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<?xml-stylesheet type="text/xsl" media="screen" href="/~d/styles/rss2full.xsl"?><?xml-stylesheet type="text/css" media="screen" href="http://feeds.feedburner.com/~d/styles/itemcontent.css"?><rss xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/" xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/" version="2.0"><channel><title>Caótico</title> <link>http://www.caotico.com.br</link> <description>Espaço de leituras,  histórias &amp; especulações | Por Inácio França</description> <lastBuildDate>Tue, 07 Feb 2012 19:41:39 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <xhtml:meta xmlns:xhtml="http://www.w3.org/1999/xhtml" name="robots" content="noindex" /> <atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" type="application/rss+xml" href="http://feeds.feedburner.com/caotico" /><feedburner:info xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0" uri="caotico" /><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="hub" href="http://pubsubhubbub.appspot.com/" /><feedburner:emailServiceId xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0">caotico</feedburner:emailServiceId><feedburner:feedburnerHostname xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0">http://feedburner.google.com</feedburner:feedburnerHostname><item><title>Nuvens vermelhas</title><link>http://www.caotico.com.br/nuvens-vermelhas/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/nuvens-vermelhas/#comments</comments> <pubDate>Tue, 07 Feb 2012 19:41:39 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[Confederação do Equador]]></category> <category><![CDATA[coroa portuguesa]]></category> <category><![CDATA[dom Pedro I]]></category> <category><![CDATA[Funcultura]]></category> <category><![CDATA[literatura brasileira]]></category> <category><![CDATA[Pernambuco]]></category> <category><![CDATA[revolução]]></category> <category><![CDATA[revolução de 1817]]></category> <category><![CDATA[revolução de 1824]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1776</guid> <description><![CDATA[Os livros de História do Brasil usados nas escolas reservam poucos parágrafos às revoluções pernambucanas de 1817 e 1824, com um pouco mais de destaque para esta última, a Confederação do Equador, provavelmente graças à dramaticidade do fuzilamento do frei Caneca. Parágrafos que se prestavam mais à decoreba que à compreensão dos fatos. Pelo menos [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/02/NUVENS_VERMELHAS_1299784557P.jpg"><img class="alignright  wp-image-1777" title="NUVENS_VERMELHAS_1299784557P" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/02/NUVENS_VERMELHAS_1299784557P.jpg" alt="" width="180" height="260" /></a>Os livros de História do Brasil usados nas escolas reservam poucos parágrafos às revoluções pernambucanas de 1817 e 1824, com um pouco mais de destaque para esta última, a Confederação do Equador, provavelmente graças à dramaticidade do fuzilamento do frei Caneca. Parágrafos que se prestavam mais à decoreba que à compreensão dos fatos.</p><p>Pelo menos assim era nos meus tempos de Colégio Salesiano.</p><p>Nas mais de 600 páginas de <em>Nuvens vermelhas,</em> o jornalista, cientista-político e militante comunista Roberto Numeriano dá vida às duas revoluções e aos seus personagens. Mesmo limitado por recursos literários que chegam a ser repetitivos, o romance faz aquilo que horas e mais horas de decoreba não tornaria possível: resgata a história, o debate de ideias da época e a luta política envolvendo as várias forças sociais que se confrontavam no período da independência do País.</p><p>No romance de Numeriano, o frei Caneca é um dos personagens principais, mas ao contar a história das revoluções, o autor não cede à tentação de colocá-lo como centro dos acontecimentos. As forças políticas, com suas contradições internas, são o motor da história.</p><p>É fácil perceber o autor fica à vontade ao narrar os acontecimentos das duas revoluções. Depois de um doutorado em Ciências Políticas e mais de uma década de pesquisas sobre o tema, ele está em seu elemento ao contar os fatos que precederam às revoltas, as ideias que motivaram a rebeldia, os conflitos internos entre os revolucionários e a violenta reação das Coroas portuguesa e brasileira. Esses são os melhores trechos de <em>Nuvens vermelhas</em></p><p>Compreender as relações entre os senhores do açúcar e a coroa portuguesa e, depois da independência, entre esses mesmos senhores e a monarquia brasileira é fundamental para identificar o gosto da sociedade brasileira pelo autoritarismo.</p><p>Da mesma forma, é fácil perceber como essas revoluções, assim como a guerra contra os holandeses e a Praeira de 1849, forjaram a identidade pernambucana, esse orgulho que alguns chamam de pernambucanidade, essa mania de acreditar que são o Capibaribe e o Beberibe que formam o oceano Atlântico, essa insistência em torcer por Santa Cruz, Náútico e Sport e não pelos times da corte.</p><p>Convincente na história e na política, o romance padece na literatura.</p><p>Talvez para não se limitar aos acontecimentos, o escritor resolveu trilhar o caminho do romance histórico, incorporando personagens fictícios como o jovem seminarista e depois frade Antônio Cisneiros apaixonado pela bela Fátima, que seria a filha de Francisco Paes Barreto, governador de Pernambuco, fiel a dom Pedro I e um dos mais poderosos proprietários de terra do Cabo até Alagoas.</p><p>Numeriano se perde no amor dos jovens enamorados. Sobram clichês – como a carta enviada por Antônio, interceptada pelo pretendente oficial – até o desenlace no melhor (ou pior) estilo novela das seis. Dispensável, no mínimo.</p><p>Na tentativa de reconstruir a linguagem da época – essa é uma suposição minha – ele se perde em um sem fim de figuras de linguagem. São incontáveis e repetitivas hipérbole, metáforas, hipérbatos. Ao longo do livro, nunca o vento sopra e balança as árvores, sempre há “as sombras das palmeiras açoitadas por culpas inconfessáveis da ventania”.</p><p>Os personagens não estão simplesmente de cara fechada, mas com olhos onde “flutuavam as lágrimas de uma angústia densa como o negrume da mata em volta, cujos sons e cheiros pareciam se concentrar no espaço luminescente entre as duas redes”. Tampouco convencem as nuvens vermelhas ou “escarlates”, como ele insiste, que pairam misteriosamente sobre o Recife. Só sobre o Recife.</p><p>Arrisco a dizer que, se abrisse mão dos aspectos literários e tivesse se concentrado em contar a histórias das revoluções, ele teria forjado um livro mais compacto, instigante ao ponto de seduzir adolescentes caso fosse parar nas salas de aula como paradidático nas escolas públicas e privadas.</p><p>É preciso compreender, porém, as circunstâncias em que o romance foi publicado Para viabilizá-lo, o autor contou com recursos do Funcultura (o fundo estadual de fomento da cultura) que deve ter determinado valores minguados para o revisor e o ilustrador. Estivesse sob contrato de uma grande editora, é possível que um profissional fosse destacado para podar os excessos e ajudar o autor até mesmo a reescrever alguns capítulos.</p><p>São as virtudes do livro, contudo, que me fizeram perambular pelas ruas do Recife procurando encontrar os locais por onde teriam passado e vivido gente como Pedro Pedroso, Arruda Câmara, Domingos José Martins, Branca Dias, Frei Miguelinho, Padre João Ribeiro. Numa manhã dessas, fui com meu filho reverenciar Frei Caneca visitando aquele esquecido ponto do mapa do Recife onde foi fuzilado o revolucionário que, cedo, compreendeu que nada mudaria sem o povo nas ruas.</p><p>É com imenso respeito que, a partir dessa leitura, piso nas pedras do pátio da igreja de Nossa Senhora do Carmo, epicentro intelectual e ideológico das corajosas revoluções ousaram tentar a construção de um Nordeste menos dependente e mais democrático.</p><p>&nbsp;</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/02/roberto-NUMERIANO.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1778" title="roberto NUMERIANO" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/02/roberto-NUMERIANO.jpg" alt="" width="320" height="215" /></a></p><p>Roberto Numeriano é meu conhecido desde os tempos de militante do velho PCB. Eu na universidade, ele trabalhando como repórter do jornal Vanguarda, de Caruaru. De repente, para deslumbramento de todos nós, jovens e pretensos comunistas comedores de criancinhas, o sujeito lançou um livro pela coleção Primeiros Passos: O que é Golpe de Estado. Ora, não era pouca coisa publicar um livro na mesma coleção que tinha autores como Dalmo Dallari e Marilena Chauí. Depois, o ele fez concurso público e virou servidor do SNI. Isso mesmo, o centro de espionagem política dos governos da ditadura. Corajoso e irônico, esse Numeriano. Ah, é provável que vote nele nas eleições municipais deste ano.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/nuvens-vermelhas/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Como se fosse ontem (sete)</title><link>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-sete/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-sete/#comments</comments> <pubDate>Sun, 29 Jan 2012 18:32:54 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Elocubrações]]></category> <category><![CDATA[Diário Popular]]></category> <category><![CDATA[gago]]></category> <category><![CDATA[gagueira]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[reportagem policial]]></category> <category><![CDATA[repórter]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1764</guid> <description><![CDATA[A gagueira é um precipício. E aquele delegado caía em direção ao fundo do abismo, tentando se agarrar do jeito que dava aos galhos, rochas e raízes. Esforço inútil. Cercado de microfones e câmeras de TV, só o que conseguia eram mais e mais arranhões na alma. A primeira coisa que lhe veio à cabeça [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/gagueira_1.