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	<title>Arquivos Críticas - Cinema com Rapadura</title>
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	<description>Assistir é apenas o começo!</description>
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		<title>Crítica &#124; Superman (2025): nova visão que entende o que importa</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/629077/critica-superman-2025-nova-visao-que-entende-o-que-importa/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Jul 2025 14:02:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[David Corenswet]]></category>
		<category><![CDATA[James Gunn]]></category>
		<category><![CDATA[Nathan Fillion]]></category>
		<category><![CDATA[Nicholas Hoult]]></category>
		<category><![CDATA[Rachel Brosnahan]]></category>
		<category><![CDATA[Superman]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com uma performance delicada e um olhar mais humano, "Superman" acerta ao tratar o herói não como um símbolo inalcançável, mas como alguém real.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Para uma produção responsável por iniciar um novo universo cinematográfico, “<strong>Superman</strong>” se preocupa menos em erguer as fundações do DCU e se interessa mais em resgatar, com um olhar contemporâneo, a humanidade do herói mais simbólico do estúdio. Poderíamos estar esperando grandiosidade, mas o que vemos em tela é um longa que prefere trabalhar nos detalhes, entre as hesitações e a vulnerabilidade do mito. Cercado por elementos típicos do subgênero, a obra não reinventa o filme de herói. Mas o que dá fôlego à narrativa é a tentativa de mostrar o protagonista como alguém que, apesar dos poderes quase divinos, se considera apenas um homem.</p>
<p>Esse homem é interpretado por David Corenswet com equilíbrio e muita qualidade. O novo Superman não se apoia em arquétipos anteriores ou mesmo tenta emular o que quer que tenha dado certo ou errado previamente. Ele sorri, tem dúvidas, falha, e tudo isso contribui para criar um magnetismo difícil de alcançar. Corenswet constrói o Superman com tanta delicadeza que é convincente a ideia de um personagem de tamanho poder que se recusa a ceder à arrogância ou à ingenuidade, mesmo quando o mundo à sua volta insiste em testá-lo.</p>
<p>James Gunn evita a clássica história de origem e estabelece o início da trama três anos após Clark Kent revelar sua identidade, em uma realidade onde meta-humanos já coexistem com governos e exércitos. Essa escolha torna o filme mais ágil, mas também corre riscos. Gunn mostra confiar que o público já conheça a base do personagem. E deve conhecer mesmo. Mas essa aceleração acaba comprometendo momentos que deveriam ter mais importância, tanto pelas múltiplas subtramas inseridas quanto pelas resoluções aceleradas e até mesmo, por falta de palavra melhor, bobas.</p>
<p>No entanto, alguns lampejos de profundidade surpreendem. Um dos momentos mais interessantes do filme acontece não durante uma batalha, mas em uma conversa entre Clark e Lois Lane (Rachel Brosnahan), sobre os limites morais da intervenção do herói. Com um simples diálogo de natureza mais séria, o longa se permite questionar o que significa agir acima da lei quando se tem o poder de fazer o que quiser, além de ainda mostrar a importância de um jornalismo comprometido com a verdade. Outras sequências são pinceladas, como os haters do Superman nas redes sociais ou o uso da imprensa para desacreditar o protagonista. São discussões que aparecem e desaparecem rapidamente, mas apontam para uma autoconsciência da obra em relação ao mundo atual, além de uma maturidade importante para contrastar com a simplicidade de outros pontos do roteiro.</p>
<p>O humor em Superman é outra peça importante da construção do tom otimista que James Gunn busca resgatar para o protagonista. Não se trata de algo feito para rir alto. O objetivo aqui é imprimir um tom leve e caloroso o tempo todo, para fazer o público se sentir feliz e revigorado no fim da sessão. Apesar do pouco desenvolvimento, personagens como o impulsivo Guy Gardner (Nathan Fillion) conseguem se sair bem nas cenas de descontração. Já o enraivecido Lex Luthor (Nicholas Hoult) talvez seja o mais caricatural, sobretudo em seus ataques de estresse. Mas o destaque maior fica para a presença de Krypto, que traz momentos genuinamente afetuosos e, ao mesmo tempo, bem divertidos.</p>
<p>A sensação de ver coisas boas e não tão boas, que funcionam e não funcionam, acaba percorrendo todo o longa. Gunn parece ter se dividido entre subverter expectativas e cumprir certas convenções para agradar a todos, afinal, o início do DCU não poderia ser um fracasso de público. Ao mesmo tempo em que temos cenas vitais como o Superman se frustrando por não conseguir salvar uma vida, em outras temos vilões de motivação e caracterização genéricas envolvidos em soluções convenientes que parecem recicladas de outros filmes do gênero.</p>
<p>Ainda assim, a balança final de “Superman” se mostra positiva. Gunn, mesmo com algumas distrações e excessos, demonstra uma compreensão sólida da essência do personagem. Ele o coloca num mundo moralmente ambíguo, mas não o contamina por completo. E ao fazer isso, resgata o sentimento estranho que deve ser conviver com alguém tão poderoso e acredita que deve sempre fazer o bem num planeta acostumado a não confiar em ninguém. A obra não tem cara de ser a grande pedra fundamental do DCU, e parece nem querer assumir esse papel, mas ao menos inaugura uma nova leitura para o Superman, trocando a armadura intransponível de um mito pela pele sensível de um homem.</p>
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		<title>Crítica &#124; Bailarina — Do Universo de John Wick (2025): quando a ação é o suficiente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Jun 2025 12:44:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Ana de Armas]]></category>
		<category><![CDATA[Bailarina]]></category>
		<category><![CDATA[John Wick [franquia]]]></category>
		<category><![CDATA[Keanu Reeves]]></category>
		<category><![CDATA[Len Wiseman]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sem o diretor da franquia original, spin-off cumpre o básico com sequências de ação empolgantes e uma protagonista à altura.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O universo de <em>“John Wick”</em> sempre foi menos sobre o que se fala e mais sobre o que se mostra em tela. Uma história simples de um brucutu que retorna à ação devido à morte do seu cachorro acabou dando origem a uma vasta mitologia de códigos e facções, que pouco se preocupa com explicações e sustentada por uma violência cada vez mais inventiva e brilhantemente coreografada. Depois de quatro filmes e uma série derivada, “<strong>Bailarina</strong>” chega como o primeiro spin-off que traz uma nova personagem principal.</p>
<p>A história acompanha Eve (Ana de Armas), uma assassina treinada pela Ruska Roma que mergulha em uma busca por vingança após descobrir quem assassinou seu pai. A sinopse genérica não disfarça o pouco apego com o desenvolvimento narrativo. Contudo, o diretor Len Wiseman (da franquia <em>“Anjos da Noite”</em>) opta por gastar algum tempo de tela para construir a origem da protagonista, suas motivações e seu treinamento. Por mais que a história das bailarinas assassinas (ou protetoras, nesse caso) não chame tanto a atenção, mostra a preocupação de Wiseman em buscar uma identidade própria para o longa, além do que já se espera dele.</p>
<p>Ao contrário de John Wick e sua eficiência metódica, Eve é mais impulsiva, movida pelo improviso e pela capacidade de se adaptar para sobreviver. Só essa diferença notável já influencia todas as sequências de ação da obra. De fato, o longa não facilita as coisas para a personagem por ser mulher. Além disso, ela comete erros e frequentemente precisa encontrar soluções com o que tem à mão, seja um controle remoto, um lança-chamas ou um arsenal de granadas — gerando algumas das melhores cenas da obra.</p>
<p>Ana de Armas carrega o filme com entrega física e acrescenta uma vulnerabilidade que funciona como contraponto à masculinidade fria predominante na franquia até então. Já o diretor Len Wiseman, por sua vez, mesmo não sendo nenhum iniciante nesse subgênero da ação mais “absurda”, joga no seguro ao emular ambientações, cores e tudo o mais que fosse possível para deixar claro que “Bailarina” se encaixa na mitologia do Baba Yaga. A necessidade de evidenciar isso aparentemente era tanta que trouxeram o próprio Keanu Reeves, em uma participação que, apesar de funcional como fan service, soa mais como uma apólice de segurança do estúdio para facilitar a venda do longa. Talvez falte a elegância estética que marca os melhores momentos dos capítulos anteriores, mas nada que tire o brilho do que realmente importa: a ação.</p>
<p>Mesmo contando com mais diálogos e tempo de desenvolvimento de personagens do que toda a franquia, o filme tem consciência de que a inventividade nas cenas de ação é a chave para conquistar o público. Felizmente, o time criativo mostra ter tido o cuidado de trazer novidades, o que por si só já configura o maior mérito da obra, haja vista o quanto os longas anteriores avançaram nesse quesito. As já mencionadas sequências envolvendo lança-chamas e granadas, além de outras em um quarto ou num restaurante, com facas voando e objetos improvisados como armas, sintetizam essa ação estilizada com total consciência de espaço e ritmo, ainda que com uma montagem não tão polida.</p>
<p>“Bailarina” é um passo seguro para expandir o universo de <em>“John Wick”</em>. Não se destaca narrativamente, mas entrega excelentes sequências de ação, ou seja, faz exatamente o que se esperaria dele. Claramente funciona como uma vitrine para Ana de Armas, que mostra ter o físico e o carisma necessários para protagonizar uma franquia do gênero. No fim, cumprir o básico, nesse caso, é mais do que suficiente para entreter.</p>
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		<title>Crítica &#124; Missão: Impossível — O Acerto Final (2025): grandioso no espetáculo e na exposição</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628930/critica-missao-impossivel-o-acerto-final-2025-grandioso-no-espetaculo-e-na-exposicao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Jun 2025 16:48:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Christopher McQuarrie]]></category>
		<category><![CDATA[Missão: Impossível - O Acerto Final]]></category>
		<category><![CDATA[Tom Cruise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Capítulo final sacrifica o ritmo e o prazer da jornada ao priorizar falas excessivas e reverência ao próprio legado.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Após quase três décadas correndo — não só nas ruas, mas também contra o tempo e contra a morte —, <strong>Tom Cruise</strong> chega a sua suposta última tarefa em “<strong>Missão: Impossível — O Acerto Final</strong>”. Dirigido por Christopher McQuarrie, o oitavo capítulo se propõe a encerrar um longo ciclo, mas também prestar uma homenagem à jornada construída ao longo dos anos. Contudo, ao tentar dar respostas, reverenciar o passado, construir tensão, refletir sobre o presente e, claro, entregar muita ação, o filme acaba se tornando um fechamento irregular, agradável, mas distante do auge da franquia.</p>
<p>O novo longa dá continuidade aos eventos de <em>“Acerto de Contas Parte 1”</em> — ainda que o longa anterior tenha passado batido, seja por sua qualidade questionável, ou após ter sido atropelado pelo fenômeno <em>Barbenheimer </em>nos cinemas. Ethan Hunt (Cruise) segue tentando parar a Inteligência Artificial denominada Entidade, que agora ameaça não apenas toda a rede mundial, como a própria existência humana ao se apropriar do controle das ogivas nucleares das potências atômicas. Enquanto o destino do mundo balança, Hunt ainda precisa enfrentar inimigos que atormentaram o seu passado e tentam destruí-lo mais uma vez.</p>
<p>No geral, não há como negar que parte da essência dos últimos longas da franquia segue presente. Tom Cruise continua desafiando o bom senso e as leis da física em suas várias acrobacias com pouco ou nenhum uso de efeitos digitais. O ator se entrega de corpo e alma pelo espetáculo, e McQuarrie sabe como mover a câmera para privilegiar os movimentos do protagonista e todos os riscos que ele está correndo. Uma das cenas mais apreensivas do longa mostra Hunt, sozinho, enfrentando os perigos de explorar um submarino afundado. Em contraste com outra grande sequência envolvendo uma perseguição entre aviões, ambas causam sentimentos igualmente estimulantes no público.</p>
<p>Apesar disso, “O Acerto Final” tropeça onde a franquia costumava brilhar. <em>“Missão: Impossível”</em> atraía pelo seu ritmo frenético e pela capacidade de fazer parecer leve, o que é, essencialmente, um exercício de tensão contínua. Porém, as duas partes finais estão determinadas a explicar cada plano, cada consequência e cada motivação em um grau de exposição que só não incomoda mais do que os constantes jograis em que um personagem completa a fala do outro, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância. Isso, somado ao retorno de personagens de filmes anteriores e à tentativa de dar algum peso simbólico a cada atitude tomada, faz com que seja difícil acreditar que os capítulos finais foram comandados pelo mesmo diretor de <em>“Nação Secreta”</em> e <em>“Efeito Fallout”</em>.</p>
<p>É curioso notar que o excesso de exposição, aliado a uma escolha de subtramas cada vez mais emaranhadas, prejudicam até o uso da ameaçadora Entidade como vilã. O bom timing de trabalhar uma metáfora contemporânea com os impactos de uma Inteligência Artificial superpotente poderia adicionar camadas interessantes, como o confronto entre o humano, caótico e instintivo, e a máquina, fria e metódica. Mas o roteiro faz o oposto da regra de ouro do cinema ao falar muito mais do que mostrar. E ao tentar sistematicamente nos convencer de que essa é “a” missão que definirá o destino da raça humana, termina por sufocar o próprio senso de entretenimento da obra.</p>
<p>Lá pela segunda metade, felizmente, o filme encontra sua energia. Perseguições, reviravoltas e tudo o mais que tanto esperamos do espetáculo de ação que a franquia estava acostumada a entregar. Contudo, ainda que os trailers não tenham antecipado as maiores <em>set pieces</em> tanto quanto no longa anterior, o peso das decisões ruins até aqui acaba pesando. Basta ver o quanto a química entre os membros da equipe, antes uma das maiores qualidades da cinessérie, agora nunca deslancha — com destaque para a sequência sofrível envolvendo Hunt e Luther (Ving Rhames).</p>
<p>No fim, a sensação é de que o peso dramático de ser o encerramento da saga de Ethan Hunt não permitiu que “O Acerto Final” pudesse ser tão divertido. E isso é, mais do que tudo, uma pena, pois perder a leveza tão característica justo no fim faz com que a despedida de um personagem tão icônico tenha um gosto agridoce, no pior dos sentidos. Apesar de melhorar em relação a <em>“Acerto de Contas Parte 1”</em>, as tentativas de inflar demais a própria importância e fazer conexões com o legado de obras anteriores fizeram com que a verdadeira missão — entreter o público — ficasse em segundo plano.</p>
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		<title>Crítica &#124; Vitória (2025): retrato melancólico sobre solidão e resistência na velhice</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628602/critica-vitoria-2025-retrato-melancolico-sobre-solidao-e-resistencia-na-velhice/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Mar 2025 21:57:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Andrucha Waddington]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Montenegro]]></category>
		<category><![CDATA[Linn da Quebrada]]></category>
		<category><![CDATA[Vitória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Fernanda Montenegro brilha em um filme que, mais do que falar sobre crime e justiça, revela a luta silenciosa contra o esquecimento.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>A luta silenciosa de uma mulher idosa contra a violência urbana forma o cerne de “<strong>Vitória</strong>”, estrelado por Fernanda Montenegro. Inspirado em uma história real, o longa acompanha a protagonista enquanto ela registra, da janela de seu apartamento, a atividade de traficantes em sua vizinhança, na esperança de ter suas denúncias levadas a sério pela polícia. No entanto, o enredo vai muito além do relato factual dos feitos da personagem. A verdadeira força da história está no retrato da solidão da terceira idade em um cenário urbano marcado pela indiferença e pelo isolamento.</p>
<p>A narrativa coloca Dona Nina (Montenegro) no centro absoluto da trama. Antes mesmo que qualquer disparo de arma seja ouvido, a câmera segue a protagonista pacientemente em sua rotina, destacando o seu vigor, físico e emocional, para lidar com aquele dia a dia. As interações esporádicas são pequenas ilhas de calor humano em um cotidiano de silêncio e solitude. A insistência com que convida conhecidos para visitá-la revela uma carência afetiva que vai muito além das palavras. O momento em que a personagem sai para dançar com Bibiana (Linn da Quebrada), vizinha recém-chegada que rapidamente a acolhe, aquece o coração depois de várias sequências angustiantes, como ela precisando deitar no chão ou se esconder na banheira por conta de tiroteios nas redondezas.</p>
<p>O diretor Andrucha Waddington (<em>“O Juízo”</em>), que assumiu a posição após a morte de Breno Silveira (<em>“Entre Irmãs”</em>), faz um retrato contido e bastante sincero dessa solidão. Entender as atitudes de Dona Nina exige uma compreensão que só quem já conviveu de perto com idosos possui, e isso vai muito além da teimosia típica da idade. A protagonista é sozinha e sua origem remete a um lugar de sofrimento — ela não possui raízes em outro lugar ou algum familiar com quem possa contar. Pessoas de idade avançada com antecedentes como esses dão um valor tão grande aos seus lares e ao pouco que conquistaram que qualquer um que nunca tenha passado por algo parecido é praticamente incapaz de sentir o mesmo. Uma fala que sintetiza bem esse sentimento ocorre quando Dona Nina se recusa a deixar a sua casa pela primeira vez, afirmando que não é uma bandida. Perceba que a personagem vive naquele lugar muito antes do crime se estabelecer nas proximidades, e o fato dela precisar sair de lá, mesmo que seja para garantir sua segurança enquanto a polícia age, é algo que vai totalmente contra a sua natureza.</p>
<p>A relação de Dona Nina com a câmera também se mostra um aspecto digno de nota. Registrar a movimentação dos criminosos não vem de uma motivação heroica ou de um desejo egoísta de protagonismo, longe disso. Trata-se de uma necessidade de reafirmar sua presença em um espaço cada vez mais brutal com a sua própria existência ali. Quando balas perdidas atravessam seu apartamento, a filmagem se torna mais do que um instrumento de denúncia, mas a forma que ela encontra de resistir.</p>
<p>O maior desafio de “Vitória” está em equilibrar toda essa dimensão pessoal com a trama, baseada em uma história real. O diretor evita correr riscos ao apostar em uma estrutura simplista demais, e em certos momentos, a parte factual se torna excessivamente expositiva, com diálogos que reforçam informações já evidentes. Ainda assim, a atuação sublime de Fernanda Montenegro é capaz de conferir profundidade até mesmo aos momentos menos inspirados do roteiro. Sua presença transforma cenas triviais em retratos potentes de uma grande mulher, não somente se destacando, como engrandecendo todos que compartilham a tela com ela.</p>
<p>Longe das paisagens turísticas do Rio de Janeiro, “Vitória” recria um cenário urbano que contrasta com a imagem comumente vista nos cartões postais da cidade. Essa construção não somente reforça o quanto a realidade do dia a dia é muito diferente das idealizações, como também compõe um desfecho arrebatador para o longa. Dona Nina, agora sob a identidade de Vitória, observa uma bela praia que vai se distanciando à medida que o carro que a leva segue seu curso. Apesar das dificuldades da vida, quando perdemos aquilo pelo qual tanto lutamos, apenas as boas lembranças se sobressaem. E ali, de forma melancólica, testemunhamos a “derrota” da protagonista, que sofre uma perda irreparável ao ser obrigada a deixar sua casa, sua história e tudo o que ela tanto tentou preservar. O letreiro final apenas reforça a dor silenciosa dessa despedida definitiva.</p>
<p>Mais do que um filme sobre crime e justiça, “Vitória” se destaca como um retrato sensível da velhice, da resiliência e do que significa lutar para permanecer em um lugar que se transforma sem pedir permissão a quem estava lá há muito tempo. Fernanda Montenegro conduz essa narrativa com a força de uma atriz que, assim como sua personagem, compreende profundamente o peso da história que carrega.</p>
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		<title>Crítica &#124; Mickey 17 (2025): Robert Pattinson se destaca em sci-fi contido e aquém do seu potencial</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628549/critica-mickey-17-2025-robert-pattinson-se-sobressai-em-sci-fi-contido/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Mar 2025 18:11:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Bong Joon-ho]]></category>
		<category><![CDATA[Mark Ruffalo]]></category>
		<category><![CDATA[Mickey 17]]></category>
		<category><![CDATA[Naomi Ackie]]></category>
		<category><![CDATA[Robert Pattinson]]></category>
		<category><![CDATA[Toni Collette]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Bong Joon-ho parte de uma premissa intrigante e apresenta muitos caminhos para desenvolver suas críticas sociais, mas o resultado é um filme diluído, mastigado e longe da ousadia típica do diretor.</p>
<p>O post <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628549/critica-mickey-17-2025-robert-pattinson-se-sobressai-em-sci-fi-contido/">Crítica | Mickey 17 (2025): Robert Pattinson se destaca em sci-fi contido e aquém do seu potencial</a> apareceu primeiro em <a href="https://cinemacomrapadura.com.br">Cinema com Rapadura</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A ficção científica é admirável pela facilidade em utilizar os avanços tecnológicos e o futuro para discutir a condição humana e suas contradições no presente. Temas como a precarização do trabalho, a luta de classes e outros tantos problemas oriundos do capitalismo são recorrentes não somente no sci-fi, mas também na filmografia de um grande cineasta: <strong>Bong Joon-ho.</strong> Em “<strong>Mickey 17</strong>”, o diretor de <em>“Parasita”</em> adapta uma obra do gênero que parte de uma premissa intrigante, aborda assuntos que lhe são caros e conta com um dos atores mais versáteis de Hollywood. A receita parecia à prova de erros, mas o resultado não faz jus nem ao peso de seu conceito, nem à carreira do cineasta.</p>
<p>A trama acompanha Mickey (Robert Pattinson), um tripulante de uma missão de colonização espacial cuja função é morrer. Sempre que uma tarefa perigosa surge, ele é convocado sem hesitação, pois, caso sua vida chegue ao fim, seu corpo é descartado e uma nova versão é impressa com suas memórias implantadas de volta. Só esse conceito instiga discussões que saltam os olhos, e o diretor é preciso ao gastar o início do longa desenvolvendo essas situações. O protagonista aceita um contrato para se tornar descartável sem o ler até o fim, algo tão comum atualmente que qualquer um faz o mesmo com os termos de aceite de aplicativos e redes sociais, abrindo mão de algo cada vez mais escasso: a privacidade. Vemos também figuras de políticos e ricaços sendo transformadas em messiânicas, além de, claro, uma alegoria sobre a desumanização e o valor da vida, que dentro desse sistema vale menos do que o custo para substituí-la.</p>
<p>Entretanto, o que se sucede bate de frente com a informação de que Bong Joon-ho manteve o controle criativo sobre o corte final de “Mickey 17”. A filmografia dodiretor deixa claro que o sul-coreano já mostrou ser capaz de trabalhar temáticas desse tipo com a ousadia necessária, mas que dessa vez não é vista. Mais do que isso, o roteiro também escrito por ele é tão mastigado, superficial e com metáforas óbvias que parece impossível a Warner não ter exercido influência considerável para garantir que a obra fosse de fácil compreensão para o público médio. O conteúdo é apresentado e o potencial está todo lá, mas tudo acaba sendo muito diluído em um filme que não consegue se aprofundar em nenhum de seus tantos assuntos a ponto de entregar uma experiência coesa e realmente impactante.</p>
<p>Se há algo que merece destaque no longa, é a atuação de Pattinson. É notável a precisão do ator ao construir a crescente apatia de Mickey ao longo das repetições de sua existência. A indiferença que toma conta do personagem após cada nova morte reflete não apenas a perda do medo do fim, mas uma erosão de sua humanidade. O grande conflito se revela quando um erro no processo de clonagem gera uma versão duplicada, obrigando o protagonista a encarar o verdadeiro horror de sua situação: ele não é insubstituível, apenas mais um número no sistema, e caso venha a morrer agora, outro já tomou o seu lugar. Esse momento de ruptura oferece uma rara centelha de complexidade ao roteiro, mas que, novamente, acaba não passando da superfície dos próprios questionamentos.</p>
<p>As figuras do comandante da missão, Kenneth Marshall (Mark Ruffalo) e sua esposa Ylfa (Toni Collette), sintetizam esse problema. A existência dos personagens é justificada como figuras de poder do sistema de trabalho vigente na nave. Porém, a caracterização deles é tão exagerada que a crítica acaba se tornando rasa, como se o roteiro, mais uma vez, temesse confiar na inteligência do público para captar sutilezas — a obsessão fútil por molhos de Ylfa ou as falas ostensivas de Marshall sobre raças puras e superiores são exemplos. Outro elemento perdido ao longo da narrativa é a relação entre Mickey e Nasha (Naomi Ackie). O vínculo, que se inicia de forma promissora, logo se transforma em um triângulo amoroso que pouco adiciona às discussões iniciais e ainda compromete um dos raros aspectos emocionais que poderiam agregar profundidade ao protagonista. Ainda que Pattinson brilhe ao diferenciar as cópias apenas com expressões e movimentos, a conexão dos personagens se dispersa em uma trama secundária que ganha status de principal sem nunca consolidar de maneira significativa o que foi apresentado anteriormente.</p>
<p>Até a narração em off, utilizada para transmitir os pensamentos do protagonista, é surpreendentemente questionável. É compreensível o seu uso como forma de adaptação do livro original. Contudo, sua execução se torna excessiva e, por vezes, funciona como uma muleta para avançar a história, indo contra paradigmas básicos da narrativa como o “mostrar em vez de falar”. É até um insulto à carreira do diretor considerar isso um erro amador. No entanto, por mais que “Mickey 17” tenha todo o valor de produção de seu orçamento robusto e momentos que ressoam com o estilo de Bong Joon-ho, ele se mostra refém de uma abordagem que diluiu todas as complexidades da história para não correr grandes riscos.</p>
