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<?xml-stylesheet type="text/xsl" media="screen" href="/~d/styles/rss2full.xsl"?><?xml-stylesheet type="text/css" media="screen" href="http://feeds.feedburner.com/~d/styles/itemcontent.css"?><rss xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/" xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/" version="2.0"><channel><title>Caótico</title> <link>http://www.caotico.com.br</link> <description>Espaço de leituras,  histórias &amp; especulações | Por Inácio França</description> <lastBuildDate>Thu, 17 May 2012 12:12:12 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <xhtml:meta xmlns:xhtml="http://www.w3.org/1999/xhtml" name="robots" content="noindex" /> <atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" type="application/rss+xml" href="http://feeds.feedburner.com/caotico" /><feedburner:info xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0" uri="caotico" /><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="hub" href="http://pubsubhubbub.appspot.com/" /><feedburner:emailServiceId xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0">caotico</feedburner:emailServiceId><feedburner:feedburnerHostname xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0">http://feedburner.google.com</feedburner:feedburnerHostname><item><title>#criaeduardo para democratizar (um pouco) a comunicação!</title><link>http://www.caotico.com.br/a-democracia-na-comunicacao-e-o-criaeduardo/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/a-democracia-na-comunicacao-e-o-criaeduardo/#comments</comments> <pubDate>Thu, 17 May 2012 11:34:59 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Elocubrações]]></category> <category><![CDATA[comunicação]]></category> <category><![CDATA[democratização da comunicação]]></category> <category><![CDATA[Eduardo Campos]]></category> <category><![CDATA[governo]]></category> <category><![CDATA[hashtag]]></category> <category><![CDATA[Mídia]]></category> <category><![CDATA[mobilização]]></category> <category><![CDATA[Pernambuco]]></category> <category><![CDATA[TV]]></category> <category><![CDATA[twitter]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1911</guid> <description><![CDATA[Enquanto o senhor Ivan Moraes Filho (esse elemento da foto ai embaixo) não arruma tempo e vergonha na cara para escrever suas análises sobre os livros que lhe emprestei &#8211; Cães de Guarda, sobre a atuação dos jornais paulistanos em favor da repressão durante a ditadura militar, e A Conjura, de José Eduardo Agualusa -, [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Enquanto o senhor Ivan Moraes Filho (esse elemento da foto ai embaixo) não arruma tempo e vergonha na cara para escrever suas análises sobre os livros que lhe emprestei &#8211; <em>Cães de Guarda</em>, sobre a atuação dos jornais paulistanos em favor da repressão durante a ditadura militar, e <em>A Conjura</em>, de José Eduardo Agualusa -, acato sua convocação e junto o Caótico à mobilização pela criação da Empresa Pernambuco de Comunicação.</strong></p><p style="text-align: center;">****</p><p><strong>Cria, Eduardo!</strong><strong><strong> Manifesto pela implementação da Empresa Pernambuco de Comunicação (EPC)</strong></strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/ivanzinho1.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1915" title="ivanzinho" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/ivanzinho1.jpg" alt="" width="127" height="194" /></a>Em março de 2010, um Grupo de Trabalho (GT) composto por integrantes da sociedade civil pernambucana assumiu a tarefa de propor as bases para a reformulação da TV Pernambuco, para que ela pudesse tornar-se uma emissora realmente pública, com recursos e com sustentabilidade política e econômica. Num exemplo a ser seguido por emissoras públicas, várias delas vivendo momentos semelhantes de reflexão e transformação.</p><p>O Fórum Pernambucano de Comunicação (Fopecom) participou de todo esse processo, juntamente com centenas de outras representações, individuais ou coletivas. Artistas, produtores independentes, estudantes, acadêmicos, cidadãos e cidadãs interessados em fazer valer seus direitos estiveram nessa caminhada. Participamos de seminários, contribuímos com propostas que constam do documento final do GT. Uma construção coletiva que repercutiu inclusive em outros estados do País. Criou-se a expectativa da criação da primeira emissora estadual realmente pública do Brasil. Uma emissora com participação popular garantida em conselho, com autonomia política e sustentabilidade econômica, com espaço para a produção independente, popular e comunitária.</p><p>Acompanhamos o processo de proposição do Projeto de Lei que finalmente tornou-se a Lei nº 14.404, de 22 de setembro de 2011, que autoriza a criação da Empresa Pernambuco de Comunicação. Uma instância que seria gerida com plena participação da sociedade civil, representada por seis integrantes de um conselho.</p><p>Quase oito meses depois da aprovação da lei, a EPC, infelizmente, ainda não saiu do papel. Já existe estatuto. Até uma detalhada proposta de orçamento para o primeiro ano de funcionamento já foi devidamente encaminhada pela atual direção às instâncias superiores do poder executivo estadual.</p><p>Perguntamos: o que falta, governador? O que falta para que a nova empresa saia do papel?</p><p>Projeto não é. Ideias não são. Lei, estatuto, orçamento, também não são. Falta de compromisso dos que hoje tocam o processo de transição certamente não é.</p><p>Quem acompanha a gestão da diretoria que assumiu o compromisso e o sacrifício de comandar o processo, pode ver o que está acontecendo. A TVPE já transmite novos programas, por exemplo, em parceria com produtores independentes que muitas vezes trabalham na base da “guerrilha”. Ainda sem autonomia financeira e com orçamento bastante limitado, a emissora hoje sofre com a impossibilidade de realizar um planejamento adequado, abrindo espaços e fomentando a produção local, por exemplo.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/Marca-Fopecom-21.jpg"><img class="alignright  wp-image-1913" title="Marca-Fopecom-2" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/Marca-Fopecom-21-350x189.jpg" alt="" width="210" height="113" /></a>A transmissão, embora ainda fique devendo na Região Metropolitana do Recife, melhorou no interior, especialmente em locais como Petrolina, Caruaru, Garanhuns e Fernando de Noronha. Mas ainda falta muito. Afinal de contas, não se faz televisão sem os devidos recursos. É preciso equipamentos, pessoal e material para produzir e transmitir com qualidade. A criação imediata da EPC, seguida de um fundamental aporte inicial, é o que se precisa para seguir com esta transformação.</p><p>Tendo em vista a pujança da economia local e o volume de gastos alocados em forma de compra de mídia em empresas privadas, nos custa acreditar que o problema seja dinheiro. Em se observando a velocidade com que outros investimentos são feitos por este governo, também não pode ser aceita a hipótese de problemas com a burocracia estatal, visto que este processo já se arrasta por mais de dois anos.</p><p>Mas ainda dá tempo, governador. Tornar a Empresa Pernambuco de Comunicação uma realidade é compromisso antigo de sua gestão. Convidada, a sociedade civil contribuiu e vem agora cobrar: Cria, Eduardo!