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1765" title="gagueira_1" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/gagueira_1.jpg" alt="" width="180" height="187" /></a>A gagueira é um precipício. E aquele delegado caía em direção ao fundo do abismo, tentando se agarrar do jeito que dava aos galhos, rochas e raízes. Esforço inútil. Cercado de microfones e câmeras de TV, só o que conseguia eram mais e mais arranhões na alma.</p><p>A primeira coisa que lhe veio à cabeça no meio da madrugada, depois de prender os bandidos e encontrar os galpões onde escondiam as dezenas de caminhões roubados para dar destino à carga, foi no interesse que a notícia despertaria na imprensa assim que o dia raiasse.</p><p>Os investigadores riam à toa vislumbrando os poucos segundos de fama no noticiário e a breve ruptura da rotina de crimes insignificantes da delegacia do centro de Diadema. O delegado Sérgio sofria antecipadamente. Conheço bem essa angústia.</p><p>Quando o encontrei, já amargava as conseqüências do ato de sabotagem executado pela própria ansiedade. Agora contava os minutos para que as entrevistas acabassem e ele pudesse engavetar sua vergonha, torcendo para que os editores das emissoras não o sacaneassem e editassem suas falas. Pelo menos as entrevistas não foram ao vivo.</p><p>Enquanto esperava minha vez de entrevistá-lo, outro de ato de sabotagem começou a ser vilmente perpetrado. E eu era a vítima e o vilão.</p><p>“E se eu gaguejar na hora de entrevistá-lo? Ele vai pensar que é gozação”.</p><p>Articular no pensamento uma frase dessas é o que basta para a gagueira se tornar inevitável. Já não era possível escapar e eu sabia disso, mas nos gagos a perspectiva da fatalidade caminha junto com a esperança.</p><p>As equipes de TV afastaram-se para gravar as imagens dos caminhões e não havia nenhum outro repórter de jornal. Sem público, relaxei um tantinho. Era eu e ele. Apresentei-me sem sobressaltos.</p><p>No centésimo de segundo anterior à primeira sílaba da primeira pergunta, me veio a certeza plena e inabalável: “me fudi, vou gaguejar!” Como não dava para ficar calado ali na frente do sujeito – aliás, é sempre tudo tão rápido que o gago nem pensa nessa possibilidade -, fiz o que tinha ido fazer ali:</p><p>- C-c-c-c-co-co-co-como foi que&#8230;”</p><p>É lógico que o sujeito fechou a cara. O problema é que ele era delegado, estava armado e podia me dar voz de prisão. No mínimo, por desacato.</p><p>Ele ficou emputecido, um fúria vermelho-escura, a cor da sua testa. Eu em pânico, provavelmente branco como lençol de motel.</p><p>Fui rápido. Antes que ele abrisse a boca ou me algemasse, abri o jogo:</p><p>- Delegado, não estou brincando. Também sou gago e fiquei nervoso só de pensar que poderia gaguejar na sua frente.</p><p>A frase salvou o dia do sofrido doutor Sérgio. Encontrar um igual, alguém capaz de compreender a angústia que transforma em desespero um momento de reconhecimento profissional, talvez fosse tudo que ele precisasse naquele instante.</p><p>- É mesmo?! Um jornalista gago?! Poxa, deve ser difícil para você, não é?</p><p>Aceitei o convite para o cafezinho em sua sala, li praticamente todos os documentos do caso, dos registros de ocorrência ao inquérito que ele presidia. Conversamos sobre os constrangimentos sem fim causados pelas respectivas gagueiras, o ridículo e a graça (pouca, rala, escassa) de ser gago.</p><p>Meses depois, ele de vez em quando ele costumava ligar para o jornal para me passar alguma informação sobre outros crimes ou operações policiais, mas temia que uma delas pudesse virar manchete e o colocasse novamente diante dos microfones.</p><p>Meus colegas de redação riram muito da possibilidade de me terem de livrar da cadeia por gaguejar. É por isso que tem gente que vivia insistindo para que eu contasse essa história.</p><p><strong>(Revisado em 30 de janeiro de 2012)</strong></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-sete/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>5</slash:comments> </item> <item><title>Pedro e Paula</title><link>http://www.caotico.com.br/pedro-e-paula/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/pedro-e-paula/#comments</comments> <pubDate>Tue, 24 Jan 2012 13:08:30 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[colonialismo]]></category> <category><![CDATA[guerras coloniais]]></category> <category><![CDATA[Helder Macedo]]></category> <category><![CDATA[idioma português]]></category> <category><![CDATA[literatura portuguesa]]></category> <category><![CDATA[Machado de Assis]]></category> <category><![CDATA[Pide]]></category> <category><![CDATA[pós-modernismo]]></category> <category><![CDATA[Salazar]]></category> <category><![CDATA[salazarismo]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1751</guid> <description><![CDATA[Helder Macedo era o nome do autor estampado na capa. E isso não me dizia nada. Nem calculo quantas vezes adiei a leitura, tanto desinteresse amarelou e manchou as páginas do romance. Uma das frequentes rearrumações nas estantes do alto do corredor colocou o livro na minha alça de mira. Era quase impossível sair da [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/PEDRO_E_PAULA_1300709589P.jpg"><img class="alignright  wp-image-1752" title="PEDRO_E_PAULA_1300709589P" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/PEDRO_E_PAULA_1300709589P.jpg" alt="" width="127" height="195" /></a>Helder Macedo era o nome do autor estampado na capa. E isso não me dizia nada. Nem calculo quantas vezes adiei a leitura, tanto desinteresse amarelou e manchou as páginas do romance.</p><p>Uma das frequentes rearrumações nas estantes do alto do corredor colocou o livro na minha alça de mira. Era quase impossível sair da cozinha e dobrar à direita no corredor sem perceber o laranja berrante de sua lombada, espremida entre tantas outras de cores pastéis. Um dia, estiquei o pescoço para recordar seu título: <em>Pedro e Paula. </em>No outro, prometi que iria lê-lo. Um dia. Não sei quando.</p><p>Ano novo, vida nova, hora de ver se o português Helder é bom de bola. É, agora posso garantir. Desprezar a leitura de <em>Pedro e Paula</em> foi um erro grosseiro de um sujeito metido a sabe-tudo, porém profundamente ignorante das letras de além-mar. Havia uma pequena jóia de celulose em casa e eu não sabia.</p><p>A história dos gêmeos Pedro e Paula, nascidos ao fim da II Guerra no Portugal da medíocre ditadura de Antônio Salazar e diferentes em quase tudo, é conduzida por um narrador que, longe de tudo ver e tudo saber, está mais para hesitante que onisciente. Ao longo do livro, o narrador confunde-se com o autor, se transforma em personagem, cumprimenta, janta e faz perguntas à protagonista.</p><p>A estratégia do criativo Macedo garante reforça a verossimilhança literária e deixa pulgas atrás das duas orelhas do leitor. Ficam dúvidas ao final da leitura, mas assim não é a vida?</p><p>Após o ponto final, busco referências na internet (qualquer dia escrevo sobre meu o método de trabalho que desenvolvi para editar esse blog) descubro que <a href="http://criticaecompanhia.com/greg.htm">críticos literários</a>, estudiosos de literatura e outros intelectuais que gostam de botar rótulo em tudo, o classificam como <a href="http://www.ileel.ufu.br/anaisdosilel/pt/arquivos/silel2011/1981.pdf">pós-moderno</a>. Ou, pelo menos, consideram pós-modernos alguns recursos literários utilizados por Macedo.</p><p>Fiquei me perguntando: será que o pós-modernismo nasceu no século XIV? Afinal, na <a href="http://www.caotico.com.br/a-divina-comedia-o-inferno/"><em>Divina Comédia</em></a> Dante também confundia narrador e autor, além de ter recorrido a uma personagem histórica, o poeta Virgílio, e jogado no meio de sua ficção, como também faz o escritor português em <em>Pedro e Paula.</em></p><p>O tempo da narrativa também não é linear. Em todos os capítulos há a sinalização do período em que as ações se passam. Ora, as ações se passam nos anos 60, na juventude dos gêmeos, por exemplo, ora no tempo da narrativa,ou seja, nos final da década de 90.</p><p>E assim ao contar a história de Paula, &#8211; leve, simpática, sensual – e de Pedro &#8211; inteligente, contraditório e ansioso em atender às expectativas dos pais -, fala-se também de um país sob a ditadura, dos primeiros anos livres da repressão e dos alcagüetes e das conseqüências do processo de descolonização na vida das pessoas.</p><p>Dito assim, até parece que os gêmeos, homem e mulher não por acaso, são duas alegorias do passado e do futuro, do reacionário e do democrático, da ambição e do desapego. Nada disso. A literatura desse autor não é simplória. Seus personagens são carregados de humanidade, de contradições e sentimentos. Há gente dentro deles, como diz o narrador/autor/personagem, que garante a verossimilhança e a densidade sem perder tempo com descrições de rostos, aspectos físicos ou ambientes.</p><p>A luta política está presente em todo o romance, com o narrador deixando claro de que lado está, porém se ilusões, como fica evidente no último capítulo, uma espécie de prólogo ou balanção da história.</p><p>Na condição de leitor de autores angolanos e moçambicanos, foi extremamente prazeroso ler algo sobre as guerras coloniais travadas por Portugal na ótica e na sintaxe de um português. Mesmo que Macedo tenha passado sua infância em Moçambique, o ponto de vista desse romance é claramente dos personagens europeus, incluindo um agente da polícia secreta que se refugia no Brasil, “uma espécie de Portugal e colônia num só país”. Definição que vale por algumas teses de sociologia.</p><p>&nbsp;</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/HELDER-MACEDO.