<p>O saldo final de “Mickey 17” é mais frustrante do que qualquer outra coisa, especialmente pela certeza da capacidade que Bong Joon-ho tem de entregar algo melhor — por mais que o “não tão bom” dele ainda tenha suas qualidades. As discussões filosóficas e existenciais são apenas pinceladas, enquanto as referências a ditadores, corporações fascistas, colonialismo e religião são jogadas aos baldes. O resultado é uma obra que entretém, apesar do humor irregular, e que passa longe de atingir todo seu potencial como ficção científica, mesmo com a forte presença de Robert Pattinson e a direção competente do cineasta sul-coreano.</p>
<p>O post <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628549/critica-mickey-17-2025-robert-pattinson-se-sobressai-em-sci-fi-contido/">Crítica | Mickey 17 (2025): Robert Pattinson se destaca em sci-fi contido e aquém do seu potencial</a> apareceu primeiro em <a href="https://cinemacomrapadura.com.br">Cinema com Rapadura</a>.</p>
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		<title>Crítica &#124; Pequenas Coisas Como Estas (2024): limitado pela própria sutileza</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628540/critica-pequenas-coisas-como-estas-2024-limitado-pela-propria-sutileza/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Mar 2025 01:27:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Cillian Murphy]]></category>
		<category><![CDATA[Emily Watson]]></category>
		<category><![CDATA[Pequenas Coisas Como Estas]]></category>
		<category><![CDATA[Tim Mielants]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A escolha por um tom introspectivo fortalece a jornada do protagonista interpretado por Cillian Murphy, mas o longa evita mergulhar na gravidade do tema que aborda.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>As Lavanderias de Madalena foram instituições que funcionavam sob o pretexto de reabilitar mulheres que, por diversos e, por vezes, abomináveis motivos, eram consideradas inadequadas aos padrões morais da sociedade irlandesa. Porém, esses lugares acabaram se revelando parte de um sistema de exploração e abuso que permaneceu oculto por muitos anos no país. “<strong>Pequenas Coisas Como Estas</strong>”, dirigido por Tim Mielants e baseado no livro homônimo de Claire Keegan, escolhe contar essa história não pelo ponto de vista das vítimas, tampouco dos agressores, mas sim a partir do olhar de alguém até então alheio a tudo isso e que, sem querer, se depara com essa realidade e precisa decidir entre ignorá-la ou agir.</p>
<p>Bill Furlong (Cillian Murphy) é um homem comum de postura retraída que possui um comércio de carvão e vive uma vida simples entre o trabalho e a família. A trajetória do protagonista é apresentada de forma detalhada com um ritmo moroso que não somente reflete o cotidiano cinzento e monótono da cidade, mas também dá tempo de sobra para mostrar Bill como alguém emocionalmente fechado e incapaz de se levantar contra quem quer que seja — as constantes cenas dele lavando as mãos ao chegar do trabalho contribuem para isso, como se ele tentasse, simbolicamente, se eximir de qualquer culpa e da sujeira do mundo exterior. Cada pequeno gesto ou silêncio carrega um peso significativo na narrativa.</p>
<p>Essa longa rotina é quebrada quando, em uma entrega para o convento local, Bill presencia uma situação que o obriga a encarar seu próprio passado: uma jovem presa e maltratada dentro da instituição. O impacto dessa descoberta ressoa profundamente no protagonista, uma vez que descobrimos posteriormente que sua própria mãe foi uma das tantas mulheres que sofreram destinos parecidos. A ele é imposto o dilema moral de não apenas salvar uma pessoa, mas de decidir se vale a pena desafiar um sistema que há anos se mantém inquestionável.</p>
<p>O convento, retratado como um espaço frio e impessoal, onde a opressão é sentida, mas raramente mostrada em sua totalidade, passa a fazer parte do dia a dia de Bill. A fotografia, dominada por tons acinzentados, e o design de produção, que constrói uma cidade perpetuamente coberta por uma névoa úmida e sombria, reforçam a sensação de isolamento que permeia a história. Toda a ambientação contribui para a imersão do espectador na atmosfera de um lugar onde o passado se impõe sobre o presente e a mudança parece ser um conceito distante.</p>
<p>Emily Watson, em uma participação breve, mas marcante, interpreta a madre superiora do convento. Sua personagem representa o sistema que sobrevive por meio de manipulação e da conivência das pessoas, e sua interação com Bill é um dos momentos mais fortes do filme. Sem elevar a voz ou recorrer a exageros, ela estabelece uma relação de poder que deixa claro como essa estrutura se manteve intacta por tanto tempo, da mesma forma em que revive os traumas do protagonista. Cillian Murphy retrata esses sentimentos tão bem na sequência, encolhido e dobrado às vontades daquela figura de autoridade, que poderíamos compreender o passado do protagonista sem recorrer a qualquer cena mostrada anteriormente.</p>
<p>Apesar de tecnicamente exemplar, a maior limitação de “Pequenas Coisas Como Estas” é a forma como trata uma questão histórica grave. O diretor opta por não transformar essa narrativa em um filme-denúncia tradicional, explorando diretamente os abusos cometidos nas Lavanderias de Madalena, mas se concentrando exclusivamente no ponto de vista de Bill e no impacto emocional que essa descoberta tem sobre o protagonista. Essa decisão acaba limitando a profundidade com que o tema é explorado, uma vez que acompanhamos o despertar da consciência moral do personagem, mas pouco vemos do que acontece dentro dessas instituições. Não é por acaso que a trama se apoia na presença dos flashbacks da infância de Bill. Embora bem amarrados com os acontecimentos do presente, eles se mostram necessários para preencher a narrativa de um filme que já possui a relativamente curta duração de 1h38. Isso não seria tão crucial caso as vítimas diretas daquele ambiente ganhassem algum destaque.</p>
<p>Ao final, o longa entrega atuações marcantes e uma direção sensível, mas que, por sua abordagem contida, deixa a sensação de que falou menos do que poderia. Quando os créditos sobem e um letreiro traz números assombrosos sobre as Lavanderias de Madalena, há um contraste evidente entre o impacto real da história e o que foi efetivamente mostrado. Ao escolher apenas a delicadeza e a introspecção para lidar com um tema difícil, “Pequenas Coisas Como Estas” perde a oportunidade de ser tão contundente quanto sua história pede.</p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Sing Sing (2025): aprendendo com as migalhas</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628479/critica-sing-sing-2025-aprendendo-com-as-migalhas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Giulia Cardoso]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Feb 2025 22:27:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Colman Domingo]]></category>
		<category><![CDATA[Sing Sing]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O longa tem 3 indicações ao Oscar 2025 e tem atuações marcantes e uma abordagem sensível, transformando a dureza da prisão em uma experiência profundamente humana. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Toda vez que vejo um filme, sinto que preciso entrar nele. Sentir a história e os personagens é algo necessário na hora de falar sobre. Em &#8220;Sing Sing&#8221;, conseguimos nos conectar aos poucos com a narrativa, sendo impossível não sair mexido da sala de cinema.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nele, conhecemos o presídio de segurança máxima &#8220;Sing Sing&#8221; que, mesmo sendo um lugar rígido e metódico, tem sua rotina transformada pela arte presente no programa RTA (Rehabilitation Through the Arts), trazendo esperança para Divine G (Colman Domingo), Clarence &#8220;Divine Eye&#8221; Maclin (Clarence Maclin) e muitos outros homens.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No início do filme, Colman Domingo impressiona com um diálogo teatral intenso. Nesse momento, ficamos conectados com esse homem que parece ser fundamental para a história (afinal, ele não seria o protagonista da peça se não fosse importante). O que se segue são cenas de ambientação que estabelecem o dia a dia da prisão e de Divine G. Vale ressaltar a qualidade da direção geral, da fotografia e da direção de arte, que criam esse ambiente opressor sem recorrer a diálogos expositivos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após a escolha da nova peça e a entrada de Divine Eye na trama, temos momentos impactantes, mas que podem ser entediantes para algumas pessoas. Afinal, trata-se de um filme de diálogos extensos, então ele não é exatamente o mais movimentado da temporada. Diante disso, eu digo: insista. Essas pequenas migalhas de boas cenas estão ali por um motivo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse motivo, quando vem, toma conta do espectador. É emocionante ver aqueles homens conseguindo se expressar, externalizando seus medos e fragilidades. Normalmente, filmes sobre prisões retratam ambientes violentos e personagens caricaturais, mas aqui criamos uma conexão genuína com os detentos. Esse mérito se deve à condução do filme – do roteiro à direção – e às atuações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Arrisco dizer que Colman Domingo tem grandes chances de levar o Oscar, pois sua atuação é tão sutil quanto a de Fernanda Torres em &#8220;Ainda Estou Aqui&#8221;. Ele é energético e otimista; gosta de atenção, mas também quer ser o “paizão de todos”. Como a vida real não é justa, muitas vezes esse personagem se vê vazio e inconformado com o sistema no qual está inserido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Gosto de como isso não é entregue de bandeja. Com a entrada de Clarence Maclin (que também se destaca na atuação), entendemos na prática a dinâmica e os efeitos desse programa na vida daquelas pessoas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;Sing Sing&#8221; amassa todos os concorrentes nas categorias em que está indicado, mas é uma pena não vê-lo entre os indicados a Melhor Filme.</span></p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Capitão América: Admirável Mundo Novo (2025): quando o medo de errar impede de acertar</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628418/critica-capitao-america-admiravel-mundo-novo-2025-quando-o-medo-de-errar-impede-de-acertar/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Feb 2025 20:06:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Anthony Mackie]]></category>
		<category><![CDATA[Capitão América: Admirável Mundo Novo]]></category>
		<category><![CDATA[Harrison Ford]]></category>
		<category><![CDATA[Julius Onah]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sem coragem de inovar, a Marvel revisita velhos personagens e repete antigas fórmulas, desperdiçando todo o potencial e deixando até mesmo seu protagonista em segundo plano.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Chega a ser cômico, se não fosse trágico, analisar “<strong>Capitão América: Admirável Mundo Novo</strong>” pelo seu título, que pouco referencia a distopia clássica de Aldous Huxley: não tem praticamente nada de novo, com suas tramas e subtramas podendo serem explicadas como continuações diretas de várias obras do MCU; e certamente pouquíssimas coisas são, de fato, admiráveis. Dirigido por Julius Onah (<em>“O Paradoxo Cloverfield”</em>), a obra se mostra menos interessada em provocar reflexões e mais preocupada em manter a estrutura tradicional da Marvel, resultando em um parque de diversões que é funcional, mas longe de ser memorável.</p>
<p>Logo nos primeiros minutos, o tom político do filme fica evidente. O agora presidente dos Estados Unidos, Thaddeus “Thunderbolt” Ross (Harrison Ford), ocupa um papel central na trama, principalmente devido à sua relação com Sam Wilson (Anthony Mackie) e às decisões que envolvem uma nova ameaça global. O início do longa consegue entregar um tom relativamente sólido de suspense político, cumprindo a tão falada promessa de remeter ao clima de <em>“Capitão América: O Soldado Invernal”</em>. Existe um jogo de interesses, desconfianças e decisões políticas que poderiam ter sido o motor da trama.</p>
<p>Porém, à medida que a história avança, o longa se rende aos padrões previsíveis do MCU. O filme, que rumava para o futuro após finalmente repercutir as consequências do surgimento do corpo de um celestial mostrado em <em>“Eternos”</em>, dá dois passos para trás ao retomar plots e personagens tão empoeirados na prateleira da Marvel quanto os mostrados em <em>“O Incrível Hulk”</em>, lançado no longínquo ano de 2008. A decisão faz com que toda a narrativa gire em torno do presidente Ross, colocando o próprio Capitão América como coadjuvante em seu filme, o que é uma pena, porque o ator se entrega inteiramente ao personagem e certamente merecia mais.</p>
<p>Desde que assumiu o escudo, Sam Wilson carrega não apenas o peso do legado de Steve Rogers, mas também as complexas implicações de ser um Capitão América negro em um país com uma história turbulenta de desigualdade. A atuação de Anthony Mackie mantém o filme de pé, incorporando o protagonista com convicção e carisma e trazendo camadas ao personagem mesmo quando o roteiro não oferece material suficiente para isso. Seu Capitão América busca conciliar o otimismo com a realidade de um sistema falho, mas a história nunca se aprofunda no verdadeiro dilema: por que alguém como ele insistiria em representar um governo que historicamente falhou com pessoas como ele?</p>
<p>No entanto, se havia alguma expectativa de que o novo longa fosse explorar essa questão com profundidade, ela se esvai rapidamente. Esses temas já haviam aparecido na série <em>“Falcão e o Soldado Invernal”</em>, mas se antes já não foram explorados com a seriedade que mereciam, agora o peso do assunto é quase inexistente. Basta observar a presença subaproveitada de Isaiah Bradley na trama. O personagem interpretado por Carl Lumbly traz um peso dramático significativo e sua história trágica é uma das poucas que realmente cativam. No entanto, sua participação é limitada, deixando a sensação de que havia um grande potencial desperdiçado.</p>
<p>Ao lado de Mackie, Harrison Ford também tem seu destaque, surpreendendo ao parecer realmente gostar do papel, ainda que sua usual rabugice transpareça vez ou outra. Seu presidente Ross traz uma presença autoritária e pragmática, criando um contraste interessante com o idealismo de Sam. As cenas entre os dois são algumas das melhores do filme, especialmente quando há tensão política envolvida. Por outro lado, Giancarlo Esposito acrescenta um novo vilão ao seu currículo e o faz parecer minimamente interessante sem qualquer esforço — ou desenvolvimento. Já Tim Blake Nelson é totalmente esquecível, tanto em suas aparições quanto em seu modo de agir.</p>
<p>A necessidade de jogar pelo seguro e entregar algo minimamente bom prejudica bastante o roteiro da obra. Não bastasse a falta de ousadia em discutir questões de interesse social, o próprio protagonista parece nunca correr riscos reais, com seus obstáculos sendo resolvidos de forma fácil e conveniente, o que ainda deixa de contribuir com a tensão do que deveria ser um thriller político. Além disso, a ligação com tantas obras anteriores do MCU faz com que o texto insista em explicar cada ação e motivação por meio de diálogos expositivos. O resultado é uma narrativa mastigada, sem espaço para nuances ou interpretações.</p>
<p>A transformação de Ross no Hulk Vermelho é um exemplo claro desse descaso. O filme passa boa parte de sua duração tentando construir esse momento como uma grande reviravolta, mas qualquer impacto já havia sido esvaziado pela extensa campanha de marketing que explorou essas imagens exaustivamente. O suspense artificialmente prolongado não apenas prejudica o ritmo, mas também reduz qualquer impacto emocional que a cena poderia ter.</p>
<p>Como <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/623345/critica-invasao-secreta-disney-plus-2023-ate-quando-uma-serie-da-marvel-acerta-ela-erra/" target="_blank">odiador oficial de <em>“Invasão Secreta”</em></a> (uma das mais decepcionantes séries da Marvel, que também prometia embarcar nesse mesmo clima de intriga política), não poderia terminar sem citar outro problema evidente: a superficialidade com que os conflitos internacionais são retratados. O filme introduz uma nova disputa global por uma ilha estratégica, algo que poderia gerar discussões instigantes sobre geopolítica e poder — sem mencionar o impacto da descoberta do adamantium para todo o futuro do MCU. No entanto, em vez de aprofundar essas tensões, a trama prefere usá-las como justificativa para cenas de ação, sem qualquer reflexão real sobre suas implicações.</p>
<p>Em suma, “Capitão América: Admirável Mundo Novo” evita se arriscar, mas decepciona até fazendo o básico. O pouco que investe no drama político e na relação entre Sam Wilson e Thaddeus Ross não supera a falta de confiança na inteligência do público e na própria capacidade de refletir sobre o material original e rumar para o futuro — esse último problema certamente ocasionado pela influência dos produtores da Marvel.</p>
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		<title>Crítica &#124; Casamentos Cruzados (Prime Video, 2025): despretensioso e sem brilho</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628382/critica-casamentos-cruzados-2025-despretensioso-e-sem-brilho/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Feb 2025 19:24:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Casamentos Cruzados]]></category>
		<category><![CDATA[Nicholas Stoller]]></category>
		<category><![CDATA[Prime Video]]></category>
		<category><![CDATA[Reese Witherspoon]]></category>
		<category><![CDATA[Will Ferrell]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nova comédia estrelada por Will Ferrell e Reese Witherspoon tenta reviver o gênero, mas o roteiro não empolga e se limita a ser um passatempo descompromissado.</p>
<p>O post <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628382/critica-casamentos-cruzados-2025-despretensioso-e-sem-brilho/">Crítica | Casamentos Cruzados (Prime Video, 2025): despretensioso e sem brilho</a> apareceu primeiro em <a href="https://cinemacomrapadura.com.br">Cinema com Rapadura</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os tempos áureos das comédias românticas parecem cada vez mais distantes. “<strong>Casamentos Cruzados</strong>”, novo longa original do <strong>Prime Video</strong>, surge como mais uma tentativa de recuperar esse brilho. Dirigido por Nicholas Stoller (<em>“Mais que Amigos”</em>), o filme aposta suas fichas em um bom elenco, sobretudo nos nomes de destaque de <strong>Will Ferrell</strong> e <strong>Reese Witherspoon</strong>, e na divertida premissa de dois casamentos marcados para a mesma data no mesmo local. Porém, o que deveria ser um conflito caótico e hilário se mostra apenas mais uma obra que até diverte em momentos pontuais, mas não chega a se destacar dentre as produções genéricas dos streamings.</p>
<p>Jim (Ferrell) é um pai viúvo e superprotetor que tem uma relação excessivamente próxima e emocionalmente dependente da filha. Já Margot (Witherspoon) é uma produtora de reality shows obcecada por controle e cheia de intrigas familiares que insiste em organizar o casamento da sua irmã mais nova. Quando ambos descobrem que as cerimônias foram agendadas para o mesmo dia, a primeira tentativa é trabalhar em conjunto para possibilitar a realização dos dois eventos simultaneamente. Contudo, a rivalidade acaba tomando conta, provocando sabotagens e desentendimentos que podem estragar os festejos das duas famílias.</p>
<p>A dinâmica entre os protagonistas deveria ser o coração da trama, mas, apesar do talento individual dos atores, a química entre eles nunca realmente decola. Isso é curioso, pra dizer o mínimo, uma vez que o desempenho de ambos melhora justamente quando estão separados. Ferrell transita entre o humor físico exagerado característico e a vulnerabilidade de um pai viúvo, buscando tornar seu personagem mais compreensível. Witherspoon encarna uma figura mais fria e rígida, com comentários ácidos e só brilhando de fato quando se permite extravasar. Mesmo quando o roteiro tenta sugerir uma tensão romântica entre eles, a conexão dos dois não convence.</p>
<p>O humor de “Casamentos Cruzados” vai se sustentando nas situações ocasionadas pelo erro de agendamento e na oposição das várias personalidades presentes entre os amigos e as famílias das respectivas noivas. Conforme a trama avança, a narrativa acaba se entregando a disputas infantis e confusões desnecessárias que prejudicam bastante o ritmo da obra. O filme tenta equilibrar comédia e drama, inserindo temas como luto, solidão e relações familiares desgastadas, mas acaba impondo um peso excessivo sobre questões que não são suficientemente desenvolvidas. A virada romântica no terceiro ato, por exemplo, soa forçada e pouco convincente, reforçando a sensação de que a história nunca soube muito bem para onde estava indo.</p>
<p>Há acertos momentâneos, como alguns coadjuvantes que roubam a cena quando aparecem, mesmo que suas maiores virtudes sejam suas personalidades unidimensionais. No entanto, para cada personagem secundário em um momento inspirado, há outros com tramas desinteressantes e que não levam a lugar nenhum. Nada é suficiente para sustentar um roteiro que se alonga bem mais do que deveria, tornando a experiência de assistir mais cansativa do que prazerosa.</p>
<p>“Casamentos Cruzados” não chega a ser terrível, mas também não oferece nada de memorável, se encaixando na categoria das comédias leves e esquecíveis. Há momentos engraçados, e boa parte do elenco faz o possível para sustentar a narrativa. Para quem busca apenas um passatempo despretensioso, pode funcionar. Mas para quem esperava algo marcante, fica a sensação de que o gênero ainda aguarda um verdadeiro retorno à sua melhor forma.</p>
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		<title>Crítica &#124; Conclave (2024): política e ambição ocultas sob o véu da fé</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Feb 2025 22:25:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Conclave]]></category>
		<category><![CDATA[Edward Berger]]></category>
		<category><![CDATA[Peter Straughan]]></category>
		<category><![CDATA[Ralph Fiennes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Edward Berger expõe com sutileza as contradições do poder dentro da Igreja, em um suspense contido que reflete mais sobre o homem do que sobre a fé.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Poucas coisas no nosso mundo de conexões e superexposição se mantêm tão fechadas e misteriosas quanto a eleição de um novo papa. Em “<strong>Conclave</strong>”, o diretor Edward Berger (<em>“Nada de Novo no Front”</em>) mergulha nesse microverso de silêncio e simbolismo, revelando o que está por trás das portas fechadas da Capela Sistina. Essa tradição quase milenar envolve manter o mais alto escalão da Igreja Católica em total isolamento para decidirem não apenas quem será o novo pontífice, mas quais rumos essa histórica instituição tomará. Nesse contexto, o filme não busca decifrar o ritual em si, mas o jogo de poder que ele representa, conduzido por homens que deveriam, mas nem sempre conseguem, equilibrar o peso da fé com o das próprias ambições.</p>
<p>O longa parte da morte de um papa progressista, um evento que acende a centelha da disputa entre diferentes correntes ideológicas dentro do Vaticano. O encarregado de liderar o processo de sucessão é o cardeal Lawrence (Ralph Fiennes), decano do Colégio dos Cardeais que enfrenta suas próprias crises internas. É a partir do seu olhar que acompanhamos alianças, traições e estratégias que vão definir não apenas o futuro da Igreja, mas também o dos que buscam moldá-la.</p>
<p>“Conclave” não atinge os picos de tensão típicos de um thriller, e nem se propõe a isso. O suspense é cultivado lentamente, alimentado por olhares, silêncios e revelações que surgem em momentos oportunos. Berger é cuidadoso ao conduzir a intriga entre as facções conservadora e progressista, mostrando como as maquinações são necessárias em ambos os lados para conseguir eleger um novo papa. É interessante como ele explora as características inerentes a essa instituição que, mesmo cercada de tradição, não se esquiva das contradições das disputas pelo poder.</p>
<p>O cineasta também é elegante ao se adequar ao clima de introspecção característico de um ambiente onde decisões milenares se desenrolam em isolamento. Berger conduz a trama se equilibrando entre manter o requinte e ser simplesmente atrevido em determinadas situações, adicionando um certo humor ao drama da narrativa. Os acontecimentos vão se desenrolando em uma estrutura quase episódica, de modo que a trama vai se tornando previsível na medida em que avança. Isso não é um defeito em si, mas um ponto que pode incomodar.</p>
<p>A grandiosidade dos cenários, com seus afrescos e corredores imponentes, contrasta com a clausura dos cardeais. Estes destacam a pequenez do Homem perante a pompa e a história da Igreja, assim como a mesquinhez e a fragilidade de homens — estes com h minúsculo — em busca de poder apesar do trabalho “sagrado” a que se propõem realizar. O roteiro, bem escrito e amarrado, reforça essa qualidade em falas marcantes, como “no fundo, cada um já até escolheu que nome vai adotar quando se tornar papa”.</p>
<p>Até certo ponto, o foco nos acontecimentos na Capela Sistina é intercalado com momentos importantes de construção do personagem de Ralph Fiennes. A crise de fé do cardeal Lawrence não é tão mostrada quanto poderia, mas o roteiro coloca elementos o bastante para que a mente do público complete as lacunas — tal qual o faz com a participação do falecido papa na trama.</p>
<p>Apesar disso, Fiennes entrega uma atuação marcada por sutilezas. Seus silêncios dizem muito, e o conflito entre a crença e a administração do poder é traduzido com olhares carregados de dúvidas e reflexões contidas. Algumas de suas falas são igualmente poderosas, seja na homilia antes do início do conclave, na qual ele clama que escolham um papa que tenha dúvidas; seja em seu próprio quarto, quando reflete sobre sua suposta vocação administrativa destacada pelo pontífice anterior.</p>
<p>No desfecho, “Conclave” opta por uma virada que subverte expectativas. O roteiro de Peter Straughan (<em>“Boneco de Neve”</em>), adaptado do livro homônimo de Robert Harris, decide mudar definitivamente a rota próximo ao final, na intenção de trazer algo inesperado e que possa ser discutido após a sessão, em vez de dar um fechamento digno ao que foi a jornada do cardeal Lawrence após o processo. A crítica ao conservadorismo da Igreja é evidente, assim como as discussões envolvendo o papel das mulheres (demarcado pela participação brilhante de Isabella Rossellini) e dos países subdesenvolvidos na Santa Sé, mas poderia ser feita de forma mais harmoniosa dentro das próprias paredes do conclave.</p>