</p><p>Assinam este manifesto:</p><ul><li>Fórum Pernambucano de Comunicação (Fopecom)</li><li>Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF)</li><li>Centro Acadêmico de Jornalismo da UFPE</li><li>Auçuba – Comunicação e Educação</li><li>Ong Alto Falante</li><li>Grupo Cactos</li><li>Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social</li><li>Federação Pernambucana de Cineclubes (FEPEC)</li><li>Fórum dos Músicos de Pernambuco</li><li>Parabelo Filmes</li><li>Coletivo Contravento</li><li>Coque Vive</li><li>Grupo Curumim</li><li>Sindicato Interestadual dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual (STIC/PE)</li><li>Movimento Mudança</li><li>Núcleo de Comunicação Bombando Cidadania</li><li>Associação Brasileira de Documentaristas – sessão Pernambuco / Associação Pernambucana de Cinestas ABD – PE / APECI</li><li>Encontro Livre – Disseminando Cultura e Conhecimento</li><li>Jeporu – Agência Digital</li></ul><p>&nbsp;</p><p>&nbsp;</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/a-democracia-na-comunicacao-e-o-criaeduardo/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Como se fosse ontem (onze)</title><link>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-onze/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-onze/#comments</comments> <pubDate>Sun, 13 May 2012 12:03:24 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Elocubrações]]></category> <category><![CDATA[autoconfiança]]></category> <category><![CDATA[Diário Popular]]></category> <category><![CDATA[frustração]]></category> <category><![CDATA[história de amor]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[olharm]]></category> <category><![CDATA[paixão]]></category> <category><![CDATA[repórter]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1906</guid> <description><![CDATA[Ele era alto, bonito, culto, muito educado e gentil. Desde os anos de colégio jamais precisou paquerar, era paquerado, disputado a tapas e beijos pelas meninas da escola nas Laranjeiras, onde viveu os anos de menino, moleque e rapaz. A lei do menor esforço era seu marco legal nos assuntos de sexo e afeto. Na [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/olhos-tristes-para-o-blog.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1907" title="olhos tristes para o blog" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/olhos-tristes-para-o-blog-350x262.jpg" alt="" width="198" height="148" /></a>Ele era alto, bonito, culto, muito educado e gentil. Desde os anos de colégio jamais precisou paquerar, era paquerado, disputado a tapas e beijos pelas meninas da escola nas Laranjeiras, onde viveu os anos de menino, moleque e rapaz. A lei do menor esforço era seu marco legal nos assuntos de sexo e afeto.</p><p>Na faculdade de Jornalismo, as coisas ficaram ainda mais fáceis. Seu papo versátil, que poderia ir de Shakespeare a Roberto Carlos em questão de segundos, não atrapalhava.</p><p>Foi por causa de mulher que ele veio parar no ABC Paulista, enrabichado pela filha de um político local que bancou noivado, apartamento e o casório. O emprego no Diário Popular, onde nos conhecemos, ele arrumou por conta própria.</p><p>Estava noivo até a medula quando a moça de olhos tristes, cabelos curtos, tailleur elegante e pernas grossas sempre à disposição dos olhos, adentrou o recinto para trabalhar como repórter de economia.</p><p>Trabalharam juntos em algumas matérias, participaram de eventos cada qual representando suas respectivas editorias. Poucos dias bastaram para nascer a certeza de que a novata era mais bonita que uma bola prateada de papel de cigarro, uma poça de água límpida ou um poema de Ferreira Gullar.</p><p>Poucos dias também era o que faltava para o dia do casamento com a moça do ABC. E ele casou.</p><p>Duas semanas depois, comíamos um sanduíche de pernil no Estadão ou uma cerveja na padaria da Martins Fontes quando escutei sua rendição incondicional: “Estou apaixonado por fulana”. Fulana era a moça de olhos sempre tristes e úmidos. A esposa era Sicrana.</p><p>“E ela?”</p><p>“Já deu todos os sinais”.</p><p>Era a certeza de quem nunca precisou suar a camisa, de quem sempre recebeu a bola limpa na área sem marcação.</p><p>Os acontecimentos se precipitaram. Ele decidiu sair de casa. Arrumou um quarto para dividir com um amigo fotógrafo da Folha de S. Paulo. Saiu de casa. Convenceu dois imbecis a ir ao ABC pegar seus discos e livros. Um desses imbecis era este que vos escreve.</p><p>Os livros foram salvos, mas não sobraram muitos discos. Jogados da janela do terceiro andar, os LPs aterrisavam com certa violência no asfalto, que logo ficou coberto por fragmentos pretos dos versos e acordes de Gilberto Gil, Chico Buarque, B.B. King e John Lennon.</p><p>Mesmo mal instalado no quartinho em Perdizes, o carioca das Laranjeiras abriu o jogo com sua musa paulistana da editoria de Economia.</p><p>“Fulana, acabei o casamento. Saí de casa, não tenho mais nada com sicrana”.</p><p>“Nossa, que terrível, vocês estavam casados há tão pouco tempo&#8230;”</p><p>“Sim, mas agora podemos viver nosso amor e&#8230;”</p><p>“!”</p><p>“Nossos amor&#8230; a paixão&#8230; essas coisas&#8230; sabe como é&#8230;”</p><p>“Como assim? De que você está falando? Não estou apaixonada por ninguém&#8230;”</p><p>Ele só não desmaiou porque teve noção do quanto já era ridícula sua posição.</p><p>Nas semanas seguintes, uma imensa tristeza preencheu todos os espaços que um dia foram ocupados pela autoconfiança.</p><p>Anos depois, hospedado em seu apartamento, me mostrava uma estante com a obra de Shakespeare em inglês toda sublinhada e marcada com grafite “para comer mulher”, pois os livros que ele realmente leu, devidamente traduzidos para o português, escondiam-se em caixas de papelão sob a cama.</p><p>Fechou o volume de Hamlet, o colocou de volta na prateleira, me encarou e confessou sem que eu perguntasse absolutamente nada:</p><p>“Você sabe que eu nunca toquei em Fulana? Nunca, só uma vez, ficamos de mãos dadas durante um evento. Acho que ela teve medo dos fogos de artifício. Mas ali jurei que ela havia se apaixonado, mas era eu que estava de quatro, de joelhos, prostrado”.</p><p>“Nem um beijo?”</p><p>“Nada, zero”.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-onze/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>2</slash:comments> </item> <item><title>A chatice do politicamente incorreto</title><link>http://www.caotico.com.br/a-chatice-do-politicamente-incorreto/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/a-chatice-do-politicamente-incorreto/#comments</comments> <pubDate>Tue, 08 May 2012 12:11:59 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Loucos por livros]]></category> <category><![CDATA[coluna diária]]></category> <category><![CDATA[colunista]]></category> <category><![CDATA[filosofia]]></category> <category><![CDATA[filósofo]]></category> <category><![CDATA[Folha de S. Paulo]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[Luiz Felipe Pondé]]></category> <category><![CDATA[politicamente correto]]></category> <category><![CDATA[politicamente incorreto]]></category> <category><![CDATA[São Paulo]]></category> <category><![CDATA[USP]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1898</guid> <description><![CDATA[por Samarone Lima Li recentemente que o governo do estado de São Paulo pretende proibir o consumo de bebida em lugares públicos. Em vários do Brasil, não se pode consumir sequer uma cervejinha em lata. Outro dia, foi aprovada uma lei que proíbe os pais de darem uma palmada no filho. Nunca o Brasil foi [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/capa-pondé-Sama.jpg"><img class="alignright  wp-image-1899" title="capa pondé Sama" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/capa-pondé-Sama-241x350.jpg" alt="" width="128" height="186" /></a></p><p><strong>por Samarone Lima</strong></p><p>Li recentemente que o governo do estado de São Paulo pretende proibir o consumo de bebida em lugares públicos. Em vários do Brasil, não se pode consumir sequer uma cervejinha em lata. Outro dia, foi aprovada uma lei que proíbe os pais de darem uma palmada no filho. Nunca o Brasil foi tão politicamente correto, pelo menos no discurso e nas leis.