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	<title>Caótico</title>
	
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	<description>Espaço de leituras,  histórias &amp; especulações | Por Inácio França</description>
	<lastBuildDate>Wed, 10 Mar 2010 12:58:02 +0000</lastBuildDate>
	
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		<title>Trecho de O Melhor de Stanislaw Ponte Preta</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Mar 2010 12:54:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trechos arretados]]></category>
		<category><![CDATA[cariocas]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Sergio]]></category>
		<category><![CDATA[Stanislaw Ponte Preta]]></category>

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		<description><![CDATA[Prova Falsa (do livro Garoto Linha Dura)
Quem teve a idéia foi o padrinho da caçula &#8211; ele me conta. Trouxe o cachorro de presente e logo a família inteira se apaixonou pelo bicho. Ele até que não é contra isso de se ter um animalzinho em casa, desde que seja obediente e com um mínimo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Prova Falsa</strong> (do livro <em>Garoto Linha Dura</em>)</p>
<p>Quem teve a idéia foi o padrinho da caçula &#8211; ele me conta. Trouxe o cachorro de presente e logo a família inteira se apaixonou pelo bicho. Ele até que não é contra isso de se ter um animalzinho em casa, desde que seja obediente e com um mínimo de educação.</p>
<p>— Mas o cachorro era um chato — desabafou.</p>
<p>Desses cachorrinhos de raça, cheio de nhém-nhém-nhém, que comem comidinha especial, precisam de muitos cuidados, enfim, um chato de galocha. E, como se isto não bastasse, implicava com o dono da casa.</p>
<p>— Vivia de rabo abanando para todo mundo, mas, quando eu entrava em casa, vinha logo com aquele latido fininho e antipático de cachorro de francesa.</p>
<p>Ainda por cima era puxa-saco. Lembrava certos políticos da oposição, que espinafram o ministro, mas quando estão com o ministro ficam mais por baixo que tapete de porão. Quando cruzavam num corredor ou qualquer outra dependência da casa, o desgraçado rosnava ameaçador, mas quando a patroa estava perto abanava o rabinho, fingindo-se seu amigo.</p>
<p>— Quando eu reclamava, dizendo que o cachorro era um cínico, minha mulher brigava comigo, dizendo que nunca houve cachorro fingido e eu é que implicava com o &#8220;pobrezinho&#8221;.</p>
<p>Num rápido balanço poderia assinalar: o cachorro comeu oito meias suas, roeu a manga de um paletó de casimira inglesa, rasgara diversos livros, não podia ver um pé de sapato que arrastava para locais incríveis. A vida lá em sua casa estava se tornando insuportável. Estava vendo a hora em que se desquitava por causa daquele bicho cretino. Tentou mandá-lo embora umas vinte vezes e era uma choradeira das crianças e uma espinafração da mulher.</p>
<p>— Você é um desalmado — disse ela, uma vez.</p>
<p>Venceu a guerra fria com o cachorro graças à má educação do adversário. O cãozinho começou a fazer pipi onde não devia. Várias vezes exemplado, prosseguiu no feio vício. Fez diversas vezes no tapete da sala. Fez duas na boneca da filha maior. Quatro ou cinco vezes fez nos brinquedos da caçula. E tudo culminou com o pipi que fez em cima do vestido novo de sua mulher.</p>
<p>— Aí mandaram o cachorro embora? — perguntei.</p>
<p>— Mandaram. Mas eu fiz questão de dá-lo de presente a um amigo que adora cachorros. Ele está levando um vidão em sua nova residência.</p>
<p>— Ué&#8230; mas você não o detestava? Como é que arranjou essa sopa pra ele?</p>
<p>— Problema da consciência — explicou: — O pipi não era dele.</p>
<p>E suspirou cheio de remorso.</p>
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		<title>O Melhor de Stanislaw Ponte Preta</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Mar 2010 12:49:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
				<category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category>
		<category><![CDATA[cariocas]]></category>
		<category><![CDATA[coletâneas]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Diário Carioca]]></category>
		<category><![CDATA[Nélson Rodrigues]]></category>
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		<category><![CDATA[Stanislaw Ponte Preta]]></category>
		<category><![CDATA[Tia Zulmira]]></category>

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		<description><![CDATA[Esse blog é comum-de-dois-gêneros. Vou das mulheres sábias de Geórgia para as mulheres peruas, vedetes, sonsas, traídas e traíras de Sérgio Porto. Do Dia Internacional da Mulher para o machismo de Stanislaw Ponte Preta.
