sua cólera contra Antípatro e escreveu-lhe que logo que tivesse terminado os negócios que o retinham em Roma, viesse procurá-lo o mais depressa possível, a fim de que sua ausência não lhe fosse prejudicial. Fazia-lhe somente algumas leves queixas de sua mãe, com promessa de logo que tivesse regressado ele esquecer-se-ia do descontentamento que lhe havia dado e dava-lhe todas as demonstrações de afeto que ele pudesse desejar, porque temia que ele suspeitasse de que não voltaria e urdisse alguma trama contra ele. Antípatro recebeu essas cartas na Cilícia, quando já estava de regresso. Já tinha recebido outras, antes, em Tarento, que lhe comunicavam a morte de Feroras, com o que ficaria muito sentido, não pelo afeto que lhe dedicava, mas porque ele não tinha envenenado seu pai, como lhe tinha prometido. Quando chegou a Celenderis, cidade da Cilícia, começou a hesitar, se continuaria a viagem. Ele não podia suportar o castigo imposto à sua mãe, que fora expulsa do palácio e as opiniões de seus amigos estavam divididas. Uns eram de parecer que se esperasse em algum lugar, para ver o que aconteceria; outros, aconselhavam-no a se apressar, a fim de dissipar, com sua presença, a idéia de que sua ausência suscitava aos seus inimigos a ousadia de agir contra ele. Ele tomou este último partido, continuou a viagem e chegou ao porto de Sebaste, que Herodes tinha feito construir com tantas despesas, dando-lhe esse nome em honra de Augusto. Não mais se duvidou então, da ruína de Antípatro. Em vez de, como, quando do seu embarque para Roma, ser ele rodeado e assediado pela multidão dos que o acompanharam, formulando-lhe votos de prosperidade, ao contrário, à sua volta, não somente não o saudaram nem dele se aproximaram, mas fizeram até imprecações, contra ele, implorando a vingança de Deus, para castigá-lo e exigir-lhe o sangue de seus irmãos.
Aconteceu, que nesse mesmo tempo, quando ele se dirigia para Jerusalém, Quintílio Varo que tinha sucedido a Saturnino no governo da Síria, tinha vindo visitar Herodes e eles haviam se reunido em conselho. Como Antipatro ainda nada sabia do que se passava apresentou-se à porta do palácio, vestido de púrpura, como de costume; abriram-lhe a porta, mas fecharam-na ao seu séquito. Ele não teve então dificuldade em avaliar o grave perigo em que se encontrava, e viu-o ainda melhor, quando Herodes, em vez de abraçá-lo, repeliu-o, censurou-o pela morte de seus irmãos e disse que ele lhe queria ainda acrescentar um parricídio; que teria, no dia seguinte, a Varo por juiz. Tão imprevista desgraça tombou sobre ele como um raio. Atônito, retirou-se, e sua mãe e sua irmã, filha de Antígono, que havia reinado antes de Herodes, foram também informados de todas estas coisas; ele preparou-se para o julgamento.
733. No dia seguinte, convocou Herodes uma grande assembléia que Varo presidiu; seus amigos lá estavam com os parentes de Herodes; Salomé, sua irmã, também. Mandaram chamar os que haviam descoberto a conspiração, os que tinham sido submetidos à tortura e algumas criadas da mãe de Antipatro, que tendo sido presas um pouco antes de seu regresso, tinham em seu poder cartas que falavam de que sua conspiração tinha sido descoberta e que ele não voltasse, para não cair nas mãos do rei, seu pai, e que a única esperança de salvação que lhe restava era recorrer à proteção de Augusto. Antipatro lançou-se aos pés de Herodes, para rogar-lhe que não o condenasse antes de escutá-lo, mas lhe permitisse antes justificar-se. Herodes ordenou-lhe que se erguesse, e disse em seguida que bem infeliz ele se julgava por ter tido semelhantes filhos, por ter caído nos seus últimos dias nas mãos de Antipatro; que não havia cuidados que ele não tivesse tido de sua educação, que o tinha cumulado de benefícios, mas que tantasprovas de afeto e de bondade não tinham podido impedir que ele tentasse contra sua vida, para obter antes do tempo, com um crime horrível, um reino que ele poderia possuir legitimamente, quer pelo direito da natureza, quer pela vontade de seu pai, que ele não podia compreender que vantagem ele tinha imaginado encontrar na execução de um intento tão detestável; pois ele já o havia declarado seu sucessor, no testamento e que mesmo durante sua vida ele já compartilhava de toda sua autoridade, que ele lhe dava todos os anos cinqüenta talentos para suas despesas e lhe havia dado trezentos, para sua viagem a Roma. Cervsurou-lhe em seguida a morte de seus irmãos, dos quais tinha sido o acusador e o imitador; se eles fossem inocentes, pois não tinha encontrado outras provas contra eles senão as que ele havia alegado e os havia condenado por sua insinuação. Mas que agora ele os justificava, sendo ele mesmo culpado do assassínio de que os acusava.
Herodes assim falava e as lágrimas corriam-lhe dos olhos em tão grande abundância, que ele não pôde continuar. Rogou a Nicolau de Damasco, por quem tinha não menor amizade do que confiança, que estava bem a par do assunto, que referisse o que continham as deposições das testemunhas que serviam de provas da culpabilidade de seu filho. Mas Antípatro antecipou-se e defendeu ele mesmo a causa. Empregou para sua defesa as mesmas razões de que Herodes se servira contra ele, dizendo que aquela extrema aflição de seu pai era uma recompensa de sua piedade e um sinal de que ele não havia faltado a nenhum dos deveres que lhe devia prestar; que não havia possibilidade de que, depois de o ter defendido nas tentativas feitas contra sua vida, ele tivesse querido cometer semelhante crime e enxovalhar com tal mancha a sua reputação; que não havia nenhum motivo para isso, porque seu pai o tinha declarado seu sucessor e tornado participante de todo poder e de todos as honras anexas à coroa, ele não tinha somente a probabilidade de ser rei, mas podia-se dizer que de fato ele já o era, sem que ninguém se opusesse a isso; que assim não havia o mínimo motivo de crer que a esperança incerta de conquistar a inteira posse de um reino, de que já gozava pacificamente, de uma parte de sua virtude, ele se tivesse metido em semelhante perigo e em tal crime; que o castigo sofrido por dois de seus irmãos, por terem tentado semelhante ação tornava a coisa ainda mais verossímil; que não era necessária melhor prova de seu ardente amor por seu pai, do que ele mesmo ter sido delator deles e que não estava arrependido disso, porque não podia melhor demonstrar sua piedade para com ele do que se tornando o vingador de sua impiedade, que ele tinha por testemunha de todas as suas ações em Roma, o mesmo Augusto, ao qual não se podia enganar bem como a Deus, que ele podia apresentar suas cartas às quais se devia prestar incomparavelmente mais crédito do que às calúnias de seus inimigos, que não tinham maior desejo do que pôr a divisão na família real e aos quais sua ausência tinha dado os meios para isso e a comodidade também; quanto às deposições das testemunhas, não era justo que lhas prestassem fé, pois haviam sido extorquidas pela violência das dores e que por fim ele mesmo se oferecia a ser torturado e interrogado sem que o poupassem. Assim falando, Antípatro tinha o rosto cheio de lágrimas, batia com força no rosto, de tal modo que causava compaixão aos seus mesmos inimigos, e também comoveu de algum modo os presentes; Herodes mesmo estava comovido, embora fizesse todo o possível para não demonstrá-lo. Nicolau, então, tomou a palavra para continuar a acusação que o rei tinha começado. Ele estendia-se em cada artigo: trouxe como prova dos crimes, o testemunho dos que tinham sido torturados. Estendeu-se muito sobre a bondade extrema que o rei havia demonstrado por seus filhos, pelo cuidado que tivera de sua educação, de que tinha sido tão mal recompensado; disse que por maior que tivesse sido a culpa de Alexandre e Aristóbulo não havia tanto motivo de se admirar de que, sendo jovens e mal aconselhados, eles se tivessem deixado levar mais pela ambição de reinar do que pelo desejo de enriquecer. Mas que nada era tão horrível como o crime de Antípatro, o qual, mais cruel do que os animais mais cruéis, que se amansam e se mostram reconhecidos para com aqueles, dos quais receberam algum benefício, não tinha ele se comovido, com tantos favores que recebera do rei, seu pai, e, em vez de considerar a infelicidade em que seus irmãos tinham caído, por seu mau proceder, não tivera medo de os imitar. &quot;Pois não fostes vós mesmo&quot;, acrescentou ele, dirigindo sua palavra a Antípatro, &quot;o primeiro a acusá-los? Não fostes vós que vos empenhastes em provar-lhe a culpabilidade? Não fostes vós que os fizestes castigar? Não é, porém, disso que eu vos censuro; vosso ódio por eles era justo. Mas, pode-se assaz admirar de que não tenhais temido atrair sobre vós coisa semelhante? Pois, não é fácil julgar que o que fizestes contra eles não foi por amor a vosso pai, mas para poderdes mais facilmente executar o abominável desígnio, que tínheis já formulado contra ele, parecendo ser tão zeloso pela sua conservação e ter tanto horror por seu crime, como as conseqüências no-lo fizeram ver? Pois, querendo a morte de vossos irmãos, poupastes seus cúmplices; demonstrastes assim suficientemente, que estáveis de combinação còm eles e que vossa intenção era servir-vos deles para tentardes contra a vida de vosso pai. Sentíeis assim uma dupla alegria: parecer aos olhos dos homens ter feito uma ação digna de louvor, como teria sido mesmo, se vossos irmãos, sendo culpados, não tivésseis vos declarado contra eles, como inimigos, para salvar vosso pai e a outra, secreta, oculta, no vosso coração, achando por esse meio mais facilidade em fazer perecer, à traição, por um crime ainda maior que o deles, aquele mesmo por quem parecíeis sentir um amor tão cheio de piedade. Mas se verdadeiramente tivésseis tido horror ao detestável desígnio de que vossos irmãos eram acusados e que lhes custou a vida, teríeis tido coragem para imitá-los? Não é evidente que não tínheis outro objetivo que perder por vossa astúcia os que vos poderiam disputar o reino, como sendo muito mais dignos do que vós, de possuí-lo e atirar todo ódio sobre vosso pai, de vos pordes em condições de não poder ser castigado, acrescentando a esse fatricídio, um parricídio, tão horrível, que nenhum século ainda viu outro semelhante? Pois não é de um pai qualquer que resolvestes eliminar a vida, mas de um pai que vos amava com paixão, que vos cumulou de benefícios, que compartilhou convosco a sua autoridade, que vos declarou seu sucessor, que vos fez gozar crescentemente do prazer de reinar, que vos tinha garantido a coroa por meio de seu testamento. Mas essa excessiva bondade não causou impressão, em tão mau espírito como o vosso. Em vez de considerá-lo como benfeitor, vos considerastes apenas a vós mesmos; vossa paixão desmesurada de dominar não pôde tolerar ter como companheiro vosso próprio pai, a quem sois devedor de tantos benefícios e ao mesmo tempo que vossas palavras demonstravam um ardor tão violento pela sua conservação, todas as vossas ações tendiam à sua ruína. Vós não vos contentaste de ser mau, procurastes tornar vossa mãe tão má quanto vós, fazendo-a cúmplice do vosso crime; irritastes o espírito de vossos irmãos e tivestes a insolência de ultrajar a vosso pai, chamando-o de animal, vós, cujo coração está mais cheio de veneno do que os mais venenosos animais, as serpentes, e de que vos servistes contra os mais próximos e as quais devíeis maiores favores: e vós, enfim, que em vez de ajudar vosso pai na sua velhice, não vos contentastes unicamente com a vossa malícia para fazê-lo sentir os efeitos da vossa ira, mas vos fizestes acompanhar por guardas e conquistastes o maior número possível de pessoas, a fim de juntar os seus artifícios aos vossos para o aniquilar. Agora, depois de tantos depoimentos, tanto de pessoas livres como de escravas, às quais fostes causa de serem torturadas, depois de provas tão claras do vosso crime, ousais negar a verdade; não vos é suficiente terdes renunciado aos sentimentos mais ternos da natureza, esforçando-vos por tirar a vida a vosso próprio pai, quereis também subverter as leis estabelecidas contra vós e vossos semelhantes, para surpreender a eqüidade de Varo e para abolir tudo o que há de justiça no mundo. Dizeis que não se devem dar valor a depoimentos extorquidos por meio de torturas, que salvaram a vida ao vosso pai e pretendeis, ao mesmo tempo, que se deva crer no que direis, sofrendo também a tortura.&quot; &quot;Mas, Senhor&quot;, acrescentou Nicolau, dirigindo então a palavra a Varo, &quot;nós livrareis nosso rei dos detestáveis empreendimentos movidos contra ele, pelos seus parentes mais próximos? Não mandareis ao suplício esse cruel animal, que depois de se ter servido de uma falsa aparência de afeto para com seu pai, para perder seus próprios irmãos tudo fez para perdê-lo a ele também, a fim de reinar sozinho? Sabeis que o parricídio não deve ser considerado como um crime particular, mas como público, porque é um ultraje feito à natureza e ataca o princípio da vida. Vós sabeis que nesse caso o simples pensamento merece ser castigado como o mesmo fato e que não se deve deixar de castigá-lo, sem se pecar contra essa mesma natureza, que é a mãe comum de todos os homens.&quot;
Nicolau referiu em seguida diversas coisas, que a mãe de Antípatro, impelida pelo prazer que as mulheres têm de falar, não tinha podido deixar de dizer, isto é, que ela tinha consultado adivinhos e oferecido sacrifícios para saber o que aconteceria a Herodes. Não esqueceu também as desordens, tanto por causa do vinho como das mulheres, causadas por Antípatro, na família de Feroras e citou o grande número de depoimentos feitos contra ele, uns voluntários, outros obtidos pela tortura e que se podiam ter como os mais certos, porque aqueles, que antes o temor de Antípatro levava a calar o que sabiam contra ele, vendo que a mudança da sorte dava a todos a liberdade de falar e de acusá-lo, diziam então com franqueza o que seu ódio por ele já lhes não permitia ocultar.
734.  Nada, porém, aniquilava tanto a Antípatro, como as recriminações de sua consciência, que lhe atirava continuamente diante dos olhos, seus horríveis crimes, contra seu pai, o sangue de seus irmãos derramado por seus criminosos manejos e a perturbação que ele havia suscitado em toda a família real. Havia-se mesmo notado há muito tempo que jamais ele tinha ódios justos, nem amizades fiéis: mas o interesse era sua única regra de conduta. Assim, mais se amava a virtude e a justiça, mais ela era tida em horror e apenas houve segurança, começou-se a clamar contra ele e a se dizer à porfia todo o mal que ele havia feito e de que se tinha conhecimento. Vários acusaram-no de diversos crimes; e havia motivo para se crer em tudo como verdade, porque parecia que não era para agradar ao rei, nem o temor do perigo que os obrigava a ocultar alguma coisa. Parecia, ao contrário, que eles eram levados a falar daquele modo porque detestavam sua maldade e desejavam sua morte não só para garantir a vida de Herodes, como para evitar de cair sob o domínio de tão perverso príncipe, como Antípatro. Não eram, porém, somente os interrogados que assim falavam; havia muitos que depunham voluntariamente contra ele, e embora ele fosse um dos mais astuciosos dos mais desavergonhados dos homens, não ousava abrir a boca para responder.
735. Varo, então, tomou a palavra e disse que lhe dava toda a liberdade de falar, se tivesse alguma coisa a alegar em sua defesa e que o rei, seu pai e ele, só desejavam que ele fosse inocente. Antípatro, em vez de responder, lançou-se de rosto em terra, rogando a Deus que fizesse saber por meio de algum sinal a sua inocência e quanto ele estava longe de jamais ter tido o pensamento de empreender algo contra seu pai. É assim que os maus costumam agir. Quando enveredam pelo caminho do crime, abandonam-se às suas paixões, sem se lembrar de que há um Deus; quando se encontram, porém, no perigo de serem castigados, eles o invocam, tomam-no como testemunha da sua inocência e dizem que se abandonam inteiramente à sua vontade. Foi o que sucedeu a Antípatro. Antes, em todas as coisas, ele procedia como se Deus não existisse, mas quando se viu prestes a receber o castigo que merecia, ele se atreveu a dizer que Deus o tinha conservado para velar por seu pai. Varo, vendo que ele não respondia às perguntas que lhe eram feitas e que ele continuava somente a invocar a Deus, ordenou que trouxessem o veneno, de que se havia falado no processo para que dele se experimentasse a força. Trouxeram-no e ele o fez beber a um homem condenado à morte, o qual apenas o sorveu, caiu morto. Dissolveu então a assembléia e no dia seguinte voltou a Antioquia onde costumava permanecer, porque era a cidade onde os reis da Síria tinham habitualmente sua corte.
736. Herodes mandou no mesmo instante meter Antípatro numa prisão, sem que se soubesse que a resolução ia tomar ou já tomara, com Varo, sobre aquele assunto, mas a maior parte julgava que ele nada faria, sem seu parecer. Escreveu em seguida a Augusto e ordenou aos que lhe deviam apresentar as cartas, que hoje o informassem à viva voz dos crimes cometidos por seu filho. Nesse mesmo tempo, interceptou-se uma carta que AntiFílon escrevia do Egito a Antípatro. Herodes mandou abri-la e encontrou estas palavras: &quot;Eu vos mandei uma carta de Acmé, em que vai a minha vida, pois não duvideis de que se fosse conhecida eu atrairia sobre mim um ódio mortal de duas mui poderosas famílias. Toca a vós dar ordem para que o negócio tenha bom êxito&quot;. Herodes leu esta carta, mandou procurar a outra de que falava, mas não a pôde encontrar e o servidor de AntiFílon afirmava não ter trazido outra que não aquela que eles tinham em mãos. Enquanto estavam assim, nessa ansiedade, um dos amigos do rei descobriu uma costura na túnica do servo e pensou que ali poderia estar escondida a carta. Sua suposição não o enganou; acharam-na e assim estava redigida: Acmé a Antípatro: &quot;Escrevi ao rei, vosso pai, do modo como desejáveis e incluí uma cópia da carta suposta de ter sido escrita à imperatriz, minha senhora, por Salomé. Estou certo de que apenas ele ler castigá-la-á como culpada, por ter tentado contra sua vida.&quot; O conteúdo da carta, falsamente atribuída a Salomé, tinha sido imaginado por Antipatro, mas ele tinha deixado a Acmé para que exprimisse o seu pensamento com sua maneira ordinária de escrever. Quanto à carta de Acmé a Herodes, assim estava escrita: &quot;Tendo, Majestade, encontrado uma carta, escrita por Salomé à imperatriz, minha senhora, pela qual ela a suplicava de fazer de modo que ela possa desposar Silleu, o cuidado, que eu sou obrigado a ter no que respeita o vosso serviço, fez-me copiá-la e vo-la enviar. Far-me-eis o favor de queimá-la, porque corre perigo minha vida.&quot; Assim, a carta. Mas o que Acmé escrevia a Antipatro desvendava toda a trama, porque pareceria que ele nada tinha feito que por sua ordem e para perder Salomé. Acmé, que era judeu de nascimento, estava a serviço da imperatriz e tinha vendido muito caro a Antipatro a sua mediação. Herodes soube assim de toda a maldade de seu filho, que chegava a tal excesso, pois não se contentando, de atentar contra a vida de seu pai, de ter querido também perder à sua tia Salomé, de ter enchido toda a família de confusão e perturbação, tinha mesmo levado a corrupção até a corte de Augusto. Tantos crimes juntos causaram-lhe tal horror, que pouco faltou que ele não morresse naquele mesmo instante. Salomé excitava-o e clamava, batendo no peito, que estava pronta a sofrer a morte, se ele julgava que ela lhe tinha faltado à fidelidade. Herodes mandou chamar Antipatro e ordenou-lhe que dissesse sem temor, se tinha alguma coisa a alegar em sua defesa. Ele nada respondeu e então ele pediu-lhe, que, pelo menos declarasse que eram seus cúmplices. Ele falou de AntiFílon somente. Veio então a Herodes o pensamento de mandá-lo a Roma para ser julgado por Augusto, mas teve receio de que os amigos de Antipatro o salvassem pelo caminho. Assim, tornou a enviá-lo à prisão, atado como estava e escreveu a Augusto para informá-lo do seu crime, encarregando seus embaixadores de lhe contar como ele havia conquistado Acmé e de lhe mostrar as cópias das cartas que ele tinha escrito.

CAPÍTULO 8
ARRANCA-SE UMA ÁGUIA DE OURO QUE HERODES TINHA CONSAGRADO NO
PORTAL DO TEMPLO. SEVERO CASTIGO QUE ELE IMPÕE. HORRÍVEL
ENFERMIDADE DESSE PRÍNCIPE E ORDENS CRUÉIS QUE ELE DÁ A SALOMÉ,
SUA IRMÃ, E A SEU MARIDO.
 

737.  Enquanto os embaixadores de Herodes estavam a caminho de Roma, com as ordens que lhes havia dado, ele caiu doente, fez seu testamento e nomeou seu sucessor no reino a Antipas, o mais novo de seus filhos, porque Antípatro o havia irritado com suas calúnias contra Arquelau e contra Filipe. Legou mil talentos a Augusto, quinhentos talentos à imperatriz, sua esposa, aos seus filhos, aos amigos e aos libertos. Dividiu o resto do seu dinheiro, suas terras e seus rendimentos, entre os filhos e netos, enriqueceu Salomé, sua irmã, como agradecimento pela amizade que ela lhe tinha constantemente demonstrado. Como não tinha esperança de salvar-se daquela doença, pois já tinha perto de setenta anos, ficou tão triste e tão irritado, que não podia tolerar nem a si mesmo. A opinião que ele tinha de que seus súditos o desprezavam e se regozijavam com sua desgraça era a causa principal disso e uma sedição suscitada por pessoas muito consideradas pelo povo, confirmou-lhe ainda mais essa suposição. O que aconteceu deste modo:
738. Judas, filho de Sarifeu e Matias, filha de Margalote, eram assaz queridos do povo, porque, além de serem os mais eloqüentes dos judeus e os mais sábios na interpretação das leis, eles educavam a juventude e tudo faziam para encaminhá-la à virtude. Quando esses dois homens souberam que a doença do rei era incurável, exortaram a estes moços que os reverenciavam como a.seus mestres, que destruíssem as obras que ele tinha feito, como desprezo dos costumes de seus antepassados; disseram-lhes que nada lhes poderia ser mais glorioso, do que se declararem defensores da religião e que tantas desgraças, que afligiam a família de Herodes eram sem dúvida causadas por ter ele ousado burlar as leis, que deviam ser invioláveis e calcar aos pés as antigas determinações, para estabelecer novas obras. Esses doutores, assim falando, nada diziam que não tivessem deveras no coração. Entre essas obras profanas de Herodes ele tinha feito colocar e consagrar sobre o portal do Templo, uma águia de ouro, de tamanho extraordinário e de muito valor, embora as nossas leis proíbam expressamente fazer figuras de animais. Assim, esses dois homens, zelosos da observância da disciplina de nossos antepassados, excitaram seus discípulos a arrancar aquela águia; disseram-lhe que embora a empresa fosse perigosa, nela não deviam empregar menos entusiasmo, pois uma morte honrosa deve ser preferível à vida, embora suave e tranqüila, quando se trata de manter as leis do país e de conseguir uma reputação imortal. Os covardes morrem, bem como os generosos, e assim a morte, sendo inevitável para todos os homens, os que terminam sua vida com grandes feitos, tem a consolação de deixar à posteridade uma glória imperecível.
Estas palavras animaram de tal modo os moços que a notícia se espalhou logo; ao mesmo tempo dizia-se que o rei tinha morrido e eles então, em pleno dia, subiram ao lugar onde estava a águia, arrancaram-na, atiraram-na por terra e a fizeram em pedaços a golpes de machado, diante de grande multidão de povo, que estava reunido no Templo. O que comandava as tropas do rei, apenas soube do que se passava, temendo aquilo fosse o princípio de uma conspiração, correu para lá, com um grande número de soldados e encontrando apenas uma multidão confusa que se tinha reunido, dissipou-a sem dificuldade. Mais ou menos uns quarenta daqueles moços foram os únicos que ousaram resistir. Ele os prendeu e os enviou ao rei, com judas e Matias, que julgaram ser-lhes-ia vergonhoso fugir. Herodes perguntou-lhes quem os havia feito tão ousados, arrancando do lugar um objeto que ele havia feito consagrar. Responderam-lhe: &quot;Há muito havíamos tomado essa resolução e não teríamos podido, sem faltar à coragem, não tê-la executado. Vingamos o ultraje feito a Deus e mantivemos a honra da lei de que somos discípulos. Achais estranho que tendo-a recebido das mãos de Moisés a quem Deus mesmo a deus, nós a tenhamos preferido às vossas ordens? Julgais que tememos, nos façais sofrer a mesma morte, que em vez de ser um castigo de um crime, será a recompensa da nossa virtude e de nossa piedade?&quot; Eles pronunciaram estas palavras com tanta firmeza, que não se podia duvidar de que sua coragem correspondia às suas palavras e de que eles não teriam menor valor em sofrer, do que havia tido coragem em agir. Herodes mandou-os acorrentados a Jerico, fez reunir os mais ilustres dos judeus e foi levado para lá em liteira por causa de sua debilidade. Falou-lhes das dificuldades suportadas pelo bem público, disse que ele tinha para a glória de Deus, reconstruído o Templo, com despesas, o que todos os reis asmoneus juntamente, não tinham podido fazer durante cento e vinte e cinco anos, em que haviam reinado e tinha adornado com ricos presentes, que ali havia consagrado; que ele tinha esperado que lhe agradecessem, mesmo depois de sua morte e que prestassem honrar à sua memória. Mas, por um horrível atentado, em ver da gratidão que ele devia esperar, não se havia receado, estando ainda vivo, fazer-lhe tão grande ultraje, como em pleno dia, à vista de todo o povo, arrancar uma coisa que ele tinha consagrado a Deus, o qual com aquele ato tinha sido ainda mais ofendido do que ele.
Os maiorais da assembléia, ouvindo o rei falar desse modo e temendo que no furor de que estava ele possuído, não viesse a descarregar sobre eles a sua cólera, disseram que em nada haviam contribuído para o fato que sucedera, e que julgavam que aquela ação devia ser castigada. Estas palavras acalmaram-no e ele não investiu mais contra os outros; contentou-se de tirar o sumo sacerdócio de Matias, que ele pensava tinha tomado parte naquela depredação e a deu a Joazar, seu cunhado. Durante o tempo em que Matias exercia o sumo sacerdócio, sonhava certa noite, na qual se devia celebrar um jejum, que estivera na companhia de sua esposa e que assim não estava em condições de atender ao serviço divino; José, filho de Eli, que era seu parente foi encarregado de oficiar naquele dia, em seu lugar. Herodes, assim, depois de tê-lo privado do cargo de sumo sacerdote, mandou queimar vivo este outro Matias, autor da sedição, e todos os que tinham sido aprisionados com ele e naquela mesma noite sobreveio um eclipse da lua. 739. Deus queria que Herodes sofresse o castigo de sua impiedade; sua doença agravava-se cada vez mais. Uma febre lenta, que não transparecia exteriormente, queimava-o e o devorava por dentro; ele tinha uma fome tão violenta, que nada era capaz de saciá-lo; seus intestinos estavam cheios de úlceras; violentas eólicas faziam-no sofrer dores horríveis, seus pés estavam inchados e lívidos, suas virilhas também, as partes do corpo que se escondem com o maior cuidado, estavam tão corrompidas que já eram devoradas por vermes; seus nervos estavam frouxos; ele respirava com dificuldade e seu hálito era tão mau, que ninguém queria estar perto dele. Todos os que consideravam com espírito de piedade o estado em que se achava esse infeliz príncipe, estavam de acordo em admitir que tudo aquilo era um castigo visível de Deus, para puni-lo por sua crueldade. Mas embora ninguém acreditasse que ele poderia, ainda, escapar daquela doença, ele não deixava de esperá-lo. Mandou vir médicos de todos os países e, a conselho deles, foi para além do Jordão, às águas cálidas de Caliroé, que se despejam num lago cheio de betume e não somente a medicinais, mas também agradáveis para se beber. Meteram-no numa tina cheia de óleo e ele sentiu-se tão mal, que se pensou que ele ia morrer. Os gritos e as lágrimas de seus domésticos, fizeram-no voltar a si e então viram que seu mal era incurável. Ele mandou que se distribuísse a todos os seus soldados, cinqüenta draemas por cabeça, deu grandes presentes aos seus chefes e aos seus amigos e se fez reconduzir a Jerico onde sua crueldade aumentou ainda, de tal modo, que o fez tomar as mais horríveis deliberações, como jamais o espírito humano pôde conceber. Ordenou por um edito a todos os judeus mais ilustres, que fossem a Jerico, sob pena de morte para os que faltassem e, quando todos chegaram, ele os fez encerrar no hipódromo, sem indagar se eles eram culpados ou inocentes. Mandou depois vir Salomé, sua irmã, e Alexas, marido dela, e disse-lhes que ele sofria tantas dores que via bem que o fim de sua vida estava próximo e que ele não se podia queixar, pois era um tributo que uma lei comum a todos os homens, o obrigava a pagar à natureza. Mas que ele não podia tolerar ser privado da honra que é devida a todos os reis, por um luto público. Que ele sabia, entretanto, que o ódio que os judeus lhe tinham era grande, que eles com sua morte teriam se rejubilado, pois mesmo durante sua vida eles não tinham temido revoltar-se contra ele e ofendê-lo. Que ele esperava de duas pessoas muito próximas do seu afeto e de seu dever, que o consolassem em tão sensível desprazer e poderiam fazê-lo, cumprindo o que lhes ia dizer, tornando assim seus funerais mais magníficos e mais agradáveis às suas cinzas que o de qualquer outro rei, porque não haveria uma só pessoa em todo o reino, que não derramasse lágrimas de verdade; que para executar essa incumbência, logo que ele tivesse exalado o último suspiro, fizessem rodear o hipódromo de soldados, sem lhes falar de sua morte e ordenassem aos mesmos de sua parte, que matassem a flechadas todos os que lá estavam encerrados. Se eles executassem essa ordem, ele lhes deveria um duplo favor: um, por ter satisfeito ao seu pedido e o outro, por ter tornado o luto de suas exéquias mais célebre do que qualquer outro. Este cruel soberano acompanhava as palavras com lágrimas; rogou-lhes pelo afeto que lhe tinham e por tudo o que tinham de mais santo, que não permitissem que se deixasse de prestar aquelas últimas honras à sua memória e eles prometeram-lhe executar pontualmente suas ordens.
Se alguém quisesse desculpar a Herodes as crueldades praticadas em pessoas, que lhe eram parentes, pela razão de que se tratava de garantir a sua vida, esta última ação, o obrigaria a confessar, que jamais se viu tão espantosa desumani-dade em querer que, estando ele para deixar a vida, todas as famílias e mesmo amigos ilustres, sofressem também um luto, por sua ordem, a fim de que todo o reino padecesse ao mesmo tempo absoluta tristeza, pela morte de alguém, sem perdoar nem mesmo aos que nunca o haviam ofendido e de que jamais tivera motivo de queixa, quando, por pouca bondade que se tenha, costuma-se perdoar aos mesmos inimigos, reduzidos a esse estado.

CAPÍTULO 9
AUGUSTO MANDA DIZER A HERODES QUE FAÇA O QUE QUISER COM ANTÍPATRO. AS DORES DE HERODES AUMENTAM E ELE QUER MATAR-SE. AQUIABE, UM DE SEUS NETOS, IMPEDE-O. CORRE A NOTÍCIA DE QUE ELE HAVIA MORRIDO. ANTÍPATRO PROCURA EM VÃO SUBORNAR AQUELE QUE O VIGIAVA PARA PÔ-LO EM LIBERDADE. HERODES SABE-O E MANDA MATÁ-LO.

740.  Depois que Herodes deu estas ordens cruéis à sua irmã e ao cunhado, soube por cartas de seus embaixadores em Roma, que Augusto tinha mandado matar Acmé, por se ter deixado subornar por Antípatro e que deixava inteiramente à sua vontade castigar como quisesse aquele pérfido filho, quer exilando-o, quer condenando-o à morte; estas notícias fizeram-no regozijar-se: mas as dores voltaram e tomado de ardente fome, pediu uma maçã e uma faca, pois ele tinha o costume de descascá-la ele mesmo, de cortá-la em pedaços e comê-la. Mas como queria matar-se com aquela faca, olhou para todos os lados e teria executado o seu desígnio se Aquiabe, seu neto, não o tivesse percebido e não lhe tivesse segurado o braço, soltando ainda um grito. Todo o palácio encheu-se então, uma segunda vez, de espanto e de agitação, supondo que o rei tinha morrido. A notícia espalhou-se logo e chegou até Antípatro. Ele acreditou facilmente e não somente sentiu a esperança de se libertar da prisão; chegou a julgar que ainda haveria de reinar, e tudo prometeu ao que o vigiava, para que o pusesse em liberdade. Mas, muito longe de poder suborná-lo, esse homem foi imediatamente avisar ao rei. Herodes, que já tinha tanta aversão por Antípatro, gritou, deu pancadas na cabeça e embora tão fraco como estava, ergueu-se no leito e ordenou a um dos seus guardas que fosse imediatamente matá-lo e que lhe enterrasse o corpo sem cerimônia alguma, no castelo de Hircano.

CAPÍTULO 10
HERODES MUDA SEU TESTAMENTO E DECLARA ARQUELAU SEU SUCESSOR.
MORRE CINCO DIAS DEPOIS DE ANTÍPATRO. SOBERBOS FUNERAIS FEITO POR
ARQUELAU A HERODES. GRANDES ACLAMAÇÕES DO POVO
EM FAVOR DE ARQUELAU.

741.  Herodes mudou imediatamente o seu testamento. Em lugar do precedente, em que tinha nomeado Antipas, seu sucessor, contentou-se neste em nomeá-lo, tetrarca da Galiléia e da Peréia; deu o reino a Arquelau; a Filipe seu irmão, a Traconítida, a Gaulanita e a Batanéia, que erigiu em tetrarquia; a Salomé, sua irmã, jamnia, Azoto e Fazaelite, com cinqüenta mil peças de prata. Deu ainda grandes presentes a todos os outros parentes, quer em dinheiro quer em rendimentos anuais: deu a Augusto, além de sua baixela de ouro e de prata, grande quantidade de móveis e objetos preciosos, dez milhões de peças de prata e cinco milhões idênticas, à imperatriz e a alguns de seus amigos. Ele sobreviveu a Antipatro, apenas cinco dias, e morreu trinta e quatro anos depois de ter expulso Antígono do reino e trinta e sete, depois de ter sido declarado rei, em Roma. Não houve jamais príncipe mais colérico, mais injusto, mais cruel e mais favorecido pela sorte. Pois, tendo nascido em condição humilde, chegou a subir ao trono, venceu perigos sem conta e viveu muitos anos. Quanto aos seus dissabores domésticos, embora as tentativas de seus filhos contra ele o tivessem tornado muito infeliz, segundo meu parecer, ele foi mesmo feliz nisso, segundo o juízo que disso ele fazia, porque não os considerando mais como seus filhos, mas como inimigos, ele os castigou e vingou-se deles.
742.  Antes que a notícia de sua morte fosse divulgada, Salomé e Alexas puseram em liberdade todos aqueles judeus ilustres que estavam encerrados no hipódromo e disseram que o faziam por ordem do rei e nisto merecem os agradecimentos de nossa nação; quando a morte de Herodes se tornou conhecida, eles fizeram reunir no anfiteatro de jerico todos os soldados, para entregar-lhes uma carta que o príncipe lhes havia escrito. Ela foi lida publicamente e dizia que lhes agradecia o afeto e a fidelidade que sempre lhe haviam demonstrado e rogava que continuassem a servir a Arquelau, que ele tinha nomeado seu sucessor no reino. Ptolomeu, a quem ele tinha confiado o seu selo, leu também seu testamento que dizia expressamente que isso só se poderia fazer, depois de Augusto o tivesse confirmado. Ouviu-se então um clamor, enchendo os ares: &quot;Viva o rei Arquelau!&quot; Os soldados e os chefes prometeram servi-lo com a mesma fidelidade com que tinham servido ao rei, seu pai, e desejavam-lhe um longo e feliz reinado.
743.  O novo príncipe pensou então em organizar soberbos funerais para o rei, seu pai, e quis mesmo estar presente à cerimônia. O corpo adornado com as insígnias reais tinha uma coroa de ouro na cabeça e um cetro na mão, era levado numa liteira de ouro, enriquecida com pedras preciosas. Os filhos do falecido e seus parentes próximos seguiam a liteira, todos os soldados marchavam perto, separados por nações. Os trácios, os alemães e os gauleses vinham na frente; os outros, seguiam-nos; todos com seus comandantes, armados como para um combate. Quinhentos oficiais domésticos do falecido rei traziam perfumes e encerravam o magnífico cortejo. Marcharam nessa ordem, por oito estádios, desde jerico até o castelo de Herodiom, onde o enterraram, como ele tinha determinado.
744. Depois que o novo rei celebrou, segundo o costume do país, o luto de seu pai, deu um banquete ao povo e subiu ao Templo. Clamava-se viva o rei, por toda parte por onde ele passava e depois que ele se sentou sobre o trono de ouro, os clamores aumentaram, com votos pela prosperidade do seu reinado. Ele a todos recebeu com muita bondade e testemunhou-lhes sua gratidão, por nada ter diminuído de seu afeto por ele, com a recordação da severidade com que seu pai os havia tratado; afirmou-lhes que lhes daria provas do seu reconhecimento, disse-lhes que não tomaria ainda o nome de rei, até que Augusto tivesse confirmado o testamento de seu pai e que ele tinha recusado, por essa mesma razão, receber o diadema que todo o exército lhe havia oferecido em jerico. Mas logo que o tivesse recebido de Augusto, que somente tinha o poder de dar-lho, ele mostraria por suas ações, que tinham razão de amá-lo e esforçar-se-ia para torná-los mais felizes do que haviam sido durante o reinado de seu pai. Como é costume do povo, persuadir-se de que os príncipes, ao seu advento ao trono agem com muita sinceridade, estas palavras de Arquelau que lhe eram tão favoráveis, fez redobrar as aclamações: acrescentaram ainda outros louvores, maiores e mais entusiastas e tomaram a liberdade de lhe pedir diversas graças: uns, a diminuição dos tributos, outros, a libertação de vários prisioneiros, que o rei, seu pai, havia feito meter na prisão, muitos das quais já lá estavam há muito tempo; outros ainda, a abolição do direito de peagem e dos impostos sobre mercadorias. O novo soberano que pensava em firmar cada vez mais o seu poder, julgou nada lhes poder recusar; depois de terminados os sacrifícios, ele deu um banquete aos seus amigos.

CAPÍTULO 11
ALGUNS JUDEUS QUE PEDIAM VINGANÇA PELA MORTE DE JUDAS E DE
MATIAS, E DE OUTROS QUE HERODES TINHA FEITO QUEIMAR POR CAUSA
DAQUELA ÁGUIA ARRANCADA DO PORTAL DO TEMPLO, SUSCITAM UMA
REBELIÃO QUE OBRIGA ARQUELAU A MANDAR MATAR UNS TRÊS MIL.VAI
DEPOIS A ROMA PARA FAZER-SE CONFIRMAR REI POR AUGUSTO E ANTIPAS,
SEU IRMÃO, QUE TAMBÉM TINHA PRETENSÕES À COROA, VAI COM ELE.
ESTA QUESTÃO É PLEITEADA PERANTE AUGUSTO.

745. No entanto, alguns judeus que só queriam perturbação e agitação, começaram a se reunir e a deplorar a cruel condenação de Matias e dos outros que tinham sido torturados, por causa daquela águia arrancada do portal do Templo. O temor que eles tinham de Herodes, os mantivera em silêncio, enquanto ele vivera; mas agora, depois da sua morte, eles se declaravam contra ele, como se os ultrajes que faziam à sua memória pudessem dar um alívio, no outro mundo, àqueles cuja morte lhes era muito sentida. Insistiram com Arqueiau que vingasse tão grande injustiça, a morte de alguns amigos de Herodes, que, diziam eles, haviam tido parte naquela execução e privasse do sumo sacerdócio àquele ao qual ele a havia dado, para honrar esse cargo com um homem virtuoso e digno dele. Embora Arqueiau, que se preparava para ir a Roma fazer-se confirmar rei por Augusto, ficasse muito irado com esse pedido, julgou dever procurar acalmar com a afabilidade, a tão grande tumulto. Mandou o principal oficial de suas tropas dizer aos sediciosos que eles não se deviam deixar levar a tal desejo de vingança, mas considerar que aquele castigo de que se queixavam tinha sido aplicado segundo as leis; que seu pedido feria sua autoridade, que o tempo não era próprio para semelhantes queixas, que eles deviam pensar em conservar a união e a paz, até que Augusto o tivesse confirmado na posse do reino e ele tivesse voltado de Roma; que então a tudo se haveria de dar providência, depois de madura ponderação e com o consentimento geral; mas que no momento, deviam ficar em paz e tranqüilos, sem se tornarem culpados do crime de uma revolta. Os sediciosos, porém, em vez de se acalmar, com essas ponderações, muito justas, mostraram com seus gritos que só se poderiam reduzir à obediência, com perigo de vida, porque a paixão que os fizera perder o respeito por seus superiores, os persuadia de que era coisa insuportável, não poder, mesmo depois da morte de Herodes, obter a vingança que pedia o sangue de seus amigos, que tão cruelmente haviam feito derramar. Eles não conheciam outra justiça, que não a que lhes pudesse dar aquela consolação, e o desejo de obtê-la não lhes permitia avaliar o perigo em que se metiam. Assim, em vez de se deixarem convencer pelas razões da parte do rei e de se conterem pelo respeito que lhe deviam, irritaram-se ainda mais e é fácil de se imaginar como a festa da Páscoa que estava próxima lhes aumentava o número, a sedição podia aumentar também. Porque não somente toda a Judéia soleniza essa ocorrência, com grande alegria e com inúmeras vítimas, mais que de costume, em memória da nossa libertação do Egito, mas uma multidão inumerável de judeus, que moram fora do reino, vêm por devoção a Jerusalém para assisti-la. Nesse tempo, esses rebeldes, que choravam a morte de Judas e de Matias, não se afastavam do Templo e não tinham vergonha de mendigar, para não serem obrigados a se afastar dali. O temor de Arquelau de que sua insolência fosse além fez com que mandasse um oficial com soldados para contê-los, antes que eles tivessem contaminado, com esse espírito de revolta, o resto do povo, ordenando-lhe que lhe trouxessem aqueles que ousassem resistir. Os rebeldes, vendo-os chegar, incitaram de tal modo o povo com seus gritos e com suas exortações a atacá-los, que eles se lançaram contra os mesmos e os mataram quase todos. Com dificuldade o oficial se pôde salvar, ferido, com o resto dos soldados; os sediciosos continuaram como antes, a celebração de seus sacrifícios. O rei, então, julgando que não podia deixar semelhante revolta impune, mandou contra eles todo o exército com ordem à cavalaria de matar os que saíssem do Templo para fugir, de impedir que os estrangeiros os socorressem. Assim, mataram três mil homens e o resto fugiu para os montes vizinhos. Mandou depois o soberano intimar que todos se retirassem; então o temor do perigo fez deixarem os sacrifícios àqueles que antes se mostravam tão atrevidos.
746. Depois que Arquelau reprimiu essa revolta como dissemos, deixou sua casa e o reino aos cuidados de Filipe, seu irmão e partiu para Roma; levou sua mãe, Nicolau, Ptolomeu e vários outros amigos. Salomé, sua tia, acompanhou-o também com toda a família e vários outros dos seus parentes fizeram o mesmo, com o pretexto de querer servi-lo para fazê-lo obter a confirmação do reino, mas na verdade, para obstaculá-lo e acusá-lo, dentre outras coisas, de ter feito matar tanta gente no Templo. Em Cesaréia ele encontrou Sabino, intendente de Augusto, na Síria, que partia para ir com urgência, à Judéia, a fim de conservar os tesouros deixados por Herodes. Mas Varo, ao qual Arquelau tinha mandado Ptolomeu, para esse fim, impediu-lhe a passagem. Sua consideração fez que em vez de se apoderar das fortalezas e de pôr o selo naqueles tesouros, ele deixasse tudo em poder de Arquelau até que o imperador tivesse determinado e ficou em Cesaréia. Mas depois quer Arquelau embarcou para Roma e que Varo partira, para voltar a Antioquia, ele foi a Jerusalém, alojou-se no palácio real e ordenou aos tesoureiros gerais que lhe prestassem contas e ordenou aos comandante das fortalezas da cidade que as entregassem a ele. Estes, que tinham ordens contrárias de Arquelau e que queriam conservar aquelas praças de guerra, até a sua volta, responderam que as conservariam para o imperador.
747.  Nesse mesmo tempo, Antipas, um dos filhos de Herodes, foi também a Roma a conselho de Salomé, com o fim de obter o reino, em vez de Arqueiau, pois tinha sido nomeado por Herodes, para seu sucessor no testamento precedente, que, ele pretendia, tivesse mais valor que o primeiro. Levou consigo sua mãe e Ptolomeu, irmão de Nicolau, que tinha sido o maior amigo de Herodes e que era do seu partido; Irineu, homem mui eloqüente e que tinha durante vários anos se ocupado, por determinação do rei, seu pai, dos negócios do reino, mais que todos lhe infundira na idéia aquela pretensão, tanto que ele não quisera escutar os que o aconselhavam a ceder a Arqueiau, como sendo o mais velho e indicado pelo rei, como uma das suas últimas disposições. Quando Antipas chegou a Roma, todos os seus parentes uniram-se a ele, não tanto pelo afeto, como pelo ódio que tinham a Arqueiau e pelo desejo de gozar de uma espécie de liberdade, estando sujeitos somente aos romanos: ou pelo menos, com a esperança, de que, se aquele projeto desse resultado, encontrassem menos rigor e severidade sob o governo de Antipas do que sob o do seu irmão; Sabino escreveu a Augusto contra Arqueiau.
748. Arqueiau, então, para defender seu direito, fez apresentar ao imperador um memorial, que continha suas razões. Depois que Augusto leu estes memoriais, que viu as cartas que Varo e Sabino lhe haviam escrito e que teve conhecimento de a quanto montavam as rendas da Judéia, reuniu um grande conselho de seus maiores amigos, do qual deu a presidência a Caio César, filho de Agripa e de Júlia, sua filha, que ele tinha adotado. Em seguida deu audiência aos dois pretendentes. Antípatro, filho de Salomé, que era muito eloqüente e inimigo mortal de Arqueiau, começou por primeiro e disse: que era apenas por formalidade que Arqueiau disputava o reino, pois, sem esperar qual seria a esse respeito a vontade do imperador, ele se tinha apoderado dele, fazendo matar num dia de festa, um número tão grande de judeus. Que era verdade que eles bem o haviam merecido, mas somente poderia castigá-los, aquele que tinha o legítimo poder. Se ele o havia atribuído a si mesmo, como rei, sem esperar a confirmação do imperador, ele o havia ofendido muito e era ainda mais culpado; e assim não podia esperar ser por ele honrado com uma coroa, depois de ter mostrado que não considerava que ele tinha o direito de lha dar. Acusou em seguida a Arqueiau de ter com sua autoridade particular mudado vários oficiais do exército; de se ter sentado no trono e de aí ter, na qualidade de rei, ouvido várias causas, dando a sentença a várias delas, de ter concedido ao povo favores que ele lhe havia pedido, de ter libertado aqueles que seu pai tinha encerrado no hipódromo e por fim, de ter feito tudo o que teria podido fazer, depois de ter sido confirmado rei pelo imperador. Citou ainda várias outras coisas, umas, verdadeiras, outras, que a ambição de um homem ainda jovem e recém-elevado ao sumo sacerdócio tornava verossímeis. Acrescentou que Arqueiau tinha sentido tão pouco a morte de Herodes, que tinha na noite seguinte dado um banquete, que teria podido causar uma rebelião, tanto horror o povo sentira por vê-lo insensível às últimas obrigações, que ele devia ao próprio pai; e como um ator de teatro que desempenha diversos papéis, ele, durante o dia, parecia chorar, mas passara a noite no meio dos prazeres a que os reis se podem dar. Como se pode considerar um crime, cantar e regozijar-se depois da morte de um pai, como se fosse a morte de um inimigo, o imperador podia julgar da satisfação que poderia ter um homem de tão mau gênio, se consentisse em seu pedido e que era estranho que ele ousasse comparecer diante dele, para ser confirmado no reino, depois de ter agido em tantas coisas, como se já fosse rei. Antípatro insistiu em seguida, sobre aquele horrível assassínio, tão ímpio, cometido no Templo, onde num dia de festa se haviam visto estrangular como vítimas, não somente cidadãos, mas também estrangeiros e aquele lugar santo, repleto de cadáveres, por ordem, não de um príncipe inimigo e de outra nação, mas daquele que se servia do nome tão venerável de rei legítimo, para satisfazer à sua tirânica paixão e exercer toda espécie de crueldade. Herodes também, que conhecia as suas más inclinações, tinha pensado tão pouco, enquanto ainda tinha saúde, em deixar-lhe o reino que ele havia, no seu testemunho precedente, o qual tinha muito mais valor que o segundo, escolhido Antipas para seu sucessor, cujos costumes eram tão opostos aos de Arqueiau a tomado aquela deliberação, num tempo em que não se podia dizer, como depois, que seu espírito tinha morrido antes de seu corpo, mas quando as forças de um e de outro, ainda estavam todas completas e inteiras. Que quando mesmo fosse verdade que Herodes tinha desde então os mesmos sentimentos que demonstrou no seu último testamento, Arqueiau não havia mostrado que rei seria, desprezando a coroa das mãos do imperador e fazendo massacrar no Templo tantos cidadãos, quando ele mesmo ainda era um simples cidadão. Antípatro assim terminou seu discurso e tomou como testemunhas da verdade do que ele tinha dito vários dos parentes desses dois príncipes.
Nicolau disse, ao contrário, para defender a causa de Arqueiau, que não se devia atribuir aquele sangue derramado perto do Templo, senão à insolência e teimosia dos rebeldes, que haviam obrigado Arqueiau a usar da força para contê-los; que ainda que parecesse que se revoltaram somente contra ele, era claro que o faziam também contra o imperador, pois, sem temer violar o direito das gentes, nem ter por Deus, respeito algum, na solenidade de tão grandiosa festa, tinham matado os que Arqueiau havia mandado, para apaziguar o tumulto e que Antípatro devia ter vergonha de se ter deixado levar de tal modo por sua paixão contra Arqueiau, atrevendo-se a desculpar àqueles rebeldes, em vez de reconhecer que os únicos culpados haviam sido os que foram mortos, pois, por primeiro haviam atacado os outros e os haviam obrigado a se servir das armas contra eles, quando as tinham consigo apenas para a própria defesa. Nicolau atirou do mesmo modo sobre os acusadores todas as outras coisas alegadas contra Arqueiau, dizendo que tudo ele havia feito, por sua opinião e que elas não eram como eles as tinham apresentado, pelo seu desejo ardente e injusto de prejudicar o príncipe, seu parente, cujo pai, não somente lhes havia feito tantos benefícios, mas que ele mesmo lhes havia sempre prestado muito bons serviços. Com relação ao testamento de Herodes, disse que ele tinha a mente muito sã e muito livre, quando o fizera; que as últimas são as que devem merecer toda a atenção e que o seu devia ser tanto mais válido, pois dele tinha feito o imperador senhor absoluto, deixando a ele que resolvesse como melhor lhe aprouvesse. Que ele tinha certeza de que esse grande príncipe não agiria como aqueles, que tendo recebido tantos benefícios de Herodes, esforçavam-se por subverter suas últimas disposições mas que ele teria prazer em confirmar o testamento de um rei seu amigo e aliado, pois havia uma extrema diferença entre a malícia dos inimigos de Arqueiau e a virtude e a boa-fé do imperador, que sem dúvida jamais se persuadiria de que um homem, que tinha com tanta prudência submetido todas as coisas à sua vontade, tivesse a mente turbada, quando escolhera para sucessor um de seus filhos, cheio de probidade, e que esperava somente a bondade do imperador, para ser mantido no reino que havia deixado.
Quando Nicolau terminou este discurso, Arqueiau lançou-se de joelhos diante de Augusto. Ele o ergueu, com grande afabilidade e disse-lhe, que o julgava digno de reinar e que estava disposto a nada fazer que lhe fosse prejudicial e conforme ao testamento de seu pai. Assim, tendo dado a Arqueiau ou se o dividiria entre os filhos de Herodes, que tinham recorrido a ele, como tudo podendo esperar, do seu afeto por eles.

CAPÍTULO 12
GRANDE REVOLTA NA JUDÉIA, ENQUANTO ARQUEIAU ESTAVA EM ROMA.
VARO, GOVERNADOR DA SÍRIA, REPRIME-A. FILIPE, IRMÃO DE ARQUEIAU,
VAI TAMBÉM A ROMA, NA ESPERANÇA DE OBTER UMA PARTE DO REINO.
OS JUDEUS MANDAM EMBAIXADORES A AUGUSTO PARA PEDIR-LHE QUE OS
DISPENSE DE OBEDECER AOS REIS E QUE OS REÚNA À SÍRIA. FALAM-LHE
CONTRA ARQUELAU E CONTRA A MEMÓRIA DE HERODES.

749.  Antes de Augusto dar por terminado este assunto, Maltacé, mãe de Arqueiau, caiu doente e morreu. Augusto soube por cartas de Varo, governador da Síria, que depois da partida de Arqueiau haviam surgido grandes perturbações na judéia; que ele para lá tinha ido logo, com suas tropas, que tinha feito castigar todos usar autores, e depois de ter dominado quase totalmente a sedição, tinha voltado a Antioquia. Essas cartas acrescentaram que ele tinha deixado uma legião em Jerusalém, para impedir que ainda se pudessem revoltar.
750. Assim, parecia que nada mais havia a temer, mas aconteceu justamente o contrário. Sabino, vendo-se fortalecido com tropas enviadas por Varo, procurou tornar-se senhor das fortalezas; não houve que sua incrível avareza o não fizesse empreender, para encontrar o dinheiro deixado por Herodes. Os judeus ficaram muito irritados; a festa de Pentecostes aproximava-se e eles vieram em grande número, de todos os lugares, não somente da Judéia, mas da Galiléia, da Iduméia, de Jerico e de além do Jordão, pelo desejo de se vingar Sabino, bem como por seu sentimento de piedade. Dividiram-se em três corpos, um dos quais ocupou o hipódromo, outro sitiou o Templo, dos lados do norte e do oriente; e o terceiro sitiou-o, do lado do ocidente, onde estava o palácio real. Rodearam assim os romanos de todos os lados e se preparavam para atacá-los. Sabino, atônito por vê-los tão animados e resolvidos a morrer ou a executar o seu empreendimento, escreveu a Varo pedido-lhe que viesse com urgência, para socorrer a legião que ele lá havia deixado, que, de outro modo, corria risco de ser inteiramente dizimada. Ele subiu depois à torre mais alta do castelo que Herodes tinha construído e à qual tinha dado o nome de Fazaela, em nome de Fazael, seu irmão, morto pelos partos, de onde fez sinal com a mão aos romanos, que dessem um ataque contra os judeus, querendo assim que, ao mesmo tempo em que ele não ousava confiar nos amigos, os outros se expusessem ao perigo em que sua avareza os havia lançado. Os romanos atacaram; o combate foi acirrado e vários judeus foram mortos. Mas essa perda não enfraqueceu o seu ardor. Uma parte subiu sobre os pórticos da última muralha do Templo, de onde lançaram uma grande quantidade de pedras sobre os romanos, uns com a mão, outros com fundas, outros atiraram também contra eles uma chuva de flechas e dardos; os que os romanos lhes lançavam de baixo, não chegavam a atingi-los. O combate durou assim, por muito tempo; por fim os romanos, não podendo mais tolerar que seus inimigos tivessem tal vantagem sobre eles, puseram fogo ao pórtico, sem que eles o percebessem e lançaram-lhe ainda grande quantidade de madeira. As chamas subiram logo até o telhado e como lá havia grande quantidade de piche, e de cera, com que se haviam fixado os ornamentos e as douraduras, ele incendiou-se facilmente. Aquelas soberbas cornijas ficaram logo reduzidas a cinzas e os que estavam em cima, surpreendidos pelo fogo, pereceram todos. Uns caíram de cima do teto, outros foram mortos pelos dardos que os romanos lhes lançavam, alguns, assustados pelo perigo e levados pelo desespero mataram-se ou se precipitaram nas chamas, e os que para se salvar queriam descer por onde haviam subido caíram nas mãos dos romanos que os mataram com grande facilidade, porque, não estando armados, sua coragem, por maior que fosse, tornava-lhe a resistência de todo inútil. Assim, nem um só conseguiu escapar, de todos quantos haviam subido ao teto do Templo. Os romanos então, apertando-se, passaram pelas chamas, para ir até onde o dinheiro consagrado por Deus estava guardado. Os soldados levaram-lhe uma parte e sabino parece ter recebido apenas quatrocentos talentos. Esse roubo do tesouro sagrado e a morte de vários dos mais ilustres judeus que pereceram naquele combate, deixaram os outros muito aflitos, mas não os fizeram perder a coragem. Um corpo dos mais valentes cercou o palácio real, ameaçou incendiá-lo e matar todos os que lá estavam, se não saíssem imediatamente; prometeu-lhes, se se retirassem, não lhes fazer mal algum, nem a Sabino, nem aos que estavam com ele, entre os quais, a maior parte dos gentis-homens da corte e Rufo e Grato que comandavam três mil homens dos mais valorosos soldados do exército de Herodes, cuja cavalaria obedecia a Rufo, que tinha também abraçado e fortificado de muito, o partido dos romanos. Os judeus prosseguindo sua empresa com grande ardor solaparam os muros e exortaram ao mesmo tempo os romanos a não se expor mais em seu intento de recobrar a liberdade. Sabino ter-se-ia retirado de boa vontade com os soldados que tinha consigo, mas, o mal que ele tinha feito aos judeus, impedia-lhe confiar em sua palavra; condições tão vantajosas eram-lhe suspeitas e ele esperava o socorro de Varo.
751. Estando as coisas neste pé, em Jerusalém, houve ainda diversos movimentos de agitação, em vários outros lugares da Judéia; uns a isso eram levados pela esperança do lucro, outros, pelo desejo de vingança.
Dois mil dos melhores homens que Herodes tivera, e que foram licenciados, reuniram-se e foram atacar as tropas do rei, comandadas por Aquiabe, sobrinho de Herodes; mas como eram todos velhos soldados e muito experimentados Aquiabe não ousou enfrentá-los no campo e retirou-se com os seus a dois lugares fortes e de difícil acesso.
Por outro lado judas, filho de Ezequias, chefe dos ladrões que Herodes outro-ra tinha trucidado com grande dificuldade, reuniu perto da cidade de Séforis, na Caliléia, um numeroso grupo de homens e entrou nas terras do rei, apoderou-se do arsenal, armou os seus, apanhou todo o dinheiro desse príncipe, que encontrou nos lugares vizinhos, saqueou tudo o que encontrou, tornou-se temível a todo o país; sua audácia o levava mesmo a aspirar à coroa, não que ele julgasse ter as qualidades que o poderiam elevar ao supremo cargo de honra, mas porque a licença de fazer o mal, dava-lhe a liberdade de tudo empreender.
Um certo Simão, de que Herodes outrora tinham usado para assuntos importantes e cuja força, tamanho e boa aparência faziam sobressair entre os outros, teve a coragem de pôr a coroa na própria cabeça. Não somente um grande número de gente seguiu-o, mas a loucura do povo, levou-o a saudá-lo como rei e ele tinha tão boa opinião de si mesmo, que se persuadiu de que nenhum outro melhor do que ele merecia mesmo sê-lo. A primeira coisa que fez foi pôr fogo no palácio real de Jerico. Queimou depois vários outros, cujas riquezas deu aos seus, e estava para empreender coisas importantes, quando apareceram os obstáculos. Grato, que comandava as tropas do rei e que, como vimos, se havia juntado aos romanos, veio contra ele e depois de um grande combate onde os de Simão mostraram muito mais coragem do que ordem e ciência na guerra, foram derrotados e ele mesmo, foi aprisionado num lugar estreito, por onde pensava poder salvar-se e Grato fez cortar-lhe a cabeça.
Um grupo de outros homens, semelhante a este, que tinha seguido a Simão, queimou também nesse mesmo tempo o palácio real de Amata, situado nas margens do Jordão e via-se reinar então tal furor em toda a Judéia, quer pela falta do rei, cuja virtude mantivesse o povo dentro do seu dever, quer porque os romanos, em vez de apaziguar e acalmar o mal, reprimindo os sediciosos, os irritavam ainda mais, com sua maneira insolente de agir e por sua insaciável ambição e avareza.
Um certo Atronjo, cuja origem era tão baixa, que ele tinha sido antes um simples pastor e tinha por único mérito ser muito forte e muito grande de corpo, chegou ao cúmulo do atrevimento, de querer também fazer-se rei e comprar com preço da própria vida, o poder de fazer mal a todos. Ele tinha quatro irmãos, grandes e valentes como ele, que comandavam também um grupo de soldados e se persuadiam de que, para se chegar ao poder, era suficiente ter a coragem de tudo empreender. Uma grande multidão de gente se uniu a esses cinco irmãos e Atronjo servia-se de seus irmãos como de seus lugar-tenentes para fazer incursões de todos os lados enquanto ele com a coroa na cabeça orientava os negócios e dava as ordens com soberana autoridade. Assim, ficou por muito tempo nessa condição e podia-se dizer de algum modo que ele não tinha em vão o nome de rei, pois tudo o que ele ordenava era feito e executado. Seus maiores esforços foram contra os romanos e contra as tropas do rei, que igualmente ele odiava, uns por causa dos males que faziam, outros por causa do que haviam feito, sob o reinado de Herodes. Matou a muitos e fazia-lhes dia a dia uma guerra mais cruel, quer pela esperança de enriquecer, quer porque as vantagens que obtinha sobre eles inflamava-lhe a coragem. Um grupo de romanos que levavam trigos e armas ao campo, tendo caído numa emboscada que ele lhes armara perto de Emaús, aquele que os comandava e quarenta dos mais valentes, foram mortos a flechadas e o resto, julgava-se perdido, quando Grato sobreveio com tropas do rei e os salvou; mas os mortos ficaram em poder dos revoltosos. Os cinco irmãos continuaram por muito tempo a incomodar, desse modo, aos romanos, em diversos combates e a aumentar os males de sua própria nação. Mas, por fim, um deles foi vencido e preso por Grato e um outro foi preso por Ptolomeu. Atronjo caiu também depois em poder de Arquelau e algum tempo depois, o último de todos, assustado com a desgraça de seus irmãos, não tendo mais esperança de salvação porque o cansaço e as doenças tinham arruinado seus soldados, entregou-se, sob palavra, ao tio de Arquelau.
Em tão estranha confusão, que enchia toda a Judéia de latrocínio, apenas alguém podia ajuntar um grupo de sediciosos, tomava logo o nome de rei. O país estava estraçalhado, e a menor parte do mal caiu sobre os romanos, porque os judeus, em vez de se reunir, para juntos voltarem contra eles suas armas, dividiam-se entre esses sediciosos e matavam-se uns aos outros.
752. Varo, apenas soube pelas cartas de Sabino o que se passava e o perigo que corria a legião sitiada em Jerusalém, tomou as outras que estavam na Síria, com quatro companhias de cavalaria e as tropas auxiliares que ele tirou dos reis e tetrarcas, para ir urgentemente em socorro dos seus e marcou o encontro de todas as suas tropas em Tolemaida. Os de Berita aumentaram-nas com mil e quinhentos homens, quando passaram pela sua cidade; Aretas, rei de Petra, que pelo ódio que tinha a Herodes, tinha feito aliança com os romanos, mandou-lhe também um corpo considerável de cavalaria e de infantaria. Depois que Varo reuniu assim em Tolemaida, todo o seu exército, deu uma parte dele ao seu filho, ajudado por um de seus amigos, com ordem de entrar na Galiléia, que está perto de Tolemaida. Ele cumpriu essa ordem, pôs em fuga todos os que quiseram oferecer resistência, tomou a cidade de Séforis, vendeu em leilão todos os seus habitantes, incendiou-a e a reduziu a cinzas. Varo, por outro lado marchou em pessoa para Samaria com o resto do exército, sem nada empreender contra aquela cidade, porque ela não tomara parte na revolta e acampou numa aldeia chamada Aro, que pertencia a Ptolomeu. Os árabes incendiaram-na, porque seu ódio por Herodes era tão grande que se estendia até aos seus amigos. O exército avançou depois para Safo e embora a praça fosse forte, os árabes a tomaram, saquearam-na e a incendiaram como as outras. Não perdoaram a nada do que encontraram no seu caminho e passaram tudo a ferro e fogo. Quanto à cidade de Emaús que os habitantes tinham abandonado, foi por ordem de Varo incendiada, como vingança, porque vários romanos lá haviam sido mortos. Logo que os judeus que cercavam a legião romana souberam que Varo se aproximava com seu exército, levantaram o cerco e então os sitiados, os maiorais da cidade e José, neto do rei Herodes, compareceram à sua presença; mas Sabino retirou-se secretamente para o mar. Varo repreendeu severamente os habitantes de Jerusalém e eles desculparam-se, protestando que de nenhum modo haviam participado do empreendimento, mas que tudo fora feito pelo povo que tinha vindo de todas as partes para a solenidade da festa; e muito ao contrário, em vez de terem eles sitiado os romanos, eles mesmos haviam sido cercados por esse grande número de estrangeiros.
Varo mandou em seguida uma parte de seu exército para uma cuidadosa indagação em todo o reino procurando os autores da revolta; dois mil foram crucificados e aos demais ele deixou livres. Como ele julgava não haver mais necessidade de tropas e estava desgostoso com os males, que o desejo de enriquecer tinha levado as suas a proceder contra suas ordens, ele as queria mandar de volta, quando soube que dez mil judeus se haviam reunido. Marchou rapidamente para dar-lhes combate, mas eles não ousaram esperar e se entregaram a Aquiabe. Varo contentou-se de mandar os chefes a Augusto que perdoou a maior parte deles e mandou castigar somente alguns dos parentes de Herodes, que ele julgou merecer, porque nem a consideração do sangue, nem da justiça não os havia podido manter no cumprimento do dever. Depois que Varo apaziguou todas essas desordens, e restabeleceu a calma na Judéia, deixou como guarnição na fortaleza de Jerusalém a mesma legião que já lá estava antes e retirou-se para Antioquia.
753. Enquanto as coisas deste modo se passavam na (udéia, Arquelau encontrou um novo obstáculo às suas pretensões, pelo motivo que passo a dizer. Cinqüenta embaixadores dos judeus vieram com permissão de Varo procurar Augusto, para pedir-lhe que lhes permitisse viver segundo suas leis; e mais de oito mil judeus, que moravam em Roma, uniram-se a eles nessa petição. O imperador, para esse fim, reuniu uma grande assembléia de seus amigos dos mais ilustres romanos no templo de Apoio, que tinha feito construir com ingentes despesas. Esses embaixadores, seguidos pelos outros judeus, lá se apresentaram e Arquelau também compareceu com seus amigos; mas seus parentes não sabiam que partido tomar, porque de um lado eles se odiavam, e por outro, tinham vergonha de parecer favorecer, na presença do imperador, aos inimigos de um príncipe de seu sangue. Filipe, irmão de Arquelau, que Varo muito estimava, veio também da Síria a seu conselho, com o pretexto de ajudar seu irmão, mas na verdade com a esperança de que se esses embaixadores obtivessem o que desejavam e o reino fosse dividido entre os filhos de Herodes, ele lhe pudesse também obter uma parte.
Os embaixadores falaram primeiro e disseram que não havia leis que Herodes não tivesse violado, com sua conduta injusta e criminosa; que ele fora rei só de nome, pois jamais tirano algum havia sido tão cruel, não se contentando de empregar todos os meios de que os outros se serviam para a desgraça de seus súditos, ele tinha inventado outros novos, que seria inútil falar-se do grande número de judeus que ele tinha feito morrer, pois a condição daqueles aos quais não tinham tirado à vida, era pior do que a dos mortos, quer pelo temor contínuo que sua desumanidade lhes causava, quer porque ele os despojava de todos os seus bens. Que ele tinha construído e embelezado as cidades fora de seu território, apenas para arruinar as do seu reino com horríveis impostos e exações. Que tendo encontrado a Judéia florescente e na abundância, ele a havia reduzido à sua miséria anterior. Que ele tinha feito morrer sem motivo, várias pessoas de posição, a fim de se apoderar de seus bens e que os havia arrebatado também àqueles aos quais não tinha tirado a vida. Que além de todos os impostos comuns, de que ninguém estava isento, era-se ainda obrigado a dar grandes somas, para satisfazer à ambição de seus amigos e dos seus cortesãos e para se livrar das injustas vexações de seus oficiais. Que eles não falavam das moças que ele havia violado e das mulheres de condição, às quais ele havia feito o mesmo ultraje, porque o único alívio que elas poderiam ter em sua extrema dor era que tudo cairia logo no esquecimento. Que enfim, se fora possível que um animal feroz, como ele, tivesse o governo de um reino, não haveria quem tratasse os homens com mais crueldade, do que esse príncipe os havia tratado, pois não se via em história alguma, algo comparável aos males que ele lhes havia causado; e assim, na suposição que faziam, de que aquele que o substituísse não usasse de um proceder diferente, não faria dificuldade em reconhecer a Arquelau como rei, que tinham em consideração a ele honrado a memória de seu pai, com um luto público e que não havia serviços que não estivessem dispostos a lhe prestar para ganhar-lhe a afeição; mas que ele, ao contrário, como se temesse que se duvidasse de que era filho de Herodes, tinha logo manifestado que opinião se devia ter dele, pois, sem esperar que o imperador o tivesse confirmado no reino e quando toda sua fortuna dependia ainda de sua vontade, ele tinha dado aos seus novos súditos uma tão bela prova de sua virtude, de sua moderação e de sua justiça, começando por fazer degolar no Templo em vez de vítimas, três mil homens da mesma nação; que se podia julgar por essa ação tão detestável se eles faziam mal em odiar um homem, que depois de tal crime, os acusava de sedição e de crimes de lesa-majestade. Os embaixadores terminaram suplicando a Augusto que mudasse a forma de seu governo, não os sujeitando mais a reis, mas anexando-os à Síria para dependerem somente daqueles aos quais ele desse o governo e que então veriam se eles eram mesmo sediciosos e se não saberiam obedecer aos que tinham o legítimo poder de governar.
Depois que os embaixadores assim falaram, Nicolau tomou a defesa de Herodes e de Arquelau. Disse que, quanto ao primeiro, era estranho que ninguém o tivesse acusado durante a vida — quando se podia esperar da justiça do imperador o castigo de seus crimes, se fossem verdadeiros — e se tentasse, depois de sua morte, desonrá-lo à sua memória. Quanto a Arquelau, dever-se-ia considerar que a ação de que o censuravam, era somente devida à insolência e à revolta dos que o haviam obrigado a castigá-los, quando calcando aos pés todas as leis e o respeito que lhe deviam, tinham matado a golpes de espada e a pedradas os que ele havia mandado para impedir que continuassem a promover a agitação. Nicolau terminou seu discurso acusando-os de serem facciosos, sempre prontos a se revoltar, porque não se podiam decidir a obedecer às leis e à justiça, mas queriam ser senhores e dominar.


CAPÍTULO 13
AUGUSTO CONFIRMA O TESTAMENTO DE HERODES E ENTREGA AOS SEUS FILHOS O QUE ELE LHES HAVIA LEGADO.

754. Depois desta audiência de Augusto, dissolveu-se a assembléia e alguns dias depois, ele concedeu a Arquelau não o reino da Judéia inteiro, mas a metade, com o título de Etnarquia e prometeu fazê-lo rei, quando disso se tivesse tornado digno, pela sua virtude. Dividiu a outra metade entre Filipe e Antipas, filhos também de Herodes, que disputavam o trono a Arquelau. Antipas recebeu a Galiléia com a região que está além do rio, cuja renda era de mais ou menos duzentos talentos; Filipe recebeu a Batanéia, a Traconítida e a Auranita com uma parte do que tinham pertencido a Zenódoro, cuja renda chegava a cem talentos. Arquelau recebeu a Judéia, a Iduméia e Samaria, à qual Augusto perdoou a quarta parte dos impostos, que antes ela pagava, porque tinha se conservado pacífica, quando as outras se haviam revoltado. A Torre de Estratão, Sebaste, Jope e Jerusalém estavam nesta partilha de Arquelau. Mas Gaza, Gadara e Ipom, porque viviam segundo os costumes dos gregos, Augusto separou-as do reino, para anexá-las à Síria e o rendimento anual de Arquelau era de seiscentos talentos.
Vemos assim o que os filhos de Herodes herdaram de seu pai. A Salomé, além das cidades de Jamnia, Azoto, Fazaelida e cinco mil peças de prata que Herodes lhe havia deixado, Augusto deu ainda um palácio em Ascalom. Sua renda era de sessenta talentos e ela tinha sua moradia no país, que estava sob o governo de Arquelau. O imperador confirmou também aos outros parentes de Herodes os legados feitos por seu testamento; e além do que ele havia deixado às suas duas filhas, que ainda não se tinham casado, ele lhes deu liberalmente a cada uma, duzentas e cinqüenta mil peças de prata; e fê-las desposar os dois filhos de Feroras. A magnificência desse grande príncipe foi ainda muito além; pois ele deu aos filhos de Herodes mil e quinhentos talentos, que ele lhe havia legado e contentou-se de reter uma parte muito pequena, de tantos vasos preciosos, que também ele lhe havia deixado, não pelo seu valor, mas para mostrar que ele queria conservar a recordação de um rei, que ele tinha estimado.

CAPÍTULO 14
SOBRE UM IMPOSTOR QUE SE DIZIA SER ALEXANDRE, FILHO DE HERODES. AUGUSTO DESCOBRE A FRAUDE E O MANDA PARA A PRISÃO.

755. Nesse mesmo tempo, quando Augusto terminava a distribuição dos bens deixados por Herodes em seu testamento, um judeu, educado em Sidom, em casa de um liberto de um cidadão romano, tentou apoderar-se do trono, pela semelhança que tinha, com Alexandre, que o rei Herodes, seu pai, tinha feito morrer; essa semelhança era tanta, que aqueles que haviam&#39;conhecido o jovem príncipe estavam persuadidos de que era ele mesmo. Para poder enganar, ele serviu-se de um homem de sua tribo, que tinha um conhecimento particular de tudo o que se havia passado na família real e que não sendo menos astuto do que mau, era muito capaz de suscitar aquela perturbação. Assim, ajudado por ele, apresentou-se como Alexandre, que um daqueles aos quais Herodes havia encarregado de matar, bem como a Aristóbulo, seu irmão, os tinha salvo e havia posto outros em seu lugar. Esse homem, ensoberbecido pelas esperanças com que se iludia, tentou enganar aos outros, como enganava a si mesmo. Foi a Creta, persuadiu ali todos os judeus com os quais falou, tirou-lhes dinheiro e depois passou à ilha de Meios, onde acreditando que ele era sangue real, deram-lhe ainda muita atenção. Ele imaginou então mais do que nunca que poderia conseguir o seu desejo; prometeu recompensar aos que o ajudassem, e, acompanhado por eles, determinou ir a Roma. Quando pôs o pé em terra, em Puteolos, todos os judeus que lá viviam e particularmente os que Herodes havia beneficiado, apressaram-se e ir visitá-lo e já o consideravam como seu rei, de que não há motivo de se admirar, pois os homens facilmente acreditam nas coisas que lhes são agradáveis, e era difícil não se ser enganado por tão perfeita semelhança. Mesmo os que tinham vivido familiarmente com Alexandre, duvidavam muito pouco de que não fosse ele mesmo e não temiam afirmá-lo com juramento. Quando esta notícia se divulgou por Roma, todos os judeus que lá moravam, em grande número, foram dar graças a Deus, pela felicidade inesperada, ante esse impostor, e suas aclamações, misturadas com os votos que faziam pela sua prosperidade, demonstravam qual o seu respeito pela grandeza de sua origem, da parte da rainha Mariana, de quem julgavam que ele era filho. Encontraram-no numa liteira, com um soberbo séquito, porque os judeus dos lugares por onde ele passava, nada poupavam para suas despesas. Embora tivessem falado a Augusto desse pretenso rei do judeus, ele não quis acreditar, porque conhecia muito bem a habilidade de Herodes, para crer que ele se tivesse deixado enganar num assunto tão importante. No entanto, como não queria dizer de todo que não era verdade, ordenou a um de seus libertos de nome Celado que conhecia Alexandre muito bem e Aristóbulo, seu irmão, que lhe trouxesse aquele homem. Ele foi procurá-lo e deixou-se enganar, como os demais. Mas Augusto não se iludiu, porque a todos sobrepujava em inteligência e, aquela semelhança, embora perfeita, não impediu que ele notasse alguma diferença, observando atentamente o impostor, quer, porque o trabalho lhe produzira calos nas mãos, pois sempre antes ele vivera em condição humilde, quer porque nele não se via aquela graça, que a nobreza do sangue e a educação dão aos que são criados com esmero e muito cuidado. Assim, não duvidando de que o mestre e o discípulo agiam de acordo para enganar a todos, ele perguntou àquele falso Alexandre, que havia acontecido ao seu irmão Aristóbulo e porque ele não viera, como ele, pedir para ser tratado segundo o que tinham motivo de pretender. Ele respondeu-lhe que tinha ficado na ilha de Chipre, para não se expor ao perigo do mar, a fim de que, se ele morresse, ficasse pelo menos um dos filhos de Mariana. Tendo falado assim, tão ousadamente, o companheiro, que era o autor do embuste, confirmou o que ele acabava de dizer. Mas Augusto, chamou à parte este moço e disse-lhe: &quot;Contanto que não continueis a procurar enganar-me, como aos demais, eu vos prometo como recompensa salvar-vos a vida. Dizei-me, portanto, quem sois e quem vos pôs na idéia uma proeza tão arriscada, pois, um objetivo tão grande e tão ousado, está acima de vossa idade.&quot; Estas palavras do imperador espantaram de tal modo aquele miserável, que ele confessou toda a comédia e disse-lhe quem a tinha imaginado e de que modo tinha sido executada. Augusto, para manter o que tinha prometido, contentou-se de mandá-lo à prisão, nas galeras, para o que ele servia muito bem, pois era forte e robusto, e mandou prender o outro que o havia induzido à falcatrua. Quanto aos judeus da Ilha de Meios, ficaram quietos pelo dinheiro que lhes haviam dado e empregado tão mal para honrar a esse falso Alexandre e um fim tão vergonhoso foi digno de tão temerária empresa.

CAPÍTULO 15
ARQUELAU DESPOSA GLAFIRA, VIÚVA DE ALEXANDRE, SEU IRMÃO.
AUGUSTO, ANTE AS QUEIXAS QUE OS JUDEUS FAZEM DELE O RELEGA PARA
VIENA, NAS GÁLIAS, E UNE À SÍRIA OS TERRITÓRIOS QUE ELE POSSUÍA.
MORTE DE GLAFIRA.

756.  Depois quer Arquelau voltou à judéia e tomou posse de sua Etnarquia, tirou o sumo sacerdócio de Joazar, filho de Boeto, que ele acusava de ter favorecido o partido dos sediciosos e a deu a Eleazar, irmão de Joazar. Reconstruiu depois magnificamente o palácio de Jerico, fez levar para uma planície de palmeiras que tinha feito abaixo, a metade da água que passava na aldeia de Neara; construiu uma vila à qual deu o nome de Arquelaide e não teve receio de violar as leis de nossos pais, desposando Glafira, filha do rei Arquelau, viúva de Alexandre seu irmão, do qual ela tivera filhos. Eleazar não exerceu o sumo sacerdócio por muito tempo, porque Arquelau lha tirou para dá-la a Jesus, filho de Sias.
757.  No décimo ano do governo desse príncipe, os mais ilustres dos judeus e dos samaritanos, não podendo tolerar por mais tempo seu domínio tirânico, acusaram-no perante Augusto e o fizeram tão ousadamente, expondo-lhe suas queixas, quanto sabiam que ele lhe havia expressamente recomendado governar seus súditos com bondade e justiça. Augusto irritou-se de tal modo contra ele, que, sem se lhe dignar escrever, disse a Arquelau, seu representante em Roma, que partisse naquela mesma hora para trazê-lo a Roma. Este obedeceu e chegando à Judéia, encontrou seu senhor num grande banquete, que ele dava aos amigos. Expôs-lhe sua comissão e o acompanhou a Roma, onde depois que Augusto ouviu seus acusadores e sua defesa, confiscou-lhe tudo o que ele tinha de dinheiro e o mandou exilado a Viena, cidade de Gálias.
758. O soberano, antes de receber ordem de vir a Roma, ter com Augusto, tivera um sonho, que ele contara aos amigos. Parecia-lhe ver dez espigas de trigo maduras e cheias de grãos e os bois as comiam. Despertando, pensou não deixar de dar importância a esse sonho e mandou buscar os mais peritos na interpretação dos mesmos; mas, como eles não estavam de acordo, um dentre eles, de nome Simão, essênio, rogou-lhe que perdoasse, se tomava a liberdade de lhe dar a explicação e disse-lhe em seguida que aquele sonho pressagiava uma mudança de fortuna, que não lhe seria favorável, porque os bois são animais que passam a vida num trabalho contínuo e lavrando a terra, fazem-na mudar de lugar e de forma. As dez espigas significavam dez anos, porque não se passa um ano, que a terra não produza novos grãos, numa revolução contínua: e assim, no fim de dez anos terminaria também o seu governo. Cinco dias depois que Simão assim lhe dera a explicação do sonho, o seu representante de Roma trouxe-lhe a ordem de acompanhá-lo até Augusto.
A precisa Glafira, sua mulher, também teve um sonho. Nós sabemos como ela havia desposado em primeiras núpcias a Alexandre, filho de Herodes. Depois de sua morte, o rei Arquelau, seu pai, casou-a com Juba, rei da Mauritânia, que morreu também, e, ficando viúva, voltou à Capadócia, para junto de seu pai. Arquelau, então o etnarca, concebeu por ela uma paixão tão violenta, que repudiou Mariana, sua mulher, e a desposou. Estando com ele, teve ela um sonho. Parecia-lhe ver Alexandre, seu primeiro marido e transbordando de alegria, ela queria abraçá-lo, mas ele dissera-lhe estas palavras de recriminação: &quot;Vós bem mostrastes que se tem razão de crer que não se deve confiar nas mulheres, pois, tendo-me sido dada virgem, e tendo tido filhos de vós, o desejo de passar a segundas núpcias vos fez esquecer o amor, que me deveríeis conservar inviolável; e não vos contentado de me ter feito tal ultraje, não tivestes vergonha de tomar um terceiro marido e de voltar imprudentemente à minha família, desposando Arquelau, meu irmão. Mas meu afeto não será mais constante do que o vosso; não vos esquecerei com me esquecestes; e, tirando-vos de mim, como uma coisa que me pertence, eu vos livrarei da infâmia na qual viveis.&quot; A princesa contou o sonho a algumas de suas amigas e morreu cinco dias depois.
Julguei que não era fora de propósito narrar isto a respeito de reis e grandes, porque pode servir não somente de exemplo mas como prova da imortalidade da alma e da divina providência. E se alguém achar que estas coisas são inacreditáveis pode conservar a sua opinião, sem se admirar de que outras a elas prestem fé, e, se lhes fizerem impressão, sirvam para incitá-los à virtude. Quanto aos territórios que Arquelau possuía, Augusto anexou-os à Síria e deu a Cirênio que fora cônsul a incumbência de fazer o inventário e vender o palácio de Arquelau.

























Livro Décimo Oitavo

CAPÍTULO 1
JUDAS E SADOQUE APROVEITAM A OCASIÃO DO INVENTÁRIO QUE SE FAZIA
NA JUDÉIA PARA CONSTITUIR UMA QUARTA SEITA E SUSCITAM UMA
GRANDE GUERRA CIVIL.

759. Cirênio, senador romano, homem de grandes méritos e que depois de haver passado por todos os degraus da honra fora elevado à dignidade de cônsul, foi, como dissemos, designado por Augusto para governar a Síria, com ordem de fazer o inventário do que havia em seu território. Copônio, que comandava o corpo de cavalaria, foi mandado com ele para exercer domínio sobre os judeus. Mas como a Judéia acabara de ser anexada à Síria, foi Cirênio, e não ele, quem fez o inventário e se apoderou de todo o dinheiro que pertencia a Arquelau.
Os judeus, de início, não toleravam aquele inventário, mas Joazar, sumo sacerdote, filho de Boeto, persuadiu-os a não se obstinarem na oposição. Algum tempo depois, um certo Judas, gaulanita, da cidade de Gamala, ajudado por um fariseu de nome Sadoque, incitou o povo a se rebelar, dizendo ser o inventário um claro indício de que os queriam reduzir à escravidão e, para exortá-los a manter a sua liberdade, assegurou-lhes que, se o resultado de sua empresa fosse feliz, eles desfrutariam gloriosamente tanto o descanso quanto os seus bens, mas não deviam esperar que Deus lhes fosse favorável se eles não fizessem, nos que lhes concernia, tudo o que fosse possível.
O povo ficou tão impressionado com essas palavras que imediatamente se preparou para a rebelião. É inacreditável a perturbação que esses dois homens suscitaram por todos os lados. Assassínios e latrocínios eram praticados. Saqueava-se e roubava-se, tanto a amigos quanto a inimigos, indiferentemente, sob o pretexto de se estar defendendo a liberdade pública. A raça desses sediciosos matava as pessoas mais ilustres e ricas pelo desejo de enriquecer, chegando a tal excesso de furor que uma grande carestia sobreveio, mas isso não impediu que eles atacassem as cidades e derramassem o sangue dos próprios compatriotas. Viu-se o fogo dessa cruel guerra civil levar as suas chamas até o Templo de Deus, tão perigoso é desejar subverter as leis e os costumes do próprio país.
A vaidade que tiveram Judas e Sadoque de fundar uma quarta seita e atrair a eles todos os que queriam as perturbações e a agitação foi a causa desse grande mal, que não perturbou somente toda a Judéia, mas lançou a semente de muitos males pelos quais depois ela foi amargurada. A esse respeito julguei conveniente dizer alguma coisa das máximas dessa seita.

CAPÍTULO 2
SOBRE AS QUATRO SEITAS QUE HAVIA ENTRE OS JUDEUS.
760. Entre os judeus, os que faziam profissão particular de sabedoria estavam, há vários séculos, divididos em três seitas: os essênios, os saduceus e os fariseus, das quais, embora eu já tenha falado no segundo livro da Guerra dos judeus, penso que devo dizer aqui também alguma coisa.
A maneira de viver dos fariseus não é fácil nem cheia de delícias: é simples. Eles se apegam obstinadamente ao que se convencem que devem abraçar. Honram de tal modo os velhos que não ousam nem mesmo contradizê-los. Atribuem ao destino tudo o que acontece, sem, todavia, tirar ao homem o poder de consentir. De sorte que, sendo tudo feito por ordem de Deus, depende, no entanto, da nossa vontade entregarmo-nos à virtude ou ao vício. Eles julgam que as almas são imortais, julgadas em um outro mundo e recompensadas ou castigadas segundo foram neste — virtuosas ou viciosas — e que umas são eternamente retidas prisioneiras nessa outra vida, e outras retornam a esta. Eles granjearam, por essa crença, tão grande autoridade entre o povo que este segue os seus sentimentos em tudo o que se refere ao culto de Deus e às orações solenes que lhe são feitas. Assim, cidades inteiras dão testemunhos valiosos de sua virtude, de sua maneira de viver e de seus discursos.
A opinião dos saduceus é que as almas morrem com os corpos e que a única coisa que somos obrigados a fazer é observar a lei, sendo um ato de virtude não tentar exceder em sabedoria os que a ensinam. Os adeptos dessa seita são em pequeno número, mas ela é composta de pessoas da mais alta condição. Quase sempre, nada se faz segundo o seu parecer, porque quando eles são elevados aos cargos e às honras, muitas vezes contra a própria vontade, são obrigados a se conformar com o proceder dos fariseus, pois o povo não permitiria qualquer oposição a estes.
Os essênios, a terceira seita, atribuem e entregam todas as coisas, sem exceção, à providência de Deus. Crêem que as almas são imortais, acham que se deve fazer todo o possível para praticar a justiça e se contentam em enviar as suas ofertas ao Templo, sem oferecer lá os sacrifícios, porque o fazem em particular, com cerimônias ainda maiores. Os seus costumes são irreprocháveis, e a sua única ocupação é cultivar a terra. Sua virtude é tão admirável que supera em muito a dos gregos e de outras nações, porque eles fazem disso todo o seu empenho e preocupação e a ela se aplicam continuamente. Possuem todos os bens em comum, sem que os ricos tenham maior parte que os pobres. O seu número é superior a quatro mil. Não têm mulheres nem criados, porque estão convencidos de que as mulheres não contribuem para o descanso da vida. Quanto aos criados, consideram uma ofensa à natureza, que fez todos os homens iguais, querer sujeitá-los. Assim, eles se servem uns dos outros e escolhem homens de bem da ordem dos sacerdotes, que recebem tudo o que eles recolhem de seu trabalho e têm o cuidado de fornecer alimento a todos. Essa maneira de viver é quase igual à dos que chamamos plistes e vivem entre os dácios.
Judas, de quem acabamos de falar, foi o fundador da quarta seita. Está em tudo de acordo com a dos fariseus, exceto que aqueles que fazem profissão para adotá-la afirmam que há um só Deus, ao qual se deve reconhecer por Senhor e Rei. Eles têm um amor tão ardente pela liberdade que não há tormen-tos que não sofram ou que não deixem sofrer as pessoas mais caras antes de atribuir a quem quer que seja o nome de senhor e mestre. A esse respeito não me delongarei mais, porque é coisa conhecida de tantas pessoas que, em vez de temer que não se preste fé ao que digo, tenho somente o receio de não poder expressar até que ponto vai a sua incrível paciência e o seu desprezo pela dor. Mas essa invencível firmeza aumentou ainda pela maneira ultrajosa como Géssio Floro, governador da Judéia, tratou a nossa nação e a levou por fim a se revoltar contra os romanos.
 

CAPÍTULO 3
MORTE DE SALOMÉ, IRMÃ DO REI HERODES, O GRANDE. MORTE DE AUGUSTO.
TIBÉRIO SUCEDE-O NO GOVERNO DO IMPÉRIO. HERODES, O TETRARCA,
CONSTRÓI EM HONRA DE TIBÉRIO A CIDADE DE TIBERÍADES. AGITAÇÕES
ENTRE OS PARTOS E NA ARMÊNIA. OUTRAS PERTURBAÇÕES NO REINO DE
COMAGENA. GERMÂNICO É ENVIADO DE ROMA AO ORIENTE PARA
CONSOLIDAR ALI A AUTORIDADE DO IMPÉRIO, E É ENVENENADO POR PISÃO.

761.  Depois que Cirênio vendeu os bens confiscados a Arquelau e terminou o inventário, que se realizou trinta e sete anos depois da batalha de Áccio, ganha por Augusto contra Antônio, os judeus se rebelaram contra Joazar, sumo sacerdote, e ele tirou-lhe o cargo e deu-o Anano, filho de Sete.
762.  Vimos como Herodes e Filipe foram mantidos por Augusto nas tetrarquias que o rei Herodes, o Grande, seu pai, lhes deixou em seu testamento. Esses dois príncipes tudo fizeram para se estabelecer o mais vantajosamente possível. Herodes cercou Seforis com muralhas, tornou-a a principal e a mais forte de todas as praças da Galileia. Fortificou também a cidade de Betaranfta e a chamou de Julíada, em honra à imperatriz. Filipe, por sua vez, embelezou muito Paneada, que está perto da nascente do Jordão, e a chamou Cesaréia. Aumentou também de tal modo a aldeia de Betsaida, situada às margens do lago de Genesaré, que se poderia tomá-la por uma cidade. Povoou-a, enriqueceu-a e a chamou Julíada, em honra a Júlia, filha de Augusto.
763.  Copônio governava a Judéia, quando chegou o dia da festa dos Pães Asmos, a que chamamos Páscoa. Os sacerdotes, segundo o costume, abriram as portas do Templo à meia-noite. Então, alguns samaritanos entraram secretamente em Jerusalém e espalharam ossos de homens mortos pelas galerias e em todo o resto do Templo, o que fez os sacerdotes serem mais cuidadosos para o futuro.
764. Pouco depois, Copônio voltou a Roma. Foi substituído por Marco Ambívio no governo da Judéia. Ao mesmo tempo, morreu Salomé, irmã do rei Herodes, o Grande. Ela deixou à Júlia,* além de sua toparquia, Jamnia, Fazaélida, situada no campo, e Arquelaide, onde havia uma imensa plantação de palmeiras que produziam excelentes frutos.

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* Esposa de Augusto.

765.  Anio Rufo sucedeu a Ambívio, e foi durante o seu governo que morreu César Augusto, na idade de setenta e sete anos. Esse príncipe, que foi o segundo imperador dos romanos, reinou cinqüenta e sete anos, seis meses e dois dias, incluindo-se os quatorze anos que reinou com Antônio.
766.  Tibério Nero, filho de Lívia, sua mulher, substituiu-o no império e enviou Valério Grato à Judéia como sucessor de Rufo, tornando-se aquele o seu quinto governador. Ele tirou o sumo sacerdócio a Anano e deu-o a Ismael, filho de Fabo. Mas logo depois Ismael foi deposto, e em seu lugar foi colocado Eleazar, filho de Anano. Um ano depois, depuseram também a este, que foi substituído por Simão, filho de Camite. Ele também só ocupou o cargo durante um ano, sendo obrigado a resigná-lo em favor de José, cognominado Caifás. Grato, após ter durante onze anos governado a Judéia, voltou a Roma, e Pôncio Pilatos sucedeu-o.
767.  Herodes, o tetrarca, conquistara as boas graças do imperador Tibério. Construiu uma cidade à qual, por causa dele, deu o nome de Tiberíades. Escolheu para esse fim um dos territórios mais férteis de toda a Galiléia, que está à beira do lago de Genesaré e muito próximo das águas quentes de Emaús. Povoou essa nova cidade em parte com estrangeiros e em parte com galileus, alguns dos quais foram obrigados a se estabelecer ali, mas alguns nobres para ela se dirigiram de boa vontade.
Esse príncipe tinha tanto desejo de tornar a cidade bem povoada que recebeu até mesmo pessoas de baixa condição, provenientes de todas as partes, e dentre as quais algumas tinham a aparência de escravos. Concedeu-lhes grandes privilégios e fez benefícios a muitos, dando terras a uns e casas a outros, para obrigá-los a não se afastar dali, como de fato havia motivo para temer, se não o fizesse, porque o lugar onde a cidade se situa está cheio de sepulcros, o que é tão contrário às nossas leis que passa por impuro durante sete dias aquele que tiver de permanecer em semelhante lugar.
768.  Nesse mesmo tempo, Fraate, rei dos partos, foi morto à traição por Fraatace, seu filho, do modo que vou narrar: Fraate tinha vários filhos legítimos, mas ficou perdidamente enamorado de uma criada italiana, que o imperador lhe havia mandado, entre outros presentes, e que era na verdade muito formosa. Considerou-a de início uma concubina, mas a paixão crescia sempre e, como já tivera com ela um filho — Fraatace —, desposou-a. Ela era poderosa e tinha ascendência sobre o espírito dele, e por isso concebeu a idéia de entregar o império dos partos nas mãos do filho. Mas os seus esforços só teriam efeito se os filhos legítimos de Fraate fossem afastados. Ela então o persuadiu a enviá-los como reféns a Roma. O soberano, que nada lhe podia recusar, atendeu-a.
Assim, Fraatace ficou sozinho com ela. Esse detestável filho tinha grande desejo de reinar e, não esperando nem mesmo a morte do pai, mandou matá-lo, a conselho de sua mãe, com a qual, sabia-se, ele vivia de maneira abominável. O horror causado por esse parricídio e pelo incesto atraiu sobre ele um ódio geral, e ele foi expulso, morrendo antes de assumir a sua criminosa dominação.
A nobreza então julgava que o Estado só se poderia manter sob o governo de um rei e que esse rei deveria ser da família dos arsácidas. Considerando a família de Fraate conspurcada pela horrível impudicícia daquela italiana, escolheram Herodes, que era de sangue real, para elevá-lo ao trono e enviou embaixadores a ele. Mas esse príncipe era tão colérico, tão cruel e de tão difícil acesso que o povo não pôde tolerá-lo. Conspiraram contra ele. Como os partos tinham o costume de levar consigo espadas, ele foi morto num banquete ou, como outros dizem, numa caçada.
Assim, os partos, não tendo mais reis, mandaram pedir em Roma que um dos filhos de Fraate reinasse sobre eles. Os príncipe estavam então sob custódia em Roma, e deram-lhe Vonono, que foi preferido aos irmão porque o julgaram, por consentimento unânime dos dois grandes impérios, mais digno que os outros de ser elevado àquele alto grau de honra. Mas como esses bárbaros são naturalmente inconstantes e insolentes, os principais dentre eles se arrependeram bem depressa de sua escolha e disseram que não queriam mais obedecer a um escravo (chamavam assim o príncipe porque ele fora entregue como refém aos romanos). Alegavam também que ele chegara à condição de rei não pelo direito da guerra, mas em tempo de paz.
Depois dessa revolta, mandaram oferecer a coroa a Artabano, rei dos medos, que também era da família dos arsácidas. Ele a aceitou com alegria e veio com um grande exército. Mas como somente a nobreza tomava parte nesses acontecimentos, Vonono, ao qual o povo continuava fiel, venceu Artabano numa batalha e obrigou-o a fugir para os montes da Média. Artabano reuniu depois novas forças e travou uma segunda batalha, na qual Vonono foi vencido e fugiu com os seus homens para a Armênia. Artabano, após promover grande carnificina entre os partos, avançou até Ctesifon e ficou assim senhor de todo o reino.
Quanto a Vonono, logo que chegou à Armênia concebeu a idéia de se tornar rei. Para esse fim, enviou embaixadores a Roma, porém Tibério, que o desprezava e não queria ofender os partos, os quais ameaçavam declarar guerra ao império, recusou-se a ajudá-lo. Assim, sem esperanças e sem nada conseguir dos romanos, vendo que o mais poderoso povo da Armênia (que habitava as cercanias de Nifate) abraçara o partido de Artabano, foi ter com Silano, governador da Síria, que o recebeu em consideração por ele ter sido outrora educado em Roma. Artabano, não encontrando mais resistência, constituiu Orodé, seu filho, rei da Armênia.
769. Antíoco, rei de Comagena, morreu naquela mesma época. Surgiu então uma grande divergência entre a nobreza e o povo. A nobreza queria que o reino fosse reduzido a província, e o povo exigia o contrário, querendo ser governado por um rei, como antes. Para resolver esse caso, Germânico, por um decreto do senado, foi enviado ao Oriente. Parece que o destino preparou essa ocasião para destruir o ilustre príncipe. Após organizar com habilidade todos os negócios, como era de se desejar, ele foi envenenado por Pisão, como veremos mais adiante.

CAPÍTULO 4
REVOLTA DOS JUDEUS CONTRA PILATOS, GOVERNADOR DAJUDÉIA,POR TER FEITO ENTRAR EM JERUSALÉM AS BANDEIRAS, QUE TRAZIAM A IMAGEM DO IMPERADOR. ELE AS RETIRA. LOUVORES DE JESUS CRISTO. HORRÍVEL OFENSA FEITA A UMA DAMA ROMANA PELOS SACERDOTES DA DEUSA ÍSIS E CASTIGO QUE TIBÉRIO LHES INFLIGE.

770.  Pilatos, governador da Judéia, enviou dos quartéis de inverno de Cesaréia a Jerusalém tropas que traziam em seus estandartes a imagem do imperador, o que é tão contrário às nossas leis que nenhum outro governador antes dele o fizera. As tropas entraram de noite, e por isso apenas no dia seguinte é que se percebeu. Imediatamente os judeus foram em grande número procurar Pilatos em Cesaréia e durante vários dias rogaram-lhe que removesse aqueles estandartes. Ele negou o pedido, dizendo que não o poderia fazer sem ofender o imperador. Mas como eles continuavam a insistir, ordenou aos seus soldados, no sétimo dia, que secretamente se conservassem em armas e subiu em seguida ao tribunal que mandara erguer de propósito no local dos exercícios públicos, porque era o lugar mais apropriado para escondê-los.
Os judeus, porém, insistiam no pedido. Ele então deu o sinal aos soldados, que os envolveram imediatamente por todos os lados, e ameaçou mandar matá-los se continuassem a insistir e não voltassem logo cada qual para a sua casa. A essas palavras, eles lançaram-se todos por terra e apresentaram-lhe a garganta descoberta, para mostrar que a observância de suas leis lhes era muito mais cara que a própria vida. Aquela constância e zelo tão ardentes pela religião causou tanto assombro a Pilatos que ele ordenou que se levassem os estandarte de Jerusalém para Cesaréia.
771.  Em seguida, Pilatos tentou retirar dinheiro do tesouro sagrado para fazer vir a Jerusalém, pelos aquedutos, a água cujas nascentes distavam uns duzentos estádios. O povo ficou de tal modo revoltado que veio em grupos numerosos queixar-se e rogar-lhe que não continuasse aquele projeto. E, como acontece ordinariamente no meio de uma população exaltada, alguns chegaram de dizer-lhe palavras injuriosas. Ele ordenou então aos soldados que escondessem cacetes debaixo da túnica e rodeassem a multidão. Quando recomeçaram as injúrias, sinalizou aos soldados para que executassem o que havia determinado. Eles não somente obedeceram, como fizeram mais do que ele desejava, pois espancaram tanto os sediciosos quanto os indiferentes. Os judeus não estavam armados, e por isso muitos morreram e vários foram feridos. E a sedição terminou.
772.  Nesse mesmo tempo, apareceu JESUS, que era um homem sábio, se é que podemos considerá-lo simplesmente um homem, tão admiráveis eram as suas obras. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muito judeus, mas também por muitos gentios. Ele era o CRISTO. Os mais ilustres dentre os de nossa nação acusaram-no perante Pilatos, e este ordenou que o crucificassem. Os que o haviam amado durante a sua vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas haviam predito, dizendo também que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, os quais vemos ainda hoje, tiraram o seu nome.
773.  Por esse mesmo tempo, aconteceu uma grande perturbação na Judéia e um horrível escândalo em Roma, durante os sacrifícios de ísis. Começarei a falar deste último e depois passarei ao que se refere aos judeus.
Havia em Roma uma jovem senhora, de nome Paulina, que não era menos ilustre por sua virtude que por seu nascimento e era tão bela quanto rica. Havia desposado Saturnino, a quem não poderíamos louvar suficientemente, bastando dizer que era digno de ser o marido de semelhante mulher. Décio Mundo, jovem que ocupava uma posição muito elevada na ordem dos cavaleiros, concebeu por ela o amor mais ardente que se possa imaginar. E, como ela era de tal virtude que não se deixava conquistar por presentes, a impossibilidade de obter o seu desejo aumentou-lhe ainda mais a paixão. Ele chegou a oferecer-lhe duzentas mil dracmas por uma noite, porém ela rejeitou a proposta com desprezo.
A vida tornou-se tão insuportável para Mundo que ele resolveu matar-se pela fome. No entanto, uma das libertas de seu pai, chamada Idé, que era muito hábil em determinadas coisas, as quais convém mais ignorar que saber, procurou-o para dizer-lhe que não perdesse a esperança. Ela prometeu obter o que ele desejava, sem que lhe custasse mais de cinqüenta mil dracmas. Tal proposta fez Mundo retomar alento, e ele deu-lhe a soma que ela pedia.
Como a tal liberta sabia que o dinheiro era inútil para tentar uma mulher tão casta, resolveu servir-se de um outro meio. Sabendo que ela nutria uma devoção muito particular pela deusa ísis, foi procurar alguns de seus sacerdotes. Após comprar-lhes o segredo, informou-os do extremo amor de Mundo para com Paulina. Se eles encontrassem um meio de satisfazer aquela paixão, ela lhes daria no mesmo instante vinte e cinco mil dracmas e outro tanto depois que houvessem cumprido a promessa. Na esperança de tão grande recompensa, eles aceitaram a proposta, e o mais velho foi imediatamente dizer a Paulina que o deus Anúbis tinha paixão por ela e lhe ordenava que fosse procurá-lo.
A dama sentiu-se tão honrada com isso que se vangloriou perante as amigas e disse o mesmo ao marido, o qual, conhecendo a sua extrema castidade, consentiu de boa mente que ela fosse procurá-lo. Depois cear, ela foi então ao Templo. Chegou a hora de se pôr ao leito, e aquele sacerdote fechou-a num quarto onde não havia luz e onde Mundo, que ela julgava ser o deus Anúbis, estava escondido. Ele passou toda a noite com ela, e no dia seguinte de manhã, antes que aqueles detestáveis sacerdotes, cuja maldade a havia feito cair naquela cilada, se tivessem levantado, ela foi procurar o marido e contou-lhe o que se havia passado — e continuou a se vangloriar junto às amigas. Tudo lhes pareceu tão incrível que não podiam acreditar no que ela dissera, mas, por outro lado, não podiam desconfiar de sua virtude.
Três dias depois, Mundo encontrou-a por acaso e disse-lhe: &quot;Na verdade devo agradecer-vos por terdes recusado as duzentas mil dracmas que vos ofereci. No entanto fizestes o que eu desejava. Que me importa que tenhais desprezado Mundo, pois obtive o que queria sob o nome de Anúbis&quot;. Dizendo essas palavras, foi-se embora. Paulina percebeu então o horrível engano em que havia caído. Rasgou os seus vestes, contou ao marido o que havia acontecido e rogou-lhe que não deixasse impune tamanho crime. Ele foi em seguida falar com o imperador, a quem relatou o fato. Tibério, depois de estar bem informado de toda a verdade, mandou crucificar aqueles maus sacerdotes e com eles Idé, que imaginara a trama. Mandou também destruir o Templo de ísis e lançar-lhe a estátua no Tibre. Quanto a Mundo, contentou-se em mandá-lo ao exílio, porque atribuía o seu crime à violência de seu amor. Retomemos, porém, o fio de nossa narração, para dizermos o que aconteceu aos judeus que moravam em Roma.

CAPÍTULO 5
TIBÉRIO MANDA EXPULSAR TODOS OS JUDEUS DE ROMA. PILATOS CASTIGA
OS SAMARITANOS QUE SE HAVIAM REUNIDO E PEGADO EM ARMAS.
ELES O ACUSAM PERANTE VITÉLIO, GOVERNADOR DA SÍRIA,
QUE O OBRIGA A IR A ROMA PARA SE JUSTIFICAR.

774.  Um judeu, que era um dos piores homens do mundo e que havia fugido de seu país para evitar o castigo pelos seus crimes, juntou-se com três outros que não eram melhores que ele. Em Roma, exerciam a profissão de intérpretes da Lei de Moisés. Então uma mulher da sociedade, de nome Fúlvia, que abraçara a nossa religião, tomando-os por homens de bem, pôs-se sob a sua direção. Eles induziram-na a dar-lhes ouro e púrpura, que seriam enviados a Jerusalém, mas eles conservaram para si o que ela lhes entregou e gastaram o dinheiro.
Saturnino, marido de Fúlvia, foi queixar-se disso a Tibério, por quem era muito estimado. Sabendo disso, ele ordenou que todos os judeus fossem expulsos de Roma. Os cônsules, depois de uma exata indagação, reuniram quatro mil homens, que foram enviados para a Sardenha, sendo que um grande número deles foi severamente castigado, pois se recusaram a pegar em armas, para não desobedecer às leis de seus antepassados. Assim, a malícia de quatro celerados foi a causa de que não ficasse em Roma um só judeu.
775.  Os samaritanos não foram menos atormentados nem isentos de amarguras. Um impostor, que com nada se importava, para agradar ao povo e ganhar-lhe o afeto, ordenou-lhes que se reunissem no monte Gerizim, que nesse país é considerado um lugar santo, prometendo-lhes fazer ver os vasos sagrados que Moisés havia enterrado. Com tal promessa, tomaram as armas e, esperando os que deviam juntar-se a eles de todos os lados para subir o monte, sitiaram a aldeia de Tirataba; mas Pilatos os precedeu; avançou com sua cavalaria, ocupou o monte, atacou-os perto daquela aldeia, pô-los em fuga, prendeu vários, mandou cortar a cabeça aos chefes. Os mais ilustres samaritanos foram procurar Vitélio, governador da Síria, que tinha sido cônsul, acusaram Pilatos de ter cometido muitos assassínios, afirmaram que eles não tinham pensado em se rebelar contra os romanos e disseram que se haviam reunido perto de Tirataba, somente para resistir às suas violências. Vitério ante essas queixas, mandou Marcelo, seu amigo, para cuidar do governo da Judéia e ordenou a Pilatos que fosse justificar-se perante o imperador. Assim, sendo obrigado a obedecer, ele encaminhou-se para Roma, depois de ter governado a Judéia por dez anos, mas Tibério morreu antes que ele lá tivesse chegado.

CAPÍTULO 6
VITÉLIO ENTREGA AOS JUDEUS A GUARDA DAS VESTES SACERDOTAIS DO SUMO
SACERDOTE. TRATA EM NOME DE TIBÉRIO COM ARTABANO, REI DOS PARTOS.
CAUSA DE SEU ÓDIO POR HERODES, O TETRARCA. FILIPE, TETRARCA DE
TRACONITES, DA GALAUTIDA E DA BATANÉIA, MORRE SEM FILHOS.
SEUS TERRITÓRIOS SÃO ANEXADOS À SÍRIA.

776. Vitélio foi a Jerusalém, pela festa da Páscoa, sendo recebido com grandes honras. Ele restituiu aos habitantes o direito que tinham sobre os frutos vendidos e permitiu aos sacerdotes que guardassem eles mesmos, como outrora, o éfode e os outros ornamentos sacerdotais, que estavam então na fortaleza Antônia, onde eles haviam sido postos pelo motivo que passo a dizer.
O sumo sacerdote Hircano, primeiro desse nome, tendo feito construir uma torre perto do Templo, ali ficava quase sempre. E, como somente ele podia revestir-se dessa veste sagrada, entregue à sua guarda, deixava-o ali quando retomava as suas vestes ordinárias. Seus sucessores nesse cargo procederam do mesmo modo. Mas Herodes, subindo ao trono e achando a situação dessa torre muito vantajosa, mandou fortificá-la bastante. Chamou-a Antônia, por causa de Antônio, que era seu grande amigo, e lá deixou a veste sacerdotal, tal como a encontrara, na convicção de que serviria para tornar-lhe o povo ainda mais submisso.
Arquelau, seu filho e sucessor, não fez nisso modificação alguma. Depois que o reino foi reduzido à província e os romanos dele tomaram posse, continuaram a guardar a veste sacerdotal e, para conservá-la, mandaram fazer um armário, que era selado com o selo dos sacerdotes e dos guardas do tesouro do Templo. O governador da torre fazia continuamente acender uma lâmpada diante do armário e, sete dias antes de cada uma das três grandes festas do ano, que era tempo de jejum, entregava a veste sagrada ao sumo sacerdote, o qual, depois de limpá-lo bem, dele se revestia para iniciar o ofício divino. No dia seguinte à festa, tornava a entregá-lo e colocá-lo no mesmo armário.
Vitélio, para reverenciar a nossa nação, entregou-o, como acabo de dizer, aos sacerdotes e dispensou o governo de toda responsabilidade na sua conservação. Tirou também depois o sumo sacerdócio de Caifás para dá-lo a Jônatas, filho de Anano, o qual também havia sido sumo sacerdote, e partiu de regresso a Antioquia.
777. Tibério, receoso de que Artabano, que se tornara senhor da Armênia, lhe pesasse como um perigoso inimigo do Império Romano, enviou Vitélio para fazer uma aliança, sob a condição de que Artabano lhe entregasse alguns reféns e o seu próprio filho, se fosse possível. Vitélio, depois de receber essa ordem, ofereceu grandes somas aos reis dos iberos e dos alanos, para induzi-los a declarar guerra a Artabano. Os iberos não quiseram tomar as armas. Contentaram-se em dar passagem aos alanos e lhes abrir as portas dos montes Cáspios. Assim, eles entraram na Armênia, devastaram-na completamente, apoderaram-se de tudo e, levando a guerra além, passaram ao território dos partos e mataram a maior parte da nobreza, inclusive o filho de Artabano. Esse príncipe, então, sabendo que Vitélio subornara com dinheiro alguns de seus parentes e amigos para que o matassem e que assim não podia confiar naquela gente, que passara para o lado do inimigo e sob pretexto de amizade procurava por todos os meios fazê-lo morrer, fugiu e salvou-se nas províncias superiores. Ali não somente encontrou segurança, mas reuniu um grande exército de danianos e sacianos, com o qual começou uma guerra, venceu-a e reconquistou o seu reino.
Depois desse infeliz resultado, Tibério mostrou-se desejoso de fazer aliança com ele, e Artabano estava disposto a isso, tanto que, acompanhados por seus guardas, ele e Vitélio dirigiram-se a uma ponte construída sobre o Eufrates. Quando lá concluíram as condições do tratado, Herodes, o tetrarca, deu-lhes um grande banquete sob um grande pavilhão que mandara erguer no meio do rio, com grandes despesas. Pouco tempo depois, Artabano enviou Dário, seu filho, como refém a Tibério, com grandes presentes, entre os quais estava um judeu de nome Eleazar, que era um gigante de sete côvados de altura. Vitélio regressou logo a Antioquia, e Artabano, à Babilônia.
778.  Herodes, querendo por primeiro dar a Tibério a notícia dos reféns que havia conseguido de Artabano, mandou-lhe um emissário com urgência e informou-o tão particularmente de tudo que Vitélio nada mais pôde dizer que ele não soubesse. Assim, Tibério não deu outra resposta a Vitélio senão a de que nada dizia de novo, o que causou a este grande ódio contra Herodes. Mas ele o dissimulou até o reinado de Caio.
779.  Filipe, irmão de Herodes, morreu nesse tempo, no vigésimo ano do reinado de Tibério, depois de usufruir durante trinta e sete anos as tetrarquias de Traconites, Gaulanites e Batanea. Era um príncipe muito moderado. Amava a paz e a tranqüilidade e sempre ficou em seu território. Nas suas idas constantes ao campo, levava consigo apenas um pequeno número de amigos mais íntimos e uma cadeira, que era uma espécie de trono, para sentar-se e administrar a justiça, pois era seu costume deter-se quando alguém o pedia e, depois de ouvir todas as queixas, condenava imediatamente o culpado ou o absolvia, se o julgasse inocente. Morreu em Julíada. Os seus funerais foram imponentes, e enterraram-no num soberbo túmulo que ele havia mandado construir. Como ele não deixou filhos, Tibério anexou os seus territórios à Síria, sob a condição de que o dinheiro dos rendimentos permanecesse no seu país.

CAPÍTULO 7
GUERRA ENTRE ARETAS, REI DE PETRA, E HERODES, O TETRARCA, QUE, TENDO
DESPOSADO A FILHA DAQUELE, QUERIA REPUDIÁ-LA PARA CASAR-SE COM
HERODIAS, FILHA DE ARISTÓBULO E MULHER DE HERODES, SEU IRMÃO POR
PARTE DE PAI. O EXÉRCITO DE HERODES É TOTALMENTE DERROTADO, E OS
JUDEUS ATRIBUEM AO FATO DE ELE TER COLOCADO JOÃO BATISTA NA PRISÃO.
POSTERIDADE DE HERODES, O GRANDE.

780.  Nesse mesmo tempo, aconteceu, pelo motivo que passo a descrever, uma grande guerra entre Herodes, o tetrarca, e Aretas, rei de Petra. Herodes, que havia desposado a filha de Aretas e vivera muito tempo com ela, passou, numa viagem a Roma, pela casa de Herodes, seu irmão por parte de pai, filho da filha de Simão, sumo sacerdote, e concebeu tal paixão pela mulher dele, Herodias — filha de Aristóbulo, irmão de ambos e irmã de Agripa, que depois foi rei —, que propôs desposá-la logo que estivesse de volta de Roma e repudiasse a filha de Aretas.
Ele continuou a sua viagem e voltou após cumprir as incumbências de que fora encarregado. A sua mulher veio a saber de tudo o que se havia passado entre ele e Herodias, mas nada demonstrou e rogou-lhe que permitisse ir a Maquera, fortaleza situada na fronteira dos dois territórios, que então pertencia ao rei seu pai. Como Herodes não julgava que ela soubesse de seu projeto, não teve dificuldade em atendê-la. O governador da praça recebeu-a muito bem, e um grande número de soldados escoltou-a até a corte do rei Aretas.
Ela contou-lhe da resolução tomada por Herodes, e ele sentiu-se muito ofendido. Havendo já surgido algumas divergências entre os dois príncipes, por causa dos limites do território de Gamala, eles entraram em guerra; todavia, nem um nem outro tomou parte dela em pessoa. A batalha travou-se, e o exército de Herodes foi completamente derrotado, devido à traição de alguns refugiados que, expulsos da tetrarquia de Filipe, se alistaram nas tropas de Aretas. Herodes escreveu a Tibério, contando o que havia acontecido, e este ficou tão enfurecido contra Aretas que ordenou a Vitélio que lhe declarasse guerra e o trouxesse vivo, se possível, ou lhe mandasse a cabeça, caso ele viesse a morrer na luta.
781. Vários judeus julgaram a derrota do exército de Herodes um castigo de Deus, por causa de João, cognominado Batista. Era um homem de grande piedade que exortava os judeus a abraçar a virtude, a praticar a justiça e a receber o batismo, para se tornarem agradáveis a Deus, não se contentando em evitar o pecado, mas unindo a pureza do corpo à da alma. Como uma grande multidão o seguia para ouvir a sua doutrina, Herodes, temendo que ele, pela influência que exercia sobre eles, viesse a suscitar alguma rebelião, porque o povo estava sempre pronto a fazer o que João ordenasse, julgou que devia prevenir o mal, para depois não ter motivo de se arrepender por haver esperado muito para remediá-lo. Por esse motivo, mandou prendê-lo numa fortaleza em Maquera, de que acabamos de falar, e os judeus atribuíram a derrota de seu exército a um castigo de Deus, devido a esse ato tão injusto.
782. Vitélio, para executar a ordem recebida de Tibério, tomou duas legiões e suas cavalarias e outras tropas que os reis sujeitos ao Império Romano lhe enviaram. Na sua marcha em direção a Petra, chegou a Ptolemaida. O seu intento era fazer passar o exército através da Judéia, porém os maiorais dessa nação vieram pedir-lhe que não o fizesse, porque as legiões romanas traziam em seus estandartes figuras que eram contrárias à nossa religião. Ele satisfez-lhes o pedido e mandou que os soldados passassem pelo campo. Acompanhado pelo tetrarca e seus amigos, foi a Jerusalém oferecer sacrifícios a Deus, pois se aproximava o dia de uma festa. Ele foi recebido com grandes honras e lá permaneceu três dias.
783.  Nesse tempo, tirou o sumo sacerdócio de jônatas para dá-la a TeóFílon, seu irmão. E, havendo recebido a notícia da morte de Tibério, fez o povo prestar juramento de fidelidade a Caio Calígula, que lhe sucedera no império. Essa mudança o fez recolher as tropas, e ele enviou-as aos quartéis de inverno e voltou a Antioquia.
784.   Diz-se que Aretas, quando soube que Vitélio marchava contra ele, consultou os adivinhos, e eles afirmaram que era impossível que ele chegasse a Petra porque ou o autor da guerra ou o executor de suas ordens ou ainda aquele a quem queriam atacar morreria antes.
785.  Havia um ano que Agripa, filho de Aristóbulo, tinha ido a Roma procurar o imperador Tibério, por causa de alguns assuntos importantes. Mas antes de entrar no assunto a respeito desse príncipe, desejo ainda falar de Herodes, o Grande, tanto por causa de sua relação com o resto da história quanto para confundir o orgulho dos homens, fazendo-os conhecer os efeitos da divina providência. Nem o grande número de filhos nem todas as outras vantagens podem fortalecer um poder humano ou conservá-lo, se tudo isso não for acompanhado pela virtude e pela piedade, como se vê neste exemplo, que nos mostra como em menos de cem anos toda a grande prosperidade de Herodes se viu reduzida a um pequeníssimo número.
Não é coisa menos digna da admiração a maneira como Agripa, contra a opinião de todos, foi elevado, por uma sorte particular, à soberana autoridade. Assim, ainda que eu tenha já falado dos filhos de Herodes, o Grande, falarei deles agora mais detalhadamente. Herodes teve duas filhas de Mariana, filha de Hircano. A mais velha, chamada Salampso, casou-a ele com Fazael, filho de Fazael, seu irmão mais velho, e a outra, de nome Cipro, com Antípatro, seu sobrinho, filho de Salomé, sua irmã. Fazael teve de Salampso três filhos — Antípatro, Herodes e Alexandre — e duas filhas. Uma delas, chamada Alexandra, casou-se na ilha de Chipre com um senhor de nome Tímio, do qual não teve filhos. A outra, de nome Cipro, desposou Agripa, filho de Aristobulo, do qual teve dois filhos — Agripa e Druso, que morreu moço — e três filhas — Berenice, Mariana e Drusila. Agripa, seu pai, fora educado com seus irmãos Herodes e Aristobulo, com Herodes, o Grande, seu avô, como também Berenice, filha de Salomé e de Costobaro. Os filhos de Aristobulo eram ainda jovens quando Herodes, seu pai, o mandou matar, junto com o irmão Alexandre, da maneira como vimos.
Depois que todos esses filhos cresceram, Herodes, irmão de Agripa, desposou Mariana, filha de Olímpia, filha de Herodes, o Grande, e de José, seu irmão, da qual teve um filho de nome Aristobulo. O outro irmão de Agripa, de nome Aristobulo, desposou Jotapé, filha de Sampsigeram, rei de Emesa, do qual teve uma filha, cujo nome também era Jotapé, igual a sua mãe, e que era surda. Eis os filhos desses três irmãos. Herodias, sua irmã, desposou Herodes, o tetrarca, filho de Herodes, o Grande, e de Mariana, filha de Simão, o sumo sacerdote, do qual teve Salomé. Depois desse nascimento, Herodias não teve vergonha de desrespeitar as nossas leis, abandonando o marido para desposar Herodes, irmão dele e tetrarca da Galiléia. Salomé, sua filha, desposou Filipe, filho de Herodes, o Grande, e tetrarca de Traconites. Ele morreu sem lhe dar filhos, e Herodias fez com que ela desposasse Aristobulo, filho de Herodes e irmão de Agripa, do qual teve três filhos: Herodes, Agripa e Aristobulo. Vê-se, pelo que acabo de dizer, quais foram os descendentes de Fazael e de Salampso.
Cipro, filha de Herodes, o Grande, e irmã de Salampso, teve de Antípatro, filho de Salomé, uma filha chamada Cipro, como ela. Cipro desposou Alexas Celsio, filho de Alexas, do qual teve uma filha, também chamada Cipro. Quanto a Herodes e Alexandre, irmãos de Antípatro, morreram sem filhos.
Alexandre, filho de Herodes, o Grande, o qual o fez morrer, teve de Glafira, filha de Arquelau, rei da Capadócia, Alexandre e Tigrano. O último, que foi rei da Armênia e acusado perante os romanos, morreu sem filhos. Mas Alexandre teve um filho, de nome Tigrano, como o tio. O imperador Nero constituiu Alexandre rei da Armênia, e ele teve um filho, também de nome Alexandre, que desposou Jotapé, filha de Antíoco, rei de Comagena. O imperador Vespasiano deu-lhe o reino de Ésis, uma ilha na Cilícia. Os descendentes desse Alexandre abandonaram a religião de nossos pais para abraçar a dos gregos. Os outros filhos de Herodes, o Grande, morreram sem descendência.
Depois de falar da posteridade desse soberano até o reinado de Agripa, resta-me mostrar como, por meio de diversas vicissitudes da fortuna, ele foi, por fim, elevado a tão alto grau de glória e de poder.

CAPÍTULO 8
DIVERSAS CIRCUNSTÂNCIAS, PELAS QUAIS AGRIPA, COGNOTNINADO O
GRANDE, FILHO DE ARISTOBULO E NETO DE HERODES, O GRANDE, E DE
MARIANA, FOI CONSTITUÍDO REI DOS JUDEUS PELO IMPERADOR CAIO,
COGNOMINADO CALÍGULA, LOGO DEPOIS QUE ESTE SUCEDEU A TIBÉRIO.

786. Pouco antes da morte de Herodes, o Grande, Agripa, seu neto e filho de Aristobulo, foi a Roma. Como ele freqüentemente estava à mesa com Druso, filho do imperador Tibério, conquistou a sua amizade e caiu também no agrado de Antônia, mulher de Druso, irmão de Tibério, e mãe de Germânico e de Cláudio, que depois foi imperador, por meio de Berenice, sua mãe, pela qual tinha ela uma afeição muito particular. Embora Agripa fosse de natureza muito liberal, não ousava demonstrá-lo vivendo ainda a sua mãe, para não incorrer em sua indignação. Logo após a sua morte, porém, quando nada mais havia que o detivesse, fez tantas despesas em banquetes e em liberalidade excessiva, principalmente com os libertos de César, dos quais queria granjear a estima, que se sentiu esmagado pelas dívidas e importunado por credores, sem poder satisfazê-los. O jovem Druso morreu nesse mesmo tempo, e Tibério proibiu a todos os que esse príncipe havia amado de se apresentar diante dele, porque a presença deles renovava-lhe o sofrimento.
Assim, Agripa foi obrigado a voltar à Judéia, e a vergonha levou-o a se retirar para o castelo de Malata, na Iduméia, decidido a ali passar miseravelmente a vida. Cipro, sua mulher, fez o que pôde para dissuadi-lo dessa idéia e escreveu a Herodias, irmã de Agripa, que desposara Herodes, o tetrarca, pedindo-lhe que a ajudasse, como ela fazia, por seu lado, embora tivesse menos bens. Herodes e Herodias mandaram logo chamar Agripa e deram-lhe uma certa soma, bem como a principal magistratura de Tiberíades, de modo que pudesse manter-se com certa honra naquela cidade. Embora isso não fosse o suficiente para contentar Agripa, Herodes arrefeceu-se tanto no desejo de ajudá-lo que perdeu a vontade de continuar a lhe prestar auxílio. E um dia, depois de ter bebido demais num banquete em que estavam juntos, em Tiro, lançou-lhe em rosto a sua pobreza e o fato de que dependia dele para comer.
Agripa, não podendo tolerar semelhante ultraje, foi procurar Flaco, governador da Síria, que fora cônsul e com o qual havia feito amizade em Roma. Ele o recebeu muito bem. Antes, porém, já havia recebido Aristóbulo, irmão de Agripa, do mesmo modo, sem que a inimizade que havia entre eles o impedisse de manifestar igualmente o seu afeto a um e a outro. Mas Aristóbulo persistiu de tal modo em sua ira que não teve sossego enquanto não incutiu no espírito de Flaco a aversão para com Agripa, o que aconteceu pelo motivo que passo a expor.
Os moradores de Damasco entraram em litígio com os de Sidom, por causa de seus limites. A questão devia ser julgada por Flaco, e eles ofereceram a Agripa uma grande soma para que ele os ajudasse com o seu prestígio junto dele. Agripa prometeu fazer tudo o que pudesse em favor deles. Aristóbulo soube-o e avisou Flaco, o qual, depois de se informar, constatou que tudo era verdade. Assim, pela perda de sua amizade, Agripa recaiu numa extrema miséria e retirou-se a Ptolemaida, onde, não tendo com o que viver, resolveu voltar a Itália. Mas como lhe faltava o dinheiro, disse a Márcias, seu liberto, que fizesse todo o possível para consegui-lo em empréstimo.
Esse homem foi procurar Proto, liberto de Berenice, mãe de Agripa, que esta legara em seu testamento a Antônia, fazendo com que ela o recebesse ao seu serviço, e rogou-lhe que lhe emprestasse dinheiro, sob sua palavra. Proto respondeu-lhe que Agripa já lhe devia e, tendo já obtido de Márcias uma nota de compromisso de vinte mil dracmas áticas, entregou-lhe somente dezessete mil e quinhentas, retendo consigo as outras duas mil e quinhentas, sem que Agripa se pudesse opor. Depois de apanhar essa soma, partiu para Antedom. Encontrando um navio, Agripa preparava-se para continuar a viagem, quando Herênio Capito, que tinha em Jamnia a superintendência dos negócios, enviou soldados para fazê-lo pagar trezentas mil peças de prata, que lhe haviam sido emprestadas do tesouro do imperador quando ele estava em Roma.
Agripa garantiu-lhes que não deixaria de pagar, mas logo que veio a noite mandou levantar âncora e tomou o caminho de Alexandria. Ao chegar, pediu a Alexandre, que era alabarche,* que lhe emprestasse duzentas mil peças de prata. Ele respondeu que não lhe emprestaria, mas que não recusaria o empréstimo a Cipro, sua mulher, porque admirava-lhe a virtude e o amor pelo marido. Assim, ela lhe foi a caução, e Alexandre deu-lhe cinco talentos, com a promessa de lhe entreaar o resto em Putéoli. não iuloando conveniente confiar-lhe tudo na mesma hora, por causa de sua prodigalidade. Cipro, então, vendo que nada mais impediria o marido de ir à Itália, voltou com os filhos, por terra, para a Judéia.

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* O primeiro cargo da magistratura, em Alexandria.

Quando Agripa chegou a Putéoli, escreveu ao imperador, que então estava em Capréia,* dizendo que viera prestar-lhe as suas homenagens e rogando consentimento para que fosse encontrá-lo. Tibério respondeu logo e de maneira muito favorável, declarando estar alegre com a sua volta e que ele podia vir quando quisesse. E, se a carta era delicada, a maneira como o recebeu depois não foi menos gentil, pois o abraçou e mandou-o hospedar-se em seu palácio. No dia seguinte, porém, Tibério recebeu uma carta de Herênio, pela qual lhe comunicava que, havendo insistido com Agripa a fim de que fossem pagas as trezentas mil peças de prata que lhe havia emprestado do tesouro, pois o prazo para a restituição já havia expirado, ele havia fugido, tirando assim a ele e aos que lhe sucederiam no cargo os meios de reaver aquela importância. Essa carta irritou a Tibério contra Agripa, e ele deu ordem aos porteiros do quarto que não o deixassem vir à sua presença até que pagasse o que devia.

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* Ou Capri, ilha italiana do mar Tirreno. (N. do R.)

Agripa, no entanto, sem se admirar da cólera do imperador, rogou a Antônia que lhe emprestasse aquela importância, a fim de que ele não perdesse as boas graças de Tibério. E a princesa, considerando o respeito à memória de Berenice e o afeto particular que a ela dedicara, bem como o fato de Agripa ter sido educado junto com Cláudio, seu filho, concedeu-lhe aquele favor. Assim, ele pagou o que devia e firmou-se tão bem no conceito do imperador Tibério que este o encarregou de cuidar de Tibério Nero, seu neto e filho do Druso, e de velar pelas suas ações. Mas o desejo de pagar os favores de que era devedor a Antônia fez com que Agripa, em vez de satisfazer o desejo do imperador, se deixasse prender pelo afeto a Caio, cognominado Calígula, neto daquela princesa, que era amado e honrado por todos por causa da lembrança de Germânico, seu pai. E, tomando emprestado um milhão de peças de prata de um dos libertos de Augusto, chamado Talo, de Samaria, restituiu à Antônia o que ela lhe havia emprestado.
A amizade entre Agripa e Caio tornou-se bem sólida, e certo dia, quando estavam na carruagem de Caio, sucedeu que recordaram alguns comentários que haviam feito acerca de Tibério. Agripa expressou o desejo de que o imperador logo saísse de cena e deixasse o governo nas mãos de Caio, a quem considerava muito mais digno de reinar. Êutico, seu liberto, que guiava o carro, ouviu-o e no momento nada disse. Algum tempo depois, no entanto, Agripa acusou-o de roubo, o que era verdade, e ele fugiu. Quando foi preso, levaram-no à presença de Pisão, prefeito de Roma. Em vez de responder à acusação que lhe faziam, Êutico declarou que tinha um segredo a declarar ao imperador, relativo à sua segurança e preservação. Imediatamente, enviaram-no acorrentado a Capréia. Tibério mandou colocá-lo na prisão e lá o deixou, sem se incomodar mais com o fato.
Embora isso pareça estranho, não há motivo para admiração, porque jamais príncipe algum se apressou menos do que ele, em qualquer assunto. Não dava audiência aos embaixadores e nem preenchia os cargos de governadores e de intendente das províncias senão após a morte desses titulares. Quando os amigos perguntavam a razão disso, ele respondia que, quanto aos embaixadores, se os despachasse prontamente, logo lhe enviariam outros, e assim ele viveria enfadado com ininterruptas embaixadas. No que dizia respeito aos governadores e intendentes das províncias, evitava mudá-los para aliviar o povo, porque os homens são naturalmente gananciosos, principalmente quando é à custa de estrangeiros que eles se enriquecem, e se atiram com mais avidez às cobranças ao perceber que lhes resta pouco tempo no cargo. Porém, ao invés, se depois de haverem acumulado muitos bens não se sentirem ameaçados por um iminente sucessor, procedem com mais moderação. As riquezas todas das províncias não seriam suficientes para contentar a cobiça desses oficiais, caso eles fossem mudados freqüentemente.
Como prova do que dizia, serviu-se desta comparação: &quot;Um homem fora ferido com muitos golpes, e uma grande quantidade de moscas lançou-se às suas chagas. Um viajante, vendo-o naquele estado, teve compaixão dele. julgando que não lhe restaria mais forças para enxotá-las, resolveu prestar-lhe aquele auxílio. Mas o ferido pediu-lhe que o deixasse como estava. O outro perguntou a razão disso, e ele respondeu: Como essas moscas que vedes já estão fartas do meu sangue, já não me causam tanto mal. Mas, se vós as enxotardes, virão outras que, estando ainda com fome e me encontrando tão fraco, acabarão por me fazer morrer&quot;. E a melhor prova do que acabo de dizer acerca do caráter de Tibério é que, durante os vinte e dois anos de seu reinado, ele enviou apenas dois governadores à Judéia — Grato e Pilatos — e procedeu do mesmo modo com as outras províncias sujeitas ao Império Romano. Esse príncipe dizia também que não julgava prontamente os prisioneiros &quot;para castigá-los por seus crimes com um longo sofrimento&quot;.
Foi por isso que Tibério conservou Êutico por tanto tempo na prisão sem ouvi-lo. Mas, quando ele veio de Capréia a Tusculano, que dista de Roma apenas uns vinte estádios, Agripa rogou a Antônia que ela providenciasse uma audiência para Êutico, a fim de que ele descobrisse de que crime o liberto o estava acusando. Tibério tinha muita consideração por ela, tanto porque era sua cunhada quanto porque era muito casta, pois, embora fosse ainda muito jovem ao ficar viúva, e Augusto insistisse em que ela se casasse de novo, jamais contraiu segundas núpcias, mas vivia em tão grande virtude que a sua reputação se conservou para sempre imaculada.
Devemos acrescentar que ele lhe era particularmente devotado também por causa de um grande favor que ela lhe prestara. Sejano, comandante da guarda pretoriana, a quem ele estimava de modo especial e elevara a um altíssimo grau de poder, organizou contra ele uma grande conspiração, com a cumplicidade de senadores, oficiais do exército e até mesmo alguns libertos de Tibério. Estavam a ponto de a executar, mas ela, sozinha, foi causa de que não se realizasse, porque, tendo-a descoberto, escreveu-lhe imediatamente, descrevendo todos os particulares, por meio de Palas, o mais fiel de seus libertos, que de Capréia lhe levou a carta. Após esse aviso, ele ordenou a morte de Sejano e seus cúmplices.
Esse grande serviço aumentou ainda a estima que ele dedicava a essa princesa, e por isso passou a depositar nela inteira confiança. E assim, como nada havia de que ela não lhe pudesse falar, Antônia rogou-lhe que se dignasse escutar o que Êutico tinha a dizer. Ele respondeu que, se ele queria acusar falsamente o seu senhor, já fora bem castigado pelos sofrimentos na prisão e que Agripa devia tomar cuidado em não se comprometer impensadamente em semelhante negócio, para que o mal que ele queria fazer ao seu liberto não se tornasse demasiado pesado e caísse sobre ele mesmo.
Essa resposta, em vez de acalmar Agripa em seu desígnio, levou-o a insistir ainda mais com Antônia, a fim de obter aquele esclarecimento do imperador. De sorte que, não podendo deixar de fazê-lo, ela aproveitou a ocasião em que Tibério, um dia, era levado em sua liteira para tomar um pouco de ar, estando Caio e Agripa caminhando adiante dele. Ela seguiu-o a pé e renovou o pedido para que mandasse interrogar Êutico. Ele respondeu: &quot;Tomo os deuses como testemunha de que é contra os meus sentimentos e somente para não vos contrariar que farei o que desejais de mim&quot;. Então ordenou a Macrom, que sucedera a Sejano no cargo de comandante da guarda pretoriana, que mandasse vir Êutico.
Sem demora, trouxeram-no, e Tibério perguntou-lhe o que tinha a dizer contra aquele ao qual era devedor de sua liberdade. Ele disse: &quot;Um dia, meu senhor, quando Caio, que vejo aqui presente, e Agripa estavam juntos num carro e eu junto deles, para levá-los, Agripa disse a Caio, além de outras coisas: Tomara que logo chegue o dia em que aquele velho vá para o outro mundo e vos deixe senhor deste reino! Tibério, seu neto, não vos será obstáculo, pois muito facilmente vos podereis desfazer dele. Como esta terra seria feliz! E como eu teria parte nessa felicidade!&quot;
Tibério deu crédito às palavras de Êutico, sendo que também guardava ressentimentos pelo fato de Agripa haver recusado cuidar de Tibério Nero, seu neto, como ele lhe ordenara, para se dedicar inteiramente a Caio. Assim, ordenou a Macrom: &quot;Acorrentai aquele homem!&quot; Macrom, que não podia imaginar que o imperador falava de Agripa, esperou estar completamente inteirado de sua vontade para executar a ordem. Tibério, após dar algumas voltas no hipódromo, viu ainda Agripa e disse a Macrom: &quot;Não vos tinha eu ordenado que acorrentásseis aquele homem?&quot; Retrucou-lhe Macrom: &quot;Que homem, senhor?&quot; E Tibério respondeu: &quot;Agripa&quot;.
Agripa então, apelando para a memória de seu filho, com o qual havia sido educado, e para os serviços que prestara a Tibério, seu neto, suplicou-lhe clemência. Os seus rogos, porém, foram inúteis, e os guardas do imperador levaram-no para a prisão sem lhe tirar as vestes de púrpura. Como o calor era muito forte e o vinho que bebera no jantar esquentara-o ainda mais, ele sentia tanta sede que procurou com os olhos alguma coisa que a mitigasse. Viu então que um dos escravos de Caio, chamado Taumasto, levava um jarro cheio de água. Pediu-a, e o escravo o atendeu de boa vontade. Depois de beber, ele disse: &quot;Não vos arrependereis de me terdes prestado este favor, pois logo que ficar livre, obterei de Caio a vossa liberdade, como recompensa, pois, vendo-me prisioneiro, atendestes ao meu pedido como se eu estivesse livre&quot;. Essa promessa foi cumprida, pois, quando mais tarde subiu ao trono, Agripa solicitou a Caio que lhe desse Taumasto e não somente o libertou como lhe deu a administração de todos os seus bens. E, ao morrer, recomendou a Agripa, seu filho, e a Berenice, sua filha, que o conservassem naquele cargo. E assim, ele desempenhou a sua incumbência com honra durante toda a sua vida.
Um dia, quando Agripa estava com outros prisioneiros diante do palácio, a debilidade causada pela tristeza fez com que ele se apoiasse a uma árvore, sobre a qual uma coruja veio pousar. Um alemão, que estava entre os prisioneiros, tendo-o notado, perguntou ao soldado que o vigiava e que estava acorrentado com ele quem era aquele homem. Ao saber que era Agripa, o mais notável de todos os judeus pela glória de sua origem, rogou ao soldado que lhe permitisse aproximar-se dele, a fim de que pudesse ouvir de sua boca alguma coisa sobre os costumes de seu país. O soldado consentiu.
Então, por meio de um intérprete, o alemão disse a Agripa: &quot;Bem vejo que uma tão grande e repentina mudança em vossa sorte vos aflige, e dificilmente acreditareis que a divina providência vos dará a liberdade muito em breve. Mas tomo os deuses como testemunhas, os deuses que adoro e são reverenciados neste país, os quais me puseram nestas cadeias, de que o que vos tenho a dizer não é uma vã consolação, sabendo, como sei, que predições favoráveis, quando não são seguidas de seus efeitos, só nos servem para aumentar a tristeza. Quero, pois, dizer-vos, embora com perigo, o que pressagia essa ave que acaba de voar sobre a vossa cabeça. Estareis bem depressa em liberdade e elevado a tão grande poder que sereis invejado por aqueles que agora têm compaixão de vossa infelicidade. Sereis feliz durante o resto de vossa vida e deixareis filhos que sucederão à vossa felicidade. Mas quando virdes aparecer de novo essa mesma ave, sabei que somente vos restarão cinco dias de vida. Eis como os deuses vos pressagiam, e, como tenho conhecimento disso, julguei oportuno dar-vos essa alegria, para amenizar os vossos males presentes com a esperança de tantos bens futuros. E, quando vos encontrardes em tão grande prosperidade, peço-vos que não vos esqueçais da miséria em que me encontro e que me deis a liberdade&quot;.
O vaticínio do alemão pareceu tão ridículo a Agripa que provocou nele uma gargalhada, tão forte que causou a ele mesmo espanto e admiração. No entanto a sua infelicidade causava muito pesar a Antônia, e, como julgava inútil falar em favor dele a Tibério, tudo o que ela podia fazer era rogar a Macrom que lhe desse por guardas soldados de caráter sociável, que o fizesse tomar as refeições com os oficiais que o custodiavam, que lhe permitisse tomar banho todos os dias e que desse livre entrada aos seus amigos e libertos, a fim de que fosse mitigada a amargura de sua prisão. Desse modo, Silas, seu amigo, Márcias e Estico, seus libertos, levavam-lhe alimento e as iguarias de que mais ele gostava. Tinham tanto cuidado dele que, sob o pretexto de querer vender-lhe cobertas, davam-nas a ele, que delas se servia durante a noite, sem que os guardas o impedissem, pois tinham ordem de Macrom para não interferir.
Assim, seis meses se passaram, e Tibério, depois de regressar a Capréia, caiu num langor que a princípio não parecia perigoso. Porém o mal cresceu, e ele, perdendo a esperança de viver, ordenou a Evódio, o liberto a quem mais estimava, que lhe trouxesse Tibério, cognominado Gemelo, seu neto, filho de Druso, seu filho, e Caio, seu sobrinho-neto, filho de Germânico, seu sobrinho, pois queria falar-lhes antes de morrer. Esse último era já grande, muito bem instruído nas letras e bastante estimado pelo povo, por respeito à memória de Germânico, seu pai, valoroso e excelente príncipe cuja doçura, modéstia e cortesia conquistara não somente o afeto do senado, mas o de todos os povos. A sua morte foi chorada com lágrimas tão verdadeiras que parecia, em luto tão geral e público, que cada qual lastimava uma perda particular. Isso porque durante toda a sua vida ele se esforçara em servir a todos o quanto possível e jamais fizera mal a quem quer que fosse. Esse amor que se tivera pelo pai era também vantajoso para o filho, pois os soldados estavam dispostos até a morrer por ele, se isso fosse necessário para elevá-lo ao trono.
Depois que deu a Evódio a ordem para que lhe trouxesse no dia seguinte bem cedo o seu neto e o seu sobrinho-neto, Tibério rogou aos deuses que lhe manifestassem, por algum sinal, qual dos dois destinavam para seu sucessor, pois, ainda que desejasse que o trono ficasse nas mãos de Tibério, não ousava deliberar em assunto de tamanha importância sem conhecer a vontade soberana deles. O sinal que ele escolheu foi este: aquele que chegasse primeiro no dia seguinte de manhã para saudá-lo seria o imperador. Convicto de que os deuses se manifestariam em favor de seu neto, disse ao seu preceptor que o trouxesse bem cedo.
Os fatos, no entanto, não corresponderam às suas esperanças, pois, tendo ordenado a Evódio desde madrugada que fizesse entrar o príncipe que chegasse primeiro, não encontrou o jovem Tibério — este não fora avisado da ordem do imperador porque havia ido participar de um banquete. Caio, porém, estava à porta do quarto, e Evódio disse-lhe que o imperador o estava esperando e o mandou entrar. Quando Tibério o avistou, compreendeu que os deuses não lhe permitiam dispor do império como ele desejava e que os seus desígnios eram opostos aos dele.
Por maior que fosse o seu pesar, todavia, ele estava ainda mais comovido por causa da infelicidade de seu neto, que não somente perdera a oportunidade de sucedê-lo, mas corria agora risco de vida, pois era fácil imaginar que o parentesco não seria suficiente para conservá-la se Caio se tornasse o senhor. O soberano poder não admite divisão, e assim esse novo imperador, não se podendo julgar seguro enquanto o jovem Tibério vivesse, com certeza procuraria um meio de se desfazer dele.
Tibério dava muito crédito à astrologia. Durante toda a sua vida, prestara tanta fé aos horóscopos que estes serviam de regra à maior parte de suas ações. De modo que, vendo um dia Galba aproximar-se dele, disse a alguns de seus mais íntimos amigos: &quot;Aquele homem que vedes será imperador&quot;. E, como ele em várias ocasiões testemunhara predições seguidas de sua realização, nenhum outro dos césares nelas tanto acreditou como ele. Assim, o fato de Caio haver chegado primeiro afligiu-o tanto que ele já considerava morto o jovem Tibério e acusava a si mesmo de ter desejado conhecer a vontade dos deuses por aquela revelação, que o cumulava de dor, anunciando-lhe a perda da pessoa a quem mais ele estimava no mundo. Ele poderia ter morrido tranqüilo se a sua curiosidade não o tivesse levado a querer penetrar os segredos do futuro.
No meio da grande perturbação em que se encontrava, por ver que contra a sua intenção o império cairia nas mãos daquele que não havia destinado para seu sucessor, ele não deixou, embora contra a vontade, de falar a Caio deste modo: &quot;Meu filho, ainda que Tibério me seja mais próximo que vós, passo a vossas mãos, por minha própria escolha e para me conformar à vontade dos deuses, o império de Roma. Rogo-vos, porém, que jamais vos esqueçais da obrigação que me deveis, por vos elevar a esse grau supremo de poder, e que me testemunheis isso pelo afeto que dedicareis a Tibério. É a maior prova que poderíeis me dar de vosso reconhecimento por um tão grande benefício, do qual, depois dos deuses, me sois devedor. Além disso, a natureza vos obriga a amar uma pessoa que vos é tão próxima. Deveis considerar a sua vida um dos sustentáculos de vosso império, ao passo que a sua morte seria para vós um princípio de infelicidade, pois é perigoso aos príncipes não ter parentes. E aqueles que não temem ofender os deuses, violando as leis da natureza, não podem evitar a sua justa vingança&quot;.
Tais foram as palavras de Tibério, e Caio demonstrou estar de acordo com tudo, embora sem a intenção de cumprir as suas promessas, pois, logo que foi elevado ao poder, mandou matar o jovem Tibério, como o avô tinha previsto. E ele mesmo, alguns anos depois, foi assassinado.
Voltando, porém, a Tibério, ele viveu somente mais alguns dias após nomear Caio para seu sucessor. Havia reinado vinte e dois anos, cinco meses e três dias. A notícia da morte desse príncipe causou muita alegria em Roma, mas ninguém ousava acreditar, por temer que não fosse verdade. Manifestar regozijo abertamente seria pôr-se em risco de perder a vida num reinado como o de Tibério, por causa dos delatores. Tibério, mais que qualquer outro antes dele, destruíra diversas famílias importantes de Roma. Ele era tão colérico, inexorável e cruel que odiava mesmo sem motivo e considerava a morte, ainda que injusta, um leve castigo.
Márcias, entretanto, foi apressadamente dar a notícia ao seu senhor. Encontrou-o saindo do banho e, aproximando-se dele, disse-lhe em hebraico: &quot;O leão está morto&quot;. Agripa compreendeu logo o que ele queria dizer e respondeu, com transportes de alegria: &quot;Como poderei reconhecer os serviços que me prestastes e particularmente este, de me trazerdes tão auspiciosa notícia, se é que é verdadeira?&quot; O oficial que guardava Agripa, tendo visto com que afã Márcias havia chegado e o contentamento que Agripa manifestara depois do que ele lhe dissera, não teve dificuldade em julgar que algo de importante acontecera e rogou-lhes que dissessem de que se tratava. De início, eles hesitaram, mas ele insistiu tanto que, por fim, Agripa, que já havia contraído amizade com ele, contou-lhe o que acontecera.
O oficial regozijou-se então pela sua felicidade e, para manifestar a sua alegria, ofereceu-lhe um banquete. Contudo, enquanto se divertiam e bebiam, alegres, chegou a notícia de que Tibério não havia morrido e que em poucos dias ele retornaria a Roma. A surpreendente notícia deixou abalado o oficial, porque ele então imaginou o risco que corria a sua vida por tratar de modo tão benevolo um prisioneiro que estava sob a sua guarda, e isso por acreditar que o imperador havia morrido. Então ele empurrou Agripa do assento onde este se colocara à mesa do festim e disse-lhe: &quot;Imaginais então que, após terdes me enganado com essa mentira sobre a morte do imperador, ficareis impune? Ou que essa falsa notícia não vos irá custar a cabeça?&quot; Ditas essas palavras, ordenou que o acorrentassem de novo e o vigiassem ainda com mais cuidado que antes.
A noite passou-se em amargura para Agripa. Porém, no dia seguinte não havia mais dúvida quanto à morte do imperador. Todos a comentavam abertamente, e alguns chegaram a oferecer sacrifícios para testemunhar a própria alegria. Chegaram nesse mesmo tempo duas cartas de Caio: uma endereçada ao senado, anunciando a morte de Tibério e dizendo que ele fora o escolhido para substituí-lo, e a outra, a Pisão, governador da cidade, que dizia a mesma coisa e ordenava que se tirasse Agripa da prisão e lhe fosse permitido voltar à sua casa. Assim, Agripa viu-se livre de todos os seus temores. E, embora estivesse ainda sob custódia, vivia no resto como desejava.
Pouco depois, Caio veio a Roma, para onde fez trazer o corpo de Tibério, ordenando que lhe fizessem, segundo o costume dos romanos, soberbos funerais. Era seu desejo colocar Agripa em liberdade naquele mesmo dia, porém Antônia o aconselhou a protelar a decisão. Embora sentisse afeto por ele, julgava que aquela precipitação iria contra o decoro do império, porque não se devia apressar tanto a liberdade de alguém que Tibério mantinha preso sem manifestar desrespeito à sua memória. No entanto, alguns dias depois, Caio mandou chamá-lo. Fez com que cortasse os cabelos e mudasse a roupa e depois colocou-lhe uma coroa na cabeça, constituindo-o rei da tetrarquia que pertencera a Filipe. Deu-lhe ainda a tetraquia de Lisânias. Como sinal de seu afeto, presenteou-o com uma cadeia de ouro que tinha o mesmo peso daquela, de ferro, que ele usara na prisão. Em seguida, nomeou Marulo governador da Judéia.
787.  No segundo ano do reinado de Caio, Agripa rogou-lhe que lhe permitisse viajar ao seu reino, a fim de organizar todos os assuntos referentes ao governo, com a promessa de retornar logo depois. Então, com a permissão do imperador, ele entrou no seu próprio país. Vimos que foi contra toda espécie de probabilidade que esse príncipe veio a ter a coroa sobre a cabeça. Tal fato é um ilustre exemplo do poder da fortuna, quando se comparam as misérias passadas com a felicidade presente. Alguns, por isso, admiravam a firmeza e a constância que ele havia demonstrado para ver realizadas as suas esperanças. Outros tinham dificuldade em acreditar no que viam com os próprios olhos.

CAPÍTULO 9
HERODIAS, MULHER DE HERODES, O TETRARCA, E IRMÃ DO REI AGRIPA, NÃO PODENDO TOLERAR A PROSPERIDADE DO IRMÃO, OBRIGA O MARIDO A IR A ROMA, PARA LÁ OBTER TAMBÉM UMA COROA. AGRIPA ESCREVE CONTRA ELE AO IMPERADOR. CAIO ENVIA HERODES E A MULHER PARA O EXÍLIO, A LIÃO.

788.  Herodias, irmã do novo rei Agripa e mulher de Herodes, tetrarca da Galiléia e da Peréia, não pôde suportar a prosperidade de seu irmão, que o elevava acima de seu marido. Ela ardia de inveja ao ver aquele que antes fora obrigado a se refugiar junto deles por não ter meios de pagar as próprias dívidas retornar agora cumulado de honras e de glória. Tão grande mudança de fortuna era-lhe insuportável, principalmente quando o via caminhar com vestes reais no meio do povo. Assim, não podendo dissimular o despeito que sem cessar lhe roía o coração, insistia com o marido para que fosse a Roma reivindicar semelhante honra. Declarou ser-lhe intolerável ver Agripa — que era apenas filho de Aristóbulo, ao qual o pai mandara matar, e que fora obrigado a fugir por não ter recursos para saldar os próprios débitos — usando uma coroa, enquanto aquele que era filho de um rei e que todos os parentes desejavam ver carregando o cetro não aspirava a semelhante glória, contentando-se em levar uma vida modesta.
Dizia ela: &quot;Se pudestes suportar até aqui viver numa condição menos elevada que a de vosso pai, começai agora a desejar pelo menos uma honra que seja digna do vosso nascimento. Não queirais ser inferior a um homem que outrora educastes nem tão fraco para não trabalhar, na abundância dos bens que desfrutais, pela obtenção de algo que ele conseguiu num estado de carência, em que tudo lhe faltava. É vergonhoso para vós caminhar à retaguarda daquele que já se viu na condição de não poder viver sem o vosso auxílio. Vamos, pois, a Roma e não poupemos para isso trabalhos nem despesas, porque não há maior prazer em conservar tesouros senão para empregá-los na obtenção de um reino&quot;.
Herodes, que amava a tranqüilidade e desconfiava da corte romana, tudo fez para dissuadir a mulher de tal idéia. Porém, quanto mais ela o via resistir, mais insistia, e nada havia que a sua paixão por obter um reino não a levasse a realizar para consegui-lo. Por fim, tanto o atormentou que ele não pôde mais resistir às suas importunações — esse consentimento foi-lhe arrancado, não obtido. E, com um soberbo séquito, partiram juntos para Roma. Agripa, apenas o soube, enviou Fortunato, um de seus libertos, ao imperador, com presentes e cartas, nas quais escreveu contra Herodes. Ele deu ao liberto o encargo de procurar a ocasião favorável para tratar do assunto junto a Caio.
Fortunato teve o vento tão favorável que chegou a Putéoli ao mesmo tempo que Herodes. Caio achava-se então em Bayes, pequena cidade da Campanha, onde existem soberbos palácios, em grande número, construídos pelos imperadores, sendo que cada um deles se havia esforçado para construir o maior em magnificência. Fora convidado a ir para lá porque havia também fontes e banhos de água quente, não menos agradáveis que benéficos para a saúde. Depois que Herodes cumprimentou o imperador, Fortunato apresentou-lhe as cartas de Agripa. Ele as leu na mesma hora e entendeu que Agripa acusava Herodes de haver conspirado com Sejano contra Tibério e de agora favorecer Artabano, rei dos partos, contra o próprio Caio — e não era necessário maior prova que o fato de ele ter em seus arsenais o suficiente para armar setenta mil homens.
O imperador, impressionado com tal acusação, perguntou a Herodes se era verdade que ele possuía tão grande quantidade de armas. E, como ele respondesse que sim, porque não o podia negar, julgou que a traição dele era verdadeira. Assim, tirou-lhe a tetrarquia e anexou-a ao reino de Agripa, confiscou todo o seu dinheiro, entregando-o também ao Agripa, e condenou-o ao exílio perpétuo em Lião, cidade das Gálias. Porém, ao saber que a mulher de Herodes era irmã de Agripa, decidiu deixar com ela aquele dinheiro, na convicção de que a princesa não desejava seguir o marido em sua desgraça, e disse-lhe que a perdoava, por causa de seu irmão.
Ela então respondeu: &quot;Vós agis, senhor, de uma maneira digna de vós, fazen-do-me esse favor. Todavia, o amor pelo meu marido não me permite recebê-lo. Como tive parte na sua prosperidade, não é justo que eu o abandone agora no infortúnio&quot;. Tão grande coragem numa mulher foi intolerável a Caio, e ele a mandou também para o exílio, entregando todos os seus bens a Agripa. Deus assim castigou Herodias pela inveja que sentia da felicidade de seu irmão e Herodes por ter dado ouvidos às vãs insinuações de sua mulher.
789.  Esse novo imperador governou muito bem durante os dois primeiros anos de seu reinado. Ele conquistou o coração dos romanos e de todos os povos sujeitos ao império. Mas esse grande poder a que se viu elevado deixou-o depois tão cheio de si que ele se esqueceu de que era homem. A sua loucura cresceu tanto que ele chegou a proferir blasfêmias contra Deus e a atribuir a si mesmo honras que somente a Ele pertencem.

CAPÍTULO 10
DIVERGÊNCIAS ENTRE OS JUDEUS E OS GREGOS DE ALEXANDRIA. ELES
MANDAM UMA EMBAIXADA A CAIO. FÍLON É DESIGNADO CHEFE DA
DELEGAÇÃO DOS JUDEUS.

790.  Surgiu em Alexandria uma séria divergência entre os judeus e os gregos, e eles mandaram, de cada lado, três embaixadores a Caio, chefiados por Apio e Fílon. Apio acusou os judeus de várias coisas, principalmente de que, não havendo então um só lugar em todo o território do Império Romano onde não houvesse um Templo e altares em honra ao imperador e onde ele não fosse reverenciado como um deus, os judeus, e somente eles, se recusavam a prestar-lhe aquela honra e a jurar em seu nome. A isso ele acrescentou tudo o que julgou capaz de irritar ainda mais o imperador. Quando Fílon, irmão de Alexandre, alabarche, homem de grande mérito e muito estimado, eminente filósofo, se preparou para responder pelos judeus, Caio ordenou que ele se retirasse. Estava de tal modo irado contra ele que, não tivesse Fílon obedecido prontamente, o teria sem dúvida ofendido. Fílon, então, voltando-se para os judeus que o acompanhavam, disse-lhes: &quot;É agora que devemos esperar, mais do que nunca, que Deus não deixe de nos ser favorável, pois o imperador está muito irritado contra nós&quot;.

CAPÍTULO 11
CAIO ORDENA A PETRÔNIO, GOVERNADOR DA SÍRIA, QUE OBRIGUE OS
JUDEUS, PELAS ARMAS, A RECEBER A SUA ESTÁTUA NO TEMPLO. PETRÔNIO,
COMOVIDO PELAS SÚPLICAS DOS JUDEUS, ESCREVE EM FAVOR DELES.

791. Esse soberbo príncipe, não podendo tolerar que os judeus fossem os únicos a recusar obedecer-lhe, enviou Petrônio à Síria para ser governador em lugar de Vitélio, com ordem de entrar com armas na Judéia e colocar a sua estátua no Templo, em Jerusalém, se os judeus o consentissem, ou de fazer-lhes guerra e obrigá-los a aceitá-la à força, caso a rejeitassem. Petrônio, logo que chegou à Síria, reuniu o que pôde de tropas auxiliares para unir às duas legiões romanas que o acompanhavam e estabeleceu quartéis de inverno em Tolemaida, com a intenção de iniciar a guerra assim que chegasse a primavera. Ele escreveu a Caio informando-o dessa decisão, e o imperador louvou a sua diligência e ordenou-lhe que não deixasse de guerrear os judeus, se estes permanecessem obstinados.
No entanto, vários dentre os de nossa nação foram procurar Petrônio em Tolemaida para rogar-lhe que não os obrigasse a fazer uma coisa tão contrária à sua religião. Declararam que, se ele estava absolutamente resolvido a colocar a estátua do imperador no Templo, então devia começar por matá-los todos, pois, enquanto vivessem, jamais permitiriam que se violassem as leis que haviam recebido de seu admirável legislador, as quais eles e seus antepassados observavam havia tantos séculos.
Petrônio respondeu-lhes: &quot;As vossas razões poderiam comover-me, se o governador se orientasse pelos meus avisos, mas sou obrigado a obedecer-lhe, e a isso não poderia eu faltar sem correr o risco de ser morto&quot;. Os judeus retrucaram: &quot;Se estais resolvido a executar a todo custo as ordens do imperador, também nós estamos decididos a observar as nossas leis e a imitar a virtude de nossos antepassados, pondo toda a nossa confiança no auxílio de Deus. Acaso poderíamos, sem impiedade, preferir a conservação de nossa vida à obediência que devemos a Ele ou não nos expor ao perigo a fim de permanecermos em nossa santa religião? E, como Deus sabe que é somente para lhe prestarmos a honra que lhe é devida que estamos prontos a nos arriscar, esperamos a sua proteção. Tudo o que nos possa acontecer, mesmo a morte, ser-nos-á mais fácil de suportar que a vergonha e a dor de uma obediência covarde e a violação de nossas leis, que atrairia sobre nós a cólera de Deus, a qual, vós mesmo podeis julgar, é muito mais temível que a do imperador&quot;.
Essas palavras convenceram Petrônio de que ele não poderia vencer a obstinação dos judeus e que seria absolutamente necessário recorrer às armas e derramar muito sangue antes que pudesse colocar a estátua no Templo. Então ele partiu para Tiberíades, acompanhado somente pelos seus amigos e domésticos, para julgar melhor do estado das coisas. E os judeus, que não podiam ignorar o perigo que os ameaçava, embora temessem muito mais a violação de suas leis, foram, em grandíssimo número, procurá-lo em Tiberíades para pedir-lhe ainda que não os reduzisse ao desespero e nem insistisse em colocar no Templo aquela estátua, que iria profanar-lhe a santidade.
Petrônio então inquiriu: &quot;Estais mesmo resolvidos a fazer guerra ao imperador, sem considerar o seu poder nem a vossa fragilidade?&quot; Eles responderam: &quot;Nós não tomaremos as armas, porém morreremos todos antes de violar as nossas leis&quot;. Depois de assim falar, eles se lançaram por terra e, apresentando a garganta, mostraram que estavam dispostos a sofrer até mesmo a morte. Esse espetáculo tão comovente continuou por quarenta dias, e os judeus, durante esse tempo, abandonaram a cultura de suas terras, embora fosse a época de semear, tão firmes estavam na resolução de morrer a permitir a consagração daquela estátua.
Estavam as coisas nesse pé, quando Aristóbulo, irmão do rei Agripa, acompanhado por Elcias, cognominado o Grande, dos principais dessa família e dos mais ilustres entre os judeus, foi procurar Petrônio para pedir-lhe que considerasse, pois a resolução daquele povo era inflexível; que não os levasse ao desespero, mas comunicasse ao imperador que eles não tinham intenção alguma de se revoltar; que somente o temor de violar as suas leis fazia com que eles preferissem morrer a receber aquela estátua; que eles haviam até mesmo abandonado o cultivo de seus campos, e, não havendo semeadura, aconteceriam muitos roubos e saques, e eles não teriam meios de pagar o tributo ao imperador; que o príncipe se comovesse com tais razões e não se deixasse levar a medidas extremas contra uma ação que não tinha nenhuma característica de revolta; e que, se ele permanecesse firme em sua resolução, nada impediria que se começasse a guerra.
Aristóbulo, depois de falar com muito entusiasmo, conseguiu comover Petrônio, ante as considerações que fizera, bem como pela presença de tantas outras pessoas da nobreza, pela importância do assunto, pela invencível confiança dos judeus e pela convicção da injustiça que ele cometeria ao sacrificar um tão grande número de homens só para satisfazer a loucura de Caio, sem falar que, por ter ofendido a Deus, iria viver dali em diante na expectativa de um castigo. Petrônio então achou melhor escrever ao imperador e apresentar a dificuldade que encontrava na execução de suas ordens, embora soubesse que isso iria provocar-lhe um grande acesso de ira, por não ver imediatamente cumpridas as suas determinações, e que, além de tudo, corria um grande perigo. Porém, ainda que não pudesse acalmá-lo e, em vez de fazê-lo mudar de opinião, atraísse a cólera do imperador contra si, estava certo de que era seu dever, como homem de bem, não temer expor a própria vida para salvar a de um grande povo.
Depois de tomar essa resolução, ordenou que os judeus viessem a Tiberíades. Eles acorreram em grande número, e ele assim lhes falou: &quot;Não foi por minha própria iniciativa que reuni tantas tropas, mas a isso fui obrigado para executar uma ordem do imperador, cujo poder é tão grande e absoluto que corre grave perigo quem tarda em obedecer-lhe. E a isso sou tanto mais obrigado quanto foi ele mesmo que me elevou a esta dignidade. No entanto, como não poderia condenar o vosso zelo pela observância de vossas leis e nem concordar que o príncipe tente profanar o Templo de Deus, prefiro a vossa salvação à minha segurança e à minha sorte. Escreverei então ao imperador para apresentar-lhe as vossas razões e os vossos sentimentos e nada esquecerei, no que depender de mim, para tentar persuadi-lo a não os tomar em mau sentido. Queira Deus, cujo poder está tão acima da força dos homens, se for do seu agrado, ajudar-me em manter a vossa religião na sua integridade, não castigando o imperador pelo pecado que a sua paixão por ser honrado o faz cometer. Se ele se julgar ofendido com o que vou escrever, que volte a sua cólera contra mim. Consolar-me-ei com tudo o que me fizer sofrer, ainda que me venha a tirar a vida, contanto que eu não veja perecer uma tão grande multidão de gente cujas ações são louváveis e justas. Assim, retornai todos a vossas casas e recomeçai o cultivo das terras, pois me encarrego de escrever a Roma e de vos ajudar com todas as minhas forças, tanto por mim mesmo quanto por meio de meus amigos&quot;.
Deus não tardou a demonstrar o quanto aprovava o proceder desse sábio governador e a dar a toda aquela assembléia um testemunho visível de seu auxílio. Apenas Petrônio encerrou as suas palavras, exortando ainda os judeus a criar ânimo e a cultivar as terras, o ar, que estava sereno e sem a menor sombra de nuvem, transformou-se completamente, e caiu uma chuva abundante, contra todas as expectativas, ante uma seca tão forte como a que então se atravessava e que levava ao desespero os homens, até ali muitas vezes enganados pela aparência carregada de alguns dias nublados, mas que não lhes traziam água.
Assim, os judeus ficaram convencidos de que os serviços que o seu governador lhes prometia prestar não seriam inúteis. O próprio Petrônio ficou impressionado com aquele prodígio, tanto que não pôde duvidar de que Deus cuidava daquele povo. Não deixou de escrever ao imperador e aconselhou-o a não lançar no desespero uma nação, tentando destruí-la, nem obrigá-la por uma luta sangrenta a abandonar a religião que professava. Havia também a considerar as grandes rendas de que se privaria e a maldição que esse ato atrairia sobre ele nos tempos futuros. A isso acrescentou que Deus havia manifestado por meio de sinais sensíveis o seu poder e o quanto aquele povo lhe era querido.
792. O rei Agripa, que então estava em Roma e era cada vez mais estimado pelo imperador, deu-lhe um banquete, tão suntuoso que sobrepujou em magnificência, em cortesia e em toda espécie de iguarias a todos os que antes se lhe ofereceram, sem mesmo se excetuarem os do próprio imperador, tal era o seu esforço para se manter agradável àquele príncipe. Caio, admirado de tanta suntuosidade e comovido pelo fato de que Agripa, a fim de agradá-lo, não temia fazer uma despesa que ia além de suas posses, não quis se mostrar inferior em generosidade. Assim, no meio da alegria, quando o vinho começava a deixá-lo excitado, disse a Agripa, que bebia à sua saúde: &quot;Não é de hoje que reconheço a vossa afeição. Dela me destes provas, mesmo com perigo, vivendo ainda Tibério, e vejo que continuais a tudo fazer para manifestar a vossa boa vontade para comigo. Assim, como me seria vergonhoso deixar-me sobrepujar por vós, quero reparar tudo o que deixei de vos fazer até agora e acrescentar grande generosidade à minha liberalidade precedente, e que a vossa felicidade futura sobrepuje em muito a que agora desfrutais&quot;.
Caio, assim falando, não duvidava de que Agripa lhe haveria de pedir grandes extensões de terra ou os tributos de algumas cidades. Agripa, no entanto, havia muito tempo estava preparado para pedir uma outra graça, tomando aquela ocasião para obtê-la, sem manifestar, todavia, que era um desígnio premeditado. E respondeu que, quando se havia unido a ele contra a vontade de Tibério, não o fizera com o fim de se aproveitar disso, mas somente pelo desejo de conquistar-lhe as boas graças. E os benefícios com que ele o honrara haviam sobrepujado as suas maiores expectativas. E acrescentou: &quot;Pois, ainda que me pudésseis conceder outras graças, já me satisfizestes plenamente quanto ao que eu poderia desejar de vossa bondade&quot;.
Caio, admirado de tão grande moderação, insistiu que ele pedisse o que desejava, se estivesse em seu poder concedê-lo. Então Agripa respondeu: &quot;Senhor, uma vez que a vossa extrema bondade para comigo faz com que me julgueis digno de vossos favores, far-vos-ei um pedido que não se refere ao acréscimo de meus bens, pois a vossa liberalidade me pôs em condições de não mais precisar disso. A graça que vos suplico granjeará para vós uma grande fama de piedade, conquistará o favor de Deus em todos os vossos desígnios e me será mais vantajosa que qualquer outra, dentre as tantas que já me concedestes. O meu pedido é que revogueis a ordem que destes a Petrônio de pôr a vossa estátua no Templo, em Jerusalém&quot;.
Agripa, após enunciar o seu pedido, não ignorava que arriscava nisso nada menos que a própria vida, pois estava se contrapondo a uma ordem do colérico imperador. Mas Caio, cujo espírito Agripa havia acalmado pelos serviços que lhe prestara, teve vergonha de recusar-lhe uma graça que ele próprio insistira em conceder diante de diversas testemunhas. Não poderia, daquele modo, faltar à palavra que empenhara. Ele admirou-se da generosidade de Agripa, que o fazia preferir a conservação das leis de seu país e do culto ao Deus que ele adorava ao progresso de seu reino e ao acréscimo de suas rendas.
Assim, concedeu-lhe aquela graça e escreveu a Petrônio louvando-o por haver reunido as tropas com tanta solicitude a fim de executar o que ele lhe havia ordenado. E, caso já houvesse colocado a estátua no Templo, que deixasse as coisas como estavam. Mas, se lá ela ainda não estava, que desse descanso às tropas e regressasse à Síria sem nada mais fazer, porque estava concedendo aquela dádiva aos judeus, a rogo de Agripa, a quem muito estimava para lhe negar alguma coisa. Era isso que o dizia a carta. Porém, vindo a saber que os judeus ameaçavam tomar as armas e considerando aquela ousadia uma atitude atrevida e intolerável contra a sua autoridade, ficou muito encolerizado, pois não sabia moderar-se, fossem quais fossem os motivos, antes, vangloriava-se de se deixar levar pela paixão.
Assim, escreveu a Petrônio imediatamente, nestes termos: &quot;Uma vez que preferistes os presentes dos judeus às minhas ordens e não tendes receio de me desobedecer para agradá-los, é meu desejo que sejais vós mesmo o vosso juiz quanto ao castigo que mereceis, pois atraístes sobre vós a minha cólera, e que o vosso exemplo ensine ao século presente e aos futuros o respeito que é devido às ordens dos imperadores&quot;. A viagem de navegação daqueles que levavam a carta, que era mais uma sentença de morte que uma missiva, foi muito demorada, e Petrônio, ao recebê-la, já havia sido informado da morte de Caio. Nisso Deus mostrou que não havia esquecido o perigo ao qual Petrônio se havia exposto, pela sua honra e para obsequiar o seu povo, e manifestou um sinal de sua vingança sobre esse ímpio imperador, que ousava igualar-se a Ele.
Tão generosa ação de Petrônio não somente lhe granjeou a estima de todas as províncias submetidas ao império como até mesmo a de todos os romanos, particularmente dos senadores, ao quais esse mau imperador tinha prazer em perseguir. Direi a seu tempo a causa da conspiração que se tramou contra ele e a maneira como foi executada. Mas aqui devo acrescentar que Petrônio, após receber a primeira carta, que lhe foi entregue por último, não se cansava de admirar o proceder e a providência de Deus, que tão prontamente o havia recompensado por seu respeito ao Templo e pelo auxílio que prestara aos judeus.

CAPÍTULO 12
DOIS JUDEUS, ASINEU E ANILEU, QUE ERAM IRMÃOS, DE SIMPLES
CIDADÃOS TORNAM-SE TÃO PODEROSOS NA BABILÔNIA, QUE CAUSAM
TRABALHO AOS PARTOS. SEUS FEITOS. SUA MORTE. OS GREGOS E OS SÍRIOS QUE
MORAVAM EM SELÊUCIA REÚNEM-SE CONTRA OS JUDEUS E ESTRANGULAM
CINQÜENTA MIL DELES.