<p>Ao final, o longa se projeta como mais do que um filme sobre a escolha de um papa. Há uma clara tentativa de explorar a natureza humana diante da fé, do poder e da inevitável fragilidade que os conecta. Contudo, a superfície episódica, bem filmada e com grandes atuações se mostra muito mais interessante que o subtexto aprofundado.</p>
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		<title>Crítica &#124; Anora (2024): quando a ilusão desmorona</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jan 2025 22:28:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Anora]]></category>
		<category><![CDATA[Mark Eydelshteyn]]></category>
		<category><![CDATA[Mikey Madison]]></category>
		<category><![CDATA[Sean Baker]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mikey Madison entrega um desempenho marcante em um filme que expõe, sem julgamentos, até onde somos capazes de ir para realizar nossos sonhos em um mundo de relações tão frágeis e desiguais.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>É possível que, ao começar “<strong>Anora</strong>”, muitos espectadores sejam levados a pensar que estão assistindo a uma comédia romântica moderna e voltada para adultos. A personagem-título, interpretada por Mikey Madison, se envolve em um relacionamento com Ivan (Mark Eydelshteyn), um jovem rico que se mostra ser a porta de saída de sua vida marginalizada em um clube de strip. O diretor Sean Baker (<em>“Projeto Flórida”</em>) dedica bastante tempo a essa primeira parte do filme com a intenção de criar um vínculo entre Ani (como a protagonista prefere ser chamada) e seu projeto de príncipe encantado.</p>
<p>Desde cedo, Ivan mostra traços de imaturidade e egoísmo que, de certa forma, prejudicam esse papel de herói romântico. Isso não é culpa do ator, afinal, Mark Eydelshteyn constrói o personagem com uma autenticidade que deixa claro o privilégio de quem nunca precisou pensar um minuto sequer nas consequências de seus atos antes de tomar qualquer ação. Mesmo assim, é essencial para o espectador acreditar que Ani está, de fato, entregue a esse romance improvável. Para isso funcionar, ainda que o diretor gaste vários minutos e até comprometa o ritmo da obra, a atuação sublime de Mikey Madison se destaca.</p>
<p>A atriz preenche a tela ao dar vida a uma mulher complexa. Ani é forte e determinada, e apesar de não vermos tanto sua vida pregressa, entendemos que ela é uma sobrevivente. Mas a jovem, como qualquer um, possui suas vulnerabilidades que a deixam suscetível ao brilho de promessas que parecem boas demais para ser verdade. Madison domina cada nuance, e seu desempenho é essencial para a conexão emocional do público com o filme. Baker complementa essa força com um visual igualmente vibrante, criando uma atmosfera que reflete o fascínio de Ani por essa nova vida, ao mesmo tempo em que sugere sutilmente o quão frágil essa ilusão pode ser.</p>
<p>O tempo vai passando até que a narrativa repentinamente toma um rumo completamente diferente, abandonando a leveza inicial e revelando sequências mais aceleradas e enervantes. Se você viu a descrição do filme como uma comédia, provavelmente as cenas com esse tom comecem a partir de agora. Contudo, ainda que o longa flerte com o humor nesses momentos caóticos — principalmente quando o segredo do relacionamento vem à tona para a família do agora marido da protagonista —, o desconforto prevalece. Ani é colocada em situações bizarras envolvendo sair com os capangas da família russa (um em especial desenvolve um cuidado inusitado com ela), encontrar Ivan e enfrentar os pais dele, e tudo o que vemos são gritarias e confusões no melhor estilo <em>“Joias Brutas”</em>.</p>
<p>Baker usa essas situações não para aliviar a tensão, mas para intensificá-la e, de quebra, expor o abismo entre as realidades dos dois personagens principais. Quando tudo desmorona, o peso recai desproporcionalmente sobre Ani, enquanto Ivan e sua família seguem praticamente ilesos. Baker não julga a protagonista (nem ninguém, na verdade) por buscar a felicidade por meio de um “contrato” de alto custo pessoal envolvendo sexo e poder. Porém, em um mundo onde o dinheiro exerce tanta influência sobre as relações humanas, essa diferença escancara como as estruturas  sociais protegem os privilegiados e punem os mais vulneráveis.</p>
<p>Depois de todo o turbilhão de emoções, o clímax do filme ainda dá um último golpe impactante, fugindo de qualquer tentativa de romantizar ou suavizar a trajetória da protagonista. Baker deixa claro que, apesar das escolhas questionáveis para tentar melhorar de vida, Ani está sozinha para lidar com as consequências de uma sociedade que a julga por suas ambições enquanto ignora os erros dos mais poderosos. A falta de aprofundamento no passado da personagem demanda que o público complete certas lacunas para que a experiência seja completa. Ainda assim, vê-la se desprendendo de todas as armaduras que precisou usar a vida inteira para conseguir sobreviver é bastante comovente.</p>
<p>“Anora” não é uma obra fácil de categorizar. Ele desafia as expectativas ao misturar gêneros e oferecer uma visão atual e sem enfeites sobre relações marcadas pela desigualdade. Ainda que o ritmo seja um ponto baixo a se considerar — talvez realizar a montagem do próprio filme tenha deixado Baker apegado demais às cenas —, a obra tem seus méritos ao abordar uma narrativa sobre o poder do dinheiro nas relações humanas e o quanto uma pessoa precisa se desgastar na busca por felicidade em um mundo desigual. A intenção do humor passa do ponto, mas o desconforto gerado faz até mais pela história do que os possíveis risos.</p>
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		<title>Crítica &#124; Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa (2025): simples e encantador</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Jan 2025 13:42:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Augusto Madeira]]></category>
		<category><![CDATA[Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa]]></category>
		<category><![CDATA[Enzo Henrique]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Fraiha]]></category>
		<category><![CDATA[Isaac Amendoim]]></category>
		<category><![CDATA[Luis Lobianco]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Dantas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Adaptação exalta a essência do personagem com humor, emoção e uma mensagem atemporal.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">As adaptações dos quadrinhos de Maurício de Sousa para os cinemas vêm se mostrando ótimos exemplares de longas infantojuvenis — apenas o recente </span><i><span style="font-weight: 400;">“Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e seu elenco renovado ficou abaixo dos seus antecessores </span><i><span style="font-weight: 400;">“Turma da Mônica: Laços”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">“Turma da Mônica: Lições”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ainda assim, é difícil imaginar uma transposição mais fiel e encantadora desse universo do que “</span><b>Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa</b><span style="font-weight: 400;">”. Dirigido por Fernando Fraiha (</span><i><span style="font-weight: 400;">“Bem-Vinda, Violeta!”</span></i><span style="font-weight: 400;">), o filme aposta em uma narrativa com um belo visual e homenageia não só as histórias originais do personagem, como também a beleza do interior do país e as relações humanas que o definem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Começamos vendo o Chico brilhantemente interpretado por Isaac Amendoim como narrador da própria história, uma escolha que instiga o público a se conectar com a perspectiva inocente e curiosa do protagonista. Somos apresentados à Vila Abobrinha, um cenário de cores vibrantes, sons e texturas que representam o Brasil rural, mas também parecem vir diretamente das páginas dos quadrinhos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama de “Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa” mistura magia e realidade de maneira orgânica graças à visão das crianças, além de trazer uma mensagem sobre preservação ambiental comum, mas relevante atualmente. A tal goiabeira do título se mostra uma personagem cativante, simbolizando a relação entre o ser humano e a natureza, além de ser o centro dos dilemas entre progresso e tradição que movem a história. Uma surpreendente participação especial dá ainda mais importância para a árvore, adicionando toda uma nova camada de encantamento em uma sequência que parece ser tirada de </span><i><span style="font-weight: 400;">“Tudo Em Todo O Lugar Ao Mesmo Tempo”</span></i><span style="font-weight: 400;">, elevando ainda mais a experiência de assistir. O diretor conduz essa narrativa com leveza e uma confiança muito respeitosa na inteligência do público para absorver a mensagem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isaac Amendoim entrega uma atuação magnética, interpretando Chico Bento com tamanha naturalidade que parece ter nascido para o papel. O ator equilibra humor e inocência típicos de uma criança com o enorme coração que o protagonista mostra nos quadrinhos. Aliás, o desempenho do elenco mirim todo merece elogios, capturando a essência de seus personagens sem cair em exageros ou caricaturas — Zé Lelé (Pedro Dantas) dá um show à parte. Os adultos, na maioria pais da turminha, também têm seus momentos de brilho, com Luis Lobianco se destacando como Nhô Lau. Os vilões vividos por Augusto Madeira e Enzo Henrique sofrem com algumas repetições e falta de desenvolvimento, mas são essenciais para o andamento da trama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O humor, marca registrada das histórias do Chico Bento, é bem dosado e as piadas fluem de maneira natural, reforçando a identidade cultural do personagem e sua forma sempre peculiar de lidar com as pessoas e os desafios do dia a dia. Ao mesmo tempo, o filme não se priva de abordar temas mais profundos com sensibilidade e sem subestimar os espectadores, algo ainda mais raro ao se tratar de uma produção infantil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais do que um filme para crianças, “Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa” é um presente para os fãs de todas as idades. A obra celebra as raízes do Brasil ao destacar a riqueza da nossa cultura e lembrar que a simplicidade pode ser profundamente transformadora. O “Monicaverso” segue sendo um sucesso.</span></p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Babygirl (2024): Nicole Kidman brilha em thriller erótico hesitante</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jan 2025 11:34:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Banderas]]></category>
		<category><![CDATA[Babygirl]]></category>
		<category><![CDATA[Harris Dickinson]]></category>
		<category><![CDATA[Nicole Kidman]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Longa explora a culpa e o poder no desejo feminino, mas a narrativa não sustenta suas reflexões mais profundas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A diretora e roteirista Halina Reijn abre “<strong>Babygirl</strong>” com uma cena que coloca a protagonista Romy (Nicole Kidman) em um momento de frustração íntima com o marido (Antonio Banderas). Essa introdução não é apenas uma escolha narrativa, mas sim a chave para entender o que move a protagonista. Romy é uma CEO em um ambiente corporativo que exige dela um distanciamento emocional quase desumano. Mas, fora dos limites do escritório, suas fragilidades vêm à tona: uma mulher em busca de prazer e conexão, mas que encontra nos próprios desejos uma fonte de insegurança e vergonha.</p>
<p>A intenção de Reijn era retratar a dinâmica do jogo de poder comum em thrillers eróticos, porém sem a idealização masculina tão presente no subgênero. A câmera e a narrativa são colocadas a serviço de explorar a experiência feminina do desejo — sem embelezá-la ou simplificá-la. Nicole Kidman dá vida a uma mulher que, apesar de seu sucesso profissional, é tomada pela sensação de culpa enquanto se permite ceder à relação com um jovem estagiário, Samuel (Harris Dickinson). Essa dinâmica, em que as posições hierárquicas se misturam com o desejo reprimido, é tanto o motor quanto o obstáculo para o filme.</p>
<p>Ao contrário de outros exemplares, “Babygirl” opta por retratar os encontros sexuais cruamente, de forma quase anticlimática. As cenas entre Romy e Samuel são marcadas por silêncios desconfortáveis e hesitações, distantes da sensualidade estilizada típica do subgênero. Isso poderia funcionar como um reflexo das próprias inseguranças da protagonista, mas o filme parece não saber sustentar essa escolha. Quando finalmente mergulha em seus desejos, vemos uma edição acelerada de cenas curtas para, logo em seguida, a câmera enquadrar a protagonista mais uma vez como uma figura distante, perpetuando a ideia de julgamento e punição em vez de abraçar a libertação da personagem.</p>
<p>Embora a trama central busque explorar esse jogo de poder e desejo, subplots e metáforas são incluídas, mas nunca desenvolvidas com profundidade. Questões como a relação entre chefe e empregado ou as implicações de uma CEO arriscar sua posição por um caso extraconjugal são mencionadas, e o roteiro até flerta com um discurso feminista no terceiro ato. Porém, tudo soa superficial demais, envolvendo pouco tempo de tela e personagens secundários que não ganham o devido valor. Mesmo um ator de destaque como Antonio Banderas é subutilizado no papel do marido traído. Quando confronta Samuel, a cena poderia abrir caminho para um debate poderoso sobre masculinidade, fidelidade e desejo, mas o tema se esgota rapidamente, sem explorar os potenciais conflitos emocionais e éticos que essa dinâmica sugere.</p>
<p>Se “Babygirl” possui um ponto forte, ele está no desempenho de Nicole Kidman. A atriz entrega uma Romy dividida entre o peso das expectativas impostas a ela e seus impulsos mais profundos. Kidman ainda consegue mostrar toda a dificuldade em aceitar o desejo como parte legítima da experiência feminina e as implicações disso no decorrer do caso. Sua atuação é magnética e capaz de carregar sozinha o filme, até mesmo em momentos em que a direção e o roteiro parecem titubear.</p>
<p>Halina Reijn se esforça para desconstruir as narrativas tradicionais de poder e sexualidade, mas, ao manter sua protagonista presa em um ciclo de vergonha e distanciamento, o filme acaba reforçando o mesmo olhar crítico que tenta questionar. Enquanto espectadores, somos convidados a refletir sobre as pressões que moldam as escolhas de Romy, mas saímos com a sensação de que muito foi deixado na superfície. “Babygirl” acaba prometendo mais do que entrega, mas, no fim, ainda consegue oferecer um olhar provocativo sobre o que significa ser uma mulher em um mundo onde o desejo ainda é julgado.</p>
<p>O post <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628226/critica-babygirl-2024-nicole-kidman-brilha-em-thriller-erotico-hesitante/">Crítica | Babygirl (2024): Nicole Kidman brilha em thriller erótico hesitante</a> apareceu primeiro em <a href="https://cinemacomrapadura.com.br">Cinema com Rapadura</a>.</p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Jurado Nº 2 (2024): olhar inigualável sobre a fragilidade da justiça e a verdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Jan 2025 00:06:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Clint Eastwood]]></category>
		<category><![CDATA[Jonathan A. Abrams]]></category>
		<category><![CDATA[Jurado Nº 2]]></category>
		<category><![CDATA[Nicholas Hoult]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Clint Eastwood explora os limites morais e éticos do sistema judicial em um drama que coloca a justiça no banco dos réus.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O novo e possivelmente último longa metragem de <strong>Clint Eastwood</strong> nem sequer chegou às telonas em muitos países, tendo sua estreia limitada ao catálogo da Max. A estratégia restritiva de lançamento da Warner não corresponde à importância do diretor eneagenário, tampouco dá valor a um dos melhores filmes de 2024. “<strong>Jurado Nº 2</strong>” é um drama de tribunal que abre mão dos mistérios corriqueiros do subgênero para promover uma análise meticulosa sobre moralidade e responsabilidade, e cujo foco absoluto é a busca pela verdade.</p>
<p>Justin Kemp (Nicholas Hoult), alcoólatra em recuperação, é convocado para ser jurado em um caso de assassinato brutal — a morte de uma mulher supostamente assassinada pelo namorado —, quando enfrenta uma situação inesperada: ele pode ser o verdadeiro responsável pela morte que está sendo julgada. Enquanto Justin é levado a encarar a própria verdade e precisa decidir se confessar é um caminho possível, Eastwood traz um olhar profundo sobre as fragilidades humanas e os dilemas éticos que moldam o sistema de justiça.</p>
<p>É curioso perceber como esse ponto de partida inverte a lógica dos filmes de tribunal tradicionais. Aqui, a atuação da acusação (especificamente no tribunal) e da defesa não são essenciais para resolver a situação. O caso é um espelho das decisões de Justin, que se recusa inicialmente a seguir os demais jurados e declarar o suspeito culpado. Isso acaba transformando o julgamento em uma arena de confrontos morais. Cada argumento que ele levanta contra a condenação do réu reflete, na verdade, seus próprios dilemas internos, criando uma narrativa na qual a consciência vale mais para a justiça do que a própria lei.</p>
<p>O roteiro é construído com capricho pelo estreante Jonathan A. Abrams, trabalhando com premissas diretas e evitando mistérios desnecessários. Podemos não ter uma cena definitiva — e nem era preciso — mas desde o início, sabemos que Justin carrega uma culpa inegável. Contudo, o interesse do filme reside nas consequências dessa revelação, tanto para ele quanto para os demais. As falhas do sistema jurídico e dos indivíduos que o compõem são expostas com clareza: jurados desinteressados, lacunas legais e um sistema preocupado demais com eficiência sem dar o devido valor à verdade. Doze pessoas de qualificações e interesses questionáveis (algumas sequer querem estar lá) são mesmo as melhores opções para decidir o destino de alguém?</p>
<p>A atuação de Nicholas Hoult é carregada de tensão, demonstrando uma vulnerabilidade característica de um homem assombrado por sua culpa, ao mesmo tempo que age com astúcia para manipular um sistema falho. Seu trabalho é complementado pela direção segura de Clint Eastwood, que conduz o drama com a paciência de quem confia na capacidade que a história tem de prender a atenção do espectador. Mais do que isso, “Jurado Nº 2” provoca reflexões inquietantes ao colocar em xeque a capacidade do indivíduo de julgar objetivamente frente a suas falhas. Somos levados a questionar se a própria justiça é isenta ou moldada por interesses e emoções humanas.</p>
<p>Em uma fala marcante, a juíza Thelma Hollub (Amy Aquino) declara que, apesar de suas imperfeições, o sistema judicial é “o melhor que temos”. Será mesmo? Eastwood ecoa esse sentimento no decorrer do filme ao despir essas mesmas falhas com uma visão crítica, mas não cínica. O diretor não propõe soluções revolucionárias, mas deixa claro que a verdade, por mais dolorosa que seja, é um fardo que ninguém pode evitar carregar. E o peso dessa culpa é o que ocupa a tela na sequência final, cuja ambiguidade reflete a própria falta de certeza que permeia toda a obra.</p>
<p>“Jurado Nº 2” instiga a refletir sobre a complexidade da moralidade e o limite delicado entre crime, castigo, culpa e redenção, deixando perguntas que ressoam muito além dos créditos finais. A própria dicotomia “inocente x culpado”, que costuma ser o ápice dos longas de tribunal, aqui é contestada pela falta de nuances necessárias, como nível de ameaça, intenção, remorso, reincidência… e por como não é possível confirmar nenhuma dessas nas circunstâncias apresentadas. Trata-se de um drama reflexivo e muito relevante, um raro exemplar de cinema elaborado em tempos em que narrativas simplistas dominam o entretenimento contemporâneo.</p>
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		<title>Crítica &#124; O Auto da Compadecida 2 (2024): homenagem que diverte e respeita o clássico</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628124/critica-o-auto-da-compadecida-2-2024-homenagem-que-diverte-e-respeita-o-classico/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Dec 2024 17:43:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Flávia Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[Guel Arraes]]></category>
		<category><![CDATA[Matheus Nachtergaele]]></category>
		<category><![CDATA[O Auto da Compadecida 2]]></category>
		<category><![CDATA[Selton Mello]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sequência resgata a essência da obra original apostando na química da dupla de protagonista, embora hesite em abraçar plenamente sua própria identidade.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>“O Auto da Compadecida” é meu filme favorito, e certamente um dos que mais assisti na vida. Por conta disso, não surpreende que um misto de desconfiança e esperança (mais da primeira) se formasse logo antes de revisitar esse universo e testemunhar a atualização de uma história tão enraizada não só na minha vida, mas na cultura brasileira. Felizmente, posso dizer que, apesar de alguns incômodos, saí da sessão de “<strong>O Auto da Compadecida 2</strong>” feliz.</p>
<p>O desafio dos diretores Guel Arraes e Flávia Lacerda não era tão simples. Dar continuidade a esse clássico significava trazer de volta a magia de uma obra que marcou gerações e, ao mesmo tempo, justificar sua relevância tantos anos após o primeiro filme. Cientes de que se equiparar com o longa original não era o caminho certo, a dupla preferiu apostar no seguro, focando em resgatar a agilidade do texto de Ariano Suassuna. Ao mesmo tempo, desenvolveram também uma identidade própria, com um visual mais lúdico composto por cenários artificiais que evocam as raízes teatrais do autor paraibano. Algumas vezes, esses dois aspectos acabam brigando por espaço, prejudicando momentos preciosos para uma melhor assimilação do conteúdo.</p>
<p>O tempo passou, não só entre um filme e outro, mas também em Taperoá, até que João Grilo e Chicó, figuras amadurecidas, mas ainda carregadas da mesma essência que conquistou o público, se reencontram mais uma vez, agora em uma cidade decadente após os acontecimentos passados. O retorno de João Grilo é a força motriz para uma transformação em Taperoá, que passa do declínio a um ápice que promove o surgimento de novidades, como também dilemas contemporâneos que reconfiguram o sertão ficcional da obra original, demonstrando uma estratégia narrativa que busca superar a simples nostalgia. A dinâmica entre os dois continua sendo o eixo central da trama, e vemos uma versão atualizada de suas contendas contra os detentores de poder, nas quais a esperteza e o bom humor são as armas que lhes restam.</p>
<p>As interpretações de Selton Mello e Matheus Nachtergaele firmam o alicerce sobre o qual “O Auto da Compadecida 2” se sustenta, retomando seus personagens com uma energia igualmente nostálgica e renovada. A química entre os dois é responsável pelos momentos mais impactantes do filme, que se beneficia da energia de Nachtergaele sempre que João Grilo assume o protagonismo. O personagem mais importante da produção literária de Suassuna continua sendo a pedra fundamental da trama, unindo sua astúcia característica com a humanidade que o aproxima da realidade brasileira. Por outro lado, Chicó segue como o motor emocional da história, e algumas pinceladas narrativas podem não serem aprofundadas, mas dão uma camada extra de sensibilidade muito bem-vinda ao personagem, especialmente em seu arco com Rosinha. Os causos de Chicó ilustrados de maneira singular também retornam com um novo estilo, em uma forma muito acertada de remodelar a obra sem fugir da sua natureza.</p>
<p>As participações coadjuvantes, concebidas para preencher as lacunas deixadas pelo elenco anterior, são bem interpretadas e roubam várias cenas quando aparecem, sobretudo Fabíula Nascimento e Luís Miranda. Porém, considerando o todo, esses personagens por vezes carecem de tempo, seja de introdução ou até mesmo para concluir suas participações, funcionando mais como adornos do que como elementos essenciais à narrativa. A sensação geral é que o respeito pela obra original se associou ao excesso de cuidado, e esse misto de sentimentos resultou em uma constante falta de confiança em abraçar o novo. Chegando ao terço final, essa carência de ousadia fica ainda mais exposta com a insistência em revisitar situações do primeiro longa, quem sabe em uma tentativa de agradar aos fãs. Mas fica claro que recorrer a fórmulas já conhecidas é um desperdício do potencial de expansão do universo ficcional.</p>
<p>Mesmo assim, essas escolhas são permeadas por reflexões que mantêm viva a essência do legado de Suassuna. O argumento final sobre o julgamento do homem simples, que busca sobreviver em um mundo de desigualdades, permanece no cerne da história e reforça a atualidade do texto original. A celebração da astúcia e, sobretudo, da amizade de João Grilo e Chicó transcende qualquer contratempo técnico ou narrativo e consolida “O Auto da Compadecida 2” como uma homenagem afetiva à obra original. Talvez o medo de errar tenha sido maior que a vontade de acertar, mas ao se trabalhar com uma joia tão preciosa, às vezes esse é o melhor caminho a traçar.</p>
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		<title>Crítica &#124; Inexplicável (2024): emoção e superação com doses de fé</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628037/critica-inexplicavel-2024-emocao-e-superacao-com-doses-de-fe/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Dec 2024 19:31:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Eriberto Leão]]></category>
		<category><![CDATA[Fabrício Bittar]]></category>
		<category><![CDATA[Inexplicável]]></category>
		<category><![CDATA[Letícia Spiller]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Longa aposta na empatia para emocionar o público ao narrar uma história real de superação.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span class="break-words">O cinema tem o hábito de explorar narrativas que dialogam diretamente com as emoções do público.</span> <span class="break-words">Destas, certamente as histórias que combinam fé e superação são exemplos das mais simples e eficientes de se trabalhar.</span> <span class="break-words">“<strong>Inexplicável</strong>” parte desse pressuposto para trazer uma comovente história real para as telonas nos moldes de filmes religiosos hollywoodianos.</span> <span class="break-words">Porém, o diretor Fabrício Bittar consegue se diferenciar ao equilibrar o peso da carga espiritual no drama e se apoiar na força do seu elenco estrelado.</span></p>