A bem da verdade, foi um erro reler as crônicas de O Melhor de Stanislaw Ponte Preta. Stanislaw e Sérgio Porto são [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/stanislaw.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-614" title="stanislaw" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/stanislaw.jpg" alt="" width="78" height="116" /></a>Esse blog é comum-de-dois-gêneros. Vou das mulheres sábias de Geórgia para as mulheres peruas, vedetes, sonsas, traídas e traíras de Sérgio Porto. Do Dia Internacional da Mulher para o machismo de Stanislaw Ponte Preta.</p>
<p>A bem da verdade, foi um erro reler as crônicas de <em>O Melhor de Stanislaw Ponte Preta</em>. Stanislaw e Sérgio Porto são a mesma pessoa, ou melhor, Stanislaw é criatura, a um só tempo, personagem e pseudônimo. A releitura desfez a impressão que tinha preservada há mais de 20 anos e consolidada nos anos 90: passei esse tempo todo jurando que Porto era um gênio. Agora, sei que estava muito longe disso.</p>
<p>Porto era um extraordinário contador de histórias e sabia como poucos levar para o papel a linguagem das ruas, o ritmo e o vocabulário das conversas do povo na mesa de bar, na conversa descontraída. Isso não faz dele um craque, mas não um gênio. Explicarei o porquê da minha decepção tardia.</p>
<p>Relendo <em>O Melhor&#8230;</em>, uma coletânea de crônicas de sete dos seus nove livros, descobri que muito daquilo que publicou nos primeiros livros ficou velho e sem graça. Não é de espantar. A maior parte da obra de Porto foi publicada originalmente nos jornais cariocas, principalmente o extinto Diário Carioca, em colunas diárias. Ou seja, com prazo de validade curtíssimo, como quase tudo o que sai nos jornais.</p>
<p>Assim, suas crônicas traduziam o dia-a-dia da vida nos botecos, quintais, praças e subúrbios do Rio de Janeiro. Aquelas publicadas em seus últimos livros &#8211; os dois <em>Febeapá</em> e <em>Na Terra do Crioulo Doido</em> &#8211; poderiam ser adjetivadas de geniais, são literatura viva, não sofreram o desgaste do tempo. Provavelmente, porque foram escritas por um homem maduro, com mais intimidade com a escruta e mais à vontade com seu universo temático.</p>
<p>As dos primeiros livros, não, aquelas mofaram. Em seu esforço para transformar em crônica a perplexidade diante dos novos costumes de um Brasil cada vez mais urbano, de uma mulher em busca da autonomia, de novas noções de sexualidade, Porto não escapou elaborar o preconceito. Cinquenta anos depois, o espanto diante de tantas bichas (gay ainda não era uma palavra conhecida na época) e lésbicas, por exemplo, tornam seus textos um tanto ridículo, eu diria bestas mesmo.</p>
<p>Aqui, eu usaria como contraponto um contemporâneo de Porto, Nélson Rodrigues, esse sim, um gênio. No teatro, na crônica ou no romance de Nélson, os mesmos temas ainda possuem uma vitalidade extraordinária. Sobreviveram e sobreviverão.</p>
<p>Essas são as limitações da obra de Sérgio Porto. Vamos às qualidades, porque o sujeito as possuía em fartos volumes.</p>
<p>Muitas das suas histórias, contadas como na “vida real”, são recontadas por aí como piadas anônimas, de tão concretas que são. Os leitores do Caótico talvez lembrem do caso do tio aposentado e solteirão que pediu para ser enterrado junto com suas economias. Todo mundo na família doido para botar a mão na dinheirama que ia no caixão, mas ninguém se atrevia a fazer, todos vigiavam todos. Até que um sobrinho vai no caixão, recolhe todas as notas e deixa um cheque no bolso do paletó do tio morto, avisando que, em caso de necessidade, era só trocar no banco. Pois bem, essa é uma crônica de Stanislaw, ou melhor, de Sérgio Porto.</p>
<p>Dou o maior valor a quem consegue fazer literatura com a língua do cotidiano, com a gramática não-oficial do povo. Essa é uma das minhas obsessões.</p>
<p>Outro fator que ajudou muitos dos seus textos chegarem fresquinhos no século XXI foi a publicação em livros de português e provas nas salas de aula dos anos 80. Minha geração, à beira ou ultrapassando os 40 anos pouquinha coisa, cansou de fazer exercícios de interpretação de textos de suas crônicas, afinal ele era um dos poucos autores cuja obra passava sem problemas pelos militares, pois tratava do cotidiano sem tocar em  política. No máximo, resvalava em queixas sobre falta de luz ou buraco na rua, coisa que qualquer um faz e em qualquer lugar.</p>
<p><strong>Sobre o escritor</strong></p>
<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/sergioporto.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-615" title="sergioporto" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/sergioporto-273x350.jpg" alt="" width="202" height="260" /></a></p>
<p>Sérgio Porto escreveu sete livros sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta e criou outros personagens lendários, como a ótima Tia Zulmira, uma velhinha cheia de contradições. Ele trabalhava como um condenado: escrevia para jornais, fazia roteiros para TV, scripts e dizia que só levantava os olhos da máquina de escrever para botar colírio. Resultado: em 1968, morreu de enfarte aos 45 anos, cinco dias antes deste escriba que vos fala nascer.</p>
<ul>
<li><strong><a href="http://www.releituras.com/spontepreta_bio.asp">Para ler mais sobre a vida e a obra de Sérgio Porto, clique aqui para ir ao site Releituras</a></strong></li>
<li><strong><a href="http://www.caotico.com.br/trecho-de-o-melhor-de-stanislaw-ponte-preta/">Para ler a crônica Prova Falsa, clique aqui</a></strong></li>
</ul>
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		<title>A Ciranda das Mulheres Sábias</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 11:04:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
				<category><![CDATA[Loucos por livros]]></category>
		<category><![CDATA[8 de março]]></category>
		<category><![CDATA[Clarissa Pinkola Estés]]></category>