</p><p>Eis que surge o novo paradoxo. O discurso do “politicamente incorreto” foi descoberto pelo mercado editorial, e começa a dar muito dinheiro. O <em>Guia politicamente incorreto da história do Brasil</em>, do jornalista Leandro Narloch, publicado em 2009 pela Editora Leya, já vendeu mais de 200 mil exemplares, ganhou uma edição ampliada e até hoje segue na lista dos dez livros mais vendidos do país. Deve ter vendido fácil mais de 300 mil e não estou atualizado.</p><p>Diante do sucesso, a editora Leya encomendou uma espécie de continuação, o <em>Guia politicamente incorreto da América Latina</em>, do mesmo Narloch, desta vez em parceria com seu colega da revista Veja, Duda Teixeira. Se o primeiro era ruim, o segundo é de doer, mas isso é para outra postagem.</p><p>Gostaria de abordar um filósofo que acaba de vestir a carapuça do “politicamente incorreto”, Luiz Felipe Pondé.</p><p>Colunista da Folha de São Paulo desde 2008, o Pondé vinha mandando bem. Textos instigantes, questionadores, com uma prosa de ótima cadência, citações interessantes, cutucadas. Ao contrário dos jornais de Pernambuco, que publicam diariamente textos os mais obtusos, para não dizer obscenos, de tão ruins e sem sentido, a Folha mantém um time de colunistas de primeira linha, como Ferreira Gullar, Ruy Castro, Carlos Heitor Cony etc. Eles recebem para pensar e escrever, por isso escrevem bem. O Pondé é um dos caçulas deste time.</p><p>Nos primeiros textos (minha esposa é assinante da Folha de São Paulo), percebi logo uma posição nítida. Queria ir contra o lugar comum, o senso comum, a burrice comum. Bons textos, articulados, questionadores. Alguns ótimos. Além disso, um bom frasista.</p><p>“Mas não pense que, por isso, eu acredite que esteja “construindo um mundo melhor”, porque não compactuo com esta ditadura dos ofendidos. Não acredito num mundo melhor”, disse, num texto em fevereiro de 2010.</p><p>A coisa toda estava indo bem. Salvo algumas subidas nas tamancas, o homem se posicionava.</p><p>“Sou contra o aborto. Não preciso da religião para viver, não acredito em Papai Noel, sou da elite intelectual, sou PhD, pós-doc., falo línguas estrangeiros, escrevo livros “cabeça” e não tenho medo de cara feia. Vai encarar?”. Estava abordando o tema do aborto no segundo turno das últimas eleições presidenciais. Um ótimo texto, por sinal, apesar de parecer petulante, no início.</p><p>“Não existe sexo livre, existe apenas sexo sem amor”, dizia, em outro artigo.</p><p>Não por acaso, a editora Leya publicou, em 2010, o livro <em>Contra um mundo melhor – ensaios do afeto</em>.</p><p>Comprei o livro, mas não empolgou. Deram uma azeitada nos textos. A seleção desigual, tentando mostrar um produto bem bacana, sofisticado, que desce a lenha em tudos e todos. Às vezes, a vontade de provocar é tanta, que começa a ficar repetitivo. Algo como “eu sou o fodão, num mundo cheio de bundões, e como sou fodão, não acredito num mundo melhor porque simplesmente eu sou um fodão”. Esses mantras ao contrário.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/Luiz_Felipe_Pondé.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1900" title="Luiz_Felipe_Pondé" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/Luiz_Felipe_Pondé.jpg" alt="" width="160" height="106" /></a>“Sou daquele tipo de pessoa que simpatiza fortemente com o mundo da aristocracia (não necessariamente de sangue nem de dinheiro, às vezes apenas de mérito puro e simples) simplesmente porque julgo que a minoria sempre carregou a humanidade nas costas”, diz. É bom ver gente que tem coragem de dizer que simpatiza com a aristocracia. É um posicionamento claro.</p><p>Claro, algumas besteiras monumentais.</p><p>“Um erro comum das mulheres é supor que todos os homens são de fato a fim de todas as mulheres e que se interessam por sexo o tempo todo”.</p><p>E arremates do tipo:</p><p>“No fundo, são as mulheres que gostam de homens burros”.</p><p>O passo seguinte nas chancelas culturais (colunista da Folha, livro publicado pela Leya) foi a “Sabatina da Folha”, em outubro de 2011, com o título:</p><p>“Politicamente correto, às vezes, chega a ser imoral”.</p><p>Bem, mas de um tempo pra cá, o Pondé descobriu a caixinha mágica da provocação. O umbigo começou a crescer. Alguns textos muito ruins, outros indecifráveis. Um pequeno ar de petulância no ar. Percebi e pensei. O que há com esse cara? Os leitores da Folha começaram a retrucar. O gozo do colunista parecia ter chegado ao ápice. Uma chuva de cartas à redação, com críticas pesadas aos seus textos, publicadas em sucessivas edições da Folha.</p><p>“Após ter escrito o texto &#8220;Páscoa” (Ilustrada, 2/4), e ter recebido inúmeras críticas, parece-me que Luiz Felipe Pondé agora quer justificar o injustificável. Ontem, em vez de desculpar-se pelo que escreveu anteriormente, o colunista dissertou sobre a evolução do beisebol, sobre rituais em que praticávamos canibalismo, sobre a morte de Jesus e ainda fez uma correlação entre a Páscoa cristã e a judaica. Lamentável a sua resposta”, reclamou a leitora Maria Cristina Proença.</p><p>A coisa chegou a tal ponto, que outra colunista da Folha, Barbara Gancia, chamou o homem para a grande. Num artigo intitulado “A arte de chamar a atenção”, desceu o sarrafo no colega.</p><p>“Aliás, estou há quase 30 anos no ramo e não me consta que parte dos atributos do colunista seja chamar para o pau, falar de cima para baixo, dar lição de moral, armar arapuca ou esculachar o próprio leitorado”, esporte que o Pondé vinha fazendo.</p><p>“Além do mais, esse mergulho no sensacionalismo evidentemente não lhe fez bem aos nervos. Peço que volte a ser quem era, Pondé”.</p><p>Mais explícito, impossível. Também acho que o homem provou do veneno da provocação, gostou muito do “sucessinho”, como gosta de dizer, e perdeu o rumo da prosa.</p><p>Para encerrar o assunto do “politicamente incorreto” e suas cifras milionárias, vejo a entrevista do Pondé na Ilustrada, da Folha (11.04.2012). O título é óbvio:</p><p>“Novo livro de Pondé ataca “praga” do politicamente correto”.</p><p>Nome do novo livro?</p><p><em>Guia Politicamente Incorreto da Filosofia</em>.</p><p>Editora?</p><p>Leya.</p><p>Causou um enorme burburinho a seguinte frase:</p><p>“O tipo médio do leitor de jornal ou do telespectador de TV é um medíocre que se acha o máximo”.</p><p>E seu complemento:</p><p>“O leitor e o telespectador são idiotas, e no fundo nós, que ‘somos a mídia’, pouco os levamos em conta porque quase nada do que eles dizem vale a pena”.</p><p>Não por acaso, numa matéria sobre o lançamento de um livro do Paulo Francis, o Diário da Corte, ele tenha dito que lia o Francis pelos corredores da USP, “às vezes escondido”.</p><p>“Ele era o que eu queria ser quando crescesse”, confessou.</p><p>No final de abril, sabem quem estava em primeiro lugar na lista dos mais vendidos no Brasil, de não-ficção?</p><p>É isso aí.</p><p>O Pondé, com o seu <em>Guia do Politicamente Incorreto da Filosofia</em>, derrubou o Eike Batista (<em>O X da Questão)</em> do topo da lista.