793. Os judeus que habitavam a Mesopotâmia, particularmente os da Babilônia, padeceram naquele tempo males que jamais haviam sofrido em séculos precedentes. E, como pretendo tratar com muita exatidão esse assunto, sou obrigado a remontar à origem deles. Existe na província da Babilônia uma cidade de nome Neerda, cujo território é tão fértil que, embora seja muito povoada, produz o suficiente para alimentar todos os seus habitantes. Tem ela ainda a vantagem de não estar exposta aos ataques dos inimigos porque, além de suas grandes fortificações, é rodeada pelo Eufrates, a cuja margem está ainda situada outra cidade, de nome Nisibe. Como os judeus confiavam na força dessas duas praças, ali punham em depósito o dinheiro que consagravam a Deus, segundo o costume de nossos antepassados, e depois o mandavam a Jerusalém com uma grande escolta, para que não fosse roubado pelos partos, que então reinavam na Babilônia.
ENTRE OS JUDEUS DE NEERDA, HAVIA DOIS IRMÃOS, ASINEU E ANILEU, CUJO PAI MORRERA, E A MÃE OS FEZ APRENDER O OFÍCIO DE TECELÃO, QUE NÃO É UMA PROFISSÃO VERGONHOSA PARA OS HOMENS. MAS UM DIA ELES CHEGARAM MUITO TARDE AO TRABALHO E FORAM ESPANCADOS PELO SEU SENHOR. NÃO PODENDO SUPORTAR AQUELA AFRONTA, APANHARAM TODAS AS ARMAS QUE PUDERAM ENCONTRAR EM CASA E RETIRARAM-SE A UM LUGAR ONDE O RIO SE DIVIDE EM DOIS E É MUITO RICO, NÃO SOMENTE EM PASTAGENS, MAS EM TODA ESPÉCIE DE FRUTOS, PARTICULARMENTE DAQUELES QUE SE CONSERVAM DURANTE O INVERNO.
ALGUNS MOÇOS, QUE NÃO TINHAM COM QUE VIVER, JUNTARAM-SE A ELES, E TODOS ARMARAM-SE O MAIS POSSÍVEL. OS DOIS IRMÃOS FICARAM SENDO OS SEUS COMANDANTES, SEM QUE NENHUM DELES SE OPUSESSE. CONSTRUÍRAM DEPOIS UM FORTE, DE ONDE MANDAVAM PEDIR AOS HABITANTES DOS PAÍSES VIZINHOS UMA CONTRIBUIÇÃO, TANTO EM GADO COMO QUANTO EM OUTRAS COISAS NECESSÁRIAS PARA A SUA SUBSISTÊNCIA, COM A PROMESSA DE DEFENDÊ-LOS CONTRA OS QUE OS QUISESSEM ATACAR, SE OS ATENDESSEM, E COM AMEAÇA DE MATAR OS SEUS REBANHOS, CASO NÃO O FIZESSEM.
ASSIM, TODOS ERAM OBRIGADOS A FAZER O QUE ELES QUERIAM, E O SEU NÚMERO AUMENTAVA SEMPRE, A PONTO DE ELES SE TORNAREM TEMÍVEIS A TODO O PAÍS. A NOTÍCIA DESSE FATO CHEGOU ATÉ ARTABANO, REI DOS PARTOS. O PRÍNCIPE DA BABILÔNIA, PARA AFOGAR O MAL EM SUA ORIGEM, REUNIU TROPAS O QUANTO PÔDE, TANTO DE PARTOS COMO DE BABILÔNIOS, E MARCHOU RAPIDAMENTE CONTRA ELES, COM A INTENÇÃO DE SURPREENDÊ-LOS. COMEÇOU POR RODEAR O PÂNTANO E PROIBIU OS HOMENS DE PASSAR ALÉM, PORQUE JULGAVA QUE, SENDO SÁBADO O DIA SEGUINTE, OS JUDEUS NÃO SE DEFENDERIAM E DEIXAR-SE-IAM APRISIONAR SEM COMBATER. ASINEU, QUE DE NADA DESCONFIAVA, DESCANSAVA COM ALGUNS DE SEUS HOMENS E TINHA AS ARMAS PERTO DE SI. ENTÃO ELE DISSE: &quot;MEUS COMPANHEIROS, ESTOU OUVINDO UM RELINCHO. NÃO DE CAVALOS QUE PASTAM, MAS DAQUELES QUE TRANSPORTAM SOLDADOS, PORQUE OUÇO TAMBÉM O BARULHO DOS ARREI-OS. POR ISSO, JULGO QUE SÃO INIMIGOS QUE VÊM PARA NOS SURPREENDER E NÃO DESEJO ENGANAR-ME&quot;.
DEPOIS DE LHES FALAR, ENVIOU ALGUNS HOMENS PARA DESCOBRIR O QUE ESTAVA ACONTECENDO, E UM DELES VEIO DIZER-LHE QUE AQUELA SUPOSIÇÃO ERA VERDADEIRA: OS INIMIGOS AVANÇAVAM, EM NÚMERO ELEVADÍSSIMO, E DIZIAM QUE NÃO LHES SERIA DIFÍCIL DERROTÁ-LOS SE OS ATACASSEM NO DIA DE DESCANSO, QUANDO AS LEIS DO PAÍS IMPEDIAM AOS JUDEUS A DEFESA. ASINEU, EM VEZ DE SE ADMIRAR COM ESSA COMUNICAÇÃO, DISSE QUE ERA NECESSÁRIO NÃO LHES PERMITIR A VANTAGEM, PARA IMPEDIR QUE O INIMIGO OS ATACASSE E MATASSE SEM ENCONTRAR RESISTÊNCIA. AO CONTRÁRIO, EM TÃO PREMENTE PERIGO, DEVIAM DEMONSTRAR A SUA CORAGEM E VIRTUDE, PARA PELO MENOS VENDER BEM CARO A PRÓPRIA VIDA. DIZENDO ESSAS PALAVRAS, TOMOU AS ARMAS, E O EXEMPLO DE SUA CORAGEM FEZ QUE TODOS OS OUTROS TAMBÉM AS EMPUNHASSEM COM INTREPIDEZ. ELES ENTÃO CAÍRAM SOBRE OS INIMIGOS, QUE AGIAM DE MODO DESCUIDADO, COMO SE JÁ ESTIVESSEM COM A VITÓRIA GARANTIDA, MATANDO MUITOS DELES, DESBARATANDO-OS E PONDO-OS EM FUGA.
A NOTÍCIA DESSA DERROTA CHEGOU AO REI DOS PARTOS, E ELE CONCEBEU TANTA ESTIMA PELA CORAGEM DOS DOIS IRMÃOS QUE DESEJOU CONHECÊ-LOS. MANDOU DIZER-LHES, POR MEIO DE UM DE SEUS GUARDAS EM QUEM MAIS ELE CONFIAVA, QUE, EMBORA TIVESSE MOTIVO DE SE OFENDER, PELAS VIOLÊNCIAS QUE HAVIAM COMETIDO CONTRA O SEU REINO, ESTAVA MAIS ADMIRADO COM A CORAGEM DELES E POR ISSO PROMETIA, EM SEU NOME, NÃO SOMENTE PERDOÁ-LOS DE BOA FÉ, MAS FAZER COM QUE SENTISSEM OS EFEITOS DE SUA LIBERALIDADE, DESDE QUE, DALI POR DIANTE, ELES EMPREGASSEM A SUA BRAVURA APENAS NO SEU SERVIÇO. EMBORA PROMESSAS TÃO VANTAJOSAS PUDESSEM INSPIRAR CONFIANÇA A ANILEU, ELE ACHOU POR BEM NÃO SE APRESSAR EM PARTIR, MAS ENVIOU ASINEU, SEU IRMÃO, PARA ENCONTRAR-SE COM O REI, JUNTO COM PRESENTES ADEQUADOS AO SEU PODER.
O PRÍNCIPE RECEBEU-O MUITO BEM E PERGUNTOU POR QUE O IRMÃO NÃO VIERA COM ELE. AO ENTENDER, PELA RESPOSTA, QUE O TEMOR O HAVIA IMPEDIDO DE ABANDONAR OS PÂNTANOS, JUROU PELOS SEUS DEUSES QUE AMBOS PODIAM VIR EM SEGURANÇA. E, PARA DAR-LHES INTEIRA PROVA DISSO, TOCOU-LHE A MÃO DIREITA (ENTRE OS BÁRBAROS, ESSA É UMA PROVA E O MAIOR SINAL DE UMA PALAVRA INVIOLÁVEL). DESPEDIU-O EM SEGUIDA, PARA QUE FOSSE ENCONTRAR-SE COM O IRMÃO, A FIM DE PERSUADI-LO A VIR TAMBÉM. NISSO O PRÍNCIPE AGIA COM MUITA PRUDÊNCIA, POIS TINHA UM DUPLO OBJETIVO: GANHAR OS DOIS IRMÃOS E SERVIR-SE DELES PARA DOMINAR OS GRANDES DE SEU PAÍS, QUE PARECIAM INCLINADOS A SE REVOLTAR QUANDO O VIAM OCUPADO EM OUTROS LUGARES. ALÉM DO MAIS, ENQUANTO ESTIVESSEM EMPENHADOS EM REPRIMIR A REBELIÃO, OS IRMÃOS NÃO TERIAM TEMPO DE FORTIFICAR O LADO DA BABILÔNIA, FOSSE PELO CRESCIMENTO DO PARTIDO DE ASINEU, FOSSE PELO DESEJO DE FAZER-LHE GUERRA.
ASINEU, APÓS SABER PELO IRMÃO TUDO O QUE SE HAVIA PASSADO, NÃO TEVE DIFICULDADE EM SE DECIDIR A IR COM ELE PARA ENCONTRAR-SE COM O REI. FORAM RECEBIDOS AMAVELMENTE, E O PRÍNCIPE, VENDO QUE ASINEU ERA FRANZINO E DE APARÊNCIA INSIGNIFICANTE, DIZIA AOS AMIGOS QUE MUITO LHE ADMIRAVA QUE EM UM CORPO TÃO PEQUENO HOUVESSE UMA ALMA TÃO GRANDE. UM DIA, QUANDO ESTAVAM À MESA, ELE APRESENTOU ASINEU A ABDEGAZE, GENERAL DE SEU EXÉRCITO, E FALOU A ESTE, EM TERMOS MUITO ELOGIOSOS, DO VALOR DEMONSTRADO POR AQUELE NA GUERRA. ROGOU-LHE ENTÃO O BÁRBARO QUE O REI LHE PERMITISSE MATÁ-LO, PARA O CASTIGAR PELOS MUITOS MALES QUE HAVIA CAUSADO AOS SEUS SÚDITOS. ARTABANO, SURPREENDIDO POR ESSA PROPOSTA, RESPONDEU QUE JAMAIS PERMITIRIA QUE SE CAUSASSE QUALQUER MAL A UM HOMEM QUE HAVIA CONFIADO EM SUA PALAVRA, A QUAL ELE LHE DERA COM JURAMENTO, TOCANDO A SUA MÃO.
O REI ACRESCENTOU: &quot;SE QUEREIS, TODAVIA, AGIR COMO HOMEM DE CORAGEM, NÃO É NECESSÁRIO QUE EU VIOLE O MEU JURAMENTO PARA QUE VINGUEIS OS PARTOS DA VERGONHA QUE ELE OS FEZ PASSAR. DEVEREIS ENTÃO ATACÁ-LO EM CAMPO ABERTO, QUANDO ELE TIVER REGRESSADO, SEM QUE EU ME META NISSO&quot;. MAS ESSE GENEROSO PRÍNCIPE MANDOU BEM CEDO CHAMAR ASINEU E DISSE-LHE: &quot;DEVEIS REGRESSAR AGORA, PARA QUE A VOSSA PERMANÊNCIA AQUI NÃO ATRAIA SOBRE VÓS A IRA DE MEUS GENERAIS E ELES NÃO VENHAM, SEM O MEU CONSENTIMENTO, ATENTAR CONTRA A VOSSA VIDA. RECOMENDO-VOS À PROVÍNCIA DA BABILÔNIA. DEFENDEI-A COM A VOSSA SOLICITUDE, EVITANDO-LHE OS SAQUES E OS MALES QUE LHE POSSAM ADVIR. É UMA GRATIDÃO QUE ME DEVEIS PELA FIDELIDADE COM QUE EU INVIOLAVELMENTE VOS GUARDEI, SEM ESCUTAR OS QUE CONSPIRAVAM CONTRA A VOSSA RUÍNA, PERMANECENDO FIRME NA RESOLUÇÃO DE VOS PROTEGER&quot;.
ARTABANO, DEPOIS DESSAS PALAVRAS, DESPEDIU-O COM PRESENTES. IMEDIATAMENTE APÓS O SEU REGRESSO, ASINEU CONSTRUIU NOVOS FORTES, REFORÇOU OS QUE JÁ HAVIA CONSTRUÍDO E TORNOU-SE TEMÍVEL EM POUCO TEMPO. NENHUM OUTRO ANTES DELE, VINDO DE BERÇO TÃO HUMILDE, CONQUISTOU TÃO ELEVADO GRAU DE PODER. ELE NÃO ERA SOMENTE REVERENCIADO PELOS BABILÔNIOS. TAMBÉM OS PARTOS ENVIADOS COMO GOVERNADORES ÀS PROVÍNCIAS PRESTAVAM-LHE A MESMA HONRA, E TODAS AS QUESTÕES NA MESOPOTÂMIA ESTAVAM SUBMISSAS AO SEU CONSELHO.
OS DOIS IRMÃOS PASSARAM QUINZE ANOS NESSA GRANDE PROSPERIDADE, QUE SÓ VEIO A DIMINUIR QUANDO ELES, VENCIDOS PELA VOLUPTUOSIDADE, ABANDONARAM AS LEIS DE SEUS ANTEPASSADOS. TUDO COMEÇOU QUANDO UM GENERAL DOS PARTOS FOI ENVIADO COMO GOVERNADOR ÀQUELAS PROVÍNCIAS. ELE TINHA UMA MULHER QUE, ALÉM DE POSSUIR VÁRIAS E EXCELENTES QUALIDADES, ERA DE EXTRAORDINÁRIA BELEZA, ADMIRADA POR TODOS. ANILEU, QUER PORQUE A TENHA VISTO, QUER PORQUE APENAS OUVIRA FALAR DELA, FICOU PERDIDAMENTE ENAMORADO. E, COMO NÃO PODIA DOMINAR A SUA PAIXÃO NEM OBTER O QUE DESEJAVA POR OUTROS MEIOS, DECLAROU GUERRA AO SEU MARIDO E MATOU-O NUM COMBATE. A MULHER ENTÃO FICOU EM SEU PODER, E DEPOIS ELE A DESPOSOU.
A PARTIR DAÍ SOBREVIERAM TODAS AS DESGRAÇAS QUE AFLIGIRAM A ELE E AO IRMÃO, POIS AQUELA SENHORA LEVOU CONSIGO OS ÍDOLOS DE SEUS FALSOS DEUSES, AOS QUAIS ADORAVA SECRETAMENTE ENQUANTO AINDA ERA CATIVA. DEPOIS QUE ANILEU A DESPOSOU, PORÉM, JÁ NÃO OS OCULTAVA TANTO. ENTÃO OS PRINCIPAIS AMIGOS DELE FIZERAM-LHE VER QUE NADA ERA MAIS CONTRÁRIO ÀS SUAS LEIS QUE DESPOSAR UMA ESTRANGEIRA DADA À OBSERVÂNCIA DOS SACRIFÍCIOS E SUPERSTIÇÕES DE SEU PAÍS DE ORIGEM. ALERTARAM-NO TAMBÉM A NÃO SE DEIXAR LEVAR PELAS PAIXÕES, PARA QUE NÃO VIESSE A PERDER AQUELA GRANDE PROSPERIDADE DE QUE ERA DEVEDOR AO AUXÍLIO DE DEUS. TAIS CONSIDERAÇÕES, TODAVIA, EM VEZ DE IMPRESSIONÁ-LO, DEIXARAM-NO ENFURECIDO, TANTO QUE, INCAPAZ DE TOLERAR TÃO LOUVÁVEL LIBERDADE, MATOU OS PRINCIPAIS DENTRE OS QUE LHES FALAVAM COM TANTA SABEDORIA. ESTES, AO MORRER, PEDIRAM A DEUS QUE VINGASSE A SUA MORTE E O ULTRAJE FEITO ÀS SUAS SANTAS LEIS E PERMITISSE QUE ASINEU E ANILEU FOSSEM TRATADOS PELOS SEUS INIMIGOS DA MESMA FORMA COMO ELES ESTAVAM SENDO TRATADOS. ROGARAM TAMBÉM QUE CASTIGASSE AQUELES OUTROS QUE NÃO SE MOVIAM PARA SOCORRÊ-LOS, POIS, EMBORA AQUELAS PESSOAS CONDENASSEM EM SEU CORAÇÃO A ATITUDE DOS DOIS IRMÃOS, A RECORDAÇÃO DE SUA ANTIGA VIRTUDE E A LEMBRANÇA DE QUE DEVIAM A ELES A FELICIDADE QUE DESFRUTAVAM PREVALECIAM EM SEU ESPÍRITO.
ESSAS PESSOAS, NO ENTANTO, QUANDO VIRAM QUE AQUELA ESTRANGEIRA NÃO SE CONSTRANGIA MAIS EM ADORAR PUBLICAMENTE OS DEUSES DOS PARTOS, JULGARAM QUE NÃO DEVIAM MAIS TOLERAR QUE ANILEU CALCASSE DAQUELE MODO AOS PÉS A RELIGIÃO DE SEUS PAIS. VÁRIOS DELES ENTÃO FORAM PROCURAR ASINEU PARA QUEIXAR-SE DE SEU IRMÃO. DISSERAM-LHE QUE, SE DE INÍCIO ELE NÃO HAVIA PERCEBIDO A SUA FALTA, AGORA JÁ ERA TEMPO DE RECONHECÊ-LA E ARREPENDER-SE DELA, ANTES QUE O CASTIGO POR TÃO GRANDE CRIME CAÍSSE SOBRE TODOS ELES; QUE NENHUM DELES APROVAVA AQUELE CASAMENTO; QUE TODOS TINHAM HORROR ÀS ADORAÇÕES ÍMPIAS; E QUE AQUELA MULHER PRESTAVA CULTO A FALSAS DIVINDADES, COM DESPREZO À HONRA QUE ERA DEVIDA SOMENTE A DEUS.
ASINEU NÃO IGNORAVA QUE O PECADO DE SEU IRMÃO PODERIA CAUSAR MUITOS MALES. NO ENTANTO, VENDO QUE ELE NÃO ERA SENHOR DE SUA PAIXÃO POR AQUELA MULHER, O AFETO QUE TINHA POR ELE FAZIA-O SOFRER O QUE NÃO PODIA ABSOLUTAMENTE CONDENAR. POR FIM, ACHANDO-SE ACABRUNHADO E OPRIMIDO PELAS CONTÍNUAS QUEIXAS QUE LHE FAZIAM E QUE AUMENTAVAM SEMPRE, RESOLVEU FALAR-LHE. CENSUROU-O PELAS FALTAS QUE HAVIA COMETIDO E ORDENOU-LHE QUE SE CORRIGISSE, MAS INUTILMENTE. A MULHER, PERCEBENDO QUE ERA A CAUSA DAQUELE TUMULTO E TEMENDO QUE O AMOR DE ANILEU POR ELA SOFRESSE ALGUM RETROCESSO, COLOCOU VENENO NA COMIDA DE ASINEU. NÃO TEVE MEDO DE SER CASTIGADA, POIS TERIA POR JUIZ APENAS O MARIDO, QUE ERA ARREBATADO DE AMOR POR ELA.
ASSIM, ANILEU ACUMULOU SOZINHO TODA A AUTORIDADE E ENTROU COM TODAS AS SUAS FORÇAS NAS TERRAS DE MITRIDATES, QUE ERA UMA DAS PRINCIPAIS AUTORIDADES ENTRE OS PARTOS E GENRO DO REI ARTABANO. SAQUEOU O SEU TERRITÓRIO, TOMANDO UM GRANDE NÚMERO DE DESPOJOS, TANTO EM DINHEIRO QUANTO EM ESCRAVOS, ANIMAIS E OUTRAS COISAS DE VALOR. MITRIDATES, QUE ENTÃO NÃO ESTAVA AFASTADO DALI, AO SER INFORMADO DE QUE ANILEU TOMARA AS SUAS VILAS SEM MOTIVO, FICOU ENFURECIDO COM AQUELA INJÚRIA E REUNIU O MAIOR NÚMERO POSSÍVEL DE SOLDADOS, EM PARTICULAR UMA NUMEROSA CAVALARIA, E PÔS-SE IMEDIATAMENTE EM CAMPO PARA O COMBATE. MAS, EM VEZ DE CONTINUAR A MARCHA, DETEVE-SE NUMA ALDEIA A FIM DE ESPERAR O DIA SEGUINTE PARA ATACAR, PORQUE ERA SÁBADO E POR CONSEGUINTE DIA DE DESCANSO PARA OS JUDEUS.
UM SÍRIO, QUE MORAVA NUM LUGAR PRÓXIMO, AVISOU ANILEU E DISSE-LHE TAMBÉM QUE MITRIDATES OFERECERIA NAQUELA MESMA NOITE UM GRANDE BANQUETE. SEM PERDER TEMPO, ELE SERVIU A REFEIÇÃO AOS SEUS HOMENS E CAMINHOU DURANTE TODA A NOITE PARA SURPREENDER OS INIMIGOS. CHEGOU AO ACAMPAMENTO PERTO DA QUARTA VIGÍLIA E ENCONTROU-OS ADORMECIDOS, MATANDO VÁRIOS DELES E PONDO EM FUGA OS DEMAIS. PRENDEU MITRIDATES E OBRIGOU-O A MONTAR NU SOBRE UM BURRO, O QUE ENTRE OS PARTOS É A MAIOR DAS IGNOMÍNIAS. DEPOIS DE LEVÁ-LO DESSA MANEIRA ATÉ A FLORESTA MAIS PRÓXIMA, OS AMIGOS ACONSELHARAM-NO A MATÁ-LO, MAS ELE FOI DE OPINIÃO CONTRÁRIA, DIZENDO NÃO SER NECESSÁRIA TANTA CRUELDADE PARA COM UM DOS MAIORAIS DOS PARTOS, QUE TINHA A HONRA DE SER GENRO DO REI. ALÉM DO MAIS, POUPANDO-LHE A VIDA, PODERIA FAZÊ-LO ESQUECER AQUELA INJÚRIA. SE O MANDASSE MATAR, PORÉM, O REI IRIA SE VINGAR MATANDO OS JUDEUS QUE MORAVAM NA BABILÔNIA, CUJA CONSERVAÇÃO LHE ERA MUITO CARA, POIS ERA O SEU POVO. E, SENDO OS ACONTECIMENTOS DA GUERRA TÃO INCERTOS, SERIA ENTRE OS PARTOS QUE ELES PROCURARIAM REFÚGIO, CASO LHES ACONTECESSE ALGUMA DESGRAÇA. TODOS APROVARAM ESSA PROPOSTA, E ASSIM ELE MANDOU MITRIDATES EMBORA.
A ESPOSA DE MITRIDATES, PORÉM, FEZ-LHE MIL CENSURAS PORQUE, SENDO GENRO DO REI, ELE DEVIA ENVERGONHAR-SE DE DEVER A VIDA A UM POVO DO QUAL RECEBERA TANTAS INJÚRIAS. DISSE-LHE ELA: &quot;RETOMAI AGORA OS SENTIMENTOS DE VOSSA ANTIGA VIRTUDE OU, EM NOME DOS DEUSES, QUE SÃO OS CONSERVADORES DA DIGNIDADE DOS REIS, NÃO MAIS FICAREI EM VOSSA COMPANHIA&quot;. AS CRÍTICAS QUE A ESPOSA LHE MOVIA CONTINUAMENTE, O CONHECIMENTO QUE ELE TINHA DA EXTRAORDINÁRIA INSOLÊNCIA DA PRINCESA, QUE BEM PODERIA LEVÁ-LA A DIVORCIAR-SE DELE, E A CONSIDERAÇÃO DE QUE, TENDO NASCIDO PARTO, ELE SERIA INDIGNO DE VIVER SE FRAQUEJASSE DIANTE DOS JUDEUS FIZERAM-NO REUNIR, EMBORA CONTRA A VONTADE, O MAIOR NÚMERO POSSÍVEL DE TROPAS PARA GUERREÁ-LOS.
ANILEU SOUBE DISSO E JULGOU QUE SERIA VERGONHOSO FICAR DETIDO EM SEUS PANTANAIS, EM VEZ DE IR AO ENCONTRO DO INIMIGO. TINHA ESPERANÇAS DE QUE A SORTE LHE FOSSE TÃO PROPÍCIA QUANTO DAS OUTRAS VEZES E ACREDITAVA QUE A SUA CORAGEM INFLUENCIARIA OS SEUS SOLDADOS, COMO SEMPRE ACONTECIA. ASSIM, PÔS-SE EM CAMPO PARA A PELEJA. ALÉM DAS TROPAS ORDINÁRIAS, VÁRIAS OUTRAS REUNIRAM-SE A ELE, NA ESPERANÇA DE QUE OS INIMIGOS FUGISSEM DELES TÃO LOGO PERCEBESSEM O SEU GRANDE NÚMERO, PERMITINDO QUE ELES, SEM PERIGO, TOMASSEM OS SEUS RICOS DESPOJOS. MAS, APÓS TEREM FEITO NOVENTA ESTÁDIOS DE CAMINHO NO CALOR DO DIA, POR UMA REGIÃO EM QUE NÃO HAVIA ÁGUA, MITRIDATES, CUJAS TROPAS ESTAVAM DESCANSADAS E EM ORDEM, SURGIU DE REPENTE E CAIU SOBRE ELES, QUE DE TÃO ABATIDOS PELO CANSAÇO E PELA SEDE, MAL PODIAM SUSTENTAR AS ARMAS. POR ISSO TOMARAM VERGONHOSAMENTE O CAMINHO DA FUGA, DEPOIS QUE MUITOS PERDERAM A VIDA. ANILEU E VÁRIOS OUTROS ESCONDERAM-SE NUM BOSQUE, E MITRIDATES TEVE A ALEGRIA DE CONSEGUIR TÃO FACILMENTE UMA VITÓRIA COMPLETA.
DEPOIS QUE ANILEU SE VIU REDUZIDO A ESSE ESTADO, REUNIRAM-SE A ELE TODOS AQUELES QUE NADA TINHAM A PERDER E QUE PREFERIAM A LIBERDADE DE FAZER MAL À PRÓPRIA VIDA. E AS SUAS TROPAS AUMENTARAM DE TAL MODO QUE IGUALARAM EM NÚMERO AS ANTERIORES, NÃO EM FORÇA, PORQUE OS VELHOS SOLDADOS HAVIAM MORRIDO, ENQUANTO O NOVO GRUPO NÃO TINHA EXPERIÊNCIA NA GUERRA. AINDA ASSIM, ELES INVESTIAM CONTRA ALGUNS CASTELOS E DEVASTAVAM TODA A REGIÃO AO REDOR. OS BABILÔNIOS, VENDO-SE TRATADOS DAQUELA MANEIRA, SOLICITARAM AOS JUDEUS DE NEERDA QUE LHES ENTREGASSEM ANILEU. ESTES, PORÉM, RESPONDERAM QUE ISSO NÃO ESTAVA EM SEU PODER, E OS BABILÔNIOS INSISTIRAM EM QUE PELO MENOS TRATASSEM COM ELE ALGUMAS CONDIÇÕES DE PAZ. OS JUDEUS O PROMETERAM E ENVIARAM IMEDIATAMENTE A ELE ALGUNS DEPUTADOS, ACOMPANHADOS POR REPRESENTANTES DOS BABILÔNIOS. ESTES, APÓS OBSERVAR O LUGAR PARA ONDE ANILEU SE RETIRAVA, MATARAM-NO DURANTE A NOITE, BEM COMO AOS QUE ESTAVAM COM ELE. NISSO NÃO CORRERAM RISCO ALGUM, PORQUE AQUELES HOMENS ESTAVAM TODOS EMBRIAGADOS.
794. COMO A DIVERSIDADE DE COSTUMES E DE LEIS É UMA FONTE DE INIMIZADE, OS BABILÔNIOS VIVIAM EM DIVERGÊNCIAS CONTÍNUAS COM OS JUDEUS. ENQUANTO ANILEU VIVIA, PORÉM, O TEMOR DE UM CHEFE TÃO TEMÍVEL E QUE COMANDAVA TANTOS HOMENS IMPEDIA QUE ELES MANIFESTASSEM TODA A SUA CÓLERA CONTRA A NOSSA NAÇÃO. DEPOIS DA MORTE DE ANILEU, TODAVIA, ESSE TEMOR CESSOU, E OS BABILÔNIOS CAUSARAM TANTOS MALES AOS JUDEUS QUE ESTES FORAM OBRIGADOS A IR PARA SELÊUCIA, CAPITAL DO PAÍS, CONSTRUÍDA POR SELEUCO NICANOR, ONDE HAVIA TAMBÉM UMA GRANDE QUANTIDADE DE MACEDÔNIOS, GREGOS E SÍRIOS. ALI VIVERAM TRANQÜILOS DURANTE CINCO ANOS, MAS NO ANO SEGUINTE UMA HORRÍVEL PESTE ASSOLOU A BABILÔNIA, E OS SEUS HABITANTES FUGIRAM TAMBÉM PARA SELÊUCIA, O QUE FOI CAUSA DE UMA GRANDE DESGRAÇA PARA OS JUDEUS, PELO MOTIVO QUE PASSO A EXPOR.
OS GREGOS E OS SÍRIOS ERAM ADVERSÁRIOS, MAS O PARTIDO DOS SÍRIOS ERA MAIS FRACO. PORÉM OS JUDEUS, QUE ERAM HOMENS VALENTES E DESPREZAVAM O PERIGO, UNIRAM-SE AOS SÍRIOS, E ASSIM OS TORNARAM MAIS FORTES. OS GREGOS, NÃO VENDO OUTRO MEIO DE QUEBRAR ESSA UNIÃO E DE ELEVAR O SEU PARTIDO SENÃO PELA RECONCILIAÇÃO COM OS SÍRIOS, NEGOCIARAM COM ELES PELA MEDIAÇÃO DE AMIGOS, E TODOS TOMARAM A RESOLUÇÃO DE SE UNIR PARA EXTERMINAR OS JUDEUS. ASSIM, ATACARAM-NOS QUANDO ELES DE NADA SUSPEITAVAM E MATARAM MAIS DE CINQÜENTA MIL, SEM QUE UM SÓ TIVESSE PODIDO ESCAPAR ÀQUELA CRUEL MORTANDADE, A NÃO SER OS QUE FORAM SALVOS POR AMIGOS.
ESSE PEQUENO NÚMERO RETIROU-SE PARA CTESIFON, CIDADE GREGA PRÓXIMA DE SELÊUCIA, ONDE O REI PASSA ORDINARIAMENTE O INVERNO E ONDE ESTÁ GUARDADA A MAIOR PARTE DE SUAS RIQUEZAS. MAS OS JUDEUS NÃO ESTAVAM TÃO CONVICTOS DE QUE O RESPEITO DOS SELEUCIANOS PELO REI FOSSE SUFICIENTE PARA PROTEGÊ-LOS. A CONSPIRAÇÃO DOS BABILÔNIOS, SELEUCIANOS E SÍRIOS CONTRA OS JUDEUS QUE MORAVAM NAQUELAS PROVÍNCIAS CONTINUAVA, E OS JUDEUS FORAM OBRIGADOS A SE RETIRAR PARA NEERDA E NISIBE, ONDE ESPERAVAM ENCONTRAR SEGURANÇA, POR CAUSA DA FORÇA DE SUAS PRAÇAS E DO VALOR DE SEUS HABITANTES.

Livro Décimo Nono

CAPÍTULO 1
CRUELDADE E LOUCURAS DO IMPERADOR CAIO CALÍGULA. DIVERSAS
CONSPIRAÇÕES FEITAS CONTRA ELE. CHEREAS, AJUDADO POR VÁRIOS OUTROS,
MATA-O. OS ALEMÃES DA GUARDA DESSE PRÍNCIPE MATAM EM SEGUIDA
ALGUNS SENADORES. O SENADO CONDENA A SUA MEMÓRIA.

795. O furor do imperador Caio não se estendia então somente aos judeus de Jerusalém e das regiões vizinhas, como acabamos de ver. As terras e os mares gemiam sob a sua tirânica dominação, e, dentre as muitas províncias sujeitas ao Império Romano, não havia uma sequer que deixasse de lhe sentir os funestos efeitos. Os males que ele as fazia sofrer chegaram a tal excesso que nada de semelhante se vê em história alguma. E a própria Roma não foi tratada menos desumanamente que as outras cidades.
Nessa opressão generalizada, porém, parecia que ele tinha um prazer particular em endereçar a sua raiva contra o que havia de mais importante e ilustre. As famílias patrícias, os senadores e os cavaleiros — os quais não eram inferiores àqueles em dignidade e em riqueza e eram tão considerados quanto os senadores pelos outros cidadãos — sofriam as maiores perseguições. Ele não se contentava em mandá-los para o exílio, em submetê-los a mil ultrajes e em despojá-los de seus bens, mas chegava a tirar-lhes a vida. E os bens confiscados aos que ele mandava matar eram como uma recompensa que ele dava si mesmo por haver tão cruelmente derramado o sangue deles.
Mas, se esse príncipe era tão bárbaro, não era menos extravagante. Não lhe bastava receber de seus súditos todas as honras que se podem prestar a um homem.
Ele exigia que o reverenciassem como a um deus e, quando ia ao Capitólio, que é o mais célebre de todos Templos de Roma, tinha a insolência de chamar Júpiter de irmão. Dentre tantos outros sinais de sua loucura, nenhum houve mais patente que a esquisitice de ir a pé enxuto de Putéoli até Misena, duas cidades da Campanha separadas por um braço de mar de trinta estádios. Julgou que era indigno dele ir de uma a outra cidade apenas em galeras e que o mar não lhe devia ser menos sujeito que a terra. Assim, mandou construir uma ponte de um promontorio a outro e passou por ela num carro soberbo, com a alegria de pensar que aquele caminho completamente novo era digno da majestade de um deus, tal como ele se imaginava.
Não havia Templos na Grécia que ele não tivesse despojado do que possuíam de mais valioso. Ordenou, por um edito, que lhe trouxessem tudo o que neles encontrassem de quadros raros, preciosas estátuas e outras coisas de valor consagradas aos deuses, e com eles encheu o seu palácio, os jardins e as casas de recreio que ele mantinha na Itália, porque, dizia ele, assim como Roma era a cidade mais bonita do universo, era justo que aí se reunisse tudo o que havia de mais belo no mundo. Atreveu-se mesmo a ordenar a Mêmio Regulo que lhe enviasse também a estátua de Júpiter Olímpico, que toda a Grécia venerava com honras extraordinárias e que é obra de Fídias. Mas essa ordem não foi executada, porque os escultores disseram que era impossível transportar a estátua sem quebrá-la. Pelo que se afirma, Regulo ficou tão espantado com os diversos prodígios que aconteceram que não se atreveu a removê-la. Então escreveu ao imperador, o que lhe teria sem dúvida custado a vida, se a morte de Caio não o tivesse livrado daquele perigo.
A horrível loucura desse príncipe, todavia, não se detinha aí. Ao nascer-lhe uma filha, ele a levou até o Capitólio e colocou-a sobre os joelhos da estátua de Júpiter, como se aquele deus fosse parente dele, e teve a insolência de dizer que a criança tinha dois pais, mas permitia que se julgasse qual dos dois era o mais importante. Vemos todas essas coisas com horror, e no entanto eram toleradas. Ele não teve vergonha de permitir aos escravos que acusassem os seus senhores de toda espécie de crimes. Essas temíveis acusações eram apoiadas pela sua autoridade, e bem se sabia que lhe eram agradáveis. Pólux, um dos escravos de Cláudio, foi desse número. Ele teve a ousadia de depor contra o seu amo, e esse bárbaro imperador ainda fez questão de ser um dos juizes do próprio tio, na esperança de fazê-lo morrer como criminoso — o que, todavia, não conseguiu.
796. Tão odioso proceder encheu o império de caluniadores, elevou os escravos acima de seus amos e causou um número infinito de males. Por isso, fizeram-se várias tentativas contra a sua vida, uns pelo desejo de vingança, devido ao que os havia feito sofrer, outros, para evitar o perigo que os ameaçava, pois de nenhuma outra forma, senão tirando-o do mundo, seria possível restabelecer a autoridade das leis, a segurança dos cidadãos e a felicidade pública. E, nesse desejo comum a tantos povos, a nossa nação seria beneficiada mais que qualquer outra, pois não haveria como impedir a sua completa ruína se esse reinado infeliz continuasse. Isso me obriga a relatar de modo muito exato a maneira como esse miserável príncipe terminou a sua vida, para manifestar como e com quanta bondade Deus alivia os aflitos e para ensinar àqueles que estão elevados ao mais alto grau de felicidade a se moderar na sua glória e a não desonrar a própria memória com ações vergonhosas e cruéis, na ilusão de que nada será capaz de destruir a sua boa sorte.
Fizeram-se três distintas conspirações para libertar o mundo do jugo insuportável desse tirano, e todas foram organizadas por homens de grande coragem. Emílio Rego, nascido em Córdoba, na Espanha, foi o chefe da primeira. Cássio Chereas, que era oficial de uma das companhias de guarda do imperador, liderou a segunda. Amnio Minuciano idealizou a terceira. E todos eles valeram-se de cúmplices.
Caio era o objeto comum do ódio deles, porém motivos diferentes os levaram a atentar contra a sua vida. Rego foi a isso motivado pela sua generosidade natural, que não podia tolerar a injustiça. E, como era extremamente franco, não teve receio de comunicar o seu intento aos amigos e aos que ele julgou corajosos o bastante para aprová-lo. Minuciano foi levado a conspirar em parte pelo desejo de vingar Lépido, seu íntimo amigo e homem de grande mérito que Caio condenara à morte, e em parte pelo temor de ser tratado do mesmo modo por esse príncipe cruel, pelo qual ninguém podia ser odiado sem correr risco de vida. Chereas tomou a sua decisão tanto porque não podia mais tolerar que Caio lhe censurasse a ingenuidade quanto pelo fato de que servir o imperador significava estar exposto a um perigo constante, sabendo-se como ele costumava recompensar as suas amizades. Nessa diversidade de movimentos, porém, todos estavam de acordo no desígnio de libertar o mundo daquela soberba e cruel dominação e de merecer a glória de ter arriscado a vida para proporcionar uma felicidade tão geral e auspiciosa. Foi Chereas, entretanto, quem dentre eles se empenhou com mais ardor, quer pelo desejo de conquistar fama, quer porque o seu cargo lhe dava mais ocasião de se aproximar de Caio.
Era o tempo das corridas de cavalos, que se realizam no hipódromo, e dos jogos chamados circenses, tão ao gosto dos romanos. Como o povo que lá se encontrava, em grande número, tinha o costume de pedir graças ao imperador com a certeza de as obter, toda aquela multidão rogou a Caio, com grande insistência, que os aliviasse de uma parte dos impostos. Mas ele, em vez de atendê-los, ficou tão irritado que ordenou aos guardas que matassem os que se manifestavam mais ruidosamente. Eles assim fizeram no mesmo instante, e, como a vida é mais preciosa que os bens, o povo ficou tão espantado ao ver tanto sangue que não insistiu mais.
Esse horrível espetáculo animou Chereas ainda mais a executar o seu projeto de libertar os homens daquele animal feroz, que de homem tinha apenas o nome. Pensara muitas vezes em matá-lo quando estava à mesa e só não o fizera na expectativa de uma ocasião mais propícia. Havia muito tempo que ele estava no cargo, e o imperador o encarregara de receber os tributos. Mas como muitos dos contribuintes eram tão pobres que já deviam mais de um ano de impostos e a compaixão que tinha deles não lhe permitia insistir, Caio se irritava e fazia-lhe constantes censuras, chamando-o de indolente e efeminado. Quando ele vinha perguntar ao imperador qual era a senha do dia, ele, por gracejo, escolhia uma palavra que só se poderia adaptar a uma mulher de natureza reprovável, embora o próprio Caio não tivesse vergonha de se vestir de mulher em algumas cerimônias que havia instituído ou de se pintar e adornar com os enfeites delas, de modo que podia mesmo se passar por uma mulher.
O ressentimento de Chereas por esse ultraje aumentava ainda por causa das zombarias de seus companheiros, que não podiam deixar de rir quando ele lhes trazia a senha, já sabendo de antemão que seria algo daquela qualidade. Assim, não podendo mais suportar semelhante opróbrio, ele atreveu-se a declarar o seu intento a alguns companheiros. A primeira pessoa a quem ele revelou as suas intenções foi um senador, de nome Pompédio, que já havia passado por todos os cargos de maior honra. Ele era da seita de Epicuro e por isso pensava apenas em viver com tranqüilidade.
No entanto, um inimigo seu, de nome Timídio, acusou-o de ultrajar com palavras o imperador, alegando como testemunha uma comediante muito famosa, de nome Quintília, pela qual Pompédio estava apaixonado. Mas a acusação era falsa, e a mulher recusou-se a mentir, pois estava em jogo a vida de um pessoa que a amava, isso obrigou Timídio a pedir que ela fosse torturada. Caio, que jamais deixava de se enfurecer em tais circunstâncias, ordenou a Chereas que o fizesse imediatamente. Ele costumava encarregar Chereas de semelhantes tarefas, convencido de que, em função das censuras que lhe movia por causa de sua frouxidão, ele as executaria com mais rigor que qualquer outro.
Quando levavam Quintília para ser torturada, ela encontrou um daqueles que sabiam da conspiração e pisou-lhe no pé, para animá-lo a ter coragem e o certificar de que nenhum tormento seria capaz de fazê-la confessar. Chereas, embora contra a vontade, porque era obrigado, torturou-a rudemente. A mulher sofreu com uma serenidade extraordinária, e ele depois levou-a até o imperador, num estado tão deplorável que, embora Caio tivesse um coração de bronze, não pôde deixar de ficar comovido. Assim, ele a declarou inocente — e também a Pompédio — e ainda mandou que lhe dessem dinheiro, para consolá-la pelo que havia sofrido, pois demonstrara não menos coragem nos tormentos que felicidade nos seus dias mais prósperos. Essa atitude de Caio causou sensível dor a Chereas, porque o fazia passar por cruel, obrigando-o a reduzir uma pessoa a tal estado que causara compaixão ao mais desumano dos homens.
Incapaz de conter-se, ele resolveu falar a Papiniano, que desempenhava um cargo semelhante ao seu, e a Clemente, que também tinha um cargo no exército. Disse ele, dirigindo-se a Clemente: &quot;Vós sabeis com que afeto e fidelidade velamos pela conservação do imperador e como, graças aos nossos cuidados e esforços tantas conspirações contra ele foram descobertas, as quais custaram a vida a uns e levaram outros a tormentos tão cruéis que ele mesmo chegou a ficar compadecido. Mas seriam essas tarefas dignas de nossa profissão e de nossa coragem?&quot; Clemente nada respondeu, mas o rubor que lhe apareceu no rosto demonstrava muito bem o quanto ele se sentia envergonhado por estar desempenhando semelhante mister e que somente o medo o impedia de condenar a loucura e o furor de Caio.
Chereas retomou o seu discurso com mais veemência e, depois de mencionar todos os males com que Roma e o império eram oprimidos, acrescentou: &quot;Eu sei que a causa disso tudo é atribuída ao imperador, mas na verdade é a Papiniano, a mim e a vós, Clemente, que Roma e toda a terra deveriam responsabilizar por tudo o que sofrem, pois somos os executores das cruéis determinações de Caio. E, podendo fazer cessar os efeitos de sua raiva contra os nossos concidadãos e contra todos aqueles que lhe são sujeitos, não temos vergonha de sermos nós mesmos os seus ministros, agindo como carrascos, e não como soldados, e de usar armas não para a conservação de Roma e do império, mas para a manutenção desse tirano que não se contenta em subjugar os corpos, mas quer também tirar aos homens a liberdade de pensamento, obrigando-nos a manchar continuamente as nossas mãos com sangue deles e a fazê-los sofrer tormentos nos quais não se pode pensar sem horror. Vamos esperar que ele exerça sobre nós a mesma crueldade com que nos faz tratar os outros? Ou julgamos que dela nos poderemos esquivar, pela obediência que lhe prestamos? Em vez de nos agradecer, ele suspeita de que fazemos tais coisas obrigados e está tão acostumado aos assassínios que estes se tornaram o seu maior divertimento. Por que então imaginaríamos que, nessa multidão de inocentes vítimas de sua crueldade, seríamos os únicos capazes de escapar ao seu furor? Não nos enganemos: consideremo-nos já condenados, a menos que asseguremos a nossa vida com a morte dele e, salvando-nos, salvemos todo o império&quot;.
Clemente aprovou os desígnios de Chereas, mas o aconselhou a mantê-los em segredo, pois, se alguém os descobrisse antes que fossem postos em prática, a morte deles seria certa. Era de opinião que aguardassem, até que o tempo fizesse aparecer uma oportunidade favorável. E, ainda que a velhice, que lhe começava a gelar o sangue nas veias, o fizesse abraçar conselhos mais seguros, confessava que não podia haver argumentos mais honestos nem mais generosos que aqueles que acabavam de ser expostos. Depois dessa resposta, Clemente retirou-se para a sua casa, refletindo naquilo que lhe fora dito e também no que ele próprio dissera.
Chereas, porém, estava muito preocupado com a possibilidade de vazar o segredo, por isso foi naquele mesmo instante procurar Cornélio Sabino, que também era comandante de uma companhia de guardas do imperador. Sabedor de que ele era um homem muito valente e apaixonado pelo bem público, e que sofria com impaciência o estado deplorável a que estava reduzido o império, julgou conveniente contar-lhe o seu intento, para obter a sua opinião em um assunto tão importante. Ele não se enganou em seu julgamento, pois Sabino experimentava os mesmos sentimentos, porém nada manifestava por não se atrever a confessá-los a ninguém. Ele escutou as palavras de Chereas com prazer, prometendo guardar segredo e até mesmo ajudá-lo.
Estavam todos de acordo em que não havia tempo a perder e foram imediatamente procurar Minuciano, cuja virtude e generosidade era deles bem conhecida. Ciente de que era suspeito a Caio, por causa da morte de Lépido, seu amigo íntimo, ele era muito sensato para não perceber que correriam grande perigo, ainda que não houvesse outro motivo senão o próprio mérito deles, mas isso já era o suficiente para se temer o maligno príncipe. Todavia, era seguro confiar em Minuciano, pois, ainda que a magnitude do perigo impedisse que qualquer um deles manifestasse abertamente o ódio sentido por Caio, todos eles já haviam, em outras circunstâncias, dado a conhecer que a tirania do imperador lhes era insuportável, e essa conformidade de sentimentos já estabelecera entre eles uma certa amizade.
O respeito de Chereas e de Sabino pela nobreza e pela extraordinária virtude de Minuciano os fez decidir que, em vez lhe falar diretamente sobre o assunto, iriam esperar que ele lhes desse oportunidade para isso. A idéia deu resultado. Como todos sabiam que o imperador tinha o costume de dar como senha a Chereas uma palavra ultrajosa, Minuciano perguntou-lhe qual a palavra que lhe fora dada naquele dia. Chereas, alegre por aquela oportunidade tão favorável e sem nada temer da probidade de um homem como Minuciano, respondeu-lhe: &quot;Dai-me, por favor, a palavra liberdade!&quot;
Ele acrescentou: &quot;Como sou feliz e como vos sou grato, pois me fazeis notar em vosso semblante que estais me exortando a empreender uma coisa pela qual estou inflamado de ardor. Não é preciso mais para me levar a executá-la. E-me suficiente ver que a aprovais e que antes mesmo de falarmos já tínhamos o mesmo modo de pensar. Esta espada que vedes será suficiente para vós e para mim. Não há tempo a perder, e estou pronto a empreender qualquer coisa sob o vosso comando. Ordenai, somente, e sereis obedecido. Não importa que não tenhais espada, pois tendes aquela grandeza de alma de onde o ferro tira toda a sua força. Desejo entrar em ação, e não me preocupo com o que me poderá acontecer. Poderia eu pensar, sem vexame, em minha segurança pessoal quando vejo a liberdade pública oprimida, as leis violadas e todos os homens do império expostos ao furor desse tirano? Ouso mesmo crer que não sou indigno de ser o executor de um tão grande missão, pois tenho os mesmos sentimentos que vós&quot;.
Minuciano, ao ouvir Chereas falar desse modo, abraçou-o, louvou a sua generosidade e exortou-o a perseverar, e ambos separaram-se, rogando aos deuses que lhes fossem favoráveis. Alguns afirmam que um outro fato animou Chereas ainda mais: quando ele entrava no palácio, ouviu uma voz que lhe dizia para não temer executar o que havia resolvido e tivesse a certeza da assistência dos deuses. Essas palavras de início o assustaram, pois julgou que o plano fora descoberto, mas depois não duvidou de que era algum dos conjurados que assim lhe falava para animá-lo ainda mais ou uma voz do céu a testemunhar que Deus não deixa de cuidar dos interesses dos homens.
Nesse meio tempo, todavia, estavam todos convencidos de que da morte de Caio dependia a salvação do império, e cada qual, à porfia, conspirava para dele livrar o mundo. O número de conjurados então já era grande, pois havia também senadores e cavaleiros envolvidos. Uniu-se também a eles Calixto, um liberto de Calígula que, mais que qualquer outro, estava junto dele e que se tornara tão temível que podia ser chamado companheiro de tirania do imperador. Ele não somente era muito poderoso pelo seu prestígio, mas também pelas grandes riquezas que havia adquirido, vendendo o seu favor aos que o corrompiam com presentes. E assim, ele usava de modo muito insolente o seu poder.
Ele, porém, conhecia o espírito de Caio e sabia que quando o imperador começava a suspeitar de alguém jamais o perdoava. E, mesmo que não houvesse outra razão para temer, os muitos bens que possuía eram suficientes para que esse temível senhor desejasse matá-lo. Assim, trabalhava secretamente para se colocar nas boas graças de Cláudio, que talvez sucedesse a Caio no império. Disse-lhe que o imperador lhe havia ordenado que o envenenasse, mas ele se havia servido de diversos pretextos para diferir a execução daquela ordem tão cruel. Para mim, creio que era invenção com o propósito de granjear mérito perante Cláudio, pois, se Caio tivesse dado essa ordem, não havia probabilidade de Calixto não ser castigado em seguida, por ter deixado de cumpri-la. Cláudio, no entanto, ficou convencido de que os deuses usaram Calixto para salvá-lo do furor de Caio e agradeceu-lhe muito por se recusar a executar aquele serviço.
A realização dos desígnios de Chereas estava sendo adiada por causa da morosidade de alguns conjurados, embora ele afirmasse que todo tempo era próprio para levar a efeito o que pretendiam, quer enquanto Caio se dirigia ao Capitólio para oferecer sacrifícios por sua filha, quer no momento em que do alto de seu palácio lançava ao povo, na praça, moedas de ouro e de prata, quer durante a celebração de certas cerimônias que ele mesmo havia instituído. Embora estivesse sempre rodeado de pessoas prontas a defender a sua vida, o imperador de nada desconfiava e julgava-se em perfeita segurança. Desse modo, Chereas, aflito por tão longa demora e com medo de que a ocasião viesse a faltar, perguntou aos parceiros se eles julgavam que os deuses haviam tornado o tirano invulnerável. E dizia que, quanto a ele, não teria nenhuma dificuldade em matá-lo, mesmo que não tivesse uma espada.
Todos louvavam o seu amor pelo bem público, mas julgavam necessário protelar um pouco, de modo que, diziam eles, se a coisa não saísse bem, a cidade não se pusesse em rebuliço, e também por causa das investigações que se fariam contra eles, tirando aos outros o meio de executar esse intento enquanto ainda tinham a coragem de tentá-lo. Eles achavam mais conveniente aproveitar a ocasião dos jogos instituídos em honra a César* — o qual, para se elevar ao soberano poder, foi o primeiro a suprimir a liberdade dos romanos, mudando a república em monarquia — porque, além da grande multidão de povo que acorria ao teatro, que então se situava em frente ao palácio, todas as pessoas pertencentes à nobreza de Roma para lá se dirigiam com as suas mulheres e filhos. O imperador lá se encontraria também, e seria difícil, em tão grande aperto, que aqueles que velavam pela sua segurança pudessem então protegê-lo do ataque dos conspiradores.
Chereas aceitou a sugestão e adiou a execução para o primeiro dia dos jogos, porém o destino prevaleceu sobre essa deliberação e, com dificuldade, só o puderam fazer no terceiro dia, que era o último desses espetáculos. Antes, Chereas reuniu os conjurados e falou-lhes: &quot;Que censuras não merecemos por esse tempo que passou sem que tentássemos executar o nosso plano! Pois temos motivos para temer que, se formos descobertos, Caio venha a redobrar o seu furor, e, em vez de darmos liberdade ao império pela sua morte, iremos apenas, com a nossa fraqueza, contribuir para lhe fortalecer a tirania. É assim que devemos trabalhar pela nossa segurança e pela de tantos povos? Será esse o meio de adquirirmos fama e glória imortais?&quot; Ninguém ousou contradizer um discurso tão corajoso: estavam todos tão atônitos que ficaram em silêncio.
Ele acrescentou: &quot;Acaso pretendeis adiar ainda mais? Não sabeis que hoje é o terceiro dia — o último — destes jogos e que Caio está prestes a embarcar para Alexandria, a fim de conhecer o Egito? julgais então que devemos deixar escapar esse monstro, que causa horror à natureza, ou permitir que ele triunfe tanto por mar quanto por terra, sobre a fraqueza dos romanos? Ou desejais que algum egípcio mais corajoso que todos nós tenha a honra de restaurar, pela morte desse tirano, a liberdade oprimida? Quanto a mim, estou resolvido a não perder mais tempo em vãs deliberações, e o dia não passará sem que eu me desobrigue do que devo à minha pátria. O que a sorte determinar, receberei com alegria. Prefiro isso a tolerar que um outro me arrebate a glória de libertar o mundo de um homem que a todos aterroriza&quot;.

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* A continuação nos dá a entender que é de Augusto que ele está falando.

Chereas, assim falando, fortaleceu-se ainda mais em sua resolução e entusiasmou de tal modo os outros que todos se sentiram arder no desejo de cumpri-la, sem mais adiamentos. Aconteceu que por acaso aquele era o dia em que Chereas devia pedir a senha ao imperador, e assim ele entrou no palácio com a espada erguida, segundo o costume, que obriga o comandante da guarda a assim fazer quando em cumprimento de um dever do cargo. Uma grande multidão de povo já se encontrava no palácio, e todos procuravam obter um lugar, porque não havia reservas nem para os senadores nem para os cavaleiros: cada qual se punha onde queria, misturando-se homens com mulheres e senhores com escravos — o imperador sentia prazer em ver essa desordem. Em seguida, fez um sacrifício a Augusto, em honra do qual os jogos eram celebrados;
Aconteceu que uma gota de sangue da vítima caiu sobre as vestes de Asprenas, que era um dos senadores, o que lhe serviu de péssimo augúrio, pois ele foi morto no tumulto que se levantou em seguida. Caio riu-se à vontade, e notou-se, com espanto, como uma coisa extraordinária, que o imperador, contra a sua natureza, naquele dia demonstrava grande afabilidade e bom humor. Terminado o sacrifício, Caio, acompanhado por aqueles a quem mais estimava, foi sentar-se no teatro, no lugar que lhe fora preparado. O teatro era de madeira e construído todos os anos. Tinha duas portas: uma no exterior, que dava para a grande praça, e outra em frente ao pórtico, por onde os atores entravam e saíam sem incomodar os espectadores. Fizera-se também uma passagem dividida por uma cerca de madeira, onde os atores e os músicos se colocavam.
Depois que todos tomaram os seus lugares, Chereas e os demais comandantes da guarda ficaram bem próximos do imperador, que se havia posto do lado direito do teatro. Batívio, senador, que havia sido pretor, perguntou baixinho a Clívio, que já fora cônsul e que estava sentado perto dele, se não tinha ouvido falar de nada. Tendo este respondido que não, Batívio acrescentou: &quot;Vereis hoje representar-se uma peça que acabará com a tirania&quot;. Clívio retrucou: &quot;Cale-se, para que algum grego não nos venha a escutar&quot;. Com essas palavras, ele fazia alusão a um verso de Homero. Em seguida, foi atirada ao público grande quantidade de frutas, e pássaros muito belos e raros também foram soltos. Caio sentia prazer em ver os pássaros disputando as frutas e o modo como o povo se esforçava para apanhá-los.
Aconteceram em seguida duas coisas que poderiam passar por presságios: a primeira, que no teatro se representava um juiz, o qual, tendo sido acusado de um crime, fora punido com a pena de morte; a outra, que se apresentava a tragédia de Cinira, na qual ela e Mirra, sua filha, eram mortas. Ao redor dessas três pessoas, foi espalhada uma grande quantidade de sangue, que se havia trazido para esse fim, ao se lhes representar a morte. Acrescente-se a isso que fora naquele mesmo dia que Filipe, filho de Amintas, rei da Macedônia, tinha sido outrora morto por Pausânias, um de seus amigos, quando ia para o teatro.
Como aquele era o último dia da festa, Caio estava para resolver se ficaria até o fim ou se iria tomar o seu banho e cear, para regressar em seguida, como de costume. Minuciano, que estava sentado perto dele e tinha visto Chereas sair, temendo que viesse a faltar a oportunidade de se executar o plano, levantou-se para ir animá-lo. Mas Caio o agarrou pelo manto e disse-lhe, de maneira obsequiosa: &quot;Onde vais agora, homem de bem?&quot; Essas palavras o detiveram, e ele tornou a sentar-se. Porém, não podendo vencer aquele temor, levantou-se uma segunda vez, e Caio não tentou mais retê-lo, pois imaginou que ele tivesse alguma necessidade urgente, que o obrigava a sair. Logo em seguida, Asprenas, que estava ciente de tudo, convenceu o imperador de que era melhor ir ao banho e cear, para depois voltar ao espetáculo.
Chereas, no entanto, havia colocado cúmplices nos lugares mais próprios para o seu intento e, ansioso por causa da demora, pois já era a nona hora do dia, resolveu voltar ao teatro e terminar logo o trabalho. E, ainda que soubesse que esse gesto poderia custar a vida de algum senador ou cavaleiro, considerou que a liberdade pública era preferível à conservação da vida de alguns cidadãos. Mas quando ele se dirigia para o teatro, um rumor que ouviu deu-lhe a entender que Caio havia saído para ir ao palácio. Os conspiradores, nesse momento, romperam a multidão, como se fosse por ordem do imperador, mas na realidade era para matá-lo mais facilmente, quando ninguém mais estivesse entre eles e o soberano. Cláudio, seu tio, Marcos Vinício, que desposara a sua irmã, e Valério Asiático, procônsul, os quais, pela sua condição, não podiam ser impedidos de se retirar, caminhavam diante dele. Paulo Arúncio ia atrás dele.
Depois de entrar no palácio, Caio deixou o caminho comum, que Cláudio e os que iam diante dele haviam tomado, onde os oficiais da casa esperavam para ir ao banho, e seguiu por um caminho escondido, a fim de ver a exibição de uns moços que lhe haviam trazido da Ásia para cantar hinos nas cerimônias e nos sacrifícios que ele havia instituído e para dançar no teatro as danças das quais Pirro é o autor. Chereas então aproximou-se para pedir-lhe a senha, e Caio não deixou de lhe dar, segundo o costume, uma palavra para ridicularizá-lo. Chereas revidou a injúria com outra e com um golpe de espada, que no entanto não foi mortal.
Alguns querem crer que ele o fez de propósito, a fim de que, antes de morrer, Caio pudesse receber ainda outros golpes e para que o castigo pelos seus crimes lhe fosse mais doloroso. Isso, todavia, me parece pouco provável, pois não se costuma raciocinar em semelhantes ações. Se Chereas tinha mesmo essa intenção, estimo que ele tenha sido o mais tolo de todos os homens, deixando-se levar desse modo pelo ódio que nutria por Caio e preferindo essa vã satisfação a livrar a si mesmo e a todos os seus cúmplices do perigo em que se encontravam. Enquanto vivesse, Caio não ficaria sem defensores, ao passo que, estando morto, os conjurados poderiam escapar à sua vingança antes que houvesse ocasião de serem descobertos. Deixo, porém, a cada qual que faça o juízo que bem quiser.
O golpe que Caio recebeu atingiu-o entre o pescoço e o ombro, e teria avançado mais se não tivesse encontrado o osso. Ele sentiu grande dor, mas não gritou nem chamou ninguém em seu auxílio. Soltou apenas um suspiro, talvez porque o medo o tenha feito perder a fala, ou porque desconfiava de todos ou ainda por causa de sua natural altivez. Gemendo, ele tentava fugir, quando Cornélio Sabino o segurou e o fez cair de joelhos. Os outros conspiradores então rodearam-no gritando: &quot;Mais um! Mais um!&quot; E acabaram de matá-lo.
Dentre os muitos golpes que recebeu, diz-se que Áqüila desferiu o que livrou o império, por sua morte, daquela intolerável tirania. No entanto, cabe a Chereas a principal glória, pois ainda que vários outros tivessem tomado parte na empresa, ele foi o primeiro a conceber a idéia, a infundi-la nos outros e a propor os meios de executá-la. E depois, vendo-os assustados com a grandeza do perigo, renovou-lhes a coragem. Por fim, logo que se apresentou a ocasião, atacou o tirano, deu-lhe o primeiro golpe e o deixou semimorto aos demais, para que lhe tirassem o que ainda restava de vida. Assim, podemos dizer com verdade que se deve atribuir à sua coragem e à sua ação toda a honra que os seus cúmplices mereceram.
Depois de tão grande feito, por causa do perigo em que os punha a morte de um imperador loucamente querido pela populaça e que mantinha muitos soldados, a dificuldade era retirar-se. Como lhes pareceu impossível voltar por onde haviam entrado, porque aquelas passagens eram muito estreitas e estavam cheias de oficiais e de guardas, que o dever do ofício reunira naquele dia de festa, saíram por outro caminho para o palácio de Germânico, cujo filho haviam acabado de matar. Esse palácio estava muito perto do palácio do imperador, ou melhor, fazia parte dele, tal como outros, construídos pelos imperadores precedentes, sendo que cada qual traziam o nome de seu construtor. Assim, tendo escapado da multidão, saíram com segurança, antes que a notícia da morte de Caio se houvesse divulgado.
Os primeiros a perceber que Caio havia sido assassinado foram os alemães da guarda — a chamada a legião céltica. Eram todos soldados que ele havia escolhido entre os daquela nação para estar perto de sua pessoa. Dentre os povos bárbaros, eles são os mais coléricos porque, na maioria das vezes, não compreendem o que se passa. São homens extremamente robustos e, como de ordinário enfrentam os maiores ataques dos inimigos, contribuem não pouco para fazer pender a vitória para o lado daquele por quem combatem. A morte do imperador lhes foi muito sentida. Não porque lhe consideravam os méritos, mas pelo seu próprio interesse, pois ninguém era mais bem tratado que eles. Caio, para lhes conquistar o afeto, usava para com eles de grande prodigalidade.
Eram então comandados por Sabino, que não fora elevado àquele cargo por sua virtude nem pela de seus antepassados, pois ele havia sido gladiador, mas por causa de sua força extraordinária. Tendo-o à frente, os soldados correram para todos os lados, de espada na mão, a fim de matar os que haviam assassinado o imperador. O primeiro que encontraram foi Asprenas, para o qual, como já dissemos, havia ocorrido um mau presságio, aquela gota de sangue da vítima que caíra sobre a sua túnica, e o fizeram em pedaços.
Em seguida encontraram Norbano, cuja origem era tão ilustre que ele contava entre os seus antepassados vários generais. E, como não era menos forte que corajoso, quando viu que aqueles bárbaros não respeitariam a sua condição, arrancou a espada da mão de um deles, decidido a não morrer sem vender muito caro a vida, pois eles o haviam rodeado de todos os lados. Por fim, vencido pelo número, caiu varado de golpes.
O terceiro dos senadores a experimentar a raiva dos alemães foi Anteio, o qual pagou com a vida o desejo de ver o corpo de Caio. Como o ódio que lhe votava não podia ser maior nem mais justo, porque esse cruel príncipe, não se contentando em lhe exilar o pai, mandara-o matar no seu desterro, ele saciava os olhos com aquele espetáculo, que lhe era assaz agradável, quando vários soldados vieram em sua direção. Fugiu para se esconder, mas não pôde evitar de cair nas mãos daqueles homens furiosos, que não poupavam nem os inocentes nem os culpados.
Quando se espalhou a notícia de que o imperador acabara de ser morto, havia em todos os espíritos mais espanto que crédito. Os que havia muito tempo desejavam ardentemente a sua morte tinham dificuldade em acreditar, pois desconfiavam que a informação partira do próprio Caio. Outros não queriam crer porque não desejavam que fosse verdade e nem podiam imaginar que alguém tivesse pensado e muito menos executado tão temerário empreendimento.
O número desses últimos era composto de soldados, mulheres, moços e escravos. De soldados porque, além do soldo, eles tinham parte na tirania e nos roubos do detestável imperador, que lhes permitia ofender impune e insolente-mente os mais ilustres cidadãos; de mulheres e moços porque eles se divertiam com os espetáculos, os combates de gladiadores e outros divertimentos em que Caio era pródigo, sob pretexto de querer contentar o povo, mas na verdade o fazia para satisfazer à própria crueldade e loucura; de escravos porque ele lhes dava liberdade não somente para desprezar, mas também para acusar falsamente os seus senhores, sem temor de qualquer castigo, pois nada era mais fácil que obter desse príncipe o perdão pelas calúnias — e eles sabiam que, dando notícia do dinheiro que os seus senhores possuíam, obteriam a liberdade e a oitava parte do confisco, destinada aos denunciadores.
797. As pessoas da nobreza — embora algumas, ou porque desejavam a morte do imperador ou porque tinham algum conhecimento da conspiração, acreditassem que a notícia era verdadeira — não ousavam manifestar a sua alegria nem mesmo demonstrar que escutavam o que se dizia, de modo que, se fossem enganados em suas esperanças, não pagassem caro pela exposição de seus sentimentos. Os mais bem informados sobre a conspiração eram os mais reservados, porque não se queriam tornar suspeitos àqueles que desejavam que Caio ainda vivesse, os quais não os deixariam viver se a notícia fosse falsa. Correu também insistentemente o boato de que o imperador havia sido ferido, mas não estava morto.
Não se sabia, portanto, em que acreditar, pois os que davam as notícias ou eram suspeitos de favorecer a tirania ou a odiavam tanto que não se podia prestar fé ao que eles diziam, pois estes eram movidos, mais que qualquer outra coisa, pelo desejo de que fosse verdade. Aquele boato sucedeu outra notícia, que perturbou ainda mais a nobreza, pois dizia que Caio, sem permitir que lhe tratassem as feridas, se dirigia ensangüentado à praça, para falar ao povo. Essas notícias suscitaram movimentos diferentes, segundo as disposições de cada espírito, e ninguém ousava sair do lugar com medo de ser caluniado, porque todos sabiam que não se julgavam as ações conforme os pensamentos que se tinham verdadeiramente, mas pela maneira como os delatores e os juizes as interpretavam.
Estando as coisas nesse pé, vieram os alemães e cercaram o teatro. Todos então imaginaram-se perdidos, acreditando que seriam degolados em seguida e julgando que corriam o mesmo perigo, tanto se permanecessem onde estavam quanto se optassem pela fuga. Assim, não sabiam o que fazer. Quando os alemães venceram a massa e chegaram ao teatro, ouviram-se os rumores confusos de mil vozes de pessoas, as quais rogavam que não lhes fizessem mal, pois, não importando de que modo acontecera a morte do imperador, eles não haviam absolutamente tomado parte nela. As lágrimas e os gemidos acompanhavam as palavras do povo, e eles tomavam os deuses como testemunhas de sua inocência. Nada esqueciam diante do temor que aquele iminente perigo lhes inspirava.
Por maior que fosse o furor dos alemães, eles não conseguiram permanecer insensíveis a tantos gritos e lágrimas. Comoveram-se também ao ver a cabeça de Asprenas e as dos outros que eles haviam matado colocadas sobre um altar — por eles mesmos, porque as haviam trazido de onde se encontravam. O horrível espetáculo da infelicidade de tantas pessoas de classe não somente causava compaixão às pessoas da nobreza e ao povo como os fazia tremer, porque não tinham a certeza de que sairiam ilesos de tão grande perigo, enquanto a alegria daqueles que tinham motivo para odiar Caio era perturbada pelo temor de não saberem se continuariam vivos.
Nesse mesmo tempo, um pregoeiro público, de nome Arúncio, que tinha uma voz muito forte e era muito rico e querido pelo povo, apareceu no teatro em vestes de luto e com todas as demonstrações de grande dor. Embora ele odiasse Caio, dissimulava a alegria que estava sentindo. E, juigando que importava dar a conhecer a todos que o príncipe realmente havia morrido, fez o anúncio em alta voz, a fim de que ninguém mais pudesse duvidar. Dessa maneira, ele conseguiu deter os alemães, e os oficiais ordenaram-lhes que recolocassem a espada na bainha.
Essa declaração pública da morte do imperador foi a salvação de um grande número de pessoas. Até ali havia o risco de morrerem, pois a fúria dos alemães e a sua dedicação a Caio eram tão grandes que enquanto lhes restasse alguma esperança de lhe salvar a vida não haveria violência ou crueldade que não estivessem dispostos a praticar para vingar a conspiração. Mas a certeza de sua morte desarmou-lhes a cólera, porque não podiam mais lhe dar provas de seu afeto nem receber dele os costumeiros favores. Além disso, tinham agora motivo para temer um castigo da parte do senado, caso este viesse a governar.
Nesse ínterim, Chereas, temendo que Minuciano sofresse alguma violência dos alemães, rogou com tanta insistência aos soldados que tivessem cuidado pela conservação de sua vida que eles o trouxeram até ele, vindo também Clemente. Então essa grande personagem e também outros senadores disseram a Chereas que a ação que ele acabava de praticar não podia ser mais justa; que não se podia louvar o suficiente o fato de ele haver organizado com tanta coragem aquele grande empreendimento e tê-lo tão valorosamente executado; que a tirania tem de próprio crescer em pouco tempo pelo prazer que sente em poder impunemente fazer mal a todos; que o ódio dos homens de bem que se insurgem contra ela, todavia, faz com que os tiranos percam repentina e miseravelmente a vida; que bem se via um exemplo disso na pessoa de Caio, pois não tinha receio de violar as leis nem de ofender os amigos, tornando-os inimigos; e que, assim, ainda que ele tivesse recebido a morte de suas mãos, na verdade ele próprio provocara o seu fim.
Os guardas se retiraram do teatro, e os que se haviam reunido em grande número para assistir aos jogos, após tão grande tribulação, começaram a se levantar, a fim de se colocarem em segurança. Tiveram essa oportunidade quando um médico, de nome Arciom, ao qual haviam obrigado a curar alguns dos feridos, fez sair os seus amigos, sob o pretexto de que iriam buscar medicamentos, mas na realidade os estava afastando do perigo.
798. O senado reuniu-se em seguida no palácio. O povo acorreu em massa e com tumulto para a grande praça do mercado. Um e outro pediam castigo para os que haviam matado o imperador — o povo com ardor, e o senado, apenas na aparência. Uma tão grande comoção obrigou o senado a mandar buscar Valério Asiático, que fora cônsul. O povo lhe dizia, com impaciência, que não compreendiam como ainda não estavam presos os conspiradores. E, perguntando-lhe quem havia sido o autor do assassinato, ele respondeu: “Desejaria ter sido eu”.
O senado publicou em seguida um decreto, pelo qual condenava a memória de Caio e ordenava a todos que se retirassem: os cidadãos romanos para as suas casas e os soldados para os seus quartéis. Prometiam aos primeiros uma grande diminuição de impostos, e aos últimos, recompensas, se eles permanecessem em seu dever. Isso porque havia o temor de que eles, caso se sentissem desgostosos, praticassem em Roma toda espécie de violência e, não se contentando em saquear as casas particulares, fossem levados a cometer sacrilégios, não poupando nem mesmo os Templos. Os senadores assistiram todos a essas deliberações, e os que haviam feito parte da conspiração não somente foram os primeiros a chegar como também tinham esperanças de que o senado retomasse a sua antiga autoridade.

CAPÍTULO 2
OS SOLDADOS DELIBERAM ELEVAR CLÁUDIO, TIO DE CAIO, AO TRONO DO
IMPÉRIO. DISCURSO DE SATURNINO NO SENADO EM FAVOR DA LIBERDADE.
CHEREAS MANDA MATAR A IMPERATRIZ CESÔNIA, MULHER DE CAIO, E
SUA FILHA. BOAS E MÁS QUALIDADES DE CAIO. OS SOLDADOS RESOLVEM
CONSTITUIR CLÁUDIO IMPERADOR E LEVAM-NO AO CAMPO. O SENADO
ENVIA DEPUTADOS PARA ROGAR-LHE QUE DESISTA DESSA INTENÇÃO.

799. Enquanto o senado deliberava, os soldados, por seu lado, também trocavam idéias. Consideradas todas as coisas, pareceu-lhes que, se o governo popular fosse restabelecido, seria incapaz de sustentar o peso da direção de tantos reinos e províncias. E, mesmo que fosse possível, eles não teriam nenhuma vantagem. Além disso, se acontecesse de algum dos principais do senado ser eleito imperador sem que eles tivessem contribuído para elevá-lo a esse supremo grau de honra, seriam considerados inimigos.
Assim, julgando que nenhum outro era tão merecedor, escolheram Cláudio, tanto pela nobreza da origem, pois era tio de Caio, quanto pela maneira nobre como fora educado. E, convictos de que ele lhes demonstraria a sua gratidão com benefícios proporcionais à obrigação de que lhes seria devedor, resolveram ir buscá-lo em sua casa. Gneu Sentio Saturnino disso teve ciência no senado e, julgando que não havia tempo a perder, para demonstrar virtude e coragem, ergueu-se como se fora impelido por alguém — mas na verdade era por iniciativa própria — e falou com uma ousadia digna dos grandes homens que fizeram brilhar por toda a terra a glória da generosidade romana.
Ele disse: &quot;Estamos vendo, por fim, senhores, após uma servidão de tantos anos, despontar hoje, contra toda a esperança, a nossa liberdade. É verdade que não sabemos o quanto há de durar, porque depende da vontade de Deus a sua conservação, depois de Ele no-la conceder. Mas, ainda que tão grande ventura logo desapareça, não devemos deixar de estimá-la, pois não há homem de coragem que não sinta alegria em viver livre, num país livre, e desfrutar pelo menos durante algumas horas a doçura que nossos antepassados gozavam nos séculos em que a república florescia em todo o seu esplendor. Como nasci após essa liberdade haver sido suprimida, não vi esse tempo feliz, quando se estudavam as letras e se era treinado nos exercícios que podem formar o espírito e erguer o ânimo. Assim, tudo o que posso fazer é manifestar o meu amor por aquela que hoje se nos apresenta. Eis por que julgo que, abaixo dos deuses imortais, não há honra que não devamos tributar àqueles cuja generosidade e virtude nos fizeram rever a luz tão doce da liberdade. Pois, mesmo que a desfrutássemos durante um só dia, não seria isso para cada um de nós um grande bem? Para os velhos, porque morreriam sem tristeza, após uma mudança tão inesperada. Para os jovens, porque é para eles um exemplo que não poderiam deixar de imitar sem degenerar da virtude de seus antepassados, pois somente por meio de ações virtuosas podemos conquistar a liberdade. Das coisas passadas, posso falar apenas por referências de outros, mas as que vi não me permitem ignorar os males causados pela tirania. Sei que ela faz guerra aberta à virtude e não tolera os que possuem coragem e mérito, infunde o medo nos espíritos e leva-os à covarde bajulação, pois é quando não se administra mais pelas leis, e sim pelo humor do príncipe. Depois que Júlio César, calcando aos pés a ordem tão religiosamente observada por nossos pais, estabeleceu a sua injusta monarquia sobre as ruínas da República, não há calamidade que não tenha afligido a cidade de Roma. Os que a ele sucederam no soberano poder demonstraram também não ter outro propósito senão subverter a antiga disciplina. E, como só acreditavam que encontrariam segurança entre homens dispostos a cometer toda espécie de crimes para lhes obedecer, não há meios bárbaros de que não se tenham servido para oprimir as pessoas mais ilustres e mesmo para lhes tirar a vida. Entre esses intoleráveis senhores que nos fizeram gemer sob tão tirânica dominação, Caio podia vangloriar-se de superar a todos, pois não exercitava o seu furor apenas sobre os nossos cidadãos, mas também sobre os parentes e amigos, e não era menos ímpio para com os deuses. Pois é próprio dos tiranos não se contentarem em ser avaros, voluptuosos e soberbos. O seu maior prazer é exterminar os inimigos, e eles consideram como tais todos os que têm alma nobre. Nenhuma ponderação é capaz de os acalmar, pois, sabendo o quanto são odiosos aos que lhes estão sujeitos, acham que não se conservarão em segurança senão oprimin-do-os de tal modo que eles não possam livrar-se de tantas misérias. Agora, então, que disso nos livramos, com a vantagem de só dependermos de nós mesmos, a nossa união presente pode gerar segurança para o futuro. Quem nos impede de reerguer a glória de Roma e dar à República o seu antigo brilho e o primeiro esplendor? Podemos falar com liberdade contra as desordens e propor sem perigo tudo o que julgamos mais vantajoso para o bem público, pois sacudimos o jugo desses senhores prepotentes. Lembremo-nos de que nada favoreceu tanto a tirania em seu início quanto a covardia daqueles que a ela não se ousaram opor e que foram essa fraqueza e a mesquinhez de se preferir, como escravos, uma vida vergonhosa a uma morte honrosa que lançaram Roma neste abismo de infinitos males. Mas antes de todas as coisas, senhores, prestemos a honra devida aos que nos libertaram da escravidão, particularmente a Chereas, cujo proceder e cujo braço, com o auxílio dos deuses, nos deram a liberdade. Que recompensa não merece receber daqueles pelos quais não receou se expor a tal perigo? Ele tem mesmo vantagem sobre Bruto e Cássio, cuja virtude imitou, pois, enquanto a ação daqueles foi seguida de uma guerra que perturbou todo o império e o mundo inteiro, este, pela morte de um só homem, libertou-nos de todos os males&quot;.
O discurso de Saturnino foi ouvido com grande prazer por todos os senadores e cavaleiros presentes, e o ardor com que falou o fez esquecer de que trazia no dedo um anel, onde havia uma pedra na qual estava gravada a imagem de Caio. Trebélio Máximo arrancou-o então, e no mesmo instante a pedra foi feita em pedaços.
800. A noite já ia adiantada, e Chereas pediu a senha aos cônsules. E eles a deram: &quot;Liberdade&quot;. E não se cansavam de se rejubilar por haverem tornado a entrar no gozo daquele sinal de sua antiga autoridade. Chereas em seguida deu a senha aos oficiais de quatro coortes, os quais, preferindo a dominação legítima à tirania, haviam abraçado o partido do senado.
801.  Pouco depois, o povo, por efeito da inconstância que lhe é peculiar, externou muita alegria pela esperança de reconquistar, com a liberdade, o poder que outrora havia desfrutado, e Chereas tornou-se deles muito estimado.
802.  Como chefe do empreendimento que acabava de mudar a face do império, Chereas, julgando que haveria sempre motivo de temor enquanto existisse alguém da família de Caio, ordenou a Júlio Lupo, um dos oficiais da guarda, que fosse matar a imperatriz Cesônia e sua filha. Ele foi escolhido porque tinha parentesco com Clemente e também porque havia participado da conspiração. Alguns acharam crueldade assassinar uma mulher como se ela fosse culpada do sangue dos ilustres romanos que Caio — e ele somente, em seu furor — mandara derramar. Outros diziam, ao contrário, que ela era a causa principal dos males do império, pois fizera Caio tomar uma bebida, a fim de prendê-lo pelo amor, e a poção lhe perturbara o juízo. Por isso deviam considerá-la culpada de haver ministrado um veneno mortal a muitas pessoas de eminente virtude.
Esse último sentimento prevaleceu, e Lupo partiu para matá-la. Encontrou Cesônia estendida por terra, junto ao corpo do marido — o qual estava privado de tudo, até mesmo do que não se recusa aos mortos — e manchada com o sangue que corria de suas feridas. A filha estava ao lado dela e a ouvia queixar-se amargamente de que Caio não quisera atender aos seus muitos avisos. Essas palavras foram e são ainda hoje diversamente interpretadas. Uns acreditam que ela queria dizer que havia aconselhado o imperador seu marido a mudar de proceder, adotando um estilo mais moderado, a fim de reconquistar o afeto dos romanos e para não levá-los, pelo desespero, a atentar contra a sua vida. Outros, ao contrário, julgam que essas palavras significavam que, tendo ouvido alguma notícia da conspiração, ela havia insistido com ele para que matasse imediatamente todos os conspiradores.
A princesa, oprimida pela dor, julgava que Lupo viera ver o corpo do marido. Disse-lhe então, com lágrimas, suspirando, que se aproximasse um pouco mais. Mas quando percebeu que ele não respondia, não teve dificuldade para compreender o motivo que o trouxera ali. Deplorando a própria condição, apresentou-lhe o pescoço e insistiu que se consumasse logo o último ato daquela sanguinolenta tragédia. Esperou em seguida o golpe de morte com fortaleza admirável. Sua filha, que era ainda apenas uma criança, foi morta depois dela.
803. Foi esse o fim de Caio, após reinar durante três anos e oito meses. Ele já havia demonstrado, mesmo antes de ser imperador, o quanto era brutal, malvado, voluptuoso, protetor dos caluniadores, covarde e, por conseguinte, cruel. Considerava a maior vantagem da autoridade soberana poder abusar dela contra os inocentes e enriquecer-se com os despojos deles depois de os fazer injustamente perder a vida. Não podia tolerar que o considerassem apenas um homem, mas desejava loucamente ser reverenciado como um deus e vangloriava-se das tolas bajulações do povo. O freio que as leis e a virtude impõem às paixões desregradas era-lhe insuportável. Não havia amizade, por maior ou mais antiga que fosse, que lhe pudesse impedir de manchar as mãos no sangue, quando encolerizado. Todos os homens de bem passavam em seu espírito por inimigos.
Por mais injustas que fossem as suas ordens, queria que fossem executadas imediatamente, sem a menor oposição. E, dentre os tantos vícios que o tornaram odioso, aquela abominável impudicícia, inaudita até então, que o levou a cometer incesto com a própria irmã, tornou-o detestável a todos. Durante o seu reinado, nada empreendeu de importante ou magnífico ou de que o império pudesse haurir alguma vantagem, exceto alguns portos e cais perto de Régio e na Sicília, para receber os navios que traziam trigo do Egito para a Itália, e que eram sem dúvida muito úteis ao povo. Ainda assim, eles não foram terminados, tanto pelo desleixo daqueles aos quais ele dera tal incumbência quanto porque ele preferia empregar o dinheiro em despesas vãs, entregando-se mais ao prazer que à realização de obras dignas de um grande imperador, que iria preferir o bem de seus súditos à sua satisfação particular.
Quanto ao resto, era muito eloqüente, muito instruído nas letras gregas e romanas e compreendia facilmente todas as coisas. Respondia imediatamente aos questionamentos que lhe eram feitos, e, mesmo nos assuntos mais importantes, ninguém mais que ele era capaz de incutir o que empreendia sustentar, porque possuía uma grande inteligência e se havia preparado para não ser inferior a Germânico, seu pai, nem a Tibério, o qual a esse respeito excedia a todos os outros e tomara grande cuidado em instruí-lo. Mas essa boa educação não o impediu de perder-se quando subiu ao trono, pois é difícil para aquele que detém um poder absoluto conter a própria maldade. No começo de seu reinado, ele tinha como amigos pessoas de grande mérito, que o estavam levando a ações que lhe poderiam granjear boa reputação e glória. Mas ele os afastou pouco a pouco e, quando se abandonou a uma licenciosidade desenfreada, sentiu de tal modo aversão por eles que não teve vergonha de empregar os meios mais infames para causar-lhes a morte e satisfazer assim a sua ingratidão e crueldade.
804. Devemos agora falar de Cláudio, que, como dissemos, ia adiante de Caio quando este saía do teatro. Sabendo da morte do imperador e vendo aquela grande perturbação, ele foi esconder-se num canto muito escuro do palácio. No entanto, nenhum outro motivo senão a grandeza de sua origem lhe provocava temor, pois ele vivera até ali como um cidadão comum e procedera sempre com muita modéstia. Longe do barulho e do tumulto, ocupava-se com o estudo, principalmente dos autores gregos, sem se imiscuir de maneira alguma na política.
A confusão, todavia, aumentava cada vez mais. O palácio estava cheio de soldados, que corriam para todos os lados com furor, sem saber o que queriam, e o povo também para lá acorria em massa. Então os guardas pretorianos, que estavam na primeira linha entre os soldados, se reuniram para deliberar sobre o que deviam fazer. A morte do imperador não lhes causava pesar, até achavam que ele bem a havia merecido, mas pensavam em tomar resoluções que lhes fossem vantajosas. Quanto aos alemães, não era a consideração do bem público que os incitava contra os que haviam assassinado Caio, e sim a própria paixão.
O temor de Cláudio aumentou quando ele viu as cabeças de Asprenas e dos outros que os bárbaros haviam sacrificado à sua vingança. Manteve-se em seu esconderijo, onde só se podia chegar subindo alguns degraus. Um dos guardas do imperador, de nome Grato, avistou-o, mas, por causa da escuridão, não pôde reconhecê-lo, por isso aproximou-se e ordenou-lhe que saísse dali. Cláudio não quis obedecer. O guardou tirou-o à força e então o reconheceu, gritando aos companheiros: &quot;Eis aqui Germânico.* Façamo-lo imperador&quot;. Ante essas palavras, o guarda o agarrou, para levá-lo, e Cláudio pensou que iria ser morto, em razão do ódio à memória de Caio. Assim, rogou-lhe que considerasse a sua inocência e lembrasse que ele não tivera absolutamente parte no que havia acontecido. Grato, nesse momento, tomou-o pela mão e, sorrindo, disse-lhe: &quot;Não tenhais receio pela vossa vida, mas pensai apenas em demonstrar uma coragem digna do império, pois os deuses, cansados dos males que Caio causou a toda a terra, oferecem-no hoje à vossa virtude. Portanto, subi gloriosamente ao trono de vossos antepassados&quot;.
Enquanto Grato falava, um grande número de soldados da guarda pretoriana reuniu-se em torno dele. O combate violento que se travara em seu coração entre o temor e a alegria não lhe permitia sequer caminhar, e então eles o carregaram nos ombros. Muitos, vendo-o naquele estado, julgaram que iam matá-lo. E, como sabiam que ele jamais havia tomado parte em coisa alguma e até mesmo algumas vezes correra perigo de vida sob o reinado de Caio, ficaram consternados pela sua desdita e protestaram, dizendo que competia aos cônsules julgá-lo. À medida que os soldados caminhavam, outros reuniam-se a eles, que continuavam a levar Cláudio, porque os que carregavam a liteira, julgando-o perdido ao vê-lo ser agarrado, haviam fugido. O povo abria caminho àquela multidão de soldados que enchia o palácio, o qual dizem estar na parte mais antiga de Roma.
Um número maior de soldados uniu-se ainda a eles, e a alegria deles por ver Cláudio foi tão grande que disseram estar dispostos a tudo para elevá-lo ao trono do império, quer pelo amor e respeito que conservavam à memória de Germânico, seu pai, quer porque não ignoravam os males que a ambição desmedida dos maiorais do senado havia causado quando este ainda possuía autoridade. Crendo que era impossível restaurar aquela forma de governo, tinham de eleger um imperador, e importava escolher alguém que lhes ficaria devendo obrigação. Cláudio, portanto, ser-lhes-ia devedor daquele alto cargo, com todas as suas honras, e, como recompensa, não haveria favor que ele não lhes devesse conceder ou que não pudessem esperar dele. Depois que assim deliberaram, comunicaram a sua opinião aos que se haviam juntado a eles, e todos puseram-se de acordo num único desígnio: colocaram Cláudio no meio deles e o levaram ao acampamento para concluir aquele assunto importantíssimo sem que ninguém os pudesse impedir.

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* Josefo chama Cláudio de Germânico, porque o imperador era filho de Germânico.

805. Enquanto isso se passava, o senado e o povo experimentavam sentimentos opostos. Aquele, vendo-se livre da servidão dos tiranos, queria retomar a antiga autoridade. Este, invejando-lhe essa honra, considerava o poder imperial um freio aos excessos dos políticos mais arrojados e uma proteção contra as suas violências. Por isso, regozijava-se com a resolução tomada pelos soldados em favor de Cláudio e esperava, por seu intermédio, evitar a guerra civil e os outros males que Roma sofrerá nos tempos de Pompeu.
 
806. O senado, logo que soube do que acontecia no acampamento, mandou dizer a Cláudio que não aceitasse ser eleito imperador pela violência; que deixasse o senado cuidar do governo e escolhesse alguém dentre eles, o qual, com a consistência dos outros senadores, agiria conforme as leis, no que se referia ao bem público; que ele recordasse os males que haviam afligido a cidade de Roma durante a dominação do tiranos e os perigos que ele mesmo correra sob o reinado de Caio; que seria estranho ele, após condenar a tirania nos outros, querer, por ambição, recolocar a sua pátria sob o jugo insuportável do qual acabava de ser libertada; que ele, ao contrário, se concordasse em acatar os sentimentos do senado e em viver como antes, demonstrando a costumeira virtude, receberia as maiores honras, porque elas lhe seriam prestadas voluntariamente e por pessoas livres; que, sujeitando-se às leis, obteria os louvores que bem merecem os homens de virtude; e que, caso ele não considerasse o que acontecera a Caio e perseverasse em seu intento, o senado estava resolvido a fazer-lhe oposição, pois, além do grande número de soldados que este possuía, poderia ainda armar uma grande quantidade de escravos, embora a sua confiança principal repousasse no socorro dos deuses, que sempre auxiliam os que combatem pela justiça — e nada era mais justo que defender a liberdade de seu país.
Verânio e Brocco, os tribunos enviados como embaixadores, depois de falar a Cláudio, puseram-se de joelhos diante dele e suplicaram-lhe que não lançasse Roma numa guerra civil. E, vendo-o rodeado por uma multidão de soldados incomparavelmente mais numerosa que os partidários dos cônsules, rogaram-lhe, uma vez que estava resolvido a subir ao trono, que ao menos consentisse em recebê-lo das mãos do senado, pois era mais razoável e ser-Ihe-ia mais vantajoso ser elevado ao soberano poder por um consentimento geral que pela violência.

CAPÍTULO 3
O REI AGRIPA FORTALECE CLÁUDIO NA RESOLUÇÃO DE ACEITAR O GOVERNO. OS SOLDADOS QUE TINHAM ABRAÇADO O PARTIDO DO SENADO, ABANDONAM-NO E SE UNEM AOS QUE PRESTARAM JURAMENTO A CLÁUDIO, NÃO OBSTANTE OS ESFORÇOS DE CHEREAS PARA IMPEDI-LOS. CLÁUDIO TORNA-SE IMPERADOR E CONDENA CHEREAS À MORTE. ELE A SOFRE COM MARAVILHOSA FIRMEZA. SABINO, UM DOS PRINCIPAIS CONJURADOS, SUICIDA-SE.

807. Cláudio, ciente de que o senado estava convencido de poder reconquistar a sua primitiva autoridade, respondeu com muita modéstia, para não chocar os sentimentos deles. Porém não demorou muito a superar os seus temores, em parte pela proteção que lhe prometiam os soldados e em parte pelo fato de Agripa já o haver exortado a não ser inimigo de si mesmo, recusando o oferecimento de um poder que lhe permitiria governar a maior parte da terra. Por fim, decidiu-se a tudo fazer, no que dependia dele, para secundar a sua boa estrela.
Esse rei dos judeus, que devia a Caio a sua coroa, havia colocado o corpo do imperador sobre um leito, com toda a cortesia que o tempo lhe permitiu, dizendo aos guardas que ele não estava morto, que as feridas o faziam sofrer muitas dores e que ele tinha necessidade urgente de médicos. E, quando soube que os soldados haviam levado Cláudio, rompeu a multidão para ir ter com ele, encontran-do-o em tal aflição de espírito que parecia prestes a ceder a autoridade ao senado. Então Agripa restituiu-lhe a coragem e o animou a não perder aquela ocasião de subir ao trono do império.
Mal havia ele inspirado em Cláudio tais sentimentos e voltado para casa, vieram dizer-lhe que o senado o estava convidando a tomar assento na companhia deles. Agripa perfumou a cabeça, para fazer pensar que saíra da mesa, e, fingindo nada saber do que se passava, perguntou, ao chegar, o que havia acontecido com Cláudio. Contaram-lhe então tudo o que havia sucedido e rogaram que ele manifestasse a sua opinião sobre o presente estado das coisas. Ele declarou que estava pronto a dar a vida para manter a dignidade do senado, mas julgava que eles deviam antes considerar o que lhes seria mais útil e agradável. Pois, se estavam resolvidos a retomar a soberana autoridade, precisariam de armas e de soldados, para não sucumbir em tão ingente empreendimento. Eles responderam que o senado possuía homens e armas, bem como dinheiro para fazer a guerra, e que poderiam ainda armar uma grande quantidade de escravos, aos quais dariam a liberdade.
Agripa replicou: &quot;É meu desejo, senhores, que o vosso intento se realize, tal como o desejais. Mas o cuidado que tenho pela vossa preservação me obriga a dizer-vos que vejo uma extrema diferença entre o grande número de soldados experientes que abraçaram o partido de Cláudio e os escravos de que falais, porque estes são homens desacostumados à disciplina e que mal sabem manejar uma espada. Por isso, sou de opinião que entreis em contato com Cláudio a fim de dissuadi-lo de sua pretensão ao império. E ofereço-me para ir com os vossos delegados&quot;. A proposta foi aprovada, e o príncipe partiu, acompanhado por alguns senadores. E, depois de uma conversa em particular com Cláudio a respeito da agitação que reinava no senado, aconselhou-o a falar como um príncipe que já se julga no trono.
Cláudio respondeu aos delegados que não se admirava de ver que o senado estava ressentido da monarquia, depois de haverem sido tão maltratados sob a tirania dos imperadores precedentes, mas que sob o seu governo eles experimentariam uma dominação moderada que de império teria apenas o nome, e todas as coisas se orientariam conforme o parecer deles e a aprovação de todos. A esse respeito não podiam duvidar de sua palavra, pois eles mesmos eram testemunhas da maneira como ele vivera até ali, sem jamais incorrer num ato que lhes desse motivo para censura. Após despedir os emissários, discursou perante os soldados que se haviam unido a ele e obteve deles juramento de fidelidade. Depois distribuiu a cada um cinco mil dracmas e gratificou os oficiais na proporção do número de homens que comandavam, prometendo tratar favoravelmente todas as outras tropas, onde quer que estivessem.
808. No dia seguinte, pela manhã, antes do despontar do dia, os cônsules reuniram o senado no Templo de Júpiter, no Capitólio. Alguns senadores, porém, não se atreveram a sair de casa, e outros partiram para as suas casas de campo, porque, vendo o rumo que as coisas estavam tomando, preferiam uma servidão tranqüila a uma empresa tão perigosa como a de reconquistar a liberdade. Apenas uns cem deles compareceram à reunião.
Enquanto deliberavam, ouviu-se à porta um grande rumor de soldados, os quais pediam que o senado escolhesse um imperador, aquele que dentre eles fosse o mais digno, a fim de impedir o prejuízo que o império sofreria, caso fosse repartido entre vários governantes. Esse pedido, tão contrário à esperança que o senado tivera de reconquistar a liberdade e o antigo poder, perturbou-os ainda mais, pois já estavam pressionados pelo temor de que Cláudio assumisse o trono. Havia no entanto alguns que, pela nobreza de seu nascimento ou por alianças matrimoniais com os césares, se achavam no direito de ansiar o supremo poder.
Marcos Minúcio, um dos mais ilustres romanos, que desposara júlia, irmã de Caio, ofereceu-se para governar o império. Os cônsules, em vez de lhe responder, passaram a outros assuntos. Valério Asiático tinha o mesmo desejo que Minúcio, mas Minuciano. aue fizera parte da conspiração contra Caio, impediu que ele se declarasse. Isso porque se alguém chegasse a disputar abertamente o império a Cláudio haveria uma das mais terríveis carnificinas de que jamais se ouviu falar, pois, além de um grande número de gladiadores e das companhias de sentinela mantidas para fazer a ronda na cidade durante a noite, um grande número de remadores unir-se-ia também a eles. Essa extrema desordem, tão fácil de se prever, afastou vários senadores da pretensão ao império, fosse pelo temor do perigo em que Roma se encontrava, fosse pelo risco que eles mesmos correriam.
809.  O dia apenas começava a raiar quando Chereas apareceu com os seus amigos e sinalizou aos soldados que lhes desejava falar. Em vez de atendê-lo, no entanto, eles puseram-se a gritar, exigindo que eles sem demora lhes dessem um imperador. Desse modo, o senado compreendeu o desprezo que aqueles soldados tinham pela autoridade deles, e isso anulava toda a possibilidade de se restaurar a antiga forma de governo. A falta de respeito dos soldados por aquela assembléia tão augusta também despertou a ira de Chereas e dos que o haviam ajudado na conspiração contra Caio. Não tolerando mais que continuassem a insistir num imperador, disse-lhes, encolerizado, que lhes daria um, contanto que lhe trouxessem uma ordem de Êutico.
Êutico era um cocheiro a quem Caio muito havia estimado e de que se servia para os mais baixos serviços e o mais vis misteres. Acrescentou a isso diversas censuras, ameaçando mesmo trazer-lhes a cabeça de Cláudio e declarando que era coisa vergonhosa eles desejarem entregar o império a um tolo, após ele ter sido arrancado das mãos de um louco. Os soldados, porém, arrancaram das espadas sem se dignar escutá-lo e foram, com as suas bandeiras, procurar Cláudio a fim de se unirem aos demais que já lhe haviam prestado juramento.
810.  O senado, vendo-se abandonado por aqueles que o deviam defender e sabendo que os cônsules não tinham qualquer autoridade, ficou bastante indeciso. O fato de haverem irritado Cláudio aumentou-lhe tanto o temor que o arrependimento por tal excesso os levou a mútuas censuras. No meio dessa balbúr-dia, Sabino, um dos que haviam matado Caio, adiantou-se e afirmou que os mataria todos, para não terem de suportar que Cláudio subisse ao trono e se iniciasse uma nova escravidão. Disse a Chereas, com grande ardor, que era estranho que ele, tendo sido o primeiro a atacar o tirano, agora se permitisse continuar a viver sem que a sua pátria houvesse reconquistado a liberdade. Chereas retrucou que não tinha amor à vida, mas queria antes saber quais eram os sentimentos de Cláudio.
811.  Enquanto isso, os soldados se dirigiam de todas as partes ao acampamento para se unir a Cláudio. Quinto Pompeu, um dos cônsules, foi também com eles. Mas como era odioso aos soldados, porque havia exortado o senado a manter a liberdade, vieram a ele de espada na mão e o teriam matado se Cláudio não os impedisse. Após livrá-lo daquele perigo, convidou-o a sentar-se junto dele. Não houve a mesma consideração para com os senadores que o acompanhavam, pois eles foram proibidos de se aproximar de Cláudio para saudá-lo. Alguns chegaram a ser feridos, entre eles Apônio, e não houve um só que não tivesse corrido grave perigo de vida. O rei Agripa, entretanto, aconselhou Cláudio a tratar com gentileza aquelas pessoas, que eram as principais do império, porque do contrário não haveria mais ninguém da nobreza com quem ele pudesse governar. Ele aprovou essa advertência e pediu imediatamente ao senado que se reunisse em seu palácio, para onde ele se fez levar em liteira através da cidade, acompanhado pelos soldados, que afastavam o povo.
812.  Por esse mesmo tempo, Chereas e Sabino, que haviam sido os mais influentes na conspiração, não tiveram receio de se apresentar em público, contra a ordem de Poliom, a quem Cláudio pouco antes nomeara capitão da guarda pretoriana. Mas Cláudio, logo que chegou ao palácio, reuniu os seus amigos e condenou Chereas à morte. Eles não podiam, no entanto, deixar de reconhecer que a ação que ele havia praticado fora gloriosa, porém o acusaram de traição e acharam que a sua morte traria segurança ao imperador. Levaram-no então ao suplício, com Lupo e vários outros conjurados.
Conta-se que ele demonstrou maravilhosa firmeza e que, além de não alterar o rosto, censurou a fraqueza de Lupo, ao vê-lo chorar porque lhe haviam tirado a túnica: disse-lhe que um lobo* jamais sentia frio. No meio da grande multidão que o rodeava, ele perguntou ao soldado que o iria executar se ele estava bem treinado naquele ofício e se a sua espada estava bem afiada. Pediu depois que lhe trouxessem a espada com a qual havia matado Caio. Um único golpe decepou-lhe a cabeça. Lupo, no entanto, recebeu vários golpes, porque o medo fazia com que a balançasse. Alguns dias depois, celebrou-se a festa na qual os romanos fazem ofertas pelos parentes mortos, e o povo as lançou ao fogo em honra a Chereas, pedindo que ele lhes perdoasse a ingratidão. Dessa forma, chegou ao fim aquele que deixou célebre a sua memória por um empreendimento tão generosamente concebido, mantido com tanta perseverança e tão corajosamente executado.

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* Lupo significa lobo, em latim. (N. do R.)

813. Quanto a Sabino, Cláudio não se contentou em perdoá-lo, mas o conservou no cargo, dizendo que não podia faltar à palavra dada aos que o haviam envolvido na conjuração. Mas esse generoso romano, incapaz de resignar-se a sobreviver à supressão da liberdade pública, matou-se com um golpe de espada, libertando-se de uma vida que a sua coragem tornaria insuportável.

CAPÍTULO 4
O IMPERADOR CLÁUDIO CONFIRMA O REINO A AGRIPA E ACRESCENTA-LHE A
JUDÉIA E SAMARIA. ENTREGA O REINO DA CÁLCIDA A HERODES, IRMÃO DE
AGRIPA, E PROMULGA EDITOS FAVORÁVEIS AOS JUDEUS.

814.  Os primeiros atos de Cláudio, após restaurar o soberano poder, foram a dispensa de todos os soldados que lhe eram suspeitos e a confirmação de Agripa no reino que este havia recebido de Caio. A esse respeito, promulgou um edito pelo qual, depois de lhe dedicar grandes honras e elogios, acrescentava aos seus territórios a Judéia e Samaria, achando que eles lhe pertenciam por justiça, porque haviam sido do rei Herodes, seu avô. Deu-lhe ainda, de sua parte, o reino de Abela, que pertencera a Lisânias, com todas as terras do monte Líbano. A aliança desse príncipe com povo romano foi gravado em uma lâmina de cobre que se colocou no meio da grande praça do mercado de Roma.
815.  A Antíoco, que havia sido despojado de seu reino, o novo imperador entregou Comagena e uma parte da Cilícia. A Marco, filho de Alexandre Lisímaco, alabarche, por quem nutria um afeto particular e que tivera a direção de todos os negócios de Antônia, sua mãe, a qual Caio mandara prender, Cláudio deu por esposa Berenice, filha de Agripa. Marco, porém, morreu antes das núpcias. Então Agripa deu-a em casamento a Herodes, seu irmão, para o qual conseguiu de Cláudio o reino da Cálcida.
816. Aconteceu nesse mesmo tempo uma grande divergência entre os judeus e os gregos que moravam em Alexandria. Os primeiros, tendo sido muito oprimidos e maltratados pelos habitantes de Alexandria durante o reinado de Caio, logo que souberam da notícia de sua morte tomaram as armas. Caio escreveu ao governador do Egito que acalmasse aquela agitação, e enviou, a rogo dos reis Agripa e Herodes, um edito a Alexandria e à Síria.
Os termos eram estes: &quot;Tibério Cláudio César Augusto Germânico, príncipe da República, fez o edito que segue: Constando de diversos registros que os reis do Egito há muito tempo permitiram aos judeus que moram em Alexandria desfrutar os mesmos privilégios que os demais habitantes, Augusto, depois de anexar essa cidade ao império, confirmou-lhes esses mesmos direitos — e eles os usufruíram pacificamente sob Áqüila e outros governadores que lhe sucederam —, bem como a permissão, concedida por esse mesmo imperador, para que, quando o seu etnarca morresse, elegessem um outro. Permitiu-lhes também viver segundo as suas leis e no exercício de sua religião sem serem perturbados. Quando Caio quis fazer-se adorar como um deus, todavia, os outros habitantes de Alexandria tomaram essa ocasião para incitar o príncipe contra eles, porque se recusavam a obedecer a uma ordem tão ímpia. E, como nada seria mais injusto que persegui-los por esse motivo, é nosso desejo que eles sejam mantidos em seus privilégios, e ordenamos a uns e outros que vivam em paz, para o futuro, sem promover perturbação alguma&quot;.
Esse mesmo imperador enviou outro edito a todas as províncias do Império Romano, cujo conteúdo era o seguinte: &quot;Tibério Cláudio César Augusto Germânico, sumo sacerdote da República e cônsul designado pela segunda vez. Os reis Agripa e Herodes, que são nossos amigos muito particulares, rogaram-nos que permitíssemos aos judeus esparsos por todo o Império Romano viver segundo as suas leis, como de fato o permitimos. Nós, de boa mente, o concedemos aos que moram em Alexandria, não somente em consideração a dois tão grandes intercessores, mas também porque julgamos que o afeto e a fidelidade que os judeus sempre demonstraram pelo povo romano os tornam dignos de receber essa graça. Assim, é nosso desejo que nem mesmo nas cidades gregas eles sejam impedidos de usufruir esses favores, pois o divino Augusto os manteve, e que possam desfrutá-los no futuro em toda a extensão do império. Desse modo, por essa prova de nossa bondade, estarão eles também obrigados a respeitar a religião dos outros povos e a se contentar em viver essa plena liberdade. E, para que ninguém disso possa duvidar, ordenamos que o presente edito seja publicado não somente em toda a Itália, mas enviado por nossos oficiais aos reis e príncipes fora dela, e afixado em lugar visível durante trinta dias&quot;.

CAPÍTULO 5
O REI AGRIPA RETORNA AO SEU REINO, COLOCA NO TESOURO DO TEMPLO A
CADEIA DE OURO QUE ERA UMA LEMBRANÇA DE SUA PRISÃO E DESIGNA O
NOVO SUMO SACERDOTE. IRRITA-SE COM A INSOLÊNCIA DOS DÓRIOS, QUE
HAVIAM COLOCADO NA SINAGOGA UMA ESTÁTUA DO IMPERADOR.

817. Depois que esses editos, pelos quais o imperador Cláudio demonstrava tanta afeto pelo judeus, foram publicados e enviados a Alexandria e a todos os outros países sujeitos ao Império Romano, ele permitiu a Agripa, a quem havia cumulado de honras e benefícios, voltar ao seu reino, e entregou-lhe cartas de recomendação endereçadas aos governadores e aos intendentes das províncias. Logo que chegou a Jerusalém, Agripa cumpriu, com sacrifícios, os votos que fizera a Deus, obrigou os nazarenos a cortar o cabelo e realizou todas as outras coisas que a Lei determina.
Ele também mandou colocar no Templo, no lugar onde é guardado o dinheiro consagrado a Deus, aquela cadeia de ouro com a qual o imperador Caio lhe presenteara e que era do mesmo peso do grilhão de ferro com que Tibério não tivera vergonha de prender suas mãos reais, a fim de que, estando expostas ao público, nelas se pudesse ver um ilustre exemplo das vicissitu-des da vida e saber que, quando elas privam os homens das honras que desfrutavam, Deus pode reerguê-los e restaurá-los, em uma prosperidade ainda maior. Não havia ninguém a quem essa cadeia assim consagrada não desse a conhecer que o príncipe, após ter sido posto na prisão por um motivo menor e contra o respeito devido a alguém de uma origem como a sua, dela não somente havia saído gloriosamente como também subira ao trono. Porque, assim como as potências mais elevadas caem fácil e repentinamente, as que estavam caídas erguem-se com mais glória, pela inconstância e pela revolução das coisas humanas.
818. Depois de cumprir todos os seus deveres para com Deus, o rei Agripa tirou o sumo sacerdócio de TeóFílon, filho de Anano, e entregou-a a Simão, cognominado Cantara, filho de Boeto, sumo sacerdote, cuja filha, como dissemos, Herodes, o Grande, havia desposado. Simão tivera dois irmãos que também haviam sido sumos sacerdotes, e vimos que outrora, sob o reinado dos macedônios, a mesma coisa aconteceu aos três filhos de Simão, sumo sacerdote, filho de Onias, que foram sumos sacerdotes, como o pai.
Depois que Agripa dispôs tudo o que se referia ao supremo sacerdote, não quis deixar sem agradecimento o afeto que os habitantes de Jerusalém lhe haviam demonstrado. E, para mostrar-lhes a sua generosidade, perdoou os impostos que cada família devia pagar e honrou Silas, que jamais o havia abandonado nas dificuldades, com o cargo de general de suas tropas.
819.  Pouco tempo depois, alguns moços da Dórida, demonstrando a sua temeridade e insolência, atreveram-se, sob o pretexto de piedade, a colocar uma estátua do imperador da sinagoga. E, como nada poderia ser mais contrário e injurioso às nossas leis, Agripa ficou tão irritado que foi imediatamente procurar Petrônio, que tinha o comando do exército na Síria. O governador mostrou que estava não menos surpreendido que ele ante tão grande impiedade e escreveu aos que haviam tido a ousadia de cometê-la nos termos que se seguem.

CAPÍTULO 6
CARTA DE PETRÔNIO, GOVERNADOR DA SÍRIA, AOS DÓRIOS, ACERCA DA
ESTÁTUA DO IMPERADOR QUE ELES COLOCARAM NA SINAGOGA. O REI
AGRIPA ENTREGA O SUMO SACERDÓCIO A MATIAS.
MARCOS É CONSTITUÍDO GOVERNADOR DA SÍRIA.

820.  &quot;Petrônio, governador, por Tibério Cláudio César Augusto Germânico, aos magistrados dórios. Eu soube que, após o edito de Cláudio César Augusto Germânico, que permite aos judeus viver segundo as suas leis, alguns dos vossos tiveram a insolência de profanar a sua sinagoga, colocando lá uma estátua. Eles ofenderam também à sua religião e à piedade da imperador, que deseja que cada divindade seja honrada no Templo que lhe for consagrado. A esse respeito não falarei do desprezo que se fez de minhas ordens, porque nisso se feriu até mesmo o respeito devido à autoridade de César, que não somente estima que os judeus observem os costumes de seus antepassados como ainda lhes concedeu um direito de burguesia semelhante ao dos gregos. Por isso, ordenei ao comandante Vitélio Próculo que me traga aqueles que dizem que foi por uma agitação popular e sem o vosso consentimento que se cometeu esse crime, a fim de que eu escute as suas justificativas. E não podereis dar-me testemunho melhor de que em nada tivestes parte que declarando a Próculo quem são os culpados e impedindo que, contra o desígnio do rei Agripa e o meu, aconteça alguma outra perturbação, como os espíritos perversos desejariam. Porque para mim e para o rei Agripa nada é mais importante que evitar que se dê aos judeus um motivo para tomarem armas com o pretexto de se defender. E, para eliminarmos toda possibilidade de dúvida quanto à vontade do imperador, anexo a esta carta a cópia de seu edito, que se refere aos habitantes de Alexandria e que o rei Agripa nos mostrou quando estávamos em nosso tribunal, a fim de que, conforme o desejo do imperador de que os judeus sejam mantidos nos favores que Augusto lhes concedeu e que todos vivam segundo a religião de seu país, impeçais tudo o que possa instigar alguma perturbação ou revolta&quot;.
Esse sensato procedimento de Petrônio remediou a falta que se havia cometido, e por causa disso não mais se cometeram outras semelhantes.
821. O rei Agripa, depois disso, tirou o sumo sacerdócio de Simão Cantara e entregou-o a Jônatas, filho de Anano, julgando-o mais digno dele. Mas ele rogou que o rei o dispensasse do cargo, expressando-se nestes termos: &quot;Sou-vos muito grato por me desejardes conceder tanta honra, mas Deus não me julga digno dela. É-me suficiente já haver recebido uma vez a veste sagrada, e eu não poderia agora retomá-lo tão inocentemente como fiz outrora. SeVossa Majestade desejar conceder essa dignidade a uma pessoa que a merece muito mais que eu e cuja virtude seria muito mais agradável a Deus, eu não hesitaria em vos propor o meu irmão&quot;. Essa resposta tão modesta comoveu Agripa de tal modo que ele deu o sumo sacerdócio a Matias, irmão de Jônatas. Algum tempo depois, Marcos sucedeu a Petrônio no governo da Síria.

CAPÍTULO 7
A EXTREMA IMPRUDÊNCIA DE SILAS, GENERAL DAS TROPAS DE AGRIPA, LEVA ESSE PRÍNCIPE A PÔ-LO NUMA PRISÃO. FORTIFICA JERUSALÉM, MAS O
IMPERADOR CLÁUDIO O PROÍBE DE CONTINUAR. SUAS EXCELENTES
QUALIDADES. SEUS SOBERBOS EDIFÍCIOS. MOTIVO DE SUA AVERSÃO POR
MARCOS, GOVERNADOR DA SÍRIA. ELE ENTREGA O SUMO SACERDÓCIO A
ELIONEU. MORRE DE MANEIRA HORRÍVEL. DEIXA COMO SUCESSOR O SEU
FILHO AGRIPA. HORRÍVEL INGRATIDÃO DOS HABITANTES DE CESARÉIA E DE
SEBASTE PARA COM A SUA MEMÓRIA. O IMPERADOR CLÁUDIO ENVIA FADO PARA GOVERNAR AJUDÉIA, POR CAUSA DA MENORIDADE DE AGRIPA.

822.  Silas, general das tropas do rei Agripa, como dissemos, lhe fora tão fiel durante as adversidades, que jamais se recusou a tomar parte com ele nos perigos e nunca deixou de se expor às situações mais arriscadas para lhe dar provas disso. Porém o mérito adquirido junto do rei por tantos serviços prestados concebeu nele tal confiança que ele não admitia ser tratado como subalterno. Esquecendo o respeito que devia ao soberano, falava-lhe sempre em tom de reprimenda e com uma liberdade que não se usa ao falar com os reis, e discorria sobre a sua infelicidade passada, exagerando na rememoração dos favores que lhe prestara e dos sofrimentos que experimentara por causa dele.
Essa aborrecida e imprudente maneira de agir tornou-se insuportável ao príncipe, porque nada é mais enfadonho que a renovação das lembranças desagradáveis nem mais ridículo que a menção insistente dos favores e serviços que se prestou a alguém. Por fim, o descontentamento que Agripa sentiu foi tão grande que, cedendo à cólera mais que à razão, não somente privou Silas de seu cargo como também o encerrou numa prisão, na cidade de seu nascimento. Algum tempo depois, no entanto, acalmou-se, ao recordar os favores que dele recebera, e mandou chamá-lo para tomar parte num banquete que oferecia aos amigos.
Silas, todavia, por ser incapaz de dissimular e porque estava convencido de que o rei lhe fizera uma grave injustiça, assim falou aos convidados: &quot;Vós estais vendo a honra que o rei hoje me faz, mas ela não durará muito. Dela ele me irá privar, do mesmo modo como me destituiu — de maneira ultrajosa — do cargo que a minha fidelidade havia conquistado. Poderá ele persuadir-se de que eu deixarei de falar com liberdade? Como a minha consciência de nada me censura, publicarei sempre em alta voz as dificuldades de que o livrei e as amarguras que experimentei em prol de sua conservação e para a sua glória, bem como as cadeias e a escuridão de um cárcere que me foram dadas como recompensa. Tão grande injúria não é daquelas que se podem esquecer, e dela não me recordarei somente durante o resto de minha vida, mas também após a minha morte&quot;. Esse homem, tão imprudente quanto fiel, não se contentando em falar desse modo aos convidados, rogou que o dissessem ao rei. E este, percebendo então que aquela loucura era incurável, tornou a mandá-lo para a prisão.
823. Agripa dirigiu depois os seus cuidados a Jerusalém. Empregou o dinheiro público para aumentar e reedificar os muros da nova cidade, e a teria tornado tão forte que ela seria inexpugnável. Porém Marcos, governador da Síria, avisou o imperador, e este ordenou a Agripa que não continuasse o trabalho, e ele não ousou desobedecer.
824.  Esse rei dos judeus era tão liberal e benéfico e tão afeiçoado aos seus súditos que não lhes poupava despesa alguma. E, por suas louváveis ações, alcançou celebridade e crédito junto deles. Era muito diferente de Herodes, seu avô, que era cruel e preferia os gregos aos judeus, como se pode julgar pelas vultosas somas que ele investiu para construir e embelezar cidades, Templos, teatros, banhos e outros suntuosos edifícios fora de seu país, sem jamais se ter dignado empreender algo semelhante na Judéia. Agripa, no entanto, era manso e afável para com todos. Tratava bem os seus súditos e os estrangeiros e tinha uma satisfação particular em aliviar os aflitos. Fazia a sua moradia ordinariamente em Jerusalém, e não se passava um dia sem que ele oferecesse sacrifícios a Deus, como ordenam as nossas leis, pois ele era muito religioso e observava os costumes de nossos antepassados.
825.  Durante uma viagem que ele fez a Cesaréia, um doutor da lei, chamado Simão, teve a ousadia de acusá-lo publicamente, em Jerusalém, de ser um viciado, ao qual se devia recusar a entrada no Templo, pois tal só era permitida às pessoas castas. O governador da cidade avisou Agripa do ocorrido, e ele solicitou-lhe que fosse buscar aquele homem. Simão foi avisado, e, quando chegou a Cesaréia, o príncipe já se encontrava no teatro. Agripa convidou-o a sentar-se junto de si e falou-lhe com voz suave e sem se irritar: &quot;Dizei-me, eu vos peço, quais são os vícios de que me acusais?&quot; Aquele homem ficou tão confuso que, não sabendo o que responder, suplicou ao rei que o perdoasse, e este o perdoou no mesmo instante, dizendo que os reis devem preferir a clemência ao rigor e fazer com que a cólera seja vencida pela moderação. A sua bondade foi ainda além, pois ele despediu Simão com presentes.
826.  Muitas cidades sentiram os efeitos da generosidade desse soberano. Ele nada poupou para erigir em Berito um suntuoso teatro e um anfiteatro, banhos e galerias que não lhe eram inferiores em beleza. Diversos concertos de música e outros divertimentos tiveram lugar pela primeira vez nesse teatro. Com o propósito de divertir o povo e para que se visse no meio da paz uma imagem da guerra, mandaram vir ao anfiteatro mil e quatrocentos homens condenados à morte, que foram divididos em dois grupos. O combate foi tão obstinado e sangrento que, de todo esse grande número, nem um só ficou com vida.
 
827.  Depois disso, ele foi de Berito a Tiberíades, cidade da Galiléia. E os príncipes seus vizinhos — Antíoco, rei de Comagena; Sampsigeram, rei de Emesa: Cotis, rei da Pequena Armênia; Polemom, príncipe do Ponto; Herodes, rei da Cálcida, irmão de Agripa — vieram procurá-lo, porque muito o estimavam. Ele, por sua vez, tratou-os com a bondade e a magnificência correspondentes à dignidade de receber visitas tão honrosas. Quando estavam todos reunidos, Marco, governador da Síria, veio também visitá-lo. Agripa, querendo prestar-lhe a honra que era devida ao poder e à grandeza romana, foi encontrá-lo sete estádios antes, o que foi a primeira causa de desentendimento entre eles, pois aqueles reis que tinham vindo visitar Agripa estavam com ele no mesmo carro, e Marcos considerou aquela união prejudicial ao império, declarando que deviam todos regressar aos seus territórios. Isso deixou Agripa muito ofendido, motivo pelo qual daí em diante se tornaram inimigos.
828.  Nesse mesmo tempo, ele tirou o sumo sacerdócio de Matias e entregou-a a Elioneu, filho de Citeu. E, no terceiro ano de seu reinado, celebrou na cidade de Cesaréia, antes conhecida como a torre de Estratão, jogos solenes em honra ao imperador. Os principais do reino e toda a nobreza da província reuniram-se nessa festa. No segundo dia dos espetáculos, Agripa chegou bem cedo pela manhã ao teatro. Usava uma veste trabalhada com muita arte, cujo forro era de prata, e, quando o sol o iluminava com os seus raios, emitia tão vivos reflexos de luz que não se podia olhar para ele sem se sentir tomado por um respeito misto de temor. Então alguns mesquinhos bajuladores, com palavras melífluas, mas que destilam veneno mortal sobre o coração dos príncipes, começaram a dizer que até então haviam considerado o seu rei um simples homem, porém dali em diante o iriam reverenciar como a um deus, rogando-lhe que se lhes mostrasse favorável, pois parecia que ele não era como os demais, de condição mortal.
Agripa tolerou essa impiedade, que deveria ter sido castigada com muito rigor. E logo ele levantou os olhos e viu uma coruja por sobre a sua cabeça, pousada numa corda estendida no ar, e lembrou-se de que aquela ave era agora um presságio de sua desgraça, tal como outrora havia sido o prenuncio de sua prosperidade. Soltou então um profundo suspiro, ao mesmo tempo que começou a sentir as entranhas roídas por uma dor horrível. E, voltando-se para os seus amigos, disse-lhes: &quot;Aquele que pretendeis fazer acreditar que é imortal está prestes a morrer. A providência divina veio desmascarar a vossa mentira. Mas é preciso aceitar as determinações de Deus, apesar de eu ter sido muito feliz, a ponto de não haver príncipe de quem eu invejasse a felicidade&quot;.
Dizendo essas palavras, ele sentiu que as dores aumentavam. Levaram-no ao palácio, e a notícia de que ele estava prestes a exalar o último suspiro espalhou-se imediatamente. Logo todo o povo, com a cabeça coberta por um saco, segundo o costume de nossos pais, fez orações a Deus pela sua saúde, e todo o ar ressoava com gritos e lamentações. O príncipe, que estava no quarto mais alto do palácio, vendo-os de lá prostrados em terra, não pôde reter as lágrimas. As dores, porém, continuaram por cinco dias a fio e o levaram desta vida, aos cinqüenta e quatro anos de idade e sete de reinado. Foram quatro anos sob o imperador Caio, dos quais nos três primeiros ele governou apenas a tetrarquia que pertencera a Filipe, sendo-lhe acrescentada no quarto ano a de Herodes. Nos três anos em que reinou sob Cláudio, esse imperador deu-lhe também a judéia, Samaria e Cesaréia. E, embora as suas rendas fossem muito altas,* ele era tão liberal e magnânimo que se via obrigado a pedir emprestado grandes somas.

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* &quot;Mil e duzentas vezes dez mil&quot;, diz o texto grego, sem nada mais especificar.

829. Antes que a notícia de sua morte se tivesse divulgado, Cheicias, general das tropas, e Herodes, o príncipe da Cálcida, ambos inimigos de Silas, mandaram que Aristo o matasse na prisão, fingido ter recebido ordem do rei para isso.
830. O príncipe, que possuía grandes qualidades, deixou, ao morrer, um filho de dezessete anos, chamado Agripa, como ele, e três filhas, das quais a mais velha, de nome Berenice, que então contava dezesseis anos, havia desposado Herodes, seu tio. Mariana, que era a segunda, de dez anos, era noiva de Júlio Arqueiau, filho de Cheicias. E a terceira, de nome Drusila, que tinha apenas seis anos de idade, era noiva de Epifânio, filho de Arqueiau, rei de Comagena.
831.  Quando a notícia da morte do rei Agripa se tornou pública, os habitantes de Cesaréia e de Sebaste esqueceram todos os benefícios que dele haviam recebido. A sua horrível ingratidão levou-os a querer enxovalhar a sua memória com injúrias e ultrajes que eu não teria coragem de referir aqui. Então os vândalos (e entre eles alguns soldados), que eram em grande número no meio do povo, tiveram a insolência de arrancar do palácio as estátuas das princesas filhas do rei e levá-las a lugares infames, onde uma vergonhosa prostituição reúne as infelizes vítimas da impudicícia pública. E, depois que foram expostas à vista de todos, acrescentaram-lhes todas as ofensas e indignidades que imaginaram.
Esses pérfidos indivíduos chegaram a promover banquetes nas ruas, onde, com coroas de flores sobre a cabeça e cabelos perfumados, ofereceram sacrifícios a Charom e beberam à saúde uns dos outros, demonstrando grande alegria pela morte do soberano. Ações tão insolentes e ofensivas foram a prova que eles deram de sua ingratidão, depois dos muitos benefícios que deviam a Herodes, o Grande, seu avô, que não somente construíra aquelas cidades como também as havia embelezado com suntuosos Templos e com aqueles portos admiráveis que as tornaram tão célebres.
832. Nessa época, o jovem Agripa se encontrava em Roma, sendo educado junto ao imperador. Cláudio ficou muito sentido com a morte de Agripa e enfurecido contra os habitantes de Sebaste e Cesaréia. A fim de cumprir o seu juramento, pensou em mandar imediatamente o jovem príncipe para tomar posse do reino. Porém os amigos e libertos, que tinham grande autoridade perante ele, o fizeram mudar de idéia, alertando-o de que era perigoso conceder o governo de um reino tão extenso a um jovem que não tinha experiência suficiente para administrá-lo, quando a tarefa já era árdua até mesmo para um homem maduro.
Assim, ele decidiu enviar outro governador para a Judéia, o qual teria autoridade em todo o reino. Sabedor de que Marcos e o falecido rei Agripa se haviam desentendido, julgou que prestaria melhor essa honra à memória do príncipe entregando o cargo a um amigo, em vez de a um inimigo. Assim, enviou Cúspio Fado, recomendando-lhe, antes de tudo, que castigasse severamente os habitantes de Cesaréia e Sebaste pelos ultrajes que haviam feito à memória de Agripa e às princesas filhas dele. Ordenou-lhe também que enviasse ao Ponto as cinco coortes e o resto dos soldados que estavam naquelas duas cidades e pusesse em seu lugar um corpo retirado das legiões romanas da Síria. A última ordem, no entanto, não foi executada, pois aqueles enviaram delegados ao imperador, os quais lhe acalmaram o espírito e obtiveram dele permissão para ficar na Judéia. E isso foi o princípio de muitos males que depois vieram a afligi-la e a semente da guerra que sucedeu sob o governo de Floro. Vespasiano estava tão convencido de ser esse o motivo que, após subjugar o país, removeu-os da província, como relataremos em seguida
Livro Vigésimo

CAPÍTULO 1
O IMPERADOR CLÁUDIO DESTITUI MARCOS DO CARGO DE GOVERNADOR DA SÍRIA. LONGINO O SUBSTITUI. FADO, GOVERNADOR DA JUDÉIA, CASTIGA OS
SEDICIOSOS E LADRÕES QUE PERTURBAM A PROVÍNCIA E ORDENA AOS
JUDEUS QUE REPONHAM NA FORTALEZA ANTÔNIA AS VESTES SAGRADAS DO
SUMO SACERDOTE. O IMPERADOR REVOGA ESSA ORDEM A PEDIDO DO
JOVEM AGRIPA.

833.  Depois da morte do rei Agripa, o Grande, de que acabamos de falar no livro precedente, o imperador Cláudio, para honrar a sua memória e manifestar o quanto o havia amado, tirou de Marcos o governo da Síria, como este mesmo lhe havia muitas vezes solicitado, e o entregou a Longino.
834.  Nesse mesmo tempo, Fado, que havia sido nomeado para a judéia, foi exercer o cargo. Existia então uma séria polêmica entre os judeus que habitavam além do Jordão e os de Filadélfia, com relação aos limites da aldeia de Mia, cujos habitantes eram de temperamento guerreiro. Os judeus haviam pegado em armas sem o consentimento de seus magistrados e matado vários dentre os de Filadéfia. Ele ficou tão irritado ao vê-los querendo fazer justiça por si mesmos, sem esperar o seu parecer, que depois de mandar prender Aníbal, Areram e Eieazar, os principais autores da sedição, condenou à morte o primeiro e exilou os outros dois.
835.  Algum tempo depois, mandou também prender Ptolomeu, chefe dos ladrões que tantos males haviam causado aos idumeus e aos árabes. Condenou-o à morte e expurgou assim toda a judéia desses inimigos da segurança pública. Reuniu depois os sacerdotes e os maiorais de Jerusalém para ordenar-lhes, da parte do imperador, que recolocassem na fortaleza Antônia as vestes sagradas, de que somente os sumos sacerdotes podem se servir, a fim de que lá ficassem e fossem guardados pelos romanos, como outrora. Com receio, porém, de que essa ordem os levasse a uma revolta, levou consigo algumas tropas a Jerusalém.
Os sacerdotes e os que os acompanhavam não ousaram contestar a ordem, mas rogaram a Longino e a Fado que lhes fosse permitido enviar embaixadores ao imperador com uma petição para que a guarda da veste sacerdotal permanecesse com eles e que nada se mudasse enquanto aguardavam a resposta. Eles foram atendidos, sob a condição de que deixassem os filhos como reféns, no que eles concordaram sem dificuldade. Depois disso, partiram os embaixadores, e o jovem Agripa, filho do rei Agripa, o Grande, que ainda estava em Roma, ao saber o motivo que os levava até ali, rogou ao imperador que consentisse naquele pedido e enviasse mensagem a Fado. Cláudio mandou vir os embaixadores e disse-lhes que concedia o que eles desejavam, mas que agradecessem a Agripa, pois era em consideração a ele e ao seu pedido que lhes outorgava aquela graça.
Entregou-lhes em seguida uma carta, que reproduzo aqui: &quot;Cláudio César Germânico, príncipe da República pela quinta vez, cônsul pela quarta vez, imperador pela décima e pai da Pátria. Aos magistrados, ao senado, ao povo de Jerusalém e a toda a nação dos judeus, saudação. Tendo os vossos embaixadores — que me foram apresentados por Agripa, o qual foi educado e instruído em minha companhia, e a quem muito estimo — me agradecido pelo cuidado que dispenso à vossa nação e me solicitado com grande insistência a manutenção da guarda dos ornamentos de vosso sumo sacerdote e da coroa, tal como Vitélio, que me é muito caro, fez antes de mim, consenti em seu pedido. Fiz isso tanto por piedade quanto porque acho justo permitir a cada qual viver conforme a religião de seu país e também pelo afeto particular que o rei Herodes e o jovem Agripa têm por mim e pelas vossas necessidades, sendo que tenho com eles grande amizade. Estou escrevendo sobre esse assunto a Cúspio Fado, por Cornélio, filho de Cero, Trifo, filho de Têudio, Doroteu, filho de Natanael, e João, filho de Jotre. Esta carta é datada do quarto ano das calendas de julho, sendo os cônsules Rufo e Pompeu Silvano&quot;.
836. Herodes, príncipe da Cálcida e irmão do falecido rei Agripa, o Grande, pediu então ao imperador Cláudio, e obteve dele, poder sobre o Templo e sobre o tesouro sagrado e o direito de escolher o sumo sacerdote. Essa autoridade permaneceu com ele e com os seus descendentes até o fim da guerra dos judeus. Esse príncipe tirou o sumo sacerdócio de Cantara, e entregou-o a José, filho de Caneu.

CAPÍTULO 2
IZATE, REI DOS ADIABENIANOS, E A RAINHA HELENA, SUA MÃE, ABRAÇAM
A RELIGIÃO DOS JUDEUS. SUA EXCELSA PIEDADE E GRANDES FEITOS DESSE
PRÍNCIPE QUE DEUS PROTEGE VISIVELMENTE. FADO, GOVERNADOR DA
JUDÉIA, MANDA CASTIGAR UM HOMEM QUE ENGANAVA
O POVO E OS QUE O TINHAM SEGUIDO.

837. Por esse tempo, a rainha Helena e Izate, seu filho, rei dos adiabenianos, abraçaram a religião dos judeus, pelo motivo que vou expor. Monobazo, cognominado Bazeu, rei daquela nação, ficou possuído de uma paixão violenta por aquela princesa, que era sua irmã, e a desposou. Ela ficou grávida, e, estando ele deitado junto dela, adormecido, pôs a mão sobre o ventre da esposa e então ouviu uma voz que lhe ordenava que a retirasse, para não ferir a criança concebida, a qual, por uma determinação particular de Deus, deveria ser muito feliz. Ele despertou muito perturbado e contou a esposa o que havia escutado. Quando o menino veio ao mundo, deu-lhe o nome de Izate. Tinha ele já outro filho daquela princesa, de nome Monobazo, como ele, e ainda outros, de outras mulheres. Mas a sua ternura por Izate era tão grande que todos notaram que, mesmo que fosse aquele o único filho, não o teria amado mais.
O grande amor do rei por Izate causou inveja aos outros irmãos. Eles não se conformavam que o pai o preferisse. E Monobazo não podia se mostrar descontente pelo fato de eles estarem manifestando um sentimento que não provinha de malícia, mas somente do desejo que cada qual possuía de ocupar o primeiro lugar no seu coração. Para livrar Izate do perigo que a ira de seus irmãos dava motivo para temer, enviou-o com ricos presentes a Abemeric, rei de Spazim, confiando-lhe a sua proteção. Esse príncipe recebeu-o muito bem e teve por ele grande afeto, tanto que lhe deu em casamento a princesa Samacho, sua filha, bem como uma província de grande rendimento.
Estava Monobazo já muito velho e, percebendo que lhe restava pouco tempo de vida, desejou, antes de morrer, ver ainda uma vez aquele filho que lhe era tão caro. Mandou buscá-lo e, após demonstrar-lhe toda a ternura que um pai pode sentir, presenteou-o com uma província de nome Ceron, muito fértil e rica de plantas odoríferas e onde se vêem ainda hoje os restos da arca que salvou Noé do dilúvio. Izate lá ficou até a morte do rei seu pai, e então a rainha Helena, depois de reunir todos os maiorais do reino e todos os chefes dos soldados, disse-lhes: &quot;Não ignorais, sem dúvida, que o falecido rei meu marido queria Izate como seu sucessor, julgando-o o mais digno dessa honra. Mas, a esse respeito, desejo saber a vossa opinião, porque nenhum príncipe será feliz se não subir ao trono por um consentimento unânime, que lhe permita reinar no coração de todos os súditos&quot;.
A sábia princesa falara assim para conhecer os sentimentos de seus convidados. E todos eles, depois de a ouvir, prostraram-se diante dela, segundo o costume da nação, e responderam que não podiam reprovar uma resolução tomada pelo falecido rei. Se ele havia preferido Izate aos demais irmãos, obedecer-Ihe-iam com alegria e, se ela quisesse, até mesmo matariam todos os outros irmãos e parentes, a fim de que, não restando mais ninguém para odiá-lo e invejar-lhe a coroa, ele reinasse em completa segurança. A rainha agradeceu a dedicação que eles demonstravam a ela e a Izate, mas disse que não julgava conveniente eliminar os outros irmãos antes de ele chegar e se pronunciar sobre o assunto.
Todos aprovaram, mas disseram que era prudente conservá-los prisioneiros até que ele retornasse, para garantir que nada tentassem contra ele na sua ausência, e que por enquanto se desse o governo a alguém que fosse da inteira confiança da princesa. Ela então colocou a coroa sobre a cabeça de Monobazo, irmão mais velho de Izate, e entregou-lhe o anel sobre o qual estava o selo do falecido rei e o veste real, a que eles chamam de sampsere, concedendo-lhe o poder de agir na qualidade de vice-rei até a chegada do irmão. E, logo que este chegou, Monobazo entregou-lhe imediatamente o poder.
Antes de sua ascensão ao trono, Izate morava no castelo de Spazim, e um negociante judeu, de nome Ananias, iniciara algumas damas da corte no conhecimento do Deus verdadeiro e as persuadira a prestar-lhe o mesmo culto que os judeus. Por meio delas, conseguiu aproximar-se de Izate e inculcou-lhe os mesmos sentimentos. Assim, quando o rei seu pai mandou chamá-lo para vê-lo antes de morrer, Izate obrigou Ananias a acompanhá-lo na viagem. Aconteceu que naquele mesmo tempo um outro judeu instruíra também a rainha Helena na nossa religião. Izate, já embebido pelo espírito de piedade e feliz por ter sido escolhido para rei por consentimento unânime, não se agradou em ver os irmãos e parentes encarcerados. Julgou que seria crueldade matá-los ou conservá-los na prisão, mas temia que, se os pusesse em liberdade, eles procurassem vingar a injúria recebida. Para equilibrar os dois extremos, enviou uma parte deles, com os filhos, para Roma, entregando-os como reféns ao imperador Cláudio, e a outra parte, sob a mesma condição, enviou a Artabano, rei dos partos.
Quando esse virtuoso príncipe soube que a rainha sua mãe estava também, como ele, afeiçoada à religião dos judeus, achou por bem não protelar mais o seu desejo de professá-la. E, como sabia que ninguém pode ser verdadeiramente judeu sem se circuncidar, dispôs-se a fazê-lo. Mas a princesa, ao saber disso, procurou demovê-lo de seu intento, fazendo com que atentasse para o perigo a que se iria expor, pelo descontentamento que suscitaria entre os súditos, os quais nunca iriam admitir que ele abraçasse uma religião estrangeira e nem aceitariam um judeu como rei.
Esses argumentos contiveram o seu ímpeto, e, quando ele relatou a Ananias o que ela dissera, declarou-lhe também que o despediria se não o fizesse. Ananias então quis se afastar, pois temia ser castigado, já que era o orientador do rei naquela questão, acrescentando que não era necessário que ele se circuncidasse para servir a Deus e prestar-lhe o culto que a religião dos judeus obrigava, porque a adoração a Deus era de natureza superior à da circuncisão. E, se era para evitar que os seus súditos se revoltassem, ele sem dúvida seria perdoado por não cumprir aquele ritual. Assim, Ananias confirmou o que a rainha dissera ao rei, e este ficou convencido, mas não de todo.
Algum tempo depois, veio da Galiléia outro judeu, de nome Eleazar, que era muito instruído nas coisas da nossa religião. Quando foi saudar o rei, encontrou-o a ler os livros de Moisés e disse-lhe: &quot;Ó rei! Acaso ignorais a injúria que cometeis contra a Lei e contra o próprio Deus? Julgais que é suficiente conhecer os seus mandamentos, sem pô-los em prática? Quereis ficar para sempre incircunciso? Se não sabeis ainda que a Lei ordena a circuncisão, lede-a, e vereis que grande pecado é negligenciá-la&quot;. O rei ficou tão impressionado com essas palavras que, sem mais delongas, retirou-se a um quarto, mandou chamar um cirurgião e assim foi circuncidado. Logo depois, mandou chamar a rainha sua mãe e Ananias e contou-lhes o que fizera.
O terror tomou conta deles, porque temiam que os súditos, não querendo ser governados por um príncipe de uma religião contrária à deles, se revoltassem e lhe tirassem o reino. Temiam também por eles mesmos, pois haviam inspirado nele aqueles sentimentos. Mas Deus não somente livrou esse religioso príncipe de todos os perigos de que parecia estar ameaçado como livrou também os seus filhos no momento em que as coisas pareciam mais desesperadas. Deus mostrou que todos os que põem nEle a sua confiança e são piedosos podem esperar dEle todas as coisas, como a continuação desta história irá mostrar.
A rainha Helena, vendo que por uma providência particular de Deus o seu filho, o rei Izate, governava em profunda paz e que a sua felicidade era admirada não somente pelos estrangeiros, mas também pelos seus súditos, desejou ir adorar a suprema Majestade e oferecer-lhe sacrifícios no mais célebre de todos os Templos, construído em sua honra, em Jerusalém. O filho não somente lhe deu alegremente a permissão como também acompanhou-a durante uma parte do caminho. E ela chegou a Jerusalém com um soberbo séquito e grande quantidade de dinheiro.
A sua visita foi muito vantajosa para os habitantes da cidade, porque naquela época a carestia era tão grande que muitos morriam de fome. A rainha, para remediar esse mal, mandou comprar grande quantidade de trigo em Alexandria e figos secos na ilha de Chipre. Distribuiu-os aos pobres e granjeou assim entre os judeus a fama de generosa, como de fato merecia, depois de tão grande caridade. O rei seu filho foi também generoso, pois, ao saber que a fome continuava, enviou grandes auxílios aos maiorais de Jerusalém, para que fossem entregues em favor dos pobres. Mas deixarei para mais adiante o relato dos benefícios de que nossa cidade é devedora a esse príncipe e à princesa.
Artabano, rei dos partos, sabendo que os governadores das províncias de seu reino estavam conspirando contra ele e julgando que não estava mais seguro entre eles, resolveu ir procurar o rei Izate para se aconselhar com ele sobre o que devia fazer e até mesmo tentar, por meio dele, voltar a se estabelecer em seus domínios. Partiu então com os parentes e os principais servidores, cerca de mil pessoas. Encontrou Izate pelo caminho e não teve dificuldade em reconhecê-lo pelo seu séquito, mas Izate não o reconheceu.
Artabano prostrou-se diante dele, segundo o costume de seu país, e falou-lhe nestes termos: &quot;Não me desprezeis, virtuoso príncipe, por me verdes neste estado de súplica, obrigado a abandonar o meu reino. Um grande revés de sorte reduziu-me a este estado, e vim implorar o vosso auxílio. Pensei em quão pouco devemos contar com as grandezas da terra e refleti sobre vós mesmo, considerando a quantos acidentes estamos expostos. Preciso de vosso auxílio, e esse socorro será benéfico a vós também, pois a vossa recusa em ajudar-me na vingança dos crimes de meus súditos iria fortalecer a ousadia e a revolta de outros povos contra os seus reis&quot;. Artabano falava com o rosto triste, e as lágrimas acompanhavam suas palavras.
Izate, que conhecia a sua condição, desceu do cavalo e respondeu-lhe: &quot;Tende coragem, grande príncipe! Não vos deixeis abater pela má sorte, como se fosse sem remédio. Tenho esperança de que bem depressa a vereis terminada. Encontrareis em mim um amigo e aliado, muito mais afeiçoado e fiel do que imaginastes, pois ou vos recolocarei em vosso reino ou vos cederei o meu&quot;. Depois que assim falou, fez Artabano subir ao seu cavalo e dispôs-se a segui-lo a pé, para homenagear um rei que ele sabia ser possuidor de maior honra. Artabano, porém, não consentiu. Jurou por toda a sua prosperidade que jamais o permitiria. Por fim, conseguiu convencer Izate a montar novamente e foi caminhando diante dele. Acompanhou-o até o palácio, onde não houve honra que não lhe fosse prestada.
O rei Izate dava-lhe sempre o primeiro lugar nas assembléias e nos banquetes, porque não o considerava no estado em que se encontrava então, mas em sua antiga dignidade, e dizia-lhe sabiamente que as mudanças de sorte são comuns a todos os homens. Escreveu em seguida aos maiorais dos partos para exortá-los a voltar à obediência ao seu rei, ao mesmo tempo em que empenhava a sua palavra, com promessa de confirmá-la por juramento, se eles o desejassem, na garantia de que aquele príncipe esqueceria todo o passado. Eles responderam que gostariam de atendê-lo, mas que isso já não estava em seu poder, porque haviam entregado a coroa a Cinamo e não a poderiam tomar de volta sem suscitar uma guerra civil.
Cinamo veio a saber o que se passava e ficou comovido ao ser informado das intenções de Artabano, porque havia sido educado com ele e conhecia a sua generosidade. Desse modo, escreveu-lhe dizendo que ele podia, sob a sua palavra, voltar com toda a segurança e que até mesmo estavam pedindo que o fizesse. Quanto a ele, Cinamo, de todo o coração lhe colocaria na mão o cetro com que havia sido honrado. Artabano não teve dificuldade em confiar nele. Partiu, e Cinamo veio recebê-lo, o qual, prostrando-se diante dele, saudou-o como rei e tirou a coroa da cabeça para entregá-la a Artabano, que assim reconquistou o reino, com o auxílio de Izate. As honras que Artabano prestou ao seu ajudador testemunharam a sua gratidão, pois lhe permitiu usar a tiara reta e deitar-se num leito de ouro, o que só pode ser feito pelos reis dos partos, e deu-lhe uma província, chamada Niside, que outrora pertencera ao rei da Armênia, na qual os macedônios haviam construído uma cidade, chamada Antioquia, que mais tarde veio a chamar-se Migdônia.
Artabano morreu pouco depois. Vardan, seu filho e sucessor, tentou induzir o rei Izate a se unir a ele para fazer guerra aos romanos, porém não conseguiu persuadi-lo, pois este conhecia muito bem o poder deles para iludir-se com o resultado de tal empresa. E, como Izate havia mandado cinco de seus filhos a Jerusalém para que aprendessem a nossa língua e se instruíssem nos nossos costumes, ao mesmo tempo em que a rainha Helena, sua mãe, fora adorar o verdadeiro Deus, no Templo, como dissemos, ele estava mais contido quanto a determinadas alianças. O sábio príncipe fez o que pôde para dissuadir Vardan desse empreendimento, advertindo-o do fabuloso exército dos romanos e de suas temíveis ações na guerra. Em vez de receber bem essas admoestações, todavia, ele se sentiu ofendido e declarou guerra a Izate. No entanto Deus, que protegia Izate, assegurou-lhe o seu auxílio: os partos, quando se convenceram de que ele estava resolvido a atacar os romanos, mataram-no e puseram Gotarso, seu irmão, no lugar dele. Algum tempo depois, esse rei também foi morto à traição, e Vologeso, seu irmão, substituiu-o. Esse príncipe, que tinha dois irmãos do mesmo pai, deu a Pacoro, o mais velho, o reino da Média e a Tiridate, o mais novo, o reino da Armênia.
Nesse mesmo tempo, Monobazo, irmão do rei Izate, e seus parentes, vendo que a piedade para com Deus tornava-o o mais feliz dos príncipes, cogitaram em também abandonar a sua religião e abraçar a dos judeus. Os grandes do país, todavia, vieram a sabê-lo e ficaram muito irados, mas resolveram dissimular, até que se encontrasse uma oportunidade favorável para matá-los. Escreveram a Abia, rei dos árabes, e prometeram-lhe uma grande soma de dinheiro, caso viesse com um grande exército fazer guerra ao seu rei, com a garantia de passarem para o seu lado logo que se iniciasse a batalha, porque estavam resolvidos a castigá-lo pelo desprezo que demonstrara pela religião de seu país. Eles confirmaram a promessa com um juramento e rogaram-lhe insistentemente que se apressasse.
O rei árabe veio com um grande exército, e Izate marchou contra ele, mas no momento do combate se viu abandonado pelos seus homens, como se um terror repentino os tivesse levado a fugir. Izate não teve dificuldade em compreender que fora traído pelos grandes. Não se admirou, todavia. Retirou-se para o seu acampamento com os fugitivos, onde, depois de identificar os traidores, os responsáveis por tão vergonhoso acordo com o inimigo, mandou castigá-los como mereciam. No dia seguinte, travou combate com o inimigo, matou um grande número deles e pôs o resto em fuga. Perseguiu Abia até o castelo de Arsame, o qual tomou de assalto e o saqueou, levando de lá muitos despojos e voltando glorioso a Adiabene. A única coisa que faltou ao seu triunfo foi trazer Abia vivo, porque este se suicidara, para não ser levado como escravo.
Os grandes, que haviam conspirado contra Izate, viram assim frustradas as suas esperanças. Deus entregou-os todos nas mãos dele, mas eles insistiam em sua perfídia. Escreveram a Vologeso, rei dos partos, pedindo-lhe que o mandasse matar e lhes desse por rei alguém de sua nação, porque não podiam consentir que ele reinasse após abandonar as leis de seu país para seguir as dos estrangeiros.
Vologeso, ante tal insistência, deliberou fazer guerra a Izate, embora este não lhe tivesse dado motivo para isso. Começou por abolir as graças que o rei Artabano, seu pai, lhe havia concedido e ameaçou em seguida entrar com armas em seu país, caso ele deixasse de fazer o que lhe estava sendo ordenado. Izate ficou perturbado com essa surpreendente notícia, mas julgou humilhante renunciar às honras que com justiça merecera. E, mesmo que o fizesse, Vologeso não o deixaria em paz. Assim, resolveu depositar toda a sua confiança no auxílio Todo-poderoso de Deus. Enviou a esposa e os filhos para um castelo muito bem defendido, recolheu toda a forragem que restava ainda nos campos e pôs se à espera dos inimigos.
O rei das partos, com muitas tropas de cavalaria e infantaria, chegou mais depressa do que se poderia imaginar e acampou às margens do rio que separa Diabene da Média. Izate acampou próximo dele com seis mil cavaleiros. Vologeso mandou-lhe dizer por um arauto que viera atacá-lo com todas as tropas de seu reino, o qual se estendia desde o Eufrates até as montanhas dos bactrianos, para castigá-lo pela desobediência ao seu senhor e que nem mesmo o Deus que ele adorava seria capaz de o impedir. Izate, horrorizado diante de tão grande blasfêmia, respondeu que não duvidava de que possuía tropas muito inferiores às dos partos; todavia, estava ciente de que o poder de Deus era infinitamente maior que o de todos os homens juntos.
Após despedir o arauto, ele cobriu a cabeça com cinza e jejuou, ordenando a mulher e aos filhos que jejuassem também. Prostrado em terra diante da majestade de Deus e banhado em lágrimas, rogou-lhe deste modo: &quot;Não foi em vão, Senhor, que me lancei nos braços de vossa misericórdia. Eu vos reconheço como único Senhor do universo. Vinde em meu auxílio, meu Deus, não somente para me defender de meus inimigos como também para castigá-los pela sua ousadia e pelas horríveis blasfêmias que ousaram proferir contra o vosso supremo poder&quot;. Tão fervorosa oração acompanhada de lágrimas não ficou sem efeito. Deus ouviu-o tão prontamente que Vologeso, tendo sabido na noite seguinte que os dácios e os saceenses, encorajados pela sua ausência, haviam entrado em seu reino e lá faziam grande devastação, partiu para combatê-los e assim voltou sem nada ter podido executar de seu desígnio contra Izate, a quem Deus protegera de modo tão evidente.
Pouco tempo depois, morreu esse religioso príncipe, na idade de cinqüenta e cinco anos, dos quais reinou vinte e quatro. E, embora tivesse quatro filhos, deixou Monobazo, seu irmão mais velho, como sucessor, em gratidão pelo favor de lhe haver conservado o reino depois da morte de seu pai. Essa grande prova de gratidão muito consolou a rainha Helena em sua grande dor pela perda de tão caro e virtuoso filho. Ela sobreviveu a ele pouco tempo, morrendo quando vinha para encontrar-se com seu filho Monobazo, que enviou os ossos dela e os de Izate a Jerusalém, para serem colocados em três pirâmides que a princesa mandara construir a três estádios da cidade. Dos feitos de Monobazo, falaremos mais adiante.
838.  Quando Fado era governador da judéia, um mago de nome Teudas convenceu uma grande multidão de povo a tomar os próprios bens e a segui-lo até o Jordão, dizendo que era profeta e que deteria, com uma única palavra, o curso do rio e os faria passar a pé enxuto. Ele assim enganou muita gente. Mas Fado castigou esse impostor e, por sua loucura, a todos os que se haviam deixado enganar. Enviou contra eles alguns soldados de cavalaria, que mataram uma parte deles de surpresa e fizeram vários prisioneiros, estando Teudas entre eles, a quem cortaram a cabeça, que foi levada a Jerusalém. Foi isso o que aconteceu de mais notável durante o governo de Cúspio Fado.

CAPÍTULO 3
TIBÉRIO ALEXANDRE SUCEDE A FADO NO CARGO DE GOVERNADOR DA JUDÉIA, E CUMANO, A ALEXANDRE. MORTE DE HERODES, REI DA CÁLCIDA. SEUS FILHOS. O IMPERADOR CLÁUDIO ENTREGA SEUS DOMÍNIOS A AGRIPA.

839.  Fado teve como sucessor no cargo de governador da Judéia Tibério Alexandre, filho de Alexandre, alabarche, de Alexandria, que era o mais rico de toda aquela grande cidade e que não fora ímpio como o filho, que abandonou a nossa religião. Foi no seu tempo que sobreveio a Jerusalém aquela grande carestia, na qual a rainha Helena mostrou a sua caridade. Alexandre mandou crucificar Tiago e Simão, filhos de Judas, da Galiléia. Judas foi quem, na época em que Cirênio fazia o recenseamento dos judeus, incitou o povo a se revoltar contra os romanos.
840.  Herodes, rei da Cálcida, tirou o sumo sacerdócio de José, filho de Camidas, e deu-a a Ananias, filho de Nebedeu. Cumano sucedeu a Tibério Alexandre no cargo, e ao mesmo tempo Herodes, rei da Cálcida, irmão do rei Agripa, o Grande, de que acabamos de falar, morreu, no oitavo ano do reinado do imperador Cláudio. Ele deixou de sua primeira mulher um filho chamado Aristóbulo e de Berenice, sua outra mulher, filha do rei Agripa, seu irmão, dois outros filhos, cujos nomes eram Berenício e Hircano. O imperador Cláudio entregou o princi-pado de Herodes a Agripa.
Durante a administração de Cumano, houve uma grande revolta em Jerusalém, que custou a vida a vários judeus, mas primeiro vou descrever as circunstâncias que levaram a ela.

CAPÍTULO 4
HORRÍVEL INSOLÊNCIA DE UM SOLDADO DAS TROPAS ROMANAS CAUSA EM
JERUSALÉM A MORTE DE VINTE MIL JUDEUS.
INSOLÊNCIA DE OUTRO SOLDADO.

841. Aproximava-se a festa da Páscoa, na qual os judeus só comem pão sem fermento, e uma grande multidão de povo acorria de todos os lados. Cumano, para impedir que houvesse alguma desordem, colocou uma companhia de soldados para montar guarda à porta do Templo, como sempre fizeram os seus predecessores em semelhantes ocasiões. No quarto dia da festa, porém, um soldado teve a insolência de pôr a descoberto, diante de todos, o que o pudor e a educação obrigam a esconder. Tão horrível desfaçatez irritou de tal modo o povo, que todos começaram a clamar que não era somente aos judeus que ele injuriava, mas ao próprio Deus, e os mais exaltados começaram a ofender Cumano, dizendo que fora ele quem mandara o soldado cometer tamanha impiedade.
Cumano ficou muito ofendido com essas palavras: todavia, não deixou de exortar o povo a conter a sua exaltação. No entanto, percebendo que eles, em vez de obedecer, ainda lhe diziam mais injúrias, ordenou a todas as tropas que se dirigissem com armas à fortaleza Antônia, que, como já dissemos, ficava sobranceira ao Templo. O povo, então, espantado por ver aproximar-se um tão grande número de soldados, pôs-se em fuga. Como as ruas eram muito estreitas e eles, aterrorizados, imaginavam que os soldados os estavam perseguindo, apertaram-se de tal modo que mais de vinte mil morreram sufocados. Assim, a alegria dessa grande festa converteu-se em tristeza. Cessaram as orações. Abandonaram-se os sacrifícios. Ouviam-se apenas gemidos, lamentos. E a causa de toda essa desolação deveu-se ao impudor sacrílego de um único homem.
842.  Essa tragédia ainda era lamentada quando sobreveio outra confusão. Alguns dos que haviam fugido, na ocasião do tumulto, encontraram a cem estádios de Jerusalém um homem de nome Estêvão, que era doméstico do imperador, assaltaram-no e apoderaram-se de tudo o que ele trazia consigo. Cumano, logo que soube disso, enviou soldados com ordem de devastar as aldeias vizinhas e trazer-lhe aprisionados os principais habitantes. Um soldado encontrou numa dessas aldeias os livros de Moisés e rasgou-os na presença de todos, proferindo ainda mil ofensas contra as nossas leis e contra a nossa nação. Os judeus não puderam tolerar tal ofensa e foram em grande número encontrar-se com Cumano, em Cesaréia, para rogar-lhe que castigasse tão grande injúria, feita antes ao próprio Deus que a eles. O governador, vendo-os tão exaltados e temendo uma revolta, a conselho de amigos mandou matar o soldado que fizera semelhante ultraje às nossas leis e assim acalmou uma grande perturbação.

CAPÍTULO 5
GRANDE DISSENSÃO ENTRE OS JUDEUS DA GALILÉIA E OS SAMARITANOS,
QUE SUBORNAM CUMANO, GOVERNADOR DAJUDÉIA. QUADRATO,
GOVERNADOR DA SÍRIA, MANDA-O A ROMA COM ANANIAS, SUMO
SACERDOTE, E VÁRIOS OUTROS PARA SE JUSTIFICAR PERANTE O IMPERADOR. O
IMPERADOR CONDENA OS SAMARITANOS, ENVIA CUMANO AO EXÍLIO E NOMEIA FÉLIX GOVERNADOR DAJUDÉIA. ENTREGA A AGRIPA A TETRARQUIA QUE FORA DE FILIPE, BEM COMO BATANEA, TRACONITES E ABILA, E TIRA-LHE
A CÁLCIDA. CASAMENTO DAS IRMÃS DE AGRIPA. MORTE DO IMPERADOR
CLÁUDIO. NERO SUCEDE-O NO IMPÉRIO. ELE ENTREGA A PEQUENA ARMÊNIA
A ARISTÓBULO, FILHO DE HERODES, REI DA CÁLCIDA, E A AGRIPA CONCEDE
UMA PARTE DA GALILÉIA, TIBERÍADES, TARIQUÉIA E JULÍADA.
843.  Aconteceu nesse mesmo tempo uma grande divergência entre os samaritanos e os judeus, pelo fato que vou narrar. Os judeus que, nos dias de festa solene, vinham da Galiléia a Jerusalém costumavam passar pelas terras de Samaria.
E alguns deles tiveram uma desavença com os habitantes de Nays, aldeia situada no Grande Campo e que estava sujeita aos samaritanos, e vários judeus foram mortos. Os principais da Galiléia foram queixar-se a Cumano, pedindo-lhe justiça. Porém, vendo que ele não lhes dava atenção, porque os samaritanos o haviam subornado com dinheiro, exortaram os outros judeus a pegar em armas para reconquistar a liberdade, dizendo que a servidão já era bastante rude por si mesma, para que ainda se lhe acrescentassem injustiças e ultrajes.
Os magistrados esforçaram-se para acalmá-los, prometendo-lhes obrigar Cumano a castigar os autores dos assassinatos, mas eles não os quiseram escutar. Tomaram então as armas e chamaram em seu auxílio Eleazar, filho de Dineu, que havia muitos anos se entregara ao roubo e escondia-se nas montanhas, devastando e incendiando as aldeias dependentes de Samaria. Cumano, apenas o soube, marchou contra eles com a cavalaria de Sebaste, quatro coortes e numerosos samaritanos, matando vários deles e fazendo muitos prisioneiros.
Os cidadãos mais influentes de Jerusalém, vendo as coisas nesse estado e imaginando que esse grande mal poderia ter conseqüências ainda mais vergonhosas, revestiram-se de um saco, puseram cinza na cabeça e tudo fizeram para acalmar o espírito de muitos dos seus, a quem, com pesar, viam abandonar-se ao desespero. Fizeram-lhes ver que, se não deixassem as armas e não se retirassem para as suas casas, lá permanecendo tranqüilos e sossegados, seriam a causa da ruína completa de sua nação e veriam o Templo incendiado e as suas mulheres e filhos transformados em escravos. Essas razões os persuadiram. Os que dissemos que viviam do roubo, porém, retiraram-se aos lugares fortificados, onde estavam antes. E desde então a Judéia ficou cheia de ladrões.
Os mais ilustres dos samaritanos foram em seguida à cidade de Tiro procurar Numídio Quadrato, governador da Síria, para lhe pedir que fizesse justiça contra os judeus que devastavam as suas terras e incendiavam as suas aldeias. Disseram-lhe que, por maior que fosse o prejuízo que estivessem tomando, não lhes era isso tão penoso quanto o descaso que o povo fazia do poder dos romanos. E tocava somente a ele julgar as desordens que se sucediam nas províncias a ele sujeitas. Eles não podiam tolerar que a nação judaica agisse como se o império não tivesse governadores que pudessem manter a autoridade. Os judeus disseram, em resposta, que os samaritanos é que haviam sido a causa daquela sedição e do morticínio que se sucedera em seguida e que Cumano era mais culpado que qualquer outro, porque, em vez de castiqá-los, se deixara subornar pelos presentes que deles recebera.
Quadrato, depois de escutá-los, deixou para decidir a questão quando estivesse na Judéia e conhecesse exatamente toda a verdade. Algum tempo depois, foi ele à Samaria, onde se pleiteou a causa em sua presença. Ele ficou convencido de que os samaritanos haviam sido os autores da perturbação. Soube também que alguns judeus haviam tentado suscitar outras sedições. Após mandar crucificar aqueles que Cumano conservava na prisão, foi para a aldeia de Lida, que é tão grande quanto uma cidade, onde, estando em seu tribunal, ouviu pela segunda vez os samaritanos.
Tendo sabido de um deles que Dorto, homem que ocupava uma alta posição entre os judeus, e quatro outros haviam incitado os de sua casa à revolta, mandou matar todos os cinco e enviou Ananias, sumo sacerdote, e o capitão Anano como prisioneiros a Roma, para se justificarem diante do imperador. Mandou também para lá os principais samaritanos e judeus, o próprio Cumano e um oficial de campo, de nome Celer. Porém, temendo outra amotinação entre os judeus, foi para Jerusalém. Lá encontrou tudo em paz, estando todos ocupados em oferecer sacrifícios a Deus, nos dias de festa, segundo o costume de nossos antepassados. Assim, ele julgou que nada havia a temer, e voltou a Antioquia.
Cumano e os samaritanos chegaram a Roma, e foi marcado o dia para que defendessem a sua causa. Eles conquistaram com dinheiro favor dos libertos e dos amigos do imperador, e teriam por esse meio feito condenar os judeus se Agripa, que então estava em Roma, não tivesse conseguido que a imperatriz Agripina rogasse ao imperador seu marido que se inteirasse do assunto e mandasse castigar todos os culpados daquela sedição. Assim, o imperador Cláudio, após ouvir ambas as partes, achou que os samaritanos haviam sido a causa principal de toda aquela perturbação e mandou matar a todos os que tinham vindo se justificar. Enviou Cumano ao exílio e Celer, a Jerusalém, a fim de que fosse arrastado pelas ruas, na presença de todo o povo, até expirar. Por fim, nomeou Cláudio Félix, irmão de Palas, governador da Judéia.
844. O imperador, no décimo segundo ano de seu reinado, deu a Agripa a tetrarquia que pertencera a Filipe, bem como Batanea, Traconites e Abila, que integrara a tetrarquia de Lísias, mas tirou-lhe a Cálcida, que governara por três ou quatro anos. Agripa, depois desses favores recebidos de Cláudio, casou sua irmã Drusila com Aziza, rei de Emesa, que se fizera judeu, pois antes ela fora prometida a Epifânio, filho do rei Antíoco, ante a palavra de que ele abraçaria a nossa religião. Como ele não a cumpriu, deu-se então motivo para o rompimento do contrato. Quanto a Mariana, uma outra de suas irmãs desposou Arquelau, filho de Chelcias, ao qual havia sido prometida pelo rei Agripa, o Grande, seu pai, e desse casamento nasceu uma filha, de nome Berenice. Pouco tempo depois, Drusila abandonou o rei Aziza, seu marido, o que se deu por este motivo:
Sendo ela a mais bela mulher de seu tempo, Félix, governador da Judéia, de quem acabamos de falar, apenas a viu e concebeu por ela uma violenta paixão, chegando a propor-lhe, por meio de um judeu de nome Simão, cíprio de nascimento, muito seu amigo e perito em magia, que abandonasse o marido para desposá-lo, prometendo torná-la a mulher mais feliz do mundo. Ela, agindo com imprudência, e também para ser livrar do tormento que Berenice, sua irmã, lhe causava por invejar a sua beleza, consentiu na proposta e não teve receio de abandonar, por esse motivo, a sua religião. De Félix, ela teve um filho chamado Agripa, que morreu ainda jovem, com sua mulher, na erupção do Vesúvio, sob o reinado de Tito, como diremos a seu tempo.
Berenice, a mais velha das três irmãs de Agripa, ficou algum tempo viúva após a morte de Herodes, que era ao mesmo tempo seu marido e seu tio. Mas, ante a notícia que se divulgou de que ela mantinha relações incestuosas com o irmão, propôs a Polemon, rei da Cilícia, que abraçasse a religião dos judeus e a despo-sasse, acreditando que assim provaria que era boato o que se andava dizendo. O soberano consentiu, porque ela era muito rica, mas não viveram muito tempo juntos. Ela abandonou-o por motivo de impudicícia, ao que se diz, e ele, vendo-se rejeitado, deixou também a nossa religião. Mariana não foi mais virtuosa que suas irmãs. Abandonou Arquelau, seu marido, para desposar Demétrio, alabarche, o mais ilustre e rico dentre os judeus de Alexandria. Dela ele teve um filho de nome Agripino. De todas essas pessoas, falaremos mais detalhadamente.
845. O imperador Cláudio morreu, após reinar treze anos, oito meses e vinte dias. Alguns acreditavam que Agripina, sua mulher, o mandou envenenar. Ela era filha de Germânico, irmão de Cláudio. Em primeiras núpcias, havia desposado Domício Enobarbo, um dos mais ilustres romanos. Havia já muito tempo que ela estava viúva, quando Cláudio a desposou e adotou o filho que ela tivera de Domício, chamado também Domício, como seu pai, a quem ele deu o nome de Nero. Antes, Cláudio havia desposado Messalina, que ele mandou matar por ciúme, e dela teve Britânico e Otávia.* Quanto à sua filha Antônia,** que era a mais velha de todos os seus filhos e que tivera de Petina, uma de suas outras mulheres, ele a fez casar-se com Nero.

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* Esse nome não consta do texto grego. Trata-se de uma filha chamada Otávia, como Tácito registra e a continuação há de mostrar, e não um filho de nome Otávio.
** Esse nome também não consta do texto grego, que chama esta outra filha de Otávia, quando na verdade ela se chamava Antônia, como Tácito o refere.

846. Agripina, receando que o império, que ela desejava assegurar seu filho para Nero, fosse ter às mãos de Britânico, antes chamado Germânico, que já era um estadista, logo que o imperador seu marido morreu, enviou Nero ao acampamento dos guardas pretorianos. Ele foi levado por Burrho, seu comandante, por outros importantes oficiais e pelos libertos de Cláudio, que desfrutavam grande prestígio, e lá ele foi declarado imperador. Um dos primeiros atos de Nero após ser elevado ao trono foi mandar envenenar Britânico secretamente. Alguns anos depois, ele mandou matar a própria mãe, recompensando-a dessa forma por ela lhe ter dado a vida e por tê-lo feito reinar sobre a maior parte do mundo. Também mandou matar Otávia, sua mulher, filha do imperador Cláudio, e várias pessoas ilustres, acusando-as de conspiração contra ele.
Não entrarei em detalhes porque não faltam historiadores que escrevam sobre os feitos desse príncipe, sendo que alguns falaram em seu favor pelo fato de ele lhes haver concedido benefícios e outros, sem temer, como os primeiros, ferir a verdade, denegriram a sua memória de maneira ultrajosa devido ao ódio que tinham por ele. Mas não me admiro, pois aqueles que escreveram a história dos imperadores precedentes agiram do mesmo modo, embora, vindo muito tempo depois deles, não pudessem ter motivos para amá-los ou para odiá-los. Quanto a mim, que estou resolvido a jamais me afastar da verdade, contentar-me-ei em tocar somente de passagem naquilo que interessa ao meu assunto. Só tratarei em particular o que diz respeito à nossa nação, sem dissimular as faltas que cometemos ou os males que nos aconteceram. Precisamos agora retomar a continuação de nossa história.
847.  Aziza, rei de Emesa, morreu no primeiro ano do reinado de Nero. Seu irmão sucedeu-o. Nero entregou a Pequena Armênia a Aristóbulo, filho de Herodes, rei da Cálcida. A Agripa, concedeu uma parte da Galiléia. Foi seu desejo também que Tiberíades e Tariquéia lhe fossem sujeitas, e igualmente Julíada, que está além do Jordão, e seu território, que consta de quatorze aldeias.

CAPÍTULO 6
FÉLIX, GOVERNADOR DAJUDÉIA, MANDA ASSASSINAR ELEAZAR, SUMO
SACERDOTE, E OS SEUS ASSASSINOS COMETEM OUTROS CRIMES, ATÉ
MESMO NO TEMPLO. LADRÕES E FALSOS PROFETAS CASTIGADOS. GRANDE
DIVERGÊNCIA ENTRE OS JUDEUS E OS OUTROS HABITANTES DE CESARÉIA.
O REI AGRIPA CONSTITUI ISMAEL SUMO SACERDOTE.
VIOLÊNCIAS DOS SUMOS SACERDOTES.

848. Os negócios na Judéia iam de mal a pior. Estava cheia de ladrões e de magos que enganavam o povo, e não se passava um dia sem que Félix mandasse castigar alguém. Um dos mais destacados entre os ladrões era Eleazar, filho de Dineu, que era seguido por um numeroso bando de homens semelhantes a ele. Félix intimou-o a vir procurá-lo, com promessa de não lhe fazer mal algum, mas quando ele apareceu, prendeu-o e o enviou a Roma. O governador odiava Jônatas, sumo sacerdote, porque este o repreendia pelo seu mau proceder. Então, para que nenhuma censura recaísse sobre ele, porque fora a seu pedido que o imperador lhe concedera aquele governo, resolveu desfazer-se de Jônatas, pois nada é mais insuportável aos maus que as advertências.
Para realizar o seu intento, prometeu uma grande quantia a um certo Dora, de Jerusalém, a quem Jônatas considerava um amigo íntimo. Esse homem perverso, para cumprir o acordo de matar Jônatas, assalariou alguns ladrões. Eles vieram à cidade sob pretexto de devoção, mas com punhais escondidos sob as vestes, e, misturados aos servidores de Jônatas, mataram-no. Esses assassinos não foram castigados por esse crime e continuaram a aparecer do mesmo modo nas festas que aconteceram depois. Misturando-se à multidão, matavam também aqueles que odiavam ou os que haviam determinado matar a troco de dinheiro.
Não se contentavam em cometer os assassinatos na cidade, mas protagonizando uma das mais detestáveis impiedades e um dos mais horríveis sacrilégios, matavam até no Templo. Quem, portanto, há de se admirar de que Deus tenha olhado para Jerusalém com vistas de cólera? Sua Casa sagrada perdera a pureza que a tornava venerável, e Ele então enviou os romanos para castigar com ferro e fogo a miserável cidade e levar escravizados os seus habitantes, com as suas mulheres e filhos, de modo que esse terrível castigo nos faça refletir.
849.  Enquanto os ladrões enchiam Jerusalém de crimes, os magos, por seu lado, enganavam o povo e o levavam ao deserto, prometendo lhe mostrar milagres e prodígios. Mas Félix castigou-os imediatamente, por sua loucura; mandou prender e matar a vários. Por esse mesmo tempo veio um homem do Egito a Jerusalém, que se vangloriava de ser profeta. Persuadiu a um grande número de pessoas que o seguisse ao monte das Oliveiras, que estava muito perto da cidade, apenas distante uns cinco estádios e garantiu-lhes que, depois de ter ele proferido algumas palavras, veriam cair os muros de Jerusalém, sem que mais fossem necessárias as portas para lá se entrar. Logo que Félix soube disso, foi atacá-los com um grande número soldados; uns quatrocentos foram mortos e duzentos feitos prisioneiros, mas o impostor egípcio salvou-se.
O castigo infligido aos ladrões não assustou os que ficaram; continuaram a excitar o povo a se revoltar contra os romanos, dizendo que não era mais possível tolerar um jugo tão insuportável, e pilhavam e incendiavam as aldeias dos que não queriam segui-los.
850. Aconteceu, nesse mesmo tempo, uma grande perturbação em Cesaréia, entre os judeus e seus habitantes, com relação à precedência. Os judeus pretendiam-na, porque Herodes, um de seus reis, tinha construído a cidade: os sírios afirmavam que deviam ser preferidos, porque ela subsistia desde muito tempo sob o nome de Torre de Estratão, quando ali não havia um só judeu. Os governadores das províncias tomaram conhecimento dessa divergência e mandaram vergastar com várias os que nela haviam tomado parte, de ambos os lados. Mas os judeus, que confiavam nas suas riquezas, recomeçaram a desprezar e a maltratar com palavras, os sírios. Entre estes, havia vários de Cesaréia e de Sebaste, que serviam nas tropas romanas, as quais lhes respondiam insolentemente. Das palavras, passaram às pedradas e vários foram mesmo mortos, muitos feridos, de parte a parte: os judeus levaram a melhor. Félix, vendo que essa divergência já havia tomado um aspecto de guerra, rogou aos judeus que se moderassem; mas, como não lhe obedeciam, ele mandou soldados contra eles, os quais mataram a muitos e prenderam também a vários, saquearam, sem que eles pudessem impedir, suas terras e suas casas, onde encontraram grandes riquezas. Os mais ilustres e os mais sensatos dos judeus, vendo tão grande desordem, temendo-lhe as conseqüências, rogaram a Félix que ordenasse aos soldados que se retirassem, para que os que se tinham deixado levar inconsideradamente pela paixão, refletissem e não continuassem a lutar; e ele concordou.
851.  Nesse mesmo tempo o rei Agripa deu o sumo sacerdócio a Ismael, filho de Fabeu, e os supremos-sacerdotes iniciaram então uma luta com os sacerdotes ordinários e os chefes de Jerusalém. Todos se faziam acompanhar por soldados armados, que eram escolhidos entre os mais revoltosos e os mais obstinados. Começavam por se injuriarem mutuamente, depois passavam às pedradas, sem que nem se decide separá-los; parecia que não havia magistrados da cidade que tivessem o poder de impedi-los fazer, com plena liberdade, tudo o que lhes agradava. A imprudência e a ousadia dos sumos sacerdotes foi tão longe, que eles mandavam seus homens às granjas, retirar as décimas que pertenciam aos sacerdotes, alguns dos quais, sendo mui pobres, morriam de fome; a injustiça era assim espezinhada pela violência desses facciosos.

CAPÍTULO 7
FESTO SUCEDE A FÉLIX NO GOVERNO DA JUDÉIA. OS HABITANTES DE
CESARÉIA OBTÊM DO IMPERADOR NERO A REVOGAÇÃO DO DIREITO DE
BURGUESIA QUE OS JUDEUS TINHAM NAQUELA CIDADE. O REI AGRIPA
MANDA CONSTRUIR UM EDIFÍCIO DE ONDE SE VIA O QUE SE PASSAVA NO
TEMPLO. OS DE JERUSALÉM MANDAM FAZER UM MURO MUITO GRANDE
PARA IMPEDI-LO E OBTÊM DO IMPERADOR QUE
O MESMO SEJA MANTIDO.

852.  Pórcio Festo fora mandado pelo imperador Nero para substituir Félix, no governo da Judéia; os judeus de Cesaréia mandaram embaixadores a Roma, para acusar Félix e ele teria sem dúvida sido castigado pelos maus tratos que havia infligido aos judeus, se Nero não lhe tivesse perdoado a pedido de Pallas, seu irmão, que então gozava de grande prestígio junto dele. Dois dos principais sírios de Cesaréia conquistaram, por meio de uma grande soma de dinheiro, Berilo, que tendo sido preceptor de Nero, era então seu secretário para a correspondência grega e, por seu meio, obtiveram uma carta, pela qual era revogado o direito de burguesia de que os judeus gozavam igualmente com os sírios em Cesaréia. Pode-se dizer que essa carta foi a causa de nossos males e da nossa infelicidade, pois os judeus de Cesaréia, ficaram tão irritados que se exasperaram ainda mais e essa perturbação não cessou, até que se transformou em guerra.
853.  Quando Festo chegou à Judéia, encontrou-a num estado deplorável, pelos males que aqueles ladrões causavam. Pilhavam e incendiavam tudo; dava-se o nome de Sicários aos mais cruéis dentre eles, cujo número era bem grande porque eles usavam espadas curtas como as dos persas, e recurvas, como punhais que os romanos chamam de siques. Espalhavam crimes por todos os lugares, misturando-se, como dissemos, nos dias de festa, com o povo que vinha de todas as partes a Jerusalém; por devoção, matavam impunemente a quem lhes parecia. Atacavam mesmo as aldeias daqueles que odiavam, saqueavam-nas e as incendiavam.
854.  Um impostor, que tinha o ofício de mago, levou grande quantidade de homens com ele, para o deserto, prometendo livrá-los de toda a sorte de males. Festo mandou contra eles a cavalaria e a infantaria, que os dizimaram.
855.  O rei Agripa mandou então construir um grande edifício perto do pórtico do palácio real de Jerusalém, que era obra dos príncipes asmoneus; como aquele lugar era muito elevado, o panorama era belíssimo, pois de lá se descortinava toda a cidade e Agripa podia haver, do seu quarto, tudo o que se fazia no interior do Templo. Os chefes de Jerusalém ficaram muito descontentes com isso, porque nossas leis não permitem ver o que se passa no Templo e, principalmente, no momento dos sacrifícios. Para impedi-lo, eles mandaram construir acima das muralhas que estavam na parte interior do mesmo, do lado do ocidente, um muro tão alto que nada mais se podia ver, do quarto do rei, não somente o que estava em frente, mas também nas galerias, de fora do Templo, do lado do ocidente, onde os romanos montavam guarda nos dias de festa, para a conservação do Templo. Agripa ficou muito ofendido, e Festo, ainda mais. Ele ordenou-lhes que, derrubassem o muro, mas os judeus rogaram-lhe que permitisse recorrer ao imperador, porque a morte lhes seria mais suave do que ver destruir-se uma parte do Templo. Ele lhes permitiu; foram então mandados a Roma, dez dos mais ilustres habitantes, com Israel, sumo sacerdote, e Cheléas, guarda do sagrado tesouro. Nero escutou-os e a imperatriz Popéia, sua mulher, que era piedosa, empenhou-se em seu favor; perante o marido, não somente lhes perdoou o que haviam feito, mas concedeu-lhes que o muro, que tinham feito construir, fosse conservado. A princesa mandou regressar os dez embaixadores e reteve como reféns somente Cheléas e Ismael. O rei Agripa deu em seguida o sumo sacerdócio a José, cognominado Caby, filho de Simão, sumo sacerdote.


CAPÍTULO 8
ALBINO SUCEDE A FESTO NO GOVERNO DAJUDÉIA E O REIAGRIPA DÁ E TIRA
DIVERSAS VEZES O SUMO SACERDÓCIO. ANANO, SUMO SACERDOTE, MANDA
MATAR TIAGO. AGRIPA ENGRANDECE E EMBELEZA A CIDADE DE CESARÉIA
DE FILIPE E A CHAMA NERONIANA. GRAÇAS QUE ELE CONCEDE AOS LEVITAS.
RELAÇÃO DE TODOS OS SUMOS SACERDOTES DESDE AARÃO.

856.  Morrendo Festo, Nero deu o governo da Judéia a Albino e o rei Agripa tirou o sumo sacerdócio de José para dá-lo a Anano. Anano, o pai, foi considerado como um dos homens mais felizes do mundo, pios gozou quanto quis dessa grande dignidade e teve cinco filhos que a possuíram também depois dele; o que jamais aconteceu a qualquer outro. Anano, um dos de que nós falamos agora, era homem ousado e empreendedor, da seita dos saduceus, que, como dissemos, são os mais severos de todos judeus e os mais rigorosos nos julgamentos. Ele aproveitou o tempo da morte de Festo, e Albino ainda não tinha chegado, para reunir um conselho, diante do qual fez comparecer Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo, e alguns outros; acusou-os de terem desobedecido às leis e os condenou ao apedrejamento. Esse ato desagradou muito a todos os habitantes de Jerusalém, que eram piedosos e tinham verdadeiro amor pela observância de nossas leis. Mandaram secretamente pedir ao rei Agripa que ordenasse a Anano, nada mais fazer de semelhante, pois o que ele fizera, não se podia desculpar. Alguns deles foram à presença de Albino, que então tinha partido de Alexandria, para informá-lo do que se havia passado e dizer-lhe que Anano não podia nem devia ter reunido aquele conselho sem sua licença. Ele aceitou estas desculpas e escreveu a Anano, encoleriza-do, ameaçando mandar castigá-lo. Agripa, vendo-o tão irritado, tirou-lhe o sumo sacerdócio, que exercera somente durante quatro meses, e a deu a Jesus, filho de Daneu.
857.  Quando Albino chegou a Jerusalém, empregou todo o seu cuidado em restituir a calma à província pela morte de uma grande parte dos ladrões. Nesse mesmo tempo, Ananias, que era um sacerdote de mérito, conquistava o coração de todos. Não havia quem não o honrasse pela sua liberalidade; não se passava um dia sem que ele não desse presentes a Albino e ao sumo sacerdote. Mas ele tinha servos tão maus que iam pelas granjas com outros que não eram melhores do que eles, tomar à força as décimas, que pertenciam aos sacerdotes e batiam nos que se recusavam dá-las. Outros faziam também a mesma coisa; assim, os sacerdotes, que não tinham outro meio de vida, achavam-se reduzidos aos extremos, sem que ninguém se resolvesse dar um remédio a isso.
Durante uma festa, esses assassinos de que acabamos de falar, entraram à noite na cidade e prenderam o secretário de um oficial do exército, que era filho do sacerdote Ananias, amarraram-no, levaram-no e mandaram dizer ao pai dele que o soltariam, desde que obtivesse de Albino a liberdade de dez dos seus companheiros, que estavam presos. Esse plano deu resultado. Albino, vendo a necessidade em que Ananias se encontrava de lhe fazer esse pedido, concedeu-lho; isso foi causa de muitos males, porque os ladrões sempre encontravam novos meios de apanhar parentes de Ananias e só os restituíam com semelhantes trocas. Assim, seu número cresceu ainda mais, sua ousadia aumentou também na mesma proporção e mil males eles causavam a toda a província.
858.  O rei Agripa aumentou a cidade de Cesaréia de Felipe e a chamou de Neroniana, em homenagem a Nero. Mandou também construir em Berita um magnífico teatro, onde dava todos os anos espetáculos ao povo; mandou distribuir trigo e óleo aos habitantes, e, para embelezar a cidade, mandou levar a maior parte de tudo o que havia de mais raro no resto de seu reino, para lá; bem como uma grande quantidade de excelentes estátuas dos maiores personagens da antigüidade. Tal magnificência tornou-o odioso aos seus súditos, porque eles não podiam tolerar que ele despojasse suas cidades dos seus mais belos ornamentos, para embelezar uma cidade estrangeira.
859.  Ele tirou ainda o sumo sacerdócio de Jesus, filho de Daneu, para dá-lo Jesus, filho de Gamaliel. Mas como ele não a deixou de boa vontade, produziu-se entre eles uma grande divergência. Eles faziam-se acompanhar de homens armados, chegavam freqüentemente às injúrias e das injúrias, aos fatos.
860. Ananias continuava a ser o mais ilustre dos sacerdotes, quer por suas grandes riquezas, quer pela sua liberalidade, que lhe granjeava, cada vez mais, novos amigos.
Costobaro e Saul tinham conseguido um grande número de soldados e, como eram de sangue real e parentes do rei, tornaram-se ilustres; mas eram violentos e sempre prontos a oprimir os mais fracos. Foi então que começou a ruína da nossa nação, pois as coisas iam de mal a pior.
861.  Quando Albino soube que Géssio Floro vinha para substituí-lo, pareceu querer obsequiar os habitantes de Jerusalém. Assim, mandou trazer todos os prisioneiros, condenou à morte todos os que realmente eram culpados de crime capital, mandou para a prisão os que lá tinham sido postos por faltas leves e depois lhes deu a liberdade, a troco de dinheiro. Assim esvaziou as prisões, e ao mesmo tempo todo o país ficou cheio de ladrões.
862.  Os da tribo de Levi, cuja função era cantar hinos em louvor a Deus, obtiveram do rei Agripa, que determinasse em seu conselho, que eles poderiam usar a estola de linho, o que só era permitido aos sacerdotes. Disseram-lhe para isso que, tendo jamais gozado daquela graça, ser-lhe-ia glorioso conceder-lha. Mas ele permitiu ao mesmo tempo à outra parte da tribo, que era empregada no serviço do Templo, que também entoasse, como os demais, hinos e cânticos. Todas essas coisas eram contrárias às nossas leis e jamais foram violadas sem que Deus lhes desse um severo castigo.
863. As obras do Templo, então, estavam terminadas; assim, dezoito mil operários que ali eram empregados e pagos pontualmente, ficaram sem trabalho; os habitantes de Jerusalém, quiseram dar-lhes uma ocupação e um meio de vida; como eles nada desejavam conservar de todo o sagrado tesouro do Templo, para que os romanos dele não se apoderassem, propuseram ao rei Agripa reconstruir a galeria que está do lado do ocidente. Essa galeria estava fora do Templo, num profundo vale, tão profundo que seus muros tinham quatrocentas côvados de altura e eram construídos de pedra quadrada, muito branca, de vinte côvados de comprimento e de seis de grossura sendo ainda obra de Salomão, que, por primeiro, construíra o Templo. Mas Agripa, ao qual o imperador Cláudio tinha encarregado de tudo o que se referia às reparações desse edifício sagrado, considerando a magnitude da empresa, tanto pelo tempo como pela quantidade de dinheiro que seria necessário empregar-se para isso e que, as maiores obras se destróem facilmente, não quis dar-lhes consentimento, mas permitiu-lhes, se o quisessem, mandar pavimentar sua cidade, com pedras brancas. Tirou em seguida o sumo sacerdócio, a Jesus, filho da Gamaliel e o deu a Matias, filho de TeóFílon, sob cujo sacerdócio, a guerra dos judeus começou.
864.  A este propósito, julgo conveniente aqui a série dos sumos sacerdotes, elevados a esta honra até o fim desta a guerra. O primeiro foi Aarão, irmão de Moisés. Seus filhos sucederam-no e essa grande dignidade sempre permaneceu na sua família, sem que nenhum outro que não seus descendentes, nem mesmo reis, tenham sido escolhidos para exercê-lo. Houve oitenta e três, desde Aarão até Fanazo, que os sediciosos elevaram a esse cargo e treze dentre eles o tiveram desde o tempo em que Moisés elevou um Tabernáculo a Deus no deserto até que o povo entrou na Judéia, onde Salomão construiu o Templo; no começo só se provia a essa dignidade depois da morte daquele que a exercia; mas, em seguida, foram substituídos, mesmo antes de morrer. Estes treze, eram todos descendentes dos filhos de Aarão e sucederam-se uns aos outros. O governo de nossa nação era então, aristocrático. A autoridade depois foi posta nas mãos de um só. Por fim, passou para a pessoa dos reis; havia seiscentos e doze anos que nossa nação tinha deixado o Egito, sob o comando de Moisés, quando Salomão construiu o Templo.
Dezoito outros grandes sacerdotes sucederam a estes treze, durante quatrocentos e sessenta e seis anos, seis meses e dez dias, que se passaram sob o reinado dos reis, desde Salomão, até que Nabucodonosor, rei de Babilônia, depois de ter tomado Jerusalém e incendiado o Templo, levou o povo escravo para Babilônia e com eles, Josedeque, sumo sacerdote.
Depois do cativeiro de setenta e dois anos, Ciro, rei da Pérsia, permitiu aos judeus regressar ao seu país, reconstruir o Templo, sendo então Jesus, filho de Josedeque, sumo sacerdote. Quinze dos seus descendentes, todos sumos sacerdotes, como ele, durante quatrocentos e quatorze anos governaram a República, até que o rei Antioco Eupator e Lísias, general de seu exército, tendo feito morrer Onias, em Beroé, o qual era sumo sacerdote, deram esse cargo a Jacim, da família de Aarão, não, porém, da mesma família, que o possuíra antes e dele privaram o filho de Onias, que tinha o seu mesmo nome. Esse jovem Onias foi para o Egito onde, tendo caído nas boas graças do rei Ptolomeu e da rainha Cleópatra, sua mulher, permitiram-lhe construir em Heliópolis, um Templo semelhante ao de Jerusalém, do qual ele foi feito sumo sacerdote, como já dissemos. Jacim morreu no fim de três anos e o sumo sacerdócio ficou vago durante sete anos. Quando nossa nação revoltou-se contra os macedônios e escolheu para príncipe os da família dos asmoneus,* Jônatas, um deles, foi escolhido com unânime consentimento, para exercer esse grande cargo. Exerceu-o por sete anos; Trifom fê-lo morrer à traição e Simão, seu irmão, sucedeu-o. Simão foi assassinado por seu genro num banquete e Hircano, seu filho, foi elevado àquela honra. Dela ficou de posse, durante trinta e um anos e morreu em idade muito avançada. Judas, seu filho, cognominado Aristóbulo, sucedeu-o e foi o primeiro que teve o título de rei. Só reinou um ano e Alexandre, seu irmão, sucedeu-o no reino e no sumo sacerdócio. Reinou vinte e sete anos e deixou ao morrer, Alexandra, sua mulher, como regente, com o poder de estabelecer no cargo de sumo sacerdote, aquele, dos filhos, que bem quisesse. Ela deu-o a Hircano, que o exerceu durante os nove anos em que ela reinou, mas depois que ela morreu, Aristóbulo, seu irmão, que era mais moço do que ele, fez-lhe guerra, venceu-o, obrigou-o a viver vida privada e usurpou-lhe ao mesmo tempo, o reino e o sumo sacerdócio. Gozou durante três anos de um e de outro, mas Pompeu, depois de ter tomado Jerusalém, levou-o prisioneiro a Roma, com seus filhos, e restabeleceu Hircano no cargo de sumo sacerdote e de príncipe do judeus, sem, todavia, dar-lhe o título de rei. Dele gozou durante vinte e três anos, além dos nove, de que falamos, mas, no fim desse tempo, Pacoro e Barzafarnes, generais do exército dos partos, vieram de além do Eufrates, fizeram-lhe guerra, levaram-no prisioneiro e constituíram rei dos judeus a Antígono, filho de Aristóbulo. Três anos e três meses depois, esse príncipe foi aprisionado em Jerusalém, por Herodes e por Sósio que o enviaram a Antônio, o qual lhe mandou cortar a cabeça em Antioquia.