		<category><![CDATA[dia da mulher]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[machismo]]></category>
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		<description><![CDATA[Pedi à Geórgia, titular absoluta em todas as posições do meu coração, que preparasse um texto sobre algum livro que pudesse ser publicado para lembrar o Dia Internacional da Mulher. Ela escolheu o livro A Ciranda das  Mulheres Sábias para homenagear, segundo ela, as mulheres que continuam a luta das operárias norte-americanas assassinadas pela repressão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Pedi à Geórgia, titular absoluta em todas as posições do meu coração, que preparasse um texto sobre algum livro que pudesse ser publicado para lembrar o Dia Internacional da Mulher. Ela escolheu o livro <em>A Ciranda das  Mulheres Sábias</em></strong> <strong>para homenagear, segundo ela, as mulheres que continuam a luta das operárias norte-americanas assassinadas pela repressão numa fábrica de Nova York, em 1857</strong>.</p>
<p><strong>Aproveito para revelar um segredo de alcova: o primeiro texto que  minha esposa (namorada, amante, amiga, companheira&#8230; etc etc etc) escreveu aqui para o Caótico, sobre o livro <a href="http://www.caotico.com.br/a-funcao-do-orgasmo/"><em>A Função do Orgasmo</em></a>, de Reich, está entre os 10 textos mais lidos ou acessados deste blog.</strong></p>
<p><strong>*****<br />
</strong></p>
<p><strong>por Geórgia Araújo</strong></p>
<p><em><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/02/A_CIRANDA_DAS_MULHERES_SABIAS_1231736326P.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-602" title="A_CIRANDA_DAS_MULHERES_SABIAS_1231736326P" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/02/A_CIRANDA_DAS_MULHERES_SABIAS_1231736326P.jpg" alt="" width="120" height="183" /></a>A ciranda das mulheres sábias</em> é um livro pequeno de 123 páginas, escrito por Clarissa Pinkola Estés, a mesma autora de <em>Mulheres que correm com os lobos</em> (1992). Trata da temática do feminino, da força crescente da mulher madura e do poder curativo que isso tudo pode ter em sua vida.  É importante ressaltar que o termo curativo aqui não se resume ao que o senso comum considera como ficar curado de alguma doença. Curar, aqui, se relaciona com a sabedoria diante das dificuldades da vida, seja nas relações familiares, de amizade ou de trabalho etc.</p>
<p>Além disso, o livro nos lembra da capacidade que uma mulher sábia pode ter de, através do seu exemplo de vida, fazer com que outras pessoas possam viver de verdade, aproximando-se cada vez mais de sua essência e da concretização dos seus projetos de vida.</p>
<p>“Quando uma pessoa vive de verdade, todos os outros também vivem.” (pág. 109)</p>
<p>Quando criança, fui apresentada ao universo feminino como repleto de limitações, frustrações e dificuldades. À medida que fui me tornando uma mulher, aprendi a enfrentar as barreiras machistas da nossa sociedade, lutar pela igualdade de gênero no trabalho e na família e, principalmente, descobri (e continuo descobrindo) o prazer imenso de ser mulher e mãe, o valor de ser filha, irmã, tia e amiga.</p>
<p>Dentre as metáforas citadas pela autora, há uma que me chama particularmente a atenção: a mulher como uma árvore. Aquela que dá sombra, flores, frutos, sobrevive às variações climáticas e, ao ser podada, ainda assim, pode renascer. Isso sugere um movimento de enfrentamento, de sabedoria, de libertação.</p>
<p>Outro aspecto interessante diz respeito à idéia de que, para Clarissa, qualidades que a mulher possuía aos 20 anos, tais como: “inteligência, ternura, franqueza, sensualidade, profundidade”, se forem bem desenvolvidas, podem duplicar ou triplicar quando ela se torna uma “grande avó”, aquela que ensina amor, compaixão e perseverança às gerações mais novas, para que isso se perpetue, se desenvolva e se espalhe pelo mundo.</p>
<p>Esse livro é apaixonante, lembra-nos que a sabedoria pode chegar com a idade, dependendo da forma como escolhemos viver.  Na parte final do livro, a autora nos presenteia com sua biografia secreta e com nove preces de gratidão pelas mulheres sábias.</p>
<p>Por isso, quero concluir esse texto com um trecho de uma dessas preces, que diz assim:</p>
<p>“Por todas as tias perspicazes e todas que se postam como avós guardiãs para qualquer alma necessitada&#8230; por aquelas que acolhem filhas e filhos, de sangue ou não, com a mesma facilidade e compatibilidade com que as flores acolhem as abelhas (&#8230;)” (pág. 95)</p>
<p style="text-align: right;"><strong>Para Tia Dulce, minha admiração pelos seus 86 anos bem vividos,</strong></p>
<p style="text-align: right;"><strong>meu respeito e meu imenso amor.</strong></p>
<p><strong>Sobre a escritora</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/02/clarissa-pinkola-estes.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-601" title="clarissa-pinkola-estes" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/02/clarissa-pinkola-estes.jpg" alt="" width="168" height="191" /></a><br />
</strong></p>
<p>Clarissa Pinkola Estés é americana, porém com origens mexicano e húngaro. Ela e poeta e psicanalista junguiana.</p>
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		<item>
		<title>Primavera num Espelho Partido</title>
		<link>http://www.caotico.com.br/primavera-num-espelho-partido/</link>
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		<pubDate>Tue, 02 Mar 2010 03:22:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
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		<category><![CDATA[América do Sul]]></category>
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		<description><![CDATA[Acabo de assistir pela TV as imagens da festa da posse do ex-tupamaro Pepe Mujica no meio das ruas de Montevidéu. Simpático e bonachão, o novo presidente uruguaio me levou de volta às páginas de Primavera num Espelho Partido, de Mario Benedetti, cuja leitura acabei às vésperas do carnaval.