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1753" title="HELDER MACEDO" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/HELDER-MACEDO.jpg" alt="" width="221" height="159" /></a></p><p>Helder Macedo é português, escreve em português, mas nasceu na África do Sul em 1935, passou a infância em Moçambique e é professor de literatura brasileira e literatura portuguesa na Inglaterra, onde vive. É mais conhecido como crítico literário e poeta, pois só estreou como romancista em 1991, com <em>Partes da África. </em>É estudioso de Machado de Assis, cuja obra o influencia tanto que os nomes dos personagens <em>Pedro e Paula </em>são claramente inspirados pelos gêmeos Pedro e Paulo do romance <em>Esaú e Jacó.</em></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/pedro-e-paula/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Uma mente brilhante e as muitas formas de narrar</title><link>http://www.caotico.com.br/uma-mente-brilhante-e-as-muitas-formas-de-narrar/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/uma-mente-brilhante-e-as-muitas-formas-de-narrar/#comments</comments> <pubDate>Fri, 20 Jan 2012 00:31:21 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Loucos por livros]]></category> <category><![CDATA[adaptações]]></category> <category><![CDATA[cinema]]></category> <category><![CDATA[Graciliano Ramos]]></category> <category><![CDATA[John Nash]]></category> <category><![CDATA[José Neves Cabral]]></category> <category><![CDATA[narrativa]]></category> <category><![CDATA[prêmio Nobel]]></category> <category><![CDATA[roteiro adaptado]]></category> <category><![CDATA[São Bernardo]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1743</guid> <description><![CDATA[por José Neves Cabral, um dos primeiros amigos que fiz na redações da vida, que generosamente colocou à disposição dos leitores do Caótico um texto de sua lavra, elaborado enquanto cursava uma pós-graduação em Jornalismo.  O filme Uma Mente Brilhante baseado na biografia do matemático americano John Nash é um ótimo exemplo de como a [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong>por José Neves Cabral, um dos primeiros amigos que fiz na redações da vida, que generosamente colocou à disposição dos leitores do Caótico um texto de sua lavra, elaborado enquanto cursava uma pós-graduação em Jornalismo. </strong></p><p><strong></strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/beautiful_mind1.gif"><img class="alignleft  wp-image-1744" title="beautiful_mind1" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/beautiful_mind1-350x218.gif" alt="" width="245" height="153" /></a>O filme <em>Uma Mente Brilhante</em> baseado na biografia do matemático americano John Nash é um ótimo exemplo de como a história pode ser utilizada pelo cinema para retratar um episódio, uma época, mesmo que “maquiada” para potencializar o drama do protagonista. Neste caso, acredito sem fazer juízo de valor, a ficção se apropria de um fato real (a Guerra Fria) para dar mais força narrativa ao enredo. Neste filme, o cinema ultrapassa a fronteira da realidade para oferecer um prato mais apetitoso ao público, sem, no entanto, perder a essência do drama real.<br /> Na história que nos é apresentada, John Nash (interpretado por Russell Crowe) é este herói, enquanto o mal é a esquizofrenia paranóica, doença que o persegue durante todo o enredo e é derrotada pela racionalidade do matemático.</p><p>Baseado na biografia de John Nash escrita pela jornalista Sylvia Nasar, professora de Jornalismo da Columbia University, o drama se desenrola no período mais forte da Guerra Fria – tempo marcado pela ameaça de um conflito nuclear entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, entre as décadas de 50 e 80. </p><p>O perigo de uma guerra arrastou os dois países a uma disputa que os levou a investir bilhões de dólares na construção de armas e no desenvolvimento de tecnologias para fins bélicos. Eis aí, um cenário para a pressão sobre cientistas e matemáticos a fim de novas descobertas.</p><p>Por ter uma mente privilegiada para os números e ao mesmo tempo sujeita ao desenvolvimento de uma patologia grave, o matemático “absorveu” a pressão para criar uma fantasia em cima daquela realidade. Do inofensivo amigo Charles, companheiro de quarto na Universidade de Princeton, e a menininha com quem costumava conversar, ele passou a ter “contato” com um agente do FBI que o “contratara” para decodificar mensagens de agentes sov iéticos infiltrados nos EUA.</p><p>O seu drama se agrava tanto que ele é levado a internamentos e, às vezes, a comportamentos violentos. Após um desses surtos, é acometido por “um choque de racionalidade” que o ajuda a discernir entre os amigos reais e os fantasmas fabricados pela própria mente.</p><p>“Ela não envelhece, ela não envelhece”, conclui o protagonista, na cena em que começa a dar a volta por cima no filme, após viver mais uma crise e perceber que sua esposa, Alicia (Jennifer Connely), entrara no carro com o objetivo de ir chamar os médicos a fim de interná-lo, novamente, numa clínica para doentes mentais onde Nash sofrera várias sessões de choques elétricos anteriormente.</p><p>Mas quem não envelhece?</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/mentebrilhante.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1745" title="mentebrilhante" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/mentebrilhante-237x350.jpg" alt="" width="142" height="210" /></a>A personagem que não envelhece e sequer tem nome no filme é uma menina (de aproximadamente 10 anos) com a qual Nash costumava conversar. A criança é apenas mais um dos fantasmas que acompanham o matemático e os espectadores durante a maior parte do filme, uma vez que, desde o início da trama, o roteiro nos apresenta esses “amigos” como reais, o que considero uma ótima ideia do diretor, Ron Howard, e do roteirista, Akiva Goldsman, pois quem assiste ao filme desde o início enxerga a tudo pelos olhos do protagonista.</p><p>E acredita no que ele vê.</p><p>Em sua reação ao constatar que a menina com quem conversava havia anos não envelhece, John Nash enxerga a saída para retornar ao mundo real. A racionalidade do matemático se impõe à fantasia do homem e o ajuda a administrar a doença, uma vez que os fantasmas continuam aparecendo, mas ele sabe que são fantasmas, e assim passa a desprezá-los.</p><p>Mas até esse momento de mudança do filme, Nash sofre e o público sofre junto, pois identifica-se com o protagonista.</p><p>Daí o choque da nossa descoberta quando Nash é conduzido a uma clínica psiquiátrica e o médico comunica a Alicia o diagnóstico.</p><p>Até então o espectador é levado a acreditar que ele tinha razão e que realmente estava sendo perseguido por causa do trabalho que desenvolvia para o FBI. A esposa, porém, vai investigar o endereço das correspondências que o marido enviava e constata que Nash passou anos escravo de uma fantasia.</p><p>Nesta trama é possível perceber a influência da história real sobre o cinema e como a Sétima Arte se apropria da realidade para maquiá-la e, a partir daí, tornar-se mais dramática, atraente, vendável&#8230;</p><p>Exemplo: na biografia do protagonista, feita por uma jornalista, os personagens criados por Nash, no filme, não existiam. Eles foram incluídos como uma forma de potencializar a doença ou evidenciar a fantasia de forma mais clara. São metáforas usadas com didatismo para explicar melhor os sintomas da doença aos espectadores.</p><p>Neste aspecto, a versão do cinema se desvirtua da biografia feita por Sylvia Nasar. No livro, a jornalista diz que documentou sua narrativa, lançando mão de fontes primárias para retratar com fidelidade os detalhes da doença e do drama do protagonista. Para isso, conversou com professores e alunos que mantiveram estreita convivência com John Nash. Além disso, colheu depoimentos do próprio e da esposa.</p><p>Já o filme investiu em recursos ficcionais, mesmo seguindo a ordem cronológica do livro. O roteirista e o diretor, usando uma ferramenta que é própria do cinema, lançaram mão do efeito Guerra Fria, inventando o recrutamento de Nash pelo FBI e também o agente Parcher, exatamente o “fantasma” que mais incomoda o matemático. Outra ficção é o código dos soviéticos que foi decodificado pelo professor.</p><p>No livro, Sylvia Nasar relata que Nash trabalhou com decifração de códigos, pois tinha interesse em descobrir comunicação com extraterrestres. Ela atesta, porém, que este foi um trabalho que não teve grande relevância. Ele também prestou serviços, como matemático, ao Exército no início da carreira. A narrativa cinematográfica pegou essa deixa para se inspirar, oportunamente.</p><p>Assim como inventa cenários e situações, o cinema também é capaz de omitir fatos para “dourar a pílula” da história que deseja contar, a teoria do “E foram felizes para sempre”. Apesar da brilhante e real declaração de amor após receber o Nobel, em 1994, John Nash separou-se de Alicia em 1963, de acordo com o livro, por iniciativa dele. Mas, em 2001, os dois voltaram a se casar.</p><p>No livro, a autora relata que, mesmo separados, a mulher continuou dando assistência ao ex-marido e contribuindo para que administrasse a doença. Ao não registrar a separação, a narrativa cinematográfica pode estar apenas nos dizendo: “O importante é que eles sempre estiveram juntos!”. É uma interpretação, legítima talvez, uma forma de sintetizar o que aconteceu em uma vida, mas não é o fato ocorrido na realidade, como registrou o texto jornalístico da autora do livro. Na cronologia da vida do casal, eles estavam oficialmente separados entre 1963 e 2001.</p><p>Não seria capaz de criticar o roteirista ou o diretor por terem omitido a separação, até porque na relação entre um casal nem sempre o afastamento oficial é determinante para o fim do amor. Se eles voltaram, então&#8230; E surge aí mais uma questão que envolve a diferença entre a narrativa cinematográfica e a jornalística, para mim, uma das grandes lições do livro e de tudo o que discutimos nesta disciplina: o jornalismo registra fatos históricos ou cotidianos com a obrigação de descrevê-los com fidelidade; o cinema se vê obrigado a ir mais longe, a contar ou recontar os fatos preservando sua essência, mas buscando enriquecê-los com imagens, personagens e narrativas mais atraentes para quem vê. É a ferramenta que a arte nos oferece para pintar a históri a.