<p><span class="break-words">No longa, baseado no livro</span> <span class="break-words bg-yellow-50"><em>O Menino que Queria Jogar Futebol</em>, do paraibano Phelipe Caldas, somos apresentados à vida de Gabriel Montenegro, um garoto que, aos 8 anos, enfrentou a maior batalha de sua vida.</span> <span class="break-words bg-yellow-50">Jogador de futsal e admirado por seu talento, Gabriel passou mal durante uma partida, sendo diagnosticado com uma grave condição de saúde, enfrentando uma cirurgia de emergência que o deixou à beira da morte.</span> <span class="break-words bg-yellow-50">Contra todas as expectativas, ele e sua família, cada um à sua maneira, lutam pela sobrevivência do jovem em um desfecho que desafiou explicações médicas.</span></p>
<p><span class="break-words">Letícia Spiller e Eriberto Leão dão vida a Yanna e Marcus, pais de Gabriel, e personagens que oscilam entre o desespero e a esperança em meio a uma jornada de provações.</span> <span class="break-words">Suas atuações intensas conferem autenticidade a uma narrativa que, embora centrada em Gabriel, explora principalmente o impacto da crise sobre os pais e os demais ao seu redor.</span> <span class="break-words">A mãe, grávida e com outro filho mais novo, se mostra o centro da esperança que abraça a própria fé.</span> <span class="break-words">Já o pai demonstra ser fechado para a religião, mostrando um combinado de indiferença e incompreensão.</span></p>
<p><span class="break-words">O restante do elenco principal também tem seu destaque, mostrando que o diretor soube extrair o melhor de cada um, especialmente do jovem protagonista, Miguel Venerabili.</span> <span class="break-words">Por mais que Gabriel passe várias sequências desacordado, o ator entrega os sentimentos necessários quando exigido, sobretudo nas cenas nas quais sua recuperação está começando.</span> André Ramiro e Adriana Lessa dão vida a dois médicos que ajudam a manter o equilíbrio entre crença e ceticismo, mesmo que, como o título sugere, os acontecimentos não sejam explicáveis pela ciência. <span class="break-words">O longa ainda conta com coadjuvantes de muita qualidade para compor o elenco de apoio, como Moacyr Franco, Suely Franco, Walter Breda e Victor Lamoglia.</span></p>
<p><span class="break-words">Bittar aposta em uma estética que acentua o turbilhão de sentimentos da situação: planos fechados capturam a dor e a vulnerabilidade, enquanto a iluminação propositalmente fria contribui para a construção de um clima introspectivo.</span> <span class="break-words">Os sons de aparelhos hospitalares também são constantes e opressores, sobretudo para quem já precisou passar por períodos angustiantes nesse tipo de ambiente.</span> <span class="break-words">São escolhas pensadas em amplificar o impacto dramático desse mergulho na relação entre a fragilidade da vida e a força espiritual, mas que também podem soar excessivamente melodramáticas em certos momentos.</span></p>
<p><span class="break-words">Não é segredo que o objetivo de “Inexplicável” é passar uma mensagem de resiliência e esperança.</span> <span class="break-words">A história convida o espectador a refletir sobre prioridades, fé e a força que emerge nas situações mais difíceis.</span> <span class="break-words">No entanto, há um contraponto que acaba englobando praticamente todos os exemplares desse “subgênero”: enquanto alguns encontram inspiração nessa abordagem religiosa, outros podem considerar a narrativa proselitista.</span> <span class="break-words">O arco de Marcus exemplifica bem essa dicotomia.</span> <span class="break-words">Eriberto Leão protagoniza uma cena de muita sensibilidade ao pesquisar como fazer uma oração.</span> <span class="break-words">Porém, em outros momentos, a transformação do personagem pode soar reducionista e até previsível para o tipo de filme.</span></p>
<p><span class="break-words">A obra também pode provocar questionamentos sobre o uso de crianças gravemente doentes como motor emocional.</span> <span class="break-words">Enredos desse tipo exploram a vulnerabilidade do público ao enfatizar o sofrimento infantil seguido de um desfecho redentor.</span> <span class="break-words">Essa estratégia é eficaz em tocar corações, mas pode ser vista como um recurso dramático clichê.</span></p>
<p><span class="break-words">No fim, “Inexplicável” não reinventa a roda, mas funciona plenamente para os que comprarem sua ideia desde o início — os que valorizam histórias centradas em fé e superação e buscam uma experiência comovente e transformadora.</span> <span class="break-words">Para alguns, pode soar como um apelo emocional excessivo, mas é uma missão difícil não ter empatia com essa família e manter os olhos secos ao fim da exibição.</span></p>
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		<title>Crítica &#124; Bolero &#8211; A Melodia Eterna (2024): um criador em conflito com sua criatura</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/628003/bolero-a-melodia-eterna-2024-um-criador-em-conflito-com-sua-criatura/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Thiago Siqueira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 Nov 2024 19:30:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Anne Fontaine]]></category>
		<category><![CDATA[Bolero - A Melodia Eterna]]></category>
		<category><![CDATA[Dora Tillier]]></category>
		<category><![CDATA[Ida Rubenstein]]></category>
		<category><![CDATA[Jeanne Balibar]]></category>
		<category><![CDATA[Raphaël Personnaz]]></category>
		<category><![CDATA[Vincent Perez]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ao explorar de forma única a composição de uma das peças musicais mais ouvidas de todos os tempos, o longa nos guia pelas fascinantes contradições de um homem em conflito com o seu legado e com os próprios desejos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Um criador atônito com a própria criação. Maurice Ravel compôs <em>Bolero</em>, possivelmente uma das peças musicais mais ouvidas (direta ou indiretamente) dos últimos cem anos. Entretanto, pode-se dizer que Ravel não era um dos maiores fãs da sua composição. Essa contradição é um dos pontos mais explorados em &#8220;<strong>Bolero &#8211; A Melodia Eterna</strong>&#8220;, longa de Anne Fontaine (<em>&#8220;Coco Antes de Chanel&#8221;</em>) que explora a vida do compositor e a gênese de sua obra mais conhecida.</p>
<p>Interpretado com notável distinção por Raphaël Personnaz, o Ravel que vemos em cena é um homem guiado pela fervoroso desejo de criar música e ser reconhecido por suas obras. Provocado pela coreógrafa e dançarina Ida Rubenstein (Jeanne Balibar), ele busca inspiração em fontes inesperadas, sendo este o plot principal pelo qual acompanhamos o protagonista.</p>
<p>Embora haja um desejo intenso em seu interior que ele mesmo parece ignorar ou até mesmo renegar, o fascinante Ravel de Personnaz compara o seu processo de composição com o de uma gestação, com a ironia dessa declaração não escapando ao filme, especialmente citando a demora e a dor envolvidos nesses atos. É interessante notar como Personnaz interpreta seu Ravel como um homem extremamente charmoso, mas que parece estar o tempo todo refreando seus próprios desejos, em especial em relação a Misia (Dora Tillier), irmã de seu melhor amigo, Cipa (Vincent Perez).</p>
<p>Em meio a uma apaixonante Paris dos anos 1920, lindamente recriada e explorada pela diretora e sua equipe, onde artistas eram incentivados a deixar fluir suas vontades, esse refreamento de Ravel torna o personagem único na narrativa, dando momentos absolutamente únicos para Personnaz brilhar em cena, enquanto frustração e criação se misturam na jornada até a concepção de <em>Bolero</em>.</p>
<p>Incapaz de enxergar a força sexual de sua obra, posteriormente explorada à enésima potência, Ravel a renega. É neste ponto que o longa de Fontaine se torna único, ao explorar a inocência ou cegueira do genial compositor em relação aos próprios complexos, especialmente quando se mostra mais fragilizado, transformando &#8220;Bolero &#8211; A Melodia Eterna&#8221; em uma apaixonante obra sobre um homem tentando ficar em paz com seus desejos e seu legado.</p>
<p><em><strong>*Filme visto no Festival Varilux de Cinema Francês 2024.</strong></em></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Crítica &#124; Madame Durocher (2024): retrato de uma mulher cuja história não pode ser esquecida</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/627998/critica-madame-durocher-2024-retrato-de-uma-mulher-cuja-historia-nao-pode-ser-esquecida/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Thiago Siqueira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 Nov 2024 19:19:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Andradina Azevedo]]></category>
		<category><![CDATA[André Ramiro]]></category>
		<category><![CDATA[Dida Andrade]]></category>
		<category><![CDATA[Isabel Fillardis]]></category>
		<category><![CDATA[Jeanne Boudier]]></category>
		<category><![CDATA[Madame Durocher]]></category>
		<category><![CDATA[Marie-Josée Croze]]></category>
		<category><![CDATA[Mateus Solano]]></category>
		<category><![CDATA[Sandra Corveloni]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mesmo em um longa imperfeito, cinebiografia imortaliza na sétima arte uma das figuras mais interessantes (e pouco lembradas) da história do Brasil com orgulho e interpretações marcantes de suas protagonistas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Já foi dito algumas vezes que a arte é a memória de um povo. Que, por meio de filmes, livros, músicas, conseguimos imortalizar pessoas e eventos. Pois bem, se existem pessoas que merecem seu lugar na memória eterna do país, uma delas é Marie Josephine Mathilde Durocher ou, simplesmente, &#8220;<strong>Madame Durocher</strong>&#8220;, a primeira mulher a integrar a Academia Imperial de Medicina do Brasil, em meados do (não tão longínquo) século XIX.</p>
<p>Dirigido pela dupla Dida Andrade e Andradina Azevedo (<em>&#8220;Eike, Tudo ou Nada&#8221;</em>), &#8220;Madame Durocher&#8221; mostra a saga dessa parisiense criada no Brasil para não só conseguir exercer a obstetrícia, mas também ser respeitada como médica e mulher. Abarcando a vida da protagonista-título desde sua juventude até sua maturidade — vivida nestas fases, respectivamente, por Jeanne Boudier e Sandra Corveloni —, a produção faz um retrato eficiente da luta e das tragédias na vida de Marie.</p>
<p>A criação difícil da futura médica ao lado da mãe (Marie-Josée Croze) é um dos grandes destaques do filme, especialmente com a maravilhosa química entre Boudier e Croze. A relação entre mãe e filha forja em fogo a personagem e faz com que seja natural a sua obstinação no momento posterior de sua vida, quando Sandra Corveloni surge em cena, exalando impetuosidade e compaixão.</p>
<p>A dupla de diretores faz um bom trabalho ao colocar o espectador no meio do Brasil da época de Dom Pedro II, especialmente do machismo e elitismo vigente na Academia de Medicina, algo fundamental para a trama. Porém, há um certo exagero nas figuras ao redor de Marie, especialmente com Mateus Solano, cujo Dr. Hermínio, que assume aqui a função de antagonista, por vezes beira o caricatural, sendo salvo pelo carisma natural de seu intérprete.</p>
<p>André Ramiro se sai melhor com o seu Dr. Joaquim, mentor da Madame Durocher, caminhando entre o professoral e o paternal, mas infelizmente Isabel Fillardis surge bem perdida com sua Clara. Outro problema da produção, inclusive bastante comum em cinebiografias, é que os diretores não conseguem fugir do tom quase episódico que a trama assume em dados momentos.</p>
<p>É inegável que &#8220;Madame Durocher&#8221; está no seu melhor quando foca em Marie, em qualquer de suas versões, com Jeanne Boudier e Sandra Corveloni entregando interpretações maravilhosas dessa mulher que sim, merece ser eternizada nas telas. E isso felizmente ocorre neste filme que, embora imperfeito, a retrata com o respeito que merece.</p>
<p><em><strong>*Filme visto no Festival Varilux de Cinema Francês 2024.</strong></em></p>
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		<title>Crítica &#124; O Clube das Mulheres de Negócios (2024): sátira afiada, narrativa dispersa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Nov 2024 23:49:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Anna Muylaert]]></category>
		<category><![CDATA[Grace Gianoukas]]></category>
		<category><![CDATA[Katiuscia Canoro]]></category>
		<category><![CDATA[Luís Miranda]]></category>
		<category><![CDATA[O Clube das Mulheres de Negócios]]></category>
		<category><![CDATA[Rafael Vitti]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Apesar de momentos provocativos, novo longa de Anna Muylaert não consegue sustentar o desenvolvimento de sua própria premissa.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Em “<strong>O Clube das Mulheres de Negócios</strong>”, a diretora e roteirista Anna Muylaert propõe um exercício de imaginação: o que aconteceria se as mulheres mais poderosas do Brasil assumissem os papéis de poder historicamente ocupados por homens? Tal premissa desperta o interesse ao retratar um microcosmo que brinca com o desconforto do público ao ver homens submetidos às mesmas situações frequentemente enfrentadas por mulheres no mundo real.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama segue Jongo (Luís Miranda), um fotógrafo veterano, e Candinho (Rafael Vitti), um jovem repórter, em sua incursão ao exclusivo clube do título. O objetivo da dupla é entrevistar a diretoria, composta por personagens excêntricas que ocupam o topo da cadeia de comando. Nesse mundo, a dinâmica do poder foi invertida, e a opressão, apesar de mudar de rosto, mantém sua essência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As integrantes do clube são interpretadas por um elenco de peso. Cada uma é uma caricatura pensada cuidadosamente para refletir os conhecidos estereótipos das figuras de poder masculinas. É nesse contexto que nomes como Katiuscia Canoro e Grace Gianoukas brilham em papéis que abraçam o exagero sem perder a conexão com a crítica. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, o filme esbarra na dificuldade de transformar sua premissa em uma narrativa que sustente a riqueza do tema. A trama se apoia na inversão de gêneros, mas não chega a questionar como essas estruturas poderiam ser ressignificadas. Por se limitar a reproduzir a mesma opressão, “O Clube das Mulheres de Negócios” perde a chance de se aprofundar nas complexidades do poder sob essa nova visão e acaba reforçando a ideia de que a tirania é sempre inerente a quem detém o controle.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar dessas questões, Muylaert não perde a mão ao provocar e ridicularizar as figuras que regem o Brasil. A sátira ganha força nas situações e diálogos mirabolantes, que mesmo não sustentando a narrativa sozinhos, são o que fazem valer a sessão. Além disso, a obra também provoca uma reflexão sobre como os homens reagem ao se verem retratados como objetos de poder ou submissão. A cineasta parece falar diretamente com o espectador masculino, desafiando-o a reconhecer os mecanismos que sustentam o patriarcado e a se ver em um espelho distorcido, mas revelador.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, até esse humor se torna refém da necessidade de externalizar mensagens já evidentes. O resultado é um roteiro que, por vezes, troca a sutileza pela exposição excessiva, enfraquecendo o impacto do comentário social. Existe também uma insistência em uma subtrama animalesca que, embora tenha potencial simbólico, não parece se encaixar na trama principal. Outra camada que poderia ser mais explorada, mas ainda tem seus momentos, é a relação entre as mulheres poderosas do clube. Há uma tensão implícita entre a solidariedade do gênero e a competição pelo poder que não é explicitamente desenvolvida, mas que aparece em pequenos gestos e interações. Esse aspecto sugere que o poder, quando inserido em uma hierarquia, pode fragmentar alianças, independentemente de quem o exerce.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“O Clube das Mulheres de Negócios” é um experimento feito para provocar risos e desconfortos, mas que, em certos momentos, parece perdido em suas próprias ambições. Muylaert nos lembra que o humor é uma ferramenta poderosa para desconstruir estruturas. Porém, ao tentar explicar demais suas intenções, o filme subestima a capacidade de interpretação do público. O impacto da narrativa poderia ser mais eficaz se confiasse mais nos elementos visuais e nas interpretações, que já trazem camadas suficientes de significado.</span></p>
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		<title>Crítica &#124; Ainda Estou Aqui (2024): em tempos de esquecimento, lembrar é resistir</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Nov 2024 01:37:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Ainda Estou Aqui]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Montenegro]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Torres]]></category>
		<category><![CDATA[Selton Mello]]></category>
		<category><![CDATA[Walter Salles]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Walter Salles aborda as feridas deixadas pela repressão militar no Brasil através de uma narrativa íntima, ancorada na força de uma família despedaçada.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">O cinema tem o poder de traduzir traumas coletivos em histórias pessoais, e é exatamente isso que Walter Salles (<em>&#8220;Central do Brasil&#8221;</em>) faz em “<strong>Ainda Estou Aqui</strong>”. A obra revisita um dos capítulos mais sombrios da história brasileira, embora se afaste do didatismo sobre a época. O cineasta opta por mergulhar na história de uma família que teve a vida atravessada pela tirania do regime militar, ao mesmo tempo em que convida o público a refletir sobre como a ausência e o silêncio são marcas duradouras nas vidas daqueles que permanecem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra abre com uma aura de normalidade quase idílica que captura o espectador. A casa à beira-mar da família, inundada por luz natural e ao som de música popular brasileira, é palco de momentos simples como risadas, brincadeiras infantis e conversas sem pressa. O diretor não se priva de gastar bons minutos nessa construção para não apenas gerar um impacto maior quando a paz é interrompida, como também aproximar o público a ponto de nos colocar como parte daquela família. Selton Mello, como Rubens Paiva, traz uma presença marcante mesmo com tempo limitado em tela. Sua interpretação humaniza a figura histórica, mostrando-o como um pai afetuoso e um cidadão que acreditava na possibilidade de um país livre.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando os militares invadem a narrativa e levam Rubens sob custódia, “Ainda Estou Aqui” passa por uma transformação lenta e impiedosa. A leveza, tão genuína, logo dá lugar à tensão. A casa, antes acolhedora, torna-se um espaço opressor, entranhado pela ausência e pela incerteza simbolizando a quebra da rotina. Sem explicações ou notícias, a esposa, Eunice (Fernanda Torres), precisa equilibrar o peso do desgosto e da aflição com a necessidade de proteger os filhos. A falta de Rubens é sentida por toda a obra, fazendo com que o público sinta o vazio deixado por ele.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A atuação de Fernanda Torres vai além de meras palavras, expressando a dor e a resiliência de uma mulher forçada a enfrentar uma luta inimaginável. Seu sofrimento é silencioso, mas devastador. Sentimos nos olhares, nos gestos e nas pausas que evidenciam, principalmente, a angústia de não saber o destino do esposo. Mais do que um trabalho formidável, trata-se também de uma homenagem, não apenas à própria Eunice Paiva, mas a todas as mulheres que, durante a ditadura, enfrentaram perdas profundas e continuaram lutando por justiça.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Salles opta por não se aprofundar em explicações históricas detalhadas sobre o contexto político, preferindo focar na experiência íntima da família. Não por acaso, “Ainda Estou Aqui” se beneficia do conhecimento prévio do espectador, que complementa o que está sendo mostrado em tela. Quando Eunice e uma das filhas são levadas para interrogatório, sabemos o que acontece ali. Além de poupar o público da violência gratuita, não mostrar cenas de tortura explícita contribui para a aura de tensão tanto ou até mais do que exibi-las. Não é preciso explicar a ditadura para quem a viveu — ela se faz presente no medo constante e nas implícitas e explícitas formas de violência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro elemento de destaque no filme é a construção espacial da casa da família. A forma como a câmera explora os cômodos, com tantas memórias impregnadas nas paredes, cria um senso de familiaridade com o ambiente, e isso faz com que a virada seja ainda mais impactante. Quando Rubens é levado, o espaço se encolhe, as cores se apagam e o peso da ausência toma conta do lugar, despedaçando aquele cotidiano agradável que nos acostumamos até então. E quando pensamos que não havia mais o que extrair desse conflito, Salles mostra a família deixando a casa para trás e nos leva para diferentes momentos no futuro, constatando de forma terna e melancólica que, apesar de tanto sofrimento, a vida segue seu curso.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O momento final, em que Eunice reage ao ouvir a palavra “ditadura”, é uma das cenas mais poderosas do filme. Fernanda Torres dá lugar à sua mãe, Fernanda Montenegro, que em uma breve aparição manifesta, apenas com o olhar, a dor de uma ferida que permanece aberta, lembrando um passado que não deve ser esquecido. A sequência reforça a importância da História (com “H” maiúsculo) para garantir que tais feridas nunca sejam ignoradas ou esquecidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Ainda Estou Aqui” extrapola o mero relato histórico. A obra propõe uma reflexão sobre as consequências da repressão de um regime ditatorial. Mais do que isso, é também um tributo à força das famílias que se mantiveram firmes e um lembrete de que recordar é, acima de tudo, um ato de resistência. Em um país onde o passado ainda ecoa no presente, o sucesso do longa é marcante na construção de um futuro que valorize a verdade e a memória.</span></p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Pinguim (HBO, 1ª temporada): ascensão ao poder brutal e autossuficiente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Nov 2024 14:06:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Colin Farrell]]></category>
		<category><![CDATA[Cristin Milioti]]></category>
		<category><![CDATA[Deirdre O’Connell]]></category>
		<category><![CDATA[Lauren LeFranc]]></category>
		<category><![CDATA[Pinguim]]></category>
		<category><![CDATA[Rhenzy Feliz]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com uma trama envolvente e atuações memoráveis, série entrega uma visão complexa e sem romantização do vilão, questionando lealdades, ambições e o real preço do poder.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Após o lançamento de <em>&#8220;The Batman&#8221;</em> em 2022, muito se falou sobre a expansão desse novo universo protagonizado por Robert Pattinson e comandado pelo cineasta Matt Reeves. Eis que dois anos depois, uma trama que fatalmente se desenrolaria fora das telas ganhou vida como uma série de TV: a ascensão de Oz Cobb no submundo de Gotham. Com Colin Farrell no papel principal, &#8220;<strong>Pinguim</strong>&#8221; se afasta das tradicionais histórias de vilões que dependem de heróis para estabelecer um contraste moral. Em vez disso, entrega uma narrativa onde o protagonista é genuinamente comprometido com sua busca pelo poder, sem que isso signifique a redenção de suas atitudes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Agora com tempo e foco em seu personagem, Farrell, ao lado da showrunner Lauren LeFranc, inserem esse Pinguim em uma nova dinâmica, mais distante do que se conhece pelo subgênero de super-heróis, e mais próxima dos tradicionais dilemas das histórias de máfia. A série aposta em mostrar como os impulsos de Oz e sua ambição convivem com sua fragilidade emocional, sugerindo que o vilão é movido por mais do que apenas o desejo de poder. Ele quer o respeito que nunca teve, o reconhecimento pelo qual sempre foi subestimado, e é essa motivação que torna cada decisão, por mais instintiva que seja, um passo na busca por se afirmar diante de uma cidade que o rejeitou. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao seu lado — e por vezes em seu caminho —, surge outra personagem com tanto peso para a história que seu nome poderia estar no título da produção. Sofia Falcone (Cristin Milioti) compartilha uma relação ambígua com Oz, dividindo traumas e ambições, mas também mantendo seus próprios objetivos. Milioti consegue promover uma presença que tensiona o fio da lealdade entre eles, várias vezes colocando em xeque até onde um personagem consegue confiar no outro. Esse vínculo, construído sobre o passado em comum e a conexão com Carmine Falcone, cria um clima de intriga e incerteza que prende a atenção do público. Sofia tem uma motivação de longa data para retomar o controle do império de sua família, mas não hesita em manipular e testar Oz a cada episódio, criando um jogo de gato e rato numa panela de pressão que constantemente desestabiliza a trajetória de ambos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A estética visual da série funciona para o seu propósito, usando a própria cidade como um reflexo da deterioração emocional e moral de seus personagens. A atmosfera quente e soturna de <em>&#8220;The Batman&#8221;</em> dá lugar a uma Gotham que foca nas sufocantes sombras e becos subterrâneos das áreas mais desprovidas, sem deixar de contrastar com a opulência dos mais ricos. </span><span style="font-weight: 400;">É interessante também como a série desenvolve o Pinguim sem necessariamente justificar o seu comportamento, mas sim explorando o custo de sua ambição. Ao fazer isso, notamos uma crítica sutil ao próprio espectador, que acompanha os esforços de Oz e se pega por vezes torcendo, mesmo que relutantemente, pelo sucesso de alguém que deveria ser apenas um antagonista. Claro que faz parte do trabalho dos roteiristas induzir o público a gostar do protagonista. A introdução de personagens secundários, como Victor Aguilar (Rhenzy Feliz) e Francis Cobb (Deirdre O’Connell), traz a carga dramática necessária para criar uma certa empatia com Oz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Victor, jovem e ingênuo, funciona como uma espécie de espelho, oferecendo um olhar inocente e influenciável para as atitudes sombrias do Pinguim e forçando o público a confrontar a complexidade moral do vilão. Já Francis Cobb, mãe de Oz, sintetiza uma dimensão familiar que esclarece as feridas emocionais do vilão. Com sua saúde mental fragilizada, ela se torna uma peça importante no quebra-cabeça da identidade de Oz, destacando como seus traumas e cicatrizes familiares moldaram suas ambições. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vale salientar que a decisão de não fazer com que o Batman seja uma figura presente em &#8220;Pinguim&#8221; permite que o vilão cresça sem a sombra opressiva do homem-morcego. Em vez de se preocupar em amarrar cada detalhe ao universo mais amplo da franquia, a série investe em sua própria autossuficiência e profundidade, concentrando-se em mostrar Oz enfrentando sua escalada de poder de forma independente. As tramas e conflitos destes personagens secundários de Gotham ganham vida própria, e as disputas pelo controle da cidade revisitam dilemas morais e emocionais que vão além de lutas entre o bem e o mal. Esse enfoque questiona a necessidade de referências constantes a um universo compartilhado, mostrando ser possível criar uma narrativa cativante e capaz de se sustentar por suas próprias nuances. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, &#8220;Pinguim&#8221; transcende o status de spin-off para se firmar como uma obra completa e independente, que reafirma a todos a sua razão de existir mesmo se todas as referências ao universo do Batman fossem apagadas. Com a habilidade de Farrell em equilibrar brutalidade e vulnerabilidade, a série redefine a ideia de que histórias sobre vilões precisam transformá-los em anti-heróis para funcionarem. </span></p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; A Substância (2024): sátira grotesca, explosiva e exaustiva</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/627788/critica-a-substancia-2024-satira-grotesca-explosiva-e-exaustiva/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Nov 2024 20:48:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[A Substância]]></category>