____________________________
* Isto não está no grego, pois ali deve estar Judas, e não Jônatas, como se vê no artigo 491. Mas o que se diz em seguida de Jônatas é verdade, como se vê nos artigos 525 e529.

Herodes, feito rei pelos romanos, não escolheu mais, para sumos sacerdotes os da família dos asmoneus, mas honrava indiferentemente com esse cargo, os mesmos sacerdotes e até outros menos ilustres, exceto quando o deu a Aristóbulo, neto de Hircano, aprisionado pelos partos e irmão de Mariana, sua mulher, por causa do afeto que o povo tinha por ele e do respeito que se conservava pela memória de Hircano. Mas ele via a simpatia que todos tinham por esse jovem príncipe; começou a sentir medo e, então, fê-lo afogar em Jerico, da maneira como descrevemos, e não quis mais elevar a essa honra a nenhum da família dos asmoneus. Arqueiau, filho de Herodes, e os romanos, que em seguida se tornaram senhores da Judéia, fizeram do mesmo modo. Assim, durante os cento e sete anos que se passaram desde o começo do reino de Herodes até o tempo em que Tito incendiou Jerusalém e o Templo, houve vinte e oito sumos sacerdotes, alguns dos quais exerceram o cargo sob o reinado de Herodes. Depois da morte deste e de Arqueiau, a maneira de governar entre os de sua nação tornou-se aristocracia e eram os sumos sacerdotes que tinham a principal autoridade.

CAPÍTULO 9
FLORO SUCEDE A ALBINO NO GOVERNO DA JUDÉIA; SUA AVAREZA E CRUELDADE SÃO CAUSA DA GUERRA DOS JUDEUS CONTRA OS ROMANOS.
FIM DESTA HISTÓRIA.

865. Géssio Floro, que era de Clazomene, foi, para infelicidade de nossa nação, escolhido por Nero para suceder a Albino, no governo da Judéia e Cleópatra, sua mulher, que ele levou consigo e que não lhe ficava atrás em maldade, tinha-o feito obter esse favor por meio da imperatriz Popéa, que tinha muito afeto por ela. Ele abusou tão insolentemente do poder, que muitos vieram a sentir a ausência de Albino; aquele se escondia para fazer o mal; Floro fazia-o por vaidade. Parecia que só fora enviado para fazer triunfar a injustiça e cobrir de ultrajes nossa nação. Seus roubos e suas crueldades não tinham limites: seu coração era insensível à piedade; os grandes lucros não o faziam desprezar os pequenos; de tudo se apoderava; partilhava mesmo dos roubos e vendia aos ladrões a impunidade de seus crimes, a esse preço. Assim, os males que os judeus suportavam iam além de tudo o que se pode imaginar. Eles eram obrigados a abandonar seu país e suas santas cerimônias e fugir para terras estrangeiras; não havia países, por mais bárbaros que fossem, onde eles não pudessem viver mais tranqüilos. Que mais direi? Basta afirmar que Floro nos obrigou a tomar as armas contra os romanos, para perecer-mos todos juntamente e de uma vez, que não uns após outros, separadamente, sobre um governo tão intolerável? Assim, dois anos depois que se tirânico governador havia chegado à Judéia, no décimo segundo ano do reinado de Nero, começou essa funesta guerra e os que tiveram a curiosidade de saber tudo o que então se passou em particular, poderão ler a história que nós dela escrevemos.
866.  Terminarei aqui, portanto, a das antigüidades de nossa nação, que trata do que se passou, desde a criação do mundo até este décimo segundo ano do reinado de Nero. Podemos ver aí tudo o que aconteceu aos judeus, durante tantos séculos, tanto no Egito, como na Palestina e na Síria; o que eles sofreram sob os assírios e os babilônios; de que modo foram tratados pelos persas e pelos macedônios e, por fim, pelos romanos. Também relatei a série de todos os sumos sacerdotes, durante dois mil anos, todos os feitos de nossos reis e daqueles que quando não havia mais reis, tiveram a suprema autoridade, segundo o que encontrei escrito nos livros santos, como eu havia prometido no começo desta obra.
Ouso afirmar que nenhum outro, quer judeu, quer estrangeiro, teria podido dar esta história aos gregos, escrita com tanta exatidão. Os da minha nação estão de acordo em que eu sou bem instruído no que se refere aos nossos costumes e às nossas tradições; não tenho motivo de lastimar o tempo que empreguei em aprender a língua grega, embora não a pronuncie com perfeição, o que nos é muito difícil, porque não nos aplicamos bastante a isso; entre nós, não apreciamos muito àqueles que aprendem várias línguas. Consideramos esse estudo como profanos, pois convém tanto aos escravos como aos livres, e somente consideramos sábios os que adquirem um grande conhecimento das nossas leis e das escrituras sagradas, que eles são capazes de explicar, o que é coisa tão rara, que somente uns dois ou três, conseguiram essa glória.
867. Quero esperar que não se achará mau que eu escreva brevemente alguma coisa da minha descendência e das principais ações de minha vida, enquanto há pessoas vivas que podem confirmar ou contestar a verdade; terminarei assim essas antigüidades, que contém vinte livros e sessenta mil linhas. Se Deus me conservar a vida, direi abreviada as causas da guerra e tudo o que aconteceu até este dia, que está justamente no décimo terceiro ano, do reinado do imperador Domiciano e no qüinquagésimo sexto de minha idade. Prometi também escrever quatro livros das opiniões dos judeus e dos sentimentos que eles têm de Deus, de sua essência, de suas leis e das coisas que nos permitem como ou nos proíbem.


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&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
 Epidemia de ebola atinge o quarto país da África
Vírus, que tem uma taxa de mortalidade de até 90%, é transmitido por morcegos e por fluídos corporais

REDAÇÃO ÉPOCA
28/07/2014 18h44 - Atualizado em 29/07/2014 07h56
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Tenda médica criada para atender pacientes com ebola em Kenema, Serra Leoa (Foto: Youssouf Bah/AP)
Tenda médica criada para atender pacientes com ebola em Kenema, Serra Leoa (Foto: Youssouf Bah/AP)
A África ocidental está enfrentando a maior epidemia já vista do ebola, um vírus extremamente agressivo que não tem tratamento ou vacina. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), já são mais de 1,2 mil casos, com 673 mortes desde o início da epidemia, em março deste ano. O surto atinge quatro países africanos, e há relatos de até mesmo médicos infectados.
O surto começou em vilarejos rurais na Guiné, país do oeste africano, em março deste ano. Nos meses seguintes, ele se espalhou por dois países vizinhos, Serra Leoa e Libéria. Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras, a epidemia está diminuindo na Guiné. No entanto, aumentou o número de casos em Serra Leoa e Libéria.
Autoridades de saúde estão em alerta após ser detectado o primeiro caso na Nigéria. Na última semana, um homem da Libéria morreu de ebola em Lagos, a maior cidade nigeriana. A notícia é preocupante porque, antes de chegar a Nigéria, o homem passou por Togo, e os sintomas começaram a aparecer ainda na viagem de avião. A OMS enviou equipes para a Nigéria e para o Togo, e o hospital onde ele morreu está em quarentena.
Epidemia de ebola na África ocidental. Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS) (Foto: Giovana Tarakdjian/ÉPOCA)
Epidemia de ebola na África ocidental.
Fonte: OMS
Foto: Giovana Tarakdjian/ÉPOCA)
Também foram registrados casos de médicos infectados. O médico Sheik Humarr Khan, considerado um dos melhores especialistas sobre o vírus de Serra Leoa, contraiu o ebola e está sendo tratado. O governo da Serra Leoa classificou o médico como um &quot;herói&quot; pelos seus esforços para controlar a doença. Além dele, o médico americano Kent Brantly, que tratava pacientes na Libéria, também foi infectado.
O vírus do ebola foi identificado pela primeira vez em 1976, em uma vila chamada Ebola, na República Democrática do Congo. Os morcegos da família Pteropodidae, conhecidos como morcegos-de-fruta, são considerados como hospedeiros naturais do vírus. O ebola é transmitido de animais para humanos e no contato com fluídos corporais de pessoas infectadas. Dependendo do tipo de vírus, ele tem uma taxa de mortalidade de até 90%.
Até o surto atual, as epidemias ficavam restritas a vilarejos rurais em áreas remotas da África Central. Segundo a Organização Mudial da Saúde, o surto atual é a 24ª epidemia de ebola desde a identificação do vírus. O ebola nunca foi registrado fora do continente africano.

APOCALIPSE
CAPITULO 6
E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra.

</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/feeds/1384602835232446756/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/peste-perniciosa-apocalipse-6-epidemia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/1384602835232446756'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/1384602835232446756'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/peste-perniciosa-apocalipse-6-epidemia.html' title='PESTE PERNICIOSA - APOCALIPSE 6 - Epidemia de ebola atinge o quarto país da África'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601.post-6181492916199087423</id><published>2014-07-25T17:11:00.003-03:00</published><updated>2014-07-29T16:12:17.886-03:00</updated><title type='text'>A TERRA SE SALVOU POR POUCO DE UMA EXPLOSÃO SOLAR - O livro das Revelações – Apocalipse - CAP 16 Versiculos 8, 9, 10 e 11</title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
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Em 2012, uma erupção solar provocou uma poderosa tempestade que passou perto da Terra, mas que era grande o suficiente para &quot;devolver a civilização moderna ao século XVIII&quot;, informou a Nasa.

O fenômeno, que passou perto da órbita terrestre em 23 de julho de 2012, foi a tempestade mais poderosa dos últimos 150 anos, segundo comunicado da agência espacial americana.

Na Terra, no entanto, ninguém se deu conta disso.

&quot;Se a erupção tivesse acontecido uma semana antes, a Terra teria ficado na trajetória&quot;, disse Daniel Baker, professor de Física Atmosférica e Espacial da Universidade do Colorado.

Ao invés disso, a tempestade impactou a nave espacial STEREO-A, um observatório solar equipado &quot;para medir parâmetros de eventos deste tipo&quot;, acrescentou a agência.
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Veja as melhores imagens de uma explosão solar 13 fotos 4 / 13
8.mai.2014 - Imagem de telescópio da Nasa (agência espacial americana) mostra explosão solar Nasa/Divulgação
Segundo dados analisados por cientistas, a tempestade teria sido comparável à última conhecida com o nome de Carrington e que aconteceu em 1859.

Também teria sido duas vezes mais forte que a tempestade solar que deixou sem energia a província de Quebec, no Canadá, em 1989.

&quot;Com os últimos estudos, me convenci ainda mais de que os habitantes da Terra são incrivelmente sortudos por essa erupção de 2012 ter ocorrido como foi&quot;, disse Baker.

A Academia Nacional de Ciências avaliou que uma tempestade solar como a de 1859 poderia custar hoje 3 bilhões de dólares e poderia levar anos de reparos.

Os especialistas afirmam que as tempestades solares provocam apagões, o que bloqueia qualquer aparelho, de um rádio a um GPS, passando pelo fornecimento de água que depende de bombas elétricas.

As tempestades costumam ser repelidas pelo escudo magnético da Terra, mas um impacto direto poderia ser devastador.

Há 12% de probabilidades de que uma grande tempestade solar como a de Carrington atinja a Terra nos próximos dez anos, segundo o físico Pete Riley, que publicou recentemente um artigo na revista Space Weather sobre esse tema.

Sua pesquisa se baseou em uma análise de registros de tempestades solares nos últimos 50 anos.
Sondas espaciais registram atividade do Sol
mar.2012 - Explosão solar é captada pelo SDO em 7 de março de 2012. A tempestade quase  atingiu a Terra segundo a Nasa


ESTÁ ESCRITO:
O livro das Revelações – Apocalipse

CAPITULO 8

E, havendo aberto o sétimo selo, fez-se silêncio no céu quase por meia hora.
E vi os sete anjos, que estavam diante de Deus, e foram-lhes dadas sete trombetas.
E veio outro anjo, e pôs-se junto ao altar, tendo um incensário de ouro; e foi-lhe dado muito incenso, para o pôr com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono.
E a fumaça do incenso subiu com as orações dos santos desde a mão do anjo até diante de Deus.
E o anjo tomou o incensário, e o encheu do fogo do altar, e o lançou sobre a terra; e houve depois vozes, e trovões, e relâmpagos e terremotos.
E os sete anjos, que tinham as sete trombetas, prepararam-se para tocá-las.
E o primeiro anjo tocou a sua trombeta, e houve saraiva e fogo misturado com sangue, e foram lançados na terra, que foi queimada na sua terça parte; queimou-se a terça parte das árvores, e toda a erva verde foi queimada.
E o segundo anjo tocou a trombeta; e foi lançada no mar uma coisa como um grande monte ardendo em fogo, e tornou-se em sangue a terça parte do mar.
E morreu a terça parte das criaturas que tinham vida no mar; e perdeu-se a terça parte das naus.
E o terceiro anjo tocou a sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas.
E o nome da estrela era Absinto, e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas.
E o quarto anjo tocou a sua trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, e a terça parte da lua, e a terça parte das estrelas; para que a terça parte deles se escurecesse, e a terça parte do dia não brilhasse, e semelhantemente a noite.
E olhei, e ouvi um anjo voar pelo meio do céu, dizendo com grande voz: Ai! ai! ai! dos que habitam sobre a terra! por causa das outras vozes das trombetas dos três anjos que hão de ainda tocar.

Capítulo 16
8. O quarto anjo derramou a sua taça sobre o sol, e foi-lhe permitido que abrasasse os homens com fogo.
9. E os homens foram abrasados com grande calor; e blasfemaram o nome de Deus, que tem poder sobre estas pragas; e não se arrependeram para lhe darem glória.
10. O quinto anjo derramou a sua taça sobre o trono da besta, e o seu reino se fez tenebroso; e os homens mordiam de dor as suas línguas.
11. E por causa das suas dores, e por causa das suas chagas, blasfemaram o Deus do céu; e não se arrependeram das suas obras.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/feeds/6181492916199087423/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/o-livro-das-revelacoes-apocalipse-cap.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/6181492916199087423'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/6181492916199087423'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/o-livro-das-revelacoes-apocalipse-cap.html' title='A TERRA SE SALVOU POR POUCO DE UMA EXPLOSÃO SOLAR - O livro das Revelações – Apocalipse - CAP 16 Versiculos 8, 9, 10 e 11'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjci77US4PFy90g0AeepZUeu2OGUEqguP2H9Xu0oM3Rmcv1JU0ojWZZHhW1YN0MwWs32nWYOULFR3OGwPhHMZWQ5VSSSLtw7Vba1HaFOjxP4LtuFhx0r2QTvrmpd603nELmeEnTfIUFKHU/s72-c/13jun2014---explosao-solar---imagem-fornecida-pela-nasa-mostra-explosao-solar-segundo-a-agencia-espacial-americana-as-erupcoes-.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601.post-5054964669548534243</id><published>2014-07-24T17:25:00.002-03:00</published><updated>2014-07-29T16:54:03.391-03:00</updated><title type='text'>ORAÇÃO EFICAZ - CHARLES HADDON SPURGEON</title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
ORAÇÃO EFICAZ
C. H. Spurgeon

&quot;Ah, se eu soubesse onde encontrá-lo, e pudesse chegarão seu tribunal! Exporia ante ele a minha causa e encheria a minha boca de argumentos. &quot;
- Jo 23:3,4

Em sua mais extrema aflição Jó clamou ao Senhor. O supremo desejo de um aflito filho de Deus é, uma vez mais, ver a face de seu Pai. Sua primeira oração não é, &quot;Ah, se eu pudesse ser curado da enfermidade que agora enche meu corpo de chagas!&quot; nem, &quot;Ah, se eu pudesse ver meus filhos trazidos de volta das profunde¬zas da morte e minhas propriedades mais uma vez reavidas das mãos do espoliador!&quot; mas seu primeiro e mais profundo clamor é, &quot;Ah, se eu soubesse onde encontrá-lo - aquele que é o meu Deus! - e pudesse chegar ao Seu tribunal!&quot;
&#39;Os filhos de Deus correm para casa quando chega a tempestade. É instinto natural de uma pessoa salva buscar abrigar-se de todos os males sob as asas do Senhor. &quot;Aquele que fez de Deus o seu refúgio&quot;, poderia servir como título para um verdadeiro crente. Um hipó¬crita, quando sente que foi afligido por Deus, se revolta contra a aflição e, como um escravo, foge de seu mestre que o açoitou; o mesmo, no entanto, não acontece com um verdadeiro herdeiro do céu; ele beija a mão que o castigou e busca abrigar-se da vara no seio do mesmo Deus que lhe havia repreendido,
Você perceberá que o desejo de ter comunhão com Deus se intensifica devido terem fracassado todas as outras fontes de consolação. Quando Jó viu seus amigos pela primeira vez à distância, talvez ele tenha alimentado a esperança de que a ternura deles e seus conselhos bondosos mitigassem suador, mas logo depois que eles falaram ele clamou com amargura: &quot;Todos vós sois consoladores molestos.&quot; Eles puseram sal em suas feridas, agravaram sua tristeza, aumentaram censuras acrimoniosas ao amargor de suas aflições. No calor do seu sorriso, anteriormente eles desejaram se aquecer, porém agora ousam duvidar da sua reputação da forma mais injusta e ingrata. Assim sendo, o patriarca volveu--se de seus amigos pessimistas e olhou para o trono celestial, do mesmo modo que um viajante se volta do seu cantil vazio, indo às pressas para o poço. Ele des¬carta as esperanças terrenas e exclama: &quot;Ah, se eu soubesse onde encontrar meu Deus!&quot; Nada nos ensina melhor quão precioso é o Criador, do que a percepção da futilidade de tudo que nos cerca. Quando você se sente terrivelmente afligido pelo juízo, &quot;Maldito o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço&quot;, então você fruirá indizível doçura desta segurança divina: &quot;Bem-aventurado aquele cuja confiança está no Senhor e cuja esperança é o Senhor&quot;* Afastando-se com desdenhoso amargor dos favos da terra, onde não encontrou mel, e sim afiados aguilhões, você se regozijará nAquele cuja palavra fiel é mais doce do que o mel ou o favo de mel.
Podemos observar ainda que, embora um bom homem se dirija apressadamente a Deus quando em problemas, e corra velozmente por causa da falta de bondade de seus amigos, muitas vezes a alma redimida é privada da confortável presença de Deus. Esta é a pior de todas as tristezas; o clamor neste texto é um dos gemidos mais profundos de Jó, muito mais profundo do que qualquer outro que tenha surgido por causa da perda de seus filhos e propriedades: &quot;Ah, se eu soubesse onde encontrar meu Deus!&quot; A pior de todas as perdas é perder o sorriso do meu Deus. Já experimentou, então, algo da amargura do clamor de seu Redentor; &quot;Deus meu, Deus meu, porque me desamparastes?&quot; A presença de Deus está sempre com o Seu povo, em certo sentido, quanto a sustentá-lo secretamente, mas Sua presença manifesta eles não gozam constantemente. Assim como a esposa no Cantares de Salomão, eles buscam seu amado pela noite sobre sua cama, procuram-no mas não o acham, e embora se levantem e perambulem pela cidade não podem encontrá-lo, e esta pergunta pode ser feita ansiosamente a todo instante: &quot;Tendes visto aquele a quem minha alma ama?&quot; Você pode ser amado por Deus e não ter consciência desse amor em tua alma. Você pode ser tão querido ao Seu coração como o pró-prio Jesus Cristo e, no entanto, momentaneamente ser abandonado por Ele, assim como num breve momento de ira Ele pode esconder-Se de você.
Mas, nessas ocasiões o desejo da alma crente aumenta em intensidade devido a luz de Deus ter-lhe sido retirada. Ao invés de dizer orgulhosamente: &quot;Bem, se Ele me deixou então terei que passar sem Ele; se não posso ter Sua confortadora presença devo lutar da melhor forma possível&quot;, a alma exclama: &quot;Não, é a minha própria vida, preciso ter o meu Deus. Pereço, atolo-me em profundo lamaçal, onde se não pode estar em pé, e nada a não ser o braço de Deus pode me libertar&quot;. A alma agraciada se empenha com zelo redobrado para encontrar a Deus, e envia aos céus seus gemidos, súplicas, soluços e suspiros com mais freqüên¬cia e mais fervor. &quot;Ah, se eu soubesse onde encontrá-lo!&quot; Distância ou fadiga não são nada, se a alma somente soubesse para onde ir, logo percorreria a distância. Ela não faz nenhuma exigência acerca de montanhas ou rios, mas promete que se soubesse, chegaria mesmo até ao Seu tribunal. Minha alma em seu desejo ardente quebraria paredes de pedra ou escalaria as ameias dos céus para alcançar seu Deus, e embora existisse sete infernos entre eu e Ele, mesmo assim, encararia as chamas se apenas pudesse alcançá-lO. Nada me desanimaria se tivesse esperança de, ao final, permanecer em Sua presença e sentir o delírio do Seu amor. Esse me parece ser o estado mental no qual Jó proferiu as palavras que estamos considerando.
Mas não podemos parar neste ponto. Parece que o alvo de Jó em desejar a presença de Deus, era para que pudesse orar a Ele. Jó havia orado, porém queria sentir--se na presença de Deus. Ele desejava suplicar ante Alguém que o ouviria e o ajudaria. Ansiava ardentemente expor o seu caso diante do Juiz imparcial, diante da face do Deus todo sábio; e passando das cortes inferiores, onde seus amigos emitiram juízo injusto, ele queria ape¬lar para o Tribunal Superior de justiça - o Alto Tribunal do céu. Lá, segundo ele, &quot;Com boa ordem exporia ante ele a minha causa, e a minha boca encheria de argumentos&quot;.
Neste último versículo citado, Jó nos ensina como ele almejava suplicar e interceder diante de Deus. De certa forma, ele nos revela os segredos do seu íntimo e nos mostra a arte da oração. Aqui somos incorporados ao grêmio dos suplicantes; é-nos mostrado a arte e o mistério da súplica; aqui se nos ensina a abençoada ciência e habilidade da oração, e se nós nos tornarmos aprendizes de Jó, e se pudermos receber uma lição do seu Mestre, poderemos adquirir bastante habilidade para interceder diante de Deus.

I
PONDO EM ORDEM NOSSA CAUSA DIANTE DE DEUS

Há uma idéia popular de que a oração é uma coisa muito fácil, uma espécie de atividade comum que pode ser feita de qualquer forma, sem nenhum cuidado ou esforço. Alguns pensam que somente é necessário pegar um livro, utilizar certo número de palavras atraen¬tes, e assim terá orado, podendo então guardá-lo novamente. Outros supõem que usar um livro é coisa supersticiosa, e aquilo que se deveria fazer é repetir uma série de frases improvisadas, frases essas que viriam à mente de súbito como uma manada de porcos ou uma matilha de cães, e uma vez tendo-as pronunciado com certa atenção, pronto, a oração foi feita.,
Ora, nenhum desses modos de orar foi adotado pelos santos do passado. Parece que eles pensaram muito mais seriamente sobre oração do que muitos pensam em nossos dias. Parece ter sido algo impor-tantíssimo para eles - um exercício constantemente praticado, no qual alguns deles atingiram grande eminência e foram, dessa forma, singularmente abençoados. Ceifaram grandes colheitas no campo da oração e descobriram que o propiciatório é uma mina de tesouros inimagináveis.
Os santos do passado tiveram o costume de colocarem em ordem, como Jó, sua causa diante de Deus. Assim como um peticionário não vai a uma corte impulsivamente, sem antes pensar no que vai dizer, mas entra na sala de audiências com seu processo bem preparado, tendo também aprendido como deve se comportar diante da grande autoridade a quem vai apelar, da mesma forma é bom que nos aproximemos do trono do Rei dos reis, tanto quanto possível, com premeditação e preparação, sabendo o que fazemos, qual a nossa posição e o que desejamos obter. Em tempos de perigo e aflição podemos correr para Deus da forma como estamos, assim como a pomba voa para uma fenda na rocha, mesmo que suas penas estejam arrepiadas; mas em tempos normais não deveríamos nos aproximar dEle com espírito despreparado, assim como uma criança não se aproxima do seu pai pela manhã sem antes ter lavado o rosto.
Veja ali o sacerdote; ele tem um sacrifício para oferecer, porém não se apressa para o pátio dos sacerdotes a fim de picar o novilho com o primeiro machado em que puder pôr a mão. Pelo contrário quando se levanta lava seus pés na bacia de bronze, coloca suas vestimentas e se enfeita com seus trajes sacerdotais. Então ele se achega ao altar com sua vítima adequadamente dividida de acordo com a lei. Sendo cuidadoso em fazer de conformidade com o manda¬mento, mesmo em coisas simples tais como onde colocar a gordura, o fígado e os rins. Ele põe o sangue numa bacia, derrama-o num lugar apropriado aos pés do altar, não o jogando de forma que mais lhe agrade, e acende o fogo, não com chama comum, e sim com o fogo sagrado retirado do altar. Atualmente todo este ritual foi superado, mas a verdade que ele ensinava permanece a mesma; nossos sacrifícios espirituais devem ser ofe¬recidos com santo cuidado. Deus nos livre de que nossa oração seja somente saltar da cama, ajoelhar-nos e dizer qualquer coisa que venha à mente. Pelo contrário, que possamos esperar no Senhor com santo temor e reverência.
Veja como Davi orou quando Deus o abençoou - ele entrou na presença do Senhor. Compreenda isso. Ele não ficou de fora a uma certa distância, porém entrou na presença do Senhor e sentou-se (pois sentar-se não é posição errada para orar, ainda que critiquem contra isso) e uma vez sentado, calma e tranqüilamente diante do Senhor, começou a orar. Todavia, ele não fez isso sem antes pensar na bondade divina. Dessa maneira chegou ao espírito de oração. Daí, pela assistência do Espírito Santo, abriu sua boca. Oxalá buscássemos mais freqüentemente o Senhor desse modo!
Davi se expressa da seguinte forma: &quot;Pela manhã ouvirás a minha voz, ó Senhor; pela manhã me apre¬sentarei a ti, e vigiarei&quot; (Salmo 5:3). Sempre lhes tenho explicado isso como significando pôr em ordem de batalha seus pensamentos tais quais homens de guerra, ou apontar suas orações como se fossem flechas. Davi não apanhava uma flecha para colocá-la na corda do arco e atirá-la em qualquer direção, mas tendo apanhado a flecha escolhida e a colocado na corda, ele se fixava no alvo. Olhava - olhava bem - para o círculo branco do alvo; mantinha seu olho fixo no mesmo, dirigia sua oração, então puxava o arco com toda sua força e deixava a flecha voar. Uma vez em pleno vôo, tendo ela deixado suas mãos, o que diz ele? &quot;Olharei para cima.&quot; Olhava para cima a fim de ver aonde a flecha foi e saber que efeito havia causado, pois esperava resposta as suas orações e não era como muitos que raramente pensam em suas orações depois de as haverem profe¬rido. Davi sabia que tinha diante de si uma obrigação que requeria toda a sua capacidade mental; ele punha em ordem de batalha suas faculdades e partia para a obra de maneira esmerada, como alguém que cria na mesma e desejava obter sucesso. Deveríamos tanto arar cuida¬dosamente como orar cuidadosamente. Quanto melhoro trabalho mais atenção ele merece. Ser diligente na sua loja e negligente no lugar de oração, é nada menos do que blasfêmia, pois é uma insinuação de que qualquer coisa servirá para Deus, enquanto que o mundo deve ter o melhor de nós.
Se alguém me perguntar qual a ordem a ser observada em oração, eu não darei um esquema como muitos têm feito, no qual a adoração, confissão, petição, intercessão e louvor estão arranjados numa sucessão. Não estou convencido de que uma ordem desse tipo tenha autoridade divina. Não é à ordem mecânica que estou me referindo, pois nossas orações serão igual¬mente aceitáveis, e talvez igualmente apropriadas, em quaisquer formas, posto que existem, exemplos de orações, de todos os tipos, tanto no Velho como no Novo Testamento.
A verdadeira ordem espiritual da oração parece--me consistir em algo mais do que um mero arranjo. É muito apropriado para nós sentirmos que agora estamos fazendo algo real; sentirmos que estamos nos dirigindo a Deus, a Quem não podemos ver, porém que está realmente presente; a Quem não podemos tocar ou ouvir, nem por meio de nossos sentidos perceber, a Quem, entretanto, está conosco tão realmente como se estivéssemos falando com um amigo de carne e osso. Sentindo a realidade da presença de Deus, nossa mente será conduzida pela graça divina a um estado de humildade; sentir-nos-emos como Abraão quando disse: &quot;Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza&quot;. Assim sendo, não faremos nossas orações como garotos que repetem suas lições de forma roti¬neira, muito menos falaremos como se fôssemos rabinos instruindo nossos alunos, ou como alguns fazem, com a aspereza de um assaltante parando alguém na estrada e obrigando-o a entregar-lhe sua bolsa; mas seremos humildes suplicantes, embora ousados, humildemente importunando a misericórdia mediante o sangue do Salvador. Não teremos a reserva de um escravo, mas a cândida reverência de uma criança, contudo não uma criança impudente, impertinente, e sim uma criança obediente e dócil, honrando seu Pai, e portanto rogando sinceramente, com respeitosa submissão à vontade de seu Pai. Quando sinto que estou na presença de Deus e tomo o meu devido lugar ali, a próxima coisa que faço é reconhecer que não tenho direito algum àquilo que estou buscando e não posso recebê-lo, exceto como um dom da graça. Devo reconhecer também que Deus limita o canal através do qual me concede misericórdia - Ele o fará por meio do Seu amado Filho. Portanto, quero me colocar sob a proteção do grande Redentor. Quero sentir que agora não sou mais eu que falo, mas Cristo fala comigo e que, enquanto suplico, faço-o através de Suas chagas, Sua vida, Sua morte, Seu sangue e Seu ser. É dessa maneira que realmente alcançamos uma ordem na oração.
O que devo pedir? É muito apropriado que, na oração, objetivemos uma grande clareza nas súplicas. Há muitos motivos para deplorar sobre certas orações feitas em público, pois aqueles que as fazem realmente não pedem nada a Deus. Preciso admitir que eu mesmo tenho orado assim, e certamente tenho escutado muitas orações desse tipo, nas quais tive a impressão que nada foi pedido a Deus. Muito de excelentes assuntos dou¬trinários e experimentais foi enunciado, mas bem poucas súplicas e esse pouco de um modo nebuloso, caótico e disforme. Todavia, parece-me que a oração deve ser clara, o pedir por alguma coisa definida e claramente, pois a mente percebe sua necessidade premente de tal coisa, e portanto deve suplicar por ela. Não é bom usar de rodeios na oração, mas ir direto ao assunto. Eu gosto daquela oração de Abraão: &quot;Oxalá viva Ismael diante de ti!&quot; Ele menciona o nome e a pessoa pela qual está orando e a bênção desejada, tudo isso em poucas palavras - &quot;Ismael viva diante de ti!&quot; Muitas pessoas teriam usado uma expressão cheia de rodeios, tal como esta: &quot;Oh que nossa prole possa ser agraciada com o favor que Tu dispensas para aqueles que...&quot; etc. Diga &quot;Ismael&quot;, se você quiser dizer &quot;Ismael&quot;; coloque isso em palavras simples diante do Senhor. Algumas pessoas não podem sequer orar pelo pastor sem usar certos adjetivos de tal forma que pensaríamos ser o bedel da paróquia ou alguém que não poderia ser mencionado tão particularmente.
Porque não sermos claros e dizermos o que pen¬samos, e pensarmos o que queremos dizer? Ordenar nossa causa nos levaria a uma maior clareza de pensamento. Quando em particular, não é necessário pedir todos os bens possíveis e imagináveis; não é necessário recitar o catálogo de todos os desejos que você tem, teve, pode ter ou terá. Peça o que precisa no momento e, como regra, atenha-se à tua necessidade da hora; peça pelo pão de cada dia - o que deseja no momento - peça isso. Peça-o sem rodeios, diante de Deus, que não repara em tuas expressões rebuscadas, para Quem tua eloqüência e oratória não serão mais do que puro vaidade. Você está diante do Senhor; sejam poucas as tuas palavras, mas seja cheio de fervor teu coração.
Você ainda não terá posto as coisas em ordem quando ti ver pedido o que deseja através de Jesus Cristo. É preciso examinar a bênção que deseja para saber se ela é algo apropriado a ser pedido, pois algumas orações jamais seriam feitas se os homens apenas refletissem. Uma pequena reflexão nos faria ver que seria melhor se certas coisas que desejamos fossem postas de lado. Além disso, podemos terem nosso íntimo um motivo que não vem de Cristo - motivo egoísta - que esquece da glória de Deus e só se preocupa com nosso próprio alívio e conforto. Ora, embora possamos pedir coisas que sejam para nosso proveito, não devemos permitir que nosso proveito interfira, de maneira alguma, com a glória de Deus. Deve haver junto com a oração aceitável o santo sal da submissão à vontade divina. Gosto destas palavras de Lutero: &quot;Senhor, terei aquilo que quero de Ti&quot;. &quot;Como você gosta de uma expressão como essa&quot;? -você me pergunta. Gosto por causa do que se segue: &quot;Terei o que desejo, pois sei que a minha vontade é a Tua vontade&quot;. Lutero se expressou muito bem, mas sem as últimas palavras teria sido uma ímpia presunção. Quando estamos certos de que aquilo que pedimos é para a glória de Deus, então, se tivermos poder na oração, podemos dizer: &quot;Não te deixarei ir se não me abençoares&quot;. É possível chegar a um tal relacionamento íntimo com Deus, e como Jacó com o anjo, podemos lutar e tentar vencer o anjo para não sermos mandados embora vazios, sem recebermos a bênção desejada. Mas antes de chegarmos a essa intimidade, devemos ter a certeza de que aquilo que estamos buscando é realmente para a honra do Mestre.
Ponha estas três coisas juntas: 1) profunda espi-ritualidade que reconhece a oração como sendo conversa real com o Deus invisível - clareza que evidencia realidade na oração, pedindo por aquilo que sabemos necessitar; 2) muito fervor, crendo que é realmente necessário aquilo que desejamos, estando dispostos a obtê-lo pela oração, desde que seja possível tê-lo por meio da mesma; 3) acima de tudo isso, completa submissão, deixando-o ainda com a vontade do Mestre. Tudo isso deve ser amalgamado e então terá uma idéia clara do que é ordenar sua causa diante de Deus.
Ainda mais, a oração em si mesma é uma arte que somente o Espírito Santo pode nos ensinar. Ele é o doador de todas as orações. Rogue pela oração - ore até que consiga orar, ore para ser ajudado a orar e não abandone a oração porque não consegue orar, pois nos momentos em que você acha que não pode orar, é que realmente está fazendo as melhores orações. As vezes quando você não sente nenhum tipo de conforto em suas súplicas e seu coração está quebrantado e abatido, é que realmente está lutando e prevalecendo com o Altíssimo.























II
ENCHENDO NOSSA BOCA
COM ARGUMENTOS

Com isto não quero dizer enchendo a boca com palavras, frases bonitas, expressões agradáveis, e sim de argumentos, como os santos da antigüidade costu-mavam arrazoar na oração. Quando nos aproximamos da porta da misericórdia, argumentos convincentes são as batidas na argola que fazem com que a porta se abra.
Por que os argumentos deveriam ser usados? Certamente não é porque Deus demore para dar; não é porque podemos mudar o propósito divino, nem porque Deus necessite ser informado acerca de quaisquer circunstâncias concernentes a nós ou sobre a benção pedida. Os argumentos a serem usados são para nosso próprio benefício, não benefício dEle. Deus exige que pleiteemos com Ele e apresentemos nossas razões fortes, como diz Isaías, pois isso mostrará que valorizamos a bênção. Quando um homem busca argumentos em favor de uma determinada coisa é porque ele atribui importância àquilo que está procurando.
Reitero, o uso de argumentos nos ensina a base pela qual obtemos a bênção. Se um homem vier com um argumento baseado em seu próprio mérito, não conse¬guirá nada; o argumento bem sucedido está sempre fundamentado sobre a graça, e daí a alma que assim suplica começa a entender intensamente que é pela graça, e graça somente, que um pecador obtém algo do Senhor. Além disso, o uso de argumentos é destinado a estimular o nosso fervor. A pessoa que usa um argumento com Deus terá mais força para usar o segundo, e usará o terceiro com poder ainda maior, e o quarto com maior poder ainda. As melhores orações que já ouvi em nossas reuniões de oração foram aquelas mais repletas de argumentos. Às vezes minha alma tem-se comovido por completo ao escutar irmãos que vieram a Deus sentindo a real necessidade da benção e que realmente era preciso tê-la, pois a princípio pleiteavam de Deus que a concedesse por essa razão, e depois por uma segunda, terceira, quarta e quinta, até que tivessem despertado o fervor de todos ali presentes.
No que se refere a Deus, a oração não é necessária de forma nenhuma, mas quanto a nós ela é inteiramente necessária. Se não fôssemos constrangidos a orar, du¬vido que poderíamos vi ver como cristãos. Se as bênçãos de Deus chegassem até nós sem serem pedidas, não teriam metade do valor que têm, pois, ao pedi-las, obtemos uma dupla bênção - uma em obter, outra em pedir. O próprio ato de orar é uma bênção. Orar é, de certa forma, banhar-se em águas cristalinas, e assim escapar do calor do sol de verão. Orar é subir em asas de águia acima das nuvens e chegar ao céu claro onde Deus habita. Orar é entrar na tesouraria de Deus e enriquecer-se de um reservatório inexaurível. Orar é tomar o céu nos braços, é abraçar a Deidade dentro da alma e sentir o corpo feito o templo do Espírito Santo. Independente da resposta, a oração em si mesma é uma bênção. Orar é desfazer-se de seus fardos, despir-se de seus trapos, lançar fora suas enfermidades, ficar cheio de vigor espiritual, alcançar o mais alto ponto da saúde cristã. Que Deus nos ajude a sermos diligentes na santa arte de argumentar com Ele mediante a oração.
Ainda resta a parte mais interessante do nosso assunto; trata-se de um catálogo resumido de alguns dos argumentos que têm sido usados com grande sucesso junto a Deus. Não posso te fornecer uma lista completa; para tanto seria necessário um tratado do tipo que só John Owen poderia produzir.


1. Os atributos de Deus
Abraão fundamentou-se neles quando tentou sustar a justiça de Deus. Era necessário que alguém orasse por Sodoma, e Abraão começou assim: &quot;Se porventura houver cinqüenta justos na cidade, destruí-los-á também, e não pouparás o lugar por causa dos cinqüenta justos que estão dentro dela? Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti seja. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?&quot; Aqui começa a luta. Com este poderoso argu¬mento o patriarca segurou a mão esquerda do Senhor e prendeu-a exatamente quando o raio estava prestes a cair. Mas, então, veio uma resposta. Foi comunicado a ele que isso não pouparia a cidade e você se recorda como aquele bom homem, quando duramente pressio¬nado foi recuando pouco a pouco, e por último, quando não mais podia deter a justiça, agarrou a mão direita de Deus, a da misericórdia, e isso lhe deu grande segurança quando suplicou para que a cidade fosse poupada se nela houvesse pelo menos dez justos. Assim sendo, eu e você podemos nos agarrar, a qualquer instante, à justiça, misericórdia, fidelidade, sabedoria, paciência e ternura de Deus, e descobriremos que todos os atributos do Altíssimo são, em certo sentido, um grande aríete com o qual poderemos abrir as portas do céu.

2. A promessa de Deus
Quando Jacó estava do outro lado do vau do Jaboque e seu irmão Esaú vinha ao seu encontro com homens armados, ele implorou a Deus para que não o permitisse destruir a mãe e as crianças, e a razão prin-cipal usada foi esta: &quot;Tu disseste: certamente te farei bem&quot;. Que força tem esse argumento! Ele estava responsabilizando Deus pelo cumprimento de Sua palavra: &quot;Tu disseste&quot;. O atributo serve como um ótimo chifre do altar para segurarmos, mas a promessa, a qual contém o atributo é algo mais, é um chifre ainda mais forte. &quot;Tu disseste&quot;. Lembramo-nos como Davi se expressou. Depois de Nata ter proferido a promessa, Davi disse no final de sua oração: &quot;Faz como tu dis¬seste&quot;. Este é um argumento legítimo para todo homem honesto usar. E tendo Deus falado, não o fará? &quot;Seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso&quot;. Não será Ele verdadeiro? Não manterá Ele Sua palavra? Porven¬tura não permanecerá de pé e não será cumprida toda palavra que sai de Seus lábios?
Salomão, quando da inauguração do templo, usou o mesmo argumento poderoso. Ele suplica a Deus para que Se lembre da palavra que havia falado a seu pai Davi e abençoe aquele lugar. Quando um homem emite uma nota promissória, sua honra está comprometida. Ele a assina com sua mão e deve pagá-la ao chegar o dia do vencimento, senão ficará desacreditado. Jamais devemos dizer que Deus não paga Suas contas. O crédito do Altíssimo nunca foi contestado e nunca o será. Ele é pontual, jamais está adiantado, mas também não Se atrasa. Podemos procurar por todo o Seu livro e compará-lo com a experiência do povo de Deus, e veremos que os dois estão em acordo, do começo ao fim; muitos dos antigos patriarcas disseram como Josué na sua velhice: &quot;Nenhuma promessa falhou de todas as boas palavras que o Senhor falara à casa de Israel: tudo se cumpriu&quot; (Josué 21:45). Se há para você uma promessa divina, não precisa pedir o cumprimento dela com o &quot;se&quot;, pode fazê-lo com toda a confiança. Se a bênção que deseja está prometida pela palavra empenhada de Deus, dificilmente haverá necessidade de acautelar-se quanto à insubmissão à Sua vontade. Você conhece a vontade dEle. Essa vontade está na promessa; fundamente-se nela. Não dê descanso a Ele até que a cumpra. Deus deseja cumpri-la; de outra forma não a teria proferido. Ele não profere Suas palavras apenas para silenciar o nosso barulho e nos manter esperançosos por alguns momentos, com a intenção de, afinal, fazer-nos desistir; quando Ele fala é porque tem intenção de agir.

3. O grande nome de Deus
Quão poderosamente Moisés argumentou com Deus, certa ocasião, fiando-se nessa base! &quot;O que farás pelo Teu grande nome? Os egípcios dirão: porquanto o Senhor não podia pôr este povo na terra que lhes tinha jurado; por isso os matou no deserto.&quot; Há algumas ocasiões em que o nome de Deus está intimamente ligado à história do Seu povo. Às vezes um crente será obrigado a seguir um curso de ação, baseado numa promessa divina. Ora, se o Senhor não cumprisse a Sua promessa, não somente o crente estaria enganado, mas o mundo perverso olharia para ele, dizendo: ah! ah! onde está teu Deus? Tomemos, por exemplo, o caso do nosso respeitado irmão, o Sr. Jorge Müller, de Bristol. Durante muitos anos ele declarou que Deus ouve e atende as orações e, firme nessa convicção, construiu casa após casa para abrigar órfãos. Posso imaginar, portanto, que se ele estivesse necessitando de meios para o sustento daquelas mil ou duas mil crianças, teria usado o seguinte argumento: &quot;O que farás pelo Teu grande nome?&quot; E você, em meio a um problema angustiante, quando tiver se apossado firmemente da promessa, pode dizer, &quot;Senhor, Tu disseste: &quot;Em seis angústias te livrarei; e na sétima o mal não te tocará&quot; (Jó 5:19). Eu disse a meus amigos e vizinhos que tenho posto minha confiança em Ti, e se Tu não me libertares agora, onde estará Teu nome? Levanta-Te, ó Deus, e faz isso, para que a Tua honra não seja lançada ao pó.&quot;
Juntamente com isso podemos empregar o argu¬mento das duras coisas ditas pelos injuriadores. Ezequias, rei de Judá, fez muito bem quando pegou a carta de Rabsaqué e a expôs diante do Senhor. Isso o ajudaria? Ela está cheia de blasfêmias; isso o ajudaria? &quot;Onde estão os deuses de Arpade e Sefarvaim? Onde estão os deuses das cidades que destruí? Não deixem que Ezequias vos engane, dizendo que Jeová vos libertará.&quot; Será que isso surtirá algum efeito? Claro que sim! Foi uma coisa abençoada o fato de Rabsaqué ter escrito essa carta, pois ela moveu o Senhor a ajudar o Seu povo. Às vezes os filhos de Deus podem se regozijar quando vêem seus inimigos dando vazão ao seu mau humor e dizendo injúrias. &quot;Agora&quot;, podem dizer, &quot;inju¬riaram o próprio Senhor; não atacaram somente nós, mas o próprio Altíssimo&quot;. Agora não é mais o pobre insignificante Ezequias com seu pequeno grupo de soldados que vão lutar contra Rabsaqué, mas é Jeová, o Senhor dos anjos. O que vocês farão agora orgulhosos soldados do altivo Senaqueribe? Porventura não serão completamente destruídos, desde que Jeová entrou na luta? Todo o avanço feito pelo catolicismo romano, todas as coisas erradas ditas por ateus bisbilhoteiros e quejandos, deveriam ser usados pelos cristãos como argumentos perante Deus para que Ele faça prosperar o evangelho. Senhor, veja como eles reprovam o evangelho de Jesus! Tira Tua mão direita do Teu seio! O Deus, eles Te desafiam! O anticristo se lança no lugar onde Teu Filho foi uma vez honrado, e dos púlpitos onde o evangelho foi outrora pregado, o catolicismo romano é agora anunciado. Levanta-Te ó Deus, desperta o Teu zelo, permita que Tua santa ira se inflame! Teu antigo inimigo novamente prevalece. Eis que a prostituta de Babilônia mais uma vez montada na besta de vestes escarlates cavalga em triunfo! Vem Senhor, vem Senhor e novamente mostra o que o Teu braço sozinho pode fazer! Este é um modo legítimo de importunar a Deus, por causa do Seu grande nome.

4. As tristezas do povo de Deus
Isto é freqüentemente usado na Bíblia. Jeremias é o grande mestre nesta arte. Assim diz ele: &quot;Os seus nazireus eram mais alvos do que a neve, eram mais brancos do que o leite, eram mais roxos de corpo do que os rubis, mais polidos do que a safira; mas agora sua aparência é mais escura do que a fuligem&quot; (Lamentações 4:7,8). &quot;Os preciosos filhos de Sião, comparáveis a ouro puro, como são agora reputados por vasos de barro, obra das mãos do oleiro&quot; (Lamentações 4:2). Ele fala de todas as suas tristezas e apertos por que passou durante o cerco. Ele clama ao Senhor pedindo que olhe para Sua Sião sofredora, e logo depois seus clamores melancó¬licos são ouvidos. Nada tão eloqüente para um pai como o clamor de seu filho; oh sim, existe algo mais tocante ainda, é o gemido - quando o filho está tão doente que não consegue mais chorar e permanece deitado jeremiando de maneira que indica extremo sofrimento e intensa fraqueza. Quem pode resistir a tal gemido? E quando o Israel de Deus for conduzido a uma situação tão ruim que já não possa clamar, onde somente seus gemidos podem ser ouvidos, aí então virá de Deus a libertação, e certamente Ele mostrará que ama o Seu povo. Quando vocês, irmãos, estiverem em tal situação, podem usar os vossos sofrimentos como um argumento para que Deus se volte e salve o remanescente do Seu povo. Procedam da mesma maneira em relação à igreja em transe de sofrimento.

5. O passado
Povo experiente de Deus, você sabe como apropriar-se disso. Aqui está o exemplo de Davi: &quot;Tu tens sido o meu auxílio. Não me deixes, nem me desampares&quot;. Ele se baseia na misericórdia de Deus desde a sua mocidade. Fala de sua dependência de Deus desde o nascimento, e então suplica: &quot;Agora, quando estou velho e de cabelos brancos, não me desampares, ó Deus...&quot;. Moisés tam¬bém, falando com Deus, diz: &quot;Tu tiraste do Egito o teu povo&quot;. É como se ele dissesse: &quot;Não deixeis o Teu trabalho incompleto ;começaste a construir, complete-o. Tu travaste a primeira batalha; Senhor, termine a campanha! Prossiga até conseguir a vitória completa&quot;. Quantas vezes, estando em problemas, temos clamado: &quot;Senhor, Tu me libertaste de duras provações, quando parecia não haver nenhum socorro por perto; não me abandonaste até agora, Tenho levantado meu Ebenézer em Teu nome. Se Tua intenção era me abandonar, por que me mostraste tais coisas? Trouxeste Teu servo até aqui para expô-lo à vergonha?&quot; Temos de tratar com um Deus imutável, que fará no futuro o que tem feito no passado, pois nunca muda de propósito e o Seu desígnio não pode ser frustrado; assim sendo, o passado torna-se um poderoso meio de conseguir bênçãos de Deus.
Podemos até mesmo usar nossa própria indig-nidade como argumento com Deus. &quot;Do comedor saiu comida, e doçura saiu do forte.&quot; Davi em determinado lugar argumenta da seguinte forma: &quot;Senhor, perdoa a minha iniqüidade, pois é grande&quot;. Esse é um modo especial de raciocinar, mas sendo interpretado significa: &quot;Senhor, por que farias coisas pequenas? Tu és um grande Deus e eis aqui um grande pecador. Eis uma oportunidade em mim para demonstrar a Tua graça. A enormidade do meu pecado faz de mim um palco para manifestar a grandeza da Tua misericórdia. Permite que a grandeza do Teu amor seja vista em mim.&quot; Moisés parece estar pensando desta mesma maneira quando pede a Deus que mostre Seu grande poder em poupar Seu povo pecaminoso. Realmente, o poder com que Deus Se restringe é grande. Existe alguma coisa como rastejar aos pés do trono, fazer uma reverência e clamar: &quot;O Deus, não me quebres, pois sou uma cana esmagada. Não pises sobre minha pequena vida, a qual não passa de pavio que fumega. Tu me caçarás? Sairás, como disse Davi, atrás de um cachorro morto ou de uma pulga? Perseguir-me-ás como uma folha soprada pela tempestade? Olhar-me-ás, como disse Jó, como se fosse um vasto mar ou uma grande baleia? Sou tão pequeno, e desde que a grandeza da Tua misericórdia pode ser mostrada em alguém tão insignificante e tão vil, ó Deus, então tenha misericórdia de mim&quot;.
Houve uma vez em que a própria Deidade de Jeová serviu de base para um clamor triunfante do profeta Elias. Podemos imaginar a excitação mental dele naquela augusta ocasião quando mandou seus adversários verem se seus deuses poderiam lhes respon¬der através do fogo. Com que duro sarcasmo ele disse: &quot;Clamai em altas vozes, porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma viagem; talvez esteja dormindo, e necessite de que o acordem&quot;. E, enquanto eles se cortavam com facas e saltavam sobre o altar, veja o escárnio com que aquele homem de Deus deve ter olhado para tais esforços impotentes e seus gritos extremos e inúteis! Mas pense como seu coração teria palpitado, se não fosse a força de sua fé, quando reparou o altar de Deus que estava quebrado, pôs a lenha em ordem e matou o novilho. Ouça-o exclamar: &quot;Derramem água sobre ele. Não quero que pensem que eu esteja escondendo o fogo; derramem água sobre a vítima&quot;. Quando o fizeram, ele lhes ordenou: &quot;Fazei-o segunda vez&quot; e o fizeram segunda vez. Disse ainda: &quot;Fazei-o terceira vez&quot;. Quando o altar estava completamente coberto de água, embebido e saturado, ele se levanta e clama a Deus: &quot;O Senhor, manifeste-Se hoje que Tu és Deus&quot;. Aqui tudo foi posto à prova. A própria existência de Jeová foi aqui posta, de certo modo, em jogo diante dos olhos dos homens por este ousado profeta. E como ele foi ouvido! O fogo desceu e consumiu não somente o sacrifício, mas também a lenha, as pedras e mesmo a própria água que havia nas valas, pois o Senhor Jeová respondera à oração do Seu servo. Nós podemos tam-bém, em certas ocasiões fazer o mesmo e dizer a Ele: &quot;Oh, por Tua Deidade, por Tua existência, se verdadeiramente Tu és Deus, mostra-Te agora para socorro do Teu povo!&quot;

6. O sofrimento, morte, mérito e intercessão de Cristo Jesus
Receio que não estamos compreendendo o que está à nossa disposição quando somos permitidos supli¬car a Deus baseados nos méritos de Cristo. Deparei-me com esse pensamento um dia desses; foi algo novo para mim, mas acho que não devia ter sido. Quando pedimos a Deus que nos ouça, enquanto invocamos no nome de Cristo, geralmente queremos dizer: &quot;Ó Senhor, Teu amado Filho merece isso de Ti; faze-o para mim porque Ele merece&quot;. Mas se nós soubéssemos poderíamos ir adiante. Suponha que você tenha um armazém na cidade e diz a mim: &quot;Meu amigo, vá até o meu escritório e use o meu nome e diga que devem lhe dar o que deseja&quot;. Eu poderia ir e usar o teu nome e obteria o meu pedido como uma questão de direito e de necessidade. Isto é virtualmente o que Jesus Cristo diz a nós. &quot;Se você necessita algo de Deus, tudo o que o Pai tem pertence a Mim; vá e use Meu nome.&quot; Suponha que você dê a um homem o seu talão de cheques assinados com seu pró¬prio nome e com os cheques em branco a serem preenchidos conforme ele desejasse; isso se aproxima muito do que Jesus fez quando disse: &quot;Se pedirdes algo em meu nome, eu o farei&quot;. Se eu tivesse um bom nome assinando um cheque, estou certo que ele seria trocado por dinheiro ao apresentá-lo ao banco. Semelhante¬mente, quando você tem o nome de Cristo, a quem a própria justiça de Deus é devedora, e cujos méritos fazem reivindicações diante do Altíssimo, não há necessidade de falar com medo, temor ou com o fôlego suspenso. Não fique indeciso e não deixe que a fé vacile! Quando você pleiteia no nome de Cristo, está usando algo que balança as portas do inferno e ao qual os exércitos do céu obedecem. Até o próprio Deus sente o poder sagrado desse clamor divino.
Seria melhor se em tuas orações você pensasse mais nos sofrimentos e tristezas de Cristo. Apresente diante do Senhor as Suas chagas; fale ao Senhor sobre Seus clamores; faça com que os gemidos de Jesus clamem novamente do Getsêmani, e Seu sangue fale novamente desde o Calvário horrível. Clame e diga ao Senhor que devido tais tristezas, lamentos e gemidos, você não pode aceitar uma resposta negativa.
 

III
LOUVOR E AÇÕES DE GRAÇAS

Se o Espírito Santo nos ensinar como porem ordem a nossa causa e como encher a nossa boca de argu¬mentos, o resultado será que haveremos de tê-la cheia de louvores. O homem que tem a sua boca cheia de argumentos em oração, logo a terá cheia de ações de graças em resposta às suas orações. Você tem a tua boca repleta esta manhã, não tem? Mas de quê? De reclamações? Ore para que o Senhor a limpe dessas coisas más, pois em nada elas te servirão, e se tornarão amargas dentro de ti a qualquer dia. Que você tenha a tua boca cheia de orações e de argumentos, de tal forma que não haja lugar para nada mais. Então logo te retirarás com aquilo que pediu a Deus. &quot;Deleita-te também no Senhor, e ele te concederá o que deseja o teu coração.&quot;
Diz-se - não sei bem como - que a explicação da frase: &quot;Abre a tua boca e eu a encherei&quot; pode ser encontrada num costume muito especial do Oriente. Diz-se que não muitos anos atrás - lembro-me das circunstâncias sendo relatadas - o rei da Pérsia ordenou ao chefe dos seus palacianos, o qual havia feito algo que o agradara, que abrisse sua boca, e quando ele o fez o rei começou a enchê-la de pérolas, diamantes, rubis e esmeraldas, até que a deixou tão cheia quanto pudesse agüentar, e então lhe ordenou que se retirasse. Conta-se que isso tem sido feito ocasionalmente em cortes orien¬tais para certas pessoas favoritas. No entanto, se isto é uma explicação da frase ou não, certamente é no mínimo, uma ilustração dela. Deus diz: &quot;Abra a tua boca com argumentos&quot;, e então Ele a encherá de misericórdias preciosas, jóias de valor incalculável. Porventura, um homem não abriria sua boca para tê-la cheia de maneira tal? Certamente o mais tolo entre vocês seria bastante sábio para isso. Então abramos bem nossa boca quando tivermos de pleitear diante de Deus. Nossas necessida¬des são grandes; que sejam grande os nossos pedidos, e o suprimento o será também. Você não está estreitado nEle, e sim em ti mesmo. Que o Senhor lhe dê grandeza de boca na oração, grande potência, não no uso de linguagem, mas no emprego de argumentos.
O que tenho dito ao cristão é aplicável também em grande parte ao incrédulo. Que Deus conceda a ele sentir a força desta mensagem e lhe ajude voar em oração humilde ao Senhor Jesus Cristo, para que encontre vida eterna nEle. 
 

Contracapa

Oração Eficaz

Estudo baseado em Jó 25:4
Neste opúsculo o renomado servo de Deus, Charles Haddon Spurgeon, ensina-nos como aproximar-nos de Deus e como apresentar a Ele as profundas necessidades dos nossos corações. Baseando-se nas Escrituras ele nos mostra como as nossas petições podem prevalecer perante o trono de Deus. Ao mesmo tempo ele nos faz cientes de que devemos louvar e agradecer ao nosso grande Benfeitor, porquanto dEle procede todas as bênçãos que enchem as nossas vidas.
Que o Senhor nos ajude a orar dessa maneira!



PES
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 Terceiro  Projeto 666 O Novo Império Romano Ocidental                
     de Michel-Smiely
 
AUTOR: PR. ISAIAS FERREIRA DA SILVA                                                                                                                                                 PNEUMA- COISAS PERTENCENTE AO ESPÍRITO SANTO
 
                               Michel Smiely
                        O  AUTOR DO  PROJETO  -666  
                      O novo Império Romano Ocidental  
                          
 Solteiro, empresário, escritor, poeta e teórico político, nascido em 29/06/1947 na cidade de Elias Pina na República Dominicana e nacionalizado na Suécia residindo atualmente em Estocolmo. Fala espanhol, inglês e sueco é conhecido por se apresentar como &quot;o 666&quot;. Criou em 1987 um projeto econômico inicialmente para a Europa e mais tarde para o mundo sendo apresentado em 14/7/1989 na antiga Comunidade Econômica Européia com o nome de Projeto 666 ou &quot;O Novo Império Romano do Ocidente&quot; sendo exatamente como era no tempo de Cristo, sem o Reino Unido (antiga Grã-Bretanha). Seu livro &quot;Projeto 666&quot; foi proibido, mas ele continuou a vendê-lo pela Internet;.
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                                  Projeto rejeitado                                                                                                    
Rejeitado o projeto 666 pelo parlamento europeu em 1989, obviamente pelo uso do número 666,                                                                                                                                                      
-algumas idéias de Michel Smiely,passaram a ser executadas de forma lenta e discreta a partir de 1992 pelos europeus como a utilização de uma só moeda, o perdão da dívida externa de países pobres, a inclusão de países da Ásia Menor, das principais ilhas do Mediterrâneo, e futuramente do norte da África e da Palestina na União Européia.
                        O Projeto hoje                                                   -Hoje, com a chegada do Euro, o Projeto 666 é uma realidade, só faltando um imperador, um cargo de &quot;Presidente da Europa&quot; que segundo rumores poderá ser ocupado pelo primeiroministro britânico, , quando deixar o atual cargo, ou até mesmo o príncipe Charles.                                                                                                                                          
-Na verdade;  muitos deverão cobiçar este cargo que será sem dúvida o maior de toda a história, tão desejado por estadistas como Carlos Magno, Napoleão Bonaparte, Hittler entre outros.                                                                                                                             
-Todo o projeto 666 coincide com o Governo Mundial descrito no Apocalipse! Em sua apresentação na Comunidade Econômica Européia,
                  O Falso Paraíso na Terra.
Michel Smielyse referiu ao projeto como um &quot;Paraíso na Terra&quot; dizendo ter sido escolhido para estabelecer a paz na Terra. Em suas palavras profere blasfêmias contra o Deus da Bíblia por chamá-lo no Apocalipse de &quot;besta, anticristo e falso profeta&quot;.                                                                    
 -Diz ser um paranormal e irmão do verdadeiro Messias conforme suas declarações:&quot;Jesus Cristo é o primeiro grande filho espiritual de Deus e o segundo é o 666, seu irmão. Deus deseja ajudá-los a salvar o mundo hoje com o Projeto 666.&quot;                                            
&quot;O novo sistema social político e econômicopara a União Européia e o mundo inteiro, usando 666 como uma moeda corrente nova (Euro) construir um Paraíso na Terra, criado com mérito pelo &quot;Senhor 666&quot; para ganhar o Prêmio Nobel de Economia com o Projeto 666!&quot;
-&quot;Respondendo às necessidades, aos desejos e sonhos de indivíduos, pessoas e nações &quot;Chegou a hora do 666! Para fazer um mundo melhor e feliz!&quot;  &quot;O 666 te ama! Não deixe o 666 construir um Paraíso na Terra sem ti!&quot;..
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                                        Polotica
Em 2004 o &quot;senhor 666&quot;, membro n° 900883 do partido social democrata sueco, independentemente do seu partido disputou uma das 19 cadeiras do parlamento europeu destinadas à Suécia mas não obteve votos suficientes. No entanto, o social democrata foi o partido que mais elegeu parlamentares no país.                                                                    
O 666 vinha anunciando suas &quot;profecias&quot; através de cartas publicadas em seu site (www.the666.com) e enviadas aos seus respectivos destinatários tais como a princesa Diana antes de falecer, o presidente americano George Bush e o presidente da Microsoft Bill Gates. Nessas cartas alertou sobre tragédias além de convocar milionários para investirem no seu Projeto 666.                                                                                                                                             
Em sua carta ao ainda candidato George W. Bush em 1/11/2000, faltando apenas 6 dias para as eleições presidenciais explicou: &quot;Meu PROJETO 666 para a União Européia, é a criação de um novo sistema político, econômico e social que usa o número 666, para criar um Paraíso na Terra.&quot;
Avisou por carta à princesa Dianasobre o risco de vida que corria por causa do seu noivo árabe que era discretamente rejeitado pela família real.
Pediu ao Bill Gates um investimento bilionário em seu projeto com o fornecimento de computadores. Até fins de 2004 estava sem resposta.
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Em 2003 alertou o presidente Bush sobre a possibilidade de um novo ataque terrorista a Nova Iorque no qual seria usada uma arma atômica (ogiva nuclear) por homens do Al-Qaeda da Europa que entrariam nos EUA usando passaportes falsos. O armamento teria sido comprado da Máfia russa (a Al-Qaeda afirmou possuir 7 armas atômicas), camuflada eenviada por navio dentro de um container.           
Coincidentemente ou não em 11/3/2004, após o ataque terrorista na Espanha, foi divulgada uma carta do Al-Qaeda pedindo o fim da luta dos EUA contra o terrorismo internacional ameaçando também os  países aliados dos americanos:                                                                                                   
&quot;O Esquadrão da Fumaça da Morte. vai chegar em breve em um lugar e vocês poderão ver milhares de mortos. Isso é uma advertência. Dissemos aos muçulmanos de todo o mundo que o golpe dos Ventos da Morte Negra chegará a sua fase final, se deus quiser, no momento apropriado&quot;.m abril de 2004 afirmaram em 7 minutos de fitagravada&quot;                                                                             
Os judeus, os norte-americanos e os cruzados(cristãos) em geral continuarão a ser alvos de nossos ataques futuros e, neste ano, se deus quiser, esses ataques serão mais duros e mais violentos [...] E o governo saudita apóstata será incapaz de proteger os interesses deles (dos EUA) ou de dar segurança para eles&quot;. Há quem acredite  que até a Disney World poderá ser um dos alvos                                                                                                        
No dia 12/11/2004, numa entrevista concedida pelo ex-agente da CIA, Michael Scheuer, ao programa 60 Minutes da rede de televisão americana CBS,foi anunciado que Bin Laden já recebeu aprovação religiosa para  usar um dispositivo nuclear contra americanos.

Em 16/9/2006 mais um alerta,desta vez vindo de Abu Dawood, um dos comandantes do Al-Qaeda no Afeganistaão: &quot;Os muçulmanos residentes nos EUA devem deixar o país&quot;. Um muçulmano americano naturalizado, que cresceu no Brooklyn e foi educado no sul da Flórida chamado Adnan el Shukrijumah  também conhecido como &quot;Jaffer Tayyer&quot; ou &quot;Jafer o Piloto&quot;, é amigo de Muhammad Atta, líder dos ataques de 11/9/2001. Ele comandaria um ataque denominado                                                         
&quot;Operação Hiroxima Americana&quot;, o maior já elaborado contra o país, com destruições em massa simultâneas em ao menos 6 cidades onde as preferidas são Nova Iorque, Miami, Los Angeles, Filadélfia, Chicago, San Francisco, Las Vegas, Boston e Washington. O dia 6 de agosto (dia da destruição de Hiroshima) é o mais temido para o ataque. Os terroristas envolvidos estão disfarçados de cristãos e adotam nomes cristãos ejudeus.;
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Em Março de 2004 passou a receber pela primeira vez apoio discreto de políticos de grande importância.                                                          
No dia 2 o ex-presidente Bill Clinton lhe enviou um e-mail a princípio para pedir apoio aos democratas: &quot;Nós precisamos de sua energia, seu espírito, sua determinação e seu apoio financeiro&quot;.                                                                                             
No dia 3 o senador JOHN KERRY, adversário de George W. Bush nas eleições de 2/11/2004, enviou ao &quot;senhor 666&quot; uma mensagem de apoio convidando-o para participar da sua campanha: &quot;Vamos trabalhar juntos e vencer&quot;.                                                                                                                                                
Em 23/9/2004 recebeu uma mensagemda senadora Hillary Clinton pedindo contribuição para a campanha de John Kerry, que foi vencido por George W. Bush.
Foi contra o senador Barak Obamapara a presidência dos EUA, mas decidiu apoiá-lo dias antes da eleição.Resumindo: O Projeto 666 foi rejeitado em 1989 mas hoje é considerado por muitos a solução econômica para o mundo! Mas só terá algum êxito durante a Grande Tribulação.
                   O Projeto 666 de Michel Smiely                           
                       consiste basicamente em:
Perdoar as dívidas externas dos países (inclusive a gigantesca dívida dos EUA!) - Pretende usar isto para convencer os líderes mundiais a aderirem ao seu projeto. A tentação será grande! Que nação devedora resistirá? O G-8 já perdoou 53 bilhões de dólares da dívida externa dos 23 países mais pobres do mundo e em breve outros também receberão o perdão!
Acabar com o uso do papel moeda,usando apenas a moeda eletrônica - Com isto reduzirá em grande parte a corrupção e acabará com asonegação de impostos. O sistema computadorizado registrará todas as compras e vendas. Aliás, isso aos pouco.No Rio de Janeiro as empresas de ônibus usam um sistema para a leitura de cartão (vale transporte eletrônico RioCard) que em breve poderá ser usado para pagamento da passagem com cartão de banco. O mundo já caminha para uma sociedade sem dinheiro até em países do 3° mundo!
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O implante obrigatório do microchip na mão direita para ser usado no lugar do cartão de débito internacional - O sinal¹! O biochip* ou microchip implantado foi testado no comércio da cidade de Fajardo em Porto Rico por uma empresa americana para verificar a sua eficiência. Em 2004 foi criado o sistema VeriPay para este propósito: Dinheiro Virtual!                                                                                                                                          
Utilização de uma única unidade monetária eletrônica internacional - O nome da besta²! Uma solução para padronizar o sistema monetário atual (Euro) já implantado pela União Européia em 11 países, para uma única em todo o mundo. A união das moedas em uma única eliminaria a volatilidade de divisas em três áreas industriais, que produzem dois terços da produção do mundo. Ela acrescentaria a estabilidade e facilitaria o comércio e o investimento.
                                                                                                                                               No mundo circulam aproximadamente 1,2 trilhões de dólaresem moedas por dia. Se esse mercado desaparecesse, salvaria companhias e centenas de bilhões de dólares em um ano em divisas e câmbios e acabaria com as crises das moedas nacionais. Nenhum país teria o problema de balança de pagamentos ou manter reservas de ativos O sucesso do Euro é apenas um primeiro estágio para uma moeda mundial. A revista The Economist em sua edição de 9/1/1988 anuncia a futura moeda do governo mundial com previsão de chegada a partir de 2018: &quot;Get Ready for the Phoenix&quot; (Prepare-se para o Fenix). Hoje sabemos que virá o Amero.                                                                                                                              
O uso de um &quot;Código de Identidade 666&quot;- O número da besta³! - Uma identidade única internacional que substituirá as atuais. Um cartão de identificação usando chip e código de barras com o número do cidadão.A construção de um novo templo em Jerusalémtransformando-a na capital mundial cristã - A nomeação de um líder religioso ecumênico para o lugar santo (Mateus 24.15) é evidente.
O fim do Vaticano caso se recuse a participar do ecumenismo implantado em Israel conforme carta enviada a João Paulo II e publicada nos principais jornais europeus em 13/4/1990 - A intenção do &quot;senhor 666&quot;, pelas suas declarações, é fazer uma fusão do Vaticano com Roma, reconstituindo assim a antiga cidade como era desde a sua fundação até 1798 quando, através do general francês.
As idéias do &quot;senhor 666&quot; com o seu Projeto 666 cruzou o Atlântico Norte e chegou aos EUA.O senador americano Robb Charles achou necessário a inclusão do cartão de identidade eletrônico (chip) para os cidadãos americanos como a amostra da foto.                                                                       
Até maio de 2008 todos os americanos teriam que possuiro NationalID Card que já está causando polêmica entre alguns americanos que questionam a limitação de liberdade. Com a rejeição de 19 estados americanos, a sua implantação ficou para 2017.
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                     A MARCA
                        
 Sem a MARCA-Sem este cartão de identificação com chip, um americano não poderá:Dirigir qualquer veículo automotorEmbarcar em avião, trem, ônibus, etc.Entrar em qualquer prédio federalPossuir conta bancária Ter emprego
A Mondex pode ser citado o mais conhecido nos mercados ocidentais, principalmente no Brasil, que é o Visa Cash, da concorrente Visa Inc..                           --Entretanto é em Hong Kong que fica o mais popular e mais antigo de todos os cartões deste tipo, o Octopus card.                                                                                   
-Nesta linha de cartões surgiu recentemente o Barclaycard OnePulse em Londres. O Dexit, em Toronto no Canadá, apesar de ser considerado concorrente, não utilizava a mesma tecnologia. Porém este não prosperou
A Bíblia Sagrada, No livra do Apocalipse. está registrado que ninguém pode comprar ou vender se não póssuir a marca.

Dentre todos os tópicos da Bíblia, talvez a marca da besta seja o que mais tem suscitado especulações e argumentações.
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 Codigo de barras - Ou triplo 6
                      
 
Código de barras-O número 666 (ou triplo 6) como parte obrigatória de identificação teve seu início no código de barras como mostra a figura abaixo, há mais de 20 anos. Mas na verdade, as 3 barras de guarda não correspondem a barra de número 6, apenas têm a mesma espessura e espaço.        Os manuscritos gregos (na realidade cópias de um protótipo que, ainda que outros discutem a originalidade, foi escrito em Hebraico) não escrevem a frase literalmente como seis-seis-seis (três palavras gregas para seis em uma série —εξ εξ εξ) mas como χξϛ´ (ele é 666 em forma numérica grega) ou algumas vezes seiscentos e sessenta e seis (grego: ἑξακόσιοι ἑξήκοντα ἕξ)
A MARCA NA MÂO&quot;E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração;  Também as atarás por sinal na tua mão e te serão por frontais entre os teus olhos; e as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas.&quot; Deuteronômio 6.6-9 (também em Deuteronômio11.18-20)                                                
 
No grego de Codex Alexandrinus do Novo testamento recita:  ------Ὧδε ἡ σοφία ἐστίν• ὁἔχων νοῦν ψηφισάτω τὸν ἀριθμὸν τοῦ θηρίου, ἀριθμὸς γὰρ ἀνθρώπου ἐστίν• καὶὁἀριθμὸς αὐτοῦἑξακόσιοι ἑξήκοντα ἕξι. .                                                             ..Hōde hē sophia estin; ho echōn noun psēphisatō ton arithmon tou thēriou, arithmos gar anthrōpou estin; kai ho arithmos autou hexakosioi hexēkonta hex.                                             
 
                  Na Vulgata, ou Bíblia latina  
Hic sapientia est. Qui habet intellectum, computet numerum bestiae. Numerus enfim hominis est, et numerus eius est sescenti sexaginta sex.
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               COMPRA  E VENDER
 E fez que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, lhes fosse posto um sinal na mão direita, ou na fronte,para que ninguém pudesse comprar ou vender, senão aquele que tivesse o sinal, ou onome da besta, ou o número do seu nome. Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis.(apoc.13;i6a18).                                                                                                                                        
 Não compra é nem vender.É mais do que evidente que as idéias para um governo mundial apocalíptico do &quot;senhor 666&quot; estão aos poucos sendo aproveitadas pela União Européia, na forma de tratados e sem o título de &quot;Projeto 666&quot;. Aos poucos os países europeus estão perdendo a sua identidade, sua soberania e a sua unidade monetária: um novo Império Romano emerge lentamente da terra, ao norte do Mar Mediterrâneo. Hoje a União Européia é a primeira potência econômica do mundo e o Euro dominará todas as demais unidades monetárias e quando finalmente houver a adesão de Israel, a União Européia terá os homens mais ricos do mundo (judeus)..                                                 
 O homem cujo o numero é 666Michel Smiely é o mentor, o idealizador do sistema, o &quot;homem cujo número é 666&quot;, porém não foi tornado público se descende de algum judeu mas com certeza o seu plano econômico assemelha-se com o do falso profeta descrito no Apocalipse. Os líderes europeus já estão colocando em prática as suas idéias que poderão, durante alguns anos, o transformar no &quot;salvador do colapso financeiro&quot;.                                                                                            O Fim do dinheiro. O mundo materialista e as sociedades secretasAnseiam por um líder que acabe com os problemas financeiros que têm criado um grande abismo entre países ricos e pobres    O fim do dinheirorepresentará o fim dos problemas econômicos temporariamente pois logo em seguida virá uma total falência do sistema. A &quot;corrupção digital&quot; já é conhecida hoje e poderá ser usada amanhã
 
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                  O número 666 o nome de Michel
 
 
666 no nome        
 As iniciais de Michel Smiely no alfabeto hebraico correspondem ao número 660
 M - de Michel..............................................................600.                                                                                                      
 S = de Smieli.................................................................60.                                                                                       
  V – Vásquez....................................................................6.                                                                                                                                      total............................................................................666                                 
                       Ele tem 6 promessas:                                                                                                                                                                                                                      1 - Liberdade    -   
                                                              2- Igualdade     -   
                                                              3- Justiça.                                                                 
                                                              4 -Progresso    -   
                                                              5- Amor        -          
                                                              6-Felicidade                                                                                                                                                
 Também se define com 6 adjetivos:                                                                               
 
                                                           1-Fascinante—
                                                         -2-Controverso.
-                                                       -3-Excitante                                              
                                                          4 Surpreendente.-
                                                           5-Espantoso--
                                                          6-Inesquecível
 
A Soma de números e combinações de letras não são tão significantes no caso de Michel Smiely, mas apenas o fato de ter criado um sistema que está sendo aos poucos colocado em prática pelos líderes da União Européia e que tem dado certo, sem ser mencionado seu nome Atualmente        
 
 
 
                                               Michel Smiely                                           
 
                    está em silêncio aguardando uma  oportunidade.  
                               Que relações ele poderá vir a ter com                                                                   o   anticristo ou o falso     profeta?
 
..............................................................................................................................10
 
 
 
                                         o projeto de Deus com os Gentios
 
                              A  duração da projeto dos gentios ,
                           o qual terminara no arrebatamento da Igreja.
 
O Projeto de Deus com os gentios e com o mundo.O mundo hoje esta nas maõs  da ordem mundial no comando  do novo império romano ou seja a grande Babilônia que ressuscitou com a Ordem mundial Europeia...
 
                         Deus é Maior
 
Sr. Miguel Angel Sosa Vásquez (A 666),
Pseudo-literária &quot;Michel Smiely 666&quot; - (candidato à presidência da União Europeia com o Projeto 666 para fazer umparaíso na Terra). 
 

 
 
 
 
 


Não faça nenhum erro em relação ao 666! 
O 666 têm vindo a ganhar!
 
 
Bem-vindo ao nosso site www.the666.com a grande janela mística de Deus 
Antes que os homens e também das grandes forças do bem e do mal que existe no universo!
 
 
A notícia de que a CNN, BBC, Al Jazeera ou a imprensa internacional, 
eles se atrevem não dizer o mundo para DSTs grandes conseqüências históricas!
BREAKING NEWS! - Breaking News! -
 



 
 
 
O Departamento incomparável de Parapsicologia e Ciências Ocultas Projeto 666 presentes para o mundo:
O inesperado e sábia solução provisória &quot;666-Kennedy-Stalin-Putin-Obama&quot; o problema da Síria, com a ajuda das grandes forças místicas super-naturais de 666 já existentes no mundo.
(La posibilidad de inesperada SOLUCION &quot;666-Kennedy-Stalin-Putin-Obama&quot; del questão sirio) (ENTRAR!) &gt;&gt;&gt;













 

A alma do presidente John F. Kennedy Membro de &quot;Mística Governo Mundial 666&quot; e &quot;Advisor Místico&quot; do presidente Barack Obama: explicar o mundo nesta terça-feira dados de 10 de setembro de 06:18 horas GMT. Solução provisória inesperado e sábio &quot; 666-Kennedy - Stalin - Putin-Obama &quot;a questão da Síria agora só pode ser resolvido com sucesso:Com a ajuda eo reconhecimento político necessário por parte da comunidade internacional, liderada pelos Estados Unidos, União Européia, China e Rússia, o 666 já existentes no mundo para ajudar a evitar a auto-destruição da humanidade e construir um paraíso na terra Com seu sistema econômico novo 666

Apresentação ao mundo da solução &quot;666-Kennedy-Stalin-Putin-Obama&quot; 
questão síria
(Clique neste link para ler a matéria completa!) (ENTER!) &gt;&gt;&gt;
Departamento de Parapsicologia e Ciências Ocultas do Projeto 666 
(terça-feira, 10 setembro, 2013. Estocolmo, Suécia. GMT -06:18)




O Departamento incomparável de Parapsicologia e Ciências Ocultas do Projeto 666 irá apresentar ao mundo:
O 666 nomes marido presidente John F. Kennedy 
&quot;Mística Advisor&quot; do presidente Barack Obama
(El alma del nombre de 666 presidente John F. Kennedy, &quot;Assessor mística del presidente Barack Obama)(ENTRAR!) &gt;&gt;&gt;

 
 
Caso contrário, ele não pode estar em uma situação em que: O presidente russo, Vladimir Putin e os seus conhecidos e amigos e aliados políticos infelizes no Oriente Médio: o terrorismo islâmico genocida Internacional formado por presidente sírio, Bashar Al Assad, o terrorista libanês Hezbollah e do Irã:
 
 

Eles agora estão fazendo erro muito grave acreditar que o presidente Barack Obama é um charlatão e canalha incapaz de cumprir suas promessas políticas e não defenderá os objetivos nunca Princípios e político, econômico, social e militar para que foi eleito presidente dos Estados Unidos dos Estados Unidos:
Com a ajuda das grandes forças sobrenaturais místicas e 666 existentes no mundo, para ajudar a evitar a auto-destruição da humanidade e construir um paraíso na terra, com o sistema econômico
 </content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/feeds/5721707116940728407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/blog-post_14.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/5721707116940728407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/5721707116940728407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/blog-post_14.html' title=''/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601.post-7007434264254155897</id><published>2014-07-14T20:36:00.000-03:00</published><updated>2014-07-14T20:36:31.033-03:00</updated><title type='text'>TEMPLO DE SALOMÃO (WIKIPÉDIA) - QUAL SUA FINALIDADE?</title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
Templo de Salomão (IURD)
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Local São Paulo, SP
Região Brás
País  Brasil
Coordenadas 23°32&#39;16&quot;S 46°36&#39;23&quot;W
Religião Cristianismo (neopentecostal)


Arquiteto Rogério Silva de Araújo
Início da construção 2010
Fim da construção 31 JULHO 2014
Área construída: 80 mil m²3
Página web: otemplodesalomao.com

O Templo de Salomão será a maior e futura sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus e está sendo construída no distrito do Brás, São Paulo, Brasil.
A edificação da réplica é inspirada em características da construção do Templo de Salomão, conhecido também como o primeiro templo citado pela Bíblia. Esse localizava-se em Jerusalém, Israel, e fora destruído por Nabucodonosor II da Babilónia em 586 a.C.1 5 Teve o custo de aproximadamente 650 milhões de reais.6 7 8

Sua capacidade é de mais de dez mil pessoas sentadas na nave principal, bem como uma área de 70 mil m2, o equivalente a 16 campos de futebol. O custo estimado da obra é de mais de 400 milhões de reais.8 O altar e a fachada do templo serão feitos com pedras nativas de Israel.3 A construção consumiu mais de 28 mil m³ de concreto e duas mil toneladas de aço, o bastante para construir duas vezes o Palácio do Planalto que é a sede do gabinete presidencial localizado na cidade de Brasília. As medidas e arquitetura do templo serão com base nas orientações bíblicas.

Panorama vista por cima do templo e as ruas localizadas ao lado.
O Templo de Salomão conta com 126 metros de comprimento, 104 metros de largura, 55 metros de altura com dois subsolos, que corresponde a de um prédio de 18 andares, quase duas vezes a altura da estátua do Cristo Redentor. E o templo terá 36 salas de Escola Bíblica com capacidade para receber aproximadamente 1.300 crianças, estúdios de televisão e rádio, auditório para 500 pessoas e estacionamento para quase dois mil carros. Além de 59 apartamentos do tipo quitinetes, 12 apartamentos com 1 suite e 13 de duas suítes. &quot;Este empreendimento é arrojado e empregou tecnologia de ponta para que, quando as pessoas entrarem no local, viajem pelo tempo e sintam-se como se estivessem no primeiro templo construído por Salomão, diz &quot; Rogério Silva de Araújo, arquiteto responsável pela obra em entrevista.

A igreja ocupa mais da metade de um quarteirão da avenida Celso Garcia, onde foram comprados 24 imóveis nesse mesmo local e nas ruas João Boemer e Júlio César da Silva. A atual igreja do Brás que cabe cerca de 4 mil pessoas sentadas, pode se transformar em uma outra área ainda não definida pela igreja.

O local não será de ouro, mas as riquezas de detalhes empregados em cada parte do templo serão muito parecidas com os do antigo santuário.
A construção, segundo os organizadores, foi projetada para causar o menor impacto possível ao meio ambiente, e é erguida com materiais já reutilizados, que proporcionarão um melhor uso da energia e água, possibilitando a reutilização delas. Além disso, Macedo diz ainda que a igreja terá um memorial com 250 metros quadrados que poderá ser usado como um espaço para exposições e eventos diversos. &quot;A ideia seria contar ali não só a história da Igreja, mas também explicar um pouco do funcionamento do templo como obra de engenharia.&quot; Diz Edir &quot;Ao derredor do templo, será somente possível a passagem de pedestres, fazendo assim que a igreja se destaque pois está somente entre as paisagens&quot;, diz os construtores responsáveis do projeto. Uma Arca da Aliança de efeito tridimensional será colocada no meio do altar. Acima do altar e da Arca da Aliança será colocada a inscrição &quot;Santidade ao Senhor&quot;, frase que na época do Primeiro Templo era colocada na fronte das vestes dos sacerdotes.

As poltronas do templo foram trazidas da Espanha para acomodar um público de 10 mil pessoas, mármore rosa italiano e oliveiras que vieram de Israel. Contém mais de 10.000 lâmpadas de LED instaladas no teto da nave principal, que tem pé-direito de 18 metros. A construção já empregou mais de 1.800 operários no auge.

A igreja será maior que a Catedral Metropolitana de São Paulo (exceto pela altura).

Dados comparativos Catedral da Sé Templo de Salomão
Comprimento           111 metros   126 metros
Largura                    46 metros   104 metros
Altura da Frente  92 metros (duas torres)  56 metros
Altura de trás                     41 metros
Capacidade         8 mil pessoas  10 mil pessoas


Fachada do muro da obra.
Antes de começar a erguer a construção no Brás, a Igreja Universal do Reino de Deus terá que fazer mais de 10 melhorias ao redor da região bem como a instalação de semáforos e equipamentos para a passagem de pedestres em diversos cruzamentos próximos do conglomerado, com rede interligada. Ainda é necessário instalar guias rebaixadas para deficientes físicos, colocar câmeras que tem gravador de DVD interligado ao sistema de controle da CET, iluminação específica nas faixas de pedestres em alguns cruzamentos, fazer melhoramento e implementar sinalização no solo das vias no local e também sinalização de placas, além de gradil para guiar os pedestres às faixas. A igreja deverá também fazer um convênio constante, para estacionamento de 50 ônibus fretados na região. A construção está sendo auditada pela Jones Lang LaSalle e já foram gastos mais de 400 milhões de reais.

Foto tirada em 28 de maio de 2012 do local em que está sendo construído o templo.
O dano no trânsito não está relacionado apenas nas vias no entorno da igreja, mas as ruas que estão localizadas bem próximos e também o transporte público, de acordo com especialistas em trânsito da cidade. &quot;As medidas recomendadas pela CET vão dar segurança exata nas vias ao lado da nova igreja. Mas os pontos próximos terão problemas&quot;, segundo análise do engenheiro de tráfego e ex-técnico da companhia Alexandre Zum Winkel. Ele mostra que o maior impacto será nos horários de começo e término dos cultos e os gargalos vão ter reflexos pela região local.15 &quot;Na Celso Garcia, não passa mais do que 800 veículos por hora e por faixa num semáforo. Imagina quando o volume de veículos crescer, com o pessoal indo para os cultos. Ficará travado, a não ser que se faça uma operação especial nas redondezas e se deixe os semáforos abertos&quot;. Diz o consultor especialista Horácio Figueira.15

Em 8 de agosto de 2010, Edir Macedo reuniu milhares de pessoas no terreno do templo, onde foi feita uma reunião com o objetivo de lançar a pedra fundamental do projeto do templo. Na mesma semana, o Bispo lançou duas contas bancárias para os que quisessem fazer suas doações em prol da construção. Em 28 do mesmo mês, o prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, assinou o decreto de R$ 15,7 milhões destinados a reformas urbanas para os bairros da Lapa e no Brás. E que isso não irá atrapalhar as construções no local. No site oficial do templo, é possível ver a construção ao vivo durante 24 horas por dia.

Em julho de 2012, a Igreja fez uma campanha na rádio, tv e pela internet a fim de arrecadar fundos para a construção. Os recursos foram vindos de várias partes do Brasil e do mundo, fiéis da igreja ou não.

Em 2013 foram iniciadas as colocações das pedras vindas de Israel. Vários tipos de modelos foram colocados a Taltishe, que mede cerca de 25x50x3cm, irá revestir aproximadamente 19 mil metros quadrados. Para fazer o piso interno, foi usado o pedra Brushed Stone, no tamanho 80x80cm. As colunas receberam a rocha chamada de Matabeh, que mede 50x100x3cm, que irá intercalar partes com cortes rústicos com polidas.

A construção causou uma inflação nos preços dos imóveis ao redor do templo. Um estacionamento de esquina, com 7.000 metros de área, está sendo negociado por 12 milhões de reais. A IURD já comprou trinta das quarenta unidades do Edifício Vidago, localizado na Avenida Celso Garcia. Em 2007, a igreja pagou 95.000 reais por um apartamento de 90 metros quadrados no prédio. Em 2011, desembolsou 470.000 por outro com os mesmos tamanhos. As últimas unidades foram pedidos por 2 milhões.

Durante o fim da construção do templo, a obra foi visitada por Rafael Eldad, embaixador de Israel no Brasil. “É uma obra maravilhosa. Quatro anos é muito pouco tempo para construir algo tão grandioso, com tantos detalhes. É grande, grande, grande como o Brasil. Não tenho palavras”, afirmou Rafael Eldad.23 Para a inauguração do templo a igreja propôs o &quot;Jejum de Jesus&quot;, um jejum de informações seculares como televisão, rádio e internet, durante 40 dias.

Inauguração
A data da inauguração do templo está prevista para 31 de julho de 2014, quando ocorrerá uma cerimônia de inauguração com a presença da presidente Dilma Rousseff, do seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, o atual governador do estado de São Paulo Geraldo Alckmin e o prefeito da capital paulista Fernando Haddad, entre outras autoridades.

Repercussão e controvérsias
A construção do templo gerou repercussão na mídia fora do Brasil, como o jornal britânico The Guardian ressaltando a grandeza da obra e com comparações ao Cristo Redentor, dizendo que a igreja deixará a estátua do Rio de Janeiro &quot;na sombra&quot;. Já o jornal The New York Times, dos Estados Unidos, concordou com a opinião da Juventude Judaica Organizada em São Paulo que disse que, ao promover as tradições judaicas, o projeto pode ajudar no combate ao antissemitismo.

Algumas organizações judaicas do mundo classificaram a obra como &quot;blasfêmia&quot;. A atriz israelense Yael Bartana fez uma paráfrase em 2013 ao Templo de Salomão no filme Inferno, onde ele sofre um incêndio. A igreja afirmou que não vê o filme como uma crítica.

A igreja Universal publicou uma nota contrariando uma matéria publicada pelo site &quot;Gospel +&quot; onde afirmava que o custo do templo era de aproximadamente 1 bilhão de reais. Contudo a IURD afirma que tal publicação não é verdade e diz que os gastos da obra foi mais de 400 milhões de reais. 

PERGUNTA? O TEMPLO DE SALOMÃO DA UNIVERSAL É O 3º TEMPLO FALSO PREPARADO PARA O ANTICRISTO,ONDE SE ASENTARÁ? OU É UM TEMPLO VOLTADO PARA ADORAÇÃO A DEUS?</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/feeds/7007434264254155897/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/templo-de-salomao-wikipedia-qual-sua.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/7007434264254155897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/7007434264254155897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/templo-de-salomao-wikipedia-qual-sua.html' title='TEMPLO DE SALOMÃO (WIKIPÉDIA) - QUAL SUA FINALIDADE?'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601.post-8941329974989298140</id><published>2014-07-14T19:44:00.001-03:00</published><updated>2014-07-14T19:44:03.384-03:00</updated><title type='text'>A Preparação Para o Terceiro Templo  - Jimmy De Young</title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
A Preparação Para o Terceiro Templo

Jimmy De Young

O Arrebatamento da Igreja é o próximo evento importante na cronologia de Deus relacionada às atividades proféticas. Já não há mais profecias a serem cumpridas antes que ocorra o Arrebatamento. Ele é iminente, isto é, pode acontecer a qualquer momento. Na verdade, não existe nada, a não ser a graça longânima e a misericórdia de Deus, que possa impedi-lo de ocorrer imediatamente.

No entanto, embora não existam sinais para o Arrebatamento, há pelo menos um importante indicador de que ele está próximo, às portas. Esse indicador é a situação em que se encontram os preparativos para o próximo Templo Judeu a ser construído no monte do Templo, em Jerusalém.

O rabino Nachman Kahane, um rabino líder em Jerusalém, nascido em 1937, crê que um Templo será construído no monte do Templo enquanto ele ainda estiver vivo; e ele diz que tudo está pronto para que o Templo seja construído ainda hoje.

O mundo conheceu apenas dois Templos Judeus: o Primeiro, construído no monte do Templo pelo rei Salomão, durou 390 anos, antes que os babilônios o destruíssem no ano 586 a.C. O Segundo, construído depois do Cativeiro na Babilônia, no mesmo local (Ed 2.68; Ed 6.7), permaneceu durante 585 anos, antes de ser destruído pelos romanos no ano 70 d.C. O cenário dos tempos do fim na Palavra Profética de Deus anuncia que haverá um Templo Judeu quando o Anticristo reinar sobre o mundo.

O rabino Kahane treinou todos aqueles que estão na liderança desse esforço para a reconstrução; e foram seus alunos que deram início ao Instituto do Templo, em 1987, no bairro judeu na Cidade Velha de Jerusalém. O Instituto tem treinado homens para o serviço no Templo e acumulado todos os implementos necessários para o Templo, inclusive a mesa da proposição, o altar do incenso, e a menorá de ouro. A menorá, atualmente em exposição em frente à praça do Muro Ocidental em Jerusalém, é recoberta com aproximadamente 45 quilos de puro ouro e seu valor é de cerca de 2 milhões de dólares americanos.

Muitos acham que a menorá original, um candelabro com sete hastes, foi levada para Roma depois que o Segundo Templo foi destruído, porque um alto-relevo no Arco de Tito em Roma parece retratar exatamente isso. A menorá original pode ainda estar em Roma. O Instituto do Templo a reconstruiu meticulosamente.

Além disso, o Instituto do Templo também crê saber a localização da Arca da Aliança, que foi vista pela última vez no Templo de Salomão. Dois rabinos e um ativista judeu, todos trabalhando em atividades da reconstrução do Terceiro Templo, dizem já ter estado no local.

Outras atividades

O?rabino Yehuda Glick, presidente da Temple Mount Heritage Foundation (Fundação da Herança do Monte do Templo), guia excursões de judeus ao monte do Templo para aumentar a familiaridade com este que é o mais sagrado de todos os sítios judeus, antes que o próximo Templo seja construído. Há alguns anos, ele levou a uma excursão educativa um grupo de 10 soldados pára-quedistas das Forças de Defesa de Israel (FDI). Este foi um marco, por se tratar da primeira vez que tropas da FDI uniformizadas estiveram no monte do Templo em uma década.

Os pára-quedistas, disse o rabino Glick, têm um “relacionamento especial” com o monte do Templo. Eles tomaram aquela elevação para Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, o que levou à reunificação de Jerusalém.

Embora o monte do Templo seja o mais sagrado sítio do judaísmo, o povo judeu não tem permissão para orar ali, nem para subir nele em grandes grupos, porque ele é controlado pelo Waqf muçulmano. Israel deu ao Waqf o controle como um gesto de boa vontade depois da reunificação da cidade em 1967.


O Instituto tem treinado homens para o serviço no Templo e acumulado todos os implementos necessários para o Templo, inclusive a mesa da proposição, o altar do incenso, e a menorá de ouro (na foto).

O rabino Glick está convocando o povo judeu para se unir e fazer todo esforço possível para visitar esse local sagrado e se concentrar em reconstruir o Templo. Durante vários anos, ele dirigiu os esforços do Instituto do Templo no sentido de se prepararem para a reconstrução.

Os Fiéis do Monte de Templo, de Gershon Salomon, têm uma pedra fundamental pronta para quando for dado início à construção. Diz-se que ela foi consagrada com água do poço bíblico de Siloé e cortada com diamantes.

Perto de Jericó, no vale do rio Jordão, um centro de treinamento educa homens, que crêem ser da tribo de Levi e da família sacerdotal, sobre como servir no próximo Templo. Nos últimos 25 anos esse centro já treinou milhares vindos de todas as partes do mundo. Muitas das vestes sacerdotais estão preparadas e guardadas. O rabino Kahane, que recebeu o primeiro conjunto de vestes sacerdotais, o guarda em seu armário, pronto para ser vestido imediatamente. Foram anos de pesquisa para se confeccionarem essas vestes:

Fibras de linho especiais foram importadas da Índia e muitas viagens ao exterior foram necessárias para se obter as cores corretas para as roupas. Emissários chegaram a ir a Istambul, para comprar os casulos das montanhas, dos quais se extrai o correto tom de carmesim. O segredo do tom certo de azul ficou perdido desde a destruição do Segundo Templo, até que a organização não-lucrativa Ptil Tekhelet o identificou como sendo o?murex trunculus, ou hexaplex trunculus, o molusco corante listrado que se encontra nas proximidades do mar Mediterrâneo.[1]

Além disso, as 4.000 harpas necessárias para os levitas tocarem as músicas do Templo, como foi requerido pelo rei Davi em 2 Crônicas 23.5, estão perto de serem completadas pelos artífices da Casa de Harrari.

O rabino Yoel Keren acredita que o Terceiro Templo será construído seguindo os detalhes descritos em Ezequiel 40-46; mas primeiro o povo judeu construirá uma estrutura menos extravagante, como fez quando o Segundo Templo foi edificado 2.500 anos atrás.

O que está por vir

O cenário do final dos tempos na Palavra de Deus exige que um Templo Judeu esteja erigido quando o Anticristo governar o mundo. Ele o profanará e o povo judeu será forçado novamente a deixar o Templo porque se manterá fiel a Deus e se recusará a adorar o Anticristo (Dn 9.27).

Em Seu Sermão no monte das Oliveiras (Mt 24-25), Jesus confirmou a profecia de Daniel. Ele chamou a profanação de “o abominável da desolação” e disse que ela ainda não havia acontecido (Mt 24.15).

Algum dia, o Messias, Jesus, voltará para Jerusalém e construirá Seu Templo nesse pedaço de terra (Zc 1.16; Zc 6.12); e, a partir desse Templo do Milênio, Ele governará o mundo (Zc 6.13). Esse templo é descrito em detalhes vívidos e precisos em Ezequiel 40-46. Nada que tenha sido construído até agora se encaixa na descrição de Ezequiel. Nem o Tabernáculo, nem o Primeiro Templo edificado pelo rei Salomão, nem mesmo o Segundo Templo que foi dedicado por Zorobabel e magnificamente restaurado por Herodes o Grande. Sequer a estrutura desenhada na prancha de projetos de hoje será aquele Templo; essa estrutura será o Templo da Tribulação; que deverá estar em funcionamento na metade do período de sete anos que se denomina “tempo de angústia para Jacó” (Jr 30.7).

Existe um obstáculo principal para a construção do Terceiro Templo: a edificação muçulmana cuja cúpula é coberta de ouro, o Domo da Rocha, que ocupa o monte do Templo. Não é uma mesquita, mas um edifício islâmico.

Algumas pessoas sugerem que um Templo Judeu poderia existir ao lado do Domo da Rocha, ambos partilhando do monte do Templo. Mas, falei com muitos líderes do movimento para a reconstrução que crêem que o Domo da Rocha terá que ser removido. Quando lhes perguntei como eles planejam fazer isso acontecer, disseram que não planejam. Eles pensam deixar esse detalhe para o Messias, mas querem estar prontos para começar a construção quando Ele abrir o caminho.

Você está preparado para o Arrebatamento da Igreja? Se está, viva pura e produtivamente para estar cheio de alegria quando ouvir o glorioso som da trombeta de Deus nos chamando para casa (1Ts 4.15-17). Acordo todas as manhãs com a expectativa de que este será o dia. À luz de tudo o que está acontecendo para a preparação de um Templo Judeu no monte do Templo, faríamos o certo se mantivéssemos nossos ouvidos bem abertos para o brado do Senhor, a voz do arcanjo e o chamado da trombeta de Deus. (Jimmy De Young - Israel My Glory - http://www.chamada.com.br)</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/feeds/8941329974989298140/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/a-preparacao-para-o-terceiro-templo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/8941329974989298140'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/8941329974989298140'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/a-preparacao-para-o-terceiro-templo.html' title='A Preparação Para o Terceiro Templo  - Jimmy De Young'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601.post-6089471882724795019</id><published>2014-07-14T16:21:00.001-03:00</published><updated>2014-07-14T19:28:24.782-03:00</updated><title type='text'>A Reconstrução do Templo e A Profecia Tipo: Estudos bíblicos / Autor: Pr. Rodrigo M. de Oliveira</title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
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A Reconstrução do Templo e A Profecia
Tipo: Estudos bíblicos / Autor: Pr. Rodrigo M. de Oliveira

  
 Antes de explicarmos a importancia da reconstrução do terceiro templo, é importante que expliquemos de forma resumida a historia que envolve o templo de Israel, fique conosco até o final e seja cheio de conhecimento.

O PRIMEIRO TEMPLO:

O Templo de Salomão foi o primeiro Templo em Jerusalém, construído no século XI a.C., e funcionou como um local de culto religioso judaico central para a adoração a Javé, Deus de Israel

O Rei Salomão começou a construir o templo no quarto ano de seu reinado seguindo o plano arquitectónico transmitido por Davi, seu pai (1 Reis 6:1; 1 Crónicas 28:11-19). O trabalho prosseguiu por sete anos. (1 Reis 6:37, 38) Em troca de trigo, cevada, azeite e vinho, Hiram ou Hirão, o rei de Tiro, forneceu madeira do Líbano e operários especializados em madeira e em pedra. Ao organizar o trabalho, Salomão convocou 30.000 homens de Israel, enviando-os ao Líbano em equipes de 10.000 a cada mês. Convocou 70.000 dentre os habitantes do país que não eram israelitas, para trabalharem como carregadores, e 80.000 como cortadores (1 Reis 5:15; 9:20, 21; 2 Crónicas 2:2). Como responsáveis pelo serviço, Salomão nomeou 550 homens e, ao que parece, 3.300 como ajudantes. (1 Reis 5:16; 9:22, 23)

A comparação do projeto do Templo de Salomão com o do tabernáculo que o precedeu demonstra que, em todos os elementos essenciais, a disposição e a proporção dos dois era tão semelhante que eram praticamente idênticos. É verdade que o tabernáculo tinha só uma câmara, enquanto o templo era rodeado de átrios, mas a estrutura interna em si, o templo propriamente dito, seguia de perto o projeto anterior. As dimensões do Santo dos Santos, do Santuário e do alpendre do templo eram exatamente o dobro das partes correspondentes do tabernáculo.
Como foi dito o templo tinha uma planta muito similar à tenda ou tabernáculo que anteriormente servia de centro da adoração ao Deus de Israel. A diferença residia nas dimensões internas do Santo e do Santo dos Santos ou Santíssimo, sendo maiores do que as do tabernáculo. O Santo tinha 60 côvados (27 m) de comprimento, 20 côvados (8,9 m) de largura e, evidentemente, 30 côvados (13,4 m) de altura. (1 Reis 6:2) O Santo dos Santos, ou Santíssimo, era um cubo de 20 côvados de lado. (1 Reis 6:20; 2 Crónicas 3:8)

Os materiais aplicados foram essencialmente a pedra e a madeira. Os pisos foram revestidos a madeira de junípero (ou de cipreste segundo algumas traduções da Bíblia) e as paredes interiores eram de cedro entalhado com gravuras de querubins, palmeiras e flores. As paredes e o teto eram inteiramente revestidos de ouro. (1 Reis 6:15, 18, 21, 22, 29)

Após a construção do magnífico templo, a Arca da Aliança foi depositada no Santo dos Santos, a sala mais reservada do edifício.

A grandiosidade desse edifício magnífico teria durado pouco. Cerca de trinta e quatro anos depois da dedicação e apenas cinco anos após a morte de Salomão, o seu declínio teve início; esse declínio logo transformou-se espoliação generalizada e, por fim, passou à profanação em si. 

Sisaque, o rei do Egito, tomou Jerusalém, (2ª Cronicas 12) a Cidade de Davi, onde ficava o templo “e tomou os tesouros da casa do SENHOR (…)”. (I Reis 14:25–26) Os egípcios não levaram toda a mobília, que anteriormente era sagrada; outros levaram parte do que sobrara dedicaram-na aos ídolos. (Ver II Crônicas 24:7.) Os atos de profanação prosseguiram durante séculos. Duzentos e dezesseis anos depois de os egípcios saquearem o lugar, Acaz, roubou alguns dos tesouros que restavam no templo e enviou parte do ouro e prata que restara como presente a um rei pagão a quem queria agradar. Além disso, retirou o altar e a pia e deixou somente uma casa no lugar onde anteriormente ficava o templo. (Ver II Reis 16:7–9, 17–18; ver também II Crônicas 28:24–25.) Posteriormente, Nabucodonosor, rei da Babilônia, terminou de saquear o templo e levar o pouco que restara de seus tesouros. Depois, ele destruiu o prédio a fogo. (Ver II Crônicas 36:18–19; ver também II Reis 24:13; 25:9.)

Foi assim que cerca de 600 anos antes do nascimento do Salvador, Israel ficou sem templo. O povo dividira-se: havia dois reinos (Israel e Judá) inimigos um do outro. O povo tornara-se idólatra e totalmente iníquo, e o Senhor rejeitara a ele e ao seu santuário. O reino de Israel, formado aproximadamente por 10 das 12 tribos, fora subjugado pela Assíria por volta de 721 a. C. e, cem anos depois, a Babilônia conquistou o reino de Judá. Durante 70 anos, o povo de Judá, que passou a ser chamado de judeu, permaneceu na servidão, exatamente como fora predito. (Ver Jeremias 25:11–12; 29:10.)

O SEGUNDO TEMPLO:

Então, durante o reinado favorável de Ciro (ver Esdras 1, 2) e de Dario (Ver Esdras 6) os judeus receberam permissão de voltar a Jerusalém e voltar a edificar um templo como prescreviam suas crenças. Em homenagem ao diretor da obra, o templo restaurado ficou historicamente conhecido como o Templo de Zorobabel. O alicerce foi colocado com uma cerimônia solene e, nessa ocasião, as pessoas mais velhas que sobreviveram e lembravam-se do antigo templo choraram de alegria. (Ver Esdras 3:12–13.) A despeito das formalidades legais, (ver Esdras 4:4–24) e outros obstáculos, o trabalho continuou e 20 anos depois de voltarem do cativeiro, os judeus estavam com o templo pronto para a dedicação. 

O Templo de Zorobabel foi terminado em 515 a.C., exatamente no terceiro dia do mês de Adar, no sexto ano do reinado de Dario. A cerimônia dedicatória foi realizada em seguida. (Ver Esdras 6:15–22.) É verdade que, no que se refere à riqueza do acabamento e da mobília, esse templo era bem inferior ao Templo de Salomão, mas era o melhor que o povo podia construir e o Senhor aceitou-o como a oferta que simbolizava o amor e devoção de Seus filhos segundo o convênio. O fato de que profetas como Zacarias, Ageu e Malaquias ministraram entre as paredes desse templo são prova da aceitação divina. 

O Templo é Profanado:

No século II a.C., o Segundo Templo foi profanado por Antíoco IV Epifânio, que mandou sacrificar uma porca sobre o altar. Este incidente deu origem à revolta dos Macabeus.

Cerca de 16 anos antes do nascimento de Cristo, Herodes I, o rei da Judéia, começou a reforma do Templo de Zorobabel, que estava deteriorado e, de modo geral, em ruínas. Ele já estava de pé havia cinco séculos e, sem dúvida, grande parte dele havia sido destruída pelo tempo.

Muitos acontecimentos da vida terrena do Salvador estão ligados ao Templo de Herodes. As escrituras deixam claro que ainda que Se opusesse aos fins vis e comerciais a que o templo havia sido entregue, Cristo reconhecia a santidade dos recintos do templo. O Templo de Herodes era um prédio sagrado; fosse qual fosse o nome que lhe dessem, para Ele, essa era a casa do Senhor. Depois, com o epílogo tristonho da grande tragédia do Calvário, quando, enfim, da cruz alçou-se agonizante o brado “está consumado”, o véu do templo rasgou-se e o que antes era o Santo dos Santos ficou descoberto. A destruição total do Templo fora predita pelo Senhor quando ele ainda vivia segundo a carne. (Ver Mateus 24:1–2; Marcos 13:1–2; Lucas 21:6.) No ano 70 d. C., o templo foi totalmente destruído pelo fogo quando os Romanos, sob o comando de Tito, tomaram Jerusalém.

Acredita-se, A única porção do Segundo Templo que ainda hoje se encontra em pé, seja o Muro das Lamentações.

O que é o “Muro das Lamentações”?

Recentemente participei de uma conversa a respeito do que vem a ser o “muro das lamentações” em Israel.

O Muro é um local considerado importante para os judeus.

Mas foi levantada a questão se ele era ou não, O “resto” do Templo Sagrado dos Judeus.

E Daniel 9:26

“E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações.”

Mateus 24:1,2

“E, QUANDO Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo. Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada.”

Isto se cumpriu literalmente, segundo registra a História em 70 D.C.

Por estas Palavras de Jesus e do Profeta Daniel que falaram Pelo mesmo Espírito, o Espírito de Deus, eu entendo que não sobrou nada do templo.

Na elevação de Moriá, Salomão construiu o magnífico templo do qual não temos nenhum vestígio.

Herodes aumentou a esplanada do templo e edificou novo santuário.

Não se descobriu nenhum resto deste templo a não ser a
muralha externa de contorno.

Desta esplanada, a parte mais importante situa-se a sudeste desses muros de arrimo.

Ele compreende 35 fileiras de pedras originais cuja altura é de 42 m, das quais metade encontra-se enterrada no solo.

O ângulo sudoeste tem 30 m de altura.

Muro das Lamentações ou Muro Ocidental: local visitado e venerado pelos judeus.

Deste muro, apenas 16 fileiras de pedras são visíveis, enquanto outras 19 encontram-se enterradas no solo, sob detritos, com uma profundidade de 20 metros.

Logo, o “Muro das Lamentações” NÃO É O RESTO DO TEMPLO SAGRADO DOS JUDEUS.

Para ver o Muro das Lamentações 24 horas por dia, numa “Webcam” que é atualizada de minuto em minuto clique no LINK aqui:

http://www.aish.com/w/

Qual a importância em se saber se é ou não o Templo Judaico?

Resposta:

Um “Terceiro Templo Judaico”, será construído (reconstruído) no Local onde era o antigo Baseado nele.

Para que seja retomada a “adoração” no Templo, e será profanado Pelo Anticristo, conforme o Profeta Daniel disse no Capítulo 9:27

“E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador.”

E foi confirmado por Jesus em Mateus 24:15

“Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, atenda;”

Concluindo a questão do Muro:

O Site de Cultura Judaica, de Judeus Messianicos chamado - Netivyah - Congregação Judaico-Messianica, Também informa que a o Muro das Lamentações não é o TEMPLO, não é a ruína do templo.

Veja o que o site informa:

MURO DAS LAMENTAÇÕES

O muro ocidental, conhecido como Muro das Lamentações, é o lugar mais sagrado e venerado pelos judeus por tratar-se da única relíquia do último templo.

O muro ocidental é uma pequena parte da muralha que Herodes construiu no ano 20 a.C. em redor do segundo Grande Templo

No ano 70, quando da destruição da cidade por Tito, este deixou de pé esta parte da muralha com seus enormes blocos de pedra, a fim de mostrar às gerações futuras, a grandeza dos soldados romanos que foram capazes de destruir o resto da edificação.

Durante o período romano, não era permitida aos judeus, a entrada em Jerusalém. Entretanto, durante o período bizantino, lhes foi permitido entrar, uma vez por ano, no aniversário da destruição, quando lamentavam a dispersão de seu povo, e choravam sobre as ruínas do Templo.

Daí o nome muro das lamentações. O costume de orar junto ao muro continuou durante o decorrer dos séculos. Entre 1948 e 1967 o acesso ao muro foi novamente proibido aos judeus, já que ele se encontrava na parte jordaniana da cidade dividida.

Depois da Guerra dos Seis Dias (5 a 10 de Junho de 1967), o Muro das Lamentações converteu-se em lugar de júbilo nacional e de culto religioso.

http://www.netivyah.org.br/simbolosjudaicos/simbolosjudaicos.html


O TERCEIRO TEMPLO:

Qual é a importância do templo da Tribulação? (o terceiro templo)

O templo da Tribulação é importante porque é o templo que muitos judeus em Israel estão tentando reconstruir no presente. Saber o que a Bíblia ensina sobre os templos do passado, presente e futuro, dá aos crentes a base necessária para ver o terceiro templo do ponto de vista de Deus. Apesar de que a esperança judaica para o próximo templo é que ele seja o templo messiânico, a Bíblia deixa claro que ele será, na verdade, o templo transitório do Anticristo.

O fato de Israel ter sido restabelecido como nação em 1948, de Jerusalém ter sido reconquistada em 1967 e dos judeus estarem fazendo esforços cada vez mais significativos para a construção do terceiro templo, demonstra que estamos chegando perto do fim da atual era da Igreja e do início da Tribulação. O cenário divino para o fim dos tempos está tomando forma e o centro das atenções é a reconstrução do templo em Jerusalém.


O QUARTO TEMPLO:

O Templo do Milênio

A Bíblia ensina em Ezequiel 40-48 que haverá um quarto templo. Esse último templo será o centro da adoração a Jesus Cristo durante o Milênio. “Filho do homem, este é o lugar do meu trono, e o lugar das plantas dos meus pés, onde habitarei no meio dos filhos de Israel para sempre; os da casa de Israel não contaminarão mais meu nome santo, nem eles nem os seus reis, com as suas prostituições e com os cadáveres dos seus reis, nos seus monumentos” (Ezequiel 43.7). “Tu, pois, ó filho do homem, mostra à casa de Israel este templo, para que ela se envergonhe das suas iniqüidades; e meça o modelo” (Ezequiel 43.10). O Antigo Testamento também se refere aos sacrifícios que acontecerão no templo do Milênio (esses sacrifícios terão uma outra conotação, pois pelo pecado da vida humana Jesus já fez todo sacrifício - Hb.10) nas seguintes passagens: Isaias 56.7; 60.7,13; 66.20-23; Jeremias 33.15-22; Zacarias 14.16-21.

Haverá Sacrifícios Literais Durante o Milênio?

A crença de que no futuro ainda haverá um templo e sacrifícios não é uma heresia; ao contrário, não acreditar nisso é que chega a ser uma heresia, principalmente porque tal predição é parte integrante da infalível Palavra de Deus. 

O que nos cabe é saber o modo pelo qual isso se harmoniza no plano de Deus. 

Pelo menos quatro outros profetas se unem a Ezequiel para afirmar que haverá um sistema sacrificial no templo do Milênio (Is 56.7; Is 66.20-23; Jr 33.18; Zc 14.16-21; Ml 3.3-4), o que apóia a interpretação literal e, por conseguinte, futurista da predição de Ezequiel. 

Sacrifícios da Nova Aliança 

Não cremos que o restabelecimento de sacrifícios em uma futura dispensação seria uma volta ao sistema mosaico da Antiga Aliança. 

A Lei Mosaica cumpriu-se de uma vez para sempre por meio de Jesus Cristo e foi descontinuada (Rm 6.14-15;Rm 7.1-6; 1 Co 9.20-21; 2 Co 3.7-11; Gl 4.1-7; 5.18; Ef 2-3; Hb 7.12; Hb 8.6-7,13; Hb 10.1-14). 

O Milênio será um período em que a Nova Aliança se constituirá no código governamental em vigor (Dt 29.4; 30.6; Is 59.20-21; Is 61.8-9; Jr 31.31-40; Jr 32.37-40; Jr 50.4-5; Ez 11.19-20; Ez 16.60-63; Ez 34.25-26; Ez 36.24-32; Ez 37.21-28; Zc 9.11; Zc 12.10-14). 

Portanto, não será um tempo de retorno ao que é antigo, mas de avanço para o que é novo, “pois, quando se muda o sacerdócio, necessariamente há também mudança de lei” (Hb 7.12). 

A nova constituição do Milênio conterá uma mescla de leis tipicamente mosaicas com leis totalmente novas, que não se encontram nos 613 preceitos da Lei Mosaica, as quais estarão em vigor na Nova Aliança. 

Em vez da presença da glória Shekinah junto à arca da aliança, Jesus, o próprio Messias, estará fisicamente presente; 

Em lugar dos outros levitas, uma nova ordem sacerdotal dos filhos de Zadoque (Ez 40.46; Ez 43.19; Ez 48.11); 

Um novo templo com medidas muito maiores do que as medidas do templo de Salomão (Ez 40.48-41.26).

Do começo ao fim das Escrituras, o propósito de um templo sempre foi o de estabelecer um local para a presença de Deus na Terra (esta que se encontra sob a maldição do pecado), lugar esse cujo cerimonial de culto revelasse a extraordinária santidade de Deus. 

O plano de Deus para Israel envolve um relacionamento com os judeus através da utilização de um templo, visto que Ele, o Senhor, deseja habitar no meio de Seu povo. 

O Milênio levará a história a voltar no tempo, para que Israel seja o povo designado por Deus como mediador, porém, será um período em que o pecado ainda se fará presente na Terra. 

Por isso, nessa época por vir, Deus há de estabelecer um novo templo, um novo sacerdócio. 

Isso contrasta com o fato de que na eternidade não haverá nenhum templo (Ap 21.22), porque Deus e o Cordeiro são o Templo; uma vez que no céu não existirá pecado, também não haverá necessidade de um cerimonial de purificação. 

O detalhamento meticuloso observado nos capítulos 40-48 do livro de Ezequiel assemelha-se à instrução dada por Deus a Moisés para a construção do tabernáculo e, posteriormente, a outros para a construção do templo de Salomão. 

Tal detalhamento não faria o menor sentido se não fosse interpretado literalmente como aconteceu no caso do tabernáculo e dos dois primeiros templos. 

Também é preciso lembrar a declaração bíblica de que os sacrifícios levíticos do sistema mosaico eram para fazer “expiação” (por exemplo, Levítico 4.20,26,31, 35, etc.). 

Se esses sacrifícios do passado realmente tivessem expiado a culpa dos pecados das pessoas (o que obviamente não aconteceu), da mesma forma seriam uma ofensa à luz do perfeito sacrifício de Cristo. 

Em Hebreus 10.4 está escrito: “Porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados”. 

Além do mais, se aqueles sacrifícios do passado tivessem cumprido a finalidade de fazer a expiação e remover pecados, não haveria necessidade do sacrifício expiatório definitivo de Jesus Cristo. 

Nesse caso, qual seria a finalidade dos sacrifícios, tanto os do passado quanto os do futuro, já que eles, de fato, não removem o pecado? 

Esses sacrifícios efetuam a purificação cerimonial dos sacerdotes, do santuário e de seus utensílios. Somente o sacrifício de Jesus Cristo, realizado na cruz do Calvário, remove efetivamente o pecado. 

O presente estudo sugere que os sacrifícios de animais oferecidos durante o Milênio servirão fundamentalmente para remover a impureza cerimonial e evitar que qualquer contaminação profane o templo previsto por Ezequiel. 

Isso se fará necessário porque a gloriosa presença de Deus, (Yahweh) habitará outra vez na Terra no meio de um povo pecaminoso e impuro. 

Além do mais, deve-se acrescentar que tal sistema sacrificial ainda será temporário, pelo fato de que o Milênio (com parte de sua população composta de seres humanos em seus corpos naturais não glorificados) durará somente mil anos. 

Na Bíblia há vários propósitos para o sacrifício. 

Sob a Lei Mosaica, muitos sacrifícios eram cerimoniais de purificação. 

Essa é a razão pela qual se pode afirmar que a expiação fora eficaz no passado, contudo ainda requeria o futuro sacrifício de Cristo, porque muitos sacrifícios, na realidade, proporcionaram expiação cerimonial, purificando os participantes e objetos do ritual do templo. 

No texto de Ezequiel 43.20 e 26, a expiação destina-se especificamente à purificação do altar, a fim de torná-lo ritualmente limpo. 

Os outros usos da expiação também se referem à purificação de objetos e utensílios para que se preserve a pureza cerimonial na correta adoração (Ez 45.15,17,20).

Esses sacrifícios do Milênio servirão como um memorial da obra expiatória de Cristo efetuada de uma vez para sempre. 

A base de defesa do aspecto memorial futuro pode advir do fato de que nossa atual compreensão da Ceia do Senhor incorpora esse aspecto memorial (1 Co 11.23-26). 

Sob a Lei Mosaica – cuja perspectiva contemplava o futuro – há vários casos de sacrifícios no templo que são especificamente denominados “memoriais” (Êx 30.16; Lv 2.2,9; Lv 5.12; Lv 6.15; Lv 24.7; Nm 5.15,18,26). 

Tal terminologia pode, de fato, ser a base de nosso entendimento, nesta atual era da Igreja, acerca da recordação da morte do Senhor, conforme adotada pelo apóstolo Paulo. 

O aspecto memorial mosaico oferece nítido suporte para essa interpretação dos futuros sacrifícios no templo, a saber, a de que crentes do Milênio rememorarão a provisão sacrificial de Cristo.

Analise As Profecias e Viva com Esperança!

Leia Tamnem nosso artigo: O Milênio e Suas Caracteristicas. Publicado aqui mesmo.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/feeds/6089471882724795019/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/a-reconstrucao-do-templo-e-profecia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/6089471882724795019'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1881440988280989601/posts/default/6089471882724795019'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pontodeencontroevangelico.blogspot.com/2014/07/a-reconstrucao-do-templo-e-profecia.html' title='A Reconstrução do Templo e A Profecia Tipo: Estudos bíblicos / Autor: Pr. Rodrigo M. de Oliveira'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1881440988280989601.post-3523470482129470348</id><published>2014-07-14T16:19:00.003-03:00</published><updated>2014-07-14T16:19:34.196-03:00</updated><title type='text'>PROFECIAS ANTIGAS SOBRE O ANTICRISTO. LEIA E JULGE?</title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
O AntiCristo é um assunto que aparece em diversas profecias. Segundo pude entender, ele será uma pessoa que nascerá na região de Israel, como Jesus, e ao atingir a idade de trinta anos, subirá ao poder. Ele será o oposto de Cristo. Enquanto Cristo pregava o bem e o amor ao próximo, exaltando a humildade e condenando o egoísmo, a hipocrisia e a arrogância, o AntiCristo exaltará os maus, os arrogantes e condenará os humildes à morte, apoiado por um grande exército.
Sobre o AntiCristo, mais do que qualquer outro assunto, existem profecias que se contradizem. Acredito que ele será filho de um bispo com uma falsa religiosa. Mas há outras profecias que dizem que ele será filho de um ladrão com uma prostituta, etc. A primeira opção me parece provável porque ela é antiga e a aparição de Maria a Melanie Calvat em La Salette, na França, no século passado disse também que ele seria filho de um bispo com uma religiosa. E como a aparição foi para uma criança que morava numa zona rural, me parece pouco provável que a Melanie tivesse tido acesso a profecias antigas que dizem que ele será filho de bispo com uma religiosa para inventar tal coisa. 

O prefixo grego &quot;anti&quot; possui dois sentidos: oferece a idéia de substituição e oposição. O AntiCristo seria, portanto, uma pessoa que se oporia às idéias de irmandade, amor e caridade deixadas por Cristo na terra para semear o oposto. Esta é a idéia de oposição. Ele também diria ser o próprio deus e que não houve outro antes dele. Esta é a idéia de substituição. Há, certamente, profecias reais sobre o AntiCristo, mas talvez algumas delas  não sejam muito mais do que simples ensaios feitos em relação ao significado de &quot;anticristo&quot;.  

Os textos mais antigos que falam sobre o AntiCristo são os textos bíblicos do antigo testamento, ainda que o termo &quot;anticristo&quot; não seja mencionado, ele é indentificado com outros termos. Na mitologia de alguns países, ele também parece estar presente. Thor, um deus germânico, enfrenta um inimigo: a &quot;serpente cósmica de Jörmungand, que rodeia o mundo e que no final dos tempos se voltará contra os deuses&quot;. Há uma grande semelhança com a tradição que diz que São Miguel ou o próprio Jesus lutará contra o AntiCristo (o demônio ou serpente) no fim dos tempos.  

O livro de Daniel foi uma das referências básicas da literatura do AntiCristo na Idade Média. (Daniel, 7: 7-8). No Novo Testamento, ele é citado, por exemplo, na epístola de João (1:2-22) e na segunda epístola de Paulo aos Tesalonicenses (2:3-4), onde São Paulo diz que o AntiCristo se sentará no templo de Deus (após matar o último Papa e/ou a reconstrução do Templo de Jerusalém). 

No Evangelho de Mateus (24: 15-16), Cristo disse: &quot;quando virdes a abominação da desolação, que foi predita pelo profeta Daniel, posta no lugar santo - o que lê entenda - então os que se acham na Judéia, fujam para os montes...&quot;. Esta passagem, que  é traduzida de várias formas por diferentes bíblias, como &quot;quando virdes o ídolo do invasor instalado no templo&quot; ou ainda &quot;quando virdes o abominável devastador instalado no lugar santo&quot; quer dizer, segundo a interpretação geral: quando o AntiCristo estiver sentado no trono do templo (do Papa ou o Templo de Jerusalém).  

Segundo um livro apócrifo da Ascensão de Isaías e uma interpretação antiga do número 666, associado às dimensões da estátua de Nabucodonosor (profecia de Daniel), o AntiCristo ordenaria que estátuas de Maria e Jesus, presentes em casas de católicos, fossem destruídas e que sua imagem fosse colocada dentro das casas e adorada como a imagem de um Deus. Ele teria ainda, de acordo com outras profecias, o poder de fazer milagres (falsos segundo algumas profecias), e seria um líder militar, com um grande exército ao seu dispor, com o qual ameaçaria com a morte e guerra aqueles que resistissem à adorá-lo.   

As profecias sobre o AntiCristo aparecem também em outros livros antigos apócrifos como no Livro de Enoch, no Apocalipse de Baruch, no livro da Assunção de Moisés, nos Apocalipses de Pedro, de Moisés, de Paulo, de Tomás, de Bartolomeu e outros. O Apocalipse apócrifo de São Tomé diz: 

&quot;haverá grandes sinais e maravilhas naqueles dias, quando o AntiCristo estiver próximo&quot;. 

No Apocalipse apócrifo de Pedro: 

“(...) Nos últimos dias virão Cristos (os apóstolos do AntiCristo) e aumentarão as expectativas dizendo: Eu sou o Cristo, e agora estou no mundo. E quando eles (os escolhidos) perceberem a maldade de seus atos, eles se afastarão dele e o negarão e mesmo o Cristo a quem eles crucificaram e portanto cometerão um grande pecado. Mas este enganador não é o Cristo. E quando eles o rejeitarem, ele os matará com a espada e haverá muitos mártires. Muitos se tornarão mártires.” 

No apócrifo conhecido como Palavra e Revelação de Esdras, o Santo Profeta e Amado de Deus, Deus conduz Esdras pelos céus: 

&quot;E eles me levaram para o norte e eu vi lá um homem atado com correntes de ferro. E perguntei. Quem é este? E ele me disse: Este é aquele que disse (ou dirá) ‘Eu sou o Filho de Deus, que fez das pedras pão, e das águas vinho’. E o profeta disse: ‘Meu senhor, deixe-me saber sua forma e direi aos homens, para que não acreditem nele’&quot;. 

Existem, talvez, centenas de profecias sobre o AntiCristo. Um dos estudos antigos mais interessantes sobre o AntiCristo trata-se de uma carta ou um tratado escrito entre 949 e 954 na França pelo monge Adso, a pedido da rainha Gerberga. Este documento é um conjunto de idéias sobre o que os principais estudiosos da época pensavam a respeito e citá-lo aqui tem o mesmo valor que citar dezenas de outras profecias, devido a grandiosidade de informações contida no documento, chamado de Epistola Adsonis ad Gergergam Reginam de Ortu et Tempore Antichristi. Vale lembrar que algumas as afirmações contidas no tratado do monge Adso podem ser incorretas, entretanto a maioria delas parece-me correta, já que muitos outros profetas falam de coisas semelhantes. 

“Grande Rainha, que sempre vos aplicais com pio zelo ao estudo das Santas Escrituras e amais dialogar sobre vosso Redentor. Vós desejais também ser instruída a respeito do Anticristo e saber até onde chega sua iniquidade e como será cruel a perseguição que este suscitará contra a Igreja. Desejais, estar informada também, sobre seu nascimento e seu poder. Transcreverei aqui as coisas que, desde agora, parecem certas a respeito do Anticristo. 
Em primeiro lugar, devo explicar porque ele será chamado de AntiCristo: acontece que em todas as coisas será o oposto do Cristo, e em todas as ocasiões fará exatamente o contrário do que Cristo fez. O Cristo era humilde, ele será orgulhoso; o Cristo ergueu os humildes e chamou os pecadores ao arrependimento; ele desprezará os humildes e enaltecerá os pecadores, exaltará os ímpios e não deixará de propagar o vício. Abolirá a lei evangélica; restaurará no mundo o culto aos demônios; buscará sua própria glória e exigirá ser chamado de deus Todo-Poderoso. 

O que eu digo, não invento nem tiro de mim mesmo. Estas são coisas escritas que encontrei em livros lidos e relidos com atenção. Como dizem nossos autores, o AntiCristo sairá do povo judeu da tribo de Dan, seguindo a antiga profecia: “Eis que Dan se tornou cobra no caminho e serpente na trilha: mordeu o pé do cavalo na esperança de fazer o cavaleiro perder os estribos’ (Gen. XLIX-17). Será, portanto, parecido com a serpente na tocaia no caminho e oculta na margem da trilha, para golpear os que tomam o caminho da justiça (Salmo XXII.3) e para envenená-los com sua malícia. Nascerá como os outros de um pai e uma mãe, mas não de uma virgem, como falsamente dito por alguns supostos iluminados. E também não de um bispo e de uma religiosa, como outros dizem, mas de uma mulher perdida e impura e de um bandido abominável. Será completamente concebido no pecado, engendrado no pecado e parido no pecado. 

(...) Nosso Senhor e redentor escolheu Belém como a cidade eleita onde lhe convinha vir ao mundo assumindo sua natureza humana. Da mesma forma, o diabo escolheu de antemão o lugar onde viria o homem da perdição nascer, o AntiCristo, e escolheu a cidade que foi a origem de todos os vícios e a instigadora de todos os crimes: estou falando da Babilônia.  

O AntiCristo estará sempre cercado de magos, feiticeiros, bruxos e adivinhos. Estes serão seus mentores e mestres e todos estarão guiados pelo demônio. Eles o iniciarão nas ciências nefastas e na prática de todas as impiedades. Os espíritos maléficos serão seus chefes, seus associados, seus companheiros de armas e prazeres e nunca se afastarão dele.  

Ao atingir a idade varonil, irá a Jerusalém, onde deixará perecer, nos mais atrozes suplícios, aqueles cristãos que não conseguir converter à sua doutrina e levantará seu trono no tempo santo. De fato, reedificará o templo sagrado que Salomão erigiu, outrora, dedicando-o ao Senhor; restaurará o seu antigo esplendor e nele residirá depois de se declarar falsamente o filho único de Deus Altíssimo. 

Primeiro atrairá os reis e os príncipes da Terra e através destes, os outros homens. Ele gostará de visitar os lugares já visitados por Nosso Senhor Jesus Cristo e destruirá completamente todos aqueles que ainda contam a glória do Salvador. Em seguida, enviará a todo o mundo mensagens e missionários. Através de seus representantes ou através de sua própria pessoa, seu poderio se estenderá de um mar a outro, do Oriente ao Ocidente, do Setentrião ao Meio-dia. 

Ele fará muitos prodígios e milagres nunca vistos até então. A seu mando, o fogo descerá do céu; as árvores crescerão de repente e de repente se encherão de flores e frutos; o mar se tornará furioso e será logo acalmado; os objetos serão aparentemente transformados; as águas subirão em direção às nascentes, contrariando as leis da natureza; o ar será violentamente agitado pelos ventos e pelas tempestades. 

Ele efetuará outras maravilhas que deixarão os homens estupefatos. Assim, ressuscitará publicamente os mortos e será tamanho seu prestígio que ‘até os próprios escolhidos, se possível, seriam desencaminhados’. (Mat. XXIV-24). Mas tudo isso será mentira e uma afronta à verdade. Será através das artes mágicas e de fantasmagorias que ele se imporá à credulidade dos homens, como Simão o Mago, que substituiu a sua própria pessoa por um cordeiro e assim enganou o homem que pretendia golpeá-lo até a morte.  

Entretanto, as testemunhas destes estranhos prodígios, até os perfeitos e predestinados, se interrogarão inquietos, querendo saber se ele não é, por acaso, o Cristo triunfante, cuja vinda foi anunciada pelas profecias, para o fim dos tempos. Mas, se sua fé vacilar, eles serão preservados da queda final, pois estes prodígios serão apenas artifícios diabólicos e apenas os pecadores calejados e os malvados os aceitarão como autênticos.  

O AntiCristo provocará no mundo inteiro uma terrível perseguição contra os cristãos e contra os justos. Utilizará três tipos de armas contra os fiéis: o terror, os presentes e os milagres. Acumulará de ouro e de prata os que acreditarão nele – porque em seu tempo, todos os tesouros ocultos nas profundezas da terra e nos abismos dos mares serão descobertos. Os homens que não puder corromper com os presentes, ele tentará domar pelo terror, os que resistirem ao terror, ele tentará seduzir com o espetáculo de seus prodígios; e os que saírem vitoriosos dessa prova suprema, ele matará, na presença do povo, em meio a terríveis suplícios.  

Depois de falar do AntiCristo, só resta falar de seu fim. Quando este filho do demônio tiver atormentado o mundo durante três anos e meio, submetendo o povo de Deus aos mais refinados suplícios e outorgando, assim, a coroa do martírio aos fiéis que se mantiveram perseverantes na fé, chegará finalmente, para ele o dia do juízo de Deus, como escreveu o santo apóstolo Paulo. “‘O Senhor destruirá com um sopro de Sua boca e o aniquilará com o esplendor de sua aparição’ (2ª Carta aos Tessalonicenses, II-8).  

O esplendor desta aparição de Cristo será de tal forma fulgurante que se parecerá com um raio de luz ainda não criada. A Besta será tomada por um terror incoercível, as vísceras sairão de seu corpo, como as de Judas, ficará assim, todo sujo e perecerá, sem que qualquer pessoa lhe preste auxílio”. 
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____________________Flávio Josefo____________________


HISTÓRIA
dos
HEBREUS
De Abraão à queda de Jerusalém







Traduzido por
Vicente Pedroso



Preparação dos originais: Judson Canto, Kleber Cruz e Reginaldo de Sousa
Revisão: Daniele Pereira, Kleber Cruz e Luciana Alves
Capa: Áquila Grativol
Projeto Gráfico: Eduardo Evangelista
Editoração: Josias Finamore
ISBN: 85-263-0641-3



CDD: 956.94 – Hebreus – História

As citações bíblicas foram extraidas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995 da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.

Casa Publicadora das Assembléias de Deus
Caixa Postal 331
20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
8ª edição: 2004





















I Parte
Antiguidades
Judaicas










Apresentação

Flávio Josefo foi um escritor e historiador judeu que viveu entre 37 e 103 d.C. Seu pai era sacerdote, e sua mãe descendia da casa real hasmoneana. Portanto, Josefo era de sangue real. Ele foi muito bem instruído nas culturas judaica e grega. Falava perfeitamente o latim — o idioma do Império Romano — e também o grego. Logo cedo, demonstrou intenso zelo religioso, filiando-se ao grupo religioso dos fariseus. Durante toda a sua vida, a sua terra e o seu povo estiveram sob o domínio romano.
Em 66 d.C, irrompeu uma revolta dos judeus contra os romanos, e josefo foi enviado para dirigir as operações contra os dominadores, na turbulenta Galileia. Aí ele logrou algumas vitórias, mas logo foi derrotado, rendendo-se ao exército romano. Finda a guerra, foi conduzido a Roma, onde lhe conferiram a cidadania romana e também uma pensão do Estado, época em que lhe foi dado o nome romano de Flávio. Ele viveu em Roma até o fim de sua vida, escrevendo a obra que atravessaria os séculos e chegaria até nós. Depois da Bíblia, é a maior fonte de informações sobre os impérios da Antigüidade, o povo judeu e o Império Romano.
As obras de Josefo vêm sendo preservadas e divulgadas pela Igreja cristã, uma vez que os judeus até hoje consideram josefo um oportunista, devido ao seu relacionamento com os romanos.
Qualquer estudante da Bíblia encontrará em Flávio Josefo descrições minuciosas de personagens dos Evangelhos e de Atos do Apóstolos, tais como Pilatos, os Agripas e os Herodes. A história desses personagens e inúmeros pormenores do mundo greco-romano, relatados nesta obra, receberam surpreendente confirmação com as recentes descobertas de Qunram e Massada, em Israel, as quais conferiram aos relatos de Josefo uma credibilidade ainda maior.
A CPAD publicou inicialmente a obra completa de Flávio Josefo em três volumes, reunindo-a depois num único livro. Agora, apresentamos esta nova edição, também em volume único, porém totalmente revisada e com nova diagramação. Com isso, pretendemos colocar à disposição dos nossos leitores um trabalho com a qualidade editorial exigida por uma obra de tal envergadura.
Os editores




A importância da História
para se Compreender o Plano de Deus

Flávio Josefo é considerado um dos maiores historiadores de todos os tempos. Acha-se ele, devido à sua importância não somente aos judeus mas também a toda a humanidade, ao lado de Herodoto, Políbio e Estrabão. Embora não fosse profeta, e apesar de não contar com a inspiração dos escritores bíblicos, mostra-nos ele claramente como as profecias do Antigo Testamento cumpriram-se na vida dos filhos de Abraão.
O que isto vem demonstrar? Que a história, qual solícita e amável serva dos desígnios divinos, tem como função realçar a intervenção do Todo-Poderoso nos negócios humanos. Vejamos, a seguir, como podemos definir a história. No Dicionário Teológico, assim a conceituamos:
&quot;A palavra história é de origem grega. Vem de histor. &quot;Aquele que sabe, que conhece, conhecedor da lei, juiz.&quot; Aprofundando-nos um pouco mais em sua etimologia, descobrimos que este vocábulo origina-se da raiz de um termo que significa conhecer: &quot;id&quot;.
&quot;Cientificamente, a História pode ser definidada como a narração metódica dos principais fatos ocorridos na vida dos povos, em particular, e na vida da humanidade, em geral.
&quot;Usada pela primeira vez por Herodoto (484-425 a.C), tinha a palavra história as seguintes conotações: informação, relatório, exposição.
Na mesma obra, discorremos ainda sobre a função da história:
&quot;David Ben Gurion lia regularmente a História Universal. Por causa deste seu compromisso com o estudo das antigas civilizações, conforme disse, certa vez, ao escritor brasileiro, Érico Veríssimo, não tinha tempo para outros entretenimentos. Se pudéssemos perguntar ao fundador do Estado de Israel o por quê desta sua preferência, certamente responder-nos-ia com estas palavras de Cícero:
&quot;Ignorar... o que aconteceu antes de termos nascido eqüivale a ser sempre criança&quot;. Como um estadista não se deve portar infantilmente, punha-se Ben Gurion aos pés da História para não repisar as asneiras passadas.
&quot;Desgraçadamente, bem poucos foram os governantes que se dedicaram ao exame do pretérito. Eis porque são tão lamentáveis nossas crônicas; e, nossas memórias, tão cruentas. Que lições de História assimilou Napoleão? Apenas aquelas que contavam as glórias de Alexandre? E, Hitler? Limitou-se a circunscrever-se às efemeridades do Império Romano? Isto é aprender História? Não! É repetir as idiotices de ontem com o nariz enterrado no dia anterior.
&quot;Sendo didática a função primordial da História, com ela aprendemos a olhar o mundo de forma retrospectiva e perspectiva. Para que o primeiro olhar seja límpido, é mister que comecemos a estudar a História Universal pelas Sagradas Escrituras. Afinal, teremos de responder a algumas perguntas que, embora simples, não deixam de ser complexas e intrincadas àqueles que ignoram os escritos hebreus e cristãos. Eis as perguntas que tanto nos desafiam: Quem criou o Universo? Quem foram nossos primeiros pais? Proviemos todos de um mesmo tronco genético? E: Foi realmente Deus quem nos criou?
&quot;Das respostas a estas indagações é que se formarão nossas filosofias de vida e de governo.
&quot;Quanto ao segundo olhar, é desnecessário dizer que ele depende essencialmente do primeiro. Só conseguiremos trafegar com segurança, se os nossos retrovisores não estiverem quebrados. Doutra forma: atropelaremos o futuro por não perceber que o presente é uma estrada de mão dupla; e, que os semáforos desta via tão irregular, nem sempre funcionam. Quando funcionam, o verde passa para o vermelho sem nenhuma contemplação. Mas quem aprende com a História Sagrada; e, da História Universal, faz-se discípulo (ambas são regidas pelo Altíssimo) sabe avançar e parar. Quando necessário, espera. Isto é aprender História: estar com os olhos no futuro, com o espírito no pretérito, e com o coração sempre presente&quot;.
O historicismo, porém, desconhece por completo a ação de Deus na história. Vejamos, em primeiro lugar, o que vem a ser esta filosofia. O historicismo é a &quot;filosofia que ensina estarem todos os acontecimentos e fatos humanos condicionados pelas circunstâncias históricas. Desta forma, a religião, a moral e o direito nada mais são do que resultados dos vários processos e movimentos da história. Como se vê, este método torna as coisas relativamente perigosas, inclusive a religião e a moral, induzindo o ser humano a deixar de lado os valores absolutos, a fim de se apegar às circunstâncias&quot;
Quando a história é fielmente relatada, afigura-se-nos ela como algo além da história; poderíamos denominá-la, sem cometermos qualquer exagero, como a História da Salvação. Recorramos, uma vez mais, à obra já citada: &quot;A História da Salvação é ação redentiva de Deus no contexto da História, conduzindo amorosa e providencial-mente os filhos de Adão a usufruírem do sacrifício vicário de Nosso Senhor Jesus Cristo.
&quot;Jesus é o personagem central da História da Salvação, que compreende quatro momentos distintos: o Antigo Testamento, o Novo Testamento, a História da Igreja de Cristo e a consumação de todas as coisas.
&quot;Num sentido mais amplo, a História da Salvação compreende toda a História Universal; pois esta, à semelhança daquela, também é comandada por Deus. Num sentido mais estrito, a História da Salvação é o conjunto dos fatos que compõem a vida e o ministério de Nosso Senhor Jesus Cristo, que culminaram com a sua morte e ressurreição&quot;.
A obra de Flávio Josefo é uma leitura obrigatória aos que desejam conhecer a história judaica, principalmente o período que marcou a segunda maior tragédia dos filhos de Abraão - a destruição do Santo Templo no ano 70 de nossa era. Neste relato, observamos, claramente, como a profecia de Cristo, no que tange à ruína de Jerusalém, cumpriu-se nos mínimos detalhes. Embora Josefo não fosse cristão, demonstrou de forma indireta estarem os cristãos mais do que certos em depositar sua confiança em Jesus de Nazaré.
Josefo não se limitou à historiografia; foi um consumado artista da palavra. Num estilo vivido, demonstra quão preciosa é a herança espiritual, cultural e emocional dos hebreus. Tantos nas Antigüidades Judaicas, como na Guerra dos Judeus, vai desvendando as conquistas da alma israelita. É claro que, nas Antigüidades Judaicas, Josefo não agiu propriamente como historiador. Dando asas à imaginação, coletando o exotismo do folclore judaico e aferrando-se à hermenêutica dos anciãos, narrou a seu modo os fatos que compõem a história do Antigo Testamento. Na Guerra dos Judeus, porém, escreveu o que testemunhara ele ocularmente, pois atuou como um de seus personagens.
De qualquer forma, temos uma obra indispensável aos que se dedicam à história judaica. É uma leitura obrigatória aos que procuram saber os detalhes da desventura da nação judaica no ano 70 de nossa era.
Claudionor Corrêa de Andrade
 


Prefácio de Josefo

De todas as guerras que se travaram, quer de cidade contra cidade, quer de nação contra nação, o nosso século ainda não viu outra tão grande — e não sabemos que tenha havido outra semelhante — como a que os judeus sustentaram contra os romanos. Houve, no entanto, pessoas que se dispuseram a escrevê-la, embora por si mesmas dela nada soubessem, baseando os seus conhecimentos apenas em informações vãs e falsas. Quanto aos que nela tomaram parte, a sua bajulação aos romanos e o seu ódio pelos judeus os fez relatar as coisas de maneira muito diferente do que eram na realidade. Os seus escritos estão cheios de louvores a uns e censuras a outros, sem qualquer preocupação com a verdade. Foi isso o que me fez decidir escrever em grego, para satisfação daqueles que estão sujeitos ao Império Romano e para informar as outras nações, o que escrevi há pouco em minha língua.
Meu pai chamava-se Matatias. Meu nome é Josefo, e sou hebreu de nascimento, sacerdote em Jerusalém. No princípio, combati contra os romanos, e a necessidade, por fim, me obrigou a empreender a carreira das armas.
Quando essa grande guerra começou, o Império Romano era agitado por questões internas. Os judeus mais jovens e exaltados, confiando em suas riquezas e em sua coragem, suscitaram tão grande perturbação no Oriente, para aproveitar a ocasião, que povos inteiros tiveram receio de lhes ficar sujeitos, porque eles haviam chamado em seu auxílio os outros judeus que habitavam além do Eufrates, a fim de se revoltarem todos juntamente. Foi depois da morte de Nero que se viu mudar a face do império. A Gália, vizinha da Itália, sublevou-se. A Alemanha não estava tranqüila, e muitos aspiravam ao soberano poder. Os exércitos desejavam a revolução, na esperança de com isso serem beneficiados mo-netariamente.
Como todas essas coisas eram por demais importantes, a tristeza que senti ao ver que se desvirtuava a verdade fez-me tomar o cuidado de informar exatamente aos partos, aos babilônios, aos mais afastados entre os árabes, aos judeus que habitam além do Eufrates e aos atenienses acerca da causa dessa guerra, bem como de tudo o que se passou e de que modo ela chegou ao fim. E não posso ainda agora tolerar que os gregos e os romanos, que não estavam presentes, a ignorem e sejam enganados pela bajulação desses historiadores, que só lhes narram fábulas.
Confesso não poder compreender a imprudência deles, quando, para fazer passar os romanos pelos primeiros de todos os homens, rebaixam os judeus. Será uma grande glória superar inimigos pouco temíveis? Ignoram eles as forças poderosas empregadas pelos romanos nessa guerra, durante o tempo em que ela durou, e as dificuldades que suportaram? Não consideram eles que é diminuir o mérito extraordinário de seus generais minimizar a resistência que o valor dos judeus os fez experimentar na execução de tão difícil empreendimento?
Evitarei bem imitá-los, revelando, além da verdade, os feitos dos de minha nação, tal como eles relataram os dos romanos. Farei justiça a uns e a outros, expondo os fatos sinceramente. Nada afirmarei que não possa provar e não procurarei outro alívio à minha dor senão deplorando a ruína de minha pátria — ainda mais quando o próprio imperador Tito, que teve a direção de toda a guerra e dela fez referência como testemunha, reconheceu que as divisões domésticas foram a causa de nossa derrota e que não foi voluntariamente, mas por culpa daqueles que se haviam tornado os nossos tiranos, que os romanos incendiaram o nosso Templo. Esse grande príncipe não somente teve compaixão desse pobre povo, vendo-o correr para a sua própria ruína, pela violência daqueles facciosos, como também ele mesmo muitas vezes adiou a tomada da praça para lhes dar tempo e ocasião de se arrepender.
Se alguém julgar que o meu ressentimento pela infelicidade de meu país me motivou, contra as leis da história, a acusar fortemente os responsáveis por ela, que acrescentaram ladroeira pública à sua tirania, devem perdoar-me e atribuí-lo à minha extrema aflição. E ela não poderia ser mais justa, pois entre tantas cidades sujeitas ao Império Romano não se encontrará uma que, como a nossa, tendo sido elevada a tão alto grau de honra e de glória, tenha caído em miséria tão espantosa que, creio eu, desde a criação do mundo jamais se presenciou algo semelhante. A isso, acrescente-se que não é a inimigos externos, mas a nós mesmos, que devemos atribuir as nossas desgraças. Assim, como me poderei conter em tamanha dor? No entanto, ainda que algumas pessoas não se deixem comover por essa consideração e desejem condenar com rigor um sentimento que me parece tão razoável, elas poderão ater-se à minha história somente nas coisas que refiro, sem se incomodar com as minhas queixas, admitindo-as apenas como uma efusão da alma do historiador.
Confesso que muitas vezes censurei — com razão, parece-me — os mais eloqüentes gregos porque, embora as coisas acontecidas no seu tempo sobrepujem em muito as dos séculos que os precederam, eles contentam-se em julgá-las sem nada escrever e em censurar os que as escreveram, sem considerar que, se estes lhes são inferiores em capacidade, têm sobre eles a vantagem de haver servido o bem público com o seu trabalho. Esses mesmos censores dos outros escrevem o que se passou entre os sírios e os medos como tendo sido mal narrado pelos antigos escritores, embora estes não lhes sejam menos inferiores na maneira de bem escrever que no intento que tiveram ao fazê-lo, pois só referiram e quiseram referir as coisas de que tinham conhecimento e teriam tido vergonha de falsear a verdade.
Assim, não poderíamos deixar de louvá-los após terem dado à posteridade o conhecimento do que se passou no seu tempo, que ainda não havia aparecido em público. Eles devem ser tidos como os mais hábeis, pois, em vez de trabalhar sobre as obras de outros, trocando somente a ordem, escrevem coisas novas e compõem um corpo de história que somente a eles se deve. Por mim, posso dizer que, sendo estrangeiro, não houve despesa que eu não fizesse nem cuidado que não tomasse para informar os gregos e os romanos de tudo o que se refere à nossa nação. Os gregos, ao contrário, falam muito quando se trata de sustentar os seus interesses, quer em particular, quer perante os juizes, mas se calam quando é preciso reunir com muita dificuldade tudo o que é necessário para compor uma história verdadeira e não acham estranho que aqueles que nenhum conhecimento têm dos feitos dos príncipes e dos grandes generais e são incapazes de os descrever ousem fazê-lo. Isso mostra que nós procuramos a verdade da história tanto quanto os gregos a desprezam e disso se descuidam.
Eu teria podido dizer qual foi a origem dos judeus, de que maneira saíram do Egito, por quais províncias vagaram durante longo tempo, as que ocuparam e como passaram a outras. Mas, além do fato de que isso não se refere a este tempo, eu o julgaria inútil, pois vários de meus compatriotas já o escreveram, com muito cuidado, e os gregos traduziram essas obras para a sua língua sem se afastar muito da verdade. Assim, começarei a minha história por onde os seus autores e os nossos profetas concluíram as suas. Referirei particularmente, com toda a exatidão que me for possível, a guerra que se travou no meu tempo e contentar-me-ei em tocar brevemente o que se passou nos séculos precedentes.
Direi de que modo o rei Antíoco Epifânio, depois de tomar Jerusalém e de tê-la possuído durante três anos e meio, de lá foi expulso pelos filhos de Matatias, hasmoneu; como a divisão suscitada entre os seus sucessores, com relação à posse do reino, atraiu os romanos sob o comando de Pompeu; como Herodes, filho de Antípatro, com o auxílio de Sósio, general do exército romano, pôs fim à dominação dos príncipes hasmoneus; como, depois da morte de Herodes, sob o reinado de Augusto, sendo Quintílio Varo governador da Judéia, o povo se revoltou; como, no décimo segundo ano do reinado de Nero, começou a guerra, que se deu sob Céstio, que comandava as tropas romanas; quais foram os primeiros feitos dos judeus e as praças que eles fortificaram; como as perdas sofridas em várias ocasiões por Céstio fizeram Nero temer pelo êxito de suas armas, entregando-as a Vespasiano; como esse general, acompanhado pelo mais velho de seus filhos, entrou na judéia com um grande exército romano; como um grande número de suas tropas auxiliares foi desbaratada na Galileia; como ele tomou algumas cidades dessa província e outras, que se entregaram a ele.
Referirei também, sinceramente e segundo o que presenciei e constatei com os meus próprios olhos, o proceder dos romanos em suas guerras, a sua ordem e a sua disciplina; a extensão e a natureza da Alta e da Baixa Galileia; os limites e as fronteiras da judéia, a qualidade da terra, os lagos e as fontes que aí se encontram; e os males suportados pelas cidades que foram tomadas. Não deixarei de mencionar, do mesmo modo, as calamidades que eu mesmo experimentei em minha vida e que são bem conhecidas.
Direi também como a morte de Nero aconteceu, estando já em péssimo estado os interesses dos judeus e os do império; como Vespasiano, que se apressava para marchar contra Jerusalém, foi chamado a Roma; os presságios que ele teve de sua futura grandeza; as mudanças sucedidas na capital do império; como ele, contra a sua vontade, foi declarado imperador pelos soldados e como foi ao Egito dar as ordens necessárias; como a judéia foi agitada por novas perturbações; como surgiram tiranos uns contra os outros; como Tito, à sua volta do Egito, entrou duas vezes naquela província; como e em que lugar ele reuniu o seu exército; como e quantas vezes ele próprio testemunhou as sedições que se sucederam em Jerusalém; suas aproximações e todas as dificuldades que enfrentou para atacar essa praça; qual era a torre dos muros da cidade, a sua fortificação e a do Templo; a descrição do Templo, as suas medidas e as do altar — nisso nada omitirei.
Falarei das nossas festas solenes, das cerimônias que nelas se observam, das sete espécies de purificação; das funções dos sacerdotes, de seus hábitos e dos do sumo sacerdote; e da santidade do Templo, sem nada deturpar ou acrescentar. Farei ver também a crueldade de nossos tiranos contra os de sua própria nação e a humanidade dos romanos para conosco, sendo que éramos estrangeiros com relação a eles. Mostrarei também quantas vezes Tito se esforçou para salvar a cidade e o Templo e reunir os que estavam tão obstinadamente divididos. Falarei dos muitos e diversos males suportados pelo povo, o qual, depois de sofrer todas as misérias que a guerra, a carestia e as sedições podem causar, ainda se viu reduzido à servidão, pela tomada dessa grande e poderosa cidade.
Não me esquecerei também de dizer em que desgraças caíram os desertores da nação, a maneira como o Templo foi queimado, contra a vontade de Tito, a quantidade de riquezas consagradas a Deus que o fogo destruiu, bem como a destruição completa da cidade, os prodígios que precederam essa extrema desolação, a escravidão de nossos tiranos, o grande número daqueles que foram levados cativos e as suas diversas vicissitudes. Direi ainda a maneira como os romanos perseguiram os que escaparam da guerra e como, depois de os vencer, destruíram completamente as praças e os lugares para onde eles se haviam retirado. Por fim, falarei da visita feita por Tito a toda a província para restabelecer a ordem e de sua volta à Itália e de seu triunfo. Escreverei todas essas coisas em sete livros, divididos em capítulos, para satisfação das pessoas que amam a verdade, e não tenho motivo para temer que aqueles que tiveram a direção dessa guerra ou que lá se encontraram presentes me acusem de haver faltado à sinceridade. Mas é tempo de começarmos a executar o que prometi.
 

Livro Primeiro

CAPÍTULO 1
CRIAÇÃO DO MUNDO. ADÃO E EVA DESOBEDECEM À ORDEM DE DEUS, E ELE OS EXPULSA DO PARAÍSO TERRESTRE.

1. Gênesis 1. No princípio, Deus criou o céu e a Terra, mas a Terra não era visível porque estava coberta de trevas espessas, e o Espírito de Deus adejava por cima dela. Deus ordenou em seguida que se fizesse a luz, e a luz apareceu imediatamente. Depois de ter considerado essa massa, Deus separou a luz das trevas. Às trevas chamou noite, e à luz, dia, dando ao começo do dia o nome de manhã, e ao fim, o de tarde. Foi ao primeiro dia que Moisés chamou &quot;um dia&quot;, e não &quot;o primeiro dia&quot;, por razões que eu poderia explicar, mas, como prometi escrever sobre todas essas coisas em um trabalho especial, reservo-me para falar disso nele.
No segundo dia, Deus criou o céu, separou-o de todo o resto e colocou-o por cima, como sendo o mais nobre. Rodeou-o de cristal e temperou-o com umidade própria para formar as chuvas que regam docemente a terra, para torná-la fecunda. No terceiro dia, tornou fixa a terra, rodeou-a pelo mar e fê-la produzir as plantas com as suas respectivas sementes. No quarto dia, criou o Sol, a Lua e os outros astros e colocou-os no céu para lhe serem o ornamento principal. Regulou de tal maneira os seus movimentos e o seu curso que eles determinam claramente as estações e as revoluções do ano. No quinto dia, criou os peixes que nadam na água e os pássaros que voam no ar e quis que formassem casais, a fim de crescerem e se multiplicarem, cada um segundo a sua espécie. No sexto dia, criou os animais terrestres e distinguiu-os em sexos diversos, fazendo-os macho e fêmea. E, nesse mesmo dia, criou também o homem. Assim, segundo o que refere Moisés, Deus criou em seis dias o mundo e todas as coisas que nele existem. No sétimo dia, Ele descansou e deixou de trabalhar as grandes obras da criação do mundo: é por esse motivo que não trabalhamos nesse dia e lhe damos o nome de sábado, que em nossa língua quer dizer &quot;descanso&quot;.
2.  Gênesis 2. Moisés fala ainda mais particularmente da criação do homem. Ele diz que Deus tomou pó da terra, fez o homem e, com a alma, inspirou nele o espírito e a vida. Ele acrescenta que esse homem foi chamado Adão, que em hebreu significa &quot;ruivo&quot;, porque a terra de que ele foi formado era dessa cor, que é a cor da terra natural e a qual se pode chamar virgem.
Deus mandou vir os animais, tanto os machos quanto as fêmeas, para diante de Adão, e este, o primeiro de todos os homens, deu-lhes os nomes que conservam ainda hoje.
3.  Deus, vendo que Adão estava sozinho, enquanto os outros animais tinham cada qual uma companheira, quis também dar-lhe uma consorte. Para isso, quando ele estava adormecido, tirou-lhe uma das costelas, da qual formou a mulher. E, logo que Adão a viu, percebeu que ela havia sido tirada dele e que era parte dele mesmo. Os hebreus dão à mulher o nome de Issa, e a que foi a primeira de todas chamou-se Eva, isto é, &quot;mãe de todos os viventes&quot;.
4.  Moisés narra em seguida como Deus plantou do lado do oriente um delicioso jardim, que cumulou de todas as espécies de plantas, entre elas, duas árvores, uma das quais era a árvore da vida, e a outra, a da ciência, que ensinava a discernir o bem do mal. Ele colocou Adão e Eva nesse jardim e mandou que cultivassem as plantas. O jardim era regado por um grande rio, que o rodeava completamente e se dividia em quatro outros rios. O primeiro desses rios, chamado Pisom, que significa &quot;plenitude&quot; e ao qual os gregos chamam Canges, corre para a índia e desemboca no mar. O segundo, que se chama Eufrates e Fora, em nossa língua, significa &quot;dispersão&quot; ou &quot;flor&quot;, e o terceiro, a que chamam Tigre ou Diglath, que significa &quot;estreito e rápido&quot;, ambos desembocam no mar Vermelho. O quarto, de nome Giom, que significa &quot;que vem do oriente&quot;, é chamado Nilo pelos gregos e atravessa todo o Egito.
5. Deus ordenou a Adão e Eva que comessem de todos os frutos, mas lhes proibiu de tocar no da ciência, alertando-os de que morreriam se o comessem. Havia então perfeita harmonia entre todos os animais, e a serpente estava muito acostumada com Adão e Eva. Mas como a sua malícia a fizesse invejar a felicidade de que ambos desfrutariam se observassem a ordem de Deus e julgasse ela que, ao contrário, eles seriam vítimas de todas as desgraças se desobedecessem, tratou de persuadir Eva a comer do fruto proibido. Para melhor induzi-la, disse-lhe que o fruto continha uma virtude secreta, que dava o conhecimento do bem e do mal, e que se ela e o marido comessem dele, seriam tão felizes quanto Deus. Assim, a serpente enganou a mulher, e esta desprezou a ordem divina: comeu o fruto, alegrou-se por tê-lo feito e induziu Adão a comê-lo também. Ora, como era verdade que o fruto dava grandíssimo discernimento, eles logo perceberam que estavam nus e sentiram vergonha. Então tomaram folhas de figueira para se cobrir, julgando-se mais felizes do que antes, porque agora conheciam o que até ali haviam ignorado.
Deus entrou no jardim, e Adão, que antes do pecado conversava familiarmente com Ele, não ousou apresentar-se, por causa da falta que havia cometido. Deus perguntou-lhe por que, em vez de sentir prazer em se aproximar dEle, estava fugindo e se escondendo. Como Adão não soubesse o que responder, porque se sentia culpado, Deus lhe disse: &quot;Eu vos havia provido de tudo o que poderíeis desejar para viver sem penas e com prazer uma vida isenta de qualquer cuidado, que teria sido ao mesmo tempo muito longa e feliz. Mas vós vos opusestes ao meu desígnio, desprezastes a minha ordem e não é por respeito que vos calais, mas porque a vossa consciência vos acusa&quot;. Adão, então, fez o que podia para se desculpar, pediu a Deus que lhe perdoasse e lançou a sua falta sobre a mulher, que o enganara e fora a causa de seu pecado. Ela, por sua vez, alegou que a serpente a havia enganado. Por isso Deus, para castigar Adão por assim se ter deixado vencer, declarou que a terra não produziria mais frutos, a não ser para aqueles que a cultivassem com o suor do rosto, e mesmo assim não daria tudo o que dela se poderia desejar. Castigou também Eva, estabelecendo que, por se haver deixado enganar pela serpente e atraído todos aqueles males sobre o marido, ela teria filhos com dor e sofrimento. E, para castigar a serpente pela sua malícia, condenou-a a rastejar pela terra, declarando que ela seria inimiga do homem. Depois que Deus impôs a todos o devido castigo, expulsou Adão e Eva daquele jardim de delícias.

CAPÍTULO 2
CAIM MATA SEU IRMÃO ABEL. DEUS O EXPULSA. SUA POSTERIDADE É TÃO MÁ QUANTO ELE. VIRTUDES DE SETE, OUTRO FILHO DE ADÃO.

6. Gênesis 4. Adão e Eva tiveram dois filhos e três filhas. O primeiro chamava-se Caim, que significa &quot;aquisição&quot;, e o segundo, Abei, que quer dizer &quot;aflição&quot;. Os dois eram de temperamentos completamente opostos. Abel, que era pastor de rebanhos, era mais justo. Considerava que Deus se fazia presente em todas as suas ações e só pensava em agradar-lhe. Caim, ao contrário, que por primeiro trabalhou a terra, era muito mau. Buscava apenas proveito próprio. A sua horrível impiedade levou-o ao excesso de furor, a ponto de matar o próprio irmão. Eis a causa disso:
Ambos resolveram oferecer um sacrifício a Deus, Caim, dos frutos de seu trabalho, e Abel, do leite e das primícias de seu rebanho. Deus demonstrou aceitar melhor o sacrifício de Abel, que era produção livre da natureza, do que a oferta que a avareza de Caim dela havia tirado, quase à força. O orgulho de Caim não pôde tolerar que Deus tivesse preferido o irmão a ele: matou-o e escondeu o corpo, esperando que assim ninguém tivesse ciência de seu crime. Deus, porém, a cujos olhos nada há de oculto, perguntou-lhe onde estava o irmão, que não via há vários dias, pois antes eles estavam sempre juntos. Caim, não sabendo o que responder, disse primeiro que se admirava de também não o ter visto mais. Todavia, como Deus insistisse, respondeu-lhe insolentemente que não era nem senhor nem guarda do irmão e que não se havia encarregado de cuidar daquilo que não lhe dizia respeito. Deus então perguntou-lhe como se atrevia a afirmar nada saber do que acontecera ao irmão, se ele mesmo o havia matado. E, se Caim não tivesse oferecido imediatamente um sacrifício para acalmar-lhe a cólera, teria recebido naquele mesmo instante o castigo que o seu crime bem merecia. Deus, no entanto, amaldiçoou-o, ameaçou castigar os seus descendentes até a sétima geração e expulsou-o. Porém, como Caim temesse que, andando errante, animais ferozes o devorassem, Deus o tranqüilizou contra esse temor. Deu-lhe um sinal, com o qual podia ser reconhecido, e ordenou-lhe que se fosse.
7. Depois de haver atravessado diversos países, Caim estabeleceu residência em um lugar chamado Node, onde teve vários filhos. No entanto o castigo, em vez de torná-lo melhor, fê-lo, ao contrário, muito pior. Abandonou-se a toda sorte de prazeres e até usou de violência, apoderando-se de bens alheios para enriquecer-se. Reuniu homens maus e celerados, dos quais se tornou o chefe, e ensinou-os a cometer toda espécie de crimes e de ações ímpias. Mudou a inocente maneira de viver que adotara no princípio, inventou os pesos e as medidas e substituiu a franqueza e a sinceridade, tão mais louváveis e simples, pela astúcia e pelo engano. Ele foi o primeiro a estabelecer limites para a divisão de propriedades e construiu uma cidade. Chamou-a Enoque, nome de seu filho mais velho, rodeou-a de muralhas e a povoou.
Enoque teve por filho Irade, Irade gerou Meujael, Meujael a Metusalém e Metusalém a Lameque. Lameque teve setenta filhos de suas duas esposas, Zilá e Ada, um dos quais, de nome jabal, filho de Ada, foi o primeiro a morar embaixo de tendas e de pavilhões, levando uma vida de simples pastor. Jubal, seu irmão, inventou a música, o saltério e a harpa. Tubalcaim, filho de Zilá, sobrepujava a todos os outros em coragem e força, e foi grande comandante. Nesse entretempo, enriqueceu e serviu-se de suas riquezas para viver ainda mais suntuosamente do que até então. Ele inventou a arte de forjar e teve apenas uma filha, de nome Naamá. Como Lameque era muito instruído nas coisas divinas, julgou facilmente que sofreria a pena do assassínio de Caim, na pessoa de Abel, e disse-o às suas duas mulheres.
Eis como a posteridade de Caim chafurdou-se em toda espécie de crimes. Não se contentaram em imitar os de seus pais, mas inventaram outros. Entre eles, havia assassínios e latrocínios, e os que não mergulhavam as mãos em sangue estavam cheios de orgulho e de avareza.
8. Adão ainda vivia e tinha cento e trinta anos. A morte de Abel e a fuga de Caim fizeram-no desejar ardentemente outros filhos. E teve mesmo vários: depois de viver ainda oitocentos anos, morreu na idade de novecentos e trinta anos.
9. Seria demasiado longo discorrer sobre todos os filhos de Adão. Contentar-me-ei em dizer algo de um deles, de nome Sete. Educado junto de seu pai, deu-se com afeto à virtude. Deixou filhos semelhantes a ele, que permaneceram em sua terra, onde viveram felizes e em perfeita união. Deve-se ao seu espírito e ao seu trabalho a ciência dos astros. Como os seus filhos haviam sido informados por Adão que o mundo pereceria pela água e pelo fogo, o medo de que essa ciência se perdesse antes que os homens a aprendessem levou-os a construir duas colunas, uma de tijolos e outra de pedras, e sobre elas gravaram os conhecimentos que possuíam. Se um dilúvio destruísse a coluna de tijolos, ficaria a de pedras, para conservar à posteridade a memória daquilo que haviam escrito. A previdência deles deu bom resultado, e afirma-se que a coluna de pedras pode ser vista ainda hoje, na Síria.

CAPÍTULO 3
DA POSTERIDADE DE ADÃO ATÉ O DILÚVIO, DO QUAL DEUS PRESERVOU NOÉ POR MEIO DA ARCA, PROMETENDO-LHE NÃO MAIS CASTIGAR OS HOMENS COM DILÚVIO.

10. Gênesis 5. Sete gerações continuaram a viver no exercício da virtude e no culto do verdadeiro Deus, ao qual reconheciam por único Senhor do universo.
Mas as que vieram em seguida não imitaram os costumes dos pais. Não prestavam mais a Deus a honra que lhe era devida nem exerciam mais a justiça para com os homens, mas se entregavam com mais ardor ainda a toda sorte de crimes, enquanto os seus antepassados se haviam dedicado à prática de toda espécie de virtudes. Assim, atraíram sobre si a cólera de Deus, e os grandes* da terra, que se haviam casado com as filhas dos descendentes de Caim, produziram uma raça indolente que, pela confiança que depositavam na própria força, se vangloriava de calcar aos pés a justiça e imitava os gigantes de que falam os gregos.

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* Nessa época, havia duas raças distintas: a descendência de Sete e a de Caim. Os expositores modernos, em sua maioria, concordam que os &quot;filhos de Deus&quot;, citados em Gênesis 6.2, constituíam a descendência de Sete, e os &quot;filhos dos homens&quot;, a descendência de Caim. (N do E)
11. Noé, entristecido pela dor de vê-los imersos nos crimes, exortava-os a mudar de vida. Mas quando viu que em vez de seguir os seus conselhos eles se tornavam cada vez piores, o temor de que o fizessem morrer com toda a sua família levou-o a deixar a sua pátria. Deus, que o amava por causa de sua probidade, ficou tão irritado pela malícia e corrupção do resto dos homens que resolveu não somente castigá-los, mas exterminá-los completamente e repovoar a terra com homens que vivessem na pureza e na inocência. Assim, abreviou-lhes o tempo da vida, reduzindo-o a cento e vinte anos, inundou a terra de modo a parecer que ela havia sido tomada pelo mar e fê-los todos perecer nas águas, com exceção de Noé. A este, para salvá-lo, ordenou que construísse uma arca de quatro andares, com trezentos côvados de comprimento, cinqüenta de largura e trinta de altura; que lá se encerrasse com a esposa, os três filhos e as três esposas deles; e que levasse todo o necessário para o seu alimento e também para os animais de todas as espécies, os quais ele deveria levar consigo, para conservar-lhes a raça. Isto é, um casal de cada espécie, macho e fêmea, e sete casais de algumas. O teto e os lados da arca eram tão fortes que ela resistiu à violência das águas e dos ventos e salvou Noé e sua família da inundação geral que fez morrer todos os outros homens. Ele era o décimo descendente de Adão, de masculino em masculino, pois era filho de Lameque, que era filho de Metusalém. Metusalém era filho de Jarede. Jarede era filho de Maalalel, que tinha vários irmãos. Maalalel era filho de Cainã. Cainã era filho de Enos. Enos era filho de Sete, e Sete era filho de Adão.
12. Noé tinha seiscentos anos quando veio o dilúvio. Foi no segundo mês, que os macedônios chamam dius, e os hebreus, maresvã, pois os egípcios assim dividiram o ano. Quanto a Moisés, ele deu, nos seus fastos, o primeiro lugar ao mês chamado nisã, que é o xântico macedônio, porque foi nesse mês que ele retirou os hebreus da terra do Egito e por essa razão começou por esse mesmo mês a registrar o que se refere ao culto a Deus. No que se refere às coisas civis, no entanto, como as feiras e mercados determinados pelo comércio e empreendimentos semelhantes, não houve mudança alguma. Moisés registra que a chuva causadora do dilúvio geral começou a cair no dia 27 do segundo mês do ano 2256 depois da criação de Adão. A Sagrada Escritura faz o cálculo disso e anota com cuidado muito particular o nascimento e a morte dos grandes personagens daquele tempo.* Adão viveu novecentos e trinta anos e tinha duzentos e trinta** quando nasceu o seu filho Sete. Sete viveu novecentos e doze anos e tinha duzentos e cinco quando nasceu o seu filho Enos. Enos viveu novecentos e cinco anos e tinha cento e noventa quando nasceu o seu filho Cainã. Cainã viveu novecentos e dez anos e tinha cento e setenta quando nasceu o seu filho Maalalel. Maalalel viveu oitocentos e noventa e cinco anos e tinha cento e sessenta e cinco quando nasceu o seu filho Jarede. Jarede viveu novecentos e sessenta e dois anos e tinha cento e sessenta e dois quando nasceu o seu filho Enoque. Enoque viveu trezentos e sessenta e cinco anos e tinha cento e sessenta e cinco quando nasceu o seu filho Metusalem. Na idade de trezentos e sessenta e cinco anos, foi tirado do mundo, e ninguém escreveu sobre a sua morte.
Metusalem viveu novecentos e sessenta e nove anos e tinha cento e oitenta e sete quando nasceu o seu filho Lameque. Lameque viveu setecentos e setenta e sete anos e tinha cento e oitenta e dois quando nasceu o seu filho Noé. Noé viveu novecentos e cinqüenta anos, os quais, acrescentados aos seiscentos que já contava na ocasião do dilúvio, perfazem o número anteriormente assinalado de dois mil duzentos e cinqüenta e seis anos. Foi mais conveniente para esse cálculo citar, como fiz, a época do nascimento desses primeiros homens, e não a de sua morte, porque a vida deles era tão longa que se estendia até a posteridade mais remota.

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* Este trecho está inteiramente corrompido no texto grego e foi corrigido pelo que dizem os manuscritos.
** Algumas idades neste trecho diferem do relato bíblico porque seguem a cronologia da Septuaginta — o texto da Bíblia é baseado na cronologia hebraica. (N do E)

13. Gênesis 7e8. Deus, então, deu o sinal e livre curso às águas, a fim de inundarem a terra, e elas elevaram-se, por uma chuva contínua de quarenta dias, até quinze côvados acima das mais altas montanhas e não deixaram nenhum lugar para onde o povo pudesse fugir e salvar-se. Depois que a chuva cessou, passaram-se cento e cinqüenta dias antes que as águas se retirassem, e somente no vigésimo sétimo dia do sétimo mês a arca se deteve sobre o vértice de uma montanha da Armênia. Noé então, abriu uma janela e, vendo um pouco de terra ao redor da arca, começou a se consolar e a conceber melhores esperanças. Alguns dias depois, ele fez sair um corvo para saber se havia ainda outros lugares de onde as águas se tivessem retirado completamente e se ele podia sair sem perigo. O corvo, porém, achando a terra ainda toda inundada, voltou à arca. Sete dias depois, Noé fez sair uma pomba, e ela voltou com os pés enlameados, trazendo no bico um ramo de oliveira. Assim, ele soube que o dilúvio havia cessado. Após haver esperado outros sete dias, fez sair todos os animais que estavam na arca. E ele também saiu, com a mulher e os filhos, ofereceu um sacrifício a Deus em ação de graças e deu um banquete à família.
Os armênios chamaram a esse lugar Descida ou Saída, e os seus habitantes apontam ainda hoje alguns restos da arca. Todos os historiadores, mesmo os bárbaros, falam do dilúvio e da arca, dentre outros Berose, caldeu. Eis as suas palavras: &quot;Diz-se que ainda hoje se vêem restos da arca sobre a montanha dos Cordiens, na Armênia, e alguns levam desse lugar pedaços de betume, com o qual ela estava recoberta, e dele se servem como impermeabilizante&quot;. jerônimo, egípcio que escreveu sobre as antigüidades dos fenícios, Mnazeas e vários outros disso falam também. Nicolau de Damasco, no nonagésimo sexto livro de sua história, menciona-o nestes termos: &quot;Há na Armênia, na província de Miniade, uma alta montanha chamada Baris, sobre a qual, diz-se, muitos se salvaram durante o dilúvio, e que uma arca cujos restos se conservaram por vários anos, e na qual um homem se havia encerrado, deteve-se no cume dessa montanha. Há probabilidade de que esse homem é aquele de que fala Moisés, o legislador dos judeus&quot;.
14.  Gênesis 8 e 9. Com medo de que Deus inundasse a terra todos os anos, a fim de exterminar a raça dos homens, Noé ofereceu-lhe vítimas, rogando que nada mudasse na ordem estabelecida anteriormente e que Ele não usasse de tal rigor, fazendo perecer todas as criaturas vivas, mas se contentasse por ter castigado os maus, como os seus crimes mereciam, e por ter poupado os inocentes, aos quais Ele quisera salvar a vida. Pois, de outro modo, eles seriam ainda mais infelizes do que os que haviam sido sepultados nas águas, tendo visto com tremor tão estranha desolação e tendo dela sido preservados apenas para perecer mais tarde, de maneira semelhante. Assim, rogava que Deus aceitasse o seu sacrifício e não mais olhasse para a terra com cólera, de modo que ele e seus descendentes pudessem cultivá-la sem medo, construir cidades, desfrutar de todos os bens que possuíam antes do dilúvio e passar uma vida tão longa quanto feliz, como a de seus antepassados.
Como Noé era homem justo, Deus atendeu à sua oração e concedeu-lhe o que pedia, dizendo-lhe que não fora o patriarca a causa dos que se haviam perdido no dilúvio; que eles só podiam acusar a si mesmos pelo castigo recebido; que, se tivesse querido perdê-los, não os teria feito nascer, sendo mais fácil não dar a vida do que a tirar após tê-la concedido; que eles deviam, portanto, atribuir os castigos aos seus próprios crimes; que, em consideração à sua oração, não lhes seria mais tão severo no futuro; e que, quando viessem tempestades e furacões extraordinários, nem ele nem seus descendentes deveriam pensar num outro dilúvio, pois Ele não mais permitiria que as águas inundassem a terra. Contudo proibia a ele e aos seus manchar as mãos no sangue, e ordenava-lhes que castigassem severamente os homicidas, e os fazia senhores absolutos dos animais, para dispor deles como quisessem, exceto de seu sangue, do qual não podiam usar como do resto, porque no sangue está a vida. &quot;E meu arco&quot;, acrescentou, &quot;que vereis no céu, será o sinal e a garantia da promessa que vos faço&quot;. Isso disse Deus a Noé. E ao arco que apareceu no céu, chamaram arco de Deus.
15. Noé viveu trezentos e cinqüenta anos depois do dilúvio, na máxima prosperidade, e morreu com novecentos e cinqüenta anos de idade. Por maior que seja a diferença entre a pouca duração da vida dos homens de hoje e a longa duração da dos de que acabo de falar, o que narro não deve passar por inverossímil. É que, além de os nossos antepassados serem muito queridos de Deus, e como obra que Ele havia feito com as próprias mãos, os alimentos de que se nutriam eram mais apropriados para conservar a vida. E Deus a prolongava, tanto por causa de sua virtude como para lhes dar meios de aperfeiçoar as ciências da geometria e da astronomia, que eles haviam inventado — o que eles não teriam podido fazer se tivessem vivido menos de seiscentos anos, pois é somente após a revolução de seis séculos que se completa o grande ano. Todos os que escreveram a história, tanto da Grécia como de outras nações, dão testemunho do que digo. Mâneto, que escreveu a história dos egípcios, Berose, que nos deixou a dos caldeus. Moco, Hestieu e Jerônimo, que escreveram a dos fenícios, dizem também a mesma coisa. Hesíodo, Hecateu, Ascausila, Helânico, Éforo e Nicolau, referem que esses primeiros homens viviam até mil anos. Deixo aos que lerem isto que façam o juízo que quiserem.

CAPÍTULO 4
NINRODE, NETO DE NOÉ, CONSTRÓI A TORRE DE BABEL, E DEUS, PARA CONFUNDI-LOS E DESTRUIR ESSA OBRA, MANDA A CONFUSÃO DE LÍNGUAS.

16. Gênesis 10 e 11 .Os três filhos de Noé, Sem, jafé e Cam, nascidos cem anos antes do dilúvio, foram os primeiros a deixar as montanhas para morar nas planícies, o que os outros não ousavam fazer, assustados ainda com a desolação universal causada pelo dilúvio. Mas o exemplo daqueles animou estes a imitá-los. Deram o nome de Sinar à primeira terra em que habitaram. Deus ordenou que mandassem colônias a outros lugares, a fim de que, multiplicando-se e estendendo-se, pudessem cultivar mais terras, colher frutos em maior abundância e evitar as divergências que de outro modo poderiam ser suscitadas entre eles. Porém esses homens rudes e indóceis não obedeceram e, pelo seu pecado, foram castigados com os males que lhes sucederam. E Deus, vendo que o seu número crescia sempre, ordenou-lhes segunda vez que formassem novas colônias.
Esses ingratos, porém, esquecidos de que deviam a Ele todos os seus bens e atribuindo-os a si mesmos, continuaram a desobedecer-lhe e acrescentaram à sua desobediência a impiedade de imaginar que era uma cilada que se lhes armava, a fim de que, estando divididos, pudesse Deus mais facilmente destruí-los. Ninrode, neto de Cam, um dos filhos de Noé, foi quem os levou a desprezar a Deus dessa maneira. Ao mesmo tempo valente e corajoso, persuadiu-os de que deviam unicamente ao seu próprio valor, e não a Deus, toda a sua boa fortuna. E, como aspirava ao governo e queria que o escolhessem como chefe, abandonando a Deus, ofereceu-se para protegê-los contra Ele (caso Deus ameaçasse a terra com outro dilúvio), construindo uma torre para esse fim, tão alta que não somente as águas não poderiam chegar-lhe ao cimo como ainda ele vingaria a morte de seus antepassados.
O povo, insensato, deixou-se dominar pela estulta convicção de que lhes seria vergonhoso ceder a Deus, e começaram a trabalhar nessa obra com incrível ardor. A multidão e a atividade dos operários fez com que a torre em pouco tempo se elevasse a uma altura acima de qualquer expectativa, mas a sua debilidade fazia com que parecesse menos alta do que era de fato. Construíram-na de tijolos, cimentando-a com betume, para torná-la mais forte. Deus, irado com essa loucura, não quis no entanto exterminá-los, como fizera aos seus predecessores, cujo exemplo, aliás, lhes havia sido de todo inútil, mas pôs divisão entre eles, fazendo com que a única língua que falavam se multiplicasse num instante, de tal modo que não mais se entendiam. A confusão fez com que se desse ao lugar onde se havia construído a torre o nome de Babilônia, pois Babel em hebreu significa &quot;confusão&quot;. A Sibila assim descreve esse grande acontecimento: &quot;Todos os homens que então tinham uma só língua construíram torre tão alta que parecia que ela se elevaria até o céu. Mas os deuses levantaram contra ela tão violenta tempestade que ela foi derribada e fizeram com que aqueles que a haviam construído falassem no mesmo instante diversas línguas. Isso foi causa de que se desse o nome de Babilônia à cidade que depois foi construída naquele mesmo lugar&quot;. Hestieu também fala do campo de Sinar, onde Babilônia está localizada: &quot;Diz-se que os sacerdotes que se salvaram dessa grande catástrofe com as coisas sagradas, destinadas ao culto de Júpiter, o vencedor, vieram a Sinar de Babilônia&quot;.