</p><p>Outro exemplo dessa diferença é o fato de, no livro, a escritora registrar em detalhes uma aventura amorosa do protagonista com uma enfermeira. A relação gerou um filho, John David Stier, em 1953. John Nash, porém, não deu apoio material à amante nem ao filho. O roteirista e o diretor “esquecem” o fato, assim como “apagam” uma suposta relação homossexual entre o protagonista e um estudante. É provável que tenham evitado os registros temendo diminuir a força do personagem (ou desvalorizar o “produto?”), pois a aposta era focar no enredo de “vender” um herói em que o público – muitas vezes preconceituoso e conservador, reconheçamos – não encontrasse “defeitos” no personagem central em relação ao que considera “valores morais”.</p><p>Escolhi esse filme por achar que ele evidencia bem essa diferença. O jornalismo tenta ser matemático. Dois mais dois igual a quatro. No cinema, a narrativa não é obrigada a ser tão fiel à realidade. É alvissareiro, porém, que tente preservar a essência da história que pretende contar. Um exemplo disso é a cena em que John Nash sofre uma espécie de “buillying” dentro da universidade, sendo ridicularizado por estudantes. É uma cena rápida, mas que nos dá a ideia precisa dos constrangimentos que deve ter passado (talvez muito maiores e mais demorados até).</p><p>Produzido nessa fronteira entre o jornalismo preciso da escritora e o roteiro ficcional, o filme se apoia na fórmula estrutural de enredo que norteia o cinema americano e influencia meio mundo: alguém que sofreu, mas venceu o inimigo (neste caso a doença), ganhou o Nobel e foi “feliz para sempre” com a sua amada.</p><p>O romantismo é um produto que vende. E muito.</p><p>Impossível, porém, encerrar este texto sem refletir sobre o filme <em>São Bernardo</em> (visto em sala de aula), baseado em livro de Graciliano Ramos, escritor alagoano, comparando-o a <em>Uma Mente Brilhante</em> e observando as diferenças de suas propostas.</p><p><em>São Bernardo</em> é um romance construído com todos os personagens ficcionais. No entanto, é de grande interesse histórico e jornalístico por retratar em cenário, relações sociais e econômicas uma época da nossa história, principalmente em âmbito regional. <em>Uma Mente Brilhante</em>, neste aspecto, apenas usa o contexto histórico da Guerra Fria para apimentar ou temperar um drama pessoal, narrativa válida, reafirmo. Se todos os personagens de São Bernardo são ficcionais, as relações sociais e econômicas não. Existiram. E neste aspecto a literatura cumpre esse papel jornalístico para a história. Ao produzir o filme, o cinema acabou sendo fiel à obra ficcional. Não precisou inventar nem cortar personagens, porque a narrativa literária já entregou o enredo pronto, diferente de <em>Uma Mente Brilhante</em> em que foi preci so o “verniz” do roteirista para torná-lo mais palatável. Coube a quem adaptou <em>São Bernardo</em> apenas o trabalho de sintetizar diálogos e passagens a fim de atender aos parâmetros de tempo de uma produção cinematográfica.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/uma-mente-brilhante-e-as-muitas-formas-de-narrar/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>O poeta inseguro e o leitor voraz</title><link>http://www.caotico.com.br/o-poeta-inseguro-e-o-leitor-voraz/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/o-poeta-inseguro-e-o-leitor-voraz/#comments</comments> <pubDate>Sun, 15 Jan 2012 19:02:40 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Elocubrações]]></category> <category><![CDATA[Arsênio Meira]]></category> <category><![CDATA[Arsênio Meira Júnior]]></category> <category><![CDATA[livro]]></category> <category><![CDATA[poemas]]></category> <category><![CDATA[Poesia]]></category> <category><![CDATA[prelo]]></category> <category><![CDATA[Samarone Lima]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1740</guid> <description><![CDATA[Samarone Lima é um escriba com razoável experiência acumulada, causa e conseqüência de quatro livros publicados. A prosa não o intimida. Ao contrário, ele sente-se seguro entre parágrafos, orações intercaladas e períodos extensos. Com a poesia é diferente. O escritor autoconfiante é um poeta tímido, inseguro. Há anos, mantêm dois blogs, no Estuário estão suas crônicas e [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/samarone_e_arsenio.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1741" title="samarone_e_arsenio" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/samarone_e_arsenio-350x262.jpg" alt="" width="245" height="183" /></a>Samarone Lima é um escriba com razoável experiência acumulada, causa e conseqüência de quatro livros publicados. A prosa não o intimida. Ao contrário, ele sente-se seguro entre parágrafos, orações intercaladas e períodos extensos. Com a poesia é diferente. O escritor autoconfiante é um poeta tímido, inseguro.</p><p>Há anos, mantêm dois blogs, no <a href="http://www.estuario.com.br/" target="_blank">Estuário</a> estão suas crônicas e um público cativo. <a href="http://www.quemerospoemas.blogspot.com/" target="_blank">Quemerospoemas.blogspot.com</a> é quase clandestino. Se ele não o esconde, pelo menos não o divulga. Na falta de alguém capaz de pesar e repesar seus versos, de afirmar com sinceridade o que dava ou não para ser publicado, um livro de poesias parecia um projeto impossível.</p><p>Arsênio Meira Júnior lê poesia desde criança. Sua mãe, uma jovem cheia de sonhos dos anos 60, o apresentou a Drummond, Maiakovski, Vinícius e, principalmente, Ferreira Gullar. Adolescente, sonhava em escrever, escrever e escrever sem parar. Quase cursou Jornalismo, mas o pragmatismo falou mais alto aos 17 anos e decidiu pelo Direito, herdando, além do nome, parte da credibilidade construída pelo pai,</p><p>Sujeito reservado, caseiro, se dá ao direito de poucas piadas, todas fartas de uma autoironia impiedosa. Afirmar que sua maior contribuição foi queimar os poemas que cometeu na juventude é a anedota mais recorrente do seu repertório. Desde então, lê poesia quase sem interrupções, sonhando com a vida entre letras, o universo que abdicou. Lembra até o primeiro livro que ganhou – <em>Barulhos</em>, de Gullar – e o primeiro que comprou – <em>A rosa do povo</em>, de Drummond.</p><p>A internet juntou o poeta inseguro ao leitor ávido.</p><p>Eles jamais tinham se visto, mas foi Arsêrnio quem ajudou a selecionar e a organizar os poemas do livro de estreia do poeta Samarone, <em>A praça azul/Tempo de vidro</em>, prestes a sair da gráfica nos próximos dias, mas com lançamento previsto para o início de março por sugestão minha, afinal janeiro e fevereiro não é mês de lançar livro que se preze.</p><p>O leitor colocou um pé no mundo dos livros, o poeta encontrou o olhar crítico capaz de enxergar suas próprias qualidades e as inevitáveis deficiências.</p><p>“Nunca entendi a insegurança de Samarone. Ele é do ofício. Além do mais, não conheço nenhum poeta novo, do século XXI, com o ardor, a potência lírica expressa, por exemplo, em <em>Tempo de vidro</em>”, questiona-se Arsênio.</p><p>Samarone responde: “A poesia é, para mim, ficar exposto em grau máximo. Meus poemas são autobiográficos e eu não gostaria de expor minha história e minha família em versos ruins. E tem mais: detesto poesia ruim, então não suportava a ideia de publicar um livro ruim de poesia”.</p><p>De blog em blog, Arsênio descobriu a página dos poemas semi-clandestinos do escritor. O ponto de partida foi uma consulta ao Google com a palavra-chave “Maigret”, o personagem dos romances policiais do belga Georges Simenon. “Cheguei a um texto escrito por você, Inácio, no <a href="http://www.caotico.com.br/" target="_blank">Caótico</a>, de lá esbarrei no Estuário de Samarone, então finalmente achei o site de poemas”.</p><p>Arsênio deixou rastros. Em todos os sites, comentou os textos publicados. Samarone seguiu as pistas:</p><p>“Os comentários dele nunca eram simplesmente ‘gostei’ ou ‘não gostei’. Ele sempre fazia ligação com outros referências. Percebi que ele estava lendo poemas antigos, publicados assim que criei o blog. Era um leitor que lia poesia, que poderia separar, selecionar os poemas, opinar com isenção e sem melindres, já que nem amigos éramos, aliás sequer nos conhecíamos”.</p><p>Trocaram e-mails e o convite foi feito. O leitor topou na hora.</p><p>O método de trabalho foi desenvolvido com a ajuda da internet, do gosto pelo futebol e muita sinceridade. Arsênio comentava os poemas, explicava as razões das escolhas e dos descartes, mas a opinião final sempre foi do autor.</p><p>“Nossas discussões por e-mail sempre foram debates francos, com opiniões claras e sem constrangimentos. Quando ele queria deixar alguma coisa boa de fora, eu escrevia coisas do tipo: ‘Sama, você vai deixar de fora o artilheiro do time e o goleiro paredão. Não faça isso, a torcida te mata’.”</p><p>Samarone diz que, um dia, iria criar coragem para publicar, mas os conhecimentos, a sensibilidade e, mais do que isso, a disposição de Arsênio em atuar como organizador (ou curador) foram fundamentais para adiantar o livro em, pelo menos, uma década.</p><p>O resultado da parceria leitor/autor recebeu tratamento gráfico e visual da Paés. São, a bem da verdade, dois livros em um só volume. <em>A praça azul </em>reúne 33 poemas dispersos. <em>Tempo de vidro </em>é um poema longo, com teor autobiográfico bem mais nítido. Segundo Arsênio, é um poema que “justifica um livro só para ele, onde as fraturas estão expostas de modo que só o poeta pode expor. Ezra Pound bate palmas”.