		<category><![CDATA[Coralie Fargeat]]></category>
		<category><![CDATA[Demi Moore]]></category>
		<category><![CDATA[Margaret Qualley]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com cenas repulsiva e uma crítica ácida à indústria da beleza e juventude, "A Substância" explora as pressões impostas sobre mulheres e o preço emocional de padrões inatingíveis em uma experiência visceral e provocante.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;<strong>A Substância</strong>&#8221; se encontra em algum lugar entre os subgêneros sátira, <em>body horror</em> e &#8220;meu Deus, o que está acontecendo aqui?!&#8221;, com destaque para o visual chocante e os efeitos práticos capazes de causar desconforto físico no público. O enredo acompanha a história de Elizabeth Sparkle (Demi Moore), famosa apresentadora de TV que se vê descartada pela indústria devido à idade. Em uma tentativa desesperada de recuperar status e beleza, ela recorre a uma droga misteriosa que promete criar uma versão melhor de si mesma — esta interpretada por Margaret Qualley. No entanto, essa &#8220;outra Elizabeth&#8221;, que adota o nome de Sue, vive de maneira independente e atende perfeitamente ao estereótipo hipersexualizado exigido pelo programa, refletindo uma versão da mulher que a sociedade, e especialmente o mundo do entretenimento, exige. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">À primeira vista, o enredo transparece uma crítica direta à indústria da fama e sua obsessão pela inalcançável juventude perfeita. Contudo, essa exposição do culto à beleza acaba adotando uma abordagem tão exagerada que, por vezes, parece criticar mais a protagonista feminina e sua busca pela aceitação do que o próprio sistema ou os homens que criam esses padrões. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de o filme reforçar várias vezes que ambas são a mesma pessoa, essa conexão não se traduz na tela. A Elizabeth original fica alheia à vida que sua versão jovem está vivendo, sem visivelmente colher qualquer benefício. Isso levanta a questão: afinal, o que Elizabeth ganha com tudo isso? Em vez de alcançar uma juventude renovada, ela só observa à distância, algumas vezes com desgosto, outras até com um misto de revolta e uma espécie de carinho maternal pela jovem, que agora vive tudo o que ela perdeu. Isso demonstra que a protagonista ainda deseja retornar ao auge, e todo esse conflito interior a torna uma personagem com diferentes peculiaridades — em parte nostálgica e em parte ressentida com o próprio reflexo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para todos esses lados aparecerem bem, Demi Moore abandona qualquer vaidade e entrega uma atuação vital para o filme. Enquanto o roteiro não é sempre tão claro sobre as intenções de Elizabeth, Moore compensa com uma atuação emocionalmente carregada, que vai do abatimento à explosão, exibindo a dor de uma mulher cuja identidade foi definida por sua aparência, e que agora se vê sem um propósito de vida. Uma cena memorável acontece quando ela remove e reaplica a maquiagem várias vezes diante do espelho, destacando sua vulnerabilidade e transformando esse momento íntimo em uma crítica potente aos padrões de beleza e ao etarismo. Já Margaret Qualley, como a versão “melhorada” de Elizabeth, surge como o ideal inalcançável de perfeição que a sociedade impõe. Mas a própria Sue logo se torna mais uma escrava desse padrão, ultrapassando seus próprios limites para manter uma imagem idealizada — um claro retrato da pressão que a geração atual enfrenta com a infinidade de procedimentos estéticos existentes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em alguns quesitos técnicos, &#8220;A Substância&#8221; é eficaz e perturbador. O design de som traz efeitos que provocam o público, e aliado a uma trilha sonora penetrante, causam sensações de desconforto quase viscerais. Já no visual, o uso de cores intensas e closes exagerados criam uma experiência sensorial incômoda, potencializando o sentimento de repulsa. Quando unidos, os sentidos vão se misturando e tornam o filme um verdadeiro pesadelo em movimento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por outro lado, a edição por vezes peca ao adotar um estilo frenético e repetitivo. Emulando o desconforto psicológico de obras como <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/82959/requiem-para-um-sonho-2000-82959/" target="_blank" rel="noopener"><em>&#8220;Réquiem para um Sonho&#8221;</em></a>, o filme se perde entre ser exaustivo ou didático demais. Quando não está provocando essa viagem perturbadora, a montagem subestima a capacidade do público de lembrar de cenas ocorridas há minutos, ou ainda de fazer suas próprias conexões. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar disso, &#8220;A Substância&#8221; atinge seu auge ao abraçar a loucura total na sua parcela final. A diretora francesa, Coralie Fargeat, não tem receio de extrapolar o <em>body horror</em> e, de quebra, expor o nosso próprio interesse pela exploração do corpo e pelo voyeurismo proposto pela tela do cinema. A sequência final é o ápice de uma narrativa que não hesitou em ir além. Fargeat leva a premissa do horror corporal ao extremo, criando um espetáculo visual que, embora divisivo, é impossível de passar inexpressivo. A cineasta faz questão de explorar cada detalhe grotesco da transformação de Elizabeth agressivamente, passando na cara o fascínio coletivo pela juventude e perfeição visto durante o longa — ao mesmo tempo que nos contrasta com os efeitos condenáveis de uma sociedade obcecada por esses valores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, &#8220;A Substância&#8221; brilha quando abraça sua própria excentricidade. Apesar de uma narrativa por vezes confusa e de alguns elementos questionáveis, o filme se mostra uma experiência bastante intensa, com uma crítica que não mira apenas nos padrões de beleza, mas também na nossa obsessão como espectadores. É uma reflexão ácida sobre o preço da perfeição e um lembrete do desgaste emocional e físico causado pelo culto à beleza, tudo envolto por uma embalagem explosiva de gore e sangue.</span></p>
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		<title>Crítica &#124; Coringa: Delírio a Dois (2024): mergulho tortuoso em uma mente destruída</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/627671/critica-coringa-delirio-a-dois-2024-mergulho-tortuoso-em-uma-mente-destruida/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Oct 2024 18:58:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Coringa 2]]></category>
		<category><![CDATA[Coringa: Delírio A Dois]]></category>
		<category><![CDATA[Joaquin Phoenix]]></category>
		<category><![CDATA[Lady Gaga]]></category>
		<category><![CDATA[Todd Phillips]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Embora falho em certos pontos, longa acerta ao retratar a mente fragmentada e corroída de seu protagonista carente de afeto.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Deixando de lado todo o burburinho sobre &#8220;<strong>Coringa: Delírio a Dois</strong>&#8221; desde antes mesmo da sua estreia oficial, é possível admitir que o filme está longe de ser a continuação que os fãs esperavam sem que isso seja, necessariamente, algo ruim. A ambiguidade e o desconforto que ele causa são, de certa forma, parte da experiência que o longa tenta proporcionar.</p>
<p>Em termos de narrativa, o filme começa de forma arrastada, refletindo a falta de propósito do protagonista ao ser mantido por dois anos internado no Asilo Arkham enquanto aguarda julgamento. As cenas vão passando e parecem não ter muito a dizer, embora seja o próprio Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) que se encontre resignado após sua jornada de assassinatos e instauração do caos vista no fim do longa anterior. Até que o surgimento de Lee Quinzel (Lady Gaga) acontece como uma faísca capaz de mudar a vida do personagem-título.</p>
<p>A relação entre os dois parece começar de forma abrupta, mas faz sentido quando se pensa no histórico do personagem. Arthur sempre teve um padrão de criar conexões imaginárias, sobretudo com mulheres — algo citado mais à frente no seu julgamento. Tendo em vista as fantasias com a sua vizinha, Sophie Dumond (Zazie Beetz), no primeiro filme, faz sentido que ele se apegue rapidamente a Lee como uma nova figura de esperança após todo o isolamento no Arkham. O desenvolvimento dessa relação, que pode ser visto como apressado, revela-se mais como uma extensão da carência e da solidão do protagonista do que, de fato, um romance genuíno. Ela é, para ele, uma nova fantasia de escape que o faz não abdicar de viver.</p>
<p>Claro que quando um filme protagonizado por Coringa e Arlequina é anunciado, ainda mais com o título &#8220;Delírio a Dois&#8221;, expectativas se formam quase involuntariamente. Mas é aí que o que deveria ser uma exploração psicológica densa de Arthur Fleck e Harley Quinn pode acabar se mostrando uma experiência frustrante exatamente por ignorar esse potencial. A própria personagem interpretada por Lady Gaga, por mais tempo de tela que possua, existe apenas em função de trazer à tona a personalidade do Coringa, até então ao que parece oculta no interior de Arthur.</p>
<p>A tentativa de balancear o drama com as tão malfaladas performances cantadas resultam em um musical que desperta pouco interesse. Nenhuma dessas cenas se destaca, falham em cativar, e mais parecem um artifício para &#8220;estilizar&#8221; um conteúdo que, no fim das contas, não precisava desse excesso. Ainda assim, não é por acaso que grande parte do desenvolvimento da relação entre Arthur e Lee acontece em sequências musicais. Dessa forma, além de aproveitar o talento natural de Lady Gaga, o roteiro reafirma que o foco da narrativa é o que está se passando na mente do protagonista e como isso reflete do lado de fora dele. Uma cena que merece destaque é quando Arthur, exausto de tanto faz-de-conta enquanto nega a própria existência do Coringa, pede a Lee que pare de cantar e apenas fale. Esse pequeno gesto encapsula o desespero dele por algo real em meio a uma vida dominada por delírios e fantasias fabricadas. Isso repercute a própria estrutura do filme: um amontoado de performances, canções e ilusões que mascaram a realidade de um homem destruído.</p>
<p>Além da famigerada opção de transformar &#8220;Delírio a Dois&#8221; em um musical, outro ponto amplamente debatido são as cenas no tribunal. Embora essa parte tome várias liberdades, exagerando no drama típico de julgamentos, é nesse contexto que algumas questões fundamentais sobre o personagem vêm à tona. A primeira é a ideia de que o Coringa, enquanto figura pública, funciona como um agente do caos, mas por trás da maquiagem, há alguém com a mente atormentada, cuja maior carência é emocional. Isso fica visível, por exemplo, na recorrente preocupação de Arthur sobre se o filme que fizeram sobre ele foi &#8220;bom&#8221; ou não. É um momento que pode pintá-lo como ególatra, mas ao mesmo tempo revela uma ingenuidade e uma necessidade desesperada de validação. Ele não quer ser apenas o caos — quer ser compreendido, quer ser alguém.</p>
<p>Outro momento importante é quando sua vizinha relata a todos que a história contada pela mãe de Arthur — de que ele tinha como propósito de vida trazer alegria às pessoas — era uma invenção. Para o protagonista, essa revelação é devastadora, pois ele havia construído toda a sua identidade em torno dessa mentira. Esse momento reforça que, para além da negligência social e institucional que sempre o cercou, o verdadeiro mal que o assola está profundamente enraizado em sua mente fragmentada. Ele não só foi abandonado pela família e pela sociedade, como ainda sofre com uma falta total de ferramentas emocionais para lidar com isso. Nesse sentido, o filme nos leva a uma reflexão mais ampla sobre as condições mentais que ultrapassam o descaso institucional. Arthur não é apenas um produto do ambiente caótico de Gotham, mas de uma mente tão deteriorada que a incapacidade de sentir qualquer coisa boa se tornou sua maior prisão.</p>
<p>Se a jornada de transformação do protagonista é o ponto alto do primeiro filme, em &#8220;Delírio a Dois&#8221; a evolução do personagem ao assumir novamente a identidade do Coringa é tão impactante quanto. A ideia de que a figura do palhaço é, no fundo, uma persona que lhe proporciona um misto de prazer e anestesia contra a dor e a falta de amor é particularmente interessante. Ao cometer os cinco assassinatos, Arthur &#8220;se encheu&#8221; dessa personalidade, usando-a quase como uma droga para mascarar essa carência por afeto. No novo longa, testemunhamos um processo análogo a um dependente em abstinência aos poucos cedendo novamente ao vício. À medida que o Coringa vai “assumindo o lugar” de Arthur mais uma vez, somos levados a crer que uma nova catarse se aproxima. É aí que Todd Phillips entrega um ponto de ruptura surpreendente, quebrando de vez o espírito do personagem principal.</p>
<p>A partir daí, o que vemos é um desfecho irônico e cruel para alguém carente de propósito e reconhecimento. Arthur passa de um homem que desejava desesperadamente ser notado — vide as apresentações no primeiro longa e as cenas musicais no segundo — a alguém descartado pelas circunstâncias e manipulado até o último momento. Esse ciclo de autodestruição e submissão ao caos atinge seu ápice em um dos raros momentos em que Gotham surge além dos cenários do Arkham e do tribunal — diferente do filme anterior, no qual a cidade era praticamente uma personagem. Perseguido por um seguidor fantasiado de Coringa, estabelecemos um paralelo direto com o bullying que Arthur sofria anteriormente. Agora, ele foge não de opressores, mas dos seus próprios “fãs”, refletindo o impacto de sua figura carismática na cidade e no caos que ele incita sem nem querer.</p>
<p>“Coringa: Delírio a Dois” pode não ser uma obra-prima. Mas, principalmente em sua metade final, o longa consegue desnudar o verdadeiro peso das questões internas do personagem-título. Se no primeiro filme vemos como esse agente do caos espalhou anarquia por Gotham, agora pudemos ter um vislumbre do caos dentro do próprio protagonista.</p>
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		<title>Crítica &#124; Longlegs: Vínculo Mortal (2024): o Livro do Apocalipse à la Osgood Perkins</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/627410/critica-longlegs-vinculo-mortal-2024-o-livro-do-apocalipse-a-la-osgood-perkins/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Jacqueline Elise]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Sep 2024 12:58:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Blair Underwood]]></category>
		<category><![CDATA[Longlegs: Vínculo Mortal]]></category>
		<category><![CDATA[Maika Monroe]]></category>
		<category><![CDATA[Nicolas Cage]]></category>
		<category><![CDATA[Osgood Perkins]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Novo longa do diretor sabe aproveitar a teatralidade de Nicolas Cage e a habilidade de Maika Monroe de expressar o desconforto extremo em uma história procedural satânica, em que o diabo está nos detalhes.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><i><span style="font-weight: 400;">“E eu pus-me sobre a areia do mar, e vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre os seus chifres dez diademas, e sobre as suas cabeças um nome de blasfêmia.”</span></i><span style="font-weight: 400;"> A frase, retirada do Livro do Apocalipse, capítulo 13, versículo 1, é uma das diversas menções ao Diabo na Bíblia Sagrada, descrevendo o surgimento das bestas que, junto a Lúcifer, formam a Santíssima Trindade invertida. Ela, também, é o fio condutor que liga o destino dos personagens de &#8220;</span><span style="font-weight: 400;"><strong>Longlegs: Vínculo Mortal</strong>&#8220;</span><span style="font-weight: 400;">, novo filme de Osgood Perkins (<em>&#8220;</em></span><i><span style="font-weight: 400;">A Enviada do Mal&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No longa, a agente do FBI Lee Harker (Maika Monroe) deve trabalhar com o agente Carter (Blair Underwood) para desvendar a identidade do serial killer Longlegs (Nicolas Cage), responsável por, de alguma forma, incentivar diversos assassinatos a famílias cometidos pelo patriarca da casa, seguido do suicídio dele. O que une todos os casos é o fato das mortes terem acontecido sempre próximas ao aniversário de 9 anos da filha da família, e em todas as casas foram encontrados cartões de aniversários com mensagens criptografadas e a assinatura de Longlegs.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Capitaneado por uma campanha de marketing de dar inveja a qualquer publicitário, com teasers obscuros e mensagens criptografadas; e impulsionado pelas primeiras impressões nas redes sociais cheias de superlativos que a crítica e criadores de conteúdo norte-americanos adoram, &#8220;</span><span style="font-weight: 400;">Longlegs&#8221;</span><span style="font-weight: 400;"> caiu nas graças do público antes mesmo de sua estreia devido ao </span><span style="font-weight: 400;">hype</span><span style="font-weight: 400;"> que foi se estabelecendo como “o filme de terror mais assustador da década” e outros louvores do tipo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acontece que quem for na onda das hipérboles usadas para descrevê-lo está praticamente fadado a se frustrar. Já deveria ser do senso comum que o horror é subjetivo: algo que pode ser apavorante para uns, se torna o sonífero de outros. E o filme de Oz Perkins opera nas subjetividades do horror satânico, muito em voga durante os anos 1970 (e também o período no qual a maior parte dos assassinatos de Longlegs se iniciaram); nos detalhes do Livro do Apocalipse e num amálgama de referências de seu gênero macro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, ao invés de comparar &#8220;Longlegs&#8221; aos batidos (porém ótimos, sim) <em>&#8220;</em></span><i><span style="font-weight: 400;">O Silêncio dos Inocentes&#8221; </span></i><span style="font-weight: 400;">(1991) e <em>&#8220;</em></span><i><span style="font-weight: 400;">Seven: Os Sete Crimes Capitais<em>&#8220;</em> </span></i><span style="font-weight: 400;">(1995), Perkins parece beber mais da fonte do excelente <em>&#8220;</em></span><i><span style="font-weight: 400;">A Cura&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1997), de Kiyoshi Kurosawa; do <em>&#8220;</em></span><i><span style="font-weight: 400;">Caçador de Assassinos<em>&#8220;</em></span></i><span style="font-weight: 400;"> (1986) de Michael Mann, e até mesmo da recente série de drama procedural <em>&#8220;</em></span><i><span style="font-weight: 400;">Hannibal<em>&#8220;</em></span></i><span style="font-weight: 400;">, criada por Bryan Fuller. Interessante notar que a personagem de Monroe é praticamente a versão feminina do Will Graham idealizado por Fuller na série de TV, sendo ele também um agente do FBI altamente sensível, criando vínculos empáticos com os assassinos. Lee Harker aparenta estar sempre em tremendo desconforto, evitando trocas de olhares, com um ar quase apático.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E todas estas referências têm em comum uma certa teatralidade inerente aos seus respectivos vilões, seja pela forma como eles se comportam ou pelos caprichos que utilizam para eliminar suas vítimas de forma sempre impactante. Isso faz com que Cage, ator conhecido por seu apreço pelo caricato, tenha amplo espaço para fazer de seu personagem um mistério delicioso de ser revelado: seja pelo jeito afetado de falar ou até mesmo pela sua aparência inspirada numa mistura entre um astro de glam rock e um artista falido atolado de cirurgias plásticas mal feitas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em &#8220;</span><span style="font-weight: 400;">Longlegs&#8221;</span><span style="font-weight: 400;">, Cage incorpora com vigor o imaginário popular de um adorador do Diabo na época do famigerado pânico satânico, com toda dramaticidade que vem junto às imagens do Catolicismo e do Satanismo, e também numa interpretação própria de Mefistófeles, da peça elisabetana </span><i><span style="font-weight: 400;">A Trágica História do Doutor Fausto</span></i><span style="font-weight: 400;">, encarnando o mensageiro de Lúcifer — ou O Homem-Lá-de-Baixo, como o assassino se refere ao seu mentor no filme. E a direção acerta em fazer de Longlegs mais uma figura onipresente, como o demônio que se encontra nos detalhes e manipula a todos nas entrelinhas, do que uma constante em cena.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O trabalho de câmera de Perkins ajuda a trazer os elementos do Apocalipse para a trama além da performance de seu antagonista, com o uso de lentes que auxiliam na criação de uma atmosfera opressora em volta da protagonista, a câmera apontando para Harker sempre ao centro de tudo e reforçada por uma das falas da personagem de Kiernan Shipka (<em>&#8220;</em></span><i><span style="font-weight: 400;">A Enviada do Mal<em>&#8220;</em></span></i><span style="font-weight: 400;">), aqui em uma breve porém necessária participação: como se a agente estivesse em um limbo entre o céu e o inferno, complementada por diversos shots em que ela aparece num espaço liminar desconfortável entre uma porta que abriga ambientes de luzes avermelhadas e uma escadaria direto para a luz do dia, por exemplo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Perkins também traz uma sacada interessante ao enredo ao fazer bom uso da filmagem em digital representando o presente da história e filmando em 35mm todos os momentos referentes ao passado de Harker, controlando a granulação das imagens de flashback para não destoar tanto do digital e estilizando, especialmente, as cenas de assassinato de uma das famílias.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao final, &#8220;</span><span style="font-weight: 400;">Longlegs&#8221;</span><span style="font-weight: 400;"> se consagra ao trazer o sobrenatural para o realismo de forma mais natural do que o diretor fez em <em>&#8220;</em></span><i><span style="font-weight: 400;">A Enviada do Mal<em>&#8220;</em></span></i><span style="font-weight: 400;">.</span><span style="font-weight: 400;"> Embora pudesse ter aproveitado melhor o material do procedural que foi amplamente divulgado pelo marketing do filme (como o site <a href="https://thebirthdaymurders.net/" target="_blank" rel="noopener">The Birthday Murders</a>), Osgood Perkins extrai o melhor de seu elenco para personificar e conjurar as bestas do Apocalipse em tela.</span></p>
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		<title>Crítica &#124; Motel Destino (2024): paixões e pesares na Terra do Sol</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/627342/critica-motel-destino-2024-paixoes-e-pesares-na-terra-do-sol/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Thiago Siqueira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Aug 2024 14:43:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Karim Aïnouz]]></category>
		<category><![CDATA[Motel Destino]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tendo o Ceará como cenário de sua nova obra, o diretor Karim Aïnouz nos conduz em uma trama repleta de desejo e dores, capitaneada por um jovem protagonista cuja sobrevivência é a sua única ambição.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Nos últimos anos, parece que as plateias vêm reagindo com certo desconforto a cenas mais íntimas, seja na sétima arte ou na televisão, sentimento por vezes traduzido por um riso meio amarelo. Só a psicologia pode explicar os motivos pelos quais o público se mostra mais aberto à violência do que ao sexo, mas este é o cenário em que estamos. E é nele que o cineasta Karim Aïnouz nos entrega seu mais novo longa, &#8220;<strong>Motel Destino</strong>&#8220;, que, como o próprio título explicita, tem o desejo físico como uma de suas forças motrizes.</p>
<p>Escrito por Aïnouz ao lado de seu colaborador habitual Mauricio Zacharias (com quem trabalhou em <em>“Madame Satã”</em> e <em>“O Céu de Suelly”</em>) e Wislan Esmeraldo (<em>&#8220;Um Pedaço do Mundo&#8221;</em>), o filme se passa no litoral do Ceará, onde o jovem Heraldo (o novato Iago Xavier) se exila no estabelecimento-título após fracassar em uma missão para uma chefe do crime local. No Motel Destino, Heraldo se vê em um tenso triângulo amoroso com os donos do lugar, o bruto Elias (o veterano Fábio Assunção, visto recentemente na minissérie <em>“Fim”</em>) e a misteriosa Dayana (Nataly Rocha, da série <em>“Segunda Chamada”</em>). Quanto mais Heraldo se emaranha nas entranhas do motel e de seus proprietários, mais encurralado se vê.</p>
<p>O próprio Motel Destino é muito mais do que um cenário, mas uma entidade viva nessa história, espelhando as condições em constante metamorfose de seus habitantes. Inicialmente apenas um local para Heraldo satisfazer sua lascívia, ele se transforma aos poucos em um refúgio, um lar e uma prisão claustrofóbica, com a fotografia de Hélène Louvart (<em>“A Vida Invisível”</em>) sendo crítica nisso, bem como o excelente desenho de som, que, assim como o recente <em>“Zona de Interesse”</em> retrata constantemente ações fora do quadro.</p>
<p>Isso porque, nos corredores do Motel Destino, os gemidos de prazeres fugares não vistos acabam se tornando fantasmas de alegrias que parecem impossíveis para o protagonista, dotando eventuais atos de voyeurismo de um quê quase masoquista.</p>
<p>Estando em virtualmente todas as cenas da produção, Iago Xavier assume o desafio de retratar o acossado Heraldo com uma coragem voraz, dando alma a esse rapaz que representa uma juventude abandonada, cuja única ambição plausível é sobreviver ao final do dia, tentando ter algum controle sobre os rumos de sua vida, apenas para encontrar mais predadores a cada esquina.</p>