Benedetti me toca profundamente. Sua prosa é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/primavera1.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-606" title="primavera" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/primavera1-224x350.jpg" alt="" width="120" height="188" /></a>Acabo de assistir pela TV as imagens da festa da posse do ex-tupamaro Pepe Mujica no meio das ruas de Montevidéu. Simpático e bonachão, o novo presidente uruguaio me levou de volta às páginas de <em>Primavera num Espelho Partido, </em>de Mario Benedetti, cuja leitura acabei às vésperas do carnaval.</p>
<p>Benedetti me toca profundamente. Sua prosa é terna e delicada. Foi com delicadeza que tratou de um tema tão duro e complexo como as vidas separadas pelas ditaduras militares na América Latina dos anos 60 aos 80.</p>
<p>O livro tinha tudo para ser pesadão e angustiante, afinal o personagem principal, Santiago, está preso numa penitenciária uruguaia. Sua família, em algum outro país latino-americano – acho que é o México -, tentando levar uma vida normal no exílio. O tempo passa em ritmos diferentes dos dois lados dos muros da cadeia. Mas Benedetti surpreende com leveza e esperança nos homens.</p>
<p>Volto a Mujica, o presidente que já foi guerrilheiro e poderia ter sido personagem do livro. É que Benedetti intercala relatos verídicos ou autobiográficos – ele próprio exilado &#8211; com a ficção das cartas de Santiago, as confidências da sua esposa Graciela, os comentários do amigo Rolando, as redações escolares da pequena Beatricita ou os desabafos do velho Rafael, seu pai.</p>
<p>Não interessa as condições da cadeia, divergências políticas ou a violência da repressão. Benedetti é um poeta e um humanista. A ele, interessam os sentimentos. Santiago está na cadeia, sofre imaginando a filha crescer. A menina sonha com o pai. Graciela trabalha, se vira para criar a menina e sente que a vida a levou para longe da cela onde Santiago tenta não mofar. O velho e sensível Rafael sabe que seu filho vai sofrer, mas não julga a nora, a qual, a bem da verdade, é um mulherão.</p>
<p>Durante a leitura de <em>Primavera&#8230;</em> li em algum lugar que as ditaduras na América Latina não foram nocivas apenas pelo aspecto político ou econômico, mas por terem interrompido vidas, sonhos e instaurado o medo em toda uma geração. Eu, que me tornei adulto em pleno exercício democrático, tento imaginar o quanto se pode perder por estar impedido de participar do jogo político. Por isso, é fundamental jamais esquecer.</p>
<p>A história da segunda metade do século XX no Brasil e no restante da América do Sul precisa ser contada por quem sofreu e não pelos carcereiros, que tentaram apagá-la. Permitir que um general ou uma emissora de TV construam essa história é o mesmo que delegar a um assassino a tarefa de contar a história da vida de sua vítima, ou seja, de como ela mereceu morrer.</p>
<p>Nesse livro, Benedetti dá uma enorme contribuição para que essa história seja contada de outra forma, pois escreve sobre os estragos da ditadura nos corações dos amantes e na dinâmica de uma família.</p>
<p>O fato de Mujica ser, desde ontem, o presidente do Uruguai justifica as esperanças e a fé de Benedetti no ser humano.</p>
<ul>
<li><a href="http://www.caotico.com.br/a-tregua/"><strong>Clique aqui para ler texto do Caótico sobre <em>A Trégua</em>, aobra-prima de Benedetti</strong></a></li>
<li><strong><a href="http://www.caotico.com.br/trecho-de-primavera-num-espelho-partido/">Clique aqui para ler trecho de <em>Primavera num Espelho Partido</em></a></strong></li>
<li><strong><a href="http://blogs.utopia.org.br/poesialatina/category/mario-benedetti/">Clique aqui para conhecer a poesia de Benedetti no Utopia.org.br</a></strong></li>
<li><strong><a href="http://silveiralidiane.blogspot.com/2009/07/primavera-num-espelho-partido-primavera.html">Clique aqui para conhecer a opinião de outro blogueiro sobre Primavera num Espelho Partido</a></strong></li>
<li><strong><a href="http://www.estuario.com.br/2009/05/18/por-favor-nao-se-esquecam-de-minha-caneta/">Clique aqui para ler a homenagem de Samarone Lima a Benedetti</a><br />
</strong></li>
</ul>
]]></content:encoded>
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		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Meus Lugares Escuros, na visão de Hugo Figueiredo</title>
		<link>http://www.caotico.com.br/meus-lugares-escuros-na-visao-de-hugo-figueiredo/</link>
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		<pubDate>Fri, 26 Feb 2010 00:21:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
				<category><![CDATA[Loucos por livros]]></category>
		<category><![CDATA[crimes misteriosos]]></category>
		<category><![CDATA[James Ellroy]]></category>
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		<category><![CDATA[romance noir]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois que escrevi sobre Meus Lugares Escuros, o livro autobiográfico de James Ellroy (o mesmo sujeito que escreveu Los Angeles Cidade Proibida), o jornalista Hugo Figueiredo, diretor de comunicação da prefeitura de Olinda, ficou interessado e pediu o livro emprestado. Foi a deixa para eu criar uma regra do Caótico: o livro tem de ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Depois que escrevi sobre <em>Meus Lugares Escuros, </em>o livro autobiográfico de James Ellroy (o mesmo sujeito que escreveu <em>Los Angeles Cidade Proibida), </em>o jornalista Hugo Figueiredo, diretor de comunicação da prefeitura de Olinda, ficou interessado e pediu o livro emprestado. Foi a deixa para eu criar uma regra do Caótico: o livro tem de ser devolvido acompanhado de um texto sobre o mesmo.</strong></p>
<p><strong>Essa semana, Hugo entregou seu texto de estreia no blog.</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>*****<br />
</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/02/lugares_escuros.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-595" title="lugares_escuros" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/02/lugares_escuros.jpg" alt="" width="150" height="227" /></a>por Hugo Figueiredo</strong></p>
<p>Alheio a qualquer tipo de crítica profissional e sem conhecimento profundo das técnicas literárias, expresso aqui minha opinião, apenas, como mero leitor que sou.</p>