CAPÍTULO 5
COMO OS DESCENDENTES DE NOÉ SE ESPALHARAM PELOS DIVERSOS LUGARES DA TERRA.
17. Gênesis 10. A diversidade de línguas obrigou a multidão quase infinita desse povo a dividir-se em diversas colônias, segundo Deus, por sua providência, os ia levando. Assim, não somente o meio da terra, mas também as margens do mar encheram-se de habitantes. Houve mesmo quem embarcasse em navios e passasse às ilhas. Algumas dessas nações conservam ainda os nomes dados por aqueles que lhes deram origem, outras mudaram-nos e outras ainda, por fim, em vez dos nomes bárbaros que antes possuíam, receberam nomes que eram do agrado daqueles que nelas vinham se estabelecer. Os gregos foram os principais autores dessa mudança, pois, havendo-se tornado senhores de todos esses países, davam-lhes nomes e como bem desejavam impunham leis aos povos conquistados, usurpando, assim, a glória de passar por seus fundadores.

CAPÍTULO 6
DESCENDENTES DE NOÉ ATÉ JACÓ. DIVERSOS PAÍSES QUE ELES OCUPARAM.

18. Gênesis 10. Os filhos dos filhos de Noé, para honrar-lhe a memória, deram os próprios nomes aos países onde se estabeleceram. Assim, os sete filhos de Jafé, que se estabeleceram pela Ásia desde o monte Tauro e o Amã até o rio de Tanais e na Europa até Gades, deram os seus nomes às terras que ocuparam e que não eram ainda povoadas. Gomer fundou a colônia dos gôrneres, que os gregos chamam gaiatas. Magogue fundou a dos magogianos, a que chamam citas. Javã deu o nome à Jônia e a toda a nação dos gregos. Madai foi o fundador dos madianos, que os gregos chamam medas. Tubal deu o seu nome aos tubalinos, que agora se chamam iberos.* Meseque deu o próprio nome aos mescinianos (o de capadócios, que eles têm agora, é novo), e ainda hoje uma de suas cidades tem o nome de Malaca, o que nos mostra que essa cidade antigamente se chamava assim. Tiras deu o seu nome aos tírios, dos quais foi o príncipe e que os gregos chamam trácios. Assim, todas essas nações foram fundadas pelos filhos de Jafé.
Gomer, que era o mais velho dos filhos de Jafé, teve três filhos: Asquenaz, que deu o seu nome aos asquenázios, aos quais os gregos chamam reginianos; Rifate, que deu o seu nome aos rifanianos, aos quais os gregos chamam paflagonianos; Togarma, que deu o seu nome aos togarmanianos, aos quais os gregos chamam frígios.
Javã, outro filho de Jafé, teve quatro filhos: Elisa, Társis, Quitim e Dodanim. Elisa deu o seu nome aos elisamos, que hoje se chamam ecolianos. Társis deu o seu nome aos tarsianos, que hoje são os cilicianos, cuja principal cidade ainda hoje se chama Tarso. Quitim ocupou a ilha que agora se chama Chipre, à qual deu o seu nome, razão por que os hebreus chamam de Quitim todas as ilhas e todos os lugares marítimos. Ainda hoje, uma das cidades da ilha de Chipre é chamada Citium por aqueles que dão nomes gregos a todas as coisas, que pouco difere do nome Quitim. Eis as nações de que os filhos de Jafé se tornaram senhores. Antes de retomar o fio de minha narração acrescentarei uma coisa que talvez os gregos ignorem: esses nomes foram mudados segundo a maneira de falar, para tornar a pronúncia mais agradável, pois entre nós não serão jamais mudados.
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* Ou espanhóis.

19. Os filhos de Cam ocuparam a Síria e todos os países que estão além dos montes de Amane e do Líbano até o oceano, dando-lhes nomes dos quais alguns são hoje inteiramente desconhecidos, e outros, modificados de tal modo que mal se poderiam reconhecer. Somente os etíopes, dos quais Cuxe, filho de um dos quatro filhos de Cam, foi príncipe, conservaram o nome ancestral, não somente naquele país mas em toda a Ásia. Ainda hoje eles são chamados cuxeenses. Os mizraenses, descendentes de Mizraim, também conservaram o seu nome, pois nós chamamos Mizrau ao Egito e mizraenses aos egípcios. Pute povoou a Líbia e chamou a esses povos com o seu nome: puteenses. Existe ainda hoje, na Mauritânia, um rio que tem esse nome, e vários historiadores gregos o mencionam, como também ao país vizinho, a que chamam Pute, mas que depois mudou de nome, por causa de um dos filhos de Mizraim, Leabim. Direi em seguida por que lhe deram o nome de África. Canaã, quarto filho de Cam, estabeleceu-se na Judéia, a que chamou com o seu nome: Canaã.
Cuxe, o mais velho dos filhos de Cam, teve seis filhos: Sebá, príncipe dos sebaenses; Havilá, príncipe dos havilenses, que agora são chamados getulienses; Sabtá, príncipe dos sabataenses, a que os gregos chamam astabarienses; Raamá, príncipe dos ramaenses (que teve dois filhos, que moram entre os etíopes ocidentais: um de nome Dedã e outro de nome Sabá, que deu nome aos sabaenses); Sabtecá. Quanto a Ninrode, sexto filho de Cuxe, ficou entre os babilônios e tornou-se senhor deles, como já o disse anteriormente.
Mizraim foi pai de oito filhos, que ocuparam todos os países que estão entre Gaza e o Egito. Mas somente um desses oito, Filistim, manteve o nome no seu país — os gregos deram o nome de Palestina a uma parte dessa província. Quanto aos sete outros irmãos, chamados Ludim, Anamim, Leabim, Naftuim, Patrusim, Casluim e Caftorim, com exceção de Leabim, que fundou uma colônia na Líbia e lhe deu o seu nome, nada sabemos de suas obras, porque as cidades que construíram foram destruídas pelos etíopes, como diremos a seu tempo.
Canaã teve onze filhos: Sidônio, que construiu na Fenícia uma cidade à qual deu o seu nome e à qual os gregos chamam Sidom; Hamate, que construiu a cidade de Hamate, que ainda hoje se vê e conserva o mesmo nome entre os que nela habitam, embora os macedônios lhe chamem Epifania, nome de um de seus príncipes; Arqueu, que teve como herança a ilha de Aruda; Amom, que teve a cidade de Arce, situada no monte Líbano. Quanto aos outros sete irmãos, chamados Heveu, Hete, Jebuseu, Arvadeu, Sineu, Zemarco e Cirgaseu, só ficaram os nomes nas Sagradas Escrituras, porque os hebreus destruíram-lhes as cidades por motivo que depois direi.
Gênesis 9. Quando, depois do dilúvio, a terra foi restaurada ao seu estado primitivo, Noé cultivou-a como antes e plantou uma vinha, da qual ofereceu as primícias a Deus. Bebeu vinho que dela fez e, como não estava acostumado a uma bebida tão forte e ao mesmo tempo tão deliciosa, bebeu demais e ficou embriagado. Dormiu em seguida, tendo-se descoberto ao dormir, contra o que lhe permitia a decência. Cam, o mais novo de seus filhos, vendo-o naquele estado, zombou dele e mostrou-o aos irmãos. Estes, porém, ao contrário, cobriram a nudez do pai com o respeito que lhe deviam. Noé, ao saber o que se havia passado, deu-lhes a sua bênção, e a ternura paternal fê-lo perdoar Cam, contentando-se em amaldiçoar apenas os seus descendentes, que foram assim castigados pelo pecado de seu pai, como iremos expor em seguida.
20. Gênesis 11. Sem, outro filho de Noé, teve cinco filhos, que estenderam o seu domínio desde a Ásia, a partir do rio Eufrates, até o oceano Índico. De Elão, o mais velho, vieram os elameenses, e dele os persas tiveram a sua origem. Assur, o segundo, construiu a cidade de Nínive e deu o nome de assírios aos seus súditos, os quais foram extraordinariamente ricos e poderosos. Arfaxade, o terceiro, também chamou aos seus pelo seu nome, isto é, arfaxadeenses, que são hoje os caldeus. De Arã, o quarto, vieram os arameenses, aos quais os gregos chamam sírios, e de Lude, o quinto, vieram os ludeenses, que hoje são chamados lídios.
Arã teve quatro filhos, dos quais Uz, o mais velho, estabeleceu-se na Traconites e aí construiu a cidade de Damasco, que está situada entre a Palestina e a Síria, cognominada Coelem. Hul, o segundo, ocupou a Armênia. Geter, o terceiro, foi príncipe dos bactrianos. E Más, o quarto, dominou os mesanianos, cujo país hoje se chama o vale de Pasin.
Arfaxade foi pai de Sala, e Sala, pai de Éber, de cujo nome os judeus foram chamados hebreus. Éber teve por filhos Joctã e Pelegue, este nascido quando se fazia a divisão das terras, pois Pelegue em hebreu significa &quot;partilha&quot;, joctã teve treze filhos: Almodá, Selefe, Hazar-Mavé, Jerá, Hadorão, Uzal, Dicla, Obal, Abimael, Sabá, Ofir, Havilá e Jobabe, que se espalharam desde o rio Confem, que está na índia, até a Assíria.
Depois de haver falado dos descendentes de Sem, é preciso agora falar dos hebreus, descendentes de Éber. Pelegue, filho de Éber, teve por filho Reú. Reú teve Serugue, Serugue teve Naor e Naor teve Terá, pai de Abraão, que assim foi o décimo desde Noé e nasceu duzentos e noventa e dois anos após o dilúvio, pois Terá tinha setenta anos ao nascer Abraão. Naor tinha vinte e nove anos quando teve Terá, Serugue tinha trinta anos quando teve Naor, Reú tinha trinta e dois anos quando teve Serugue, Pelegue tinha trinta anos quando teve Reú, Éber tinha trinta e quatro anos quando teve Pelegue, Sala tinha trinta anos quando teve Éber. Arfaxade tinha trinta e cinco anos quando teve Sala e Arfaxade, filho de Sem e neto de Noé, nasceu dois anos após o dilúvio.
21.  Abraão teve dois irmãos: Naor e Harã. Este morreu na cidade de Ur da Caldéia, onde ainda hoje se vê o seu sepulcro, e deixou um filho de nome de Ló e duas filhas: Sara e Milca. Abraão desposou Sara, e Naor desposou Milca.
Terá, pai de Abraão, tendo concebido aversão pela Caldéia, porque lá perdera o filho Arã, deixou-a e foi com toda a família para Harã, na Mesopotâmia. E lá morreu, com a idade de duzentos e cinco anos — a duração da vida humana já ia pouco a pouco diminuindo, continuou a diminuir até Moisés, e foi então que Deus a reduziu a cento e vinte anos, o tempo que viveu esse admirável legislador. Naor teve de sua mulher, Milca, oito filhos: Uz, Buz, Quemuel, Quésede, Hazo, Pildas, jidlafe e Betuel; de Reumá, sua concubina, teve Teba, Gaã, Taás e Maaca. Betuel, que foi o último filho de Naor, teve um filho de nome Labão e uma filha de nome Rebeca.

CAPÍTULO 7
ABRAÃO, NÃO TENDO FILHOS, ADOTA LÓ, SEU SOBRINHO, DEIXA A CALDÉIA E VAI MORAR EM CANAÃ.

22.  Gênesis 12. Abraão, não tendo filhos, adotou Ló, filho de seu irmão Arã e irmão de sua mulher, Sara. E, para obedecer à ordem que havia recebido de Deus, deixou a Caldéia na idade de setenta e cinco anos e foi morar na terra de Canaã, a qual deixou à sua posteridade. Era homem muito sensato, prudente e de grande espírito e tão eloqüente que podia persuadir sobre o que quisesse. Como nenhum outro o igualava em capacidade e em virtude, deu aos homens um conhecimento muito mais perfeito da grandeza de Deus, como jamais tiveram antes. Foi ele quem primeiro ousou dizer que existe um só Deus, que o universo é obra das mãos dEle e que a nossa felicidade deve ser atribuída unicamente à sua bondade, e não às nossas próprias forças.
O que o levava a falar dessa maneira era o fato de ter deduzido, após considerar atentamente o que se passava sobre a terra e sobre o mar e o curso do Sol, da Lua e das estrelas, que há um poder superior regulando esses movimentos, sem o qual todas as coisas cairiam em confusão e desordem, por não terem de si mesmas poder algum para nos proporcionar os benefícios que delas haurimos — elas os recebem dessa potência superior, à qual estão absolutamente sujeitas, o que nos obriga a honrar somente a Ele e a reconhecer o que lhe devemos por contínuas ações de graças. Os caldeus e os outros povos da Mesopotâmia, não podendo tolerar as palavras de Abraão, levantaram-se contra ele. Assim, por ordem e com o auxílio de Deus, ele saiu do país para ir morar na terra de Canaã. Lá, construiu um altar e ofereceu a Deus um sacrifício. Berose, sem nomeá-lo, fala nestes termos desse grande homem: &quot;Na décima era, depois do dilúvio, havia entre os caldeus um homem muito justo e muito hábil na ciência dos astros&quot;. Hecateu cita-o somente de passagem, mas escreveu um livro inteiro sobre esse assunto. Lemos no quarto livro da história de Nicoiau de Damasco estas apropriadas palavras: &quot;Abraão saiu com grande acompanhamento da terra dos caldeus, que está acima da Babilônia, reinou em Damasco e partiu algum tempo depois com todo o seu povo, estabeleceu-se na terra de Canaã, que agora se chama Judéia, onde a sua posteridade se multiplicou de maneira incrível, como direi mais particularmente em outro lugar. O nome de Abraão é ainda hoje muito célebre e tido em grande veneração na terra de Damasco. Vê-se aí uma aldeia que tem o seu nome e onde se diz que ele morou&quot;.

CAPÍTULO 8
UMA GRANDE CARESTIA OBRIGA ABRAÃO A IR AO EGITO. O FARAÓ
APAIXONA-SE POR SARA. DEUS A PRESERVA. ABRAÃO RETORNA PARA
CANAÃ E DIVIDE OS SEUS BENS COM LÓ, SEU SOBRINHO.

23. Gênesis 12 e 13. O país de Canaã foi então assolado por grande carestia, e Abraão, tendo sabido nesse mesmo tempo que o Egito desfrutava grande abundância, resolveu tanto mais facilmente ir para lá quanto lhe era interessante conhecer os sentimentos dos sacerdotes daquele país com relação à Divindade. E, se eles fossem mais bem instruídos do que ele, conformar-se-ia à sua crença, mas se, ao contrário, ele fosse o mais instruído, comunicaria a eles a sua fé. Como Sara, sua esposa, era muito formosa, e sabendo ele da incontinência dos egípcios, e temendo que o rei se apaixonasse por ela e o mandasse matar, fingiu que ela era sua irmã e ensinou-lhe como proceder para evitar esse perigo.
O que ele havia previsto aconteceu. A fama da beleza de Sara espalhou-se logo. O rei quis vê-la e não somente vê-la, como também possuí-la. Deus, porém, impediu a realização do seu mau desígnio por meio de uma peste, que lhe avassalou o reino, e pela revolta dos seus súditos. Por isso o príncipe consultou os seus sacerdotes, para saber de que maneira se poderia aplacar a cólera divina. Responderam-lhe que a violência que ele queria fazer à mulher de um estrangeiro era a causa daquilo. Faraó, espantado com a resposta, perguntou quem era essa mulher e quem era esse estrangeiro. Depois de haver sabido de tudo, pediu grandes desculpas a Abraão, disse-lhe que julgara que fosse sua irmã, e não sua mulher, e que em vez de querer fazer-lhe afronta não tivera outro intento senão contrair aliança com ele. Deu-lhe em seguida grande soma de dinheiro e permitiu-lhe conversar com os homens mais instruídos do reino.
Essa conversa tornou conhecida a sua virtude e granjeou-lhe grande renome, pois apesar de os sábios do Egito serem de sentimentos diversos, impondo essa diversidade uma grande divisão entre eles e Abraão, ele tão claramente lhes deu a conhecer que estavam longe da verdade que eles lhe admiraram mais a grandeza de espírito que o dom de persuadir. Ele ensinou-lhes até mesmo a aritmética e a ciência dos astros, que lhes eram desconhecidas: foi por meio dele que essas ciências passaram dos caldeus aos egípcios e dos egípcios aos gregos.
24. Abraão, ao voltar a Canaã, dividiu o país com Ló, seu sobrinho. Os guardas de seus rebanhos estavam brigados uns com os outros por causa das pastagens. Então ele disse a Ló que escolhesse e tomou para si o que o outro não quis, contentando-se com as terras que estão ao pé das montanhas. Estabeleceu em seguida a sua moradia na cidade de Hebrom, que é sete anos mais velha que Tanis, no Egito. Quanto a Ló, escolheu ele as planícies que estão ao longo do rio Jordão e próximas da cidade de Sodoma, que estava então em franco progresso, mas que agora se acha inteiramente destruída pela justa vingança de Deus — e nada resta dela, nem mesmo o menor vestígio, como diremos em seguida.

CAPÍTULO 9
OS ASSÍRIOS DERROTAM SODOMA. LEVAM DIVERSOS PRISIONEIROS, DENTRE ELES LÓ, QUE VIERA PRESTAR AUXÍLIO.

25.  Gênesis 14. O império da Ásia achava-se então nas mãos dos assírios, e o país de Sodoma estava tão populoso e tão rico que era governado por cinco reis de nome Bera, Birsa, Sinabe, Semeber e Bela. Os assírios atacaram-nos com grande e poderoso exército, que dividiram em quatro corpos, comandados por quatro chefes. Tendo obtido a vitória depois de sangrento combate, obrigaram os reis de Sodoma a pagar tributo. Estes lhes estiveram sujeitos durante doze anos. No décimo terceiro ano, revoltaram-se. Os assírios, para se vingar, voltaram segunda vez, sob o comando de Marfede, de Arioque, de Codologomo e de Tidal, devastaram toda a Síria, subjugaram os descendentes dos gigantes e entraram nas terras de Sodoma, onde acamparam no vale que tinha o nome de Poços de Betume, por causa dos poços de betume natural que ali existiam, mas que depois da destruição de Sodoma foi mudado num lago que se chama Asfaltite, porque o betume dele sai continuamente aos borbotões. Travou-se grande combate, que foi muito renhido: vários de Sodoma foram mortos e muitos foram feitos prisioneiros, dentre os quais estava Ló, que viera prestar auxílio.

CAPÍTULO 10
ABRAÃO PERSEGUE OS ASSÍRIOS, AFUGENTA-OS, LIBERTA LÓ E TODOS OS
OUTROS PRISIONEIROS. O REI DE SODOMA E MELQUISEDEQUE, REI DE
JERUSALÉM, PRESTAM-LHE GRANDES HONRAS. DEUS PROMETE-LHE QUE ELE
TERÁ UM FILHO COM SARA. NASCIMENTO DE ISMAEL, FILHO DE ABRAÃO E
AGAR. CIRCUNCISÃO ORDENADA POR DEUS.

26.  Gênesis 14. Abraão ficou tão comovido com a derrota dos habitantes de Sodoma, que eram seus vizinhos e amigos, e com o cativeiro de Ló, seu sobrinho, que resolveu ajudá-los. Sem retardar um só momento, seguiu os assírios e alcançou-os no quinto dia, perto de Dã, uma das nascentes do Jordão. Surpreendeu-os à noite vencidos pelo vinho e pelo sono e matou grande parte deles. Pôs os restantes em fuga e perseguiu-os todo o dia seguinte até Soba de Damasco. Esse grande feito fez ver que a vitória não depende do grande número, mas da coragem dos combatentes, pois Abraão tinha com ele apenas trezentos e dezoito homens e três de seus amigos quando derrotou aquele grande exército. Os poucos assírios que restaram fugiram para o seu país cobertos de vergonha e de confusão. Assim, Abraão libertou Ló e todos os outros prisioneiros e voltou plenamente vitorioso.
27. O rei de Sodoma veio até ele no lugar a que chamam Campo Real, onde o rei de Salém, que agora é Jerusalém, o recebeu com grandes demonstrações de estima e de amizade. Esse príncipe chamava-se Melquisedeque, isto é, &quot;rei justo&quot;. E ele era verdadeiramente justo, pois a sua virtude era tal que, por consentimento unânime, havia sido feito sacerdote do Deus Todo-poderoso. Ele não se contentou em receber penas a Abraão, mas também a todos os seus. Deu-lhes, no meio dos banquetes que realizou, os louvores devidos à sua coragem e virtude e prestou a Deus públicas ações de graças por tão gloriosa vitória. Abraão, por sua vez, ofereceu a Melquisedeque a décima parte dos despojos que tomara dos inimigos, e este aceitou, já o rei de Sodoma, ao qual Abraão ofereceu também parte dos despojos, teve dificuldade em receber a oferta, contentando-se com a parte de seus súditos. Mas Abraão o obrigou a receber tudo, reservando-se somente alguns víveres para os seus homens e uma parte dos despojos para os seus três amigos, Escol, Aner e Manre, que o haviam acompanhado.
28. Gênesis 15. Esse ato generoso de Abraão foi tão agradável aos olhos de Deus que Ele afirmou que não o deixaria sem recompensa, pelo que Abraão respondeu: &quot;E como, Senhor, os vossos benefícios me poderiam dar alegria, pois que não deixarei a ninguém depois de mim que deles possa gozar e possuí-los?&quot; Ele ainda não tinha filhos. Então Deus prometeu que lhe daria um filho e que a sua posteridade seria tão grande que igualaria o número das estrelas. Ordenou-lhe em seguida que oferecesse um sacrifício, e eis a ordem que ele observou: tomou uma novilha de três anos, uma cabra e um carneiro da mesma idade, que cortou em pedaços, e uma rola e uma pomba, que ofereceu inteiras, sem partir. Antes de erguer o altar, quando as aves adejavam em torno das vítimas, para se alimentar de seu sangue, ele ouviu uma voz do céu vaticinando que os seus descendentes sofreriam durante quatrocentos anos grande perseguição no Egito, mas que triunfariam enfim sobre os seus inimigos, venceriam os cananeus e se tornariam senhores de seu país.
29.  Gênesis 16. Abraão morava naquele tempo num lugar chamado Carvalho de Manre, muito próximo da cidade de Hebrom. Como vivia sempre aflito, por ver que sua mulher era estéril, não deixava de rogar a Deus que lhe desse um filho. E Deus não somente confirmou a promessa que lhe fizera, como lhe garantiu ainda todas as outras coisas que lhe havia prometido quando ele fora obrigado a deixar a Mesopotâmia.
30. Sara, então, deu a Abraão uma de suas escravas, de nome Agar, egípcia, a fim de que esta lhe desse um filho. Quando a escrava se sentiu grávida, desprezou a sua senhora e vangloriou-se de que os seus filhos seriam um dia os herdeiros de Abraão. Esse homem justo ficou horrorizado com aquela ingratidão e deixou Sara à vontade para castigar a escrava eômo bem entendesse. Agar, cheia de dor e de sofrimento, fugiu para o deserto e rogou a Deus que tivesse compaixão de sua miséria. Estava ainda nesse estado quando um anjo ordenou-lhe que voltasse à sua senhora, asseverando-lhe que esta a perdoaria, contanto que Agar reconhecesse a sua falta e aceitasse o castigo que devia receber como justa punição por sua ingratidão e por seu orgulho. Acrescentou que, se em vez de obedecer a Deus, ela se afastasse mais, pereceria miseravelmente. Todavia, se se submetesse de boa vontade, seria mãe de um filho que um dia haveria de reinar naquela província. Ela obedeceu, pediu perdão à sua senhora, e o obteve, e pouco tempo depois deu à luz um filho, que foi chamado Ismael, isto é, &quot;atendido&quot;, para mostrar que Deus atendera às orações de sua mãe.
31.  Gênesis 17. Abraão tinha oitenta e seis anos quando nasceu Ismael e noventa e nove anos quando Deus lhe apareceu e disse que Sara teria um filho, o qual se chamaria Isaque, cuja posteridade seria muito grande e da qual nasceriam dois reis, que submeteriam pelas armas toda a terra de Canaã, desde Sidom até o Egito. E, a fim de distinguir a sua raça de outras nações, mandou circunci-dar todas as crianças do sexo masculino, oito dias após o nascimento, de que darei ainda outra razão. E, sobre o que Abraão pediu a Deus, se Ismael viveria, Ele respondeu-lhe que viveria muito tempo e que a sua posteridade também seria muito grande. Abraão deu graças a Deus por esses favores e logo fez-se circunci-dar com toda a sua família, tendo já Ismael a idade de treze anos.

CAPÍTULO 11
UM ANJO PREDIZ QUE SARA TERÁ UM FILHO. DOIS ANJOS VÃO A SODOMA.
DEUS EXTERMINA A CIDADE. SOMENTE LÓ SE SALVA COM AS SUAS DUAS
FILHAS E SUA MULHER, QUE É TRANSFORMADA EM ESTÁTUA DE SAL.
NASCIMENTO DE MOABE E DEAMOM. DEUS IMPEDE QUE O REI
ABIMELEQUE EXECUTE O SEU MAU INTENTO COM RELAÇÃO A SARA.
NASCIMENTO DE ISAQUE.

32.  Gênesis 78 e 7 9. Os povos de Sodoma, cheios de orgulho por sua abundância e grandes riquezas, esqueceram-se dos benefícios que haviam recebido de Deus e não foram menos ímpios para com Ele do que ultrajosos para com os homens. Odiavam os estrangeiros, e chafurdaram-se em prazeres inomináveis. Deus, irritado pelos seus crimes, resolveu castigá-los: destruir a sua cidade de tal modo que não restasse o menor vestígio dela, tornando o país tão estéril que jamais pudesse produzir fruto ou planta alguma.
33.  Um dia, quando Abraão estava sentado à porta de sua casa, junto ao carvalho de Manre, três anjos apresentaram-se a ele. Tomou-os por estrangeiros e, tendo-se levantado para saudá-los, ofereceu-lhes a sua casa. Os anjos aceitaram a sua hospitalidade. Abraão mandou matar um vitelo, que lhes foi servido assado com bolos de farinha. Puseram-se à mesa debaixo do carvalho, e pareceu a Abraão que eles comiam. Perguntaram-lhe depois onde estava a sua mulher. Ele respondeu-lhes que estava em casa e mandou logo chamá-la. Quando ela chegou, disseram-lhe que voltariam algum tempo depois e a encontrariam grávida. A essas palavras ela sorriu, porque, sendo idosa — tendo já noventa anos, e seu marido, cem —, julgava que fosse impossível. Então os anjos, não mais se ocultando, declararam que eram enviados de Deus, um para anunciar-lhes que teriam um filho e os outros dois para exterminar Sodoma. Abraão, consternado pela ruína daquele povo infeliz, rogou a Deus que não fizesse morrer os inocentes com os culpados. Deus respondeu-lhe que não havia lá inocentes e que, se ao menos dez fossem encontrados como tais, Ele perdoaria a todos os outros. Depois dessa resposta, Abraão não ousou mais falar em favor deles.
34.  Os anjos chegaram a Sodoma, e Ló, a exemplo de Abraão, também se mostrou muito atencioso para com os estrangeiros, rogando-lhes que ficassem em sua casa. Os habitantes dessa detestável cidade, vendo-os tão belos e tão apresentáveis, pediram a Ló, em cuja casa eles haviam entrado, que os entregasse, para que se servissem deles. Esse homem justo censurou-os, rogando-lhes que tivessem mais compostura, que não lhes fizessem injúria alguma, ultrajando os estrangeiros que estavam hospedados em sua casa, e que não violassem em suas pessoas os direitos da hospitalidade. Acrescentou que, se essas razões não os persuadissem, ele preferia entregar-lhes as próprias filhas. Mas nem isso os convenceu. Deus contemplava com olhares de cólera a ousadia daqueles celerados, e feriu-os com tal cegueira que não puderam achar a saída da casa de Ló. Resolveu então exterminar aquele povo abominável. Ordenou a Ló que se retirasse com toda a sua família e avisasse àqueles aos quais as suas duas filhas, que ainda eram virgens, haviam sido prometidas em casamento que também partissem. Mas eles zombaram do aviso, dizendo que era uma das habituais imaginações de Ló. Deus então lançou do céu os raios de sua cólera e de sua vingança contra essa cidade criminosa. Ela foi imediatamente reduzida a cinzas, com todos os seus habitantes. O mesmo fogo destruiu toda a região vizinha, como já disse na minha história da Guerra dos Judeus.
35. A mulher de Ló, que fugia com ele, contrariando a proibição divina, voltou-se para trás, a fim de ver a cidade e o terrível incêndio. Foi transformada numa estátua de sal e assim castigada pela sua curiosidade. Falei em outro lugar dessa estátua, que ainda hoje pode ser vista.
Assim, Ló retirou-se com as duas filhas a um recanto do país, o único poupado, que até hoje tem o nome de Zoar, isto é, &quot;pequeno&quot;. Eles viveram algum tempo com muita dificuldade, tanto porque estavam sozinhos quanto por trazerem consigo de casa muito pouco alimento. As duas filhas, julgando que toda a raça dos homens havia perecido, acharam que lhes era permitido, para conservá-la, enganar o pai. Dessa maneira, a mais velha teve dele um filho, a que chamou Moabe, que significa &quot;de meu pai&quot;, e a mais jovem deu à luz Ben-Ami, isto é, &quot;filho de minha raça&quot;. Do primeiro vieram os moabitas, que ainda hoje são um povo poderoso. Os amonitas são descendentes do segundo, e alguns deles habitam a Síria de Ceiem. Eis de que maneira Ló se salvou do incêndio de Sodoma.
36. Gênesis 20. Quanto a Abraão, ele retirou-se a Gerar, na Palestina. O medo que tinha do rei Abimeleque levou-o a fingir uma segunda vez que Sara era sua irmã. E esse príncipe não deixou de se enamorar dela. Mas Deus lhe impediu o perverso desígnio enviando-lhe uma grave enfermidade, e quando estava abandonado pelos médicos avisou-o em sonhos de que não fizesse ultraje algum a Sara, porque era esposa daquele estrangeiro, e não sua irmã.
Abimeleque, encontrando-se um pouco melhor ao despertar, contou o sonho aos que estavam junto dele e por conselho destes mandou chamar a Abraão. Disse-lhe que nada temesse por sua mulher, pois Deus se havia tornado protetor dela, e que tomava Abraão como testemunha, tanto quanto ela, de que a devolvia pura às suas mãos. Disse-lhe também que, se tivesse sabido que era sua esposa, não lha teria tirado, mas julgara ser ela somente sua irmã, e que não lhe faria injustiça alguma. Suplicou-lhe então que não guardasse ressentimento contra ele, mas, ao contrário, rogasse a Deus que lhe fosse favorável. E, ademais, se desejasse habitar nos seus estados, receberia toda sorte de atenções, ou, se pensasse em retirar-se, fá-lo-ia acompanhar e dar-lhe-ia todas as coisas que viera buscar em seu país.
Abraão respondeu-lhe que nada dissera contra a verdade ao chamá-la de irmã, pois ela era filha de um irmão seu, e que havia assim procedido apenas por medo do perigo ao qual se julgava exposto. Estava muito aborrecido por ter sido a causa da enfermidade do rei e de todo o coração desejava-lhe a saúde. E ficaria com muito prazer em suas terras. Abimeleque, ante essa resposta, deu-lhe dinheiro e terras e fez aliança com ele, confirmando-a com juramento junto aos poços ainda hoje denominados Berseba, isto é, &quot;poço do juramento&quot;.
37.  Gênesis 21. Algum tempo depois, Abraão teve de sua mulher, Sara, segundo a promessa que Deus lhe havia feito, um filho ao qual chamou Isaque, isto é, &quot;riso&quot;, porque Sara havia sorrido quando, sendo já bastante idosa, o anjo lhe anunciou que teria um filho. Ele foi circuncidado ao oitavo dia, segundo o costume que ainda hoje se observa entre os judeus. E, enquanto eles fazem a circunci-são ao oitavo dia do nascimento da criança, os árabes a realizam à idade de treze anos, porque Ismael, do qual são originários e de quem irei falar em seguida, foi circuncidado com essa idade.

CAPÍTULO 12
SARA OBRIGA ABRAÃO A AFASTAR AGAR E ISMAEL DE SEU PRÓPRIO FILHO. UM ANJO CONSOLA AGAR. POSTERIDADE DE ISMAEL.

38.  Gênesis 22. Sara, de início, amou Ismael como se fosse seu próprio filho, porque o considerava sucessor de Abraão. Quando se viu mãe de Isaque, todavia, julgou que não era mais conveniente criá-los juntos, porque Ismael, sendo muito mais velho, poderia muito facilmente, após a morte de Abraão, tornar-se senhor. Assim, ela persuadiu Abraão a afastá-lo, juntamente com sua mãe. Ele, em princípio, teve dificuldades em fazê-lo, porque lhe parecia desumano expulsar de casa uma criança e uma mulher aos quais tudo faltava. No entanto Deus lhe deu a conhecer que ele devia dar essa satisfação a Sara. Como Ismael não era ainda capaz de se governar sozinho, ele o entregou à mãe, a quem disse que se fosse embora, dando-lhe apenas alguns pães e um odre cheio de água.
Depois de se haver esgotado o pão e o pouco de água, Ismael sentiu tal sede que estava a ponto de morrer, e Agar, não podendo suportar a pena de vê-lo morrer diante de seus próprios olhos, colocou-o ao pé de um pinheiro e afastou-se. Um anjo apareceu e mostrou-lhe uma fonte que estava próxima, recomen-dando-lhe que tivesse muito cuidado com o filho e asseverando-lhe que, se cumprisse bem esse dever, ela seria íeliz. Uma consolação tão inesperada fê-la retomar a coragem: continuou a andar e encontrou alguns pastores, que a ajudaram em tão grave necessidade.
Quando Ismael chegou à idade de se casar, Agar deu-lhe por esposa uma mulher egípcia, porque ela também havia nascido no Egito. Ele teve doze filhos: Nebaiote, Quedar, Abdeel, Mibsão, Misma, Duma, Massa, Hadade, Tema, Jetur, Nafis e Quedemá. Eles ocuparam toda a região que está entre o Eufrates e o mar Vermelho e a chamaram Nabatéia. Os árabes originaram-se deles, e os seus descendentes conservaram o nome de nabateenses por causa do seu valor e da fama de Abraão.

CAPÍTULO 13
ABRAÃO, PARA OBEDECER À ORDEM DE DEUS, OFERECE-LHE O FILHO ISAQUE EM SACRIFÍCIO. DEUS, PARA RECOMPENSAR-LHE A FIDELIDADE, CONFIRMA-LHE TODAS AS PROMESSAS.

39. Gênesis 22. Nada se poderia acrescentar à ternura que Abraão tinha para com Isaque, tanto porque era o único filho quanto porque lhe fora concedido por Deus em sua velhice. E Isaque, por sua vez, praticava com tanto entusiasmo toda espécie de virtudes, servia a Deus com tanta fidelidade e prestava a seu pai tantos serviços que dava a Abraão todos os dias novos motivos para amá-lo. Assim, Abraão só pensava em morrer, e seu único desejo era deixar aquele filho como seu sucessor. Deus concedeu o que Abraão desejava, mas antes quis experimentar a sua fidelidade. Apareceu-lhe e, depois de haver-lhe lembrado as graças particulares com que sempre o favorecera, as vitórias que o haviam feito conquistar os inimigos e a prosperidade com que o brindara, ordenou-lhe que lhe sacrificasse o filho Isaque sobre o monte Moriá e assim testemunhasse, por aquele ato de obediência, que ele preferia a vontade divina ao que ele tinha de mais caro no mundo.
Estando Abraão persuadido de que nenhuma consideração poderia dispensá-lo de obedecer a Deus, a quem todas as criaturas são devedoras da própria existência, nada disse à sua esposa nem a qualquer outro de seus familiares sobre a ordem que havia recebido de Deus ou acerca da resolução de executá-la, com medo que eles se esforçassem para dissuadi-lo de seu propósito. Disse somente a Isaque que o seguisse, acompanhado por dois criados, e mandou colocar sobre um jumento todas as coisas de que necessitava para o sacrifício. Após haver caminhado durante dois dias, avistaram o monte que Deus lhe havia indicado. Deixou então os dois criados no sopé do monte e subiu-o somente com Isaque (no cimo desse monte o rei Davi, mais tarde, fez construir um Templo). Levou para lá tudo o que precisavam, exceto a vítima, para o sacrifício. Isaque tinha então vinte e cinco anos. Ele preparou o altar, mas, não vendo vítima alguma, perguntou ao pai quem ele queria sacrificar. Abraão respondeu-lhe que Deus, que pode dar aos homens todas as coisas que lhes faltam e tirar-lhes as que já possuem, dar-lhes-ia uma vítima, se se dignasse aceitar o sacrifício deles.
Depois de haver colocado a lenha sobre o altar, Abraão falou a Isaque: &quot;Meu filho, eu vos pedi a Deus com muita insistência e muitas orações. Não houve cuidado que eu não tivesse tido de vós, desde que viestes ao mundo, e eu consideraria como realizados todos os meus votos se vos visse chegar a uma idade muito avançada e deixar-vos, ao morrer, como herdeiro de tudo o que possuo. Mas, como Deus, depois de vos ter dado a mim, quer agora que eu vos perca, consenti generosamente em oferecer-vos a Ele em sacrifício. Prestemos-Ihe, meu filho, esse ato de obediência e essa honra como testemunho de nossa gratidão pelos favores que Ele nos fez na paz e pela assistência que nos deu na guerra. Como nascestes para morrer, que fim vos pode ser mais glorioso do que ser oferecido em sacrifício por vosso próprio pai ao soberano Senhor do universo, que, em vez de terminar a vossa vida por uma doença, numa cama, ou por uma ferida na guerra, ou por algum outro acidente, aos quais os homens estão sujeitos, vos julga digno de entregar-lhe a alma no meio de orações e sacrifícios, de modo a ficar para sempre unida a Ele? Consolareis assim a minha velhice, dando-me a assistência de Deus em lugar da que eu devia receber de vós, depois de vos ter educado com tanta diligência&quot;.
Isaque, filho digno de tão admirável pai, escutou essas palavras não somente sem se admirar, mas até com alegria, e respondeu-lhe que ele teria sido indigno de nascer se se recusasse a obedecer à vontade de seu pai, principalmente quando ela estava de acordo com a de Deus. Assim dizendo, colocou-se ele mesmo sobre o altar, para ser imolado. Esse grande sacrifício ter-se-ia realizado se Deus mesmo não o tivesse impedido. Ele chamou Abraão pelo nome e proibiu-o de matar o filho, dizendo-lhe que havia ordenado o sacrifício não para tirá-lo depois de o haver concedido ou porque sentia prazer em ver derramar sangue humano, mas somente para lhe experimentar a obediência. Agora, vendo com quanto zelo e fidelidade fora obedecido, aceitava o sacrifício e garantia-lhe, como recompensa, que jamais deixaria de assistir a ele e a toda a sua descendência. Quanto ao filho que lhe fora oferecido e que iria restituir, viveria feliz e por muito tempo, e a sua posteridade seria ilustre por uma longa série de homens valentes e virtuosos, que submeteriam pelas armas todo o país de Canaã. A fama deles tomar-se-ia imortal. As suas riquezas seriam tão grandes e a sua felicidade tão extraordinária que eles seriam invejados por todas as outras nações.
Concluído esse oráculo, Deus fez aparecer um carneiro, para ser oferecido em sacrifício. Aquele pai fiel e seu filho sensato e feliz abraçaram-se, no auge da alegria, pela grandeza das promessas, terminaram o sacrifício e voltaram para encontrar Sara. Deus, fazendo prosperar todos os seus desígnios, cumulou de felicidade todo o restante da vida de Abraão.

CAPÍTULO 14
MORTE DE SARA, MULHER DE ABRAÃO.

40.  Gênesis 23. Algum tempo depois, Sara morreu, com a idade de cento e vinte e sete anos, e foi enterrada em Hebrom, onde os cananeus se ofereceram para lhe dar sepultura. Abraão, porém, preferiu adquirir para esse fim um campo que comprou, por quatrocentos sidos — de um habitante de Hebrom, chamado Efrom —, onde ele e seus descendentes construíram um túmulo.

CAPÍTULO 15
ABRAÃO DESPOSA QUETURA, DEPOIS DA MORTE DE SARA. FILHOS QUE TEVE
DELA E SUA POSTERIDADE. FAZ SEU FILHO ISAQUE CASAR-SE COM REBECA,
FILHA DE BETUEL E IRMÃ DE LABÃO.

41.  Gênesis 25. Abraão, depois da morte de Sara, desposou Quetura e teve dela seis filhos, todos infatigáveis no trabalho e muito ativos. Chamavam-se Zinrã, jocsã, Meda, Midiã, Isbaque e Suá.
Jocsã teve dois filhos, Seba e Dedã, o qual teve Assurim, Letusim e Leumim. Midiã teve cinco filhos: Efá, Efer, Enoque, Abida e Elda. Abraão aconselhou a todos que se fossem estabelecer em outros países. Eles ocuparam a Troglodita e toda aquela parte da Arábia Félix que se estende até o mar Vermelho. Diz-se também que Efer, de que acabamos de falar, apoderou-se da Líbia por meio das armas e que os seus descendentes lá se estabeleceram e a chamaram com o nome dele: África, o que Alexandre Poliistor confirma com estas palavras: &quot;O profeta Cleodemas, cognominado Malque, que a exemplo do legislador Moisés escreveu a história dos judeus, diz que Abraão teve de Quetura, dentre outros filhos, a Afram, Sur e lafram: Sur deu o seu nome à Síria, Afram à cidade Afra e lafram à África, e que eles combateram na Líbia contra Anteu, sob o comando de Hércules&quot;. Ele acrescenta que Hércules desposou a filha de Afram e que dela teve um filho de nome Deodoro, o qual foi o pai de Sofo, que deu nome aos sofácios.
42. Cênesis 24. Isaque tinha mais ou menos quarenta anos quando Abraão pensou em casá-lo, lançando vistas sobre Rebeca, filha de Betuel, que era filho de Naor, seu irmão. Em seguida, ele escolheu para ir pedi-la em casamento o mais amigo dentre os seus servidores, ao qual obrigou por juramento, fazendo-o pôr a mão sob a sua coxa, executar tudo o que ele lhe ia ordenar. Deu-lhe presentes raros, que seriam admirados num país onde ainda nada fora visto de semelhante. Esse fiel servidor demorou-se muito tempo antes de chegar à cidade de Harã, porque lhe foi necessário atravessar a Mesopotâmia, onde havia grande quantidade de ladrões, onde os caminhos são muito difíceis no inverno e onde se sofre muito no verão, pela dificuldade em se encontrar água.
Quando chegou aos arredores da cidade, avistou várias moças, que iam ao poço buscar água. Rogou então a Deus que, se fosse a sua vontade que Rebeca desposasse o filho de seu senhor, fizesse com que ela se encontrasse entre as moças e que, recusando-se as outras a lhe darem de beber, ele pudesse conhecê-la pelo ato de gentileza com que o atenderia. Aproximou-se em seguida dos poços e rogou às moças que lhe dessem água. Todas responderam que era muito difícil tirá-la e que dela também precisavam, não podendo assim atendê-lo. Rebeca, ouvindo-as falar assim, disse-lhes que elas eram bem indelicadas por recusar aquele favor a um estrangeiro e ao mesmo tempo ofereceu-lhe água com grande bondade.
Tão favorável início deu ao prudente servidor esperanças de que a sua viagem lograsse bom êxito. Ele agradeceu-lhe e, para ter ainda maior certeza de suas conjecturas, rogou-lhe que dissesse quem eram os que tinham a ventura de tê-la por filha. A isso acrescentou que desejava que Deus lhe fizesse a graça de encontrar um marido digno dela, ao qual desse filhos que lhe herdassem a virtude. A sensata donzela respondeu-lhe, com a mesma gentileza, que se chamava Rebeca, que seu pai era Betuel e que depois da morte deste Labão, seu irmão, passara a cuidar dela, de sua mãe e de toda a sua família.
Então o servo, vendo com grande alegria não haver mais dúvida de que Deus o assistia no desempenho de sua missão, ofereceu a Rebeca uma cadeia e outros ornamentos próprios para donzelas e rogou-lhe que os recebesse como um sinal de gratidão pelo favor que ela, dentre todas as moças, tivera a bondade de lhe prestar. Suplicou-lhe em seguida que o levasse à casa de seus parentes, porque a noite já se aproximava e, trazendo ele objetos de muito valor, julgava não haver melhor lugar onde guardá-los do que na casa dela. Disse ainda que, julgando da virtude de seus familiares pela que via nela, não duvidava de que o receberiam, pois não pretendia ser-lhes de peso: pagaria todas as despesas.
Ela respondeu-lhe que ele não errava fazendo boa idéia de seus parentes, mas não lhes fazia muita honra ao pensar que eles seriam capazes de receber alguma coisa por lhe darem hospedagem, pois cumpriam de muito boa mente o dever da hospitalidade. Iria em seguida falar com o irmão e o traria imediatamente, para se entenderem. Ela foi para casa e fez o que havia prometido. Labão ordenou aos servos que cuidassem dos camelos e convidou o hóspede para jantar.
Quando terminaram a refeição, o servo de Abraão disse-lhe: &quot;Abraão, filho de Terá, é vosso parente&quot;. Depois, dirigindo-se à mãe de Rebeca, acrescentou: &quot;Naor, avô dos filhos de quem sois a mãe, era irmão de Abraão. Abraão é meu senhor. Ele mandou-me até vós para pedir em casamento esta moça para o seu único filho, herdeiro de todos os seus bens. Ele poderia ter escolhido uma das donzelas mais ricas de seu país, mas julgou melhor prestar essa homenagem aos de sua descendência, em vez de se aliar aos de uma nação estrangeira. Secundai, por favor, o seu desejo, e com tanto maior alegria, pois isso é, sem dúvida, conforme a vontade de Deus, que, além da assistência que me prestou na viagem, me fez encontrar com rara felicidade esta virtuosa donzela e a vossa casa. Tendo, ao chegar, encontrado diversas moças que iam tirar água do poço, desejava eu uma que fosse do seu número e que a pudesse conhecer, e assim aconteceu. Portanto, tendo Deus vos feito ver que esse casamento lhe agrada, poderíeis recusar o vosso consentimento e não conceder a Abraão o pedido que vos faz por meu intermédio?&quot;
Uma proposta tão vantajosa e da qual Labão e sua mãe não podiam duvidar que de era agradável a Deus foi recebida por eles com uma satisfação inimaginável. Então enviaram Rebeca, e Isaque a desposou, estando já de posse de todos os bens de seu pai, pois os filhos que Abraão tivera de Quetura haviam ido se estabelecer em outras províncias.

CAPÍTULO 16
MORTE DE ABRAÃO.

43. Gênesis 25. Abraão morreu pouco depois do casamento de Isaque. Foi tão eminente em toda espécie de virtudes que mereceu ser muito particularmente querido e favorecido por Deus. Viveu cento e setenta e cinco anos. Isaque e Ismael, seus filhos, sepultaram-no em Hebrom, junto de Sara, sua mulher.

CAPÍTULO 17
REBECA TEM DOIS FILHOS: ESAÚ EJACÓ. UMA GRANDE CARESTIA OBRIGA ISAQUE A SAIR DO PAÍS DE CANAÃ, E ELE PERMANECE ALGUM TEMPO
NAS TERRAS DO REI ABIMELEQUE. CASAMENTO DE ESAÚ. ISAQUE,
ENGANADO POR JACÓ, OUTORGA-LHE A BÊNÇÃO, JULGANDO DÁ-LA A ESAÚ.
PARA EVITAR A CÓLERA DE SEU IRMÃO, JACÓ RETIRA-SE
PARA A MESOPOTÂMIA.

44.  Gênesis 25. Rebeca estava grávida à morte de Abraão, e de maneira tão esquisita que Isaque, temendo por ela, consultou a Deus para saber qual seria o fim daquela estranha gravidez. Deus respondeu-lhe que ela teria dois filhos, dos quais sairiam dois povos, que teriam deles os nomes e a origem. O mais novo, porém, seria o mais poderoso. Viu-se pouco tempo depois o efeito dessa predição. Rebeca teve gêmeos, sendo o mais velho todo coberto de pêlos, e o mais novo segurava-lhe o calcanhar quando vieram à luz. O mais velho chamou-se Esaú, por causa dos pêlos que apresentava ao nascer, e Isaque tinha por ele afeto particular. O mais novo foi chamado Jacó, e Rebeca amava-o muito mais que ao primogênito.
45.  Gênesis 26. O país de Canaã foi nesse mesmo tempo flagelado por uma carestia extraordinária. No Egito, entretanto, reinava a abundância. Isaque resolveu ir para lá, mas Deus lhe ordenou que parasse em Gerar. Como havia grande amizade entre o rei Abimeleque e Abraão, o monarca mostrou-lhe de início muito boa vontade. Mas quando viu que Deus o favorecia em todas as coisas, começou a sentir inveja e obrigou-o a se retirar. Isaque foi então para um lugar de nome Fará, isto é, um vale muito próximo de Gerar, e aí quis cavar um poço, mas os pastores de Abimeleque vieram armados para impedi-lo. Como ele não era de índole inclinada a brigas, deixou-lhes o lugar e permitiu que se gabassem de tê-lo obrigado, pela força, a se retirar, embora ele o tivesse feito voluntariamente. Começou em seguida a cavar outro poço, e outros pastores também impediram que ele o terminasse. Vendo-se obstaculizado dessa maneira, resolveu, com muita prudência, esperar um tempo mais favorável, e este chegou bem depressa. Com permissão de Abimeleque, cavou um poço ao qual chamou Reobote, isto é, &quot;grande e espaçoso&quot;. Quanto aos dois outros que havia começado, um chamou-se Eseque, isto é, &quot;disputado&quot;, e o outro, Sitna, isto é, &quot;inimizade&quot;.
46.  No entanto, como Deus prodigalizasse todos os dias novas bênçãos a Isaque, a sua prosperidade e riqueza fez Abimeleque temer que os motivos que o filho de Abraão tinha para se queixar dele fizessem mais impressão sobre o seu espírito do que a lembrança da amizade que lhe mostrara no início e o levassem a se vingar. E, não o querendo como inimigo, foi ter com ele, acompanhado somente por um dos nobres de sua corte, para renovar a aliança. Não teve dificuldade em conseguir o seu intento porque a bondade de Isaque e a lembrança da antiga amizade desse príncipe por ele e para com Abraão fizeram-no esquecer facilmente todos os maus-tratos que havia recebido.
Esaú, na idade de quarenta anos, desposou Ada, filha de Elom, e Oolibama, filha de Zibeão, ambos príncipes dos cananeus.* Não pediu permissão ao seu pai, que jamais a teria concedido, porque não aprovava que ele se aliasse a estrangeiros. No entanto, como não queria aborrecer o seu filho, ordenando-lhe que devolvesse as duas mulheres, Isaque suportou-o, sem nada dizer.

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* E judite (Gn 26.34). (N do E)

47. Gênesis 27. Homem justo e acabrunhado pela velhice, Isaque havia também perdido a vfsíío: Um dia, &quot;mandou chamar Esaú é disse-lhe que, não podendo mais ver a claridade do dia nem servir a Deus com todo esmero, como sempre o fizera, queria, antes de morrer, dar-lhe a sua bênção. Disse-lhe que fosse à caça, trouxesse o que apanhasse para ele, Isaque, comer e em seguida rogaria a Deus que fosse sempre o seu protetor, pois não via melhor maneira de empregar o pouco de tempo que lhe restava de vida.
Esaú partiu logo para executar a ordem. No entanto Rebeca, que desejava a bênção de Deus sobre o irmão dele, e não sobre ele, embora não fosse essa a intenção de seu pai, disse a Jacó que matasse um cabrito e o preparasse. Ele obedeceu, e, quando a refeição ficou pronta, cobriu os braços e as pernas com a pele do cabrito, a fim de que Isaque, ao tocá-lo, o tomasse por Esaú. Como eram gêmeos, assemelhavam-se em tudo o mais. Apresentou-lhe em seguida o prato que havia preparado, mas não o fez sem o temor de que ele descobrisse o engano e lhe aplicasse uma maldição em lugar da bênção.
Isaque falou com ele e notou nas suas respostas certa diferença na voz. Jacó então aproximou o braço, e Isaque, depois de havê-lo tocado, disse-lhe: &quot;Vossa voz, meu filho, parece-me a de Jacó, mas este pêlo que sinto em vosso braço me faz crer que sois Esaú&quot;. E assim, não tendo mais dúvida alguma, comeu e fez depois a sua oração, deste modo: &quot;Deus eterno, do qual todas as criaturas recebem o ser, cumulastes o meu pai de benefícios. Devo-vos tudo o que tenho, e prometestes tornar a minha posteridade mais feliz ainda. Confirmai, Senhor, com os fatos, a verdade de vossas palavras e não desprezeis a fraqueza em que me encontro, pois ela me faz ter ainda mais necessidade da vossa assistência. Sede, por favor, o protetor deste filho que vos ofereço. Preservai-o de todos os perigos, fazei-o passar uma vida tranqüila, derramai sobre ele, a mancheias, os bens de que sois possuidor. Tornai-o temível aos seus inimigos e fazei com que os seus amigos o amem e honrem!&quot;
Apenas Isaque havia terminado essa oração, aparece-lhe Esaú, em favor do qual julgava tê-la feito, voltando da caça. Reconheceu então o seu erro e confessou-o, sem se perturbar. Esaú rogou-lhe que fizesse por ele ao menos a mesma oração que havia feito por seu irmão. Isaque respondeu-lhe que não o podia, porque fizera em favor de Jacó tudo o que dependia dele. Esaú, abatido pela dor de ver-se enganado, não pôde reter as lágrimas. O pai ficou tão comovido que lhe deu outra bênção, dizendo que ele e seus descendentes seriam peritos na caça, na ciência da guerra e em todas as ações em que se exige força e coragem, mas seriam, entretanto, inferiores a Jacó e sua posteridade.
 
48.  Rebeca, para salvar )acó do perigo que o ressentimento do irmão a fazia temer, persuadiu Isaque a mandá-lo à Mesopotâmia, para casar-se com uma mulher de sua raça. Esaú, que havia percebido o descontentamento de seu pai por causa da aliança com os cananeus, desposou Basemate, filha de Ismael, e amou-a mais do que a qualquer outra de suas esposas.

CAPÍTULO 18
VISÃO QUEJACÓ TEVE NA TERRA DE CANAÃ, ONDE DEUS PROMETE TODA
SORTE DE FELICIDADE A ELE E À SUA DESCENDÊNCIA. NA MESOPOTÂMIA,
DESPOSA LEIA E RAQUEL, FILHAS DE LABÃO. RETIRA-SE SECRETAMENTE PARA
VOLTAR AO SEU PAÍS. LABÃO PERSEGUE-O, MAS DEUS O PROTEGE. LUTA COM
UM ANJO E RECONCILIA-SE COM O SEU IRMÃO ESAÚ. O FILHO DO REI DE
SIQUÉM VIOLENTA DINÁ, FILHA DEJACÓ. SIMEÃO E LEVI, SEUS IRMÃOS,
PASSAM AFIO DE ESPADA TODOS OS HABITANTES DA CIDADE DE SIQUÉM.
RAQUEL DÁ À LUZ BENJAMIM E MORRE DE PARTO. FILHOS DE JACÓ.

49.  Gênesis 28. Tendo sido Jacó, com o consentimento do pai, enviado por sua mãe à Mesopotâmia, para desposar uma filha de Labão, seu tio, atravessou o país dos cananeus. Mas, por ser uma nação inimiga, não entrou em nenhuma de suas casas. Dormia no campo, utilizando-se das pedras como travesseiro. E, dormindo, teve uma visão. Parecia-lhe ver uma escada que ia da Terra até o céu com pessoas — que pareciam ser mais que humanas — descendo por ela. Deus, que estava no alto, apareceu-lhe claramente, chamou-o pelo nome e disse-lhe: &quot;Jacó, tendo como tendes por pai um homem de bem e tendo o vosso avô se tornado tão célebre pela virtude, por que vos deixais abater pela dor? Concebei melhores esperanças. Grandes bens vos esperam, e eu jamais vos abandonarei. Quando Abraão foi expulso da Mesopotâmia, eu o fiz vir aqui. Tornei feliz o vosso pai, e vós não o sereis menos que ele. Coragem! Continuai o vosso caminho, nada temais sob o meu governo. O vosso casamento será como desejais: tereis muitos filhos, e vossos filhos terão ainda mais. Sujeitar-lhes-ei este país, e à sua posteridade, que se multiplicará de tal modo que todas as terras e os mares que o Sol ilumina serão povoadas por eles. Nenhuma tribulação e nenhum perigo serão capazes de vos assustar. Desde já tomo cuidado de vós, e tomarei ainda mais para o futuro&quot;.
50. Uma tão favorável visão encheu jacó de consolo e de alegria. Lavou as pedras que lhe serviam de travesseiro, pois grande felicidade ali lhe se havia predito, e fez voto: se retornasse feliz, ofereceria naquele mesmo lugar um sacrifício a Deus e a décima parte de todos os seus bens, o que cumpriu depois com fidelidade. Quis também, para tornar célebre o lugar, dar-lhe o nome de Betei, isto é, &quot;permanência de Deus&quot;.
Gênesis 29. Continuou depois a marcha para a Mesopotâmia e por fim chegou a Harã. Nos arredores, encontrou alguns pastores, moços e moças, que estavam sentados à borda de um poço. Rogou-lhes que lhe dessem de beber e, tendo entabulado conversação com eles, perguntou-lhes se conheciam um homem de nome Labão e se ele ainda vivia. Responderam-lhe que o conheciam: era um homem muito estimado para não ser conhecido; que ele tinha uma filha que habitualmente ia ao campo com eles (admiravam-se de ela não estar ali com o grupo); e que ele poderia saber dela tudo o que desejava.
Conversavam assim quando Raquel chegou, acompanhada de seus pastores. Apontaram-lhe Jacó, dizendo que aquele estrangeiro perguntara pela saúde de seu pai. Como ela era muito jovem e muito simples, mostrou-se satisfeita em ver Jacó e perguntou-lhe quem era e que motivo o trazia ao seu país, acrescentando o desejo de que seu pai e sua mãe lhe pudessem dar tudo o que ele queria deles. Tão grande bondade comoveu-o. Estando ela perto de jacó, este ficou bastante surpreendido com a sua beleza, que era extraordinária. &quot;Pois que vós sois filha de Labão&quot;, disse-lhe ele, &quot;posso dizer que a nossa aproximação precedeu o nosso nascimento. Terá teve a Abraão por filho, Naor e Arã também. Mas nós somos ainda mais próximos: pois Rebeca, minha mãe, é irmã de Labão, vosso pai. Assim, somos primos irmãos, e eu vos venho visitar para dar-vos o que vos devo e renovar tão estreita aliança&quot;.
Raquel, que ouvira o pai falar tantas vezes de Rebeca e do desejo que tinha de receber notícias dela, ficou tão contente que, levada pela alegria, abraçou Jacó e, chorando, disse-lhe que seu pai e toda a sua família guardavam contínua recordação de Rebeca e dela falavam a todo instante. E, como ele não lhes poderia dar maior prazer que as informações sobre uma pessoa que lhes era tão cara, rogou-lhe que a seguisse, para não retardar nem mais um momento tão grande satisfação. Levou-o depois a Labão, cuja alegria, ao ver o sobrinho quando menos o esperava, não foi menor, e Jacó sentiu-se em segurança junto dele.
Alguns dias depois, Labão perguntou-lhe como tinha podido deixar seu pai e sua mãe numa idade em que eles necessitavam tanto de sua assistência e ao mesmo tempo ofereceu-lhe tudo o que dele podia depender. Jacó, para satisfazer o desejo do tio, contou-lhe o que se havia passado em família. Disse-lhe que tinha um irmão gêmeo e que Rebeca, sua mãe, querendo-o mais que a seu irmão Esaú, havia conseguido, por um ato de astúcia, que seu pai lhe desse, com todas as vantagens que a acompanhavam, a bênção que era do irmão. Contou-lhe que Esaú, para vingar-se, procurava por todos os meios matá-lo e que sua mãe lhe havia ordenado então que viesse buscar asilo junto de Labão, pois não tinha nenhum outro parente mais próximo ao seu lado. E assim, no estado a que se encontrava reduzido, tinha confiança apenas em Deus e no tio.
Labão, comovido com essas palavras, prometeu a jacó toda a assistência, fosse em consideração ao parentesco, fosse para testemunhar a amizade que conservava por sua irmã, embora ausente há tanto tempo e tão longe dele. Prometeu também dar-lhe inteira autoridade sobre todos os que cuidavam de seus rebanhos, e, quando Jacó voltasse ao seu país, saberia, pelos presentes que lhe daria, qual era a sua gratidão e amizade. E Jacó, como nutrisse já grande afeto por Raquel, respondeu-lhe que a nenhum trabalho consideraria pesado, em se tratando de servi-lo, e que tinha tanta estima pela virtude de Raquel e tanta gratidão pela bondade com a qual ela o havia levado até ali que não pedia outra recompensa pelos seus serviços senão recebê-la em casamento.
Labão recebeu a proposta com satisfação, respondendo que não poderia ter genro mais agradável. Disse-lhe então ser necessário que Jacó ficasse algum tempo com eles, porque não podia resolver-se ainda a mandar a filha para Canaã, pois já havia sentido muito ter deixado a irmã partir para um país tão distante. Jacó aceitou a condição, prometeu servi-lo por sete anos e acrescentou que teria prazer em encontrar ocasião de lhe mostrar, por sua solicitude e seus serviços, que não era indigno de sua aliança.
51. Quando se passaram os sete anos, Labão viu-se na contingência de cumprir a promessa e, no dia das núpcias, deu um grande banquete. Mas, em vez de colocar Raquel no leito, mandou secretamente que lá pusessem Leia, irmã mais velha, que nada tinha em si mesma que pudesse despertar o amor. As trevas e o vinho levaram Jacó a perceber o engano somente no dia seguinte.* Ele queixou-se a Labão, que se desculpou de assim ter agido, dizendo ter sido obrigado pelo costume do país, que proibia casar a filha mais nova antes da mais velha, mas que isso não o impediria de esposar Raquel: estava disposto a entregá-la a Jacó, com a condição de que este o servisse por mais sete anos. Jacó percebeu que o engano era um mal sem remédio, mas o seu amor por Raquel o fez aceitar a proposta, embora injusta. Assim, ele a desposou e serviu Labão durante outros sete anos.

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* As Escrituras afirmam que Jacó desposou Raquel ao fim de sete dias, com a condição de que ele serviria Labão por mais sete anos.

52. As duas irmãs mantinham junto delas duas moças, Zilpa e Bila, que Labão lhes dera não como criadas, mas apenas para fazer companhia às filhas, embora a estas devessem prestar obediência. Leia vivia triste, porque Jacó só tinha amor por Raquel, mas julgou que ele também poderia amá-la, se Deus lhe desse filhos. Por isso rogava a Ele constantemente que lhe fizesse aquela graça e por fim a obteve. Deu à luz uma criança, à qual chamou Rúben, para mostrar que o obtivera unicamente dEle. Teve em seguida outros três: um de nome Simeão, significando que Deus lhe havia sido favorável; outro a que chamou Levi, isto é, &quot;sustentáculo da sociedade&quot;; e outro ainda, Judá, isto é, &quot;ação de graças&quot;.
Gênesis 30. A fecundidade de Leia, com efeito, levou jacó a amá-la mais. E Raquel, temendo que o afeto do marido pela irmã diminuísse a parte que lhe tocava, resolveu dar Bila a Jacó, que dela teve dois filhos: o mais velho, de nome Dã, isto é, &quot;julgamento de Deus&quot;, e o mais novo, Naftali, isto é, &quot;engenhoso&quot;, porque Raquel havia combatido por meio da astúcia a fecundidade da irmã. Leia usou também do mesmo artifício e pôs Zilpa em seu lugar, com a qual Jacó teve dois filhos: um de nome Gade, isto é, &quot;vindo por acaso&quot;, e outro, Aser, isto é, &quot;felicidade&quot;, porque Leia daí tirava vantagem.
Dessa maneira, viviam juntas as duas irmãs. Rúben, filho mais velho de Leia, trouxe um dia para sua mãe algumas mandrágoras. Raquel teve também desejo de comê-las e rogou à irmã que as repartisse com ela. Leia recusou atender o pedido, dizendo que Raquel devia contentar-se com a vantagem do afeto de Jacó. Raquel, para acalmá-la, ofereceu-lhe Jacó por aquela noite. Ela aceitou a proposta e ficou grávida de Issacar, isto é, &quot;nascido como recompensa&quot;. Em seguida, teve Zebulom, isto é, &quot;recompensa da amizade&quot;, e uma filha: Diná. Por fim, Raquel teve também a alegria de ser mãe — de José, que quer dizer &quot;aumento&quot;.
53. Gênesis 31. Vinte anos passaram-se dessa maneira, e ]acó, durante todo esse tempo, teve sempre a guarda geral dos rebanhos de Labão. Após tantos anos de serviço, pediu para voltar ao seu país, com as duas esposas. Labão recusou-se a dar o consentimento, e ]acó então resolveu retirar-se secretamente. Leia e Raquel estavam de acordo com ele. E assim, partiu com elas, levando também Zilpa e Bila, todos os seus filhos, os seus bens e metade dos rebanhos de Labão. Raquel tomou os ídolos de seu pai, não para adorá-los, porque Jacó não estava dominado por esse erro, mas para aplacar a cólera de Labão, restituindo-os, caso ele os perseguisse.
Labão soube da retirada de |acó apenas no dia seguinte e pôs-se a segui-lo com muita gente, alcançando-o no sétimo dia, pela tarde, numa colina onde os fugitivos descansavam. Quis deixar passar a noite sem os atacar. Mas, quando dormia, Deus apareceu-lhe em sonhos e proibiu-lhe de pela cólera empreender algo contra Jacó e suas filhas, ordenando-lhe que se reconciliasse com o genro e que não confiasse na desigualdade das forças, pois se ousasse atacá-los, combateria por Jacó, para protegê-lo.
O dia não havia raiado quando Labão, em obediência à ordem divina, mandou contar a Jacó o sonho que tivera, pedindo que viesse ter com ele. E Jacó foi, sem nada temer. Labão começou por fazer-lhe graves censuras: &quot;Não podíeis&quot;, disse ele, &quot;ter esquecido em que estado estáveis quando viestes à minha casa, como eu vos recebi, com que liberalidade vos tornei participante de meus bens e com quanta bondade vos dei as minhas filhas em casamento? Quem não teria pensado que tantos favores vos teriam unido para sempre a mim, com um afeto inviolável? Mas nem a estreita parentela, que nos une, nem a consideração de que a vossa mãe é minha irmã, que as vossas esposas me devem a vida e que os vossos filhos são meus impediram que me tratásseis como se eu fosse vosso inimigo. Levais os meus bens, obrigastes as minhas filhas a me deixar para fugir convosco e sois a causa de elas me roubarem o que os meus antepassados e eu sempre tivemos em grande veneração, porque são coisas sagradas. Qual! Será então necessário que eu receba do filho de minha irmã, de meu genro, de meu hóspede e de um homem que me é devedor de tantos benefícios todos os ultrajes que um inimigo irreconciliável me teria podido fazer?&quot;
54. Jacó, para justificar-se, respondeu que não era o único a quem Deus havia imprimido no coração o amor pelo país natal e o desejo de voltar após longa ausência. Quanto à acusação de tê-lo roubado, qualquer homem justo Julgaria que tal censura se ajustava ao próprio Labão, porque, em vez de lhe agradecer por ter não somente conservado, mas aumentado tanto os seus bens, vinha queixar-se de que lhe havia sido levada uma pequena parte. E, quanto ao que se referia às filhas, era estranho achar maldade no fato de as esposas seguirem o marido, bem como esperar que as mães abandonassem os filhos.
Após ter-se defendido dessa maneira, Jacó, para usar das mesmas razões que Labão apresentara contra ele, acrescentou que, sendo seu tio e sogro, não deveria tê-lo tratado tão rudemente, como o fizera por vinte anos, sem falar no que sofrerá para obter Raquel, suportado apenas por causa de sua afeição por ela, e ainda depois, quando continuou a agir contra ele de maneira que nem da parte de um inimigo teria esperado pior. Jacó tinha sem dúvida grandes motivos para queixar-se das injustiças de Labão, pois quando este viu que Deus favorecia jacó em todas as coisas, ora prometia-lhe dar, na partilha do aumento do rebanho, os animais que nascessem brancos, ora os que fossem pretos. E, percebendo que a parte de Jacó era a maior, faltava-lhe sempre à palavra e adiava a partida para o ano seguinte, na esperança de que seria depois a mesma coisa. Como nisso era sempre enganado, continuava também a enganar Jacó.
Quando Raquel soube que, ante a queixa do furto dos ídolos, Jacó dera a Labão permissão de os procurar, escondeu-os debaixo do camelo em que montava, sentou-se sobre ele e disse que não podia se levantar, pois estava sofrendo do incômodo próprio das mulheres. Assim, Labão não os procurou mais, porque pensou que a filha não teria naquele estado se aproximado de coisas que no seu espírito passavam por sagradas. Prometeu depois a Jacó, com juramento, não somente esquecer o passado, mas conservar por suas filhas o mesmo afeto que sempre lhes tivera. E, como sinal da renovação da aliança, ergueram sobre a montanha uma coluna em forma de altar, à qual deram por esse motivo o nome de Galeede e que a região vizinha, posteriormente, conservou. Fizeram depois um grande banquete, e Labão deixou-os para regressar à sua casa.
55. Gênesis 32. jacó, por seu lado, continuou a viagem para Canaã e no caminho teve visões, as quais o fizeram conceber tão grandes esperanças que chamou Campos de Deus o lugar onde as tivera. Mas, temendo sempre o ressentimento de Esaú, mandou alguns dos seus para levar-lhe notícias e ordenou-lhes que se expressassem nestes termos: &quot;O respeito que Jacó, vosso irmão, vos tem, fá-lo pensar que não deve se apresentar diante de vós enquanto estiverdes irritado contra ele, assim como o fez abandonar este país e retirar-se para uma terra longínqua. Mas agora ele espera que o tempo tenha apagado de vosso espírito o descontentamento e volta com as suas esposas, os seus filhos e o que conquistou com o trabalho, a fim de pôr em vossas mãos tudo o que possui. Nada lhe daria mesmo mais alegria do que oferecer-vos os bens com que aprouve a Deus enriquecê-lo&quot;.
Esaú ficou tão comovido com essas palavras que veio imediatamente encontrar-se com o irmão, acompanhado de quatrocentos homens. Esse grande número assustou jacó, mas ele colocou a sua confiança em Deus e dispôs todas as coisas para se pôr em condições de resistir-lhe, caso Esaú tivesse a intenção de usar de violência. Distribuiu para isso tudo o que trazia consigo em diversos grupos, que se seguiam a curtos espaços um do outro, de modo que, se o que vinha à frente fosse atacado, os demais pudessem retirar-se. Mandou depois avançar alguns de seus homens e, para acalmar o espírito do irmão, se é que este ainda estava irritado contra ele, ordenou-lhes que oferecessem, de sua parte, diversos animais de várias espécies que lhe poderiam ser agradáveis pela sua raridade. Disse-lhes também que caminhassem separadamente, a fim de que, indo assim em fila, parecesse que eram em maior número, e recomendou-lhes sobretudo que falassem a Esaú com o máximo respeito.
56. Depois de ter assim empregado todo o dia em dispor essas coisas, foi caminhar à noite. E, após ter atravessado as torrentes de Jaboque, estando muito afastado de seus homens, um vulto apareceu e atracou-se com ele. jacó foi o mais forte nessa luta, e o vulto disse-lhe: &quot;Alegrai-vos )acó, e que nada seja capaz de vos assustar. Pois não foi a um homem que vencestes, mas a um anjo de Deus&quot;, jacó, tomado de admiração, pediu que o espírito celeste informasse o que lhe devia acontecer, ao que este respondeu: &quot;Considerai o que acaba de se passar como um presságio, não somente de grandes bens que vos esperam, mas da duração perpétua de vossa descendência e da confiança que deveis ter de que ela será invencível&quot;. O anjo ordenou-lhe em seguida que tomasse o nome de Israel, que significa, em hebreu, &quot;o que resistiu a um anjo&quot;, e nesse mesmo instante desapareceu. Jacó, transbordando de alegria, chamou ao lugar Peniel, isto é, &quot;a face de Deus&quot;. E, como fora ferido naquela luta num lugar da coxa, jamais comeu daquela parte de animal algum. Não nos é, do mesmo modo, permitido comê-la.
57. Gênesis 33. Quando Jacó soube que o irmão se aproximava, mandou dizer às suas mulheres que viessem separadas uma da outra, cada qual com as suas criadas, para ver de longe o combate, caso fossem obrigados a travá-lo. Quando já estava próximo do irmão, todavia, reconheceu que ele vinha com espírito de paz e apresentou-se diante dele. Esaú abraçou-o e perguntou-lhe o que era aquela multidão de mulheres e crianças. Depois de ter sido informado de tudo, ofereceu-se para levá-las todas a Isaque, seu pai. Jacó agradeceu e rogou-lhe que o desculpasse, porque toda a comitiva estava muito cansada, por causa da longa viagem, e tinha necessidade de repouso. Assim, Esaú voltou a Seir, onde residia habitualmente, tendo ele mesmo lhe dado esse nome, que significa &quot;peludo&quot;.
58.  Gênesis 34. jacó, por sua vez, dirigiu-se a um lugar denominado As Tendas, que ainda hoje conserva esse nome, e de lá a Siquem, que é uma cidade dos cananeus. Aconteceu então que ali se realizava uma festa, e Diná, única filha de Jacó, aproximou-se para ver de que maneira as mulheres daquele país se vestiam. Siquem, filho do rei Hamor, achou-a tão bela que a carregou e abusou dela. Estando apaixonado por ela, pediu ao rei, seu pai, que a fizesse desposar. Ele consentiu e foi procurar Jacó para pedi-la em casamento. Jacó ficou muito embaraçado, porque, de um lado, não sabia como recusar a filha ao filho de um rei e, de outro, julgava que em sã consciência não podia dá-la a um estrangeiro. Assim, pediu algum tempo a Hamor, para decidir, e o monarca regressou, na persuasão de que o casamento se realizaria.
Jacó contou aos filhos tudo o que se havia passado, pedindo-lhes que deliberassem sobre o que deviam fazer. A maior parte não sabia que resolução tomar. Mas Simeão e Levi, irmãos de pai e mãe de Diná, tomaram juntos uma determinação e, sem nada dizer a Jacó, escolheram executá-la no dia de uma grande festa que se realizava em Siquem e que se passava toda em banquetes e divertimentos. Foram de noite às portas de Siquem, acharam os guardas adormecidos e os mataram. Daí foram à cidade, passaram todos os homens a fio de espada, até mesmo o rei e seu filho, poupando somente as mulheres, e trouxeram de volta a sua irmã. Jacó ficou fora de si por aquela ação sangrenta e muito irritado com os dois, mas Deus, numa visão, ordenou que se consolasse, que purificasse as suas tendas e pavilhões e que oferecesse o sacrifício ao qual se havia obrigado quando Ele lhe apareceu em sonho, na sua viagem à Mesopotâmia.
59.  Enquanto executava essas ordens, jacó encontrou os ídolos de Labão, que Raquel havia furtado sem nada lhe dizer. Enterrou-os em Siquem, sob um carvalho, e foi sacrificar em Betei,* no mesmo lugar onde tivera a visão de que acabamos de falar. De lá passou a Efrata, onde Raquel teve um filho e morreu de parto. Ela foi sepultada ali mesmo, sendo a única de sua descendência que não foi levada a Hebrom, ao sepulcro de seus antepassados. A morte dela causou grande aflição a ]acó, e ele chamou ao filho Benjamim, porque havia sido causa de dor, ao custo da vida de sua mãe. Jacó teve apenas uma filha, Diná, e doze filhos, dos quais oito eram legítimos, isto é, seis de Leia e dois de Raquel. Quanto aos outros quatro, dois eram de Zilpa e dois de Bila. Chegou finalmente a Hebrom, na terra de Canaã, onde morava Isaque, seu pai, mas o perdeu logo depois.
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* Belém.


CAPÍTULO 19
MORTE DE ISAQUE.

60. jacó não teve a consolação de encontrar Rebeca, sua mãe, ainda com vida, e Isaque viveu muito pouco depois do seu regresso. Esaú e Jacó enterraram-no junto de Rebeca, em Hebrom, no túmulo destinado a toda a sua descendência. Esse homem foi tão ilustre em virtude que mereceu que Deus o cumulasse de bênçãos e não tomasse menos cuidado dele do que de Abraão, seu pai. Viveu cento e oitenta e cinco anos, que então era uma longa idade. Só teve e mereceu louvores durante todo o curso de sua vida.
















Livro Segundo

CAPÍTULO 1
PARTILHA ENTRE ESAÚ E JACÓ.

61. Gênesis 35. Depois da morte de Isaque, os seus dois filhos dividiram a herança, e nenhum deles ficou no mesmo lugar que antes havia escolhido para fixar residência [Gn 36]. Esaú deixou Hebrom a Jacó e estabeleceu-se em Seir. Ele possuía a Iduméia e deu-lhe o seu nome, pois fora cognominado Edom, por motivo que vou explicar. Quando ainda era jovem, voltava um dia da caça, exausto pelo trabalho e torturado por uma grande fome. Encontrou o irmão cozendo lentilhas para o jantar. Pareceram-lhe tão boas e tão apetitosas que o grande desejo de comer fez que as pedisse a Jacó. Este, vendo com que ânsia o irmão as desejava, disse-lhe que as daria somente com a condição de que Esaú lhe cedesse o direito de primogenitura. Esaú concordou e o prometeu com juramento. Jovens da mesma idade zombaram da simplicidade de Esaú e, por causa da cor avermelhada das lentilhas, deram-lhe o nome de Edom, que em hebreu significa &quot;ruivo&quot;. E a região conservou-o desde então. Os gregos depois suavizaram o nome, para torná-lo mais agradável, e chamaram ao lugar Iduméia.
62.  Gênesis 36. Esaú teve cinco filhos, com três mulheres: de Ada, filha de Elom, Elifaz; de Oolibama, filha de Zibeão, Jeús, Jalão e Corá; de Basemate, filha de Ismael, Reuel. Elifaz teve cinco filhos legítimos: Temã, Omar, Zefô, Gaetã e Quenaz. Quanto ao sexto, de nome Amaleque, ele o teve de Tesma,* sua concubina. Ocuparam aquela parte da Iduméia chamada Gobolite, e o país que foi chamado Amalequita por causa de Amaleque. O nome Iduméia estendia-se antigamente até muito longe, e as diversas partes desse grande país conservaram os nomes daqueles que por primeiro os habitaram.

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* Ou Timna.
 

CAPÍTULO 2
SONHOS DE JOSÉ. INVEJA DE SEUS IRMÃOS, QUE RESOLVEM MATÁ-LO.

63. A prosperidade com que Deus favorecia a Jacó era tão grande que nenhum outro no país o igualava em riquezas. E as excelentes qualidades de seus filhos não somente o tornavam feliz, mas também considerado por todos. Eles não tinham menos espírito que sabedoria e coração, e nada lhes faltava do que os pudesse tornar estimados. Deus tomava também tal cuidado por esse fiel servidor e concedia-lhe tão liberalmente as suas graças que mesmo as coisas que pareciam ser-lhe adversas acabavam em seu proveito. Ele começava, desde então, por ele e pelos seus, a abrir aos nossos pais o caminho para sair do Egito. Eis qual foi a origem disso.
64. Cênesis 37. José, que Jacó tivera de Raquel, era o mais querido de todos os seus filhos, fosse por causa das melhores qualidades de espírito e de corpo, em que sobrepujava os outros, fosse por sua grande sabedoria. Esse afeto, que o pai não conseguia esconder, incitou contra José a inveja e o ódio dos irmãos, agravados ainda por causa de alguns sonhos que o moço lhes contara na presença do pai e que lhe pressagiavam uma felicidade extraordinária, capaz mesmo de suscitar inveja entre as pessoas mais próximas.
O fato passou-se deste modo: Jacó o havia mandado com seus irmãos para trabalhar no campo de trigo, e ele teve um sonho na noite anterior, que não podia ser considerado comum. Pela manhã, contou-o aos irmãos, a fim de que o explicassem. Parecia que o seu feixe estava de pé no campo e que os outros vinham inclinar-se diante dele e adorá-lo. Eles não tiveram dificuldade em julgar o que significava aquele sonho: a fortuna de José seria muito grande, e eles lhe seriam sujeitos. No entanto dissimularam, como se nada tivessem entendido, desejando em seu coração que a predição fosse falsa e concebendo contra ele uma aversão ainda maior.
Deus, para confundir a inveja deles, permitiu a José outro sonho, bem mais importante que o primeiro. Parecia-lhe ver o Sol, a Lua e onze estrelas descerem do céu à Terra e prostrarem-se diante dele. Ele contou o sonho ao pai diante dos irmãos, dos quais não desconfiava, e rogou que lhe dessem uma explicação. Jacó sentiu grande alegria, porque compreendeu facilmente que Deus pressagiava a José uma grande prosperidade, chegando o tempo em que seu pai, sua mãe e seus irmão seriam obrigados a prestar-lhe homenagem. O Sol e a Lua significavam o pai e a mãe, pois aquele dá forma e força a todas as coisas e esta alimenta e faz crescer. As onze estrelas significavam os onze irmãos, que tiram toda a sua força do pai e da mãe, como as estrelas do Sol e da Lua.
Jacó deu essa interpretação ao sonho e o fez muito sabiamente. Mas o pressá-gio deixou aflitos os irmãos de José. Embora sendo-lhe muito próximos e devessem tomar parte na sua felicidade, sentiram maior inveja ainda, como se ele lhes fosse um estrangeiro. Assim, deliberaram fazê-lo morrer e com esse fim, quando terminaram os trabalhos do campo, levaram os rebanhos a Siquém, que era um lugar abundante em pastagens. Nada haviam dito ao pai, e a ausência deles afligiu Jacó. E, para ter notícias deles, mandou José procurá-los.

CAPÍTULO 3
JOSÉ É VENDIDO POR SEUS IRMÃOS A UNS ISMAELITAS, QUE O VENDEM NO
EGITO. A SUA CASTIDADE É CAUSA DE QUE O LANCEM NA PRISÃO. LÁ,
INTERPRETA DOIS SONHOS E, EM SEGUIDA, DOIS OUTROS A FARAÓ, QUE O
NOMEIA GOVERNADOR DE TODO O EGITO. UMA CARESTIA OBRIGA OS SEUS
IRMÃOS AFAZEREM DUAS VIAGENS AO EGITO, NA PRIMEIRA DAS QUAIS
JOSÉ RETÉM SIMEÃO, E NA SEGUNDA, BENJAMIM. DÁ-SE EM SEGUIDA A
CONHECER A ELES E MANDA BUSCAR O SEU PAI.

65. Gênesis 37. Os irmãos de José viram-no chegar com prazer, não porque vinha da parte de seu pai, mas porque, considerando-o inimigo, se regozijavam por vê-lo cair-lhes nas mãos. E temiam tanto perder a ocasião de se desfazer dele que o queriam matar naquele mesmo instante. Porém Rúben, o mais velho, não pôde aprovar tamanha crueldade. Fez-lhes ver a enormidade do crime que queriam cometer, o ódio que atrairiam contra eles e quão abominável seria o assas-sínio de um irmão, se um simples homicídio já causava horror a Deus e aos homens. Além disso, eles matariam de dor um pai e uma mãe que, além do amor que tinham por José, por causa de sua bondade, nutriam-lhe uma ternura particular, por ser ele o mais obediente de todos os filhos.
Assim, ele os conjurava a temer a vingança de Deus, que via já o cruel desígnio concebido em seus corações, que os perdoaria, contudo, se eles se arrependessem e compensassem o seu crime, mas que os castigaria muito mais severamente se o cometessem. Que considerassem, pois, que todas as coisas a Ele eram gentes: as açõetipraticadas no$ desertos não passariam mais.&gt; despercebidas que as cometidas nas cidades, e a própria consciência servir-lhes-ia de algoz. E acrescentou que, se jamais fora permitido matar um irmão, mesmo havendo ofensa da parte dele, e se, por outro lado, é sempre louvável perdoar aos amigos quando eles erram, por muito maior razão eram eles obrigados a não fazer mal a um irmão do qual jamais haviam recebido injúria alguma. A simples consideração pela juventude dele deveria levá-los não somente a sentir compaixão como também a ajudá-lo e protegê-lo. A causa que os instigava contra ele tornava-os ainda mais culpados, pois em vez de invejar a felicidade que lhe tocaria e as vantagens com que Deus se comprazia em enriquecê-lo, eles deveriam regozijar-se e considerá-las como suas também, pois, sendo-lhe tão próximos, de tudo poderiam participar. Deviam, por fim, imaginar qual seria o furor e a indignação de Deus contra eles se levassem à morte aquele a quem Ele havia julgado digno de receber de sua mão tantos benefícios, se ousassem tirar-lhe os meios de o favorecer com suas graças.
Vendo Rúben que os irmãos, em vez de se comoverem com essas palavras, cada vez mais se obstinavam em sua funesta resolução, propôs escolherem um meio mais suave de a executar, a fim de tornar a sua falta, de algum modo, menos criminosa: se quisessem seguir o seu conselho, deveriam contentar-se em colocar José numa cisterna próxima, deixando-o lá para morrer, sem manchar as mãos com sangue. Eles aprovaram a proposta, e Rúben desceu-o com uma corda à cisterna, que estava quase seca, e em seguida foi procurar pastagens para o seu rebanho. Mal ele havia partido, judá, um dos filhos de )acó, viu passando uns mercadores árabes, descendentes de Ismael que vinham de Galaade, os quais levavam para o Egito perfumes e outras mercadorias. Então ele aconselhou os irmãos a vender José, pois desse modo ele iria morrer num país distante e eles não poderiam ser acusados de lhe terem tirado a vida. Eles negociaram com os mercadores, retiraram da cisterna o irmão, que contava então dezessete anos, e o venderam por vinte peças de prata aos ismaelitas.
Quando retornou, à noite, Rúben, que pretendia salvar José, foi secretamente à cisterna e chamou-o diversas vezes. Vendo que ele não respondia, imaginou que os irmãos o houvessem matado e censurou-os severamente. Eles então foram obrigados a contar-lhe o que haviam feito, e o seu pesar foi desse modo um tanto mitigado. Os irmãos discutiram em seguida o que fazer para evitar ao pai a suspeita de um crime. Acharam que a melhor maneira era tomar as vestes que haviam tirado de José antes de pô-lo na cisterna, rasgá-las e molhá-las no sangue de um cabrito, levando-as assim manchadas ao pai, a fim de fazê-lo acreditar que um animal feroz o havia devorado. Foram então apressadamente para casa.
O pai já estava desconfiado de que alguma desgraça acontecera a José. Os filhos disseram-lhe que não o tinham visto, mas haviam encontrado as suas vestes manchadas de sangue e rasgadas, as que de fato ele usava quando saíra de casa, e assim tinham todos os motivos para crer que ele fora devorado por um animal feroz. Jacó, que não havia pensado em tão dura perda, mas julgara apenas que o filho fora aprisionado e levado como escravo, quando viu as vestes não duvidou mais de sua morte, pois as reconheceu como sendo as que ele usava ao sair de casa para ir ter com os irmãos. Foi então tomado de grande dor, tão intensa que mesmo por um filho único não se teria chorado tanto. Cobriu-se de saco e não ouviu as palavras de consolação que os outros filhos lhe dirigiam.
66. Gênesis 39. Quando os mercadores ismaelitas que haviam comprado José chegaram ao Egito, venderam-no a Potifar, mordomo do palácio do rei Faraó, que não o tratou como escravo, mas o fez educar com cuidado, como uma pessoa livre, e deu-lhe a direção de sua casa. José cumpria o seu dever com a inteira satisfação de seu senhor: a mudança de condição não afetou absolutamente a sua virtude, e ele mostrou que um homem, quando é verdadeiramente sensato, ajuizado, procede com igual prudência na prosperidade e na adversidade.
A mulher de Potifar ficou tão impressionada com o espírito e a beleza de José que se enamorou dele perdidamente. E, como o julgava pela condição a que a sorte o havia reduzido, imaginando que na situação de escravo ele se julgaria feliz por ser amado pela sua senhora, não teve dificuldade em decidir manifestar-lhe a sua paixão. José, porém, considerando um grande crime fazer tal afronta a um senhor ao qual era devedor de tantos favores, rogou-lhe que não exigisse dele uma coisa que não podia conceder sem passar como o homem mais ingrato do mundo, embora em todas as outras ocasiões soubesse o quanto era devedor a ela.
A recusa só fez aumentar a paixão da mulher. Ela imaginava ainda que José não seria para sempre inflexível, e resolveu tentar outro meio. Escolheu para isso o dia de uma grande festa, à qual as mulheres costumavam comparecer, e fingiu estar doente, a fim de ter um pretexto para não sair e tomar assim ocasião para solicitar José. Dessa maneira, encontrando-se em plena liberdade de falar-lhe e de insistir, disse-lhe: &quot;Vós teríeis feito muito melhor atendendo logo às minhas súplicas, concedendo-me o que vos peço, à minha qualidade e à violência do meu amor, que me obriga, embora eu seja vossa senhora, a rebaixar-me até o ponto de vos rogar. Se fordes sensato, reparai a falta que cometestes. Não vos resta mais desculpa alguma, pois se esperáveis que eu vos procurasse uma segunda vez, faço-o agora, e com maior afeto ainda. Fingi estar doente e preferi o desejo de ver-vos ao prazer de assistir a uma grande festa. Se tivésseis alguma suspeita de que o que eu vos digo é uma cilada, para vos experimentar, a minha perseverança não permitirá mais dúvidas de que a minha paixão é verdadeira. Escolhei, pois, agora ou o favor que vos ofereço, correspondendo ao meu amor e esperando de mim, para o futuro, favores ainda maiores, ou os efeitos de minha ira e de minha vingança, se preferires à honra que vos concedo uma vã opinião de castidade. Se isso acontecer, não imagineis que alguma coisa haverá capaz de salvar-vos, pois vos acusarei perante o meu marido de terdes querido atentar contra a minha honra. E, por mais que possais dizer e provar o contrário, ele prestará sempre mais fé às minhas palavras que às vossas justificativas&quot;.
Após haver falado dessa maneira, juntou as lágrimas aos rogos. Mas nem as solicitações nem as ameaças conseguiram demover José de faltar ao seu dever. Ele preferiu expor-se a tudo do que se deixar levar por um prazer criminoso. Julgou que não haveria castigo que ele não merecesse se cometesse tal falta, e apenas para agradar uma mulher. Então fez-lhe ver que ele também era devedor ao marido dela, acrescentando que os prazeres legítimos no casamento eram preferíveis aos produzidos por uma paixão desregrada; que estes últimos apenas se passavam, causando um arrependimento inútil; e que viveriam no contínuo temor de serem descobertos, mas nada havia a temer da fidelidade conjugai e do andar com confiança na presença de Deus e dos homens. Se ela se mantivesse casta, conservaria a autoridade que tinha para dar-lhe ordens, ao passo que perderia essa mesma autoridade cometendo com ele um crime que ele poderia sempre atirar-lhe em rosto. Enfim, a tranqüilidade de uma consciência que de nada se sente culpada era infinitamente preferível à inquietação daqueles que precisam esconder pecados vergonhosos.
Essas palavras e outras semelhantes que José proferiu, procurando convencê-la a moderar a sua paixão e a compreender o próprio dever, só a fizeram inflamar-se ainda mais, e ela tentou obrigá-lo a conceder-lhe o que não podia, sem um crime, pretender dele. Não podendo então tolerar por mais tempo tão grande vexame, ele escapou, deixando, porém, o manto nas mãos dela. Ofendida com a repulsa de José e temendo que ele a denunciasse ao marido, resolveu precedê-lo e vingar-se.
Assim, irritada por não ter podido satisfazer a sua paixão brutal, quando o marido regressou e, surpreso, perguntou-lhe a causa de vê-la naquele estado, ela respondeu: &quot;Não mereceis viver se não castigardes como merece esse pérfido e detestável servidor, que, esquecendo-se da miséria a que estava reduzido quando o comprastes e da excessiva bondade com que o tratais, em vez de mostrar gratidão, teve a ousadia de atentar contra a minha honra e de assim querer fazer-vos a maior afronta que jamais poderíeis receber. Escolheu para executar o seu intento este dia de festa e a vossa ausência. E dizei, depois disto, que a única causa desse pudor e dessa moderação que ele afeta não é o temor que tem de vós! A honra que lhe concedestes, sem que ele a merecesse e que não teria ousado esperar, levou-o a essa horrível insolência. Ele julgou que, por lhe teres confiado todos os vossos bens e dado toda autoridade sobre os demais servidores, ainda que mais velhos que ele, lhe era permitido levar os seus desejos pessoais até vossa esposa&quot;.
67. Depois de lhe ter falado dessa maneira, e acrescentando lágrimas às palavras, mostrou-lhe o manto de José, afirmando que lhe havia ficado nas mãos enquanto resistia. Potifar, convencido por aquelas palavras e pelas lágrimas, e dando mais valor do que devia ao amor que tinha por ela, não pôde deixar de acreditar no que acabava de ouvir e ver. Assim, louvou-lhe muito a sabedoria e, sem indagar da verdade, não duvidou de que José fosse realmente culpado e mandou-o colocar na prisão. Experimentava uma alegria secreta pela virtude da esposa, da qual julgava não poder duvidar depois da prova tão convincente que ela lhe havia mostrado.
68. Enquanto o egípcio se deixava enganar dessa maneira, José, em tão amarga e injusta vicissitude, colocou nas mãos de Deus a justificação de sua inocência. Ele não quis se defender nem dizer de que modo as coisas se haviam passado. Mas, suportando com paciência a prisão e a humilhação, confiava em Deus, ao qual tudo é manifesto, que conhecia a causa de sua infelicidade e que era tão poderoso quanto os que o faziam sofrer eram injustos. Ele experimentou logo os efeitos da divina providência. Pois o carcereiro, considerando a diligência e fidelidade com que ele fazia tudo o que lhe era mandado e tocado pela majestade estampada em seu rosto, tirou-lhe as cadeias, tratou-o melhor que aos outros e tornou-lhe a prisão mais tolerável.
Gênesis 40. Como nas horas em que se permite aos prisioneiros tomar um pouco de descanso eles costumam conversar sobre a sua infelicidade, José fez amizade com um mordomo do rei, ao qual o príncipe muito havia estimado, mas o colocara na prisão por causa de um descontentamento que tivera com ele. Esse homem, percebendo a virtude de José, contou-lhe um sonho que tivera e rogou-lhe que o explicasse, pois se sentia muito infeliz, não somente por ter perdido as boas graças de seu senhor, mas também por estar sendo perturbado com sonhos que ele julgava só poderiam vir do céu. &quot;Parecia-me&quot;, disse ele, &quot;que eu via três cepos de videira, carregados com grande quantidade de uvas. E, estando maduros os cachos, eu os espremia, para tirar-lhes o caldo, numa taça que o rei tinha na mão e que eu apresentava a sua majestade, que o achava delicioso&quot;.
José ouviu-o e disse-lhe que tivesse boas esperanças, pois o sonho significava que dentro de três dias ele sairia da prisão, por ordem do rei, e voltaria às suas boas graças. &quot;Pois&quot;, acrescentou, &quot;Deus concedeu aos frutos da videira diversos e excelentes usos e uma grande virtude. Serve para se lhe fazerem sacrifícios, para confirmar a amizade entre os homens, para fazê-los esquecer a inimizade e para mudar a sua tristeza em alegria. E, assim como esse licor que vossas mãos espremeram foi favoravelmente recebido pelo rei, não duvideis de que esse sonho prenuncia a vossa saída da miséria em que estais há tantos anos, quantos vos pareceu ver em cepos de videira. Mas, quando tiverdes sabido que as minhas predições são verdadeiras, não vos esqueçais, na liberdade de que gozareis, daquele que deixastes preso ainda às cadeias. Lembrai-vos tanto mais na vossa felicidade da minha desgraça, pois não foi por ter cometido crime que sou castigado, mas por ter preferido, por um sentimento de dever e de virtude, a honra de meu senhor à volúpia criminosa&quot;. Seria inútil dizer qual foi a alegria do copeiro-mor ante uma interpretação tão favorável de seu sonho e com que impaciência esperava a sua realização. Aconteceu, porém, em seguida, outra coisa de todo contrária.
69.  Um padeiro-mor do rei, que estava preso com eles e escutara essas palavras, teve esperanças de que um sonho que também tivera lhe poderia ser favorável. Contou-o a José e rogou-lhe que o explicasse. &quot;Parecia-me&quot;, disse ele, &quot;que eu levava na cabeça três cestos, dois dos quais estavam cheios de pão e o terceiro de iguarias diversas, das que se servem na mesa do rei, e alguns passarinhos as levavam sem que eu pudesse evitá-lo&quot;. José, depois de escutá-lo atentamente, declarou que teria muito desejado dar-lhe uma explicação favorável, mas era obrigado a dizer que os dois primeiros cestos significavam que só lhe restavam dois dias de vida, e o terceiro, que ele seria enforcado e comido pelos pássaros.
70. Tudo o que José havia predito aconteceu. Três dias depois, o rei mandou, durante um grande banquete, no dia de seu nascimento, que enforcassem o padeiro-mor e se tirasse da prisão o copeiro-mor» para recolocá-lo no cargo. Mas a ingratidão deste o fez esquecer a promessa, e José continuou a sofrer por mais dois anos as amarguras inerentes a um cárcere. Deus, todavia, que jamais abandona os seus, serviu-se, para dar-lhe a liberdade, de um expediente, o qual vou relatar.
O rei teve numa mesma noite dois sonhos, que julgou serem péssimos pressá-gios, embora não se lembrasse da explicação que simultaneamente lhe fora dada. No dia seguinte, ao despontar do dia, mandou buscar os homens mais sábios de todo o Egito e ordenou-lhes que os decifrassem. Eles responderam que não o podiam fazer, aumentando-lhe ainda mais o temor. Esse fato despertou na memória do copeiro-mor a lembrança de José e do dom que ele possuía para interpretar sonhos. Falou dele ao rei, contando-lhe como José havia explicado o seu sonho e o do padeiro-mor e como os fatos confirmaram a veracidade de suas palavras. Disse-lhe também que José era escravo de Potifar — o qual o havia posto na prisão — e hebreu de nascimento, oriundo de uma família ilustre, segundo ele mesmo afirmava. E, caso sua majestade desejasse mandar buscá-lo, não julgasse dele pelo estado infeliz em que se encontrava, mas poderia saber por seu intermédio o que significavam aqueles sonhos.
Ante essa sugestão, o rei mandou imediatamente buscar a José, tomou-o pela mão e disse: &quot;Um de meus oficiais falou-me de vós, de maneira tão elogiosa que a opinião que tenho de vossa sabedoria faz-me desejar que me expliqueis os meus sonhos, tal como explicastes o dele, sem que o temor de me zangar ou o desejo de me agradar vos façam mudar algo da verdade, ainda que me reveleis coisas desagradáveis. Parecia-me que, passeando ao longo do rio, eu via sete vacas bem grandes e muito gordas, que saíam para ir aos pântanos. Em seguida, vi outras sete, muito feias e muito magras, que foram ao encontro das primeiras e as devoraram, sem que com isso saciassem a fome. Acordei muito perturbado a respeito do que esse sonho poderia significar e, tendo dormido de novo, tive um outro, que me pôs em inquietação ainda maior. Parecia-me que eu via sete espigas saídas de um mesmo pé, todas maduras e tão gordas que o peso dos grãos as fazia inclinar-se para a terra. Perto dali, sete outras espigas, muito secas e magras, devoraram então aquelas sete tão belas, deixando-me estupefato e no desassossego em que me encontro ainda agora&quot;.
Depois de o rei assim haver falado, José respondeu-lhe: &quot;Os dois sonhos de vossa majestade significam a mesma coisa. As sete vacas magras e as sete espigas áridas que devoraram as vacas bem nutridas e as espigas gordas representam a esterilidade e a carestia que assolarão o Egito dura/^e sete anos e que consumirão toda a fertilidade e a abundância dos sete anos precedentes. Parece que será difícil remediar tão grande mal, porque as vacas magras que devoraram as outras não foram ainda saciadas. Mas Deus não prediz tais coisas aos povos para amedrontá-los, de modo que eles se deixem abater pelo desânimo, mas, ao contrário, para obrigá-los por uma sábia previdência a evitar o perigo que os ameaça. E assim, se agradar a vossa majestade mandar que se reserve o trigo colhido nestes anos tão férteis, para distribuí-lo na época da necessidade, o Egito não sentirá absolutamente a esterilidade dos outros anos&quot;.
O rei, admirado da inteligência e sabedoria de José, perguntou-lhe o que fazer naqueles anos de abundância para tornar suportável a esterilidade dos outros. José respondeu-lhe que era necessário recolher o trigo, de sorte que se gastasse apenas o necessário e se conservasse o resto para prover à necessidade futura. E acrescentou que era ainda preciso deixar aos lavradores apenas o que lhes fosse necessário para semear a terra e para viver.
71. Faraó, então, não menos satisfeito com a prudência de José do que com a explicação dos sonhos, julgou não poder fazer escolha melhor do que o próprio ]osé para a execução de um conselho tão sensato. Assim, deu-lhe plenos poderes para determinar o que julgasse mais conveniente para o seu trabalho e para o bem-estar de seus súditos. Como sinal da autoridade com que o honrava, permitiu que se vestisse de púrpura, usasse um anel com o selo real e fosse conduzido sobre um carro por todo o Egito. José, em seguida, fez executar as ordens e mandou recolher todo o trigo aos celeiros do rei, deixando ao povo somente o necessário para semear e viver, sem dizer por que razão assim procedia. Ele tinha então trinta anos, e o rei o fez nomear Psontomfance, por causa de sua inteligência (esse nome significa, em língua egípcia, &quot;aquele que penetra as coisas ocultas&quot;).
72.  Faraó fez José desposar uma jovem de nobre família, chamada Asenate, cujo pai se chamava Potífera e era sacerdote de Om. Dela teve dois filhos, antes que chegasse a carestia, e por isso chamou ao primeiro Manasses, isto é, &quot;esquecido&quot;, porque a prosperidade em que então se encontrava fazia-o esquecer as aflições passadas, e ao segundo chamou Efraim, isto é, &quot;restabelecimento&quot;, porque havia sido reintegrado à liberdade de seus antepassados.
73.  Depois que os sete anos de abundância preditos por José se passaram, a carestia começou a ser tão grande que, nesse mal imprevisto, todo o Egito recorreu ao rei. José, por ordem do soberano, distribuía o trigo, e o seu sábio proceder conquistou-lhé um afeto geral, tanto que todos o chamavam de &quot;salvador do povo&quot;. Ele não vendeu trigo somente aos egípcios, mas também aos estrangeiros, porque estava convencido de que todos os homens estão unidos por um estreito liame, de modo que os que se encontram na abundância estão obrigados a socorrer os outros nas suas necessidades.
74. Cênesis 42. Como o Egito não era o único país assolado pela carestia, pois o flagelo se estendia a várias outras províncias, entre outras, a própria Canaã, Jacó, sabendo que se vendia trigo no Egito, mandou para lá todos os seus filhos, para comprar o alimento — todos exceto Benjamim, filho de Raquel e irmão de pai e mãe de José, que reteve junto de si.
Quando os dez irmãos chegaram ao Egito, dirigiram-se a José para pedir-lhe que lhes mandasse vender trigo. Tinha ele tanto prestígio que teria sido inútil recorrer diretamente ao rei. Ele reconheceu imediatamente todos os seus irmãos, mas eles não o reconheceram, porque José era ainda muito jovem quando o venderam, e sua fisionomia estava mudada. Além disso, jamais teriam imaginado vê-lo em tal condição e poder. José resolveu experimentá-los, depois de recusar vender-lhes o trigo, acusando-os de serem espiões e de juntos conspirarem contra o rei. Declarou também que eles fingiam ser irmãos, embora se parecessem, mas que se haviam reunido de vários lugares, não sendo possível que um só homem tivesse tantos filhos, todos tão bem feitos, uma rara felicidade, que não acontece nem mesmo aos reis. Ele assim falou somente para ter notícias de seu pai, do estado de seus negócios durante a sua ausência e de seu irmão Benjamim, que temia tivessem também feito morrer pela mesma inveja da qual ele próprio já havia sentido o efeito.
As palavras de José os deixaram atônitos e, para se justificarem de tão grave acusação, responderam-lhe por boca de Rúben, o mais velho: &quot;Nada está mais longe do nosso pensamento que vir até aqui como espiões. A carestia, que assola também a nossa pátria, obrigou-nos a recorrer a vós, porque soubemos que a vossa bondade, não se contentando em remediar as necessidades de vossos súditos e do rei, vai além das fronteiras, em socorro das necessidades dos estrangeiros, permitindo-lhes também comprar o trigo. Quanto a dizermos que somos irmãos, basta olhar os nossos rostos para se notar, pela semelhança, que falamos a verdade. Nosso pai, que é hebreu, chama-se Jacó. Ele teve, de quatro mulheres, doze filhos, e fomos felizes durante o tempo em que vivíamos todos. Porém, depois da morte de um deles, chamado José, todas as coisas nos foram adversas. Nosso pai não se pode consolar de sua perda, e a sua extrema aflição não nos causa menor dor que a que sentimos com a morte de nosso irmão, tão querido e tão amável. O motivo que nos traz aqui é somente comprar o trigo. Deixamos com o nosso pai o mais moço de nossos irmãos, de nome Benjamim, e se vos aprouver mandar buscá-lo, sabereis que vos dizemos a verdade e falamos sinceramente&quot;.
Essas palavras deram a conhecer a José que nada mais devia temer por seu pai ou por seu irmão. No entanto ordenou que os pusessem na prisão, para serem interrogados comodamente. Fê-los voltar três dias depois e disse-lhes: &quot;Para me certificar de que não viestes aqui com mau desígnio contra a segurança do rei e de que sois todos irmãos e filhos do mesmo pai, quero que me deixeis um dentre vós, que ficará em completa segurança comigo. E, depois de terdes regressado com o trigo que pedirdes, voltareis aqui trazendo o vosso irmão menor, que deixastes com ele&quot;. A ordem deixou-os atônitos, e, lastimando a própria infelicidade, reconheceram que Deus os castigava, com justiça, pela grande crueldade deles para com José. Por isso Rúben, censurando-os severamente, disse-lhes que as lamúrias eram inúteis e que era necessário suportar com firmeza o castigo, o qual bem mereciam. Vividamente sentidos, puseram-se de acordo.
Como falavam em língua hebraica, julgavam que ninguém os entendia. José, no entanto, ficou tão comovido ao vê-los quase levados ao desespero que, não podendo reter as lágrimas e não querendo ainda dar-se a conhecer, retirou-se da presença deles. Tendo voltado em seguida, reteve Simeão como refém, até que trouxessem o irmão menor. Então deu4hes permissão para comprar o trigo e partir. Entretanto ordenou que secretamente recolocassem nos sacos o dinheiro que haviam entregado em pagamento, o que foi feito.
75. De volta a Canaã, eles narraram ao pai tudo o que se havia passado: como os haviam tomado por espiões, como o governador não quisera acreditar neles, apesar de terem dito que eram todos irmãos e que tinham ainda um irmão menor, o qual havia ficado com o pai, e como conservariam Simeão como refém até que levassem Benjamim. Pediram-lhe então que enviasse Benjamim com eles, sem nada temer pela sua sorte. Jacó, sentindo-se já bastante pesaroso pelo fato de Simeão ter ficado no Egito, achou que a morte lhe seria mais suave que o risco de perder também a Benjamim. E recusou-se deixá-lo partir, embora Rúben acrescentasse aos seus rogos a proposta de entregar-lhe os próprios filhos, para Jacó deles dispor como bem entendesse se alguma desgraça sobreviesse a Benjamim, mas nem assim pôde fazê-lo consentir. A resistência do pai pôs os irmãos em indizível agonia, que aumentou muito quando encontraram o dinheiro nos sacos de trigo.
Gênesis 43. A carestia continuava, e, quando o trigo que haviam comprado estava terminando, Jacó começou a pensar em mandar Benjamim ao Egito, pois os seus irmãos não ousavam retornar sem ele. Embora a necessidade aumentasse e eles redobrassem as instâncias, Jacó não conseguia decidir-se. Em tal conjuntura, Judá, que era de natureza ousada e violenta, tomou a liberdade de dizer-lhe que havia exagero em sua inquietação a respeito de Benjamim, pois, quer ficasse junto dele, quer se afastasse, nada lhe poderia acontecer contra a vontade de Deus; que aquele cuidado inútil punha em risco a sua própria vida e a de todos os seus, pois só poderiam subsistir pelo auxílio que trouxessem do Egito; que deveriam considerar que o atraso no regresso talvez levasse os egípcios a executar Simeão; que, segundo a sua piedade, deveria confiar a Deus a conservação de Benjamim; e que, por fim, prometiam trazê-lo são e salvo ou então morrer com ele.
Jacó não pôde resistir a tão fortes razões e deixou partir Benjamim. Deu-lhes o dobro do dinheiro necessário para comprar o trigo, acrescentando vários presentes para José, dentre as coisas mais preciosas que havia na terra de Canaã: bálsamo, resinas, terebintina e mel. Esse pai, de natureza tão suave e terna, passou todo aquele dia imerso em grande dor, ao ver partir todos os seus filhos. Também estes saíram no temor de que o pai não pudesse resistir a tão grade aflição, mas à medida que se adiantavam na viagem, consolavam-se com a esperança de uma melhor sorte.
76. Logo que chegaram ao Egito, dirigiram-se ao palácio de José e, temendo que os acusassem de terem roubado o dinheiro do trigo que haviam comprado, desculparam-se com o administrador, assegurando-lhe que fora grande a surpresa deles quando, já em sua pátria, encontraram nos sacos o dinheiro, que de novo lhe traziam. Ele fingiu ignorar de que se tratava, e eles ficaram ainda mais tranqüilos quando puseram Simeão em liberdade.
Pouco tempo depois, voltando ao palácio do rei, entregaram a José os presentes que o pai enviara. José perguntou da saúde de Jacó, e responderam-lhe que era boa. E ele cessou de temer por Benjamim quando o viu entre os demais, porém não deixou de perguntar se era aquele o irmão menor deles. Tendo-lhe eles respondido que era, contentou-se em dizer-lhes que a providência de Deus estendia-se a tudo. Não podendo mais conter as lágrimas, afastou-se, para não se dar a conhecer. Naquele mesmo dia, ofereceu-lhes uma ceia, determinando que se sentassem à mesa na mesma posição e ordem que adotavam em casa. Tratou-os assim muito bem e fez servir uma porção dobrada a Benjamim.
77. Gênesis 44. Ordenou em seguida que lhes dessem o trigo que desejavam levar e acrescentou, por ordem secreta, que quando estivessem dormindo se pusesse de novo nos sacos o dinheiro do pagamento e que escondessem, além disso, no saco pertencente a Benjamim, a taça em que ele, José, comumente se servia. Queria desse modo experimentar a disposição dos irmãos para com Benjamim, para ver se o auxiliariam quando ele o acusasse daquele furto ou se o abandonariam sem se incomodar com a sua sorte.
Sua ordem foi executada. Eles partiram ao raiar do dia, com grande júbilo por terem reconquistado o seu irmão Simeão e cumprido a promessa para com o seu pai, restituindo-lhe também Benjamim. Entretanto ficaram espantados quando se viram cercados por uma tropa de cavalaria, junto da qual estavam os servidores de José que haviam escondido a taça. E perguntaram a estes por que motivo, depois de o senhor deles os haver tratado com tanta cordialidade, os perseguiam com tanta insistência.
Os egípcios responderam-lhes que a bondade de José, de que se vangloriavam, ressaltava-lhes ainda mais a ingratidão e os tornava mais culpados, pois, em vez de reconhecerem os favores que haviam recebido, não tinham tido escrúpulo de roubar a taça de que ele se servira para lhes dar, num banquete, demonstrações de sua estima e haviam preferido um roubo tão vergonhoso à honra da boa graça, expondo-se ao perigo que os ameaçava, se fossem descobertos. Porque eles não podiam deixar de ser castigados como mereciam, pois, se haviam podido enganar o encarregado da guarda daquela taça, não podiam enganar a Deus, que revelara o roubo, não permitindo que dele se aproveitassem. E em vão fingiam ignorar o fim que os levara ao encalço deles, pois o castigo que receberiam fá-los-ia conhecer o motivo.
O egípcio que assim falava acrescentou a isso mil censuras, mas como os irmãos se julgavam inocentes, não se incomodaram com as recriminações, achando loucura que fossem acusados de tal roubo — eles, que depois de encontrarem nos sacos o dinheiro do trigo que haviam comprado, tinham-no restituído em boa-fé (embora ninguém disso soubesse), o que era uma maneira de agir bem contrária ao crime de que os acusavam. Como uma busca poderia melhor justificá-los que as palavras, a confiança que tinham em sua inocência tornou-os tão ousados que insistiram com os egípcios que examinassem os sacos, acrescentando que estavam dispostos a serem todos castigados se um só deles fosse tido como culpado.
Os egípcios aceitaram a sugestão e determinaram fazer a pesquisa com uma condição mais favorável; contentar-se-iam em prender somente aquele em cujo saco a taça estivesse escondida. O oficial remexeu então em todos os sacos, iniciando propositadamente pelos dos mais velhos, a fim de reservar o de Benjamim para o final. Não porque não soubesse em qual saco a taça se encontrava, mas para dar a impressão de que se desobrigava muito bem de sua incumbência. Assim, os dez primeiros, nada receando por eles mesmos e não julgando que houvesse algo a temer por Benjamim, queixaram-se de seus perseguidores e do atraso que estava causando aquela busca injusta. No entanto, quando abriram o saco que pertencia a Benjamim e ali acharam a taça, a surpresa de terem caído em tal desdita quando já se julgavam fora de qualquer perigo causou-lhes tão viva dor que eles rasgaram as próprias vestes e só conseguiam gritar e gemer. Isso porque imaginaram logo o castigo inevitável para Benjamim e ao mesmo tempo lembraram que haviam solenemente prometido ao pai restituir-lhe o filho menor. E, para cúmulo da aflição, sentiam-se culpados da desgraça de um e de outro, pois foram os seus insistentes pedidos que levaram Jacó a decidir-se mandar Benjamim com eles.
Os cavaleiros, sem demonstrar comoção com as suas queixas e lágrimas, levaram Benjamim a José, e seus irmãos o seguiram. José, vendo Benjamim nas mãos dos soldados, assim falou aos irmãos esmagados pela dor: &quot;Miseráveis que sois! Respeitais, então, tão pouco a providência de Deus e sois tão insensíveis à bondade que vos testemunhei que tenhais tido a coragem de cometer uma ação tão baixa para com o vosso benfeitor, que vos recebeu com tanta cordialidade?&quot; Essas poucas palavras causaram-lhes tal confusão que somente puderam se oferecer para libertar o irmão e serem castigados em seu lugar. Diziam entre si, uns aos outros, que José era feliz, pois se havia morrido, estava livre das misérias da vida, e, se estava vivo, ser-lhe-ia glorioso que Deus julgasse digno o severo castigo que sofriam por causa dele. Confessavam ainda que não poderiam ser mais culpados do que já o eram para com o pai, por terem acrescentado nova aflição à que ele já suportava pela perda de José. E Rúben continuava a censurar-lhes o crime que haviam cometido contra o irmão.
Disse-lhes José que, como não duvidava da inocência deles, permitia que regressassem, contentando-se em castigar aquele que cometera o crime, pois, assim como não era justo pôr em liberdade um culpado para ser agradável aos que não o eram, do mesmo modo não seria razoável fazer sofrer inocentes pelo pecado de um só. E assim, eles podiam partir quando quisessem, que ele lhes garantiria toda a segurança.
De tal maneira essas palavras penetraram-lhes o coração que todos, exceto Judá, ficaram impossibilitados de responder. E, como era muito generoso e havia feito ao pai a promessa de lhe reconduzir Benjamim, resolveu expor-se, para salvá-lo, e assim falou a José: &quot;Reconhecemos, meu senhor, que a injúria que recebestes é tão grande que não pode ser assaz rigorosamente castigada. Assim, ainda que a falta seja exclusiva de um só e do mais moço de todos nós, queremos receber todos juntos o castigo. Embora pareça que nada devamos esperar em favor dele, não deixamos de confiar em vossa clemência e ousamos prometer a nós mesmos que seguireis, preferivelmente, nesta ocorrência, os sentimentos que ela vos inspirar, que não os da vossa justa cólera, pois é próprio das grandes almas, como a vossa, sobrepor-se às paixões pelas quais as almas vulgares se deixam vencer. Considerai, por favor, se seria digno de vós fazer morrer pessoas que não querem ter a vida senão pela vossa bondade. Não será a primeira vez que vós a tereis conservado, pois, sem o trigo que nos permitistes comprar, há muito tempo a fome nos teria matado a todos. Não permitais, portanto, que tão grande obrigação, de que vos somos devedores, fique inútil, mas fazei que tenhamos ainda uma segunda, que não será menor que a primeira, pois é conceder em duas maneiras diferentes uma mesma graça: conservar a vida aos que a fome teria feito morrer e não tirá-la àqueles que merecem a morte. Vós nos salvastes, dando-nos com que nos alimentarmos. Fazei-nos agora gozar desse favor por uma generosidade digna de vós. Sede cioso de vossos próprios dons, não vos contentando de nos salvar uma só vez a vida. E, certamente, eu creio, Deus permitiu que tenhamos caído em tal infortúnio para fazer brilhar mais a vossa virtude, pois, perdoando aos que vos ofenderam, fareis ver que a vossa bondade não se estende somente aos inocentes, que têm necessidade da vossa assistência, mas também aos culpados, aos quais a vossa graça é necessária. Embora seja coisa muito louvável socorrer os aflitos, não é menos digno de um homem elevado a um alto cargo esquecer as ofensas particulares que lhe são feitas. É glorioso perdoar as faltas leves. É imitar a Divindade, que dá a vida aos que merecem perdê-la. Se a morte de )osé não me tivesse feito conhecer até que ponto vai a extrema ternura de nosso pai para com os seus filhos, não insistiria eu tanto junto de vós pela conservação de um filho que lhe é tão caro. Se eu vo-lo faço, é somente a fim de contribuir para a glória que teríeis em perdoar-lhe, enquanto nós suportaríamos morrer com paciência, se um pai que nos é tão querido e venerado se pudesse consolar com a nossa morte. Mas nós, embora sejamos moços e comecemos a desfrutar os prazeres da vida, sentimos muito mais o mal dele que o nosso e não vos rogamos tanto por nós quanto por ele, que não somente está acabado pela idade, mas também pela dor. Podemos dizer, com verdade, que é um homem de grande virtude, que nada omitiu nem esqueceu para nos levar à sua imitação e que seria bem infeliz se lhe fôssemos causa de aflição. A nossa ausência já o faz sofrer de tal modo que ele não poderia suportar a notícia da nossa morte. A vergonha de que seria acompanhada abreviaria, sem dúvida, os seus dias, e, para evitar a confusão que isso lhe causaria, ele preferiria deixar este mundo antes que a notícia se espalhasse. Assim, embora a vossa cólera seja muito justa, fazei com que a vossa compaixão por nosso pai seja mais poderosa sobre o vosso espírito que o ressentimento pela nossa falta. Concedei essa graça à velhice, pois ele não se poderia resignar a sobreviver à nossa perda. Concedei-a na qualidade de pai, para honrar o vosso, na vossa pessoa, e honrar-vos a vós mesmo, pois Deus vos deu essa mesma qualidade. Deus, que é o pai de todos os homens, vos tomará feliz na vossa família se f izerdes ver que respeitais um nome que tendes em comum com ele, deixando-vos levar pela compaixão para com um pai que não poderia suportar a perda de seus filhos. Nossa vida está em vossas mãos: assim como podeis no-la destruir com justiça, podeis também, pela graça, no-la conservar. Ser-vos-á tanto mais glorioso imitar, no-la conservando, a bondade de Deus, o qual no-la deu, pois não será a um só, mas a vários que a conservareis. Dá-la a nosso irmão será dá-la a todos, pois não nos poderíamos resolver a sobreviver nem a voltar sem ele a nosso pai, e tudo o que lhe acontecer será comum conosco. Assim, se nos recusardes esta graça, nós só vos pediremos que nos façais sofrer o mesmo castigo ao qual o condenareis, pois ainda que não tenhamos parte no seu crime preferimos passar por cúmplices de sua falta e ser com ele condenados à morte que sermos obrigados por nossa pena e dor a morrer por nossas mesmas mãos. Não vos direi, senhor, que, sendo ele ainda jovem e sujeito às fraquezas de sua idade, a humanidade parece obrigar-vos a perdoar-lhe. Omitirei de propósito muitas outras coisas, a fim de que, se não vos deixardes comover pelas nossas palavras, se possa atribuir disto a causa: a ter eu mal defendido o meu irmão. Mas se, ao contrário, vós lhe perdoardes, pareça que nós somos devedores disso unicamente à vossa clemência e à penetração de vosso espírito, que terá conhecido melhor do que nós mesmos as razões que podem servir à nossa defesa. Mas, se não formos tão felizes e quiserdes castigá-lo, o único favor que vos peço é fazer-me sofrer a mesma pena em seu lugar e permitir-lhe que volte para o nosso pai. Ou, se a vossa intenção é conservá-lo como escravo, vereis que eu estou mais em condições do que ele de vos prestar esse serviço&quot;.
78. Judá assim falou e, demonstrando que estava pronto a se expor alegremente para salvar o irmão, lançou-se aos pés de José, a fim de nada esquecer que pudesse comovê-lo e levá-lo a conceder-lhe a graça que pedia. Os outros irmãos fizeram o mesmo, e nem um só deixou de se oferecer para ser castigado em lugar de Benjamim. Tantos testemunhos de uma amizade tão verdadeiramente fraterna comoveram o coração de José. Então, não podendo mais continuar a fingir-se encolerizado, ordenou aos que estavam presentes que saíssem do quarto.
Quando ficou sozinho com os seus irmãos, José deu-se a conhecer, falando-Ihes deste modo: &quot;A maneira como me tratastes outrora dava-me motivo para vos acusar de má índole. Tudo o que fiz até aqui teve como finalidade apenas submeter-vos a uma prova. Porém a amizade que demonstrais para com Benjamim obriga-me a mudar a minha opinião e mesmo a crer que Deus permitiu o que aconteceu para disso tirar o bem de que desfrutais agora e que espero de sua graça seja ainda maior para o futuro. Assim, vendo que meu pai está passando bem, melhor do que eu mesmo imaginava, e testemunhando o vosso afeto por Benjamim, não é meu desejo lembrar-me do passado, a não ser para atribuí-lo ao nosso Deus e para vos considerar como tendo sido naquele fato um ministro da providência. E, da mesma forma como o esqueço, quero que esqueçais também, e que este tão feliz acontecimento, fruto de um mau conselho, vos faça apagar o opróbrio de vossa falta, de modo a não vos restar desprazer algum, porque ela ficou sem efeito. Por que o desprazer de tê-la cometido vos causaria agora tristeza? Alegrai-vos, ao contrário, pelo que aprouve a Deus realizar em nosso favor e ide imediatamente consolar o nosso pai, para que a apreensão em que ele se encontra, por vossa causa, não o faça morrer sem que eu tenha a consolação de vê-lo. Porque a maior alegria que a minha fortuna me poderá conceder é torná-lo participante dos bens que possuo, pela liberalidade de Deus. Não deixeis também de trazer com ele as vossas esposas, os vossos filhos e os vossos parentes, a fim de que todos participeis da minha felicidade. E desejo-o tanto mais porque a carestia que nos aflige durará ainda cinco anos&quot;.
José assim falou aos irmãos e abraçou-os a todos. Todos choravam. E os irmãos de José, não podendo duvidar da sinceridade do afeto que ele lhes manifestava e do perdão que lhes concedia, muito verdadeiro, tinham o coração ferido de dor e não conseguiam perdoar-se a si mesmos por havê-lo tratado com tanta desumanidade. Depois de tantas lágrimas derramadas, aquele dia terminou com um grande banquete.
79. O rei, que soubera da chegada dos irmãos de José, manifestou não menos alegria do que teria sentido por qualquer outra feliz ventura que lhe sobreviesse.
Presenteou-lhes com carros carregados de trigo e grande quantidade de ouro e prata, para levarem ao seu pai. José entregou-lhes também outros valiosos presentes para em seu nome serem oferecidos a Jacó. Igualmente, distribuiu presentes a todos os irmãos, além de alguns em particular a Benjamim. Voltaram eles então ao seu país, e Jacó não teve dificuldade em prestar fé à declaração de que o filho por quem havia chorado tanto tempo estava não somente cheio de vida, mas elevado a tão grande autoridade, governando todo o Egito, abaixo somente do rei. Esse fiel servidor recebeu tantas provas da infinita bondade de Deus que delas não podia duvidar. Foi como se os fatos, durante algum tempo, estivessem como que suspensos. Assim, ele não viu impedimento em partir imediatamente, para dar a José e deste receber, ao mesmo tempo, a maior de todas as consolações que um e outro poderiam desejar em vida.

CAPÍTULO 4
JACÓ CHEGA AO EGITO COM TODA A SUA FAMÍLIA. ADMIRÁVEL PROCEDER DE JOSÉ DURANTE A CARESTIA E DEPOIS DELA. MORTE DE JACÓ E DE JOSÉ.

80. Gênesis 46. Quando Jacó chegou aos poços do juramento, ofereceu a Deus um sacrifício, e o seu espírito achou-se então agitado por diversos pensamentos. Isso porque, de um lado, ele temia que a abundância do Egito tentasse os filhos a permanecer lá e os fizesse perder o desejo de voltar à terra de Canaã, da qual Deus lhe prometera a posse, atraindo assim a cólera divina, por terem ousado mudar de país sem consultar ao Senhor. Por outro lado, ele temia morrer antes de ter o consolo de ver José.
ADORMECEU COM ESSA AMARGURA, E DEUS APARECEU-LHE EM SONHOS, CHAMANDO-O DUAS VEZES PELO NOME. JACÓ PERGUNTOU QUEM ERA, E DEUS RESPONDEU-LHE: &quot;COMO? JACÓ! NÃO CONHECEIS O VOSSO DEUS, QUE CONTINUAMENTE VOS TEM ASSISTIDO E A TODOS OS VOSSOS PREDECESSORES? NÃO FUI EU QUE, CONTRA O DESÍGNIO DE ISAQUE, VOSSO PAI, VOS FIZ CHEFE DE VOSSA DESCENDÊNCIA? NÃO FUI EU QUE, QUANDO FOSTES SOZINHO PARA A MESOPOTÂMIA, VOS PROVIDENCIEI UM CASAMENTO VANTAJOSO, VOS TORNEI PAI DE VÁRIOS FILHOS E VOS FIZ VOLTAR REPLETO DE BENS? NÃO FUI EU QUE CONSERVEI A VOSSA FAMÍLIA E QUE, QUANDO PENSÁVEIS O HAVER PERDIDO, ELEVEI JOSÉ A UM TÃO ALTO GRAU DE PODER QUE A FORTUNA DELE IGUALA QUASE À DO PRÓPRIO REI DO EGITO? VENHO AGORA PARA SERVIR-VOS DE GUIA NA VOSSA VIAGEM E PARA ANUNCIAR-VOS QUE EXALTAREI O VOSSO ÚLTIMO SUSPIRO NOS BRAÇOS DE JOSÉ E QUE A VOSSA POSTERIDADE SERÁ MUITO PODEROSA, DURANTE VÁRIOS SÉCULOS, E POSSUIRÁ O PAÍS CUJO DOMÍNIO VOS PROMETI&quot;.
81. JACÓ, CONSOLADO COM ESSAS ESPERANÇAS POR MEIO DE UM SONHO TÃO FAVORÁVEL, CONTINUOU AINDA MAIS ALEGREMENTE A VIAGEM COM OS FILHOS E NETOS, CUJO NÚMERO ERA DE SETENTA. NÃO DIRIA AQUI OS SEUS NOMES, QUE SÃO RUDES E DIFÍCEIS DE SE PRONUNCIAR, SE ALGUNS NÃO QUISESSEM FAZER CRER QUE SOMOS ORIGINÁRIOS DO EGITO, E NÃO DA MESOPOTÂMIA.
JACÓ TINHA DOZE FILHOS, E COMO UM DELES, JOSÉ, JÁ ESTAVA ESTABELECIDO NO EGITO, RESTA-ME FALAR SOMENTE DOS OUTROS.
RÚBEN TEVE QUATRO FILHOS: ENOQUE, PALU, HEZROM E CARMI.
SIMEÃO TEVE SEIS FILHOS: JEMUEL, JAMIM, OADE, JAQUIM, ZOAR E SAUL.
LEVI TEVE TRÊS FILHOS: GÉRSON, COATE E MERARI.
JUDÁ TEVE CINCO FILHOS: ER, ONÃ, SELA, PEREZ E ZERÁ.
PEREZ TEVE DOIS: ESROM E HAMUL.
ISSACAR TEVE QUATRO FILHOS: TOLA, PUVA, JÓ E SINROM.
ZEBULOM TEVE TRÊS FILHOS: SEREDE, ELOM E JALEEL.
TODOS ESSES JACÓ OS TIVERA DE LEIA, QUE TRAZIA CONSIGO A SUA FILHA DINÁ, E TODOS JUNTAMENTE PERFAZIAM O NÚMERO DE TRINTA E TRÊS PESSOAS.
JACÓ, ALÉM DISSO, TEVE DOIS FILHOS DE RAQUEL: JOSÉ E BENJAMIM.
JOSÉ TIVERA DOIS FILHOS: MANASSES E EFRAIM.
BENJAMIM TEVE DEZ: BELA, BEQUER, ASBEL, GERA, NAAMÃ, EI, RÔS, MUPIM, HUPIM E ARDE.
ESSAS CATORZE PESSOAS, SOMADAS ÀS TRINTA E TRÊS, DÃO UM TOTAL DE QUARENTA E SETE, E SÃO OS FILHOS LEGÍTIMOS DE JACÓ.
DE BILA, ELE TEVE AINDA DÃ E NAFTALI. DÃ TEVE SOMENTE UM FILHO, DE NOME HUSIM.
NAFTALI TEVE QUATRO FILHOS: JAZEEL, GUNI, JEZER E SILÉM.
ESSAS PESSOAS, ACRESCENTADAS ÀS PRECEDENTES, PERFAZEM CINQÜENTA E QUATRO.
JACÓ TEVE AINDA, DE ZILPA, GADE E ASER.
GADE TEVE SETE FILHOS: ZIFIOM, HAGI, SUNI, ESBOM, ERI, ARODI E ARELI.
ASER TEVE UMA FILHA E QUATRO FILHOS: IMNA, ISVÁ, ISVI, BERIAS E SERÁ (FILHA).
ESSAS QUINZE PESSOAS, ACRESCENTADAS ÀS CINQÜENTA E QUATRO PRECEDENTES, PERFAZEM O NÚMERO DE SETENTA, DE QUE FALEI, INCLUSIVE JACÓ.
82. JUDÁ ADIANTOU-SE PARA AVISAR JOSÉ DE QUE O SEU PAI JÁ ESTAVA PERTO. ELE PARTIU IMEDIATAMENTE A ENCONTRÁ-LO, O QUE SE DEU NA CIDADE DE HEBROM. A ALEGRIA DE JACÓ FOI TÃO GRANDE QUE O PÔS EM PERIGO DE MORRER, E A DE JOSÉ NÃO FOI MENOR. ESTE ROGOU QUE FIZESSEM ENTÃO PEQUENAS JORNADAS, E FOI COM CINCO DE SEUS IRMÃOS AVISAR O REI DA CHEGADA DE SEU PAI E DE TODA A SUA FAMÍLIA. O SOBERANO MOSTROU-SE MUITO CONTENTE E QUIS SABER DE QUE JACÓ E SEUS FILHOS GOSTARIAM DE SE OCUPAR. JOSÉ RESPONDEU-LHE QUE ELES ERAM PERITOS NA CRIAÇÃO DE REBANHOS E QUE ESSA ERA A SUA PRINCIPAL OCUPAÇÃO. DIZER ISSO VINHA MUITO A PROPÓSITO PARA ELES, QUER PARA NÃO SEPARAR JACÓ DE SEUS FILHOS, CUJA ASSISTÊNCIA, POR CAUSA DE SUA IDADE AVANÇADA, ERA MUITO NECESSÁRIA, QUER PARA EVITAR QUE OS EGÍPCIOS, OCUPADOS NOS TRABALHOS DE SEMPRE, OS INVEJASSEM QUANDO VISSEM OS PARENTES DE JOSÉ EMPENHADOS NA CRIAÇÃO E NO CUIDADO DOS REBANHOS, ATIVIDADE NA QUAL AQUELES TINHAM POUCA EXPERIÊNCIA.
Gênesis 47. Jacó foi em seguida prestar as suas homenagens ao rei, que lhe perguntou a idade. Jacó respondeu-lhe que tinha cento e trinta anos e, vendo que o rei se admirava, disse que não era uma vida longa, em comparação aos anos que tinham vivido os seus predecessores. Faraó, depois de havê-lo recebido muito bem, determinou que ele fosse morar com os filhos em Ramessés, onde se estabeleciam os que se dedicavam ao ofício de pastor.
83. A carestia aumentava no Egito. Era um mal sem remédio, pois, além de o Nilo não sair além de suas margens naturais e de não cair chuva do céu, a esterilidade viera tão de improviso que o povo nada tinha guardado como reserva. Mas José não lhes deu trigo sem dinheiro. E, quando o dinheiro lhes veio a faltar, tomou como pagamento os seus animais e escravos. Aqueles aos quais só restavam terras davam-nas em troca de comida. Desse modo, ele as reuniu quase todas ao território do soberano, enquanto esses tais se retiraram para onde puderam. Assim, uns perdiam a liberdade, e outros, os seus bens. Nenhuma outra miséria lhes parecia, porém, mais insuportável que morrer de fome. Os sacerdotes, por um privilégio particular, foram excetuados dessa lei geral e puderam conservar a posse de seus bens.
Quando o Nilo, depois de tão grande calamidade, começou a transbordar e tornou a terra bastante fecunda, José passou por todas as cidades, reuniu o povo e restituiu-lhes as terras que haviam cedido ao rei — com a condição, todavia, de a possuírem somente como usufruto. Animou-os a cultivá-las como próprias, declarando-lhes que sua majestade se contentaria com a quinta parte do que elas produzissem. Eles aceitaram essa graça com tanto maior alegria quanto não a haviam esperado e entregaram-se com todo ardor ao cultivo da terra. Assim, José conquistava cada vez mais a estima dos egípcios e o afeto do rei, cujos domínios haviam aumentado tanto que os reis, seus sucessores, desfrutam ainda hoje esses bens, isto é, a quinta parte do fruto das terras.
84. Gênesis 48, 49 e 50. Jacó passou dezessete anos no Egito, e morreu velho nos braços de seus filhos, depois de lhes desejar toda sorte de prosperidade. Predisse com espírito profético que cada um deles possuiria uma parte da terra de Canaã, o que, no correr dos tempos, não deixou de acontecer. Louvou muito a José porque ele, em vez de se ressentir dos maus-tratos que recebera dos irmãos, fizera-lhes ainda mais bem do que se a isso estivesse obrigado. Ordenou que acrescentassem ao seu número Efraim e Manasses, filhos de José, para dividir com eles a terra de Canaã, como diremos a seu tempo. Pediu também para ser sepultado em Hebrom. Viveu cento e quarenta e sete anos, e, como não devia em piedade a nenhum de seus predecessores, Deus cumulou com suas graças a ele e a seus filhos, para recompensar-lhe a virtude. José, com a permissão do rei, mandou transportar o corpo do pai a Hebrom e nada omitiu para fazê-lo enterrar com grande magnificência.
Os irmãos de José, temendo não estarem mais garantidos pela consideração que ele tinha por seu pai e que quisesse vingar-se deles, pensaram em deixar o Egito. Mas José os tranqüilizou, levou-os com ele, deu-lhes várias terras e continuou a tratá-los com inexcedível bondade. José morreu com cento e dez anos. Era homem de eminente virtude e de admirável prudência, e usou o poder com tanta moderação que, embora fosse estrangeiro e tivesse sido caluniado pela mulher de seu primeiro senhor, a sua fortuna não foi invejada pelos egípcios.
Os irmãos dele morreram também no Egito, depois de terem vivido felizes. Filhos e netos levaram os corpos a Hebrom, ao mesmo sepulcro de seus antepassados. E, quando os hebreus saíram do Egito, levaram para lá também os ossos de José, como ele determinara e os fizera prometer com juramento. Mas, tendo de contar em seguida as amarguras por que passou esse povo e todas as guerras que teve de sustentar para dominar os de Canaã, falarei primeiramente da causa que os obrigou a sair do Egito.

CAPÍTULO 5
OS EGÍPCIOS TRATAM CRUELMENTE OS ISRAELITAS. PREDIÇÃO REALIZADA PELO
NASCIMENTO E MILAGROSA CONVERSÃO DE MOISÉS. AFILHA DO REI DO EGITO
FA-LO EDUCAR E O ADOTA POR FILHO. ELE COMANDA O EXÉRCITO DO EGITO
CONTRA OS ETÍOPES, OBTÉM A VITÓRIA E DESPOSA A PRINCESA DA ETIÓPIA.
OS EGÍPCIOS DESEJAM MATÁ-LO. ELE FOGE E DESPOSA AFILHA DE REUEL,
TAMBÉM CHAMADO JETRO. DEUS APARECE-LHE NUM ARBUSTO ARDENTE, NO
MONTE SINAI, E ORDENA-LHE QUE VÁ LIBERTAR O SEU POVO DA ESCRAVIDÃO.
ELE REALIZA VÁRIOS MILAGRES PERANTE FARAÓ, E DEUS FERE O EGITO COM
VÁRIAS PRAGAS. MOISÉS LIBERTA OS ISRAELITAS E GUIA-OS.

85. Êxodo 1. Como os egípcios são naturalmente preguiçosos e voluptuosos e só pensam no que lhes pode proporcionar prazer e proveito, eles olhavam com inveja a prosperidade dos hebreus e as riquezas que estes conquistavam com o trabalho. Conceberam mesmo certo temor pelo aumento do número deles. Tendo o tempo apagado a memória das obrigações que todo o Egito devia a José e tendo o reino passado a outra família, eles começaram a maltratar os israelitas e a oprimi-los com trabalhos. Empregaram-nos em cavar vários diques para deter as águas do Nilo e diversos canais para conduzi-las. Faziam-nos trabalhar na construção de muralhas para cercar as cidades e levantar pirâmides de altura prodigiosa, obrigando-os até mesmo a aprender, com dificuldade, artes e diversos ofícios. Quatrocentos anos* assim se passaram, com os egípcios procurando sempre destruir a nossa nação, e os hebreus, ao contrário, esforçando-se por vencer todos esses obstáculos.

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* O artigo 96 fala de apenas 215 anos, que é a opinião dos rabinos.

86. Esse mal foi seguido por um outro, que aumentou ainda mais o desejo que os egípcios tinham de nos perder. Um dos doutores da sua lei, ao qual eles dão o nome de escribas das coisas santas e que passam entre eles por grandes profetas, disse ao rei que naquele mesmo tempo deveria nascer um menino entre os hebreus, cuja virtude seria admirada por todo o mundo, pois aumentaria a glória de sua nação e humilharia o Egito, e cuja reputação seria imortal. O rei, assustado com a predição e seguindo o conselho daquele que lhe fazia essa advertência, publicou um edito pelo qual ordenava que se deveriam afogar todas as crianças hebréias do sexo masculino e ordenou às parteiras do Egito que observassem exatamente quando as mulheres fossem dar à luz, porque não confiava nas parteiras de sua nação. Esse edito ordenava também que aqueles que se atrevessem a salvar ou criar alguma dessas crianças seriam castigados com a pena de morte, juntamente com toda a família.
Tão cruel determinação cumulou de dor os israelitas porque, ficando obrigados a ser os assassinos dos próprios filhos e não podendo sobreviver a eles senão apenas alguns anos, a extinção da raça parecia inevitável. Mas é em vão que os homens empregam os seus esforços para resistir à vontade de Deus. O menino que havia sido vaticinado veio ao mundo, foi criado ocultamente, não obstante as ordens do rei, e todas as predições a seu respeito se realizaram.
87. Um hebreu de nome Anrão, muito estimado entre os seus, vendo que a sua mulher estava grávida, ficou muito preocupado, por causa do edito que iria exterminar a sua nação. Recorreu então a Deus, rogando-lhe que tivesse compaixão de um povo que sempre o havia adorado e fizesse cessar a perseguição que os ameaçava de ruína total.
Deus, tocado por aquela oração, apareceu-lhe em sonho e disse-lhe que esperasse: que Ele se lembrava da piedade do povo e da de seus antepassados; que os recompensaria agora, tal como havia recompensado aqueles; que era por essa consideração que os fizera multiplicar-se, desde Abraão, quando este partiu sozinho da Mesopotâmia para a terra de Canaã, a quem Ele cumulou de bens e tornou a mulher fecunda, e os sucessores dele, aos quais outorgou províncias inteiras: a Arábia a Ismael, Troglodita aos filhos de Quetura e o país de Canaã a Isaque; que eles não poderiam sem ingratidão e mesmo sem impiedade esquecer os felizes êxitos obtidos na guerra pela aliança com Ele; que o nome de Jacó se tornara célebre, tanto pela felicidade na qual viveu quanto pela que legou aos seus descendentes como um direito hereditário, e porque, havendo chegado ao Egito com setenta pessoas somente, a sua posteridade multiplicou-se, atingindo o número de seiscentos mil homens; que se tranqüilizassem, pois teria cuidado de todos em geral e dele em particular; que o filho de que a sua mulher estava grávida era o menino de quem os egípcios temiam tanto o nascimento e por causa de quem faziam morrer todos os meninos dos israelitas; que ele viria, contudo, felizmente ao mundo, sem ser descoberto pelos encarregados daquela cruel devassa; que ele, contra todas as esperanças, seria criado e educado e libertaria o seu povo da escravidão; que tão grande feito eternizaria a sua memória, não somente entre os hebreus, mas entre todas as nações da terra; que, por mérito dele, o seu irmão seria educado até tornar-se um grande sacerdote, sendo que todos os descendentes deste seriam honrados com a mesma dignidade.
Anrão narrou à sua esposa, de nome Joquebede, a visão que tivera, a qual, embora lhe fosse muito favorável, não lhes diminuiu o temor, porque não podiam deixar de se preocupar com a vida do filho. Além disso, parecia inacreditável a grande felicidade a eles prometida.
Êxodo 2. Joquebede deu à luz, e viu-se que era verdadeira a predição do oráculo. Foi um parto feliz e fácil, que as parteiras egípcias nem chegaram a conhecer. Criaram secretamente a criança durante três meses. Então Anrão, por causa da ordem do rei, temendo ser descoberto e sofrer juntamente com o filho a pena de morte e com receio de que assim o que lhe fora predito não se cumprisse, julgou conveniente abandonar à providência de Deus a conservação de uma criança que lhe era tão cara. Pensou que poderia conservar o filho em oculto, mas viveriam, ele e o menino, em perigo constante, ao passo que, entregando-o nas mãos de Deus, acreditava firmemente que Ele teria meios de confirmar a veracidade da promessa.
Após tomar essa resolução, ele e a mulher fizeram um berço de juncos do tamanho da criança e, para impedir que a água nele penetrasse, revestiram-no de betume. Puseram dentro o menino e colocaram o berço sobre as águas do rio, abandonando-o à Providência. Miriã, irmã do menino, por ordem de sua mãe, foi para o outro lado do Nilo ver o que aconteceria. Deus então mostrou claramente que todas as coisas se realizariam, não segundo os planos da sabedoria humana, mas conforme os sublimes desígnios de sua vontade. Mostrou também que aqueles que pretendem fazer perecer os outros, para proveito próprio ou para segurança particular, são muitas vezes desiludidos em suas esperanças, por mais cuidados de que se cerquem. Os que confiam somente nEle, entretanto, estarão a salvo de muitos perigos, mesmo contra qualquer probabilidade de salvação, como aconteceu a esse menino.
Como o berço flutuasse ao sabor das águas, Termutis, filha do rei, que passeava pela margem do rio, avistou-o e ordenou a alguns dos que a acompanhavam que a nado fossem buscá-lo. Trouxeram-no, e ela ficou tão encantada com a beleza da criança que não se cansava de contemplá-la. Resolveu então tomar o menino aos seus cuidados e mandar educá-lo. De sorte que, por um favor de Deus assaz extraordinário, ele foi criado no mesmo lugar onde queriam a sua morte e a ruína de sua nação.
A princesa logo ordenou que fossem procurar uma ama. Veio uma, porém a criança não quis mamar e recusou todas as outras que lhe trouxeram. Miriã, então, fingindo lá encontrar-se por acaso, disse à princesa: &quot;É inútil, senhora, que mandeis chamar outras amas, pois elas não são da mesma nação que esta criança. Se tomardes uma ama hebréia, talvez ele não sinta aversão&quot;. Termutis aprovou a idéia e disse-lhe que fosse procurar uma. Ela foi imediatamente para casa e trouxe Joquebede, que ninguém conhecia, para ser a ama da criança, a qual deu-lhe de mamar.
A princesa ordenou-lhe que criasse o menino com todo cuidado e chamou-o Moisés, isto é, &quot;salvo das águas&quot;, como sinal de um estranho acontecimento, pois mo, em língua egípcia, significa &quot;água&quot;, e isés, &quot;preservado&quot;. A predição divina realizou-se inteiramente nele, pois Moisés tornou-se a maior personagem que jamais existiu entre os hebreus. Era o sétimo desde Abraão, porque Anrão, seu pai, era filho de Coate, Coate era filho de Levi, Levi era filho de Jacó, jacó era filho de Isaque e Isaque era filho de Abraão.
À medida que Moisés crescia, demonstrava muito mais espírito e inteligência que o permitido pela sua idade. Mesmo brincando, dava sinais de que um dia seria alguém extraordinário. Quando completou três anos, Deus fez brilhar em seu rosto uma tão grande beleza que as pessoas, mesmo as mais austeras, ficavam arrebatadas. Ele atraía sobre si os olhares de todos os que o encontravam e, por mais pressa que tivessem, eram obrigados a parar para contemplá-lo.
Termutis, vendo-o cheio de tanta graça e não tendo filhos, resolveu adotá-lo. Levou-o ao rei, seu pai, e, depois de falar-lhe da beleza do menino e da inteligência que já se manifestava nele, disse: &quot;Foi um presente que o Nilo me fez, de maneira admirável. Recebi-o em meus braços, resolvi adotá-lo e vo-lo ofereço como sucessor, pois não tendes filhos&quot;. Com essas palavras, ela o colocou entre os braços do rei, que o recebeu com prazer e, para obsequiar a filha, estreitou-o nos braços, colocando-lhe o diadema sobre a cabeça. Moisés, como uma criança, que se diverte, tirou-o e o jogou ao chão, pisando-lhe em cima.
Essa ação foi considerada de péssimo augúrio, e o doutor da lei que predissera o quanto seria funesto o nascimento daquele menino para o Egito ficou tão nervoso que desejou matá-lo imediatamente. &quot;Eis aí, majestade&quot;, disse ele, dirigindo-se ao rei, &quot;este menino, do qual Deus nos faz saber que a morte deve garantir a vossa paz. Vede que o fato confirma a minha predição, pois apenas nasceu e já despreza a vossa grandeza, calcando aos pés a vossa coroa. Matando-o, todavia, fareis perder aos hebreus a esperança que nele depositam e salvareis o vosso povo de um grande temor&quot;. Termutis, ouvindo-o falar desse modo, levou o menino sem que o rei se opusesse, porque Deus afastava do espírito de Faraó o pensamento de fazê-lo morrer. A princesa fê-lo educar com grande desvelo, e quanto mais os hebreus se alegravam tanto mais os egípcios se atemorizavam. Entretanto, como a ninguém viam que pudesse suceder o rei no trono ou de quem pudessem esperar um governo mais feliz quando Moisés não existisse mais, abandonaram a idéia; de fazê-lo morrer.
 
88. Logo que o menino, criado e educado dessa maneira, chegou à idade de poder dar provas de sua coragem, praticou atos de bravura que não permitiram mais dúvidas quanto à veracidade do que se havia sido predito, isto é, que ele elevaria a glória de sua nação e humilharia os egípcios. Eis o motivo:
A fronteira do Egito foi devastada pelos etíopes, que lhe estão próximos. Os egípcios marcharam com um exército contra eles, mas foram vencidos no combate e retiraram-se com desonra. Os etíopes, orgulhosos de tamanha vitória, julgaram que era covardia não aproveitar a boa sorte e começaram a se vangloriar de poderem conquistar todo o Egito. E lá entraram, por diversos lugares. A quantidade de despojos que arrebataram e o fato de não terem encontrado resistência alguma aumentaram-lhes a esperança de conseguir um feliz resultado na empresa. Assim, avançaram até Mênfis, chegando até o mar. Os egípcios, reconhecendo-se muito fracos para resistir a tão grande força, mandaram consultar um oráculo, e, por ordem secreta de Deus, a resposta que receberam foi que somente um homem havia — um hebreu! — do qual podiam esperar auxílio.
O rei não teve dificuldade em julgar, por essas palavras, que Moisés era o hebreu em questão, ao qual o céu destinava salvar o Egito, e pediu à filha para fazê-lo general de todo o exército. Ela consentiu e disse-lhe que julgava assim prestar ao rei um grande serviço. Contudo obrigou-o ao mesmo tempo a prometer, com juramento, que não lhe fariam mal algum. A princesa, não se contentando em testemunhar assim a sua extrema afeição por Moisés, não pôde também deixar de — com azedume — perguntar aos sacerdotes egípcios se eles não se envergonhavam de o haverem tratado como inimigo e de desejarem tirar a vida a um homem a quem eram agora obrigados a pedir auxílio.
Pode-se imaginar com que prazer Moisés obedeceu às ordens do rei e da princesa, que lhe eram tão gloriosas. E os sacerdotes das duas nações tiveram com isso, por motivos diferentes, idêntica alegria. Os egípcios esperavam que, depois de vencerem os inimigos sob o comando de Moisés, encontrariam facilmente ocasião para matá-lo, à traição. E os hebreus ansiavam, por esse mesmo motivo, sair do Egito e livrar-se da escravidão.
Esse excelente general, posto à frente do exército, logo se fez admirar pela sua prudência. Em vez de marchar ao longo do Nilo, atravessou pelo meio das terras, a fim de surpreender os inimigos, que jamais pensariam que ele os fosse alcançar por um caminho tão perigoso, devido à quantidade de serpentes de várias espécies que ali vivem: muitas delas não existem em nenhum outro lugar e não somente são temíveis pelo seu veneno, mas são horríveis de se ver, porque, tendo asas, atacam os homens elevando-se no ar, para se atirar sobre eles. Moisés, para precaver-se contra elas, mandou colocar em gaiolas algumas aves chamadas íbis, que são domesticadas, amigas do homem, e inimigas mortais das serpentes, sendo que estas as temem não menos que aos cervos. Nada mais direi sobre essas aves, porque não são desconhecidas aos gregos.
Quando Moisés chegou com o seu exército a essa tão perigosa região, soltou os pássaros e passou assim sem perigo. Então surpreendeu os etíopes, deu-lhes combate e os dispersou, fazendo-os perder a esperança de se tornarem senhores do Egito. Mas tão grande vitória não reteve os seus intentos: entrou no país deles, tomou várias cidades, saqueou-as e fez grande mortandade. Tão gloriosos resultados reanimaram de tal modo a coragem dos egípcios que eles seriam capazes de tudo empreender sob o comando de tão excelente general. Os etíopes, ao contrário, só tinham diante dos olhos a imagem da escravidão e da morte.
O ilustre general impeliu-os até Sabá, capital da Etiópia, que Cambises, rei dos persas, chamou depois de Meroe, nome de sua irmã. Aí Moisés os sitiou, embora a cidade fosse tida como inexpugnável, porque, além de suas grandes fortificações, era rodeada por três rios: o Nilo, o Astape e o Astobora, cujo percurso é muito difícil. Ficava, assim, situada numa ilha e não era menos defendida pela água que a rodeava de todos os lados que pela força de suas muralhas e de suas defesas. Os diques que a preservavam das inundações dos rios serviam ainda de terceira defesa quando os inimigos passassem as outras. Moisés ficou aborrecido ao constatar que tantas dificuldades juntas tornavam a conquista da cidade quase impossível, e o seu exército começava a enfadar-se, porque os etíopes não se atreviam mais a dar-lhes combate.
Tarlis, filha do rei da Etiópia, tendo-o visto do alto das muralhas praticar, num assalto, atos de valor e de coragem extraordinários, ficou tão cheia de admiração pela sua bravura, a qual reerguera o ânimo dos egípcios e fizera tremer a Etiópia, antes vitoriosa, que sentiu o coração ferido de amor por ele. Com a paixão sempre aumentando, mandou oferecer-lhe a mão em casamento. Ele aceitou a honra, com a condição de que ela lhe entregasse a cidade. A promessa foi confirmada com um juramento e, depois que o tratado foi feito, em boa fé de parte a parte, ele deu graças a Deus por tantos favores e reconduziu os egípcios vitoriosos de volta à sua pátria.
89. Mas esses ingratos, em vez de manifestar reconhecimento pela salvação e pela honra que deviam a Moisés, aumentaram ainda mais o seu ódio contra ele e procuraram, mais do que nunca, eliminá-lo. Temiam que a glória que conquistara o enchesse de tal modo de orgulho que ele pensasse em se tornar senhor de todo o Egito. Aconselharam o rei a mandá-lo matar, o qual deu ouvidos a tais palavras, porque a grande fama de Moisés já lhe causava inveja, e o monarca começava a temer que fosse também sobrepujado por ele. Nisso era ajudado pelos sacerdotes, que, para incitá-lo ainda mais, recordavam o rei continuamente do perigo em que se encontrava.
E assim, Faraó consentiu na morte de Moisés, e ela seria inevitável, se este não houvesse descoberto a intenção dos egípcios e se ausentado no momento oportuno. Moisés fugiu para o deserto e desse modo salvou-se, porque os inimigos não podiam imaginar que ele tomaria tal caminho. Como nada encontrasse para comer, viu-se atormentado por uma fome extrema, mas a suportou com paciência e, depois de haver andado muito, chegou, pelo meio-dia, próximo da cidade de Midiã — nome que lhe deu um dos filhos de Abraão e Quetura —, à beira do mar Vermelho. Estando muito cansado, sentou-se à beira de um poço, para repousar, e esse fato deu-lhe ocasião de mostrar a sua coragem, abrindo o caminho para uma sorte melhor. Eis como tudo se passou:
Um sacerdote chamado Reuel, ou Jetro, muito estimado entre os seus, tinha sete filhas, que, segundo o costume das mulheres de Troglodita, cuidavam dos rebanhos do pai. Ora, como a água doce é muito rara naquelas paragens, os pastores e pastoras iam solicitamente buscá-la, para dar de beber aos animais. Assim, as irmãs vieram naquele dia por primeiro ao poço, tiraram água e encheram as suas vasilhas para dar de beber aos carneiros e ovelhas. Mas alguns pastores que ali chegaram maltrataram-nas e tomaram a água que elas tinham tido o trabalho de tirar. Moisés, enraivecido por tal violência, julgou que não devia absolutamente permiti-la. Espancou os insolentes e afugentou-os, auxiliando as moças no que a justiça pedia dele. Elas contaram ao pai o que ele havia feito em favor delas e rogaram-lhe que mostrasse o seu reconhecimento para com o estrangeiro, pelo auxílio que lhes prestara. Reuel louvou a gratidão das filhas e mandou chamar Moisés. E não se contentou em agradecer uma ação tão generosa, mas lhe deu Zípora, uma de suas filhas, em casamento e a superintendência de todos os seus rebanhos, no que consistia, então, a riqueza dessa nação.
90. Êxodo 3 e 4. Moisés morava então com o sogro e cuidava dos rebanhos deste. Um dia, levou-os a pastar no monte Sinai,* que é o mais alto de todos os da província, muito rica em pastagens. Isso porque&gt; aJém da fertilidade natural, os outros pastores lá não iam por causa da santidade do lugar, onde, dizia-se, Deus morava. E lá ele teve uma visão maravilhosa. Viu uma sarça ardente, de tal modo rodeada pelas chamas que parecia dever queimar-se, e no entanto nem as folhas, nem as flores e nem os ramos eram danificados.
Tal prodígio deixou-o atônito: nunca, porém, o medo foi maior do que quando ouviu sair do meio da sarça uma voz, que o chamou pelo nome e perguntou-lhe como se atrevera ir a um lugar santo, do qual nenhum outro antes se aproximara. Mandou-lhe que se afastasse da chama, não se deixando levar pela curiosidade, e se contentasse com o que merecera ver, sendo um digno sucessor da virtude de seus antepassados. A voz predisse-lhe, em seguida, a glória que ele deveria conquistar: com o auxílio que receberia de Deus, tornar-se-ia célebre entre os homens. Ordenou-lhe que voltasse sem temor para o Egito, a fim de libertar os hebreus de sua cruel escravidão. &quot;Pois&quot;, acrescentou a mesma voz, &quot;eles tornar-se-ão senhores do mesmo país rico em todas as espécies de bens que Abraão, o chefe de vossa raça, possuiu e serão devedores de tão grande felicidade à vossa sábia direção. Mas, depois que os tiverdes tirado do Egito, não deixeis de oferecer um sacrifício neste mesmo lugar&quot;.
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* Em diversas passagens da Bíblia, esse monte é chamado Horebe, onde Moisés promulgou a Lei. Muitos o confundem com o Sinai. Uma tradição local coloca o Horebe no pico Safsafe do maciço montanhoso e o Sinai em outro, mais elevado, a meio dia de distância. Mas alguns estudiosos sustentam, ao contrário, que Horebe é o verdadeiro nome de todo o maciço, enquanto o Sinai seria apenas uma denominação derivada do deus lunar Sim, venerado talvez nesse lugar. (N do E)

91. Moisés, ainda mais admirado pelo que acabava de ouvir do que pelo que tinha visto, disse: &quot;Grande Deus, do qual adoro a onipotência, que tantas vezes fizestes brilhar em favor de meus antepassados, eu não poderia, sem extrema loucura, desobedecer às vossas ordens. Mas como sou um simples homem, sem autoridade, temo não poder persuadir esse povo a abandonar um país onde se estabeleceu há tão longo tempo para seguir-me aonde eu o quiser levar. E, mesmo se os convencer, como poderei obrigar o rei a permitir que se retirem, sendo que o Egito deve ao trabalho deles a felicidade que agora desfruta?&quot;
Tendo Moisés assim falado, mandou-o Deus confiar na aliança, garantindo-lhe que não o abandonaria na direção daquele empreendimento e prometendo pôr-Ihe na boca as palavras, quando tivesse necessidade de persuadir e fosse preciso revesti-las com poder, quando fosse o momento de agir. Para dar-lhe uma prova, ordenou que ele lançasse na terra a vara que trazia na mão. Moisés obedeceu, e ela no mesmo instante transformou-se numa serpente, que se pôs a rastejar, movendo a cauda e levantando a cabeça, como para se defender ou como se a quisessem atacar. De repente a cobra desapareceu, e a vara voltou a ser o que era.
Em seguida, Deus ordenou a Moisés que pusesse a mão no seio. Ele o fez e retirou-a branca como a cal, mas imediatamente ela também voltou ao primitivo estado. Ordenou-lhe ainda que tirasse água de um lugar ali perto. Ele o fez, e a água converteu-se em sangue. E Deus, vendo que tais prodígios o deixavam atônito, disse-lhe que tomasse ânimo com a certeza de seu auxílio; que lhe confirmaria a missão com milagres semelhantes; e que partisse imediatamente, caminhando dia e noite, para ir libertar o seu povo, porque Ele não podia mais suportar os gemidos deles, em tão dura servidão.
Moisés, não podendo, depois do que acabava de ver e ouvir, duvidar mais do efeito das promessas divinas, rogou a Deus que, no Egito, lhe desse o mesmo poder de fazer aqueles milagres com que o favorecia naquele momento e acrescentasse à graça de ter-se dignado fazê-lo ouvir a sua voz a de lhe dizer o seu nome, a fim de que ele pudesse melhor invocá-lo quando lhe oferecesse um sacrifício. Deus concedeu-lhe esse favor, que jamais fizera a qualquer outro neste mundo, mas não me é permitido repetir esse nome. [Esse nome é Jeová.]
92. Moisés, certo do auxílio de Deus e do poder que Ele lhe dava para fazer milagres todas as vezes que julgasse necessário, concebeu grande esperança de libertar os hebreus e humilhar os egípcios. Soube nesse mesmo tempo da morte de Faraó, sob cujo reinado ele fugira do Egito. E assim, rogou a Reuel, seu sogro, que lhe permitisse voltar para lá, para o bem de sua nação. E não teve dificuldade em obter o consentimento.
Moisés pôs-se logo a caminho, com a sua mulher e com Gérson e Eliézer, seus filhos, dos quais o nome do primeiro significa &quot;peregrino&quot;, e o do segundo, &quot;auxílio de Deus&quot;, porque por meio daquele auxílio Deus o preservara das ciladas dos egípcios. Arão, seu irmão, veio, por ordem de Deus, encontrá-lo na fronteira do Egito, e Moisés narrou-lhe tudo o que acontecera no monte e as ordens que de Deus recebera. Os principais israelitas vieram também ter com ele e, para obrigá-los a crer em suas palavras, fez na presença deles, pelo poder que havia recebido, vários prodígios. O espanto que deles se apoderou certificou-os da verdade, e começaram a esperar tudo do auxílio de Deus.
93. Êxodo 5. Assim, vendo Moisés que o ardente desejo de se libertar da escravidão levava os hebreus a render-lhe inteira obediência, foi ter com o novo rei. Falou-lhe dos serviços que prestara ao seu antecessor contra os etíopes e de como fora recompensado: somente com ingratidão. Contou-lhe o que Deus lhe dissera no monte Sinai e os milagres que Ele havia feito para obrigá-lo a dar fé às suas promessas. Suplicou-lhe que não resistisse com incredulidade à vontade daquele soberano Senhor dos reis. Faraó, no entanto, zombou de suas palavras, e então Moisés fez em sua presença os mesmos prodígios que havia feito no monte Sinai.
Êxodo 7. O príncipe, em vez de ficar convencido, enfureceu-se. Disse que Moisés era mau e que depois de ter fugido, para evitar a escravidão, se havia feito iniciar na magia, a fim de enganá-lo por meio de artes diabólicas. Mas ele, Faraó, tinha também sacerdotes de sua fé, que poderiam fazer os mesmos prodígios. Assim, Moisés não devia se vangloriar de ser o único ao qual Deus concedera aquela graça e nem iludir o povo simples, persuadindo-o de que havia nele algo divino. E mandou buscar os seus sacerdotes. Eles lançaram as suas varas ao chão, e estas se converteram em serpentes.
Moisés, sem se espantar, respondeu ao rei: &quot;Eu não desprezo, majestade, a ciência dos egípcios, mas o que faço está tão acima dos conhecimentos deles e de sua magia quanto a distância entre as coisas divinas e as humanas, e vou mostrar claramente que os milagres que faço não têm, como os deles, uma vã aparência de verdade, para enganar os simples e os crédulos, mas procedem da virtude e do poder de Deus&quot;. Dizendo essas palavras, atirou a vara ao chão e ordenou-lhe que se mudasse em serpente. Ela obedeceu à sua voz e devorou as dos egípcios, que pareciam ser outras tantas serpentes. Voltou em seguida à sua forma primitiva e Moisés a retomou na mão.
O rei, em vez de admirar tão grande maravilha, irritou-se ainda mais e, depois de ter dito a Moisés que a sua ciência e os seus artifícios ser-lhe-iam inúteis, ordenou ao que tinha a direção das obras confiadas aos israelitas que as aumentasse ainda mais. Assim, esse indivíduo mandou retirar a palha que costumava fornecer para os tijolos, de modo que, depois de ter labutado durante todo o dia, tinham de ir procurá-la durante a noite, o que lhes dobrava o trabalho [Êx 5].
Moisés, sem se incomodar com as ameaças do rei nem se comover com as queixas contínuas dos hebreus, que diziam que todos os esforços dele só estavam servindo para fazê-los sofrer ainda mais, continuou firme no cumprimento de sua missão. E, como a havia empreendido por um ardente desejo de libertá-los, deliberou consegui-la, contra a vontade do rei e contra a opinião deles mesmos.
Voltou então a falar ao príncipe, para pedir que os hebreus fossem ao monte Sinai oferecer um sacrifício a Deus, como Ele o havia ordenado. Disse que Faraó não se devia opor à vontade do céu, mas que, enquanto Deus lhe era ainda favorável, o seu próprio interesse o obrigava a conceder àquele povo a liberdade que lhe pedia. Se ele se recusasse, só poderia depois acusar a si mesmo de ser a causa da própria desgraça, pois atrairia sobre si, por sua desobediência, toda sorte de castigos: ver-se-ia sem filhos; o ar, a terra e todos os outros elementos ser-lhe-iam contrários e tornar-se-iam ministros da vingança divina; e, por fim, os hebreus não deixariam de sair de seu reino, ainda que ele não o quisesse consentir, e os egípcios não evitariam o castigo de sua obstinação.
94. As palavras de Moisés não fizeram impressão no espírito do rei, e os egípcios foram amargurados por toda espécie de males. Narrá-los-ei em particular, tanto porque são extraordinários quanto para fazer conhecer a verdade do que Moisés havia predito e também para manifestar aos homens quanto lhes importa não irritar a Deus, que pode punir os pecados com tão terríveis castigos.
Êxodo 7. A água do Nilo foi mudada em sangue, e, como o Egito não possui fontes, o povo descobriu que a sede é o maior de todos os males. A água do rio não somente adquirira a cor do sangue, mas o povo não conseguia bebê-la sem sentir dores violentas. Os israelitas, ao contrário, a achavam tão potável e boa quanto a comum. O rei, admirado por esse prodígio e temendo por seus súditos, permitiu aos hebreus que se retirassem. Não havia, porém, o mal cessado de todo, e ele retomou aos antigos sentimentos: revogou a ordem e a licença. Deus, para castigá-lo por ter reconhecido tão mal a graça que fizera a ele, livrando-o daquele flagelo, feriu o Egito com uma nova praga.
Êxodo 8e9. Um número incalculável de rãs cobriu a terra, e comiam tudo o que ela produzia. O Nilo ficou também cheio delas, e uma parte, que morreu nas águas do rio, tornou-o infecto, de tal sorte que não mais se podia beber da sua água. Também o lodo dos campos produziu uma quantidade enorme desses animais, que com a decomposição formaram outro pantanal, ainda mais horrível que o primeiro. As rãs entravam até nas casas, nas vasilhas, nos pratos, estragavam todos os alimentos, pulavam sobre as camas e envenenavam o ar com o mau cheiro. O rei, vendo o seu país em tal miséria, ordenou a Moisés que partisse para onde quisesse, com todos os de sua nação. Imediatamente todas as rãs desapareceram, e as terras e os rios voltaram ao seu estado primitivo. O rei então esqueceu o mal que tanto temor lhe havia causado e, como se quisesse experimentar males ainda maiores, revogou a licença que de mau grado concedera.
Deus então castigou-o por ter faltado à palavra, coisa indigna de um príncipe, e os egípcios ficaram todos cheios de piolhos, em tal quantidade que eram miseravelmente comidos por eles, sem que pudessem encontrar remédio algum para isso. Esse tão grande e tão vergonhoso mal espantou o rei e ele permitiu aos hebreus que partissem. Mas, apenas cessou o mal, ele determinou que as mulheres e os filhos dos hebreus ficassem como reféns.
Percebendo Deus que o rei estava convencido de que era capaz de afastar qualquer tempestade que desabasse para destruir o seu reino, como se fosse Moisés, e não Ele, quem castigava a ele e ao seu povo por causa da cruel perseguição movida contra os hebreus, enviou sobre o Egito uma imensa multidão de diversas espécies de pequenos animais, até então desconhecidos. A terra ficou totalmente coberta deles, e era impossível cultivá-la. Muitas pessoas vieram a morrer. As que sobreviviam eram contaminadas pelo veneno deles, que causava outros tantos males, doenças e até mesmo a morte. Mas nem isso foi suficiente para levar o rei a uma inteira obediência à vontade de Deus. Ele contentou-se em permitir às mulheres que fossem com os maridos, ordenando que os filhos ficassem.
A grande obstinação desse príncipe em resistir às ordens de Deus atraiu sobre os seus súditos, por causa dele, outros males ainda maiores que os precedentes. Todos foram cobertos de chagas e úlceras, e muitos morreram miseravelmente. Tão terrível flagelo, porém, não foi capaz de tocar o coração de Faraó, e Deus feriu o Egito com uma praga de que nunca se havia falado. Fez cair uma chuva de granizo tão forte e espessa e de tamanho tão grande que nunca se vira semelhante, nem mesmo nos países que a isso estão sujeitos, e estava-se, no entanto, muito antes da primavera. A chuva estragou todos os frutos. Depois veio uma nuvem de gafanhotos, que destruiu o que restava, de sorte que os egípcios perderam qualquer esperança de obter alguma colheita.
Se o rei tivesse apenas falta de inteligência, não teriam tantos males juntos feito com que caísse em si mesmo, para dar-lhe remédio? Mas bem que ele lhes compreendeu o motivo, e a sua malícia foi tão grande que continuou a se opor à vontade de Deus, como se lhe pudesse resistir, e nem mesmo a consideração de salvar o seu próprio povo, que ele via perecer diante de seus olhos, foi capaz de contê-lo. Assim, ele contentou-se em permitira Moisés levar os israelitas com as suas esposas e filhos, mas com a condição de deixarem todos os seus bens aos egípcios, para compensar as perdas que haviam sofrido. Moisés fez-lhe ver que aquela proposta não era justa, pois seria pôr os hebreus na impossibilidade de oferecer sacrifícios.
Êxodo 10, 11 e 12. Enquanto o tempo se passava nessas altercações, os egípcios foram envolvidos por trevas espessas, e, não tendo a menor claridade para se guiar, muitos pereceram de diversas maneiras, enquanto outros temiam semelhante infelicidade. As trevas duraram três dias e três noites, sem que Faraó se decidisse deixar sair os israelitas. Depois que elas se dissiparam, Moisés foi ter com ele e disse-lhe: &quot;Até quando, majestade, resistireis à vontade de Deus? Ele vos ordena que deixeis sair os hebreus, e não tendes outro meio de vos livrardes de tantos flagelos que vos atormentam&quot;. O rei, fora de si pela cólera, ameaçou mandar cortar-lhe a cabeça se ousasse continuar a falar ao rei daquele modo. Moisés então respondeu que, de fato, não lhe falaria novamente. Estava certo de que o próprio rei e os principais de seu reino lhe pediriam que se retirasse com os israelitas.
Deus, irritado pela resistência de Faraó, decidiu ferir os egípcios com mais uma praga, que certamente os obrigaria a deixar sair o povo. Ele determinou que Moisés preparasse os israelitas para oferecer-lhe um sacrifício no décimo terceiro dia do mês que os egípcios chamam farmute, os hebreus, nisã, e os macedônios, xântico, e que se conservassem prontos para a partida e levassem consigo todos os bens que possuíam. Moisés obedeceu e reuniu-os, distribuindo-os por grupos e companhias.
Ao raiar do décimo quarto dia, como Deus havia marcado, começaram a oferecer o sacrifício: purificaram as suas casas, lançando-lhes sangue com um ramalhete de hissopo, e depois de terem ceado queimaram tudo o que havia restado do alimento, estando prontos para partir. Nós observamos ainda esse costume e damos à festa o nome de Páscoa, isto é, &quot;passagem&quot;, porque foi nessa noite que Deus, passando pelos israelitas sem lhes causar mal algum, feriu os egípcios com esta grande praga: todos os primogênitos morreram. Tão grande e geral aflição fez correr o povo em massa ao palácio do rei, para suplicar-lhe que deixasse sair os hebreus.
95. Assim, não podendo mais resistir, o rei deu a permissão a Moisés, na certeza de que apenas os hebreus tivessem partido terminariam os males que atormentavam o Egito. Os próprios egípcios deram-lhes presentes, uns pelo desejo de os ver bem longe, outros pelo costume da terra, testemunhando até com lágrimas que estavam arrependidos dos maus-tratos que lhes haviam infligido.
Os israelitas partiram pela cidade de Leté, que então estava deserta e onde Cambises, quando depois devastou o Egito, construiu outra cidade, a que chamou Babilônia. Dali caminharam para Baal-Zefom, cidade que está à beira do mar Vermelho. Como o lugar era muito deserto e nada tinham para comer, misturaram farinha com água, amassaram como puderam e a puseram ao fogo, alimentando-se assim durante trinta dias. No fim desse tempo, todavia, a farinha lhes veio a faltar, embora tivessem economizado bastante. É em memória dessa necessidade pela qual passaram que celebramos ainda hoje, durante oito dias, uma festa que chamamos dos Asmos, isto é, de pão sem fermento. A multidão do povo podia-se dizer inumerável, pois além das mulheres e das crianças, havia seiscentos mil homens capazes de pegar em armas.

CAPÍTULO 6
OS EGÍPCIOS PERSEGUEM OS ISRAELITAS COM UM NUMEROSO EXÉRCITO E
OS ALCANÇAM ÀS MARGENS DO MAR VERMELHO. MOISÉS IMPLORA,
NESSE PERIGO, O AUXÍLIO DE DEUS.

96. Êxodo 12. Os israelitas saíram do Egito no mês xântico, ou nisã, a dias quinze da lua, quatrocentos e trinta anos após Abraão, nosso pai, ter vindo à terra de Canaã e duzentos e quinze anos* depois que Jacó ter chegado ao Egito. Moisés tinha então oitenta anos, e Arão, seu irmão, oitenta e três. Eles levaram consigo os ossos de José, como este havia determinado.
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* O artigo 85 diz quatrocentos anos.

97. Êxodo 14. Nem bem haviam saído os hebreus, os egípcios arrependeram-se de os ter deixado partir. O rei ficou mais arrependido que todos os outros, porque considerava Moisés um mago e estava certo de que todas as pragas que o Egito sofrerá eram efeitos de sua magia. Por isso ordenou que se tomassem as armas, para persegui-los e obrigá-los a voltar, se ainda fosse possível alcançá-los. Agia assim porque pensava não estar com isso se opondo à vontade de Deus, pois eles se haviam retirado sob a licença que ele mesmo concedera. Imaginava ainda que não teria dificuldades para vencer homens cansados e desarmados.
Assim, os egípcios os perseguiram, passando por caminhos difíceis e ásperos, que Moisés escolhera de propósito, tanto para fazê-los sofrer o castigo pela violação da palavra, se se arrependessem de os ter deixado partir e os perseguissem, quanto para impedir que os filisteus, vizinhos dos egípcios e inimigos dos hebreus, fossem avisados de sua saída. Quis também deixar o caminho comum que leva à Palestina e tomar o do deserto, embora mais difícil, para ir oferecer sacrifício a Deus sobre o monte Sinai, segundo a ordem que dEle havia recebido, e então tomar posse da terra de Canaã.
98. Ao chegar às margens do mar Vermelho, os hebreus viram-se rodeados de todos os lados pelo exército dos egípcios, composto de seiscentos carros de guerra, cinqüenta mil cavaleiros e duzentos mil homens de infantaria bem armados, não lhes sendo possível escapar, porque o mar os cercava de um lado e uma montanha inacessível, com rochedos que se estendiam pela praia, de outro. Eles tampouco podiam combater, porque não tinham armas, nem resistir a um cerco, porque haviam consumido todos os víveres. Assim, nada mais lhes restava para salvar a vida senão entregar-se nas mãos dos inimigos.
Esse tão grave perigo fê-los esquecer os muitos prodígios que Deus fizera para colocá-los em liberdade. Acusaram Moisés pela sua infelicidade, e a sua incredulidade cresceu tanto que, quando ele os quis certificar da proteção de Deus, tentaram apedrejá-lo e voltar voluntariamente à antiga escravidão. Isso porque, além da própria incerteza, os homens estavam atônitos com os gritos e lágrimas de suas mulheres e filhos, e a dor de se encontrar em tal extremo levava-os ao desespero.
99.  Moisés, sem se admirar de ver a grande multidão acirrada contra ele, permaneceu firme no propósito de levar a cabo a sua incumbência. Não podia conceber que Deus, após ter realizado tantos milagres para lhes dar a liberdade, fosse permitir que morressem ou que voltassem a cair nas mãos dos inimigos. E, para dar-lhes coragem e despertar neles as esperanças, assim falou: &quot;Embora seja a um homem que deveis o favor de vos ter conduzido até aqui de maneira tão admirável, poderíeis duvidar da continuação do seu auxílio? Se o mesmo Deus quis ser o vosso guia, é loucura não quererdes confiar na sua proteção para o futuro depois de terdes visto a realização das promessas que vos fiz de sua parte, quando mesmo não teríeis ousado esperá-lo. Acaso não é nos maiores perigos que se faz necessário confiar no seu auxílio? Ele permitiu, sem dúvida, que vos encontrásseis reduzidos a este estado, a fim de que, julgando-vos perdidos, os inimigos se convençam de que não podereis escapar. Assim, o, auxílio que Ele vos der fará conhecer a todos não somente o seu poder, ao qual nada resiste, mas também o afeto que vos dedica. Pois é principalmente nessas ocasiões que se compraz em fazer ver que combate por aqueles que esperam somente nEle. Deixai, portanto, as dúvidas e hesitações, pois Ele quer ser o vosso defensor e pode tornar grande o que é pequeno e fortificar o que é fraco. Que esse formidável exército, por maior que seja, não vos espante, e, embora rodeados de um lado por montanhas e de outro pelo mar, não deveis perder a coragem, pois Deus pode, quando lhe aprouver, secar o mar e abaixar as montanhas&quot;.

CAPÍTULO 7
OS ISRAELITAS PASSAM O MAR VERMELHO A PÉ ENXUTO. O EXÉRCITO DOS EGÍPCIOS, QUERENDO PERSEGUI-LOS, NELE PERECE COMPLETAMENTE.