<p>Mesmo os tênues momentos de alegria e gozo parecem ser meros prelúdios — ou até catalizadores — para dores e pesares, com o jovem ator expressando essa angústia de forma brutal e, ao mesmo tempo infantil, retratando de maneira dolorosa o contraste entre sua juventude e a árdua e violenta existência que experimentou em seus poucos anos.</p>
<p>As relações de Heraldo para com Dayana, Elias e com o próprio lugar estão em mutações constantes, o que dá à produção uma urgência única, e ao elenco uma oportunidade aproveitada com gosto para demonstrar as diversas facetas desses personagens.</p>
<p>Nisso, Fábio Assunção mostra em seu Elias um avatar de uma masculinidade desesperada para demonstrar sua dominância o tempo todo, sufocando tudo que tente contrariar sua posição como “macho alfa”, resultando numa amargura que intoxica todos ao seu redor, com o ator emprestando um peso ao personagem que contrasta com uma figura que, aos poucos, revela-se perigosamente patética.</p>
<p>Nataly Rocha, por sua vez, encarna Dayana como uma mulher sufocada. Assim como Heraldo, Dayana busca ter alguma agência em sua vida, sendo atraída não só fisicamente pelo recém-chegado em seu “reino”, mas também por reconhecer nele o mesmo desespero que sente.</p>
<p>As carências de Heraldo e Dayana por diferentes tipos de amor — maternal/filial, romântico, carnal — explodem em cenas sim, ardentes, mas que são necessárias para o andamento da narrativa e expõem não apenas os corpos dos personagens, mas suas essências, dores e quereres, algo frequente na filmografia de Karim Aïnouz.</p>
<p>No fim das contas, em &#8220;Motel Destino&#8221;, o cineasta nos lembra que, a despeito de pudores exacerbados, uma das expressões mais cruas da espécie humana é a sexualidade, que pode ser fonte dos sentimentos mais ingênuos ou dos sofrimentos mais profundos.</p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; A Casa do Dragão (HBO, 2ª temporada): falta de ápice esconde brilho ainda existente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Louise Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 Aug 2024 15:25:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[A Casa do Dragão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com final anticlimático, segundo ano da série até pode ser pintado como "decepção", mas ainda há muita carne nesse osso para que seja descartado tão rápido assim.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><em><strong>*ATENÇÃO: contém spoilers sobre a primeira e segunda temporadas de &#8220;A Casa do Dragão&#8221;*</strong></em></p>
<p>Um dos grandes temas associados a <em>“Game of Thrones”</em>, tanto em seu auge quanto em seu declínio, foi o de “subverter expectativas”. Mesmo antes de seus personagens mais importantes cometerem decisões sem sentido ou serem colocados em tramas que nunca haviam sido pensadas como suas, a série já mexia com nossas mentes quando trocava o esperado pelo (magnificamente) surpreendente. Em sua segunda temporada, <strong>“A Casa do Dragão”</strong> parece tentar sua própria subversão, nem sempre sendo bem sucedida nisso, mas entregando um sólido capítulo da história de Fogo e Sangue.</p>
<p>Depois de um preâmbulo cheio de intrigas, traições e mortes, o final da primeira temporada colocou as peças no tabuleiro para a guerra que ainda viria. De um lado, Rhaenyra Targaryen (Emma D&#8217;Arcy), primogênita e única herdeira reconhecida de Viserys I (Paddy Considine). Do outro, Aegon Targaryen (Tom Glynn-Carney), primeiro filho homem do rei com sua segunda esposa, Alicent Hightower (Olivia Cooke). A questão da sucessão não seria sequer uma questão se a rainha viúva não tivesse visitado seu esposo em seus últimos momentos antes de morrer e não tivesse ouvido aquilo que desejava ouvir diretamente de seus lábios. Aegon deveria ser o sucessor, e assim o trono foi usurpado. E não havia cartas ou acordos que pudessem resolver a questão depois que Lucerys Velaryon, segundo filho de Rhaenyra, fora brutalmente assassinado por Aemond Targaryen (Ewan Mitchell), o segundo filho de Alicent. Verdes versus Pretos, escolha seu lado. A guerra terá início. Ou é isso que o público esperava.</p>
<p>O maior defeito desta nova temporada foi ter se vendido como o momento dos conflitos e batalhas do que conhecemos como Dança dos Dragões. Sim, dragões de fato dançaram, mas apenas em um (glorioso) episódio, com vários outros capítulos de uma preparação interminável ao seu redor, em uma temporada que já foi diminuída de dez a oito episódios. Com roteiros já finalizados à época das filmagens, “A Casa do Dragão” não foi tão impactada pela greve dos roteiristas como se pode imaginar, embora sempre haja o que se aperfeiçoar. A decisão de menos episódios já havia sido tomada antes da greve, porém quando se chega ao finale, a ausência do nono e décimo capítulos causa um grande rombo na temporada para as expectativas de quem comprou o que a HBO parecia vender. Mas para quem consegue aproveitar a jornada tanto quanto o fim, houve o que aproveitar.</p>
<p>Não foi em batalhas, e sim em personagens que esta temporada de fato investiu, começando por Rhaenyra e Alicent, cuja relação ainda é o centro do conflito. Posicionadas na série como amigas forçadas a se tornarem inimigas, a tendência seria distanciá-las ainda mais. Mas a sensação é que em meio aos homens que só buscam uma desculpa para guerrear, as duas se aproximaram por quererem uma forma de atingir a paz sem derramamento de sangue. Na primeira temporada, a versão mais jovem de Alicent representou a tentativa de oferecer um lado mais humano e vulnerável àquela que seria a vilã da heroína representada por Rhaenyra, mas a versão adulta retratada tão primorosamente por Olivia Cooke só confirmou a decisão que o público já havia tomado de odiá-la. É uma surpresa então ver que o segundo ano da série volta atrás, e quando se mais espera que Alicent invista em ser inimiga de Rhaenyra, é quando ela faz o caminho oposto.</p>
<p>Alicent começa a ter dúvidas sobre a capacidade de Aegon de liderar, e de seu Pequeno Conselho de oferecer bons… conselhos. Rodeada por homens que claramente rejeitam sua presença, ela começa a ver que seu poder morreu junto com Viserys, e agora ela é “apenas” uma mulher. Porém, que escolha ela tem se não continuar apoiando aquilo que acredita ser a opção certa? A não ser que não seja a opção certa.</p>
<p>No episódio <em>O Moinho Ardente</em>, no primeiro dos encontros entre Alicent e Rhaenyra na temporada, a rainha viúva descobre ter entendido errado o que Viserys dissera em seu suspiro final. Além de ser um tanto cômica, a cena não funciona muito bem e serve para colocar Alicent em um espiral de incerteza que não serve nem à personagem nem à atriz. No entanto, esse momento também acaba sendo a semente de um segundo encontro entre as duas, desta vez com um propósito, e uma execução magnífica. Antes melhores amigas, elas conseguem colocar para fora todos os ressentimentos que, acumulados, foram a causa de não poderem mais estar juntas. Poderia haver, sim, um cenário em que esta grande família Targaryen seria unida e feliz, mas não daria um bom conflito, e nem uma boa série. Nessa cena que leva aos momentos finais da temporada, D’Arcy e Cooke mostraram por que são as estrelas de “A Casa do Dragão”, algo que não deve mudar até sua conclusão. Destaque especial para Cooke que, com tão pouco para se trabalhar, brilha sempre que lhe dada a chance.</p>
<p>Com muitos pontos altos na direção e roteiro durante a primeira temporada, a série desta vez perde um pouco da potência individual da equipe criativa, dando mais a impressão de que tudo é um mesmo capítulo estendido por oito semanas. No entanto, há dois episódios que se destacam e muito se deve às maiores estrelas não faladas da série: os dragões. Em <em>O Dragão Vermelho e O Dourado</em>, dirigido pelo veterano da saga, Alan Taylor, as feras aladas se assemelham mais com animais de estimação, mostrando serem apegados e fiéis ao seus montadores, e quando colocados a sofrer por uma guerra que não é deles, — embora leve o seu nome — quebram o coração do público, similar a como acontecia quando um lobo gigante era cortado para diminuir o orçamento em <em>“Game of Thrones”</em>. É nesse episódio também que a série perde Eve Best, responsável por dar vida a uma elegante, decidida, sábia e corajosa Rhaenys Targaryen.</p>
<p>O outro episódio de destaque é <em>A Semeação Vermelha</em>, quando potenciais bastardos Targaryen tentam domar um dragão feroz. Felizmente, não houve economia de recursos para mostrar os detalhes e diferenças entre os dragões do lado Verde e do lado Preto, todos criaturas incríveis. É aqui também que é permitido a Rhaenyra mostrar seus primeiros traços de uma líder que fará tudo por seu propósito, até mesmo deixar que inocentes morram, pois os deuses a escolheram, e essa oportunidade não pode ser ignorada. Durante a maior parte da temporada, a rainha não toma uma atitude, ou a atitude que toma não é julgada como correta por aqueles que a rodeiam. Presa, impedida de lutar, ela finalmente consegue se firmar em uma decisão, e conquista a vantagem para seu lado. Se as consequências desta semeação farão jus ao caminho que Rhaenhyra está tomando, só o futuro dirá. Mas é bom saber que consistentemente tem sido mostrado o poder que os plebeus têm quando estão insatisfeitos.</p>
<p>A temporada também traz momentos esperados dos fãs do livro, como a morte do príncipe Jaehaerys por Sangue e Queijo e a ascensão de Aemond ao poder, assim como cria momentos originais, com Helaena (Phia Saban) tendo maior protagonismo que seu equivalente em <em>Fogo &amp; Sangue</em> e Mysaria (Sonoya Mizuno) se posicionando como uma aliada (e algo mais?) inesperada de Rhaenyra.</p>
<p>Mas talvez a maior das surpresas da nova temporada tenha sido impedir Daemon (Matt Smith) de ser o guerreiro que tão conhecidamente é, para que com ele fosse feito o mais inusitado desenvolvimento de personagem. Uma decisão polêmica e muito criticada nas reações de fãs nas redes sociais a cada episódio, prender Daemon na fortaleza assombrada de Harrenhal o forçou a olhar para dentro de si e se enfrentar, em vez de fugir. Através de visões, o príncipe consorte percebe o quanto errou com seu irmão Viserys, e o quanto tem errado com sua sobrinha e esposa Rhaenyra, mas ao mesmo tempo insiste que a melhor opção é que ele mesmo seja rei. Sua “prisão” em Harrenhal começa no episódio três, ainda parecendo uma aventura intrigante para o Targaryen. Porém, com o passar dos capítulos, cada nova cena naquele lugar era acompanhada de uma virada de olhos coletiva, afinal, qual seria o propósito de descaracterizar tanto o personagem? Resposta: nenhum. Digo, quem quer que tenha tido essa ideia deve ter se dado um tapinha nas costas por achar uma solução para o problema do egoísmo de Daemon. É irônico, então, pensar que esse foi um problema que eles mesmos criaram. No final, o príncipe volta para o mesmo lugar que estava no fim da primeira temporada, junto e fiel a Rhaenyra.</p>
<p>O mais irritante é concluir que essa trama foi pensada como uma forma de novamente trazer a tal profecia do Príncipe Prometido à tona, dando uma motivação nobre ao que deveria ser apenas uma disputa pelo trono. Bom, não há mais sentido em reclamar de uma ideia tão fincada na história que pretende ser contada, basta apenas torcer pela execução. “A Casa do Dragão” é uma das poucas adaptações que tem maior abertura para ser original, e o problema nunca realmente é tentar surpreender, e sim como. Agora oficialmente programada para acabar na quarta temporada, a série sabe aonde deve chegar, só precisa seguir um bom e estável caminho até lá. E quando os dragões dançarem, o público terá o que merece.</p>
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		<title>Crítica &#124; Jackpot: Loteria Mortal (2024): humor frenético, ação de qualidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Aug 2024 23:20:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Awkwafina]]></category>
		<category><![CDATA[Jackpot: Loteria Mortal]]></category>
		<category><![CDATA[John Cena]]></category>
		<category><![CDATA[Paul Feig]]></category>
		<category><![CDATA[Prime Video]]></category>
		<category><![CDATA[Simu Liu]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Comédia de ação equilibra comicidade e perigo, mas é o carisma de seus protagonistas que brilha de verdade.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span><b>Jackpot: Loteria Mortal</b><span style="font-weight: 400;">&#8220;, nova comédia de ação do Prime Video, se destaca por uma mistura inusitada de gêneros e referências, criando uma experiência agradável para o espectador. Apesar de invocar o sentimento de assistir a uma comédia protagonizada por Jackie Chan, a maior qualidade da obra está na força de seus protagonistas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa se passa em um futuro próximo, onde uma &#8220;Grande Loteria&#8221; foi criada, mas com uma reviravolta perigosa: quem matar o ganhador antes do pôr do sol pode reivindicar legalmente o prêmio de bilhões de dólares. Ao se mudar para Los Angeles, Katie Kim (Awkwafina) acidentalmente encontra o bilhete vencedor. Lutando para sobreviver aos caçadores de recompensas, ela se alia ao agente de proteção de loteria, Noel Cassidy (John Cena), que oferece ajuda em troca de uma parte do dinheiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apenas pela sinopse, é fácil encontrar semelhanças entre &#8220;Jackpot: Loteria Mortal&#8221; e a premissa da franquia </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Uma Noite de Crime&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">. Porém, o clima de terror dá lugar à muitas sequências de ação totalmente alucinadas. Elemento integral do filme, o combate é executado com um nível de esforço visível, com algumas coreografias se destacando pela criatividade ao incorporar elementos presentes nas cenas aos confrontos. Por mais que a tendência seja a comédia ofuscar a ação, o que poderia ridicularizar as lutas, aqui vemos que a produção teve o cuidado de entregar uma experiência equilibrada entre os gêneros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estilo adotado pelo diretor Paul Feig (<em>&#8220;A Escola do Bem e do Mal&#8221;</em>) inclina-se por vezes para um humor trash, onde o absurdo é elevado ao ponto de se tornar cômico. Por mais que essa estratégia funcione em diversos momentos, também apresenta suas falhas. E não se trata só de algumas piadas e gags que parecem fora de tom, que claramente existem. Mas é difícil, por exemplo, até mesmo em um filme que não se leva a sério, aceitar a ideia de que personagens comuns possam suportar ataques brutais com armas brancas sem sofrerem qualquer dano significativo. Essa suspensão da descrença, em alguns casos, pode acabar exigindo mais do que o público está disposto a oferecer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, o timing cômico impecável de Awkwafina e John Cena superam qualquer obstáculo e sustentam o longa praticamente sozinhos. O objetivo é claro: divertir o público por meio de situações absurdas e diálogos rápidos, explorando ao máximo a química entre os protagonistas e esse tipo de humor acelerado e excêntrico típico da geração Z. Ainda que o roteiro de Rob Yescombe (<em>&#8220;Zona de Combate&#8221;</em>), em certos momentos, pareça abandonar a coerência narrativa em favor das interações nonsense, essa abordagem funciona dentro da proposta da obra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando o filme desacelera e permite que os personagens sejam o foco, ele realmente brilha. As cenas em que a ação dá lugar ao talento cômico dos protagonistas são as mais memoráveis, destacando a habilidade de Awkwafina e Cena de transitar entre os papéis principal e coadjuvante com a mesma qualidade. Simu Liu tem uma aparição com um tempo menor de tela, e sua vocação tanto para ação quanto para comédia poderia ser melhor aproveitado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;Jackpot: Loteria Mortal&#8221; não é um filme que busca ser levado a sério, e esse é, em grande parte, o seu charme. Ele sabe exatamente o que é — uma comédia de ação que visa entreter por meio do absurdo e do carisma dos seus protagonistas. Mesmo que algumas piadas não funcionem, sua junção de referências faz lembrar dos longas de comédia pura de anos atrás, que se econtram em escassez hoje em dia (até mesmo pelos erros de gravação nos créditos finais, que valem demais serem assistidos).</span></p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Deadpool &#038; Wolverine (2024): estourando o multiverso (e o orçamento)</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/627149/critica-deadpool-wolverine-2024-estourando-o-multiverso-e-o-orcamento/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Julio Bardini]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jul 2024 23:00:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Deadpool e Wolverine]]></category>
		<category><![CDATA[Emma Corrin]]></category>
		<category><![CDATA[Hugh Jackman]]></category>
		<category><![CDATA[Ryan Reynolds]]></category>
		<category><![CDATA[Shawn Levy]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Embarcando no MCU no pior momento da franquia, Ryan Reynolds e Hugh Jackman pegam uma premissa quase esgotada e a transformam em uma sátira autoconsciente da qual apenas Deadpool seria capaz.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O multiverso cansou. Essa não é uma afirmação de cunho pessoal (mentira, é um pouquinho, sim), mas uma constatação sobre o momento em que a indústria do entretenimento se encontra. Toda franquia tem sua versão do multiverso atualmente, e todas elas tentam emplacar essa premissa como forma de fazer dinheiro em cima de nostalgia barata. Tirando honrosas exceções, quase ninguém soube lidar com esse mecanismo narrativo — a própria Marvel parece ter aprendido apenas na série &#8220;<em>Loki</em>&#8220;, e, bom, é uma série de streaming, não um filme. Pois &#8220;<strong>Deadpool &amp; Wolverine</strong>&#8221; finalmente dá a entender que a Casa das Ideias entendeu como se faz.</p>
<p>A quem for esperando uma peça essencial do quebra-cabeças multiversal da Marvel, planejado meticulosamente por Kevin Feige como se fosse Michelangelo no teto da Capela Sistina, bom&#8230; O que valida o filme é justamente passar longe disso. Em vez disso, é um longa mais preocupado em utilizar a química imbatível entre os amigos Ryan Reynolds e Hugh Jackman para contar uma história sobre isso mesmo: amizade. &#8220;Deadpool &amp; Wolverine&#8221; não tem qualquer pretensão de salvar o multiverso, mas apenas de dar ao fã uma obra que gere boas gargalhadas e emoção na medida certa.</p>
<p>O filme todo tem na relação entre Reynolds e Jackman sua espinha dorsal, e parece ter sido idealizado apenas para que eles pudessem estrelar juntos. Sem qualquer cerimônia, &#8220;Deadpool &amp; Wolverine&#8221; exuma o cadáver de &#8220;Logan&#8221; para criar uma versão de Wolverine que seja mais próxima daquela que se firmou no imaginário de toda uma geração que cresceu assistindo às aventuras dos X-Men nos desenhos ou lendo nos quadrinhos. Seu traje, seus dilemas, seu temperamento&#8230; Tudo nesse novo personagem é feito para nos dar a impressão de que esse Wolverine é finalmente aquele com o qual crescemos.</p>
<p>Pode até ser que seja, na verdade, mas não há como saber ao certo. É aí que entra a questão do multiverso: se for o nosso Wolverine, as coisas não terminam bem para os X-Men. Aquilo que não se vê é o que traz peso à narrativa toda, tanto para ele, quanto para Deadpool. E, mesmo assim, há espaço para mais. Algo que &#8220;Deadpool &amp; Wolveirne&#8221; faz com leveza é incorporar o passado dos filmes da Marvel produzidos pela extinta Fox de forma definitiva ao MCU. Não é exagero afirmar que a memória da própria Fox é um personagem central da trama, trazendo consigo uma legião de personagens que, se não fosse por esse longa, jamais teriam ganho um final. Há uma carga sentimental muito forte por trás de algumas participações mais que especiais justamente por isso. Em outras, apenas a intenção de rir de si mesmo. Mas não se trata do <em>fan service</em> gratuito que, por exemplo, &#8220;<em>Doutor Estranho no Multiverso da Loucura</em>&#8221; faz. Aqui, tudo faz sentido. Em vez disso, o <em>fan service</em> ganha tons de sátira autoconsciente, algo que apenas Deadpool com sua habilidade de transitar entre universos distintos poderia fazer.</p>
<p>Fazer isso tudo funcionar de forma orgânica não é tarefa fácil, mas, por sorte, Reynolds tem outro grande parceiro: Shawn Levy. O diretor é uma das cabeças que melhor entende o cenário atual da indústria, e já converteu sua leitura em entretenimento diversas vezes antes. Junto a Reynolds, por exemplo, ele já trabalhou conceitos de multiverso em &#8220;<em>Free Guy</em>&#8221; e viagem no tempo em &#8220;<em>Projeto Adam</em>&#8220;, e sabe trabalhar sentimentalismo e nostalgia como poucos, vide o sucesso de &#8220;<em>Stranger Things</em>&#8220;. Ainda que haja um pouco de dificuldade em tornar as cenas de ação coerentes ou mesmo em esclarecer como algumas coisas relativas às dezenas de linhas temporais envolvidas, Levy faz um trabalho competente mais uma vez. Nenhum filme do MCU tem tantos recursos à disposição quanto &#8220;Deadpool &amp; Wolverine&#8221;, mas Levy sabe conduzir tudo de forma a sempre elevar Reynolds e Jackman e praticamente colocá-los em um pedestal.</p>
<p>É sempre bom lembrar que, no fim, tudo é dinheiro. A exumação do cadáver da Fox, as incontáveis referências proferidas em velocidade estonteante pelo Mercenário Tagarela, os personagens de nossas infâncias&#8230; Mais que uma celebração, trata-se da indústria canibalizando a si mesma para continuar ganhando dinheiro fazendo apenas mais do mesmo. Ainda assim, há um toque de inteligência em &#8220;Deadpool &amp; Wolverine&#8221;, algo que já há algum tempo faz falta nos filmes do MCU.</p>
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		<title>Crítica &#124; MaXXXine (2024): a apoteose de Mia Goth</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Julio Bardini]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Jul 2024 19:55:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Bobby Cannavale]]></category>
		<category><![CDATA[Elizabeth Debicki]]></category>
		<category><![CDATA[Halsey]]></category>
		<category><![CDATA[Kevin Bacon]]></category>
		<category><![CDATA[Lilly Collins]]></category>
		<category><![CDATA[MaXXXine]]></category>
		<category><![CDATA[Mia Goth]]></category>
		<category><![CDATA[Michelle Monaghan]]></category>
		<category><![CDATA[Ti West]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na atmosfera vibrante e obscura da Los Angeles dos anos 80, Mia Goth e Ti West escrevem uma carta de amor ao cinema e se consolidam entre os grandes nomes do terror nos anos 2020.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando &#8220;<em>X</em>&#8221; estreou em 2022, foi como um sopro de ar fresco em pleno período pós-pandêmico. Prestigiar a atuação estrondosa de <strong>Mia Goth</strong> (ela mesma, a neta da atriz brasileira Maria Gladys) foi um excelente motivo para retornar aos cinemas após anos trancafiados. Mal se podia imaginar que, ainda no mesmo ano, ela viraria meme ao viver a caricata e desesperada personagem-título de &#8220;<em>Pearl</em>&#8220;. Goth já não tinha mais nada a provar, mas conclui a trilogia &#8220;<em>X</em>&#8221; retornando à pele da ambiciosa <em>final girl</em> Maxine Minx apenas para não deixar dúvidas: ela realmente é uma estrela. Nesse contexto, não seria cabível nada menos que um final apoteótico para esse capítulo do cinema dos anos 2020, e é justamente isso que o cineasta Ti West entrega com &#8220;<strong>MaXXXine</strong>&#8220;. É isso também que Goth e suas personagens merecem, e não há ninguém melhor que Maxine com quem fazer isso, já que ela carrega não apenas os próprios sonhos e ambições, como também o legado de Pearl.</p>
<p>Após sobreviver aos acontecimentos de &#8220;<em>X</em>&#8220;, Maxine agora trabalha no submundo da indústria de filmes adultos em Los Angeles, e repete seu mantra sempre que possível: &#8220;Eu não aceitarei uma vida que eu não mereça&#8221;. Para ela, alcançar o estrelato em seus próprios termos não é um sonho, mas uma obsessão. A cidade não é acolhedora para quem não sabe o que quer, e enquanto colegas vão a festas procurando a pessoa certa para lhes tirar da obscuridade em que vivem, Maxine se joga no trabalho com tudo que tem, sem medo do que pode encontrar pela frente. Enquanto segue em busca de sua grande oportunidade em Hollywood, ela vai precisar confrontar seu passado e os perigos de um lugar implacável.</p>
<p>&#8220;MaXXXine&#8221; se inicia com uma frase da lenda Bette Davis: &#8220;Neste ramo, se você não for conhecida como um monstro, você não é uma estrela&#8221;. É o que dá o tom ao filme. Apesar de ser fácil cair em armadilhas e tropes do terror, Mia Goth nunca permitiu que suas personagens na trilogia &#8220;<em>X</em>&#8221; se acomodassem ou se tornassem estereótipos. É se amparando na máxima de Bette Davis que ela alça Maxine a um status quase de anti-heroína, alguém disposto a passar como um rolo compressor por cima de quem estiver em seu caminho. Não é como não torcer por Maxine, apesar de ser evidente que, em seu âmago, ela se encaixa na vida que quer justamente por ser um monstro.</p>
<p>Se em &#8220;<em>X</em>&#8221; o grande mérito de Ti West foi fazer muito com pouco, agora ele tem liberdade total para criar uma Los Angeles sombria e sangrenta nos mínimos detalhes, sem abrir mão da estética de filme de baixo custo. O salto mais evidente está no elenco coadjuvante, liderado por atuações impecáveis de Kevin Bacon e Elizabeth Debicki, cujas dinâmicas com a protagonista eleva ainda mais a performance de Mia Goth. Enquanto Bacon assume o posto de contraponto ao olhar sanguinário de Maxine, Debicki é intimidadora e inspiradora em medidas iguais.</p>
<p>É quase inevitável estabelecer um paralelo entre &#8220;MaXXXine&#8221; e outra carta de amor à indústria do cinema: &#8220;<em>Era Uma Vez em Hollywood</em>&#8221; de Quentin Tarantino. Ambos exploram o contraste entre fama e decadência com panos de fundos sangrentos e surpreendentes, mas a visão de Ti West parece mais atual e pertinente que a de Tarantino. Se a Los Angeles do segundo é ensolarada, a do primeiro é escura e encardida, transformando a cidade em um pesadelo de neon com atmosfera de filme B e sede de sangue. Ou seja, irresistível.</p>
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		<title>Crítica &#124; X-Men &#8217;97 (Disney Plus, 1ª temporada): superando todas as expectativas</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626786/critica-x-men-97-1a-temporada-disney-plus-superando-todas-as-expectativas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 May 2024 21:30:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Disney Plus]]></category>
		<category><![CDATA[Marvel]]></category>
		<category><![CDATA[X-Men]]></category>