</p><p>Aguardemos o próximo <em>Guia</em>.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/a-chatice-do-politicamente-incorreto/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>3</slash:comments> </item> <item><title>A corrupção não explica tudo</title><link>http://www.caotico.com.br/a-corrupcao-nao-explica-tudo/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/a-corrupcao-nao-explica-tudo/#comments</comments> <pubDate>Fri, 04 May 2012 21:48:24 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[artigo]]></category> <category><![CDATA[Carta Capital]]></category> <category><![CDATA[corrupção]]></category> <category><![CDATA[corruptores]]></category> <category><![CDATA[corruptos]]></category> <category><![CDATA[filosofia]]></category> <category><![CDATA[filósofo]]></category> <category><![CDATA[USP]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1894</guid> <description><![CDATA[Sempre me incomodou bastante o discurso de que a culpa de todos os nossos problemas está obrigatoriamente, na “corrupção do governo” ou dos “políticos corruptos”. A mim, o uso desses chavões sempre me pareceu simples demais, vazio demais. Um lugar-comum usado por (quase) todos, a toda hora. Um papo sem fim, com a característica marcante [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/vladimir-s.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1895" title="vladimir-s" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/05/vladimir-s-233x350.jpg" alt="" width="134" height="202" /></a>Sempre me incomodou bastante o discurso de que a culpa de todos os nossos problemas está obrigatoriamente, na “corrupção do governo” ou dos “políticos corruptos”. A mim, o uso desses chavões sempre me pareceu simples demais, vazio demais. Um lugar-comum usado por (quase) todos, a toda hora. Um papo sem fim, com a característica marcante de fazer sumir os corrutores.</p><p>Fico enjoado e me calo quando escuto repetição dos argumentos, da indignação furiosa. Muitas vezes percebo a ira desses interlocutores como uma necessidade de afirmação da própria honestidade, como se as virtudes necessitassem de teatralidade para existir. Ou serem notadas.</p><p>A opção pelo silêncio é explicado pela minha pouca capacidade para articular e manter a clareza de raciocínio durante uma discussão ou bate-boca. Em geral, ao tentar nadar contra a correnteza, sinto a fragilidade das minhas palavras diante dos chavões e das verdades quase “naturais” da maioria. Meu pensamento quer ir para um lugar, meu discurso me leva para outro. Fico com raiva de mim mesmo, gaguejo mais do que o meu normal.</p><p>O lugar-comum me sufoca. Nasci com esse defeito. Aos 20 e poucos anos, não o encarava como algo a ser corrigido. Aos 30 e poucos, acreditava que iria superá-lo com os conhecimentos acumulados aos 40.</p><p>Aos 43, restam duas coisas: a ilusão de que aos 50 a maturidade virá acompanhada da serenidade ou se identificar com textos de gente capaz de traduzir minhas ideias. É o caso do artigo publicado na revista Carta Capital pelo filósofo e professor da USP Vladimir Safatle (foto) sob o título <a href="http://www.cartacapital.com.br/sociedade/politica-de-uma-nota-so/"><em>Política de uma nota só</em></a>.</p><p>Cliquei no link acima e veja como Safatle explica bem explicadinho o que sempre pensei: dizer que todos os problemas nacionais são consequências da corrupção é travar o debate sério e a discussão política mais aprofundada. É um modo de despolitizar a sociedade.</p><p>Até porque, Demóstenes Torres nos prova que as cruzadas anticorrupção servem, muitas vezes, aos maiores corruptos. E, aquilo que nos negócios alheios é prova inconteste de ladroagem, nos nossos negócios são “recursos que fazem parte do jogo”.</p><p>Ao assumir um posicionamento tão claramente contrário ao senso comum, corre-se o risco de ser rotulado como defensor dos corruptos. Não se trata disso.</p><p>Simplesmente não considero o bastante dizer que a saúde pública do Brasil não tem qualidade por causa da corrupção dos secretários ou do ministro da saúde. Afirmar isso é negar a história, é dizer que a estratégia da ditadura militar primeiro e, em seguida, dos neoliberais de transformar saúde em mercadoria e favorecer os hospitais privados e os planos de saúde não tem influência alguma nos problemas enfrentados na atualidade.</p><p>Vale explicar a desigualdade regional brasileira afirmando que os políticos da Arena do Nordeste eram mais corruptos que os da Arena de São Paulo? Uma pausa para lembrar que Paulo Maluf pertencia ao segundo grupo. Esse tipo de afirmação faz parecer que as décadas e mais décadas de concentração de investimentos públicos nos negócios privados da elite paulistana jamais aconteceram ou são fenômenos naturais.</p><p>Até mesmo o debate sobre as causas e as soluções para o problema da corrupção é prejudicado ou esvaziado. As reações à proposta de financiamento público das campanhas eleitorais ilustra essa minha última afirmação. Com a palavra “público” fica explícito que a conta vai ser paga pelo povo. E quem paga tem condições de botar moral.</p><p>Apontar uma causa genérica &#8211; para usar o termo adotado pelo filósofo -, que tudo parece explicar, ajuda a esconder que o interesse da minoria sempre se contrapõe ao interesse da maioria.</p><p>Mais não digo. As razões de Vladimir Safatle são mais claras e possuem alicerces mais profundos que meu raso palavrório. A partir de agora, vou plagiá-lo descaradamente em mesa de bar, reuniões de família e em qualquer roda de conversa que o assunto surja. E esse assunto sempre surge.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/a-corrupcao-nao-explica-tudo/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>Dom Quixote: primeiras impressões</title><link>http://www.caotico.com.br/dom-quixote-primeiras-impressoes/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/dom-quixote-primeiras-impressoes/#comments</comments> <pubDate>Mon, 30 Apr 2012 14:40:28 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[Cervantes]]></category> <category><![CDATA[comédia]]></category> <category><![CDATA[humor]]></category> <category><![CDATA[leitura]]></category> <category><![CDATA[Literatura]]></category> <category><![CDATA[literatura espanhola]]></category> <category><![CDATA[Real Academia Española]]></category> <category><![CDATA[riso]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1890</guid> <description><![CDATA[Devagar e sempre, avanço na leitura de Dom Quixote. Devagar, sempre e cuidadosamente. Leio a versão traduzida editada pela editora 34 e comparo um trecho ou outro com a edição em espanhol publicada pela Real Academia Española em 2004 para comemorar os 400 anos da obra. Não arrisco a fazer qualquer tipo de análise ou [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/dom_quixote.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1891" title="dom_quixote" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/dom_quixote-256x350.jpg" alt="" width="131" height="180" /></a>Devagar e sempre, avanço na leitura de <em>Dom Quixote</em>. Devagar, sempre e cuidadosamente. Leio a versão traduzida editada pela editora 34 e comparo um trecho ou outro com a edição em espanhol publicada pela Real Academia Española em 2004 para comemorar os 400 anos da obra.