100. Depois de assim falar, Moisés conduziu os israelitas pelo mar à vista dos egípcios, que, por estarem cansados da viagem, haviam adiado o combate para o dia seguinte. Quando chegou à beira do mar, tendo na mão a vara com a qual fizera tantos milagres, implorou o socorro de Deus e fez esta ardentíssima oração: &quot;Vós vedes, Senhor, que é humanamente impossível, quer pela força, quer pela astúcia, escapar de um perigo tão grande como este em que agora nos encontramos. Somente vós podereis salvar este povo, que saiu do Egito apenas para vos obedecer. A nossa única esperança está em vosso auxílio. Somente vós podeis ser o nosso refúgio em tão extrema conjuntura. E podeis, se quiserdes, defender-nos contra o furor dos egípcios. Apressai-vos, pois, Deus Todo-podero-so, em estender o vosso braço em nosso favor e erguei o ânimo e a esperança de vosso povo, que se encontra em desalento e desespero. Este mar e estes rochedos que nos cercam e se opõem à nossa passagem são obra de vossas mãos. Ordenai, apenas, Senhor, e obedecerão à vossa ordem, e podeis até mesmo, se quiserdes, fazer-nos voar pelos ares&quot;.
Esse admirável guia do povo de Deus, depois de encerrar a sua oração, tocou o mar com a sua maravilhosa vara, e no mesmo instante este se dividiu, para deixar os hebreus passar livremente, atravessando-o a pé enxuto, como se estivessem andando em terra firme. Moisés, ao ver essa manifestação do auxílio divino, entrou por primeiro no espaço aberto e ordenou aos israelitas que o seguissem por aquele caminho que o Todo-poderoso, contra a ordem da natureza, lhes providenciara e que a Ele rendessem graças tanto mais fervorosas quanto podia passar por incrível o meio de que se servia para livrá-los.
Os hebreus, não podendo mais, no momento, duvidar da assistência de Deus, tão visível, apressaram-se em seguir Moisés. Os egípcios, ao contrário, julgaram primeiro que o medo lhes havia perturbado a inteligência, levando-os a se precipitar daquele modo num perigo tão evidente e numa morte inevitável. Mas quando os viram avançar sem obstáculo algum e que nenhum mal lhes sucedia, perseguiram-nos com ardor, na certeza de que um caminho tão estranho não seria menos seguro para eles do que para aqueles que nele viam andar sem nenhum temor.
A cavalaria entrou por primeiro. Seguiu-a todo o resto do exército, e, como haviam empregado muito tempo para se preparar e tomar as armas, os israelitas chegaram ao outro lado do mar antes de serem alcançados. Isso deu aos egípcios a inteira certeza de que também chegariam em segurança. Mas estavam enganados, pois não sabiam que Deus havia preparado aquele caminho somente para o seu povo, e não para os perseguidores. Assim, depois de todos os egípcios haverem entrado no espaço aberto entre as águas do mar, estas reuniram-se num instante e os sepultaram todos, envolvendo-os em suas ondas.
O vento juntou-se às vagas para aumentar a tempestade: grande chuva caiu dos céus. Os relâmpagos misturaram-se com o ribombo do trovão, os raios seguiam-se aos trovões e, para que não faltasse nenhum sinal dos mais severos castigos de Deus, na sua justa cólera para punir os homens, uma noite sombria e tenebrosa cobriu a superfície do mar, de modo que de todo esse exército tão temível não restou um único homem que pudesse levar ao Egito a notícia da horrível catástrofe.
101. Ninguém poderia calcular a alegria dos israelitas, por se verem salvos, contra toda esperança, pelo poderoso auxílio de Deus, e por terem garantida a liberdade, depois da morte inesperada daqueles que pretendiam submetê-los a nova escravidão. Passaram toda a noite em agradecimentos, e Moisés compôs um cântico para dar a Deus graças infinitas por um favor tão marcante.
Narrei aqui tudo em particular, segundo o que encontrei escrito nos Livros Santos. Ninguém deve considerar como coisa impossível que homens que viviam na inocência e na simplicidade desses primeiros tempos tivessem encontrado, para se salvar, uma passagem no mar, quer se tenha ela aberto por si mesma, quer tenha acontecido pela vontade de Deus, pois a mesma coisa aconteceu algum tempo depois aos macedônios, quando passaram o mar da Panfília, sob o comando de Alexandre, e quando Deus se quis servir dessa nação para destruir o império dos persas, como o narram os historiadores que escreveram a vida desse príncipe. Deixo, no entanto, a cada qual que julgue como quiser.
102. No dia seguinte a essa memorável jornada, os ventos e as ondas impeliram as armas dos egípcios para a praia onde os israelitas estavam acampados. Moisés atribuiu o fato a uma ação particular de Deus, que assim lhes dava ocasião de se armar. Distribuiu-lhes todas as armas e, para obedecer à ordem de Deus, levou-os para o monte Sinai, a fim de oferecer a Ele um sacrifício e presentes, como sinal de gratidão pela milagrosa salvação que lhes concedera.

Livro Terceiro

CAPÍTULO 1
OS ISRAELITAS, OPRIMIDOS PELA FOME E PELA SEDE, QUEREM APEDREJAR
MOISÉS. DEUS TORNA DOCES AS ÁGUAS QUE ERAM AMARGAS, ENVIA AO
CAMPO CODORNIZES E MANÁ E FAZ BROTAR DA ROCHA UMA FONTE DE
ÁGUA VIVA.

103.  A alegria que sentiram os israelitas por se verem livres, pelo poderoso auxílio de Deus, quando menos o esperavam, foi perturbada pelas grandes dificuldades que encontraram a caminho do monte Sinai, pois essa região era deserta, e a terra, muito seca e estéril, porque não tinha água. Assim, não somente os homens, mas os próprios animais não encontravam água para beber. Dessa forma, quando terminaram as provisões que haviam levado, por ordem de Moisés, foram obrigados a cavar poços — com grande dificuldade, por causa da dureza da terra. No entanto encontraram tão pouca água que não lhes era suficiente, e era de tão mau sabor que não a podiam beber.
104.  Depois de andar tanto tempo, chegaram certa tarde a um lugar chamado Amargo, por causa do amargor das águas. Tinham falta de víveres, mas, como estavam muitíssimos fatigados, ali se detiveram de boa mente, porque encontraram um poço, o qual, embora não fosse suficiente para tão grande multidão, dava-lhes a esperança de poder aliviar um pouco as suas necessidades e porque lhes haviam dito que não mais encontrariam água em todo o resto do caminho. Mas a água era tão amarga que nem os homens, nem os cavalos e nem os outros animais a puderam beber.
Esse fato tão lastimável causou desânimo ao povo e grande sofrimento a Moisés, porque os inimigos que precisavam combater não eram dos que se podem debelar com uma valorosa resistência: a fome e a sede sozinhos reduziram aquela multidão de homens, mulheres e crianças ao último extremo da vida. Moisés não sabia que deliberação tomar e sentia também os sofrimentos dos outros como se fossem seus próprios, porque todos recorriam a ele. As mães pediam que tivesse pena das crianças, os maridos, que tivesse compaixão das esposas e cada qual rogava-lhe que procurasse uma solução para tão grande mal.
Em tão premente necessidade, dirigiu-se a Deus para obter de sua bondade que tornasse doces as águas que eram amargas. E Ele deu a conhecer que lhe concedia aquela graça. Moisés tomou então um pedaço de madeira, que partiu em dois, e, depois de os haver lançado ao poço, disse ao povo que Deus escutara a prece deles e tirava daquela água tudo o que nela existia de ruim, contanto que fizessem o que lhes determinava. Perguntaram o que precisavam fazer, e ele ordenou aos mais robustos que tirassem uma grande porção de água do poço, garantindo-lhes que a que lá ficasse seria boa para beber. Eles obedeceram e tiveram em seguida a realização da promessa que lhes fora feita.
105. Êxodo 16. Partindo desse acampamento, chegaram a um lugar de nome Elim, que de longe lhes parecera bastante vantajoso, porque avistavam palmeiras. Delas, porém, lá encontraram apenas umas setenta, e ainda muito pequenas e pouco carregadas de frutos, por causa da esterilidade da terra. Encontraram também umas doze fontes, mas tão reduzidas que, em vez de correr, apenas destilavam. Fizeram pequenos regos para recolher a água, mas quando cavavam as fontes encontravam lama em lugar de areia e quase nada de água. A grande sede que o povo sofria, bem como a falta de víveres, que foram consumidos em trinta dias, causou-lhes tal desespero que esqueceram todos os favores de que eram devedores a Deus e o auxílio que haviam recebido de Moisés. Acusaram-no com grande clamor de ser a causa de todos os seus males e tomaram pedras para apedrejá-lo.
Esse homem extraordinário, ao qual a consciência nada reprovava, não se admirou por vê-los tão exaltados contra ele, mas, confiando em Deus, apresentou-se a eles com um semblante em que a majestade de Deus imprimia respeito e disse-lhes, com aquela maneira de falar que lhe era habitual e tão própria para persuadir, que não deviam, pelo que estavam sofrendo, esquecer as obrigações que deviam a Deus, mas, ao contrário, tivessem diante dos olhos as tantas graças e favores com que Ele os havia cumulado, quando menos os podiam esperar de sua bondade, e a continuação de seu auxílio; que havia mesmo motivo para crer que Ele permitira que fossem reduzidos a tal extremo a fim de experimentar-lhes a paciência e a gratidão e saber qual dos dois fazia mais impressão em seu espírito: se a tristeza dos males psesentes, se o ressentimento pelos bens passados; que, havendo saído do Egito por ordem de Deus, deviam precaver-se para não se tornarem indignos de seu auxílio, pela ingratidão e pelas murmurações; que não evitariam cair naquele pecado se desprezassem as ordens dEle ou o ministro de sua vontade, e nisso seriam tanto mais culpados, pois não tinham motivo algum para se queixar de que ele os enganara, pois sempre cumprira pontualmente o que lhe havia sido ordenado.
Falou-lhes em seguida sobre as pragas com que Deus ferira o Egito, quando os egípcios procuravam retê-los, contra a vontade dEle: como as águas do Nilo, mudadas em sangue para os inimigos e tão infectadas que estes não a podiam beber, fora conservada para eles com a sua qualidade usual; como o mar, tendo-se dividido em dois, para favorecer-lhes a retirada, permitiu-lhes chegar em segurança ao outro lado, enquanto os seus inimigos, querendo persegui-los pelo mesmo caminho, foram sepultados pelas ondas; como, encontrando-se sem armas, Deus as concedeu em abundância; enfim, como, por meio de diversos milagres, Ele os retirara tantas vezes dos braços da morte.
Assim, se Ele se mostrara sempre tão poderoso, eles não deviam desesperar de seu auxílio, mas suportar pacientemente tudo o que permitia lhes acontecesse e não considerar a sua ajuda como demorada, não ocorrendo tão prontamente como desejavam. Não deviam também imaginar que Deus os abandonara no estado em que se encontravam, e sim persuadir-se de que Ele queria experimentar a confiança e o amor deles pela liberdade e saber se a estimavam o suficiente para conquistá-la pela fome e pela sede ou se preferiam o jugo de vergonhosa servidão, que os submeteria a senhores que os alimentariam como animais para deles obter apenas o trabalho. Quanto a ele, nada temia por si mesmo, pois a morte que sofreria injustamente não lhe poderia ser desvantajosa. Mas temia por eles, porque não lhes poderiam tirar a vida sem condenar o proceder de Deus e desprezar os seus mandamentos.
106. Essas palavras fizeram-nos refletir, e as pedras caíram-lhes das mãos. Arrependeram-se do crime que queriam cometer, e Moisés, considerando que não era sem razão que o povo se rebelara, mas que a necessidade os havia levado a isso, julgou dever implorar por eles o auxílio de Deus. Subiu uma colina para rogar-lhe que tivesse compaixão de seu povo, o qual não podia esperar outro auxílio, senão somente o dEle, e lhes perdoasse a falta que a fraqueza humana, em tal conjuntura, os levara a cometer. Deus prometeu atendê-lo e dar-lhes auxílio imediato.
Depois de uma resposta tão favorável, Moisés foi procurar o povo, o qual, julgando pelo brilho que transparecia em seu rosto que Deus havia escutado a oração, passou imediatamente da tristeza para a alegria. Moisés declarou que lhes anunciava da parte de Deus a salvação e o término de seus males. Logo depois, uma grande multidão de codornizes, aves muito comuns no estreito da Arábia, atravessou esse braço de mar. Cansadas de voar, caíram no acampamento dos hebreus. Lançaram-se então sobre as aves, o alimento que lhes era mandado por Deus em tão urgente necessidade, e Moisés agradeceu-lhe por ter cumprido tão prontamente o que lhe fora grato prometer.
107. Essa graça, porém, não veio sozinha. A infinita bondade de Deus acrescentou-lhe uma segunda. Moisés orava com os braços levantados para o céu, quando começou a cair uma espécie de orvalho, que engrossava à medida que descia. Moisés julgou que bem poderia ser outro alimento que Deus lhes mandava também, provou-o e achou-o excelente. Dirigindo-se então ao povo, que pensava ser neve o que acabava de cair, pois era a estação própria, declarou que aquilo não era orvalho comum, mas um novo alimento proveniente da liberalidade divina. Comeu-o em seguida diante deles, para melhor persuadi-los do que dizia. Todos o experimentaram depois e perceberam que tinha o gosto do mel, a forma da goma que se tira de árvore semelhante à oliveira e o tamanho de um grão de coentro.
Todos ajuntaram-no, e Moisés ordenou-lhes que recolhessem apenas o suficiente para cada dia, isto é, uma medida certa, de nome gômer. Asseverou, ao mesmo tempo, que aquele alimento não lhes haveria de faltar, querendo, com a proibição, pôr limites à avareza dos mais fortes, que teriam impedido os mais fracos de ajuntar o necessário. Com efeito, se alguém, contra a ordem de Deus, recolhia mais que o permitido, inútil tornava-se o trabalho, porque o alimento, guardado para o dia seguinte, ficava amargo, estragado e cheio de bichos. E assim, era verdade que havia nesse alimento algo de sobrenatural e divino. Tinha ainda isto de extraordinário: aqueles que o comiam achavam-no tão delicioso que não queriam outro. Cai ainda hoje naqueles lugares orvalho semelhante a esse, que então prouve a Deus mandar, em favor de Moisés. Os hebreus chamaram-no maná, que em nossa língua corresponde a uma espécie de interrogação, como quem diz: &quot;Que é isto?&quot; Mas popularmente o chamaram maná. Receberam-no, pois, com grande alegria, como vindo do céu, e com ele alimentaram-se durante quarenta anos, enquanto viveram no deserto.
108.  O acampamento avançou depois para Refidim. Ali tiveram muita sede, pois constataram que a região era ainda mais carente de água que a de onde vinham. Assim, recomeçaram as murmurações contra Moisés. Ele retirou-se, para evitar aquele primeiro furor, e recorreu mais uma vez a Deus, para rogar-lhe que, depois de ter dado ao povo o alimento com que matasse a fome, lhe desse também a água com que o desalterasse, pois um sem a outra era inútil. Deus não se demorou em ouvir a oração e prometeu dar-lhes uma fonte muito abundante, fazendo-a brotar de um lugar de onde menos o teriam esperado. Mandou que batesse num rochedo com a vara, na presença de todos, prometendo dali fazer sair água, porque desejava obsequiá-la ao povo sem que tivessem o menor trabalho em procurá-la.
Moisés, consciente da promessa, foi ter com o povo, que o viu descer do lugar elevado onde fizera a sua oração e o esperava com grande impaciência. Ele disse-lhes que Deus queria tirá-los, contra a esperança deles, do aperto em que se encontravam. Para isso, faria brotar uma fonte de água da rocha. Essas palavras os deixaram atônitos, porque julgavam que precisariam parti-la, e a sede e o cansaço da viagem os havia enfraquecido tanto que mal podiam estar de pé. Moisés, porém, feriu o rochedo com a vara. No mesmo instante, a rocha dividiu-se em duas e dela brotou grande abundância de água cristalina. A surpresa não foi menor que a alegria. Beberam todos com prazer e acharam que tinha doçura muito agradável, sendo deveras água milagrosa, um presente das mãos de Deus. Então ofereceram-lhe sacrifícios em ação de graças por tão grande benefício e conceberam grande veneração por Moisés, que era tão querido dEle. A Sagrada Escritura dá testemunho desta promessa feita por Deus a Moisés: que de um rochedo brotaria água.


CAPÍTULO 2
OS AMALEQUITAS DECLARAM GUERRA AOS HEBREUS, QUE OBTÊM SOBRE
AQUELES GRANDE VITÓRIA, SOB O COMANDO DE JOSUÉ, EM CUMPRIMENTO
ÀS ORDENS DE MOISÉS E POR EFEITO DAS ORAÇÕES DESTE. CHEGAM AO
MONTE SINAI.

109. Êxodo 17. A fama dos hebreus, que se espalhava por toda parte, lançou o temor no espírito dos povos vizinhos, os quais, de comum acordo, deliberaram expulsá-los e até, se possível, exterminá-los completamente. Sendo os amalequitas, que estavam em Edom e na cidade de Petra, sob o governo de diversos reis, os mais valentes e também os mais animados para essa guerra, enviaram embaixadores às nações mais próximas, pedindo que também nela tomassem parte. Advertiram-nos de que, embora aqueles estrangeiros que se aproximavam de seu país em tão grande número fossem fugitivos, evadidos do Egito para livrar-se da escravidão, não deviam ser menosprezados: era preciso atacá-los antes que se fortalecessem mais e, tomados de orgulho por terem sido deixados tranqüilos, primeiro lhes declarassem guerra. A prudência exigia que logo se fizesse oposição a esse poder nascente e que fossem esses inimigos atacados no deserto, antes que se tornassem temíveis pela conquista de riqueza e de poderosas cidades, pois é mais fácil evitar o perigo por sábia previdência que escapar dele depois haver caído. Essas razões os convenceram, e resolveram, de comum acordo, marchar contra os israelitas.
Moisés, que jamais imaginava ter de se empenhar numa guerra, vendo os hebreus espantados com tão imprevisto perigo, pela necessidade de combater inimigos tão aguerridos e providos de todos os recursos necessários, dos quais o seu povo estava destituído, exortou-os a confiar em Deus, pois era por ordem e com o auxílio dEle que haviam preferido a liberdade à escravidão e vencido tudo o que se opusera à sua retirada.
Aconselhou-os a pensar apenas em vencer, sem imaginar que a abundância que tinham os inimigos de todas as coisas necessárias para a guerra significasse alguma vantagem, pois, tendo Deus do seu lado, não poderiam duvidar de que sobrepujariam os adversários em tudo, depois de terem experimentado a força invencível do auxílio divino em ocasiões mais perigosas que a mesma guerra, pois na guerra o combate é contra homens. Deviam lembrar que, estando cercados pelo mar e por montanhas, às vezes prestes a morrer de fome e de sede, Deus lhes abrira caminho através das águas e os livrara por vários milagres dos extremos com que se depararam. Por fim, acrescentou que deviam combater corajosamente, pois se vencessem encontrar-se-iam em feliz abundância de todas as espécies de bens.
Depois de animá-los com essas palavras, reuniu os chefes e os principais dos israelitas e falou-lhes ainda em geral e em particular, recomendando aos moços que obedecessem aos mais velhos e a estes que executassem rigorosamente as ordens do general. Assim, havendo esse admirável guia do povo de Deus animado o povo com a esperança de um feliz êxito e de que aquele combate poria termo a todos os seus dissabores, eles conceberam tal desejo de lutar que pediram para ser levados logo ao campo de batalha a fim de atacarem os inimigos, de modo que o seu ardor não esfriasse pela demora, o que só lhes seria prejudicial.
Ele escolheu, de toda aquela multidão, os que julgou mais capazes para o combate e deu-lhes Josué por general. Este era filho de Num, da tribo de Efraim, homem de grande mérito, pois era não menos judicioso que valente, eloqüente e infatigável no trabalho. A piedade na qual Moisés o havia educado fazia-o distinguir-se dos demais. Moisés ordenou em seguida que algumas tropas guardassem os lugares de onde tiravam água, para impedir que os inimigos deles se apoderassem, e deixou outros em maior número para a guarda do acampamento, das mulheres e das crianças, bem como da bagagem.
Depois de haver assim disposto todas as coisas, os israelitas passaram a noite toda em armas, esperando apenas o sinal combinado com o seu general e a ordem do oficial para atacar os inimigos. Moisés também passou a noite inteira acordado, instruindo Josué sobre o que fazer naquela jornada. Quando raiou o dia, exortou-o a esforçar-se para corresponder por meio de suas ações à esperança que se depositava nele e a conquistar por feliz êxito a estima dos soldados. Falou também em particular aos principais chefes e em geral a todo o exército, instigando-os a bem cumprirem cada um o seu dever. Depois de dar-lhes todas essas ordens, recomendou-os a Deus e ao comando de Josué e retirou-se para o monte.
Logo depois, os dois exércitos chocaram-se com extremo ardor de parte a parte, e, como os chefes tudo haviam feito para animá-los, o combate foi muito acirrado. Moisés, por sua vez, combatia com orações. Notando que quando as suas mãos estavam erguidas para o céu os seus levavam a melhor e quando, ao invés, o cansaço o obrigava a baixá-las os amalequitas levavam vantagem, rogou a Arão, seu irmão, que sustentasse um de seus braços e a Hur, seu cunhado, que desposara Miriã, sua irmã, que sustentasse o outro. Assim, os israelitas foram plenamente vitoriosos. E não teria ficado um só dentre os amalequitas se a noite, que sobreveio, não tivesse dado a uma parte destes ocasião de se salvarem no meio das trevas.
Nossos antepassados jamais conquistaram vitória mais célebre ou mais vantajosa, pois, além da glória de terem vencido tão poderosos inimigos e lançado o terror no coração de todos os povos vizinhos, aos quais depois foram sempre temíveis, tornaram-se senhores do acampamento dos amalequitas e conquistaram, tanto em geral como em particular, tão ricos despojos que passaram da penúria em que se encontravam, com carência de todas as coisas, à extrema abundância. Isso porque obtiveram grande quantidade de ouro e prata, vasos de cobre próprios para vários usos, armas — com todos os pertences de que era costume usar na guerra, tanto para ornamento quanto para combate ----, cavalos e todas as, coisas de qije os «xércttos precisam.
110.  Eis qual foi o fim desse combate: ele exaltou de tal modo o ânimo dos israelitas que eles julgaram que, para o futuro, tudo lhes seria possível. No dia seguinte, Moisés ordenou que despojassem os mortos e reunissem as armas daqueles que haviam fugido. Em seguida, distribuiu recompensas aos que se haviam distinguido em tão grande feito e louvou publicamente o valor e o procedimento de Josué, ao qual todo o exército prestou ao mesmo tempo, por meios de aclamações, glorioso testemunho à sua virtude. Porém o mais extraordinário nessa grande vitória foi o fato de não custar a vida a um só israelita, embora a carnificina entre os inimigos fosse notável, de modo que não se podiam contar os mortos.
Moisés levantou um altar com esta inscrição: &quot;AO DEUS VENCEDOR&quot;. Ofereceu sobre ele vários sacrifícios e predisse que a nação dos amalequitas seria inteiramente destruída, pois, ainda que os hebreus jamais os tivessem ofendido, eles haviam sido muito injustos e desumanos, atacando os israelitas no deserto, onde estes sofriam com a falta de tudo. Dedicou a seguir um banquete a Josué, para testemunhar a alegria que estava sentindo pela vitória que este obtivera. Todo o acampamento ressoava, ao mesmo tempo, com cânticos em louvor a Deus, e alguns dias se passaram assim, em festas e regozijo.

CAPÍTULO 3
REUEL, SOGRO DE MOISÉS, VEM ENCONTRÁ-LO E DÁ-LHE EXCELENTES
CONSELHOS.

111.  Êxodo 18. Reuel, sogro de Moisés, tendo sabido desses felizes resultados, veio encontrá-lo, para também louvar a Deus com ele, e trouxe Zipora, sua filha, e os netos. Moisés sentiu tanta alegria que ofereceu um banquete a todo o povo, próximo da sarça que ele vira arder e que não se consumia. Arão, Reuel e toda aquela grande multidão cantaram em comum, nesse banquete, hinos em honra de Deus, a quem bendiziam como o Autor de sua liberdade e de sua salvação. Dirigiram também louvores a Moisés, a quem reconheciam dever, depois de Deus, tão gloriosos e felizes acontecimentos. Reuel celebrou com cânticos a glória que o exército merecia e particularmente Moisés, a cuja sábia orientação muito o povo devia.
No dia seguinte, Reuel notou que Moisés estava sobrecarregado pela multidão de negócios, porque todos se dirigiam a ele para resolver as suas dúvidas e litígios, persuadidos de que nenhum outro, senão ele, seria capaz de o fazer. O povo estava tão convencido do interesse dele e de seu amor pela justiça que mesmo os que perdiam a causa acolhiam a sentença sem murmurar. Ele não quis então falar-lhe, para não perturbar o prazer que o povo sentia em ser julgado pelo seu admirável guia. Quando ele se retirou, porém, aconselhou-o, a sós, que escolhesse pessoas competentes e de confiança para resolver os assuntos menos importantes e que reservasse para si apenas o que se referia ao bem e à salvação do povo, assuntos cujo peso somente ele poderia suportar.
Disse-lhe mais Reuel: &quot;Assim, não ignorais quais são as graças que Deus vos concedeu nem que Ele se serviu de vós para livrar este povo de tantos perigos. Deixai, pois, que outros decidam as questões que surgem entre eles, em particular, e entregai-vos inteiramente ao serviço de Deus, para vos tornardes ainda mais capaz de assistir-lhes em suas necessidades mais prementes, julgaria também apropriado que, depois de terdes feito a revista de todas as vossas tropas, vós as distribuísseis em diversos corpos de dez mil homens, a cada um dos quais nomearíeis chefes, e que esses corpos fossem divididos em regimentos de mil e de quinhentos homens, e os regimentos, em companhias de cem e de cinqüenta homens, e essas companhias, ainda, em esquadras de trinta, de vinte e de dez homens, comandados por oficiais que teriam nomes conforme o número de soldados sob seu comando. Quanto aos juizes, seria necessário escolhê-los entre os homens de bem e de reconhecida virtude para decidir as divergências e as questões ordinárias. Quando houver negócios mais importantes, poderão ser encaminhados aos príncipes do povo. E, se ainda houver algum outro mais difícil, que eles não possam resolver, reservareis então para vós o encargo de solucioná-lo. Por esse meio, a justiça será feita a todos, nada vos impedirá de implorar continuamente o auxílio de Deus e o tomareis cada vez mais favorável ao vosso exército&quot;.
Moisés não somente aprovou as advertências de Reuel, mas revelou em plena assembléia quem as idealizara, dando assim ao sogro toda a glória. O próprio Moisés o referiu nos Livros Santos, demonstrando o quanto estava longe de arrebatar aos outros a honra que lhes era devida e que tinha virtude bastante para elevar-se acima desses defeitos, tão comuns aos homens, como veremos em outro lugar, por diversos exemplos. Reuniu depois todo o povo, para avisar que iria tratar com Deus no monte e que esperava trazer-lhes novos testemunhos da extrema bondade dEle para com o seu povo. Ordenou-lhes que transferissem o acampamento para o mais próximo possível do monte, a fim de ficarem mais perto da suprema Majestade, a quem eram devedores «de todas as venturas.

CAPÍTULO 4
MOISÉS FALA COM DEUS NO MONTE SINAI E ENTREGA AO POVO OS DEZ
MANDAMENTOS, DITADOS POR ELE PRÓPRIO. MOISÉS VOLTA DO MONTE, DE
ONDE TRAZ AS DUAS TÁBUAS DA LEI, E ORDENA AO POVO, DA PARTE DE
DEUS, QUE CONSTRUA UM TABERNÁCULO.

112. Êxodo 19. O Sinai, que supera em altura todos os montes das províncias vizinhas, está tão cheio de escarpas por todos os lados que não somente é muito dificultoso lá subir como também não se poderia contemplá-lo sem temor, pois é crença comum que Deus lá habita, e esse lugar mostra-se assustador e inacessível. Depois que Moisés lá estava, os hebreus cumpriram a ordem de avançar o acampamento até o pé desse monte, e estavam todos cheios de esperança nos favores que ele prometera obter de Deus.
No aguardo de sua volta, cumpriram a ordem que Moisés lhes dera, para dele se tornarem dignos. Viviam em grande continência: separaram-se durante três dias de suas mulheres, e as mulheres, por sua vez, com seus filhos, vestiram-se melhor que de ordinário e passaram dois dias em festas e banquetes. Mas eram banquetes acompanhados de orações contínuas, que eles faziam a Deus, a fim de que Ele recebesse bem a Moisés e enviasse, por intermédio dele, as graças que ele os havia feito esperar.
Na manhã do terceiro dia, antes do nascer do sol, viu-se o que até então não se havia presenciado no mundo. O céu estava tão claro e sereno que não existia a menor nuvem. Mas uma nuvem surgiu quase de repente e cobriu todo o acampamento dos israelitas. Um vento impetuoso, acompanhado de grande chuva, levantou um violento furacão. Os relâmpagos seguiam-se, um tão perto do outro que deslumbravam não somente os olhos, mas lançavam terror aos espíritos. O raio que caía com um ruído estranho indicava a presença de Deus. Deixo aos que lerem isto julgar como quiserem, mas fui obrigado a referir o que encontrei escrito nos Livros Santos. Uma tempestade tão extraordinária e um ruído tão espantoso unidos à crença de que Deus habitava aquele monte deixaram atônitos os hebreus, que não ousavam sair de suas tendas. Julgaram que Deus, em sua cólera, havia feito Moisés morrer e os tratava agora do mesmo modo. Estavam eles assim aterrorizados quando viram Moisés aparecer, cheio de majestade e resplandecente de glória, e a presença dele afastou a tristeza e fê-los conceber melhores esperanças; E não se dissiparam somente as nuvens de seus espíritos, mas também as que antes obscureciam o ar, que retomou a sua primeira serenidade.
O grande profeta, após reunir todo o povo para informá-lo dos mandamentos que recebera de Deus, escolheu um lugar elevado, de onde cada qual pudesse ouvi-lo, e anunciou-lhes: &quot;Deus não se contentou em apenas receber-me de modo digno de sua infinita bondade, mas quis honrar o vosso acampamento com a sua presença e vos prescrever, por meu intermédio, a maneira de viver mais feliz que se possa imaginar. Conjuro-vos, pois, por Ele mesmo e pelas obras admiráveis que realizou em vosso favor, a escutar com o respeito que lhe deveis o que Ele me ordenou dizer-vos, sem considerardes a baixeza de quem Ele quis se servir para esse fim. Não considereis que é um homem que vos fala, mas pensai nas vantagens que recebereis com a observância dos mandamentos que vos trago da parte de Deus e tomareis a ver a majestade daquEle que se dignou servir-se de mim para vos conceder tanta felicidade. Pois não é Moisés, filho de Anrão e de joquebede, quem vos ministrará esses admiráveis preceitos, e sim o Deus Todo-poderoso que, para vos livrar do cativeiro, mudou em sangue as águas do Nilo, abatendo o orgulho dos egípcios e ferindo-os com diversas pragas; que vos abriu caminho através do mar; que saciou a vossa fome com alimento descido do céu e matou a vossa sede com água que fez sair de um rochedo. Foi Ele que concedeu a Adão a posse de tudo o que a terra e o mar são capazes de produzir; que salvou Noé das águas do dilúvio; que quando Abraão, o autor de nossa raça, andava errante e vagabundo deu-lhe a terra de Canaã; que fez nascer Isaque de um pai e de uma mãe que não estavam mais na idade de ter filhos; que deu a Jacó doze filhos perfeitos em todas as virtudes; que pôs nas mãos de José o governo de todo o Egito; que, enfim, fez hoje o favor de dar-vos, por meu intermédio, os seus mandamentos. Se os observardes religiosamente e os preferirdes ao amor que tendes por vossas esposas e filhos, nada faltará para a vossa felicidade: a terra será sempre fértil para vós, e o mar, sempre tranqüilo. Sereis ricos em filhos e temíveis aos vossos inimigos. Falo-vos com verdade, pois tive a felicidade de ver a Deus. Ouvi a sua voz imortal, e vós não podeis mais duvidar de que Ele vos ame ou que deseje cuidar de vossa posteridade&quot;.
113. Depois dessas palavras, Moisés fez avançar todo o povo, com suas mulheres e filhos, para que eles mesmos ouvissem a voz de Deus e recebessem diretamente de sua boca os mandamentos, para não diminuir a estes a autoridade, como recebidos apenas pelo ministério de um homem. Assim, ouviram todos uma voz do céu, que lhes falava muito distintamente, e escutaram os preceitos que Moisés lhes deu depois, os quais estavam escritos nas duas Tábuas da Lei.
Êxodo 20. Não me é permitido referir as mesmas palavras, mas vou transcrever-vos apenas o sentido:
I.      Há um só Deus, e somente Ele deve ser adorado.
II.     Não se deve adorar a imagem de animal algum.
III.    Não se deve jurar em vão o nome de Deus.
IV.    Não se deve profanar por obra alguma a santidade e o descanso do sétimo dia.
V.     Deve-se honrar pai e mãe.
VI.   Não se deve cometer assassínio.
VII.   Não se deve cometer adultério. 
VIII. Não se deve roubar.
IX.   Não se deve dar falso testemunho.
X.    Não se deve desejar coisa que pertença a outrem.

Êxodo 21. 0 povo, depois de haver recebido esses mandamentos da própria boca de Deus, como Moisés lhes havia dito, retirou-se alegremente. Nos dias seguintes, foram várias vezes procurar Moisés em sua tenda, a fim de rogar-lhe que obtivesse de Deus leis para a sua política e para o governo da República. Ele o prometeu e o assim fez, algum tempo depois, como relatarei mais tarde, pois resolvi escrever um livro a esse respeito.
114. Êxodo 24. Algum tempo depois, Moisés voltou ao monte, subiu-o à vista de todo o povo e lá ficou quarenta dias. Essa demora os pôs em grande pena, e a dúvida de que algum mal lhe tivesse acontecido era a causa principal de seu sofrimento. Cada qual falava a seu modo: os que não o estimavam diziam que animais ferozes o haviam devorado, outros imaginavam que Deus o havia levado consigo e os mais sensatos hesitavam entre as duas opiniões, considerando numa a desgraça que pode ocorrer a todos os homens e consolando-se à vista da outra, que lhes parecia mais conforme à virtude de Moisés. Porém, na dúvida de nunca mais poderem contar com tal chefe e tão poderoso protetor, viram-se em extrema aflição, porque não viam esperança alguma que lhes mitigasse os temores. Mas não ousaram levantar acampamento, porque Moisés lhes havia ordenado que esperassem naquele lugar.
Ele voltou, por fim, depois de quarenta dias, sem ter sido alimentado por comida humana durante todo esse tempo. A presença dele encheu o povo de alegria. Moisés falou-lhes do cuidado que Deus continuava a ter para com eles e informou-os que Ele havia ordenado, no que se refere à maneira como deviam agir para viver em perfeita felicidade, que construíssem um tabernáculo, ao qual Ele desceria algumas vezes. Eles deveriam levá-lo consigo, a fim de não serem mais obrigados a consultar a Deus no monte Sinai, porque quando Ele estivesse no Tabernáculo receberia ali os votos do povo e ali lhes escutaria as orações. Moisés ensinou-os, segundo o que o próprio Deus lhe havia manifestado, como Ele queria que se construísse o Tabernáculo, que era como um Templo portátil, e exortou-os a não perderem tempo em construí-lo. Apresentou-lhes em seguida duas tábuas, nas quais Deus havia gravado com as próprias mãos os Dez Mandamentos de que acima falamos, estando cinco em cada tábua.
115. êxodo 35. Essas palavras e mais a alegria pela volta de Moisés causaram-lhes tanto prazer que se puseram imediatamente e com grande ardor ao trabalho. Para a construção do Tabernáculo, ofereciam todos ouro, prata, cobre, madeira incorruptível, pêlo de cabra, peles de carneiro brancas, da cor de jacinto, de púrpura e de escarlate, lãs tingidas com essas mesmas cores e linho muito fino. Doaram também pedras preciosas, que se encastoam no ouro e com as quais costuma-se fazer adornos, e grande quantidade de excelentes perfumes.
Depois que todos assim contribuíram para o empreendimento, dando tudo o que podiam — e alguns mesmo mais do que podiam —, Moisés, segundo a determinação que recebera de Deus, escolheu os homens mais capazes para trabalhar naquela obra — tanto que, tivesse o povo a liberdade de escolher, não teriam lançado os olhos sobre melhores peritos. Ainda vemos os seus nomes nas Sagradas Escrituras, a saber: Bezalel, da tribo de Judá, filho de Uri, filho de Hur e de Miriã, e Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã. O povo demonstrou tanto ardor por essa obra e ofereceu com tanta alegria o seu trabalho e os seus bens que Moisés foi obrigado a publicar, por sugestão dos encarregados de executá-la e a som de trombeta, que nada mais era necessário oferecer, pois de nada mais se precisava.
C2omeçaram então o trabalho segundo o modelo e o desenho que Deus entregara a Moisés, no qual estava determinado também o número de vasos sagrados que se deveriam usar no Tabernáculo para servir aos sacrifícios. Se os homens demonstraram liberalidade nessa circunstância, as mulheres não fizeram menos, pois forneceram tudo para as vestes dos sacerdotes e para os ornamentos necessários à celebração dos louvores a Deus com pompa e magnificência.

CAPÍTULO 5
DESCRIÇÃO DO TABERNÁCULO.

116. Estando assim preparadas todas as coisas, os vasos de ouro e de cobre, os diversos ornamentos e as vestes sacerdotais, Moisés, depois de anunciar que aquele seria um dia de festa e que cada qual, segundo as suas posses, ofereceria um sacrifício a Deus, começou a fazer o Tabernáculo, deste modo:
Ordenou primeiro que se fizesse um cercado, no meio do qual o Tabernáculo devia ser construído, medindo cem côvados de comprimento e cinqüenta de largura. Havia de cada lado, no sentido do comprimento, vinte colunas de bronze e dez no fundo, no sentido da largura,/ cada uma com cinco côvados de altura. As suas cornijas eram de prata, com anéis também de prata. As suas bases, que eram de bronze dourado, tinham longas pontas por baixo, para serem fincadas na terra, semelhantes às que se põem na extremidade das lanças. Havia na extremidade inferior de cada coluna um prego de cobre, sendo que a parte que sobressaía da terra tinha um côvado de alto e aí amarravam-se cabos, os quais passavam pelos anéis para se fixarem no teto do Tabernáculo e assim firmá-lo contra a violência dos ventos. Um grande véu de linho estendido em redor, desde as cornijas até a base, cercava como um muro todo o recinto. Assim eram os dois lados e o fundo.
A frente desse recinto tinha também cinqüenta côvados, e havia nessa extensão uma abertura de vinte côvados, para servir de entrada. De cada lado da abertura, existia uma coluna dupla de bronze revestida de prata, exceto a base. Essa dupla coluna era seguida, para dentro do recinto, por três outras colunas, dispostas de cada lado em linha reta, em distância proporcionada para formar um vestíbulo de cinco côvados de extensão, que também era cercado, como o resto do recinto, por um véu de linho. Um outro véu, de vinte côvados de comprimento e cinco de altura, pendia à entrada e à saída. Era tecido de linho, púr-pura e jacinto e reproduzia diversas figuras, nenhuma, porém, de animal. Havia dentro do vestíbulo um grande vaso de cobre sobre uma base do mesmo metal, de onde os sacerdotes tomavam a água para lavar as mãos e borrifar os pés.
Moisés mandou colocar o Tabernáculo no meio, mas voltou-lhe a entrada para o oriente, a fim de que o Sol, ao nascer, o alumiasse com os primeiros raios. O Tabernáculo media trinta côvados de comprimento e doze de largura. Um de seus lados estava voltado para o sul, o outro para o norte e o fundo para o ocidente. Cada lado era composto de vinte pranchas de madeira cortadas em ângulo reto, cada uma com um côvado e meio de largura e quatro dedos de espessura. Eram todas revestidas com lâminas de ouro, e havia por fora de cada prancha dois ferrolhos, um no alto e o outro embaixo, que passavam através de dois anéis, os quais prendiam as pranchas uma à outra. O lado do ocidente, que era o fundo do Tabernaculo, era composto de seis peças de madeira dourada de todos os lados e tão bem unidas que pareciam uma só.
Vê-se, pela descrição das peças que compunham cada um dos lados, que elas chegavam todas juntas ao comprimento de trinta côvados, pois havia vinte delas e cada uma tinha um côvado e meio de largura. Quanto ao que se refere ao fundo do Tabernaculo, as seis peças de que falamos atingiam apenas nove côvados, e aí se unia uma de cada lado, de mesma largura e altura que as outras, porém muito mais grossas, porque deviam ser postas nos ângulos desse edifício. No meio de cada uma dessas peças, havia um prego dourado, e todos os pregos estavam colocados numa mesma linha, de tal modo que se defrontavam todos. Grandes bastões dourados, medindo cinco côvados cada um, entravam nesses pregos e uniam todas as pontas, porque os bastões encaixavam-se uns nos outros.
Quanto à parte posterior do edifício, além dos ferrolhos de que falei, que prendiam as pranchas, ela era firmada por meio de um bastão dourado que passava, como os outros, pelos anéis das peças de madeira. As extremidades dos que firmavam os dois lados, vindo todas a cruzar-se nos ângulos da construção, encaixavam-se umas às outras e uniam de tal modo os lados do Tabernaculo que ele não podia ser derrubado pela violência do vento.
Quanto à parte interna do Tabernaculo, a sua extensão era dividida em três partes, de dez côvados cada uma, medindo dez côvados de fundo. Na parte dianteira, havia quatro colunas de mesma matéria e forma, cujas bases eram todas semelhantes às que mencionamos há pouco e estavam colocadas a igual distância entre si. Os sacerdotes podiam transitar por todo o resto do Tabernaculo, mas o espaço contido entre as quatro colunas era inacessível, e ali não lhes era permitido entrar. A exata divisão do Tabernaculo em três partes era a figura do mundo. A do meio era como o céu, onde Deus habita, e as outras, que estavam abertas para os sacerdotes, representavam o mar e a terra.
Puseram à entrada cinco colunas de ouro sobre bases de bronze e por cima do Tabernaculo estenderam véus de linho cor de púrpura, jacinto e escarlate. O primeiro desses véus tinha dez côvados quadrados e cobria as colunas que separavam esse lugar tão santo de todo o resto, a fim de impedir a vista dos homens. Tudo isso era chamado santo, mas o espaço contido entre essas quatro colunas era chamado o SANTO DOS SANTOS. Sobre esse véu de que acabo de falar estavam representadas todas as espécies de flores e outros ornamentos que embelezam a terra, com exceção dos animais. O segundo véu era semelhante ao primeiro, tanto na matéria quanto no tamanho, no tecido e nas cores. Estava fixado no alto por presilhas e descia cobrindo até a metade as cinco colunas. Era o lugar por onde entravam os sacerdotes. Havia sobre esse véu um outro, com anéis, pelos quais passava um cordão, para o arriamento, principalmente nos dias de festa, a fim de que o povo pudesse ver o primeiro véu, que estava cheio de figuras. Nos outros dias, principalmente quando o tempo não era bom, o segundo véu, feito de um pano apropriado, resistente à chuva, era estendido por cima do outro, para resguardá-lo. Observou-se ainda, após a construção do Templo, de se pôr um pano semelhante à entrada.
Havia, além disso, dez panos de arras, cada um medindo vinte e oito côvados de comprimento e quatro de largura. Estavam tão bem presos, com presilhas de ouro, que pareciam formar uma única peça. Serviam para cobrir toda a parte superior e todos os lados do Tabernáculo, faltando apenas um pé para tocarem a terra. Havia também outras onze peças de mesma largura — mais longas, porém, medindo cada uma trinta côvados de comprimento. Eram tecidas em pêlo, com tanta arte como as de lã, e estavam estendidas por fora, sobre as outras peças de panos, que ornavam o interior. Elas se uniam todas no alto, pendiam até quase a terra e formavam como que uma espécie de pavilhão. A undécima dessas peças servia para cobrir a porta. Todo o pavilhão estava coberto de peles de cabra, para preservá-lo da chuva e dos ardores do sol. Quando era descoberto, não podia ser visto de longe sem admiração, porque o brilho de tantas e tão diversas cores fazia que se julgasse ver o céu.

CAPÍTULO 6
DESCRIÇÃO DA ARCA QUE ESTAVA NO TABERNÁCULO.

117. Êxodo 37. Foi o Tabernáculo construído dessa maneira e fez-se depois também uma arca consagrada a Deus. Era de madeira incorruptível, à qual os hebreus chamam heoron. Tinha cinco palmos de comprimento, três de altura e outros tantos de largura e era inteiramente coberta, por dentro e por fora, com lâminas de ouro, de modo que não se via a madeira. A sua coberta estava tão firme e tão fortemente presa com pregos de ouro que parecia formar uma única peça. Havia anéis de ouro nos seus dois lados maiores, que atravessavam toda a madeira, e grandes bastões dourados que se punham nos anéis, para transportar a arca segundo a necessidade, pois não se serviam de cavalos: os levitas e os sacerdotes a levavam nos ombros. Havia por cima da arca duas figuras de querubins com asas, segundo Moisés observara perto do trono de Deus, pois nenhum homem antes dele disso tivera conhecimento. Ele pôs na arca as duas Tábuas, nas quais estavam escritos os Dez Mandamentos, cada uma das quais continha cinco: dois e meio numa coluna e dois e meio na outra. E ele colocou a arca no Santuário.

CAPÍTULO 7
DESCRIÇÃO DA MESA, DO CANDELABRO DE OURO E DOS ALTARES QUE ESTAVAM NO TABERNÁCULO.

118. Moisés também pôs no Tabernáculo uma mesa semelhante às que haviam no Templo de Delfos. Tinha dois côvados de comprimento, um de largura e três palmos de altura. Os pés que a sustentavam eram quadrados, desde o alto até a metade, porém da metade até embaixo eram inteiramente semelhantes aos dos leitos dóricos e entravam quatro dedos no chão. Os lados dessa mesa eram fundos, para receber um ornamento feito em cordão aberto, que prendia tudo, tanto no alto como embaixo.
Havia no alto de cada um dos pés, por fora, um anel para se passar um bastão de madeira dourada que não se podia tirar facilmente, pois este não passava no sentido do comprimento da mesa, de um anel ao outro, mas apenas ultrapassava em muito pouco esse anel, e era fundo nesse lugar, para receber um outro bastão, que era colocado segundo a altura da mesa e preso por baixo, de modo que este último, sustentando a extremidade do primeiro, que passava pelo anel, fazia com que o primeiro bastão servisse de apoio firme para se levar nas viagens toda a mesa, de um lugar a outro.
Ela era colocada ordinariamente no lado norte do Tabernáculo, bem perto do Santuário, e punham-se por cima doze pães sem fermento, uns sobre os outros, seis de um lado e seis do outro, feitos de farinha pura. Havia em cada um desses pães dois gômeres, que é uma medida de que os hebreus se servem e que corresponde a sete coros áticos. Punham-se também sobre esses pães dois vasos de ouro cheios de incenso. Ao fim de sete dias e no dia que chamamos sábado, tiravam-se os doze pães, para se colocarem outros em seu lugar, e disso direi depois a razão.
Em frente à mesa, do lado sul, havia um candelabro de ouro não maciço, mas oco por dentro, que pesava cem minas, as quais os hebreus chamam sincares, que perfazem dois talentos áticos. O candelabro era adornado com pequenos corpos redondos: lírios, maçãs, romãs, pequenas taças, em número de setenta, que se elevavam desde o alto da haste até o alto dos sete braços de que se compunha e cujo número se referia aos sete planetas. Esses sete ramos eram simétricos. No alto de cada um, havia uma lâmpada, e todas elas estavam voltadas para o oriente e para o sul.
Êxodo 30. Entre a mesa e o candelabro, que estava atravessado, havia um pequeno altar sobre o qual se queimavam perfumes em honra a Deus. Esse altar, que tinha um côvado de quadrado e dois de alto, era de madeira incorruptível, revestida com uma lâmina maciça de cobre. Havia por cima um braseiro de ouro, em cujos cantos havia coroas, também de ouro, com grandes anéis, nos quais se passavam bastões, a fim de que os sacerdotes o pudessem carregar. À entrada do Tabernaculo estava outro altar, com cinco còvados de quadrado e três de alto, coberto também por uma lâmina de cobre. Estava adornado por cima com muito ouro. No lugar em que sobre o outro havia um braseiro, nesse havia uma grelha, através da qual o carvão e a cinza caíam em terra, porque não tinha pedestal. Perto desse altar estavam funis, frascos, turíbulos, taças e outros vasos necessários para o serviço divino, e tudo isso era de ouro muito puro.

CAPÍTULO 8
VESTES E ORNAMENTOS DOS SACERDOTES E DO SUMO SACERDOTE.

119. Devemos agora falar das vestes, tanto as dos sacerdotes, às quais os hebreus chamam chanes, quanto as do sumo sacerdote, às quais chamam anarabachem. Começaremos pelas comuns, dos sacerdotes. Aquele que ia oficiar era obrigado, segundo a Lei, a ser puro e casto. Ele revestia-se de uma veste chamada manachaz, isto é, &quot;que segura forte&quot;, uma espécie de calção de linho retorcido que se prendia nos rins. Colocava por cima uma túnica de um duplo tecido de lã e linho, à qual chamavam chetonem, porque o linho se chama chetom. Ela descia até os calcanhares, era muito justa no corpo e tinha também mangas muito estreitas para cobrir os braços.
A túnica era presa sobre o peito, um pouco abaixo das espáduas, com um cinto da largura de quatro dedos, o qual era de tecido fraco, de maneira que se parecia com uma pele de cobra. Diversas flores e figuras nele estavam representadas, com linho de cor escarlate, púrpura e jacinto. Essa cinta dava duas vezes a volta em torno do corpo. Era atada na frente e depois caía até os pés, a fim de tornar o sacerdote mais venerável ao povo quando não estava oferecendo algum sacrifício. Pois, quando o oferecia, atirava a cinta sobre o ombro esquerdo, a fim de ficar mais livre para desempenhar o seu ministério. Moisés chamou a esse cinto abanete, e nós o chamamos hoje emiã, nome que tiramos dos babilônios. A túnica não tinha pregas e possuía uma grande abertura em torno do pescoço, que era presa na frente e atrás com colchetes, e a chamavam massabazem.
Ele usava uma espécie de mitra, que não lhe cobria mais que metade da cabeça e que ainda hoje se chama masnaemphite. Tinha a forma de uma coroa e era de tecido de linho, mas muito grossa por causa das muitas pregas. Colocava-se por cima uma touca de pano muito fino, que cobria toda a cabeça e descia até a fronte, ocultando as costuras e pregas dessa coroa. Era presa com muito cuidado, para que não caísse durante o sacrifício.
Essas eram as vestes do sacerdote. Quanto às do sumo sacerdote, além do que acabo de dizer, ele se revestia de uma túnica cor de jacinto, chamada methir, que lhe ia até os calcanhares. Ele a cingia com um cinto semelhante ao de que falei, exceto que era entrelaçado de ouro. A parte inferior de seu vestuário era ornada de franjas com guizos e campainhas de ouro, entremeadas de maneira igual. Essa túnica, que era toda uma só peça, sem costura, não era aberta de lado, mas de alto a baixo, isto é, por trás desde o alto até abaixo das espáduas e na frente apenas até a metade do estômago. Para adorno dessa abertura, colocaram-se bordados, como também naquelas feitas para passar o braço.
Por cima dessa túnica, punha-se uma terceira veste, chamada éfode, parecida com a que os gregos chamam epomis, cuja descrição é esta: tinha um côvado de comprimento, mangas, e era como uma espécie de túnica curta. Era de um tecido tingido com várias cores e misturado com ouro e deixava sobre o meio do peito uma abertura de quatro dedos em quadrado. A abertura era coberta por uma peça de pano semelhante ao do éfode. Os hebreus chamam-no essem, e os gregos, logiom, que significa em língua vulgar &quot;racional&quot; ou &quot;oráculo&quot;. Tinha a largura de um palmo e estava preso à túnica por colchetes de ouro, juntamente com uma tira cor de jacinto, que passava por anéis. Para que não se visse a menor abertura entre esses anéis, uma fita, também cor de jacinto, cobria a costura.
O sumo sacerdote trazia sobre cada um dos ombros uma pedra sardônica encastoada em ouro, e essas duas pedras preciosas funcionavam como um colchete para fechar o éfode. Os nomes dos doze filhos de Jacó foram gravados nas sardônicas, em língua hebraica, isto é: sobre a do ombro direito, os dos seis mais velhos, e sobre a da esquerda, os dos mais novos. Sobre essa peça, chamada racional, estavam presas doze pedras preciosas de extrema beleza, que não tinham preço. Estavam colocadas em quatro linhas de três cada uma e separadas por pequenas coroas de ouro, a fim de serem conservadas firmes e não caírem. Na primeira fila, estavam a sardônica, o topázio e a esmeralda. Na segunda, o rubi, o jaspe e a safira. Na terceira, o mercúrio, a ametista e a ágata. E na quarta, a crisólita, o ônix e o berilo. Em cada uma dessas pedras preciosas estava gravado o nome de um dos doze filhos de Jacó, que consideramos os chefes de nossas tribos. Esses nomes estavam escritos segundo a ordem de seu nascimento.
Ora, como os colchetes eram muito fracos para sustentar o peso das pedras preciosas, havia outros dois, mais fortes, atados à borda do racional, perto do pescoço, que sobressaíam do tecido e nos quais se passavam duas correntes de ouro, que se uniam por um tubo nas extremidades dos ombros. As pontas superiores dessas correntes, que caíam para trás das costas, atavam-se a um anel que estava por trás, à beira do éfode, e de todo o sustentavam, para impedir que caísse. Um cinto de diversas cores, tecido de ouro, estava preso ao racional e o prendia todo, atando-se por cima das costuras e daí pendendo para baixo. Todas as franjas estavam bem presas a ilhoses de fio de ouro.
A tiara do sumo sacerdote era em parte semelhante à mitra dos sacerdotes. Tinha a mais, porém, uma outra espécie de touca por cima da de cor de jacinto. Era rodeada por uma tríplice coroa de ouro, onde havia pequenos cálices, como os que se vêem numa planta que os hebreus chamam daccar, e os gregos, hioscianos, vulgarmente chamada jusquiame ou anebane. E, se alguém não a conhece bem, para entender pelo que dizemos, vamos descrevê-la.
Ela tem ordinariamente mais de três palmos de altura. A sua raiz se parece com um nabo, e as folhas, com uma erva chamada rinchão. Possui uma pequena pele, que cai quando o fruto está maduro. De seus ramos saem como que pequenas taças, cálices do tamanho da junta de um dedinho, cuja circunferência se parece mesmo com uma taça. Acrescentarei, ainda, para a compreensão dos que não conhecem essa planta, que ela tem embaixo algo como uma meia bola, que se estreita para cima. Depois alarga-se e forma como que uma pequena bacia, semelhante ao centro de uma romã partida em duas, onde se adapta uma coberta redonda, tão bem feita como se a tivessem polido em redor e com recortes que terminam em ponta, tal como se vêem nas romãs. Por cima dessa coberta, ao longo das pequenas taças, ela produz o seu fruto, que se parece com a semente da erva chamada parietária, e a sua flor é como a da papoula.
Essa tiara, ou mitra coroada, cobria a parte posterior da cabeça e as têmporas, em volta das orelhas, pois esses pequenos cálices não rodeavam a fronte. Esta era rodeada por uma espécie de correia de ouro, bastante larga, sobre a qual, em caracteres sagrados, estava escrito o nome de Deus.
Eram essas as vestes do sumo sacerdote, e não deixaria eu de me admirar muito a esse respeito pela injustiça daqueles que nos odeiam e nos tratam como ímpios, porque desprezamos as divindades que eles adoram. Pois se eles quiserem considerar com algum cuidado a construção do Tabernaculo, as vestes dos sacerdotes, os vasos sacros de que se servem para oferecer os sacrifícios a Deus, verão que o nosso legislador era um homem consagrado e que falsamente somos acusados, pois é fácil de se ver, por tudo o que acabo de narrar, que elas representam de algum modo todo o mundo. Pois das três partes nas quais o comprimento do Tabernaculo está dividido, as duas em que é permitido aos sacerdotes entrar, como se entraria num lugar profano, significam a terra e o mar, que estão abertos a todos os homens. E a terceira parte, que lhes é inacessível, é como um céu reservado a Deus somente, pois o céu é a sua morada.
Os doze pães da proposição significam os doze meses do ano. Os véus, tecidos de quatro cores, indicam os quatro elementos, pois o linho refere-se à terra, que o produz, e é da mesma cor; a púrpura significa o mar, pois é tingida com o sangue de um certo peixe; o escarlate representa o fogo (a túnica do sumo sacerdote significa também a terra); o jacinto, que tende para a cor do azul, representa o céu; as sementes de romã, os relâmpagos; o som das campainhas, os trovões.
O éfode, tecido de quatro cores, representa também toda a natureza (penso que o ouro foi acrescentado para representar a luz). O racional, que está no meio, representa também a terra, que está no centro do mundo, e o cinto que o rodeia tem relação com o mar, que circunda a terra. Quanto às sardônicas que servem de colchetes, indicam o Sol e a Lua. As outras doze pedras preciosas simbolizam os meses do ano.
A tiara, sendo da cor do jacinto, significa o céu, sem o que não seria digno de que nela se escrevesse o nome de Deus, e a tríplice coroa de ouro representa, por seu brilho, a sua glória e a sua soberana majestade. Eis de que modo julguei dever explicar todas essas coisas, a fim de não perder a ocasião, nem neste lugar, nem em outros, de fazer conhecer a grande sabedoria do nosso admirável legislador.

CAPÍTULO 9
DEUS ORDENA ARÃO SUMO SACERDOTE.

120. Êxodo 28, 29, 30 e 40. Tudo estava preparado, e não restava mais que consagrar o Tabernaculo. Deus então apareceu a Moisés e ordenou-lhe que fizesse a Arão, seu irmão, sumo sacerdote, porque era mais digno que qualquer outro para esse cargo. Moisés reuniu o povo, falou-lhe das virtudes de Arão e do interesse deste pelo bem público, que tantas vezes o fizera arriscar a vida. E todos não somente concordaram com a escolha, mas o aprovaram com alegria.
Então Moisés assim lhes falou: &quot;Todas as obras que Deus havia ordenado estão terminadas, segundo a sua vontade e segundo as nossas posses. Como vós sabeis, Ele quer honrar este Tabernaculo com a sua presença, mas é necessário, antes de tudo o mais, criar o sumo sacerdote, aquele que é o mais competente para bem desempenhar esse cargo, a fim de que cuide de tudo o que se refere ao culto divino e ofereça a Ele os vossos votos e as vossas orações. Confesso que, se essa escolha tivesse dependido de mim, eu teria podido desejar essa honra, seja porque todos os homens são naturalmente levados a desejar incumbência tão honrosa, seja porque vós não ignorais quantas dificuldades e trabalhos sofri pelo bem vosso e da República. Mas Deus mesmo, que destinou Arão há muito tempo para esse sagrado ministério, conhecendo-o como o mais justo dentre vós, o mais digno de ser honrado, deu-lhe o seu voto e julgou em seu favor. Assim, Arão oferecer-lhe-á de ora em diante, por vós, orações e votos, e Ele os escutará tanto mais favorávelmente quanto, além do amor que vos tem, eles lhe serão apresentados por aquele que Ele escolheu para ser o vosso intercessor junto dEle&quot;.
121. Essas palavras agradaram bastante ao povo, que aprovou por sufrágios a escolha feita por Deus. Arão era, sem dúvida, o que devia ser elevado a tão alta dignidade, quer por causa de sua descendência, quer pelo dom de profecia que recebera, quer pela eminente virtude de Moisés, seu irmão. Ele tinha, então, quatro filhos: Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar.
122.  Moisés determinou que o resto do que se ofertara à construção do Tabernáculo fosse usado para a confecção do que era necessário à sua cobertura, bem como para se cobrir o candelabro de ouro, o altar de ouro, sobre o qual se fariam as incensações, e, do mesmo modo, todos os outros vasos, a fim de que quando se levassem essas coisas para o campo não fossem deterioradas pela chuva, nem pela poeira, nem por algum outro inconveniente do ar. Reuniu depois o povo e ordenou-lhe que cada um contribuísse ainda com meio sido, que é uma moeda dos hebreus, cujo valor é de quatro dracmas áticas. Eles executaram a ordem imediatamente, e então seiscentos e cinco mil e quinhentos homens deram essa quantia, embora somente as pessoas livres e da idade de vinte e cinco até cinqüenta anos tivessem contribuído. Esse dinheiro foi imediatamente empregado em benefício do Tabernáculo.
123.  Moisés, então, purificou o Tabernáculo e os sacerdotes, deste modo: tomou quinhentos sidos de mirra escolhida, o mesmo peso de lírio roxo e a metade de canela e de bálsamo. Mandou bater tudo isso num him de óleo de oliveira, uma medida que contém dois coros áticos, e com isso fez um bálsamo, ou óleo, que tinha ótimo perfume e com o qual ungiu o Tabernáculo e os sacerdotes, e assim os purificou. Ofereceu, em seguida, sobre o altar de ouro, uma grande quantidade de excelentes perfumes, que, para não aborrecer o leitor, não descreverei em particular. E nunca deixou de queimá-lo duas vezes por dia, para fazer a incensação antes do nascer do sol e ao seu ocaso. Guardavam também o óleo purificado para alimentarem as lâmpadas do candelabro de ouro, das quais três ardiam durante o dia e as outras três à tarde. Bezalel e Aoliabe empregaram sete meses para fazer as obras de que acabo de falar e, então, passou-se o primeiro ano depois da saída do Egito. Eram dois artífices admiráveis, principalmente Bezalel, e eles, por si mesmos, inventaram várias coisas.
124. Êxodo 40. No começo do ano seguinte, no mês que os hebreus denominam nisã e os macedônios xântico, na lua nova, foi consagrado o Tabernáculo e todos os vasos que lá estavam. Deus então deu a conhecer que não fora em vão que o seu povo trabalhara numa obra tão magnífica, testemunhando o quanto ela lhe era agradável e como Ele queria ali morar e dar-lhe a honra de sua presença. Eis de que modo isso aconteceu: o céu era sereno, em toda a sua extensão, mas sobre o Tabernáculo apareceu uma nuvem, não tão espessa como as do inverno, mas suficiente para impedir que se pudesse ver através dela, e um pequeno orvalho caiu, o qual significava, para os que tinham fé, que Deus lhes ouvira os votos e os honrava com a sua presença.
125. Moisés, depois de recompensar todos os operários, cada qual segundo o seu mérito, ofereceu sacrifícios à entrada do Tabernáculo, como Deus lhe havia ordenado, isto é, um touro com um carneiro e um bode, pelos pecados. Direi como se faziam essas cerimônias quando falar dos sacrifícios e enumerarei as vítimas que eram oferecidas em holocausto e que deviam ser inteiramente queimadas e quais as que deviam ser comidas, segundo a permissão da Lei.
126. Levítico 8. Moisés borrifou com o sangue dos animais imolados as vestes de Arão e de seus filhos e os purificou com água da fonte e com o bálsamo de que há pouco falei, para que fossem feitos sacerdotes do Senhor. E continuou durante sete dias a fazer a mesma coisa. Santificou também o Tabernáculo e todos os vasos, com esse bálsamo e com o sangue dos touros e dos carneiros, dos quais todos os dias se matava um de cada espécie.
Levítico 9. Ordenou em seguida que se festejasse o sétimo dia e que cada qual sacrificaria segundo as suas posses. Eles obedeceram, com alegria, e ofereceram vítimas à porfia, as quais, apenas eram colocadas sobre o altar, e um fogo proveniente dele as consumia completamente, de uma vez, como se fosse um raio, na presença de todo o povo.
127.  Levítico 10. Arão sentiu então a maior dor que podia sentir um pai. Como tinha a alma elevada, julgou que Deus a havia permitido e suportou-a generosamente. Nadabe e Abiú, seus dois filhos mais velhos, tendo oferecido outras vítimas que não as determinadas por Moisés, as chamas se lançaram contra eles com tanta violência que lhes queimaram o estômago e o rosto. E eles morreram, sem que fosse possível socorrê-los. Moisés determinou que o pai e os irmãos levassem os corpos para fora do acampamento, a fim de serem sepultados honrosamente. E, embora todo o povo chorasse essas mortes tão inesperadas, proibiu-lhes que os lamentassem, de modo a ensinar-lhes que, tendo sido alguém honrado com a dignidade do sacerdócio, a glória de Deus lhe devia ser mais sensível que o afeto particular.
128.  Esse santo e admirável legislador recusou em seguida todas as honras que o povo lhe queria conceder, para entregar-se totalmente ao serviço de Deus. Não subia mais ao monte Sinai para consultá-lo, mas entrava no Tabernáculo a fim de ser instruído por Ele em tudo o que devia fazer. Continuou sempre, por modéstia, quer no vestuário, quer em tudo o mais, a viver como homem simples, sem ser diferente dos outros, exceto no cuidado que tinha da República. Dava por escrito ao povo as leis e as regras que deviam observar para viver em união e em paz e ser agradáveis a Deus. E eles nada faziam em tudo isso que não fosse conforme as ordens que dele recebiam.
129.  A seu tempo, falarei dessas leis. É preciso, porém, acrescentar aqui uma coisa que eu havia omitido no que se refere às vestes do sumo sacerdote, e é que Deus, para impedir que os que usavam essas vestes, tão santas e tão magníficas, pudessem abusar dos homens sob o pretexto do dom da profecia, jamais lhes honrava os sacrifícios sem dar sinais visíveis de sua presença, não somente ao seu povo mas também aos estrangeiros que lá se encontrassem. Quando lhe aprazia fazer esse favor, uma das duas sardônicas de que falei (e de cuja natureza seria inútil dizer algo, porque todos as conhecem bastante) — a que estava sobre o ombro direito do sumo sacerdote — lançava tal claridade que podia ser percebida de muito longe, o que, não lhe sendo natural e não acontecendo fora da ocasião, devia causar admiração àqueles que fingem parecer sábios, pelo desprezo que votam à nossa religião.
Eis, porém, aqui, outra coisa ainda mais admirável. É que Deus se servia ordinariamente dessas doze pedras preciosas, que o sumo sacerdote trazia sobre o seu essém, ou racional, para pressagiar a vitória. Pois antes que se levantasse o acampamento, delas saía tão viva luz que todo o povo ficava sabendo que a soberana Majestade estava presente e prestes a ajudá-los. Isso faz com que todos dentre os gregos que não têm aversão pelos nossos mistérios e se persuadiram pelos seus próprios olhos desse milagre chamem o essém de logiom, que significa &quot;oráculo&quot;, ou &quot;racional&quot;. Mas quando comecei a escrever isto, havia duzentos anos que essa sardônica e esse racional não lançavam mais tal resplendor e luz, porque Deus está irritado conosco, por causa de nossos pecados, como direi em outro lugar. Vou agora retomar o fio da minha narração.
130.  O Tabernáculo foi consagrado, e terminaram-se todas as coisas referentes ao serviço de Deus. O povo, fora de si pela alegria de ver que Deus se dignava morar no acampamento e ficar no meio deles, só pensava em entoar cânticos em seu louvor e em oferecer-lhe sacrifícios, como se não houvesse mais perigos nem males a temer e se tudo fosse suceder-lhes dali por diante segundo desejassem.
As tribos em geral e cada um em particular ofereciam presentes à sua adorável Majestade. Os doze chefes e príncipes dessas tribos ofereceram seis carros atrelados cada um com dois bois, para levar o Tabernaculo, e cada um deles ofereceu ainda um vaso do peso de setenta sidos, uma bacia do peso de cento e trinta sidos e um turíbulo que continha dez dáricos, que se enchiam de diversos perfumes. O vaso e a bacia serviam para pôr-se a farinha misturada com óleo, que se usava no altar dos sacrifícios. Para a expiação dos pecados, ofereciam-se em holocausto um novilho, um carneiro e cordeiros de um ano, juntamente com um bode. Cada um desses príncipes oferecia também outras vítimas, a que chamavam salutares e que consistiam em dois bois, cinco carneiros, cordeiros e cabritos de um ano. Isso faziam por doze dias em seguida, cada um somente no seu dia.
Moisés, como eu disse, não subia mais ao monte Sinai, no entanto entrava no Tabernaculo para consultar a Deus e saber dEle que lei queria estabelecer. Essas leis foram tão excelentes que só podiam ser atribuídas a Deus, e nossos antepassados as conservaram tão religiosamente durante alguns séculos que nunca julgaram que os prazeres da paz ou as necessidades da guerra os pudessem tornar desculpáveis, se as violassem. Mas me reservarei para falar disso num trabalho à parte.

CAPÍTULO 10
LEI QUE SE REFERE AOS SACRIFÍCIOS, AOS SACERDOTES, ÀS FESTAS E OUTRAS SOLENIDADES, TANTO CIVIS QUANTO POLÍTICAS.

131. Narrarei, aqui, somente algumas das leis que se referem às purificações e aos sacrifícios, pois estamos tratando dessa matéria. Há duas espécies de sacrifícios: particulares e públicos. Estes são ainda de duas maneiras, pois ou a vítima é totalmente consumida pelo fogo, o que lhe fez merecer o nome de holocausto, ou é oferecida em ação de graças e comida com essa mesma disposição por aqueles que a oferecem. Começarei por falar da primeira.
Levítico 1. Quando um homem particular oferece um sacrifício, apresenta um boi, um cordeiro e um cabrito. Os dois últimos não devem ter mais de um ano e o boi pode ter mais, porém devem ser machos e consumidos totalmente. Quando são imolados, os sacerdotes borrifam o altar com o sangue e, depois de os lavarem bem, cortam-nos em pedaços, põem sal e os colocam sobre o altar, onde o fogo já está aceso. Lavam depois os pés e as entranhas dos animais e as lançam ao fogo com o resto. As peles, porém, pertencem aos sacerdotes. Assim é que se faz, para os holocaustos.
Levítico 3. Nos sacrifícios que se fazem em ação de graças, matam-se animais da mesma espécie, mas é preciso que sejam sem mancha e tenham mais de um ano, não importando se forem fêmeas ou machos. Depois de imolados os animais, os sacerdotes borrifam o altar com o sangue e em seguida lá atiram os rins, parte do fígado e toda a gordura com a cauda do cordeiro. O peito e a coxa direita pertencem aos sacerdotes, e os que oferecem o sacrifício podem comer o que sobrar, durante dois dias, depois dos quais devem queimar o que restou. A mesma coisa se deve observar nos sacrifícios oferecidos pelos pecados. Os que não têm meios de sacrificar, porém, oferecem dos animais somente duas pombas ou duas rolas, uma das quais é oferecida em holocausto, sendo que a outra pertence aos sacerdotes, como explicarei mais detalhadamente no tratado que escreverei sobre os sacrifícios.
Aquele que pecou por ignorância oferece um cordeiro e um cabrito, ambos fêmeas e da idade que já dissemos. Mas os sacerdotes borrifam com o sangue somente os ângulos do altar, em vez de borrifá-lo por inteiro, e colocam sobre o altar os rins com uma parte do fígado e toda a gordura. Conservam para si a pele e toda a carne, que comem durante aquele dia, no Tabernáculo. A Lei proíbe que se guarde alguma coisa para o dia seguinte.
Aquele que pecou voluntariamente, mas em segredo, oferece um carneiro, como a Lei o determina, e os sacerdotes comem-lhe também a carne, naquele mesmo dia, no Tabernáculo.
Quando os chefes das tribos oferecem sacrifício pelos pecados, fazem-no como o povo em geral, com esta única diferença: é preciso que o touro e o cabrito sejam machos.
Levítico 2. A Lei determina também que nos sacrifícios, tanto particulares quanto públicos, se leve com o cordeiro a medida de um gômer de farinha de trigo, com um carneiro, dois gômeres e com um touro, três gômeres. Prescreve ainda que se ofereça com o touro a metade de um him de óleo — antiga medida dos hebreus que continha dois coros áticos —, com um carneiro, a terça parte dessa medida e com um cordeiro, a quarta parte. Além disso, era obrigatório oferecer a mesma quantidade de vinho, que se derramava em redor do altar. E, se alguém, para cumprir um voto, oferece em sacrifício farinha de trigo, lança-se um punhado sobre o altar e os sacerdotes tomam o resto para comer ou fazê-la cozer, misturan-do-a com óleo ou fazendo bolos. Mas é preciso queimar tudo o que o sacerdote oferece. A Lei proíbe oferecer em sacrifício um filhote de qualquer animal sem oferecer também a mãe, caso aquele não tenha pelo menos oito dias.
Oferecem-se também outros sacrifícios, tanto para se recuperar a saúde quanto por qualquer outro motivo, e comem-se bolos com a carne dos animais, dos quais os sacerdotes têm a sua parte, não lhes sendo permitido reservar qualquer porção para o dia seguinte.
Números 22 e 29. A Lei manda ainda sacrificar todos os dias, à custa do povo, ao nascer do dia e à tarde, um cordeiro de um ano e dois no dia de sábado, que se oferecem do mesmo modo. Na lua nova, oferecem-se, além das vítimas ordinárias, dois bois, sete cordeiros de um ano e um carneiro. E, se alguma coisa fosse esquecida, oferecia-se um bode pelos pecados, e no sétimo mês, ao qual os macedônios chamam hiperbereteom, ofereciam-se ainda um touro, um carneiro, sete cordeiros e um bode, pelos pecados.
No décimo dia da lua do mesmo mês, jejua-se até a tarde. Sacrificam-se, pelos pecados, um touro, um carneiro, sete cordeiros e um bode. E mais dois bodes, um dos quais é levado vivo para fora do acampamento, para o deserto, a fim de que o castigo merecido pelo povo por causa seus pecados caia sobre a cabeça desse animal. O outro bode é levado a uma arrabalde, isto é, um lugar próximo do acampamento e muito limpo, onde é queimado inteiro, com a pele, e dele nada se reserva.
Queima-se também um touro, que não é dado pelo povo, mas pelo sacerdote. Este, depois que levam ao Tabernáculo o sangue desse touro e o do bode, mergulha o dedo nele e borrifa sete vezes a coberta e o pavimento e outras tantas vezes a parte interna e as proximidades do altar de ouro e do grande altar que está descoberto à entrada do Tabernáculo. Levam-se depois, desses animais, as extremidades, os rins, parte do fígado e toda a gordura ao altar, e o sumo sacerdote acrescenta, de seu, um carneiro, que é oferecido a Deus em holocausto.
132. Levítico 23. No décimo quinto dia desse mesmo mês, aproximando-se o inverno, foi dada ao povo ordem de firmar bem as suas tendas e os seus pavilhões, cada um segundo as suas famílias, para que pudessem resistir ao vento, ao frio e às outras vicissitudes dessa triste estação. E, quando chegassem à terra que Deus lhes prometera, deveriam dirigir-se à cidade que lhes seria a capital, porque nela o Templo seria construído, e ali celebrar uma festa durante oito dias, oferecendo vítimas a Deus, umas para serem queimadas em holocausto e outras em ação de graças, e levando em suas mãos ramos de mirto, de salgueiro e de palmas, aos quais se prenderiam limões.
0 sacrifício que se faz no primeiro desses oito dias é de holocausto, no qual se oferecem treze bois, catorze cordeiros, dois carneiros e um bode, para a expia-ção dos pecados. Continua-se nos dias seguintes a fazer a mesma coisa, exceto que se diminui um boi cada dia, até que o número seja reduzido a sete. O oitavo dia é de descanso e se comemora não se fazendo obra alguma. Sacrificam-se nesse dia, como já dissemos, um novilho, um carneiro, sete cordeiros e um bode, para o pecado [Êx 12,13 e 23]. Eis a seguir as cerimônias do Tabernáculo, que sempre foram observadas entre os homens de nossa nação.
133. Levítico 23, Números 9 e Deuteronômio 16. No mês de xântico, a que chamaram nisã e com o qual começa o ano, no décimo quarto dia da lua, quando o Sol está na linha de Áries, que é o tempo em que os nossos pais saíram do Egito e do cativeiro juntamente, a Lei nos obriga a renovar o sacrifício que então fizeram e ao qual se dá o nome de Páscoa. E celebramos essa festa segundo as nossas tribos, sem nada reservar para o dia seguinte das coisas sacrificadas, que é o décimo quinto dia do mês e o primeiro da festa dos Asmos, que se segue imediatamente à da Páscoa e dura sete dias, durante os quais não se come outro pão a não ser desse, sem fermento, e matam-se cada dia dois touros, um carneiro e sete cordeiros, que são oferecidos em holocausto, aos quais se acrescenta, pelos pecados, um cabrito, do qual os sacerdotes se alimentam.
No décimo sexto dia do mês, que é o segundo dos Asmos, começa-se a comer os grãos que foram recolhidos e nos quais ainda não se tocou. Como é justo testemunhar a Deus gratidão pelos bens de que lhe somos devedores, oferecem-se as primícias da cevada, deste modo: faz-se secar no fogo um feixe de espigas e delas se tira o grão, que é limpo. Depois é oferecida sobre o altar a medida de um gômer, da qual lá se deixa um punhado — o resto é para os sacerdotes. Em seguida, é permitido a todo o povo fazer a ceifa, quer em geral, quer em particular. E, nesse tempo de primícias, oferece-se a Deus um cordeiro em holocausto.
134. Levítico 23. Sete semanas depois da festa da Páscoa, que são quarenta e nove dias, oferece-se a Deus, no qüinquagésimo dia, que os hebreus chamam Asarta, isto é, &quot;plenitude de graças&quot;, e os gregos, Pentecostes, um pão de farinha de trigo, de dois gômeres, feito com fermento, e matam-se dois cordeiros, que servem para a ceia dos sacerdotes, sem que se possa reservar coisa alguma para o dia seguinte. Quanto aos holocaustos, oferecem-se três novilhos, dois carneiros, catorze cordeiros e dois bodes pelos pecados.
135. Não há festa na qual não se ofereça holocausto e não se deixe de trabalhar, pois são duas coisas que a Lei obriga indispensavelmente a observar. Depois dos sacrifícios, come-se o que foi oferecido. Dão-se também, para esse fim, às custas do povo, vinte e quatro medidas de farinha de trigo, das quais se faz pão sem fermento. Destes, cozem-se dois a dois, na vigília do sábado. E, na manhã desse sábado, colocam-se doze sobre a mesa sagrada, seis de um lado e seis de outro, em frente uns dos outros, e lá ficam, com os pratos cheios de incenso, até o sábado seguinte, quando, depois de se terem colocado outros em seu lugar, são entregues aos sacerdotes, para que os comam.
O incenso é queimado no fogo, para que consuma os holocaustos, e põe-se outro com os pães. O sumo sacerdote oferece, de seu, duas vezes por dia, uma medida de farinha pura, misturada com óleo e um pouco cozida, da qual lança pela manhã a metade no fogo, e à tarde, a outra metade. Mas basta de falar dessas coisas, que explicarei melhor em outro lugar.
136.  Números 3. Depois que Moisés separou a tribo de Levi das outras, para consagrá-la a Deus, purificou-a com água da fonte e ofereceu sacrifício. Entregou-lhes em seguida a guarda do Tabernáculo e dos vasos sagrados e ordenou-lhes que se ocupassem com grande cuidado desse mister, segundo os sacerdotes o ordenassem. Assim, os dessa tribo começaram desde então a ser considerados como consagrados a Deus.
Levítico 7 e 17. Moisés declarou nessa mesma ocasião que animais eram considerados puros, dos quais era permitido comer, e de quais não era permitido comer, por serem impuros. Diremos disso a razão quando se apresentar oportunidade. Quanto ao sangue, foi absolutamente proibido alguém alimentar-se dele, porque julgavam que a alma e o espírito dos animais estavam encerrados no sangue. Proibiu-se também comer a carne dos que morriam por si mesmos, bem como gordura de cabra, de ovelha e de boi.
137.  Levítico 14. Ordenou Moisés que os leprosos fossem separados dos outros, como também os homens que sofressem de fluxo de sêmen; que as mulheres não teriam relações com os homens senão sete dias depois de terminadas as suas purgações; que quem tivesse sepultado um cadáver só seria considerado puro oito dias depois; que o homem que continuasse por mais de sete dias a ser vítima de fluxo de sêmen ofereceria dois cordeiros fêmeas, um dos quais seria sacrificado, e o outro, dado aos sacerdotes; que quem tivesse polução noturna deveria se lavar na água fria, para se purificar, como os maridos depois de se terem aproximado de suas esposas; que os leprosos seriam separados para sempre dos demais e considerados corpos mortos; e que, se Deus respondesse às orações de um deles e alguém recobrasse a saúde e uma cor viva comprovasse que estava curado da doença, tal pessoa testemunharia a sua gratidão por meio de diversas oblações e sacrifícios, de que falaremos em outro lugar.
Isso faz ver o quanto é ridícula a fábula inventada por aqueles que dizem que Moisés fugiu do Egito porque tinha lepra e que nós, hebreus, tendo sido também atingidos pela doença, fomos levados por ele, pela mesma razão, à terra de Canaã. Se isso fosse verdade, teria ele desejado, para a sua própria vergonha, estabelecer semelhante lei? Acaso não se teria oposto a ela se outro a tivesse apresentado, visto que há nações entre as quais os leprosos não são desprezados nem separados dos outros e ainda são elevados a honras, a cargos militares na guerra, a empregos públicos no governo e mesmo admitidos aos Templos?
Se então Moisés estivesse contaminado por essa doença, quem o teria impedido de dar ao povo leis que seriam antes vantajosas para ele que prejudiciais? E assim, não fica claro que isso é coisa inventada, por pura malícia, contra a nossa nação? Mas a verdade é que, como Moisés estava isento da doença e vivia com um povo que também o era, ele instituiu essa lei para a glória de Deus, com relação aos contaminados. Deixo a cada qual, todavia, a liberdade de julgar como bem lhe aprouver.
138.  Levítico 12. Moisés proibiu também às mulheres que haviam dado à luz recentemente entrar no Tabernáculo e assistir às funções. Só poderiam entrar quarenta dias depois, se tivessem tido um filho, ou após oitenta dias, se fosse uma filha, e eram obrigadas, depois desse tempo, a oferecer vítimas, sendo uma parte destas consagrada a Deus. A outra pertencia aos sacerdotes.
139.  Números 5. Se um marido desconfiava da esposa e ela era suspeita de adultério, oferecia uma medida de farinha de cevada: jogava um punhado sobre o altar, e o resto era para os sacerdotes. Um dos sacerdotes punha então a mulher à porta que está em frente do Tabernáculo, tirava-lhe o véu que tinha sobre a cabeça, escrevia o nome de Deus em um pergaminho e a obrigava a declarar com juramento se havia profanado a fidelidade conjugai. E ela acrescentava esta imprecação: se a tivesse violado e o seu juramento fosse falso, que a sua coxa direita se destrancasse no mesmo instante e o seu ventre se rasgasse e ela morresse assim miseravelmente. Mas se, ao contrário, o marido, impelido somente pelo ciúme, por excesso de amor, havia injustamente suspeitado dela, prouvesse a Deus dar-lhe um filho dentro de dez meses.
Após esse juramento, o sacerdote mergulhava na água o pergaminho sobre o qual havia escrito o nome de Deus. Depois que esse nome ficava completamente apagado e diluído pela água, misturava a água com a poeira do pavimento do Tabernáculo e dava a mistura para a mulher beber. Se fora acusada injustamente, ela engravidaria e daria à luz em felicidade. Mas se, ao contrário, era culpada de ter por falso juramento e por sua impudicícia faltado à fidelidade a Deus e ao marido, morria com infâmia, da maneira que dissemos.
140.  Essas foram as leis que Moisés deu ao povo com relação aos sacrifícios e às purificações. Eis ainda outras que ele também criou: proibiu absolutamente o adultério, pois julgava que a felicidade do casamento consistia nessa pureza e naquela fidelidade que o marido deve à mulher e a mulher ao marido e que importa à República que os filhos sejam legítimos.
141.  Levítico 18, 29 e 21. Moisés condenou como crime horrível o incesto cometido com a própria mãe, ou madrasta, ou tia, tanto do lado paterno como do materno, ou irmã, ou nora. Proibiu coabitar com a própria mulher enquanto ela estivesse nas suas purgações. Condenou como crime abominável o coito com animais ou com rapazes e ordenou para todos esses pecados a pena de morte.
142.  Quanto aos sacerdotes, quis que fossem muito mais castos que os outros, pois não somente os obrigou a observar essas mesmas leis, mas lhes proibiu esposar mulher que houvesse sido abandonada, ou escrava, ou alguma que tivesse sido hospedeira, cabareteira ou repudiada, fosse qual fosse o motivo.
Acrescentou ainda, com relação ao sumo sacerdote, que ele não podia, como os outros sacerdotes, desposar viúva, mas seria obrigado a receber uma virgem e conservá-la. Proibiu-lhe ainda aproximar-se de algum morto, embora fosse permitido aos outros aproximar-se de pais, mães, irmãos e filhos mortos. Acrescentou, para todos, que fossem verdadeiros e muito sinceros em todas as suas palavras e ações. Se entre os sacerdotes houvesse algum defeito corporal, ser-lhe-ia permitido estar com os demais, mas não poderia subir ao altar ou entrar no Templo. Eram obrigados a ser puros e castos não somente quando celebravam o serviço divino, mas em todo o resto de sua vida.
Levítico 10. Quando usavam a veste sagrada,* conveniente ao seu ministério, eram obrigados, além da pureza na qual deviam sempre viver, a tal sobriedade que lhes era proibido beber vinho, e as vítimas que ofereciam deviam ser de animais inteiros, sem mancha. Essas foram as leis que Moisés outorgou no deserto e fez observar durante a sua vida. Instituiu ainda outras para serem observadas no futuro, quando o povo estivesse de posse da terra de Canaã.
143. Levítico 5. Moisés determinou que de sete em sete anos a terra descansasse, sem ser cultivada. Não se plantaria nela coisa alguma, do mesmo modo como havia ordenado que no sétimo dia o povo não trabalhasse. A isso acrescentou que tudo o que a terra produzisse por si mesma no ano de descanso seria comum a todos, mesmos aos estrangeiros, e não seria permitido a ninguém guardar alguma coisa disso.
Quis também que a mesma coisa se observasse depois de sete vezes sete anos e que no ano seguinte, que é o qüinquagésimo e Jubileu dos hebreus, isto é, liberdade, os devedores ficassem livres de todas as suas dívidas e os escravos fossem libertados. Entende-se serem estes todos os que antes eram livres, mas foram reduzidos à escravidão em vez de serem condenados à morte, como castigo por terem violado alguma lei. Essa lei determinava também que as heranças voltariam aos seus antigos possessores, desta maneira: quando o Jubileu se aproximasse, o vendedor e o comprador da herdade calculavam juntos o que ela rendera e as despesas que haviam feito. Se a renda superasse as despesas, o vendedor retomava a herdade, e se, ao contrário, as despesas superassem a renda, o vendedor restituía o excesso, e a herdade voltava a ele. No entanto, se a renda fosse igual às despesas, o antigo possessor retomava a posse de sua herdade.
A mesma coisa se observava quanto às casas que estavam nas cidades e nas aldeias rodeadas de muros: o vendedor podia voltar à sua casa, dando o preço da alienação antes de o ano terminar. Mas se deixasse de o entregar, o comprador estava confirmado na sua posse. Moisés recebeu todas essas leis do próprio Deus, no monte Sinai, para dá-las ao povo, quando estavam acampados aos pés do monte, e escreveu-as para serem observadas por aqueles que viessem depois deles.

CAPÍTULO 11
RECENSEAMENTO DO POVO. SUA MANEIRA DE ACAMPAR E DE LEVANTAR ACAMPAMENTO E A ORDEM EM QUE MARCHAVAM.

144.  Números 1. Moisés, tendo assim provido o que se referia ao culto a Deus e ao governo do povo, voltou a sua atenção para o que concernia à guerra, pois estava prevendo que a nação teria grandes lutas a sustentar, e começou por ordenar aos príncipes e aos chefes de tribos, exceto à de Levi, que fizessem um recenseamento exato de todos os que estavam em condições de pegar em armas [Nm 26]. Como os levitas haviam sido consagrados ao serviço de Deus, estavam dispensados de todo o resto. Feito o recenseamento, constataram que seiscentos e três mil seiscentos e cinqüenta eram aptos. No lugar da tribo de Levi, Moisés pôs Manasses, filho de José, no número dos príncipes das tribos e Efraim no lugar de seu pai, José, segundo o que vimos, pois Jacó pedira a José que lhe desse os dois filhos em adoção.
145.  O Tabernáculo foi colocado no meio do acampamento, e três tribos postaram-se de cada lado, com grandes espaços entre elas. Escolheram um grande lugar para instalar um mercado, onde seria vendida toda espécie de mercadoria. Os negociantes e os artífices foram estabelecidos em suas tendas e oficinas com tal ordem que parecia uma cidade. Os sacerdotes e depois deles os levitas ocupavam os lugares mais próximos do Tabernáculo [Nm 9]. Fez-se à parte uma contagem dos levitas, que somaram vinte e três mil oitocentos e oitenta homens, incluídas as crianças de mais de trinta dias.
146.  Êxodo 40 e Números 10. Durante todo o tempo em que a nuvem de que falamos cobria o Tabernáculo, o que denotava a presença de Deus, o exército permanecia no mesmo lugar. Quando a nuvem se afastava, mudava-se o acampamento. Moisés inventou uma espécie de trombeta de prata, feita como vou dizer. Tinha o comprimento de quase um côvado, e o tubo era mais ou menos como uma flauta. Não tinha aberturas, a não ser a que era necessária para a boca. A extremidade era semelhante à de uma trombeta comum. Os hebreus chamam-na asofra. Moisés mandou fazer duas delas, uma das quais servia para reunir o povo, e a outra, para reunir todos os chefes quando era necessário tomar alguma deliberação sobre a República. Quando se tocavam as duas ao mesmo tempo, todos, geralmente, se reuniam.
147.  Quando o Tabernáculo mudava de lugar, era a seguinte a ordem que se observava. Ao primeiro som de trombeta, as três tribos que estavam do lado do oriente levantavam acampamento. Ao segundo som, as três tribos que estavam do lado sul faziam o mesmo. Desarmavam em seguida o Tabernáculo, que devia ser colocado entre essas seis tribos, que marchavam atrás. Os levitas ficavam em redor do Tabernáculo. Ao terceiro som de trombeta, as três tribos que estavam do lado do ocidente também marchavam. E, ao quarto som de trombeta, as três que estavam do lado do setentrião seguiam-nas. Serviam-se dessas mesmas trombetas nos sacrifícios, tanto nos dias de sábado quanto nos outros. E assim, solenizou-se então, por meio de sacrifícios e oblações, a primeira Páscoa celebrada por nossos pais depois que saíram do Egito.

CAPÍTULO 12
MURMURAÇÃO DO POVO CONTRA MOISÉS E O CASTIGO QUE DEUS LHES IMPÕE.

148.  Números 11. O exército havia levantado acampamento perto do monte Sinai e, tendo marchado durante alguns dias, chegaram a um lugar chamado Iseremote.* Ali começaram novamente a murmurar e a lançar sobre Moisés a culpa de todos os seus males, dizendo que fora por sua insistência que haviam abandonado um dos melhores países do mundo; que, em lugar da felicidade que os fizera esperar, viviam oprimidos por toda espécie de misérias; que não tinham água; e que, se o maná lhes viesse a faltar, a morte lhes seria inevitável.
Acrescentavam várias outras injúrias contra Moisés. Mas um dentre eles declarou que não deviam esquecer assim os favores que lhe deviam nem desesperar do socorro de Deus. Tais palavras, em vez de acalmá-los, irritaram-nos ainda mais, e aumentaram a murmuração. Moisés, sem se admirar de vê-los tão injustamente revoltados contra ele, disse-lhes que, embora não tivessem razão alguma para tratá-lo daquele modo, prometia obter de Deus carne em abundância, não somente para um dia, mas para vários. E, como não quisessem acreditar nele e alguém lhe perguntasse como poderia dar de comer a tão grande multidão, respondeu-lhe: &quot;Vereis logo que nem Deus nem eu, que somos tão pouco considerados por vós, deixaremos de vos ajudar&quot;.
Apenas acabara de dizer essas palavras, todo o acampamento ficou coberto de codomizes, de que cada qual tomou quanto quis. Mas Deus não deixou de castigá-los imediatamente, pela insolência e pela maneira injuriosa com que haviam tratado o seu servo. Isso custou a vida a vários deles, o que fez com que se desse a esse lugar o nome que tem ainda hoje: Chibrotaba,** isto é, &quot;sepulcros da concupiscência&quot;.
__________
* Ou Hazerote.
** Ou Quibrote-Hataavá.


CAPÍTULO 13
MOISÉS MANDA EXPLORAR A TERRA DE CANAÃ. MURMURAÇÃO E SEDIÇÃO DO POVO POR CAUSA DO RELATÓRIO QUE LHES FOI FEITO. JOSUÉ E CALEBE
FALAM GENEROSAMENTE DE CANAÃ. MOISÉS, DA PARTE DE DEUS,
ANUNCIA-LHES QUE, COMO CASTIGO PELO PECADO, ELES NÃO ENTRARIAM
NA TERRA QUE ELE LHES HAVIA PROMETIDO, MAS QUE SOMENTE OS SEUS
FILHOS A POSSUIRIAM. LOUVOR DE MOISÉS, A EXTREMA VENERAÇÃO EM
QUE SEMPRE VIVEU E COMO AINDA É VENERADO.

149. Números 13 e 14. Moisés levou em seguida o exército para as fronteiras dos cananeus, a um lugar chamado Para, onde é difícil morar, e ali falou a todo o povo, desta maneira: &quot;Deus, pela sua extrema bondade para convosco, prometeu-vos a liberdade, terra abundante e toda espécie de bens. Agora desfrutareis uma e logo outra, pois acabamos de chegar à fronteira dos cananeus, dos quais nem os reis, nem as cidades, nem todas as forças unidas juntamente nos poderão impedir o usufruto do efeito de suas promessas. Preparai-vos, portanto, para combater generosamente, pois não será sem luta que vos abandonarão esse rico país. Mas nós o possuiremos contra a vontade deles, depois de os termos vencido. Precisamos começar por mandar alguém verificar a fertilidade da terra e a força dos que nela habitam. E necessitamos, principalmente, nos unirmos todos, mais do que nunca, e prestarmos a Deus a honra que lhe devemos, a fim de que Ele seja o nosso protetor e o nosso auxílio&quot;.
O povo enalteceu bastante essas propostas e escolheu doze dos mais importantes entre eles, um de cada tribo, para ir explorar o país dos cananeus, a Começar do lado que limita com o Egito, continuando até a cidade de Hamate e o monte Líbano. Empregaram quarenta dias nessa viagem e, depois de considerarem bastante a natureza do país e de estarem muito particularmente informados da maneira de viver dos seus habitantes, fizeram uma relação do que tinham visto e trouxeram frutos daquela terra, cujo tamanho e beleza animaram o povo a conquistá-la. Mas, ao mesmo tempo, todos esses enviados, exceto dois, desanimaram o povo pela dificuldade da empresa, dizendo que era necessário atravessar grandes rios, muito profundos, escalar montanhas quase inacessíveis, atacar cidades muito fortes e poderosas, combater os gigantes com se haviam deparado em Hebrom e que nada haviam encontrado de tão temível depois de haverem saído do Egito.
O medo desses homens passou assim do seu espírito para o do povo, que perdeu a esperança de obter um feliz resultado em tão difícil empreendimento. E então voltaram às suas tendas, com as suas mulheres e filhos, para lastimar a sua desgraça. O sofrimento e o desânimo levou-os mesmo a dizer que Deus lhes fazia muitas promessas, mas que não viam os resultados. Insurgiram-se ainda contra Moisés e passaram toda a noite a clamar contra ele e contra Arão. E, logo que raiou o dia, reuniram-se tumultuosamente, com o intento de apedrejá-los e de voltar para o Egito.
Josué, filho de Num, da tribo de Efraim, e Calebe, da tribo de Judá, que eram dois dos doze que haviam ido fazer o reconhecimento, vendo aquela desordem e temendo as conseqüências, disseram-lhes que não deviam perder a esperança, nem acusar a Deus de ser infiel às suas promessas e nem prestar fé aos vãos temores de que ouviram falar, representando as coisas muito diferentes do que eram na realidade, mas deviam acreditar na palavra deles e segui-los para a conquista daquela terra tão fértil; que se ofereciam para servir-lhes de guia naquela gloriosa empresa; que não viam nisso tantas dificuldades como lhes haviam dito: as montanhas não eram tão altas nem aqueles rios tão profundos que pudessem arrefecer nos homens a coragem; e que nada tinham a temer, pois Deus se manifestava em favor deles e queria combater por eles. &quot;Marchai, pois, sem temor&quot;, acrescentaram, &quot;na certeza de seu auxílio, e segui-nos para onde estamos prontos a vos levar!&quot;
Enquanto esses dois verdadeiros e generosos israelitas assim falavam, para procurar acalmar a multidão tão revoltada, Moisés e Arão, prostrados por terra, rogavam a Deus não que os livrasse do furor do povo, mas que tivesse piedade da loucura daquela gente e lhes acalmasse os espíritos perturbados pelas necessidades presentes e por vãs apreensões para o futuro. A oração foi ouvida, e viu-se uma nuvem cobrir todo o Tabernáculo, sinal de que Deus o enchia com a sua presença.
Moisés, então, cheio de confiança, apresentou-se ao povo e disse-lhes que Deus estava resolvido a castigá-los, não tanto quanto eles o mereciam, mas do modo como o bom pai castiga os seus filhos. &quot;Pois&quot;, acrescentou, &quot;tendo entrado no Tabernáculo para pedir-lhe com lágrimas que não vos exterminasse, Ele me fez ver os benefícios com que já vos presenteou, bem como a vossa extrema ingratidão e a ofensa que lhe fazeis em prestar mais fé a falsas referências que às suas promessas. No entanto garantiu-me que, por vos ter escolhido dentre todas as nações para serdes o seu povo, não vos destruirá inteiramente, mas, para castigo de vosso pecado, não possuireis a terra de Canaã, nem desfrutareis a doçura e a abundância de seus frutos, e andareis errantes durante quarenta anos pelo deserto, sem ter casa nem cidades, o que não impedirá que Ele dê a vossos filhos a posse do país e dos bens que vos prometeu e dos quais vos tornastes indignos por vossa murmuração e desobediência&quot;.
Essas palavras encheram o povo de espanto e de profunda tristeza. Rogaram a Moisés que fosse o seu intercessor junto a Deus, para que Ele se dignasse esquecer-lhes a falta e cumprisse as suas promessas. Ele respondeu-lhes que não deviam esperar que a sua soberana Majestade se deixasse comover pelos seus rogos, porque não fora por transporte de cólera ou por leviandade, como os homens, mas por ato de justiça e de vontade deliberada que Deus havia pronunciado contra eles aquela sentença.
150. Ainda que pareça incrível que um só homem tenha podido acalmar num momento uma quase incontável multidão de homens, no mais forte de sua agitação e revolta, não há motivo para admiração, porque Deus, que sempre assistia Moisés, lhes havia preparado o coração para deixar-se persuadir por aquelas palavras, e porque já haviam experimentado muitas vezes, no meio de tanta infelicidade que os afligiu, castigos pela incredulidade e desobediência. Mas que maior sinal se pode desejar da eminente virtude desse admirável legislador e da maravilhosa autoridade que conquistou do que ver que não somente aqueles que viviam no seu tempo, mas toda a sua posteridade o tem em veneração? Tanto é que, ainda hoje, não se vê entre os hebreus quem não se julgue obrigado a observar com exatidão as suas ordens ou que não o considere presente e prestes a castiaar quem as infringir.
Dentre várias outras provas dessa autoridade mais que humana por ele adquirida, eis aqui uma, que me parece muito importante. Pessoas que tinham vindo das províncias de além do Eufrates para visitar o nosso Templo e nele oferecer os seus sacrifícios, tendo caminhado com grande perigo durante quatro meses, com muitas despesas e dificuldades, não puderam conseguir nem mesmo uma parte pequenina dos animais que ofereceram em holocausto, pois a nossa lei não o permite, por certas razões. Outras não puderam obter a licença para sacrificar. Outras ainda foram obrigadas a deixar os seus sacrifícios incompletos. E outras, por fim, não puderam sequer entrar no Templo. No entanto não se julgaram ofendidas e nem fizeram a menor queixa, preferindo obedecer às leis estabelecidas por esse grande personagem a satisfazer os próprios desejos. Essas pessoas foram levadas a tal submissão unicamente pela admiração à virtude de Moisés, porque, persuadidos de que ele recebera essas leis do próprio Deus, consideravam-no mais que um homem.
E, não há muito tempo, pouco antes da guerra dos judeus, sob o reinado do imperador Cláudio, quando Ismael era sumo sacerdote, a Judéia foi flagelada por uma grande carestia — uma medida de farinha era vendida por quatro dracmas. Levou-se, para a festa dos Asmos, setenta medidas, que perfazem trinta e um medins sicilianos e quarenta e um medins áticos, sem que nenhum dos sacerdotes, embora atormentados pela fome, ousasse tocar naquilo para comer, de tanto que temiam faltar à Lei e atrair sobre si a cólera de Deus, que castiga tão severamente os pecados, mesmo os ocultos.
Quem se admirará, então, de que Moisés tenha feito coisas tão extraordinárias, se depois de tantos séculos e ainda hoje vemos, no que deixou escrito, tal autoridade que mesmo os nossos inimigos são obrigados a reconhecer que foi o próprio Deus quem, por meio dele, outorgou aos homens uma regra de vida tão perfeita e se serviu de seu admirável proceder para fazer com que a recebessem? Todavia deixo a cada qual que julgue como lhe aprouver.



















Livro Quarto

CAPÍTULO 1
MURMURAÇÃO DOS ISRAELITAS CONTRA MOISÉS. ELES ATACAM OS
CANANEUS SEM SUA ORDEM E SEM TER CONSULTADO A DEUS. SÃO POSTOS
EM FUGA, COM GRANDES PERDAS. RECOMEÇAM A MURMURAR.

151. Números 14. Por maiores que fossem as penas sofridas pelos israelitas no deserto, nada os afligia mais que o fato de Deus não lhes permitir guerrear contra os cananeus. Eles não queriam obedecer às ordens de Moisés, que lhes havia mandado ficar em descanso, e, convencidos de não terem necessidade do auxílio dele para vencer os inimigos, acusavam-no de querer deixá-los sempre naquela miséria, a fim de que não pudessem passar sem ele.
Assim, resolveram empreender essa guerra, na certeza de que não era em consideração a Moisés que Deus os favorecia, mas porque Ele se havia declarado protetor deles, como o fora de seus antepassados; que Ele, depois de os haver libertado da servidão, por causa da virtude deles, lhes daria a vitória se combatessem valentemente; que eram bastante fortes por si mesmos para vencer os inimigos, embora Moisés estivesse tentando impedir que Deus lhes fosse favorável; que lhes seria mais vantajoso governar-se por seu próprio conselho que obedecer cegamente a Moisés, como a um tirano, depois de sacudido o jugo dos egípcios; que já havia muito tempo se deixavam enganar por seus artifícios, quando ele se vangloriava de ter colóquios com Deus e de ser por Ele instruído em todas as coisas, como se ele, por uma graça particular, fosse o único a conhecer o futuro ou se eles não pertencessem também à raça de Abraão; que a prudência os obrigava a desprezar o orgulho de um homem e a confiar somente em Deus para conquistar um país do qual Ele lhes havia prometido a posse; e que, enfim, não deviam deixar-se mais iludir por Moisés sob o pretexto das ordens que ele fingia dar-lhes da parte de Deus.
Todas essas considerações, unidas à extrema necessidade em que se encontravam naqueles lugares desertos e estéreis, fê-los tomar essa deliberação, e marcharam contra os cananeus. E aquele povo, sem se admirar de vê-los aproximar-se tão audaciosamente e em tão grande número, recebeu-os com tanta violência que mataram muitos ali mesmo e puseram os outros em fuga, perseguindo-os até o acampamento. Essa perda afligiu tanto os israelitas que, após se terem vangloriado com a esperança de um feliz resultado, constataram que Deus estava irritado, porque, sem esperar ordem dEle, se haviam aventurado à guerra, e agora tinham motivo de temer ainda mais o futuro.
152. Moisés, vendo-os tão abatidos e temendo que os inimigos, orgulhosos pela vitória, a quisessem levar mais além, conduziu o exército para o deserto, depois que todos lhe prometeram obediência, que nada mais fariam sem o seu conselho e só atacariam os cananeus depois de receber ordens de Deus. Porém, como os grandes exércitos obedecem com dificuldade aos seus chefes, principalmente quando sofrem muito, os israelitas, cujo número era de seiscentos mil combatentes e que mesmo na prosperidade eram muito indóceis, oprimidos por tantas dificuldades, recomeçaram a murmurar contra Moisés e voltaram toda a sua cólera contra ele.
Essa sedição progrediu tanto que não conhecemos outra semelhante, seja entre os gregos, seja mesmo entre os bárbaros, e teria causado a ruína inteira do povo se Moisés, sem considerar a ingratidão que demonstravam, querendo apedrejá-lo, não os tivesse livrado do perigo por um ato extraordinário de sua bondade. Eles estavam não somente ultrajando o seu legislador, mas ao próprio Deus, desprezando os mandamentos que Ele lhes havia preparado. Vou dizer-lhes qual foi a causa dessa sedição e do proceder de Moisés, depois de a ter debelado.

CAPÍTULO 2
CORÁ E DUZENTOS E CINQÜENTA DOS PRINCIPAIS ISRAELITAS DE TAL MODO
REVOLUCIONAM O POVO QUE ELES TENTAM APEDREJAR MOISÉS EARÃO.
MOISÉS FALA-LHES COM TANTA VEEMÊNCIA QUE ACALMA A SEDIÇÃO.

153.  Números 16. Corá, que era muito considerado entre os hebreus, tanto por sua descendência quanto por suas riquezas, e cujas palavras eram persuasivas a ponto de causar grandíssima impressão no espírito do povo, concebeu tanta inveja ao ver Moisés elevado a tal autoridade e preferido a ele, da mesma tribo e muito mais rico, que se queixou em voz alta a todos os levitas e particularmente aos parentes. Dizia ser coisa insuportável que Moisés, pela sua ambição, por seus artifícios e com o pretexto de comunicações com Deus, buscasse apenas a própria glória, em detrimento de todos os outros, e assim, contra toda razão e sem ter em conta os votos do povo, tivesse escolhido Arão, seu irmão, para sumo sacerdote e, por usurpação tirânica, distribuído as outras honras a quem lhe aprouve conceder.
Disse também que a injúria que lhes fazia era tanto maior e mais perigosa quanto secreta e sem aspecto de violência, e assim a liberdade deles se acharia oprimida antes que o pudessem perceber — porque, enquanto os que se sabiam indignos de comandar eram elevados a tal honra, com o consentimento de todos, aqueles que, ao contrário, haviam perdido a esperança de lá chegar pelos caminhos da honestidade e da liceidade e não ousavam empregar a força, por medo de perder a reputação de probidade, usavam de todas as espécies de meios ilícitos para isso. Assim, a prudência os obrigava a castigar semelhantes atentados, antes que os culpados se julgassem descobertos e sem esperar que, tendo-se fortalecido, passassem por inimigos públicos e declarados.
&quot;Pois qual razão&quot;, acrescentou ele, &quot;pode Moisés alegar, para conferir a dignidade de sumo sacerdote a Arão e aos filhos deste, preferindo-os a todos os outros?&quot; Se Deus havia desejado que a tribo de Levi fosse elevada a essa honra, ele, Cora, devia ter sido preferido a Arão, pois era da mesma tribo que este, porém mais rico e mais velho. E se, ao contrário, a antigüidade das tribos fosse considerada, a honra devia ter sido concedida à de Rúben e dada a Data, Abirão e Fala, que eram os mais velhos e mais ricos dessa tribo!
Cora assim falava com pretexto de aflição e interesse pelo bem público, mas na verdade queria incitar o povo à rebelião e obter, por intermédio deste, o sumo sacerdócio. As queixas espalharam-se não somente em toda a tribo de Levi, mas logo passaram também às outras, com mais exagero ainda, pois cada qual lhes acrescentava um ponto, e o acampamento inteiro ficou cheio desses sentimentos. As coisas progrediram tanto que duzentos e cinqüenta dentre os principais entraram no partido de Cora, intentando destituir Arão do sumo sacerdócio e desonrar Moisés.
O povo rebelou-se de tal modo que tomaram pedras para matar Arão e Moisés, e todos correram em massa, com horrível tumulto, para o Tabernáculo. Gritavam que para se libertarem da escravidão era necessário matar aquele tirano que lhes ordenava coisas insuportáveis sob o pretexto de obedecer a Deus, mas que Ele não teria tolerado ver Arão eleito sumo sacerdote como se fora escolha dEle, havendo tantos outros mais dignos de ocupar o cargo, e que quando desejasse concedê-lo não seria pelo ministério de Moisés, e sim pelo sufrágio de todo o povo.
154. Embora Moisés fosse informado das calúnias de Cora e visse a que fúria o povo se deixava transportar, não se admirou, porque confiava na pureza de sua consciência e sabia que não fora somente ele, mas também o próprio Deus quem havia honrado Arão com o sumo sacerdócio. Assim, ele apresentou-se corajosamente à irritada multidão. E, em vez de dirigir a palavra a todo o povo, dirigiu-a a Cora, apontando com o dedo aquelas duzentas e cinqüenta pessoas de classe que o acompanhavam.
Elevando a voz, assim lhes falou: &quot;Estou de acordo em que vós e os que vejo unidos a vós sois muito respeitáveis e não desprezo mesmo a ninguém dentre o povo, embora vos sejam inferiores em riquezas, bem como em tudo o mais. Todavia se Arão foi constituído sumo sacerdote, não o foi por suas riquezas, pois sois mais ricos que ele e eu juntamente. Não foi também por causa da nobreza de sua descendência, pois Deus nos fez nascer todos os três de uma mesma família, e temos um mesmo avô. Não foi também o afeto fraterno que me fez elevá-lo a esse cargo, pois se eu tivesse considerado outra coisa senão a Deus e a obediência que lhe devo, teria preferido antes tomar essa honra para mim, pois ninguém me é mais próximo que eu mesmo. Que interesse teria eu de ficar me expondo ao perigo, ao qual estou sujeito por causa das injustiças, e deixar a outro o cargo mais vantajoso? Sou inocente desse crime, mesmo porque Deus não toleraria que eu o desprezasse dessa maneira ou que vos tivesse feito ignorar o que devíeis fazer para agradá-lo. Ora, ainda que tenha sido Ele mesmo, e não eu quem honrou Arão com esse cargo, ele está pronto a cedê-lo àquele que for escolhido pelo vosso sufrágio, sem pretender prevalecer-se daquilo que obteve assaz dignamente. Porque, ainda que o tenha ocupado com a vossa aprovação, é tão pouco ambicioso que prefere renunciar a dar motivo para tão grande alvoroço. Faltamos por acaso ao respeito para com Deus, aceitando o que Ele se comprouve em nos oferecer, ou teríamos, ao contrário, podido recusá-lo sem cometer impiedade? Mas, como compete a Deus confirmar a dádiva que nos fez, cabe-lhe também declarar novamente de quem lhe apraz servir-se para apresentar-lhe os sacrifícios em vosso favor e ser o ministro das ações referentes à vossa piedade. Ou Cora seria ousado o bastante para pretender, pelo desejo que tem, elevar-se a essa honra e tirar a Deus o poder de dispor dela?
Deixai, pois, de promover tão grande tumulto: o dia de amanhã decidirá essa questão. E cada qual dos pretendentes venha de manhã, com um turíbulo na mão, fogo e perfumes. E vós, Cora, não tenhais a ousadia de querer passar por cima de Deus e esperai o seu julgamento sem vos querer elevar acima dEle. Contentai-vos de vos pôr no número dos que aspiram a essa dignidade, da qual não vejo por que Arão deva ser destituído — não mais que vós, pois ele é da mesma descendência e não se poderia acusá-lo de ter faltado em coisa alguma nas funções do cargo. Quando vos tiverdes reunido, oferecereis incenso a Deus na presença de todo o povo, e aquele ao qual Ele testemunhar a oblação mais agradável será constituído sumo sacerdote, sem que haja qualquer pretexto para me acusar de ter conferido por minha própria iniciativa essa honra ao meu irmão se Deus se declarar em favor dele&quot;.
As palavras de Moisés tiveram tal força que fizeram cessar imediatamente toda a rebelião e as suspeitas que se haviam suscitado dele. O povo não somente aprovou a proposta, mas a louvou, como só podendo ser vantajosa para a República, e assim a assembléia se dissolveu.

CAPÍTULO 3
CASTIGO ESPANTOSO DE CORA, DATÃ E ABIRÃO E DOS DE SEU PARTIDO.

155. Números 16. No dia seguinte, todo o povo reuniu-se para ver, pelos sacrifícios que se fariam, a quem Deus escolheria para o sumo sacerdócio. A expectativa de tal acontecimento não foi isenta de tumulto, pois, além da multidão naturalmente ávida de novidades e inclinada a falar mal de seus superiores, os espíritos estavam divididos: uns desejando que Moisés fosse publicamente reconhecido como culpado e os mais sensatos desejando ver terminada a sedição, que não podia continuar sem causar a ruína completa da República. Moisés mandou dizer a Data e a Abirão que viessem assistir aos sacrifícios, como se havia deliberado.
Eles recusaram-se, dizendo que não podiam mais tolerar que Moisés se atribuísse autoridade soberana sobre eles. Depois dessa resposta, ele fez-se acompanhar por alguns dos mais importantes e, embora colocado por Deus para governar a todos de modo geral, não deixou de ir procurar os revoltosos. Data e seus partidários, tendo sabido que ele vinha acompanhado, saíram de suas tendas com as suas esposas e filhos para esperá-lo e levaram também gente consigo, para resistir-lhe, caso tentasse alguma coisa.
Quando Moisés se aproximou, levantou as mãos ao céu e, tão alto que todos puderam ouvi-lo, orou: &quot;Soberano Senhor do Universo, que, levado pela compaixão livrastes o vosso povo de tantos perigos, vós que sois testemunha fiel de todas as minhas ações sabeis, Senhor, que tudo o que fiz foi por vossa ordem. Ouvi, pois, a minha oração! E, como penetrais até os pensamentos mais secretos dos homens e os recessos mais íntimos de seus corações, não deixeis, meu Deus, de fazer conhecer a verdade e de confundir a ingratidão daqueles que me acusam tão injustamente. Vós sabeis, Senhor, tudo o que se passou nos primeiros anos de minha vida e o sabeis não por terdes ouvido dizer, mas por terdes estado presente. Vós sabeis tudo o que me aconteceu depois, e esse povo também não o ignora. Mas, por interpretar maliciosamente o meu proceder, dai, por favor, meu Deus, testemunho de minha inocência. Não fostes vós, Senhor, que pelo vosso auxílio, por meu trabalho e pelo afeto que meu sogro tinha por mim, quando eu passava com ele uma vida tranqüila e feliz, me obrigastes a deixá-la para me entregar a tantos trabalhos e dificuldades, para a salvação deste povo e particularmente para tirá-lo do cativeiro? No entanto, depois de haver sido livre de tantos males por meu intermédio, me tornei objeto de seu ódio. Então vós, Senhor, que bem me quisestes aparecer no meio das chamas, no monte Sinai; que lá me fizestes ouvir a vossa voz e tornar-me espectador de tantos prodígios; que me mandastes levar as vossas ordens ao rei do Egito; que fizestes sentir o peso do vosso braço a todo o seu reino, para dar-nos o meio de escapar de lá e da servidão; que humilhastes diante de nós o seu orgulho e o seu poder; que, quando não sabíamos o que fazer, nos abristes um caminho milagroso pelo mar e sepultastes em suas águas os egípcios que nos perseguiam; que nos destes armas quando estávamos desarmados; que tornastes doce, em nosso favor, as águas antes tão amargas; que fizestes sair água de um rochedo para matar a nossa sede; que nos destes víveres de além-mar quando não mais o podíamos obter da terra; que nos mandastes do céu um alimento antes desconhecido aos homens; e que, por fim, regulastes todo o nosso governo pelas admiráveis e santas leis que nos destes, vinde, ó Deus Todo-poderoso, julgar a nossa causa — vós que sois ao mesmo tempo juiz e testemunha incorruptível. Fazei todo o povo conhecer que jamais recebi presentes para cometer injustiças, nem preferi os ricos aos pobres, nem nada fiz de prejudicial à República, mas, ao contrário, sempre me esforcei por servi-la com todas as minhas forças. E agora, que me acusam de ter constituído a Arão sumo sacerdote não para obedecer-vos, mas por favor e por afeto particular, fazei ver que nada fiz sem ordem vossa e também qual o cuidado que vos apraz ter de nós, castigando Datã e Abirão como eles merecem, pois se atrevem a vos acusar de ser insensível e de vos deixardes enganar por meus artifícios. E, para que o castigo que dareis a esses profanadores de vossa honra e de vossa glória seja conhecido por todos, não os façais, por favor, morrer de uma morte comum e ordinária, mas que a terra, sobre a qual são indignos de andar, se abra para engoli-los, bem como a todas as suas famílias e todos os seus bens, e que esse fato incomum, causado por vosso soberano poder, seja um exemplo que ensine a todos o respeito que se deve ter por vossa suprema Majestade e uma prova de que não fiz no ministério com que me honrastes outra coisa senão executar as vossas ordens. Mas se, ao contrário, os crimes de que me acusam são verdadeiros, conservai os meus acusadores e fazei cair sobre mim somente o efeito único de minhas imprecações. Porém, Senhor, depois de terdes castigado dessa maneira os amotinadores de vosso povo, conservai, eu vos suplico, o resto na união, na paz e na observância de vossas santas leis, pois seria ofender à vossa justiça crer que ela quis fazer cair sobre os inocentes o castigo que somente os culpados mereceram&quot;.
Moisés uniu as próprias lágrimas a essa oração, e logo que a terminou viu-se a terra tremer e agitar-se com violência semelhante à das ondas do mar, quando batidas pelos ventos numa grande tempestade. Todo o povo ficou petrificado de medo, e então a terra abriu-se com um ruído espantoso, tragando aqueles rebeldes juntamente com as suas famílias, as suas tendas e todos os seus bens e fechan-do-se em seguida sem deixar vestígio algum de tão prodigioso acontecimento.
Esse foi o fim desses miseráveis e como foram conhecidos o poder e a justiça de Deus. O castigo foi ainda mais deplorável porque os amigos dos revoltosos passaram, de uma vez, dos sentimentos que estes lhes haviam inspirado a uma disposição contrária, regozijando-se com a infelicidade deles em vez de lamentá-los. Eles louvaram com grandes aclamações o justo juízo de Deus e exclamaram que mereciam ser detestados como peste pública.
156. Moisés mandou vir em seguida os que disputavam a Arão o cargo de sumo sacerdote, a fim de conferi-lo àquele de quem Deus se tivesse dignado aceitar o sacrifício. O número destes era de duzentos e cinqüenta, todos muito estimados pelo povo, quer pela virtude de seus antepassados, quer por valores próprios. Arão e Cora apresentaram-se por primeiro, e todos estavam diante do Tabernáculo, com o turíbulo na mão. Então queimaram perfumes em honra a Deus.
Imediatamente apareceu um fogo imenso e terrível, como jamais se vira igual, mesmo quando montanhas cheias de enxofre vomitam de suas entranhas acesas turbilhões inflamados ou quando as florestas em chamas, onde o furor do vento aumenta ainda mais o incêndio, se reduzem a cinzas. Via-se que somente Deus seria capaz de acender um fogo tão brilhante e ao mesmo tempo tão ardente, e a sua violência consumiu de tal sorte os duzentos e cinqüenta pretendentes, e Cora com eles, que não restou o menor vestígio de seus corpos.
Somente Arão ficou sem receber queimadura alguma daquelas chamas sobrenaturais, para que não se pudesse duvidar de que eram efeito da onipotência de Deus. Moisés, para deixar à posteridade um monumento de tão memorável castigo e fazer tremer os ímpios que imaginassem que Deus podia ser enganado pela malícia dos homens, ordenou a Eleazar, filho de Arão, que anexasse ao altar de bronze os turíbulos dos infelizes que haviam perecido de maneira tão espantosa.


CAPÍTULO 4
NOVA MURMURAÇÃO DOS ISRAELITAS CONTRA MOISÉS. DEUS, POR MEIO DE
UM MILAGRE, CONFIRMA PELA TERCEIRA VEZ A ARÃO NO SUMO SACERDÓCIO.
CIDADES DETERMINADAS AOS LEVITAS. DIVERSAS LEIS ESTABELECIDAS POR
MOISÉS. O REI DA IDUMÉIA RECUSA DAR PASSAGEM AOS ISRAELITAS. MORTE
DE MIRIÃ, IRMÃ DE MOISÉS, E DE ARÃO, SEU IRMÃO, AO QUAL ELEAZAR, SEU
FILHO, SUCEDE NO CARGO DE SUMO SACERDOTE. O REI DOS AMORREUS RECUSA
DAR PASSAGEM AOS ISRAELITAS.

157. Números 17. Depois que todos, diante de uma prova tão evidente, reconheceram que não fora Moisés, mas Deus mesmo quem havia constituído a Arão e seus filhos no sumo sacerdócio, ninguém mais ousou contestá-la. Mas nem por isso o povo deixou de começar outra sedição, ainda mais perigosa e obstinada que a primeira, por causa do motivo que a fez nascer. Embora estivessem convencidos de que o que havia acontecido fora exclusivamente por ordem e permissão de Deus, eles passaram a imaginar que tudo sucedeu só para favorecer Moisés e a julgar que ele havia conseguido tanta coisa unicamente devido às suas solicitações e importunações, como se Deus tivesse por objetivo apenas reverenciá-lo, e não castigar os que o haviam ofendido tão gravemente.
Assim, eles não podiam tolerar o fato de terem visto morrer diante de seus olhos um número tão grande de pessoas cujo único crime, diziam, era o zelo demasiado pela glória de Deus e pelo seu serviço, e que Moisés se havia aproveitado disso para confirmar o irmão num cargo que nenhum outro mortal ousaria pretender, uma vez que os outros pretendentes haviam sido punidos daquele modo. Por outro lado, os parentes dos mortos animavam o povo, exortando-o a pôr um limite ao orgulhoso poder de Moisés, afirmando que a própria segurança deles o exigia.
Logo que Moisés foi avisado disso, o temor de uma rebelião que poderia ser muito perigosa fê-lo reunir o povo. Sem manifestar saber do que se passava e das queixas que faziam, para não irritá-lo ainda mais, ordenou aos chefes das tribos que trouxessem cada qual uma vara. Sobre cada uma estaria escrito o nome de uma tribo, e declarou-lhes que o sumo sacerdócio seria dado à tribo que Deus indicasse como preferida às demais.
Essa proposta contentou-os. Eles trouxeram as varas, e o nome da tribo de Levi foi escrito sobre a de Arão. Moisés colocou-as todas no Tabernáculo e retirou-as no dia seguinte. Cada um dos chefes das tribos reconheceu a sua. O povo também as reconheceu, por meio de alguns sinais que haviam sido feitos. Estavam todas no mesmo estado que no dia anterior, porém a de Arão havia não somente produzido alguns brotos como também — o que era mais estranho — amêndoas maduras, porque aquela vara era de amendoeira.
O milagre deixou o povo de tal modo admirado que o seu ódio por Arão e Moisés mudou-se em veneração, pelo juízo que Deus manifestara em favor destes. Assim, com medo de resistir-lhe mais, concederam que Arão doravante desempenhasse pacificamente esse grande cargo. Eis como, depois que Deus o confirmou uma terceira vez, ele ficou de posse do sumo sacerdócio, sem que ninguém mais se atrevesse a contestá-lo, e de que modo, após tantas murmura-ções e sedições, o povo finalmente ficou em paz.
158. Números 18 e 35. Levftico 14, 18 e 26. Temendo que a tribo de Levi, vendo-se isenta da guerra, se ocupasse demais com as coisas necessárias à vida e descuidasse o serviço de Deus, Moisés determinou que se dariam a essa tribo, depois de conquistado o país de Canaã, quarenta e oito das melhores cidades de todas as terras que se encontrassem, não se estendendo além de duas milhas, e que o povo pagaria todos os anos a eles e aos sacerdotes a décima parte dos frutos que recolhesse, o que foi depois inviolavelmente cumprido.
Falemos agora dos sacerdotes. Moisés determinou que das quarenta e oito cidades dadas aos levitas, treze fossem cedidas àqueles, bem como a décima parte das décimas. Determinou também que o povo ofereceria a Deus as primícias de todos os frutos da terra, e aos sacerdotes, os primogênitos dos animais que podiam ser oferecidos em sacrifício, dos quais eles, com toda a sua família, comeriam a carne. Quanto ao animal que a Lei proibia comer, em vez do primogênito ofere-cer-se-ia um sido e meio, e cada homem ofereceria cinco sidos pelo primeiro filho nascido. As primícias da lã, dos carneiros e das ovelhas eram também devidas aos sacerdotes, e os que coziam pão deveriam trazer-lhes bolos.
Números 6. Quando os chamados nazireus — porque faziam voto de deixar crescer o cabelo e não beber vinho — cumpriam o tempo de seu voto e vinham apresentar-se diante do Templo para cortar o cabelo, traziam as suas ofertas ao Senhor. Quanto aos que se haviam consagrado ao serviço de Deus e renunciavam voluntariamente ao ministério ao qual se haviam obrigado, deviam dar aos sacerdotes cinqüenta sidos o homem e trinta a mulher. Os que não podiam pagá-lo, entregavam-se à discrição dos sacerdotes.
Os que matavam os animais para comê-los em particular, e não para oferecer a Deus, eram obrigados a dar aos sacerdotes o intestino grosso, o peito e a espádua direita. Isso Moisés determinou para os sacerdotes, além do que o povo oferecia pelos pecados, como dissemos no livro precedente. Ele queria que as mulheres, as filhas e os criados tivessem parte em tudo, exceto no que era oferecido pelos pecados, do qual apenas os homens que exerciam o ofício divino podiam comer (e isso somente no Tabernáculo, no mesmo dia em que as vítimas eram oferecidas em sacrifício).
159.  Números 20. Depois que Moisés acalmou a sedição e ordenou todas essas coisas, mandou avançar o exército até a fronteira dos idumeus e enviou na frente alguns embaixadores ao rei, para pedir-lhe passagem, com a promessa de não causar dano algum ao país e de pagar todas as coisas que tivesse de tomar, até mesmo a água, se ele quisesse. O rei não aceitou a proposta e veio com armas contra os israelitas, para resistir-lhes a passagem ou caso decidissem empregar a força. Moisés consultou a Deus, que o proibiu de tomar a iniciativa da guerra e determinou que voltassem para o deserto.
160.  Nesse mesmo tempo, na lua nova do xântico, quarenta e um anos depois da saída do Egito, Miriã, irmã de Moisés, morreu. Enterraram-na publicamente, com toda a magnificência possível, sobre um monte de nome Seim. O luto durou trinta dias e quando terminou Moisés purificou o Templo, deste modo:
O sumo sacerdote matou próximo do campo, num lugar bem limpo, uma novilha vermelha sem mancha e que ainda não havia suportado jugo, mergulhou o dedo no sangue e borrifou sete vezes o Tabernáculo. Mandou pôr a novilha inteira — com pele e intestinos — no fogo e lançou dentro um pedaço de madeira de cedro com hissopo e lã tingida de escarlate. Um homem puro e casto reuniu as cinzas e colocou-as num lugar muito limpo, e todos os que tinham necessidade de ser purificados, quer por haverem tocado na morta, quer por terem assistido aos funerais, lançaram um pouco de cinzas na água da fonte, onde mergulharam um ramo de hissopo e com ele se aspergiram no terceiro e no sétimo dia, passando assim a estar purificados. Moisés ordenou que continuassem a observar essa cerimônia após a conquista do país cuja posse Deus lhes havia prometido.
161.  Números 20. Esse admirável guia conduziu em seguida o exército pelo deserto da Arábia e quando lá chegou, ao território da capital do país que antigamente se chamava Arcé e hoje se chama Petra, disse a Arão que subisse a uma alta montanha, que serve de limite a esse país, porque era o lugar onde teria fim a sua vida. Ele subiu, despojou-se dos ornamentos sacerdotais à vista de todo o povo e com eles revestiu a Eieazar, seu filho mais velho e sucessor, e morreu, com a idade de cento e vinte e três anos, na primeira lua do mês, que os atenienses chamam hecatombeom, os macedônios, lous e os hebreus, sabba. Assim, Moisés perdeu no mesmo ano a irmã e o irmão. E todo o povo lastimou a morte de Arão durante trinta dias.
162. Números 21. Depois disso, Moisés avançou com o exército até o rio Arnom, que nasce nas montanhas da Arábia e depois de atravessar todo o deserto entra no lago Asfaltite e separa os moabitas dos amorreus. É um país tão fértil que basta para sustentar os seus habitantes, embora sejam numerosos. Moisés mandou embaixadores a Siom, rei dos amorreus, para pedir-lhe passagem, nas mesmas condições que havia proposto ao rei da Iduméia. Mas o soberano também recusou o pedido e reuniu um grande exército para se opor aos israelitas, caso tentassem passar o rio.

CAPÍTULO 5
OS ISRAELITAS DERROTAM OS AMORREUS E EM SEGUIDA AO REI OGUE, QUE VINHA NO AUXÍLIO DESTES. MOISÉS AVANÇA NA DIREÇÃO DO JORDÃO.

163.  Moisés julgou não dever tolerar aquela recusa tão ultrajosa do rei dos amorreus. Além disso, considerando que o povo por ele conduzido era tão indócil e inclinado à murmuração e que a ociosidade, unida à necessidade na qual se encontravam, podia facilmente levá-los a novas rebeliões, julgou conveniente tirar-lhes o motivo. Consultou a Deus para saber se deveria abrir passagem pela força, e Ele não somente o permitiu como prometeu-lhe ainda a vitória. Assim, Moisés empreendeu a guerra com toda confiança e encheu os seus soldados de esperança e de coragem, dizendo-lhes que era chegado o tempo de satisfazer o desejo de ir à guerra, porque Deus mesmo os levava a empreendê-la.
Tão logo receberam permissão, tomaram as armas com alegria, puseram-se em batalha e marcharam contra os inimigos. Os amorreus, vendo-os vir a si com tanto entusiasmo, ficaram de tal modo apavorados que se esqueceram da própria audácia. Muito mal resistiram ao primeiro embate e depois fugiram. Os hebreus perseguiram-nos com tanta violência que não lhes deram oportunidade de se reunir de novo, lançando-os em grande desespero. Sem conservar ordem alguma, os amorreus procuravam chegar às suas cidades, para se defenderem com segurança. Mas como os hebreus não podiam admitir uma vitória imperfeita, sendo extremamente ágeis e muito hábeis em se servir da funda e de todas as armas próprias para se combater de longe e estando armados ligeiramente, ou alcançavam os fugitivos ou detinham a golpes de funda, dardos e flechas os que não podiam alcançar.
A carnificina foi muito grande, particularmente próximo do rio, pois os que fugiam eram não menos torturados pela sede que pela dor dos ferimentos recebidos, porque era verão e para lá se dirigiam em grande número, para beber. Siom, o seu rei, estava entre os mortos, e, como os mais valentes haviam morrido na batalha, os vitoriosos não encontraram mais resistência. Fizeram muitos prisioneiros, despojaram os mortos e conquistaram a maior presa no acampamento, que estava cheio de bens em virtude de a ceifa ainda não ter sido realizada.
Assim, foram os amorreus castigados pela sua imprudência no proceder e pela covardia no combate. Os hebreus tornaram-se senhores do país deles, que, como uma ilha, está cercado por três rios: do lado do sul pelo Arnom, do lado do norte pelo Jaboque, o qual perde o seu nome ao desaguar no Jordão, e do lado do ocidente pelo mesmo Jordão.
164. Estavam as coisas nesse pé quando Ogue, rei de Galaade e Caulanite, que vinha em socorro de Siom, seu amigo e aliado, soube que ele havia perdido a batalha. Como era muito ousado, não deixou de querer combater com os israelitas e de se gabar da certeza de derrotá-los. Mas estes o desbarataram com todo o seu exército, e ele mesmo foi morto em combate. Era um gigante de estatura enorme, e seu leito, que era de ferro e podia ser visto na cidade capital de seu reino, chamada Rabatha,* tinha nove côvados de comprimento e quatro de largura. E Ogue não tinha menos coragem do que força.
Moisés, depois dessa vitória, atravessou o rio jaboque, entrou no reino de Ogue e apoderou-se de todas as cidades, fazendo matar os habitantes mais ricos. Tão grande êxito não trouxe aos hebreus apenas vantagem momentânea, mas lhes abriu caminho para outras conquistas, pois tomaram sessenta cidades fortes e bem municiadas. E nenhum deles houve, até o último soldado, que não ficasse rico.
Moisés levou depois o exército para o Jordão, a uma grande planície cheia de palmeiras e de bálsamo, em frente a Jerico, cidade rica e poderosa. Os israelitas estavam tão orgulhosos pela vitória que só falavam de guerra. Moisés, depois de oferecer a Deus, durante alguns dias, sacrifícios em ação de graças e após alimentar todo o povo, mandou uma parte do exército para devastar o país dos midianitas e atacar as suas cidades. Devemos, porém, relatar primeiro qual foi a origem dessa guerra.

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* Ou Rabá.

CAPÍTULO 6
O PROFETA BALÃO TENTA AMALDIÇOAR OS ISRAELITAS A ROGO DOS MIDIANITAS E DE BALAQUE, REI DOS MOABITAS, MAS DEUS O OBRIGA A ABENÇOÁ-LOS. VÁRIOS ISRAELITAS, E ESPECIALMENTE ZINRI, LEVADOS PELO AMOR ÀS FILHAS DOS MIDIANITAS, ABANDONAM A DEUS E SACRIFICAM AOS FALSOS DEUSES. CASTIGO ESPANTOSO QUE DEUS LHES MANDA, PARTICULARMENTE A ZINRI.

165. Números 22, 23 e 24. Balaque, rei dos moabitas e unido aos midianitas pela amizade e por uma antiga aliança, começou a temer por si mesmo ao ver o progresso dos hebreus. Ele não sabia que Deus lhes havia proibido empreender a conquista de outros países que não o de Canaã. Assim, por um mau conselho, resolveu opor-se a eles. Todavia, como não ousava atacar uma nação cujas vitórias haviam tornado orgulhosa e altiva, pensou apenas em impedi-la de crescer e de continuar progredindo. Mandou por isso embaixadores aos midianitas, a fim de deliberar a respeito do que deveriam fazer.
Os midianitas enviaram esses mesmos embaixadores, juntamente com os homens mais importantes dentre o povo, a Balaão — célebre profeta e amigo de Balaque —, que morava próximo do Eufrates, para rogar-lhe que viesse fazer imprecações contra os israelitas. Ele recebeu muito bem os embaixadores e consultou a Deus para saber o que lhes responder. Deus proibiu-o de fazer o que desejavam, e por isso Balaão respondeu-lhes que bem queria poder testemunhar a afeição que lhes tinha, mas Deus, ao qual devia o dom da profecia, o proibira de aceitar a proposta, porque Ele amava o povo ao qual eles queriam obrigá-lo a amaldiçoar. Por esse motivo, ele os aconselhava a fazer a paz com os israelitas.
Voltaram os embaixadores com essa resposta, mas os midianitas, instados pelo rei Balaque, enviaram uma segunda embaixada ao profeta. Como este desejava agradá-los, consultou de novo a Deus, o qual, julgando-se ofendido, ordenou-lhe que fizesse o que os embaixadores queriam. Balaão, não percebendo que Deus lhe falara encolerizado pelo fato de ele não ter seguido a sua ordem, partiu com os embaixadores. No caminho, encontrou uma estrada entre dois barrancos, tão estreita que mal dava para passar, e aí um anjo veio ao seu encontro.
Quando o asno sobre o qual Balaão estava montado percebeu o anjo, quis voltar atrás e apertou o seu senhor tão fortemente contra um dos muros que o feriu, sem que os golpes dados pelo profeta, pela dor que sentia, pudessem fazer o animal caminhar. Como o anjo permanecesse parado e Balaão continuasse a bater no asno, Deus permitiu que o animal falasse ao profeta, com palavras tão distintas quanto uma criatura humana teria podido proferir, que era estranho que, não tendo ele, o animal, dado o menor passo em falso, Balaão lhe batesse e não visse que Deus não aprovava que o profeta fosse ateVider ao desejo daqueles a quem ia encontrar.
Esse fato prodigioso espantou o profeta, ao mesmo tempo que o anjo lhe aparecia e o repreendia severamente por bater tanto no asno, sem motivo, quando era ele mesmo quem merecia ser castigado, por resistir à vontade de Deus. Essas palavras aumentaram o espanto de Balaão, e ele quis voltar atrás, mas Deus lhe ordenou que continuasse o caminho e só falasse o que Ele lhe inspirasse. Assim, ele foi ter com o rei Balaque, que o recebeu com alegria, e pediu ao príncipe que o fizesse levar a alguma montanha de onde pudesse ver o acampamento dos israelitas. Balaque, acompanhado por vários de sua corte, levou-o ele mesmo a uma montanha que distava do acampamento uns sessenta estádios. Balaão, depois de refletir, disse ao rei que fizesse erguer sete altares, para neles oferecer a Deus sete touros e sete carneiros. Isso se fez, e o profeta ofereceu as vítimas em holocausto, para saber de que lado surgiria a vitória.
Dirigindo depois a palavra ao exército dos israelitas, assim falou: &quot;Povo bem-aventurado, do qual o próprio Deus deseja ser guia e quer cumular de benefícios, velando incessantemente pelas vossas necessidades. Nenhuma outra nação vos igualará em amor pela virtude, e os que nascerem de vós ainda vos hão de sobrepujar, porque Deus, que vos ama como sendo o seu povo, vos quer fazer o povo mais feliz de todos os homens que o Sol ilumina com os seus raios. Vós possuireis esse rico país que Ele vos prometeu. Vossos filhos possuí-lo-ão depois de vós, e as terras e o mar ressoarão com a fama do vosso nome e admirarão o brilho de vossa glória. Vossa posteridade multiplicar-se-á de tal modo que não haverá lugar no mundo onde não se difunda. Exército bem-aventurado, que por maior que sejais sois composto por descendentes de um único homem. A província de Canaã ser-vos-á suficiente agora, mas um dia o mundo inteiro não será grande o bastante para vos conter: o vosso número será igual ao das estrelas. Não povoareis somente a terra firme, mas também as ilhas. Deus vos dará em abundância toda sorte de bens durante a paz e vos fará vitoriosos na guerra. Assim, devemos nós desejar que os nossos inimigos e os seus descendentes ousem combater contra vós, pois não poderão fazê-lo sem a sua completa ruína, de tanto que Deus, que se compraz em elevar os humildes e humilhar os soberbos, vos ama e favorece&quot;.
Balaão não pronunciou essas palavras proféticas de si mesmo, mas por inspiração do Espírito de Deus. O rei Balaque, ferido de dor, disse-lhe que aquilo não era o que ele lhes havia prometido e censurou-o porque, depois de haver recebido grandes presentes para amaldiçoar os israelitas, ele lhes dava, ao contrário, mil bênçãos.
O profeta respondeu-lhe: &quot;Credes, então, que quando se trata de profetizar depende de nós dizer ou não o que desejamos? É Deus quem nos faz falar como lhe apraz, sem que tenhamos parte alguma nisso. Não me esqueci do pedido que os midianitas me fizeram. Vim com a intenção de contentá-los: não pensava em publicar elogios aos hebreus nem falar dos favores de que Deus resolveu cumulá-los. Mas Ele foi mais poderoso que eu, que resolvera, contra a sua vontade, agradar aos homens. Pois quando Ele entra em nosso coração torna-se dono dele. Assim, por desejar conceder felicidade a essa nação e tornar imortal a sua glória, Ele pôs-me na boca as palavras que pronunciei. No entanto, como os vossos pedidos e os dos midianitas são-me assaz importantes e para não deixar de fazer tudo o que dependa de mim, sou de opinião que se ergam outros altares e se façam outros sacrifícios, a fim de eu ver se poderemos aplacar a Deus com as nossas orações!&quot;
Balaque aprovou essa proposta. Os sacrifícios foram renovados, mas Balaão não pôde conseguir de Deus a permissão para amaldiçoar os israelitas. Ao contrário, tendo-se prostrado em terra, predizia as desgraças que sucederiam aos reis e às cidades que os combatessem, entre as quais algumas que ainda não foram construídas. Mas o que aconteceu até aqui às que conhecemos, tanto em terra firme quanto nas ilhas, nos faz crer que o resto desse oráculo um dia há se de realizar.
166. Números 25. Balaque,. muito irritado por ver-se desiludido em suas esperanças, despediu Balaão sem lheprestar homenagem alguma. Tendo o profeta chegado próximo do Eufrates, pediu para falar ao rei e aos príncipes dos midianitas, aos quais disse: &quot;Já que desejais,, ó rei, e vós, midianitas, que eu atenda em alguma coisa aos vossos rogos, contra a vontade de Deus, eis tudo o que vos posso dizer: não espereis que a raça dos israelitas pereça pelas armas, pela peste, pela carestia ou por qualquer outro acidente, pois Deus, que a tomou sob a sua proteção, a preservará de todas as desgraças. Ainda que eles sofram algum desastre, levantar-se-ão com mais glória ainda, pois se tornarão mais sensatos pelo castigo. Mas se quereis triunfar sobre eles por algum tempo, dar-vos-ei o meio para tanto. Mandai ao seu acampamento as mais belas de vossas filhas, bem adornadas, e ordenai-lhes que de nada se esqueçam para suscitar amor aos mais jovens e aos mais corajosos dentre eles. Dizei-Ihes que quando os virem ardendo de paixão por elas finjam querer retirar-se e quando rogarem que fiquem respondam que não é possível, a menos que eles prometam solenemente renunciar às leis de seu país e o culto ao seu Deus para adorar os deuses dos midianitas e dos moabitas. É o único meio que tendes para fazer com que Deus se encha de cólera contra eles&quot;.
Dizendo essas palavras, partiu. Os midianitas não titubearam em executar logo o conselho, isto é, enviar as suas filhas e instruí-las conforme ele lhes havia dito. Os jovens hebreus, arrebatados pela beleza das moças, conceberam uma ardente paixão por elas, declarando-a, e a maneira pela qual elas lhes responderam acendeu-a ainda mais. Quando as moças os viram perdidamente enamorados, fingiram querer voltar ao seu país, mas eles, com lágrimas, pediram-lhes que ficassem e prometeram desposá-las, tomando a Deus como testemunha do juramento que faziam: não as amariam somente como esposas, mas as tornariam senhoras absolutas deles próprios e de todos os seus bens.
Responderam elas: &quot;Não precisamos de bens ou de algo que nos possa fazer felizes, sendo nós muito queridas por nossos pais, tanto quanto podemos desejar, e não viemos aqui para fazer comércio com a nossa beleza, mas, considerando-vos estrangeiros pelos quais nutrimos grande estima, quisemos fazer-vos esta cortesia. Agora que demonstrais tanto afeto por nós e tanto desprazer em ver-nos partir, não poderíamos deixar de ser vencidas pelos vossos rogos. Assim, se quereis, como dizeis, dar-nos a vossa palavra de nos tomardes por esposas, que é a única condição capaz de nos reter, ficaremos e passaremos convosco toda a nossa vida. Mas tememos que, depois de vos terdes cansado de nós, nos devolvais vergonhosamente, e vós nos deveis perdoar um temor tão razoável&quot;.
Os moços, enamorados, ofereceram-se para dar as garantias que elas desejassem de sua fidelidade, ao que as moças responderam: &quot;Pois se tendes essa intenção, e como constatamos que tendes costumes diferentes dos de todos os outros povos, como o de só comer certas carnes e usar determinadas bebidas, é necessário, se nos quiserdes desposar, que adoreis os nossos deuses. Do contrário, não poderemos crer que o amor que dizeis sentir por nós seja verdadeiro. Afinal, não se poderia julgar estranho adorardes os deuses do país para onde ireis, aos quais todas as outras nações adoram, ou censurar-vos por isso, enquanto o vosso Deus só é adorado por vós e as leis que observais vos são todas particulares. Assim, toca-vos escolher: ou viver como os outros homens ou ir procurar outro mundo, onde possais viver como vos apraz&quot;.
Esses infelizes, levados por sua brutal e cega paixão, aceitaram as condições: abandonaram a fé de seus pais, adoraram vários deuses, ofereceram-lhes sacrifícios semelhantes aos dos midianitas e comeram indiferentemente de todas as iguarias. Para agradar àquelas moças, que se tornaram suas esposas, não temeram violar os mandamentos do verdadeiro Deus. E todo o exército viu-se num momento contaminado pelo veneno espalhado pelos moços, e a antiga religião ficou exposta a grave risco. Uma nova rebelião, mais perigosa que as primeiras, já começava a se esboçar.
Os moços, tendo experimentado as doçuras da liberdade que lhes davam as leis estrangeiras de viver segundo desejassem, deixavam-se levar sem nenhum obstáculo e corrompiam com o seu exemplo não apenas o povo, mas até mesmo pessoas de maior distinção. Zinri, chefe da tribo de Simeão, desposou Cosbi, filha de Zur, um dos príncipes de Midiã. E, para agradá-lo, ofereceu sacrifícios segundo o uso desse país e contra as ordens contidas na lei de Deus.
Moisés, vendo tão estranha desordem e temendo-lhes as conseqüências, reuniu o povo e sem censurar a ninguém em particular, receando fazer desesperar os que julgando poder esconder a propria falta eram capazes de voltar ao dever, disse-lhes que era coisa indigna de sua virtude e da de seus antepassados preferir a voluptuosidade à religião; que eles deviam cair em si mesmos enquanto ainda era tempo e mostrar a força de seu espírito, não desprezando as leis santas e divinas, mas reprimindo a paixão; que seria estranho, após terem sido tão sensatos no deserto, se deixarem levar num país tão belo a tais desordens, perdendo na abundância o mérito que haviam conquistado durante a carestia.
Enquanto Moisés procurava com essas palavras levar os insensatos a reconhecer o próprio erro, Zinri retrucou-lhe: &quot;Vivei, Moisés, se bem vos parece, segundo as leis que fizestes e que um longo uso até hoje autorizou, sem o qual há muito tempo lhes teríeis deixado o jugo e aprendido à vossa própria custa que não devíeis assim nos enganar. Por mim, quero que saibais que não mais obedecerei aos vossos tirânicos mandamentos, porque bem vejo que sob os vossos pretextos de piedade e de nos dar leis da parte de Deus usurpastes o governo por meios de artifícios e nos reduzistes à escravidão, proibindo-nos prazeres e tirando-nos a liberdade que todos os homens nascidos livres devem ter. Havia, acaso, em nosso cativeiro no Egito algo tão rude quanto o poder que vos atribuis, de nos castigar como vos apraz segundo leis que vós mesmos estabelecestes? Vós é que mereceis ser castigado, porque, desprezando as leis de todas as outras nações, quereis que somente as vossas sejam observadas e preferis assim o vosso juízo particular ao de todo o resto dos homens. Assim, como creio muito bem feito o que fiz e que era livre para fazer, não temo declarar diante de toda esta assembléia que desposei uma mulher estrangeira. Ao contrário, quero que o saibais de minha própria boca e que todos o saibam. É verdade também que sacrifico aos deuses aos quais proibis sacrificar, porque julgo não me dever submeter à tirania de receber somente de vós o que se refere à religião e não quero que me obrigueis a desejar somente o que quereis nem que tenhais mais autoridade sobre mim do que eu mesmo&quot;.
Zinri falava assim tanto em seu nome quanto no dos que eram de sua opinião. O povo aguardava em silêncio e temeroso o término dessa grande polêmica, porém Moisés não lhe quis responder, temendo incitar ainda mais a insolência de Zinri e que outros, imitando-o, aumentassem o tumulto. Assim, a assembléia se dissolveu, e as conseqüências desse mal teriam sido ainda mais perigosas não fora a morte de Zinri, que se deu como conto a seguir.
Finéias, que sem contestação era tido como o primeiro de seu tempo, tanto por causa de suas excelentes virtudes quanto pelo privilégio de ser filho de Eleazar, sumo sacerdote e sobrinho de Moisés, não pôde tolerar a ousadia de Zinri. Com receio de que o desprezo pelas leis aumentasse ainda se ele ficasse impune, resolveu vingar aquele tão grande ultraje contra Deus. Como não houvesse coisa que não fosse capaz de fazer, porque não tinha menos coragem do que zelo, foi à tenda de Zinri e matou-o com um golpe de espada, morrendo também a mulher deste.
Vários outros moços, levados pelo mesmo espírito de Finéias e animados pela sua coragem e exemplo, lançaram-se sobre os que eram culpados do mesmo pecado de Zinri e mataram grande parte deles. E uma peste enviada por Deus fez morrer não somente todos os outros, mas também os parentes deles, que, em vez de repreendê-los e impedir que cometessem tão grave pecado, a ele os haviam levado. O número dos que pereceram desse modo foi de quatorze mil.
167. Números 31. Nesse entremeio, Moisés, irritado com os midianitas, mandou o exército marchar para exterminá-los completamente, como relatarei depois de narrar, em seu louvor, uma coisa que não deve passar em silêncio. É que, embora Balaão tivesse vindo a rogo dessa nação para amaldiçoar os hebreus e depois Deus o tivesse impedido, ele dera aquele detestável conselho de que acabamos de falar, com o qual julgava poder arruinar inteiramente a religião de nossos pais. Moisés, no entanto, concedeu-lhe a honra de inserir aquela profecia em seus escritos, ainda que teria sido fácil ao legislador atribuí-la a si mesmo sem que ninguém o pudesse censurar. Mas ele quis deixar à posteridade um testemunho tão vantajoso em sua memória. Deixo, porém, a cada qual que julgue como quiser e volto ao meu assunto.
Moisés enviou somente doze mil homens contra os midianitas, tendo cada tribo fornecido mil combatentes. Deu-lhes por chefe a Finéias, que acabava de restaurar a glória das leis e de vingar o crime que Zinri, violando-as, havia cometido.

CAPÍTULO 7
OS HEBREUS VENCEM OS MIDIANITAS E TORNAM-SE SENHORES DO PAÍS. MOISÉS CONSTITUI JOSUÉ GUIA DO POVO. CIDADES CONSTRUÍDAS.
LUGARES DE ASILO.

168.  Quando os midianitas viram os hebreus se aproximarem, reuniram todas as suas forças e fortificaram todas as passagens por onde eles poderiam entrar em seu país. Travou-se o combate: os midianitas foram vencidos, e os hebreus mataram um número tão grande deles que mal se podiam contar os mortos, entre os quais estavam todos os reis: Hur, Zur, Reba, Evi e Requém, o qual deu nome à capital da Arábia, que o conserva ainda hoje e que os gregos chamam Petra. Os hebreus saquearam toda a província e, para obedecer à ordem que Moisés dera a Finéias, mataram todos os homens e todas as mulheres, sem poupar ninguém, exceto as moças, das quais levaram umas trinta e duas mil, e fizeram tal presa que tomaram cinqüenta e dois mil sessenta e sete bois, sessenta mil asnos e um número incrível de vasos de ouro e de prata, de que os midianitas se serviam ordinariamente, tão extravagante era o seu luxo.
Assim, Finéias voltou vencedor, sem ter sofrido perda alguma. Moisés distribuiu todos os despojos: deu uma qüinquagésima parte a Eleazar e aos sacerdotes e dividiu o resto entre o povo, que por esse meio ficou em condições de viver com maior abundância e de desfrutar em paz as riquezas que havia conquistado valorosamente.
169. Números 27 e Deuteronômio 3. Estando Moisés já bastante idoso, constituiu Josué guia do povo, por ordem de Deus, para sucedê-lo no dom da profecia e no comando do exército, de que era muito capaz. Era também grande conhecedor das leis divinas e humanas, devido às instruções que o próprio Moisés lhe ministrara.
170. Números 32. Nesse mesmo tempo, as tribos de Gade e de Rúben e metade da de Manasses, que eram muito ricas em gado e em todas as espécies de bens, rogaram a Moisés que lhes desse o país dos amorreus, conquistado algum tempo antes, porque era muito rico em pastagens. Esse pedido fê-lo crer que o desejo deles era evitar, sob esse pretexto, o combate contra os cananeus. Assim, disse-lhes que era apenas por covardia que lhe faziam aquele pedido, para viver em tranqüilidade numa terra conquistada pelas armas de todo o povo sem precisar se unir ao exército para a conquista além do Jordão, daquele país de que Deus lhes havia prometido a posse quando tivessem vencido os povos que Ele lhes ordenava tratar como inimigos.
Eles responderam que estavam tão longe da intenção de querer evitar o perigo quanto desejavam colocar, por esse meio, as suas mulheres, os seus filhos e os seus bens em segurança, para estar sempre prontos a seguir o exército aonde os quisessem levar. Moisés, satisfeito com a explicação, concedeu-lhes o que pediam na presença de Eleazar, de Josué e dos principais chefes que ele reunira para esse fim, com a condição de que essas tribos marchariam com as outras contra os inimigos até que a guerra estivesse completamente terminada. Assim, eles tomaram posse daquele país e ali construíram cidades fortificadas. Puseram nelas as suas mulheres, filhos e bens, a fim de estarem mais livres para tomar as armas e cumprir a sua promessa.
Números 35, Deuteronômio 4 e 19 e Josué 20. Moisés construiu também dez cidades, para fazer parte das quarenta e oito de que falamos, e estabeleceu em três dessas dez alguns refúgios para aqueles que tivessem cometido assassínio involuntário. Determinou que esse exílio duraria toda a vida do sumo sacerdote sob cujo sacerdócio o crime fora cometido. Após a morte dele, porém, o homicida podia voltar ao seu país. Mas se durante o exílio fosse encontrado fora da cidade de refúgio por algum dos parentes do morto, este poderia matá-lo impunemente. Essas cidades chamavam-se Bezer, na fronteira da Arábia, Arimã, no país de Gileade, e Golã, em Basã. Moisés ordenou também que depois da conquista de Canaã se separassem ainda outras três, das que pertenceriam aos levi-tas, a fim de servirem igualmente para asilo ou lugar de refúgio.
Números 27 e 36. Nesse meio tempo, tendo morrido Zalfate,* que era um dos principais da tribo de Manasses, e deixado somente filhas, alguns dos mais eminentes representantes dessa tribo dirigiram-se a Moisés para saber se elas deveriam receber a herança do pai. Ele respondeu que se as moças se casassem com alguém da mesma tribo teriam esse direito. Não a receberiam, porém, se passassem a outra tribo, a fim de que, por esse expediente, fossem conservados em cada tribo os bens de todos os que a ela pertenciam.
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* Ou Zelofeade.


CAPÍTULO 8
EXCELENTE DISCURSO DE MOISÉS. LEIS QUE OUTORGA AO POVO.

171. Deuteronômio 4. Quando faltavam apenas trinta dias para se dizer que eram passados quarenta anos desde a saída do Egito, Moisés mandou reunir todo o povo no lugar onde está agora a cidade de Abilã, à margem do rio Jordão, terra muito rica em palmeiras, e falou-lhes deste modo: &quot;Companheiros de meus longos trabalhos, com quem passei tantos perigos, tendo chegado à idade de cento e vinte anos, é tempo de deixar o mundo. Deus não quer que eu vos assista nos combates que tereis ainda de sustentar, depois de passardes o Jordão. Quero empregar esse pouco de vida que me resta para fortalecer a vossa felicidade, quanto aos cuidados que dependem de mim, a fim de obrigar-vos a conservar o afeto pela minha memória. Terminarei os meus dias com alegria, fazendo-vos conhecer em que devereis firmar a vossa felicidade e com que meios podereis conseguir uma semelhante para vossos filhos. E, como não prestaríeis fé às minhas palavras? Pois não há testemunho pelo qual eu não me tenha esforçado em dar-vos que não fosse pelo interesse em vosso bem, e vós sabeis que os sentimentos de nossa alma jamais são tão puros como quando ela está prestes a abandonar o corpo. Filhos de Israel, gravai fortemente em vosso coração que a única e verdadeira felicidade consiste em se ter a Deus como favorável. E Ele só pode concedê-la aos que dela se tornam dignos por sua piedade. É em vão que os maus se vangloriam na esperança de a conquistar. Mas se vos tornardes como Ele o deseja, o que vos exorto a ser, depois de terdes recebido as suas ordens, sereis felizes sempre, a vossa prosperidade será invejada por todas as nações do mundo, possuireis em definitivo o que já conquistastes e bem depressa entrareis na posse do que vos resta ainda conquistar. Cuidai somente em prestar a Deus uma fiel obediência: não prefirais outras leis às que vos dei, por sua ordem. Observai-as com grande cuidado e evitai principalmente mudar alguma coisa por desprezo criminoso ao que se refere à religião. Como tudo é possível aos que Deus ajuda, tornar-vos-eis os mais temíveis de todos os homens. Se seguirdes este conselho, sobrepujareis a todos os vossos inimigos e recebereis durante toda a vossa vida as maiores recompensas que a virtude pode conceder. A mesma virtude será a principal, porque é por meio dela que se obtêm todas as outras e somente ela vos pode tornar felizes e granjear-vos reputação e glória imortais entre as nações estrangeiras. Eis o que tendes motivo de esperar se observardes religiosamente — sem cessar e sem jamais permitir que sejam violadas — as leis que recebestes. Saio deste mundo com a consolação de vos deixar em grande prosperidade e recomendo-vos à sábia orientação de vossos chefes e magistrados, que jamais deixarão de ter por vós o máximo cuidado. Deus, porém, deve ser o vosso principal apoio. É somente a Ele que sois devedores de todos os benefícios que recebestes até agora por meu intermédio, e Ele não vos deixará de proteger, contanto que não deixeis de reverenciá-lo e de pôr toda a vossa confiança em seu auxílio. Tereis sempre pessoas honestas para vos dar excelentes instruções, como o sumo sacerdote Eleazar, Josué, os Senadores e os chefes de vossas tribos. Mas é necessário que lhes obedeçais com prazer, lembrando-vos de que aqueles que bem souberam obedecer saberão mandar quando forem elevados a cargos e dignidades. Assim, não imagineis, como fizestes até agora, que a liberdade consiste em desobedecer aos vossos superiores, o que é uma grande falta, da qual vos deveis absolutamente corrigir. Evitai também deixar-vos levar pela cólera contra eles, como fizestes tantas vezes para comigo, pois não vos podereis ter esquecido de que me pusestes em perigo de vida muito mais que a todos os nossos inimigos. Falo assim não para vos fazer repreensões ou censuras. Como desejaria eu, no tempo em que estou para me separar de vós, contristar-vos pela lembrança daquilo que já passou, se nem mesmo então manifestei o menor ressentimento, quando as coisas se passavam? Aconselho-vos, no entanto, a vos tornardes mais sensatos para o futuro, porque não saberia fazer-vos compreender o quanto vos importa não murmurar contra os vossos superiores quando, depois de terdes passado o Jordão e vos tornado senhores da província de Canaã, vos sentirdes repletos de todas as espécies de bens. Pois, se perderdes o respeito que deveis a Deus e abandonardes a virtude, Ele também vos abandonará e tornar-se-á vosso inimigo. Perdereis com vergonha, pela vossa desobediência, o país que conquistastes com o seu auxílio. Sereis levados escravos para todas as partes do mundo, e não haverá lugar na terra ou no mar onde não se conheçam os sinais de vossa escravidão. Não será então mais tempo de vos arrependerdes, porque não observastes as suas santas leis. E, a fim de não cair nessa desgraça, não deixeis com vida um só de vossos inimigos depois de os terdes vencido. Crede que é da máxima importância matá-los todos, sem poupar um sequer, porque de outro modo podereis, pelas relações que tiverdes com eles, ser levados à idolatria e ao abandono das leis de vossos antepassados. Ordeno-vos também o emprego do ferro e do fogo para destruir de tal modo todos os Templos, altares e bosques consagrados aos seus falsos deuses que deles não reste o menor vestígio. E o único meio de vos conservardes na posse dos bens que desfrutareis. E, para que nenhum de vós se deixe levar para o mal, por ignorância, escrevi por ordem de Deus as leis que deveis observar e a maneira como deveis proceder, tanto nos negócios públicos quanto nos particulares. Se as observardes inviolavelmente, sereis os mais felizes de todos os homens&quot;.
172. Assim falou Moisés a todos os israelitas e deu-lhes um livro, no qual estavam escritas as leis e a maneira de viver que deveriam observar. Todos consideravam-no morto, e a lembrança dos perigos que havia corrido e das amarguras que sofrerá de tão boa mente por amor a eles fê-los chorar. E o sofrimento aumentou com a certeza de que lhes seria impossível tornar a encontrar um chefe igual a ele e que, não o tendo mais como intercessor, Deus já não lhes seria tão favorável. Esses mesmos pensamentos produziram neles tal arrependimento por se terem deixado levar em furor contra ele no deserto que não se podiam consolar. Ele, porém, pediu-lhes que cessassem de chorar e só pensassem em observar fielmente as leis de Deus. E a reunião assim se dissolveu.
Julgo dever dizer, antes de passar além, quais foram essas leis, para que o leitor conheça como são dignas da virtude de tão grande legislador e saiba quais são os costumes que observamos há tantos séculos. Narrá-las-ei do mesmo modo como foram dadas por esse homem admirável, sem acrescentar ornamento algum. Mudarei somente a ordem, porque Moisés as apresentou em tempos diversos e em várias ocasiões, segundo Deus o ordenava. Sou obrigado a fazer essa observação a fim de que, se esta história cair nas mãos de algum dos de nossa nação, não seja eu acusado de faltar à sinceridade. Falarei aqui das leis relativas à política. Quanto às que se referem aos contratos que realizamos entre nós, falarei no tratado que espero, com a graça de Deus, escrever acerca de nossos costumes e das razões dessas leis. Vou então agora à primeiras:
Depois de terdes conquistado o país de Canaã e construído cidades, podereis desfrutar tranqüilamente o fruto de vossa vitória, e vossa felicidade será firme e duradoura, contanto que vos torneis agradáveis a Deus, observando as coisas que se seguem:

Êxodo 20ss, Deuteronômio 5ss e 16ss.
Na cidade que Deus escolher nesse país, a que chamarão Cidade Santa, em um planalto cômodo e fértil, construir-se-á um único Templo, no qual será erguido um único altar, com pedras não talhadas, mas escolhidas com tanto cuidado que quando estiverem unidas não deixem de ser agradáveis à vista. Não será preciso subir a esse Templo nem a esse altar por degraus, mas por um pequeno terraço em declive suave. Não haverá Templo ou altar em nenhuma outra cidade, pois há um só Deus e uma única nação, a dos hebreus.

Êxodo 20.
Aquele que blasfemar contra Deus será apedrejado e dependurado durante um dia na forca. Depois será enterrado secretamente, com ignomínia.
Todos os hebreus, em qualquer país do mundo em que habitem, dirigir-se-ão três vezes por ano à Cidade Santa, ao Templo, para agradecer a Deus os seus benefícios e implorar o seu auxílio para o futuro e também para se fomentar a amizade entre vós, por meio das festas que se hão de fazer e por conversas que se hão de ter em conjunto. É justo que se conheçam os que pertencem a um mesmo povo e são governados pelas mesmas leis, e para isso nada mais apropriado que essas reuniões e assembléias, as quais, pela vista e pelas relações entre as pessoas, deixam a lembrança gravada na memória, ao passo que os que jamais se viram passam por estrangeiros no espírito dos outros. Para esse fim, além das décimas devidas aos sacerdotes e aos levitas, reservareis outras, que vendereis cada qual em sua tribo e do que obtereis dinheiro para empregá-lo na Cidade Santa, nas festas sagradas que fareis nesses dias de regozijo. Porque é muito razoável fazer atos de alegria em honra a Deus com aquilo que provém das terras que possuímos pela sua liberalidade.

Deuteronômio 23.
Não se oferecerá em sacrifício o que procede do ganho da mulher de má vida, pois Deus não tem como agradável o que foi adquirido por meios ilícitos e por vergonhosa prostituição. Por essa mesma razão, não é permitido oferecer em sacrifício o que se tiver recebido por empréstimo de cães de caça ou de pastor para deles se tirar raça.
Não se falará mal dos deuses que as outras nações cultuam, nem se saquearão os seus Templos e nem se levarão as coisas oferecidas a alguma divindade, seja qual for.
Ninguém se vestirá de pano de linho e de lã misturados, porque isso é reservado somente aos sacerdotes.
Quando se reunirem na Cidade Santa, ao fim de sete anos, para solenizar a festa dos Tabernáculos, o sumo sacerdote subirá a um lugar elevado, de onde lera publicamente toda a Lei, tão alto que cada qual possa ouvi-la, sem que se impeçam às mulheres, às crianças e aos animais estarem presentes, pois é bom gravá-la dessa maneira nos corações, para que jamais seja apagada de sua memória e de modo a tirar-lhes a desculpa de terem pecado por ignorância. Porque as santas leis farão sem dúvida impressão muito forte em seu espírito quando eles mesmos ouvirem quais são os castigos que elas impõem e como serão punidos os que ousarem violá-las.
Deve-se antes de tudo ensinar às crianças essas mesmas leis, pois nada lhes poderá ser mais útil, e, pela mesma razão, apresentar-lhes duas vezes por dia, pela manhã e à noite, os benefícios de que são devedoras a Deus e a maneira como foram libertas da servidão dos egípcios, a fim de que lhe agradeçam os favores passados e tornem-no favorável para obter outros no futuro.
Deve-se escrever nas portas, para ter, assim, escritas em redor da cabeça e dos braços as coisas principais que Deus fez por nós, pois são grandes testemunhos de sua bondade e de seu poder, a fim de nos renovarem continuamente a sua lembrança.
Devem ser escolhidos para magistrados, em cada cidade, sete homens de virtude experimentada e hábeis no que concerne à justiça. A eles acrescentem-se dois levitas, e todos lhes prestem tanta honra que ninguém se atreva a dizer uma única palavra inconveniente em sua presença, a fim de que o hábito de prestar respeito aos homens os leve a reverenciar a Deus. Os julgamentos que esses magistrados pronunciarem serão executados, a não ser que tenham sido subornadospor presentes ou pareça visivelmente que julgaram mal, pois, sendo a justiça preferível a todas as coisas, é preciso ministrá-la sem interesse e sem favor. Do contrário, Deus seria tratado com desprezo e pareceria mais fraco que os homens se o temor de desgostar pessoas ricas e elevadas em autoridade fosse mais poderoso sobre o espírito dos juizes que o medo de violar a justiça, pois ela é a força de Deus. E, se os juizes encontram dificuldade em decidir certos assuntos, como muitas vezes pode acontecer, devem, sem nada pronunciar, levá-los integralmente à Cidade Santa, ao sumo sacerdote, ao profeta e ao Senado, que os julgarão segundo a sua consciência.

Deuteronômio 19.
Não se prestará fé a uma única testemunha. Elas devem ser três ou pelo menos duas, e pessoas sem culpa.
As mulheres não serão recebidas como testemunhas, por causa da fragilidade de seu sexo e porque falam muito atrevidamente.
Os escravos também não poderão ser testemunhas, porque a baixeza de sua condição lhes abate o ânimo, e o temor ou o interesse pode levá-los a depor contra a verdade.
Aquele contra o qual se provar que proferiu falso testemunho sofrerá o mesmo castigo que se imporia ao acusado, caso fosse condenado por seu testemunho.

Deuteronômio 21.
Quando um assassínio for cometido, sem que se saiba quem é o criminoso nem se tenha motivo para suspeitar de alguém tê-lo perpetrado por ódio ou por vingança, é preciso informar-se com exatidão e mesmo propor uma recompensa a quem o puder descobrir. E, se ninguém for dado como criminoso, os magistrados das cidades vizinhas do lugar onde o assassínio foi cometido reunir-se-ão com o Senado para saber qual dessas cidades é a mais próxima do lugar onde foi encontrado o corpo do morto. Então essa cidade comprará uma novilha, que será levada a um vale tão estéril que nele não cresçam cereais nem ervas. Ali os sacerdotes e os levitas, depois de lhe terem cortado os nervos do pescoço, lavarão as mãos e as colocarão sobre a cabeça da novilha, protestando em alta voz, juntamente com os magistrados, que não estão manchados com esse crime, que não o cometeram e que nem estavam presentes quando foi cometido, e rogando a Deus que aplaque a sua cólera e jamais permita que semelhante infelicidade volte a suceder naquele lugar.
A aristocracia é sem dúvida uma forma muito boa de governo, porque põe a autoridade nas mãos de várias pessoas de bem. Abraçai-a, então, a fim de terdes por senhores apenas as leis que Deus vos dá, pois vos deve ser suficiente que Ele queira ser o vosso guia.

Deuteronômio 17.
Se desejardes um rei, escolhei um que seja da vossa nação e ame a justiça e todas as outras virtudes. Por mais capaz que possa ser, é necessário que se atenha mais a Deus e às leis que à sua própria sabedoria e governo; que nada faça sem o conselho do sumo sacerdote e do Senado; e que não tenha várias mulheres e nem sinta prazer em ajuntar dinheiro e criar muitos cavalos, para que isso não o leve ao desprezo das leis. E, se ele se envolver em excesso com essas coisas, deveis impedir, para o bem público, que ele se torne mais poderoso que necessário.
Não se devem mudar os limites, tanto nas próprias terras quanto nas dos outros, pois servem para manter a paz. Eles devem permanecer fixos e imutáveis como se o próprio Deus os houvesse marcado, porque a mudança pode dar motivo a grandes divergências e litígios, e aqueles cuja avareza não pode tolerar que se ponham limites à sua ganância são facilmente levados a desprezar e violar as leis.

Levítico 25.
Não poderão servir para uso particular e nem se oferecerão a Deus as primícias dos frutos que as árvores produzirem antes do quarto ano, a contar do tempo em que tiverem sido plantadas, porque são como frutos abortados, e tudo o que é contrário às leis da natureza não é digno de ser oferecido a Deus nem próprio para alimentar os homens. Quanto aos frutos que as árvores produzirem no quarto ano, aquele que os colher os levará à Cidade Santa para, com as outras décimas, oferecer a Deus as primícias e comer o resto com os amigos, os órfãos e as viúvas. Mas, a começar do ano seguinte, que será o quinto, poderá fazer de seus frutos o uso que desejar.
Nada se deve semear numa vinha, porque é suficiente que a terra a alimente sem que se abra com o arado o seu seio.
Deve-se arar a terra com bois, sem juntar outros animais ou atrelar espécies diferentes à mesma charrua.
Não é conveniente, do mesmo modo, misturar duas ou três espécies de sementes para lançar à terra. Porque não agrada à natureza essa mistura. Não se devem também acasalar animais de várias espécies, para que os homens, por esse motivo, não se acostumem a tal mistura, que é abominável, pois aquilo que a princípio parece de pouca importância facilmente produz efeitos perigosos. Deve-se, por essa razão, tomar muito cuidado para não permitir imitação que possa corromper os bons costumes. Eis por que as leis regulam mesmo as coisas mínimas quando se trata de manter a todos no próprio dever.

Deuteronômio 24.
Os ceifadores devem não somente evitar recolher com demasiada avareza as espigas como também deixar algumas para os pobres. Devem, do mesmo modo, deixar alguns cachos na videira e azeitonas nas oliveiras. Pois essa feliz negligência, longe de causar prejuízo ao que a pratica, traz-lhe proveito, pela sua caridade. E Deus tornará mais fecunda a terra daquele que, não se prendendo muito aos próprios interesses, não deixa de considerar os dos outros.
Quando os bois pisam o grão, não se deve atar-lhes a boca, pois é razoável que tirem proveito de seu trabalho.
Não se deve, do mesmo modo, impedir a um transeunte, quer do país, quer estrangeiro, tomar e comer maçãs quando estiverem maduras. Ao contrário, é bom dá-las de boa mente, sem que, porém, ele as leve consigo. Não se deve também impedir àqueles que trabalham no lagar que experimentem as uvas, pois é justo tornarmos os outros participantes dos bens que apraz a Deus nos conceder, pois essa estação, que é a mais fértil do ano, dura pouco tempo. Se alguém tiver vergonha de tocar nas uvas, deve-se mesmo pedir a ele que as apanhe. (Se forem israelitas, a proximidade que há entre nós deve torná-los não apenas participantes, mas senhores daquilo que possuímos. Se forem estrangeiros, devemos desempenhar para com eles a hospitalidade, sem julgar perder alguma coisa por esse pequeno presente que lhes fazemos dos frutos que recebemos da liberalidade de Deus, pois Ele não nos enriquece somente para nós, mas deseja também dar a conhecer aos outros povos, pela participação que lhe permitimos em nossos bens, a sua munificência para conosco.)
Se alguém desobedecer a esses mandamentos, receberá trinta e nove golpes de chicote. Será castigado com essa pena servil porque, sendo livre, tornou-se escravo de seus bens e a si mesmo se desonrou. (Que há de mais razoável, depois de sofrermos tanto no Egito e no deserto, que termos compaixão das misérias dos outros e, tendo recebido tantos bens da bondade infinita de Deus, distribuirmos uma parte aos que deles têm necessidade?)
Além das duas décimas que é obrigatório pagar a cada ano, uma aos levitas e outra para as festas sagradas, deve-se pagar uma terceira, para ser distribuída às viúvas, aos pobres e aos órfãos.

Deuteronômio 26.
As primícias de todos os frutos devem ser levadas ao Templo e oferecidas aos sacerdotes, depois de terdes rendido graças a Deus por vos ter dado a terra que os produz e feito os sacrifícios que a Lei determina. Aquele que vier pagar essas duas décimas, das quais uma deve ser dada aos levitas e a outra empregada nos festins sagrados, apresentar-se-á à porta do Templo antes de voltar para casa e dará graças a Deus por haver libertado o povo da escravidão do Egito e dado a ele uma terra tão fértil e abundante. Declarará em seguida que pagou as décimas segundo a lei de Moisés e rogará a Deus que lhe seja sempre favorável. (É Ele quem conserva os bens que nos deu, sem nada acrescentarmos de novo.)
Quando os homens chegarem à idade de se casar, desposarão jovens de condição livre, cujos pais sejam gente de bem. Aquele que recusar casar-se dessa maneira, a fim de desposar a mulher de outro, que obteve com artifícios, não poderá fazê-lo, para não contristar o primeiro marido.
Por mais amor que os homens tenham por mulheres escravas, não devem desposá-las, mas dominar a sua paixão, pois a honestidade e a boa educação a isso os obrigam.
A mulher que se prostituiu não poderá casar-se, porque, tendo sido desonrado o seu corpo, Deus não receberá os sacrifícios que lhe forem oferecidos por semelhantes casamentos. Além disso, as crianças que nascem de pais virtuosos possuem índole mais nobre e mais inclinada à virtude que as originárias de aliança vergonhosa ou contraída por amor impudico.

Deuteronômio 24.
Se alguém, depois de ter desposado uma jovem que passava por virgem, julga ter motivo para crer que já não o é, a fará citar à justiça e trará as provas de sua suspeita. O pai ou o irmão ou, em sua falta, o parente mais próximo da moça a defenderá. Se ela for declarada inocente, o marido será obrigado a mantê-la sem poder jamais despedi-la, a não ser por grande falta, que não possa ser contestada. E, como castigo pela calúnia e pelo ultraje que fez à sua inocência, receberá trinta e nove golpes de chicote e dará cinqüenta sidos ao pai da moça. Mas se ela for culpada e provir de família leiga, será apedrejada. Se for da descendência dos sacerdotes, será queimada viva.

Deuteronômio 2 1.
Se um homem desposou duas mulheres e tem mais afeto a uma delas, quer por causa da beleza, quer por alguma outra razão, e o filho da que ele mais ama seja mais moço que o da que ele menos ama e aquela o queira na partilha, como se fosse o mais velho, a fim de que, segundo as leis, tenha dupla porção, não deve o marido atender-lhe o pedido. Porque não é justo que a infelicidade de a mãe ser menos amada pelo marido seja causa de injustiça ao direito de primogenitura que o seu filho adquiriu pelo privilégio do nascimento.

Deuteronômio 22.
Se alguém corrompeu uma jovem, noiva de outro, tendo ela lhe dado o consentimento, ambos serão castigados de morte, pois são culpados: o homem por ter persuadido a moça a preferir um prazer infame à honestidade do matrimônio legítimo e ela por ter assim consentido ou pelo desejo do dinheiro ou por vergonhosa volúpia.
Aquele que desonra uma moça que encontra sozinha e a quem ninguém pode socorrer será castigado de morte.
Aquele que abusa de uma jovem ainda não prometida a ninguém será obrigado a desposá-la ou a pagar cinqüenta sidos ao pai da moça, se este não a quiser dar em casamento.
Aquele que por qualquer motivo quiser separar-se da mulher, como acontece freqüentemente, prometer-lhe-á por escrito que jamais a tornará a pedir de volta, a fim de que ela tenha liberdade de tornar a casar-se — e não se permitirá o divórcio senão com essa condição. E se, depois de haver casado com outro, esse segundo marido a tratar mal ou vier a morrer e o primeiro a quiser receber de novo, não lhe será permitido voltar para junto dele.

Deuteronômio 25.
Se um homem morre sem filhos, o irmão dele desposará a viúva e se dela tiver um filho dar-lhe-á o nome do falecido e o considerará herdeiro deste, pois é vantajoso para a República que o bem se conserve desse modo nas famílias, e será uma consolação para a viúva viver com uma pessoa tão próxima de seu marido. Se o irmão do falecido recusar desposá-la, ela declarará diante do Senado que ele não se incomodou em mantê-la na família do marido nem em lhe dar filhos e que esse cunhado, a quem ela queria desposar, fez à memória do irmão a injúria de não querer saber dela. Quando o Senado o fizer vir para perguntar-lhe qual a razão disso e ele fizer alguma alegação, quer boa, quer má, ela descalçará um dos sapatos do cunhado que a recusou e cuspir-lhe-á no rosto, dizendo que ele merece receber essa afronta porque fez grande ultraje â memória do irmão. Assim, ele sairá do Senado com essa mancha, que lhe marcará pelo resto da vida, e a mulher poderá casar-se com quem bem entender.


Deuteronômio 21.
Se alguém tomar na guerra uma mulher como prisioneira, seja virgem, seja casada, e quiser contrair com ela um matrimônio legítimo, é preciso que antes ela se vista de luto, que lhe cortem os cabelos e que ela chore os parentes e amigos mortos no combate, para que depois de satisfazer à dor possa ter o espírito mais livre para as festas de núpcias. Porque é justo que aquele que toma uma esposa com o propósito de ter filhos dê alguma coisa aos bons sentimentos dela e não se entregue de tal modo ir ao prazer que venha a desprezá-los. Após um luto de trinta dias, tempo suficiente para as pessoas sensatas chorarem os parentes e amigos, poder-se-á celebrar o casamento. Se o homem depois de ter satisfeito à sua paixão vier a desprezar essa mulher, não lhe será mais permitido tê-la como escrava: ela tornar-se-á livre e poderá ir para onde quiser.

Deuteronômio 21.
Se houver filhos que não prestem aos progenitores a honra que lhes é devida, mas os desprezem e vivam insolentemente com eles, esses progenitores, que a natureza faz juizes daqueles, deverão fazer-lhes ver que ao se casar não tinham por objetivo a voluptuosidade nem o desejo de aumentar o próprio bem, e sim ter filhos que os pudessem auxiliar na velhice e que, havendo-os recebido de Deus, os receberam com alegria e ação de graças e os educaram com toda espécie de cuidados, sem nada poupar para bem instruí-los. E acrescentarão estas palavras: &quot;Mas como é preciso perdoar alguma coisa à juventude, contentai-vos pelo menos, meu filho, de terdes até aqui cumprido tão mal o vosso dever. Refleti, procurai ser mais sensato e lembrai-vos de que Deus tem como feitas contra Ele mesmo as ofensas que se cometem contra aqueles dos quais se recebeu a vida, pois Ele é o pai comum de todos os homens, e a Lei determina, por esse motivo, uma pena irremissível, e eu ficaria muito sentido se fósseis tão infeliz que a devêsseis merecer&quot;.
Se depois de todas essas palavras a criança se corrigir, será bem perdoar-lhe as faltas que houver cometido mais por ignorância que por malícia, e assim louvar-se-á a sabedoria do legislador e os pais serão felizes por ver que o filho não sofrerá o castigo que as leis determinam. Mas se essa sábia repreensão for inútil e a criança persistir na desobediência e permanecer insolente para com os pais, tornando-se inimiga das leis, ela será levada para fora da cidade e apedrejada à vista de todo o povo. E, depois que o seu corpo tiver sido exposto em público durante todo o dia, será enterrada à noite.

Deuteronômio 23.
A mesma coisa se há de observar a respeito daqueles que forem condenados à morte: enterrar-se-ão até mesmo os inimigos. Nenhum morto deve ser deixado sem sepultura, pois seria levar muito além a sua punição.
Não será permitido a israelita algum emprestar com usura dinheiro, alimento algum ou bebida de qualquer espécie, porque não é justo aproveitar-se da miséria dos outros da mesma nação. Deve-se, ao contrário, considerar uma honra ajudá-los e esperar recompensa somente de Deus. Aqueles que tomarem emprestado dinheiro, frutos secos ou líquidos deverão restituí-los quando Deus lhes permitir colhê-los, e com a mesma alegria com que os pediram emprestado, porque é o melhor meio de os encontrar se vierem a cair em semelhante miséria.

Deuteronômio 24.
Se o devedor não tem vergonha de deixar de pagar a dívida, o credor não deverá, no entanto, ir à sua casa pedir um penhor, como garantia, mas terá de esperar que a justiça o ordene. Só então o poderá solicitar, sem todavia entrar na casa do devedor, que será obrigado a entregar-lhe o penhor imediatamente, pois não é permitido opor-se àquele que vem amparado pelo auxílio das leis. Se o devedor estiver em boa situação, o credor poderá conservar esse penhor até ser reembolsado daquilo que emprestou. Mas se é pobre, deverá restituí-lo antes que o sol se ponha, principalmente se forem vestes, a fim de que possa cobrir-se à noite, porque Deus tem compaixão dos pobres. Não se poderá tomar como penhor uma mula nem coisa alguma que sirva para o moinho, a fim de não se aumentar ainda mais a miséria dos pobres tirando-lhes os meios de ganhar a vida.
Aquele que retiver em escravidão um homem livre de nascimento será castigado com a morte. Aquele que roubar ouro ou prata será obrigado a restituir o dobro.
Aquele que matar um ladrão doméstico ou um homem que tenha tentado saltar o muro de sua casa para roubar não será castigado.
Aquele que roubar um animal pagará o quádruplo de seu valor. Se for um boi, pagará cinco vezes o que ele vale. Ou será reduzido à escravidão, se não tiver meios de pagar a multa.
Se um hebreu for vendido a outro hebreu, ficará seis anos como seu escravo, mas no sétimo ano será posto em liberdade. Se enquanto estiver na casa de seu senhor desposar uma mulher escrava como ele, tiver filhos dela e por causa da afeição que lhes tem preferir permanecer escravo com eles, será libertado, com a mulher e os filhos, no ano do Jubileu.