		<category><![CDATA[X-Men '97]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Continuação da animação clássica captura a essência dos X-Men (e dos quadrinhos) e destaca o melhor deles como nenhuma outra adaptação antes conseguiu.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Trazer os X-Men e os mutantes para o MCU passou de um sonho distante para uma questão de tempo. Enquanto muitos especulam sobre como a Marvel vai introduzir o grupo em seu universo cinematográfico, &#8220;</span><b>X-Men &#8217;97</b><span style="font-weight: 400;">&#8221; chegou sem pompa como uma sequência de uma animação clássica e que deveria, no máximo, preencher o catálogo do Disney Plus apelando para a nostalgia do público mais velho. Porém, era difícil prever que os dez episódios dessa nova obra se tornariam uma das melhores adaptações de quadrinhos já vistas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Longe dos recentes longas formulaicos e das séries experimentais do MCU, com &#8220;X-Men &#8217;97&#8221; a receita foi bem mais simples: trazer a trama e a estética da animação consagrada com uma dose de modernização focada no público de hoje. Ainda que não seja obrigatório conhecê-la, o ponto de partida é exatamente onde a obra anterior parou: a morte do Professor Charles Xavier. Seu assassinato deu origem a uma onda de apoio aos mutantes nunca antes vista, embora grupos de ódio radicais continuem lutando contra eles. Para surpresa de todos, o testamento do professor &#8220;deixa&#8221; os X-Men para o eterno amigo e rival, Magneto, causando discórdia entre o grupo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse upgrade proposto na nova produção é visível tanto no traço do desenho, que agora conta com uma altíssima definição, quanto no roteiro, que busca trazer novamente os mutantes para um lugar de destaque na cultura pop. Para atingir esse objetivo, o produtor Beau DeMayo fez o oposto de Kevin Feige com o MCU. Ao invés de introduzir cada personagem importante cuidadosamente e uni-los no futuro, o showrunner abraçou a loucura dos quadrinhos e juntou vários arcos famosos da franquia em uma narrativa única. DeMayo mostrou confiar que a presença dos mutantes no zeitgeist era suficiente para o público não se perder nas narrativas ágeis e no entra e sai de personagens. A consequência disso são algumas subtramas aceleradas demais, tanto pela duração curta dos episódios quanto pela distância delas do fio principal. Mas até essa pressa contribui para criar um senso de urgência que se encaixa perfeitamente na rotina do grupo: eles não têm um único dia de paz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar disso tudo, o maior mérito de &#8220;X-Men &#8217;97&#8221; é encontrar um equilíbrio entre a narrativa política, tão intrínseca à natureza dos mutantes, com os dramas pessoais dos personagens, afinal, tratam-se de uma grande família disruptiva. Por um lado, discussões sobre tolerância, discriminação, supremacismo e genocídio são escancarados à plena vista, em um esforço para afastar de vez qualquer um que ainda insista em negar a existência do debate sociopolítico nas histórias dos X-Men. Do outro, há vários núcleos de personagens com relacionamentos conturbados entre si, tal qual uma grande novela, mas que funciona para desenvolvê-los e também criar conexões com o público. Um sacrifício específico de um certo mutante já é poderoso o bastante quando colocado no contexto do seu heroísmo ao salvar muitos outros. Mas ver o impacto dessa perda na pessoa que o amava é ainda mais devastador.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, a obra ainda resgata o significado real de uma adaptação de quadrinhos, se distanciando do subgênero que a própria Marvel tanto sustenta e ainda lucra (hoje menos) com ele. DeMayo abraça as roupas coloridas, dá importância aos plots malucos de clonagem ou vilões de videogames e, acima de tudo, mostra paixão pelo material original. É evidente que logo teremos a chegada dos mutantes nos live-actions do MCU. Contudo, &#8220;X-Men &#8217;97&#8221; parece já ser o casamento perfeito entre forma e conteúdo que esses personagens merecem.</span></p>
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		<title>Crítica &#124; Furiosa: Uma Saga Mad Max (2024): a fúria gloriosa de George Miller</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626767/critica-furiosa-uma-saga-mad-max-2024-a-furia-gloriosa-de-george-miller/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Julio Bardini]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 May 2024 17:50:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Anya Taylor-Joy]]></category>
		<category><![CDATA[Chris Hemsworth]]></category>
		<category><![CDATA[Furiosa]]></category>
		<category><![CDATA[George Miller]]></category>
		<category><![CDATA[Mad Max]]></category>
		<category><![CDATA[Tom Burke]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A prequel de George Miller para "Estrada da Fúria" expande consideravelmente o universo de "Mad Max", ainda que a Furiosa de Anya Taylor-Joy não tenha o mesmo carisma da versão anterior.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A história do universo de &#8220;<em>Mad Max</em>&#8221; é uma de decadência. Desde o primeiro filme, no final dos anos 1970, o australiano George Miller narra a derrocada do que sobrou do mundo, o desmanche da sociedade e os indivíduos recorrendo a atos de barbárie para sobreviver, tornando-se cada vez mais animalescos, e seus veículos, cada vez mais máquinas de destruição. Mas, no meio disso, ainda houve por um tempo um oásis de paz. É lá que a história de &#8220;<strong>Furiosa: Uma Saga Mad Max</strong>&#8221; se inicia, tomando um ritmo frenético que só para nos créditos.</p>
<p>O novo filme é uma prequel de &#8220;<em>Mad Max: Estrada da Fúria</em>&#8220;, clássico que mudou a forma de se fazer e pensar o cinema de ação em 2014. &#8220;Furiosa&#8221; acompanha a derrocada da personagem-título, que marcou o público no longa anterior mais do que o protagonista usual da franquia, o bruto e lacônico Max Rockatansky. Vivida então por Charlize Theron, Furiosa impressionou por sua determinação em resgatar as esposas de Immortan Joe, um raio de humanidade em meio à barbárie. Quem esperar a Furiosa de Theron vai se decepcionar, pois a versão de Anya Taylor-Joy está mais próxima de Max com seu jeito quieto, mas assertivo. Ainda assim, a nova atriz não deixa a desejar em nada no papel.</p>
<p>Quem começa o filme no papel de Furiosa, entretanto, não é Taylor-Joy, mas a jovem e talentosíssima Alyla Browne. A atriz mirim vive a personagem-título em sua infância e juventude, tudo com a mesma fúria de Theron, e que Taylor-Joy trabalha em uma versão ainda menos contida. A experiência que Furiosa demonstra na obra anterior é aprofundada em sua prequel, com todo o processo pelo qual ela precisou passar para se acostumar com a forma com que o deserto funciona. Um processo de desumanização, ainda que a protagonista tente de todo jeito manter-se conectada a suas raízes. É no retrato desta fúria que o trabalho da nova intérprete se destaca, ainda que não tenha o mesmo brilho e carisma de Charlize Theron no papel.</p>
<p>Porém, independente de quem esteja na pele da protagonista, o grande trunfo de &#8220;Furiosa&#8221; reside na ação. Como todo filme de &#8220;<em>Mad Max</em>&#8220;, a prequel tem sequências extensas quem valem mais que mil linhas de diálogo para o desenvolvimento da narrativa e de Furiosa enquanto personagem. O refino com que as sequências de ação foram concebidas é algo sem igual na indústria atualmente. Com uma câmera que facilmente se esgueira pelo espaço reduzido de carros e caminhões sem esquecer de focar nos personagens (eles os reais responsáveis pela ação), a sensação de imersão é ainda maior do que em &#8220;<em>Estrada da Fúria</em>&#8220;, o que é impressionante por si só.</p>
<p>A ação, aliás, é o fio condutor de uma narrativa com escopo muito maior do que o de qualquer &#8220;Mad Max&#8221; até agora. O mundo é essencialmente o mesmo do visto anteriormente, mas expandido e aprofundado de forma realista. Lugares apenas mencionados, como a Vila Gasolina e a Fazenda de Balas, agora são chave para a história, principalmente com a chegada de Dementus (Chris Hemsworth) e sua gigantesca gangue de motoqueiros para aterrorizar os demais senhores da guerra. O retrato de Hemsworth é perfeito nesse sentido, já que Dementus provavelmente é o personagem mais falante de toda franquia, um ser desprezível e extremamente irritante &#8211; ou seja, perfeito para o universo &#8220;Mad Max&#8221;. Ver o ator podendo finalmente trabalhar um personagem é refrescante, e evidencia um talento que não tinha como transparecer em enlatados de super-heróis ou em filmes de ação algorítmica em streaming.</p>
<p>O conflito entre Hemsworth e Taylor-Joy é a tônica de &#8220;Furiosa&#8221;, de uma forma pessoal e intensa como ainda não havia em &#8220;Mad Max&#8221;. Apesar do carisma que ela demonstra em &#8220;<em>Estrada da Fúria</em>&#8220;, sua história é de decadência e perda, e a prequel deixa isso muito claro. No entanto, apesar de expandir o universo da franquia, o filme ainda se ampara demais em seu predecessor, o que por vezes o deixa um pouco repetitivo. Para quem só quer a boa e velha ação que apenas George Miller é capaz de entregar atualmente, então &#8220;Furiosa&#8221; é mais de um excelente mesmo.</p>
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		<title>Crítica &#124; Planeta dos Macacos: O Reinado (2024): legado intocado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rogério Montanare]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 May 2024 19:36:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Freya Allan]]></category>
		<category><![CDATA[Kevin Durand]]></category>
		<category><![CDATA[Maze Runner]]></category>
		<category><![CDATA[Owen Teague]]></category>
		<category><![CDATA[Peter Macon]]></category>
		<category><![CDATA[Planeta dos Macacos]]></category>
		<category><![CDATA[Planeta Dos Macacos: O Reinado]]></category>
		<category><![CDATA[Wes Ball]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O novo filme é uma aventura potente que expande a franquia sem ferir o que foi criado até aqui.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Logo nas primeiras cenas de &#8220;Planeta dos Macacos: O Reinado&#8221; já fica clara a intenção dos novos condutores da cinessérie em manter o respeito e adequação do filme com o imenso <em>lore</em> da franquia que existe nos cinemas desde os anos 60. Mantendo o tom solene da trilogia “Origem, Confronto e Guerra”, misturados com referências visuais e sonoras do original, o longa inicia um novo caminho para os símios falantes.</p>
<p>Noa (Owen Teague) é membro de uma tribo de chipanzés que vive em função da criação de águias e de respeito a natureza, fazendo uma referência clara (no mundo dominado pelos macacos) aos nossos povos originários. Eles não conhecem o legado de César, mal tiveram algum contato com seres humanos (que chamam de ECOs) e vivem em paz em sua floresta, até que são atacados por um bando de outros símios,  trogloditas armadurizados que declamam frases de Cesar enquanto assassinam os lideres do clã e capturam o restante dos moradores. Cabe a Noa, o único fugitivo do ataque, encontrar os seus, com a ajuda de uma humana (Freya Allan, fraquíssima) e de Raka, um orangotango pregador (Peter Macon, incrível) para salvá-los do grande perigo que é o reinado de Próximus Cesar (Kevin Durand, perfeito).</p>
<p>O diretor Wes Ball, que dirigiu todos os filmes de &#8220;<em>Maze Runner&#8221;</em>, até injeta uma boa dose de ação no filme e também alguns vícios de linguagem (porque será que este homem ama tanto shopping centers abandonados?), mas nada que prejudique a história ou a ambientação, que são a alma da franquia. Na verdade essas cenas alucinantes até casam com a ideia de que esta é uma aventura sobre adolescentes descobrindo duras verdades do mundo.</p>
<p>&#8220;Planeta dos Macacos: O Reinado&#8221; é um filme bonito, ágil e com uma história que, mais uma vez, nos faz questionar a nossa evolução, progresso desenfreado e até religião. Afinal, não é coincidência que no nosso mundo muitos cometem crimes e assassinatos em nome de divindades que pregavam paz e amor entre os homens, não?!</p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Rivais (2024): desejo e conquista em jogo</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626542/critica-rivais-2024-desejo-e-conquista-em-jogo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Thiago Siqueira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Apr 2024 20:51:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Josh O’Connor]]></category>
		<category><![CDATA[Luca Guadagnino]]></category>
		<category><![CDATA[Mike Faist]]></category>
		<category><![CDATA[Rivais]]></category>
		<category><![CDATA[Zendaya]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O diretor Luca Guadagnino usa o esporte como metáfora para desejos e paixões neste longa sensual, visualmente deslumbrante e surpreendentemente divertido. </p>
<p>O post <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626542/critica-rivais-2024-desejo-e-conquista-em-jogo/">Crítica | Rivais (2024): desejo e conquista em jogo</a> apareceu primeiro em <a href="https://cinemacomrapadura.com.br">Cinema com Rapadura</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h6 style="text-align: right;"><em>(Divulgação/Warner Bros.)</em></h6>
<p>O desejo e a competição são coisas inerentes à experiência humana típica. Desejamos e competimos por melhores condições de vida, glória, parceiros sexuais&#8230; É algo primordial que, nos dias de hoje, tentamos racionalizar de várias maneiras em nossa civilização. <strong>“Rivais</strong>” trata disso, usando o esporte como metáfora — até por ser exatamente uma das formas socialmente aceitas para exprimir esses instintos.</p>
<p>Dirigido por Luca Guadagnino (<em>“Me Chame Pelo Seu Nome”</em>, <em>“Suspiria”</em>) e escrito por Justin Kuritzkes, o longa conta a história de dois amigos, Art (Mike Faist) e Patrick (Josh O&#8217;Connor), tenistas cujas sinas se entrelaçam com a da prodígio do esporte Tashi (Zendaya) em um torneio juvenil.</p>
<p>Tashi e Art se casam depois dela ter tido sua carreira encurtada por uma grave contusão. Ambos se tornam o casal mais poderoso do mundo do tênis, ela agora no papel de treinadora e agente do marido, este cada vez mais desprovido de garra por ter chegado ao topo. Já Patrick tem seu potencial desperdiçado graças à própria displicência, estando bem próximo do fundo do poço sem jamais ter alcançado muita coisa. Ao se reencontrarem em um torneio em um momento crítico de suas vidas, após anos separados, os três têm de lidar com anos de conflitos e tensões nunca superados.</p>
<p>O roteiro logo de cara deixa claro que, mesmo sem envolvimento sexual, o casal inicial da trama é aquele formado por Art e Patrick, em uma relação de amizade que é abalada pelo mesmo objeto de desejo. Já Tashi, mesmo que diga que não é uma “destruidora de lares”, sente excitação por ser disputada pelos dois amigos. Enquanto juntos, Art e Patrick se completavam. Não só os defeitos e virtudes de um compensavam os do outro, mas havia toda uma troca estabelecida ali, piadas internas e uma cumplicidade óbvia e sincera, com os dois estando extremamente à vontade entre eles.</p>
<p>A química entre Mike Faist e Josh O&#8217;Connor aqui é excelente e deveras natural, com o maior recato de Art se mesclando com a impetuosidade de Patrick de forma única. Isto está presente também no visual dos atores, com os traços mais finos de Faist contrastando com a masculinidade mais tradicional e crua de O&#8217;Connor.</p>
<p>A chegada de Tashi é tratada pelo filme como seu principal evento provocador. Sua introdução nesta equação causa um claro desequilíbrio, algo que fica nítido desde o momento inicial, onde ela tonteia os dois com sua beleza e presença imponente. E é aqui que brilha a estrela de Zendaya. O grande desafio da jovem atriz — que ela consegue superar com êxito — é mostrar que as ações da sua personagem são fruto mais da sua própria natureza do que de malícia, impedindo que o público antipatize com ela, mesmo com todo o estrago que provoca. Impossibilitada de jogar o esporte onde ela centrava suas paixões e de toda glória o acompanhava, Tashi busca outras formas de exercer controle e agência, as coisas que a definem.</p>
<p>Tashi não é a trágica Catherine de <em>“Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois”</em> (François Truffaut, 1962), por exemplo. Sua relação para com Art e Patrick está mais para aquela entre o personagem-título de <em>“Tubarão”</em> (Steven Spielberg, 1975) e a cidade de Amity, uma força da natureza que derruba todo um <em>status quo</em> estabelecido, mesmo — ou especialmente quando — ferida. Só que, ao contrário do “Bruce” de Spielberg, ela é atraída por tesão, <em>joie de vivre</em>, não por sangue. O grito dela ao perceber isso nela mesma ou em outros é o seu momento orgásmico.</p>
<p>Guadagnino e Kuritzkes usam uma partida entre Art e Patrick como base para a estrutura narrativa, algo similar ao que fez a animação <em>“The First Slam Dunk”</em> (Takehiko Inoue, 2022). O cineasta, seu diretor de fotografia, Sayombhu Mukdeeprom, e o montador, Marco Costa, todos colaboradores corriqueiros, estabelecem uma dinâmica única para a partida e para a trama, enriquecendo visualmente a metáfora sobre desejo e competitividade em um retrato único e emocionante do esporte na telona. Eles ainda espelham as relações pessoais entre seus personagens, tudo isso ampliado pela trilha absurda da dupla Trent Reznor e Atticus Ross, em seu melhor trabalho desde <em>&#8220;A Rede Social&#8221;</em> (David Fincher, 2010).</p>
<p>Sexy, vibrante e surpreendentemente divertido, “Rivais” desde já se mostra como mais uma joia na ótima filmografia de Luca Guadagnino. Espero que o italiano continue a explorar as paixões e anseios humanos na telona por muito tempo.</p>
<p>O post <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626542/critica-rivais-2024-desejo-e-conquista-em-jogo/">Crítica | Rivais (2024): desejo e conquista em jogo</a> apareceu primeiro em <a href="https://cinemacomrapadura.com.br">Cinema com Rapadura</a>.</p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; A Primeira Profecia (2024): muito melhor do que o material original</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rogério Montanare]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Apr 2024 23:33:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[A Primeira Profecia]]></category>
		<category><![CDATA[A Profecia]]></category>
		<category><![CDATA[Arkasha Stevenson]]></category>
		<category><![CDATA[Nell Tiger Free]]></category>
		<category><![CDATA[Nicole Sorace]]></category>
		<category><![CDATA[Richard Donner]]></category>
		<category><![CDATA[Servant]]></category>
		<category><![CDATA[Sonia Braga]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A prequel de "A Profecia" é uma inquietante viagem sensorial pelo universo feminino e suas dúbias "obrigações" sacro-mundanas. </p>
<p>O post <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626486/critica-a-primeira-profecia-2024-muito-melhor-do-que-o-material-original/">Crítica | A Primeira Profecia (2024): muito melhor do que o material original</a> apareceu primeiro em <a href="https://cinemacomrapadura.com.br">Cinema com Rapadura</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Convenhamos que &#8220;A Profecia&#8221;, filme dirigido por Richard Donner em 1976, nunca foi lá grandes coisas. Com um punhado de cenas icônicas, premissa estimulante (criança diabo) e uma música arrebatadora (Ave Satani, que até ganhou um Oscar), o longa original nada mais é que um arremedo de teorias conspiratórias absurdas e uma narrativa que abusa da boa vontade de espectador em acreditar que um diplomata e um fotografo tornam-se, de uma hora pra outra, grandes detetives que se guiam por manchas em fotografias. O filme até ganhou duas continuações que mal resistem à memoria coletiva e também um remake, em 2006, que beira o ridículo, já que recria fielmente a história e cenas do original, mas adaptando as tais profecias alucinógenas para a década de 2000 (colocam até as torres gêmeas no balaio).</p>
<p>Em &#8220;A Primeira Profecia&#8221;, a diretora e roteirista Arkasha Stevenson abandona a bobeira conventícula de &#8220;o mar é a política&#8221; e injeta potência em um longa que, dentre outros assuntos, evidencia a exploração e apropriação do corpo feminino, a violência obstétrica e até mesmo, vejam só, o patriarcado na sua mais solene ambientação: um convento de freiras.</p>
<p>Na história, uma noviça norte americana (Nell Tiger Free) chega em um convento em Roma para sua cerimonia do véu (quase como uma formatura das freiras católicas) e passa a ter visões aterradoras com Carlita (Nicole Sorace), uma garota que mora lá (ou que está presa?), ao mesmo tempo que vai descobrindo detalhes sombrios do local e das pessoas que cuidam dele, assim como uma possível articulação para o nascimento do anticristo.</p>
<p>Nell já mostrou que sabe bem como segurar o papel de alguém perturbado na série <em>&#8220;Servant&#8221;</em> e aqui não deixa quase espaço para mais ninguém brilhar, com exceção da sempre espetacular Sônia Braga, que aparece austera e assustadora como a Madre Superiora do monastério. É na firmeza dela que praticamente todas as atrocidades que vão se desenrolando na tela ganham crivo e uma verdade quase sufocante.</p>
<p>A &#8220;Primeira Profecia&#8221; é tenso e muito bem produzido, mas seu maior predicado é esfregar no rosto do incauto espectador (que talvez só procurasse um longa cheio de sustos fáceis sobre a origem do diabo) que mesmo com o passar dos anos, décadas e até séculos, o corpo da mulher é disposto como algo a ser profanado, escarafunchado e suprimido, seja lá para qual for a motivação, até mesmo para salvar ou destruir o mundo.</p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Guerra Civil (2024): espetáculo sensorial, contexto minimalista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Julio Bardini]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Apr 2024 18:49:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Alex Garland]]></category>
		<category><![CDATA[Cailee Spaeny]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra Civil]]></category>
		<category><![CDATA[Kirsten Dunst]]></category>
		<category><![CDATA[Stephen McKinley Henderson]]></category>
		<category><![CDATA[Wagner Moura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Primeiro filme com ambições de blockbuster da A24 desafia o espectador em cada minuto de suas quase duas horas de duração.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Uma das queridinhas dos fãs de cinema e entretenimento nos últimos anos, a A24 vem se esforçando para diversificar seu catálogo. Ao começar como uma distribuidora de produções  independentes, muito de sua imagem como estúdio também ficou marcada por isso: obras focadas em jornadas individuais, fáceis de se identificar para quem vive o século XXI no cotidiano corrido, um pouco mais contemplativos. Pois não espere nada disso ao sentar para assistir a &#8220;<strong>Guerra Civil</strong>&#8221; nos cinemas. Este é o primeiro filme com ambições de blockbuster da A24, e desafia o espectador em cada minuto de suas quase duas horas de duração.</p>
<p>A trama acompanha a fotojornalista Lee Smith (Kirsten Dunst) e o redator Joel (Wagner Moura) em meio a uma guerra civil que dividiu os Estados Unidos em diversas facções políticas num futuro não tão distante — e não tão improvável. A dupla pretende conseguir a entrevista final com o último presidente dos EUA (Nick Offerman), mas para isso, precisa atravessar um país dividido e enfrentar uma sociedade em guerra consigo mesma. A coisa piora quando Joel, que costuma se deixar levar por impulsos, convida o veterano Sammy (Stephen McKinley Henderson) e a novata Jessie (Cailee Spaeny) para acompanhá-los, contrariando Lee e adicionando um peso à jornada que pode mudar completamente seu destino.</p>
<p>Ao longo do trajeto, o grupo se depara com cenários grotescos sob todos os aspectos. O longa faz questão de deixar claro que boa parte dos conflitos que estão acontecendo no país naquele momento ocorrem apenas porque um lado apontou a arma primeiro, sem que haja necessariamente uma razão ideológica ou política por trás. Mas se engana quem acha que &#8220;Guerra Civil&#8221; é um filme apolítico. Com um contexto minimalista, a direção de Alex Garland é carregada de nuances, algo que pode enganar um espectador desavisado. A identificação está nos detalhes, e é isso que desafia a noção corriqueira de um blockbuster: talvez seja preciso mais de uma assistida para perceber o que realmente está acontecendo naquele país. O próprio Garland preferiu retirar uma cena inicial de contextualização, para que tudo ficasse realmente a cargo do espectador.</p>
<p>O principal destaque, entretanto, fica por conta das atuações poderosas do elenco principal. O contraste entre a sisudez de Kirsten Dunst e a impulsividade de Wagner Moura age quase como uma guerra civil dentro do próprio carro onde boa parte do filme se passa, regendo o tom de toda a produção. É o primeiro trabalho de Dunst e Moura sob a batuta de Alex Garland, e o entrosamento da dupla conduz atuações igualmente contundentes por parte dos já habituados Henderson e Spaeny.</p>
<p>O fato de os protagonistas serem jornalistas dá a Garland um pretexto para colocá-los dentro da ação de uma forma que nem eles, nem o público, provavelmente já estiveram. Isso é possível graças a um trabalho impecável de edição de som, o grande responsável pelo efeito imersivo de &#8220;Guerra Civil&#8221;. À medida que os protagonistas se aproximam de seu destino, o som da guerra se torna tão presente que é incorporado ao de qualquer momento cotidiano até tornar-se ensurdecedor e subjugar os próprios personagens, experientes em cobertura de guerra.</p>
<p>&#8220;Guerra Civil&#8221; é um verdadeiro desafio ao espectador. Apesar da palavra &#8220;blockbuster&#8221; normalmente carregar uma conotação contrária ao que a A24 e Alex Garland costumam levar aos cinemas, seu novo filme é um um banquete para espectadores atentos. Longe de ser vazio ou &#8220;chapa branca&#8221;, ele também é um convite para aqueles que estiverem dispostos a se abrir para esse novo modelo.</p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Fallout (Prime Video, 1ª Temporada, 2024): &#8220;oi The Last of Us, você tem competição&#8221;</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626449/critica-fallout-2024-oi-the-last-of-us-voce-tem-competicao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Rogério Montanare]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Apr 2024 22:03:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Aaron Clifton Moten]]></category>
		<category><![CDATA[Ella Purnell]]></category>
		<category><![CDATA[Fallout]]></category>
		<category><![CDATA[Prime Video]]></category>