</p><p>&nbsp;</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/o-poeta-inseguro-e-o-leitor-voraz/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>8</slash:comments> </item> <item><title>Ilusões perdidas</title><link>http://www.caotico.com.br/ilusoes-perdidas/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/ilusoes-perdidas/#comments</comments> <pubDate>Thu, 12 Jan 2012 15:47:31 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Loucos por livros]]></category> <category><![CDATA[Balzac]]></category> <category><![CDATA[clássicos]]></category> <category><![CDATA[literatura francesa]]></category> <category><![CDATA[realismo]]></category> <category><![CDATA[realismo crítico]]></category> <category><![CDATA[século XIX]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1732</guid> <description><![CDATA[por Dimas Lins Tenho me tornado um desses leitores assíduos dos clássicos da literatura mundial. Comecei tarde, é bem verdade, mas consegui, por fim, reunir uma lista de livros de grandes escritores e me propus a lê-los com a atenção que a esta altura de minha vida me permito fazê-lo. Já não sou um jovem [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://www.dimaslins.com/">por Dimas Lins</a></strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/ilusões.jpg"><img class="alignright  wp-image-1733" title="ilusões" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/ilusões-227x350.jpg" alt="" width="145" height="226" /></a>Tenho me tornado um desses leitores assíduos dos clássicos da literatura mundial. Comecei tarde, é bem verdade, mas consegui, por fim, reunir uma lista de livros de grandes escritores e me propus a lê-los com a atenção que a esta altura de minha vida me permito fazê-lo. Já não sou um jovem e debutante leitor, por isso, não tenho pressa. Percebi que é preciso saborear as páginas de um bom livro, como se saboreia um bom vinho, e observar, para satisfazer curiosidades pessoais, os aspectos que envolvem a criação, o contexto da época em que se passa a narrativa, além de capturar detalhes da vida e obra de seu autor.</p><p>Os clássicos abriram para mim novas perspectivas e contribuíram na criação de alguns escritos pessoais, pois endossaram o meu foco na alma humana. Tenho cá pra mim que os grandes romancistas tinham como matéria-prima o infortúnio e, ainda que eu tenha o hábito de também me utilizar da mesma substância em alguns de meus contos – mantidas, evidentemente, as devidas proporções – sinto uma comoção e um inexplicável desejo de um final feliz para as personagens centrais desses autores, embora compreenda que tal querer, se de algum modo fosse satisfeito, provavelmente não daria aos seus livros a condição que os elevou a categoria dos clássicos.</p><p><em>Ilusões Perdidas</em>, do romancista francês Honoré de Balzac, é um desses livros que expõe a ambição desmedida, a miséria, a corrupção social, o interesse pessoal acima dos interesses coletivos e a prevalência do dinheiro sobre os valores morais. É um perfeito retrato social de sua época e um estudo de costumes da França do século XIX, cuja construção só foi possível, porque duas das principais personagens, Lucien Chardon de Rubempré e David Séchard, dividem entre si experiências vividas pelo próprio Balzac que, como o primeiro foi poeta e escritor e, como o segundo, investiu na carreira de editor e impressor de livros.</p><p><em>Ilusões Perdidas</em> foi publicado em três partes, no período de 1837 a 1843: <em>Os dois poetas</em>, <em>Um grande homem da província em Paris</em> e <em>Os sofrimentos do inventor</em>. Na obra, apresentam-se Lucien de Rubempré e David Séchard, cunhados e amigos sonhadores, duas almas ingênuas, embora um seja o contraponto do outro, porquanto ocorre a corrupção do caráter do primeiro em oposição a imutabilidade do feitio moral do segundo, apesar das provações.</p><p>David torna-se sucessor nos negócios do pai a um custo demasiadamente elevado, já que o velho, um homem extremamente devotado ao dinheiro, miserável e avarento, vende ao próprio filho os maquinários ultrapassados de sua tipografia a preços exorbitantes, deixando-o em difícil situação financeira. David é o oposto do pai, homem singular, portanto, de natureza generosa, assim como sua bela esposa Ève, irmã de Lucien, mulher altiva que compartilha com o marido o desejo de uma vida calma e distante do cinismo da aristocracia de Angoulême. David Séchard não é mais que um pequeno impressor sem tino comercial para enfrentar a concorrência e, por isso, torna-se presa fácil nas mãos de seus inimigos, tão logo eles tomam conhecimento de suas pesquisas na produção de um novo tipo de papel, bem mais barato que o comercializado em toda a Europa e fonte provável de uma grande fortuna.</p><p>Contudo, é através da trajetória de Lucien Chardon de Rubempré que Balzac empareda a sociedade parisiense revelando os jogos de interesse da aristocracia, do mundo literário, teatral e jornalístico. A partir da frase do personagem Vernou, editor de um jornal parisiense, dita ao jovem Lucien, compreende-se a deturpação do meio jornalístico do século XIX. Quaisquer semelhanças com os dias atuais seriam meras coincidências?</p><p>“Somos comerciantes de frases, e vivemos de nosso comércio. Quando o senhor desejar fazer uma grande e bela obra, um livro enfim, ali sim poderá colocar suas ideias, sua alma, e ela se apegar, defende-la; mas os artigos lidos hoje, esquecidos amanhã, valem apenas, a meus olhos, o que se paga por eles. Se o senhor dá importância a tais tolices, fará então o sinal da cruz e invocará o Espírito Santo para escrever um prospecto.”</p><p>Lucien, ao mesmo tempo ingênuo e ambicioso, apaixona-se pela senhora de Bargeton, mulher mais velha, casada com uma marionete e dama mais festejada da sociedade local, e parte com ela para Paris em busca de conquistas e glórias, mas não demora, logo é abandonado por sua protetora por força de convenções sociais e senso de autopreservação. Na mais profunda miséria, o poeta é acolhido pelo cenáculo, reunião de homens magnânimos, através de Daniel D’Arthez, um pequeno gênio literário, mas prefere o caminho rápido da ascensão social, apesar das advertências dos verdadeiros amigos. Lucien torna-se jornalista e corrompe-se, manipulando verdades e mentiras, através de seus brilhantes e espirituosos artigos sobre o teatro, as obras literárias e a aristocracia parisiense. É nessa fase do livro que Balzac faz a sua maior crítica social: a hipócrita tirania dos jornais, a “camaradagem” dos jornalistas, seus hábitos financeiros, a cobrança de artigos na forma de chantagens ou extorsões, no ataque sistemático de seus opositores com toda a sorte de zombarias e charlatanismos. A crítica de Honoré de Balzac se estende às gentes do teatro e aos livreiros, a quem pessoalmente entrou com uma ação por conta de um de seus livros (<em>O lírio do vale</em>, romance de1835 a 1836).</p><p>A queda de Lucien é tão meteórica quanto o seu sucesso e o próprio reconhecimento de sua falha de caráter se abre como o desabrochar de uma rosa numa carta de despedida que escreve à sua família, depois de tantos males causados.</p><p>“Certa noite, jantávamos entre amigos, no Rocher de Cancale. Entre mil gracejos que então trocávamos, aquele diplomata nos disse que certa jovem pessoa que víamos, com espanto, permanecer solteira estava doente de seu pai. Desenvolveu-nos então sua teoria sobre as doenças de família. Explicou-nos como, sem tal mãe, tal casa teria prosperado, como tal filho havia arruinado seu pai, como tal pai havia destruído o futuro e a consideração de seus filhos. Embora sustentada com risos, essa tese social foi apoiada, em dez minutos, com tantos exemplos, que fiquei impressionado. Essa verdade compensava todos os paradoxos insensatos, mas espirituosamente demonstrados, com que os jornalistas se divertem entre eles, quando não têm uma pessoa a quem mistificar. Pois bem! Sou a criatura  fatal de nossa família. Com o coração pleno de ternura, agi como um inimigo. A todos os seus devotamentos, respondi com males. Enquanto eu levava em Paris uma vida sem dignidade, repleta de prazeres e de misérias, tomando a camaradagem por amizade, deixando os verdadeiros amigos por pessoas que queriam e deviam explorar, esquecendo-me e não me lembrando de vocês senão para lhes causar mal, vocês seguiam o humilde caminho do trabalho, indo ao encontro, penosa mas seguramente, da fortuna que procurava tão loucamente surpreender. Enquanto vocês se tornavam melhores, eu introduzo em minha um elemento funesto”</p><p><em><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/ilusões-balzac04.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-1734" title="ilusões balzac04" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/ilusões-balzac04-138x150.jpg" alt="" width="138" height="150" /></a>Ilusões perdidas </em>é um livro magnífico e verdadeiramente surpreendente pela complexidade da história e pela interligação dos personagens com o restante da obra de Honoré de Balzac. Dono de um universo de mais de duas mil personagens, cem livros, dos quais contam o conjunto de <em>A Comédia Humana</em>, com oitenta e oito títulos, dentre os quais <em>Ilusões Perdidas</em>, Balzac deixou, provavelmente, o maior legado literário dentre todos os escritores. E pensar que seus pais estipularam um prazo de dois anos para que ele fornecesse provas de sua vocação literária.</p><p>Atolado em dívidas, tal qual seus personagens, Balzac só foi capaz de saldá-las após a sua morte. Foram-se os anéis, mas ficou, ao invés dos dedos, uma obra grandiosa para a humanidade.