Deuteronômio 22.
Se alguém achar ouro ou prata na estrada, será divulgado a som de trombe-ta o lugar onde foi encontrado esse bem, a fim de que seja restituído a quem o perdeu, porque não se deve tirar vantagem do prejuízo alheio. A mesma coisa deve ser feita com os animais que se encontrarem perdidos ou desgarrados no deserto. E, se não se puder saber a quem eles pertencem, poderão ser conservados, depois de se tomar a Deus como testemunha de que não existe absolutamente intenção de se tirar proveito do bem alheio.
Quando for encontrado algum animal de carga atolado num pântano, deve-se tentar retirá-lo de lá como se fosse próprio.
Em vez de se zombar de quem está perdido ou de se divertir ao vê-lo em tal aflição, deve-se encaminhá-lo à verdadeira estrada.
Não se deve falar mal nem de um surdo nem de um ausente.
Se numa briga inesperada um homem ferir outro sem ter empregado ferro, deve ser castigado, recebendo tantos golpes quantos desferiu. Se o ferido vier a morrer depois de ter vivido muito tempo após o ferimento, aquele que o feriu não será castigado como assassino. E, se o ferido sarar, aquele que o feriu será obrigado a pagar todas as despesas, bem como aos médicos.
Se alguém der um pontapé numa mulher grávida e ela der à luz antes do tempo, será condenado a uma multa em favor dela e a outra em favor do marido, porque diminuiu o número do povo, impedindo um homem de vir ao mundo. Se a mulher morrer por causa do golpe que recebeu, ele será castigado com a morte, porque exige a Lei que quem tirar a vida de outrem também venha a perder a própria vida.
Quem for encontrado trazendo veneno consigo será castigado com a morte, porque é justo que venha a sofrer o mesmo mal que desejou fazer a outrem.
Se um homem vaza os olhos a outro, ser-lhe-ão também vazados os seus, porque é razoável que seja tratado tal como tratou ao outro, caso o que perdeu a vista não preferir ser ressarcido com dinheiro: isso a Lei deixa escolher.
O dono de um boi que tem probabilidade de ferir com os chifres é obrigado a matá-lo. E, se o boi ferir alguém e o matar, será morto imediatamente a pedradas e não se comerá a sua carne. E, se o dono sabia que o boi era perigoso e não tomou providências a esse respeito, será castigado com a morte, porque causou a morte de alguém. Se a pessoa morta pelo boi for escrava, o boi será apedrejado e serão pagos trinta sidos ao dono do escravo. Se um boi matar outro boi, ambos serão vendidos e o dinheiro será dividido entre os donos.
Quem cavar um poço ou uma cisterna terá grande cuidado em cobri-lo, não para impedir que se tire água, mas para que ninguém lá venha a cair. E se, por não haver assim procedido, algum animal lá cair e morrer, será obrigado a pagar o preço do animal ao seu proprietário. É preciso colocar cercas em redor dos telhados das casas, para que ninguém de lá venha a cair.

Levítico 6.
Aquele a quem um depósito for confiado, conservá-lo-á como coisa sagrada e não o dará a quem quer que seja, por coisa alguma que se lhe possa oferecer. Pois, embora não haja testemunhas para acusá-lo, ele deve ter em conta o testemunho da consciência e o quanto deve a Deus, que não pode ser enganado pela malícia ou pelos artifícios dos homens. E, se o depositário perder o depósito, sem culpa irá procurar os sete juizes de que se falou e tomará a Deus por testemunha, jurando em sua presença que não teve parte alguma no furto nem fez uso algum do depósito. Assim, será livre do compromisso. Mas, por pouco que dele se tenha servido, será obrigado a restituir o depósito inteiro.

Deuteronômio 24.
Deve-se ser bastante consciencioso em pagar o salário a que fazem jus os operários com o suor do rosto, pois Deus, em vez de terras e de bens, deu braços aos pobres, para ganharem a vida. Pela mesma razão, não se deve adiar para o dia seguinte o pagamento que lhes é devido. Devem ser pagos no mesmo dia, porque Deus não quer vê-los prejudicados por não receberem o que granjearam.
As crianças não devem ser castigadas pelos pecados dos pais porque, sendo elas virtuosas, são dignas de serem lamentadas por terem nascido de pessoas viciadas e não devem ser odiadas em razão das faltas cometidas por seus proge-nitores. Não se deve, do mesmo modo, imputar aos pais os defeitos dos filhos, e sim atribuí-los à má natureza destes, que os fez desprezar as boas lições que lhes deram aqueles e os impediu de aproveitá-las.
Deve-se fugir e ter horror aos que se tornaram eunucos voluntariamente e assim perderam o meio que Deus lhes deu de contribuir para a multiplicação dos homens. Porque além de terem procurado quanto estava neles diminuir-lhes o número e serem de algum modo homicidas de crianças, das quais poderiam ter sido os pais, não poderiam cometer tal ação sem ter antes machucado a pureza da própria alma, pois é fora de dúvida que se ela não se tivesse efeminado eles não teriam posto o corpo num estado que os assemelha às mulheres. Assim, é preciso rejeitar tudo o que, sendo contra a natureza, pode passar a monstruoso. Não se deve privar nem o homem nem animal algum do sinal de seu sexo.
173. Essas são as leis que sereis obrigados a observar durante a paz, a fim de tornardes Deus favorável. E, para que nada as possa perturbar, rogo-vos que nunca permitais que elas sejam abolidas e substituídas por outras. Mas, sendo impossível que não haja amotinação nos países mais bem organizados e que os homens não caiam em desgraça, improvisada ou voluntária, é preciso que eu vos dê, além de tudo, alguns avisos a esse respeito, de modo a não serdes surpreendidos nessas ocasiões e a estardes preparados para o que deveis fazer.
É meu desejo que quando tiverdes obtido por vosso trabalho, com o auxílio de Deus, o país que Ele vos destinou, vós o possais possuir em paz e com plena tranqüilidade; que não sejais perturbados, nem pelos ataques de vossos inimigos nem por divisões intestinas; e que, em vez de abandonar as leis e o proceder de vossos antepassados para abraçar outras que lhes sejam inteiramente opostas, permaneçais firmes na observância daquelas que o próprio Deus vos outorgou. Mas se vós ou os vossos descendentes fordes obrigados a fazer guerra, desejo de todo o meu coração que isso jamais ocorra no vosso país. Nesse caso, deve-se começar enviando arautos para declarar aos vossos inimigos que em qualquer condição que estejais, tanto na cavalaria como na infantaria, e principalmente tendo a Deus por protetor e guia de vossos exércitos, preferis não serdes obrigados a lançar mão das armas, pois não tendes nenhum desejo de vos aproveitardes disso.
Se as vossas palavras os persuadirem a continuar em paz convosco, será muito melhor não rompê-la. Se eles as desprezarem, porém, e não temerem declarar-vos uma guerra injusta, marchai corajosamente contra eles, tomando a Deus por comandante e general e para comandar, abaixo dEle, o mais sábio e experimentado de vossos capitães, pois a pluralidade de chefes com igual autoridade, em lugar de ser vantajosa, é muitas vezes prejudicial, pela demora que traz à execução das empresas. Quanto aos soldados, é preciso escolher os mais valentes e robustos, sem misturar com eles os fracos e covardes, pois estes, em vez vos serem úteis, sê-lo-ão aos vossos inimigos, fugindo quando deveriam combater.
Não se obrigará a ir à guerra os que tiverem construído uma casa até que nela tenham habitado durante um ano, nem os que tiverem plantado uma vinha até que dela tenham recolhido os frutos e nem os recém-casados, pois estes, pelo desejo de se conservarem para desfrutar os prazeres que lhes são caros, podem vir a afrouxar a coragem e poupar a vida demasiadamente.
Observai nos vossos acampamentos uma disciplina rigorosa, e quando atacardes uma praça e tiverdes necessidade de madeira para fazer máquinas, evitai cortar as árvores frutíferas, porque Deus as criou para utilidade dos homens, e, se elas pudessem falar e mudar de lugar, queixar-se-iam do mal que lhes estaríeis fazendo sem vos terem dado motivo para isso e ir-se-iam estabelecer em outras terras.
Quando sairdes vitoriosos, matai os que vos resistirem no combate, mas poupai os outros, para torná-los tributários, exceto os cananeus, que exterminareis completamente.

Deuteronômio 22.
Ficai atentos a tudo o que se refere à guerra, principalmente para que nenhuma mulher se disfarce de homem e nenhum homem de mulher.
Essas foram as leis que Moisés deixou à nossa nação. Ele deu também as que havia escrito quarenta anos antes, das quais falaremos em outro lugar.
174. Deuteronômio 30, 31, 32 e 34. Esse homem admirável continuou nos dias seguintes a reunir o povo, pediu a Deus com fervorosas orações que os assistisse, se eles observassem as suas santas leis, e fez imprecações contra aqueles que a elas faltassem. Deu-lhes depois um cântico que havia composto em versos hexâmetros, no qual predizia as coisas que lhes deviam acontecer, das quais uma parte já se realizou e o resto realizar-se-á depois, sem que se tenha podido notar uma mínima coisa que não fosse conforme à verdade. Entregou esse livro sagrado à guarda dos sacerdotes, juntamente com a arca, na qual estavam as duas Tábuas da Lei, e confiou-lhes o cuidado do Tabernáculo.
175. Ele recomendou ao povo que quando estivessem de posse da terra de Canaã se recordassem da injúria que haviam recebido dos amalequitas e lhes declarassem guerra, para castigá-los como mereciam, pela maneira injuriosa com que os haviam tratado no deserto.

Deuteronômio 27 e 28. Ordenou-lhes também que, depois de conquistar essa mesma terra de Canaã e de passar todos os seus habitantes a fio de espada, construíssem perto da cidade de Siquém um altar voltado para o oriente, que tivesse à direita o monte Gerizim e à esquerda o Ebal, e que em seguida se dividisse todo o exército em dois, colocando seis tribos sobre um monte e seis sobre o outro e dividindo igualmente os sacerdotes e os levitas entre os dois montes.
Então os que estivessem sobre o monte Gerizim pediriam a Deus que abençoasse os que observassem com piedade as leis dadas por Moisés. Os que estivessem sobre o monte Ebal confirmariam com aclamações esse pedido e pronunciariam, por sua vez, as mesmas bênçãos, ao que os outros responderiam com os mesmos clamores de alegria. Por fim, fariam uns depois dos outros, na mesma ordem, todas as espécies de imprecações contra os violadores das leis de Deus. Moisés mandou escrever todas essas bênçãos e maldições e, para melhor conservar-lhes a recordação, mandou gravá-las nos dois lados do altar e permitiu ao povo que dele se aproximasse somente naquele dia de oferecer holocaustos, o que lhes era proibido pela Lei. Esses foram os mandamentos que Moisés outorgou aos hebreus e que eles observam ainda hoje.
176. Deuteronômio 29. No dia seguinte, mandou reunir todo o povo e quis que as mulheres, as crianças e mesmo os escravos estivessem presentes. Obrigou-os todos a jurar que observariam inviolavelmente e conforme a vontade de Deus todas as leis que ele lhes havia concedido por ordem dEle, sem que nem o parentesco, nem o favor, nem o medo, nem qualquer outra consideração os pudesse levar a transgredi-las. E, se algum dos parentes ou alguma cidade, sem motivo, quisesse fazer coisas que lhes fossem contrárias, todos, em geral e em particular, os dominariam à força e, depois de vencer esses ímpios, destruiriam as suas cidades até os alicerces, sem que restasse, se possível, o menor vestígio delas. Se não fossem bastante fortes para vencê-los e castigá-los, que ao menos demonstrassem horror pela sua impiedade. Todo o povo prometeu com juramento observar essas coisas.
Moisés instruiu-os depois sobre a maneira como deviam fazer os sacrifícios, a fim de torná-los mais agradáveis a Deus. Recomendou-lhes ainda que não se metessem em guerra alguma, senão depois de reconhecer, pelo brilho extraordinário das pedras preciosas que estavam sobre o racional do sumo sacerdote, que Deus aprovava que eles as empreendessem.
177. Josué então predisse, pelo espírito de profecia, mesmo ainda vivendo Moisés e em presença deste, tudo o que faria para o bem do povo ou na guerra, pelas armas, ou na paz, pela publicação de várias leis boas e santas. Exortou-os a praticar com cuidado a maneira de viver que lhes acabava de ser determinada e disse-lhes que Deus lhe havia revelado que, se eles se afastassem da piedade de seus antepassados, seriam oprimidos por toda espécie de desgraças: o seu país se tornaria presa de nações estrangeiras e os seus inimigos destruiriam as suas cidades, queimariam o Templo e levá-los-iam escravos. Eles gemeriam numa escravidão tanto mais dolorosa quanto teriam por senhores homens sem piedade e então se arrependeriam, porém muito tarde, de sua desobediência e ingratidão. Todavia a infinita bondade de Deus não deixaria de restituir as cidades aos seus antigos habitantes e o Templo ao seu povo, o que aconteceria não somente uma vez, mas diversas.
178. Deuteronômio 31, 33 e 34. Moisés ordenou em seguida a Josué que levasse o exército contra os cananeus, assegurando-lhe que Deus o assistiria naquela empresa e desejando toda espécie de felicidade ao povo, e assim falou-lhes: &quot;Hoje Deus resolveu terminar a minha vida, e devo ir encontrar-me com os meus pais. É bem justo que antes de morrer eu lhe dê graças na vossa presença pelo cuidado que teve de vós, não somente vos livrando de tantos males, mas vos cumulando de tantos bens, e por me assistir nas dificuldades que tive de enfrentar para vos proporcionar tantos benefícios. Pois é somente a Ele que deveis o começo e a realização de vossa felicidade. Eu fui apenas o seu ministro e só ei as suas ordens, que são efeitos de sua onipotência, de que eu não saberia dar graças o suficiente nem teria como rogar-lhe a continuidade. Deixo cumprido esse dever e rogo-vos que graveis na memória um tão profundo respeito por Deus e tanta veneração por suas santas leis que as considereis sempre como o maior de todos os favores que Ele vos fez e que jamais poderíeis dEle receber. Se um legislador, embora sendo um homem, não iria tolerar que se desprezassem as leis criadas por ele e castigaria o desprezo a elas com todas as suas forças, imaginai qual será a cólera e a indignação de Deus, se deixardes de observar as suas. Rogo a Ele de todo o meu coração que não permita sejais tão infelizes para merecê-lo&quot;.
179. Depois de assim falar, Moisés predisse a cada uma das tribos o que lhe deveria acontecer e desejou-lhes mil bênçãos. Toda aquela enorme multidão não pôde por mais tempo reter as lágrimas. Homens e mulheres, grandes e pequenos, todos demonstraram igualmente o seu pesar por perder um chefe tão ilustre. Não houve mesmo criança que não derramasse lágrimas: a sua eminente virtude não podia ser ignorada nem mesmo pelos dessa idade.
Dentre as pessoas sensatas, umas deploravam a gravidade de sua perda para o futuro e outras queixavam-se de não terem compreendido o bastante a felicidade que era para eles ter um tal chefe e guia e de serem privados dele quando o começavam a conhecer. Nada, porém, demonstrou tão bem até que ponto chegava a aflição deles como o que aconteceu a esse grande legislador. Pois ainda que estivesse convencido de que não era necessário chorar à hora da morte, pois ela vem por vontade de Deus e por uma lei indispensável da natureza, ele ficou tão comovido pelas lágrimas de todo o povo que não pôde deixar de chorar.
Caminhou depois para onde deveria terminar a vida, e todos seguiram-no gemendo. Aos mais afastados, ele sinalizou com a mão que parassem e rogou aos que estavam mais próximos que não o afligissem mais ainda, seguindo-o com tantas demonstrações de afeto. Assim, para obedecer, eles pararam, e todos juntamente lamentavanra infelicidade por tão grande perda. Eleazar, o sumo sacerdote, Josué, o comandante do exército, e os Senadores foram os únicos que o acompanharam. Quando ele chegou ao monte Nebo, que está em frente a Jerico e é tão alto que de lá se pode ver todo o país de Canaã, despediu-se dos Senadores, abraçou Eleazar e Josué e deu-lhes o último adeus. Ainda ele falava quando uma nuvem o rodeou e ele foi levado a um vale.
Os Livros Santos, que ele nos deixou, dizem que Moisés morreu porque se temia que o povo não acreditasse que ele ainda estava vivo, arrebatado ao céu por causa de sua eminente santidade. Faltava somente um mês para que, dos cento e vinte anos que viveu, ele completasse quarenta no governo daquele grande povo, cuja direção Deus lhe havia confiado. Ele morreu no primeiro dia do último mês do ano, que os macedônios chamam dystros, e os hebreus, adar.
jamais homem algum igualou em sabedoria esse ilustre legislador, e ninguém soube, como ele, tomar sempre as melhores resoluções e tão bem pô-las em prática, jamais algum outro se lhe pôde comparar na maneira de tratar com um povo, de governá-lo e persuadi-lo pela força de suas palavras. Sempre foi tão senhor de suas paixões que parecia até delas estar isento e que as conhecia apenas pelos efeitos que via nos outros. Sua ciência na guerra pôde dar-lhe um lugar entre os maiores generais, e nenhum outro teve o dom da profecia em tão alto grau. As suas palavras eram outros tantos oráculos, e parecia que o próprio Deus falava por sua boca.
O povo chorou-o durante trinta dias, e nenhuma outra perda lhe foi jamais tão sensível. E ele não foi lamentado apenas por aqueles que tiveram a felicidade de conhecê-lo, mas também por aqueles que conheceram as leis admiráveis que ele nos deixou, porque a santidade que nelas se nota não pode permitir dúvidas sobre a eminente virtude desse legislador.

Livro Quinto

CAPÍTULO 1
FOSUÉ, POR UM MILAGRE, PASSA OFORDÃO COM O EXÉRCITO E, POR OUTRO
MILAGRE, TOMA JERICO, ONDE SOMENTE RAABE SE SALVA COM OS SEUS. OS
ISRAELITAS SÃO DERROTADOS PELOS DE AI, POR CAUSA DO PECADO DEACÃ,
E TORNAM-SE SENHORES DESSA CIDADE DEPOIS QUE ELE FOI CASTIGADO.
ARTIFÍCIOS DOS GIBEONITAS PARA FAZER ALIANÇA COM OS HEBREUS, QUE OS
AJUDAM CONTRA O REI DE JERUSALÉM E QUATRO OUTROS REIS. JOSUÉ
DERROTA EM SEGUIDA VÁRIOS OUTROS REIS, COLOCA O TABERNÁCULO EM
SILO, DIVIDE O PAÍS DE CANAÃ ENTRE AS TRIBOS E DESPEDE AS DE RÚBEN
E GADE E METADE DA DE MANASSES. ESTAS, DEPOIS DE PASSAR O JORDÃO,
ERGUEM UM ALTAR, O QUE SE PENSOU CAUSAR UMA GRANDE GUERRA.
MORTE DE JOSUÉ E DE ELEAZAR, SUMO SACERDOTE.

180. Josué 1. Vimos, no livro precedente, de que modo Moisés foi levado do convívio dos homens. Depois de prestados a ele os últimos serviços e passado o tempo do luto, Josué ordenou a todas as tropas que estivessem prontas, mandou exploradores a jerico, para observar as disposições dos habitantes, e marchou com o exército, tendo em mira atravessar o Jordão. Como o país dos amorreus, que corresponde à sétima parte de Canaã, havia sido entregue às tribos de Rúben e Gade e à metade da de Manasses, ele fez ver aos chefes delas o cuidado que Moisés tivera por eles até a morte e exortou-os a cumprir com alegria o que lhe haviam prometido, porque se haviam obrigado tanto para reconhecer o afeto que ele lhes demonstrara quanto para utilidade comum. Encontrou-os tão bem dispostos que eles forneceram cinqüenta mil homens. Partiu então de Abila e avançou sessenta estádios na direção do Jordão.
Os homens que ele mandara para explorar a terra informaram-lhe que os cananeus de nada desconfiavam, havendo-os tomado por estrangeiros levados ao seu país apenas pela curiosidade; que haviam observado a cidade com toda calma, sem que ninguém os impedisse; que em alguns lugares as muralhas eram mais fortes ou mais fracas, e as portas, mais fáceis de serem surpreendidas; que pela tarde eles se haviam recolhido a uma hospedaria, perto da defesa, onde haviam estado por primeiro; que depois de cear eles se prepararam para regressar, mas alguém avisara o rei de que alguns homens mandados pelos hebreus haviam feito reconhecimentos na cidade e estavam na casa de Raabe com o propósito de fugir dali secretamente.
O soberano enviou imediatamente alguns homens para prendê-los e entregá-los à justiça, a fim de os obrigarem a confessar, mas Raabe os escondeu nos montes de linho que fazia secar ao longo do muro e disse às pessoas mandadas pelo rei que verdadeiramente alguns estrangeiros, que ela não conhecia, cearam em sua casa, mas haviam partido pouco antes do pôr-do-sol, e que se temiam que a visita deles tinha algum fim prejudicial à cidade e ao rei, seria fácil apanhá-los e trazê-los de volta. Aquelas pessoas, enganadas por essa mulher, em vez de procurá-los em casa tomaram caminhos que, segundo imaginavam, os estrangeiros teriam seguido, particularmente os que levavam ao rio. Porém, depois de caminharem muito tempo, voltaram sem saber notícias deles.
Depois que tudo sossegou, Raabe falou-lhes do perigo ao qual ela, com toda a sua família, se expusera para salvá-los e contou-lhes que Deus lhe revelara que eles se tornariam senhores de todo o país de Canaã. Então obrigou-os a prometer com juramento que depois de tomar Jerico e passar todos os seus habitantes a fio de espada, segundo a resolução já tomada, eles lhe salvariam a vida e a de todos os seus, da mesma forma como ela havia salvado a deles.
Depois de ter-lhe agradecido muito, eles disseram que quando ela visse a cidade prestes a ser tomada teria apenas de retirar os parentes e todos os seus bens de casa e estender diante da porta um pano vermelho, garantindo-lhe que, como recompensa pelo favor que lhe deviam, o general deles faria publicar proibições expressas quanto a entrar em sua casa ou causar-lhe algum desprazer. Mas se algum de seus parentes fosse morto em combate, ela não deveria acusá-los de ter violado o juramento. Eles contaram a Josué que a mulher em seguida os fez descer as muralhas da cidade por meio de uma corda. Josué narrou esse fato a Eleazar, sumo sacerdote, e ao Senado, e eles aprovaram e confirmaram a promessa feita a Raabe.
181. Josué 3. Como Jerico situava-se além do Jordão, era preciso, para atacá-la, que o exército atravessasse o rio, então muito aumentado por causa das enchentes e da chuva. Josué encontrou-se em grande aflição, porque não tinha barcos para fazer uma ponte, e, mesmo se isso viesse a ser possível, os inimigos tê-los-iam impedido de construí-la. E, diante de tão grande contratempo, Deus prometeu-lhe tornar o rio vadeável. Josué esperou dois dias e depois atravessou-o, deste modo: os sacerdotes por primeiro, com a arca, seguidos pelos levitas, que levavam o Tabernáculo e todos os vasos sagrados. Os que pertenciam ao exército marchavam junto com as respectivas tribos, colocadas as mulheres e as crianças no meio, a fim de não serem levadas pela correnteza.
Quando os sacerdotes entraram no rio, perceberam que a água não era mais tão movimentada, tendo baixado de nível, e que o fundo estava firme. Assim, podiam atravessá-lo a pé. Depois desse primeiro efeito da promessa de Deus, todos os outros passa sem receio. Os sacerdotes ficaram no meio do rio até que todos passassem, e mal eles mesmos chegaram ao outro lado imediatamente o rio tornou-se cheio e impetuoso como antes. O exército avançou ainda uns cinqüenta estádios e acampou a dez estádios de Jerico.
182. Josué 4 e 5. Josué mandou erguer — com doze pedras que os príncipes das doze tribos, por sua ordem, apanharam no Jordão — um altar para servir como monumento ao auxílio de Deus, que, em benefício do povo, retivera a violência e a impetuosidade do rio. Sobre esse altar ele ofereceu um sacrifício e nesse lugar celebrou a festa da Páscoa. O exército encontrava-se em tão grande abundância quanto antes estivera em premente necessidade, pois além de toda espécie de presas com que se haviam enriquecido fora feita a colheita dos grãos já maduros, de que os campos estavam cobertos. E o maná, que os havia nutrido durante quarenta anos, deixou então de cair.
183.  Josué, vendo-se senhor do campo, pois o medo dos cananeus os havia encerrado todos na cidade, resolveu então atacá-los. Assim, no primeiro dia da festa, os sacerdotes, acompanhados pelo Senado, marcharam para Jerico no meio dos batalhões, levando a arca sobre os ombros, ao som de sete trompas, para animar os soldados. Depois de nessa ordem rodearem a cidade, regressaram ao acampamento e continuaram durante seis dias a fazer a mesma coisa.
No sétimo dia, Josué reuniu todo o exército e todo o povo e disse-lhes que antes que o Sol se ocultasse no ocaso Deus lhes entregaria jerico sem que eles tivessem necessidade de fazer esforço algum para dela se tornar senhores, porque as muralhas cairiam por si mesmas, para lhes dar entrada. Ordenou-lhes então que matassem não somente todos os seus habitantes, mas tudo o que tivesse vida, sem que a compaixão, o desejo do saque ou o cansaço os impedisse e sem nada reservarem para proveito particular. Deveriam levar a um mesmo lugar todo ouro e toda prata que encontrassem, para oferecer a Deus como primícias, e os despojos daquela que era a primeira cidade que Ele fazia cair nas mãos deles deveriam ser oferecidos em ação de graças, pela assistência que lhes prestava. Dessa lei geral, deviam excetuar apenas Raabe e seus parentes, por causa do juramento que a ela fizeram os que ele havia mandado para reconhecimento.
Depois de ter dado essas ordens, mandou o exército avançar para a cidade. Rodearam-na por sete vezes, os sacerdotes à frente, com a arca e ao som das trompas, como nos dias precedentes, para animar os soldados. E ao sétimo dia as muralhas caíram sozinhas. Fato tão prodigioso espantou de tal modo os seus habitantes que eles perderam totalmente a coragem, permitindo que os hebreus entrassem por todos os lados sem encontrar resistência alguma. Fez-se assim horrível matança, não sendo poupadas nem as mulheres nem as crianças. Puseram fogo à cidade e reduziram a cinzas todas as casas nos campos.
Somente Raabe e seus parentes, a salvo em casa dela, foram isentos dessa desolação geral, e ela foi levada a Josué. Ele agradeceu-lhe por ter salvo aqueles que havia enviado, prometendo recompensá-la como merecia. Em seguida, deu-lhe terras e tratou-a sempre com muita cordialidade. Destruiu-se com o ferro em Jerico tudo quanto o fogo havia poupado. Pronunciaram-se maldições contra os que tentassem reconstruir a cidade e rogou-se a Deus que o primeiro que lhes lançasse os alicerces perdesse o filho primogênito ao começar a obra e o mais moço ao terminá-la. Essa maldição teve o seu efeito, como diremos a seu tempo. Encontrou-se nessa poderosa cidade grande quantidade de ouro, de prata e de cobre sem que ninguém, sem excetuar um só, ousasse se apoderar de algo, por causa da proibição que se fizera. Josué mandou entregar todas as riquezas nas mãos dos sacerdotes, para conservá-las no tesouro.
184. Josué 7. Acã, filho de Carmi, da tribo de Judá, que se apoderara da cota de armas do rei, toda tecida em ouro, e de uma barra de ouro, do peso de duzentos sidos, julgou que, tendo-se exposto ao perigo, era injusto não poder tirar disso nenhuma vantagem, bem como era desnecessário oferecer a Deus uma coisa de que Ele não tinha necessidade e da qual ele, Acã, se poderia aproveitar. Por isso enterrou-os na sua tenda, pensando enganar a Deus tal como havia iludido os homens.
O exército estava então acampado num lugar a que os hebreus chamam Gilgal, isto é, &quot;liberdade&quot;, porque, estando livres do cativeiro dos egípcios e das males que suportaram no deserto, julgavam nada mais ter de recear. E, poucos dias depois da queda de Jerico, Josué mandou três mil homens contra a cidade de Ai. Combateram os inimigos, mas foram derrotados, e trinta e seis dentre eles morreram na luta. A notícia dessa desgraça causou mais aflição ao exército que a perda, a qual não foi grande, embora todos os mortos fossem pessoas de grande mérito. Por serem já senhores do país de modo absoluto e segundo a promessa de Deus, seriam sempre vitoriosos, mas viram que essa vitória erguia o ânimo dos inimigos. Assim, cobriram-se com saco e entregaram-se de tal modo à dor que passaram três dias em lamentações, sem desejar comer.
Josué, vendo-os tão desconsolados e abatidos, recorreu a Deus. Prostrando-se em terra, disse-lhe confiante: &quot;Não foi por temeridade, Senhor, que empreendemos a conquista deste país. Moisés, vosso servidor, nos induziu a isso, após a promessa — que lhe fizestes e confirmastes por meio de milagres — de que nos tornaríamos donos do país e triunfaríamos sempre sobre os nossos inimigos. Nós lhe vimos o efeito em vários fatos, mas esta perda tão inesperada parece dar-nos motivo para duvidar e nada mais esperar para o futuro. No entanto, meu Deus, como sois Todo-poderoso, é fácil para vós socorrer-nos, mudar a nossa tristeza em alegria e o nosso desânimo em confiança e dar-nos a vitória&quot;.
Tendo Josué rogado desse modo, Deus ordenou-lhe que se levantasse e fosse purificar o exército, pois estava manchado de sacrilégio pelo roubo de uma coisa que devia ser consagrada a Ele, e aquela era a causa da desgraça que lhes sucedera. Depois do castigo a tão grande crime, porém, seriam vitoriosos. Josué referiu esse oráculo ao povo e lançou a sorte em presença do sumo sacerdote Eleazar e dos magistrados.
A sorte caiu sobre a tribo de Judá. Ele sorteou as famílias dessa tribo, e a escolha caiu sobre a de Zacarias. Por fim lançou a sorte sobre todos os homens dessa família, e ela caiu sobre Acã, o qual, vendo que era impossível ocultar o que Deus descobrira, confessou o seu furto e trouxe-o à presença do povo. Mataram-no imediatamente e, como sinal de infâmia, enterraram-no de noite, como se fora executado publicamente.
Josué 8. Josué, depois de haver purificado o exército, levou-o contra os habitantes de Ai. À noite, colocou homens de emboscada próximo da cidade e tentou ao raiar do dia uma escaramuça. Como a vitória que os inimigos haviam obtido os tornara ousados, atracaram-se corajosamente com os hebreus. Estes, a fim de afastá-los da cidade, simularam fugir, mas de repente voltaram-se de frente para eles, deram sinal aos que estavam escondidos e marcharam todos juntamente para a cidade. Apoderaram-se dela sem trabalho algum, porque os habitantes estavam tão certos da vitória que uma parte se achava sobre as muralhas e outra parte ficara do lado de fora para presenciar o combate.
Os hebreus mataram todos os que lhes caíram nas mãos, sem perdoar um sequer. Por outro lado, Josué desbaratou as tropas que haviam corrido ao seu encontro, as quais pensavam salvar-se na cidade, mas, vendo que ela fora tomada e ardia em chamas e assim não podendo esperar socorro algum, fugiram para o campo, desordenadamente. Fez-se nessa cidade um número muito grande de prisioneiros entre mulheres, crianças e escravos e arrebatou-se uma presa de grande valor: muito gado e dinheiro em moedas. Josué distribuiu tudo ao exército, que ainda estava acampado em Gilgal.
185. Josué 9. Quando os gibeonitas, que não estão muito longe de Jerusalém, souberam do que acontecera em jerico e em Ai, não duvidaram de que Josué viria imediatamente contra eles e nem pensaram em tentar aplacá-lo com orações, pois sabiam que ele declarara guerra mortal aos cananeus. Julgaram mais conveniente estabelecer uma aliança com os hebreus e disso convenceram os ceferitanos e os catierinitanos, seus vizinhos, pois era o único meio de escapar do perigo que os ameaçava. Escolheram em seguida os mais hábeis dentre eles e os enviaram a Josué. Os embaixadores julgaram que, para obter êxito no seu intento, não deveriam dizer que eram cananeus, mas, ao contrário, fazer pensar que o seu país ficava muito longe e que nenhuma ligação tinham com eles.
Foi a reputação da virtude dos hebreus que os levou a procurar a amizade destes. Para justificar o embuste, tomaram vestuários velhos, a fim de fazer crer que vinham de longa caminhada, e, depois de assim se apresentarem à assembléia dos principais da cidade, disseram-lhes que os habitantes de sua cidade e das cidades vizinhas, vendo que Deus tinha tanto afeto pela nação hebréia a ponto de desejar torná-los senhores do país inteiro de Canaã, os enviaram para fazer aliança com eles e pedir que os tratassem como compatriotas, sem no entanto mudar coisa alguma de seus antigos costumes ou de sua maneira de viver. E, para mostrar-lhes como fora longa a caminhada que haviam feito, exibiram-lhes as vestes.
Josué, acreditando nas palavras deles, concedeu-lhes o que pediam. Eleazar, sumo sacerdote, e o Senado prometeram-lhes com juramento tratá-los como amigos e aliados, e o povo ratificou a aliança. Josué levou em seguida o exército às montanhas do país de Canaã, onde veio a saber que os gibeonitas eram cananeus e vizinhos de Jerusalém. Mandou então chamar os principais dentre eles e queixou-se da mentira que haviam contado. Eles responderam que se sentiram obrigados a isso, porque não viam outro meio de se salvar. Para tratar do assunto, Josué reuniu o sumo sacerdote e o Senado. Foi resolvido manter-se a palavra, pois fora dada com juramento, mas os gibeonitas seriam obrigados a servir em obras públicas. E assim, esse povo evitou o perigo que o ameaçava.
186. Josué 10. Esse ato dos gibeonitas irritou de tal modo o rei de Jerusalém que ele reuniu quatro reis vizinhos para juntos fazer-lhes guerra. Os gibeonitas, vendo-os acampados perto de uma fonte pouco distante de sua cidade, prontos para atacá-los, recorreram a Josué. Assim, por uma estranha circunstância, quando tudo tinham a temer dos habitantes de seu próprio país, a sua única esperança de salvação estava no auxílio daqueles que tinham vindo para destruí-los.
Josué avançou imediatamente com todo o seu exército. Marchou dia e noite e atacou os inimigos ao despontar do dia, quando estavam prestes a dar o assalto. Colocou-os em fuga, perseguindo-os pelas colinas até o vale de Bete-Horom. Jamais se viu tão claramente como nesse combate o quanto Deus auxiliava o seu povo. Pois, além dos trovões, dos raios e de uma saraiva extraordinária, por um estranho prodígio e contra a ordem da natureza o dia prolongou-se, para impedir que as trevas da noite roubassem aos hebreus parte da vitória.
Os cinco reis, pensando encontrar segurança numa caverna perto de Maquedá, para onde se retirariam, foram aprisionados por Josué, que os matou a todos. Sabemos, pelo que está escrito nos Livros Sagrados conservados no Templo, que aquele foi um dia mais comprido que os outros. Depois de tamanho êxito, Josué levou o exército para os montes de Canaã e, depois de aí ter realizado grande mortandade entre os seus habitantes e obtido grande presa, reconduziu-o a Gilgal.
187. Josué 11. A fama das vitórias dos hebreus e de que eles não poupavam um só dos inimigos, matando todos os que lhes caíam nas mãos, instigou contra eles os reis do Líbano, que também eram da descendência dos cananeus. E os dessa nação, que habitam os campos, chamaram também em seu auxílio os filisteus. Assim, vieram todos juntos, com trezentos mil soldados de infantaria, dez mil cavaleiros e vinte mil carros acampar perto de Berote, cidade da Galiléia, pouco distante de uma outra do mesmo país, de nome Alta Cades.
Tão temível exército deixou assustados os israelitas, de tal modo que o próprio Josué parecia também ter perdido a coragem. Deus censurou-os por seu temor e ainda mais por não confiarem no seu auxílio, pois Ele lhes prometera a vitória. Ordenou-lhes que cortassem o jarrete de todos os cavalos que capturassem e queimassem todos os carros. Assim, tranqüilizaram-se. Marcharam corajosamente contra os inimigos, alcançaram-nos ao quinto dia e deram-lhes combate.
A luta foi renhida, e a mortandade entre os inimigos, quase inacreditável. Vários foram mortos quando fugiam, muito poucos escaparam e nenhum dos reis se salvou. Depois de assim tratarem os homens, não pouparam também os cavalos e queimaram todos os carros. Os vencedores devastaram em seguida todo o país, sem que ninguém aparecesse para lhes opor resistência, forçaram as cidades e passaram a fio de espada todos os que lhes caíram nas mãos.
188. Ao fim de cinco anos, o tempo que durou essa guerra, só restava dos cananeus um pequeno número, que se retirara para lugares bem fortificados. Josué, ao partir de Gilgal, levou o exército para os montes e colocou o santo Tabernáculo na cidade de Silo, cuja localização parecia muito bela para moradia, até que se oferecesse ocasião favorável para a construção do Templo. Foi depois com todo o povo a Siquém, onde, segundo a ordem deixada por Moisés, dividiu o exército em dois, colocando metade sobre o monte Gerizim e metade sobre o Ebal, e ergueu ali um altar. Os sacerdotes e os levitas ofereceram sacrifícios a Deus, proferiram as maldições de que falei anteriormente, gravaram-nas sobre o altar e voltaram a Silo.
189.  Josué, já bastante carregado de anos, vendo que as cidades que restavam aos cananeus eram quase inexpugnáveis, tanto por causa de sua posição quanto porque esses povos sabiam que os hebreus haviam saído do Egito com o propósito de se tornar senhores do país de Canaã e por isso empregaram todo o tempo em tornar esses lugares imunes às conquistas, reuniu todo o povo em Silo e falou-lhes dos felizes empreendimentos com que Deus os havia favorecido até ali, porque tinham observado as leis que Ele lhes outorgara.
Haviam derrotado trinta e um reis, que se atreveram a lhes resistir, e desfeito em pedaços os seus exércitos, dos quais apenas alguns conseguiram escapar às armas vitoriosas. Tomaram também a maior parte de suas cidades, e as que restavam eram tão fortes e contavam com tão grande obstinação de seus defensores que seriam necessários grandes cercos para vencê-las. Agora ele julgava necessário dispensar as tribos que moravam além do Jordão, depois de agradecer-lhes por terem passado o rio para correr com eles os perigos daquela guerra, e escolher dentre as que restavam homens de probidade comprovada que fossem constatar com exatidão a gran-Ho7a r&gt; a fertilidade de todo o oaís de Canaã, retoínando com uma descrição fiel.
 
A proposta foi aprovada de modo geral, e Josué mandou dez homens acompanhados de peritos geômetras para medir toda a terra e avaliá-la segundo julgassem ser mais ou menos fértil. A terra do país de Canaã, embora apresente extensos campos com abundância de frutos, não pode ser tida como excelente se comparada com outras do mesmo país, nem como muito fértil se confrontada com as de Jerico e Jerusalém, situadas na maior parte entre montes e cuja extensão não é muito grande, mas cujos frutos sobrepujam os de todos os outros países, quer pela abundância, quer pela beleza.
Foi por esse motivo que Josué estabeleceu a apreciação segundo a fertilidade, e não segundo a extensão das propriedades, porque muitas vezes acontece de uma única medida de terra valer mais que várias dela mesma. Esses dez enviados, depois de empregar sete meses nesse trabalho, voltaram a Silo, onde, como já disse, estava então o Tabernáculo. Josué reuniu Eleazar, o sumo sacerdote, o Senado e os príncipes das tribos e fez com eles a divisão de todo o país entre as nove tribos e metade da de Manasses, na proporção do número de homens de cada tribo.
A tribo de Judá recebeu a Alta Judéia, que vai até Jerusalém e em largura até o lago de Sodoma, estando nela as cidades de Asquelom e Gaza.
A tribo de Simeão teve aquela parte da Iduméia que se limita com o Egito e a Arábia.
A tribo de Benjamim teve o país que se estende desde o rio Jordão até o mar e em largura de Jerusalém a Betei. Esse espaço é muito pequeno, por causa da fertilidade da terra, pois nele estão compreendidas as cidades de Jerusalém e Jerico.
A tribo de Efraim teve o país que se estende desde o Jordão até Gadara e em largura de Betei até Campo Longo.
A metade da tribo de Manasses teve o território cujo comprimento vai desde o Jordão até a cidade de Dor e em largura até a cidade de Bete-Seã, que hoje se chama Scitópolis.
A tribo de Issacar teve o território compreendido entre o Jordão até o monte Carmelo, cuja largura vai até o monte Itabarim.
A tribo de Zebulom teve o país que se limita com o monte Carmelo e o mar e se estende até o lago de Genesaré.
A tribo de Aser teve aquela planície rodeada de montes que está por trás do monte Carmelo, em frente a Sidom, na qual está a cidade de Arcé, outrora chamada Atipo.
A tribo de Naftali teve a Alta Galiléia e a região que se estende desde o lado do oriente até a cidade de Damasco, o monte Líbano e a nascente do Jordão, que tem a sua origem nesse monte, do lado que limita com a cidade de Arcé, para o norte.
A tribo de Dã teve os vales que tendem para o ocidente, cujos limites são Azor e Doris e onde se encontram as cidades de Jamnia e de Cita e todo o território que começa em Acarom* e termina no monte, onde começava a parte da tribo de Judá.
Assim distribuiu Josué às nove tribos e à metade da de Manasses as seis províncias a que seis dos filhos de Canaã haviam dado os próprios nomes. Quanto à sétima, que é a dos amorreus, a qual trazia também o nome de um dos filhos de Canaã, foi dada por Moisés às tribos de Rúben e de Cadê e à metade da tribo de Manasses, como já vimos. Mas as terras dos sidônios, aruseenses, amateenses e ariteenses não foram incluídas nessa partilha.

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* Ou Ecrom.

190. Como Josué, por causa da idade, não podia mais tomar parte nas várias empresas e percebia que aqueles a quem ele disso incumbia agiam com negligência, ele exortou as tribos a trabalharem corajosamente, cada uma na extensão do território que lhe coubera em partilha, a fim de se exterminar o resto dos cananeus. Disse-lhes que assim cuidariam não somente de sua própria segurança, mas da consolidação de sua religião e de suas leis, fazendo-os lembrar ainda o que Moisés lhes dissera e o que já conheciam pela própria experiência.
Acrescentou que entregassem nas mãos dos levitas as trinta e oito cidades que faltavam para completar o número de quarenta e oito: as dez outras já lhes haviam sido entregues além do Jordão, no país dos amorreus. Destinou três dessas trinta e oito para serem lugares de refúgio, porque não havia recomendação mais insistente que a de executar com rigor tudo o que Moisés determinara. As três cidades foram: Hebrom, na tribo de Judá, Siquém, na tribo de Efraim, e Cades, que está na Alta Galiléia, na tribo de Naftali. Dividiu depois o que restava da presa, a qual era tanta, quer em ouro, quer em vestes, quer em toda sorte de objetos, que a República e seus habitantes ficaram ricos. Quanto aos cavalos e outros animais, o seu número era incontável.
191. Josué 23. Josué reuniu depois todo o exército e assim falou às tribos levadas para o outro lado do jordão, cinquenta mil combatentes e os que se haviam juntado aos das outras tribos para a conquista que acabavam de fazer: &quot;Aprouve a Deus, que é não somente o Senhor, mas também o Pai de nossa nação, dar-nos este rico país, com promessa de o possuirmos para sempre e segundo a sua ordem. E, como vos unistes tão generosamente a nós nesta guerra, é bem razoável, agora que nada mais resta de difícil a se fazer, que volteis a desfrutar em vossas casas um justo descanso. Assim como não podemos duvidar de que se tivéssemos ainda necessidade de vosso auxílio teríeis prazer em no-lo dar, não queremos abusar de vossa boa vontade, mas, ao contrário, muito vos agradecemos pela vossa participação nos mesmos perigos que corremos até aqui. Pedimo-vos somente que conserveis por nós sempre o mesmo afeto e que vos lembreis de que, depois da proteção de Deus, devemos ao vosso auxílio a felicidade de que desfrutamos e que deveis igualmente ao nosso a que possuis. Recebestes como nós a recompensa pelos trabalhos que juntos sustentamos nesta guerra, porque ela também vos enriqueceu e, além da quantidade de ouro, prata e presas que levais, deu-vos uma coisa que vos deverá ser ainda mais preciosa: a generosidade que todos conhecemos em vós e que estaremos igualmente sempre prontos a vos manifestar. Pois, como é verdade que depois da morte de Moisés não executastes com menor solicitude e afeto as ordens que recebestes, cumprindo-as como se ele ainda estivesse vivo, nada se pode acrescentar à gratidão que sentimos. Deixamo-vos, pois, voltar às vossas casas e vos rogamos que nunca ponhais limites à amizade, que deve ser inviolável entre nós, e que este rio que nos separa não nos impeça de nos considerarmos sempre como hebreus, pois pelo fato de morarmos em margens diferentes não somos menos que os outros da raça de Abraão. E, tendo o mesmo Deus dado vida aos vossos antepassados e aos nossos, somos igualmente obrigados a observar, tanto na religião quanto no nosso proceder, as leis que dEle recebemos por meio de Moisés. É a essas leis santas e divinas que nos devemos inviolavelmente apegar e crer que enquanto delas não nos afastarmos Deus sempre nos protegerá e combaterá à frente de nossos exércitos, ao passo que se abraçarmos os costumes das outras nações Ele não somente se afastará de nós, mas nos abandonará completamente&quot;.
Depois que Josué assim falou, disse adeus em particular aos chefes das tribos que voltavam e em geral a todo o exército. Todos os hebreus que ficaram com ele os acompanharam, e as lágrimas mostravam o quanto essa separação lhes era dolorosa.
192. Josué 22. Depois que passaram o Jordão, as tribos de Rúben e de Gade e metade da tribo de Manasses ergueram um altar às margens do rio, para dar à posteridade um sinal de sua estreita aliança com os compatriotas que moravam do outro lado. As outras tribos souberam-no e, não conhecendo a causa,  imaginaram que o altar fora erguido para prestar adoração sacrílega a divindades estrangeiras. E o seu zelo, sob a falsa suspeita de que eles haviam abandonado a fé de seus antepassados, levou-as a tomar as armas para castigá-los por tão grande crime.
Julgaram que a honra de Deus lhes deveria ser muito mais importante que o parentesco de sangue ou a posição de quem cometera semelhante impiedade e, nesse ímpeto de cólera, desejaram marchar naquele mesmo instante contra eles. Porém Josué, o sumo sacerdote Eleazar e o Senado detiveram o povo, alegando que era preciso, antes de se recorrer às armas, saber qual a intenção daquelas tribos, e, se por acaso fosse a que imaginavam, poderiam então agir pela força contra eles. Em seguida, mandaram Finéias, filho de Eleazar, acompanhado de dez outros respeitáveis enviados para saber com que intenção haviam construído aquele altar à beira do rio.
Quando lá chegaram, Finéias assim falou-lhes, em assembléia: &quot;A falta que cometestes é demasiado grande para ser castigada somente com palavras. No entanto a consideração pelo sangue que nos une tão estreitamente e a nossa esperança de que lamentareis o fato de a terdes cometido impediu-nos de tomarmos imediatamente as armas para vos castigar. Mas, para evitar que nos acusem de deliberar levianamente esta guerra, vimos como delegados para junto de vós, a fim de sabermos o que vos levou a erguer esse altar à beira do rio, se tivestes boas razões para isso, e assim não tenhamos motivo para vos censurar. Se fordes culpados, todavia, executaremos a vingança que merece tão grande crime, isto é, faltar ao que deveis a Deus. Temos grande dificuldade em crer que, conhecendo bastante a sua vontade e tendo vós mesmos ouvido as leis promulgadas pela boca de Moisés, não nos tenhais deixado para voltar a um país, o qual possuis pela bondade divina, apenas para vos esquecerdes dos favores de que Ele se dignou cumular-vos, para abandonar o seu Tabemáculo, a arca de sua aliança e o seu altar e adotar as impiedades dos cananeus, sacrificando aos seus falsos deuses. Se no entanto fostes infelizes o bastante para cair nessa falta, nós vo-la perdoaremos, contanto que nela não persistais e volteis à religião de nossos antepassados. Se vos obstinardes no vosso pecado, nada haverá que não façamos para mantê-la e ver-nos-eis, armados do zelo pela honra de Deus, tornar a passar o Jordão e tratar-vos do mesmo modo como tratamos os cananeus. Pois não penseis que, estando separados de nós por um grande rio, ficais fora dos limites do poder de Deus, porque Ele se estende por toda parte, e é impossível furtar-se à sua justiça e ao seu domínio. Se a província em que habitais é um obstáculo à vossa salvação, dèveis abandoná-la, por mais rica que seja, e faremos uma nova divisão. Mas seria muito melhor renunciardes ao vosso erro, como vos aconselhamos, pelo amor que tendes às vossas esposas e aos vossos filhos, a fim de que não sejamos obrigados a vos declarar inimigos. Pois, para vos salvardes e a tudo o que vos é caro, somente uma destas duas deliberações deveis tomar: ou deixar-vos persuadir por nossas razões ou declararmos guerra uns contra os outros&quot;.
Assim falou Finéias, e os principais da assembléia responderam-lhe: &quot;jamais pensamos em alterar a união que tão estreitamente nos une ou em nos afastar da religião de nossos antepassados: nela queremos sempre nos manter. Reconhecemos que há um só Deus, que é o Pai comum a todos os hebreus, e desejamos sacrificar apenas sobre o altar de bronze que está à porta do Tabernáculo. Quanto ao que erguemos às margens do Jordão e que deu lugar às suspeitas que tivestes de nós, não o fizemos com intenção de nele oferecer vítimas, porém somente para dar à posteridade um monumento à união que existe entre nós e à obrigação que temos de permanecer firmes na mesma crença. Deus é testemunha do que vos dizemos, e assim, em vez de continuar a nos acusar, deveis ter para o futuro uma opinião melhor de nós, como não desconfiar de um crime do qual ninguém da descendência de Abraão se pode tornar culpado sem merecer a pena de morte&quot;.
Finéias ficou tão satisfeito com essa resposta que lhes teceu grandes elogios e, tendo voltado a Josué, prestou-lhe contas de sua embaixada na presença de todo o povo. Houve alegria geral por ninguém ser obrigado a tomar armas para derramar o sangue dos irmãos. Deram graças a Deus por meio de sacrifícios, e cada qual retornou à sua casa. Então Josué fixou moradia em Siquém.
193. Josué 24. Depois de transcorridos vinte anos, esse excelente chefe dos israelitas, achando-se velho e cansado, reuniu o Senado, os príncipes das tribos, os magistrados, os principais da cidade e os mais importantes dentre o povo. Falou-lhes da série contínua de benefícios que Deus lhes concedera, fazendo-os passar da miséria a tão grande prosperidade e glória. Exortou-os a observar rigorosamente os mandamentos, a fim de conservá-lo sempre favorável. Declarou que se via obrigado a adverti-los, antes de morrer, sobre os deveres que tinham de cumprir e rogou-lhes que deles jamais se esquecessem. Ao encerrar as suas palavras, entregou o espírito, na idade de cento e dez anos, dos quais passara quarenta sob o governo de Moisés e, depois da morte deste, vinte e cinco anos orientando o povo.
Era um homem tão prudente, eloqüente, sensato em seus conselhos, corajoso na ação e capaz das mais importantes ações na paz e na guerra, que nenhum outro de sua época foi ao mesmo tempo tão excelente general e tão hábil governante de um povo tão numeroso. Enterraram-no em Timnate-Sera, cidade da tribo de Efraim. Eleazar, sumo sacerdote, morreu também nessa mesma época, e Finéias, seu filho, sucedeu-o. Ainda hoje se vê o seu túmulo, na cidade de Gibeá.
194.  O povo consultou o novo sacerdote para saber qual era a vontade de Deus referente a quem deveria ser o chefe contra os cananeus, e ele respondeu que se devia deixar à tribo de Judá a direção dessa guerra. Assim foi-lhe entregue essa responsabilidade, e a tribo de Simeão foi designada para ajudá-la, com a condição de que Judá, depois exterminar o que restava dos cananeus na extensão do território de sua tribo, prestaria o mesmo auxílio à tribo de Simeão, para exterminar também os que restavam entre eles.

CAPÍTULO 2
AS TRIBOS DE JUDÁ E DE SIMEÃO DERROTAM O REI ADONI-BEZEQUE E
TOMAM VÁRIAS CIDADES. OUTRAS TRIBOS CONTENTAM-SE EM TORNAR
TRIBUTÁRIOS OS CANANEUS.

195. Juizes 1. Os cananeus eram então muito poderosos, e a morte de Josué os fez acreditar que podiam vencer os israelitas. Reuniram, para esse fim, um grande exército perto da cidade de Bezeque, sob o comando do rei Adoni-Bezeque, isto é, &quot;senhor dos bezequinianos&quot;, pois adonis em hebreu significa &quot;senhor&quot;. As tribos de Judá e de Simeão combateram-nos tão valentemente que mataram mais de dez mil deles e puseram todos os outros em fuga. Prenderam Adoni-Bezeque e cortaram-lhe os pés e as mãos — nisso se viu um efeito da justa vingança de Deus, que assim permitiu fosse esse cruel príncipe tratado da mesma maneira como já tratara setenta e dois reis. Levaram-no nesse estado até próximo de Jerusalém, onde ele morreu e foi enterrado.
TOMARAM EM SEGUIDA VÁRIAS CIDADES. SITIARAM JERUSALÉM E TORNARAM-SE SENHORES DA CIDADE BAIXA, ONDE MATARAM OS SEUS HABITANTES. MAS A CIDADE ALTA CONSERVOU-SE TÃO FORTE, PELA SUA POSIÇÃO E POR SUAS FORTIFICAÇÕES, QUE ELES FORAM OBRIGADOS A LEVANTAR UM CERCO. ATACARAM A CIDADE DE HEBROM, TOMARAM-NA DE ASSALTO E MATARAM-LHE TAMBÉM TODOS OS HABITANTES, DENTRE OS QUAIS ESTAVAM ALGUNS DA RAÇA DOS GIGANTES. ERAM HOMENS DE ESTATURA ENORME, OLHAR TERRÍVEL E VOZ ESPANTOSA, EM CUJO ASPECTO MAL SE PODERIA ACREDITAR. AINDA HOJE PODEM SER VISTOS OS SEUS OSSOS.
COMO ESSA CIDADE OCUPA UM LUGAR MUITO HONROSO NESSE PAÍS, DERAM-NA AOS LEVITAS, COM A EXTENSÃO DE DOIS MIL CÔVADOS EM REDOR, SEGUNDO A ORDEM DE MOISÉS. O RESTO DO TERRITÓRIO FOI DADO A CALEBE, QUE ERA UM DOS QUE HAVIAM SIDO MANDADOS PARA FAZER O RECONHECIMENTO DO PAÍS. TEVE-SE TAMBÉM O CUIDADO DE RECOMPENSAR OS DESCENDENTES DE JETRO, O MIDIANITA SOGRO DE MOISÉS, PORQUE ELES DEIXARAM O SEU PAÍS PARA SEGUIR O POVO DE DEUS E PARTICIPARAM DAS TRIBULAÇÕES QUE OS ISRAELITAS HAVIAM SUPORTADO NO DESERTO.
AS TRIBOS DE JUDÁ E DE SIMEÃO, DEPOIS DE ATACAR AS CIDADES SITUADAS NOS MONTES, DESCERAM PARA A PLANÍCIE E SE ESPALHARAM EM DIREÇÃO AO MAR, TOMANDO DOS CANANEUS AS CIDADES DE ASQUELOM E AZOR. MAS NÃO PUDERAM TORNAR-SE SENHORES DE GAZA NEM DE ACAROM,* PORQUE ESTAVAM EM LUGAR PLANO, E OS SITIADOS LHES IMPEDIAM A APROXIMAÇÃO COM UM GRANDE NÚMERO DE CARROS, OBRIGANDO-OS A SE RETIRAR COM PERDAS. ASSIM ESSAS DUAS TRIBOS VOLTARAM PARA DESFRUTAR EM PAZ A PRESA QUE HAVIAM FEITO.
A TRIBO DE BENJAMIM, EM CUJA PARTILHA ESTAVA JERUSALÉM, DEU PAZ AOS HABITANTES DESSA GRANDE CIDADE, SATISFAZENDO-SE EM LHES IMPOR UM TRIBUTO. ASSIM, DEIXANDO UNS DE FAZER A GUERRA E OUTROS DE VAGAR A ESMO, PUSERAM-SE A CULTIVAR E A VALORIZAR AS SUAS TERRAS, E AS OUTRAS TRIBOS, IMITANDO-AS, DEIXARAM TAMBÉM EM PAZ OS CANANEUS, CONTENTANDO-SE EM FAZÊ-LOS TRIBUTÁRIOS.
A TRIBO DE EFRAIM, DEPOIS DE SITIAR DURANTE MUITO TEMPO A CIDADE DE BETEI SEM CONSEGUIR TOMÁ-LA, NÃO DEIXOU DE INSISTIR NESSA EMPRESA. UM DOS HABITANTES QUE PARA LÁ TRANSPORTAVA VÍVERES, CAIU POR ACASO EM SUAS MÃOS. ENTÃO PROMETERAM-LHE COM JURAMENTO SALVÁ-LO, E À SUA FAMÍLIA, SE ELE OS INTRODUZISSE NA CIDADE. O HOMEM DEIXOU-SE CONVENCER E, POR MEIO DELE, APODERARAM-SE DE BETEI. MANTIVERAM A PALAVRA DADA A ELE, PORÉM MATARAM TODOS OS OUTROS.

_________
* OU ECROM.

196. JUIZES 2. OS ISRAELITAS DEIXARAM ENTÃO DE FAZER GUERRA, DESEJANDO APENAS DESFRUTAR EM PAZ E COM PRAZER OS MUITOS BENS DE QUE SE VIAM CUMULADOS. SUA ABUNDANTE RIQUEZA LANÇOU-OS NO LUXO E NA VOLÚPIA. NÃO SE INCOMODAVAM MAIS EM OBSERVAR A ANTIGA DISCIPLINA E TORNARAM-SE SURDOS À VOZ DE DEUS E À SUAS SANTAS LEIS. ASSIM, ATRAÍRAM-LHE A CÓLERA, E ELE LHES FEZ SABER QUE ERA CONTRA A SUA ORDEM QUE ELES POUPAVAM OS CANANEUS E QUE TEMPO VIRIA EM QUE, NO LUGAR DA BONDADE DISPENSADA AOS CANANEUS, EXPERIMENTARIAM A CRUELDADE DELES.
 

ESSE ORÁCULO DEIXOU-OS ASSUSTADOS, NO ENTANTO NÃO OS FEZ MUDAR DE IDÉIA E RECOMEÇAR A GUERRA, POR CAUSA DOS TRIBUTOS QUE RECEBIAM DAQUELES POVOS E PORQUE AS DELÍCIAS OS HAVIAM TORNADO TÃO EFEMINADOS QUE O TRABALHO AGORA LHES ERA INSUPORTÁVEL. NÃO HAVIA MAIS ENTRE ELES NENHUMA FORMA DE REPÚBLICA. OS MAGISTRADOS NÃO TINHAM AUTORIDADE E NÃO SE OBSERVAVA MAIS O ANTIGO COSTUME DE ELEGER SENADORES. NINGUÉM SE INCOMODAVA COM O POVO E CADA QUAL SÓ PENSAVA NO INTERESSE E NO LUCRO PRÓPRIOS. NO MEIO DE TANTA DESORDEM, ACONTECEU UM CASO PARTICULAR, QUE DEU ORIGEM A UMA SANGRENTA GUERRA CIVIL. EIS A CAUSA.
197. JUIZES 19. UM LEVITA, MORADOR DO PAÍS QUE TOCARA COMO PARTILHA À TRIBO DE EFRAIM, DESPOSOU UMA MULHER DA CIDADE DE BELÉM, DA TRIBO DE JUDÁ. COMO ELE A AMAVA APAIXONADAMENTE PELA SUA BELEZA E ELA, AO CONTRÁRIO, NÃO O AMAVA, O LEVITA FAZIA-LHE CONSTANTES CENSURAS. ELA CANSOU-SE DE AS SUPORTAR E, AO FIM DE QUATRO MESES, ABANDONOU-O, RETORNANDO PARA A CASA DOS PAIS. ESSE HOMEM, IMPELIDO PELA VIOLÊNCIA DE SEU AMOR, FOI BUSCÁ-LA. ELES O RECEBERAM COM MUITA BONDADE E RECONCILIARAM-NO COM A MULHER. DEPOIS DE ELE TER FICADO ALI QUATRO DIAS, RESOLVEU RECONDUZI-LA PARA CASA. MAS COMO ESSA BOA GENTE SENTIA SEPARAR-SE DA FILHA, ELE SÓ PÔDE PARTIR À TARDE.
A MULHER IA MONTADA NUMA JUMENTINHA, E UM CRIADO OS ACOMPANHAVA. HAVIAM PERCORRIDO UNS TRINTA ESTÁDIOS E JÁ SE ENCONTRAVAM PERTO DE JERUSALÉM, QUANDO O CRIADO OS ACONSELHOU A NÃO PASSAREM ALÉM, COM MEDO DE QUE LHES FALTASSE A LUZ DO DIA, POIS MUITO SE TEM A TEMER DURANTE A NOITE, MESMO ESTANDO ENTRE AMIGOS, E ELES CORRIAM MUITO MAIS PERIGO POR ESTAR PERTO DE SEUS INIMIGOS. O LEVITA NÃO ACEITOU O CONSELHO PORQUE OS CANANEUS ERAM SENHORES DE JERUSALÉM, E ELE NÃO PODERIA HOSPEDAR-SE EM CASA DE ESTRANGEIROS. PREFERIA ANDAR AINDA VINTE ESTÁDIOS ATÉ A CASA DE ALGUÉM PERTENCENTE À SUA NAÇÃO. ASSIM, CHEGARAM BEM TARDE À CIDADE DE GIBEÁ, QUE ERA DA TRIBO DE BENJAMIM.
PERMANECERAM ALGUM TEMPO NA GRANDE PRAÇA, SEM QUE NINGUÉM SE APRESENTASSE PARA RECEBÊ-LOS EM CASA. POR FIM, UM VELHO DA TRIBO DE EFRAIM ESTABELECIDO NESSA CIDADE, VOLTANDO DO CAMPO, ENCONTROU-OS NESSE LUGAR. PERGUNTOU AO LEVITA QUEM ELE ERA E COMO ESPERARA ATÉ AQUELA HORA TARDIA PARA SE RECOLHER. RESPONDEU-LHE QUE ERA DA TRIBO DE LEVI E RECONDUZIA A MULHER DA CASA DE SEUS PAIS PARA A TERRA DE EFRAIM, ONDE ELE RESIDIA. O VELHO SOUBE ENTÃO QUE O HOMEM PERTENCIA À SUA TRIBO E LEVOU-O PARA CASA. ALGUNS MOÇOS DA CIDADE, QUE OS TINHAM VISTO NA PRAÇA E ADMIRADO A BELEZA DA MULHER, VENDO QUE ELE SE RECOLHERA À CASA DESSE VELHO, O QUAL NÃO TINHA FORÇAS PARA DEFENDÊ-LA, FORAM BATER-LHE À PORTA EXIGINDO QUE LHES ENTREGASSE A MULHER. ROGOU-LHES ELE QUE SE RETIRASSEM E NÃO LHE CAUSASSEM TAMANHO DESPRAZER. COMO ELES INSISTIAM, DISSE-LHES QUE ERA SUA PARENTA DA TRIBO DE LEVI E QUE ELES NÃO PODERIAM, SEM COMETER UM ENORME CRIME, CALCAR AOS PÉS O TEMOR DAS LEIS PARA SATISFAZER À PRÓPRIA LUXÚRIA.
ELES ZOMBARAM DE SUAS PALAVRAS E AMEAÇARAM MATÁ-LO SE CONTINUASSE RECUSANDO ENTREGÁ-LA. ENTÃO ESSE HOMEM CARIDOSO, QUERENDO A TODO CUSTO SALVAR OS HÓSPEDES DE TÃO GRANDE ULTRAJE, OFERECEU ÀQUELES LOUCOS A PRÓPRIA FILHA, PARA NÃO VIOLAR O DIREITO DA HOSPITALIDADE. NADA, PORÉM, OS PÔDE CONTENTAR. DESEJAVAM INSISTENTEMENTE AQUELA MULHER E A LEVARAM À FORÇA, FICANDO COM ELA DURANTE TODA A NOITE. DEPOIS DE SATISFAZER A SUA BRUTAL PAIXÃO, RESTITUÍRAM-NA, AO AMANHECER. ELA REGRESSOU SEMIMORTA DE DOR E DE VERGONHA PELO QUE LHE ACONTECERA. SEM OUSAR LEVANTAR OS OLHOS PARA CONTEMPLAR O MARIDO ULTRAJADO EM SUA PESSOA, CAIU MORTA AOS PÉS DELE.
ELE JULGOU QUE ELA ESTAVA APENAS DESMAIADA E ESFORÇOU-SE PARA FAZÊ-LA VOLTAR A SI E CONSOLÁ-LA, DIZENDO QUE, EMBORA NÃO FOSSE POSSÍVEL DIMINUIR A GRANDEZA DA INJÚRIA QUE ELA RECEBERA, NÃO DEVIA DEIXAR-SE LEVAR PELO DESESPERO, POIS NÃO TENDO DADO ABSOLUTAMENTE CONSENTIMENTO, SOFRERÁ A MAIS HORRÍVEL DE TODAS AS VIOLÊNCIAS. DEPOIS DE LHE TER ASSIM FALADO, PERCEBEU QUE ELA ESTAVA MORTA. A DOR EXCESSIVA QUASE O FEZ PERDER O JUÍZO, E ELE TOMOU O CORPO, COLOCOU-O SOBRE A JUMENTINHA E O LEVOU PARA CASA. ENTÃO PARTIU-O EM DOZE PEDAÇOS, MANDANDO UM A CADA TRIBO COM A INFORMAÇÃO DO QUE SE HAVIA PASSADO. COISA INAUDITA E TÃO HORRÍVEL COMO ESSA ENCHEU O POVO DE TAL FUROR QUE TODOS SE REUNIRAM EM SILO, DIANTE DO TABERNÁCULO, E RESOLVERAM IMEDIATAMENTE ATACAR CIBEÁ.
O SENADO, PORÉM, FEZ-LHES VER QUE NÃO SE DEVIA TÃO LEVIANAMENTE DECLARAR GUERRA AOS DAQUELA CIDADE, SEM ANTES SE TEREM MAIS PARTICULARMENTE INFORMADO DO CRIME, POIS A LEI PROIBIA TAL PROCEDIMENTO, MESMO PARA COM OS ESTRANGEIROS, E EXIGIA QUE SE MANDASSEM EMBAIXADORES PARA PEDIR SATISFAÇÃO. ASSIM, ERA JUSTO OBRIGAR OS GIBEENSES A CASTIGAR SEVERAMENTE OS CULPADOS. SE ELES O FIZESSEM, OS HEBREUS DEVER-SE-IAM CONTENTAR COM O CASTIGO, MAS CASO RECUSASSEM EXECUTÁ-LO, A AFRONTA SERIA VINGADA PELAS ARMAS. TAIS PALAVRAS OS CONVENCERAM, E MANDARAM EMBAIXADORES A CIBEÁ PARA DAR QUEIXA DO CRIME DAQUELES MOÇOS, QUE AO VIOLENTAR UMA MULHER HAVIAM TAMBÉM VIOLADO A LEI DE DEUS, E PEDIR QUE LHES APLICASSEM A PENA DE MORTE, POIS A MERECIAM.
AQUELE POVO, PORÉM, JULGANDO NÃO PERDER EM FORÇA OU EM CORAGEM PARA NENHUM OUTRO, PENSOU QUE LHE SERIA VERGONHOSO DAR TAL SATISFAÇÃO, POR MEDO DA GUERRA. ASSIM PREPAROU-SE PARA LUTAR, E COM ELE TODO O RESTO DA TRIBO DE BENJAMIM. AS OUTRAS TRIBOS FICARAM DE TAL RRWJDO IRRITADAS COM A RECUSA EM FAZER JUSTIÇA QUE SE OBRIGARAM POR JURAMENTO A NÃO DAR NENHUMA DE SUAS FILHAS EM CASAMENTO AOS DAQUELA TRIBO E A FAZER-LHES UMA GUERRA AINDA MAIS SANGRENTA QUE A EMPREENDIDA POR SEUS PREDECESSORES AOS CANANEUS. PUSERAM-SE A SEGUIR EM CAMPO COM QUATROCENTOS MIL HOMENS, PARA ATACÁ-LOS. OS DA TRIBO DE BENJAMIM CONTAVAM APENAS VINTE E CINCO MIL E SEISCENTOS, DENTRE OS QUAIS QUINHENTOS TÃO VALENTES QUE SE SERVIAM DAS DUAS MÃOS, USANDO UMA PARA ATIRAR COM A FUNDA E A OUTRA PARA COMBATER.
A BATALHA TRAVOU-SE PERTO DE GIBEÁ. OS BENJAMINITAS FORAM VITORIOSOS: MATARAM VINTE E DOIS MIL DE SEUS INIMIGOS E TERIAM MATADO MUITOS OUTROS SE A NOITE OS NÃO TIVESSE SEPARADO. VOLTARAM ASSIM TRIUNFANTES PARA A SUA CIDADE, E OS ISRAELITAS, AO SEU ACAMPAMENTO, MUITO ADMIRADOS E ABATIDOS COM A DERROTA. A LUTA RECOMEÇOU NO DIA SEGUINTE, E OS BENJAMINITAS SAÍRAM-SE NOVAMENTE VITORIOSOS: MATARAM DEZOITO MIL ISRAELITAS, QUE, DE TÃO ESPANTADOS COM ESSE FATO, LEVANTARAM ACAMPAMENTO E PARTIRAM PARA BETEI, QUE NÃO ESTAVA LONGE DALI. JEJUARAM TODO O DIA SEGUINTE E PEDIRAM A DEUS, POR MEIO DE FINÉIAS, SUMO SACERDOTE, QUE ACALMASSE A SUA CÓLERA, CONTENTANDO-SE COM AS DUAS DERROTAS QUE HAVIAM SOFRIDO, E LHES FOSSE FAVORÁVEL.
DEUS OUVIU-LHES A ORAÇÃO E PROMETEU-LHES AUXÍLIO. ELES ENTÃO SE TRANQÜILIZARAM. DIVIDIRAM O EXÉRCITO EM DUAS PARTES E DE NOITE MANDARAM UMA DELAS POSTAR-SE EM EMBOSCADA PERTO DA CIDADE ENQUANTO AVANÇAVAM COM A OUTRA. OS BENJAMINITAS PARTIRAM CONTRA ELES COM CORAGEM, CONFIANTES DE OBTER UMA TERCEIRA VITÓRIA. OS ISRAELITAS ENTÃO FINGIRAM AFASTAR-SE, A FIM DE LEVÁ-LOS MAIS PARA LONGE. AQUELA FUGA APARENTE EXCITOU DE TAL MODO O ORGULHO DOS BENJAMINITAS QUE MESMO OS ISENTOS DE IR À GUERRA PELA IDADE, QUE SE CONTENTAVAM EM OBSERVAR O COMBATE DO ALTO DA MURALHA DA CIDADE, SAÍRAM PARA TOMAR PARTE NA PILHAGEM, A QUAL JÁ DAVAM COMO CERTA.
QUANDO OS ISRAELITAS VIRAM QUE JÁ OS HAVIAM TRAZIDO PARA BEM LONGE, VOLTARAM-SE DE FRENTE PARA ELES E DERAM SINAL AOS QUE ESTAVAM DE EMBOSCADA. TODOS JUNTOS, ENTÃO, LANÇARAM-SE COM GRANDES GRITOS CONTRA ELES, ATACANDO-OS DE TODAS AS DIREÇÕES. OS BENJAMINITAS VIRAM QUE ESTAVAM PERDIDOS E LANÇARAM-SE A UM VALE, ONDE FORAM RODEADOS POR TODOS OS LADOS E MORTOS A GOLPES DE DARDOS E DE FLECHAS, EXCETO UNS SEISCENTOS, QUE SE REUNIRAM E ABRIRAM CAMINHO ATRAVÉS DOS INIMIGOS COM A ESPADA NA MÃO, SALVANDO-SE EM UM MONTE, DE MODO QUE MAIS OU MENOS VINTE E CINCO MIL HOMENS JAZIAM MORTOS NO CAMPO DE LUTA.
OS ISRAELITAS INCENDIARAM GIBEÁ, ONDE, SEM RELEVAR SEXO OU IDADE, MATARAM AS MULHERES E AS CRIANÇAS. TRATARAM DO MESMO MODO TODAS AS OUTRAS CIDADES DE BENJAMIM. LEVARAM A SUA VINGANÇA A TAL PONTO QUE MANDARAM DOZE MIL HOMENS ESCOLHIDOS À CIDADE DE )ABES DE GILEADE, POR ELA LHES TER RECUSADO AUXÍLIO NA GUERRA, OS QUAIS A TOMARAM E MATARAM OS HOMENS, AS MULHERES E AS CRIANÇAS, PRESERVANDO SOMENTE A VIDA DE QUATROCENTAS MOÇAS. O CRIME COMETIDO NA PESSOA DA MULHER DO LEVITA JUNTAMENTE COM OS DOIS COMBATES QUE HAVIAM PERDIDO INCITOU-OS A TAL VINGANÇA. QUANDO, PORÉM, O FUROR DELES COMEÇOU A SE ACALMAR, SENTIRAM COMPAIXÃO PELA RUÍNA DE SEUS IRMÃOS.
ASSIM, EMBORA O CASTIGO QUE HAVIAM IMPOSTO FOSSE JUSTO, ELES ESCOLHERAM ALGUNS MOÇOS E OS ENVIARAM AOS SEISCENTOS HOMENS QUE SE HAVIAM SALVADO, CON-VIDANDO-OS A REGRESSAR. ENCONTRARAM-NOS NO DESERTO, JUNTO DE UMA ROCHA DE NOME ROS. OS MENSAGEIROS DISSERAM-LHES QUE AS OUTRAS TRIBOS TOMAVAM PARTE NA SUA INFELICIDADE, MAS VISTO QUE NÃO HAVIA REMÉDIO, DEVIAM SUPORTÁ-LA COM PACIÊNCIA E REUNIR-SE AOS DE SUA NAÇÃO, A FIM DE IMPEDIR A RUÍNA COMPLETA DE SUA TRIBO. PARA ISSO, RESTITUIR-LHE-IAM TODAS AS TERRAS E LHES ENTREGARIAM O GADO.
Eles receberam o oferecimento com gratidão, reconhecendo que Deus os havia castigado com justiça, e voltaram ao seu país. Os israelitas deram-lhes como esposas as quatrocentas moças que haviam aprisionado em Jabes e, como antes de começar a guerra haviam jurado não dar aos benjaminitas esposas dentre as filhas de Israel, deliberaram para saber como fariam com as duzentas que faltavam para igualar o número de homens. Alguns disseram que não deviam levar em conta um juramento feito com precipitação e por cólera e que Deus não teria como desagradável favorecer uma tribo que corria o risco de ser extinta. E, se era um grande pecado violar um juramento por um mau fim, tal não seria se a necessidade a isso obrigava. Mas o Senado respondeu que, ao contrário, a simples menção da palavra &quot;perjuro&quot; já lhes causava horror
Nessa diversidade de opiniões, um dos presentes afirmou conhecer um meio de dar esposas aos benjaminitas sem faltar ao juramento. Disseram-lhe que se explicasse, e ele disse: &quot;Somos obrigados a ir três vezes por ano à cidade de Silo a fim de celebrarmos as nossas grande festas e levamos conosco as nossas mulheres e filhos. Assim, podemos permitir aos benjaminitas que levem impunemente de nossas filhas as que puderem apanhar, sem que tenhamos qualquer parte nisso. Se os pais se queixarem e pedirem que lhes façamos justiça, responderemos que eles deveriam censurar a si mesmos por terem cuidado mal delas e que não deveriam se encolerizar contra aqueles aos quais muita ira já foi manifestada&quot;.
A proposta foi aprovada, e resolveram que seria permitido aos benjaminitas proverem-se de mulheres por esse meio. Chegando o dia da festa, os duzentos que não tinham esposa esconderam-se fora da cidade, nas vinhas e nas moitas, enquanto as moças passavam, distraídas, saltando e dançando, sem de nada desconfiar. E eles levaram tantas quantas lhes faltavam, desposaram-nas e puseram-nas com grande cuidado a cultivar a terra, a fim de poderem um dia voltar à antiga abundância. Assim, essa tribo, que estava a ponto de ser totalmente destruída, foi conservada pela sabedoria dos israelitas e logo cresceu, tanto em número quanto em riquezas.
198.  juizes 8. Nessa época, a tribo de Dã não foi tão feliz quanto a de Benjamim. Os cananeus, vendo que os hebreus estavam perdendo o hábito da guerra e só pensavam em enriquecer, começaram a desprezá-los e resolveram reunir todas as suas forças, não por temor que tivessem deles, mas para reduzi-los a tal estado que não pudessem no futuro causar-lhes medo ou atacar as suas cidades.
Assim, puseram-se em campo com uma grande tropa de infantaria e de carros. Conseguiram para o seu partido as cidades de Asquelom e de Acarom, que eram da tribo de judá, e várias outras, construídas nas planícies, e obrigaram os da tribo de Dã a se refugiar nos montes. Como ali não encontraram terras bastante cultiváveis para se nutrir e não eram suficientemente fortes para reconquistar pelas armas as que haviam perdido, mandaram cinco dentre eles aos países mais afastados do mar, para ver se lá poderiam estabelecer colônias.
Depois de terem marchado um dia e passado a grande planície de Sidom, encontraram perto do monte Líbano e das nascentes do Pequeno Jordão uma terra muito fértil. Comunicaram o fato, e o pequeno exército partiu imediatamente para lá. Construíram uma cidade e a chamaram Dã, nome de um dos filhos de ]acó, que era também o nome da tribo. No entanto os negócios dos israelitas cada vez pioravam mais, porque em vez de se entregar ao trabalho e de servir e honrar a Deus, abandonavam-se aos vícios dos cananeus. Cada qual vivia segundo os próprios desejos, num relaxamento completo de toda espécie de disciplina.

CAPÍTULO 3
O REI DOS ASSÍRIOS SUBJUGA OS ISRAELITAS.

199. juizes 3. Deus ficou tão irritado por ver o seu povo abandonar-se dessa forma a toda espécie de pecados, que também o abandonou: o luxo e os prazeres fizeram-nos logo perder a felicidade que com tanto trabalho haviam conquistado. Chusarte, rei dos assírios, fez-lhes guerra e matou vários deles em diversos combates. Atacou algumas de suas cidades, recebeu as outras sob condições e impôs a todas grandes tributos. Assim, durante oito anos, eles se encontraram oprimidos por toda espécie de males. Deles foram livres do modo que vou dizer.

CAPÍTULO 4
OTNIEL LIVRA OS ISRAELITAS DA SERVIDÃO DOS ASSÍRIOS.

200. juizes 3. Otniel, homem muito hábil e valente da tribo de Judá, teve uma revelação, na qual lhe foi ordenado não tolerar que a sua nação fosse reduzida a tal miséria e que tudo empreendesse para libertá-la. Escolheu para ajudá-lo em tão grande empresa um punhado de homens que ele sabia serem generosos o bastante para não temer perigo algum, se fosse para quebrar aquele jugo insuportável.
Começaram por cortar a garganta à guarnição assíria. A notícia de tal êxito espalhou-se. Os soldados acorreram e de tal modo aumentaram de número que em pouco tempo quase se igualavam aos assírios. Deram então combate a estes, venceram-nos, puseram-nos em fuga, obrigando-os a se retirar para lá do Eufrates, e assim recobraram gloriosamente a liberdade. Como recompensa a Otniel por tão grande serviço, tomaram-no por chefe e deram-lhe o nome de juiz, por causa da autoridade que lhe davam para julgá-los. Ele morreu nesse cargo depois de tê-lo exercido durante quarenta anos.

CAPÍTULO 5
EGLOM, REI DOS MOABITAS, SUBJUGA OS ISRAELITAS. EÚDE LIBERTA-OS.

201. juizes 3. Depois da morte desse sábio e generoso governador, os hebreus acharam-se num estado muito pior que o anterior, e sem chefe, porque não prestavam mais a Deus a devida honra nem a obediência que deviam às leis. Eglom, rei dos moabitas, declarou-lhes guerra. Venceu-os em diversos combates e tornou o povo tributário. Estabeleceu em Jerico a sede dejseju governo e oprimiu-os com toda espécie de males. Eles passaram assim dezoito anos. Mas depois Deus, compadecido pelo sofrimento do povo e vencido pelas suas orações, resolveu libertá-los.
Eúde, filho de Gera, da tribo de Benjamim, jovem vigoroso e ousado, tão hábil que lutava ao mesmo tempo com as duas mãos e era capaz de tudo empreender, estava então em jerico. Encontrou meios de se insinuar nas boas graças de Eglom, por meio de presentes que lhe mandava, e teve assim grande facilidade para entrar no palácio. Num dia de verão, pelo meio-dia, tomou um punhal, escondeu-o sob as vestes, do lado direito, e foi em companhia de dois de seus servidores levar presentes ao soberano. Os guardas estavam fazendo a sua refeição, e o calor era grande: essas duas coisas juntamente os tornavam mais negligentes ainda. Ele ofereceu presentes a Eglom, que estava retirado num quarto muito fresco, e conversou com ele tão amigavelmente que o rei ordenou aos seus homens que se retirassem.
Eúde, temendo que o seu golpe falhasse, porque o rei estava sentado no trono, pediu-lhe que se levantasse para que pudesse narrar um sonho da parte de Deus. Eglom levantou-se para escutá-lo e então Eúde cravou-lhe o punhal no coração, deixando-o na ferida. Depois saiu e fechou a porta. Os oficiais julgaram que ele deixara o rei adormecido, e Eúde, sem perder tempo, contou em segredo aos israelitas da cidade o que acabava de fazer, exortando-os a recuperar a liberdade. Eles tomaram imediatamente as armas e mandaram tocar trompas por todo o país, para reunir os de sua nação.
Os oficiais de Eglom permaneceram muito tempo sem nada desconfiar. Mas quando viram cair a tarde, o temor de que lhe houvesse acontecido alguma coisa impeliu-os a entrar no quarto, onde o encontraram morto. Seu espanto foi tal que, não sabendo qual deliberação tomar, deram aos israelitas tempo para serem atacados antes que tivessem ocasião de se defender. Os israelitas mataram uma parte deles, e o resto, num total de mais ou menos dez mil, salvou-se fugindo para o seu país. Mas os israelitas, que haviam ocupado as passagens do Jordão, mataram-nos pelo caminho, principalmente no lugar das sentinelas, de sorte que não se salvou um sequer.
Os hebreus, uma vez livres da servidão dos moabitas, escolheram unanimemente Eúde para seu chefe e soberano, considerando que deviam a ele a sua liberdade. Era um homem de grande mérito e digno de muitos elogios. Desempenhou o cargo durante oitenta anos. Sangar, filho de Anate, sucedeu-o e morreu antes que terminasse o ano.

CAPÍTULO 6
JABIM, REI DOS CANANEUS, SUBJUGA OS ISRAELITAS. DÉBORA E BARAQUE
LIBERTAM-NOS.

202. juizes 4. Os males que caíram sobre os israelitas não os tornaram melhores, e eles voltaram à impiedade para com Deus e ao desprezo de suas leis. Assim, depois de libertos do jugo dos moabitas, foram vencidos e dominados por Jabim, rei dos cananeus. Ele tinha a sua corte na cidade de Hazor, situada sobre o lago de Samachom, e mantinha ordinariamente trezentos mil homens de infantaria, dez mil cavaleiros e três mil carros. Sísera, general do exército, desfrutava grande favor junto dele porque vencera os israelitas em vários combates, e o rei devia principalmente à liderança e ao valor desse homem o fato de tê-los como tributários.
Vinte anos passaram os israelitas em tão dura servidão que não houve mal que não tivessem sofrido. Deus o permitiu para castigar o orgulho e a ingratidão deles. Mas ao fim desse tempo eles reconheceram que o desprezo às santas leis era a causa de toda aquela infelicidade. Dirigiram-se a uma profetisa de nome Débora, que em hebreu significa &quot;abelha&quot;, e pediram-lhe que dissesse a Deus para ter compaixão deles e de seus sofrimentos. Ela rogou-lhe em seu favor, e a sua oração foi ouvida. Ele prometeu libertá-los sob o comando de Baraque — &quot;relâmpago&quot;, em nossa língua —, que era da tribo de Naftali.
Débora, depois desse oráculo, ordenou a Baraque que reunisse dez mil homens e atacasse os inimigos, sendo suficiente esse pequeno número, pois Deus prometia-lhes a vitória. Baraque respondeu-lhe que não podia aceitar o cargo se ela não tomasse, com ele, o comando do exército. Ela, porém, respondeu-lhe encolerizada: &quot;Não tendes vergonha de ceder a uma mulher a honra que Deus se digna fazer-vos? Eu, porém, não recuso recebê-la&quot;. Reuniram assim dez mil homens e foram acampar no monte Tabor. Sísera, por ordem do rei seu senhor, marchou para combatê-los e acampou próximo deles.
Baraque e o resto dos israelitas, espantados com a multidão dos inimigos, intentaram retirar-se e afastar-se quanto possível. Mas Débora os deteve e ordenou-lhes que combatessem naquele mesmo dia sem temer aquele grande exército, porque a vitória dependia de Deus, e deviam confiar no seu auxílio. Travou-se o combate. Nesse momento, viu-se cair uma forte chuva com granizo. O vento impelia-a com tanta violência contra o rosto dos cananeus que os arqueiros e fundibulários não se podiam servir nem dos arcos nem das fundas, e os que estavam armados mais pesadamente tampouco podiam usar as suas espadas, tão enregelados estavam pelo frio. Os israelitas, ao contrário, tendo a tempestade pelas costas, não eram incomodados por ela e ainda sentiam redobrada a coragem, vendo nela um sinal visível do auxílio divino.
Assim, eles venceram e mataram um grande número de inimigos, restando apenas um pequeno número, que pereceu sob as patas dos cavalos e as rodas dos carros de seu próprio exército, o qual fugia em desordem. Sísera, vendo tudo perdido, desceu do carro e entrou na casa de uma mulher ciniana, de nome jael, rogando-lhe que o escondesse e pedindo-lhe de beber. Ela deu-lhe leite azedo, de que ele bebeu bastante, porque sentia muita sede. E|e adormeceu, e a mulher, vendo-o em tal estado, fincou-lhe com um martelo um grande prego na fronte. Os soldados de Baraque chegaram, e ela apontou-lhes o morto. Assim, segundo a predição de Débora, a honra dessa grande vitória coube a uma mulher. Baraque marchou em seguida para a cidade de Hazor e derrotou e matou o rei Jabim, que vinha com um exército ao seu encontro. Ele arrasou a cidade e governou o povo de Deus durante quarenta anos.

CAPÍTULO 7
OS MIDIANITAS, AJUDADOS PELOS AMALEQUITAS E PELOS ÁRABES, SUBJUGAM OS ISRAELITAS.

203. juizes 6. Depois da morte de Baraque e de Débora, que se deu quase ao mesmo tempo, os midianitas, auxiliados pelos amalequitas e pelos árabes, fizeram guerra aos israelitas, venceram-nos em um grande combate, devastaram o país e levaram grande despojo. Continuaram durante sete anos a persegui-los e oprimi-los dessa maneira, obrigando-os, por fim, a abandonar o campo e se refugiar nos montes. Cavaram na terra lugares de defesa, onde guardavam tudo o que podiam apanhar nas planícies, porque os midianitas só depois de fazer a colheita permitiam-lhes cultivar as terras, durante o inverno, a fim de se aproveitarem do trabalho deles no tempo da colheita. Assim, era extrema a sua miséria, e nesse estado tão deplorável recorreram a Deus, pedindo-lhe que os ajudasse.

CAPÍTULO 8
GIDEÃO LIBERTA O POVO DE ISRAEL DA ESCRAVIDÃO DOS MIDIANITAS.

204. juizes 6, 7 e 8. Um dia, quando Gideão, filho de joás, que era um dos principais da tribo de Manasses, batia feixes de trigo no lagar, porque não se atrevia a batê-los publicamente na eira do seu celeiro, por temor aos inimigos, um anjo apareceu-lhe sob a forma de um rapaz, dizendo que Gideão era feliz porque era querido de Deus. &quot;É este&quot;, retrucou Gideão, &quot;um belo sinal: ver-me obrigado a me servir de um lagar em vez de um celeiro&quot;. O anjo exortou-o então a não perder a coragem, mas a aumentá-la, para empreender a libertação do povo.
Gideão disse-lhe que iria então propor uma coisa quase impossível, tanto porque a sua tribo era a menor de todas em número de homens quanto porque ele ainda era jovem e incapaz de executar tal empresa. &quot;Deus suprirá tudo&quot;, replicou o anjo, &quot;e dará a vitória aos israelitas, quando vos tiverem por general&quot;. Gideão narrou a visão a algumas pessoas de sua idade, que não duvidaram de que ele lhe devia prestar fé. Reuniram logo dez mil homens resolvidos a tudo empreender para libertar-se da escravidão.
Deus apareceu em sonhos a Gideão e disse-lhe que, por serem os homens tão fátuos, querendo atribuir a si mesmos e às próprias forças as suas vitórias, em vez de considerá-las resultado do auxílio que Ele lhes prestava, queria fazê-los reconhecer que deviam tudo a Ele. E assim, ordenou-lhe que levasse o exército à margem do Jordão no momento do calor mais forte do dia e só considerasse valorosos os que se abaixassem para beber comodamente e que considerasse covardes os que bebessem a água apressadamente, pois seria um sinal do medo que sentiam do inimigo. Gideão obedeceu e encontrou apenas trezentos que tomaram a água levando-a à boca com a mão, sem pressa alguma.
Deus ordenou-lhe, em seguida, que atacasse os inimigos à noite com esse pequeno número. E, notando agitação no seu espírito, acrescentou, para tranqüilizá-lo, que tomasse um dos seus e com ele se aproximasse mansamente do acampamento dos midianitas, para observar o que se passava. Ele executou a ordem e quando estava próximo das tendas ouviu um soldado narrar ao companheiro um sonho que tivera. Dizia ele: &quot;Vi um pedaço de massa de farinha de cevada que não merecia ser recolhida, e a pasta, rolando por todo o acampamento, derrubou a tenda do rei e depois todas as outras&quot;. &quot;Esse sonho&quot;, respondeu-lhe o companheiro, &quot;pressagia a ruína completa do nosso exército, por esta razão: a cevada é o menor de todos os grãos, e, como não há agora em toda a Ásia nação mais desprezível que a dos israelitas, ela pode ser comparada à cevada. Vós sabeis que eles reuniram as suas tropas e têm algum empreendimento em vista, comandados por Gideão. Por isso temo muito que esse pedaço de massa que vistes derrubar todas as tendas seja um sinal de que Deus quer que Gideão triunfe sobre nós&quot;.
Essas palavras encheram Gideão de esperanças. Ele transmitiu-as aos seus e ordenou-lhes que se armassem todos. Fizeram-no com alegria, pois tão feliz pres-ságio os levava a tudo empreender. Mais ou menos na quarta vigília da noite, Gideão separou os homens em três grupos de cem cada um. E, para surpreender os inimigos, ordenou-lhes que cada qual levasse na mão esquerda um vaso com uma tocha acesa dentro, e na direita, em vez da trompa, uma buzina de chifre.
O acampamento dos inimigos era muito extenso, por causa dos camelos, e, embora as tropas fossem separadas por nação, achavam-se encerradas num mesmo recinto. Quando os israelitas se aproximaram, segundo a ordem de Gideão, fizeram soar todos ao mesmo tempo as buzinas de chifre de carneiro, quebraram os vasos e entraram no acampamento com grandes gritos, de archote na mão, firmemente convictos de que Deus lhes daria a vitória. Estando ainda os inimigos meio adormecidos, a escuridão da noite e principalmente o auxílio de Deus causaram-lhes tal terror e confusão no espírito que mais foram mortos por eles mesmos do que pelos israelitas, pois, sendo o exército tão numeroso e composto por povos diversos a falar línguas diferentes e estando todos tão aterrorizados, tomaram-se eles mesmos por inimigos, atacando-se mutuamente.
Logo que outros israelitas souberam dessa vitória tão marcante, tomaram armas para perseguir os inimigos e alcançaram-nos em lugares onde as águas que lhes cercavam a passagem os obrigaram a parar. Houve então uma carnificina inaudita. Os reis Orebe e Zeebe estavam entre os mortos. Os reis Zeba e Zalmuna salvaram-se com dezoito mil homens somente e foram acampar o mais longe possível dos israelitas. Gideão, que não se cansava de cuidar da glória de Deus e da de seu país, marchou imediatamente contra eles, dizimou-lhes todas as tropas e fez muitos prisioneiros. Os midianitas e os árabes, que auxiliavam os midianitas, perderam perto de cento e vinte mil homens nesses dois combates.
Os israelitas fizeram grande presa, tanto em ouro quanto em prata, e também em objetos preciosos, camelos e cavalos. Gideão, depois de regressar a Efraim, lugar de seu nascimento e moradia, mandou matar os dois reis midianitas, os quais havia aprisionado. Então a sua própria tribo, invejosa da glória que ele havia conquistado e não podendo tolerá-la, resolveu fazer-lhe guerra, sob o pretexto de que ele empreendera a outra sem comunicá-los. Como não era menos sensato que valoroso, ele respondeu-lhes, com grande modéstia, que não teria procedido daquele modo se Deus assim não houvesse ordenado e que isso não os impedia de ter tanta participação quanto ele na vitória. Assim acalmou-os, prestando, por sua prudência, um serviço à República não menor que o já prestado pelas suas vitórias, pois evitou uma guerra civil. Essa tribo não deixou de ser castigada pelo seu orgulho, como diremos a seu tempo.
A modéstia desse grande personagem era tão extraordinária que ele desejou até despojar-se da suprema autoridade. Mas o povo obrigou-o a conservá-la, e ele a desempenhou durante quarenta anos. Gideão administrava a justiça e apaziguava as divergências com tanto desinteresse, capacidade e sabedoria que o povo jamais deixou de confirmar-lhe os julgamentos, pois não podiam ser mais eqüitativos. Ele morreu muito idoso, e foi sepultado em seu país.

CAPÍTULO 9
CRUELDADE E MORTE DE ABIMELEQUE, BASTARDO DE GIDEÃO.
OS AMONITAS E OSFILISTEUS SUBJUGAM OS ISRAELITAS. JEJTÉ LIBERTA-OS E
CASTIGA A TRIBO DE EFRAIM. IBSÃ, ELOM EABDOM GOVERNAM
SUCESSIVAMENTE O POVO DE ISRAEL DEPOIS DA MORTE DE JEFTÉ.

205. juizes 9. Gideão teve de diversas mulheres setenta filhos legítimos, e de Druma, um bastardo chamado Abimeleque. Este, depois da morte do pai, foi para Siquém, de onde era a sua mãe. Os parentes deram-lhe dinheiro, e ele o empregou para reunir os piores homens que pôde encontrar. Depois voltou com essa tropa à casa de seu pai, matou todos os irmãos, exceto Jotão, que escapou, e usurpou o poder. Calcando aos pés todas as leis, governou com tal tirania que se tornou odioso e insuportável aos homens de bem. Um dia, quando se celebrava em Siquém uma festa solene, onde estava reunida uma grande multidão, Jotão falou tão alto, do monte Cerizim, o qual está perto da cidade, que todo o povo o ouviu e calou-se para escutá-lo.
Ele pediu-lhes que prestassem atenção e falou: &quot;Um dia reuniram-se as árvores e, falando como os homens, pediram à figueira que fosse o seu rei, mas esta recusou-se, dizendo que se contentava com a honra que lhe faziam em consideração à bondade de seus frutos e nada mais desejava. Fizeram a mesma proposta à vinha: ela também se recusou. Então fizeram a oferta à oliveira, que não manifestou menos modéstia que as outras. Por fim, falaram com a sarça, cuja madeira é boa somente para se queimar, e ela respondeu: &#39;Se é para vosso bem que me quereis para vosso rei, descansai sobre os meus ombros. Mas se é por zombaria e para me enganar, que fogo saia de mim e vos destrua a todas&#39;. Não vos narro isto como uma história, para vos divertir, e sim porque, sendo devedores de tantos benefícios a Gideão, tolerais que Abimeleque, cujo caráter é semelhante ao fogo, se tenha tornado vosso tirano depois de ter assassinado cruelmente os próprios irmãos&quot;.
Dizendo isso, partiu e ficou escondido durante três anos nos montes, para evitar o furor de Abimeleque. Algum tempo depois, os habitantes de Siquém se arrependeram de permitir que se derramasse o sangue dos filhos de Gideão e expulsaram Abimeleque de sua cidade e da própria tribo. Chegando, porém, o tempo da vindima, o medo do ressentimento e da vingança de Abimeleque fazia com que não ousassem sair da cidade. Por essa época, um homem distinto, chamado Gaal, chegou acompanhado de um grande número de soldados e de seus parentes, e rogaram-lhe que lhes desse uma escolta para poderem recolher os frutos. Tendo ele concedido o que pediam, os israelitas, nada mais temendo, falavam em voz alta e publicamente contra Abimeleque e matavam todos os de seu partido que lhes caíam nas mãos.
Zebul, que era um dos maiorais da cidade e fora hóspede de Abimeleque, foi dizer-lhe que Gaal incitava o povo contra ele, Abimeleque. Aconselhou-o a armar-lhe uma emboscada perto da cidade, aonde prometia levar Gaal para assim ele poder vingar-se de seu inimigo. Depois ele o faria ficar novamente de bem com o povo. Abimeleque não deixou de seguir o conselho e nem Zebul de executar o que lhe havia prometido. Assim, Zebul e Gaal dirigiram-se para fora da cidade.
Gaal, que de nada desconfiava, ficou muito admirado ao ver soldados armados encaminhando-se para ele e disse a Zebul: &quot;Eis ali os inimigos, que marcham contra nós!&quot; &quot;São sombras dos rochedos&quot;, disse Zebul. &quot;De modo nenhum!&quot; replicou Gaal, que os via agora mais de perto. &quot;São certamente soldados armados&quot;. Disse Zebul: &quot;Vós, que censuráveis Abimeleque por sua covardia, o que vos impede agora de mostrar a vossa coragem e combater contra ele?&quot; Gaal, muito perturbado, sustentou o primeiro ataque e, depois de perder alguns dos seus, retirou-se com o resto para a cidade.
Zebul então acusou-o de demonstrar pouca coragem naquele encontro, e por esse motivo o despediram. Os habitantes, porém, continuaram a sair para terminar a vindima. Abimeleque armou uma cilada perto da cidade, com a terça parte de seus homens, ordenando que se apoderassem das portas para impedir que eles pudessem regressar. Então ele, com o resto de seus soldados, atacou os que se achavam esparsos pelos campos e tornou-se senhor da cidade. Arrasou-a em seguida até os alicerces e nela semeou sal.
Os que se salvaram reuniram-se e ocuparam uma rocha, cuja posição a tornava muito forte, e preparavam-se para rodeá-la de muralhas. Mas Abimeleque não lhes deu oportunidade e foi contra eles com todos os seus soldados. Apanhando feixes secos, ordenou a todos os seus homens que fizessem o mesmo. Depois de ter num instante amontoado em torno da rocha uma grande pilha de lenha, lançou por cima desta ainda outras matérias inflamáveis e ateou-lhe fogo, de sorte que nenhum dos que lá se refugiavam conseguiu escapar: mil e quinhentos homens morreram queimados com as suas mulheres e filhos. Eis como Siquém foi destruída. Os seus habitantes até seriam dignos de compaixão, mas mereceram tal castigo pela ingratidão demonstrada para com o homem de quem haviam recebido tantos benefícios.
O tratamento dispensado a essa desafortunada cidade lançou grande temor no espírito dos israelitas. Eles estavam certos de que Abimeleque levaria adiante a sua boa sorte e diziam que a sua ambição não ficaria satisfeita enquanto não os dominasse a todos. Ele marchou sem perder tempo para a cidade de Tebas, tomou-a de assalto e cercou uma grande torre na qual o povo se recolhera. Mas quando avançava para a porta, uma mulher atirou um pedaço de mó de moinho, que o atingiu na cabeça e o fez cair. Ele percebeu que estava ferido de morte e ordenou ao seu escudeiro que o matasse, para não ter a vergonha de morrer pelas mãos de uma mulher. Foi obedecido, e assim, segundo o vaticínio de Jotão, ele recebeu o castigo pela sua impiedade para com os irmãos e pela crueldade para com os habitantes de Siquém. O seu exército dissolveu-se depois de sua morte.
206. Juizes 10. Jair, gileadita da tribo de Manasses, governou em seguida todo o povo de Israel. Era feliz em tudo, particularmente quanto aos filhos: teve trinta, todos corajosos e homens de bem que ocupavam as primeiras colocações na província de Gileade. Depois de ficar vinte e dois anos nesse importante cargo, morreu e foi sepultado com muita honra em Camom, uma das cidades desse país.
207.  O desprezo então demonstrado pelos israelitas para com a lei de Deus lançou-os num estado ainda mais infeliz que o de onde haviam saído. Os amonitas e os filisteus entraram em seu país com um poderoso exército, devastaram-no completamente e tornaram-se senhores dos países situados para lá do Jordão. Depois intentaram passar o rio e conquistar também todos os outros. Os israelitas, mais prudentes pelo castigo recebido, recorreram a Deus e imploraram o seu auxílio. Ofereceram-lhe sacrifícios e rogaram que, se Ele não queria acalmar totalmente a sua cólera, pelo menos a diminuísse. Deus deixou-se comover pelas orações e prometeu-lhes auxílio.
Assim, marcharam contra os amonitas, que haviam entrado na província de Gileade. E, como lhes faltava um chefe e Jefté gozava de grande fama, tanto por causa do valor de seu pai quanto por manter ele mesmo um importante corpo de soldados, mandaram pedir-lhe que os comandasse, prometendo-lhe não ter jamais outro general senão ele, enquanto vivesse. Em princípio, ele recusou o oferecimento, porque não o haviam ajudado contra os seus irmãos, quando estes o trataram indignamente, expulsando-o de casa depois da morte do pai, com o pretexto de que a mãe dele era estrangeira, e ele a desposara por amor. Foi para se vingar dessa injúria que depois de se retirar para Gileade ele tinha por sua conta os soldados que queriam servi-lo. Porém, não podendo resistir às insistentes petições dos israelitas, reuniu os seus homens aos deles, e fizeram juramento de obedecer-lhe como seu general.
Depois de calcular com muita prudência tudo o que era necessário e após levar o seu exército para a cidade de Mispa, mandou embaixadores ao rei dos amonitas para queixar-se de que ele havia entrado em um país que não lhe pertencia. O soberano respondeu, por meio de outros embaixadores, que era ele quem tinha motivo para se queixar dos israelitas, porque depois de terem saído do Egito eles haviam usurpado o país de seus antepassados, legítimos senhores daquela terra. Jefté respondeu-lhes que o senhor deles não podia achar estranho nem que os israelitas possuíssem as terras dos amorreus; que, ao contrário, devia agradecer por elas lhe terem sido deixadas, estando em poder de Moisés conquistá-las; que não estavam dispostos a lhe deixar um país que haviam ocupado depois de uma ordem recebida de Deus e que possuíam há trezentos anos; e que assim só lhes restava resolver o litígio pelas armas.
Jefté, após despedir os embaixadores dessa maneira, fez voto a Deus: se Ele lhe desse a vitória, sacrificar-lhe-ia a primeira criatura viva que encontrasse no seu regresso. Travou-se a luta, e ele venceu os inimigos, perseguindo-os até a cidade de Maniate. Entrou no paí$ dos amonitas, tomou e arrasou várias cidades, cujos despojos distribuiu aos soldados, e assim gloriosamente libertou a sua nação da servidão a que estivera sujeita durante dezoito anos.
Porém, tanto quanto fora feliz nessa guerra e merecera as honras que recebeu da gratidão pública, foi ele infeliz em sua vida particular. Pois a primeira pessoa que encontrou ao voltar para casa foi a sua única filha, ainda virgem, que vinha ao seu encontro. Ele sentiu o coração partir-se de dor. Soltou um profundo suspiro, lastimou a tão funesta prova de afeto que ela lhe dava e disse-lhe que, por que infeliz coincidência, ela seria a vítima que ele se obrigara a oferecer a Deus.
Aquela generosa moça, em vez de se espantar com essas palavras, respondeu-lhe com maravilhosa firmeza que uma morte que tinha por motivo a vitória de seu pai e a liberdade de seu país só lhe poderia ser muito agradável e que a única graça que pedia era o tempo de dois meses, para se lamentar com as suas companheiras por ter de se separar delas ainda muito jovem. O infeliz pai não teve dificuldade em lhe conceder esse pequeno favor e, depois desse tempo, sacrificou a vítima inocente, que Deus não desejava dele e que nenhuma lei obrigava a oferecer-lhe. Mas ele quis cumprir o seu voto, sem considerar o juízo que os homens poderiam fazer de sua ação.
208.  juizes 12. A tribo de Efraim declarou-lhe guerra pouco depois, sob o pretexto de que, para obter sozinho a glória de ter derrotado e se aproveitado dos desejos dos inimigos, ele empreendera a peleja sem eles. Primeiro ele lhes respondeu, com muita doçura, que era ele quem se devia queixar, pois eles, tendo visto os compatriotas empenhados em tão grande guerra, lhes recusaram o auxílio que tinham por obrigação oferecer. Censurou-os em seguida porque, não tendo se atrevido a lutar contra um inimigo comum, agora achavam de se apresentar corajosos contra os próprios irmãos. Por fim, ameaçou castigá-los, com o auxílio de Deus, se persistissem naquela loucura.
Quando ele viu que não se acalmavam com essas razões, mas avançavam com um grande exército que haviam recrutado de Gileade, marchou contra eles, atacou-os e os venceu. Colocou-os em fuga, mandou tropas para controlar as passagens do Jordão, pelas quais eles poderiam escapar, e matou uns quarenta e dois mil deles. Esse generoso chefe dos israelitas morreu depois de desempenhar por seis anos tão elevado cargo. Foi enterrado na cidade de Sebei, na província de Gileade, onde ele nascera.
209. Ibsã, da cidade de Belém, na tribo de judá, sucedeu Jefté no governo supremo e desempenhou durante sete anos esse cargo, sem nada ter feito de memorável.
210.  Elom, da tribo de Zebulom, sucedeu-o e, no que é digno de memória, durante os seis anos em que esteve no governo não fez mais que Ibsã.
211.  Abdom, filho de Hilel, da tribo de Efraim, sucedeu Elom, e os israelitas desfrutaram durante o seu governo de tão profunda paz que ele não teve oportunidade para fazer algo memorável. Assim, a única coisa extraordinária que se pode notar em sua vida é que, ao morrer, ele deixou quarenta filhos e trinta filhos de seus filhos, todos vivos, perfeitos e habilmente capazes. Morreu muito velho e foi enterrado com grande magnificência no lugar onde havia nascido.



CAPÍTULO 10
OS FILISTEUS VENCEM OS ISRAELITAS E OS TORNAM TRIBUTÁRIOS.
NASCIMENTO MILAGROSO DE SANSÃO E SUA FORÇA PRODIGIOSA.
MALES QUE CAUSOU AOS FILISTEUS. SUA MORTE.

212. juizes 13. Depois da morte de Abdom, os filisteus venceram os israelitas e os tornaram tributários durante quarenta anos. Por fim, eles quebraram o jugo, da maneira como vou descrever.
Manoá, que era sem contestação o primeiro dentre todos os da tribo de Dã, homem de grande virtude, desposou a mais bela mulher do país. E sua paixão por ela era tão grande que não podia ser isenta de ciúme. Como não tinham filhos e os desejavam com muito afã, pediam-nos continuamente a Deus e particularmente quando se retiraram para uma casa de campo que possuíam perto da cidade.
Um dia, estando a mulher sozinha, um anjo apareceu-lhe sob a forma de um moço de incomparável beleza e porte admirável, dizendo que viera anunciar-lhe da parte de Deus que ela seria mãe de um filho maravilhosamente belo, cuja força seria tão extraordinária que, mesmo antes de entrar no vigor da juventude, ele venceria os filisteus. Deus, porém, proibia que lhe cortassem o cabelo e ordenava que lhe dessem somente água como bebida. Ela contou tudo ao marido e descreveu com tanta insistência a graça e a beleza do moço que esses louvores aumentaram ainda mais o ciúme de Manoá. Ela percebeu-o e, como era não menos casta que bela, rogou a Deus que curasse o marido de tão injusta suspeita, enviando outra vez o anjo, a fim de que ele mesmo pudesse vê-lo.
Sua oração foi ouvida e, estando ambos em casa, o anjo apareceu a ela. A mulher rogou-lhe que esperasse enquanto ia buscar o marido. O anjo consentiu, e ela trouxe-o logo. Ele viu então com os próprios olhos esse embaixador de Deus, contudo não ficou curado do ciúme. Rogou-lhe que contasse o que dissera à mulher, mas o anjo respondeu ser suficiente que ela o soubesse. Manoá pediu-lhe então que dissesse quem era, a fim de que, quando tivesse um filho, pudesse agradecer-lhe com presentes. O anjo respondeu que não tinha necessidade de presentes e que não dera tão boa notícia com o fim de obter alguma vantagem. Manoá insistiu, suplicando que ao menos lhe permitisse usar do direito da hospitalidade, o que obteve, com a condição de que se demorasse pouco.
Manoá matou um cabrito, e sua mulher o cozinhou. Quando estava pronto, o anjo disse-lhe que não o pusesse no prato, mas sobre a pedra nua, com alguns pães. Eles obedeceram. Ele tocou na carne e nos pães com uma vara que trazia na mão, e dela saiu imediatamente uma chama, que os consumiu inteiramente. Manoá e sua mulher viram então o anjo elevar-se para o céu no meio da fumaça daquele fogo, que servia como de carro para transportá-lo. Essa divina visão causou grande tristeza a Manoá, porém a mulher exortou-o a nada temer e garantiu-lhe que aquilo lhe seria vantajoso. Logo depois ela ficou grávida, e nada esqueceu do que lhe fora ordenado. Teve um filho, ao qual chamou Sansão, isto é, &quot;forte&quot;. E, à medida que ele crescia, a sobriedade e o comprimento dos cabelos confirmavam o que dele fora predito.
juizes 14. Estando ele já mais adiantado em anos, seu pai e sua mãe levaram-no a uma cidade dos filisteus, chamada Timna, onde havia uma grande assembléia. Ali, enamorou-se de uma jovem do lugar e rogou aos pais que lhe permitissem desposá-la. Disseram-lhe que não era possível porque ela era estrangeira, e a Lei proibia semelhantes uniões. Mas ele se obstinou de tal modo em querer esse casamento que eles por fim consentiram, e a jovem lhe foi prometida. Deus também o permitiu, para o bem de seu povo.
Como ele ia freqüentemente à casa do pai da moça para visitá-la, um dia encontrou um leão no caminho. Embora não tivesse armas, não sentiu medo: correu para o leão, tomou-o pela garganta, esquartejou-o e atirou o cadáver a uma moita perto da estrada. Alguns dias depois, quando passava pelo mesmo lugar, viu algumas abelhas fazendo mel no corpo do leão. Tomou deles três favos e levou-os, com outros presentes, à sua noiva. Força tão extraordinária causou tal apreensão aos pais da moça que eles convidaram para as núpcias trinta moços de sua idade, com o pretexto de lhe fazerem honra e ao mesmo tempo acompanhá-lo, mas na realidade era para estarem alerta, caso ele tentasse fazer alguma coisa.
No meio da alegria da festa, Sansão disse aos companheiros: &quot;Tenho uma adivinhação para vós. Se a resolverdes, em sete dias darei a cada um uma cinta e um casaco&quot;. O desejo de demonstrar esperteza e de obter o que ele prometia fez com que insistissem em conhecer a questão. Então ele disse: &quot;Do comedor saiu comida, e do forte saiu doçura&quot;. Eles levaram três dias tentando solucionar o enigma e, não o conseguindo, rogaram à mulher dele que o obrigasse a revelá-lo e depois transmitisse a eles a solução. Ela disse-lhes que seria difícil, mas eles ameaçaram queimá-la. Então pediu a Sansão que lhe explicasse o enigma.
Em princípio, ele negou-se, mas depois, vencido pelas lágrimas da mulher e pelas queixas de que ele fazia pouco do amor que ela lhe devotava e também sem que de nada pudesse desconfiar, contou-lhe que havia matado um leão e encontrado depois em suas fauces os três favos de mel que lhe havia trazido. Os moços, então cientes de seu segredo, foram ter com ele no sétimo dia da festa, antes do pôr-do-sol, e disseram-lhe: &quot;Nada há de mais terrível que o leão nem de mais doce que o mel&quot;. E Sansão citou-lhes um provérbio: &quot;Se não lavrásseis com a minha novilha, jamais teríeis descoberto o meu enigma&quot;. Mesmo enganado dessa maneira, não deixou de cumprir a sua promessa e, para fazê-lo, atacou todos os ascalonitas que encontrou pelo caminho. Todavia não conseguiu perdoar a mulher. Abandonou-a, e ela, vendo-se desprezada, desposou um dos amigos de Sansão, o que servira de intermediário no casamento.
juizes 75. Sansão ficou tão irritado com isso que resolveu vingar-se dela e de toda a nação filistina. Assim, quando se ia proceder à ceifa, tomou trezentas raposas, amarrou tochas às suas caudas e lhes pôs fogo. Deixou então que corressem para o meio do trigo, que ficou inteiramente queimado e destruído. Os filisteus, encolerizados com tão grande perda, mandaram os mais importantes dentre eles à cidade de Timna para informar-se da razão daquele incêndio e, tendo-o sabido, mandaram queimar vivos a mulher de Sansão, bem como os parentes dela.
Sansão, por seu lado, matava todos os filisteus que encontrava, retirando-se depois para um rochedo especialmente posicionado, num lugar chamado Etã, da tribo de Judá. Os filistéia, para se vingar, atacaram a tribo. Mas os de Judá protestaram, argumentando que, como pagavam as contribuições a que estavam obrigados e não tinham parte alguma nos atos de Sansão, não era justo que sofressem por causa dele. Os filisteus, porém, responderam-lhes que só se poderiam justificar pela guerra. Após essa resposta, três mil homens dessa tribo foram armados à rocha onde Sansão se encontrava e queixaram-se de que ele irritava os filisteus, os quais poderiam vingar-se sobre toda a nação. Disseram-lhe também que, a fim de evitar tão grande mal, eles estavam ali para prendê-lo e entregá-lo a eles, rogando que o consentisse, sob a palavra que lhe davam de que nenhum mal lhe aconteceria. Assim, ele veio até eles, que o ligaram com cordas e o levaram.
Os filisteus, tendo-o sabido, vieram a ele com grandes gritos de alegria, mas ao chegar a um lugar, que agora tem o nome de Ramate-Leí por causa do que então ali se passou, próximo do acampamento deles, Sansão arrebentou as cordas, tomou uma queixada de burro que encontrou ao acaso e lançou-se sobre eles. Matou uns mil homens e pôs os outros em fuga. Feito tão extraordinário e jamais igualado animou-lhe de tal modo a coragem que ele se esqueceu de que devia tudo a Deus, atribuindo a façanha às suas próprias forças. Não tardou, porém, em ser castigado pela sua ingratidão. Sentindo muita sede, quase a desfalecer, foi obrigado a reconhecer que toda a força dos homens é fraqueza. Assim, recorreu a Deus, rogando-lhe que não o entregasse aos inimigos, embora ele bem o merecesse, mas o auxiliasse em tão premente necessidade. Deus, tocado pela sua oração, no mesmo instante fez brotar de um rochedo uma fonte, e Sansão deu a esse lugar o nome de En-Hacoré, como sinal do milagre que Deus ali realizara.
Juizes 16. Desde aquele dia, ele passou a desprezar tanto os filisteus que não teve medo de ir até Gaza e hospedar-se num albergue à vista de todos. Logo que os magistrados o souberam, puseram guardas à porta da cidade, para que ele não pudesse escapar. Sansão veio a sabê-lo e levantou-se pela meia-noite, arrancou as portas, colocou-as às costas com os seus gonzos e ferrolhos e levou-as ao monte que está acima de Hebrom. Sansão, todavia, em vez de reconhecer os muitos favores que devia a Deus e observar as leis que Ele dera aos seus antepassados, abandonou-se aos excessos dos prazeres e costumes estrangeiros e foi assim ele mesmo a causa de sua infelicidade.
Ele enamorou-se de uma cortesã filistina, de nome Dalila, e, logo que os mai-orais da nação o souberam, foram ter com ela e a obrigaram, com grandes promessas, a procurar saber dele de onde provinha aquela força extraordinária, que o tornava invencível. Dalila, para fazer o que desejavam, empregou as carícias e a adulação de que essa espécie de mulheres sabe usar para despertar o amor. Comentou com admiração os grandes feitos dele e tomou então motivo para perguntar de onde procedia àquela força prodigiosa. Ele logo imaginou o propósito daquela pergunta e respondeu, para enganá-la em vez de se deixar enganar, que, se o amarrassem com sete sarmentos de videira, ele seria mais fraco que qualquer outro. Ela acreditou e referiu-o aos magistrados. Então eles enviaram soldados, os quais, vendo-o adormecido, o ataram da maneira como ele instruí¬ra. Então Dalila despertou-o, dizendo-lhe que alguns homens vinham atacá-lo. Sansão levantou-se, arrebentou os Mames e preparou-se para resistir.
Fez-lhe Dalila então amargas censuras, porque ele não confiava nela e se recusava a revelar o que ela tanto desejava saber, como se não fosse bastante fiel para guardar um segredo que era tão importante para ele. Ele respondeu-lhe que, se o atassem com sete cordas, perderia toda a sua força. Experimentaram fazê-lo, e ela descobriu fora enganada outra vez. Continuou, porém, a insistir, e ele enganou-a uma terceira vez, dizendo-lhe que era preciso enrolar-lhe os cabelos e atá-los com um fio.
Por fim, ela tanto insistiu e de tantos modos lhe rogou que ele, desejando agradá-la e não podendo evitar a própria infelicidade, declarou: &quot;É verdade que aprouve a Deus ter de mim cuidado todo particular, e, como foi por efeito de sua providência que vim ao mundo, é também por sua ordem que deixei crescer o cabelo, pois Ele me proibiu cortá-lo, e é neles que reside toda a minha força&quot;. Essa infeliz mulher, mal arrancando dele tal confissão, cortou-lhe o cabelo en¬quanto ele dormia e entregou-o aos filisteus, aos quais ele não pôde mais resistir. Eles vazaram-lhe os olhos, amarraram-no e o levaram.
Algum tempo depois, os grandes e os principais do povo, num dia de solene comemoração pública, davam um grande banquete em um lugar muito espaçoso, cujo teto era sustentado por colunas. Eles resolveram trazer Sansão para lhes servir de espetáculo e de divertimento. Os cabelos dele, porém, já haviam crescido nova¬mente, e ele, muito generoso, considerando o maior de todos os males ser tratado com tanta indignidade sem poder vingar-se, fingiu-se ainda fraco e pediu ao que o levava pela mão que o conduzisse até próximo das colunas, para nelas se apoiar. Ele levou Sansão, e quando este percebeu que lá estava, sacudiu-as com tal força que as paredes estremeceram e caíram por terra ao mesmo tempo, bem como o telhado inteiro dessa grande construção. Três mil homens foram feridos e esmaga¬dos, e Sansão também, no meio deles, foi sepultado sob as ruínas.
Esse foi o fim de Sansão, que durante vinte anos foi chefe de todo o povo de Israel. Nenhum outro foi comparável a ele, quer pela coragem, quer pela força sobrenatural, que até o último momento de sua vida foi tão funesta aos inimigos. Quanto ao se ter ele deixado enganar por sua mulher, compreende-se como efeito da fraqueza dos homens, tão sujeitos a semelhantes faltas. Mas não se poderia deixar de admirá-lo bastante em tudo o mais. Os parentes levaram-lhe o corpo e o enterraram em Zorá, no túmulo de seus antepassados.

CAPÍTULO 11
HISTÓRIA DE RUTE, MULHER DE BOAZ, BISAVÔ DE DAVI. NASCIMENTO DE
SAMUEL. OS FILISTEUS VENCEM OS ISRAELITAS E TOMAM A ARCA DA ALIANÇA. OFNI E FINÉIAS, FILHOS DE ELI, SUMO SACERDOTE, SÃO MORTOS
NESSA BATALHA.

213. Rute 7. Depois da morte de Sansão, Eli, sumo sacerdote, governou o povo de Israel. Houve no seu tempo uma grande carestia. Abimeleque,* que morava na cidade de Belém, na tribo de Judá, não a podendo suportar, foi com a mulher, Noemi, e seus dois filhos, Quiliom e Malom, para o país dos moabitas. Ali tudo correu perfeitamente bem, e ele casou o mais velho dos filhos com uma jovem de nome Orfa e o mais moço com outra, de nome Rute. Dez anos depois, pai e filhos morreram, e Noemi, cheia de aflição, resolveu voltar para o seu país, que então estava em situação melhor que a de quando ela o havia deixado.
As noras quiseram segui-la, porém, como as amasse demais para tolerar que sofressem a mesma infelicidade, rogou-lhes que ficassem, pedindo a Deus que as fizesse mais felizes no segundo matrimônio, pois não o haviam sido no primeiro. Orfa consentiu naquele desejo, mas a extrema afeição que Rute devotava à sogra não lhe permitiu abandoná-la e desejou ser sua companheira também na adver¬sidade. Assim, chegaram ambas a Belém, onde veremos em seguida que Boaz, primo de Abimeleque, as recebeu com grande bondade. Noemi dizia aos que a chamavam por esse nome: &quot;Deveríeis antes chamar-me Mara&quot; — que significa &quot;dor&quot; — &quot;e não Noemi&quot; — que quer dizer &quot;felicidade&quot;.

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* As Escrituras chamam-no Elimeleque.

Rute 2. Chegou o tempo da ceifa, e Rute, a fim de obter alimento, foi respigar, com licença da sogra. Entrou por acaso no campo que pertencia a Boaz. Ele che¬gou pouco depois e perguntou ao administrador quem era aquela moça. Ele o informou de tudo o que sabia, dito por ela mesma. Boaz louvou muito o afeto que ela nutria pela sogra e pela memória do marido e desejou-lhe toda sorte de felicidade. Disse ao administrador que permitisse a ela não somente respigar, mas levar o que desejasse, e que lhe dessem ainda de beber e de comer, como aos ceifadores.
Rute guardou um caldo para a sogra, que levou para ela à tarde, com o que havia recolhido. Noemi, por seu lado, guardara para Rute parte do que os vizinhos lhe haviam dado para o jantar. Rute contou-lhe o que se havia passado, e Noemi disse-lhe que Boaz era um parente e homem de bem, tanto que esperava que ele tomasse cuidado dela, Rute, que em seguida voltou a respigar no campo dele.
Rute 3. Dias depois, quando toda a cevada já estava batida, Boaz veio à sua propriedade e deitou-se na eira. Quando Noemi o soube, julgou vantajoso que Rute se prostrasse aos pés dele para dormir e disse-lhe para fazer o que pudesse para consegui-lo. Rute não ousou desobedecê-la e assim, mansamente, esguei-rou-se até os pés de Boaz. Ele não a percebeu no momento, porque estava muito adormecido, porém ao acordar, pela meia-noite, percebeu que alguém estava deitado junto dele e perguntou quem era. Ela respondeu: &quot;Sou Rute, vossa serva, e rogo-vos que consintais que eu repouse aqui&quot;.
Nada mais ele perguntou e deixou-a dormir, mas a despertou bem cedo, antes que os empregados se tivessem levantado, dizendo-lhe para apanhar quanta cevada quisesse e então voltar para a casa da sogra, antes que alguém percebesse que ela passara a noite junto dele. Porque era necessário, por prudência, evitar qualquer motivo de comentários, principalmente em assunto daquela importância. Ele acrescentou: &quot;Aconselho-vos a perguntar a alguém que vos seja mais próximo que eu se vos quer tomar para esposa. Se ele estiver de acordo, podereis desposá-lo. E, se recusar fazê-lo, eu vos desposarei, como a Lei me obriga&quot;. Rute narrou à sogra esse fato, e ambas conceberam então firme esperança de que Boaz não as abandonaria.
Rute 4. Ele voltou à cidade pelo meio-dia e reuniu os magistrados. Mandou chamar Rute e seu parente mais próximo, ao qual disse: &quot;Não possuis os bens de Abimeleque?&quot; Respondeu ele: &quot;Sim, eu os possuo pelo direito que a Lei me dá, sendo o seu parente mais próximo&quot;. Boaz replicou: &quot;Não basta cumprir parte da Lei, deve-se cumprir toda ela. Assim, se quiserdes conservar os bens de Abimeleque, é necessário que desposeis a viúva, que vedes aqui presente&quot;. O homem respondeu que já era casado e, tendo filhos, preferia ceder-lhe os bens e a mulher. Boaz tomou os magistrados como testemunhas dessa declaração e disse a Rute que se aproximasse daquele parente, descalçasse-lhe um dos sapatos e lhe desse um tapa no rosto, como a Lei determinava. Ela o fez, e Boaz então desposou-a.
Ao fim de um ano, ela teve um filho, do qual Noemi teve o encargo de cuidar e a quem chamou Obede, na esperança de que ele a ajudaria em sua velhice, pois Obede, em hebreu, significa &quot;auxílio&quot;. Obede foi pai de Jessé, pai do rei Davi, cujos filhos até a vigésima geração reinaram na nação dos judeus. Fui obrigado a narrar essa história para dar a conhecer que Deus eleva quem quer ao soberano poder, como se viu na pessoa de Davi, cuja origem foi a seguinte:
7 Samuel 2. Os interesses dos hebreus estavam então em mau estado, e eles travaram guerra com os filisteus, pelo motivo que passo a narrar. Hofni e Finéias, filhos de Eli, sumo sacerdote, não eram menos ultrajantes para com os homens que ímpios para com Deus. Não havia injustiça que eles não cometessem. Não se contentando em receber o que lhes pertencia, tomavam também o que não lhes era devido. Corrompiam com presentes as mulheres que vinham ao Templo por devoção ou atentavam contra a honra delas pela força, exercendo assim funesta tirania.
Tantos crimes tornaram-nos odiosos a todo o povo e mesmo ao próprio pai. Deus lhes fez conhecer, bem como a Samuel, que então era apenas uma criança, que eles não evitariam a sua justa vingança, por isso Eli a esperava a todo momento e já os chorava como mortos. Porém, antes de relatar de que modo eles e todos os israelitas — por causa deles — foram castigados, quero falar dessa criança, que se tornou mais tarde um grande profeta.
214. 7 Samuel 1. Elcana, da tribo de Efraim, morava em Ramataim-Zofim, no território dessa tribo, e tinha como esposas Ana e Penina. Esta lhe dera filhos. Não os tivera, porém, de Ana, a quem ele amava ardentemente. Um dia, estando com a família em Silo, onde se localizava o sagrado Tabernáculo, Ana, vendo os filhos de Penina sentados à mesa perto da mãe e Elcana a dividir entre as duas mulheres e eles as iguarias que restavam dos sacrifícios, a dor pelo fato de ser estéril a fez derramar lágrimas. O marido fez o que pôde para consolá-la. Depois ela entrou no Tabernáculo, rogou com fervor a Deus que a tornasse mãe e fez voto de que, se Ele lhe desse um filho, o consagraria ao seu santo serviço. E não se cansava de fazer sempre a mesma oração.
Eli, sumo sacerdote, que estava sentado diante do Tabernáculo, julgou que ela estivesse embriagada e ordenou que se retirasse. Ela respondeu-lhe que jamais bebera outra coisa senão água pura, mas que na aflição em que se encontrava por ser estéril rogava a Deus que lhe desse filhos. Disse-lhe ele então que não se afligisse e garantiu que Deus lhe daria um filho. Com essa esperança, foi então ao encontro do marido e a Umentou-se com alegria. Voltando ao seu país, ficou grávida e teve um filho, a quem chamou Samuel, isto é, &quot;ouvido por Deus&quot;. Quando voltaram a Silo para dar graças por meio de sacrifícios e pagar os dízimos, Ana, cumprindo o seu voto, consagrou o menino a Deus e entregou-o nas mãos de Eli. Deixaram crescer-lhe o cabelo, e ele só bebia água. Foi educado no Templo. Elcana teve ainda de Ana três filhos e duas filhas.
215.  1 Samuel 3. Quando Samuel completou doze anos, começou a profetizar, e certa noite, quando dormia, Deus chamou-o pelo nome. Pensando que era Eli quem o chamava, foi logo ter com ele. Mas este disse-lhe que não havia nem mesmo pensado em chamá-lo. A mesma coisa aconteceu por três vezes. Eli não teve então dificuldade para imaginar o que se passava e disse-lhe: &quot;Meu filho, não vos chamei, nem agora nem das outras vezes. É Deus quem vos chama. Respondei então que estais pronto a obedecer-lhe&quot;.
Deus chamou então novamente a Samuel, e ele respondeu: &quot;Eis-me aqui, Senhor. Que desejais que eu faça? Estou pronto a obedecer&quot;. Então falou-lhe deste modo: &quot;Sabei que os israelitas cairão na maior de todas as desgraças: os dois filhos de Eli morrerão no mesmo dia, e o sumo sacerdócio passará da família dele para a de Eleazar, porque Eli atraiu a minha maldição sobre os seus dois filhos, testemunhando mais amor por eles que por mim&quot;. O temor de causar sofrimentos a Eli não permitiu a Samuel narrar-lhe o que ouvira nessa revelação. Mas Eli obrigou-o a falar. Então, esse infeliz genitor não duvidou mais da sorte de seus filhos. Samuel, no entanto, crescia cada vez mais em graça, e todas as coisas que profetizava não deixavam de acontecer.
216.  1 Samuel 4. Logo depois os filisteus se puseram em campo para atacar os israelitas. Acamparam-se perto da cidade de Afeca e, não encontrando resistência, avançaram ainda mais. Travaram por fim um combate, no qual os israelitas foram vencidos. Estes, depois de terem perdido mais ou menos uns quatro mil homens, retiraram-se desordenadamente para o seu acampamento. O temor de serem completamente desbaratados foi tão grande que mandaram embaixadores ao Senado e ao sumo sacerdote para rogar que lhes mandassem a arca da aliança. Não duvidavam que com esse socorro obteriam a vitória, porque não imaginavam que Deus, que pronunciara a sentença de seu castigo, era mais poderoso que a arca, reverenciada unicamente por causa dEle. Mandaram então a arca ao acampamento.
Hofni e Finéias acompanharam-na, por causa da velhice do pai, e ele disse a ambos que, se acontecesse de ela ser tomada e eles tivessem tão pouca coragem que sobrevivessem a tal perda, jamais tornassem a se apresentar diante dele. A chegada da arca alegrou tanto aos israelitas que eles já se julgavam vitoriosos. Ao mesmo tempo, lançou terror no espírito dos filisteus. Mas uns e outros estavam enganados. Ao travar-se a batalha, a perda que os filisteus temiam caiu sobre os seus inimigos, enquanto a confiança que os israelitas depositavam na arca foi inútil, pois foram postos em debandada ao primeiro embate. Perderam trinta mil homens, dentre os quais estavam os dois filhos de Eli, e a arca caiu em poder dos filisteus.

CAPÍTULO 12
ELI, SUMO SACERDOTE, MORRE DE DOR PELA PERDA DA ARCA. MORTE DA MULHER DE FINÉIAS E NASCIMENTO DE ICABÔ.

217. 1 Samuel 4. Um homem da tribo de Benjamim, que com dificuldade sobrevivera à batalha, trouxe a Silo a notícia da derrota e da perda da arca. Logo ecoaram gritos e lamentações. O sumo sacerdote Eli, que estava à porta da cidade sobre um assento muito elevado, ouvindo aquele clamor, não teve dificuldade em julgar que sucedera algum grave infortúnio.
Mandou buscar o homem e recebeu com serenidade a notícia da perda da batalha e da morte dos dois filhos, porque Deus já o havia preparado para isso, e os males previstos ferem muito menos que os inesperados. Mas quando soube que a arca fora tomada pelos inimigos, tal desgraça causou-lhe tanta dor que ele caiu do seu assento e morreu, na idade de noventa e oito anos, depois de governar o povo durante quarenta anos. A mulher de Finéias, que estava grávida, ficou tão sentida com a morte do marido que morreu também, mas antes deu à luz um filho, de sete meses, que se chamou Icabô, isto é, &quot;ignomínia&quot;, por causa da vergonha sofrida pelos israelitas nessa funesta jornada.
Eli, de quem acabamos de falar, foi o primeiro dos descendentes de Itamar — um dos filhos de Arão — a exercer o sumo sacerdócio, pois antes ela sempre ficara, passando de pai para filho, na família de Eleazar, que o deixara a Finéias, e Finéias a Abiezer, e Abiezer a Boci, e Boci a Ozi, ao qual Eli sucedeu e em cuja família ficou até o tempo de Salomão, quando voltou à família de Eleazar.







Livro Sexto

CAPÍTULO 1
A ARCA DA ALIANÇA CAUSA TÃO GRANDES MALES AOSFILISTEUS QUE ELES SÃO OBRIGADOS A RESTITUÍ-LA.

218. 7 Samuel 5. Os filisteus, como vimos, tendo vencido os israelitas e tomado a arca da aliança, levaram-na como troféu à cidade de Asdode e a colocaram no Templo de Dagom, seu deus, com os outros despojos que lhe ofereceram. No dia seguinte, pela manhã, quando vieram prestar as suas homenagens a essa falsa divindade, viram com desprazer não menor que a sua admiração a estátua caída de cima do pedestal que a sustentava. Ela estava no chão, diante da arca. Recolocaram-na em seu lugar, e a mesma coisa aconteceu diversas vezes: eles sempre encontravam a estátua aos pés da arca, como se estivesse prostrada para adorá-la.
Deus, porém, não se contentou em vê-los apenas confusos e aflitos: mandou à cidade e a toda a região disenteria tão cruel que as vísceras lhes pareciam roídas, e eles morriam com dores insuportáveis. E todo o país, ao mesmo tempo, foi assolado por ratos, que tudo estragavam e não poupavam nem o trigo nem os outros frutos. Os habitantes de Asdode, vendo-se reduzidos a tal miséria, imaginaram que fora a arca que tornara aquela vitória tão funesta. Assim, para livrar-se dela, rogaram aos de Asquelom que permitissem enviá-la para a sua cidade.
Eles concordaram de boa vontade, porém, mal ela chegou, o povo também foi atingido por idênticos males, pois a arca levava consigo a toda parte a maldição de Deus contra os que não eram dignos de recebê-la. Os ascalonitas, para se livrar de tanta calamidade, mandaram-na a outra cidade, mas lá igualmente não ficou, porque causou-lhe os mesmos males que às outras. Passou assim por cinco cidades da Palestina e exigiu de cada uma delas, como uma espécie de tributo, o castigo que merecia o sacrilégio de se conservar coisa consagrada a Deus.
1 Samuel 6. O exemplo desse povo cansado de sofrer fazia com que também outros temessem os mesmos castigos. Deliberaram então, como melhor conselho, que o mais sensato seria desfazer-se da arca, e os principais das cidades de Gate, Acarom, Asquelom, Gaza e Asdode reuniram-se para resolver o que deveriam fazer.
Uns propuseram restituí-la aos israelitas, pois Deus, para mostrar a sua cólera por se terem apoderado dela e também para vingar-se, castigava com muitos flagelos os que a recebiam em suas cidades. Outros foram de parecer contrário, dizendo que não se deviam atribuir aqueles males à tomada da arca, pois, se ela possuísse tão grande virtude ou fosse tão querida por Deus, Ele não a teria deixado cair nas mãos deles, que eram de religião diferente. Era necessário, isto sim, suportar aqueles sofrimentos com paciência e atribuí-los unicamente à natureza, que na revolução dos tempos produz mudanças nos corpos, na terra, nas plantas e em todas as coisas sobre as quais o seu poder se estende.
Outros, porém, mais prudentes e hábeis, propuseram um terceiro alvitre: não restituiriam nem conservariam a arca, mas ofereceriam a Deus, em nome das cinco cidades, cinco estátuas de ouro, para agradecer-lhe o favor de tê-los livrado daquela espantosa doença que os remédios humanos tinham sido incapazes de curar, e também outros tantos ratos, também de ouro, semelhantes aos que haviam devastado o país. Seria tudo colocado numa caixa, e a caixa, na arca. Esta, por sua vez, seria posta num carro novo. Feito isso, atrelar-se-iam ao carro duas vacas veladas, cujos bezerros seriam presos, a fim de não as retardarem, e a impaciência que elas sentiriam para encontrá-los as obrigaria a andar.
Depois de as atrelar ao carro, levá-las-iam a uma estrada, onde seriam deixadas em plena liberdade, para seguir o caminho que quisessem. Se escolhessem o que leva aos israelitas, ter-se-ia motivo para crer que a arca fora a causa de todos os males, mas se tomassem outro, era porque não havia nela virtude alguma. Todos aprovaram essa proposta e executaram-na imediatamente. Preparadas todas as coisas, colocaram o carro, com as vacas atreladas do modo mencionado, no meio de um caminho.
 


CAPÍTULO 2
ALEGRIA DOS ISRAELITAS PELO RETORNO DA ARCA. SAMUEL EXORTA-OS A
RECOBRAR A LIBERDADE. VITÓRIA MILAGROSA SOBRE OSFILISTEUS, AOS QUAIS
CONTINUAM A FAZER GUERRA.

219.  1 Samuel 6. As vacas tomaram o caminho que levava aos israelitas, como se para lá fossem levadas, e os principais dos filisteus seguiram-nas, para ver aonde iam parar. Quando chegaram a uma aldeia da tribo de Judá, de nome Bete-Semes, pararam, embora diante delas se abrisse bela e vasta planície. Era o tempo da ceifa, e todos estavam ocupados em cortar o trigo. Mas logo que os habitantes da aldeia viram a arca, a sua alegria fê-los deixar tudo e correr ao carro. Tomaram a arca e a caixa, colocaram-na sobre uma pedra e fizeram sacrifícios, oferecendo a Deus em holocaustos as vacas e o carro e mostrando com festas públicas o seu regozijo, do qual foram testemunhas os filisteus de que acabamos de falar. Estes levaram a notícia aos outros.
Os habitantes de Bete-Semes, porém, sofreram os efeitos da cólera de Deus, que fez morrer setenta deles, porque, não sendo sacerdotes, ousaram tocar na arca. O pesar foi tanto maior quanto essa morte não era tributo à natureza, e sim castigo. Assim, sabendo que não eram dignos de ter junto de si tão sagrado e precioso depósito, mandaram avisar a todas as tribos de que os filisteus haviam restituído a arca. Elas deram logo ordem de levá-la a Quiriate-Jearim, que é cidade próxima de Bete-Semes. Colocaram-na em casa de um levita de nome Abinadabe, ilustre por sua piedade, na certeza de que a casa de um homem de bem era lugar próprio para recebê-la. Esse santo homem colocou-a sob o cuidado dos filhos e nada se pode acrescentar ao que eles obtiveram durante os vinte anos em que ela aí permaneceu. Os filisteus a conservaram apenas sete meses.
220.  1 Samuel 7. Durante os vinte anos em que a arca ficou em Quiriate-Jearim, os israelitas viveram de modo muito religioso e ofereceram a Deus, com fervor, votos e sacrifícios. Assim, o profeta Samuel julgou que o tempo era próprio para exortá-los a reconquistar a liberdade e desfrutar os bens que ela produz. E, para harmonizar os sentimentos, falou-lhes nestes termos: &quot;Os nossos inimigos não deixam de nos oprimir, e Deus mostra que nos é favorável. Não basta fazer votos pela nossa liberdade, é necessário empreender tudo para reconquistá-la. Cuidai, porém, para não vos tomardes indignos pela corrupção dos vossos costumes, tendo, ao contrário, amor à justiça e horror ao pecado e convertendo-vos a Deus com tal pureza de coração que nada jamais vos impeça de prestar-lhe a honra que lhe deveis. Se assim procederdes, não haverá felicidade que não possais esperar: sereis libertos da escravidão e triunfareis sobre os vossos inimigos, porque somente por intermédio de Deus, e não pela força, coragem e número dos combatentes, poderemos obter todas essas vantagens, as quais somente a justiça e a probidade podem conceder. Ponde, pois, toda a vossa confiança nEle, e eu vos asseguro que Ele não frustrará as vossas esperanças&quot;.
Essas palavras animaram de tal modo o povo que eles, depois de manifestar a sua alegria por aclamações, declararam estar prontos para fazer o que Deus lhes ordenasse. Samuel ordenou que se reunissem na cidade de Mispa (isto é, &quot;visível&quot;). Lá tiraram água, ofereceram sacrifícios a Deus, jejuaram durante um dia e fizeram orações públicas. Os filisteus, avisados dessa reunião, vieram imediatamente contra eles com poderoso exército, convictos de que, surpreendendo-os, poderiam dizimá-los facilmente.
Os israelitas, assustados com o perigo, recorreram a Samuel e confessaram-lhe que temiam combater inimigos tão temíveis. Embora fosse verdade que estavam ali reunidos para fazer orações e sacrifícios e que se haviam comprometido com juramento a fazer a guerra, não tinham nenhuma esperança de vencer os filisteus, os quais iriam atacá-los antes que tivessem tempo de apanhar as armas e de se preparar para resistir-lhes o ataque, a menos que Deus se deixasse vencer pelas suas orações e se declarasse seu protetor. O profeta exortou-os a nada temer e garantiu-lhes o auxílio de Deus. Em seguida, ofereceu a Deus, em nome de todo o povo, o sacrifício de um cordeiro de leite, rogando-lhe que não abandonasse aqueles que confiavam somente nEle e não permitisse que caíssem em poder dos inimigos. Deus aceitou aquela vítima tão agradavelmente que prometeu combater por eles e dar-lhes a vitória.
Antes de concluído o sacrifício e de a vítima ser inteiramente consumida pelo fogo sagrado, os filisteus deixaram o seu acampamento para iniciar o combate e, como surpreendiam os israelitas, sem lhes dar ocasião de preparar a defesa, não punham em dúvida o resultado favorável da luta. Mas o desfecho foi tal que eles jamais poderiam imaginá-lo, ainda que alguém o tivesse predito. Por efeito da onipotência de Deus, sentiram a terra tremer de tal modo sob os pés que mal podiam equilibrar-se e viram-na abrir-se em alguns lugares e tragar os que ali se encontravam. Estrugiu nos ares um trovão tão espantoso e acompanhado de raios tão fortes que os olhos deles se ofuscaram e as mãos, semiqueimadas, não podiam segurar as armas. Assim foram obrigados a lançá-las por terra e buscar a salvação na fuga.
Os israelitas mataram grande número deles, perseguiram o resto até o lugar chamado Bete-Car, onde Samuel mandou fixar uma pedra como sinal da vitória e chamou ao lugar Ebenézer, para dar a conhecer que tudo o que haviam conseguido de força naquela célebre jornada deviam a Deus somente. Fato tão maravilhoso lançou tal terror no espírito dos filisteus que eles não ousaram mais atacar os israelitas, e a ousadia que antes manifestavam passou, por estranha modificação, ao coração dos vitoriosos. Samuel continuou a fazer-lhes guerra, matou muitos em diversos combates, domou-lhes o orgulho, reconquistou um país situado entre as cidade de Gate e Ecrom que eles haviam, pelas armas, conquistado aos israelitas. Estes, enquanto estavam ocupados com essa guerra, viveram em paz com os cananeus.

CAPÍTULO 3
SAMUEL PASSA O GOVERNO ÀS MÃOS DOS FILHOS, QUE SE ENTREGAM A
TODA ESPÉCIE DE VÍCIOS.

221. Samuel, depois de haver ajustado tão bem os interesses da nação, escolheu algumas cidades onde se deveriam resolver todos os litígios. Ele mesmo lá ia duas vezes por ano para administrar justiça e, como nada tinha em maior interesse que governar a República segundo as leis recebidas de Deus, continuou a fazê-lo durante muito tempo. A velhice, porém, tornava-o incapaz de suportar tal trabalho, e ele entregou o governo nas mãos de seus filhos, o mais velho dos quais chamava-se Joel, e o mais moço, Abias. Determinou que morassem em Berseba, para julgarem o povo.
A experiência então mostrou que os filhos nem sempre se assemelham aos pais: às vezes, os maus geram homens de bem, e gente de bem, ao contrário, põe no mundo homens maus. Pois eles, em vez de seguir as pegadas paternas, tomaram caminho totalmente oposto. Recebiam presentes, vendiam vergonhosamente a justiça, calcavam aos pés as leis mais santas e chafurdavam-se em toda sorte de impurezas, sem temor de ofender a Deus ou de desagradar ao pai, que desejava com ardor vê-los cumprindo o dever.

CAPÍTULO 4
OS ISRAELITAS, NÃO PODENDO TOLERAR O MAU PROCEDIMENTO DOS FILHOS DE SAMUEL, INSISTEM COM ELE QUE LHES DÊ UM REI. O PEDIDO CAUSA-LHE GRANDÍSSIMA AFLIÇÃO. DEUS O CONSOLA E ORDENA-LHE QUE LHES
FAÇA A VONTADE.

222. Os israelitas, vendo subvertida a ordem tão sabiamente estabelecida por Samuel e observando os desregramentos e vícios de seus dois filhos, foram procurar o santo profeta na cidade de Rama, onde ele residia. Falaram-lhe dos enormes pecados dos filhos dele e, já que a sua velhice não lhe permitia mais governar, pediram-lhe ardentemente que lhes desse um rei para governá-los e vingar as injúrias recebidas dos filisteus. Essas palavras afligiram sensivelmente o profeta, porque ele amava extremamente a justiça. Não queria a realeza, pois estava persuadido de que a teocracia era o mais feliz de todos os governos. A tristeza levou-o mesmo a deixar de beber, de comer e de dormir. O seu espírito estava tão agitado pela infinidade de pensamentos que passava a noite toda revolvendo-se no leito.
Deus então apareceu para consolá-lo e disse-lhe: &quot;O pedido que esse povo vos faz não vos ofende tanto quanto a mim, pois demonstra que não querem mais ter-me como rei. Não é de hoje que pensam assim, pois começaram a imaginá-lo desde que os tirei do Egito. Eles se hão de arrepender, porém muito tarde, quando o seu mal for sem remédio, e condenarão eles mesmos a sua ingratidão para comigo e para convosco. Ordeno-vos que lhes deis por rei àquele que eu vos mostrar, depois de os avisardes dos males que, por esse motivo, lhes hão de vir, declarando que é contra a vossa vontade que sois levado a fazer essa mudança que eles desejam com tanto afã&quot;.
No dia seguinte, de manhã, Samuel reuniu todo o povo e prometeu que lhes daria um rei, depois de enumerar os males que teriam de suportar: &quot;Sabei, principalmente, que os vossos reis tomarão os vossos filhos para empregá-los em toda espécie de trabalho: uns para a guerra, como simples soldados ou como oficiais; outros em sua corte, para servi-los em todas as coisas; outros para trabalhar em diversas artes e ofícios; outros para cultivar a terra, como se fossem escravos comprados a peso de ouro. Tomarão também as vossas filhas para empregá-las em diversos trabalhos, como empregadas, as quais o medo do castigo obrigará a trabalhar. Tomarão as vossas propriedades e os vossos rebanhos para dá-los aos seus eunucos e a outros domésticos. Enfim, vós e vossos filhos estareis sujeitos não somente a um rei, mas também aos seus servidores. Então vos lembrareis da predição que hoje vos faço e, tocados pelo arrependimento de vossa falta, implorareis, na tristeza de vosso coração, o auxílio de Deus, para vos libertar de tão rude sujeição. Mas Ele não ouvirá as vossas orações e vos deixará sofrer o castigo que a vossa imprudência e ingratidão mereceram&quot;.
O povo não quis escutar os avisos do profeta, insistindo mais que nunca no seu pedido, pois, sem entrar nas considerações do futuro, só pensavam em ter um rei que combatesse à frente de seus exércitos para vingá-los dos inimigos. Como todos os seus vizinhos obedeciam a reis, nada lhes parecia mais razoável que abraçar a mesma forma de governo. Samuel, vendo-os tão obstinados em sua resolução e que tudo o que lhes dizia era inútil, mandou que se retirassem. Quando chegasse o tempo, ele os reuniria para declarar quem Deus escolheria para rei.

CAPÍTULO 5
SAUL EFEITO REI SOBRE TODO O POVO DE ISRAEL. MODO COMO É LEVADO A SOCORRER OS HABITANTES DEJABES, SITIADOS POR NAÁS, REI DOS AMONITAS.

223. 1 Samuel 9. Quis, que era da tribo de Benjamim e muito virtuoso, tinha tanta inteligência e coração que podia passar por homem extraordinário. Perderam-se as suas jumentas, que ele criava por serem muito belas, e ele determinou que Saul, seu filho, com um dos criados, fosse procurá-las. Saul partiu e, depois de as ter buscado inutilmente, tanto na sua tribo quanto nas outras, resolveu voltar para casa, temendo que o pai estivesse apreensivo por sua causa.
Quando estava perto de Rama, o servo disse-lhe que naquela cidade havia um profeta que sempre dizia a verdade e aconselhou-o a ir procurá-lo para saber o que havia acontecido às jumentinhas. Saul respondeu que nada tinha para lhe dar, pois gastara todo o dinheiro na viagem. O servo disse que ainda tinha a quarta parte de um sido, que podia dar ao profeta, pois sabia que jamais ele se aproveitava de pessoa alguma. Quando chegaram às portas da cidade, encontraram algumas moças, que iam à fonte. Saul perguntou-lhes onde morava o profeta, e elas o disseram, acrescentando que se ele o queria ver deveria apressar-se, a fim de falar-lhe antes que ele se pusesse à mesa, pois ia oferecer um jantar a várias pessoas.
No entanto era justamente para Saul que Samuel organizara tal refeição, pois, tendo passado todo o dia anterior em oração, para pedir a Deus que lhe fizesse conhecer quem seria o rei, Deus lhe respondera que, no dia seguinte, à mesma hora, lhe enviaria um moço da tribo de Benjamim, que devia ser o escolhido. Estava então assentado no terraço de sua casa, esperando a hora que Deus marcara, para então ir à mesa, depois que o moço tivesse chegado. Quando Saul se aproximou, Deus revelou a Samuel que aquele era o escolhido.
Saul saudou-o e perguntou onde morava o profeta, pois, sendo estrangeiro, não o sabia. Samuel respondeu-lhe que era ele mesmo. Convidou-o para jantar e disse-lhe, enquanto caminhavam, que não somente encontraria as jumentas que há tanto tempo procurava, mas se tornaria rei e seria assim cumulado de toda sorte de bens. Respondeu-lhe Saul: &quot;Vós zombais de mim, pois não tenho tal pretensão nem posso conceber tais esperanças. A tribo a que pertenço não é tão importante, para ter reis, e a família de meu pai é uma das menores dentre as de minha tribo&quot;. Quando chegou à sala, Samuel fê-lo sentar-se acima de todos os outros, mais ou menos umas setenta pessoas, mandou colocar o servo junto dele e ordenou aos que serviam à mesa que dessem a Saul uma porção real.
1 Samuel 10. À hora da saída, todos os convidados partiram para as suas casas, e o profeta conservou apenas Saul para pousar em sua residência. No dia seguinte, ao despontar do dia, levou-o para fora da cidade e disse-lhe que ordenasse ao seu servo para seguir adiante, porque tinha algo a lhe dizer em particular. Ele o fez, e então Samuel derramou-lhe sobre a cabeça o óleo que levava num vaso, abraçou-o e disse: &quot;Deus vos constitui rei sobre o seu povo, para vingá-lo dos filisteus. E, como sinal de que o que vos digo de sua parte é verdade, encontrareis ao partir daqui, no vosso caminho, três homens que estão indo adorar a Deus em Betei, o primeiro dos quais leva três pães, o segundo, um cabrito, e o terceiro, uma garrafa de vinho. Eles vos saudarão muito cordialmente e vos oferecerão dois pães, que deveis aceitar. De lá ireis ao sepulcro de Raquel, e um homem comparecerá à vossa presença e vos dirá que as jumentas foram encontradas. Quando tiverdes chegado à cidade de Gibeá, encontrareis um grupo de profetas. Deus vos encherá de seu Espírito, e profetizareis com eles. E todos os que vos ouvirem dirão, com espanto: &#39;Como tão grande felicidade coube ao filho de Quis?&#39; Quando todas essas coisas se houverem realizado, não podereis mais duvidar de que Deus não esteja convosco. Então ireis saudar o vosso pai e todos os vossos parentes e voltareis para junto de mim, em Gilgal, a fim de oferecermos a Deus sacrifícios em ação de graças&quot;.
Depois assim falar, Samuel despediu-o, e nada do que ele havia predito deixou de se verificar. Depois que Saul voltou para casa do pai, um de seus parentes, de nome Abenar, a quem ele amava mais que aos outros, perguntou-lhe como fora a viagem. Saul contou-lhe tudo, menos o que se referia à realeza, de que não lhe quis falar, temendo não ser levado a sério ou mesmo despertar inveja. Assim, embora fosse seu parente e amigo, julgou melhor conservar o assunto em segredo. A fraqueza dos homens é tão grande que muito pouco se pode confiar em sua amizade. Eles não são capazes de ver, sem inveja, a felicidade dos outros, ainda que sejam parentes e amigos e a despeito de saberem que tal acontece por graça particular de Deus.
224. Samuel então reuniu o povo em Mispa e falou: &quot;Eis o que Deus me encarrega de dizer-vos, de sua parte: &#39;Quando gemíeis sob o jugo dos egípcios, eu vos libertei da escravidão. Libertei-vos também da tirania dos reis vossos vizinhos, que vos venceram tantas vezes. Agora, como gratidão pelos meus benefícios, não quereis mais ter-me por vosso rei, não quereis mais ser governados por aquEle que, sendo infinitamente bom, somente vos pode tornar felizes sob o seu governo. Abandonais o vosso Deus para elevar ao trono um homem, que usará do poder que lhe dareis para tratar-vos como animais, segundo as suas paixões e a sua fantasia, pois, como podem os homens ter tanto amor pelos homens quanto eu, de quem eles são obra?&#39;&quot;
Depois dessas palavras, Samuel acrescentou: &quot;Já que é vosso desejo e não temeis fazer tão grande ultraje a Deus, arranjai-vos então, segundo as vossas tribos e famílias, e que se lance a sorte&quot;. Fizeram-no, e ela caiu sobre a tribo de Benjamim. Depois tomaram os nomes de todas as famílias dessa tribo e puseram-nos num vaso. A sorte caiu sobre a família de Matri. Lançaram a sorte sobre os homens dessa família, e ela caiu sobre Saul. Ele não estava na assembléia, pois, sabendo o que iria acontecer, não quis estar presente, a fim de mostrar que não tinha a ambição de ser rei. E nisso mostrou sem dúvida grande modéstia, pois, enquanto outros não podem esconder a alegria quando algo de feliz lhes sucede, embora de pouca monta, ele não somente nada demonstrou — com a sua presença — ao ser constituído rei sobre um grande povo como ainda se escondeu, de tal modo que não o podiam encontrar.
Nessa aflição, Samuel rogou a Deus que lhe fizesse saber onde Saul estava. Havendo-o encontrado, mandou chamá-lo e apresentou-o ao povo. Cada qual pôde vê-lo sem dificuldade, porque ele era mais alto que todos os outros, e a sua figura sobressaía dentre os demais, ostentando porte e majestade reais. Então Samuel declarou: &quot;Aqui está aquele que Deus vos dá para rei. Vede como ele é maior que qualquer outro de vós e digno de vos comandar&quot;. Todos exclamaram: &quot;Viva o rei!&quot; Samuel escreveu todas as suas predições sobre o que lhes sucederia sob o governo dos reis e colocou esse livro no Tabernáculo, para servir de testemunho à posteridade da veracidade do que vaticinara. Voltou depois a Rama, e Saul foi a Gibeá, sua cidade natal. Várias pessoas virtuosas seguiram-no para prestar ao rei a honra que lhe deviam. Um grande número de homens maus, porém, zombou deles, desprezando o novo rei. Não lhe ofereceram presentes e nem pensaram em agradá-lo.
225. 1 Samuel 11. Um mês após Saul ser elevado ao trono, a guerra em que se encontrou empenhado, contra Naás, rei dos amonitas, conquistou-lhe grande fama. Esse príncipe, que havia muito causava grandes males aos israelitas que moravam além do Jordão, entrou no país deles com um poderoso exército, atacando várias cidades. Para tirar-lhes de vez a esperança de uma revolta, mandou vazar o olho direito de cada um, tanto os que fizera prisioneiros quanto os que se haviam entregado a ele voluntariamente. Fez isso porque os escudos cobriam a visão do olho esquerdo, e assim, nesse estado, não podiam mais servir-se das armas e tornavam-se incapazes de guerrear.
Depois de tratar dessa maneira os israelitas que habitavam além do Jordão, avançou com o seu exército até a província de Gileade. Acampou próximo de jabes, que é a capital, e aconselhou os habitantes da cidade a se entregar, sob a condição de que também lhes seria vazado o olho direito, como aos outros. E ameaçou: caso se recusassem, não pouparia um sequer e destruiria inteiramente a sua cidade, depois de tomá-la à força. Assim, eles tinham de escolher: ou perder parte do corpo ou perdê-lo inteiro. A proposta assustou-os de tal modo que não souberam qual deliberação tomar. Rogaram ao soberano que lhes concedesse sete dias de prazo para mandarem pedir socorro aos de sua nação. Se não o recebessem, entregar-se-iam às condições que ele exigia. Naás consentiu no pedido, tão sem dificuldade quanto desprezava os israelitas. Assim, mandaram expor a todas as cidades as graves dificuldades em que se encontravam.
Tais notícias deixaram todos atônitos e os afligiram de tal modo que eles, em vez de tentar socorrê-los, puseram-se a deplorar-lhes a infelicidade. Os habitantes de Gibeá, onde Saul morava, não ficaram menos perturbados que os outros. O novo rei achava-se então no campo, onde cultivava as suas terras. Vendo-os regressar em tão grande abatimento, togo que soube do motivo de sua aflição, impelido pelo Espírito de Deus, reteve alguns daqueles enviados, para servir-lhe de guia, e despediu os outros, a fim de que fossem tranqüilizar os habitantes de Jabes e informá-los de que os iria socorrer dentro de três dias e que venceria os inimigos antes de o Sol despontar, para que, iluminando ainda o mundo, visse os amonitas humilhados e eles livres do temor.


CAPÍTULO 6
GRANDE VITÓRIA DO REI SAUL SOBRE NAÁS, REI DOS AMONITAS. SAMUEL
CONSAGRA A SAUL SEGUNDA VEZ COMO REI E OUTRA VEZ CENSURA
FORTEMENTE O POVO POR TER MUDADO A FORMA DE GOVERNO.

Desejando Saul obrigar o povo a tomar as armas naquele mesmo momento para começar a guerra pelo temor do castigo, cortou os jarretes dos bois com que trabalhava e declarou que faria o mesmo a qualquer que deixasse de comparecer com armas no dia seguinte a um lugar próximo do Jordão para seguir Samuel e ele aonde os queriam levar. A ameaça surtiu tanto efeito que todos obedeceram. Feita a revista, contaram setecentos mil homens, sem incluir a tribo de Judá, que levou sozinha setenta mil.
Saul em seguida passou o Jordão, marchando a noite toda, e chegou perto do campo dos inimigos antes do amanhecer. Dividiu o exército em três e atacou-os quando menos eles esperavam. Mataram um grande número deles, e Naás, seu rei, estava entre os mortos. Essa vitória não somente granjeou grande fama a Saul entre os israelitas, que não se cansavam de admirar-lhe o valor e de publicar as suas benemerências, como, por uma mudança repentina, entre aqueles que antes o desprezavam, sendo estes agora os que mais honra lhe prestavam, dizendo em alta voz que nenhum outro se podia comparar a ele. Saul julgou, no entanto, que não era bastante ter salvo os jabesenses e entrou no país dos amonitas, devastando-o completamente e enriquecendo o exército. Voltou a Gibeá coroado de glória e carregado com os despojos dos inimigos.
O povo, eufórico por tão grande feito, agradecia a si mesmo por ter tão ardentemente desejado um rei. Não se contentando em perguntar por gracejo onde estavam todos os que achavam inútil ter um soberano, convenceram-se de que era necessário aplicar-lhes um castigo exemplar e passaram a desejar a todo custo que fossem mortos. Tão insolente é a multidão na prosperidade que fácilmente se deixa levar contra os que a contradizem. Saul, todavia, louvou-lhes o afeto, mas afirmou com juramento que não permitiria que a alegria daquela jornada fosse perturbada pela morte ou suplício de algum israelita, pois não havia razão para se manchar com o sangue dos próprios irmãos uma vitória que deviam unicamente a Deus. Seria melhor, ao contrário, renunciar toda inimizade, a fim de nada impedir que o regozijo fosse geral. O povo reuniu-se a seguir em Gilgal, por ordem de Samuel, para confirmar a eleição de Saul, e o profeta consagrou-o rei uma segunda vez, na presença de todos, derramando-lhe um pouco de óleo santo sobre a cabeça.
Eis como a República foi mudada em reino. Durante o governo de Moisés e de Josué, seu sucessor e general do exército, a forma de governo era a teocracia. Após a morte de Josué, entretanto, ninguém teve poder soberano, e passaram-se dezoito anos em anarquia. Voltou-se em seguida à primeira forma de governo e dava-se a suprema autoridade, sob o nome de juiz, àquele que pela coragem e capacidade na guerra se tornasse o mais digno dessa honra. Os reis sucederam aos juizes.
226. 1 Samuel 12. Antes que se dissolvesse a assembléia, Samuel falou-lhes: &quot;Conjuro-vos, na presença do Todo-poderoso, que para libertar nossos antepassados da servidão dos egípcios mandou-lhes Moisés e Arão, dois admiráveis irmãos, que digais, corajosa e livremente, sem que qualquer consideração vo-lo impeça, se eu alguma vez, por interesse ou por favor, fiz algo contra a justiça; se alguma vez recebi de qualquer um de vós um vitelo, uma ovelha ou qualquer outra coisa, embora pareça permitido receber essas coisas que consumimos todos os dias quando oferecidas voluntariamente, ou se alguma vez servi-me de cavalos ou de outra coisa qualquer que pertença a algum de vós. Declarai-vos, eu vos peço, ainda na presença do vosso rei&quot;.
Todos exclamaram que ele nada fizera de semelhante, mas que, ao contrário, sempre governara santa e justamente. Então o profeta continuou: &quot;Já que estais de acordo em que nada existe a censurar sobre o meu procedimento, permiti que eu diga agora sem temor que, pedindo um rei, cometestes ofensa muito grave contra Deus, pois devíeis antes lembrar que depois de a carestia obrigar Jacó, nosso pai, a ir para o Egito com setenta pessoas somente, a sua posteridade multiplicou-se e tornou-se oprimida pelo peso de uma cruel escravidão. Deus, comovido pelas orações de seu povo, não se serviu de um rei para tirá-lo de tão extrema miséria, mas enviou a eles Moisés e Arão, que os conduziram à terra que agora possuis. E, quando por castigo dos vossos pecados e de vossa ingratidão fostes vencidos por várias nações, também não foi por intermédio de reis que Ele vos libertou, e sim sob o comando de Jefté e de Gideão, em milagrosos combates, triunfando dos assírios, dos amonitas, dos moabitas e por fim dos filisteus. Que loucura então vos levou agora a sacudir o jugo de Deus para vos submeterdes ao de um homem? Eu, no entanto, vos segui no vosso desvario e apontei-vos aquele que Deus havia escolhido para reinar sobre vós. Mas, para que não duvideis de que essa mudança lhe é assaz desagradável e não o tenha irritado fortemente contra vós, vos darei uma prova disso, e bem clara, pedindo-lhe que neste momento, em pleno verão, vos mande uma tempestade tal como nunca se viu neste país&quot;.
Mal acabou Samuel de proferir essas palavras, Deus as confirmou como verdadeiras, com um trovão tão forte, relâmpagos sucessivos e uma chuva de granizo tão espessa que o povo, assustado com esse grande milagre, se julgou inteiramente perdido, confessou a sua culpa e conjurou o profeta a pedir a Deus, pela paterna afeição deste para com ele, o perdão daquela falta que haviam cometido, por ignorância, tal como já lhes havia perdoado tantas outras. Ele prometeu-o, exortando-os ao mesmo tempo a viver na piedade e na justiça, a lembrar-se dos males suportados quando dEle se afastavam, a jamais esquecer tantos milagres feitos por Deus em favor deles e a ter sempre diante dos olhos as leis que Ele lhes dera por intermédio de Moisés, para observá-las fielmente. Era esse o único meio de serem felizes e de atrair bênçãos sobre os seus reis. Porque se falhassem Deus exerceria sobre eles terrível vingança. Depois que Samuel pela segunda vez confirmou a realeza de Saul, dissolveu-se a assembléia.

CAPÍTULO 7
SAUL FAZ UM SACRIFÍCIO SEM ESPERAR SAMUEL E ATRAI SOBRE SI A CÓLERA
DE DEUS. MARCANTE VITÓRIA CONQUISTADA SOBRE OS FILISTEUS, POR MEIO
DE JÔNATAS. SAUL QUER FAZÊ-LO MORRER PARA CUMPRIR UM JURAMENTO E
TODO O POVO SE OPÕE. FILHOS DE SAUL E SEU GRANDE PODER.

227. 1 Samuel 13. Depois de voltar a Betei, Saul recrutou três mil homens e conservou dois mil para a guarda. Enviou Jônatas, seu filho, com os mil restantes a Geba, poisos interesses dos israelitas estavam em situação muito difícil naquele país. Isso porque os filisteus, depois de os haver derrotado, não se contentaram em desarmá-los e em colocar guarnições nas praças-fortes: proibiram-lhes também o uso do ferro, de modo que os israelitas estavam condicionados a pedir aos filisteus até mesmo as coisas mais necessárias para o cultivo da terra.
Logo que Jônatas chegou, apoderou-se pela força de um castelo próximo de Geba, deixando os filisteus muito irritados, os quais, para vingar-se, puseram-se imediatamente em campo com trezentos mil soldados de infantaria, trinta mil carros e seis mil cavaleiros e acamparam perto de Micmás. Quando Saul o soube, saiu de Cilgal e mandou apregoar por todos os lados de seu reino que, se quisessem conservar a liberdade, seria necessário tomar armas e combater os filisteus. Todavia, em vez de mencionar o poder das forças inimigas, dizia que elas não eram tão fortes que os pudessem atemorizar. O povo, no entanto, soube da verdade e foi tomado de tal temor que alguns se esconderam nas cavernas e outros passaram o Jordão para buscar segurança nas tribos de Rúben e de Gade.
Saul, vendo-os tão espantados, mandou rogar a Samuel que viesse encontrá-lo, para resolverem juntos o que fazer. O profeta mandou dizer-lhe que o esperasse no lugar onde estava e que preparasse as vítimas. Ao sétimo dia, iria ter com eles para oferecer os sacrifícios a Deus, num sábado, e depois iniciariam a luta. Saul obedeceu-lhe, em parte, não em tudo. Ele permaneceu ali os dias que o profeta havia ordenado. Vendo, porém, que o profeta se demorava e que os soldados o abandonavam, ofereceu o sacrifício. Informado de que o profeta se aproximava, foi ter com ele.
Samuel disse a Saul que este agira muito mal em oferecer o sacrifício sem esperá-lo. A isso Saul respondeu, para desculpar-se, que esperara tantos dias quantos Samuel dissera e que os soldados começavam a abandoná-lo ante a notícia de que os inimigos haviam deixado Micmás para vir a Gilgal, por isso fora obrigado a oferecê-lo. Respondeu o profeta: &quot;Se tivésseis feito o que vos mandei e não mostrásseis tão pouco caso pelas ordens que vos dei da parte de Deus, teríeis firmado durante vários anos a coroa sobre a vossa cabeça e sobre a de vossos sucessores&quot;. Depois de ter assim falado, ele retornou muito descontente por essa ação do soberano.
228. Saul, acompanhado por Jônatas e Aías, sumo sacerdote descendente de Eli, e de apenas seiscentos homens — dos quais a maioria não estava armada, porque os filisteus os haviam privado dos meios necessários para isso —, rumou para Gibeá, de onde viu com incrível pena, do alto de uma colina, os inimigos devastando inteiramente o país. Estes entraram ali por três lugares diferentes, sem que se lhes pudessem opor, devido ao número exíguo de habitantes.
229. 1 Samuel 14. Enquanto ele passava por tão sentido desprazer, jônatas, num ímpeto de generosidade extraordinária, concebeu um dos mais ousados empreendimentos imagináveis. Tomando somente o seu escudeiro, depois de fazê-lo jurar que não o abandonaria, resolveu entrar secretamente no acampamento dos inimigos e lá provocar desordem. Para isso, desceu a colina. O campo era muito difícil de ser atingido, porque estava encerrado num triângulo rodeado por rochedos, que lhe serviam de defesa. Assim, ninguém podia lá subir ou mesmo dele se aproximar sem grande perigo. Tal situação, porém, tornava os inimigos muito negligentes na vigilância.
Jônatas tudo fez para tranqüilizar o seu escudeiro e disse-lhe: &quot;Se os inimigos, quando nos descobrirem, disserem para subirmos, isso servirá como sinal de que o nosso intento será bem-sucedido. Mas se eles nada disserem, voltaremos&quot;. Aproximaram-se do acampamento ao despontar do dia, e os filisteus, vendo-os, disseram: &quot;Eis ali os israelitas, que saem de seus antros e de suas cavernas&quot;. E gritaram imediatamente a Jônatas e ao escudeiro: &quot;Vinde receber o castigo de vossa temeridade&quot;. Jônatas ouviu com alegria essas palavras, considerando-as um presságio de que Deus favorecia o seu empreendimento. Desceu então e passou por um outro caminho, onde os rochedos eram tão pouco acessíveis que nem havia sentinelas.
Ele e o seu escudeiro subiram com incrível dificuldade. Encontraram os inimigos adormecidos e mataram uns vinte deles. Ninguém podia imaginar que dois homens somente tivessem realizado tão temerária empresa, e todo o acampamento encheu-se de tal terror que alguns atiraram fora as armas, para se salvar. Outros matavam-se reciprocamente, tomando-se por inimigos, pois aquele exército era composto por homens de diversas nações. Outros ainda empurravam-se e se chocavam de tal modo na fuga que caíam do alto dos rochedos.
Saul, avisado pelos seus espiões de um estranho movimento no campo dos filisteus, perguntou se alguns dos seus não se haviam afastado da tropa e, sabendo que Jônatas e o seu escudeiro estavam ausentes, rogou ao sumo sacerdote que se revestisse do éfode para saber de Deus o que iria acontecer. Ele o fez e assegurou-lhe que Deus lhe daria a vitória. Saul partiu logo com os poucos homens de que dispunha para atacar os inimigos durante aquela desordem. Espalhando-se a notícia, vários dos israelitas que estavam escondidos nas cavernas uniram-se a ele.
Assim, quase num momento, ele se viu seguido por uns doze mil homens, com os quais perseguiu os filisteus, que estavam espalhados por toda parte.
Mas, por imprudência ou porque lhe era difícil moderar-se em tamanha e tão surpreendente alegria, ele cometeu outra falta. Querendo vingar-se plenamente de seus inimigos, amaldiçoou e condenou à morte todo aquele que deixasse de os perseguir e matar ou se alimentasse antes de chegar a noite. Pouco depois, ele e os seus chegaram a uma floresta da tribo de Efraim, onde havia grande quantidade de abelhas, jônatas, que nada sabia da maldição proferida pelo pai nem do apoio que lhe dera o povo, comeu um favo de mel. Logo que o soube, porém, não o comeu mais e contentou-se em dizer que o rei teria feito muito melhor não promulgando aquela proibição, porque teriam mais força para perseguir os inimigos e poderiam matar muitos outros ainda.
Depois de enorme carnificina, voltaram à tarde para saquear o acampamento, e os vencedores, tendo encontrado muitos animais entre os despojos, mataram uma grande quantidade deles e comeram-lhes a carne com sangue. Os escribas avisaram imediatamente o rei do pecado que o povo cometia, comendo carne sanguinolenta, contra o mandamento de Deus. Ele mandou então que rolassem para o meio do campo uma enorme pedra e degolassem sobre ela os animais, para fazer correr o sangue, a fim de que não se misturasse com a carne e ninguém mais ofendesse a Deus ao comê-la. Todos obedeceram, e Saul mandou erguer um altar, sobre o qual ofereceram a Deus alguns holocaustos. Esse foi o primeiro altar que mandou fazer.
Querendo então ir imediatamente saquear o acampamento dos inimigos, sem esperar o raiar do dia, e querendo-o também os seus soldados com não menor ardor, ele disse ao sacerdote Aquilobe que consultasse a Deus para saber se lhe seria isso agradável. Aquilobe obedeceu e voltou dizendo que Deus não respondia. Disse Saul: &quot;Esse silêncio procede sem dúvida de algum grande motivo, pois Deus estava acostumado a nos dizer o que fazer antes mesmo de o consultarmos. Algum pecado oculto deve tê-lo feito ficar em silêncio. Mas juro por Ele mesmo que, ainda que ainda Jônatas o tenha cometido, não o pouparei, como ao último do povo, para aplacar a cólera de Deus, nem que isso lhe custe a vida&quot;.
Todos exclamaram que o rei deveria executar a sua resolução. Ele retirou-se à parte, com Jônatas, e lançou a sorte para saber quem havia pecado, e ela caiu sobre Jônatas. Saul, muito admirado, perguntou-lhe qual crime havia cometido, e jônatas respondeu que não se achava culpado de nada, senão que, desconhecendo a proibição, comera um pouco de mel enquanto perseguia os inimigos. Saul então disse que o faria morrer, pois preferia a observância do juramento ao seu próprio sangue e a todos os sentimentos naturais. Jônatas, sem se admirar, respondeu-lhe, com uma firmeza digna de sua alma: &quot;Não vos peço, senhor, que me conserveis a vida. Sofrerei a morte com alegria, para poderdes cumprir o vosso juramento. Não me posso julgar infeliz depois de ter visto o povo de Deus dominar o orgulho dos filisteus por uma tão brilhante e gloriosa vitória&quot;.
O povo ficou tão comovido com essa extraordinária generosidade que, contrariando o rei, jurou não permitir a morte daquele ao qual deviam o sucesso de tão célebre jornada. Assim, arrancaram Jônatas das mãos do rei, seu pai, e pediram a Deus que perdoasse a falta que ele cometera.
230. Depois de tão grande feito, no qual perto de mil homens dentre os inimigos foram mortos, Saul reinou feliz e obteve grandes triunfos sobre os amonitas, os moabitas, os filisteus, os idumeus, os amalequitas e o rei de Zobá. Ele teve três filhos: Jônatas, Isvi e Malquisua, e duas filhas: Merabe e Mical.*

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* A Bíblia menciona ainda outros três filhos de Saul: Isbosete (2 Sm 2.8), Armoni e Mefibosete (2 Sm 21.8) (N do E).

Entregou o cargo de comandante do exército a Abner, filho de seu tio Ner, o qual era irmão de Quis, sendo ambos filhos de Abiel.
Além do grande número de soldados de infantaria que mantinha, era ainda bastante forte em cavalaria, tinha inúmeros carros e escolhia para guardas os homens que sabia serem mais fortes e hábeis que os outros. A vitória acompanhava-o em todos os seus empreendimentos, e ele levou os interesses dos israelitas a tão alto grau de prosperidade e poder que eles se tornaram temíveis a todos os vizinhos.

CAPÍTULO 8
SAUL, POR ORDEM DE DEUS, DESTRÓI OS AMALEQUITAS, MAS, CONTRA A
PROIBIÇÃO, LHES SALVA O REI. OS SOLDADOS QUEREM APROVEITAR-SE DOS
DESPOJOS. SAMUEL DECLARA-LHE QUE ELE ATRAIU SOBRE SI A CÓLERA DE DEUS.

231. 1 Samuel 15. Samuel veio ter com Saul e disse-lhe que, tendo-o Deus preferido a todos os outros para fazê-lo rei, era obrigado a obedecer a Ele, pois enquanto ele, Saul, fora colocado acima dos demais súditos, Deus estava acima dele e de tudo o que há no céu e na terra, e que vinha dizer-lhe, da parte dEle: &quot;Os amalequitas fizeram muito mal ao meu povo no deserto, quando este, após sair do Egito, ia para o país que agora possuis. A justiça exige que sejam castigados por tamanha desumanidade. Assim, ordeno-vos que lhes declareis guerra e que os extermineis inteiramente depois de os vencerdes, sem poupar idade ou sexo, a fim de castigá-los como merecem pela maneira como trataram o meu povo no passado. Não quero, igualmente, que se poupe um animal sequer nem que se conserve seja o que for nos despojos: tudo deve ser-me oferecido em holocausto. Do mesmo modo, deve ser apagado de sobre a terra o nome dos amalequitas, como Moisés o declarou, e que deles não fique o menor vestígio&quot;.
Saul prometeu executar fielmente o que Deus ordenava e, para tornar a sua obediência perfeita, por uma pronta execução, reuniu imediatamente todas as suas tropas. Constatou, pela revista, que possuía quatrocentos mil homens, sem incluir a tribo de Judá, que contribuía sozinha com trinta mil. Entrou com esse exército no país dos amalequitas e, para unir astúcia à força, colocou diversas emboscadas ao longo das torrentes, a fim de surpreendê-los e cercá-los por todos os lados. Deu-lhes em seguida combate, venceu-os, colocou-os em fuga e não deixou de os perseguir até derrotá-los completamente.
Tendo a empresa no início, segundo a ordem de Deus, obtido tão feliz êxito, ele sitiou as cidades dos amalequitas e apoderou-se delas. Tomou algumas com máquina, outras com ameaças, outras por terraços levantados do lado de fora, outras pela carestia, outras por falta de água e outras ainda por diversos meios. Não poupou as mulheres nem as crianças e nem por isso julgou passar por desumano e cruel, pois além de estar lidando com inimigos, ele obedecia a Deus, ao qual não se pode sem crime desobedecer. Conseguiu aprisionar o rei Agague, mas a grandeza, a extraordinária beleza e o rosto formoso do príncipe tocaram-no de tal modo que ele se convenceu de que deveria poupá-lo.
Assim, deixando-se levar por sentimentos em vez de cumprir a ordem de Deus, usou infelizmente de uma clemência que não lhe era permitida, pois Ele odiava de tal modo os amalequitas que não desejava que fossem poupadas nem mesmo as crianças, embora por um sentimento natural a fragilidade as torne dignas de compaixão. Esse rei, porém, não somente era um inimigo como também causara grandes males ao povo de Deus. Os israelitas imitaram o seu rei nesse pecado e como ele desprezaram a ordem de Deus: em vez de matar todos os cavalos e os outros animais, preferiram conservá-los e apanharam o que puderam de valor. Enfim, apoderaram-se em geral de tudo o que lhes poderia ser útil. Assim, Saul devastou toda essa região, desde a cidade de Peluzion até o mar Vermelho, menos os de Siquém, na província de Midiã, porque, desejando salvá-los por causa de Jetro, sogro de Moisés, os avisou, antes de começar a guerra, para não se meterem com os amalequitas.
232. Saul retornou em seguida, contente e gloriando-se da vitória, como se tivesse cumprido cabalmente o que fora ordenado por Samuel. Deus, porém, estava muito irritado, porque ele, contra a proibição, poupara a vida ao rei Agague e porque os seus soldados, a exemplo dele, haviam desprezado as mesmas ordens. Assim, eram tão indesculpáveis de seu crime quanto eram devedores a Ele pela vitória. E, não há rei humano que tenha querido sofrer tão grande ultraje como o que acabavam de fazer a Deus, o soberano Rei de todos os reis.
Assim, Deus disse a Samuel que se arrependia de ter posto Saul no trono, pois ele calcava aos pés as suas ordens para fazer somente a própria vontade. Essa aversão de Deus por Saul feriu com uma dor tão forte e tão viva o profeta que ele lhe rogou durante toda a noite que o perdoasse. Não obteve o perdão, todavia, pois Deus não achou justo perdoar tão grande ofensa, tendo em vista apenas o intercessor, porque quem, pela afetação da falsa glória de uma clemência, deixa crimes impunes é causa de que estes se multipliquem.
Samuel, percebendo que não conseguia aplacar a Deus com as suas orações, foi, ao despontar do dia, encontrar-se com Saul em Gilgal. O príncipe correu à sua presença, abraçou-o e disse-lhe: &quot;Dou graças a Deus pela vitória que lhe aprouve conceder-me, e fiz tudo o que Ele me mandou fazer&quot;. Retrucou-lhe o profeta: &quot;Como então estou ouvindo nitridos de cavalos e balidos de ovelhas no vosso campo?&quot; &quot;São rebanhos de carneiros que o povo trouxe e reservou para sacrificar a Deus&quot;, respondeu Saul. &quot;Exterminei completamente a raça dos amalequitas, como me havíeis determinado de sua parte, reservando somente o rei. Faremos dele o que vos aprouver&quot;.
Samuel respondeu-lhe: &quot;Não são as vítimas que são agradáveis a Deus, mas os homens justos que obedecem à sua vontade e só julgam bem feito o que Ele ordena. Pode-se, pois, sem desprezá-lo, não lhe oferecer sacrifícios, mas não se pode desobedecer a Deus sem desprezá-lo, e aqueles que o desobedecem não lhe podem oferecer sacrifícios verdadeiros, que lhe sejam agradáveis. Por mais gordas que sejam as vítimas a Ele apresentadas e por mais puras que sejam as ofertas por si mesmas, Ele as rejeita. Tem-lhes aversão porque são mais efeito de hipocrisia que sinais de piedade. Por outro lado, Ele olha com vistas favoráveis aqueles que não têm outro desejo senão agradá-lo e preferem morrer a faltar ao menor de seus mandamentos. Não lhe pede vítimas e quando eles mesmos as querem oferecer, por mais desprezíveis que sejam, recebe-as com mais boa vontade que tudo o que os ricos lhe podem oferecer. Sabei, pois, que atraístes sobre vós a indignação e a cólera de Deus pelo desprezo que votastes às suas ordens. Como julgais que Ele olhará o sacrifício que lhe fareis das coisas as quais Ele vos ordenou destruir? É possível que imagineis não haver diferença entre exterminar e sacrificar? A diferença é tanta que, para vos castigar por não terdes cumprido a sua ordem, deveis preparar-vos para perder a coroa que Ele vos colocou sobre a cabeça&quot;.
Saul, atônito com essas palavras do profeta, respondeu-lhe que, embora não tivesse podido conter os soldados, por demais ansiosos pelo saque, confessava que era culpado. Rogava-lhe, porém, que o perdoasse e fosse o seu intercessor junto a Deus, com a promessa de não mais cair em semelhante falta. Pediu-lhe em seguida que ficasse um pouco com ele, para oferecer vítimas a Deus e aplacar a sua cólera. Mas como o profeta sabia que Deus não o iria atender, não quis se demorar mais.