<p>Não posso deixar de confessar a frustração que senti em relação ao livro <em>Meus Lugares Escuros</em>, de James Ellroy.  A obra tinha tudo para ser um dos melhores romances policiais que já li na minha vida.  O escritor consegue, através de um relato autobiográfico de sua vida (perfeito, por sinal), voltar no tempo e investigar a morte de sua mãe.</p>
<p>Nunca tinha lido algo com tanta riqueza de detalhes como <em>Meus Lugares Escuros</em> , detalhes estes que chegavam a beirar a monotonia em alguns momentos, como nomes de bares, ruas, avenidas e pessoas, mas que terminavam se tornando imprescindíveis para dar maior veracidade a narrativa. As minúcias eram tantas que, ás vezes, me pegava dentro do livro como se estivesse vivenciado as cenas daquela história.</p>
<p>Neste livro, Ellroy conseguiu transmitir toda história de sua vida, seus medos, suas agonias, suas privações, suas necessidades, seus amores&#8230; E o mais importante de tudo: ter encontrado na escrita o verdadeiro sentido da vida.</p>
<p>Mas, voltemos ao lado do romance policial investigativo do livro. Tudo caminhava muito bem. A trama se desenrolava tudo dentro dos conformes. <em>Meus Lugares Escuros</em> conseguia fazer meus olhos arderem de tanto ler e me prendia diante das páginas, cada vez mais cheias de suspense.</p>
<p>Porém, já no final do livro, eis que chega minha frustração. Quando li a 448ª página pensei, por um momento, em virar a folha, mas vi que <em>Meus Lugares Escuros</em> tinha chegado ao final e que ele continuaria escuro, pelo menos até a próxima publicação. A sensação era de que tinham rasgado as últimas páginas. Coloquei as mãos sobre a cabeça e gritei: “Não acredito, quem matou a mãe desse porra?”.</p>
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		<title>Ponto final… ufa!</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Feb 2010 22:29:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Domingo, antes da uma da tarde. Setenta e nove dias desde a primeira vez que sentei a bunda na cadeira para batucar a primeira linha do Um Rio de Gente, cheguei ao fim colocando o ponto final na história de seu Zomilton, o barqueiro que faz a travessia do Capibaribe da Torre para a Jaqueira. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-591" title="arvore" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/02/arvore-234x349.jpg" alt="arvore" width="137" height="204" />Domingo, antes da uma da tarde. Setenta e nove dias desde a primeira vez que sentei a bunda na cadeira para batucar a primeira linha do <em>Um Rio de Gente</em>, cheguei ao fim colocando o ponto final na história de seu Zomilton, o barqueiro que faz a travessia do Capibaribe da Torre para a Jaqueira. Agora, é só esperar a revisão e fazer mais umas duas leituras, uma com o material impresso e mais outra com tudo diagramado.</p>
<p>Foi uma luta parir um capítulo a cada três dias. O pior é que os prazos do Funcultura estão todos estourados. Não precisava ter sido essa correria toda, mas atrasou bastante o processo da transcrição dos arquivos de áudio gerados por mais de 30 horas de entrevistas. O jeito foi arrumar tempo para escrever enquanto cuidava dos filhos nas férias ou trabalhava na preparação do carnaval de Olinda. Quase escrevo “organização” do carnaval, mas uma coisa não combina com a outra.</p>
<p>A reta final foi na pressa, corrida contra o relógio mesmo. Apesar disso, participar desse projeto foi uma experiência arretada de boa.</p>
<p>Verdade verdadeira, o livro começou a nascer em abril do ano passado, quando a equipe viajou a primeira vez para Brejo da Madre de Deus e Jataúba. Lá, entrevistamos seu Bartolo, um sujeito que fala pelos cotovelos na Passagem do Tó.</p>
<p>Na mesma viagem, deu para ter uma amostra significativa do que encontraríamos pela frente quando encontramos seu Cincinato, um sujeito de quase 100 anos e que esperou meio século para casar com a mulher que amava. Ele nos contou uma história de amor e de safadeza também. Sem safadeza, as histórias de amor ficam chatas, idealizadas, açucaradas, disneylandizadas.</p>
<p>Cincinato é o mais velho dos personagens do livro. O mais novo é o professor Arnaldo Vitorino, de Santa Cruz do Capibaribe, que tem 56 anos.</p>
<p>Nessa fase das entrevistas, a pesquisa de campo, o objetivo era ouvir as histórias dos moradores mais velhos e também dos bons contadores de histórias. Não buscamos a diversidade, mas ela veio sem muito esforço. O resultado foi um livro plural, com muitas vozes contando suas histórias e, a partir dela, a história da vida ao longo das margens do Capibaribe.</p>
<p>Ao escrever, dispensei as regras da reportagem. Resolvi manter um diálogo com as pessoas que tão generosamente dividiram suas memórias e opiniões conosco. Mantive o máximo possível do discurso e do jeito de contar dos entrevistados, inclusive muitos dos cacoetes da expressão oral permaneceram no texto. A ideia foi, além de registrar o conteúdo, manter intacta a forma. Não sei se consegui.</p>
<p>Admito: essa experiência não teve qualquer referência teórica ou acadêmica. Ou melhor, nesse meio tempo, li um trabalho produzido pelo pessoal do núcleo de história oral da USP, onde os autores afirmam que “o direito de contar a própria história é uma conquista”. Tentei ser um mero intermediário, um facilitador desta conquista, mas acho que isso é muita pretensão. Tudo bem, isso revela certa coerência, pois quem me conhece sabe que sou um sujeito muito pretensioso.</p>
<p>O livro não será vendido. O livro foi produzido com dinheiro público, então deve retornar para o povo. A maior parte da tiragem será distribuída para as bibliotecas e escolas municipais dos municípios que visitamos; outra parte será entregue para fundações, entidades públicas ou não-governamentais do Recife. E uma parte será distribuída para quem der as caras lançamento, que deverá acontecer em meados de março. Quando definirmos data e local, avisarei. Também voltaremos a visitar todas as pessoas entrevistadas para entregar seus exemplares.</p>
<p>Podem reparar que abusei da primeira pessoa do plural nesse texto, pois participaram do projeto a fotógrafa Tuca Siqueira, que clicou a árvore da foto lá em Jataúba, o produtor e ambientalista Alexandre Ramos, e à historiadora Jakeline Soares, que auxiliou na pesquisa.</p>