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/ilusoes-perdidas/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>Preconceito linguistico – o que é, como se faz</title><link>http://www.caotico.com.br/preconceito-linguistico-o-que-e-como-se-faz/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/preconceito-linguistico-o-que-e-como-se-faz/#comments</comments> <pubDate>Sun, 08 Jan 2012 17:18:33 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Loucos por livros]]></category> <category><![CDATA[educação]]></category> <category><![CDATA[ensino fundamental]]></category> <category><![CDATA[ensino médio]]></category> <category><![CDATA[escola]]></category> <category><![CDATA[gramática]]></category> <category><![CDATA[linguista]]></category> <category><![CDATA[linguistica]]></category> <category><![CDATA[português]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1727</guid> <description><![CDATA[por Paulo Sérgio Araújo Prestem bem atenção às fotos que estão na capa e no verso do livro “Preconceito Linguístico – O que é, como se faz”, publicado pela Edições Loyola e já em sua 54ª edição 2011, de Marcos Bagno. São as mesmas pessoas, com 30 anos de diferença entre as fotos. Como vocês [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/preconceito-linguistico.jpg"><img class="alignright  wp-image-1728" title="preconceito linguistico" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/preconceito-linguistico.jpg" alt="" width="155" height="216" /></a></strong></p><p><strong>por Paulo Sérgio Araújo</strong></p><p>Prestem bem atenção às fotos que estão na capa e no verso do livro “<em>Preconceito Linguístico – O que é, como se faz”</em>, publicado pela Edições Loyola e já em sua 54ª edição 2011, de Marcos Bagno. São as mesmas pessoas, com 30 anos de diferença entre as fotos. Como vocês descreveriam o casal e o filho ali estampados? Volto ao assunto no final do texto</p><p>&nbsp;</p><p>&#8212;***&#8212;</p><p>Inicio expondo minha ignorância na ciência da Pedagogia, Letras e afins. Minha intervenção é de um leigo que procura respostas, jamais querendo me contrapor a um doutor em Língua Portuguesa, como é o autor.</p><p>O livro foi publicado a primeira vez em 1999 e, pelo número de edições, já se vê que nem de longe é um assunto novo. Eu mesmo já tinha lido artigos de Marcos Bagno na “extinta” Caros Amigos (extinta para mim, pois o que antes era uma grande revista com viés de esquerda, com a morte do editor Sérgio de Souza em 2008, tornou-se um panfleto ideológico pró-governos autodenominados de esquerda – pelo menos até enquanto tive estômago para ler o periódico) e que suas posições sempre me pareceram um tanto de destilar de ódio e pedantismo.</p><p>Normalmente, o alvo principal era Pasquale Cipro Neto, um dos mais conhecidos “professores de Português” no Brasil, pelas suas aparições na mídia. Quais os motivos, imaginava eu, de alguém ser classificado como pernicioso por Marcos Bagno apenas por dizer que determinada construção só poderia ser aceita no linguajar cotidiano e não na linguagem formal? Qual seria o pecado de ensinar que “me empreste seu caderno” não seria correto do ponto de vista da gramática formal, que exige “empreste-me seu caderno?”.</p><p>No começo de 2011, essa discussão, que eu desconhecia &#8211; e que suponho não existia para outros leigos como eu &#8211; veio à tona quando se descobriu que o MEC tinha adotado um livro (Heloísa Ramos, <em>Por uma vida melhor</em>, Coleção Viver e Aprender) em que restava escrito que, por exemplo, a frase “Nós pega o peixe” não estaria errada; dependeria da ocasião adotada, o conceito de certo-errado passava a ser substituído por adequado-inadequado.</p><p>Transcrevo abaixo trecho do livro <em>Por uma vida melhor</em>, que aponta, mas não esclarece em sua plenitude a questão:</p><p>&nbsp;</p><p style="text-align: left;">“&#8217;Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado&#8217; (&#8230;) Você pode estar se perguntando: &#8216;Mas eu posso falar ‘os livro’?</p><p style="text-align: left;"><strong>Claro que pode</strong>. Mas que fique atento, porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz que o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção para todas formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião&#8221;.</p><p>De tudo que li à época, confesso que não consegui compreender como uma construção tão equivocada com a apontada poderia estar correta, até que, o colégio (particular e com fama de rígido e tradicional) em que minhas filhas estudam indicou o livro de Marcos Bagno para o ano letivo de 2012. Pimba! Meu coração de pai disparou e, tão logo adquiri a obra, enfrentei-a com grande interesse, inclusive fazendo anotações ao longo da leitura.  E somente após esta é que pude compreender o que dizia e diz Marcos Bagno e quem defende “Nós pega o peixe”.</p><p>Vou transcrever trechos do livro de Bagno, sempre entre aspas, para que não me acusem de alterações técnicas na proposta nele contida.</p><p>O autor não esconde que ninguém deve “se espantar com o tom marcadamente politizado de muitas das minhas afirmações neste livro”, já que a gramática “passou a ser um instrumento de poder e de controle social, de exclusão cultural” e que “o preconceito linguístico está aí, firme e forte. Não podemos ter a ilusão de querer acabar com ele de uma hora para outra, porque isso só será possível quando houver uma transformação radical do tipo de sociedade em que estamos inseridos”. Considerando que ele chega a citar Gramsci e Spinoza, além de apontar críticas ao ex-presidente FHC (que fetiche!), o autor não mentiu nas afirmações transcritas; mesmo assim procurei afastar a política partidária ao escrever essas considerações, até porque o autor também critica Aldo Rebelo pelo projeto de lei que pretendia defender a Língua Portuguesa contra estrangeirismos, ou seja, a metralhadora atira sem salvaguardas ideológicas.</p><p>Se tivesse poder para resumir a obra, diria que ela diz que é necessário um novo enfoque no ensino da língua nacional, que a gramática surgiu bem depois da língua falada e que esta, sempre atualizada, não pode ser limitada por aquela. Não haveria erro, haveria inadequação. Tem defesas técnicas e também com fatos para seus argumentos. Língua, gramática e ortografia são coisas diversas! É uma luta entre linguistas e gramáticos, categorias que jamais eu soube existir e, melhor, briga que nunca imaginaria existir!</p><p>Segundo o livro, as barbaridades são oriundas de “fósseis gramaticais” e “dinossauros linguísticos” que se aferram às normas rígidas da gramática e desprezam os linguistas, estes os cientistas do idioma, algo como sociólogos ou antropólogos da linguagem. Ao aluno muito melhor seria aprender o letramento, saber ler, compreender e escrever, do que se apegar a regras rígidas e na maioria das vezes ultrapassadas ou nunca usadas das gramáticas.</p><p>“Não se deve ensinar gramática na escola”, grita Marcos Bagno, pois “o ensino da gramática normativa mais estrita, a obsessão terminológica, a paranóia classificatória, o apego à nomenclatura – nada disso serve para formar um bom usuário da língua em sua modalidade mais prestigiada, falada ou escrita”. “E então? O que pretendemos formar com nosso ensino: motoristas da língua ou mecânicos da gramática? Devemos insistir nos componentes hard ou devemos dar preferência ao bom manejo dos soft? Nós, sim, professores, temos que conhecer profundamente o hardware da língua, a mecânica do idioma, porque nós somos os instrutores, os especialistas, os técnicos. Mas não os nossos alunos. Precisamos, portanto, redirecionar todos os nossos esforços, voltá-los para a descoberta de novas maneiras que nos permitam fazer de nossos alunos bons motoristas da língua, bons usuários de seus programas”.</p><p>Quando me vejo incluído muito mais na categoria de “motorista de língua” que “mecânico de gramática”, penso que o livro tem razão. A professora Flávia Suassuna, <a href="http://www.caotico.com.br/na-linha-do-tiro-um-olhar-lucido-sobre-o-enem/#more-1637">em belíssimo texto publicado também aqui no Caótico</a>, fez menção a problema idêntico no ensino da Física já na década de 50, quando estudantes sabiam muito mais as fórmulas do que os fenômenos da Física que essas fórmulas descreviam.</p><p>Sendo eu advogado, bem sei que inúmeras são as leis que não mais refletem o estado atual da sociedade e precisam ser modificadas; pelo livro, o mesmo ocorreria com a gramática, sendo mais grave porque há todo um arcabouço arcaico de manutenção de suas regras apenas por mero esnobismo e elitismo, ainda que prejudique a grande maioria da população que não sabe ler nem escrever – mas que não comete erros da língua, apenas não tem conhecimento adequado para falar a língua que se fala nas camadas mais privilegiadas culturalmente. “Não existe erro de português. Existem diferenças de uso ou alternativa de uso em relação à regra única proposta pela gramática normativa”.</p><p>O autor ressalta várias vezes que seu objetivo não é manter o analfabeto ou o pouco letrado na sua ignorância da linguagem formal ou, como ele aponta, da linguagem que é falada por categorias sociais melhor aquinhoadas do ponto de vista de tempo de estudo. Ele luta ferrenhamente pela mudança de mentalidade geral, que ninguém seja discriminado por falar do jeito que encontra para se comunicar, até porque o que hoje é “ele” já foi “êle” e “elle”.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/preconceito-marcos-divulgacao.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1729" title="preconceito marcos-divulgacao" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/preconceito-marcos-divulgacao-270x350.jpg" alt="" width="173" height="224" /></a>Concordo com Marcos Bagno (foto).</p><p>Mas eis que o livro não indica alguma experiência real e testada de que sua lógica seja a correta. Aferra-se a lembrar várias vezes que o MEC desde o governo de FHC já indicava essa diretriz do ensino da Língua Portuguesa, faz defesas técnicas de algumas construções tidas como erradas, como “vende-se casas” (ao invés da gramatical “vendem-se casas”), e desce a lenha nos gramáticos – aqueles que, sob o manto de ensinar o certo e o errado, tentam manter uma estrutura ultrapassada de análise da língua e, claro, toda essa questão de estrutura em que alguém sempre é vítima de preconceito.