</p><p>Não arrisco a fazer qualquer tipo de análise ou comentário crítico sobre um dos livros mais comentados, analisados e esmiuçados da história. Muita gente já debulhou o que havia de ser debulhado sobre o romance de Miguel de Cervantes, provavelmente a obra literária mais importante do planeta. A edição que escolhi – procurei bastante antes de optar por essa tradução – conta, inclusive, com uma apresentação muito esclarecedora e rica em informações da especialista Maria Augusta da Costa Vieira.</p><p>Meu desejo é apenas compartilhar minhas impressões como leitor tardio com a esperança de estimular outras pessoas a mergulharem na leitura, vencendo receios ou preconceitos. Nada mais.</p><p>Os capítulos curtos que compõem a primeira parte de <em>Dom Quixote</em>, publicada em 1605, foram escritos para arrancar gargalhadas e tripudiar dos romances de cavalaria, uma modismo dos anos 1500 na Europa, uma espécie de <em>Crepúsculo </em>com <em>Harry Poter </em>que durou mais de um século. Um negócio insuportável. Cervantes não aguentava mais e ridicularizou os amantes da literatura dos repetitivos heróis medievais criando seu impagável cavaleiro andante.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/capa-antigaDon_Quijote.jpg"><img class="alignright  wp-image-1892" title="capa antigaDon_Quijote" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/capa-antigaDon_Quijote.jpg" alt="" width="124" height="208" /></a>Quixote fez sucesso imediato. Vendeu como água e ajudou seu criador a pagar muitas das dívidas que passou a vida acumulando. Dez anos depois, provavelmente por pressão do público e para juntar mais alguns trocados, Cervantes publicou a segunda parte.</p><p>É possível reconhecer nas aventuras e trapalhadas do Quixote recursos e situações copiadas até hoje por roteiristas de comédia contemporâneos.</p><p>Logo no capítulo II, um criador de porcos chama os bichos usando uma corneta exatamente no instante em que o cavaleiro delira, aguardando o toque de clarins que anunciaria sua chegada ao castelo que só existia em sua imaginação. Esse recurso se repete a todo instante na TV ou no cinema.</p><p>No prefácio, a bam-bam-bam em Cervantes Maria Augusta avisa que, na virada do século XVI para XVII, aquilo que fazia as pessoas rirem era tão importante quanto a literatura séria. O modo de produção capitalista transformou o sorriso em algo de menor importância.</p><p>Dom Quixote endoidou lendo os tais romances de cavalaria. O real e a fantasia misturaram-se em seu juízo. Ele sonha, constrói uma realidade exclusivamente sua, embarca no sonho e arrasta Sancho Pança, ora pragmático, ora cético, mas sempre fiel.</p><p>A nobreza do caráter do fidalgo, todavia, continua intocada. Em um dos momentos mais emocionantes das trezentas e poucas páginas que já venci, ele se põe ao lado da bela mulher acusada de ter provocado a morte de um rapaz muito querido em sua comunidade. Quixote escuta suas lúcidas razões e evita uma injustiça que seria provocada pela solidariedade masculina. Não há loucura que se sobreponha ao seu senso de justiça.</p><p>Os primeiros parágrafos do primeiro capítulo já justificariam a leitura. Cervantes caracteriza seu protagonista descrevendo o que ele veste, o que ele come e o que ele tem. Simples e, por isso mesmo, perfeita.</p><p>Motivos não me faltam para continuar devagar e sempre.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/dom-quixote-primeiras-impressoes/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>Assentar</title><link>http://www.caotico.com.br/assentar/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/assentar/#comments</comments> <pubDate>Thu, 26 Apr 2012 18:02:42 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Elocubrações]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[luta pela terra]]></category> <category><![CDATA[MST]]></category> <category><![CDATA[Rio Grande do Sul]]></category> <category><![CDATA[sem-terra]]></category> <category><![CDATA[trabalhador rural]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1877</guid> <description><![CDATA[Ele ainda era um menino nascido e criado em Boa Viagem, galeguinho, ainda com  pinta de aluno branquelo de colégio particular, quando apareceu para fazer um estágio de jornalismo na redação. Para um garotão assim, o primeiro dia de estágio equivale à primeira grande oportunidade para a civilização ocidental descobrir um novo gênio. A autoconfiança [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/Magnata-MST.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1878" title="Magnata MST" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/Magnata-MST-350x262.jpg" alt="" width="224" height="168" /></a>Ele ainda era um menino nascido e criado em Boa Viagem, galeguinho, ainda com  pinta de aluno branquelo de colégio particular, quando apareceu para fazer um estágio de jornalismo na redação.</p><p>Para um garotão assim, o primeiro dia de estágio equivale à primeira grande oportunidade para a civilização ocidental descobrir um novo gênio. A autoconfiança mistura-se ao deslumbramento com a possibilidade ficar cara a cara com políticos poderosos, artistas famosos ou jogadores de futebol.</p><p>Deslumbrado, o estagiário se torna uma presa fácil e passa a trabalhar muito, quase de graça, afinal quer mostrar serviço e ter assunto para jogar sobre as meninas da faculdade.</p><p>Foi assim que conheci Carlos na redação no Diário de Pernambuco, lá pelo finalzinho dos anos 90: trabalhando muito, cheio de si, comendo estagiárias (ou dizendo que comia), exibindo conhecimentos sobre tudo e qualquer coisa e aporrinhando o juízo de Laércio Portela, o editor.</p><p>Aqui na periferia do jornalismo e do Brasil, é possível antever com certo grau de precisão o futuro dos jovens repórteres: de repórter a contratado de alguma campanha eleitoral por cargo majoritário, daí a assessor do político ou de empresa estatal, depois dono de uma pequena empresa de comunicação. No caminho, ganha 20 quilos e perde qualquer resíduo de utopia ou autoconfiança.</p><p>E da última vez que o vi, Carlos já havia dado alguns desses passos. Era assessor de um político. Depois, sumiu da minha vista sem deixar vestígios. Simpatizava com ele, mas jamais lamentei. Assim é a vida, já me acostumei com essas coisas.</p><p>Ontem, em uma das minhas raras visitas ao feicebuqui, uma caixinha se abriu e, quase nove anos depois, o sujeito reapareceu puxando assunto. E descobri um sujeito que deu um drible no destino.</p><p>Do boyzinho das baladas de Boa Viagem e da conversa besta com as meninas das redações, sobrou pouco.</p><p>Agarrado a uma moça, galega como ele provavelmente, foi parar no Rio Grande do Sul. Casou com a gaúcha, funcionária do MST, assessora ou coisa que o valha. Viveram juntos, mas o amor acabou. A moça saiu da sua vida, mas tudo ao seu redor já tinha outro significado. Ele ficou como acampado, morando sob uma lona preta, junto com centenas de sem-terra.</p><p>No acampamento, descobriu que tinha nascido para trabalhar a terra, não as palavras.</p><p>Ele me contou que o acampamento se transformou num assentamento para valer e que está esperando seu lotezinho de 14 hectares.</p><p>“No começo foi complicado, França, os caras viviam dizendo que eu iria largar tudo para escrever um livro sobre a experiência e expor o movimento”.</p><p>Para deixar claro que não é um traidor em potencial, Carlos é o primeiro a acordar, antes do raiar do sol. E o último a sair da lavoura, com as mãos rachadas, sujo de terra e cheio de fome.</p><p>Eu lhe disse que viver era mais importante do que escrever um livro. Carlos concordou.