<p>Para concluir, o registro de uma feliz coincidência. Estava enfurnado em casa, escrevendo o antepenúltimo capítulo, quando Ivan Moraes Filho, o Ivanzinho do blog <a href="http://www.bodega.blog.br">Bodega</a>, recomendou o vídeo do depoimento da escritora nigeriana Chimamanda Adichie. <a href="http://www.ted.com/talks/lang/por_br/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html">Clique aqui para ver o vídeo</a>. <em>Um Rio de Gente </em>é uma contribuição modesta ao esforço para que a história dos brasileiros não tenha apenas uma versão.</p>
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		<title>A inglória peleja do demônio da telinha contra o carnaval de rua</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Feb 2010 11:57:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não tem jeito, a TV brasileira foi derrotada mais uma vez pelo carnaval de rua de Pernambuco. E, mais uma vez, a derrota foi feia, goleada de verdade, seis ou sete gols de diferença no Recife. Em Olinda, o resultado foi ainda mais dilatado, pior do que Hungria e El Salvador na Copa de 82, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-587" title="Folia na frente do Palácio - Carnaval 2010" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Olinda-versus-TV-350x235.jpg" alt="Folia na frente do Palácio - Carnaval 2010" width="262" height="176" />Não tem jeito, a TV brasileira foi derrotada mais uma vez pelo carnaval de rua de Pernambuco. E, mais uma vez, a derrota foi feia, goleada de verdade, seis ou sete gols de diferença no Recife. Em Olinda, o resultado foi ainda mais dilatado, pior do que Hungria e El Salvador na Copa de 82, sem direito a gol de honra. Ainda bem.</p>
<p>Como integrante da primeira equipe de governo de Luciana Santos em Olinda, no início desta década que ora se acaba, fui testemunha dos esforços dos executivos da Rede Globo Nordeste para transformar o carnaval de Olinda em um produto midiático, televisivo. O esforço para criar outra estética e outra ética. Afinal, a imagem da multidão se arrastando pelas ladeiras é suja e repetitiva demais para o padrão asséptico, pasteurizado e sem graça da TV brasileira. O carnaval de Olinda é um fato, um acontecimento sem dúvida nenhuma, jamais um produto.</p>
<p>Os executivos fracassaram, esbarraram na saudável teimosia da prefeita comunista e dos carnavalescos tradicionalistas. A Globo já desistiu. Pelo menos, por enquanto.</p>
<p>Sua programação se refugiou numa casa refrigerada e com cenário organizadinho, réplica do próprio estúdio. Tudo sob controle dos seus bons profissionais. A multidão incontrolável, com piadinhas sacanas a toda hora e fantasias inexplicáveis varando a tela limpa da tevê, é um pouco demais para a maior emissora da América Latina aceitar.</p>
<p>A tal Casa do Carnaval é uma metáfora perfeita do papel das Organizações Globo na sociedade brasileira. A Casa é uma ilha da fantasia, um mundo à parte, sem os micróbios da criatividade alheia e do imprevisto. Na bolha, a equipe global tenta reconstruir o mundo à sua imagem e semelhança. O problema é o que o carnaval come solto lá fora, desmentindo a todo momento sua grade de programação. Mais ou menos como a popularidade do presidente Lula, resultado de suas políticas públicas, que contrariam as tentativas do Jornal Nacional de reconstruir o país. Fracassam ambos, o JN e a bolha carnavalesca.</p>
<p>Agora, é a pobre Band que tenta encontrar o caminho da vitória onde a Globo foi derrotada. A vaca da emissora paulistana também está indo para o brejo sem escalas. A motivação dos bandeirantes é outra: acertadamente, o Governo de Pernambuco está investindo na emissora uma nota para garantir a transmissão ao vivo e visibilidade para o carnaval pernambucano.</p>
<p>A motivação é diferente, mas o desafio é o mesmo: embalar o carnaval de rua em produto. Dá até pena.</p>
<p>Este ano puxei o freio de mão na folia. Pulei, mas não exagerei coisa de quem passou dos 40 e fica com os pés doendo. Daí, deu para assistir um pouco de carnaval televisivo, na Band inclusive. O resultado é uma coisa sem graça. Os shows do Marco Zero são uma concessão, algo mais próximo daquilo que as TVs estão acostumadas a colocar no ar. Mas a emissora não passa nem perto da realidade das ruas do bairro, com blocos e mais blocos diferentes desfilando a toda hora, pessoas se divertindo, crianças brincando.</p>
<p>A Band é salva por um repórter inteligente que, ao menos aparentemente, respeita seus entrevistados. O desempenho dos demais é constrangedor, visivelmente não conseguem compreender as diferenças de sotaque e de cultura. A atitude desse pessoal é similar a dos colonizadores britânicos, dispostos a capturar seres exóticos para mostrar a Rainha Vitória. A realeza aqui é a egoísta, alienada e provinciana classe média paulistana, uma turma que conheço dos meus anos em Sampa. Gente que lê Veja e acha uma grande coisa.</p>
<p>Aposto que, sem a grana do Governo do Estado, a Band já teria abandonado sua aventura olindense com o rabo entre as pernas.</p>
<p>Pelo andar da carruagem, os produtores de TV ainda vão passar anos repetindo o mantra de que “o carnaval de Olinda é muito diferente, muito criativo, mas não rende imagens” e “não é bom para a TV”. Significa que não será embalado para produto. O mais curioso é que há uma contradição nisso: um evento de massa indigesto para um meio de comunicação de massa.</p>
<p>O motivo da minha satisfação é que, quando a TV transforma alguma coisa feita pelo povo em mercadoria, transforma tudo que está ao redor. Para servir com ilustração, vou contar uma historinha que escutei na terça-feira de carnaval da boca do meu amigo Edson, carioca de Marechal Hermes e portelense. Edson e sua mulher Ivete, passista da Salgueiro na juventude. O casal não suporta mais o desfile das escolas de samba e decidiram conhecer o carnaval de Olinda.</p>
<p>Edson contou o que sabe e o que já ouviu falar dos bastidores da escolha de um samba-enredo no Rio. É uma coisa grotesca, que nada tem a ver com arte ou folia e sim com corrupção. Para ter o direito de colocar seu samba para concorrer, só isso, um compositor precisa gastar quase R$ 100 mil, grana para comprar dezenas de mesas na quadra da escola nos dias do concurso, para molhar a mão dos músicos e evitar que a bateria atravesse seu samba, comprar jurados.</p>