</p><p><a href="http://marcosbagno.com.br/site/"> No site do autor</a>, vejo que até tem sugestão de uma gramática que talvez esclarecesse melhor, que talvez não seja desprezar o ensino da gramática, apenas reduzi-lo à importância dele, que não é maior do que o da linguagem si. Entretanto, não sendo especialista e podendo estar enganado, a verdade é que o livro não indica concretamente qual seria o caminho desse novo ensino, senão pela mudança de mentalidade geral.</p><p>Como imaginar que crianças e adolescentes captariam esse espírito tão libertário de ignorar a gramática? É possível ensinar dizendo que não há erro – e portanto não haveria o que aprender? Por que o autor tem ojeriza do poder da dominação da gramática atualmente e quer que apenas os professores de Português tenham acesso e conhecimento a ela, como transcrevi anteriormente? Um novo tipo de dominação? Não seria isso contraditório? Um novo ensino da língua portuguesa não passaria, então, por uma nova visão da gramática e não o “abandono” dela como instrumento de aprendizado direto? Não seria apenas o caso de melhorar a atualização das normas gramaticais? Ou será que os termos contundentes do livro apenas clamam por uma melhora do ensino, como de resto precisamos em todas as demais disciplinas? O que ele classifica de preconceito não é apenas decorrência natural de sociedades ou reuniões de pessoas, pois, por exemplo, um peladeiro grosso, que não tenha intimidade com a bola, vai ser objeto de gozação dos demais e ninguém trata isso como preconceito?</p><p>Confesso que não sei as respostas, achei contraditório em várias partes e fácil demais o discurso do livro. Pior, achei perigosíssimo de certa maneira, porque chego a tremer quando imagino como vão ficar os professores da língua portuguesa principalmente da rede pública para manter o interesse de seus alunos. Não é preconceito, é mera realidade e a existência de cotas nas universidades é o reconhecimento estatal de como é falho o ensino estatal.</p><p>Isso não se contrapõe às críticas que o autor faz ao ensino atual ou implique concordância com os gramáticos no livro citados, até porque não é minha área de atuação, falo como pai, como cidadão. Vejo notícias de que países que se desenvolveram contaram com o incremento dos estudos e tenho a impressão que no Brasil tudo fica cada dia mais fácil – e cada vez menos eficiente&#8230;</p><p>Acerca de concursos e vestibulares, o autor me sai com um argumento pueril, sonhador e inaceitável até: “cabe a nós, professores, pressionar pelos meios que dispomos – associações profissionais, sindicatos, cartas à imprensa – para que as provas de concursos sejam elaboradas de outra maneira, trocando as velhas concepções de língua por novas (&#8230;) Quanto ao vestibular, já passou da hora dele desaparecer da nossa vida”. E eu pensei que, pelo menos para certos extratos da sociedade ou para situações específicas, a língua “formal” tivesse de ser usada, mas, para Marcos Bagno, parece que não.</p><p>Quanto a escutar a voz do povo como argumento inexorável, alto lá. O que mais vemos são campanhas governamentais e de ONG’s contra a pedofilia e pela igualdade real dos direitos das mulheres e, no entanto, grande parte da população adora e faz coro aos bregas das “novinhas” e aos funks das “mulheres-cachorras” e “mulheres-frutas”. O Brasil é campeão mundial de gravidez na adolescência. A prevalecer o argumento principal do livro&#8230;</p><p>Aliás, Monteiro Lobato tem seus personagens citados e elogiados pelo autor várias vezes no livro. Logo ele, recentemente classificado como racista e com obras “revisadas”.</p><p>&#8212;***&#8212;</p><p>E as fotografias? Matutos, caipiras, retirantes, Jeca Tatu e sua família, nordestinos, miseráveis, pobres, carentes, economicamente desfavorecidos, ô povinho feio (vide Mução), brasileiros legítimos, nortistas, explorados, assalariados, trabalhadores, trabalhadores rurais, proletariado? Alguém pensou em uma classificação diversa?</p><p>Pois bem, são os sogros e o cunhado de Marcos Bagno, para quem eles são “<em>negros, nordestinos, pobres, analfabetos</em>”, condições que, sendo alvos preferenciais de preconceito, levaram-nos a ilustrar o conteúdo do livro. Belíssima e bem sacada homenagem, porém&#8230; negros? Quem no Brasil classifica essas três pessoas como negras? Somente por preconceito inverso, artificial, na minha opinião.</p><p>É, concordo com várias passagens do livro, mas minhas muitas divergências com a obra começam pelo título. Valeu a leitura, até para conhecer melhor o que se passa na educação nacional – e o meu medo de pai não diminuiu.</p><p>&#8212;***&#8212;</p><p>Para lerem uma opinião bastante contrária ao livro, descobri o artigo cujo link segue abaixo. Não se espantem com os termos até grosseiros, parece que isso é normal para esses linguistas, gramáticos, etc.</p><ul><li> <strong><a href="http://www.implicante.org/artigos/preconceito-linguistico-e-coitadismo-linguistico/">http://www.implicante.org/artigos/preconceito-linguistico-e-coitadismo-linguistico/</a></strong></li></ul> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/preconceito-linguistico-o-que-e-como-se-faz/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>8</slash:comments> </item> <item><title>Trapo</title><link>http://www.caotico.com.br/trapo/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/trapo/#comments</comments> <pubDate>Wed, 04 Jan 2012 18:45:03 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[Cristovão Tezza]]></category> <category><![CDATA[Curitiba]]></category> <category><![CDATA[jovem poeta]]></category> <category><![CDATA[literatura brasileira]]></category> <category><![CDATA[literatura contemporânea]]></category> <category><![CDATA[Poesia]]></category> <category><![CDATA[suicídio]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1715</guid> <description><![CDATA[Ler uma obra da maturidade de um autor e, logo em seguida, um dos livros do início de sua carreira pode ser uma ótima experiência de aprendizado para um autodidata como eu. Foi isso que descobri enquanto imergia nas páginas de Trapo, romance que levou a crítica literária brasileira a ficar de olho em Cristovão [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/12/Trapo.jpg"><img class="alignright  wp-image-1716" title="Trapo" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/12/Trapo.jpg" alt="" width="119" height="183" /></a>Ler uma obra da maturidade de um autor e, logo em seguida, um dos livros do início de sua carreira pode ser uma ótima experiência de aprendizado para um autodidata como eu. Foi isso que descobri enquanto imergia nas páginas de <em>Trapo</em>, romance que levou a crítica literária brasileira a ficar de olho em Cristovão Tezza na segunda metade dos anos 80.</p><p>Comecei a leitura de <em>Trapo </em>assim que publiquei o texto sobre <em><a href="http://www.caotico.com.br/o-filho-eterno/">O filho eterno</a>, </em>livro com o qual ele ganhou os prêmios literários mais relevantes e consolidou seu nome na literatura brasileira deste início de século. Com a leitura de um encangado no outro, deu para perceber claramente as virtudes aperfeiçoadas com o tempo e os defeitos, eliminados depois de parágrafos e mais parágrafos de polimento.</p><p>Reconheci nesse livro de Tezza alguns elementos de <a href="http://www.caotico.com.br/os-detetives-selvagens/"><em>Os detetives selvagens</em></a>, de Roberto Bolaño e de certa literatura argentina, principalmente textos de Ricardo Piglia lidos há duas décadas por indicação de <a href="http://www.facebook.com/PauloGoethe">Paulo Goethe</a>. A figura do jovem poeta descabelado, suicida aos vinte e poucos anos por alguma razão misteriosa, é quase uma lenda na noite curitibana. Trapo é tido e havido como gênio, mesmo que seus escritos jamais tenham sido lidos ou publicados.</p><p>Um pacote dos seus textos inéditos vai parar nas mãos do acanhado professor Manoel, aposentado que se considera culto e medíocre a um só tempo. Ao mergulhar na intensa e curta vida do suposto gênio, Manoel oxigena sua própria vida sentindo-se um personagem de romance policial ao tentar entender a razão do suicídio aparentemente sem sentido.</p><p>Tezza alternou duas primeiras pessoas. Ora o professor Manoel junta os cacos da vida do poeta por meio da leitura dos textos do pacote, ora o próprio Trapo clama, desabafa, sonha e ama em suas cartas, manifestos ou versos empacotados pouco antes do suicídio.</p><p>Apesar do risco de usar dois estilos alternadamente, em nenhum momento o autor perde a mão ao narrar, sua principal virtude literária, <a href="http://www.cristovaotezza.com.br/critica/ficcao/f_trapo/p_88_nov_wm.htm">já percebida pelo crítico Wilson Martins há 23 anos</a>.</p><p>Os problemas de <em>Trapo </em>estão nos excessos que ele usa mão para, acredito, caracterizar personagens ou situações.</p><p>Dois exemplos desses exageros de Tezza aos 30 anos: o professor, acomodado e tímido, usa inúmeras vezes a expressão “sou um homem sem iniciativa” para se definir ou se justificar. Não parei para contar, mas garanto que não foram menos de 10 vezes. Até sua mãe aparece para reclamar que o filho “não tem iniciativa”. Repetitivo e cansativo, chega a soar como um bordão.</p><p>Ainda no início, na cena em que a vida de Manoel é invadida pela dona da pensão onde Trapo morou e se matou, o autor recorre às mesmas palavras diversas vezes para construir os preconceitos do professor e sua agonia diante da intrusa e do pacote que ela carrega.</p><p>Também estão presentes em <em>Trapo</em> as dores da paternidade e das relações pai-filho, afinal esse romance foi escrito pouco depois do nascimento do seu filho com síndrome de Down, foco de <em>O filho eterno.</em></p><p>Ler o livro mais recente é compreender o antigo. A recíproca é verdadeira. Identifiquei nos principais personagens de <em>Trapo</em>, o poeta suicida e o professor hesitante, diversas características presentes também no pai de Felipe, personagem do premiado romance escrito mais de 20 anos depois.