</p><p>Orgulhoso, ele afirmou que agora era um “assentado”. No seu caso, essa palavra é prenhe de significados. Mais do que encontrar um pedaço de terra, o menino da Zona Sul encontrou seu lugar no mundo, seu lugar na vida.</p><p>No fim da rápida conversa online, pediu desculpas por estar enferrujado com as palavras. “Não sobra o tempo. A vida de trabalhador rural é cansativa, no fim do dia o sujeito só quer saber de estirar o corpo e dormir”.</p><p>E ele se foi, deixando a lan house da pequena Charqueadas para participar da encenação de uma peça no meio da rua, teatro para denunciar a impunidade dos policiais assassinos de Eldorado dos Carajás.</p><p>Antes, disse que me admirava. Não sei porquê. Respondi que a admiração era recíproca, justa e verdadeira, pois ele me mostrou o quanto um ser humano pode se reinventar.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/assentar/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>6</slash:comments> </item> <item><title>Leitura muito dinâmica (ou resenhas que eu gostaria de ter feito)</title><link>http://www.caotico.com.br/leitura-muito-dinamica-ou-resenhas-que-eu-gostaria-de-ter-feito/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/leitura-muito-dinamica-ou-resenhas-que-eu-gostaria-de-ter-feito/#comments</comments> <pubDate>Sun, 08 Apr 2012 14:50:19 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[clássicos]]></category> <category><![CDATA[Flaubert]]></category> <category><![CDATA[humor]]></category> <category><![CDATA[Lev Tolstoi]]></category> <category><![CDATA[Literatura]]></category> <category><![CDATA[Marcel Proust]]></category> <category><![CDATA[paródia]]></category> <category><![CDATA[Shakespeare]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1869</guid> <description><![CDATA[Pela primeira vez, um dos meus melhores amigos, o senhor Clóvis Moury Fernandes, vulgarmente conhecido em terras paraibanas e pernambucanas como enfermeiro Cocó, resolveu dar uma pequena contribuição para esse blog. De João Pessoa, ele enviou por e-mail breves textos sobre algumas importantes obras literárias. Tanto ele quanto eu desconhecemos a autoria do material, cujas [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Pela primeira vez, um dos meus melhores amigos, o senhor <strong>Clóvis Moury Fernandes</strong>, vulgarmente conhecido em terras paraibanas e pernambucanas como enfermeiro Cocó, resolveu dar uma pequena contribuição para esse blog. De João Pessoa, ele enviou por e-mail breves textos sobre algumas importantes obras literárias. Tanto ele quanto eu desconhecemos a autoria do material, cujas origens podem estar irremediavelmente perdidas no labirinto da web.</p><p>Eis a íntegra da sua mensagem:</p><p><strong>Não é só Inácio,com seu excelente caótico, que dá boas dicas de literatura. Eu com  a minha praticidade e facilidade de resumir as coisas, deixo essas dicas para os meus amigos intelectuais:</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/Tolstoi-Guerra-e-paz-vol-1-2010-ilustr-Pomar.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1870" title="Tolstoi, Guerra e paz, vol 1 (2010, ilustr Pomar)" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/Tolstoi-Guerra-e-paz-vol-1-2010-ilustr-Pomar-289x350.jpg" alt="" width="109" height="133" /></a></p><ul><li><em>Guerra e Paz</em>, de Lev Tolstoi</li></ul><p>Resumo: Um rapaz não quer ir à guerra por estar apaixonado e por isso Napoleão invade Moscou. A mocinha casa-se com outro. Fim.</p><p>&nbsp;</p><ul><li><em>Em Busca do Tempo Perdido</em>, Marcel Proust</li></ul><p>Resumo: Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite. No dia seguinte (pág. 486. vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite ( pág.1344 , vol.VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos &#8211; e pronto. Fim.</p><p>&nbsp;</p><ul><li><em>Os Lusíadas</em>, Luís de Camões</li></ul><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/Camões_por_Fernão_Gomes.jpg"><img class="alignright  wp-image-1871" title="Camões,_por_Fernão_Gomes" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/Camões_por_Fernão_Gomes.jpg" alt="" width="97" height="109" /></a>Resumo: Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa super-gente-fina), ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas. Fim.</p><p>&nbsp;</p><ul><li><em>Madame Bovary</em>, Gustave Flaubert</li></ul><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/Gustave-Flaubert2.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1872" title="Gustave-Flaubert2" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/Gustave-Flaubert2-257x350.jpg" alt="" width="80" height="109" /></a>Resumo: Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre. Fim.</p><p>&nbsp;</p><p>&nbsp;</p><ul><li><em>Romeu e Julieta, </em>William Shakespeare</li></ul><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/romeuejulieta.jpg"><img class="alignright  wp-image-1873" title="romeuejulieta" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/romeuejulieta-350x255.jpg" alt="" width="159" height="116" /></a>Resumo: Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro, as duas turmas saem na porrada, uma briga danada, muita gente se machuca. Então um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era sonífero. Fim.</p><p>&nbsp;</p><ul><li>Hamlet, William Shakespeare</li></ul><p>Resumo: Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que entretanto se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com uma caveira e morre assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado. Fim.</p><p>&nbsp;</p><ul><li><em>Édipo-Rei</em>, Sófocles</li></ul><p>Resumo: Maluco tira uma onda, não ouve o que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, surge a psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara em cada consulta. Fim.</p><p>&nbsp;</p><ul><li><em>Othelo</em>, William Shakespeare</li></ul><p>Resumo: Um rei otário, tremendo zé-ruela, tem um amigo muito feladaputa que só        pensa em fazê-lo de bobo. O tal &#8220;amigo&#8221; não ganha um cargo no governo e resolve se vingar do rei, convencendo-o de que a rainha está dando pra outro. O zé-mané acredita e mata a rainha. Depois, descobre que não era corno, mas apenas muito burro, por ter acreditado no traíra. Prende o cara e fica chorando sozinho. Fim.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/leitura-muito-dinamica-ou-resenhas-que-eu-gostaria-de-ter-feito/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>4</slash:comments> </item> <item><title>Tesão de leitor tardio</title><link>http://www.caotico.com.br/animo-de-leitor-tardio/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/animo-de-leitor-tardio/#comments</comments> <pubDate>Wed, 04 Apr 2012 10:28:57 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[Cervantes]]></category> <category><![CDATA[clássico]]></category> <category><![CDATA[Dom Quixote]]></category> <category><![CDATA[Espanha]]></category> <category><![CDATA[Literatura]]></category> <category><![CDATA[literatura espanhola]]></category> <category><![CDATA[Miguel de Cervantes]]></category> <category><![CDATA[tradução]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1863</guid> <description><![CDATA[Sinto algo parecido com a emoção de 11 peladeiros prontos para estrear o uniforme novo, com numeração e nome de cada um escrito nas costas. Ou tal qual um adolescente bem consumista, perfeitamente tabacudo, manuseando pela primeira vez seu celular cheio de funções recém-comprado pelo papai. Também poderia ser a animação de uma criança pequena [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/quijote_academia_g.