<p>Quem não tem o dinheiro, arruma patrocinadores que exigem a inclusão do nome de um filho, sobrinho ou do próprio diretor da empresa como parceiro na autoria do samba. Em algumas escolas, o presidente exige que o vencedor pague metade dos direitos autorais que a gravadora Som Livre repassa para a Liga das Escolas de Samba.</p>
<p>Na opinião de Edson, o dinheiro da TV transformou tudo e todos em mercadoria. Em  Olinda e no Recife, ainda não conseguiram.</p>
<p>E acho é pouco.</p>
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		<title>Mais perto do que longe</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jan 2010 00:25:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paciência! Este blog não está abandonado pelo autor. O problema é que estou correndo contra o tempo para concluir as histórias do livro já citado um bocado de vezes aqui. Faltam &#8220;apenas &#8221; 9 (nove) textos e tenho até o final da próxima semana para entregá-los ao pessoal da Via Design, que, vai ter apenas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Paciência! Este blog não está abandonado pelo autor. O problema é que estou correndo contra o tempo para concluir as histórias do livro já citado um bocado de vezes aqui. Faltam &#8220;apenas &#8221; 9 (nove) textos e tenho até o final da próxima semana para entregá-los ao pessoal da Via Design, que, vai ter apenas algumas horas para mandar tudo para a gráfica.</p>
<p>Como se não bastasse, ainda inventaram de fazer um carnaval em Olinda. Vê se pode!</p>
<p>Por isso, sugiro que, por enquanto, as boas almas que ainda frequentam esse espaço virtual procurem um bom livro para ler. Eu juro que volto!</p>
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		<title>Trechos de Juliano</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Jan 2010 16:11:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;- Como podem muitos ser negados? Serão todas as emoções iguais? Ou cada uma tem característica peculiares? E se cada raça tem suas qualidades, não serão elas dadas por um deus? E se não forem dadas por um deus, essas características não seriam mais bem simbolizadas por um deus nacional específico? No caso dos judeus, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-579" title="Juliano Vidal" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Juliano-Vidal1.jpg" alt="Juliano Vidal" width="142" height="212" />&#8220;- Como podem muitos ser negados? Serão todas as emoções iguais? Ou cada uma tem característica peculiares? E se cada raça tem suas qualidades, não serão elas dadas por um deus? E se não forem dadas por um deus, essas características não seriam mais bem simbolizadas por um deus nacional específico? No caso dos judeus, um patriarca mal-humorado e ciumento. No caso dos sírios efeminados e astutos, um deus como Apolo. Ou tomemos os germanos e os celtas, que são aguerridos e ferozes. Será por acaso que adoram Ares, o deus da guerra? Ou será inevitável? Os antigos romanos foram absorvidos pela legislação e pelo governo. Seu deus? O rei dos deuses, Zeus. E cada tem muitos aspectos e muitos nomes, pois há tanta variedade nos céus quanto entre os homens. Alguns perguntam: &#8216;Nós criamos esses deuses, ou eles nos criaram?&#8217; É um debate muito antigo. Seremos nós um sonho da divindade, ou cada um de nós um sonhador separado, evocando sua própria realidade? Embora não se tenha certeza, todos os nossos sentidos nos dizem que existe uma única criação, e que estamos contidos nela para sempre. Ora, os cristãos impõem um mito final e rígido àquilo que sabemos ser variado e estranho. Não, nem mesmo um mito, pois o Nazareno existiu em carne e osso, ao passo que os deuses que adoramos jamais foram homens; são, ao invés disso, qualidades e poderes, que se transformaram em poesia para nossa instrução. Com a adoração do judeu morto, a poesia cessou. Os cristãos desejam substituir nossas belas lendas pelo relatório policial de um rabino reformista. Com esse material impossível, esperam fazer uma síntese final de todas as religiões conhecidas. Agora apropriaram-se também dos nossos dias festivos. Transformaram divindades locais em santos. Tomam emprestados nossos ritos misteriosos, especialmente os de Mitra. Os sacerdotes de Mitra são chamados de &#8216;pais&#8217;, &#8216;padres&#8217;. Então os cristãos chamam <em>seus</em> sacerdotes de padres. Imitam até a tonsura, na esperança de construir novos adeptos com os atavios familiares do culto antigo. Agora, começam a chamar o Nazareno de &#8217;salvador&#8217; e &#8216;aquele que cura&#8217;. Por quê? Porque um dos nossos mais amados deuses é Asclépio, a quem chamamos de &#8217;salvador&#8217; e &#8216;aquele que cura&#8217;.&#8221;</p>
<p><strong>O charlatão Máximo, em conversa com Juliano ainda jovem, estudante de filosfia em Atenas</strong></p>
<p style="text-align: center;">
<strong>*****</strong></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: left;">&#8220;<strong>- </strong>Não é assim que deve se aproximar da divina presença. &#8211; Borrifei água em Oribásio, com ótima pontaria. Ele riu. Meu tio também, pois eu fizera o mesmo com ele. Então, fiquei assustado. Era exatamente assim que nasciam os monstros. Primeiro, o tirano faz brincadeiras inofensivas: borrifa água nos senadores durante o banho, serve pedaços de madeira ao invés de comida aos seus convidados, prega peças em todos ; e não importa o que ele faça, todos riem e o lisonjeiam, acham inteligentes suas osbervações<strong> </strong>mais cretinas. Depois as brincadeiras começam a perder a graça. Certo dia ele acha divertido violentar a mulher de outro homem diante do marido, ou o marido, na frente da mulher, ou torturar os dois, ou matá-los. Quando começa a matança, o imperador não é mais um homem, mas um animal, e já tivemos muitos animais no trono do mundo. Desculpei-me veementemente por ter molhado meu tio. Desculpei-me até por ter molhado Oribásio, embora ele seja como um irmão para mim. Nenhum deles adivinhou o significado daquele súbito acesso de culpa.&#8221;</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Juliano, logo depois de chegar a Constantinopla, já na condição de imperador</strong></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