</p><p>Arrisco, inclusive, dizer que reconheci em ambos personagens, o pai/Tezza, um homem que, ao escrever esse livro, entrava na casa dos 30 anos com um filho pequeno, um homem que já havia deixado a vida de mochileiro pela Europa, sabia que pretendia viver de escrever, mas talvez por não acreditar que isso fosse possível, sofresse com a perspectiva de envelhecer como um aposentado que não realizou seu potencial.</p><ul><li><strong><a href="http://www.caotico.com.br/trechos-arretados/">Selecionei um trecho deste romance. Para ler basta clicar aqui</a></strong></li></ul> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/trapo/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Trecho de Trapo</title><link>http://www.caotico.com.br/trecho-de-trapo/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/trecho-de-trapo/#comments</comments> <pubDate>Wed, 04 Jan 2012 18:44:00 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Trechos arretados]]></category> <category><![CDATA[Cristovão Tezza]]></category> <category><![CDATA[literatura brasileira]]></category> <category><![CDATA[literatura contemporânea]]></category> <category><![CDATA[romance]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1720</guid> <description><![CDATA[Sou um papiro do século XX, antiquíssimo aos dezenove anos de idade, refinadíssimo como um códice secreto, profundíssimo como um poço artesiano, altíssimo como a sede do Banco do Brasil, inteligentíssimo como&#8230; como o quê? Lamentavelmente, falta parâmetro neste item. Mas deixa eu explicar. É que houve alguns filhos da puta do passado (não muito [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Sou um papiro do século XX, antiquíssimo aos dezenove anos de idade, refinadíssimo como um códice secreto, profundíssimo como um poço artesiano, altíssimo como a sede do Banco do Brasil, inteligentíssimo como&#8230; como o quê? Lamentavelmente, falta parâmetro neste item.</p><p>Mas deixa eu explicar.</p><p>É que houve alguns filhos da puta do passado (não muito longíquo) que por meio de artes do demônio e da magia negra, lançando mão do espiritismo e da metempsicose às avessas, houve uns desgraçados, uns desonestos, uns ladrões, uns larápios, uma súcia de escroques que, por não terem imaginação própria, por não disporem da mínima intuição criadora (e nenhum lastro de honestidade intelectual, evidente) rascunharam, escreveram, datilografaram e publicaram TODOS OS POEMAS que por direito imanente, impostergável, genético, soberano, absoluto, ME PERTENCIAM – poemas tão meus quanto a piroca que trago pendurada entre as pernas. Ou seja: não há engano possível. E, o que é pior – e insolúvel: esses canalhas viveram muito antes que eu sequer tivesse nascido, de modo que não me restou nenhum recurso, legal ou não, para reaver o que legitimamente me pertence. Sou a vítima de um crime perfeito.</p><p>Quer o nome de um deles?</p><p>Álvaro de Campos, que também atendia pelo nome de Fernando Pessoa, um maldito português cuja erudição sofisticada ocultava o roubo de vários poemas integralmente meus. Ontem, ainda reli alguns deles em voz alta, bebendo vinho verde, às quatro da madrugada – e chorei, não sei se de emoção por não ser nada ou de raiva pelo furto deslavado e incólume, até que o motorista de táxi do quarto ao lado deu um pontapé na parede: para com essa porra, caralho!</p><p>Parei. E há uma tabacaria em frente da pensão.</p><p>Diante desta teia inexorável do destino, e sabendo que jamais em tempo algum produzirei poesia tão boa quanto aquela que escrevi no tempo que eu não era nascido, resta-me o plágio, este grande injustiçado da história, conforme Borges (um velho cego, louco para ganhar o prêmio Nobel) demonstrou à exaustão.</p><p><strong>Cristovão Tezza em <em>Trapo, </em>editora Record, coleção Saraiva vira-vira, págs, 30 e 31.</strong></p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/trecho-de-trapo/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Promessas de fim de ano</title><link>http://www.caotico.com.br/promessas-de-fim-de-ano/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/promessas-de-fim-de-ano/#comments</comments> <pubDate>Thu, 29 Dec 2011 14:01:54 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Elocubrações]]></category> <category><![CDATA[2011]]></category> <category><![CDATA[2012]]></category> <category><![CDATA[Ano Novo]]></category> <category><![CDATA[colesterol]]></category> <category><![CDATA[Don Quixote]]></category> <category><![CDATA[Dostoievski]]></category> <category><![CDATA[emprego]]></category> <category><![CDATA[esteira]]></category> <category><![CDATA[Jorge Luís Borges]]></category> <category><![CDATA[José Cardoso Pires]]></category> <category><![CDATA[Marcelino Freire]]></category> <category><![CDATA[mudança de vida]]></category> <category><![CDATA[musculação]]></category> <category><![CDATA[Os irmãos Karamazov]]></category> <category><![CDATA[Roberto Numeriano]]></category> <category><![CDATA[trabalho]]></category> <category><![CDATA[triglicerídeos]]></category> <category><![CDATA[viver de escrever]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1702</guid> <description><![CDATA[Os resultados de 2011 foram animadores. Entre as promessas que fiz – ou imagino ter feito – ao apagar das luzes do ano passado, pelo menos duas consegui tornar realidade. Um ano depois, fazem parte do meu cotidiano. Ou melhor, são o meu cotidiano. E vem a calhar para me livrar do lugar-comum de escrever sobre [...]]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/12/esteira_ladobom_interna_gde.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1707" title="esteira_ladobom_interna_gde" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/12/esteira_ladobom_interna_gde-350x242.jpg" alt="" width="219" height="151" /></a>Os resultados de 2011 foram animadores. Entre as promessas que fiz – ou imagino ter feito – ao apagar das luzes do ano passado, pelo menos duas consegui tornar realidade. Um ano depois, fazem parte do meu cotidiano. Ou melhor, são o meu cotidiano. E vem a calhar para me livrar do lugar-comum de escrever sobre as juras que se faz nesses dias festivos e esquecidas logo ao amanhecer de 2 de janeiro.</p><p>E olhe que não foram promessazinhas bestas e sim coisas sérias, compromissos que mudam a vida, difíceis de realizar por causa das invisíveis correntes que nos prendem às sombras do medo ou à viscosidade do hábito.</p><p>Com taxas de colesterol e triglicerídeos alcançando patamares ameaçadores em setembro de 2010, percebi que ao dava mais para adiar o enfrentamento da preguiça e da própria má-vontade. Comecei a superar o sedentarismo ainda nos meses finais daquele ano, mas foi durante esse ano que realmente levei a sério a esteira e o treinamento para pernas, braços, costas e peito, a famosa e maldita musculação. Só de outubro para cá foram mais de 170 quilômetros de corrida.</p><p>O colesterol caiu de 230 para 180. Os triglicerídeos, nem sei do que se trata, mas me metem um medo arretado, despencaram dos terríveis 160 para 122. Mandei botar uma moldura no papel do laboratório.</p><p>Fora a barriga bem menor, apesar de ainda longe dos volumes aceitáveis. Pode ser besteira para você, não para mim, preguiçoso assumido.</p><p>A outra mudança foi mais profunda, mas radical. Para concretizá-la tive de vencer o medo de chegar ao fim do mês sem um centavo no bolso para pagar as contas: troquei o conforto de contar com o salário no final do mês e resolvi correr riscos. Tudo para não viver a rotina de lidar com problemas em licitações, comunicadores larápios tentando extorquir verba da prefeitura, reuniões sem fim, conflito entre funcionários e os mais absurdos e sórdidos pedidos. Não nasci para isso.</p><p>Nasci para escrever, mesmo que sob encomenda, alugando minha pena  até que trilhe meus próprios caminhos, amadureça, supere o medo de lidar com as limitações de minha escrita.</p><p>Enquanto isso não acontece, vou lendo e atualizando esse blog.</p><p>Com o relativo sucesso de 2011, compartilho meus planos para 2012, bem mais modestos por sinal: vou ler alguma coisa desse tal <a href="http://marcelinofreire.wordpress.com/">Marcelino Freire</a>, que todo mundo que eu conheço elogia e diz que é boa gente.</p><p>Voltarei a Dostoievski. Vou ler a edição da Editora 34 que <a href="http://www.facebook.com/profile.php?id=100003289142936">Jane Santos</a> me deu de presente de aniversário de <em>Os irmãos Karamazov.</em></p><p>É hora de criar vergonha na cara e ler o <em>Don Quixote</em>. Tenho duas edições, uma em espanhol e outra novinha em português. Então, basta de desculpas esfarrapadas.</p><p>Há quase um ano, <a href="http://www.facebook.com/profile.php?id=100000208853745">Roberto Numeriano</a> deixou em minha portaria seu <em>Nuvens vermelhas</em>. A cor e o tamanho de tijolo me intimidaram, mas como já recebi recados que ele tá indignado com  meu silêncio, pretendo tirá-lo do ostracismo.</p><p>Com um dicionário de espanhol ao lado, lerei a <em>Poesia Completa </em>de Borges, que <a href="http://www.facebook.com/profile.php?id=100000303296519">Pedro</a> me trouxe de Buenos Aires.</p><p>Se der, encararei <em>Balada da praia dos cães</em>, do português José Cardoso Pires, comprado a preço módico no sebo virtual.</p><p>O Caótico também vai ser ampliado, vai ganhar novos espaços, mas isso agora não depende de mim, mas sim do webdesigner e webmaster <a href="http://aniziosilva.com/blog/">Anízio Silva</a>, que está dedicando várias horas diárias de trabalho a esse projeto.</p><p>Mais não prometo que eu não sou besta.</p> ]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/promessas-de-fim-de-ano/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>5</slash:comments> </item> </channel> </rss><!-- Performance optimized by W3 Total Cache. 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