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1864" title="quijote_academia_g" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/04/quijote_academia_g.jpg" alt="" width="157" height="196" /></a>Sinto algo parecido com a emoção de 11 peladeiros prontos para estrear o uniforme novo, com numeração e nome de cada um escrito nas costas.</p><p>Ou tal qual um adolescente bem consumista, perfeitamente tabacudo, manuseando pela primeira vez seu celular cheio de funções recém-comprado pelo papai.</p><p>Também poderia ser a animação de uma criança pequena tirando da caixa o brinquedo tão sonhado que ganhou de presente de Natal.</p><p>Ou talvez a ansiedade de um torcedor que chega ao estádio uma hora antes do clássico decisivo e encanta-se com o verde do gramado, já iluminado e ainda vazio.</p><p>Qualquer das situações acima serve para descrever meu estado de espírito prestes a iniciar a leitura de <em>Dom Quixote.</em></p><p>Sem pressa, li o prefácio de autoria da professora Maria Augusta da Costa Vieira e já aprendi um bocado sobre as duas principais correntes da crítica literária. Depois, o prólogo de Cervantes, um texto histórico, no qual ele tira a maior onda, com um deboche bem humorado, do pedantismo dos seus colegas escritores contemporâneos, que enchiam seus livros de citações e mais citações para impressionar leitores e conferir ares de erudição às respectivas obras.</p><p>Hoje, esfregando as mãos, começo as aventuras do fidalgo de La Mancha propriamente ditas. Há seis anos, desde que ganhei dos meus filhos, um exemplar comemorativo dos 400 anos da obra, venho adiando e esperando por esse momento.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/animo-de-leitor-tardio/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>Diário do hospício e O cemitério dos vivos</title><link>http://www.caotico.com.br/diario-do-hospicio-e-o-cemiterio-dos-vivos/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/diario-do-hospicio-e-o-cemiterio-dos-vivos/#comments</comments> <pubDate>Fri, 30 Mar 2012 17:02:50 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[ABL]]></category> <category><![CDATA[Academia Brasileira de Letras]]></category> <category><![CDATA[hospício]]></category> <category><![CDATA[Lima Barreto]]></category> <category><![CDATA[Literatura]]></category> <category><![CDATA[loucura]]></category> <category><![CDATA[praia Vermelha]]></category> <category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category> <category><![CDATA[século XX]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1854</guid> <description><![CDATA[Uma oficina literária destas onde um escritor experiente esmiúça rascunhos dos seus textos para que os alunos compreendam o processo no qual pode resultar um romance, novela ou mesmo um conto. Essa é uma das formas de ler o caprichado volume que inclui Diário do hospício e Cemitério dos vivos, de Lima Barreto. Publicados pela [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/03/Diário-do-Hospício.jpg"><img class="alignright  wp-image-1855" title="Diário do Hospício" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/03/Diário-do-Hospício-243x350.jpg" alt="" width="106" height="153" /></a>Uma oficina literária destas onde um escritor experiente esmiúça rascunhos dos seus textos para que os alunos compreendam o processo no qual pode resultar um romance, novela ou mesmo um conto. Essa é uma das formas de ler o caprichado volume que inclui <em>Diário do hospício e Cemitério dos vivos</em>, de Lima Barreto.</p><p>Publicados pela primeira vez na década de 1950, mais de 30 anos depois da morte do escritor carioca, os textos são complementares. O <em>Diário&#8230; </em>contêm a íntegra das anotações feitas por Barreto em pequenos pedaços de papel durante os dois meses de sua segunda internação no antigo Hospício Nacional. Esse material é o ponto de partida para <em>O Cemitério dos vivos</em>, romance inacabado que completa o núcleo dessa edição da CosacNaify.</p><p>A leitura dos dois textos, antecedida ou mediada pelo prefácio do crítico Alfredo Bosi, reserva lições para quem tem algum interesse pelo processo de trabalho intelectual que deságuam numa peça literária.</p><p>Os vários trechos do <em>Diário</em> aproveitados quase integralmente nos primeiros capítulos do romance apenas rascunhado revelam como Barreto incorporava na ficção situações que havia testemunhado ou personagens com quem conviveu no hospital psiquiátrico. Diálogos inteiros saem dos registros e vão parar na ficção.</p><p>No prefácio (publicado em papel jornal, contrastando com o branco do núcleo do volume), o crítico Alfredo Bosi chama a atenção para alguns trechos das anotações nos quais o escritor parecia estar confuso, trocando seu próprio nome ou fatos da sua vida. Nesses parágrafos, Lima Barreto parece saltar das páginas em carne e osso, reduzindo a pó os quase 100 anos que separam para ministrar sua oficina, explicando que ainda escolhia o nome do protagonista ou que, enquanto registrava seu cotidiano, já pensava em dar um novo significado àquela amarga experiência entre os loucos.</p><p>Algumas passagens que parecem se repetir ao longo de <em>O</em> <em>cemitério dos vivos </em>são, na verdade, pistas reveladoras das hesitações ou experimentações do autor, ainda em dúvida como inserir determinadas informações sobre este ou aquele personagem, este ou aquele episódio.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/03/lima_barreto_ficha.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1857" title="lima_barreto_ficha" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/03/lima_barreto_ficha-243x350.jpg" alt="" width="106" height="153" /></a>Na ficção ou em suas anotações, Lima desnuda-se em uma auto-análise lúcida e corajosa. A razões do alcoolismo (à esquerda, sua ficha no hospício) que causaram seus delírios, seu sentimento de não pertencer a uma sociedade que valorizava pistolões e acadêmicos pedantes, cheios de pra-quê-isso e nenhuma capacidade de refletir a respeito do conhecimento construído por terceiros. Homem sem ambições materiais e amplas ambições intelectual, porém inseguro e acuado pelo racismo.</p><p>Em uma ótimas notas de rodapé, os organizadores explicam que um dos médicos, um sujeito pedante e metido a intelectual, foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras, a mesma instituição que desprezou Lima Barreto. Ou seja, quando a ABL elegeu Merval Pereira não fez mais do que confirmar que não se trata de uma instituição respeitável.</p><p>Entre loucos, o escritor não se deixa tomar pelo sofrimento e humilhação, conseguindo a proeza de estabelecer distância para conseguir se ver melhor.</p><p>Há outras leituras possíveis. O <em>Diário do Hospício</em> é um registro rico em detalhes do que era o “tratamento” psiquiátrico no início do século XX. Às anotações de Lima, juntam-se crônicas de as própria autoria, Machado de Assis e Olavo Bilac sobre o mesmo hospital na praia Vermelha, próximo ao bairro de Botafogo.</p><p>Bilac comemora a reinauguração do hospício, em 1905, e registra que a grande reforma coincide com o fim do tratamento brutal destinado aos loucos. Aqui, vale registrar que a evolução constatada pelo poeta e cronista não teve sequência ao longo das décadas seguintes, com o surgimento dos hospitais psiquiátricos particulares que se transformaram Brasil adentro em depósitos de gente espancada ou sedada para sempre.