CAPÍTULO 9
SAMUEL PREDIZ A SAUL QUE DEUS PASSARÁ O REINO A OUTRA FAMÍLIA.
MATA AGAGUE, REI DOS AMALEQUITAS, E CONSAGRA DAVI COMO REI.
SAUL, AGITADO POR UM DEMÔNIO, MANDA CHAMAR
DAVI, PARA QUE ESTE O ALIVIE CANTANDO E TOCANDO HARPA.

233. Saul segurou Samuel pelo manto, para impedi-lo de sair. Por causa da resistência de Samuel, o manto rasgou-se. Disse-lhe então o profeta: &quot;Vosso reino também será dividido e passará para a um homem de bem, porque Deus não se assemelha aos homens. Ele é imutável em suas determinações&quot;. Saul confessou novamente que havia pecado, mas o que havia sido feito não podia mais deixar de ser, e por isso rogava que concordasse em pelo menos adorar a Deus com ele na presença de todo o povo. Samuel consentiu no pedido. Trouxeram-lhe imediatamente o rei Agague, e este queixou-se de que a morte que lhe queriam fazer sofrer era muito cruel. O profeta porém, disse-lhe: &quot;Vós também obrigastes tantas mães israelitas a chorar a morte de seus filhos. É justo que a vossa morte faça também chorar a vossa mãe&quot;. Depois de assim falar, mandou matá-lo e voltou a Rama.
234. Então Saul abriu os olhos e compreendeu a infelicidade em que havia caído, ofendendo a Deus. Foi para o palácio real, em Geba (que significa &quot;colina&quot;), e depois daquele dia não viu mais Samuel. O santo profeta, por seu lado, não podia deixar de lastimá-lo e de chorar por esse motivo. Deus então disse-lhe que se consolasse e tomasse o óleo para ir a Belém, à casa de Jessé, filho de Obede, consagrar rei aquele que dentre os seus filhos Ele indicasse. Samuel respondeu que se Saul o soubesse mandaria matá-lo, mas Deus lhe disse que nada temesse. Assim, ele foi a Belém, onde o receberam com alegria, e todos perguntavam o motivo de sua vinda. Ele respondia que era para oferecer um sacrifício.
Depois de oferecê-lo, pediu a Jessé que viesse cear com ele e trouxesse também o seu filho. Ele veio com o mais velho, de nome Eliabe, que era muito alto e de boa aparência. Samuel, vendo-o tão bem-apessoado, julgou que Deus escolhera aquele para rei. Porém conhecia mal a intenção dEle, pois, tendo-o consultado para saber se deveria derramar o óleo sobre o moço, que lhe parecia digno de reinar, Ele respondeu-lhe: &quot;Eu não penso como os homens. Por verdes que esse é muito belo, vós o julgais digno de reinar. Não é a beleza do corpo que considero para dar uma coroa, mas apenas a da alma, cujos ornamentos são a piedade, a justiça, a generosidade e a obediência&quot;. O profeta, após essa resposta, disse a Jessé que mandasse buscar todos os seus filhos. Vieram outros cinco: Abinadabe, Samá, Natanael, Rael e Asam, não menos belos que o mais velho. Samuel perguntou a Deus qual deles deveria ser sagrado rei, e Ele respondeu-lhe: &quot;Não consagrareis nenhum deles&quot;.
Então Samuel perguntou se Jessé tinha ainda algum outro filho. Ele respondeu-lhe: &quot;Tenho ainda um, de nome Davi, que guarda os meus rebanhos&quot;. Disse-lhe que o mandasse chamar, porque era justo que tomasse parte no banquete com os irmãos. Ele veio: era loiro, muito belo, bem feito de corpo e tinha algo de marcial em seu porte. O profeta disse baixinho ao pai: &quot;Foi este que Deus escolheu para ser rei&quot;. Fez o moço sentar-se junto dele e, mais abaixo, o pai e os irmãos. Derramou óleo sobre a cabeça dele e disse-lhe ao ouvido que Deus o escolhera para ser rei e por isso ele deveria amar a justiça e observar religiosamente os seus mandamentos, assim o seu reino teria longa duração, e a sua posteridade seria também muito ilustre. Ele venceria não somente os filisteus, mas todas as outras nações às quais fizesse guerra, e a sua memória seria imortal. Samuel regressou depois dessas palavras, e o Espírito de Deus passou de Saul para Davi, o qual começou a profetizar.
235. Saul, ao contrário, foi tomado por um espírito mau, que parecia querer esganá-lo a todo instante. Os médicos não encontraram outro remédio para esse mal a não ser mandar algum músico competente cantar hinos sagrados, ao som de harpa, quando o demônio o agitasse. Procuraram por toda parte e disseram-lhe que somente uma pessoa poderia fazê-lo: um dos filhos de ]essé, de nome Davi, que era não somente excelente músico, mas também muito belo e capaz de servi-lo na guerra. Saul mandou então dizer ao pai de Davi que o dispensasse do encargo de vigiar os rebanhos e o mandasse, porque lhe haviam dito muitas coisas dele, e queria vê-lo. Jessé mandou-o logo a Saul, com vários presentes, e este o recebeu muito bem: deu-lhe um lugar como soldado e tratou-o bondosamente em tudo. Além de ser muito agradável ao rei, somente ele, com os seus cânticos e com o som de sua harpa, podia acalmá-lo e trazê-lo a bons sentimentos. Assim, Saul pediu a Jessé que o deixasse ficar, pois estava muito contente com a sua companhia.

CAPÍTULO 10
OS FILISTEUS VÊM ATACAR OS ISRAELITAS. UM GIGANTE, DE NOME GOLIAS,
PROPÕE TERMINAR A GUERRA POR UM COMBATE SINGULAR, ENTRE ELE E UM
ISRAELITA. NINGUÉM RESPONDE AO DESAFIO, MAS DAVI O ACEITA.

236.  1 Samuel 17. Algum tempo depois, os filisteus vieram com um grande exército atacar os israelitas e acamparam entre as cidades de Soco e Azeca. Saul marchou logo contra eles e, tendo-se apoderado de uma colina, obrigou-os a se retirar e acampar em outra que ficava em frente. Havia no exército um gigante de nome Golias, que era de Gate e tinha seis côvados e um palmo de altura. A sua força correspondia ao seu tamanho, e ele estava armado na proporção de uma e de outro. A sua couraça pesava cinco mil sidos, o capacete não era menos pesado e a perneiras, que eram de bronze, estavam em conformidade com o resto. O seu dardo era tão pesado que, em vez de carregá-lo na mão, ele o levava sobre os ombros, e somente o ferro pesava seiscentos sidos.
Esse terrível gigante, seguido por uma grande tropa, apresentou-se com esse equipamento no vale que separava os dois exércitos e gritou em voz alta, a fim de que Saul e todos os seus o ouvissem: &quot;Para que travarmos batalha? Escolhei dentre vós alguém com quem eu possa terminar esta questão. O partido daquele que for vencido será obrigado a receber a lei do partido vitorioso. Não é melhor expor somente um homem ao perigo que um exército inteiro?&quot; Ele voltou no dia seguinte ao mesmo lugar, para dizer a mesma coisa. E, durante quarenta dias, continuou a fazer o mesmo desafio. Saul e os seus soldados, não sabendo o que responder, contentavam-se em se apresentar à batalha, mas a luta não se travava.
Davi não se achava então no acampamento, porque Saul o restituíra ao pai para retomar o seu ofício de pastor e tinha consigo somente três de seus irmãos. Jessé, todavia, percebendo que a guerra se prolongava demais, enviou Davi aos seus irmãos para levar-lhes diversas coisas e também notícias suas. Golias voltou ao seu lugar de costume, agora mais insolente do que nunca, fazendo mil injúrias aos israelitas, pois nenhum deles tinha coragem de enfrentá-lo. Davi, que nessa hora estava junto de seus irmãos, cumprindo as ordens de seu pai, ficou admirado ao vê-lo falar daquele modo e disse que estava disposto a combater.
Eliabe, seu irmão mais velho, irritado, repreendeu-o fortemente e mandou-o voltar para casa e reassumir a custodia dos rebanhos da família. Davi nada respondeu ao irmão, devido ao respeito que nutria por ele, mas disse a alguns dos soldados que não teria medo de aceitar o desafio daquele gigante. Foram contá-lo a Saul, que o mandou chamar e perguntou-lhe se era verdade que assim havia falado. Davi respondeu-lhe: &quot;Sim, majestade, pois não tenho medo daquele filisteu que parece tão temível. Se vossa majestade me permite, não somente destruirei a sua ousadia como ainda o tornarei tão desprezível quanto ele agora parece terrível, e a glória que vossa majestade e o exército terão será tanto maior, porque ele não foi vencido por um homem robusto e experimentado na guerra, mas por um jovem soldado&quot;.
Saul admirou-lhe a coragem, mas não se atrevia a confiar uma ação tão importante a alguém daquela idade, principalmente porque o combate era contra um homem de força prodigiosa e de valor comprovado. Davi notou esses sentimentos em sua fisionomia e disse-lhe: &quot;Ouso prometer-vos sem temor, majestade, que serei vitorioso, com a ajuda de Deus, como já o experimentei em outras ocasiões. Pois quando eu vigiava os rebanhos de meu pai, um leão levou um de meus cordeirinhos, e corri atrás dele, arrancando-o de entre os seus dentes. Isso de tal modo o enfureceu que ele se lançou contra mim. Então agarrei-o pela cauda, derrubei-o por terra e o matei. Fiz o mesmo com um urso que atacava os meus carneiros, e não creio que esse filisteu seja mais temível que os leões e os ursos. O que me convence ainda mais, todavia, é que não posso imaginar que Deus tolere por mais tempo as blasfêmias que esse gigante vomita contra Ele e os ultrajes que faz a vossa majestade e a todo o vosso exército. Assim, atrevo-me a garantir que Ele fará a graça de me deixar abater-lhe o orgulho e vencê-lo&quot;.
Uma ousadia tão surpreendente fez Saul acreditar que o êxito seria de fato real. Orou a Deus, permitiu a Davi combater e deu-lhe na mão o próprio capacete, a couraça e a espada. Como Davi, porém, não estava acostumado a usar armas, ficou atrapalhado e disse ao rei: &quot;Estas armas, majestade, são próprias para vossa majestade, que sabe bem manejá-las, mas não para mim. Isso me obriga, pois, a suplicar-vos muito humildemente a liberdade para combater como quiser&quot;. Saul consentiu-o, e assim ele deixou as armas, tomou somente um cajado, a sua funda e cinco pedras, que escolhera no regato e colocara na sua sacola. Desse modo marchou contra Colias, que sentiu tanto desprezo por ele que lhe perguntou, por zombaria, se o tomava por um cão, para vir a ele armado apenas com pedras. Davi respondeu-lhe: &quot;Eu vos tomo por menos ainda que um cão&quot;.
Essas palavras encolerizaram ainda mais o gigante, que jurou pelos seus deuses esquartejá-lo em mil pedaços e dar a sua carne para os animais e os pássaros devorarem. Davi retrucou: &quot;Vós confiais em vosso dardo, em vossa couraça e em vossa espada, mas eu confio na força do Deus Todo-poderoso, que deseja servir-se do meu braço para vos abater e para dizimar o vosso exército. Cortarei hoje mesmo a vossa cabeça e darei o resto de vosso corpo como pasto aos cães, aos quais a vossa raiva vos torna semelhante. Então todos saberão que o Deus dos israelitas os protege, que a sua providência os governa, que o seu socorro os torna invencíveis e que nenhuma força ou arma pode impedir a destruição daqueles a quem Ele abandona&quot;. O altivo gigante, vendo-o tão jovem e desarmado, escutou essas palavras com maior desprezo ainda e marchou contra ele — a passo, porque o peso de suas armas não lhe permitia andar mais depressa.


CAPÍTULO 11
DAVI MATA GOLIAS. O EXÉRCITO DOS FILISTEUS FOGE, E SAUL FAZ ENORME CARNIFICINA. O REI SENTE INVEJA DE DAVI E, PARA VENCÊ-LA, PROMETE-LHE MICAL, SUA FILHA, EM CASAMENTO, COM A CONDIÇÃO DE QUE ELE LHE TRAGA OS PREPÚCIOS DE CEM FILISTEUS. DAVI ACEITA E FAZ O QUE ELE DESEJA.

237.  Davi, por quem Deus combatia de maneira invisível, avançou corajosamente contra Golias, tirou uma pedra da sacola, colocou-a na funda e lançou-a com tal rapidez que ela, atingindo o gigante no meio da testa, penetrou-lhe a cabeça e o fez cair morto, com o rosto em terra. O vencedor logo correu a ele e, como não tinha espada, serviu-se da do próprio gigante para cortar-lhe a cabeça.
O mesmo golpe que fez esse orgulhoso filisteu perder a vida infundiu tal terror no ânimo de todos os outros que eles, não ousando tentar a sorte em uma batalha após verem cair diante dos próprios olhos aquele no qual punham toda a sua confiança, deliberaram fugir. Os israelitas perseguiram-nos com grandes gritos de alegria até a fronteira de Gate e, às portas de Ascalom, mataram uns trinta mil e feriram duas vezes esse tanto. Voltaram para saquear o acampamento, ao qual puseram fogo depois de havê-lo devastado inteiramente. Davi levou a cabeça de Golias e consagrou a Deus a sua espada.
238.  Quando Saul voltou, triunfante, multidões de mulheres e de moças vieram ao seu encontro, cantando ao som de trombetas e de címbalos, para manifestar a sua alegria por tão importante vitória. As mulheres diziam que Saul havia matado mais de mil, e as moças, que Davi matara mais de dez mil. Palavras tão elogiosas a Davi causaram tanta inveja a Saul que ele pensou que, depois de tantos louvores, só lhe faltava mesmo o nome de rei. Começou então a temê-lo e a julgar que não teria mais segurança se o conservasse junto de si. Assim, com o pretexto de agradecer-lhe, mas na realidade pretendendo afastá-lo e eliminá-lo, deu-lhe mil homens para comandar, julgando que não seria difícil ele perecer num cargo em que estaria exposto a muitos perigos.
Deus, todavia, não abandonava Davi, e ele saiu-se tão bem em todos os seus empreendimentos que o seu extraordinário valor lhe granjeou uma estima geral. E Mical, uma das filhas de Saul que ainda não estava casada, ficou tão enamorada dele que a sua paixão não passou desapercebida nem mesmo ao rei, seu pai. Saul, em vez de se aborrecer, ficou contente, imaginando ali uma oportunidade para eliminar Davi. Respondeu aos que lhe comunicaram o fato que daria a Davi, de muito boa vontade, a princesa em casamento. Ele raciocinava assim: &quot;Eu lhe direi que desejo que ele me traga, em troca dessa honra, os prepucios de cem filisteus. Estou certo de que, sendo tão valente e generoso, aceitará com alegria essa condição porque, quanto mais perigosa, tanto maior glória lhe proporcionará. E, não havendo risco ao qual ele não se exponha, desfaço-me dele sem que de nada me possam censurar&quot;.
Depois de tomar essa resolução, deu ordem para sondarem os sentimentos de Davi com relação ao casamento. Os encarregados da missão disseram a Davi que o rei tinha tanta afeição a ele e via com tanto prazer a estima que o povo lhe devotava que queria dar-lhe em casamento a princesa, sua filha. Ele respondeu-lhes: &quot;Se não compreendeis qual a honra de ser genro do rei, então não me pareço convosco, pois não tenho dificuldade alguma em compreendê-lo e em constatar quão grande é a desproporção entre uma condição tão elevada e a humildade de meu nascimento&quot;.
Foram aqueles homens relatar a Saul as palavras de Davi, e o rei mandou-os de volta, para dizer que não se incomodava que Davi não fosse rico e não pudesse oferecer à sua filha grandes presentes, pois não pretendia vendê-la, mas dá-la; que lhe era suficiente encontrar no genro um valor extraordinário, acompanhado de todas as outras virtudes que nele havia constatado; que não lhe pedia outra coisa senão uma guerra mortal aos filisteus e que lhe trouxesse os prepucios de cem deles; que aquele seria o maior e o mais agradável dos presentes que Davi poderia oferecer a ele e à filha, pois não era de condição a receber somente dádivas comuns; e que não podia fazer uma escolha mais digna dela que lhe dar por marido um homem que triunfara dos inimigos de seu pai e de sua pátria.
Julgando Davi que Saul agia sinceramente, não pôs dificuldade em realizar aquela empresa. Aceitou com alegria aquela condição e, para cumpri-la, atacou imediatamente os inimigos, juntamente com os homens que comandava. Deus ajudou-o nessa ocasião, bem como em todas as outras, e ele pôde matar um grande número de filisteus. Levou ao rei duzentos prepucios, cem a mais do que ele exigira, é pédíti-lhe que cumprisse a sua promessa.

CAPÍTULO 12
SAUL DÁ A SUA FILHA MICAL EM CASAMENTO A DAVI E AO MESMO TEMPO DETERMINA MATÁ-LO. JÔNATAS AVISA DAVI, QUE FOGE.

239.  1 Samuel 19. Saul, não podendo agora recusar a filha a Davi, porque lhe seria vergonhoso faltar à palavra e dar a conhecer a todos que tinha em mente apenas enganá-lo e eliminá-lo, forçando-o a empreender uma perigosa missão, foi obrigado a consentir no casamento. As suas intenções, porém, não mudaram. Vendo que Davi era cada vez mais amado por Deus e pelos homens, começou a julgá-lo tão temível que imaginou só poder garantir a própria vida e a coroa fazendo-o morrer. Assim, para conservar uma e outra, determinou mandar matá-lo e escolheu jônatas, seu filho, e alguns dentre os seus mais fiéis servidores para executar o plano.
Jônatas, que amava Davi intensamente, por causa da virtude que via nele, ficou muito admirado de ver o pai passar de repente por aquela estranha mudança, isto é, do grande afeto que testemunhara a Davi à resolução de matá-lo. Longe de querer ser o executor de tão injusta e cruel ação, colocou Davi a par do que se passava e aconselhou-o a retirar-se imediatamente. Prometeu-lhe ainda falar com o rei, seu pai, pedindo que se acalmasse, pois não via motivo para matar um homem que tanto fizera por ele e pelo seu reino, e, mesmo que tivesse cometido alguma falta, a magnitude de seus serviços deveria levá-lo a perdoar-lhe. Acrescentou ainda que depois dessa entrevista com o rei, manifestaria a Davi as intenções do soberano. Davi aceitou o conselho e retirou-se.

CAPÍTULO 13
JÔNATAS DEFENDE DAVI COM TANTO ARDOR DIANTE DE SAUL QUE OS RECONCILIA.

240. No dia seguinte, Jônatas, encontrando Saul de bom humor, disse-lhe: &quot;Que grande crime, senhor, pode ter cometido Davi, para levar-vos a querer a sua morte? Ele, que vos prestou tão assinalados serviços, que vos vingou dos filisteus, que lhes abateu o orgulho, que ergueu o nome de nossa nação, que fez cessar a vergonha que sofríamos há quarenta dias, quando ainda não havíamos encontrado quem se atrevesse a combater o gigante, o qual ele tão gloriosamente prostrou por terra; ele, a quem concedestes a honra de dar a vossa filha em casamento, para o qual, a fim de tornar-se digno dela, vos trouxe o dobro de prepúcios de filisteus que lhe havíeis pedido? Tende a bondade de considerar bem quanta dor nos causaria a sua morte, não somente pela sua virtude, mas também por essa aliança, e qual seria a aflição de minha irmã, vendo-se viúva tão cedo. Se vos quiserdes lembrar também de que ele restituía a calma ao vosso espírito nas agitações que sofrieis, achareis sem dúvida que os seus serviços são tão grandes que não devem jamais ser esquecidos e sentireis por ele um novo afeto. Conservando a vida a um homem de seu mérito, conservareis também a vossa e a de toda a vossa família, que lhe é devedora de tantos benefícios&quot;.
Os argumentos de Jônatas tiveram tanta força que venceram a sua cólera e o seu temor. E Saul prometeu com juramento não causar mais nenhum mal a Davi. O generoso príncipe foi imediatamente comunicar-lhe o que se havia passado e reconduziu-o para junto do rei, a quem continuou a prestar os seus serviços, como antes.

CAPÍTULO 14
DAVI DERROTA OS FILISTEUS. SUA FAMA AUMENTA A INVEJA DE SAUL. ESTE ATIRA-LHE UM DARDO PARA MATÁ-LO. MICAL, MULHER DE DAVI, AJUDA-O A ESCAPAR. DAVI VAI TER COM SAMUEL. SAUL PERSEGUE DAVI PARA MATÁ-LO E PERDE INTEIRAMENTE O JUÍZO DURANTE VINTE E QUATRO HORAS. JÔNATAS CONTRAI MAIS ESTREITA AMIZADE COM DAVI EFALA EM SEU FAVOR A SAUL, QUE TENTA MATAR O FILHO. ELE AVISA DAVI, QUE FOGE PARA GATE, CIDADE DOS FILISTEUS, E RECEBE DE PASSAGEM AUXÍLIO DE ABIMELEQUE, SUMO SACERDOTE.
RECONHECIDO EM GATE, DAVI FINGE-SE DE LOUCO E RETIRA-SE PARA A TRIBO DE JUDÁ, ONDE REÚNE QUATROCENTOS HOMENS. VAI TER COM O REI DOS MOABITAS E VOLTA DEPOIS ÀQUELA TRIBO. SAUL MANDA MATAR ABIMELEQUE E TODA A SUA DESCENDÊNCIA SACERDOTAL, DA QUAL SOMENTE ABIATAR SE SALVA. SAUL TENTA DIVERSAS VEZES E INUTILMENTE APANHAR E MATAR DAVI, O QUAL TEM OPORTUNIDADE DE MATAR SAUL NUMA CAVERNA E DEPOIS NO PRÓPRIO ACAMPAMENTO, MAS SE CONTENTA EM LHE DAR PROVAS DE QUE PODERIA TÊ-LO FEITO. MORTE DE SAMUEL. RAZÃO POR QUE DAVI SE CASA COMABIGAIL, VIÚVA DE NABAL. DAVI SE ESTABELECE JUNTO DEAQUIS, REI DE GATE,FILISTEU QUE O INDUZ A SERVIR NA GUERRA CONTRA OS ISRAELITAS.

241. NESSE MESMO TEMPO, OS FILISTEUS RECOMEÇARAM A GUERRA, E DAVI FOI MANDADO COM O EXÉRCITO CONTRA ELES. VENCEU-OS, FEZ GRANDE MORTANDADE ENTRE ELES E VOLTOU VITORIOSO A SAUL. MAS NÃO FOI RECEBIDO COMO ESPERAVA NEM COMO MERECIA O SEU GRANDE FEITO, PORQUE A SUA REPUTAÇÃO ERA SUSPEITA AO REI, E ESTE, EM VEZ DE SE ALEGRAR COM A VITÓRIA, ENXERGAVA APENAS PERIGOS E O TOLERAVA COM TRISTEZA. UM DIA, QUANDO AQUELES ACESSOS COM QUE O DEMÔNIO O ATORMENTAVA SE MOSTRAVAM MAIS VIOLENTOS, ELE ORDENOU A DAVI QUE ENTOASSE UM CÂNTICO E TOCASSE HARPA. ELE OBEDECEU, MAS SAUL, QUE TINHA NAS MÃOS UM DARDO, ATIROU-O CONTRA ELE COM TODA A FORÇA, E TÊ-LO-IA MATADO SE ELE NÃO SE DESVIASSE DO GOLPE. FUGIU ENTÃO DAVI PARA A SUA CASA E DE LÁ NÃO SAIU MAIS O RESTO DO DIA.
CHEGANDO A NOITE, SAUL ENVIOU GUARDAS PARA CERCAR A CASA, A FIM DE QUE ELE NÃO PUDESSE ESCAPAR, PORQUE DESEJAVA JULGAR DAVI E CONDENÁ-LO À MORTE. MICAL, MULHER DE DAVI, SOUBE DE TUDO, E, COMO O SEU AMOR POR UM MARIDO DE TAL MÉRITO TÊ-LA-IA FEITO PREFERIR A MORTE À DOR DE PERDÊ-LO, CORREU LOGO A AVISÁ-LO: &quot;SE O SOL AO DESPERTAR VOS ENCONTRAR AINDA AQUI, NÃO MAIS VOS TORNAREI A VER COM VIDA. FUGI, ENQUANTO A NOITE VO-LO PERMITE. ROGO A DEUS DE TODO O MEU CORAÇÃO QUE A FAÇA AINDA MAIS LONGA QUE DE ORDINÁRIO, PARA QUE VOS SEJA MAIS FAVORÁVEL, POIS O REI RESOLVEU MANDAR MATAR-VOS E A NÃO DIFERIR MAIS ESSE CRUEL INTENTO&quot;.
DEPOIS DE ASSIM FALAR, ELA AMARROU UMA CORDA À JANELA E O DESCEU PARA FORA. ARRUMOU ENTÃO O SEU LEITO COMO PARA UM ENFERMO E PÔS DEITADA DEBAIXO DAS COBERTAS UMA ESTÁTUA. COLOCOU-LHE NA CABEÇA UM TECIDO DE PÊLOS DE CABRA E O COBRIU COM UM MANTO. AO DESPONTAR DO DIA, SAUL MANDOU OS HOMENS PRENDEREM DAVI. MICAL DISSE-LHE QUE ELE ESTIVERA DOENTE DURANTE TODA A NOITE. ASSIM, ELES NÃO DUVIDARAM DE QUE DAVI ESTIVESSE ENFERMO NAQUELE LEITO. FORAM DIZÊ-LO AO REI, E ESTE ORDENOU-LHES QUE O TROUXESSEM DE QUALQUER MODO, PARA O MATAR. VOLTARAM IMEDIATAMENTE, LEVANTARAM AS COBERTAS E VIRAM QUE A PRINCESA OS HAVIA ENGANADO. SAUL FEZ GRAVES CENSURAS À FILHA POR TER SALVO UM INIMIGO. ELA DESCULPOU-SE, DIZENDO QUE ELE AMEAÇARA MATÁ-LA SE DEIXASSE DE AJUDÁ-LO EM TAL CONTINGÊNCIA, E ASSIM FORA OBRIGADA A FAZÊ-LO. NÃO DUVIDAVA, PORÉM, DE QUE, TENDO A HONRA DE SER SUA FILHA, O AMOR DE SEU PAI POR ELA NÃO ERA MAIS FORTE QUE O SEU ÓDIO POR DAVI. SAUL, TOCADO POR ESSAS PALAVRAS, PERDOOU-A.
242. DAVI, TENDO CONSEGUIDO SALVAR-SE, FOI PROCURAR O PROFETA SAMUEL EM RAMA. CONTOU-LHE COMO SAUL TENTAVA SEMPRE TIRAR-LHE A VIDA E QUE POR BEM POUCO QUASE O MATARA ATIRANDO-LHE UM DARDO. DISSE-LHE QUE, EMBORA NUNCA TIVESSE FEITO ALGO QUE DESAGRADASSE A SAUL, MAS, AO CONTRÁRIO, COM O AUXÍLIO CONTÍNUO DE DEUS, SEMPRE O SERVIRA COM MUITO PROVEITO EM TODAS AS SUAS GUERRAS, O BASTANTE PARA CONQUISTAR-LHE A ESTIMA, CONSEGUIRA APENAS GRANJEAR-LHE O ÓDIO E A INVEJA. SAMUEL, ABORRECIDO PELA INJUSTIÇAS DE SAUL, SAIU DE RAMA E LEVOU DAVI A GIBEÁ, ONDE ELE FICOU ALGUM TEMPO EM SUA COMPANHIA.
LOGO QUE SAUL O SOUBE, ENVIOU SOLDADOS PARA TRAZÊ-LO PRISIONEIRO. ENCONTRARAM SAMUEL NO MEIO DE UM GRUPO DE PROFETAS E, CHEIOS DO MESMO ESPÍRITO, COMEÇARAM A PROFETIZAR COM ELES. SAUL MANDOU AINDA OUTROS COM A MESMA ORDEM, E ACONTECEU-LHES A MESMA COISA. MANDOU AINDA OUTROS, E ELES TAMBÉM PROFETIZARAM. ISSO O DEIXOU TÃO ENCOLERIZADO QUE RESOLVEU BUSCÁ-LO EM PESSOA, MAS AINDA NÃO SE ACHAVA PRÓXIMO DE SAMUEL O SUFICIENTE PARA SER PERCEBIDO QUANDO O PROFETA FEZ COM QUE ELE TAMBÉM PROFETIZASSE. E, ESTANDO JÁ PERTO DE SAMUEL, PERDEU COMPLETAMENTE O JUÍZO, DESPIU-SE DIANTE DELE E DE DAVI E PASSOU ASSIM O RESTO DO DIA E TODA A NOITE.
243. 1 SAMUEL 20. DAVI FOI EM SEGUIDA PROCURAR JÔNATAS PARA QUEIXAR-SE DE QUE, APESAR DE NUNCA TER DADO AO REI MOTIVO PARA INSATISFAÇÃO, ESTE CONTINUAVA A TENTAR POR TODOS OS MEIOS TIRAR-LHE A VIDA. JÔNATAS ROGOU-LHE QUE TIRASSE AQUELA IDÉIA DA CABEÇA E NÃO PRESTASSE FÉ AOS QUE FAZIAM SEMELHANTES DECLARAÇÕES, MAS CONFIASSE EM SUA PALAVRA: O REI, SEU PAI, NÃO TINHA AQUELA INTENÇÃO. SE A TIVESSE, TÊ-LA-IA COMUNICADO A ELE, JÔNATAS, POIS NADA FAZIA SEM FALAR COM ELE E ASSIM NÃO DEIXARIA DE AVISÁ-LO.
DAVI, NO ENTANTO, AFIRMOU COM JURAMENTO QUE AQUILO QUE SE DIZIA ERA VERDADE. ROGOU-LHE QUE O NÃO PUSESSE EM DÚVIDA E PENSASSE ANTES EM SALVAR-LHE A VIDA, ACREDITANDO NO QUE ELE LHE DIZIA EM VEZ DE ESPERAR QUE A SUA MORTE LHE CAUSASSE TRISTEZA E REMORSO POR NÃO TER NELE ACREDITADO. ACRESCENTOU QUE ELE SE DEVIA ADMIRAR DE QUE O REI, SEU PAI, CONHECEDOR DA ESTREITA AMIZADE ENTRE AMBOS, NADA LHE HOUVESSE DITO DE SUAS INTENÇÕES. ESSAS PALAVRAS PERSUADIRAM JÔNATAS E, MUITO TRISTE, PEDIU A DAVI QUE LHE DISSESSE EM QUE PODERIA AJUDÁ-LO.
RESPONDEU-LHE DAVI: &quot;NA CERTEZA DE QUE NADA HÁ QUE EU NÃO POSSA ESPERAR DE VOSSA AMIZADE, EIS O QUE ME VEM À MENTE. COMO AMANHÃ É A PRIMEIRA LUA E O REI OFERECE NESSE DIA UM GRANDE BANQUETE, AO QUAL EU COSTUMAVA ESTAR PRESENTE, ES-PERAR-VOS-EI FORA DA CIDADE, SE VOS APROUVER, SEM QUE NINGUÉM O SAIBA. QUANDO O REI PERGUNTAR ONDE EU ESTOU, FAR-ME-EIS O FAVOR DE RESPONDER-LHE QUE FUI A BELÉM ASSISTIR À FESTA DE MINHA TRIBO, DEPOIS DE VOS TER PEDIDO LICENÇA. SE O REI DISSER, COMO COSTUMAM FAZER AS BOAS PESSOAS: &#39;DESEJO-LHE BOA VIAGEM&#39;, SERÁ SINAL DE QUE NÃO NUTRE MÁ VONTADE CONTRA MIM. MAS SE ELE RESPONDER DE OUTRO MODO, SERÁ PROVA DO CONTRÁRIO, E FAR-ME-EIS O FAVOR DE ME AVISAR. ESSE FAVOR, NA INFELICIDADE EM QUE ME ENCONTRO, SERÁ DIGNO DE VOSSA GENEROSIDADE E DA AMIZADE QUE TÃO SOLENEMENTE ME PROMETESTES. SE ACHARDES QUE NÃO A MEREÇO E JULGAIS QUE OFENDI O REI, NÃO ESPEREIS QUE ELE ME FAÇA MORRER: ANTECIPAI-VOS, TIRANDO-ME A VIDA&quot;.
ESSAS ÚLTIMAS PALAVRAS PARTIRAM O CORAÇÃO DE JÔNATAS. ELE PROMETEU A DAVI FAZER O POSSÍVEL PARA PENETRAR OS SENTIMENTOS DO REI, SEU PAI, E RELATAR-LHE FIELMENTE TUDO O QUE PUDESSE AVERIGUAR. FEZ AINDA MAIS. PARA DAR-LHE MAIOR GARANTIA, LEVOU-O PARA FORA, ELEVOU OS OLHOS PARA O CÉU E CONFIRMOU A SUA PROMESSA COM JURAMENTO, PROFERINDO ESTAS PALAVRAS: &quot;TOMO COMO TESTEMUNHA DA ALIANÇA QUE FAÇO CONVOSCO O DEUS ETERNO, QUE TUDO VÊ, QUE ESTÁ PRESENTE EM TODA PARTE E QUE CONHECE OS MEUS PENSAMENTOS ANTES MESMO QUE A MINHA LÍNGUA OS POSSA EXPRIMIR, DE QUE NÃO DEIXAREI DE SONDAR O ESPÍRITO DO REI ATÉ SABER O QUE ELE TEM NA ALMA A VOSSO RESPEITO E VOS DIREI IMEDIATAMENTE TUDO O QUE SOUBER, DE BEM OU DE MAL. DEUS SABE COM QUANTA AFEIÇÃO LHE ROGO QUE CONTINUE A VOS AJUDAR, COMO FEZ ATÉ AGORA, E COM QUE CONFIANÇA ACREDITO QUE ELE JAMAIS VOS ABANDONARÁ, AINDA QUE MEU PAI E EU NOS TORNÁSSEMOS VOSSOS INIMIGOS. LEMBRAI-VOS, DE VOSSA PARTE, DESTE PROTESTO QUE VOS FAÇO E, SE ME SOBREVIVERDES, MOSTRAI O VOSSO RECONHECIMENTO, PELO CUIDADO QUE TEREIS DE MEUS FILHOS&quot;.
DEPOIS DESSE JURAMENTO, JÔNATAS DISSE A DAVI QUE O ESPERASSE NO CAMPO DESTINADO AOS EXERCÍCIOS E QUE NÃO DEIXARIA DE IR LÁ, ACOMPANHADO SOMENTE POR UM PAJEM LOGO QUE TIVESSE CONHECIDO OS SENTIMENTOS DO REI, SEU PAI. LÁ CHEGANDO, ATIRARIA TRÊS FLECHAS CONTRA UM ALVO. SE OS SENTIMENTOS DO REI LHE FOSSEM FAVORÁVEIS, DIRIA AO PAJEM QUE FOSSE BUSCAR AS FLECHAS, MAS SE LHE FOSSEM CONTRÁRIOS NÃO DARIA ESSA ORDEM. DE QUALQUER MODO, NÃO IMPORTANDO COMO FOSSEM AS COISAS, FARIA O POSSÍVEL PARA IMPEDIR QUE ALGUM MAL LHE ACONTECESSE. ROGAVA-LHE APENAS QUE SE LEMBRASSE, EM SUA BOA SORTE, DA AMIZADE QUE ELE, JÔNATAS, LHE DEMONSTRAVA E QUE TIVESSE AFETO PELOS SEUS FILHOS.
COMO DAVI NÃO PODIA DUVIDAR DAS PROMESSAS DE JÔNATAS, COMPARECEU AO LUGAR INDICADO. NO DIA SEGUINTE, QUE ERA LUA NOVA, O REI, DEPOIS DE SE PURIFICAR, SEGUNDO O COSTUME, PÔS-SE À MESA PARA CEAR. JÔNATAS SENTOU-SE À SUA DIREITA, E ABNER, GENERAL DO EXÉRCITO, À ESQUERDA. SAUL, PERCEBENDO VAZIO O LUGAR DE DAVI, JULGOU QUE ELE NÃO SE HAVIA PURIFICADO E NADA DISSE. NO DIA SEGUINTE, PORÉM, NÃO O VENDO OUTRA VEZ, PERGUNTOU A JÔNATAS PORQUE ELE NÃO ESTIVERA PRESENTE A UM BANQUETE TÃO SOLENE NAQUELES DOIS DIAS. JÔNATAS RESPONDEU-LHE QUE ELE FORA A BELÉM ASSISTIR À FESTA DE SUA TRIBO, DEPOIS DE LHE TER PEDIDO LICENÇA, E QUE AINDA O CONVIDARA A IR. E ACRESCENTOU: &quot;SE VOS APROUVER, IREI TAMBÉM, POIS BEM SABEIS O QUANTO O ESTIMO&quot;.
JÔNATAS ENTÃO PERCEBEU ATÉ QUE PONTO CHEGAVA O ÓDIO DO PAI CONTRA DAVI. POIS SAUL, NÃO PODENDO MAIS DISSIMULÁ-LO, ERGUEU-SE EM CÓLERA CONTRA ELE, ACUSANDO-O DE SE TER TORNADO SEU INIMIGO PARA SER AMIGO DE DAVI E PERGUNTANDO-LHE SE NÃO TINHA VERGONHA DE ABANDONAR ASSIM O PRÓPRIO PAI PARA CONSPIRAR COM O HOMEM QUE LHE DEVIA SER O MAIS ODIOSO OU DE NÃO COMPREENDER QUE ENQUANTO DAVI ESTIVESSE VIVO NINGUÉM PODERIA REINAR EM SEGURANÇA. DEPOIS DE ASSIM FALAR, ORDENOU A JÔNATAS QUE O BUSCASSE A FIM DE QUE SOFRESSE O CASTIGO QUE MERECIA. PERGUNTANDO ENTÃO O GENEROSO PRÍNCIPE QUAL CRIME COMETERA DAVI, PARA MERECER A MORTE, O FUROR DE SAUL NÃO SE CONTEVE MAIS NOS LIMITES DAS SIMPLES RECRIMINAÇÕES: PASSOU ÀS INJÚRIAS E DAS INJÚRIAS ÀS AÇÕES. TOMOU UM DARDO PARA MATAR O FILHO, E TERIA COMETIDO TÃO HORRÍVEL CRIME SE OS QUE ESTAVAM PRESENTES NÃO O HOUVESSEM IMPEDIDO.
ASSIM, JÔNATAS NÃO TEVE MAIS DÚVIDA ACERCA DO QUE DAVI LHE DISSERA SOBRE O ÓDIO MORTAL DE SAUL, PRINCIPALMENTE DEPOIS QUE A AMIZADE DELES TAMBÉM QUASE LHE CUSTARA A VIDA. SAIU DO BANQUETE SEM COMER, PASSOU TODA A NOITE EM GRANDE SOFRIMENTO E ANSIEDADE POR TER SABIDO DAQUELE MODO, CORRENDO RISCO DE VIDA, EM QUÃO GRAVE PERIGO VIVIA O SEU AMIGO. LOGO AO ALVORECER, SOB O PRETEXTO DE DAR-SE AOS EXERCÍCIOS, DIRIGIU-SE AO LUGAR ONDE DAVI O ESPERAVA. ATIROU TRÊS FLECHAS E ENVIOU O PAJEM SEM LHE ORDENAR QUE AS RECOLHESSE, A FIM DE PODER FALAR COM DAVI A SÓS. DAVI LANÇOU-SE-LHE AOS PÉS E CONFESSOU-SE DEVEDOR DA PRÓPRIA VIDA. JÔNATAS ERGUEU-O E O BEIJOU. FICARAM DEPOIS ABRAÇADOS POR MUITO TEMPO, DEPLORANDO A INFELICIDADE DAQUELA SEPARAÇÃO, QUE LHES SERIA MAIS DOLOROSA QUE A PRÓPRIA MORTE, E NÃO SE PODIAM AFASTAR UM DO OUTRO. POR FIM, SEPARARAM-SE, EMBORA COM ENORME DESGOSTO E TRISTEZA, NÃO PORÉM SEM RENOVAR AINDA UMA VEZ, COM JURAMENTO, OS PROTESTOS DE SUA INVIOLÁVEL AMIZADE.
244. 1 SAMUEL 21. DAVI, PARA EVITAR A PERSEGUIÇÃO DE SAUL, FOI A NOBE FALAR COM O SUMO SACERDOTE AIMELEQUE. ESTE, ADMIRANDO-SE DE O VER SOZINHO, PERGUNTOU-LHE O MOTIVO. DAVI RESPONDEU-LHE QUE IRIA EXECUTAR UMA ORDEM DO REI PARA A QUAL NÃO PRECISAVA DE NINGUÉM E QUE ORDENARA AOS SEUS HOMENS QUE VIESSEM ENCONTRÁ-LO NUM LUGAR DETERMINADO. ASSIM, PEDIU A AIMELEQUE TUDO O QUE NECESSITAVA PARA AQUELA PEQUENA VIAGEM E ALGUMAS ARMAS. AIMELEQUE SATISFEZ A SUA VONTADE. QUANTO ÀS ARMAS, DISSE-LHE QUE NÃO AS TINHA, EXCETO A ESPADA DE GOLIAS, QUE O PRÓPRIO DAVI CONSAGRARA A DEUS. ELE A OFERECEU, E DAVI ACEITOU-A.
UM CERTO DOEGUE, PORÉM, SÍRIO DE NASCIMENTO QUE CUIDAVA DAS MULAS DE SAUL, ESTAVA POR ACASO PRESENTE. DALI DAVI FOI A GATE, UMA CIDADE DOS FILISTEUS, ONDE O REI AQUIS TINHA A SUA CORTE. MAS FOI RECONHECIDO, E COMUNICARAM IMEDIATAMENTE AO SOBERANO QUE AQUELE HEBREU, DE NOME DAVI, QUE HAVIA MATADO TANTOS FILISTEUS, ESTAVA NA CIDADE. DAVI VEIO A SABÊ-LO E, VENDO-SE EM TÃO GRAVE PERIGO, PENSOU EM FINGIR-SE DE LOUCO PARA ESCAPAR. ELE FINGIU TÃO BEM QUE AQUIS SE ENCOLERIZOU COM OS QUE O LEVARAM, ORDENANDO QUE LHE DESSEM A LIBERDADE.
245. 1 SAMUEL 22. DEPOIS DE CONSEGUIR ESCAPAR USANDO DESSE EXPEDIENTE, DAVI FOI PARA A TRIBO DE JUDÁ, ONDE SE ESCONDEU NUMA CAVERNA PERTO DA CIDADE DE ADULÃO, AVISANDO DISSO OS SEUS IRMÃOS. ELES VIERAM VÊ-LO COM TODOS OS PARENTES, E VÁRIOS OUTROS REUNIRAM-SE TAMBÉM A ELE, OU POR CAUSA DO MAU ESTADO DE SEUS NEGÓCIOS OU PELO MEDO QUE TINHAM DE SAUL. ELEVOU-SE ENTÃO O SEU NÚMERO A QUATROCENTOS, E DAVI DESDE ENTÃO NADA MAIS TEMEU. FOI TER COM O REI DOS MOABITAS E ROGOU-LHE QUE CONSENTISSE QUE ELE E TODOS OS QUE O ACOMPANHAVAM FICASSEM EM SEU PAÍS ATÉ QUE A MÁ SORTE PASSASSE. O SOBERANO CONSENTIU-O E TRATOU-O MUITO BEM, ASSIM COMO A TODOS OS SEUS SOLDADOS, DURANTE O TEMPO EM QUE ELE PERMANECEU NAQUELAS TERRAS.
ELE SÓ SAIU DE LÁ POR ORDEM DO PROFETA SAMUEL, QUE LHE ORDENOU DEIXAR O DESERTO PARA VOLTAR À SUA TRIBO. DAVI ENTÃO FICOU NA CIDADE DE SARIM. SAUL VEIO A SABÊ-LO E TAMBÉM QUE ELE TINHA CONSIGO UM GRANDE NÚMERO DE HOMENS ARMADOS. FICOU POR ISSO MUITO PERTURBADO, POIS SABIA QUE O VALOR E O PROCEDER DE DAVI TORNAVAM ESTE CAPAZ DE TUDO. COM TAL APREENSÃO, REUNIU NO PALÁCIO DA CIDADE DE GIBEÁ, QUE ESTÁ SITUADA SOBRE UMA COLINA DE NOME ARNOM, TODOS OS SEUS AMIGOS E TODA A SUA TRIBO E DO TRONO, ACOMPANHADO DOS GUARDAS E OFICIAIS DE SUA CASA, FALOU-LHES: &quot;NÃO PODENDO CRER QUE ESQUECÊSSEIS OS BENEFÍCIOS COM QUE AUMENTEI A FELICIDADE A QUE EU MESMO VOS ELEVEI, QUISERA SABER SE ESPERAIS RECEBÊ-LOS MAIORES DA PARTE DE DAVI, POIS BEM CONHEÇO O AFETO QUE LHE DEDICAIS, O QUAL O MEU PRÓPRIO FILHO VOS INSPIROU. SEI QUE JÔNATAS E ELE SE UNIRAM, SEM O MEU CONSENTIMENTO, POR UMA ESTREITA ALIANÇA, QUE CONFIRMARAM COM JURAMENTO, E QUE JÔNATAS AUXILIA DAVI CONTRA MIM COM TODAS AS SUAS POSSES. VÓS AINDA NÃO VOS DEIXASTES INFLUENCIAR POR ISSO, MAS ESPERAIS TRANQÜILAMENTE PELO RESULTADO&quot;.
DEPOIS DAS PALAVRAS DO REI, TODOS FICARAM EM SILÊNCIO. DOEGUE ENTÃO QUEBROU-O, DIZENDO: &quot;MAJESTADE, EU PRESENCIEI DAVI PROCURAR O SUMO SACERDOTE AIMELEQUE EM NOBE, QUE LHE PREDISSE O QUE DEVIA ACONTECER, DEU-LHE A ESPADA DE GOLIAS E AJUDOU-O EM TUDO O QUE ELE NECESSITAVA PARA CONTINUAR A VIAGEM&quot;. SAUL MANDOU CHAMAR IMEDIATAMENTE AIMELEQUE E TODOS OS SEUS PARENTES E DISSE-LHE: &quot;QUE MOTIVOS DE QUEIXA TENDES CONTRA MIM, PARA RECEBERDES TÃO BEM A DAVI, EMBORA ELE SEJA MEU INIMIGO E CONSPIRE CONTRA O MEU GOVERNO, A PONTO DE LHE FORNECERDES ARMAS E PREDIZERDES O QUE LHE DEVERÁ ACONTECER? ACASO IGNORAIS QUE ELE ESTÁ FUGITIVO POR CAUSA DO ÓDIO QUE ME TEM E À CASA REAL?&quot;
AIMELEQUE NÃO NEGOU TER PRESTADO A DAVI O AUXÍLIO DE QUE O ACUSAVAM. MAS, PARA MOSTRAR QUE NÃO FORA TANTO EM CONSIDERAÇÃO A ELE QUANTO AO REI, RESPONDEU: &quot;EU O RECEBI, MAJESTADE, NÃO COMO VOSSO INIMIGO, MAS COMO UM DE VOSSOS FIÉIS SERVIDORES, COMO UM DOS PRINCIPAIS OFICIAIS DO VOSSO EXÉRCITO E COMO TENDO A HONRA DE SER VOSSO GENRO. PODERIA EU IMAGINAR QUE UM HOMEM QUE VOS É DEVEDOR DE TANTOS FAVORES PUDESSE SER VOSSO INIMIGO EM VEZ DE ALGUÉM DEDICADO AO VOSSO SERVIÇO? QUANTO AO QUE ELE ME CONSULTOU SOBRE A VONTADE DE DEUS E AO QUE LHE RESPONDI, PROCEDI TAMBÉM DO MESMO MODO. SOBRE O QUE LHE DEI PARA CONTINUAR A VIAGEM, ELE ME DISSE QUE VOSSA MAJESTADE O ENVIAVA EM MISSÃO MUITO IMPORTANTE. ASSIM, JULGUEI QUE, RECUSANDO-O, OFENDERIA VOSSA MAJESTADE. ENFIM, POR PIOR QUE PUDESSE SER O DESÍGNIO DE DAVI, VOSSA MAJESTADE NÃO SE DEVE PERSUADIR DE QUE EU TENHA QUERIDO AJUDÁ-LO EM PREJUÍZO VOSSO&quot;.
SAUL, JULGANDO QUE AIMELEQUE FALAVA DAQUELE MODO APENAS POR MEDO, NÃO PRESTOU FÉ ALGUMA ÀS SUAS JUSTIFICATIVAS E ORDENOU QUE OS GUARDAS O MATASSEM, BEM COMO A TODOS OS SEUS PARENTES. COMO ELES RECUSASSEM COMETER TAL SACRILÉGIO, PORQUE A LEI DE DEUS NÃO PERMITIA TAL OBEDIÊNCIA, O REI DEU ESSE ENCARGO ÀQUELE MISERÁVEL DOEGUE. ESTE, JUNTAMENTE COM ALGUNS CELERADOS SEMELHANTES A ELE, MASSACROU AIMELEQUE E TODOS OS DE SUA FAMÍLIA, E O NÚMERO TOTAL FOI DE TREZENTAS E OITENTA E CINCO PESSOAS. PORQUE O HORRÍVEL FUROR DE SAUL AINDA NÃO ESTAVA SATISFEITO. E ENVIOU ESSES MESMOS ÍMPIOS A NOBE, QUE ERA A MORADIA DOS SUMOS SACERDOTES E DOS OUTROS MINISTROS DA LEI DE DEUS, ONDE MATARAM TODOS OS QUE ENCONTRARAM, SEM POUPAR NEM MESMO AS MULHERES E AS CRIANÇAS, E PUSERAM FOGO À CIDADE. ABIATAR, UM DOS FILHOS DE AIMELEQUE, FOI O ÚNICO A ESCAPAR DE TÃO TERRÍVEL CRUELDADE. ESSA INFAME MATANÇA REALIZOU O QUE DEUS REVELARA AO SUMO SACERDOTE ELI, ISTO É, QUE A SUA POSTERIDADE SERIA DESTRUÍDA POR CAUSA DE SEUS DOIS FILHOS.
ESSA DETESTÁVEL AÇÃO DE SAUL, QUE PELA MAIS HORRÍVEL DAS IMPIEDADES NÃO RECEOU DERRAMAR O SANGUE DE TODA A CASTA SACERDOTAL, SEM MESMO POUPAR OS VELHOS E AS CRIANÇAS, NEM TEMEU REDUZIR A CINZAS UMA CIDADE QUE O PRÓPRIO DEUS ESCOLHERA PARA SER A MORADIA DE SEUS SACERDOTES E PROFETAS, DEMONSTRA ATÉ ONDE PODE CHEGAR A CORRUPÇÃO DO ESPÍRITO HUMANO. ENQUANTO A MEDIOCRIDADE DE SUA CONDIÇÃO OS IMPEDE DE FAZER O MAL A QUE A SUA INCLINAÇÃO OS LEVA, PARECEM MANSOS E MODERADOS, MOSTRAM AMOR PELA JUSTIÇA E PELA PIEDADE E ESTÃO CONVENCIDOS DE QUE DEUS, QUE ESTÁ PRESENTE EM TODA PARTE, VÊ TODAS AS SUAS AÇÕES E PENETRA TODOS OS SEUS PENSAMENTOS. MAS QUANDO SE VÊEM ELEVADOS PELA AUTORIDADE E PODER, MOSTRAM QUE NÃO TINHAM NO CORAÇÃO AQUELES SENTIMENTOS E, TAL COMO OS ATORES, QUE DEPOIS DE TROCAR AS VESTES APRESENTAM-SE NO PALCO PARA REPRESENTAR UM PAPEL QUALQUER OU OUTRO PERSONAGEM, ELES APARECEM EM SEU NATURAL. TORNAM-SE AUDACIOSOS E INSOLENTES, DESPREZANDO A DEUS E FAZENDO POUCO CASO DOS HOMENS.
DESSA FORMA, EMBORA A GRANDEZA DE SUA POSIÇÃO, QUE EXPÕE ATÉ AS MENORES DE SUAS AÇÕES À VISTA DE TODOS, OS DEVESSE FAZER AGIR DE MANEIRA IRREPREENSÍVEL, ELES JULGAM QUE O PRÓPRIO DEUS MANTÉM OS OLHOS FECHADOS OU OS TEME, E PASSAM A DESEJAR QUE ELE APROVE E QUE OS HOMENS ACHEM JUSTO TUDO QUE O SEU TEMOR, O SEU ÓDIO E A SUA IMPRUDÊNCIA LHES INSPIRAM, SEM PREOCUPAÇÃO COM AS CONSEQÜÊNCIAS. DE MODO QUE, DEPOIS RECOMPENSAR COM MUITAS HONRAS OS GRANDES SERVIÇOS, NÃO SE CONTENTAM EM PRIVAR DELAS, POR MEIO DE FALSAS DENÚNCIAS E CALÚNIAS, AQUELES QUE OS PRESTARAM E QUE AS TINHAM TÃO JUSTAMENTE MERECIDO. TIRAM-LHES ATÉ MESMO A VIDA. E AGEM ASSIM NÃO NO USO LEGÍTIMO DE SEU PODER, COMO NA PUNIÇÃO DOS CULPADOS, MAS COM AÇÕES DE INJUSTIÇA E DE CRUELDADE, OPRIMINDO INOCENTES, OS QUAIS, SENDO-LHES INFERIORES, NÃO SE PODEM LIVRAR DE SUAS VIOLÊNCIAS.
SAUL, COMO ACABAMOS DE VER, É DISSO UM NÍTIDO EXEMPLO. POIS, PODE HAVER ALGO MAIS ESTRANHO QUE, APÓS O GOVERNO ARISTOCRÁTICO E O DOS JUIZES, ELE, O PRIMEIRO A SER FEITO REI SOBRE TODO O POVO DE DEUS, TENHA, POR UMA SIMPLES SUSPEITA, MATADO AIMELEQUE E MAIS DE TREZENTOS SACERDOTES E PROFETAS, QUEIMADO A CIDADE DELES E OS SEPULTADO NAS RUÍNAS, SEM SE INCOMODAR QUE, NÃO RESTANDO MAIS NENHUM MINISTRO DA VONTADE DE DEUS, O TEMPLO FICASSE INTEIRAMENTE ABANDONADO? OU QUE O SEU FUROR O TENHA LEVADO NÃO SOMENTE A EXTERMINAR ESSAS PESSOAS CONSTITUÍDAS PARA PRESTAR A DEUS O CULTO SUPREMO QUE LHE É DEVIDO, MAS TAMBÉM A DESTRUIR ATÉ OS ALICERCES O LUGAR QUE ELE LHES DERA COMO MORADIA?
Abiatar, o único sobrevivente da mortandade, foi procurar Davi e contou-lhe como as coisas se haviam passado. Este não ficou admirado, pois quando foi falar com Aimeleque percebeu que Doegue estava presente e bem imaginou que ele não perderia ocasião para caluniar o sumo sacerdote. Ficou sensivelmente comovido por ter dado motivo a isso e rogou a Abiatar que ficasse com ele, pois em outro lugar não estaria em segurança.
246. 1 Samuel 23. Soube Davi, ao mesmo tempo, que os filisteus haviam entrado no território de Queila e feito grande destruição. Resolveu atacá-los, mas antes consultou Samuel para saber se era do agrado de Deus. O profeta garantiu que Ele daria a vitória a Davi, que os atacou imediatamente. Ele fez uma grande matança, apoderou-se de ricos despojos e entrou em Queila para proteger os habitantes até que trouxessem o trigo para a cidade. Como tão grande feito não podia permanecer oculto e a notícia se espalhasse por toda parte, ela chegou até Saul. Ele sentiu grande alegria por saber onde Davi se havia estabelecido, julgando ser aquilo um sinal de que Deus queria entregá-lo em suas mãos. Ordenou então que alguns soldados fossem cercá-lo, com ordem de não se levantar o cerco antes de se apoderarem dele e matá-lo.
Deus, no entanto, revelou a Davi que ele estaria perdido se não se retirasse imediatamente, porque os habitantes de Queila o entregariam nas mãos do rei, a fim de terem paz com ele. Assim, partiu com os seus seiscentos homens para o deserto, até uma colina de nome Haquila, e Saul viu frustradas as suas esperanças. Do deserto, Davi passou ao território de Zife, a um lugar de nome Horesa. jônatas foi até lá encontrar-se com ele, para abraçá-lo e para conversarem. Exortou-o a esperar para o futuro, não obstante a infelicidade presente. Assegurou que Davi ainda reinaria sobre todo o povo e que não era de admirar que para chegar a tão alta posição fosse mister suportar tão duros sofrimentos. Renovaram depois, com juramento, os protestos de amizade e tomaram a Deus como testemunha. Fizeram imprecações contra aquele que a eles faltasse, e Jônatas regressou, depois de ter dado a Davi essa consolação naquele momento de infelicidade.
Os habitantes de Zife, para agradar a Saul, avisaram-no de que Davi estava perto da cidade e asseguraram que fariam o possível para entregá-lo em suas mãos, o que lhes seria muito fácil de conseguir se o rei mandasse fechar algumas passagens por onde ele poderia escapar e avançasse com as suas tropas. Saul louvou-lhes a fidelidade, manifestando o seu agradecimento por aquele serviço e prometendo retribuí-lo. Mandou-lhes em seguida muitos soldados para procurar Davi nos lugares mais ocultos do deserto, com a garantia de que ele mesmo, o rei, os seguiria bem depressa. Os zifenianos serviram de guia a essas tropas e tudo fizeram, no que dependia deles, para agradar a Saul.
Assim, esses homens maléficos, que deveriam se conservar em silêncio, para salvar um homem que era não apenas inocente, mas muito virtuoso, fizeram por interesse e por bajulação tudo o que puderam para entregá-lo ao inimigo e à morte. Mas Deus não permitiu um êxito correspondente a essa má vontade. Davi, alertado dê que o rei se aproximava, abandonou os lugares para os quais se havia retirado e instalou-se num grande rochedo que está no deserto de Jesimom. Saul perseguiu-o, chegou ao outro lado da rocha, cercou-o por todos os lados e tê-lo-ia apanhado, não fora o aviso de que os filisteus haviam entrado no país. Ele julgou mais conveniente repelir os inimigos públicos, tão temíveis, a deixar-lhes o reino como presa por causa da obstinação em perseguir um inimigo particular. Davi salvou-se dessa maneira de um perigo que parecia inevitável e refugiou-se no estreito de En-Gedi.
247. 1 Samuel 24. Saul soube disso e, mal repeliu os filisteus, tomou três mil homens escolhidos de todas as suas tropas e marchou para esse lugar. Impelido por uma necessidade, o rei entrou sozinho numa caverna muito espaçosa e profunda, onde Davi se havia escondido com todos os seus homens. Um deles reconheceu o rei e foi logo dizer a Davi que Deus lhe oferecia ocasião a mais favorável para vingar-se do inimigo: fazendo-o perder a vida, livrar-se-ia para sempre daquela injusta perseguição. Davi, em vez de seguir tal conselho, julgou por um sentimento de piedade que não podia, sem ofender a Deus, dar a morte àquele que Ele fizera rei e que como tal era seu amo e senhor. Porque, por piores que sejam os nossos inimigos e por mais que façam para nos eliminar, jamais lhes devemos pagar o mal com o mal. Assim, contentou-se em cortar um pedaço do manto de Saul. E, quando ele saiu da caverna, seguiu-o e gritou para ele. Saul reconheceu-o e voltou-se.
Então Davi prostrou-se diante dele, como de costume, e disse: &quot;Será justo que vossa majestade preste fé aos caluniadores, que vos enganam, e desconfie daqueles que vos têm mais afeto e vos são mais fiéis, quando deveríeis julgar uns e outros por suas ações? As palavras podem enganar, mas as ações mostram o que eles têm no fundo da alma. Vossa majestade acaba de conhecer, pelos efeitos, a malícia daqueles que me acusam sem cessar de más intenções, em que jamais pensei e que não poderia executar mesmo que as tivesse. No entanto, eles levaram vossa majestade a empregar toda espécie de meios para me matar. Mas, como vossa majestade pode ver, a afirmativa de que atentei contra a vossa pessoa é falsa. Ter-me-ia sido tão fácil matá-lo como cortar este pedaço do vosso manto que tenho em minha mão. No entanto, por mais justo que seja o meu ressentimento, eu o contive, ao passo que vossa majestade se deixa levar pela ira, por mais injusta que seja. Deus nos julgará, senhor, e condenará aquele que de nós dois for culpado&quot;.
Saul, espantado pelo perigo que havia corrido e sem poder deixar de admirar a virtude e a generosidade de Davi, soltou um profundo suspiro, que arrancou làgrimas a Davi. Tocado por tão extrema bondade, disse-lhe o rei: &quot;Eu é que deveria chorar, e não vós, porque depois de receber tantos serviços de vós tenho-vos perseguido com muita crueldade. Hoje mostrastes que sois um digno sucessor dos mais virtuosos de nossos antepassados, que, em vez de tirar a vida aos seus inimigos quando estes se encontram em posição desfavorável, gloriam-se de perdoar-lhes. Assim, não duvido de que Deus deseje pôr a coroa em vossa cabeça para fazer-vos reinar sobre todo o povo de Israel. E peço-vos que me prometais com juramento que, em vez de destruir a minha família, tomareis cuidado de conservá-la, sem vos lembrardes dos males que vos causei&quot;. Davi prometeu-o e jurou-lhe, e depois se separaram: Saul voltou ao seu reino, e Davi foi para o estreito dos masticianos.
248.  1 Samuel 25. A morte do profeta Samuel deu-se nesse mesmo tempo. E, como todo o povo o havia honrado extremamente pela sua eminente virtude, nada se pode acrescentar às demonstrações de afeto que prestou à sua memória. Depois de o enterrarem com grande magnificência em Rama, lugar de seu nascimento, eles o choraram por muito tempo. Não foi somente luto público, mas todos o lamentavam em particular, como se fosse um parente. Isso porque, além de seu amor pela justiça, a sua bondade era tão extraordinária que o tornou muito querido por Deus. Depois da morte de Eli, sumo sacerdote, ele governou sozinho todo o povo durante doze anos e viveu dezoito anos durante o reinado de Saul.
249. Um homem chamado Nabal, do país dos zifenianos, morava nesse tempo na cidade de Maom e era rico, principalmente em rebanhos: tinha três mil carneiros e mil cabras. Davi proibiu terminantemente aos seus soldados tocar em qualquer coisa que pertencesse a esse homem, por maiores que fossem as necessidades ou sob qualquer pretexto, porque ele sabia que não se pode tomar os bens alheios sem faltar aos mandamentos de Deus e, assim fazendo, julgava que agradaria a um homem de bem, que merecia as suas homenagens. Mas Nabal era um bruto, de mau caráter e muito cruel. Sua mulher, ao contrário, de nome Abigail, era gentil, prestimosa, virtuosa e além disso extremamente bela.
Quando Nabal foi tosquiar as ovelhas, Davi enviou dez dos seus para saudá-lo, desejar-lhe toda sorte de prosperidade por muitos anos e rogar-lhe que o ajudasse com alguma coisa para a subsistência de seus homens, pois podia informar-se com os guardas do rebanho que desde que estava no deserto, e isso havia muito tempo, nem ele nem os seus homens lhe haviam causado o menor prejuízo. Poderiam até dizer o contrário, isto é, que ele os havia conservado. E Nabal agora, obsequi-ando-o, faria bem a um homem muito grato. Esse homem, porém, em vez de dar uma resposta, perguntou-lhes quem era Davi. Eles disseram-lhe que era um dos filhos de Jessé. Nabal exclamou: &quot;Ah! Um fugitivo, que se esconde com medo de cair nas mãos de seu senhor, agora quer passar por ousado e corajoso&quot;.
Essas palavras, tão ofensivas, foram referidas a Davi e o deixaram tão encole-rizado que ele jurou que antes de a noite acabar exterminaria Nabal e toda a sua família e destruiria a sua casa e todos os seus bens, pois, não satisfeito em demonstrar tanta ingratidão pelos favores recebidos, tivera ainda a insolência de ultrajá-lo daquele modo. Deixou para a guarda de sua bagagem duzentos dos seiscentos homens que então contava e partiu para executar a sua resolução. No entanto, um dos pastores de Nabal, que ouvira as palavras proferidas por seu senhor, avisou a mulher deste, alertando-a das perigosas conseqüências e afirmando que nem Davi nem os seus jamais haviam feito mal algum aos rebanhos. Abigail mandou imediatamente carregar alguns asnos com uma grande quantidade de provisões e, sem nada dizer ao marido, que só tratava bem os de caráter semelhante ao dele, foi ter com Davi.
Encontrou-o num vale, desceu em terra logo que o viu e, prostrando-se diante dele, pediu-lhe que não levasse em conta o que dissera o marido, pois o próprio nome Nabal, que em hebreu significa &quot;insensato&quot;, era-lhe muito conveniente. Ela declarou ainda que não estava presente quando os homens foram procurá-lo e continuou a falar, nestes termos: &quot;Rogo-vos que nos perdoeis a ambos e considereis o motivo que tendes de dar graças a Deus, por não ter permitido que mergulhásseis as vossas mãos em sangue. Porque, conservando-as puras, vós o obrigareis a vingar os vossos inimigos e a fazer cair sobre as suas cabeças a infelicidade que estava prestes a cair sobre a de Nabal. Confesso que a vossa cólera contra ele é justa, mas moderai-a, por amor de mim, que não tenho parte na culpa, pois a bondade e a clemência são virtudes dignas de um homem que Deus destinou para reinar um dia. Tende a bondade de aceitar estes pequenos presentes que vos ofereço&quot;.
Davi recebeu-os e respondeu-lhe: &quot;Foi Deus quem vos trouxe aqui, do contrário, não teríeis visto o dia de amanhã, porque eu havia jurado exterminar esta noite Nabal e toda a sua família, para castigá-lo pela ingratidão e pelo ultraje que me fez. Devo, porém, perdoar-lhe, em consideração a vós, pois Deus vos inspirou a que vos opusésseis à minha cólera por meio de vossos rogos. Ele, porém, não evitará o castigo que merece e morrerá de qualquer modo&quot;. Abigail voltou muito consolada por resposta tão favorável e encontrou o marido tão embriagado que nada lhe pôde dizer. No dia seguinte, porém, contou-lhe tudo o que se havia passado. O grave perigo que correra assustou-o e perturbou-o de tal modo que ele ficou paralítico de todo o corpo e morreu dez dias depois.
Davi, quando o soube, disse que Nabal recebera a recompensa merecida. Louvou a Deus por não ter permitido que manchasse as suas mãos no sangue dele e aprendeu por aquele exemplo que, tendo os olhos voltados para todas as nações dos homens, Ele castiga os maus e recompensa os bons. A virtude e a sabedoria de Abigail, unidas à sua grande beleza, haviam causado a Davi tanta estima e afeto por ela que, vendo-a viúva, mandou perguntar-lhe se o queria desposar. Ela respondeu que não era digna nem mesmo de beijar-lhe os pés. Depois veio encontrar-se com ele, trazendo boa equipagem, e o des-posou. Ele já tinha outra esposa, de nome Ainoã, que era da cidade de Jezreel. Quanto a Mical, Saul a dera em matrimônio a Palti, filho de Laís, que era da cidade de Galim.
250. 1 Samuel 26. Pouco tempo depois, alguns zifenianos avisaram Saul de que Davi regressara àquele país, e, se quisesse ajudá-los, eles poderiam apanhá-lo. O rei se pôs imediatamente em campo com três mil soldados e acampou naquele mesmo dia em Haquila. Davi, alertado de sua marcha, mandou espiões para fazer um reconhecimento, e estes confirmaram o aviso. Ele partiu de noite, acompanhado somente por Abisai, e entrou no acampamento de Saul. Encontrou todos os soldados adormecidos, bem como o general Abner. Passou pela tenda do rei, que também dormia, e da cabeceira de sua cama apanhou-lhe o dardo. Abisai quis matá-lo, mas Davi lhe reteve o braço e o impediu, dizendo que, por pior que fosse Saul, não se poderia sem crime atentar contra a vida de um rei constituído por Deus e que tocava ao próprio Deus castigá-lo, quando julgasse que era tempo de o fazer.
Assim, Davi contentou-se em levar o dardo e um vaso que estava próximo do rei, de modo que não se pudesse duvidar de que poderia tê-lo matado, se o desejasse. Confiando na escuridão da noite e em sua coragem, saiu do acampamento do modo como havia entrado, sem que ninguém o percebesse. Depois de atravessar a torrente, subiu à montanha, de onde todo o acampamento de Saul poderia ouvi-lo, e gritou bem alto, chamando por Abner, que acordou com o barulho, bem como todos os soldados. Abner perguntou quem o chamava.
Ele respondeu: &quot;Sou eu, Davi, filho de Jessé, que vós expulsastes. Como vós, que tão valente sois e gozais de tanta honra perante o rei, mais que qualquer outro, tendes tão pouco cuidado em defendê-lo e dormis em vez de zelar pela garantia de sua pessoa? Podeis negar que não sois culpado de um crime capital, tendo sido tão negligente a ponto de perceberdes que alguns dos meus homens entraram no vosso acampamento e até mesmo na tenda real? Vede onde estão o dardo do rei e o seu vaso e julgai agora se montastes boa guarda&quot;.
Saul reconheceu a voz de Davi e, diante das provas que apresentava, percebeu que, graças à negligência dos seus, ter-lhe-ia sido fácil matá-lo sem que nenhum estranho fosse encontrado. Confessou então ser-lhe devedor da vida e declarou que lhe permitia voltar para casa com toda a segurança, porque não podia mais duvidar de seu afeto e de sua fidelidade, depois de lhe poupar a vida diversas vezes, e porque ele, em vez de reconhecer os bons serviços que Davi lhe prestara, o havia exilado, privado da consolação de viver com os parentes e perseguido impiedosamente. Davi mandou em seguida que viessem buscar o dardo e o vaso do rei e protestou que Deus, que sabia que ele teria podido matar Saul, seria o juiz de suas ações.
251. 1 Samuel 27. Eis como Davi uma segunda vez poupou a vida a Saul. E, não querendo mais ficar naquele país, receando vir a cair nas mãos do rei, decidiu, com o consentimento de todos os que estavam com ele, passar às terras dos filisteus. Aquis, rei de Gate, uma das cinco cidades dessa nação, recebeu-o favoravelmente, e Saul, vendo como fora malsucedido e lembrando os graves riscos que correra, não pensou mais em persegui-lo. Davi não quis estabelecer-se na cidade, para não ser pesado aos seus habitantes, e rogou ao rei Aquis que lhe desse um lugar no campo. Ele deu-lhe a aldeia de Ziclague, pela qual Davi tomou tanto afeto que, depois de se tornar rei, veio a comprá-la, para tê-la como propriedade particular.
Lá ficou um ano e quatro meses, e durante esse tempo fazia secretamente incursões sobre as terras dos gerusianos, dos gersianos e dos amalequitas, que eram povos vizinhos dos filisteus, trazendo grande quantidade de cavalos, camelos e gado. Contudo não fazia prisioneiros, temendo que o rei descobrisse de quem ele trazia tais presas, das quais enviava-lhe uma parte. Quando o rei lhe perguntava onde as ia buscar, Davi respondia que era nas planícies da Judéia, do lado sul, no que o príncipe acreditava com tanta felicidade quanto desejava que fosse verdade. Porque Davi se poria em condição de jamais poder regressar àquele país caso tratasse como inimigos os seus súditos. Não sendo assim, porém, podia mantê-lo junto de si e servir-se dele vantajosamente.
252.  1 Samuel 28. Nesse mesmo tempo, os filisteus resolveram fazer guerra aos israelitas. O rei Aquis ordenou a reunião de todas as suas tropas na cidade de Suném e por isso mandou dizer a Davi que lá se encontrasse também, com os seus seiscentos homens. Ele respondeu que obedeceria com prazer, para testemunhar-lhe a sua gratidão pelos favores de que lhe era devedor. O rei, por sua vez, prometeu-lhe que se fosse vitorioso recompensaria os seus serviços com grandes honras e o faria comandante de sua guarda.

CAPÍTULO 15
SAUL, VENDO-SE ABANDONADO POR DEUS NA GUERRA CONTRA OS
FILISTEUS, CONSULTA POR MEIO DE UMA MÉDIUM A SOMBRA DE
SAMUEL, QUE LHE PREDIZ DERROTA NA BATALHA E A MORTE DELE E DE
SEUS FILHOS. AQUIS, UM DOS REIS DOS FILISTEUS, LEVA COM ELE DAVI
PARA O COMBATE, MAS OS OUTROS PRÍNCIPES O OBRIGAM A REENVIÁ-LO
A ZICLAGUE. DAVI DESCOBRE QUE OS AMALEQUITAS SAQUEARAM E
INCENDIARAM ZICLAGUE, PERSEGUE-OS E OS DIZIMA. SAUL PERDE A
BATALHA. JÔNATAS E DOIS OUTROS DE SEUS FILHOS SÃO MORTOS, E ELE
FICA MUITO FERIDO. OBRIGA UM ESCUDEIRO A MATÁ-LO. BELA AÇÃO DOS
HABITANTES DEJABES DE GILEADE PARA COM
OS CORPOS DESSES PRÍNCIPES.

253.  Saul, informado de que os filisteus tinham avançado até Suném, marchou contra eles e acampou em frente ao exército inimigo, próximo do monte de Gilboa. Percebendo, porém, que eles eram incomparavelmente mais fortes, sentiu a coragem diminuir e rogou aos profetas que consultassem a Deus para saber qual seria o resultado daquela guerra. Deus não lhe respondeu, e esse silêncio duplicou-lhe o temor, pois se julgou abandonado por Ele. O seu ânimo abateu-se e ele resolveu, nessa dificuldade, recorrer à magia. No entanto Saul havia expulsado do país todos os magos e adivinhos e toda espécie de gente que costuma predizer o futuro, e assim, não sabendo onde buscá-los, mandou indagar de onde se poderia encontrar alguém dentre os que fazem voltar as almas dos mortos, para interrogá-las e saber coisas futuras.
UM DOS SEUS DISSE-LHE QUE UMA MULHER NA CIDADE DE EN-DOR PODERIA SATISFAZER ESSES DESEJOS. IMEDIATAMENTE E SEM FALAR COM QUEM QUER QUE FOSSE, DISFARÇADO E ACOMPANHADO POR DUAS PESSOAS SOMENTE, FOI PROCURAR A MULHER, ROGANDO-LHE QUE PREDISSESSE O QUE ESTAVA PARA LHE ACONTECER E QUE PARA ESSE FIM FIZESSE VOLTAR A ALMA DE UM MORTO QUE ELE IA NOMEAR. ELA RESPONDEU QUE NÃO PODIA FAZÊ-LO PORQUE O REI PROIBIRA, POR UM EDITO, QUE SE FIZESSE ESSA ESPÉCIE DE PREDIÇÃO E ROGOU QUE, JAMAIS TENDO ELA LHE FEITO MAL, NÃO LHE ARMASSE CILADA PARA FAZÊ-LA CAIR NUMA FALTA QUE CUSTARIA A ELA A PRÓPRIA VIDA. SAUL JUROU-LHE QUE, ACONTECESSE O QUE ACONTECESSE, ELE NÃO O FARIA E QUE ELA NÃO CORRIA RISCO ALGUM. ESSE JURAMENTO TRANQÜILIZOU-A, E ELE PEDIU QUE FIZESSE VIR A ALMA DE SAMUEL.
COMO ELA NÃO SABIA QUEM ERA SAMUEL, OBEDECEU SEM DIFICULDADE. QUANDO, PORÉM, A SUA PRESENÇA SE FEZ NOTAR, ALGO DE DIVINO QUE ELA PERCEBEU SURPREENDEU-A E A PERTURBOU. VOLTOU-SE ENTÃO PARA SAUL E DISSE-LHE: &quot;NÃO SOIS VÓS O REI SAUL?&quot; (ELA O SOUBERA PELA VISÃO.) ELE RESPONDEU-LHE QUE SIM, E ORDENOU-LHE QUE REVELASSE A CAUSA DA GRANDE PERTURBAÇÃO QUE NOTAVA NELA. ELA RESPONDEU QUE VIA APROXIMAR-SE UM HOMEM QUE PARECIA TODO DIVINO. SAUL PERGUNTOU: &quot;QUE IDADE TEM ELE E COMO ESTÁ VESTIDO?&quot; ELA RESPONDEU: &quot;ELE PARECE UM VELHO MUITO VENERÁVEL E ESTÁ REVESTIDO DE UMA VESTE SACERDOTAL&quot;. ENTÃO SAUL NÃO DUVIDOU DE QUE ERA MESMO SAMUEL* E PROSTROU-SE DIANTE DELE ATÉ O CHÃO.
A SOMBRA PERGUNTOU-LHE POR QUE O HAVIA OBRIGADO A VOLTAR DO OUTRO MUNDO. RESPONDEU SAUL: &quot;A NECESSIDADE ME OBRIGOU A ISSO, PORQUE, TENDO SIDO ATACADO POR UM EXÉRCITO MUITO PODEROSO, ME ENCONTRO ABANDONADO, SEM O AUXÍLIO DE DEUS, QUE NEM PELOS SEUS PROFETAS NEM POR OUTRO MODO ME INFORMA SOBRE O QUE ESTÁ PARA ACONTECER. ASSIM, SÓ ME RESTA RECORRER A VÓS, QUE SEMPRE ME TESTEMUNHASTES TANTO AFETO&quot;. SAMUEL, SABEDOR DE QUE O TEMPO DA MORTE DE SAUL HAVIA CHEGADO, DISSE-LHE: &quot;SEI QUE DE FATO DEUS VOS ABANDONOU E EM VÃO DESEJAIS QUE ELE DIGA O QUE VOS DEVE SUCEDER. MAS, VISTO QUE O QUEREIS, SABEI QUE DAVI REINARÁ E TERMINARÁ VENTUROSAMEN-TE ESTA GUERRA E QUE, PELO CASTIGO DE NÃO TERDES EXECUTADO AS ORDENS QUE VOS DEI DA PARTE DE DEUS, DEPOIS DE TERDES VENCIDO OS AMALEQUITAS, O VOSSO EXÉRCITO AMANHÃ SERÁ DESBARATADO E PERDEREIS A COROA, A VIDA E OS VOSSOS FILHOS NESSA BATALHA&quot;.
ESSAS PALAVRAS GELARAM O CORAÇÃO DE SAUL, E ELE DESMAIOU, TANTO PELA DOR EXCESSIVA QUANTO PORQUE HAVIA DOIS DIAS NÃO SE ALIMENTAVA. A MULHER ROGOU-LHE QUE TOMASSE ALGUM ALIMENTO, PARA RESTAURAR AS FORÇAS E PODER VOLTAR AO EXÉRCITO. ELE RECUSOU-O, MAS ELA INSISTIU, DIZENDO QUE NÃO IHÇ PEDIA OUTRA RECOMPENSA POR TER ARRISCADO A VIDA PARA FAZER O QUE ELE DESEJAVA. POR FIM, NÃO PODENDO MAIS RESISTIR ÀQUELAS SÚPLICAS INSISTENTES, SAUL DISSE-LHE QUE COMERIA ALGUMA COISA. LOGO ELA MATOU UM VITELO, QUE ERA TUDO O QUE POSSUÍA, PREPAROU-O E O SERVIU A ELE E AOS SEUS. SAUL VOLTOU NAQUELA MESMA NOITE PARA O SEU EXÉRCITO.
EU NÃO PODERIA DEIXAR DE ADMIRAR A BONDADE DESSA MULHER, QUE, JAMAIS TENDO VISTO O REI, EM VEZ DE SE RESSENTIR POR ELE A TER REDUZIDO A TÃO GRANDE POBREZA, PROIBINDO-A DE EXERCER A ARTE QUE ERA O SEU MEIO DE VIDA, TEVE TANTA COMPAIXÃO DE SUA INFELICIDADE QUE NÃO SE CONTENTOU EM CONSOLÁ-LO. SABENDO QUE ELE MORRERIA NO DIA SEGUINTE, DEU-LHE TUDO O QUE POSSUÍA, SEM PRETENDER RECOMPENSA ALGUMA E SEM DELE NADA ESPERAR. NISSO ELA É TANTO MAIS LOUVÁVEL QUANTO OS HOMENS SÃO NATURALMENTE LEVADOS A FAZER O BEM SOMENTE ÀQUELES DOS QUAIS PODEM TAMBÉM RECEBÊ-LO. E ASSIM, ELA NOS DÁ UM BELO EXEMPLO DE COMO AJUDAR SEM INTERESSE OS QUE TÊM NECESSIDADE DE NOSSO AUXÍLIO, POIS É UMA GENEROSIDADE TÃO AGRADÁVEL A DEUS QUE NADA PODE LEVÁ-LO A NOS TRATAR MAIS FAVORAVELMENTE.
JULGO OPORTUNO ACRESCENTAR OUTRA REFLEXÃO, QUE PODERÁ SER ÚTIL A TODOS, PARTICULARMENTE AOS REIS, AOS PRÍNCIPES, AOS GRANDES, AOS MAGISTRADOS, ÀS OUTRAS PESSOAS CONSTITUÍDAS EM DIGNIDADE E A TODOS OS QUE, SOB QUALQUER CONDIÇÃO, TÊM A ALMA GRANDE E NOBRE, A FIM DE INFLAMÁ-LOS DE TAL MODO À VIRTUDE QUE NÃO HAJA PENAS NEM TRIBUTAÇÕES QUE NÃO ACEITEM OU PERIGOS QUE NÃO DESPREZEM, ATÉ MESMO A MORTE, PARA CONQUISTAR UMA REPUTAÇÃO IMORTAL, CHEGANDO A DAR A PRÓPRIA VIDA PELO BEM DA PÁTRIA. VIMOS O QUE FEZ SAUL, POIS, AINDA QUE SAMUEL O TIVESSE AVISADO DE QUE SERIA MORTO COM OS FILHOS NA BATALHA, PREFERIU PERDER A VIDA A PRATICAR UM ATO INDIGNO DE UM REI, COMO, PARA CONSERVÁ-LA, ABANDONAR O EXÉRCITO, O QUE SERIA O MESMO QUE ENTREGÁ-LO NAS MÃOS DOS INIMIGOS.
ASSIM, SAUL NÃO HESITOU EM EXPOR-SE COM OS FILHOS A UMA MORTE CERTA, JULGANDO QUE SERIA MELHOR E MUITO MAIS SATISFATÓRIO TERMINAR COM ESTES GLORIOSAMENTE OS SEUS DIAS, EM PLENO COMBATE PELA SALVAÇÃO DA PÁTRIA, E MERECENDO ASSIM VIVER PERENEMENTE NA MEMÓRIA DA POSTERIDADE DO QUE SOBREVIVER À PRÓPRIA INFELICIDADE E, ALÉM DE NÃO TER MAIS UMA POSIÇÃO, SER POUCO CONSIDERADO PELA OPINIÃO PÚBLICA. NÃO PODERIA, POIS, DEIXAR DE CONSIDERAR ESSE SOBERANO, NESSE PONTO, COMO MUITO JUSTO, SENSATO E GENEROSO. E, SE ALGUM OUTRO FEZ OU FIZER A MESMA COISA, NÃO HAVERÁ ELOGIOS DE QUE NÃO SEJA DIGNO. POIS, AINDA QUE QUEM FAÇA GUERRA NA ESPERANÇA DE OBTER A VITÓRIA MEREÇA QUE OS HISTORIADORES ELOGIEM OS SEUS FEITOS GRANDIOSOS, PARECE-ME QUE SOMENTE DEVEM SER CONSIDERADOS PROVECTOS NA CORAGEM OS QUE, A EXEMPLO DE SAUL, PREFEREM A HONRA À PRÓPRIA VIDA, DESPREZANDO PERIGOS CERTOS E INEVITÁVEIS.
NADA É MAIS COMUM QUE EMPREENDER AQUILO CUJO DESFECHO É DUVIDOSO E DISSO AUFERIR GRANDES VANTAGENS, SE HOUVER SORTE FAVORÁVEL. MAS NADA PODER PROMETER SENÃO COISAS FUNESTAS, ESTAR CERTO DE QUE PERDERÁ A VIDA NO COMBATE E AFRONTAR INTREPIDAMENTE A MORTE É O QUE SE PODE CHAMAR O CÚMULO DA GENEROSIDADE E DA CORAGEM. FOI ISSO O QUE ADMIRAVELMENTE FEZ SAUL. ELE DEU EXEMPLO A TODOS OS QUE DESEJAM ETERNIZAR A MEMÓRIA PELA GLÓRIA DAS AÇÕES, MAS PRINCIPALMENTE AOS REIS, AOS QUAIS A NOBREZA DESSA CONDIÇÃO NÃO SOMENTE PROÍBE ABANDONAR O CUIDADO DOS SÚDITOS COMO OS TORNA DIGNOS DE CENSURA SE NUTRIREM POR ELES APENAS UMA MEDÍOCRE AFEIÇÃO. PODERIA EU FALAR AINDA MUITO MAIS EM LOUVOR DE SAUL, MAS, PARA NÃO SER DEMASIADO LONGO, NECESSITO RETOMAR O FIO DE MEU DISCURSO.

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* &quot;ENTÃO SAUL NÃO DUVIDOU DE QUE ERA MESMO SAMUEL&quot;. E POSSÍVEL QUE FLÁVIO JOSEFO, PARA FAZER TAL ASSERÇÃO, SE TENHA BASEADO EM TARGUNS (PARÁFRASES DO ANTIGO TESTAMENTO USADAS PELOS RABINOS). NO ENTANTO ESSE ENTENDIMENTO NÃO PODE SER ACEITO PORQUE CONTRARIA O ENSINO DA BÍBLIA A RESPEITO DO ASSUNTO. (N DO E)

254. 1 SAMUEL 29. OS REIS E OS PRÍNCIPES DOS FILISTEUS, COMO VIMOS, REUNIRAM TODAS AS SUAS FORÇAS. AQUIS, REI DE GATE, CHEGOU POR ÚLTIMO COM OS SEUS, ACOMPANHADO POR DAVI E OS SEISCENTOS HOMENS DE SUA NAÇÃO. OS OUTROS PRÍNCIPES PERGUNTARAM A AQUIS QUEM HAVIA TRAZIDO AQUELES ISRAELITAS. ELE RESPONDEU QUE FORA DAVI, O QUAL, PARA EVITAR A CÓLERA DE SAUL, ESTABELECERA-SE EM SUAS TERRAS E, COMO TESTEMUNHO DE SUA GRATIDÃO POR SER RECEBIDO EM SEU TERRITÓRIO E AO MESMO TEMPO PARA VINGAR-SE DE SAUL, OFERECERA-SE PARA SERVI-LO NAQUELA GUERRA. OS PRÍNCIPES NÃO CONCORDARAM QUE ELE CONFIASSE NUM HOMEM CUJA FIDELIDADE ERA SUSPEITA E QUE, PARA SE RECONCILIAR COM SAUL, PODERIA NAQUELA OCASIÃO VOLTAR AS ARMAS CONTRA ELES E FAZER-IHES AINDA MAIS MAL DO QUE JÁ FIZERA NO PASSADO, POIS ERA O MESMO DAVI DE QUEM AS FILHAS DOS HEBREUS CANTAVAM NAS SUAS CANÇÕES QUE HAVIA MATADO UM GRANDE NÚMERO DE FILISTEUS. E ASSIM, ACONSELHARAM-NO A MANDÁ-LO DE VOLTA.
AQUIS CONSENTIU E ACEITOU AS RAZÕES DELES. MANDOU CHAMAR DAVI E DISSE-LHE: &quot;O CONHECIMENTO QUE TENHO DO VOSSO VALOR E DE VOSSA FIDELIDADE TINHA-ME FEITO DESEJAR EMPREGAR-VOS NESTA GUERRA. MAS OS OUTROS PRÍNCIPES E COMANDANTES DO EXÉRCITO NÃO O APROVAM. EMBORA EU NÃO DESCONFIE DE VÓS È VOS TENHA SEMPRE A MESMA AFEIÇÃO, DESEJO QUE VOLTEIS PARA O LUGAR QUE VOS CONCEDI, A FIM DE VOS OPORDES ÀS INCURSÕES QUE OS INIMIGOS POSSAM FAZER POR AQUELE LADO. E NISSO ME PRESTAREIS NÃO MENOR SERVIÇO DO QUE SE COMBATÊSSEIS AQUI CONOSCO&quot;.
1 SAMUEL 30. DAVI OBEDECEU E CONSTATOU, NA SUA VOLTA, QUE OS AMALEQUITAS, APROVEITANDO-SE DA AUSÊNCIA DO REI AQUIS E DE TODAS AS SUAS FORÇAS, HAVIAM TOMADO ZICLAGUE E A INCENDIADO, ALÉM DE LEVAR TODAS AS MULHERES E CRIANÇAS COM OS DESPOJOS E DE FAZER O MESMO AOS PAÍSES DOS ARREDORES. ESSA GRANDE DESGRAÇA, TÃO INESPERADA, FERIU TÃO VIVAMENTE DAVI QUE ELE RASGOU AS PRÓPRIAS VESTES E ENTREGOU-SE AO DESESPERO E À DOR. OS SOLDADOS, POR SUA VEZ, FICARAM TÃO EXALTADOS POR TEREM PERDIDO AS SUAS COISAS, MULHERES E FILHOS QUE, ATRIBUINDO A ELE A CAUSA DE SUA INFELICIDADE, ESTIVERAM PRESTES A APEDREJÁ-LO.
QUANDO VOLTARAM A SI, ELE ELEVOU O ESPÍRITO A DEUS E ROGOU A ABIATAR, SUMO SACERDOTE, QUE SE REVESTISSE DO ÉFODE E PERGUNTASSE A DEUS SE, PERSEGUINDO OS AMALEQUITAS, PODERIA AINDA ALCANÇÁ-LOS E SE O AJUDARIA A VINGAR-SE E A RECUPERAR AS MULHERES E AS CRIANÇAS QUE ELES HAVIAM LEVADO. ABIATAR FEZ O QUE ELE DESEJAVA E ORDENOU-LHE, DA PARTE DE DEUS, QUE OS PERSEGUISSE. DAVI NÃO PERDEU TEMPO E, QUANDO CHEGOU À TORRENTE DE BESOR, ENCONTROU UM EGÍPCIO, QUE DE TÃO FRACO QUASE NÃO RESISTIA MAIS, POIS HAVIA TRÊS DIAS NÃO SE ALIMENTAVA. DAVI DEU-LHE COMIDA E, QUANDO O HOMEM RECOBROU AS FORÇAS, PERGUNTOU-LHE QUEM ERA. ELE RESPONDEU-LHE QUE ERA EGÍPCIO E QUE O SEU SENHOR O HAVIA ABANDONADO PORQUE, ESTANDO DOENTE, NÃO PODIA PROSSEGUIR NA RETIRADA DOS AMALEQUITAS, DEPOIS DE HAVEREM SAQUEADO E INCENDIADO ZICLAGUE.
DAVI PEDIU AO HOMEM QUE O GUIASSE E ASSIM CONSEGUIU ALCANÇAR OS INIMIGOS. COMO OS AMALEQUITAS NÃO DESCONFIAVAM DE NADA E ESTAVAM AINDA POSSUÍDOS PELA ALEGRIA DA PRESA CONQUISTADA, DAVI ENCONTROU-OS EMBRIAGADOS E FESTIVOS. MUITOS JÁ ESTAVAM DEITADOS, DORMINDO PROFUNDAMENTE. OUTROS HAVIAM BEBIDO TANTO QUE ESTAVAM SONOLEN-TOS. OUTROS AINDA TRAZIAM O COPO NA MÃO. ASSIM, NÃO ESTAVAM EM CONDIÇÕES DE SE DEFENDER, E OS QUE CONSEGUIRAM PEGAR EM ARMAS FORAM LOGO ATACADOS PELOS ISRAELITAS, OS QUAIS MATARAM UM NÚMERO TÃO GRANDE DELES QUE APENAS UNS QUATROCENTOS HOMENS SE PUDERAM SALVAR, POIS A MATANÇA DUROU DESDE A TARDE ATÉ A NOITE.
DEPOIS DE UM ÊXITO TÃO FELIZ, QUE PERMITIU A DAVI E AOS SEUS RECUPERAR NÃO SOMENTE AS SUAS MULHERES E FILHOS, MAS TODOS OS DESPOJOS QUE OS AMALEQUITAS HAVIAM LEVADO, ELES VOLTARAM AO LUGAR EM QUE HAVIAM DEIXADO DUZENTOS DOS SEUS A GUARDAR A BAGAGEM. OS QUATROCENTOS QUE HAVIAM ACOMPANHADO DAVI ATÉ O FIM DA EXPEDIÇÃO RECUSARAM DAR-LHES A SUA PARTE NOS DESPOJOS. QUERIAM QUE ELES SE CONTENTASSEM EM RECUPERAR AS MULHERES E OS FILHOS, ALEGANDO QUE A FALTA DE CORAGEM OS FIZERA FICAR PARA TRÁS. DAVI CONDENOU-LHES A INJUSTIÇA E DECLAROU QUE FORA DEUS QUEM OS FIZERA OBTER A VITÓRIA E QUE AQUELES HOMENS DEVIAM TER PARTE IGUAL À DELES, POIS NÃO HAVIAM TOMADO PARTE NO COMBATE PORQUE RECEBERAM ORDEM PARA FICAR E CUIDAR DA BAGAGEM. ESSE JUÍZO, TÃO EQÜITATIVO, PASSOU A SER NOSSO COSTUME POR UMA LEI QUE SEMPRE FOI OBSERVADA. APÓS O REGRESSO A ZICLAGUE, DAVI MANDOU AOS PARENTES E AMIGOS NA TRIBO DE JUDÁ UMA PARTE DOS DESPOJOS DOS AMALEQUITAS.
255.  1 SAMUEL 31. TRAVOU-SE, NESSE ÍNTERIM, A BATALHA ENTRE OS FILISTEUS E OS ISRAELITAS, E FOI ENCARNIÇADA DE PARTE A PARTE. NO ENTANTO A VANTAGEM PENDEU FINALMENTE PARA OS FILISTEUS, E SAUL E SEUS FILHOS, QUE ESTAVAM EMPENHADOS NO COMBATE, NÃO TENDO MAIS ESPERANÇA DE OBTER A VITÓRIA, SÓ PENSAVAM EM MORRER GLORIOSAMENTE. PRATICARAM ATOS DE BRAVURA TÃO EXTRAORDINÁRIOS QUE ATRAÍAM SOBRE SI TODAS AS FORÇAS DOS INIMIGOS. E, DEPOIS DE MATAREM UM GRANDE NÚMERO DELES, ACABARAM PERECENDO ESMAGADOS PELA MULTIDÃO.
JÔNATAS E SEUS DOIS IRMÃOS, ABINADABE E MALQUISUA, CAÍRAM ALI MESMO, E A MORTE DELES FEZ OS ISRAELITAS PERDEREM TOTALMENTE O ÂNIMO. FUGIRAM LOGO DEPOIS, E OS FILISTEUS PROMOVERAM GRANDE MATANÇA. SAUL RETIROU-SE, EM BOA ORDEM, COM O QUE PÔDE SALVAR. OS INIMIGOS, PORÉM, MANDARAM UM GRANDE NÚMERO DE AR-QUEIROS E BESTEIROS EM SUA PERSEGUIÇÃO, QUE MATARAM QUASE TODOS A GOLPES DE DARDOS E DE FLECHAS. O PRÓPRIO SAUL, DEPOIS DE TER FEITO O POSSÍVEL, FICOU TÃO CRIVADO DE GOLPES QUE, DESEJANDO MORRER, NÃO LHE RESTAVAM MAIS FORÇAS PARA SE MATAR. ENTÃO ORDENOU AO SEU ESCUDEIRO QUE LHE ATRAVESSASSE O CORPO COM A ESPADA, PARA IMPEDIR QUE CAÍSSE VIVO EM PODER DOS INIMIGOS. VENDO QUE O OUTRO NÃO SE RESOLVIA, COLOCOU A PONTA DA ESPADA SOBRE O ESTÔMAGO E LANÇOU-SE SOBRE ELA. QUANDO O ESCUDEIRO VIU MORTO O SEU SENHOR, MATOU-SE TAMBÉM. E TODOS OS SOLDADOS DE SUA GUARDA FORAM MORTOS PERTO DO MONTE DE CILBOA.
OS ISRAELITAS QUE HABITAVAM O VALE ALÉM DO JORDÃO, AO SABER DA DERROTA E DA MORTE DE SAUL E DE SEUS FILHOS, RETIRARAM-SE PARA LUGARES FORTIFICADOS, ABANDONANDO AS CIDADES QUE POSSUÍAM NA PLANÍCIE, DAS QUAIS OS FILISTEUS SE APODERARAM.
256.  NO DIA SEGUINTE, DEPOIS DESSE GRANDE COMBATE, OS VENCEDORES, DESPOJANDO OS MORTOS, RECONHECERAM O CORPO DE SAUL E OS DE SEUS FILHOS. CORTARAM A CABEÇA DE SAUL, E DEPOIS DE TEREM ANUNCIADO A MORTE DELE POR TODO O PAÍS E CONSAGRADO AS ALMAS NO TEMPLO DE ASTAROTE, SEU FALSO DEUS, PENDURARAM OS CORPOS EM FORCAS, PERTO DA CIDADE DE BETE-SEÃ, QUE HOJE SE CHAMA SCITÓPOLIS.
OS HABITANTES DE JABES-GILEADE DEMONSTRARAM NESSA OCASIÃO A GRANDEZA DE SUA CORAGEM. INDIGNADOS POR VER QUE NÃO SOMENTE HAVIAM PRIVADO TÃO GRANDES PRÍNCIPES DA HONRA DA SEPULTURA COMO AINDA OS TRATAVAM IGNOMINIOSAMENTE, OS MAIS CORAJOSOS DENTRE ELES FORAM DE NOITE APODERAR-SE DOS CORPOS, À VISTA DOS INIMIGOS, E OS LEVARAM SEM QUE ESTES SE ATREVESSEM A PROTESTAR. TODA A CIDADE PRESTOU-LHES HOMENAGEM, ORGANIZANDO UM HONROSO SEPULTAMENTO. PASSARAM DIAS DE LAMENTAÇÕES EM LUTO PÚBLICO, COM AS SUAS MULHERES E CRIANÇAS, NUM JEJUM TÃO RIGOROSO QUE DURANTE TODO ESSE TEMPO NÃO BEBERAM NEM COMERAM, DE TÃO SENTIDOS E PENETRADOS DE DOR QUE ESTAVAM PELA PERDA DE SEU REI E DE SEUS PRÍNCIPES.
Eis como o rei Saul, segundo a profecia de Samuel, terminou a sua vida, tanto por haver desobedecido às ordens de Deus com relação aos amalequitas quanto por ter feito morrer, com toda a casa sacerdotai, o sumo sacerdote Aimeleque e reduzido a cinzas a cidade a eles destinada por Deus como moradia. Reinou dezoito anos durante a vida desse profeta e vinte e dois anos após a morte dele.
 

Livro Sétimo

CAPÍTULO 1
EXTREMA AFLIÇÃO DE DAVI PELA MORTE DE SAUL E DE JÔNATAS. DAVI É
RECONHECIDO REI PELA TRIBO DEJUDÁ. ABNER CONSTITUI ISBOSETE, FILHO
DE SAUL, REI SOBRE TODAS AS OUTRAS TRIBOS E MARCHA CONTRA DAVI.
JOABE, GENERAL DO EXÉRCITO DE DAVI, DERROTA-O. ABNER, FUGINDO, MATA
ASAEL, IRMÃO DE JOABE. ABNER, DESCONTENTE COM ISBOSETE, PASSA PARA
O LADO DE DAVI, OBRIGANDO TODAS AS OUTRAS TRIBOS A PASSAR TAMBÉM.
RESTITUI MICAL A DAVI. JOABE ASSASSINA ABNER. PESAR DE DAVI E
HONRAS QUE PRESTA À SUA MEMÓRIA.

257. 2 Samuel 1. A batalha de que acabamos de falar deu-se ao mesmo tempo em que Davi derrotou os amalequitas. Dois dias após ele retomar a Ziclague, um homem que escapara daquele combate lançou-se aos seus pés com as vestes rasgadas e a cabeça coberta de cinzas. Davi perguntou-lhe de onde vinha, e ele respondeu que chegava do campo onde se havia travado a batalha; que os israelitas haviam sido derrotados; que muitos haviam perecido, estando o rei Saul e seus filhos entre os mortos; que não somente vira com os próprios olhos o que lhe relatava, mas encontrara o rei tão fraco pelos ferimentos que não conseguia nem se matar, por mais que fizesse; e que Saul, para não cair vivo nas mãos dos inimigos, ordenara-lhe que o acabasse de matar, e ele obedecera. Como prova do que estava dizendo, trazia-lhe os braceletes de ouro e a coroa que havia tirado do morto.
Não podendo Davi, diante de tais provas, duvidar de tão funesta notícia, rasgou as próprias vestes, derramou lágrimas e passou o resto do dia em luto e em pranto com os amigos e familiares. E, no meio de tal aflição, a sua maior dor foi ter-se privado, pela morte de Jônatas, de seu mais caro amigo, a cujo afeto e generosidade tantas vezes ficara devendo a vida. Devemos confessar que não se poderia louvar o suficiente a virtude de Davi para com Saul, pois ainda que este tudo fizesse para matá-lo, Davi não somente ficou vivamente sentido com a sua morte como ainda mandou matar aquele infeliz que confessava ter-lhe tirado a vida e que demonstrava, com o assassínio de um rei, ser verdadeiramente um amalequita. E Davi compôs em louvor de Saul e de Jônatas epitafios e versos que ainda hoje são conhecidos e estão cheios dos mais vividos sentimentos de dor.
258. 2 Samuel 2. Depois de se ter desincumbido das honras que podia prestar à memória de Saul e de seus filhos e de passar o tempo do luto, Davi consultou a Deus, por meio de profeta, para saber em que cidade da tribo de Judá lhe seria agradável que ele morasse. Deus respondeu-lhe que era em Hebrom. Partiu para lá imediatamente, levando com ele as suas duas mulheres e o que restava de seus soldados. Quando se espalhou a notícia de sua chegada, toda a tribo foi encontrá-lo e de comum acordo declarou-o rei. Ele soube então da generosidade dos habitantes de Jabes, de como demonstraram respeito e amor para com Saul e os príncipes seus filhos. Louvou-os muito e mandou agradecer-lhes, comunicando ao mesmo tempo que a tribo de Judá o havia reconhecido como rei.
259.  Depois da morte de Saul e de seus três filhos naquela grande batalha, Abner, filho de Ner, que comandava o exército, salvou Isbosete, único filho do sexo masculino que restava de Saul, e o fez passar o Jordão e ser reconhecido como rei por todas as outras tribos. Escolheu para moradia real a cidade de Maanaim, que em hebreu significa &quot;os dois campos&quot;. Esse general era homem de muita coragem, capaz de levar a cabo grandes empresas, e não pôde tolerar que a tribo de Judá tivesse escolhido Davi para rei. Então marchou contra eles com o melhor de suas tropas.
Joabe, filho de Zur e de Sarvia, irmã de Davi, acompanhado por Abisai e Asael, seus dois irmãos, veio-lhe de encontro com todas as forças de Davi. Os dois campos estavam um em frente do outro, e Abner propôs que antes de travarem combate se experimentasse o valor de ambos os partidos por alguns de seus membros. Joabe aceitou a proposta, e escolheram-se doze de cada lado. Combateram entre os dois acampamentos, começando por lançar dardos e chegando depois ao cor-po-a-corpo. Cada qual tomou o seu inimigo pelo cabelo e, furiosamente, deram-se tantos golpes de espada que todos morreram na luta. Em seguida travou-se o combate: foi muito encarniçado, e o exército de Davi foi vencedor.
Abner foi obrigado a se unir aos fugitivos, enquanto Joabe e seus irmãos exortavam os soldados a não deixar de persegui-los. Asael, que avançava na corrida, ultrapassou não somente os próprios companheiros, mas também os cavalos mais rápidos e assim alcançou Abner. Sem se deter, seguiu-o com extrema obstinação. Abner vendo-se seguido de perto, gritou-lhe que se deixasse de persegui-lo dar-lhe-ia um par de armas completo. Mas quando percebeu que Asael continuava avançando, disse-lhe que não o obrigasse a matá-lo e assim fazer de Joabe, seu irmão, um inimigo irreconciliavel. Por fim, vendo que era acossado sempre mais, lançou o dardo, e o golpe foi tão forte que derrubou Asael morto por terra.
Os companheiros que vinham atrás dele pararam para recolher o corpo, mas Joabe e Abisai, inflamados pelo desejo de vingar a morte do irmão, continuaram perseguindo os inimigos com mais ardor ainda, até que o Sol se escondeu. Então eles pararam num lugar de nome Amom, isto é, &quot;aqueduto&quot;. Abner gritou nesse momento a joabe que não se devia incitar os de mesmo sangue a novo combate e que ele, joabe, estava tão errado quanto o seu irmão Asael, cuja teimosia em persegui-lo fora a única razão de sua infelicidade, pois, por mais que lhe tivesse rogado para não continuar a perseguição, fora obrigado a desferir-lhe o golpe que o prostrara.
Joabe então mandou tocar a retirada, e acamparam imediatamente no lugar onde estavam. Abner, porém, sem se deter, marchou ainda durante toda a noite, passou o Jordão e foi reunir-se ao rei Isbosete. No dia seguinte, Joabe mandou enterrar os mortos, que eram mais ou menos uns trezentos e sessenta do lado de Abner e vinte somente, inclusive Asael, do seu lado. Fez levar o corpo deste para Belém, onde o sepultou no túmulo de seus antepassados, e voltou em seguida para junto de Davi, em Hebrom.
2 Samuel 3. Essa foi a origem da guerra civil entre os israelitas, que durou muito tempo. Mas o partido de Davi se fortalecia cada vez mais, enquanto o de Isbosete se enfraquecia.
260. Davi teve seis filhos de seis mulheres: de Ainoã, Amom, o mais velho; de Abigail, Quileabe, que era o segundo; de Maaca, filha de Talmai, rei de Gesur, Absalão, que era o terceiro; de Hagite, Adonias, que era o quarto; de Abital, Sefatias, que era o quinto; de Eglá, Itreão, que era o sexto.
261.  Durante a guerra civil entre os dois reis e nos diversos combates que se travaram, a principal força de Isbosete consistia no valor e na prudência de Abner, general de seu exército, cuja sábia orientação conservou por muito tempo o povo no partido do rei. Esse príncipe, porém, irritou-se fortemente contra Abner, porque lhe disseram que ele conservava consigo Rispa, filha de Aiá, a qual fora amada pelo rei Saul, seu pai. Vendo-se tão mal recompensado pelos seus serviços, Abner sentiu-se ofendido e ameaçou passar para o partido de Davi e fazer com que todos soubessem que Isbosete devia a coroa ao afeto dele, bem como à sua fidelidade e experiência na guerra.
As ameaças foram seguidas pelos fatos. Ele mandou dizer a Davi que proporia a todos abandonar Isbosete e escolher Davi para rei, contanto que este lhe prometesse com juramento que o receberia entre os seus amigos particulares e o honraria com a sua confiança particular. Davi aceitou o oferecimento com alegria e, para fortalecer ainda mais o trato, declarou que desejava que Abner lhe enviasse Mical, sua mulher, que conquistara com perigo da própria vida, dando a Saul, para merecê-la, os prepúcios de duzentos filisteus. Abner, para satisfazer esse desejo, tirou a princesa de Paltiel, a quem fora dada em casamento por Saul, como já dissemos, e a devolveu, com o consentimento de Isbosete, ao qual Davi já escrevera a esse respeito.
Abner reuniu em seguida os chefes do exército e os maiorais do povo e disse-lhes que, se desejavam deixar Isbosete para seguir Davi, ele não os proibia, mas deixava-os livres, pois soubera que Deus, pelas mãos de Samuel, elegera Davi rei de todo o seu povo e que o profeta havia predito que somente a ele estava reservada a glória de vencer os filisteus. Essas palavras de Abner, que bem manifestavam os seus sentimentos, causou tal impressão sobre os Espíritos deles que todos abertamente se declararam por Davi. Faltava porém, ganhar a tribo de Benjamim, da qual se compunha toda a guarda de Isbosete. Abner apresentou-lhes as mesmas razões e os persuadiu como aos demais.
Depois de haver assim cumprido a sua promessa, ele foi na companhia de vinte pessoas procurar Davi para prestar-lhe contas do que havia feito e obter a confirmação da palavra que lhe fora dada. Davi recebeu-o com demonstrações de afeto, tal como ele desejava, tratando-o magnificamente durante alguns dias, depois dos quais Abner rogou que lhe fosse permitido voltar para trazer o exército de Isbosete e fazer Davi reinar sozinho sobre todo o Israel.
Mal ele saiu de Hebrom, Joabe chegou e soube do que se passara. Conhecendo os méritos de Abner, que era um grande general e acabara de prestar a Davi um serviço tão importante, temeu que ele viesse a disputar-lhe o primeiro lugar e obtivesse até mesmo, com prejuízo seu, o comando do exército. Assim, para impedi-lo, procurou persuadir Davi a não prestar fé nas promessas de Abner, afirmando saber com muita certeza que ele faria todo o possível para manter a coroa sobre a cabeça de Isbosete, que tudo o que prometera era apenas um ardil para enganá-lo e que se havia retirado com grande alegria por ter obtido êxito em seus desígnios.
Quando percebeu que as suas palavras não causavam efeito algum no Espírito do sábio príncipe, joabe tomou uma resolução infame e, para executá-la, mandou a toda pressa dizer a Abner, como se fosse da parte de Davi, que voltasse imediatamente, porque havia se esquecido de falar .uma coisa muito importante. Encontraram Abner num lugar chamado Sira, distante de Hebrom uns vinte estádios. Como ele não desconfiava de nada, voltou imediatamente. Joabe, acompanhado por Abisai, seu irmão, foi ao encontro dele com grandes demonstrações de amizade, como costumam fazer os que têm maus desígnios: levou-o à parte, junto de uma porta, com o pretexto de querer falar-lhe em segredo sobre um assunto muito importante, e, sem dar-lhe tempo para defender-se, atravessou-lhe o corpo com a espada.
Alegou como desculpa para uma ação tão covarde e vergonhosa a morte do irmão, Asael, embora na realidade a tenha cometido pelo temor de perder o cargo e de ser diminuído em prestígio perante Davi. Pode-se ver, com esse exemplo, como nada há que o interesse e a ambição, bem como a inveja, não sejam capazes de levar os homens a cometer. Eles usam de todos os meios para consolidar a sua posição ou para elevar-se às honras e quando conseguem não sentem horror em recorrer ao crime para se manter ali. Consideram um mal menor não poder conquistar essas vantagens, mas estas lhes fazem a felicidade e toda a sua alegria, e então, depois de as haver conquistado, querem a todo custo conservá-las e tudo fazem para não perdê-las.
Nada se pode acrescentar à dor que sentiu Davi por esse tão infame assassinato. Ele protestou energicamente junto de Deus e, elevando as mãos para o céu, declarou que não estava informado dele e que não o havia encomendado e fez estranhas imprecações contra quem o havia cometido, contra os seus cúmplices e contra toda a família do assassino. Não podia tolerar que o tivessem por suspeito de um crime tão vergonhoso como o de faltar à palavra e violar um juramento. Determinou luto público por Abner e mandou prestar-lhe homenagens tão solenes que pessoas da mais alta condição acompanharam o corpo com a cabeça coberta por um saco e com vestes rasgadas. Ele mesmo quis assistir a essa triste cerimônia.
As sua lágrimas e suspiros revelaram ainda mais a sua tristeza por aquela morte e demonstraram o quanto ele estava longe de ter consentido em tão má ação. Mandou construir para ele, em Hebrom, um magnífico túmulo, no qual gravou um epitáfio que compôs em seu louvor. Chorou sobre o túmulo, e todos fizeram o mesmo, a seu exemplo, sem que fosse possível durante todo aquele dia, por mais que lhe rogassem, fazê-lo ingerir qualquer alimento antes do pôr-do-sol.
Tantos testemunhos de justiça e piedade granjearam a Davi o afeto de todo o povo, principalmente daqueles que admiravam e amavam Abner. Não deixavam de louvá-lo por conservar tão religiosamente depois da morte de Abner a palavra que lhe dera em vida e por lhe haver prestado homenagens como as que se fariam ao melhor amigo ou a um parente próximo, em vez de insultar-lhe a memória, já que fora seu inimigo. Assim, esse fato em nada diminuiu a reputação de Davi, pelo contrário, aumentou-a bastante. Não houve pessoa à qual a admiração de tão extrema bondade não fizesse esperar os seus efeitos no futuro. E não restou a menor suspeita de qualquer participação sua, por mínima que fosse, em tão odioso crime.
E, como nada quisesse omitir na demonstração de dor pela morte de Abner, acrescentou a todas as evidências estas palavras, ditas à multidão presente aos funerais: &quot;Toda a nossa família sofreu enorme perda na pessoa de Abner, grande general e homem capaz de dirigir as mais importantes empresas. Mas Deus, cuja providência governa o mundo, não deixará impune a sua morte, joabe e Abisai sentirão os efeitos de sua justiça, e tomo-o como testemunha de que a única razão que me impede de castigá-los como merecem é serem eles mais poderosos do que eu&quot;.

CAPÍTULO 2
BAANÁ E RECABE ASSASSINAM O REI ISBOSETE E LEVAM A SUA CABEÇA A
DAVI, QUE, EM VEZ DE RECOMPENSÁ-LOS, OS MANDA MATAR. TODAS AS
TRIBOS RECONHECEM DAVI COMO REI. ELE REÚNE AS SUAS FORÇAS E TOMA
JERUSALÉM. JOABE SOBE POR PRIMEIRO À MURALHA ABERTA.

262. 2 Samuel 4. Isbosete ficou extremamente aflito com a morte de Abner porque, além de ser um parente muito próximo, devia a ele o fato de ter sucedido ao pai no governo. Mas ele também não viveu muito tempo depois de sua morte. Baaná e Recabe, filhos de Rimom, dois dos principais da tribo de Benjamim, assassinaram-no no leito, julgando que estavam prestando um grande serviço a Davi e que assim conquistariam um cargo elevado. Aproveitaram o momento em que ele dormia a sesta, pelo meio-dia, por causa do calor, estando os guardas também adormecidos. Então cortaram-lhe a cabeça e partiram apressadamente, como se fossem perseguidos, para levá-la a Davi.
Relataram a Davi o que haviam feito, enaltecendo a importância do serviço que a ele prestavam, pois haviam eliminado aquele que lhe disputava o reino. Em vez da recompensa que esperavam, porém, receberam esta terrível resposta, proferida com cólera: &quot;Celerados que sois, sereis imediatamente castigados segundo a gravidade de vosso crime. Ignorais, talvez, o modo como tratei aquele que disse ter matado Saul e me trouxe a sua coroa? Ou julgais que mudei tanto de caráter que agora estime os maus e considere um favor que vos deva agradecer o crime que acabais de cometer contra o vosso senhor? Covardes e ingratos! Não tendes horror em matar no próprio leito um príncipe que jamais fez mal a alguém e que ainda vos agraciou com tantos benefícios? Mas eu vos castigarei como merece a vossa perfídia e pela ofensa que me fizestes, julgando-me capaz de aprovar e mesmo de me regozijar com tão detestável ação&quot;. Davi, depois de assim falar, mandou que os matassem de modo cruel e ordenou magníficos funerais a Isbosete, colocando a cabeça dele no sepulcro de Abner.
263.  2 Samuel 5. Logo depois, todos os chefes dos israelitas e os oficiais do exército vieram procurar esse generoso príncipe em Hebrom para prometer-lhe fidelidade como rei. Lembraram-lhe os serviços que lhes havia prestado, mesmo durante a vida de Saul, e o respeito com o qual o obedeciam quando comandava parte das tropas desse príncipe. Acrescentaram que havia muito tempo sabiam que Deus declarara pelo profeta Samuel que ele e seus filhos depois dele reinariam sobre o povo e que ele subjugaria os filisteus. Davi demonstrou muita satisfação pela boa vontade deles, exortou-os a continuar e garantiu que não lhes daria jamais motivo para se arrependerem. Deu-lhes depois um grande banquete e, após externar todo o afeto que poderiam desejar, despediu-os com ordem de trazerem a Hebrom, de cada tribo, todos os que estavam armados e em condições de servir.
264.  7 Crônicas 12. Em cumprimento a essa ordem, vieram a Hebrom seis mil e oitocentos homens da tribo de Judá, armados com lanças e escudos. Eles pertenciam ao partido de Isbosete e não contavam entre os da mesma tribo que haviam escolhido Davi como rei.
Da tribo de Simeão, vieram sete mil e cem homens, comandados por Jodã, com os quais estava Zadoque, o sumo sacerdote, e vinte e dois de seus parentes. Da tribo de Benjamim, três mil homens somente, porque ela sempre esperava que alguém da família de Saul viesse a reinar. Da tribo de Efraim, vinte mil e oitocentos homens, muito robustos e valentes. Da metade da tribo de Manasses, dezoito mil homens. Da tribo de Issacar, vinte mil homens e com eles duzentos homens que adivinhavam as coisas futuras. Da tribo de Zebulom, cinqüenta mil homens, todos escolhidos dentre a elite, pois essa tribo foi a única que passou completa para o lado de Davi, e estavam armados como os da tribo de Gade. Da tribo de Naftali, mil homens escolhidos, todos armados com escudos e dardos, seguidos por uma multidão enorme de soldados menos importantes. Da tribo de Dã, vinte e oito mil e seiscentos homens, todos escolhidos. Da tribo de Aser, quarenta mil homens. E das tribos de Rúben e de Gade e da outra metade da tribo de Manasses, que estavam do outro lado do Jordão, cento e vinte mil homens, todos armados com dardos, escudos, capacetes e espadas.
265.  Essas foram as tropas que vieram encontrar-se com Davi em Hebrom, trazendo consigo grande quantidade de munições de guerra e de boca. Todos, de comum acordo, declararam Davi como rei. Depois de passarem três dias em festas e banquetes públicos, marcharam todos para Jerusalém. Os jebuseus, que a habitavam e eram descendentes dos cananeus, vendo-os aproximar-se, fecharam as portas e, para mostrar o seu desprezo, colocaram sobre os muros da cidade somente os cegos, os coxos e outros aleijados, dizendo que eram suficientes para defendê-la, de tanto que confiavam nas suas fortificações.
Davi, irritado com tanta insolência, resolveu atacá-los com a máxima energia, a fim de pela tomada dessa cidade incutir o terror em todas as outras que lhe quisessem fazer resistência. Ele apoderou-se da cidade baixa, mas era muito difícil tomar a fortaleza. Para animar os seus homens a empregar o máximo de esforço, prometeu recompensas e honras aos que mais se distinguissem pela coragem e o cargo de general ao comandante que por primeiro subisse as muralhas. O desejo de conquistar tão grande honra levou-os a fazer de tudo para merecê-la. Mas Joabe a todos sobrepujou e pediu então ao rei em alta voz que cumprisse a promessa.

CAPÍTULO 3
DAVI ESTABELECE RESIDÊNCIA EM JERUSALÉM E EMBELEZA MUITO A CIDADE. O REI DE TIRO BUSCA ALIANÇA COM ELE. MULHERES E FILHOS DE DAVI.

266.  Depois que Davi tomou a cidade de Jerusalém, expulsou dela todos os jebuseus, mandou consertar as brechas, deu seu nome à cidade e nela estabeleceu a sua corte durante todo o resto de seu reinado, deixando Hebrom, onde havia passado sete anos e meio e durante os quais reinara somente sobre a tribo de Judá. Desde então os seus interesses prosperaram sempre e cada vez mais, pelo auxílio que recebia de Deus. Embelezou de tal modo Jerusalém que a tornou célebre por isso.
267.  Hirão, rei de Tiro, mandou embaixadores a Davi, propondo-lhe aliança e amizade e presenteando-o com grande quantidade de madeira de cedro e operários muito hábeis, para a construção de um palácio. Davi uniu a cidade à fortaleza, deu a Joabe o encargo de encerrá-las numa mesma fortificação e mandou mudar o nome da cidade.
Desde os tempos de Abraão, que consideramos o autor de nossa raça, era chamada Salém ou Solima, e alguns afirmam que assim a chama o próprio Homero, pois a palavra &quot;templo&quot; significa em hebreu &quot;segurança&quot; ou &quot;fortaleza&quot;. Quinhentos e quinze anos se haviam passado desde que Josué repartira as terras conquistadas aos cananeus até o dia em que Davi tomou Jerusalém, sem que jamais os israelitas dela tivessem podido expulsar os jebuseus.
Não devo deixar de dizer que Davi salvou a vida e os bens de um dos mais ricos habitantes de Jerusalém, de nome Orfana, tanto porque ele havia demonstrado afeição aos israelitas quanto porque havia agradado ao rei. Davi desposou ainda outras mulheres, das quais teve filhos, a saber: Samua, Sobabe, Nata, Salomão, Ibar, Elisua, Elpelete, Nogá, Nefegue, Jafia, Elisama, Beeliada e Elifelete.

CAPÍTULO 4
DAVI OBTÉM GRANDES VITÓRIAS SOBRE OS FILISTEUS E SEUS ALIADOS. FAZ
LEVAR COM GRANDE POMPA A ARCA DO SENHOR PARA JERUSALÉM. UZÁ
MORRE POR TER QUERIDO TOCÁ-LA. MICAL ZOMBA DE DAVI POR TER ELE
CANTADO E DANÇADO DIANTE DA ARCA. DAVI QUER CONSTRUIR O TEMPLO,
MAS DEUS LHE ORDENA QUE RESERVE ESSA EMPRESA A SALOMÃO.

268.  Quando os filisteus souberam que Davi fora constituído rei de todo o Israel, reuniram um grande exército e vieram acampar próximo de Jerusalém, num vale chamado de Refaim. Davi, que jamais empreendia coisa alguma sem consultar a Deus, rogou ao sumo sacerdote que se revestisse do éfode para saber qual seria o resultado daquela guerra. Deus respondeu que o seu povo seria vencedor. Davi marchou imediatamente contra os inimigos, surpreendeu-os, matou um grande número deles e pôs o restante em fuga.
Não se deve no entanto imaginar que, por ter ele conquistado tão facilmente essa vitória, o exército dos filisteus fosse fraco ou pouco aguerrido. Eles haviam chamado em seu auxílio toda a Síria e toda a Fenícia, que são nações muito valentes, como bem o deram a conhecer, porque, em vez de perder a coragem após uma derrota, voltaram a atacar os israelitas com três poderosos exércitos, acampando no mesmo lugar onde haviam sido derrotados.
Davi rogou mais uma vez ao sumo sacerdote que consultasse ao Senhor. Ele o fez, e Deus ordenou-lhe que ficasse com o exército na floresta chamada Os Lamentos e só saísse para o combate quando visse que os ramos das árvores se moviam por si mesmos, embora o tempo estivesse tão calmo que não havia no ar o menor vento para causar aquele efeito. Davi obedeceu rigorosamente e, quando Deus deu a conhecer por aquele milagre que o favorecia com a sua presença, marchou com inteira certeza de obter a vitória.
Os inimigos não sustentaram nem o primeiro choque. Voltaram imediatamente as costas aos israelitas, e assim estes os matavam sem dificuldades. Perseguiram-nos até Gezer, que está na fronteira dos dois reinos, e voltaram depois de saquear o acampamento, onde encontraram grandes riquezas e os ídolos de seus deuses, aos quais fizeram em pedaços.
269. Depois desses dois combates tão favoráveis, Davi, juntamente com o conselho dos maiorais do povo e dos chefes do exército, mandou as principais forças da tribo de Judá acompanhar os sacerdotes e os levitas, que deviam ir buscar a arca do Senhor em Quiriate-Jearim e trazê-la para Jerusalém, cidade destinada a realizar no futuro os sacrifícios que se ofereciam a Deus, a prestar as honras que lhe são agradáveis e a cumprir tudo o que se relaciona ao culto divino. (Se Saul o tivesse observado religiosamente, não teria sido vítima de tantas desgraças, que o fizeram perder a coroa e a vida.)
Depois de tudo preparado, Davi quis assistir à grande cerimônia. Os sacerdotes tomaram a arca da casa de Abinadabe e a puseram sobre um carro novo, puxado por bois. Tal encargo foi confiado aos irmãos e filhos de Abinadabe. O rei caminhava à frente, e todo o povo seguia cantando salmos, hinos e cânticos ao som de trombetas, címbalos e de vários outros instrumentos. Quando chegaram a um lugar conhecido como a eira de Quidom, os bois desgarraram-se um pouco e fizeram pender a arca. Então Uzá estendeu a mão para segurá-la e caiu morto no mesmo instante, fulminado pela cólera de Deus, porque, não sendo sacerdote, tivera a ousadia de querer tocá-la. Esse lugar, depois, foi chamado Perez-Uzá.
Davi, espantado com o milagre, teve receio de que a mesma coisa lhe acontecesse se levasse a arca à cidade, pois Uzá fora severamente castigado apenas por querer tocá-la, e a mandou colocar na casa de campo de um homem de bem muito conhecido: Obede-Edom, que era da raça dos levitas. Lá ficou três meses, e a felicidade que ela trouxe cumulou-o, e a toda a família, de inúmeros bens. Davi, vendo que aquele homem pobre se tornara rico e que muitos começavam a invejá-lo, não receou mais que algum mal fosse lhe suceder se levasse a arca para Jerusalém. E assim fez.
Os sacerdotes, acompanhados por sete ordens de músicos, levaram-na sobre os ombros. E ele mesmo, andando diante dela, dançava e tocava harpa. Esse proceder pareceu a Mical, sua esposa, tão abaixo de sua condição de rei, que ela zombou dele. Quando a arca chegou à cidade, foi colocada num tabernáculo que Davi mandara construir especialmente para ela. Fizeram-se tantos sacrifícios nessa ocasião que parte dos animais imolados foi suficiente para alimentar todo o povo. Não houve homem, mulher ou criança que não recebesse um pedaço de carne, um bolo e uma empada.
Depois que todos voltaram para as suas casas e Davi ao seu palácio, Mical veio ter com ele e, depois de lhe ter desejado toda sorte de felicidade, disse que achava estranho um príncipe tão ilustre quanto ele agir de modo tão inconveniente, como dançar diante de todos sem que houvesse em seus vestess o menor indício de realeza. Ele respondeu-lhe que não estava arrependido do que fizera, porque sabia que aquele seu gesto fora agradável a Deus, que o havia preferido ao rei, pai dela, e a todos os de sua nação, e que nada o impediria de se comportar sempre do mesmo modo. Essa princesa não teve filhos dele, mas teve cinco de Paltiel, como diremos a seu tempo.
270. 2 Samuel 7. Davi, notando que tudo lhe saía às mil maravilhas, pelo auxílio que recebia de Deus, julgou não poder, sem ofendê-lo, morar em um magnífico palácio, todo construído em madeira de cedro e enriquecido com toda espécie de ornamentos, e permitir ao mesmo tempo que a arca da aliança repousasse num simples tabernáculo. Assim, ele resolveu construir em honra de Deus um templo soberbo, tal como Moisés dissera que deveria no futuro existir. Falou disso ao profeta Nata, o qual respondeu que julgava que Deus o aprovaria e o ajudaria naquela empresa.
Na noite seguinte, porém, Deus apareceu em sonhos a Nata e ordenou-lhe que dissesse a Davi que, apesar de louvar a sua intenção, não queria que ele a executasse, porque as suas mãos haviam sido muitas vezes manchadas com o sangue dos inimigos; que quando a sua vida terminasse, todavia, numa feliz velhice, Salomão, seu filho e sucessor, começaria e levaria a cabo o empreendimento; que Ele teria por esse príncipe o cuidado que um pai tem por seu filho; que, depois dele, faria reinar os seus filhos; e que, se eles o ofendessem, afligiria o reino com doenças e carestias, como castigos.
Davi, ao saber pelo profeta, com grande alegria, que o reino passaria aos seus descendentes e que a sua posteridade seria ilustre, foi imediatamente prostrar-se diante da arca para adorar a Deus e agradecer-lhe, uma vez que Ele, não se contentando em tê-lo elevado de simples pastor a tão grande poder, queria ainda passá-lo aos seus sucessores e porque a sua providência não deixava de velar pela salvação do seu povo, a fim de fazê-los desfrutar a liberdade que lhes havia conquistado, salvando-os da escravidão.

CAPITULO 5
GRANDES VITÓRIAS OBTIDAS POR DAVI SOBRE OS FILISTEUS, OS MOABITAS E
O REI DOS SOFONIANOS.

271. 2 Samuel 8. Pouco tempo depois, Davi, que não queria passar a vida na ociosidade, mas desejava aumentar o reino por meio de guerras justas e santas e torná-lo poderoso a ponto de os seus filhos o possuírem em paz, como Deus lhe havia predito, resolveu atacar os filisteus. Para executar essa deliberação, reuniu todas as tropas nas proximidades de Jerusalém e marchou contra eles. Venceu-os em grande batalha e conquistou parte de seu país, que anexou ao reino. Fez também guerra aos moabitas, dos quais matou um número muito grande. O resto entregou-se, e ele lhes impôs tributo. Atacou depois os sofonianos, derrotando em batalha, perto do Eufrates, ao seu rei, Adrazar, filho de Araque, matando dois mil soldados de infantaria e cinco mil cavaleiros e tomando mil carros, dos quais conservou somente cem e queimou o resto.

CAPÍTULO 6
DAVI DERROTA HADADEZER, REI DE DAMASCO E DA SÍRIA, EM GRADE
BATALHA. O REI DOS BAMATENIANOS PROCURA A SUA ALIANÇA. DAVI
SUBJUGA OS IDUMEUS. CUIDA DE MEFIBOSETE, FILHO DE JÔNATAS. DECLARA
GUERRA A HANUM, REI DOS AMONITAS, QUE TRATARA INDIGNAMENTE OS
SEUS EMBAIXADORES.

272.  Hadadezer, rei de Damasco e da Síria, que era muito amigo de Adrazar, tendo sabido que Davi lhe fazia guerra, marchou em seu auxílio com um grande exército. A batalha travou-se próximo do Eufrates. Hadadezer foi vencido, perdeu vinte mil homens, e o resto salvou-se na fuga. O historiador Nicolau fala nestes termos desse feito no quarto livro de sua história: &quot;Muito tempo depois, o mais poderoso de todos os príncipes daquele país, de nome Hadadezer, reinava em Damasco e em toda a Síria, exceto a Fenícia. Fez guerra a Davi, rei dos judeus, e depois de diversos combates foi vencido por ele em grande batalha, que se travou junto do Eufrates, onde praticou feitos dignos de grande general e grande rei&quot;.
Esse mesmo autor fala também dos descendentes desse príncipe, que reinaram sucessivamente depois dele e herdaram dele não menos a coragem que o reino. Estas são as suas palavras: &quot;Depois da morte desse príncipe, seus descendentes, que tiveram todos o mesmo nome, como os Ptolomeus no Egito, reinaram até a décima geração e não sucederam menos à sua glória que à coroa. O terceiro deles, que foi o mais ilustre de todos, querendo vingar a derrota que seu avô havia sofrido, atacou os judeus sob o reinado de Acabe e devastou todo o país nos arredores de Samaria&quot;.
Assim fala esse historiador, e segundo a verdade, pois é certo que Hadadezer devastou os arredores de Samaria, como diremos a seu tempo. Davi, depois de submeter à sua obediência, por meio de suas armas vitoriosas, o reino de Damasco e todo o resto da Síria, colocou fortes guarnições nos lugares mais importantes e tornou tributários todos esses povos, voltando depois triunfante a Jerusalém. Consagrou a Deus as aljavas de ouro e as outras armas dos guardas do rei Hadadezer, mas quando Sisaque, rei do Egito, venceu Roboão, filho de Salomão, e tomou Jerusalém, ele as levou junto com tantos outros ricos despojos, como diremos a seu tempo, mais particularmente na continuação desta história.
Esse poderoso e sábio rei dos israelitas, para aproveitar o auxílio que recebia de Deus, atacou as duas principais cidades do rei Adrazar, chamadas Beta e Malcom. Tomou-as, saqueou-as e lá encontrou, além de grande quantidade de ouro e prata, uma espécie de cobre que é considerado melhor que o ouro e do qual Salomão, quando construiu o Templo, mandou fazer aquelas belas bacias e o grande vaso a que deram o nome de mar.
273.  A ruína do rei Adrazar fez Toí, rei dos hamatenianos, pensar que não teria melhor sorte, e então ele resolveu mandar o príncipe Jorão, seu filho, ao rei Davi, para regozijar-se com ele pela vitória obtida sobre um inimigo comum, bem como para pedir a sua aliança e oferecer-lhe ricos vasos de ouro, de prata e de cobre, de uma obra muito antiga. Davi prestou a esse príncipe todas as honras que eram devidas, tanto a ele quanto ao seu pai. Fez a desejada aliança, recebeu os presentes e consagrou-os a Deus com o resto do ouro encontrado nas cidades que conquistara.
Agia assim porque a sua piedade o fazia reconhecer que não se podia agradecer demasiado a bondade divina, pois ela o tomava vitorioso não somente quando marchava em pessoa à frente dos exércitos, mas até mesmo quando fazia guerra por meio de seus lugar-tenentes, como na que empreendeu contra os idumeus, sob o comando de Abisai, irmão de Joabe, que não somente os submeteu e tornou tributários, depois de matar dezoito mil homens numa batalha, como também impôs a todos eles um tributo por cabeça.
274. O amor que esse rei admirável nutria naturalmente pela justiça era tão grande que ele não pronunciava sentença alguma que não fosse muito eqüitativa. Joabe era o general de seu exército. O chefe dos registros públicos era josafá, filho de Ailude, secretário do conselho. Sifã era o capitão da guarda, à qual pertenciam os mais velhos de seus filhos e Benaia, filho de Joiada. Ele juntou Zadoque a Abiatar no sumo sacerdócio, pois tinha afeto particular por aquele e porque era da família de Finéias.
275.  2 Samuel 9. Depois de ajustar todas as coisas, Davi lembrou-se da aliança que fizera com Jônatas e das muitas provas que recebera de sua amizade, pois dentre outras excelentes qualidades tinha extrema gratidão. Indagou então se não restava algum filho de Jônatas, para com o qual pudesse mostrar a gratidão de que era devedor. Levaram-lhe um dos libertos de Saul, de nome Ziba, que sabia existir ainda um dos filhos desse príncipe, de nome Mefibosete, que era coxo porque a sua ama, ao saber da derrota na batalha e da morte de Saul e de Jônatas, ficara tão assustada que o deixara cair.
Davi mandou procurá-lo com todo empenho. Pouco tempo depois, informaram-no que Maquir o educava na cidade de Labate,* e mandou buscá-lo imediatamente. Quando Mefibosete chegou, prostrou-se diante do rei. Davi disse-lhe que nada temesse e esperasse dele um tratamento muito favorável: dar-lhe-ia de novo a posse de todos os bens que pertenciam ao seu pai e ao rei Saul, seu avô, e queria que viesse sempre tomar as suas refeições com ele.
Mefibosete, fora de si diante de tantas gentilezas, prostrou-se outra vez diante do rei, para humildemente agradecer-lhe. Davi ordenou a Ziba que fizesse chegar às mãos de Mefibosete os bens que lhe restituíra, que lhe trouxesse todos os anos a renda a Jerusalém e que o servisse com os quinze filhos e os vinte servidores que possuía. Assim, Davi tratou o filho de Jônatas como se fosse seu próprio filho, deu o nome de Mica a um dos filhos desse príncipe e tomou cuidado particular de todos os outros parentes de Saul e de jônatas.

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* Ou Lo-Debar.

276.  2 Samuel 10. Naás, rei dos amonitas e aliado de Davi, morreu naquele tempo, e Hanum, seu filho, sucedeu-o. Davi enviou-lhe embaixadores para manifestar que tomava parte na sua dor e para garantir a continuação da amizade que tivera com o rei seu pai. Porém os principais da corte de Hanum, por injuriosa desconfiança, imaginaram que a embaixada era pretexto para observar o estado de suas forças e disseram ao novo rei que ele não podia, sem se colocar em grande perigo, prestar fé às palavras do rei dos israelitas.
O príncipe, deixando-se levar pelo mau conselho, mandou raspar a metade da barba dos embaixadores e cortar-lhes a metade das vestes. Essa ação tão ultrajosa foi a resposta que lhes deram. Davi, sentido com tal injúria, que violava mesmo o direito das gentes, declarou em alta voz que se vingaria pelas armas. O temor fez os amonitas prepararem-se para a guerra. O rei deles enviou embaixadores a Siro, rei da Mesopotâmia, com mil talentos, para obrigá-lo a ajudar os amonitas. O rei Zobá uniu-se a ele, e esses dois príncipes juntos levaram a Hanum vinte mil soldados de infantaria. Dois outros reis, um de Maaca e o outro de nome Tobe, levaram-lhe vinte e dois mil homens.

CAPÍTULO 7
JOABE, GENERAL DO EXÉRCITO DE DAVI, DERROTA OS QUATRO REIS QUE
VIERAM EM SOCORRO DE HANUM, REI DOS AMONITAS. DAVI VENCE EM
PESSOA GRANDE BATALHA SOBRE O REI DOS SÍRIOS. ENAMORA-SE DE BATE-
SEBA, TOMA-A E É CAUSA DA MORTE DE URIAS, SEU MARIDO. DESPOSA
BATE-SEBA. DEUS, POR MEIO DO PROFETA NATA, REPREENDE-O PELO SEU
PECADO. DAVI ARREPENDE-SE. AMOM, FILHO MAIS VELHO DE DAVI,
VIOLENTA TAMAR, SUA IRMÃ, E ABSALÃO, IRMÃO DE TAMAR, MATA-O.

277. Os grandes preparativos dos amonitas e a união de tantos reis não atemorizaram Davi, porque a guerra que empreenderia para ressarcir tão grande ultraje não podia ser mais justa. Mandou contra eles as melhores tropas, sob o comando de Joabe, que sem perder tempo lhes foi sitiar a capital, de nome Rabá. Os inimigos saíram da cidade para combatê-lo e dividiram as suas forças em duas partes.
Os exércitos auxiliares puseram o seu campo de batalha em uma planície, e as tropas dos amonitas colocaram-se perto das muralhas, em frente aos aliados. Joabe marchou com tropas escolhidas contra os reis que vieram em socorro de Hanum. Deu o comando do restante a Abisai, para atacar os amonitas, com ordem para este vir socorrê-lo se fosse acossado. Do mesmo modo Joabe o socorreria, caso não pudesse resistir aos amonitas. Exortou os soldados a combater valorosamente, de forma que não pudessem ser acusados de recuar. Os reis estrangeiros sustentaram com bastante energia os primeiros ímpetos de Joabe, mas por fim, após a perda de um grande número de homens, fugiram. Os amonitas, vendo-os derrotados, não ousaram combater contra Abisai e voltaram para as suas cidades. Joabe então regressou vencedor para junto do rei em Jerusalém.
Embora a derrota tivesse feito conhecer aos amonitas a sua fraqueza, eles não se mostraram sensatos, recusando-se a estabelecer a paz. Mandaram embaixadores a Calama, rei dos sírios que moram além do Eufrates, para tomar tropas sob pagamento, e ele lhes enviou oitenta mil homens de infantaria e dez mil cavaleiros, comandados por Sobaque, seu lugar-tenente e general. Davi, percebendo que os inimigos eram perigosos, não quis mais fazer guerra por meio de seus chefes, mas determinou ir em pessoa. Passou o Jordão, marchou contra eles, deu-lhes combate e venceu-os, matando no campo de batalha quarenta mil homens de infantaria e sete mil cavaleiros. Sobaque foi ferido e morreu.
Tão gloriosa vitória abateu o orgulho dos mesopotâmios, e eles enviaram embaixadores com presentes a Davi para pedir-lhe a paz. Como se aproximava o inverno, Davi retornou a Jerusalém, mas logo que veio a primavera mandou Joabe continuar a guerra contra os amonitas. Devastou-lhes todo o país e sitiou pela segunda vez a Rabá, sua capital.
278. 2 Samuel 11. Esse rei tão justo, tão temente a Deus, tão zeloso pela observância das leis de seus antepassados, caiu em grave pecado. Numa tarde, segundo o seu costume, ele passeava por uma galeria alta do palácio, quando viu numa casa vizinha uma mulher que se banhava. Chamava-se Bate-Seba e era tão formosa que ele não pôde resistir à paixão que concebeu por ela. Mandou buscá-la e a reteve em sua companhia. Mas ela ficou grávida e pediu ao rei que a livrasse da morte, à qual a lei de Deus condenava as mulheres adúlteras.
Davi, com esse fim, mandou Joabe chamar Urias, seu escudeiro e marido de Bate-Seba, e pediu-lhe notícias sobre o cerco. Ele respondeu que tudo ia muito bem. Então enviou-lhe como jantar alguns pratos de sua mesa, mandando-o dormir em casa. Mas Urias, em vez de obedecer, passou a noite com os guardas. Davi soube-o e perguntou-lhe por que não tinha ido ver a esposa e passado aquele tempo com ela, depois de tão longa ausência, pois ninguém agia assim ao regressar de uma viagem. Ele respondeu que o seu general e os seus companheiros estavam dormindo no campo, sobre a terra, e por isso ele não quis passar o seu período de descanso em casa com a esposa.
Davi mandou-o ficar ainda aquele dia e só o despediu no dia seguinte. Pela tarde, fê-lo vir novamente para jantar, convidou-o a beber, a fim de que, estando mais alegre que de costume, desejasse ir dormir em sua casa. Mas ele passou também aquela noite à porta do quarto do rei, com os guardas. Davi, encoleriza-do por nada conseguir, escreveu a Joabe, para que este o expusesse ao perigo mais iminente, como castigo por uma ofensa que teria cometido, e que os soldados o abandonassem a fim de que, sozinho, não pudesse escapar. Ele entregou a carta fechada e lacrada com o seu sinete nas mãos de Urias.
Joabe recebeu-a e, para obedecer ao rei, imediatamente ordenou que Urias e alguns dos mais valentes de suas tropas atacassem um lugar que ele sabia ser dos mais perigosos, assegurando-lhe que o seguiria com todo o exército se conseguisse abrir uma passagem na muralha, para atacar também por aquela brecha. Exortou-o a corresponder pela coragem à estima que o rei lhe dedicava e à fama que já havia conquistado. Urias aceitou o encargo com alegria, embora fosse uma empresa muito arriscada. Joabe, em segredo, ordenou aos companheiros de Urias que o abandonassem e se retirassem quando vissem o inimigo cair sobre ele.
Os amonitas, vendo-se assim atacados e temendo o êxito dos israelitas, assaltaram-nos com os mais valentes dentre os seus. Os que acompanhavam Urias então fugiram, menos alguns que não sabiam da ordem. Urias deu-lhes o exemplo de preferir a morte à fuga, ficou firme e susteve o ímpeto dos inimigos, matando vários deles. E, depois de fazer tudo o que se poderia esperar de um militar tão valoroso, morreu gloriosamente, rodeado por todos os lados e crivado de golpes, assim como os poucos que lhe imitaram a coragem e virtude. Joabe mandou imediatamente dizer ao rei que, estando enfadado pela demasiada duração do cerco, julgara que devia fazer um último esforço, mas não lograra êxito, pois os inimigos lhe resistiram com tanta energia que ele fora repelido, sob muitas pedras. Instruiu aquele que enviara a dizer ao rei, caso este se mostrasse irado com o mau desfecho, que Urias fora um dos mortos no ataque.
O que fora previsto aconteceu, pois Davi disse com ardor que Joabe havia cometido uma grande falta em ordenar aquele ataque sem antes empregar as máquinas para abrir as brechas; que o general deveria lembrar-se de Abimeleque, filho de Gideão, que embora muito valente terminara a vida de maneira vergonhosa, morto por uma mulher, por querer temerariamente tomar à força a torre de Tebas; e que isso não era saber tirar vantagem do exemplo de outros generais, caindo nas mesmas faltas que eles, em vez de imitá-los nos feitos de valor em que haviam demonstrado sensatez e inteligência.
Depois que o enviado de )oabe ouviu Davi falar desse modo, disse-lhe, entre outras coisas, que Urias fora morto no combate. Logo a cólera do rei se acalmou, e ele mudou de linguagem. Ordenou ao mensageiro que dissesse a joabe para não se admirar do mau resultado da empresa, pois é coisa comum nas guerras, mas que o atribuísse à sorte das armas, nem sempre favorável, e aproveitasse aquela desgraça para continuar o cerco com mais firmeza, construindo outros fortes e levando as máquinas para poder tornar-se senhor do lugar. E, depois de tê-lo tomado, queria que o destruísse e exterminasse todos os seus habitantes.
279.  Bate-Seba chorou a morte do marido durante alguns dias, e, quando terminou o tempo do luto, Davi desposou-a. Ela teve em seguida um filho.
280. 2 Samuel 12. Deus olhou com cólera para esse ato de Davi e ordenou a Nata, num sonho, que o repreendesse severamente de sua parte. Como o profeta era muito sensato e sabia que os reis, na violência de suas paixões, consideram pouco a justiça, julgou que, para melhor conhecer as disposições do soberano, devia começar por falar-lhe docemente antes de chegar às ameaças que Deus havia ordenado.
Assim, falou deste modo ao rei: &quot;Havia numa cidade dois homens, um dos quais era muito rico e possuía muitas cabeças de gado. O outro, ao contrário, era tão pobre que todos os seus bens consistiam somente numa ovelha, que ele amava temamente e nutria com todo o carinho, como se fosse uma filha, com o pouco de pão que possuía. Então um amigo do homem rico chegou para visitá-lo, mas este não quis tocar no seu gado para lhe dar de comer e mandou tirar à força a ovelha do homem pobre. Matou-a e assim hospedou o amigo à custa do outro&quot;. Davi, diante de tamanha injustiça, disse que aquele homem era mau e devia ser nhrinario a restituir o auádruplo ao pobre e depois ser condenado à morte.
O profeta respondeu-lhe: &quot;Vós mesmo vos condenastes e pronunciastes o decreto do castigo que merece tão grande crime como o que cometestes&quot;. Fez-lhe ver como havia atraído sobre si a cólera de Deus, em troca do favor extraordinário que Ele lhe fizera, constituindo-o rei sobre todo o seu povo. Deus fizera-o também vitorioso sobre muitas nações, estendera até bem longe o seu domínio e o preservara de todos os esforços de Saul em eliminá-lo. E era horrível que ele, tendo várias esposas legítimas, houvesse desprezado os mandamentos de Deus e chegado a uma violência tão cruel e ímpia, como tomar a mulher de outro e fazer morrer-lhe o marido, entregando-os aos inimigos.
Deus, porém, exerceria deste modo a sua vingança sobre ele: permitiria que um dos próprios filhos de Davi abusasse de suas mulheres à vista de todos e tomasse armas contra ele, para puni-lo publicamente pelo crime que cometera em segredo. A isso acrescentou que ele teria o desprazer de ver morrer o filho que havia sido o fruto infeliz de seu adultério. Davi, espantado com essas ameaças, desfez-se em pranto, com o coração atravessado pela dor. Ele reconheceu e confessou a enormidade de seu pecado, pois era um homem justo e, exceto esse pecado, jamais havia cometido outro.
Deus, comovido com o seu grande arrependimento, prometeu conservar-lhe a vida e o reino e esquecer o seu pecado. E, segundo dissera o profeta, enviou uma grave enfermidade ao filho que tivera de Bate-Seba. O extremo amor que Davi nutria pela mãe da criança o fez sofrer tão vivamente essa aflição que ele passou sete dias inteiros sem comer. De luto, vestiu-se de saco e ficou deitado por terra, pedindo ardentemente a Deus que lhe conservasse o filho. Mas Deus não ouviu a oração, e o menino morreu no sétimo dia.
Nenhum dos seus ousava dar-lhe a notícia, temendo que, estando já tão aflito, se obstinasse ainda mais em não tomar alimento e continuasse a descuidar do corpo. Imaginavam que, se a enfermidade da criança lhe causava tanta dor, a morte dela o afligiria ainda mais. Davi, porém, percebeu na angústia manifestada em todos os rostos o que eles se esforçavam por esconder e não teve dificuldade em imaginar que o menino havia morrido. Indagou deles, e lhe contaram. Então ele logo levantou-se e pediu que lhe trouxessem de comer.
Os parentes e servidores do rei, admirados de tão repentina mudança, perguntaram-lhe a razão, e ele respondeu: &quot;Não compreendeis que enquanto o menino vivia a esperança de obter de Deus a sua conservação fazia-me empregar todos os meus esforços para procurar comovê-lo? Mas agora que morreu, a minha aflição e o meu pranto seriam inúteis&quot;. Essa resposta tão sábia os fez louvar a sua prudência, e Bate-Seba deu-lhe um segundo filho, que teve o nome de Salomão.
281.  joabe continuava apertando o cerco a Rabá. Rompeu os aquedutos que levavam água à cidade e impediu que recebesse víveres. Assim os seus habitantes viram-se oprimidos ao mesmo tempo pela falta de água e pela fome, porque tinham apenas um poço, e não era suficiente. Joabe pediu então ao rei que viesse ao seu exército, a fim de ter ele mesmo a honra de tomar e examinar a cidade. Davi louvou-lhe a fidelidade e o afeto e foi até onde estava o cerco, levando ainda outras tropas. Tomou-a então à força e entregou-a ao saque dos soldados.
Os despojos foram grandes, e Davi contentou-se em tomar para si a coroa de ouro do rei dos amonitas, que pesava um talento e era enriquecida com grande quantidade de pedras preciosas, no meio das quais brilhava uma sardônica de grande valor. Ele usou muitas vezes essa coroa. Fez morrer todos os habitantes, de diversas maneiras, sem poupar um sequer e não tratou mais humanamente as outras cidades do mesmo país que depois conquistou pela força.
282.  2 Samuel 13. Depois de tão gloriosa conquista, voltando a Jerusalém, sentiu estranha aflição, e a causa foi esta:
A princesa sua filha, de nome Tamar, sobrepujava em beleza todas as moças e mulheres de seu tempo. Amnom, seu filho mais velho, apaixonou-se tão perdi-damente por ela que, não podendo satisfazer a sua paixão, porque ela era cuidadosamente vigiada, ficou em tal estado que se tornou irreconhecível. Jonadabe, seu primo e amigo particular, julgou que aquela enfermidade só podia vir de uma causa semelhante e rogou-lhe que dissesse qual era. Amnom revelou o amor que sentia pela irmã, e Jonadabe, que era um homem inteligente, deu-lhe um conselho, o qual ele pôs em prática.
Fingiu estar muito doente e se pôs de cama. Quando o rei seu pai foi visitá-lo, pediu-lhe que enviasse a irmã. Ela veio, e ele pediu que ela lhe fizesse alguns bolos, dizendo que se fossem feitos pela mão dela os comeria com mais prazer. Ela os fez imediatamente e os levou até ele. Amnom rogou-lhe então que os levasse ao quarto dela, porque queria dormir, e ordenou que saíssem todos. Em seguida, ele levantou-se e foi até o quarto onde estava Tamar — sozinha. Manifestou-lhe a sua paixão e quis dominá-la à força. Ela gritou e disse tudo o que podia para dissuadi-lo de cometer uma ação criminosa e ao mesmo tempo tão vergonhosa para a família real.
Vendo que as suas razões não o demoviam, rogou-lhe que, se não podia vencer a sua paixão, a pedisse em casamento ao rei, seu pai. Mas Amnom estava fora de si, levado pelo furor da paixão, e não a quis ouvir. E violou-a, por mais resistência que ela fizesse. E, por mais estranho que pareça, no mesmo instante, por uma mudança de que jamais se ouviu falar, passou logo após esse ardente afeto que nutria por ela ao ódio mais violento, proferindo injúrias e expulsando-a de sua presença.
Ela queria esperar a noite, a fim de evitar a vergonha de aparecer aos olhos de todos em pleno dia depois de haver recebido o maior de todos os ultrajes. Mas Amnom recusou permiti-lo e ainda a fez castigar. Cheia de dor e de amargura, a princesa rasgou o seu véu, que lhe descia até o chão e que só as filhas dos reis podiam usar, colocou cinzas na cabeça e assim atravessou toda a cidade, publicando com gritos misturados a soluços e lágrimas a horrível violência que lhe haviam feito.
Absalão, de quem ela era irmã por parte de mãe e de pai, encontrando-a naquele estado, soube do motivo de seu desespero. Fez o que pôde para consolá-la, e ela ficou muito tempo com ele, sem se casar. Davi ficou muito triste diante dessa ação tão detestável, mas como tinha afeto especial por Amnom, porque era o mais velho de seus filhos, não quis castigá-lo como ele merecia. Absalão dissimulou o ressentimento e conservou-o no coração até que pôde satisfazê-lo, por meio de uma vingança proporcional à magnitude da ofensa.
Passaram-se dois anos desse modo. Mas, devendo Absalão ir a Baal-Hazor, na tribo de Efraim, para fazer a tosquia de suas ovelhas, convidou o rei seu pai e todos os seus irmãos para um banquete que desejava oferecer. Davi desculpou-se, porque não queria que ele fizesse tão grandes despesas, e Absalão rogou-lhe que pelo menos enviasse todos os irmãos. Ele concordou, e todos se apresentaram. Quando Amnom começou a ficar alegre por causa de excesso de vinho, Absalão o matou.

CAPÍTULO 8
ABSALÃO FOGE PARA GESUR.TRÊS ANOS DEPOIS, JOABE OBTÉM DE DAVI
PERMISSÃO PARA ELE VOLTAR. ABSALÃO CONQUISTA O AFETO DO POVO. VAI
A HEBROM. É DECLARADO REI, E AITOFELPASSA PARA O SEU PARTIDO.
DAVI ABANDONA FERUSALÉM, RETIRANDO-SE PARA ALÉM DO FORDÃO.
FIDELIDADE DE ITAI E DOS SUMOS SACERDOTES. MALDADE DE MEFIBOSETE.
INSOLÊNCIA HORRÍVEL DE SIMEI. ABSALÃO COMETE UM CRIME INFAME

283. O assassinato de Amnom assustou todos os outros filhos de Davi, que montaram a cavalo e fugiram a toda brida para o rei seu pai. Eles não lhe trouxeram a primeira notícia, mas um outro, caminhando mais depressa, lhe disse que Absalão matara todos os seus irmãos. A idéia da perda de tantos irmãos devido a um crime cometido por um deles partiu o coração de Davi e fez mergulhar o seu Espírito em grande aflição. E, sem esperar a confirmação da notícia nem perguntar o motivo, entregou-se inteiramente à dor, rasgou as suas vestes, lançou-se por terra, soltou gritos e derramou lágrimas. Lastimava não somente os filhos mortos, mas também aquele que lhes tirara a vida.
Seu sobrinho Jonadabe, filho de Siméia, disse-lhe, para consolá-lo, que tinha razão para crer que Absalão chegara àquele extremo pelo ressentimento do ultraje feito à irmã, pois de outro modo pouco motivo havia para que desejasse mergulhar as mãos no sangue dos próprios irmãos. Falava assim quando se ouviu um grande ruído de cavaleiros. Eram os filhos de Davi. Vendo o aflito pai, contra a sua esperança, que aqueles que julgava mortos viviam ainda, correu para abraçá-los e misturou as suas lágrimas com as deles, bem como a pena de ter perdido um filho, enquanto eles choravam a dor de ter perdido um irmão. Absalão fugiu para Gesur, para a casa de seu avô, que ocupava uma posição de relevo naquele país, e lá ficou três anos.
2 Samuel 14. Percebendo Joabe que nesse tempo a cólera do rei se havia acalmado e que ele permitiria facilmente o regresso de Absalão, serviu-se de um artifício para fazê-lo decidir-se. Uma velha, por sua ordem, foi ter com o rei, demonstrando grande aflição. Disse-lhe ela que os seus dois filhos haviam brigado no campo de tal modo que, não havendo quem os separasse, eles se engalfinharam, e um deles foi morto. A justiça procurava agora o criminoso para fazê-lo morrer também. E assim, ela estava prestes a perder o outro filho, seu único amparo na velhice. Em tal contingência, recorria à bondade do soberano, suplicando-lhe que concedesse aquela graça ao filho.
Davi prometeu-o, e então ela continuou a falar, deste modo: &quot;Sou-vos muito grata, majestade, por terdes tanta compaixão desta pobre mulher, de minha velhice e da condição a que me encontraria reduzida se viesse também a perder o filho que me resta. Mas, se quereis que eu não duvide de vossa bondade, é necessário, por favor, que comeceis por aplacar a vossa ira contra o príncipe vosso filho e o recebais de novo em vossa amizade. Pois, como poderia eu ter certeza de que vossa majestade perdoará ao meu filho se não quer do mesmo modo Derdoar ao Dróorio filho uma falta semelhante? Seria coisa digna de vossa prudência acrescentar voluntariamente a perda de um de vossos filhos à do outro, igualmente dolorosa, todavia já irreparável?&quot;
Essas palavras convenceram o rei de que Joabe enviara aquela mulher. Perguntou-lhe se era verdade, e ela confessou-o. Naquele mesmo instante, mandou chamar Joabe para informar que este conseguira o que desejava. Perdoava Absalão, e podia mandar dizer-lhe que voltasse. Joabe prostrou-se diante dele, partiu logo em seguida e trouxe Absalão a Jerusalém. O rei, porém, não quis que o filho se apresentasse diante dele, porque ainda não estava disposto a vê-lo. Assim, para obedecer à ordem, Absalão viveu ainda afastado dois anos, sem que o desgosto por não ser tratado segundo a grandeza de seu nascimento diminuísse algo de sua compostura, que era tal como a sua beleza e a elegância de seu porte.
Tinha ele a cabeça tão bela que quando se lhe cortavam os cabelos, no fim de cada ano, estes pesavam duzentos sidos, que são cinco libras. Porém, não podendo mais suportar viver banido da presença do rei, mandou rogar a Joabe que intercedesse por ele, a fim de obter permissão para vê-lo. Não recebendo resposta, mandou pôr fogo a um campo que pertencia a Joabe. Logo Joabe foi perguntar-lhe por que o tratava daquele modo, e Absalão respondeu que era para obrigá-lo a vir ter com ele, não o podendo conseguir de outro modo, e pediu-lhe que o reconciliasse com o rei, pois o exílio lhe era na verdade mais suportável que o desgosto de ver sempre o pai encolerizado contra si. Joabe ficou comovido com o sofrimento dele, e essa maneira de falar comoveu também Davi, de tal modo que ele mandou chamar Absalão. Este veio, lançou-se-lhe aos pés e pediu-lhe perdão.
2 Samuel 15. Davi consentiu e levantou-o. Tendo feito as pazes com o rei, Absalão partiu imediatamente com grande acompanhamento, seguido, além da grande quantidade de cavaleiros e dos carros que possuía, por cinqüenta guardas. Como a sua ambição não tinha limites, imaginou logo destronar o rei seu pai, apoderar-se da coroa e pô-la na própria cabeça. Com essa intenção, ia todas as manhãs ao palácio do rei, onde consolava a todos os que haviam perdido uma causa, dizendo-lhes que os culpados eram os maus conselheiros do rei, o qual também enganava o povo em seus juízos.
Continuou a proceder desse modo durante quatro anos. Quando percebeu que conquistara o afeto de todos e de todo o povo, rogou ao rei permissão para ir a Hebrom cumprir uma promessa que fizera durante o exílio. Quando lá chegou, fez correr a notícia por todo o país, e gente de todas as partes veio ter com ele. Aitofel, que era de Gilo, um dos conselheiros de Davi, foi também. Duzentos habitantes de Jerusalém também vieram, mas somente para assistir à festa. Assim, o desejo de Absalão realizou-se, como ele esperava, pois todos o escolheram para rei.
284. Davi, como era natural, irritado pela ousadia e impiedade do filho, que após receber o perdão por um crime tão grande tentava tirar-lhe a vida e o reino concedido a ele pelo próprio Deus, resolveu retirar-se às praças-fortes do outro lado do Jordão e entregar nas mãos de Deus o julgamento de sua causa. Deixou então a guarda do palácio a dez de suas concubinas e saiu de Jerusalém seguido por uma grande multidão, que não quis abandoná-lo, e de seus seiscentos homens, os quais estavam com ele desde que Saul o perseguia.
Zadoque e Abiatar, sumos sacerdotes, e todos os levitas queriam também ir com ele e levar a arca, mas Davi obrigou-os a ficar, acreditando que Deus não os deixaria sem socorro e teria cuidado deles. Rogou-lhes somente que lhe dessem, por meio de pessoas de confiança, avisos secretos de tudo o que se passava. Jônatas, filho de Abiatar, e Aimaás, filho de Zadoque, demonstraram assim a sua fidelidade nessa ocasião. E Itai, geteense, tinha-lhe tanta afeição que, por mais que o rei lhe pedisse para ficar, não quis fazê-lo.
Quando esse grande príncipe subia descalço o monte das Oliveiras e todos se desfaziam em lágrimas em redor dele, vieram dizer-lhe que Aitofel, por uma horrível traição, havia passado para o partido de Absalão. Essa dor foi-lhe mais sensível que todas as outras, porque conhecia muito bem o valor de Aitofel, e rogou a Deus que não permitisse a Absalão seguir os seus conselhos. Quando chegou ao alto do monte, contemplou Jerusalém e derramou muitas lágrimas, pois não fazia diferença entre a perda de seu reino e a saída daquela grande cidade que lhe servia de capital.
Husai, um de seus mais fiéis servidores, veio ter com ele com as vestes rasgadas e a cabeça coberta de cinzas. Davi procurou consolá-lo, dizendo-lhe que o maior serviço que lhe poderia prestar era procurar Absalão com o pretexto de lhe querer falar e passar para o partido dele, a fim de conhecer as suas intenções e opor-se aos conselhos de Aitofel. Husai obedeceu e foi a Jerusalém, para onde Absalão também se dirigia.
2 Samuel 16. Davi marchara um pouco adiante, e Ziba, que ele designara para cuidar dos bens de Mefibosete, veio procurá-lo com dois burros carregados de víveres, os quais lhe ofereceu. Perguntou-lhe Davi onde estava o seu amo, e Ziba respondeu que ele havia ficado em Jerusalém, na expectativa de que diante daquela mudança fosse escolhido para reinar, em memória do rei seu avô. Essa falsa notícia irritou tanto a Davi que ele deu a Ziba todos os bens de Mefibosete, dizendo ser aquele muito mais merecedor de possuí-los do que este.
Quando se aproximava do lugar denominado Baurim, Simei, filho de Gera, parente de Saul, não se contentando em dizer-lhe injúrias, começou a atirar-lhe pedras. Como os que acompanhavam o rei procuravam aparar os golpes, o seu furor tornou-se ainda maior. Com todas as forças, gritou que Davi era um sanguinário, sendo a causa de mil males, e que dava graças a Deus por permitir que o próprio filho o castigasse pelos crimes cometidos contra Saul, seu rei e senhor. Dizia ele: &quot;Saí deste país, mau e execrando que sois&quot;.
Abisai, não mais suportando tão horrível insolência, procurou matá-lo, porém Davi o impediu, afirmando que já lhe bastavam os males presentes, não havia por que buscar outros. E acrescentou: &quot;Não me incomodo com o que esse homem está dizendo. Considero-o apenas um cão enraivecido e submeto-me à vontade de Deus, que o mandou para me maldizer. Que motivo temos para nos admirarmos de que ele me profira injúrias, se o meu próprio filho declara abertamente que é meu mortal inimigo? Deus, porém, é por demais bom para não me olhar com vistas de misericórdia e muito justo para deixar de confundir os desígnios daqueles que juraram a minha ruína&quot;. O virtuoso rei, assim falando, continuou a caminhar sem se deter às injúrias de Simei, e o infeliz correu para o outro lado do monte a fim de continuar a insultá-lo. Por fim, Davi chegou à margem do Jordão e deu um descanso aos seus homens, esgotados pela longa caminhada.
285.  Absalão, nesse meio tempo, acompanhado por Aitofel, em quem depositava toda a sua confiança, dirigia-se a Jerusalém, e Husai, fiel amigo de Davi, foi como os outros prostrar-se diante dele e desejar-lhe um feliz reinado. Absalão perguntou-lhe como o até então melhor amigo de seu pai havia abandonado o rei para passar ao seu partido.
Respondeu Husai: &quot;Vendo que por unânime consentimento todos se submeteram a vós, temia eu resistir à vontade de Deus se não o fizesse também, na certeza que tenho de Ele é que vos faz subir ao trono. E, se me negais a graça de receber-me no número dos que vos honram com a sua afeição, servir-vos-ei com a mesma fidelidade e o mesmo zelo com que servi ao rei vosso pai, pois estou persuadido de que não há motivo para queixa pela mudança que se efetuou, porque a coroa não passou a outra família real: é um filho que sucede ao pai&quot;. Absalão prestou fé a essas palavras e não desconfiou mais dele.
286.  O novo rei, conversando com Aitofel a respeito de como agir para consolidar o poder, recebeu desse homem maligno conselho para abusar das concubinas do rei seu pai na presença do povo, a fim de que todos vissem que não era mais possível uma reconciliação entre eles e que necessariamente haveria uma guerra muito sangrenta. Assim, os que estavam no seu partido ficariam inseparavelmente presos a ele. O jovem príncipe seguiu tão infeliz e vergonhoso conselho e o executou sob uma tenda que mandou construir no palácio, à vista de todos. Assim realizou-se o que o profeta Nata predissera a Davi.

CAPÍTULO 9
AITOFEL DÁ UM CONSELHO A ABSALÃO QUE TERIA ARRUINADO COMPLETAMENTE A DAVI. HUSAI ACONSELHA EXATAMENTE O CONTRÁRIO, E É OUVIDO. HUSAI MANDA AVISAR DAVI. DESESPERADO, AITOFEL ENFORCA-SE. DAVI APRESSA-SE EM PASSAR O JORDÃO. AMASA É ESCOLHIDO COMANDANTE DO EXÉRCITO DE ABSALÃO, E ESTE PARTE PARA ATACAR O REI SEU PAI. ABSALÃO PERDE A BATALHA. JOABE MATA-O.

287. 2 Samuel 17. Absalão perguntou depois a AitofeI de que modo deveria agir naquela guerra. Ele respondeu: &quot;A morte do rei vosso pai é o único meio que tendes para assegurar a coroa e salvar aqueles aos quais a deveis. Se me quiserdes dar dez mil homens escolhidos dentre todas as vossas tropas, prestar-vos-ei esse serviço&quot;. Tal conselho agradou a Absalão, mas ele quis saber a opinião de Husai, a quem considerava ainda o melhor amigo de seu pai. Disse-lhe da opinião de AitofeI e perguntou a dele.
Husai, julgando que Davi estaria perdido se Absalão seguisse o conselho de AitofeI, deu-lhe outro, totalmente oposto: &quot;Vossa majestade conhece o extremo do valor do rei vosso pai e o daqueles que estão em sua companhia, de que não é necessário melhor prova, pois ele sempre sai vitorioso em todas as guerras que empreende. Ele sem dúvida está agora acampado. E, como ninguém é mais perito que ele na arte da guerra, não haverá estratagema de que não se sirva. Colocará uma parte de suas tropas no vale ou por trás das rochas, e, quando as nossas atacarem as que estiverem visíveis, ela fugirá para junto das que estão ocultas, fazendo-nos cair numa emboscada, para depois todas ao mesmo tempo se atirarem sobre nós. A presença do rei vosso pai, que sem dúvida lá se encontrará em pessoa para elevar-lhes o ânimo, fará com que os nossos, de modo inverso, percam a coragem. Por isso, sem nos atermos ao conselho de Aitofel, julgo que vossa majestade deva reunir prontamente todas as vossas forças e tomar o comando, sem confiar nos outros. Assim, se o rei vosso pai vos enfrentar, estará tão fraco, em comparação a vossa majestade, que será muito fácil vencê-lo, pelo grande número de soldados que arde em desejo de vos patentear a sua afeição no início de vosso reinado. E, se ele se refugiar em alguma cidade, vossa majestade a tomará facilmente, atacando-a com as máquinas e aproximando-se por meio de pontes&quot;.
Absalão preferiu esse conselho ao de Aitofel, pois Deus assim o permitiu. E Husai mandou imediatamente avisar o sumo sacerdote Zadoque e a Abiatar, a fim de pedir a Davi que atravessasse incontinenti o Jordão, pois assim Absalão, caso mudasse de idéia, não o poderia alcançar antes de ele passar o rio. Os sumos sacerdotes, sem perder tempo, enviaram aos filhos escondidos fora da cidade uma criada muito fiel para dizer-lhes que partissem naquele mesmo instante e fossem rapidamente informar a Davi da situação.
Eles puseram-se imediatamente a caminho, e, apenas haviam percorrido dois estádios, alguns cavaleiros os viram e foram avisar Absalão. Este enviou alguns homens para prendê-los. Vendo eles os cavaleiros, porém, suspeitaram deles e por isso deixaram a estrada e foram até uma aldeia próxima, de nome Baurim, que está no território de Jerusalém, e ali pediram a uma mulher que os ocultasse. Ela colocou-os num poço, cobrindo a entrada com lã.
Os homens designados para prendê-los chegaram à casa da mulher e perguntaram-lhe se tinha visto dois moços. Ela respondeu que dera de beber a dois rapazes, mas eles haviam partido. Se eles se apressassem, poderiam alcançá-los facilmente. Eles acreditaram e perseguiram-nos por muito tempo, inutilmente. Quando a mulher viu que nada mais havia a temer, retirou-os do poço, e eles continuaram rapidamente a viagem. Encontrando Davi, deram-lhe conta de sua missão. O sábio príncipe não deixou de se valer de tão importante aviso, pois, embora a noite já tivesse caído, atravessou o Jordão naquele mesmo instante, fazendo também passar todos os homens que tinha consigo.
Aitofel, vendo que o conselho de Husai fora preferido ao seu, montou a cavalo e foi a Celmom, que era o seu lugar de nascimento. Reuniu ali os parentes e amigos e falou-lhes do conselho que dera a Absalão, sendo que rei não o quis seguir. Agora ele era um homem perdido, pois Davi venceria e voltaria ao trono. A isso ele acrescentou que preferia morrer como um homem de coragem a perder a vida pelas mãos de um carrasco por ter abandonado Davi e se juntado a Absalão. Depois de assim falar, foi enforcar-se no lugar mais afastado de sua casa, terminando a sua vida do modo que julgou merecer. Seus parentes o sepultaram.
288.  Depois de atravessar o Jordão, Davi foi a Maanaim, que é a mais bela e mais forte de todas as cidades dessa província. Todos os grandes do país receberam-no com extremo afeto, uns por compaixão de sua infelicidade, outros pelo respeito que o seu acúmulo de honra e glória lhes imprimiu no Espírito. Os principais eram: Sobi, príncipe de Amom, Barzilai e Maquir, da província de Gileade. Eles deram a Davi e a todos os seus tudo o que necessitavam para a sua subsistência.
289.  2 Samuel 17. Absalão, após reunir um grande exército, escolheu Amasa, que era seu parente (pois era filho de jotar* e de Abigail, irmã de Sérvia, mãe de joabe, ambas irmãs de Davi), para comandá-lo, em vez de joabe. Então atravessou o Jordão e foi acampar bem próximo de Maanaim. Davi, embora tivesse apenas quatro mil soldados, não quis esperar que Absalão viesse atacá-lo e resolveu antecipar-se. Dividiu as tropas em três partes: deu o comando da primeira a joabe, o da segunda a Abisai e o da terceira a Itai, que muito ele estimava e em quem tinha muita confiança, embora fosse originário de Gate.
Por mais vontade que ele próprio tivesse de tomar parte na luta, os seus chefes e comandantes mais afeiçoados não o permitiram, explicando-lhe com muita prudência que não lhe restaria recurso algum se ele perdesse a batalha estando presente, ao passo que, se não estivesse, os que escapassem poderiam correr até ele e dar-lhe tempo de reunir novas forças. Além do quê, a sua ausência faria os inimigos acreditarem que ele reservara para si uma parte de suas tropas. Davi aceitou essas razões, exortando-os a mostrar naquele dia a sua fidelidade e o seu reconhecimento pelos benefícios recebidos. A isso acrescentou um pedido: se Deus lhes concedesse a vitória, que não tivessem menos cuidado em conservar a vida de Absalão do que a deles própria. Terminou rogando a Deus que lhe fosse favorável.
Os exércitos preparam-se para a batalha numa grande planície. Joabe tinha atrás de si uma floresta. O combate foi sangrento. Praticaram-se de ambos os lados muitos atos de valor. Não havia perigo que os homens fiéis a Davi não desprezassem para fazê-lo recuperar o reino nem esforços que os do partido de Absalão não fizessem para garantir-lhe a coroa e evitar o castigo que merecia por ter ousado tirá-la ao próprio pai. Além disso, sendo este muito mais forte que o inimigo, ser-lhe-ia muito vergonhoso deixar-se vencer. Por outro lado, essa mesma desproporção de força redobrava a coragem dos soldados de Davi, porque tornaria a vitória mais gloriosa.
Como eram todos soldados veteranos e dos mais valorosos, infiltraram-se nos batalhões inimigos, desbarataram-nos, puseram-nos em fuga e os perseguiram na floresta e nos refúgios, onde eles pensavam poder salvar-se. Fizeram muitos prisioneiros e mataram muitos outros, morrendo mais gente dessa forma que em combate. Como a estatura de Absalão o denunciava facilmente, puseram-se vários a persegui-lo para o prender. O medo de cair vivo nas mãos deles obrigou-o a fugir a toda velocidade sobre uma mula muito veloz. Mas o vento lhe agitava o cabelo, que era muito comprido e espesso, fazendo-o emaranhar-se nos ramos de uma árvore por baixo da qual ele passava. A mula continuou a correr, e ele ficou pendurado.
Um soldado avisou Joabe imediatamente, o qual ordenou-lhe que fosse matá-lo, prometendo-lhe cinqüenta sidos. Respondeu o soldado: &quot;Como matar o filho do meu rei, quando o mesmo rei nos recomendou que o conservássemos vivo? Não o faria nem mesmo que me désseis dois mil sidos&quot;. ]oabe então pediu-lhe que o levasse até o lugar e matou Absalão com três golpes de lança, que lhe feriram o coração. Os escudeiros de Joabe recolheram o corpo, jogaram-no em uma fossa funda e escura e o cobriram com pedras, dando-lhe forma de sepulcro. joabe mandou em seguida tocar a retirada, dizendo que deviam poupar o sangue dos outros irmãos.
Absalão tinha feito elevar no vale chamado Real, distante dois estádios de Jerusalém, uma coluna de mármore com uma inscrição, para que o seu nome se conservasse na memória dos homens, ainda que a sua raça fosse extinta. Ele teve três filhos e uma filha muito bela, de nome Tamar, que desposou o rei Roboão, neto de Davi, da qual teve Abias, que sucedeu ao pai e de quem falaremos mais amplamente a seu tempo.

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* Ou Itra.

CAPÍTULO 10
DAVI, DEMONSTRANDO EXCESSIVA DOR PELA MORTE DE ABSALÃO, É CONSOLADO POR JOABE. DAVI PERDOA SIMEI E DÁ A MEFIBOSETE A METADE
DE SEUS BENS. TODAS AS TRIBOS VOLTAM A OBEDECER-LHE. A DEJUDÁ É A
PREFERIDA, E AS OUTRAS SENTEM INVEJA, REVOLTANDO-SE POR INCITAMENTO
DE SEBA. DAVI DETERMINA QUEAMASA MARCHE CONTRA ELE. COMO
AMASA DEMORA A VOLTAR, ENVIA JOABE COM OS QUE TEM JUNTO DE SI.
JOABE ENCONTRA AMASA E MATA-O À TRAIÇÃO. PERSEGUE SEBA E TRAZ A
CABEÇA DELE A DAVI. GRANDE CARESTIA ENVIADA POR DEUS DEVIDO AOS
MAUS-TRATOS DE SAUL PARA COM OS GIBEONITAS. DAVI OS SATISFAZ, E A
CARESTIA CESSA. ELE ADIANTA-SE NUM COMBATE E É SALVO PORABISAI DE
MORRER NAS MÃOS DE UM GIGANTE. DEPOIS VENCER DIVERSAS VEZES OS
FILISTEUS, DESFRUTA GRANDE PAZ. COMPÕE DIVERSAS OBRAS EM LOUVOR A
DEUS. INCRÍVEIS ATOS DE VALOR DOS BRAVOS DE DAVI. DEUS MANDA UMA
GRANDE PESTE PARA CASTIGÁ-LO POR TER FEITO O RECENSEAMENTO DOS
HOMENS APTOS PARA PEGAR EM ARMAS. DAVI, PARA APLACÁ-LO, ERGUE UM
ALTAR. DEUS PROMETE-LHE QUE SALOMÃO CONSTRUIRÁ O TEMPLO. ELE REÚNE
AS COISAS NECESSÁRIAS PARA A CONSTRUÇÃO.