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		<title>Juliano</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jan 2010 13:39:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nos últimos dias de 2009, no meio daquela correria sem sentido de final de ano, considerei que eu merecia um presente. As semanas que viriam pela frente prometiam ser de muito trabalho, com a chegada dos filhos que moram com a mãe em Tocantins, a obrigação de correr contra o tempo e entregar os textos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-thumbnail wp-image-574" title="Juliano Vidal" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Juliano-Vidal-100x150.jpg" alt="Juliano Vidal" width="108" height="162" />Nos últimos dias de 2009, no meio daquela correria sem sentido de final de ano, considerei que eu merecia um presente. As semanas que viriam pela frente prometiam ser de muito trabalho, com a chegada dos filhos que moram com a mãe em Tocantins, a obrigação de correr contra o tempo e entregar os textos do <em>Um Rio de Gente</em> e a perspectiva de mais demanda por conta do carnaval em Olinda.  Então, resolvi me dar de presente a leitura de <em>Juliano</em>, de Gore Vidal.</p>
<p>Depois de comprá-lo num sebo, deixei o livro curtindo na estante, cevando, enquanto gozava a expectativa da leitura. De vez em quando faço isso com algumas coisas que passo um tempão desejando ler, mas quando estou com ele nas mãos, resolvo esperar mais um pouquinho. Um traço masoquista, provavelmente.</p>
<p>Eu estava duplamente certo. Estou a ponto de enlouquecer de tanto preparar café-da-manhã, arrumar atividades para as crianças, apartar brigas, suportar arengas, além da ansiedade por causa dos prazos. A sorte é que <em>Juliano</em> é realmente show de bola. Só nas três primeiro páginas, já tinha marcado de lápis uma meia dúzia de trechos. Peguei essa mania de rabiscar o que vou lendo por causa do Caótico, antes meus livros permaneciam limpinhos.</p>
<p>Juliano foi o imperador romano que ensaiou uma reação contra o domínio do cristianismo e uma tentativa de revitalizar os cultos aos deuses gregos. O sujeito era filósofo, acreditava que o monoteísmo era uma ameaça ao debate de ideias, à diversidade da natureza e da humanidade. Quando assumiu o poder, tentou enquadrar a máfia dos bispos sem perseguir a liberdade de culto. Acabou vítima de uma conspiração dos galileus, como ele chamava os cristãos. A Idade Média e a intolerância religiosa que é uma das marcas registradas do monoteísmo provou que, em muitas coisas, o imperador estava coberto de razão da cabeça aos pés.</p>
<p>Qualquer dia pretendo publicar aqui alguma elocubração sobre monoteísmo, politeísmo e ideologia, mas hoje vou me concentrar no livro. Tem outro esperando que eu o escreva.</p>
<p><em>Juliano </em>é um romance histórico. Gore Vidal tomou como ponto de partida fatos históricos e costurou a história com sua imaginação. A vida desse imperador é muito bem documentada, apesar do seu governo ter durado pouco.</p>
<p>Vidal não poupa o cristianismo, principalmente porque levanta argumentos teológicos sem se submeter à lógica hegemônica do monoteísmo. Seu protagonista também não escapa da visão crítica e irônica do escritor norte-americano, que é mordaz, por exemplo, quando narra e descreve os rituais que o estudante de filosofia e futuro imperador considerava sagrados. Em um desses ritos, Juliano e um monte de gente entram no mar segurando um porquinho guinchando. O personagem vê beleza e santidade nessa cena ridícula.</p>
<p>Em matéria de ridículo, leitões tomando banho de mar são colocados no mesmo pé de, por exemplo, a convicção de que um monte de ossos de um “santo” pode curar seja lá o que for.</p>
<p>O imperador era um humanista, tinha horror à tirania, era um sujeito de bom coração, justo, porém meio ingênuo, quase abestalhado em sua crença nos sacerdores, oráculos, pitonisas e magos.  Esse abestalhamento, somada à pressa e falta de habilidade para tocar seus projetos, o lascou.</p>
<p>A história é ótima, mas a técnica literária de Vidal faz o livro ficar ainda melhor.  Parte da narrativa é em primeira pessoa: as memórias e os diários de Juliano, que foram parar nas mãos do filósofo Prisco, um sujeito bem pragmático, mas frouxo todo, que não pretende usar o material porque tem medo de se expor numa época em que os cristãos já estão tomaram conta do aparelho do Estado romano e estão por cima da carne seca.</p>
<p>Os comentários de Prisco, de outro velho filósofo, Libânio, e a troca de cartas entre eles completam a estrutura do romance. Tanto Prisco quanto Libânio existiram e tiveram contato com o imperador. Esse último, aliás, escreveu livros sobre Juliano no século IV.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-575" title="Juliano no louvre" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Juliano-no-louvre-112x150.jpg" alt="Juliano no louvre" width="112" height="150" />Gore Vidal é escritor, roteirista de cinema e militante de esquerda, não um gênio da literatura. Em consequência, não experimentei aquela sensação de felicidade e completude que senti ao final de livros de Bolaños, Benedetti, Tchekhov ou Dostoievski. Mas é preciso ser justo: além de ter sido envolvido pela história muitíssimo bem contada, aprendi muito, tanto que consultei diversas vezes o Google, o oráculo moderno, para descobrir imagens do próprio Juliano (ao lado), do seu tio e antecessor, Constâncio, e de lugares como Aquiléia, Sirmium, Sarmácia, Nicomédia e Antióquia. No Aurélio, descobri que &#8220;perifrástico&#8221; é o discurso com muitos rodeios, cheio de voltas; e &#8220;virago&#8221; é o mesmo que machão.</p>
<p>O livro tem uma série de trechos excelentes, que vou transcrever na página <a href="http://www.caotico.com.br/trechos-arretados/">Trechos Arretados</a> nos próximos dias, a medida que tiver tempo para digitar.</p>
<ul>
<li><a href="http://www.caotico.com.br/ao-vivo-do-calvario/"><strong>Para saber mais sobre Gore Vidal, leia a postagem sobre o livro <em>Ao Vivo do Calvário</em></strong></a></li>
</ul>
<p><strong>P.S &#8211; Até o carnaval, a atualização do Caótico permanecerá meia-boca pelos motivos expostos no início desse texto. Na verdade, só aualizei hoje para Samarone não encher mais o saco!<br />
</strong></p>
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