</p><p>A crônica de Bilac sobre o novo modo de tratar e educar as crianças doentes mentais guarda uma espantosa semelhança com o estilo de João do Rio. O formato é tão parecido, mas tão parecido que arrisco um julgamento precipitado: Olavo Bilac copiou <a href="http://www.caotico.com.br/a-alma-encantadora-das-ruas/">João do Rio</a>, que fazia um enorme sucesso entre os leitores cariocas com suas incursões pela cidade, que sempre geravam crônicas repletas de informações que eram verdadeiras reportagens.</p><p>Nesse mesmo texto o autor do Hino da bandeira se refere às crianças doentes (provavelmente autistas, psicóticas ou com problemas neurológicos), como os “pequenos idiotas”. Na época era normal, hoje alguns “humoristas” sem graça assinariam embaixo.</p><p>Já as duas crônicas de Machado de Assis não são lá essas coisas. São textos no qual o mais importante escritor brasileiro usa o pretexto da loucura para abrir seus textos e, sem mais nem porque, escorrega para outros assuntos sem qualquer transição, dando a maior pinta que estava enchendo lingüiça para caber na página do periódico que o remunerava.</p><p>&nbsp;</p><p>&nbsp;</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/03/lima-barreto-2.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1856" title="lima-barreto-2" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/03/lima-barreto-2.jpg" alt="" width="127" height="205" /></a></p><p>Lima Barreto era alcoólatra, negro, pobre e não fazia esforço nenhum para circular entre os esnobes intelectuais da capital da República das duas primeiras décadas do século XX. Ele extraía sua literatura da vida, sua e dos seus iguais. É um autor que o Brasil precisa ler mais, afinal ele foi capaz de escrever, há 92 anos, que um “dos males da nossa época é essa pregação do trabalho intenso, que tira o ócio do espírito e nos afasta a todo momento da nossa alma imortal e não nos deixa ouvi-la a todo o momento”. Quer algo mais profético?</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/diario-do-hospicio-e-o-cemiterio-dos-vivos/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>Como se fosse ontem (dez)</title><link>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-dez/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-dez/#comments</comments> <pubDate>Wed, 21 Mar 2012 16:52:51 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Elocubrações]]></category> <category><![CDATA[argentino]]></category> <category><![CDATA[assaltos]]></category> <category><![CDATA[crime]]></category> <category><![CDATA[Diário Popular]]></category> <category><![CDATA[Jardins]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[Perdizes]]></category> <category><![CDATA[reportagem policial]]></category> <category><![CDATA[restaurantes]]></category> <category><![CDATA[roubos]]></category> <category><![CDATA[São Paulo]]></category> <category><![CDATA[violência]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1846</guid> <description><![CDATA[Os frequentadores dos bons restaurantes paulistanos estão preocupadíssimos. A bandidagem está fazendo a festa, roubando clientes e o apurado da caixa registradora numa empreitada só, interrompendo jantares aprazíveis e encontros amorosos por muito tempo aguardados. Foi isso que vi nas imagens repetidas mil vezes na internet e nos telejornais. Daí lembrei de Pablo Abitabile. Um [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/03/ladrão_restaurante.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1847" title="ladrão_restaurante" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/03/ladrão_restaurante-350x233.jpg" alt="" width="253" height="168" /></a>Os frequentadores dos bons restaurantes paulistanos estão preocupadíssimos. A bandidagem está fazendo a festa, roubando clientes e o apurado da caixa registradora numa empreitada só, interrompendo jantares aprazíveis e encontros amorosos por muito tempo aguardados. Foi isso que vi nas imagens repetidas mil vezes na internet e nos telejornais.</p><p>Daí lembrei de Pablo Abitabile. Um ladrão.</p><p>Jovem, vinte e poucos anos, pele branca daquelas que só toma sol quando passa por uma janela aberta, Pablo era (ou é, a expectativa de vida da sua profissão não é das maiores) argentino, mas resolveu fazer a vida no Brasil, onde o campo de trabalho oferecia mais possibilidades.</p><p>Pela primeira vez na vida estava preso e reclamava das algemas, dizia que sabia perder, não faria nenhuma besteira. Em nenhum momento alegou inocência: confessou os mais de 40 assaltos dos quais os policiais o acusavam e ainda deu de bandeja outros 30 que não estavam na lista da polícia.</p><p>Simpático, apreciador de bons vinhos, cinema e roupas caras, Pablo falava dos seus crimes como um engenheiro enumera as obras de pontes ou edifícios que contaram com sua valiosa participação. O orgulho aparecia em sua voz quando ele garantia jamais ter disparado um único tiro em seus assaltos. Nunca machucou ninguém. Os tiras não o desmentiram.</p><p>Seu método de trabalho era simples, apesar de ousado. Primeiro, ele sondava o público-alvo, ou seja, jantava no restaurante durante algumas semanas em horários diferentes. Depois voltava a trabalho, vestido com um elegante sobretudo de grife. Procurava a gerência ou o caixa, exibia a metralhadora sob a roupa e saía com o dinheiro, numa época em que não existia cartão de débito e os celulares eram raros.</p><p>A clientela nada percebia e continuava comendo e bebericando no maior sossego do mundo. O único cúmplice, em geral um prestador de serviços avulso substituído de tempos em tempos, permanecia na calçada para evitar dissabores e imprevistos.</p><p>- Uma vez, o gerente me disse que o dinheiro havia sido depositado no banco horas antes e que o caixa estava quase zerado. Pedi para ver o comprovante de depósito. Ele não mentiu. Agradeci e saí de lá sem problemas. Esse tipo de coisa pode acontecer com qualquer um.</p><p>Essa foi uma das histórias que me contou. A única que minha memória guardou.</p><p>Finalmente, no início de uma tarde ensolarada, a polícia cercou a casa onde ele morava de aluguel em Perdizes, bairro de gente que não tem problema com dinheiro. O cúmplice da ocasião chegou a atirar na polícia, mas foi desarmado pelo chefe.</p><p>- Dar tiros na polícia? Provocar um tiroteio?  Correr o risco de morrer para não ser preso? Comigo não, tudo isto é coisa de amador.</p><p>Entrevistar um sujeito desses salva o dia de qualquer repórter acostumado à violência gratuita, pms que contavam os cadáveres que produziam, gente morta por causa de uns trocados, investigadores corruptos e delegados torturadores.</p><p>Com a matéria nas bancas no dia seguinte, por algum motivo besta precisei voltar à delegacia no dia seguinte. E encontrei Abitabile puto da vida comigo. Vá lá, “puto da vida” é meio exagerado. Ele estava magoado.</p><p>O problema é que no perfil que escrevi, mencionei que tudo o que era na vida, tudo o que ele sabia do ofício de roubar, ele devia à sua querida mãe, líder de uma quadrilha arrojada lá nos pampas argentinos. Sua mágoa é que, esse detalhe, ele havia contado em confiança, não era coisa para ser publicada.</p><p>Pablo não queria que as pessoas pensassem mal da sua querida madrecita.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-dez/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>3</slash:comments> </item> </channel> </rss><!-- Performance optimized by W3 Total Cache. Learn more: http://www.w3-edge.com/wordpress-plugins/

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