290. Depois da morte de Absalão, o seu partido desapareceu completamente. Aimaas, filho de Zadoque, sumo sacerdote, rogou a Joabe que o mandasse levar a Davi a notícia da vitória e do auxílio que haviam recebido de Deus. Joabe, porém, respondeu-lhe que, tendo ele até então levado a Davi apenas boas notícias, não julgava bom que agora lhe levasse uma informação tão triste como a da morte de Absalão. E enviou Cusi para narrar a Davi o que se havia passado. Aimaas rogou então que lhe permitisse ao menos ir para informá-lo do feliz êxito da batalha, sem falar-lhe de Absalão, e Joabe concordou. Partiu no mesmo instante e, como conhecia um caminho mais curto que o tomado pelo etíope, chegou antes dele.
Davi estava à porta da cidade, esperando notícias de alguém que tivesse tomado parte no combate. Uma sentinela, vendo aproximar-se Aimaas e não o reconhecendo, porque ele ainda estava muito longe, avisou que um homem se aproximava rapidamente. O rei tomou a pressa como um bom augúrio. Logo depois, a sentinela disse que vinha um outro, o que o príncipe julgou ser ainda um bom sinal. Quando Aimaas já estava bem perto, a sentinela reconheceu-o e disse ao rei que era Aimaas, filho do sumo sacerdote. Então Davi não duvidou mais de que ele lhe trazia boas notícias. Aimaas, depois de se ter prostrado diante dele, disse-lhe que o seu exército havia conquistado a vitória. Davi, sem falar de outra coisa, perguntou-lhe o que havia acontecido a Absalão. Ele respondeu nada poder informar, porque Joabe o fizera partir imediatamente após a vitória, para trazer-lhe a notícia. Sabia apenas que um grande número de soldados o perseguia com grande ânsia.
O etíope chegou em seguida, prostrou-se diante do rei e confirmou a notícia da vitória. Davi perguntou-lhe também a respeito de Absalão, e ele respondeu:
&quot;Desejo que o que aconteceu a Absalão aconteça a todos os vossos inimigos&quot;. Essas palavras apagaram do coração de Davi toda a alegria que ele sentira pela vitória, e a sua imensa tristeza perturbou os servidores. Foi ao lugar mais alto da cidade e lá chorou o seu filho. Batia no próprio estômago, arrancava o cabelo e, não pondo limites à dor, gritava em alta voz: &quot;Absalão! Meu filho Absalão! Prouvera a Deus que eu tivesse morrido contigo!&quot;
Além de ser Davi de uma natureza extremamente terna, Absalão, dentre os filhos que lhe restavam, era o que mais ele amava. Os soldados, regressando, souberam de sua extrema aflição e julgaram que não seria conveniente comparecer à sua presença como vitoriosos e triunfantes. E assim entraram também chorando na cidade, de olhos baixos, como se tivessem sido vencidos.
Joabe, porém, vendo que o rei tinha a cabeça coberta e continuava a chorar amargamente o filho, falou-lhe: &quot;Vossa majestade sabe o que faz e em que perigo se põe? Não está parecendo que vossa majestade odeia os que tudo arriscaram a vosso serviço e também a vós mesmos e toda a família real, afligindo-vos tanto com a morte de vosso maior inimigo? Se Absalão tivesse vencido e confirmado a sua injusta dominação, haveria algum de nós a quem ele teria poupado a vida? Não teria ele começado por vossa majestade e pelos vossos filhos? Longe de chorar por nós e por vossa majestade, como vossa majestade o faz, ele não somente se teria regozijado, mas teria castigado até os que tivessem compaixão de nossa infelicidade. Não tem pois vossa majestade vergonha de lamentar assim o maior de vossos inimigos, o qual, após receber vida de vossa majestade, tornou-se tanto mais ímpio quanto vos devia em honra e respeito? Deixai portanto de lamentar e de vos afligir por motivo injusto. Apresentai-vos aos vossos soldados e expressai a eles o agradecimento que lhes deveis por haverem conquistado com o preço do próprio sangue tão importante vitória. Se não o fizerdes e continuardes a mostrar tão irrazoável mágoa, protesto-vos que desde hoje, sem esperar mais, porei a coroa sobre a cabeça de um outro, e então terá vossa majestade verdadeiro motivo de aflição&quot;.
Essas palavras acalmaram o Espírito de Davi e despertaram-lhe as obrigações que a qualidade de rei exigia para o povo e para a nação. Mudou os vestess e, para alegrar os soldados, saiu de seu aposento e apresentou-se a eles. Então cada um deles veio prestar-lhe homenagens.
291. Os que se haviam salvado do exército de Absalão vieram de todas as cidades apresentar as suas homenagens a Davi, pois a vitória deste os fez reconquistar a liberdade. Eles reconheceram que estavam errados e que haviam feito mal em se revoltar contra ele. E, agora que Absalão estava morto, queriam pedir a Davi que os perdoasse e suplicar que retomasse o governo do reino.
Davi soube de tudo e escreveu então aos sumos sacerdotes, Zadoque e Abiatar, que dissessem também aos chefes da tribo de Judá que, sendo o rei da mesma tribo que eles, ser-lhes-ia vergonhoso se fossem os últimos a manifestar-lhe a sua afeição e em restabelecê-lo em seu estado e que relatassem a mesma coisa a Amasa, acrescentando que, tendo a vantagem de ser sobrinho do rei, ele deveria esperar não somente o perdão por ter tomado as armas contra ele, mas também a confirmação no cargo de general, a que Absalão o elevara.
Zadoque e Abiatar cumpriram seriamente essa comissão, de modo que tudo saiu como Davi desejava. Assim, todas as tribos enviaram-lhe embaixadores, por iniciativa de Amasa, rogando-lhe que voltasse a Jerusalém. Mas a de judá sobressaiu-se dentre as demais nessa ocasião, pois veio até diante dele, no rio Jordão.
292.  Simei foi também, com mil homens de sua tribo, e Ziba lá estava, com os seus quinze filhos e vinte servidores. Ao chegar à margem do rio, fizeram uma ponte com barcos, para facilitar a passagem do rei e dos que o acompanhavam. E, quando ele se aproximou da margem, toda a tribo de Judá saudou-o. Simei lançou-se-lhe aos pés, sobre a ponte, pedindo perdão e suplicando-lhe que considerasse que ele era o primeiro a manifestar arrependimento. Conjurou-o ainda a não usar do poder para castigar aos que o haviam ofendido.
Abisai, ouvindo-o falar assim, disse-lhe: &quot;Julgais então que isso basta para evitar o suplício que mereceis por ter blasfemado contra o rei que o próprio Deus nos deu?&quot; Mas Davi tomou a palavra e disse a Abisai: &quot;Não perturbemos a alegria desta jornada. Eu a considero como o primeiro dia do meu reinado e quero perdoar a todos&quot;. Disse em seguida a Simei: &quot;Não temas! Tua vida está segura!&quot; Simei prostrou-se até o chão e depois foi andando diante dele.
293.  Mefibosete, filho de Jônatas, chegou depois, vestido miseravelmente e com a barba e os cabelos cheios de imundícies, pois ficara tão vivamente sentido pela infelicidade do rei que não os quis cortar desde o dia em que Davi saíra de Jerusalém e continuou a negligenciar o resto de sua pessoa, tanto era falsa a acusação de Ziba contra ele. Davi, depois que esse príncipe tão bom quanto infeliz o saudou, perguntou-lhe por que não o havia acompanhado em sua retirada.
Disse ele: &quot;Ziba foi a única causa disso, majestade. Ordenei-lhe que preparasse tudo para que eu o seguisse, mas ele não obedeceu e ainda tratou-me com muito desprezo. Isso não me impediria de partir se eu tivesse boas pernas. Porém ele fez ainda mais, majestade. Não se contentando em me impedir de cumprir o meu dever e de vos demonstrar a minha afeição e fidelidade, acusou-me falsamente perante vossa majestade. Mas bem conheço a vossa prudência, justiça e piedade e também o amor que tendes pela verdade, para temer que vossa majestade tenha prestado fé às suas calúnias. Sei que quando estava em vosso poder vingar-se da perseguição sofrida durante o reinado de meu avô, vossa majestade não o quis fazer. Jamais esquecerei as obrigações que vos devo, por receber-me no número de vossos amigos depois de restaurado no trono e por tratar-me como a um de vossos parentes, fazendo-me comer à vossa mesa&quot;.
Depois de ouvi-lo falar assim, Davi não procurou saber se ele era culpado nem verificar se Ziba o caluniara, contentando-se em dizer que ordenaria a Ziba que lhe restituísse a metade dos bens que recebera em confisco. A isso ele respondeu: &quot;Majestade, que ele conserve tudo. Para eu ficar contente, basta-me ver vossa majestade reassumir gloriosamente o reino&quot;.
294.  Barzilai, gileadita, homem muito hábil e bom cidadão que ajudou muito a Davi durante o tempo da infelicidade deste, levou-o até o Jordão. Davi insistiu que ele o acompanhasse até Jerusalém e prometeu dedicar-lhe a honra e o afeto de um pai. Barzilai agradeceu, mas suplicou insistentemente que o rei lhe permitisse voltar para pensar apenas em se preparar para a morte, pois, tendo mais de oitenta anos, não estava mais na idade de gozar dos prazeres do mundo.
Davi, não podendo convencê-lo a acompanhá-lo, rogou-lhe que lhe desse pelo menos o filho Quimã, para que pudesse testemunhar na pessoa dele aquela amizade. Então Barzilai, depois de se prostrar diante dos príncipes e de lhes desejar toda sorte de felicidade e prosperidade, voltou para casa.
295.  Quando Davi chegou a Cilgal, a tribo de Judá inteira e quase metade de todas as outras posicionaram-se junto dele. Os principais da província, acompanhados por uma grande multidão de seus habitantes, queixaram-se de que os de Judá vieram à presença do rei sem os avisar, pois se o tivessem sabido não teriam deixado de ir também.
296.  Os príncipes de Judá responderam que não houve intenção de ofendê-los, pois, sendo da mesma tribo do rei, tinham, mais que os outros, obrigação de apresentar-lhe as suas homenagens particulares, e que não pretenderam absolutamente tirar qualquer vantagem disso, apenas cumprir um dever. Essa desculpa não satisfez os príncipes das outras tribos, que retrucaram: &quot;Não podemos deixar de muito nos admirar que estejais persuadidos de que o rei, por ser da vossa tribo, vos é mais próximo, pois Deus no-lo deu a todos, igualmente. Vossa tribo não pode ter nisso nenhuma vantagem sobre as demais, porque é apenas a duodécima parte do todo. Assim, fizestes mal em ir à presença do rei sem nos avisar&quot;.
2 Samuel 20. Como a divergência aumentava e os ânimos se acaloravam, Seba, filho de Bicri, da tribo de Benjamim, que era sedicioso e mau-caráter, gritou com toda força: &quot;Nós não temos parte com Davi e não conhecemos o filho de Jessé&quot;. Mandou em seguida tocar as trompas, para mostrar, com esse sinal, que lhe declarava guerra. No mesmo instante, todas as tribos abandonaram Davi, exceto a de Judá, que o levou a Jerusalém. Lá mandou sair do palácio as concubinas de que Absalão havia abusado. Colocou-as numa casa e cuidou de sua manutenção, porém nunca mais as viu.
297. Davi concedeu a Amasa, como havia prometido, o cargo de general de seu exército, antes comandado por Joabe, ordenando-lhe que fosse recrutar o maior número possível de homens da tribo de Judá e os trouxesse dentro de três dias, para marchar imediatamente contra Seba. Passou-se o terceiro dia, e Amasa não voltou. Temendo que o partido de Seba se tornasse mais forte e o fizesse correr o mesmo risco que correra com Absalão, Davi não quis esperar mais. Ordenou a Joabe que tomasse todas as forças que estavam com ele e a companhia de seiscentos homens e marchasse rapidamente contra Seba, para dar-lhe combate onde ele estivesse e para que, se tivesse ocasião de se tornar senhor de alguma praça-forte, não lhe causasse dissabores.
Joabe, acompanhado por Abisai, seu irmão, partiu imediatamente, armado com couraça, levando a companhia de seiscentos homens que sempre acompanhava Davi e as outras tropas que estavam em Jerusalém. Quando chegou à aldeia de Gibeão, distante quarenta estádios de Jerusalém, encontrou Amasa, que conduzia um grande número de soldados. Aproximou-se dele e, deixando de propósito cair a espada fora da bainha, apanhou-a de volta. E assim, de espada na mão, como que por acaso, tomou Amasa pela barba, com o pretexto de abraçá-lo, e matou-o com um golpe que lhe atravessou o corpo.
Por mais infame que tenha sido a ação de Joabe ao assassinar Abner, a última foi ainda mais detestável, pois àquela podia-se acrescentar a grande dor pela morte de Asael, seu irmão, ao passo que esta foi motivada unicamente pela inveja, porque o rei dera a Amasa o cargo de general, em demonstração de afeto. Tal sentimento levou-o a matar com as próprias mãos, manchando-as no sangue de um homem de grande mérito e de grandes esperanças, que jamais lhe fizera mal algum e ainda era seu parente.
Depois de cometer esse crime, Joabe marchou contra Seba, deixando junto do corpo um homem com o encargo de gritar em alta voz a todas as tropas conduzidas por Amasa que ele fora castigado como merecia e que, se quisessem demonstrar afeto ao rei, deviam seguir Joabe, general de seu exército, e Abisai, seu irmão. O homem executou a ordem e, depois que todos viram com espanto aquele corpo, mandou cobri-lo com um manto e levá-lo a um lugar afastado do caminho.
298. Todas as tropas seguiram Joabe, o qual, depois perseguir Seba por muito tempo, soube ele se havia encerrado em Abel-Bete-Maaca, que é uma praça-forte. Para lá partiu, a fim de prendê-lo. Mas os habitantes dessa praça não o deixaram entrar. Isso o enfureceu de tal modo que ele sitiou a cidade com o propósito de não poupar nenhum deles e de destruir a cidade completamente.
Uma mulher de grande inteligência, vendo o extremo perigo que corriam devido àquela imprudência, levada pelo amor à pátria, subiu à muralha e gritou para a guarda mais próxima dos sitiantes que desejava falar com o general deles. Joabe veio, e ela disse-lhe: &quot;Deus estabeleceu o rei sobre os povos para garanti-los contra os inimigos e fazê-los desfrutar a paz. Mas vós, ao contrário, quereis empregar as armas do rei para destruir uma de suas principais cidades, embora jamais o tenhamos ofendido&quot;.
Joabe respondeu-lhe que, bem longe de ter essa intenção, lhe desejava toda sorte de felicidade. Queria somente que lhe entregassem o traidor Seba, que se revoltara contra o rei, e então levantaria imediatamente o cerco. A mulher disse-lhe que tivesse um pouco de paciência, e dar-lhe-iam satisfação. Reuniu em seguida todos os habitantes e disse-lhes: &quot;Estais então resolvidos a perecer com vossas esposas e filhos por amor a um homem mau que nem mesmo conheceis, para protegê-lo contra o rei, a quem sois devedores de tantos benefícios? Julgais que sois bastante fortes para resistir a um poderoso exército?&quot;
Essas palavras os persuadiram, e eles cortaram a cabeça de Seba e a atiraram ao acampamento de Joabe, que no mesmo instante levantou o cerco e regressou a Jerusalém. Tão grande feito obrigou Davi a confirmá-lo no cargo de general. Em seguida, o rei elevou Benaia a comandante de sua guarda e da companhia de seiscentos homens. Encarregou Adorão de receber os impostos, deu o encargo dos registros a Josafá e a Seva e manteve Zadoque e Abiatar no sumo sacerdócio.
299.  2 Samuel 21. Pouco tempo depois, o reino inteiro foi assolado por uma grande carestia. Davi recorreu a Deus e rogou-lhe que tivesse compaixão de seu povo e que não somente revelasse a causa daquele mal, mas também o remédio. Os profetas responderam ao rei que a carestia iria continuar até que o gibeonitas fossem vingados da injustiça de Saul, que matara vários deles, em prejuízo da aliança que Josué fizera com eles, havendo ele e o senado jurado solenemente. Assim, o único meio de aplacar a cólera de Deus e de fazer cessar a carestia era dar àquele povo a satisfação que ele desejava.
Davi, após essa resposta, mandou logo chamar os principais dos gibeonitas e perguntou-lhes o que se poderia fazer para contentá-los. Responderam-lhe que queriam sete pessoas da família de Saul para enforcá-las. Davi concordou, excetuando, porém, Mefibosete, ao qual desejou poupar por ser filho de Jônatas. Assim, estando os gibeonitas plenamente satisfeitos, Deus fez cair sobre a terra chuvas brandas e benéficas, que lhe restituíram a primitiva beleza. Começou a ser de novo fecunda, e os israelitas voltaram também à primeira condição, de feliz abundância.
300. Como Davi preferia o interesse da nação ao descanso, atacou os filisteus e os venceu num grande combate. O ardor com que os perseguia levou-o tão além que ele se sentiu cansado e percebeu que as forças lhe faltavam. Então um filisteu da raça dos gigantes, de nome Isbi-Benobe, filho de Arafa, que estava coberto com uma jaqueta de malha e tinha, além da espada, um dardo que pesava trezentos sidos, vendo-o naquele estado, correu para ele, prostrou-o por terra e o teria matado se Abisai não tivesse vindo em seu socorro e matado o temível gigante.
O exército inteiro ficou alarmado com o perigo que o rei havia corrido, e os chefes, não podendo tolerar que o excesso de coragem os pusesse em risco de perder o melhor príncipe do mundo, cujo sábio proceder fazia toda a sua felicidade, obrigaram-no a prometer com juramento que não tomaria mais parte nas batalhas.
Após esse combate, os filisteus reuniram-se na cidade de Gaza. Logo que Davi o soube, enviou contra eles um grande exército. Dentre os mais valentes dos seus, um cheneense de nome Sobaque sobressaiu-se muito nessa guerra e foi um dos principais motivos da vitória, porque matou vários daqueles que se vangloriavam de ser da raça dos gigantes, aos quais a extraordinária força tornava ousados e soberbos.
Tão grande perda não abateu a coragem dos filisteus, e eles recomeçaram a guerra. Davi então enviou contra eles Nefã, um de seus parentes, que conquistou grande fama, pois combateu-os corpo a corpo e matou o mais forte e o mais valente dos filisteus, o que deixou os outros muito pasmados, e fugiram. Essa iornada custou a vida a vários desses poderosos inimigos.
Algum tempo depois, puseram-se eles em campo novamente, e vieram para perto da fronteira dos israelitas, jônatas, filho de Siméia, sobrinho de Davi, matou um deles, um terrível gigante que tinha seis côvados de altura e seis dedos em cada pé e em cada mão. Se esse combate foi tão glorioso ao bravo israelita, não foi menos vantajoso para a sua nação, porque desde aquele dia os filisteus não se atreveram mais a lhes fazer guerra.
301.  2 Samuel 22. Davi, após correr tantos perigos e vencer tantas batalhas, teve momentos de paz e tranqüilidade. Começou então a compor vários cânticos, hinos e salmos em louvor a Deus, em versos de diversas medidas, pois uns eram trímetros e outros pentâmetros. Ordenou que os levitas os cantassem nos sábados e nos outros dias de festa, com diversos instrumentos de música, que ele fabricara para essa ocasião, dentre os quais havia violões de dez cordas, que se tocavam com um arco, e saltérios de doze tons, que se tocavam com os dedos, além de grandes timbales de bronze. E seja isso suficiente para que não se diga que esses instrumentos são inteiramente desconhecidos.
302.  2 Samuel 23. O príncipe tinha sempre junto de si homens de valor extraordinário, dos quais trinta e oito estavam entre os mais distintos. Contentar-me-ei em citar cinco deles, para que se saiba até que ponto ia a coragem heróica que os tornava capazes de vencer nações inteiras.
O primeiro era Josebe-Bassebete, filho de Taquemoni, que rompeu diversas vezes os batalhões inimigos e matou oitocentos homens num só combate.
O segundo era Eleazar, filho de Dodô, que ficou sozinho quando os israelitas, espantados pelo grande número de filisteus, fugiram, na jornada de Azaram, onde ele estava com Davi, e deteve os inimigos, causando tal morticínio que o sangue de que se molhara a sua espada colou-a em sua mão. Isso deu tanta coragem aos seus que eles não somente fizeram meia-volta como também penetraram os batalhões que ele já havia desfeito, obtendo aquela memorável vitória na qual uma parte dos soldados teve de se ocupar em despojar os mortos que caíam sob os golpes fulminantes de Eleazar.
O terceiro era Sama, filho de Agé, o qual, vendo os hebreus recuarem assustados com a aproximação dos filisteus, que se haviam preparado para a batalha num campo denominado Maxilar, enfrentou sozinho muitos inimigos e praticou atos de bravura tão extraordinários que os desbaratou, pô-los em fuga e depois ainda os perseguiu.
Eis aqui outro feito desses três heróis. Quando os filisteus voltaram com um grande exército e acamparam no vale que se estende até Belém e fica próximo de Jerusalém mais ou menos uns vinte estádios, Davi, que então estava na cidade, subiu à fortaleza para perguntar a Deus qual seria o êxito daquela guerra e pronunciou também estas palavras: &quot;Oh! Que boa água se bebe em meu país, principalmente a daquela cisterna que está perto da porta de Belém. Na verdade, se alguém me pudesse trazer tal presente, ser-me-ia muito mais agradável que uma grande soma de dinheiro&quot;.
Esses três valentes, ouvindo-o falar assim, partiram imediatamente, atravessaram todo o acampamento dos inimigos, foram a Belém, tiraram água daquela cisterna, voltaram pelo mesmo caminho e a apresentaram ao rei, sem que filisteu algum se opusesse à sua passagem, quer pelo espanto com a ousadia deles, quer pelo pequeno número, que não lhes podia causar temor nem apreensões. Davi, porém, contentou-se em receber a água de suas mãos. Não a quis beber, dizendo: &quot;A gravidade do perigo ao qual homens tão valentes se expuseram para trazê-la torna-a demasiado cara&quot;. Assim, ele a derramou como oferta na presença de Deus, dando-lhe graças por haver conservado aqueles que com ela o presentearam.
O quarto desse bravos era Abisai, irmão de Joabe, que num só combate matou trezentos inimigos.
O quinto era Benaia, da casta sacerdotal. Atacado ao mesmo tempo por dois irmãos que passavam pelos mais valentes dos moabitas, matou a ambos. Depois, sem armas, foi atacado por um egípcio de estatura prodigiosa e bem armado. Matou-o com a própria lança, que lhe arrancara das mãos. E, não tendo outra arma senão um cajado, matou um leão numa cisterna em que caíra durante uma tempestade de neve.
303. 2 Samuel 24. Esses foram os feitos desses cinco homens extraordinários. Os outros trinta e três não lhes ficavam atrás, nem em força nem em coragem.
Davi, querendo saber o número de homens que podiam pegar em armas no seu reino e não se lembrando de que Moisés ordenara que se pagasse a Deus meio sido por cabeça todas as vezes que fosse feito um recenseamento, disse a Joabe que o realizasse. Este desculpou-se, dizendo que aquilo não era necessário. Mas Davi deu-lhe ordem de maneira taxativa.
Assim, Joabe partiu e, depois de nove meses de trabalho mais vinte dias, foi procurá-lo em Jerusalém, com os príncipes das tribos e os escribas. Pela relação que lhe apresentou, constataram que o número dos que podiam pegar em armas totalizava oitocentos mil homens, sem estarem incluídas a tribo de Judá, que sozinha podia fornecer quinhentos mil, e as de Benjamim e Levi, porque antes que se concluísse o recenseamento o rei as havia mandado voltar, pois os profetas haviam feito conhecer ao rei o pecado que este cometera. O religioso príncipe pediu perdão a Deus, que ordenou, por meio de Gade, seu profeta, que ele escolhesse qual destes três castigos preferia: uma carestia geral de sete anos, uma guerra de três meses, na qual ele seria sempre vencido, ou uma peste de três dias.
Davi ficou tão perplexo ante tais propostas que nada soube dizer. Não sabia, dentre esses males, qual escolher. O profeta insistia que ele resolvesse logo, a fim de levara resposta a Deus. Davi considerou que, se escolhesse a carestia, podiam pensar que ele preferira a própria conservação à de seus súditos, pois, embora viesse a faltar pão aos demais, o rei não seria privado dele. Se escolhesse a guerra, do mesmo modo não correria grande risco, tendo praças-fortes e muitos soldados para velar pela sua segurança. Mas se escolhesse a peste, daria provas de que não tinha em conta nenhum interesse particular, porque a doença é igualmente perigosa, tanto para um rei quanto para o menor de seus súditos. Assim, ele deliberou pedi-la, imaginando que lhe seria mais vantajoso cair nas mãos de Deus que nas dos homens.
Não acabara o profeta de dar a Deus a resposta, e o terrível flagelo devastou o reino, sem que se conhecesse algo para debelar tão cruel enfermidade. Parecia em geral uma peste muito violenta, mas feria os homens de maneira diferente. Em alguns, não aparecia, mas morriam do mesmo modo que os outros e muito depressa. Outros expiravam em meio a dores atrozes e violentíssimas. Alguns, não podendo tolerar o remédio, pereciam nas mãos dos médicos. Outros perdiam a visão num momento e logo depois ficavam sufocados. E havia quem morresse ao sepultar os mortos, sendo enterrados com eles. Tão espantoso contágio matou numa única manhã setenta mil homens.
O anjo exterminador enviado por Deus mantinha os braços erguidos para fazer Jerusalém sentir os efeitos de sua cólera. Davi, revestido de um saco e com a cabeça coberta de cinzas, prostrou-se por terra, pedindo a Deus que se contentasse com aquele grande número de mortos e aplacasse a sua cólera. Então ele viu o anjo cruzar o espaço com uma espada desembainhada na mão e gritou com todas as suas forças que somente ele, Davi, merecia ser castigado, pois era o único culpado, e não o seu povo. O povo era inocente. Rogou a Deus que lhe perdoasse e se contentasse em fazê-lo perecer com toda a sua família. Deus, comovido por essa oração, fez cessar a terrível peste e mandou-lhe dizer pelo mesmo profeta que erguesse um altar na eira de Araúna e ali oferecesse um sacrifício.
Araúna era um jebuseu. Davi o havia poupado depois de tomar a cidade, tanta era a afeição que tinha por ele. Sem demora, o rei dirigiu-se à casa dele e encontrou-o batendo trigo na eira. Araúna correu para o rei, prostrou-se diante dele e perguntou-lhe de onde vinha e a que devia a honra daquela visita. Davi respondeu que viera comprar a eira, para erguer ali um altar e oferecer a Deus um sacrifício. Replicou Araúna: &quot;A eira, a charrua e os bois estão ao serviço de vossa majestade. Cedo-os de todo o coração e rogo a Deus que tenha esse sacrifício como agradável&quot;.
O rei louvou a sua liberalidade e franqueza, manifestando todo o seu agradecimento, mas não quis aceitar a oferta, afirmando que não se devem oferecer a Deus vítimas recebidas como presentes. Assim, comprou tudo por cinqüenta sidos, ergueu um altar e ofereceu holocaustos e ofertas pacíficas. Esse local é o mesmo ao qual Abraão levou Isaque para oferecê-lo a Deus em sacrifício, aparecendo bem perto um carneiro quando ele erguia o braço para feri-lo, que foi imolado no lugar do filho. Davi, percebendo que Deus se inclinava a aceitar o sacrifício, deu a esse altar o nome de Todo o Povo e escolheu-o para ali construir o Templo. Deus aceitou-o de tão boa vontade que no mesmo instante mandou dizer pelo seu profeta que o filho e sucessor de Davi executaria o desejo deste.
Depois dessas palavras, Davi mandou fazer o recenseamento dos estrangeiros que habitavam o seu reino. Constatou que eram uns cento e oitenta mil. Destes, empregou oitenta mil para cortar pedras e o resto para transportá-las, bem como aos outros materiais, exceto uns três mil e quinhentos, designados para vigiar e dirigir os trabalhos, juntou bastante ferro, cobre e uma enorme quantidade de madeira de cedro, fornecida pelos tírios e pelos sidônios. Ele dizia aos amigos que fazia todos esses preparativos para poupar trabalho ao filho, que ainda era muito jovem, e facilitar-lhe a construção do Templo.

CAPÍTULO 11
DAVI MANDA SALOMÃO CONSTRUIR O TEMPLO. ADONIAS QUER FAZER-SE REI, MAS DAVI SE DECLARA A FAVOR DE SALOMÃO. TODOS ABANDONAM
ADONIAS, E ELE MESMO SUBMETE-SE A SALOMÃO. DIVERSAS DETERMINAÇÕES DE DAVI. O MODO COMO FALA AOS PRÍNCIPES DE SEU
REINO E A SALOMÃO, A QUEM SAGRA REI PELA SEGUNDA VEZ.

304. Davi, depois do que acabo de relatar, mandou chamar Salomão e disse-lhe: &quot;A primeira coisa que vos ordeno, meu filho, para depois que me tiverdes sucedido, é a construção de um templo em honra a Deus, honra que eu mesmo muito desejei realizar, mas Ele, por meio de seu profeta, me proibiu fazê-lo, porque as minhas mãos foram manchadas com o sangue das inúmeras guerras que fui obrigado a empreender e de que tomei parte. Ele disse-me que escolhera para realizar esse desejo o mais jovem de meus filhos, que se chamaria Salomão, que teria por esse filho um amor de pai e que a nossa nação seria tão feliz sob o seu reinado que gozaria toda espécie de bens, numa paz que jamais seria perturbada por guerra alguma, estrangeira ou civil. Assim, mesmo antes de terdes nascido, Deus vos destinou para ser rei. Por isso esforçai-vos para ser digno de tão grande honra, por vossa piedade, coragem e amor pela justiça. Observai religiosamente os mandamentos que Ele nos deu por meio de Moisés e não permitais que outros os violem. Considerai como grande favor a graça que Ele vos faz, permitindo-vos construir-lhe um templo, e trabalhai nele com ardor, sem que a grandeza do empreendimento vos espante. Antes de morrer, prepararei o que for necessário para a sua realização. Já ajuntei dez mil talentos de ouro e uma enorme quantidade de ferro, cobre, madeira e pedras. Tenho ferreiros, pedreiros e carpinteiros. Se ainda faltar alguma coisa, vós mesmo providenciareis e assim vos tomareis agradável a Deus. Ele será o vosso protetor e o seu auxílio Todo-poderoso nada vos fará temer&quot;.
305.  Depois de falar a Salomão, Davi exortou os chefes das tribos a ajudar o filho na construção do Templo e a servir fielmente a Deus e a esperar como recompensa de sua piedade que nada perturbasse a paz e a felicidade que Ele os faria desfrutar. Ordenou que, depois de concluído o Templo, a arca da aliança para lá fosse levada, com todos os vasos sagrados, que lá deveriam estar há muito tempo, se os pecados de seus pais e o desprezo pelos mandamentos de Deus não tivessem impedido a sua construção. Pois deveriam tê-lo erigido logo que tomaram posse da terra que Deus lhes prometera.
306.   1 Reis 1. Esse sábio e admirável rei tinha apenas setenta anos, mas as grandes dificuldades que suportara no decurso da vida o haviam enfraquecido tanto que não lhe restava mais calor natural algum, e tudo o que usavam para cobri-lo não o podia aquecer. Os médicos opinaram que a única solução seria fazê-lo dormir com uma jovem, para que ela o aquecesse como se aquece uma criança. Escolheram a mais bela de todo o país, chamada Abisague, de que falaremos em seguida.
307.  Adonias, quarto filho de Davi, que ele tivera de Hagite, uma de suas mulheres, era um príncipe alto e belo e não era menos ambicioso que Absalão. Assim, ele determinou fazer-se rei e comunicou o seu desígnio a todos os seus amigos. Fez em seguida provisão de cavalos e de carros, tomando cinqüenta homens para a sua guarda. Como tudo se fazia à vista de todos, nada ficou oculto ao rei seu pai. Todavia este não lhe disse nada. Joabe, general do exército, e Abiatar, sumo sacerdote, puseram-se a serviço de Adonias. Porém Zadoque, também sumo sacerdote, o profeta Nata, Benaia, comandante da guarda de Davi, ao qual muito ele amava, e aquela tropa de bravos de que falamos há pouco continuaram fiéis aos interesses de Salomão.
Adonias preparou um grande banquete num arrabalde de Jerusalém, próximo à fonte do jardim do rei, e convidou todos os seus irmãos, exceto Salomão. Convidou também Joabe, Abiatar e os chefes da tribo de Judá, mas não convidou Zadoque, Nata e Benaia. Nata avisou a Bate-Seba, mãe de Salomão, do que se passava, acrescentando que o único meio de garantir a sua segurança e a do filho era relatar o fato ao rei em particular, pois, embora ele tivesse prometido com juramento que Salomão iria sucedê-lo, Adonias já estava de posse do reino. Deu-lhe ainda a certeza de que estaria presente à entrevista, para confirmar o que ela dissesse.
Bate-Seba seguiu o conselho e foi procurar o rei. Prostrou-se diante dele e depois de suplicar permissão para falar de um assunto muito importante disse-lhe que Adonias dera um grande banquete, para o qual convidara todos os irmãos, menos Salomão; que convidara também Abiatar, Joabe e os principais amigos; que o povo, vendo aquela grande reunião, aguardava por quem e para quem se declarar; que ela então suplicava que o rei se lembrasse da promessa que tão solenemente fizera de escolher Salomão para seu sucessor; e que considerasse que, quando não estivesse mais no mundo e Adonias viesse a reinar, ela e o filho teriam morte certa.
Enquanto ela assim falava, avisaram o rei que Nata chegava para conversar com ele, e Davi mandou que o fizessem entrar. O profeta perguntou-lhe se era sua intenção que Adonias reinasse depois dele e se o havia declarado rei, porque ele estava dando um grande banquete para o qual todos — os irmãos, Joabe e vários amigos — haviam sido convidados, menos Salomão, e, em meio à alegria e regozijo, os convidados lhe estavam desejando um longo e feliz reinado. Acrescentou que Adonias não o convidara, nem a Zadoque e nem a Benaia. E assim, como era necessário que todos soubessem naquela circunstância qual era a vontade do rei, ele vinha suplicar-lhe que a revelasse.
Assim falou o profeta, e Davi então mandou chamar Bate-Seba, que havia saído do quarto à entrada de Nata. Quando ela chegou, disse-lhe: &quot;)uro-vos pelo Deus eterno e Todo-poderoso que Salomão, vosso filho, estará sentado sobre o meu trono e que ele reinará desde hoje&quot;. Bate-Seba prostrou-se até o solo ante essas palavras e desejou-lhe longa vida.
Davi mandou chamar também Zadoque e Benaia e, para dar a conhecer a todo o povo que ele escolhia Salomão como sucessor, ordenou que eles e o povo, acompanhados por toda a sua guarda, o fizessem subir a uma cavalgadu-ra, na qual nenhum outro havia montado, senão o rei. Depois deveriam levá-lo à fonte de Giom, onde Zadoque e Nata o consagrariam rei, derramando-lhe óleo santo sobre a cabeça, e em seguida atravessar toda a cidade, com um arauto a proclamar adiante dele estas palavras: &quot;Viva o rei Salomão! Que ele ocupe por toda a sua vida o trono real de judá!&quot; Em seguida, mandou chamar Salomão e deu-lhe preceitos para bem reinar e para governar santamente e com justiça não somente a tribo de |udá, mas também todas as outras.
Benaia, acompanhado por todos aqueles de quem acabamos de falar, após ter rogado a Deus que fosse favorável a Salomão colocou-o sobre a cavalgadura e levou-o pela cidade até a fonte de Giom, onde foi sagrado rei. Depois reconduziu-o pelo mesmo caminho. Esse ato público eliminava toda e qualquer dúvida quanto a ser Salomão o escolhido por Davi dentre todos os seus filhos para sucedê-lo. Todos gritaram então: &quot;Viva o rei Salomão! Deus queira que ele governe feliz por muitos anos!&quot; Quando chegaram ao palácio fizeram-no sentar no trono do rei seu pai. A alegria do povo foi grande, como jamais se vira em toda a cidade. Eram banquetes e festins de regozijo. O som das harpas, das flautas e de muitos outros instrumentos musicais era tão forte que todo o ar ressoava, e a terra estava possuída de grande júbilo.
Adonias e todos os seus convidados ficaram apreensivos, e Joabe comentou que aquele ruído de tantos instrumentos não o agradava absolutamente. Todos ficaram alarmados e interromperam o banquete. Então Jônatas, filho de Abiatar, chegou apressadamente. De início, Adonias alegrou-se, pensando que ele trazia boas notícias. Mas quando Jônatas contou o que se havia passado e que o rei se declarara em favor de Salomão, todos se levantaram da mesa e foram embora.
Temendo a indignação de Davi, Adonias buscou asilo aos pés do altar e mandou rogar ao novo rei que esquecesse o que ele havia feito e lhe garantisse a vida. Salomão o atendeu, tanto por prudência quanto por bondade, porém com a condição de que jamais caísse em falta semelhante e que somente a si mesmo se responsabilizasse pelo mal que aconteceria, caso viesse a reincidir. Mandou retirá-lo do asilo e depois que ele se prostrou na sua presença ordenou-lhe que fosse para casa sem nada temer, mas que não se esquecesse de viver como um homem de bem.
308.  Davi, para garantir ainda a coroa a Salomão, quis que ele fosse reconhecido rei por todo o povo. Para esse fim, convocou a Jerusalém os principais das tribos, dos sacerdotes e dos levitas, cujo número, de trinta anos para cima, era de trinta e oito mil. Escolheu seis mil deles para julgar o povo e para servir como notários, vinte e três mil para cuidar da construção do Templo, quatro mil para porteiros e o resto para cantar hinos e cânticos em louvor a Deus, com os diversos instrumentos de música que mandara fabricar e de que falamos há pouco. Empregou-os nesses diversos misteres segundo a sua raça.
Após separar as famílias dos sacerdotes, constatou que eram vinte e quatro: dezesseis descendentes de Eleazar e oito de Itamar. Determinou que essas famílias servissem cada uma oito dias, de um sábado a outro, sucessivamente. A sorte foi lançada na presença dele, dos sumos sacerdotes Zadoque e Abiatar e de todos os chefes das tribos. Elas foram sendo escaladas uma após a outra, segundo a sorte ia decidindo. Essa ordem permanece até hoje.
Depois que esse sábio príncipe dividiu as famílias dos sacerdotes, separou da mesma maneira as dos levitas, para servirem de oito em oito dias, como os outros. Prestou também uma homenagem particular aos descendentes de Moisés, entregando-lhes a guarda do tesouro de Deus e dos presentes que os reis lhe oferecessem. Determinou ainda que toda a tribo de Levi, tanto os sacerdotes quanto os demais, se entregasse dia e noite ao serviço de Deus, como Moisés já havia ordenado.
309.  Dividiu em seguida todos os soldados em doze corpos de vinte e quatro mil homens cada um, comandados por um chefe que tinha sob a sua dependência mestres de campo e oficiais. Ordenou que cada um desses corpos, por sua vez, fizesse guarda durante um mês diante do palácio de Salomão e não distribuiu cargo algum senão a pessoas de mérito e de probidade. Escolheu também o guarda de seus tesouros e de tudo o que dependia de seu domínio, de que seria inútil falarmos mais detalhadamente.
310.  Depois que esse excelente rei dispôs as coisas com tanta prudência e sabedoria, mandou reunir todos os príncipes das tribos e todos os principais oficiais e, tendo subido ao trono, declarou: &quot;Meus amigos, julguei-me obrigado a vos fazer saber que, tendo resolvido construir um templo em honra a Deus e reunido para esse fim grande quantidade de ouro e cem mil talentos em dinheiro, Ele me proibiu, por meio do profeta Nata, de executar o meu intento, porque as minhas mãos estavam manchadas com o sangue dos inimigos que venci em tantas guerras, as quais o bem público e o interesse da nação me obrigaram a empreender. Ele me fez declarar, ao mesmo tempo, que aquele de meus filhos que me sucedesse no trono começaria e terminaria a obra. Como sabeis, embora Jacó, nosso pai, tivesse doze filhos, Judá foi escolhido com o consentimento geral para príncipe sobre todos os outros, e, tendo eu seis irmãos, Deus me preferiu a eles para elevar à dignidade real, sem que eles manifestassem o mínimo ressentimento. Do mesmo modo, desejo que todos os meus filhos tolerem sem murmurar que Salomão os governe, porque Deus escolheu elevá-lo ao trono. Pois, ainda que Ele quisesse nos submeter a estrangeiros, deveríamos tolerá-lo com paciência, quanto mais temos motivo para nos regozijarmos por Ele ter conferido semelhante honra a um de nossos irmãos: acaso o parentesco do sangue não nos faz participantes? Rogo a Deus de todo o meu coração que Ele logo cumpra a promessa que lhe aprouve fazer-me de tornar este reino muito feliz sob o governo do novo rei, e que essa felicidade seja duradoura&quot;. Voltando-se para Salomão, ele disse: &quot;Isso acontecerá sem dúvida, meu filho, se amardes a piedade e a justiça e observardes inviolavelmente as leis que Deus outorgou a nossos antepassados. Se a elas faltardes, porém, não haverá infelicidade que não possais esperar&quot;.
Depois de assim falar, colocou nas mãos de Salomão o plano e a descrição de como queria que se construísse o Templo, onde tudo estava determinado com minudências, e também uma lista de todos os vasos de ouro e de prata necessários para o serviço divino, com o peso que deviam ter. Recomendou em seguida ao filho que usasse de extrema diligência ao executar a obra e exortou os príncipes das tribos, particularmente os levitas, que o ajudassem em tão santa empresa, tanto por causa de sua pouca idade quanto porque Deus o escolhera para ser o rei deles e para realizar aquele grande empreendimento.
Disse-lhes ainda que não seria difícil fazê-lo, pois deixava-lhes ouro, prata, madeira, esmeraldas, outras pedras preciosas e todos os operários necessários para esse fim. Acrescentava ainda de seu próprio dinheiro e de suas economias três mil talentos do mais puro ouro, para que fossem empregados nos ornamentos da parte mais santa e mais interna do Templo e nos querubins que deveriam estar sobre a arca, que era como o carro de Deus a cobri-la com as suas asas.
As palavras do grande rei foram recebidas com tanta alegria petos príncipes das tribos, pelos sacerdotes e pelos levitas que todos prometeram contribuir com toda boa vontade para aquela santa obra com cinco mil talentos de ouro, dez mil estáteres, cem mil talentos de prata e grande quantidade de ferro. Os que possuíam pedras preciosas trouxeram-nas para serem colocadas no tesouro, do qual jeiel, que era da estirpe de Moisés, tinha a custódia.
Todo o povo ficou comovido — e Davi, mais que todos — com o zelo que demonstravam as pessoas mais importantes do reino. O religioso príncipe, em alta voz, deu graças a Deus, chamando-o de Pai e Criador do Universo, Rei dos anjos e dos homens, Protetor dos hebreus e Autor da felicidade desse grande povo do qual Ele lhe havia confiado o governo. E terminou com um fervoroso pedido: que Ele continuasse a cumulá-los de favores e enchesse o Espírito e o coração de Salomão com toda espécie de virtudes. Ordenou-lhes em seguida que louvassem a Deus, e imediatamente todos se prostraram por terra, para adorar a eterna Majestade.
O ato chegou ao seu termo com as demonstrações de gratidão que todos deram a Davi pela felicidade que haviam desfrutado durante o seu governo. No dia seguinte, fizeram-se grandes sacrifícios, nos quais se ofereceram a Deus em holocausto mil carneiros, mil cordeiros, mil novilhos e um grande número de vítimas para as oblações pacíficas. Davi passou o resto do dia com o povo, em festa e em regozijo. E Salomão foi sagrado rei segunda vez por Zadoque, sumo sacerdote, e levado ao palácio, onde se assentou no trono do rei seu pai, sem que dali em diante alguém o tenha desobedecido.

CAPÍTULO 12
ULTIMAS INSTRUÇÕES DE DAVI A SALOMÃO E SUA MORTE. SALOMÃO O SEPULTA COM EXTRAORDINÁRIA MAGNIFICÊNCIA.

311. 1 Reis 2. Pouco tempo depois, Davi, sentindo-se desfalecer inteiramente, julgou que a sua hora estava próxima. Mandou vir Salomão e disse-lhe: &quot;Meu filho, eis-me prestes a pagar o tributo que todos devemos à natureza e juntar-me aos meus antepassados. E um caminho que todos devem percorrer e do qual jamais se volta. Eis por que emprego esse pouco de vida que me resta para recomendar-vos que sejais justo para com os vossos súditos, religioso para com Deus, que vos elevou ao trono, e cuidadoso em observar os mandamentos que Ele nos deu por meio de Moisés, sem que nem o favor, nem a adulação, nem a paixão, nem qualquer outro motivo vos possam deles afastar. Se cumprirdes fielmente esse dever ao qual estais obrigado e a que eu vos exorto, Ele consolidará o cetro na nossa família e jamais um outro dominará sobre os hebreus. Lembrai-vos dos crimes cometidos por Joabe, quando a sua inveja o levou a matar à traição dois generais, Abner e Amasa, homens de bem e de grande mérito. Vingai a morte deles da maneira que julgardes mais conveniente. Eu não o pude fazer porque ele era mais poderoso que eu. Recomendo-vos os filhos de Barzilai, gileadita. Tributai-lhes, por mim, um afeto particular, conservando-os perto de vós em grande honra, e não considereis um benefício o tratamento que lhes dispensardes, mas uma dívida de gratidão que tenho para com o pai deles, o qual, quando eu estava exilado, ajudou-me com generosidade sem igual e nos tornou assim seus devedores. Com relação a Simei, que ousou insultar-me com mil injúrias quando fui obrigado a sair de Jerusalém para buscar segurança além do Jordão e ao qual prometi no entanto salvar a vida quando ele veio à minha presença, após o meu regresso, deixo-vos a missão de castigá-lo segundo o motivo que ele vos der para isso&quot;.
312. Depois de assim falar a Salomão, morreu Davi, na idade de setenta anos, tendo reinado sete anos e meio em Hebrom, sobre a tribo de Judá, e trinta e três anos em Jerusalém, sobre toda a nação hebraica. Foi um príncipe de grande piedade e tinha todas as qualidades necessárias a um rei que tem a peito a tranqüilidade e a felicidade de um grande povo.
Nenhum outro foi tão valente. Era sempre o primeiro a se expor ao perigo, para o bem de seus súditos e a glória de sua nação. Convencia os seus mais pelo exemplo que pela autoridade a fazer atos de valor tão extraordinários que, por mais verdadeiros que fossem, pareciam inacreditáveis.
Ele era muito sábio em seus conselhos, muito resoluto nas deliberações, muito previdente no que se referia ao futuro, além de sóbrio, doce, compassivo com os males de outrem e muito justo, virtudes dignas dos grandes príncipes. Jamais abusou do soberano poder ao qual se viu elevado, exceto quando se deixou levar pela paixão por Bate-Seba. Jamais um rei, seja dos hebreus, seja de outra nação, deixou tão grandes tesouros.
313. O rei Salomão, seu filho, sepultou-o em Jerusalém, com tal magnificência que, além das cerimônias que se fazem nos funerais dos reis, mandou colocar no sepulcro riquezas incríveis, como será fácil julgar pelo que vou dizer.
Mil e trezentos anos depois, Antíoco, cognominado o Religioso, filho de Demétrio, sitiou Jerusalém, e Hircano, sumo sacerdote, querendo obrigá-lo a peso de ouro a levantar o cerco e não podendo encontrar o ouro em outro lugar, mandou abrir esse sepulcro e de lá tirou três mil talentos, dos quais deu uma parte ao príncipe.
Muito tempo depois, o rei Herodes tirou uma soma muito grande de outra parte do sepulcro, onde esses tesouros estavam escondidos, sem que no entanto se tenha tocado no ataúde onde as cinzas dos reis estavam encerradas, pois estava oculto com tanta arte embaixo da terra que não foi possível encontrá-lo.

Livro Oitavo

CAPÍTULO 1
SALOMÃO MANDA MATAR ADONIAS, JOABE E SIMEI. REMOVE ABIATAR DO CARGO DE SUMO SACERDOTE E DESPOSA AFILHA DO REI DO EGITO.

314.  1 Reis 2. No livro precedente, mostramos as virtudes de Davi, os benefícios de que nossa nação lhe é devedora e como, depois de tantas vitórias, ele morreu numa feliz velhice. Salomão, seu filho, que ele constituíra rei ainda vivo, tal como Deus havia ordenado, substituiu-o ainda muito jovem, e o povo, com grandes aclamações, desejou-lhe, segundo o costume, toda sorte de prosperidade e um longo reinado.
315. Adonias, que, como também já vimos, quis ocupar o trono enquanto o pai ainda vivia, foi procurar a rainha Bate-Seba, mãe de Salomão. Ela perguntou-lhe se precisava dela, pois o serviria de boa mente. Respondeu Adonias que ela sabia que o reino pertencia a ele, tanto por ser o mais velho quanto pelo consentimento unânime do povo. No entanto Deus havia preferido Salomão, e ele se submetia a isso, contentando-se, no momento, com a sua condição presente. Suplicava-lhe, todavia, que intercedesse por ele perante o rei, a fim de que lhe fosse dada Abisague em casamento, que todos sabiam ser ainda virgem, pois Davi a tomara somente para aquecer-se, quando a natureza já não lhe dava mais calor na sua velhice.
Bate-Seba prometeu-lhe fazer aquele favor e afirmou acreditar que ele, por intermédio dela, o obtivesse, quer pelo afeto que o rei dedicava a ela, quer pelo pedido que lhe faria. E foi imediatamente falar com o rei. Ele veio à sua presença e, depois de tê-la abraçado, levou-a ao salão onde estava o trono, e a fez sentar-se à sua direita. Ela falou: &quot;Tenho um favor, meu filho, a vos pedir, e não me deis o desprazer de negá-lo a mim, eu vos peço&quot;. Ele respondeu que, nada havendo que não se deva fazer por uma mãe, se admirava de vê-la falar daquele modo, como se duvidasse de que ele não lhe concederia com prazer tudo o que desejasse. Pediu-lhe então Bate-Seba que ele consentisse que Adonias desposasse Abisague.
Tal pedido surpreendeu-o e de tal sorte o irritou que ele retrucou, dizendo que Adonias devia pedir também a coroa, sendo irmão mais velho que ele. Era evidente que só desejava aquele casamento por um mau propósito, e todos sabiam que Joabe, general do exército, e Abiatar, sumo sacerdote, estavam também envolvidos. Imediatamente mandou chamar Benaia, comandante da guarda, e ordenou-lhe que fosse matar Adonias.
316.  Mandou chamar também Abiatar, sumo sacerdote, e disse-lhe: &quot;Vós merecíeis que eu vos mandasse matar, por terdes seguido o partido de Adonias. Mas as tribulações que suportastes pelo meu falecido pai e rei e a parte que tivestes com ele na trasladação da arca da aliança impedem-me de vos dar outro castigo senão o de que vos retireis e jamais vos apresenteis novamente diante de mim. Ide para vosso país e lá ficai, no campo, durante o resto de vossa vida, pois vos tornastes indigno do cargo que possuis&quot;.
Foi assim que o sumo sacerdócio saiu da família de Itamar, como Deus havia predito a Eli, avô de Abiatar, e passou para a de Finéias, na pessoa de Zadoque. Durante o tempo em que esse cargo ficou na família de Itamar, depois de Eli, que por primeiro o havia exercido, os da família de Finéias que levaram vida provada foram: Boci, filho de José, sumo sacerdote; Joatram, filho de Boci; Meraiote, filho de Joatram; Arofe, filho de Meraiote; Aitube, filho de Arofe e pai de Zadoque, feito sumo sacerdote no reinado de Davi.
317.  Quando Joabe soube da morte de Adonias, não duvidou de que o tratariam do mesmo modo, pois se declarara por ele. Então refugiou-se junto do altar, na esperança de que a piedade do rei teria respeito por um lugar tão santo. Mas Salomão, por meio de Benaia, ordenou-lhe que comparecesse ao tribunal para se justificar e para defender-se. A isso ele respondeu que não sairia de onde estava e que, se tivesse de morrer, preferia que tal se desse num lugar consagrado a Deus.
Salomão, depois dessa resposta, ordenou a Benaia que cortasse a cabeça de Joabe e enterrasse o corpo, para castigá-lo também pelos dois outros grandes crimes que cometera, os assassinatos de Abner e Amasa, a fim de que, caindo sobre ele e sua posteridade o castigo, todos soubessem que ele, Salomão, e o rei seu pai estavam inteiramente inocentes. Benaia executou a ordem e sucedeu a Joabe no cargo de general. A responsabilidade do sumo sacerdócio convergiu inteiramente para a pessoa de Zadoque.
318.  Salomão, ao mesmo tempo, ordenou a Simei que construísse uma casa em Jerusalém, para lá morar, com ordem de jamais ultrapassar o ribeiro de Cedrom, sob pena de morte. O rei fez com que ele a isso se obrigasse com juramento. Simei agradeceu muito aquela graça e disse, ao fazer o juramento, que cumpriria a ordem de todo o coração. Assim, deixou o seu país e veio para Jerusalém.
Três anos depois, dois de seus escravos fugiram e se refugiaram em Gate. Simei foi até lá, apanhou-os e os trouxe de volta. Salomão, irritado não somente por ele haver desprezado a sua ordem, mas também por ter violado o juramento feito na presença de Deus, mandou chamá-lo e disse-lhe: &quot;Vós sois mau! Não me tínheis prometido com juramento não sair de Jerusalém? Não temestes acrescentar perjúrio ao crime de ter ultrajado com palavras o rei meu pai, quando a revolta de Absalão o obrigou a abandonar a capital de seu reino? Preparai-vos para sofrer o suplício que mereceis e que fará conhecer a todos que a demora do castigo dos maus serve apenas para tornar a pena mais rigorosa&quot;. Depois de assim falar enviou-o a Benaia, para que este o executasse.
319.  Depois que Salomão se desfez de seus inimigos e desse modo consolidou o poder, desposou a filha de Faraó, rei do Egito, fortificou Jerusalém e governou sempre em profunda paz. A sua juventude não o impedia de ministrar a justiça ou de observar as leis. Procedia em tudo com vigilância, prudência e sabedoria, como se fosse muito mais velho, porque tinha continuamente diante dos olhos as instruções que recebera do rei seu pai.

CAPÍTULO 2
SALOMÃO RECEBE DE DEUS O DOM DA SABEDORIA. JULGAMENTO QUE
PROFERE ENTRE DUAS MULHERES, A UMA DAS QUAIS MORRERA O FILHO.
NOMES DOS GOVERNADORES DE SUAS PROVÍNCIAS. CONSTRÓI O TEMPLO E
NELE COLOCA A ARCA DA ALIANÇA. DEUS PREDIZ A FELICIDADE OU A
DESGRAÇA QUE TOCARIA A ELE E AO POVO CONFORME OBSERVASSEM OU NÃO
OS SEUS MANDAMENTOS. SALOTNÃO CONSTRÓI UM SOBERBO PALÁCIO. FORTIFICA JERUSALÉM E CONSTRÓI VÁRIAS CIDADES. RAZÃO PELA QUAL TODOS OS REIS DO EGITO SE CHAMAM FARAÓ. SALOMÃO TORNA TRIBUTÁRIOS O QUE RESTOU DOS CANANEUS. ORGANIZA GRANDE FROTA. A RAINHA DO EGITO E DA ETIÓPIA VEM VISITÁ-LO. PRODIGIOSAS RIQUEZAS DESSE PRÍNCIPE. SEU AMOR DESORDENADO PELAS MULHERES LEVA-O À IDOLATRIA. DEUS LHE DIZ DE QUE MODO O CASTIGARÁ. ÁDER LEVANTA-SE CONTRA ELE. DEUS COMUNICA A
JEROBOÃO, POR UM PROFETA, QUE ELE REINARÁ SOBRE DEZ TRIBOS.

320.  Um dos primeiros cuidados do rei Salomão foi ir a Hebrom oferecer a Deus em holocausto mil vítimas sobre o altar de bronze que Moisés fizera construir. Deus achou-o tão agradável que lhe apareceu à noite, em sonho, para dizer que, como recompensa por sua piedade, lhe concederia o dom que pedisse. Ainda que jovem, Salomão não se deixou levar pelo desejo das riquezas ou de outras coisas que parecem agradáveis aos homens. Preferiu uma mais útil, mais excelente e mais digna da bondade e da liberalidade de Deus. Assim, respondeu ele: &quot;Senhor, já que o permitis, suplico-vos que me concedais o Espírito da sabedoria e do proceder, a fim de que possa governar o meu reino com prudência e justiça&quot;.
Deus ficou tão satisfeito com esse pedido que, após conceder-lhe uma sabedoria extraordinária, como ninguém antes, príncipe ou particular, possuíra, declarou que não concederia somente o que ele estava pedindo, mas acrescentaria riquezas, glória, vitória sobre os inimigos e a posse do reino aos seus descendentes, desde que confiasse nEle, perseverasse na justiça e imitasse também as virtudes de Davi, seu pai. Salomão, a essas palavras, ergueu-se do leito e adorou a Deus. Quando voltou a Jerusalém, ofereceu-lhe diante do santo Tabernáculo um grande número de vítimas e deu um banquete ao povo.
321.  O jovem e admirável príncipe pronunciou nesse mesmo tempo uma sentença numa questão muito difícil, que julguei dever narrar aqui, a fim de que se possa, em casos semelhantes, aproveitar o seu exemplo para se descobrir a verdade. Duas mulheres de má vida vieram procurá-lo. Uma delas parecia muito aflita com a injustiça que lhe haviam feito. Ela falou: &quot;Esta mulher e eu, majestade, moramos no mesmo quarto, e ambas demos à luz ao mesmo tempo. Três dias depois, quando ela e o filho estavam no leito, ela o sufocou, dormindo. Como eu também dormia, tomou o meu filho, que estava em meus braços, e pôs o dela no lugar do meu. Quando acordei e quis dar de mamar ao meu filho, que eu conhecia muito bem, encontrei em seu lugar o menino morto. Pedi-lhe então o meu filho de volta, mas ela não o quis entregar, obstinando-se em conservá-lo. E não tenho ninguém que possa me ajudar a obrigá-la a isso. Foi por esse motivo que me vi forçada a recorrer a vossa majestade&quot;.
Depois que a mulher se expressou nesses termos, o rei perguntou à outra o que tinha a dizer. Ela afirmou ousadamente que o menino que vivia era o seu filho e que o de sua companheira havia morrido. Nenhum dos presentes achou que se poderia resolver a questão, tão difícil lhes parecia. Somente o rei encontrou um meio de solucioná-la. Mandou buscar a criança viva e ordenou a um dos guardas que a dividisse ao meio e desse igualmente a cada mulher uma parte.
Tal sentença a princípio pareceu pueril, e todos criticavam o rei por tê-la proferido. Mas bem depressa mudaram de opinião. A verdadeira mãe disse que, em nome de Deus, não o fizessem, pois preferia entregar o filho àquela mulher a vê-lo morto. Ainda que todos acreditassem ser a outra a verdadeira mãe, pelo menos teria a consolação de saber que ele ainda estava vivo. A outra, ao contrário, demonstrou aceitar de boa vontade a solução, encontrando um cruel motivo de alegria na dor de sua companheira.
O rei não teve mais dificuldade em julgar, por essa diversidade de sentimentos que somente a natureza pode inspirar, qual das duas era a verdadeira mãe. Assim, ordenou que o menino vivo fosse dado àquela que se opusera à sua morte e condenou a malícia da outra mulher, que, não se contentando em ter perdido o filho, desejava que a sua companheira também perdesse o dela. Essa prova de incrível sabedoria tornou o rei admirado por todos, e desde aquele dia começaram a obedecê-lo como a um soberano pleno do Espírito de Deus.
322. 1 Reis 4. Devo falar agora dos que tinham o governo das províncias.
Uri governava a região de Efraim.
Aminadabe, genro de Salomão, governava toda a região marítima, na qual também Dor estava compreendida.
Benaia, filho de Achil, governava todo o Grande Campo e o país que se estende até o Jordão.
Gabar governava todo o país de Gileade e de Gaulam, até o monte Líbano, onde havia sessenta cidades grandes e fortes.
Abinadabe, que desposara outra filha do rei Salomão, chamada Bazima, governava toda a Galiléia até Sidom.
Banachal governava a região marítima que está em torno do Arce.
Safate governava os dois montes de Itabarim e do Carmelo e toda a Baixa Galiléia que se estende até o Jordão.
Suba governava todo o país da tribo de Benjamim.
Tabar governava todo o país que está além do Jordão. Salomão tinha além disso um lugar-tenente-general, que governava todos esses governadores.
323.  Não se pode descrever a felicidade que os israelitas, particularmente os da tribo de judá, desfrutaram no reinado de Salomão, porque em tão profunda paz, não perturbada por guerras estrangeiras nem internas, todos pensavam somente em cultivar os seus campos e em aumentar as suas riquezas.
O rei tinha oficiais para receber os tributos que os sírios e os outros bárbaros de entre o Eufrates e o Egito eram obrigados a lhe pagar. Esses oficiais forneciam cada dia, para a sua mesa, entre outras coisas, trinta medidas de farinha, sessenta de outra farinha, inferior, dez bois gordos, vinte bois de pasto, cem cordeiros gordos e grande quantidade de caça e de peixes.
Possuía um número tão grande de carros que eram necessários quarenta mil cochos para os cavalos que os puxavam, atrelados dois a dois. Mantinha, além disso, doze mil homens de cavalaria, sendo que metade montava guarda em Jerusalém, junto de sua esposa, e metade estava distribuída pelas cidades. O encarregado da despensa ordinária tinha também o cuidado de prover a alimentação dos cavalos, em qualquer lugar onde eles estivessem.
324.  Deus encheu esse príncipe de sabedoria e de inteligência tão extraordinárias que nenhum outro em toda a Antigüidade pode a ele ser comparado. Ele sobrepujava até mesmo, em muito, os mais ilustres dos egípcios, que são tidos como os mais notáveis, como também os mais célebres dentre os hebreus daquela época, cujos nomes creio dever citar aqui: Etã, Hemã, Calcol e Darda, todos os quatro filhos de Maol.
Esse grande soberano compôs cinco mil livros de cânticos e de versos, três mil livros de parábolas, a começar do hissopo até o cedro, passando por todos os animais, pássaros, peixes e todos os que caminham sobre a terra. Deus lhe concedeu perfeito conhecimento da natureza e de suas propriedades, e ele escreveu um livro no qual empregou esse conhecimento em compor, para utilidade dos homens, diversos remédios. Alguns deles tinham até mesmo força para expulsar demônios, que não se atreviam a voltar.*
Essa prática está ainda em uso entre os de nossa nação. Vi um judeu, chamado Eleazar, livrar diversos possessos, na presença do imperador Vespasiano, de seus filhos e de vários oficiais e soldados. Ele prendia ao nariz do possesso um anel no qual estava fincada uma raiz, a mesma de que Salomão se servia para aquele fim. Loqo que o demônio a cheirava, arremessava o doente por terra e o abandonava. Ele dizia então as mesmas palavras que Salomão havia deixado por escrito e, fazendo menção desse príncipe, proibia ao demônio voltar. Para fazer ver ainda melhor o efeito das conjurações, enchia uma tinha de água e ordenava ao demônio que a lançasse por terra, como sinal de que havia abandonado o possesso, e o demônio obedecia. Julguei bem relatar essa história, a fim de que ninguém possa duvidar da ciência, assaz extraordinária, que Deus concedeu a Salomão como graça particular.

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* Esses estranhos procedimentos atribuídos a Salomão por Flávio Josefo contrariam os ensinamentos bíblicos. O autor deve tê-los extraído de algum conjunto de tradições dos judeus, as quais muitas vezes estavam sujeitas a fantasias, para dar-lhes maior colorido. (N do E)

325. 1 Reis 5. Hirão, rei de Tiro, tinha sido muito amigo de Davi e soube com grande prazer que aquele extraordinário príncipe sucedera no reino ao seu pai. Enviou-lhe embaixadores para dar testemunho de sua alegria e desejar ao novo rei toda sorte de prosperidade. Salomão escreveu-lhe nestes termos: &quot;O rei Salomão ao rei Hirão: O rei, meu pai, tinha grande desejo de construir um templo em honra a Deus, mas não pôde fazê-lo por causa das guerras contínuas em que se achou empenhado e que não lhe permitiram deixar as armas senão depois de vencidos e feitos tributários os seus inimigos. Agora, que Deus me faz a graça de desfrutar grande paz, estou resolvido a empreender essa obra, a qual Ele predisse a meu pai que eu teria a felicidade de começar e de terminar. É o que me leva a rogar-vos enviar-me alguns de vossos operários para cortar, com os meus, no monte Líbano, a madeira necessária para esse fim, pois, segundo dizem, não há outros tão hábeis nisso como os sidônios, e eu os pagarei como vos agradar&quot;.
O rei Hirão recebeu com alegria essa carta e respondeu: &quot;O rei Hirão ao rei Salomão: Dou graças por terdes sucedido no trono ao rei vosso pai, que era príncipe muito sensato e virtuoso, e farei com alegria o que desejais de mim. Mandarei que cortem também, nas minhas florestas, muitos troncos de ciprestes e de cedros, que mandarei levar por mar, ligados uns aos outros, até a margem de vosso território, no lugar que julgardes o mais cômodo, para serem depois levados a Jerusalém. Rogo-vos, em troca, que me mandeis uma partida de trigo, de que temos falta nesta ilha,* como sabeis&quot;.
Podem-se ainda ver nos dias de hoje os originais dessas duas cartas, não somente nos nossos arquivos mas também nos dos tírios. Se alguém quiser consultá-los, terá apenas de pedir aos que têm o encargo de guardá-los e verá que os reproduzi fielmente. Julguei necessário dizer isso para dar a conhecer que nada acrescento à verdade e que o desejo de tornar a minha história mais agradável não me faz misturá-la com coisas inverossímeis. Assim, rogo aos que a lerem que lhe prestem fé e se convençam de que eu me julgaria um criminoso, merecendo que a rejeitassem inteiramente, se não me esforçasse em tudo para dizer a verdade com base em provas bem sólidas.

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* Tiro era então uma ilha, mas Alexandre, o Grande, uniu-a à terra firme. (N do E)

326.  Salomão ficou muito satisfeito com o gesto do rei Hirão e permitiu-lhe tirar de seus territórios duas mil medidas de trigo, duas mil de óleo e duas mil de vinho, contendo cada medida setenta e duas pintas. A amizade desses dois reis aumentou e durou para sempre.
Salomão nada tinha mais a peito que a construção do Templo. Ordenou então aos seus súditos que lhe fornecessem trinta mil operários e distribuiu de tal sorte a obra à qual se entregava que o trabalho não lhe podia ser difícil. Dez mil cortavam madeira durante um mês no monte Líbano, depois voltavam para as suas casas e lá passavam dois meses. Outros dez mil tomavam os lugares deles e, depois de trabalhar durante um mês, retornavam também às suas casas. Os dez mil restantes dos trinta mil os sucediam. Os dez mil primeiros voltavam depois, prontos para continuar o trabalho do mesmo modo.
A superintendência dessa empresa foi dada a Adorão. Setenta mil desses estrangeiros, moradores no reino de que falamos, traziam pedras e outros materiais, segundo o que o rei Davi tinha determinado. Oitenta mil outros eram pedreiros, e entre eles havia três mil e duzentos que eram como chefes dos demais. Antes de trazer essas pedras, de tamanho enorme, destinadas para os alicerces, eles as cortavam no monte, e os operários mandados pelo rei Hirão faziam o mesmo no que se referia ao seu trabalho.
327.  1 Reis 6. Estando assim preparadas todas as coisas, o rei Salomão começou a construir o Templo, no quarto ano de seu reinado e no segundo mês, que os macedônios chamam de artemísio, e os hebreus, liar [que é o mês de abril], quinhentos e noventa e dois anos depois da saída do Egito, mil e vinte anos depois de Abraão ter saído da Mesopotâmia para vir à terra de Canaã, mil quatrocentos e quarenta anos depois do dilúvio, três mil cento e dois anos desde a criação do mundo. Tudo isso se passava no undécimo ano do reinado de Hirão, cuja capital, chamada Tiro, fora construída duzentos e quarenta anos antes.
Os alicerces do Templo foram feitos muito profundos. E, para que pudesse resistir a todas as inclemências do tempo e sustentar sem balançar a grande mole a ser construída por cima deles, as pedras com que o encheram eram tão grandes que o trabalho não era menos digno de admiração que os soberbos ornamentos e os maravilhosos enfeites aos quais serviriam de base. Todas as pedras que nele se empregaram, desde os alicerces até a cobertura, eram muito brancas.
O Templo tinha sessenta côvados de comprimento e outro tanto de altura. A largura era de vinte côvados. Sobre esse edifício construiu-se outro do mesmo tamanho, e assim a altura total do Templo era de cento e vinte côvados. Estava voltado para o oriente, e o pórtico era da mesma altura, cento e vinte côvados, por vinte de comprimento e dez de largura.
Havia em redor do Templo trinta quartos em forma de galeria, que serviam de arcos para o sustentar. Passava-se de um para o outro, e cada um tinha vinte e cinco côvados de comprimento por outros tantos de largura e vinte de altura. Havia por cima desses quartos dois andares com igual número de quartos, todos semelhantes. Assim, na altura de três andares juntamente, medindo sessenta côvados, chegava-se justamente à altura da parte baixa do edifício, e nada mais havia por cima. Todos esses quartos eram cobertos com madeira de cedro e tinham cobertura à parte, em forma de pavilhão, mas estavam unidos por traves longas e grossas, a fim de torná-la mais firme. E assim, eram como um único corpo. O teto era de madeira de cedro bem polido, enriquecido com folhagens douradas, talhadas na madeira.
O resto era também adornado com madeira de cedro, tão bem trabalhada e reluzente de ouro que o seu brilho ofuscava a vista. Toda a estrutura desse soberbo edifício era de pedras polidas e tão bem ajustadas que não se podia nem mesmo perceber as junturas. Parecia que a natureza as formara num único bloco, sem que a arte e os instrumentos de que se serviram excelentes artífices para embelezar a obra para isso tivessem contribuído. Salomão mandou fazer na largura do muro do lado do oriente, onde não havia nenhum portal maior, mas somente duas portas, um degrau em frente, de sua invenção, para se subir ao alto do Templo. Dentro e fora dele havia pranchas de cedro ligadas com grandes e fortes cadeias, para garantir a sua estabilidade.
Quando o grande corpo do edifício ficou pronto, Salomão mandou dividi-lo em duas partes, uma das quais, chamada o Santo dos Santos, ou Santuário, tinha vinte côvados de comprimento. Era particularmente consagrada a Deus, e não era permitido a ninguém lá entrar. A outra parte, que tinha quarenta côvados de comprimento, era chamada Santo do Templo e destinada aos sacerdotes. Essas duas partes estavam separadas por grandes portas de cedro muito bem talhadas e douradas, sobre as quais pendiam véus de linho, cheios de flores diversas nas cores púrpura, jacinto e escarlate.
Salomão mandou também fazer dois querubins de ouro maciço, de cinco côvados de altura cada um. As suas asas eram do mesmo comprimento, e essas duas figuras estavam colocadas de tal modo no Santo dos Santos que duas de suas asas estendidas se uniam e cobriam toda a arca da aliança e as duas outras tocavam, uma do lado norte e outra do lado sul, as paredes desse lugar particularmente consagrado a Deus, que, como dissemos, tinha vinte côvados de largura. Dificilmente se poderia imaginar a forma desses querubins. Todo o pavimento do Templo estava coberto de lâminas de ouro, e as portas da grande entrada, que tinha vinte côvados de largura e altura proporcionada, estavam também cobertas com lâminas de ouro. Mandou colocar, sobre a porta do lugar chamado o Santo do Templo um véu semelhante ao de que acabamos de falar, mas a porta do vestíbulo não o tinha.
1 Reis 7. Para tudo o que acabamos de falar, mas principalmente para os trabalhos em ouro, prata e cobre, Salomão serviu-se de um artista admirável, chamado Hirão, que mandou buscar em Tiro. Seu pai chamava-se Ur. Embora morasse naquela cidade, era descendente de israelitas, pois sua mãe era da tribo de Naftali. Esse mesmo homem fez duas colunas de bronze, que tinham quatro dedos de espessura, dezoito de altura e doze de circunferência, sobre as quais estavam cornijas em forma de lírios, com cinco côvados de altura. Havia em redor dessas colunas folhagens de ouro, que cobriam os lírios, e viam-se pender em duas fileiras duzentas romãs, também fundidas. As colunas foram colocadas na entrada do pórtico do Templo, sendo a da direita chamada Jaquim, e a da esquerda, Boaz.
Esse admirável artífice fez também uma bacia de cobre em forma de semicír-culo, à qual se deu o nome de mar, pelo seu enorme tamanho, pois a distância de uma borda à outra era de doze côvados, e as suas bordas tinham um palmo de espessura. Esse enorme vaso era sustentado por uma base feita à moda de coluna, torcida de dez pregas, cujo diâmetro era de um côvado. Ao redor dessa coluna estavam doze novilhos, opostos de três em três aos quatro principais ventos, para os quais estavam dirigidos, de tal modo que a copa do vaso se apoiava sobre o seu dorso. As bordas desse vaso eram recurvadas para dentro, e continha ele duas mil medidas, das que se usam para medir os líquidos.
Hirão fez outros dez vasos além desse, sustentados por bases de cobre quadradas, cada uma com cinco côvados de comprimento, quatro de largura e seis de altura. Todas eram compostas de diversas peças fundidas e fabricadas separadamente. Estavam unidas deste modo: quatro colunas quadradas dispostas em quadrado, na distância de que falei, recebiam em duas de suas faces cavadas para esse fim os lados que encaixavam. Ora, embora tivesse quatro lados em cada uma das bases, somente três eram visíveis: o quarto estava unido ao muro. Em um deles, em baixo-relevo, estava a figura de um leão; no outro, a de um touro; no terceiro, a de uma águia. As colunas eram trabalhadas do mesmo modo. Essa obra, assim reunida, estava montada sobre quatro rodas do mesmo metal e tinha um côvado e meio de diâmetro, desde o centro delas até a extremidade dos raios. As juntas das rodas ajustavam-se admiravelmente aos lados da base, e os raios encaixavam-se nela com a mesma perfeição.
Os quatro lados dessa base, que deviam sustentar um vaso oval, tinham pelo alto quatro braços em relevo, dos quais saíam mãos estendidas, e sobre cada uma delas havia uma peça onde devia ser encaixado o vaso, que era sustentado inteiramente por essas mãos. As faces ou lados sobre os quais estavam os baixos-relevos de leão e de águia ajustavam-se tão perfeitamente uns aos outros e às peças que formavam os cantos que toda a obra parecia uma única peça. Assim eram construídas essas dez bases. Ele colocou em cima dez vasos ou lavatórios redondos, fundidos como o resto, e cada um continha quarenta medidas, pois tinham quatro côvados de altura, e o seu diâmetro maior tinha também quatro côvados. Esses dez lavatórios foram colocados sobre bases que se chamam Mechonote. Cinco do lado esquerdo do Templo, que está voltado para o norte, e cinco do lado direito, voltado para o sul.
Puseram nesse mesmo lugar o grande vaso denominado mar, para servir de lava-tório aos sacerdotes: eles lavariam nele as mãos e os pés quando entrassem no Templo para fazer os sacrifícios, e as cubas serviam para nelas lavarem as entranhas e os pés dos animais oferecidos em holocausto. Fez também um altar fundido de vinte côvados de comprimento, outro tanto de largura e dez de altura, sobre o qual seriam queimados os holocaustos. Fez do mesmo modo todos os vasos e instrumentos necessários para o altar: caldeirões, tenazes, bacias, ganchos e outros, tão polidos e de um cobre tão belo que facilmente podia ser confundido com ouro.
O rei Salomão mandou fazer também um grande número de mesas, dentre elas uma bastante grande, de ouro maciço, sobre a qual seriam colocados os pães consagrados a Deus. As outras mesas, que não eram inferiores a essa em beleza, eram feitas de diversas maneiras e serviriam para que nelas se colocassem vinte mil vasos ou taças de ouro e quarenta mil de prata.
Mandou fazer também, como Moisés havia determinado, dez mil candelabros, um dos quais ficaria aceso dia e noite no Templo, como a Lei o ordenava. A mesa sobre a qual se poriam os pães oferecidos a Deus foi colocada no lado norte do Templo, em frente ao grande candelabro, que estava na parte sul. O altar de ouro ficou entre ambos. Tudo isso foi colocado na parte anterior do Templo, de quarenta côvados de comprimento, separada por um véu do Santo dos Santos, no qual a arca da aliança deveria ser colocada.
Salomão mandou fazer ainda oitenta mil taças para vinho e outras dez mil de ouro e vinte mil de prata, oitenta mil pratos de ouro, para neles se pôr a farinha preparada para o altar, cento e sessenta mil pratos de prata, sessenta mil taças de ouro, para se molhar a farinha com óleo, cento e vinte mil taças de prata, vinte mil vasos ou hins de ouro e quarenta mil de prata, vinte mil turíbulos de ouro, para se queimar e oferecer os perfumes, e cinqüenta mil outros, para neles se levar o fogo do grande altar até o pequeno, que estava no Templo.
Esse grande rei mandou fazer também mil vestes sacerdotais, para os sacerdotes, com túnicas que iam até os calcanhares, e cada qual com o seu éfode e com pedras preciosas. A coroa em que Moisés havia escrito o nome de Deus continuou a mesma. Ela ainda pode ser vista em nossos dias. Mandou fazer também estolas de linho para os sacerdotes, com dez mil cintos de púrpura, duzentas mil outras estolas de linho, para os levitas que cantavam os hinos e os salmos, duzentas mil trompas, como Moisés havia determinado, e quarenta mil instrumentos de música, como harpas, saltérios e outros, feitos de metal composto de ouro e prata.
Eis com que suntuosidade Salomão fez construir e ornar o Templo. Ele consagrou todas essas coisas a Deus. Em seguida, mandou erguer ao redor do Templo um muro de cem côvados de altura, chamado gisom, em hebraico, a fim de impedir a entrada aos leigos, sendo ela somente permitida aos levitas e sacerdotes. Mandou construir fora desse muro outra espécie de templo, de forma quadrangular, rodeado por grande galerias com quatro grandes pórticos voltados para o levante, o ocidente, o norte e o sul, nos quais havia grandes portas douradas, mas somente os que se haviam purificado segundo a Lei e estavam resolvidos a observar os mandamentos de Deus podiam passar por elas e entrar.
A construção desse outro templo era obra tão digna de admiração que custa crer, pois, para que fosse construído no nível do alto do monte sobre o qual estava edificado o Templo, foi preciso encher até a altura de quatrocentos côvados um vale cuja profundidade era tal que não podia ser vista sem espanto. Ele mandou rodear esse templo com uma galeria dupla, sustentada por dupla série de colunas de pedra de um só bloco. Essas galerias, cujas portas eram de prata, foram adornadas com madeira de cedro.
Salomão levou sete anos para realizar essas magníficas edificações, o que não despertou menos admiração que a sua grandeza, riqueza e beleza, pois ninguém podia imaginar que seria possível concluí-las em tão pouco tempo.
328. 1 Reis 8. Esse grande príncipe escreveu depois aos magistrados e aos anciãos que ordenassem a todo o povo que se dirigisse a Jerusalém sete meses depois, para ver o Templo e assistir à trasladação da arca da aliança. Esse sétimo mês estava entre os que os hebreus chamam tisri, e os macedônios, hiperbereteus. A festa dos Tabernáculos, tão solene entre nós, deveria ser celebrada naquele mesmo tempo. Depois que todos vieram de todas as partes do reino a essa cidade, que era a capital, no dia determinado, transportaram para o Templo o Tabernaculo e a arca da aliança que Moisés construíra, com todos os vasos de que se serviam para os sacrifícios.
Os caminhos estavam todos salpicados com o sangue das vítimas oferecidas pelo rei, pelos levitas e por todo o povo. O ar estava tão saturado de perfumes que de longe eram sentidos. Parecia mesmo que ninguém duvidava de que Deus viria de novo honrá-los com a sua presença naquela nova casa que lhe era consagrada, pois nenhum dos que assistiam à santa cerimônia se cansava de dançar e de cantar incessantemente hinos em seu louvor até chegar ao Templo.
Eis como se fez a trasladação da arca. Quando se teve de levá-la para o Santuário, somente os sacerdotes a tomaram sobre os ombros. Eles entraram e a colocaram entre os dois querubins, que, como já dissemos, tinham sido feitos de tal modo que a cobriam com as suas asas inteiramente, como um dossel. Dentro estavam as duas tábuas de pedra, sobre as quais se haviam gravado os dez mandamentos que Deus pronunciara com a própria bocatro monte Sinai.
Puseram diante do Santuário o candelabro, a mesa e o altar de ouro, na mesma disposição em que se encontravam no Tabernáculo quando se ofereciam os sacrifícios ordinários. O altar de bronze foi colocado diante do pórtico, a fim de que quando se abrissem as portas todos pudessem assistir à magnificência dos sacrifícios. Mas aqueles vasos, em tão grande número, destinados ao sacrifício de Deus e do qual acabamos de falar foram todos postos no Templo.
329. Terminadas todas essas coisas, com todo o respeito e reverência que se podia observar, já os sacerdotes haviam saído do santuário quando se viu aparecer uma nuvem, não tão espessa quanto as que durante o inverno formam tempestades, porém muito mais tênue. Ela cobriu todo o Templo e fez cair um suave orvalho, do qual ficaram cobertos os sacerdotes, de tal modo que estavam quase irreconhecíveis. Então ninguém mais duvidou de que Deus havia descido àquela santa casa consagrada à sua honra para manifestar o quanto tudo aquilo lhe era agradável.
Então Salomão levantou-se e fez esta oração, digna de sua soberana grandeza: &quot;Embora nós saibamos, Senhor, que o palácio em que habitais é eterno e que o céu, o ar, o mar e a terra que criastes e que encheis não são capazes de vos conter, não deixamos de construir e de vos consagrar esta casa a fim de vos oferecer sacrifícios e orações que se elevem até o trono de vossa suprema majestade. Esperamos que queirais ficar aqui sem nunca mais nos deixar. Pois, como vedes e sabeis todas as coisas, ainda que honreis com a vossa presença esta santa casa, não deixareis de estar em toda parte, onde vos dignardes habitar, vós que estais sempre perto de cada um de nós e principalmente daqueles que anseiam dia e noite por vossa presença&quot;.
O grande rei dirigiu depois a palavra ao povo, falando do poder infinito de Deus, de como é admirável a sua providência, de como Ele predissera a Davi, seu pai, tudo o que aconteceria depois de sua morte e de como lhe aprouve, antes mesmo de ele, Salomão, ter nascido, dar-lhe o nome que trazia e declarar que ele sucederia ao rei seu pai e construiria o Templo. E assim, via-se que Deus já havia cumprido grande parte do que os havia feito esperar, e eles deviam dar-lhe graças por isso, julgar de sua felicidade futura pela presente e jamais duvidar da realidade de suas promessas.
O sábio rei voltou depois os olhos para o Templo e, estendendo as mãos para o povo, falou ainda a Deus, deste modo: &quot;Senhor, as palavras são os únicos sinais de que os homens se podem servir para manifestar-vos a sua gratidão pelos benefícios recebidos, porque a vossa grandeza infinita vos eleva de tal modo acima deles que eles vos são inteiramente inúteis. Porém, como estamos sobre a terra, obra-prima de vossas mãos, é justo que empreguemos pelo menos a nossa voz para publicar os nossos louvores e que eu vos dê, por toda a minha família e por todo este povo, infinitas graças por tantos favores de que vos somos devedores. Agradeço-vos, Senhor, porque vos aprouve elevar meu pai da humilde condição em que havia nascido a tão grande glória e porque realizastes em mim até este dia todas as vossas promessas. Peço-vos, ó Deus Todo-poderoso, a continuação de vossos favores. Tratai-me sempre, se vos aprouver, como tendo a honra de ser sempre amado por vós. Firmai o cetro em minhas mãos e nas de meus sucessores durante várias gerações, como prometeste a meu pai. Dai-me, e aos meus, as virtudes que vos são mais agradáveis. Difundi também, eu vos suplico, uma parte de vosso Espírito sobre esta casa, para mostrar que habitais entre nós. E, ainda que ela não seja digna de vos receber, sendo o próprio céu demasiado pequeno para servir de morada eterna à vossa majestade, não deixeis de honrá-la com a vossa presença. Tomai cuidado dela, Senhor, como de uma coisa que vos pertence, preservando-a contra todos os esforços de nossos inimigos. Se o vosso povo tiver a infelicidade de vos ofender e vos desagradar, contentai-vos, se vos apraz, em castigá-lo com carestia, peste ou flagelos semelhantes, com que costumais castigar os que não observam as vossas santas leis. Mas quando movidos pelo arrependimento recorrerem a esta casa, à vossa misericórdia, não afasteis deles os vossos olhos e ouvi as suas orações. Ouso mesmo, ó Deus Todo-poderoso, pedir-vos ainda mais, pois não vos suplico que ouçais nesta casa consagrada à vossa honra somente os votos daqueles que vos dignastes escolher para vosso povo, mas também as orações daqueles que vierem de todas as partes do mundo implorar o vosso auxílio, a fim de que todas as nações conheçam e saibam que foi para vos obedecer que construímos esta casa. E, longe de ser tão injustos e desumanos a ponto de invejar a felicidade dos outros, desejamos que eles participem de vossos benefícios e que espalheis os vossos favores generosamente entre todos os homens&quot;.
Depois de assim falar, Salomão prostrou-se em terra e, depois de permanecer assim muito tempo, adorando a Deus numa fervorosa oração, levantou-se e ofereceu sobre o altar um grande número de vítimas. Deus então fez conhecer claramente como aquele sacrifício lhe era agradável, pois um fogo descido do céu até o altar consumiu as vítimas inteiramente, à vista de todo o povo. Tão grande milagre não lhes permitiu duvidar de que Deus não habitasse o Templo, e pros-traram-se todos por terra, para adorá-lo e para dar-lhe graças.
Salomão continuou a entoar cada vez mais os seus louvores e, para levar o povo a fazer a mesma coisa e a rogar a Deus com mais ardor ainda, disse-lhes que, depois de sinais tão manifestos da extrema bondade de Deus para com eles, podiam pedir a Ele com insistência que lhes fosse sempre favorável, que os preservasse de todo pecado e que os fizesse viver na piedade e na justiça, segundo os mandamentos dados por meio de Moisés, cuja observância podia torná-los os mais felizes dos homens. Por fim, exortou-os a considerar que o único meio de conservar os bens que desfrutavam ou de conseguir outros maiores era servir a Deus com inteira pureza de coração e não pensar haver mais honra em adquirir aquilo que não se tem que em conservar o que se possui.
Esse bem-aventurado príncipe ofereceu a Deus em sacrifício, naquele mesmo dia, tanto por ele quanto por todo o povo, doze mil novilhos e cento e vinte mil cordeiros. Essas vítimas foram as primeiras cujo sangue se derramou no Templo. Ofereceu em seguida um banquete a todo o povo, tanto aos homens quanto às mulheres, com a carne dos muitos animais imolados e celebrou diante do Templo, durante quatorze dias, a festa dos Tabernáculos, com banquetes públicos e magnificência real.
Após terminar tudo e depois de ter feito o que podia para demonstrar o seu zelo e a sua devoção para com Deus, Salomão deu ordem para regressarem às suas casas. O povo não se cansava de elogiá-lo pela bondade com que o governava nem de louvar a sua sabedoria, que lhe permitira empreender e realizar aquelas grandes obras. Rogaram a Deus que o fizesse reinar por muitos anos e partiram cantando hinos a Ele, tão satisfeitos e alegres que chegaram às suas casas sem perceberem a extensão da estrada que haviam percorrido.
330. 1 Reis 9. Depois que a arca foi colocada no Templo e após todos haverem admirado a majestade e a beleza do edifício e tantas vítimas serem imoladas a Deus e tantos dias serem passados em festas e banquetes de regozijo público, quando cada um já havia regressado à sua casa, Deus, em sonhos, deu a conhecer a Salomão que ouvira a sua oração e conservaria o Templo, não deixando de honrá-lo com a sua presença enquanto ele e o povo observassem os seus mandamentos.
Quanto ao que se referia a ele em particular, cumulá-lo-ia de tanta felicidade que nenhum outro que não fosse da sua descendência e da tribo de Judá reinaria em Israel, contanto que ele se regulasse sempre pelas instruções recebidas de seu pai. Se delas se esquecesse, porém, a ponto de renunciar à piedade, e por uma mudança criminosa prestasse culto sacrílego aos falsos deuses das outras nações, Ele o exterminaria completamente, com toda a sua posteridade.
O povo também seria atingido pelo castigo. Seriam afligidos com guerras e oprimidos por toda espécie de males. Seriam expulsos do país que Ele dera aos seus antepassados e andariam errantes por terras estrangeiras. E o Templo que permitira construir seria destruído e reduzido a cinzas pelas nações bárbaras. As cidades também seriam arrasadas. Enfim, eles cairiam em tal extremo de males que a notícia, espalhada por toda parte, pareceria incrível, e dir-se-ia com espanto: &quot;Como é possível esses israelitas, que Deus havia elevado ao cúmulo da felicidade e da glória, serem agora odiados e abandonados por Ele?&quot; E a isso as tristes relíquias desse povo infeliz responderiam: &quot;Foram os nossos pecados e a violação das leis outorgadas por Deus a nossos antepassados que nos precipitaram neste abismo de misérias&quot;. As Escrituras narram desse modo o que Deus manifestou em sonho a Salomão.
331.  1 Reis 7. O poderoso rei empregou, como dissemos, sete anos para construir o Templo. Mas levou treze anos para edificar o palácio real, porque não iniciou essa obra com o mesmo ardor, embora fosse tão majestosa que ele teve necessidade do auxílio de Deus para terminá-la em tão pouco tempo. Por mais admirável que fosse, no entanto, não se comparava à maravilha do Templo, porque o material não foi preparado com tanto cuidado: era somente a residência do rei, e não a de Deus. A magnificência desse soberano palácio, porém, demonstrava em que mãos Deus colocara o cetro. Julgo oportuno, para satisfação dos leitores, fazer aqui a sua descrição.
O palácio era sustentado por várias colunas e era tão espaçoso quanto magnífico, porque Salomão o quisera capaz de conter a grande multidão que lá se reuniria para a solução de problemas. Tinha cem côvados de comprimento, cinqüenta de largura e trinta de altura. Dezesseis grandes colunas quadradas, de estilo coríntio, o sustentavam, e portas muito bem trabalhadas contribuíam tanto para a sua beleza quanto para a sua segurança. Um grande pavilhão de trinta côvados quadrados, sustentado também por fortes colunas e colocado em frente do Templo, elevava-se no meio desse soberbo edifício. Nesse pavilhão havia um grande trono, onde o rei ministrava a justiça.
332.  Perto desse palácio, Salomão construiu uma casa real para a rainha e outros prédios, onde ele ia descansar após atender aos interesses do reino. Tudo era enriquecido com madeira de cedro e feito com pedras de dez côvados quadrados, das quais uma parte era incrustada com mármore muito precioso, empregado apenas para ornamento dos templos e nas casas dos reis. Esses diversos apartamentos eram revestidos com três ordens de tapetes riquíssimos, sobre os quais havia em relevo diversas árvores e várias plantas, cujos ramos e folhas eram feitos com tanta arte que enganavam a vista, parecendo mover-se. O espaço restante até o teto era também enriquecido com diversas pinturas sobre um fundo branco.
Tão magnífico príncipe mandou também construir, somente pela beleza, vários outros edifícios, com grandes galerias e salas imensas, destinadas aos festins e aos banquetes. Todos os objetos necessários ao seu serviço eram de ouro. Seria difícil descrever a diversidade, a extensão e a majestade dos edifícios — uns eram maiores, e outros, menores; uns estavam ocultos por baixo da terra, outros, elevados bem alto no ar —, bem como a beleza dos bosques e jardins que ele mandou plantar para recreio da vista e para se ter um recanto ameno e sombre-ado durante os rigores do sol de verão. O mármore branco, a madeira de cedro, o ouro e a prata foram os materiais com que se fizeram e enriqueceram esse palácio. Via-se nele também uma grande quantidade de pedras preciosas encastoadas no ouro e nos adornos, como no Templo.
Salomão ordenou também que se fizesse um grande trono de marfim adornado com um excelente trabalho de escultura. A ele o rei subia por seis degraus, e na extremidade de cada um deles estava a estátua de um leão. No lugar onde se sentava, havia braços em relevo, que pareciam recebê-lo, e no lugar onde podia encostar-se foi colocada a estátua de um novilho, para seu apoio. Nada havia nesse augusto trono que não fosse revestido de ouro.
333. 1 Reis 5. Hirão, rei de Tiro, querendo demonstrar o seu afeto pelo rei Salomão, contribuiu para essas obras com grande quantidade de ouro, de prata, de madeira de cedro e de pinho. Salomão, em troca, enviava-lhe todos os anos trigo, vinho e óleo em abundância e deu-lhe vinte cidades da Galiléia, que estavam próximas de Tiro. O príncipe foi vê-las, e não lhe agradaram. Recusou-as, e por esse motivo elas foram chamadas Chabelom, que em língua fenícia significa &quot;desagradáveis&quot;. O mesmo soberano rogou a Salomão que lhe explicasse alguns enigmas. Ele o fez, com penetração de Espírito e inteligência admiráveis.
Menandro, que traduziu em grego os anais da Fenícia e de Tiro, fala desses dois reis desta maneira: &quot;Depois da morte de Abibal, rei dos tírios, Hirão, seu filho, sucedeu-o. Viveu cinqüenta e três anos, dos quais reinou trinta e quatro.
Esse soberano aumentou a ilha de Tiro com quantidade de terra que para lá fez levar. Esse aumento foi denominado Campo Grande. Consagrou também uma coluna de ouro no templo de Júpiter e mandou cortar muita madeira no monte Líbano, para com ela cobrir templos, pois mandara demolir os velhos e construir novos, que consagrou a Hércules e a Astarote. Foi ele que por primeiro ergueu uma estátua a Hércules, no mês que os macedônios denominam perítio [que é o mês de fevereiro]. Fez guerra aos licienses, que recusavam pagar o tributo que lhe deviam, e venceu-os. Viveu no seu tempo um moço de nome Abdemom, que explicava os enigmas que Salomão, rei de Jerusalém, lhe propunha&quot;.
Outro historiador, chamado Díon, fala deles deste modo: &quot;Depois da morte de Abibal, Hirão, seu filho e sucessor, fortificou a cidade de Tiro do lado do oriente. E, para uni-la ao templo de Júpiter Olímpico, mandou encher de terra o espaço que dele a separava. Deu uma soma muito grande de ouro a esse templo e mandou também cortar muita madeira no monte Líbano, para empregá-la em edifícios semelhantes&quot;.
O historiador acrescenta ainda que esse príncipe, não conseguindo explicar os enigmas que lhe haviam sido propostos por Salomão, rei de Jerusalém, pagou-lhe uma soma muito grande. Porém depois que ele enviou a Salomão um tírio chamado Abdemom, que lhe explicou todos os enigmas, Salomão devolveu-lhe o dinheiro.
334. Salomão, vendo que os muros de Jerusalém não correspondiam à grandeza e à fama de tão célebre cidade, mandou edificá-los de novo e, para fortificá-los ainda mais, acrescentou grandes torres e bastiões. Construiu também Hazor e Magedom,* duas cidades tão belas que podem figurar entre as maiores, e reconstruiu por completo Gezer, na Palestina, a qual Faraó, rei do Egito, depois de tomá-la à força e de passar a fio de espada todos os seus habitantes, havia arrasado completamente, fazendo dela um presente à filha que se casou com o rei Salomão. Ela foi reconstruída por causa da importância de sua localização, porque era de grande valia em tempo de guerra e muito própria para impedir as agitações que podem suceder em tempo de paz. Construiu, ainda, bem perto dali, Betachor,** Baalate e algumas outras cidades, próprias somente para prazeres e divertimentos, porque o ar era muito puro, a terra abundante em excelentes frutos e as águas muito vivas e de boa qualidade.
Esse bem-aventurado príncipe, depois de se tornar senhor do deserto que está acima da Síria, lá fez construir também uma grande cidade, distante dois dias de caminho da Síria superior, um dia do Eufrates e seis dias da Babilônia, a grande. Embora esse lugar seja muito afastado da Síria habitada, julgou que devia empreender essa obra, porque era o único lugar onde os que atravessavam o deserto podiam encontrar fontes e poços. Mandou cercá-la com fortes muralhas e a chamou Tadmor. Os sírios a chamam ainda assim, e os gregos, Palmira.

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* Ou Megido.
** Ou Bete-Horom.
335.  Essas foram as obras que Salomão realizou durante o seu reinado. E, como notei que muitos têm dificuldade em saber por que os reis do Egito, durante mais de mil e trezentos anos, desde Minos, que construiu a cidade de Mênfis e precedeu Abraão de vários anos, até os tempos de Salomão, sempre usaram o nome de Faraó, que foi um de seus reis, penso que devo esclarecer-lhe a razão.
Faraó, em egípcio, significa &quot;rei&quot;, e assim julgo que esses príncipes, mesmo tendo outros nomes em sua juventude, adotavam aqueie logo que subiam ao trono, porque, segundo a língua de seu país, designava a autoridade soberana. Do mesmo modo, sabemos que todos os reis de Alexandria, depois de haver usado outros nomes, tomavam o de Ptolomeu quando ascendiam ao trono. Os imperadores romanos também deixavam o nome de suas famílias para tomar o de César, para eles muito mais honroso.
É este o motivo, segundo a minha opinião, de Heródoto de Halicamasso não mencionar os nomes dos trezentos e trinta reis do Egito, que diz haverem reinado sucessivamente desde Minos: todos se chamavam Faraó. Mas quando ele fala de uma mulher que reinou depois deles, não deixa de dizer que ela se chamava Nicolis, porque só aos homens competia o título de Faraó. Acho também em nossas crônicas que nenhum outro rei do Egito, depois do sogro do rei Salomão, usou o nome de Faraó e que essa mesma princesa, Nicolis, foi a que veio visitar Salomão, rei de Israel, como diremos em seguida. Digo isso para fazer mostrar que a nossa história, em muitas coisas, está de acordo com a dos egípcios.
336.  Como ainda havia cananeus na terra, desde o monte Líbano até a cidade de Hamate, os quais não queriam reconhecer os reis de Israel, Salomão subjugou-os e os obrigou a dar-lhe todos os anos, como tributo, certo número de escravos, para que servissem em diversos empregos, particularmente no cultivo das terras, pois ninguém dentre os israelitas era obrigado a se dedicar a esse mister, e não era justo que eles, tendo tantos povos submetidos ao seu domínio por ação de Deus, fossem de condição inferior à dos vencidos. Assim, dedicavam-se somente aos exercícios próprios da guerra e à provisão de armas, cavalos e carros. Seiscentos homens foram escolhidos para dirigir os escravos destinados àquele trabalho.
337.  Salomão construiu também vários navios no golfo do Egito, próximo do mar Vermelho, em um lugar chamado Eziom-Geber, hoje Berenice. Essa cidade não fica longe de outra, de nome Elã, que então pertencia ao reino de Israel. O rei Hirão mostrou-lhe muito afeto nessa ocasião, pois deu a Salomão quantos pilotos este desejou, todos muito experimentados na arte da navegação, para ir com os seus oficiais buscar ouro numa província da índia, de nome Ofir, que hoje se chama Terra do Ouro, de onde trouxeram quatrocentos talentos de ouro.
338.  1 Reis 7 0. Nicolis, rainha do Egito e da Etiópia, que era uma excelente princesa, tendo ouvido falar das virtudes e da sabedoria de Salomão, desejou ver com os próprios olhos se a fama dele era verdadeira ou se era somente um daqueles boatos que se dissipam quando conhecidos e estudados a fundo. Assim, não teve receio de empreender a viagem, para se informar e para resolver com ele várias dificuldades. Veio a Jerusalém com equipagem digna da grande rainha que era, trazendo camelos carregados com ouro, pedras preciosas e custosos perfumes. Salomão recebeu-a com a devida honra e deu solução a todas as suas dúvidas, com tanta facilidade que mal ela as propunha ele logo as resolvia.
Capacidade tão extraordinária encheu-a de admiração. Ela confessou que aquela sabedoria sobrepujava a fama que se havia espalhado por todo o mundo. Não se cansava de admirar também o seu Espírito, a sua grandeza, a magnificência de seus edifícios, a economia da casa e todo o resto de seu proceder. Mas nada a surpreendeu tanto quanto a beleza de uma sala a que chamavam Floresta do Líbano e a suntuosidade dos banquetes que ele oferecia freqüentemente, nos quais tudo era servido com ordem admirável, por criados tão ricamente vestidos que nada podia ser mais sublime. A grande quantidade de sacrifícios que diariamente se ofereciam a Deus e o cuidado e a piedade dos sacerdotes e levitas no exercício de seu ministério não a comoveram menos que o resto.
Assim, a sua admiração crescia sempre, e ela não pôde deixar de manifestá-la ao rei, nestes termos: &quot;Pode-se duvidar com razão das coisas extraordinárias quando elas são conhecidas apenas pela fama. Mas, embora me tivessem falado de todas as prerrogativas que possuis, tanto em vós mesmo, pela vossa sabedoria e excelente proceder, como fora de vós, pela grandeza de um reino tão poderoso e florescente, confesso que reconheço por mim mesma que a vossa felicidade sobrepuja em muito tudo o que eu havia imaginado e que é preciso ver para crer. Como são felizes os vossos súditos, por terem um rei tão grande, e como são felizes os vossos amigos e servidores, por desfrutarem continuamente a vossa presença! Certamente nem uns nem outros poderiam agradecer o bastante a Deus essa tão grande graça&quot;.
Mas não foi somente com palavras que essa rainha manifestou ao rei a sua maravilhosa estima. Ela acrescentou um presente de vinte talentos de ouro, muitas pedras preciosas e uma grande quantidade de excelentes perfumes. Diz-se também que o nosso país deve à sua liberalidade uma planta de bálsa-mo, a qual multiplicou-se de tal modo que a Judéia hoje a possui em grande quantidade. Salomão, por seu lado, não lhe foi inferior em magnificência e nada lhe recusou de tudo o que ela dele podia desejar. Assim, a princesa voltou sem que nada se pudesse acrescentar à satisfação que havia recebido e à que havia causado.
339. Nesse mesmo tempo, trouxeram a Salomão, do país que se chama Terra do Ouro, pedras preciosas e madeira de pinho, das mais belas que se tinham visto. Desta ele mandou fazer as balaustradas do templo e do palácio real e harpas e saltérios, para os levitas cantarem os hinos em louvor a Deus. Essa madeira parecia-se com a da figueira, mas era muito mais branca e mais brilhante, muito diferente da que os negociantes assim chamam para vender mais. Julguei dever dizer isso a fim de que ninguém venha a se enganar.
Essa mesma frota trouxe ao príncipe seiscentos e setenta talentos de ouro, sem se incluir o que os negociantes trouxeram para ele e o que os reis da Arábia lhe enviaram como presente. Assim, mandou fazer duzentos escudos de ouro maciço, pesando cada um seiscentos sidos, e trezentos outros, pesando trezentas minas cada um, e colocou-os na sala chamada Floresta do Líbano. Mandou fazer também grande quantidade de taças de ouro adornadas com pedras preciosas e bacias de ouro, para delas se servir nos banquetes, nos quais nada empregava que não fosse de ouro, pois a prata então era tida em pouca conta. Isso porque o grande número de navios que Salomão tinha no mar de Tarso e que empregava para levar toda sorte de mercadoria às nações estrangeiras e afastadas traziam-lhe uma quantidade incrível de ouro, marfim, escravos da Etiópia e macacos. As viagens eram de longo curso e não eram feitas em menos de três anos.
340.  A fama da virtude e da sabedoria desse poderoso monarca difundiu-se de tal modo por toda a terra que vários reis, não podendo acreditar no que diziam, desejavam certificar-se da verdade e manifestavam a estima extraordinária que tinham por ele com os presentes que lhe traziam. Mandavam-lhe vasos de ouro e de prata, vestidos de púrpura, toda espécie de especiarias, cavalos, carros e mulas tão belas e fortes que não se podia duvidar de que não lhe seriam agradáveis.
Assim, ele pôde acrescentar quatrocentos carros aos mil que já possuía e aos vinte mil cavalos que mantinha ordinariamente. Os cavalos que lhe eram mandados não somente eram perfeitamente belos, mas sobrepujavam a todos os outros em velocidade. Os que os montavam ressaltavam-lhes ainda mais a beleza, pois eram jovens de belo talhe, vestidos de púrpura tíria, armados de aljavas e possuidores de longas cabeleiras cobertas de papelotes de ouro, que faziam resplandecer as suas cabeças quando o sol os feria com os seus raios. Essa tropa magnífica acompanhava o rei todas as manhãs, quando, segundo o costume, ele saía da cidade vestido de branco, num carro soberbo, para ir a uma casa de campo num lugar próximo de Jerusalém, de nome Etã, onde ele se recreava, pois havia ali belos jardins, lindas fontes e uma terra extremamente fértil.
341.  Como a sabedoria que ele havia recebido de Deus estendia-se a tudo, e assim nada podia escapar aos seus interesses, ele não descuidou nem mesmo do que se referia às estradas. Mandou pavimentar com pedras negras todas as que levavam a Jerusalém, quer para comodidade do povo, quer para mostrar-lhes magnificência. Ficou com uns poucos carros e distribuiu os outros pelas cidades que estavam obrigadas a manter um determinado número deles, o que as fazia denominar-se cidades dos carros.
Reuniu em Jerusalém tão grande quantidade de prata, que esta tornou-se tão comum quanto as pedras. Mandou plantar cedros nos campos da Judéia, onde antes nada havia, mas que depois tornaram-se tão comuns como as amoreiras. Mandava comprar no Egito cavalos dos quais o par, com o carro, custava-lhe seiscentas dracmas de prata e os enviava ao rei da Síria e aos outros soberanos que estavam além do Eufrates.
342.   1 Reis 11. Esse virtuoso soberano, o mais glorioso de todos os de seu século, que sobrepujava tanto em prudência quanto em riqueza a todos os que antes dele haviam reinado sobre o povo de Deus, não perseverou até o fim. Abandonou as leis de seus antepassados, e as suas últimas ações obscureceram todo o brilho e glória de sua vida, porque se deixou levar a tal ponto pelo excesso de amor às mulheres que essa louca paixão perturbou-lhe o juízo. Não se contentou com as mulheres de sua nação, mas tomou também estrangeiras: sidônias, tírias, amonitas, iduméias. E, para agradá-las, não teve vergonha de adorar os falsos deuses a quem elas serviam, desprezando os mandamentos de Moisés, que proibiam expressamente tomar mulheres de outras nações, para que elas não levassem o povo à idolatria e ao abandono do culto ao único Deus eterno e verdadeiro.
A voluptuosidade brutal do soberano, porém, o fez esquecer todos os seus deveres. Chegou a desposar setecentas mulheres, todas de muito boa condição, entre as quais estava, como já vimos, a filha de Faraó, rei do Egito. Possuía, além dessas, trezentas concubinas. Sua paixão tornou-o escravo delas, e ele não pôde deixar de imitá-las em sua impiedade. Quanto mais ele alcançava em anos, mais o seu Espírito, enfraquecendo-se, se afastava do serviço de Deus e se entregava às cerimônias sacrílegas da falsa religião.
Tão horrível pecado era apenas conseqüência de um outro, pois ele começara a desobedecer aos mandamentos de Deus quando mandou fazer aqueles doze bois de bronze que sustentavam o grande vaso de cobre denominado mar e os doze leões esculpidos nos degraus do trono. Assim, como ele não caminhava mais nas pegadas de Davi, seu pai, ao qual a piedade elevara a tão alto grau de glórias e a quem ele era obrigado a imitar tanto quanto devia obedecer ao que Deus lhe havia ordenado diversas vezes em sonhos, o seu fim foi tão infeliz quanto fora feliz e ilustre o início de seu reinado.
Deus disse-lhe, por meio de seu profeta, que conhecia a sua impiedade e que ele não teria o prazer de continuar a ofendê-lo impunemente. No entanto, por causa da promessa que fizera a Davi, deixá-lo-ia reinar durante o resto de sua vida. Depois de sua morte, porém, castigaria o seu filho por causa dele, embora não o fosse privar inteiramente do reino: dez tribos separar-se-iam de sua obediência e duas lhe ficariam submissas, quer por causa do afeto que Deus tinha por Davi, quer por consideração à cidade de Jerusalém, onde lhe aprouvera deixar erguer o Templo. Seria inútil dizer-se da aflição de Salomão ao saber, com essas palavras, que tal mudança em sua sorte torná-lo-ia tão infeliz quanto antes fora bem-aventurado. Algum tempo depois da ameaça do profeta, Deus suscitou contra ele um inimigo de nome Áder,* por este motivo:
Quando Joabe, general do exército de Davi, submeteu a Iduméia, durante o espaço de seis meses fez passar a fio de espada todos os que estavam em idade de pegar em armas, Áder, que era da família real e ainda muito jovem, fugiu e foi para a corte de Faraó, rei do Egito. Este não somente o recebeu muito bem e o tratou favoravelmente, como teve por ele tal afeto que depois de ele crescer o fez desposar a irmã da rainha sua mulher, de nome Táfis, da qual teve um filho, que foi educado com os filhos de Faraó. Depois da morte de Davi e de Joabe, Áder rogou ao rei que lhe permitisse voltar ao seu país. Por mais que insistisse, porém, jamais conseguiu permissão. Faraó perguntava sempre o motivo por que queria deixá-lo e se lhe faltava alguma coisa no Egito. Mas Deus, que antes fazia Faraó dificultar a licença para Áder, resolveu fazer Salomão sentir os efeitos de sua cólera. Já não lhe podia mais tolerar a impiedade e pôs na mente de Faraó a idéia de consentir que Áder voltasse à Iduméia.
Logo que lá chegou, Áder tudo fez para levar o povo a quebrar o jugo dos israelitas. Mas não os pôde persuadir porque as fortes guarnições que Salomão mantinha no país o impediram de tomar qualquer deliberação. Por isso foi à Síria procurar Raazar,** que se havia revoltado contra Adrazar, rei dos sofonianos, e que com um grande número de ladrões que havia reunido roubava e devastava os campos. Áder fez aliança com ele e, com o seu auxílio, apoderou-se de uma parte da Síria. Foi declarado rei e, vivendo ainda Salomão, fazia a este freqüentes incursões, causando bastante prejuízo às terras israelitas.

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* Ou Hadade.
** Ou Rezom.

343. Mas não foram somente os estrangeiros que perturbaram a profunda paz que Salomão desfrutava. Os seus próprios súditos fizeram-lhe guerra, jeroboão, filho de Nebate, animado por antiga profecia, ergueu-se também contra ele. Seu pai o havia deixado em tenra idade, e sua mãe não cuidara de sua educação. Quando cresceu, Salomão, vendo que ele era muito promissor, deu-lhe a superintendência das fortificações de Jerusalém. Desempenhou tão bem o encargo que o rei lhe confiou em seguida o governo das tribos de José.
Quando ele partia para tomar posse, encontrou-se com o profeta Aías, que era da cidade de Silo. Depois de o saudar, o profeta levou-o a um campo afastado do caminho, onde ninguém os podia ver, rasgou o próprio manto em doze pedaços e ordenou-lhe da parte de Deus que tomasse dez deles, como sinal de que Ele desejava constituí-lo rei de dez tribos, a fim de castigar Salomão por este se ter abandonado ao amor das mulheres e por prestar culto aos falsos deuses, para ser agradável a elas. Quanto às outras duas tribos, ficariam para o filho do rei, em consideração à promessa que Deus fizera a Davi.
Acrescentou o profeta: &quot;Assim, vede o que obrigou Deus a retirar as graças de Salomão e a rejeitá-lo. Observai, pois, religiosamente os seus mandamentos. Amai a justiça e ficai certo de que, se prestardes a Deus sem cessar a honra que lhe é devida, Ele recompensará a vossa piedade e vos cumulará dos mesmos favores com que cumulou Davi&quot;. Como jeroboão era de natureza muito ambiciosa e ardente, as palavras do profeta levantaram-lhe tanto o ânimo e fizeram tão forte impressão em seu Espírito que ele não perdeu tempo em persuadir o povo a se revoltar contra Salomão e fazê-lo rei em seu lugar. Salomão foi disso avisado e mandou prendê-lo e matá-lo, mas ele fugiu para a corte de Sisaque, rei do Egito, e lá ficou até a morte de Salomão, esperando tempo mais favorável para a execução de seu intento.

CAPÍTULO 3
MORTE DE SALOMÃO. ROBOÃO, SEU FILHO, DESCONTENTA O POVO. DEZ
TRIBOS O ABANDONAM E TOMAM A JEROBOÃO POR REI. ESTE, PARA
IMPEDI-LOS DE IR AO TEMPLO, EM JERUSALÉM, LEVA-OS À IDOLATRIA E
QUER ELE MESMO EXERCER A FUNÇÃO DE SUMO SACERDOTE. O PROFETA
JADOM O REPREENDE E FAZ EM SEGUIDA UM GRANDE MILAGRE. UM FALSO
PROFETA ENGANA ESSE VERDADEIRO PROFETA E É CAUSA DE SUA MORTE.
ENGANA TAMBÉM A JEROBOÃO, QUE SE ENTREGA A TODA ESPÉCIE DE
IMPIEDADE. ROBOÃO TAMBÉM ABANDONA A DEUS.

344.  Salomão morreu na idade de noventa e quatro anos, dos quais reinou quarenta, e foi enterrado em Jerusalém. Fora o mais feliz, o mais rico e o mais sábio de todos os reis até deixar-se dominar, no fim de sua vida, pela paixão às mulheres, de tal sorte que violou a lei de Deus e foi causa dos muitos males que os israelitas sofreram, como nos mostrará a continuação da história.
345.  1 Reis 12. Roboão, seu filho, cuja mãe, chamada Naamá, era amonita, sucedeu-o. Logo depois, vários dos principais do reino mandaram chamar Jeroboão, que estava no Egito. Ele dirigiu-se rapidamente para a cidade de Siquém, onde Roboão também se encontrava, porque havia julgado conveniente fazer o povo todo reunir-se ali, para ser coroado por consentimento unânime. Os príncipes das tribos, e Jeroboão com eles, rogaram-lhe que os aliviasse de parte das excessivas imposições com que Salomão os havia sobrecarregado, dando-lhes meios de pagá-las e tornando assim o seu governo mais sólido, e então eles lhe seriam submissos por amor, e não por temor. Roboão pediu três dias para responder. Essa dilação causou-lhes desconfiança, porque julgavam que um príncipe, particularmente daquela idade, deveria sentir prazer em demonstrar boa vontade para com os súditos. No entanto esperavam que, embora ele não lhes concedesse logo o que pediam, não deixariam de o obter. Roboão reuniu os amigos do rei seu pai para deliberar com eles sobre a resposta que devia dar.
Os velhos, tão experientes quanto sábios e conhecedores da natureza do povo, aconselharam-no a falar com muita bondade e, para ganhar-lhes a simpatia, não usar naquela ocasião da inseparável autoridade do poder real, pois os súditos eram levados facilmente a sentir amor pelos seus reis quando tratados com bondade, e estes a eles se nivelam, de algum modo, pela afeição que lhes dedicam. Roboão não aprovou esse tão sensato conselho, que lhe seria muito útil para aquela ocasião, pois se tratava de fazer-se declarar rei. Então mandou chamar alguns moços que tinham sido educados com ele e comunicou-lhes o parecer dos anciãos que ele havia consultado, pedindo também o deles.
Os moços, aos quais a pouca idade — e Deus também — não permitia escolher o melhor, aconselharam-no a responder ao povo que o menor de seus dedos era maior que os rins de seu pai e que, se o seu pai os havia tratado rudemente, ele os trataria de outro modo: em lugar de os fazer açoitar com varas, como seu pai fazia, ele os faria vergastar com azorragues de várias cordas. Esse parecer agradou a Roboão, como mais digno da majestade real. Assim, no terceiro dia, ele mandou reunir o povo, que esperava uma resposta favorável. Mas ele lhes falou nos termos que os moços haviam sugerido, tudo isso, sem dúvida, pela vontade de Deus, para se cumprir o que Ele dissera por intermédio do profeta Aías.
Essa resposta cruel causou tal impressão no Espírito de todo o povo, que era como se já lhe sentissem o efeito. Eles gritaram com furor que renunciavam para sempre a descendência inteira de Davi. Que ele guardasse para si, se julgasse bem, o Templo, que seu pai tinha feito construir, porém jamais lhe estariam sujeitos. Sua cólera foi tão obstinada que quando Adorão, que tinha a intendência dos tributos, lhes foi enviado para pedir desculpas pelas palavras rudes, as quais eles deviam atribuir mais à pouca experiência do príncipe que à sua má vontade, eles o mataram a pedradas, sem querer escutá-lo. Roboão, percebendo que não estava em segurança no meio daquela multidão tão exaltada, subiu ao seu carro e fugiu para Jerusalém, onde as tribos de judá e de Benjamim o reconheceram como rei.
As outras dez tribos separaram-se para sempre da obediência aos sucessores de Davi e escolheram Jeroboão para seu governador. Roboão, que não se podia resignar a tolerar isso, reuniu cento e oitenta mil homens das duas tribos que lhe eram fiéis, a fim de obrigar as outras dez a voltar à sua obediência pela força. Deus, no entanto, por meio de seu profeta, impediu-o de iniciar essa guerra, tanto porque não era justa e nem era conveniente lutar contra os da própria nação tanto porque fora por sua ordem que aquelas tribos o haviam abandonado. Começarei por narrar os feitos de Jeroboão, rei de Israel, e passarei em seguida aos de Roboão, rei de Judá, como a ordem da história o exigir.
346. Jeroboão mandou construir um palácio em Siquém, onde estabeleceu residência, e um outro na cidade de Fanuel. A festa dos Tabernaculos aproximava-se, e ele pensou que, se permitisse aos seus súditos ir celebrá-la em Jerusalém, a majestade das cerimônias e do culto que se prestava a Deus no Templo os levaria a se arrepender de tê-lo escolhido para seu rei. E, se eles o abandonassem para obedecer a Roboão, ele perderia não somente a coroa, mas correria o risco de perder também a vida. Para remediar esse mal que ele tanto motivo tinha para temer, mandou construir dois templos: um na cidade de Betei e outro na de Dã, que fica perto da nascente do Pequeno Jordão, e mandou fazer dois vitelos de ouro, os quais colocou nos templos.
Reuniu em seguida as dez tribos e falou-lhes: &quot;Meus amigos, creio que não ignorais que Deus está presente em toda parte, e assim não há lugar onde Ele não possa ouvir as orações e escutar os votos daqueles que o invocam. Por isso não acho conveniente que, para adorá-lo, vos deis ao trabalho de ir a Jerusalém, que está tão longe e que nos é inimiga. Aquele que construiu o Templo era um homem como eu, e então mandei fazer e consagrar a Deus dois bezerros de ouro, um dos quais foi colocado na cidade de Betei e outro na de Dã, a fim de que, conforme estiverdes mais próximos de uma ou de outra dessas duas cidades, possais ir até lá prestar as vossas homenagens a Deus. Não vos faltarão sacerdotes e levitas. Eu os escolherei dentre vós mesmos, sem que para isso tenhais de recorrer à tribo de Levi e à descendência de Arão. E aqueles que desejarem ser recebidos para desempenhar essas funções só terão de oferecer a Deus em sacrifício um vitelo e um carneiro, da mesma maneira como se diz que Arão fez ao ser nomeado sacerdote&quot;.
Eis o modo como Jeroboão, nomeado sacerdote, enganou o povo que a ele se havia submetido e o levou a abandonar a lei de Deus e a religião de seus antepassados. Isso foi a causa dos males que os hebreus sofreram depois e da escravidão a que se encontraram reduzidos após terem sido derrotados por nações estrangeiras, como diremos a seu tempo.
347. 1 Reis 13. A festa do sétimo mês aproximava-se, e Jeroboão resolveu celebrá-la em Betei, tal como as tribos de Judá e de Benjamim a celebravam em Jerusalém. Mandou fazer um altar em frente ao bezerro de ouro, pretendendo ele mesmo exercer o cargo de sumo sacerdote. Subiu ao altar acompanhado pelos sacerdotes que ele mesmo havia escolhido. Porém quando ia oferecer vítimas em holocausto, na presença de todo o povo, um profeta enviado por Deus de Jerusalém, chamado Jadom, lançou-se no meio da multidão e, voltado para o altar, falou tão alto que o rei e todos os presentes puderam ouvir: &quot;Altar, altar, eis o que diz o Senhor: Um príncipe virá da família de Davi, de nome Josias, e imolará nesse mesmo altar todos os falsos sacerdotes que ainda estiverem vivos e queimará os ossos dos que já tiverem morrido, pois eles enganam o povo e o levam à impiedade. Para que ninguém duvide da veracidade de minha profecia, vede o seu efeito neste mesmo instante: este altar ficará em pedaços, e a gordura dos animais, de que está coberto, será espalhada por terra&quot;.
Tais palavras deixaram Jeroboão tão encolerizado, que ele ordenou que prendessem o profeta. Estendeu a mão para dar a ordem, mas não a pôde recolher porque naquele instante ela ficou seca, como morta. O altar quebrou-se em vários pedaços, e os holocaustos que estavam sobre ele caíram por terra, segundo anunciara o homem de Deus. Jeroboão, não podendo mais duvidar de que Deus falara pelo profeta, rogou a este que pedisse a sua cura. Ele o fez, e a mão recobrou o movimento, como antes. Jeroboão ficou tão contente que pediu ao profeta que ficasse e assistisse ao banquete. Ele, porém, recusou o convite, dizendo que Deus o havia proibido de pôr o pé no palácio, de comer o pão e beber a água daquela cidade e que lhe ordenara expressamente que voltasse por um caminho diferente daquele pelo qual tinha vindo. A recusa do profeta aumentou ainda mais o respeito de jeroboão por ele.
Havia naquela mesma cidade um falso profeta, que, embora enganasse Jeroboão, desfrutava a sua estima, porque só lhe predizia coisas agradáveis. E, como era muito velho e doente, estava sempre de cama. Os filhos contaram-lhe que um profeta vindo de Jerusalém curara a mão seca do rei, entre outros milagres. Tal ação o fez temer que Jeroboão viesse a estimar mais esse profeta que a ele. Com isso, perderia todo o seu prestígio. Assim, ordenou aos filhos que preparassem imediatamente a sua cavalgadura, para ir ter com o profeta. Encontrou-o descansando à sombra de um carvalho, saudou-o e queixou-se de ele não ter ido à sua casa, onde o teria recebido com alegria. Jadom respondeu-lhe que Deus o havia proibido de comer naquela cidade, na casa de quem quer que fosse.
O falso profeta retorquiu: &quot;Essa predição não se deve estender a mim, pois sou profeta como vós, adoro a Deus do mesmo modo e foi por sua ordem que vos vim procurar, para levar-vos à minha casa e usar convosco de minha hospitalidade&quot;. Jadom acreditou, deixando-se enganar, e o seguiu. Quando estavam ambos à mesa, porém, Deus apareceu-lhe, dizendo que, por castigo àquela desobediência, ele encontraria no seu regresso um leão, que o mataria, e ele não seria enterrado no sepulcro de seus antepassados. Creio que Deus permitiu isso para impedir jeroboão de prestar fé ao que Jadom havia predito.
O profeta sentiu bem depressa o efeito das palavras de Deus. Ao regressar, ele encontrou um leão, que o derrubou do asno e o matou sem tocar no animal. Depois ficou perto do corpo do profeta, para guardá-lo. Alguns viajantes viram a cena e contaram ao falso profeta. Ele logo ordenou que os filhos buscassem o corpo e o sepultou com grande cerimônias. Ordenou-lhes que, depois de sua morte, pusessem o seu corpo junto ao de Jadom, pois parte do que ele profetizara já se havia cumprido, e ele não duvidava que o resto em breve também aconteceria. E assim, tal como o altar, que fora feito em pedaços, os sacerdotes e os falsos profetas certamente seriam tratados do modo como ele havia predito. Por isso, estando os seus ossos misturados aos de Jadom, eles não seriam queimados, pensava ele.
Depois de haver esse homem ímpio dado tal ordem, foi ter com Jeroboão e perguntou-lhe por que ficara tão perturbado pelas palavras de um estranho. Jeroboão respondeu que o que acontecera ao altar e à sua mão fazia muito bem ver que aquele era um homem cheio do Espírito de Deus e um verdadeiro profeta. Depois disso, esse homem alegou ao rei razões bastante verossímeis, porém falsas, a esse respeito, para tirar de seu Espírito aquela convicção e obscurecer a verdade.
Ele disse ao rei que o que acontecera à sua mão era proveniente de cansaço, depois de ter sacrificado tantas vítimas sobre o altar, pois fora curado logo após um pouco de descanso. Quanto ao altar, não era de se admirar que não tivesse suportado o peso de tantos animais imolados, pois fora construído recentemente. Por fim, o fato de um leão ter matado aquele homem parecia indicar claramente que nada do que ele havia falado era verdade. O rei, persuadido por essas palavras, não somente se afastou de Deus, como chegou ao cúmulo do orgulho e da loucura, ousando levantar-se contra Ele. Abandonou-se a toda espécie de crimes, e procurava continuamente praticar outros, ainda desconhecidos e maiores que os precedentes.
348. 1 Reis 14. Havendo falado desse soberano, devemos agora falar de Roboão, filho de Salomão, que reinava, como dissemos, sobre duas tribos somente. Ele mandou construir na tribo de Judá várias cidades grandes e fortes, como Belém, Etã, Tecoa, Bete-Zur, Soco, Adulão, Ip, Maressa, Zife, Adoraim, Laquis, Zorá, Aijalom e Hebrom. Mandou construir também outras grandes cidades na tribo de Benjamim e colocou em todas governadores e fortes guar-nições. Proveu-as de trigo, vinho e óleo e de tudo o que era necessário, incluindo armas em quantidade suficiente para equipar um bom número de soldados.
Os sacerdotes, os levitas e todas as pessoas piedosas das dez tribos sujeitas a Jeroboão, não podendo tolerar que um príncipe os quisesse obrigar a adorar dois vitelos de ouro que ele mesmo tinha feito, abandonaram as cidades em que moravam para servir a Deus em Jerusalém. Essa demonstração de sua piedade, que continuou durante três anos, aumentou em muito o número dos súditos de Roboão.
O rei de judá desposou primeiramente uma de suas parentas, da qual teve três filhos, e em seguida outra, de nome Maaca, filha mais velha de Tamar, filha de Absalão, da qual teve um filho de nome Abião.* Embora tivesse ainda outras dezoito mulheres legítimas e trinta concubinas, das quais teve vinte e oito filhos e sessenta filhas, ele amou Maaca acima de todas as outras e escolheu Abião, filho dela, para seu sucessor, confiando-lhe os seus tesouros e as mais fortes de suas cidades.
Como acontece ordinariamente de a prosperidade produzir a corrupção dos costumes, o aumento do poder de Roboão o fez esquecer-se de Deus. O povo seguiu a sua impiedade, pois a vida desregrada de um rei quase sempre causa o mesmo efeito nos súditos. Assim como o exemplo de sua virtude os conserva no cumprimento do dever, a exposição de seus vícios leva-os à desordem, porque julgam que não os imitar eqüivale a condená-los. Assim, Roboão calcou aos pés o respeito e o temor a Deus, e os seus súditos caíram no mesmo crime, como se temessem ofendê-lo, querendo ser mais justos que o rei.

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* Ou Abias.

CAPÍTULO 4
SISAQUE, REI DO EGITO, SITIA A CIDADE DE JERUSALÉM. ROBOÃO A ENTREGA COVARDEMENTE. SISAQUE SAQUEIA O TEMPLO E LEVA TODOS OS
TESOUROS DEIXADOS POR SALOMÃO. MORTE DE ROBOÃO.
ABIÃO, SEU FILHO, SUCEDE-O. JEROBOÃO MANDA A MULHER CONSULTAR O
PROFETA ATAS A RESPEITO DA DOENÇA DE OBIMÉS, SEU FILHO. O PROFETA
DIZ QUE ELE MORRERÁ E PREDIZ A RUÍNA DO REI E DE TODA A SUA
FAMÍLIA, POR CAUSA DA IMPIEDADE.

349. Deus, para aplicar a sua justa vingança sobre Roboão, serviu-se de Sisaque, rei do Egito. (Heródoto engana-se quando atribui esse fato a Sosester.) Esse soberano, Sisaque, entrou no país no quinto ano do reinado de Roboão, com um exército de mil e duzentos carros, sessenta mil cavaleiros e quatrocentos mil soldados de infantaria, composto na maior parte por líbios e etíopes. Depois de colocar guarnições nas várias cidades que se entregaram a ele, sitiou Jerusalém. Roboão, que lá estava encerrado, recorreu a Deus, mas Ele não ouviu a sua oração. O profeta Semaías advertiu-o, dizendo que, assim como ele e o povo haviam abandonado a Deus, Ele também os abandonara.
O soberano e os súditos, vendo-se sem esperança de auxílio, humilharam-se e confessaram que era com muita justiça que recebiam aquele castigo, devido à sua impiedade e aos seus crimes. Deus, tocado pelo arrependimento deles, mandou dizer-lhes pelo seu profeta que não os exterminaria inteiramente, porém os sujeitaria aos egípcios, para fazê-los experimentar a diferença entre estar sujeito a Deus somente e aos homens. Roboão, desse modo, perdeu o ânimo e entregou Jerusalém a Sisaque, que lhe faltou à palavra, pois saqueou o Templo e levou todos os tesouros consagrados a Deus. Levou também os tesouros de Roboão, os escudos de ouro que Salomão mandara fazer e as aljavas de ouro dos sofonianos que Davi oferecera a Deus. Voltou ao seu país carregado com tantas riquezas e despojos que perfaziam uma soma incalculável.
Heródoto faz menção a essa guerra e engana-se somente no nome do rei do Egito, quando diz que ele, depois de atravessar várias províncias, subjugou a Síria da Palestina, cujos povos se entregaram a ele sem combate, o que mostra claramente que é de nossa nação que ele está falando, e faz ver com isso que ela foi dominada pelos egípcios. Ele acrescenta que esse príncipe mandou elevar colunas nos lugares que se haviam rendido a ele sem se defender, sobre as quais, para reprovar-lhes a covardia, estavam gravados sinais do sexo das mulheres, o que se referia sem dúvida a Roboão, pois foi o único de nossos reis a entregar Jerusalém sem combater. Esse mesmo historiador diz que os etíopes aprenderam dos egípcios a circuncisão, e os fenícios e os sírios da Palestina confirmam que receberam também dos egípcios esse costume, pois é sabido que não há outros povos na Palestina que se circuncidem. Mas deixo a cada qual opinar sobre isso o que quiser.
350.  Depois que o rei Sisaque voltou ao Egito, Roboão, para substituir os escudos de ouro que ele havia levado, mandou fazer outros, em igual número, de cobre, os quais entregou aos guardas. Ele passou o resto de sua vida sem fazer ação alguma digna de memória, porque o medo que tinha de Jeroboão, seu irre-conciliável inimigo, não lhe permitia tomar qualquer iniciativa. Morreu na idade de cinqüenta e sete anos, dos quais reinou dezessete. Seu Espírito fraco e sua arrogância fizeram-no perder, como dissemos, a maior parte do reino, por não seguir o conselho dos amigos do rei Salomão, seu pai. Abião, seu filho, de apenas dezoito anos, sucedeu-o, e Jeroboão reinava ainda sobre as outras dez tribos.
351.   1 Reis 14. Depois de termos dito qual o fim de Roboão, devemos dizer também qual foi o de Jeroboão. Tão detestável monarca continuou a ofender a Deus cada vez mais, com horríveis atos de impiedade. Fazia continuamente erguer altares sobre os lugares mais elevados das florestas e escolhia para sacerdotes pessoas de baixa condição moral. Mas Deus não tardou muito a castigá-lo com uma justa vingança por tanta abominação, vindo o castigo sobre ele e sobre toda a sua posteridade.
Obimés, seu filho, estava muito doente, e ele disse à rainha sua esposa que tomasse as vestes de uma pessoa do povo e fosse falar com o profeta Aías, homem admirável, o mesmo que outrora previra que ele seria rei. Ela devia fingir-se estrangeira e perguntar se o filho ficaria bom daquela enfermidade. Ela partiu logo, mas quando se aproximava da casa de Aías, Deus apareceu ao profeta, tão acabado pela velhice que quase nada mais enxergava, e revelou-lhe que a mulher de Jeroboão viria falar com ele. Deus disse-lhe também o que devia responder a ela.
Quando ela chegou à porta fingindo ser uma pobre forasteira, o profeta exclamou: &quot;Entrai, mulher de Jeroboão, sem dissimular que sois vós mesma. Deus me revelou tudo, e já me disse o que vos devo responder: Voltai para junto de vosso marido e dizei-lhe da parte de Deus: Quando não gozáveis ainda de nenhum prestígio, eu dividi o reino, que devia pertencer ao sucessor de Davi, para dar-vos uma parte, mas a vossa horrível ingratidão vos fez esquecer todos os meus benefícios. Abandonastes o meu culto para adorar ídolos feitos por vossas mãos. Por isso exterminarei toda a vossa descendência. Darei o vosso corpo aos cães e às aves, para que o devorem, e constituirei rei sobre Israel um homem que não poupará nenhum de vossos descendentes. E o povo, que vos é submisso, não ficará isento desse castigo. Serão expulsos desta terra tão abundante que agora possuem e serão impelidos para além do Eufrates, porque imitaram a vossa impiedade e deixaram de me render a devida honra para prestar um culto sacrílego a falsos deuses, que são obra das mãos dos homens&quot;.
Disse em seguida o profeta: &quot;Apressai-vos e ide levar essa resposta a vosso marido. Quanto ao vosso filho, ele morrerá no mesmo instante em que entrardes na cidade. Enterrá-lo-ão com honra, e todo o povo chorará, por ser o único de toda a descendência de Jeroboão a ter piedade e virtude&quot;. A princesa, cheia de dor por causa dessa resposta e já considerando morto o filho, voltou debulhada em lágrimas para falar com o rei. Apressando-se, apressava também a morte do filho, que iria expirar quando ela chegasse à cidade, e assim ela não poderia encontrá-lo com vida. Achou-o morto, conforme a predição do profeta, e referiu a Jeroboão tudo o que ele lhe dissera.

CAPÍTULO 5
GRANDE VITÓRIA CONQUISTADA POR ABIÃO, REI DE JERUSALÉM, CONTRA
JEROBOÃO, REI DE ISRAEL. MORTE DE ABIÃO. ASA, SEU FILHO, SUCEDE-O.
MORTE DE JEROBOÃO. SEU FILHO SUCEDE-O. BAASA ASSASSINA-O E
EXTERMINA TODA A FAMÍLIA DE JEROBOÃO.

352. 1 Reis 15; 2 Crônicas 13. Jeroboão, desprezando os oráculos que Deus pronunciara pela boca de seu profeta, reuniu oitocentos mil homens para fazer guerra a Abião, filho de Roboão, cuja mocidade ele desprezava. Mas esse príncipe, cuja firmeza sobrepujava a idade, em vez de se espantar com tão grande multidão de inimigos, acreditou que obteria a vitória. Ele reuniu dentre as duas tribos que lhe eram sujeitas um exército de quatrocentos mil homens e partiu contra Jeroboão. Acampado próximo do monte de Zemaraim, preparou-se para dar-lhe combate. Estando os exércitos preparados e prestes a embater-se, Abião subiu a um pequeno outeiro e com a mão fez sinal de que desejava falar às tropas de Jeroboão.
E começou: &quot;Vós não ignorais que Deus constituiu Davi, meu bisavô, rei sobre todo o povo e lhe prometeu que os seus descendentes reinariam também depois dele. Assim, admiro-me que tenhais sido excluídos do governo do falecido rei meu pai para vos submeterdes ao de Jeroboão, que nasceu súdito dele, e venhais agora de armas na mão contra mim, que fui escolhido por Deus para vos governar, querendo tirar-me esta pequena parte do reino que me resta, enquanto Jeroboão possui a maior. Espero, todavia, que ele não desfrute por muito tempo uma usurpação tão injusta. Deus o castigará, sem dúvida, pelos muitos crimes que cometeu e continua a cometer, no que vos leva a imitar. Pois foi ele quem vos impeliu à revolta contra o falecido rei meu pai, que outro mal não vos fez senão falar-vos asperamente, devido ao mau conselho que seguiu, fomentando assim o vosso descontentamento e levando-vos não somente a abandonar o vosso legítimo soberano, mas ao próprio Deus, e a violar as suas santas leis, quando devíeis desculpar as palavras grosseiras de um jovem rei não acostumado a falar em público. Mesmo que a sua pouca experiência vos tivesse dado justo motivo de queixa, os benefícios de que sois devedores ao rei Salomão, meu avô, não vos deveriam fazê-lo esquecer, sendo que não há nada mais razoável que perdoar as faltas dos filhos pela recordação dos favores devidos aos pais? Todavia, sem vos incomodardes com tais considerações, vindes atacar-me com um grande exército. Confesso que não compreendo em que pondes a vossa confiança. Será sobre esses vitelos de ouro, nesses altares erguidos, nesses lugares elevados? Em vez de ser sinal de piedade, não mostra isso, ao contrário, a vossa impi-edade? Ou será porque o número de vossos soldados sobrepuja em muito o dos meus? Contudo, por maior que seja um exército, pode ele esperar um resultado feliz, se combate contra a justiça? Esta somente pode obter a vitória quando unida à pureza do culto a Deus. Assim, espero consegui-la, pois nem eu nem os que me são fiéis nos afastamos da observância às leis de nossos antepassados. Sempre adoramos ao verdadeiro Deus, que criou o universo e é o princípio e o fim de todas as coisas, e não a ídolos feitos de matéria corruptível pelas mãos dos homens, inventados por um tirano que abusa de vossa credulidade para vos arruinar. Considerai, pois, e meditai. Segui um melhor conselho e não vos afasteis mais do sensato proceder de nossos antepassados nem deturpeis as santas leis, que nos elevaram a tão alto grau de grandeza e poder&quot;.
Enquanto Abião falava, Jeroboão fez marchar secretamente uma parte de suas tropas, a fim de atacar o exército de Abião pela retaguarda e envolvê-lo, e todos ficaram alarmados quando o perceberam. Mas Abião, sem perder a calma, exortou-os a colocar toda a sua confiança em Deus, ao qual os homens não podem surpreender. A generosidade com a qual ele lhes falou inspirou neles tão grande confiança que, depois de invocar o auxílio divino, partiram para a luta com uma coragem incrível, misturando os gritos de alegria ao som das trombetas dos sacerdotes.
Deus abateu de tal modo o ânimo dos inimigos que em toda a história, seja a dos gregos, seja a dos bárbaros, nunca se viu maior carnificina numa batalha. Quinhentos mil homens do lado de Jeroboão restaram mortos no campo, nessa brilhante vitória que Deus concedeu à piedade do rei Abião. Tão justo e glorioso príncipe tomou em seguida, de jeroboão, as cidades de Betei, jesana e várias outras dentre as mais fortes. Conquistou todo o país, que agora dependia dele, e pô-lo em tal estado que não se pôde refazer durante toda a vida desse ilustre rei de Judá. Mas ele morreu bem depressa: reinou apenas mais três anos. Foi enterrado em Jerusalém, no sepulcro de seus antepassados, e deixou quatorze mulheres, dezesseis filhas e vinte e dois filhos, um dos quais, de nome Asa, que ele teve de Maaca, sucedeu-o no trono e reinou dez anos em grande paz.
353.  Eis o que encontramos por escrito de Abião, rei de Judá. Jeroboão, rei de Israel, não sobreviveu por muito tempo, pois reinou vinte e dois anos, e Nadabe, seu filho, sucedeu-o no governo e na impiedade. Reinou apenas dois anos. Baasa, filho de Aías, matou Nadabe à traição, quando este sitiava Gibetom, cidade dos filisteus. Baasa usurpou o reino e, segundo Deus havia predito, exterminou toda a família de Jeroboão, lançando os corpos aos cães, para que estes os devorassem, como castigo pelos seus crimes e pela sua impiedade.

CAPÍTULO 6
VIRTUDES DE ASA, REI DE JUDÁ E FILHO DE ABIÃO. ESPLÊNDIDA VITÓRIA
QUE ELE OBTÉM SOBRE ZERÁ, REI DA ETIÓPIA. O REI DE DAMASCO O
AUXILIA CONTRA BAASA, REI DE ISRAEL, QUE É ASSASSINADO POR CREOM.
ELÁ, FILHO DE BAASA, SUCEDE AO PAI E É ASSASSINADO POR ZINRI.

354.  1 Reis 15; 2 Crônicas 14, 15 e 76. Asa, rei de Judá e filho de Abião, era um príncipe tão sábio e religioso que tinha como regra para as suas ações apenas a lei de Deus. Ele reprimiu os vícios, baniu as desordens e deteve a corrupção que se introduzira no reino. Somente na tribo de Judá havia trezentos mil homens escolhidos, armados com dardos e escudos, e duzentos e cinqüenta mil na de Benjamim, que também possuíam escudos e se serviam de arcos e de flechas.
Então Zerá, rei da Etiópia, veio atacá-lo com um exército de cem mil cavaleiros, novecentos mil soldados de infantaria e trezentos carros. Marchou contra ele até Maressa, cidade da Judéia, e colocou o seu exército em posição de batalha no vale de Zefatá. Quando ele viu aquela enorme multidão de inimigos, dirigiu-se a Deus para implorar o seu auxílio, em vez de perder a coragem. Na sua oração, disse-lhe que só se envolvera numa guerra contra tão poderoso exército pela confiança que tinha em seu auxílio, pois sabia que Ele podia fazer vencedor um pequeno número ou fazer triunfar os mais fracos contra os mais fortes, os quais pareciam os mais temíveis.
Deus aceitou a oração desse virtuoso príncipe e a teve por tão agradável que mostrou por um sinal que ele obteria a vitória. Assim, ele partiu para a luta com inteira confiança, matou um grande número de inimigos, pôs em fuga o restante deles e os perseguiu até a cidade de Gerar, que tomou à força. Os soldados saquearam-na e devastaram todo o acampamento dos etíopes, onde encontraram tão grande quantidade de ouro, camelos, cavalos e gado que voltaram a Jerusalém carregados de riquezas.
Quando se aproximavam da cidade, o profeta Azarias veio-lhes ao encontro, mandou que parassem e lhes disse que Deus os havia feito obter aquela brilhante vitória porque reconhecera a sua piedade e submissão às santas leis. E, se continuassem a viver daquele modo, Ele continuaria também a fazê-los triunfar de seus inimigos. Mas se eles se afastassem do seu serviço cairiam em tal infelicidade que entre eles não haveria um só profeta verdadeiro ou um sacerdote que fosse justo. As suas cidades seriam destruídas, e eles vagariam errantes por toda a terra. Assim, exortava-os a praticar cada vez mais a virtude, enquanto isso lhes fosse possível, e que não se iludissem com a felicidade de serem favorecidos por Deus. Essas palavras encheram Asa e os seus de tal alegria que nada esqueceram, quer em geral, quer em particular, de tudo o que dependia deles, para fazer observar a lei de Deus.
355. Voltemos agora a Baasa, que depois de ter assassinado Nadabe, filho de Jeroboão, tinha usurpado o reino de Israel. Escolheu ele a cidade de Tirza para sua moradia e reinou vinte e quatro anos. Foi ainda mais ímpio e mau que Jeroboão e seu filho Nadabe. Não havia vexames e tribulações pelas quais não fizesse passar os seus súditos nem blasfêmias que não vomitasse contra Deus. Assim, atraiu ele sobre si a cólera de Deus, que lhe mandou dizer, por )eú, seu profeta, que o exterminaria, bem como a toda a sua descendência, tal como havia exterminado a de Jeroboão, porque, em vez de reconhecer o favor que lhe havia feito, consti-tuindo-o rei, e de ganhar o coração do povo pelo amor, pela religião e pela justiça, ele preferira imitar o detestável Jeroboão em seus crimes e em suas abo-minações.
Tais ameaças, no entanto, não levaram o soberano a se corrigir nem a fazer penitência para aplacar a ira de Deus. Ao contrário, ele chafurdou-se cada vez mais em toda espécie de pecado. Sitiou Rama, cidade assaz importante, distante de Jerusalém uns quarenta estádios somente. Depois de havê-la tomado, fortificou-a e colocou ali uma forte guarnição, para poder daquele lugar fazer incursões pelo país. O rei Asa, para maior segurança, enviou embaixadores com dinheiro ao rei de Damasco, pedindo-lhe auxílio, conforme a aliança que havia entre os seus antepassados.
O soberano recebeu o dinheiro e enviou logo um exército às terras de Baasa, o qual causou-lhe muitos prejuízos, queimando cidades e saqueando Ijom, Dã e Abel-Maim. Desse modo, Baasa foi obrigado a deixar a fortificação de Rama para defender o país. No entanto Asa fortificou Ceba e Mispa com o material que Baasa havia preparado para usar em Rama. Baasa não pôde mais continuar atacando Asa. Creom assassinou Baasa, o qual foi enterrado na cidade de Tirza. Elá, seu filho, sucedeu-o e reinou apenas dois anos. Zinri, que comandava metade da cavalaria, assassinou-o num banquete que ele oferecia em casa de um de seus oficiais, de nome Arsa, onde não havia guardas, porque ele havia mandado todos os seus soldados sitiar Gibetom, uma cidade dos filisteus.

CAPÍTULO 7
O EXÉRCITO DE ELÁ, REI DE ISRAEL, ASSASSINADO POR ZINRI, ESCOLHE ONRI
PARA REI, E ZINRI ATIRA-SE NAS CHAMAS. ACABE SUCEDE A ONRI, SEU PAI,
NO REINO DE ISRAEL. SUA ENORME IMPIEDADE. CASTIGO COM QUE DEUS O
AMEAÇA, PELO PROFETA ELIAS, QUE SE RETIRA EM SEGUIDA PARA O
DESERTO, ONDE OS CORVOS O ALIMENTAM, E DEPOIS PARA ZAREFATE, EM
CASA DE UMA VIÚVA, ONDE ELE FAZ GRANDES MILAGRES. ELIAS FAZ OUTRO
IMPORTANTE MILAGRE NA PRESENÇA DE ACABE E DE TODO O POVO E MATA
QUATROCENTOS E CINQÜENTA FALSOS PROFETAS. JEZABEL QUER MATÁ-LO,
MAS ELE FOGE. DEUS ORDENA-LHE QUE CONSAGRE FEÚ REI DE ISRAEL E
HAZAEL REI DA SÍRIA E ESTABELEÇA ELISEU COMO PROFETA. JEZABEL
MANDA APEDREJAR NABOTE, AFIM DE OBTER A SUA VINHA PARA ACABE.
DEUS MANDA ELIAS AMEAÇÁ-LO, E ELE SE ARREPENDE DE SEU PECADO.

356. Zinri, como acabamos de ver, tendo mandado assassinar o rei Elá e usurpado a coroa, exterminou, segundo a predição do profeta Jeú, toda a família de Baasa, do mesmo modo como havia feito à de Jeroboão, por causa de sua impi-edade. Mas não ficou muito tempo impune pelo seu crime. O exército, que sitiava Gibetom, tendo sabido do assassinato cometido por ele e de que se havia apoderado do reino, levantou o cerco e escolheu para rei o general que os comandava, de nome Onri. Este partiu imediatamente a fim de sitiar Zinri em Tirza. Tomou a cidade, e então o usurpador, vendo-se abandonado e sem auxílio, escondeu-se no lugar mais afastado do palácio, ao qual ateou fogo. Ele morreu queimado após reinar apenas sete dias. O povo dividiu-se em vários partidos, uns querendo conservar Onri como rei, outros manifestando-se a favor de Tibni. Mas o partido de Onri era mais forte, e ele tomou pacificamente posse do reino de Israel, após morte de Tibni, que foi assassinado.
Ele começou a reinar no trigésimo ano do rei Asa, de Judá, e reinou doze anos, seis na cidade Tirza e seis em Semer, que os gregos chamam Samaria. Ele então a chamou Semer por causa do nome daquele de quem ele comprara o monte, sobre o qual a construiu. Em nada se diferenciou dos reis seus predecessores, a não ser em tê-los sobrepujado na impiedade. Porque nada houve que ele não fizesse para afastar o povo da religião de seus pais. Mas Deus, com um justo castigo, exterminou-o, bem como a toda a sua família. Ele morreu em Samaria, e Acabe, seu filho, sucedeu-o.
357.  Esses exemplos dos favores com que Deus recompensa os bons e dos castigos que inflige aos maus mostram como Ele observa as ações dos homens. Vimos esses reis de Israel destruírem-se uns aos outros em pouco tempo e todas as suas descendências serem exterminadas por causa da impiedade deles. Deus, ao contrário, para recompensar a piedade do rei Asa, de judá, deixou-o reinar com inteira prosperidade durante quarenta e um anos. Morreu em ditosa velhice, e Josafá, seu filho, que ele tivera de Abida, sucedeu-o na virtude bem como no reino, e deu a conhecer, por suas ações, que era um verdadeiro imitador da piedade e da coragem de Davi, do qual era descendente, como veremos mais particularmente na continuação desta história.
358. Acabe, rei de Israel, estabeleceu residência em Samaria e reinou vinte e dois anos. Em vez de mudar as abomináveis instituições feitas pelos reis seus predecessores, inventou ainda outras, tanto se comprazia em superá-los na impi-edade, particularmente a Jeroboão, porque adorou, como ele, bezerros de ouro que havia mandado fazer e acrescentou outros crimes a esse. Desposou Jezabel, filha de Etbaal, rei dos tírios e dos sidônios, e tornou-se idolatra, adorando falsos deuses. Jamais mulher alguma foi mais ousada e insolente. Tão horrível era a sua impiedade que ela não se envergonhou de edificar um templo a Baal, deus dos tírios, de plantar madeiras de todas as espécies e de estabelecer falsos profetas para prestar um culto sacrílego a essa falsa divindade. Como Acabe sobrepujava a todos os seus predecessores em maldade, ele tinha prazer em manter sempre essa espécie de gente junto de si.
359.  1 Reis 17. Um profeta de nome Elias, da cidade de Tisbi, veio falar-lhe da parte de Deus e afirmou com juramento que depois que tivesse desempenhado a sua incumbência e se retirasse, Deus não mandaria mais chuva nem orvalho à terra durante todo o tempo em que ele, Elias, estivesse ausente. Tendo-lhe assim falado, dirigiu-se para o sul e parou próximo de uma torrente, a fim de não sentir falta de água. Quanto à comida, alguns corvos traziam-lhe todos os dias o necessário para o seu sustento. Quando a torrente secou, ele foi, por ordem de Deus, a Zarefate, cidade situada entre Tiro e Sidom, à casa de uma viúva, que Deus revelou lhe daria alimento.
Quando estava próximo da porta da cidade, encontrou uma mulher que cortava lenha, e Deus revelou-lhe que era a que deveria hospedá-lo em casa. Ele aproximou-se dela, cumprimentou-a e rogou-lhe que lhe desse um pouco de água para beber. Ela o fez e, quando ela já se afastava, ele pediu também um pedaço de pão. Afirmou então a mulher, com juramento, que tinha apenas um pouco de farinha e de óleo e que tinha vindo ajuntar lenha a fim de assar um pão para ela e seu filho, sendo que depois deveriam resignar-se a morrer de fome. Disse-lhe o profeta: &quot;Tende coragem e não percais a esperança. Começai, eu vos peço, por me dar o que tiverdes para comer, pois prometo que o vosso prato jamais ficará sem farinha e nem faltará óleo ao vosso vaso até que Deus faça cair chuva do céu&quot;.
A mulher obedeceu, e nem ele, nem ela, nem o filho dela tiveram falta de coisa alguma até findar aquela prolongada seca, de que fala o historiador Menandro quando narra os feitos de Etbaal, rei dos tírios: &quot;Houve naquele tempo uma grande seca, que durou desde o mês de hiperbereteu até o mesmo mês do ano seguinte. Esse soberano mandou fazer grandes preces e foram elas seguidas de um grande trovão. Foi ele quem mandou construir as cidades de Botris, na Fenícia, e a de Ausate, na África&quot;. Essas palavras referem-se, sem dúvida, a essa seca, que aconteceu no reinado do rei Acabe, pois Etbaal reinava em Tiro nesse mesmo tempo.
360.  O filho da viúva de que acabamos de falar morreu pouco depois. O excesso de dor fez a pobre mãe aflita perder o juízo, de modo que atribuía à chegada do profeta a morte do menino. Dizia que ele havia descoberto os seus pecados e que essa fora a causa de Deus lhe haver levado o único filho, para castigá-la. O profeta, contudo, exortou-a a confiar em Deus e pediu que lhe trouxesse o corpo do menino, prometendo restituí-lo vivo.
Ela obedeceu, e o profeta levou-o ao seu quarto, onde elevou a voz a Deus, depois de estender em seu leito o menino, e disse-lhe, na amargura de sua alma, que a morte da criança seria má recompensa à caridade que aquela mãe usara para com ele, recebendo-o em sua casa e dando-lhe alimento. Então rogou ardentemente a Deus que restituísse a vida ao menino. Deus, comovido por causa da mãe e não querendo que se pudesse acusar o profeta de ter sido o causador daquela infelicidade, ressuscitou o menino. A pobre mulher, fora de si de tanta alegria ao rever, contra toda a esperança, o seu filho, disse a Elias, enquanto segurava o menino nos braços: &quot;Agora conheço que falais deveras com o Espírito de Deus&quot;.
361.  1 Reis 18. Algum tempo depois, Deus mandou esse profeta dizer ao rei Acabe que mandaria chuva. A carestia então era tão grande e a falta de todas as coisas necessárias à vida tão extraordinária que mesmo os cavalos e os outros animais não encontravam erva, pois a extrema seca tornara a terra árida. Para evitar a inteira ruína de seu gado, Acabe mandou Qbadias, chefe de todos os seus pastores, procurar forragem nos lugares mais úmidos, devendo ao mesmo tempo procurar por toda parte o profeta Elias. Vendo que não o podiam encontrar, resolveu ir ele mesmo procurá-lo e disse a Obadias que o seguisse, porém tomando um outro caminho.
Obadias era um homem de bem e tão temente a Deus que, quando Acabe e Jezabel mandaram matar os profetas do Senhor, ele escondeu uns cem deles em cavernas, onde os alimentava com pão e água. Mal havia deixado o rei, o profeta veio ao seu encontro. Obadias perguntou-lhe quem era, e quando o soube pros-trou-se diante dele. Disse-lhe o profeta: &quot;Ide avisar o rei da minha chegada&quot;. Respondeu Obadias: &quot;Que mal vos fiz, para quererdes a minha morte? Pois o rei vos fez procurar por toda parte, a fim de matar-vos. Logo que eu lhe disser que estais para chegar, o Espírito de Deus vos levará a outros lugares, e assim o rei dirá que o enganei e sem dúvida me matará. Podeis, no entanto, se o quiserdes, salvar-me a vida. É o que vos peço, pelo amor que demonstrei a cem profetas como vós, aos quais livrei do furor de Jezabel e escondi nas cavernas, onde ainda os sustento&quot;. O homem de Deus respondeu-lhe que fosse com toda tranqüilidade procurar o rei, pois prometia com juramento comparecer naquele mesmo dia à sua presença.
Ele partiu, e Acabe, ante essas palavras, veio ter com Elias e encolerizado disse-lhe: &quot;Sois então o causador de tantos males ao meu reino, particularmente desta esterilidade, que o reduziu a tal miséria?&quot; O profeta, sem se admirar, respondeu que o rei deveria atribuir a si mesmo todos os males de que se lamentava, pois os havia atraído pelo culto sacrílego que prestava aos falsos deuses de outras nações, abandonando o Deus verdadeiro. Mandou então que reunisse todo o povo no monte Carmelo e ordenasse a todos os profetas da rainha sua esposa, dos quais afirmou desconhecer o número, e aos quatrocentos e cinqüenta dos lugares altos que lá se encontrassem todos.
Feito isso, Elias falou nestes termos à grande multidão: &quot;Até quando o vosso Espírito ficará hesitando, na incerteza do partido que deveis tomar? Se credes que o nosso Deus é o Deus eterno e único, por que não vos dedicais inteiramente a Ele com inteira submissão do coração e não observais os seus mandamentos? Se credes, ao contrário, que são esses deuses estrangeiros que deveis adorar, por que não os tomais por vossos deuses?&quot;
Ninguém respondeu, e o profeta continuou: &quot;Para se conhecer, por meio de uma prova indubitavel, quem é o mais poderoso, o Deus que adoro ou esses deuses que vos apresentam, e se quem está na verdadeira religião sou eu ou esses quatrocentos e cinqüenta profetas, vou trazer um boi preparado para o sacrifício, mas não porei fogo à lenha. Que esses quatrocentos e cinqüenta profetas façam a mesma coisa e roguem depois aos seus deuses, assim como rogarei ao meu, que ponham fogo à lenha, e então conheceremos quem é o verdadeiro Deus&quot;.
A proposta foi aprovada, e Elias disse aos profetas que escolhessem o boi que quisessem e por primeiro fizessem o sacrifício e invocassem os seus deuses. Eles o fizeram, mas inutilmente. Elias, para zombar deles, disse-lhes que gritassem mais alto, porque os seus deuses talvez tivessem ido passear ou então estavam dormindo. Eles continuaram as suas invocações até o meio-dia e cortavam a própria pele com navalhas, segundo o seu costume, mas sem resposta alguma.
Quando Elias foi por sua vez sacrificar, ordenou que todos se retirassem e convocou o povo a verificar se ele ocultamente poria fogo à lenha. Todos se aproximaram. O povo tomou doze pedras, segundo o número das tribos, e ergueu um altar, ao qual rodeou com um canal profundo. Colocaram a lenha sobre o altar e puseram a vítima sobre a lenha. Derramaram depois por cima dela quatro grandes cântaros de água da fonte. A água molhou não somente a vítima e toda a lenha, mas correu pelo canal e o encheu. Então Elias invocou a Deus e rogou-lhe que mostrasse o seu poder àquele povo que havia tanto tempo estava mergulhado nas trevas da cegueira. No mesmo instante, viu-se descer do céu sobre o altar um fogo, que consumiu inteiramente a vítima e toda a água, sem que a terra ficasse menos seca do que estava antes.
O povo, espantado com tão grande milagre, prostrou-se por terra e adorou a Deus, clamando que Ele era o único e verdadeiro Deus e que todos os outros deuses eram apenas nomes sem sentido, imaginários, ídolos sem virtude e sem poder, objetos dignos de desprezo, aos quais não se podia sem loucura prestar culto. O profeta, então, matou os quatrocentos e cinqüenta falsos profetas e disse ao rei que fosse comer tranqüilo, pois lhe garantia que Deus logo faria chover.
Depois que o rei se retirou, Elias subiu ao cume do monte e pôs a cabeça entre os joelhos. Estando o céu muito claro e sereno, ordenou ao seu servo que subisse a um rochedo e olhasse para o lado do mar, a fim de dizer-lhe se via alguma pequena nuvem. O servo subiu e disse que nada via. Voltando, porém, pela sétima vez, disse-lhe por fim que avistava no ar uma nuvenzinha de mais ou menos um pé de comprimento. O profeta então mandou dizer ao rei que voltasse logo para Israel, se não quisesse ser surpreendido por uma violenta tempestade. Acabe partiu a toda velocidade em seu carro, e o profeta, levado pelo Espírito de Deus, não o seguiu menos depressa. Logo que chegaram à cidade, espessas nuvens cobriram todo o céu. Um vento impetuoso levantou-se, e uma chuva fortíssima inundou a terra.
362. 1 Reis 19. Quando Jezabel soube dos prodígios que Elias havia realizado e da morte de seus profetas, mandou dizer-lhe que o trataria do modo como ele os havia tratado. Tais ameaças atemorizaram-no, e ele fugiu para a cidade de Berseba, que está na extremidade do território da tribo de judá e confina com a Iduméia. Lá deixou o seu servo e penetrou sozinho no deserto. Ele pediu a Deus que o retirasse deste mundo e adormeceu em seguida, debaixo de uma árvore.
Estando ainda nessa aflição, percebeu que alguém o despertava e que lhe havia trazido pão e água. Após readquirir as forças com esse alimento inesperado, caminhou tanto que chegou ao monte Sinai, onde Deus entregara a Moisés a sua lei. Tendo encontrado uma caverna espaçosa, resolveu nela estabelecer moradia, e ali ouviu uma voz, que lhe perguntou por que ele havia abandonado a cidade para refugiar-se no deserto. Ele respondeu que o fizera porque, tendo matado os profetas dos falsos deuses e procurado persuadir o povo a adorar o verdadeiro Deus, o único que merece a nossa adoração, a rainha Jezabel começou a procurá-lo por toda parte para o matar.
A voz então ordenou-lhe que saísse da caverna no dia seguinte, para saber o que teria de fazer. Ele obedeceu e imediatamente sentiu a terra tremer sob os pés. Relâmpagos ardentes feriram-lhe os olhos. Veio depois uma grande calma, e ele ouviu uma voz celeste, que lhe disse para não temer cair em poder dos inimigos e que voltasse para casa e consagrasse Jeú, filho de Ninsi, rei sobre Israel e Hazael rei sobre os sírios, porque desejava servir-se deles para castigar os maus. A voz acrescentou que deixasse Eliseu, filho de Safate, da cidade de Abel, como profeta em seu lugar. Elias, para obedecer à ordem, partiu no mesmo instante e, encontrando Eliseu no caminho, com alguns outros que trabalhavam o campo com doze pares de bois, lançou sobre ele o seu manto. No mesmo instante, ele profetizou, deixou os bois e seguiu o profeta, depois de haver, com sua licença, se despedido dos parentes, e não o abandonou mais.
363. 1 Reis 21. Um homem da cidade de jezreel, chamado Nabote, possuía uma vinha que confinava com as terras do rei Acabe. Várias vezes o soberano rogou-lhe que a vendesse ao preço que quisesse ou a trocasse por qualquer outra, porque tinha dela necessidade, para aumentar o seu parque. Nabote, porém, jamais se decidiu a isso, dizendo que nenhuma outra uva lhe poderia ser mais agradável que a produzida por uma vinha deixada pelo pai. Essa recusa ofendeu de tal modo a Acabe que ele não quis mais comer nem tomar banho. Jezabel perguntou-lhe a causa daquilo, e ele contou que Nabote, por uma estranha grosseria, lhe recusara obstinadamente vender ou trocar a sua vinha, embora ele se tivesse humilhado e lhe rogado em termos indignos da majestade de um rei.
A altiva princesa respondeu que aquilo não era motivo pelo qual se devesse afligir, a ponto de esquecer até o cuidado com a própria pessoa, e que se tranqüilizasse e confiasse nela, sem se preocupar mais: ela tomaria providências, e a insolência de Nabote seria castigada. Imediatamente mandou escrever em nome do rei aos principais oficiais da província, para que decretassem um jejum, e, quando o povo estivesse reunido, dessem o primeiro lugar a Nabote, pela nobreza de sua descendência, mas em seguida fizessem ele ser acusado por três homens, que o rei lhes mandaria, de ter blasfemado contra Deus e contra o rei. Desse modo, ele seria então eliminado. Tudo foi executado, e Nabote foi apedrejado e morto pelo povo. Jezabel de imediato mandou dizer ao rei que ele poderia tomar posse da vinha de Nabote quando quisesse, sem que isso lhe custasse coisa alguma. Ele ficou tão contente que se levantou da cama e para lá se dirigiu no mesmo instante.
Deus, porém, cheio de cólera, mandou Elias perguntar-lhe por que havia feito morrer o possuidor legítimo daquela propriedade, pois dela se havia apoderado injustamente. Quando Acabe soube que Elias vinha ter com ele, suspeitando do que o profeta pretendia fazer, confessou, para evitar a vergonha da censura, que usurpara a propriedade, mas que nada tinha a ver com o sucedido. Respondeu-lhe o profeta: &quot;O vosso sangue e o de vossa mulher serão derramados no mesmo lugar onde fizestes correr o de Nabote e onde destes o seu corpo para pasto dos cães, e toda a vossa descendência será exterminada, como castigo por um outro grande crime, isto é, o de violar a lei de Deus, fazendo morrer um cidadão contra toda espécie de justiça&quot;.
Tais palavras fizeram tal impressão no Espírito de Acabe que ele confessou o seu pecado. Revestiu-se de um saco e saiu descalço, não desejando nem mesmo comer, a fim de expiar a sua falta. Deus, comovido pelo seu arrependimento, mandou Elias dizer-lhe que, como ele estava arrependido de tão grande crime, adiava o castigo para depois de sua morte, mas que o seu filho seria castigado.

CAPÍTULO 8
HADADE, REI DA SÍRIA E DE DAMASCO, AUXILIADO POR TRINTA E DOIS
OUTROS REIS, CERCA ACABE, REI DE ISRAEL, EM SAMARIA. É DERROTADO POR
UM MILAGRE E OBRIGADO A LEVANTAR O CERCO. RECOMEÇA A GUERRA NO
ANO SEGUINTE, PERDE UMA GRANDE BATALHA E, TENDO-SE SALVADO COM
DIFICULDADE, RECORRE À CLEMÊNCIA DE ACABE, QUE O TRATA
FAVORAVELMENTE E O REENVIA AO SEU PAÍS. DEUS, IRRITADO, AMEAÇA
CASTIGÁ-LO POR MEIO DO PROFETA MIQUÉIAS.

364. 7 Reis 20. Nesse mesmo tempo, Hadade, rei da Síria e de Damasco, reuniu todas as suas forças, chamou em seu auxílio trinta e dois reis que habitavam além do Eufrates e marchou contra Acabe, o qual, não se sentindo bastante forte para resistir-lhe, retirou-se às suas melhores praças-fortes com tudo o que tinha no acampamento. Ele próprio foi para Samaria, que de tão fortificada parecia inexpugnável. Hadade mandou um arauto pedir um salvo-conduto para os embaixadores que lhe iriam fazer propostas de paz. Ele o concedeu, e Hadade propôs que, se Acabe lhe entregasse os seus tesouros e as suas mulheres e filhos, para dispor deles como quisesse, levantaria o cerco e se retiraria para o seu país. Acabe consentiu, e Hadade mandou em seguida os mesmos embaixadores para dizer-lhe que mandaria no dia seguinte alguns dos seus para retirar do palácio e das casas daqueles que ele mais amava tudo o que quisessem.
Acabe, surpreendido com a nova proposta, reuniu o povo e disse-lhe que o seu extremo cuidado pela salvação deles e o desejo de conservar-lhes a paz o havia levado a ceder às exigências de Hadade, isto é, entregar-lhe todas as suas mulheres e filhos e os seus tesouros. Agora, porém, ele lhes comunicava que iria a todas as casas buscar e apoderar-se de tudo o que de bom pudesse encontrar, demonstrando com isso que não queria absolutamente a paz. Porque Hadade, depois de saber que por amor aos seus súditos ele fora levado a concordar em conceder-lhe tudo o que dependia dele, procurava um pretexto para se atirar sobre o que pertencia a eles em particular. No entanto estava pronto a fazer tudo o que eles desejassem.
Todos então clamaram que não desse ouvidos às insolências daquele bárbaro, mas que se preparasse para a guerra. Acabe mandou então vir os embaixadores e disse-lhes que referissem ao seu senhor que o afeto pelos súditos o fazia manter-se nos termos da primeira proposta e que não podia aceitar a segunda. Essa proposta irritou Hadade de tal modo que ele enviou pela terceira vez os embaixadores, agora com ameaças: se Acabe confiava nas fortificações da praça, bastaria aos soldados transportar um pouco de terra e levantar plataformas mais altas que as muralhas. Acabe respondeu que não era com palavras, mas com fatos, que se resolviam as questões na guerra.
Os embaixadores, ao regressar, encontraram Hadade num grande banquete, que oferecia aos trinta e dois reis seus aliados. E todos aqueles príncipes resolveram atacar em conjunto a cidade e empregar todos os meios para dela se apoderarem. Nesse extremo perigo a que Acabe se via reduzido, com todo o seu povo, um profeta veio dizer-lhe da parte de Deus que nada temesse, pois Ele o faria vitorioso, mesmo contra tantos inimigos. Perguntou-lhe o príncipe de quem Deus se queria servir para libertá-los, e o profeta respondeu que era dos filhos dos maiores cidadãos do reino, dos quais o rei mesmo seria o chefe, por sua experiência. Acabe reuniu-os imediatamente, e o seu número chegou a duzentos e trinta e dois. Disseram-lhe que naquela hora Hadade divertia-se folgadamente. Ele ordenou então ao seu pequeno exército que marchasse contra o grande.
As sentinelas de Hadade foram dizer-lhe que Acabe avançava. Ele então mandou soldados contra eles, com ordem de trazê-los de pés e mãos atados, quer viessem para confabular, quer para combater. Acabe, no entanto, mandou armar na cidade todos os homens que ainda lhe restavam. Os moços atacaram tão repentinamente as guardas avançadas de Hadade que mataram muitos deles ali mesmo e perseguiram os outros até o acampamento. Para secundar tão feliz resultado, Acabe fez sair o resto de suas tropas, que dizimaram sem dó os sírios, porque estes, não os esperando, estavam quase todos embriagados. Então, para fugir, jogaram as armas por terra, e o próprio Hadade salvou-se fugindo a cavalo. Acabe e os seus perseguiram-nos por muito tempo, mataram todos os que lhes caíram nas mãos, saquearam o acampamento deles e voltaram a Samaria carregados de ouro e prata e com grande quantidade de cavalos e carros, que haviam apreendido. O mesmo profeta disse em seguida a Acabe que preparasse um exército para resistir a outro grande ataque, porque no ano seguinte os sírios viriam novamente à luta.
365. Hadade, após escapar de tão grande perigo, reuniu em conselho os seus principais oficiais, para determinar de que modo continuariam a guerra aos israelitas. Eles disseram que o meio derrotá-los não era atacando nos montes, porque o Deus deles era ali muito poderoso, e os israelitas seriam sempre vencedores. Mas sem dúvida os derrotariam se os atacassem numa planície. Deveriam também despachar os reis que tinham vindo em seu auxílio, conservando somente as tropas que lhes pertenciam e os seus generais, e fazer novos recrutamentos de infantaria e cavalaria em seu próprio território, para substituir os soldados estrangeiros e os que haviam perdido. Esse parecer foi aprovado por Hadade, e ele mandou que fosse executado.
Logo que chegou a primavera, ele entrou no país dos israelitas e acampou numa grande planície, perto da cidade de Afeca. Acabe marchou contra ele e, embora o seu exército fosse muito inferior em número ao sírio, foi acampar em frente do inimigo. O profeta veio ter com ele e disse-lhe que Deus, para mostrar que não era menos poderoso nas planícies que nos montes, contra o que diziam os sírios, dar-lhe-ia ainda a vitória. Os exércitos ficaram seis dias um em frente do outro, sem combater. A luta travou-se no sétimo dia e foi acirrada de parte a parte, mas por fim os sírios foram obrigados a fugir. Os israelitas perseguiram-nos com tanto ardor que o número de sírios mortos, tanto na batalha quanto na perseguição, inclusive os que foram mortos pelos seus próprios carros e pelos do próprio lado, foi de mais ou menos cem mil homens. Vinte e sete mil fugiram para Afeca, que estava do seu lado e onde pensavam encontrar salvação, mas foram liquidados nas ruínas de suas muralhas.
O rei Hadade refugiou-se em uma caverna com alguns de seus oficiais, e estes disseram-lhe que os reis de Israel eram príncipes tão bons e generosos que Acabe poderia ainda conceder-lhe a vida se ele quisesse que eles recorressem, em seu nome, à clemência daquele rei. Hadade consentiu, e eles foram, vestidos de saco e com uma corda ao pescoço, pois é desse modo que os sírios mostram humilhação. Eles rogaram a Acabe que poupasse a vida de seu rei, prometendo que ele lhe seria sujeito para sempre. Acabe respondeu-lhes que se regozijava por Hadade não haver morrido na batalha e que podiam estar certos de que o trataria como a um irmão, promessa que fez com juramento.
Ante essas palavras, Hadade veio procurá-lo e prostrou-se diante dele. Acabe, que então estava em seu carro, desceu, tomou-lhe da mão e o reteve junto de si. Beijando-o, disse-lhe que não tivesse receio, pois receberia o tratamento digno de um rei. Depois de agradecer muito, o príncipe da Síria disse que não se esqueceria de tão grande favor e restituiria a Acabe todas as cidades que os seus prede-cessores haviam tomado dos israelitas. Declarou também que o caminho para Damasco não lhe seria menos livre que o de Samaria. Depois de feito esse acordo entre os dois reis e confirmado com juramento, Acabe despediu Hadade com presentes.
366. Logo depois, o profeta Miquéias* pediu a um israelita que lhe batesse na cabeça, porque Deus assim o desejava. O homem não quis fazê-lo, e o profeta disse-lhe que, como castigo por não ter prestado fé ao que fora ordenado da parte de Deus, ele seria devorado por um leão, o que aconteceu. O profeta em seguida deu a mesma ordem a outro homem, o qual, vendo o exemplo do companheiro, obedeceu. Então Miquéias amarrou a cabeça e foi procurar Acabe. Disse-lhe que o seu comandante lhe confiara a guarda de um prisioneiro, com a advertência de que seria morto se o deixasse escapar, e o prisioneiro havia fugido. Assim, ele corria perigo de morte. Acabe respondeu que ele merecia mesmo perder a vida, e imediatamente Miquéias retirou o pano da cabeça.
O rei reconheceu-o e não teve dificuldade em concluir que o profeta se servira daquele ardil para dar mais força ao que lhe queria dizer. O profeta declarou que Deus, como castigo por ter deixado Hadade escapar, o qual havia proferido contra Ele tantas blasfêmias, permitiria que ele destruísse o exército israelita, e que o próprio Acabe seria morto em combate. A ameaça enfureceu o rei de tal modo que ele mandou prender o profeta e retirou-se muito triste para o palácio.

_________________
* Ou Micaías.

CAPÍTULO 9
EXTREMA PIEDADE DEJOSAFÁ, REI DEJUDÁ. SUA FELICIDADE. SUAS FORÇAS.
ELE CASA JORÃO, SEU FILHO, COM UMA FILHA DE ACABE, REI DE ISRAEL.
UNE-SE A ACABE PARA FAZER GUERRA A HADADE, REI DA SÍRIA, MAS
ANTES CONSULTA OS PROFETAS.

367. 2 Crônicas 17 e 18. Voltemos agora a Josafá, rei de Judá. Ele aumentou o seu reino e colocou fortes guarnições, não somente em todas as praças-fortes, mas também nas que Abião, seu avô, havia tomado de Jeroboão, rei de Israel. Esse soberano sempre teve a Deus como favorável, pois era tão justo e piedoso que procurava apenas agradar-lhe. Os reis vizinhos sempre o respeitaram, o que demonstravam com presentes. Assim cresciam continuamente a sua reputação e as suas riquezas.
No terceiro ano de seu reinado, ele reuniu os principais do reino com os sacerdotes e ordenou-lhes que fossem a todas as cidades instruir o povo nas leis de Moisés e fizessem todo o possível para dispô-los a prestar a Deus a adoração e a obediência que lhe era devida. Essa ordem tão piedosa obteve um feliz resultado, tanto que todos, à porfia, procuravam observar os mandamentos de Deus. O virtuoso soberano não reinava somente sobre o coração dos súditos: as nações vizinhas amavam-no e o homenageavam também, e jamais foram tentadas a quebrar a paz com ele.
Os filisteus pagavam-lhe regularmente um tributo, e os árabes, trezentos cordeiros e outros tantos cabritos, que eram obrigados a lhe entregar todos os anos. Ele fortificou grandes cidades, que antes eram muito fracas, e, além dessas guarnições, manteve um grande número de tropas, pois havia na tribo de ]udá trezentos mil homens armados com escudos, dos quais Adna comandava cem mil, e Joana, duzentos mil. Além desses, havia ainda, da tribo de Benjamim, duzentos mil arqueiros, todos de infantaria. Um outro general, de nome Jozabade, tinha sob seu comando cento e oitenta mil homens armados com escudos.
Tendo provido desse modo a segurança de seu país, Josafá casou jorão, seu filho, com Gotolia,* filha de Acabe, rei de Israel, e foi visitar o príncipe em Samaria. Foi bem recebido, e Acabe não se contentou em tratá-lo com grande magnificência, mas fez o mesmo a todas as tropas que ele trouxera consigo. Rogou-lhe em seguida que unissem os seus exércitos para fazer guerra ao rei da Síria e retomar a cidade de Ramote-Gileade, que o pai desse rei havia conquistado a Onri, pai de Acabe. Josafá concordou e, para esse fim, mandou vir de Jerusalém a Samaria um exército tão forte quanto o seu.
Esses dois reis, ocupando tronos separados, fizeram fora da cidade uma revista de todas as suas tropas e assistiram a um desfile. Josafá insistiu depois em que Acabe fizesse vir os profetas, caso os tivesse, a fim de consultá-los com relação à guerra e saber deles se eram de opinião que a empreendessem, porque havia três anos que Josafá vivia em paz com Hadade, desde que Acabe o despedira livre.

__________________
* Ou Atalia.

CAPÍTULO 10
OS FALSOS PROFETAS DO REI ACABE, PARTICULARMENTE ZEDEQUIAS,
GARANTEM QUE ELE VENCERIA O REI DA SÍRIA. O PROFETA MIQUÉIAS
PREDIZ O CONTRÁRIO. TRAVA-SE A BATALHA, E ACABE É MORTO DURANTE A
LUTA.ACAZIAS, SEU FILHO, SUCEDE-O.

368. Acabe mandou vir os seus falsos profetas, que eram uns quatrocentos, para saber se Deus o faria vencer Hadade e reconquistar a cidade que era o motivo da guerra. Eles responderam-lhe que não devia temer pelo resultado daquele empreendimento, pois seria bem-sucedido. Aquele rei cair-lhe-ia nas mãos, como da primeira vez. O rei Josafá julgou, pela maneira como falavam, que eram falsos profetas e perguntou a Acabe se não havia algum profeta do Senhor, de quem pudesse saber com mais certeza o que lhes deveria acontecer.
Ele respondeu que havia um, de nome Miquéias, mas que o odiava e o havia feito meter na prisão, pois só lhe profetizava o mal, tendo já lhe dado a certeza de que ele seria vencido e morto pelo rei da Síria. Josafá pediu que o mandasse chamar, e Acabe o fez por meio de um eunuco, o qual contou no caminho a Miqueias o que os outros profetas haviam predito. Miqueias disse que não era permitido mentir a Deus, e assim diria ao rei tudo o que Ele lhe inspirasse. Os reis insistiram em que lhes declarasse toda a verdade, e ele contou que Deus lhe havia manifestado que os israelitas fugiam de lá para cá, como ovelhas sem pastor, perseguidos pelos sírios, e que aquilo significava que todos se salvariam: somente o rei pereceria no combate. Acabe disse então a Josafá: &quot;Não vos disse eu que esse homem é meu inimigo?&quot;
Miqueias afirmou nada ter dito além do que lhe fora inspirado por Deus, e que aqueles falsos profetas o enganavam, aconselhando-o a empreender aquela guerra e dando-lhe esperança de vitória. E, se o rei insistisse em guerrear, a sua ruína seria inevitável. Essas palavras fizeram Acabe raciocinar, e ele ficou apreensivo. Porém Zedequias, um dos falsos profetas, adiantou-se e disse-lhe para não prestar fé às palavras de Miqueias, pois este nunca predissera algo de verdadeiro, e a maior prova contra ele era o fato de que Elias, um dos maiores profetas, havia predito que os cães lamberiam o sangue de Jezabel na vinha de Nabote, tal como haviam lambido o sangue desse homem depois que o povo o apedrejou, pois parecia que a predição de Miqueias era contrária à de Elias. Assim, nada havia de mais falso que a afirmação de que o rei seria morto dentro de três dias, e logo se conheceria qual dos dois, ele que falava ou Miqueias, era o mais verdadeiro e o mais cheio do Espírito de Deus.
Zedequias acrescentou: &quot;Vou agora bater-lhe no rosto, e que ele, se for um verdadeiro profeta, faça secar a minha mão, tal como fez o profeta Jadom ao rei Jeroboão, secando-a quando este o quis prender, como vossa majestade bem o sabe&quot;. Deu em seguida uma bofetada em Miqueias, e, como nada de mal aconteceu a Zedequias, Acabe ficou tranqüilo, perdeu o medo e marchou destemidamente contra os sírios.
E minha opinião que Deus, desejando castigar esse malvado príncipe, fez com que ele acreditasse mais nos falsos profetas que no verdadeiro, a fim de precipitá-lo ainda mais na própria desgraça. Zedequias tomou então chifres de ferro e disse a Acabe: &quot;Eis os sinais com que Deus vos faz saber que a Síria será destruída&quot;. Miqueias afirmou o contrário e disse que logo Zedequias fugiria para se esconder, a fim de evitar o castigo pela sua mentira. Essas palavras irritaram de tal modo a Acabe, que ele ordenou que prendessem Miqueias em casa de Amom, governador da cidade, e lhe dessem como alimento somente pão e água.
369. Depois de predições tão opostas, Acabe e Josafá puseram-se em campo com todas as suas forças, para ir sitiar Ramote. Hadade, rei da Síria, veio ao encontro deles e acampou em um lugar próximo. Os dois reis associados resolveram que, para impedir o efeito da profecia de Miquéias, Acabe vestiria as roupas de um simples soldado, e Josafá iria à batalha armado e vestido como Acabe. Mas a troca de roupas não mudou o destino de Acabe. Hadade ordenou a todos os seus chefes e pelos seus oficiais aos soldados que matassem somente Acabe. Assim, na certeza de que Josafá era Acabe, foram diretamente a ele e o cercaram por todos os lados. Quando já estavam bem perto, no entanto, reconheceram que se haviam enganado e retiraram-se.
O combate durou desde a manhã até a noite, e os sírios foram vitoriosos. No entanto, para obedecer ao seu rei, não mataram ninguém, pois só buscavam Acabe, a quem procuraram inutilmente. Porém uma flecha atirada ao acaso atravessou-lhe a couraça e lhe penetrou o pulmão. Temendo que pelo seu ferimento os seus perdessem a coragem, ordenou aos que conduziam o seu carro que o tirassem da luta, para esconder-se, mas não quis descer, fazendo-o somente depois do pôr-do-sol, embora tivesse de suportar dores horríveis. Por fim, faltaram-lhe as forças, e, após perder grande quantidade de sangue, ele morreu.
Quando a noite chegou, os sírios souberam de sua morte por meio de um arauto e assim voltaram imediatamente ao seu país. O corpo do soberano foi levado a Samaria para lá ser sepultado. E, enquanto lavavam o seu carro com água da fonte de )ezreel, pois estava todo coberto de sangue, cumpriu-se a palavra do profeta Elias, porque os cães lamberam esse sangue. As mulheres de má vida, desde esse tempo, costumam lavar-se naquela fonte. Cumpriu-se também assim a profecia de Miquéias, pois Acabe morreu em Ramote.
Pode-se ver, com esse exemplo, como devem ser respeitadas as palavras dos profetas do Senhor, e não a dos falsos profetas, que, para agradar aos homens, só falam o que lhes é agradável, ao passo que somente os oráculos divinos nos revelam o que é mais conveniente fazer ou deixar de fazer. Esse mesmo exemplo demonstra também a força das ordens de Deus, pois, seja qual for o conhecimento que delas tenhamos, não podemos modificar o seu efeito. Os homens, todavia, iludem-se com vãs esperanças até caírem na desgraça predita. Foi assim que morreu Acabe, por não crer naqueles que lhe haviam predito a morte e por prestar fé aos que o enganavam, dizendo-lhe o contrário. Acazias, seu filho, sucedeu-o no trono.































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