		<category><![CDATA[Walton Goggins]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Deixando toda a desconfiança de lado, a série chega, impacta e cria expectativas para um grande futuro de mais temporadas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Criado em 1997 como um jogo de videogame de RPG que ironizava o futuro da humanidade a partir de um apocalipse nuclear, &#8220;Fallout&#8221; torna-se uma série do Prime Video em 2024 com ainda mais poder bélico para destruir qualquer otimismo ou positivismo indulgente.</p>
<p>Em 2277, duzentos anos após a chuva de bombas atômicas que assolaram o mundo, uma comunidade sobrevive em um abrigo subterrâneo intitulado <em>Refúgio 33</em>, e até que está indo bem em sua demanda, mas tudo muda quando ocorre uma invasão externa e a intrépida Lucy (Ella Purnell) precisa sair do seu lar para encontrar o pai raptado. Ao mesmo tempo, um jovem chamado Maximus (Aaron Clifton Moten) luta para realizar seu sonho de ajudar ao próximo, ou como ele mesmo diz, “para destruir quem o machucou”, em uma espécie de acampamento militar do fim do mundo. Para completar a trinca de protagonistas, o melhor personagem da série, Cooper Howard ou “O Necrótico” (Walton Goggins), um cowboy zumbi trajado de preto, que está sobrevivendo há muito, muito tempo do Ermo (Westland) e que por isso parece ter perdido toda sua humanidade. Parece.</p>
<p>A série é extremamente bem sucedida na trajetória dos 3 personagens, os fazendo convergir em diversos momentos da série e que, a cada encontro, através dos embates entre eles, nos faz conhece-los ainda mais e mais de toda a história que os levou até aquele momento. Talvez com exceção ao epílogo, um tanto explicativo demais.</p>
<p>Se a historia já é boa por si só, a ambientação da série é absolutamente perfeita. Com cenários reais super bem cuidados, bons efeitos de computação gráfica quando necessário e uma estética “futurista dos anos 50” muito bem concebida. Ajudam no caldo as direções precisas dos episódios (capitaneado por Johnatan Nolan, fã assumido dos games), ótimas atuações, um senso de humor extremamente peculiar, ação muito bem coreografada e uma trilha sonora que nos abduz diretamente para outra década.</p>
<p>&#8220;Fallout&#8221; é simplesmente a melhor adaptação de games da história (&#8220;The Last of Us&#8221; não conta, porque o game já foi criado quase como uma série jogável), nos fazendo adentrar de cabeça neste mundo fétido e desolador que é o futuro da humanidade. E melhor, dá vontade de jogar os games de novo!!!</p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Godzilla e Kong: O Novo Império (2024): um filme lamentável do começo ao fim</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626341/godzilla-e-kong-o-novo-imperio-2024-um-filme-lamentavel-do-comeco-ao-fim/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Jurandir Filho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Apr 2024 20:40:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Godzilla e Kong: O Novo Império]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O sucesso nas bilheterias mostra a força da franquia, mas infelizmente não refleta na sua qualidade e recebemos um filme precário em vários aspectos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">O universo cinematográfico dos monstros gigantes continua acontecendo. Conhecido como &#8220;Monsterverse&#8221;, a franquia americana de filmes do Godzilla e King Kong conquistou muitos fãs, mas diria que não é muito pela qualidade das obras (que são bem questionáveis). Esse &#8220;Godzilla e Kong: O Novo Império&#8221; desperta algo no público que vai muito além de sua &#8220;qualidade técnica&#8221;: a vontade de ver um filme pipocão divertido e despretensioso. Só que após tantos filmes tão semelhantes desse universo, recebemos só a mesma repetição de batalhas intermináveis. O que deveria ser uma grande diversão, se torna uma montanha-russa sem fim.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na trama, Godzilla e o todo-poderoso Kong enfrentam uma ameaça colossal escondida nas profundezas do planeta, desafiando a sua própria existência e a sobrevivência da raça humana. A história no papel é pomposa, mas na prática não passa de uma bobagem sem fim. Tudo é muito conveniente e resolvido facilmente. Não que se exija &#8220;realismo&#8221; para um filme desses, mas é necessário uma coesão nessa trama. Os problemas da história também vem da falta de qualidade do elenco, algo bem comum na franquia. Tudo parece uma grande desculpa para juntar os monstros gigantes em grandes batalhas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto os filmes continuarem fazendo sucesso em bilheteria, eles vão continuar saindo. Não há problema de você se divertir com um filme ruim, mas quando se analisa criticamente, é difícil fazer elogios para aspectos técnicos dele, exceto pelas coreografias de lutas dos gigantes. O CGI dos bichões está com boa qualidade, mas a fotografia é horrorosa. O diretor Adam Wingard conseguiu fazer o seu &#8220;pré-Vingadores dos Monstros&#8221; e com certeza terá mais uma continuação. Dá pra se divertir? Depende muito do seu tipo de humor. Mas o fato é que é um filme muito fraco.</span></p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Donzela (2024): Netflix investe em fantasia com Millie Bobby Brown, mas não dá liga!</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626085/donzela-2024-netflix-investe-em-fantasia-com-millie-bobby-brown-mas-nao-da-liga/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Jurandir Filho]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Mar 2024 00:03:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Donzela]]></category>
		<category><![CDATA[Millie Bobby Brown]]></category>
		<category><![CDATA[Netflix]]></category>
		<category><![CDATA[Robin Wright]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Dizem que "de boas intenções o inferno está cheio". A frase se aplica perfeitamente aqui.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Que <strong>Millie Bobby Brown</strong> é um estrela, isso ninguém duvida. A protagonista de<em> &#8220;Stranger Things&#8221;</em> já provou que consegue fazer muito sucesso além da série, quando atuou e produziu os dois filmes da franquia <em>&#8220;Enola Holmes&#8221;</em>. Qualitativamente é outra história. A atriz está presa em um personagem que se repete em praticamente tudo que ela faz: alguém indefesa que em algum momento explode. &#8220;<strong>Donzela</strong>&#8221; não foge muito dessa premissa e que por mais que tenha boas intenções, não consegue entregar de forma positiva.</p>
<p>Na trama, uma jovem (Millie Bobby Brown) concorda em se casar com um belo príncipe (Nick Robinson, de <em>&#8220;Com Amor, Simon&#8221;</em>), apenas para descobrir que tudo não passou de uma armadilha. Ela é jogada em uma caverna com um dragão cuspidor de fogo e deve confiar apenas em sua inteligência e vontade para sobreviver.</p>
<p>O destaque acaba sendo para <strong>Robin Wright</strong> (<em>&#8220;House of Cards&#8221;</em>), que interpreta &#8220;a rainha má&#8221; como deve ser. Aliás, como a atriz entrega boas vilãs né? Visualmente, a dragoa é o grande destaque do filme (quando a gente consegue ver), pois todos os cenários são extretamente artificiais, algo bem padrão de muitas produções da <em>Netflix</em>. De vez em quando o visual é tão artificial, que parece impossível que alguém tenha aprovado o lançamento desse filme. Por outro lado, em alguns poucos momentos, o visual chama a atenção. Parece até que foram feitos por estúdios diferentes. Millie Bobby Brown faz o básico de sempre e entrega o suficiente para sua atuação não ser desastrosa. Quanto a história, a ideia é boa, mas fica no simples e nada muito empolgante. Faltou sair do lugar comum.</p>
<p>O post <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626085/donzela-2024-netflix-investe-em-fantasia-com-millie-bobby-brown-mas-nao-da-liga/">Crítica | Donzela (2024): Netflix investe em fantasia com Millie Bobby Brown, mas não dá liga!</a> apareceu primeiro em <a href="https://cinemacomrapadura.com.br">Cinema com Rapadura</a>.</p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Pobres Criaturas (2023): o filme eleva a discussão de &#8220;Barbie&#8221; para outro patamar</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626070/pobres-criaturas-2023-o-filme-eleva-a-discussao-de-barbie-para-outro-patamar/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Jurandir Filho]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2024 19:12:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Emma Stone]]></category>
		<category><![CDATA[Frankenstein]]></category>
		<category><![CDATA[Mark Ruffalo]]></category>
		<category><![CDATA[Pobres Criaturas]]></category>
		<category><![CDATA[Willem Dafoe]]></category>
		<category><![CDATA[Yorgos Lanthimos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Se "Barbie" faz uma inversão de papéis para provar um ponto, "Pobres Criaturas" escancara a descoberta do mundo pelos olhos de Bella Baxter.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando você termina de assistir &#8220;<strong>Pobres Criaturas</strong>&#8220;, é impossível não querer conversar sobre ele. Seja pela qualidade da história, seja pelas grandes atuações (em destaque para <strong>Emma Stone</strong>, vencedora do Oscar de Melhor Atriz novamente aqui), seja pelo estilo peculiarmente fantástico do diretor <strong>Yorgos Lanthimos</strong>, seja pelas referências ao clássico &#8220;<em>Frankenstein</em>&#8220;, seja pelas cenas de sexo (algo fora do comum em Hollywood autalmente) ou até pela trilha sonora inventiva.</p>
<p>Na trama vemos a evolução de Bella Baxter (Emma Stone, no melhor papel da sua carreira), uma jovem que é trazida de volta à vida pelo brilhante e pouco ortodoxo cientista Dr. Godwin Baxter (Willem Dafoe, em grande atuação). Sob a proteção de &#8220;God&#8221; (em clara referência ao Criador), Bella está ansiosa para aprender. Desejando conhecer mais sobre o mundo, foge com Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo, em papel caricato totalmente proposital), um advogado astuto e debochado, para uma aventura por vários continentes. Livre dos preconceitos de sua época, Bella se firma em seu propósito de defender a igualdade e a libertação.</p>
<p>O filme acerta muito em todas as discussões. Ele provoca, mas entrega! As cenas de sexo, que hoje são um grande tabu no público senso comum, existem para mostrar o processo de descoberta da personagem. Aliás, precisa motivo para ter cenas de sexo em algo? Por que esse assunto se tornou tão &#8220;assustador&#8221; para a nova geração? Conservadorismo ou falta de interesse? O fato é que &#8220;Pobres Criaturas&#8221; amplifica a discussão que começou em &#8220;Barbie&#8221; e mostra como um mundo ainda tem problemas de aceitação ao ver uma mulher livre e desimpedida buscando conhecer as maravilhas (e agruras) vida e desbravar. Tudo isso em uma roupagem vitoriana, retrô, moderna, steampunk e extremamente atual. Que filmaço!</p>
<hr />
<p><em>Comentamos sobre &#8220;Pobre Criaturas&#8221; no <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/rapaduracast-podcast/625851/rapaduracast-806-o-fabuloso-pobres-criaturas-e-o-legado-de-frankenstein/" target="_blank" rel="noopener">RapaduraCast</a>.</em></p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; O Menino e a Garça (2023): a despedida agridoce de Hayao Miyazaki</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/626064/o-menino-e-a-garca-2023-a-despedida-agridoce-de-hayao-miyazaki/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Jurandir Filho]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2024 18:29:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Hayao Miyazaki]]></category>
		<category><![CDATA[O Menino e a Garça]]></category>
		<category><![CDATA[Studio Ghibli]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://cinemacomrapadura.com.br/?p=626064</guid>

					<description><![CDATA[<p>O mestre da animação japonesa entrega seu último filme.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Hayao Miyazaki</strong> disse que iria se aposentar após <em>&#8220;Vidas ao Vento&#8221;</em> (2013), mas o cineasta japonês tem uma fome insaciável de entregar um cinema de alto nível. Hoje, aos 83 anos, Miyazaki ainda tem o vigor de um jovem começando sua jornada, porém com toda a experiência e maturidade pessoal para discutir temas como luto, memórias e futuro. &#8220;<strong>O Menino e a Garça</strong>&#8220;, vencedor do Oscar de Melhor Animação em 2024, é mais um exemplar da carreira praticamente perfeita do mestre japonês.</p>
<p>De forma autobiográfica, assim como sua animação anterior, Miyazaki mostra sua versão mais jovem, porém em um mundo de fantasia. Mahito, um menino de 12 anos, luta para se estabelecer em uma nova cidade após a morte de sua mãe. Quando uma garça falante conta para Mahito que sua mãe ainda está viva, ele entra em uma torre abandonada em busca dela, o que o leva para outro mundo.</p>
<p>Com uma animação de extrema qualidade, algo muito característico do <em>Studio Ghibli</em>, a história se desenrola com perfeição e trazendo reflexões profundas e nada óbvias. Cada pessoa vai ter uma interpretação e conexão diferente ao assistir ao filme. Imagina você encontrar uma versão mais jovem de um parente que você perdeu. Você mudaria algo? Você faria tudo ser diferente? Ou você gostaria que acontecesse do jeito que aconteceu, afinal, você é fruto dessa relação? Miyazaki faz mais uma sessão de terapia sobre traumas antigos e nos brinda com uma grande reflexão sobre a vida.</p>
<hr />
<p><em>Comentamos sobre o filme no <a href="https://www.patreon.com/posts/rapaduracast-vip-100183350" target="_blank" rel="noopener">Sala VIP do RapaduraCast</a>, podcast exclusivo para assinantes.</em></p>
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		<title>Crítica &#124; Duna: Parte 2 (2024): espetáculo em plena evolução</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Mar 2024 20:22:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Denis Villeneuve]]></category>
		<category><![CDATA[Duna: Parte 2]]></category>
		<category><![CDATA[Javier Bardem]]></category>
		<category><![CDATA[Rebecca Ferguson]]></category>
		<category><![CDATA[Timothée Chalamet]]></category>
		<category><![CDATA[Zendaya]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Segundo longa da saga melhora ao focar na jornada do protagonista sem esquecer da grandiosidade técnica e visual proposta no filme anterior.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">“<strong>Duna: Parte 2</strong>” foi privilegiado desde a sua concepção, graças ao trabalho de preparação realizado pelo primeiro filme. Criticado por muitos (me incluo nessa lista) por ser introdutório demais, <em>“Duna: Parte 1”</em> desenvolveu muito pouco da intriga política presente no material original, ao mesmo tempo em que não se aprofundou no protagonista e em suas incertezas quanto a profecia de que seria o Predestinado. Assim, restava apenas um vazio em um mundo belíssimo e bem construído, cuja grandiosidade muitos deixaram de apreciar nos cinemas devido às adversidades do período de lançamento. Com o universo e boa parte dos personagens já apresentados, a continuação teve tempo o bastante para desenvolver por completo a relação entre Paul Atreides (Timothée Chalamet) e o povo do deserto. E ao invés de trazer as implicações políticas à tona, o roteiro preferiu focar no que sempre foi um pilar da saga literária de Frank Hebert: como um líder carismático tem seus erros potencializados pelo fanatismo de seus seguidores.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após um breve prólogo, o novo longa dá sequência aos acontecimentos finais do filme anterior, com Paul e Lady Jessica (Rebecca Ferguson) na companhia do povo do deserto — tratados mais como prisioneiros do que necessariamente hóspedes. </span><span style="font-weight: 400;">Apesar de toda a beleza da cena de ação inicial (que ocorre durante um eclipse), a fala mais importante dos primeiros minutos é a de Stilgar (Javier Bardem), líder local daquela tribo. Ele desdenha da empáfia de Paul por este achar que os inimigos que os perseguiam estavam em busca do último da linhagem Atreides. “Somente Fremens sobrevivem no deserto. Eles estavam aqui por nós, não por vocês”. Enquanto a primeira frase indica que o protagonista precisa se unir aos Fremen para garantir sua sobrevivência, a segunda antecipa um conflito tão importante quanto essa jornada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após toda a construção de mundo do longa anterior, Denis Villeneuve (<em>&#8220;Blade Runner 2049&#8221;</em>) aposta no desenvolvimento intenso dos Fremen (que no livro são claramente baseados nas sociedades adeptas do Islã), mostrando suas crenças, seu idioma, seus costumes e suas rivalidades locais. Nesse contexto, temos Stilgar como a personificação dos que creem na vinda de uma figura messiânica (e que esta pode ser Paul), enquanto Chani (Zendaya) representa os céticos que acreditam que seu povo deve ser responsável pela própria libertação. Apesar de utilizar muito tempo para desenvolver esse conflito em paralelo à progressão de Paul aprendendo a fazer parte daquela sociedade, a edição de “Duna: Parte 2” é eficiente ao encadear vários eventos e elipses, saindo um pouco do estilo contemplativo do primeiro filme e evitando que as sequências se tornem lentas ou maçantes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes um ser passivo em praticamente toda a Parte 1, Paul Atreides agora pode ser chamado, de fato, de protagonista. Sua jornada cresce após o massacre que dizimou quase todos os seus parentes e amigos, mostrando gradativamente a mudança na sua mentalidade. No início, o personagem entendia a profecia como algo fabricado pelas Bene Gesserit para controlar os Fremen e a rejeitava de todas as formas, chegando a protestar contra sua própria existência, uma vez que uma decisão egoísta de Lady Jessica traçou o destino do rapaz antes mesmo do seu nascimento. Porém, à medida que suas visões vão se concretizando até um ponto fatídico, Paul passa a aceitar não que ele seja o messias que vai libertar o povo Fremen, mas sim o escolhido que vai levá-los a uma guerra santa em seu nome. A atuação de Timothée Chalamet, que já funcionou no primeiro filme mesmo com um roteiro escasso, agora encontra-se ainda mais afinada com o protagonista, sobretudo em cenas mais exigentes como um discurso inflamado ou uma luta brutal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda falando em atuações, é difícil criticar qualquer uma com um elenco tão estrelado. Porém, são tantos nomes de peso que Villeneuve parece não encontrar tempo suficiente para lidar com todos. Personagens com poucas cenas ficam relegados a arquétipos de fácil identificação, como o Imperador Shaddam IV de Christopher Walken, ou a personalidades caricatas e unidimensionais, como o Feyd-Rautha Harkonnen de Austin Butler. Porém, faz-se necessário destacar mais uma vez a presença indispensável do Stilgar de Javier Bardem. Embora em um primeiro momento ele possa ser visto como uma espécie de alívio cômico, sua existência é fundamental na construção da narrativa de Paul se tornando um tirano. O que começa podendo ser interpretado como devaneios de um crente fervoroso se transforma na força que o protagonista precisa para alcançar seus objetivos — cuja ideia altruísta de libertação do povo Fremen deixa de ser motivação e transforma-se em mera consequência do que está por vir. E a crença cega de Stilgar o leva a agir impulsivamente em busca de um paraíso que futuramente deve se revelar como um verdadeiro inferno.</span></p>
<p>As proporções épicas continuam dando o tom do novo capítulo da saga, embora dessa vez o diretor tenha se preocupado em trazer cenas mais intimistas intercaladas com a grandiosidade daquele universo. Apesar desse esforço, o que ainda chama mais a atenção para &#8220;Duna: Parte 2&#8221; é a forma como a obra original foi adaptada para as telas. É perfeitamente aceitável não criar tanto apego pelos personagens ou achar a trama previsível — ainda que os livros de Frank Herbert tenham dado origem a muitos clichês narrativos que conhecemos. Porém, é inegável o quanto a saga que Denis Villeneuve está desenvolvendo é um verdadeiro espetáculo visual, daqueles que impressionam durante a reprodução e crescem ainda mais nas lembranças de quem foi impactado positivamente. Enquanto &#8220;Parte 1&#8221; já brilhava nesse quesito, agora é possível sentir uma evolução em todos os aspectos. Embora tenhamos testemunhado a ascenção de Paul Atreides já antecipando um possível declínio, nos resta esperar que o diretor canadense consiga finalizar sua trilogia em um ápice ainda mais alto do que o atingido agora.</p>
<hr />
<p><em>Comentamos sobre &#8220;Duna: Parte 2&#8221; no <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/rapaduracast-podcast/625931/rapaduracast-809-duna-parte-2-um-jovem-classico-do-cinema/" target="_blank" rel="noopener">RapaduraCast</a>.</em></p>
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		<title>Crítica &#124; Segredos de um Escândalo (2023): narrativas intensas sobre a natureza humana</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Feb 2024 12:37:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Charles Melton]]></category>
		<category><![CDATA[Julianne Moore]]></category>
		<category><![CDATA[Natalie Portman]]></category>
		<category><![CDATA[Segredos de um Escândalo]]></category>
		<category><![CDATA[Todd Haynes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todd Haynes adiciona exagero e acidez a um chocante caso real para propor reflexões sobre traços característicos da essência humana.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Gracie (Julianne Moore) e seu marido Joe (Charles Melton), 23 anos mais novo que ela, começaram a se relacionar quando o jovem tinha apenas 13 anos. O caso provocou um grande escândalo na mídia da época, levando Gracie à prisão, porém mantendo o relacionamento com Joe durante e após cumprir sua pena. Não se surpreenda, mas essa parte da premissa de “</span><b>Segredos de um Escândalo</b><span style="font-weight: 400;">”, novo filme do diretor Todd Haynes (</span><i><span style="font-weight: 400;">“Carol”</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">“O Preço da Verdade”</span></i><span style="font-weight: 400;">), é inspirada em uma chocante história real. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Passados vinte anos, o casal vive uma vida tranquila com filhos já crescidos, mas isso está prestes a mudar quando a atriz Elizabeth Berry (Natalie Portman) surge na vida da família. Para interpretar Gracie em um filme, Elizabeth passa a seguir todos os passos de sua anfitriã, a fim de aprender seus costumes, manias e entrar na personagem da forma mais profunda possível. Contudo, a chegada da visitante acaba criando um clima desconfortável na casa, desencadeando muitas transformações naquela família.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O diretor transita bem entre narrativas e gêneros diferentes. De início o que chama a nossa atenção é todo o processo envolvendo a preparação de Elizabeth para interpretar Gracie. Observamos o quanto a atriz mergulha na vida de uma estranha para aprender absolutamente tudo sobre ela, seus trejeitos, manias e como sua mente funciona. Acontece que a personagem de Portman não se satisfaz apenas com os maneirismos físicos de Gracie. Ela tenta a todo momento entrar na intimidade daquela família e extrair cada sentimento oculto que eles possam ter sobre o escandaloso relacionamento. E essa atitude se torna o catalisador para a trama tomar um novo rumo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto Gracie tenta se mostrar forte e que não se incomoda — um claro retrato de alguém que sofreu todo tipo de ataque ao longo dos anos —, Joe parece sempre limitado a um mundo no qual manter a esposa feliz é a única coisa que importa. No decorrer do filme, vamos descobrindo que isso é um claro reflexo do trauma a que o personagem foi acometido ao ser envolvido em um relacionamento ainda tão novo e sem nenhuma referência ou entendimento de como as coisas funcionam. É muito cômodo para Gracie fingir a todo momento que tudo aconteceu por amor, que Joe quis se envolver com ela, que o marido exerce uma figura de autoridade na casa… quando na verdade os papéis são o exato inverso, com a esposa sendo uma predadora, e Joe a presa. A atuação introspectiva de Charles Melton no início do longa contribui para mostrar esse jovem dentro de um corpo de adulto, cujas chances de aproveitar a juventude e o amadurecimento foram roubadas. Até que ele vai se dando conta da situação em que se encontra e ruma em direção à catarse.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ritmo de “Segredos de um Escândalo” é propositalmente lento, mas ainda sim consegue nos instigar a querer saber mais e mais daquelas pessoas. O roteiro a todo momento levanta questionamentos e nem sempre se preocupa em entregar respostas. Isso nos coloca diretamente ligados a um ponto que o filme se propõe a discutir: o interesse das pessoas nas vidas alheias em prol de uma suposta verdade. Que verdade seria essa? Elizabeth mergulha profundamente na vida daquele casal e em nenhum momento questionamos suas intenções, afinal, também estamos ávidos em saber mais daquela história dantesca. O quão distante essa situação está dos programas sensacionalistas que extrapolam todos os limites morais para satisfazer suas audiências? A própria história real na qual o filme se baseia foi uma daquelas que entrou no zeitgeist da cultura americana pelo tanto que foi martelada e exibida sem parar à época dos acontecimentos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar disso, o longa não tenta ser engraçado ou desrespeitoso com a situação daqueles personagens. Porém, é possível sentir os exageros propositais na forma como Todd Haynes conduz a narrativa, além de um toque de acidez e sarcasmo. Um exemplo claro é na presença do piano pesado em várias passagens, antecipando uma tensão em cenas contraditórias ou quase ridículas, como se o diretor estivesse apontando para o absurdo das situações. Além disso, a trilha também se propõe a criar uma atmosfera que cause aquela sensação de que algo está errado e alguma catástrofe pode acontecer a qualquer instante — a ironia é perceber ao fim que a verdadeira tragédia aconteceu muito antes, e agora estamos apenas testemunhando suas consequências.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Haynes também usa várias outras cenas e pequenos detalhes para deixar as mensagens do filme mais saborosas, como nas sequências em que as duas protagonistas estão interagindo na frente de espelhos e Elizabeth a todo momento tenta emular os movimentos de Gracie. Ou então quando a narrativa de Joe é mostrada através do seu hobby: cuidar de borboletas. Seja ao confrontar sua real natureza doce com a cena em que Gracie caça armada, ou ainda como uma borboleta desabrocha do casulo no mesmo ritmo em que Joe tem a perspectiva da dimensão do que aconteceu com ele, podemos concluir que o personagem é o núcleo emocional do longa. E Melton não foge de entregar uma boa atuação mesmo ao lado de duas titãs do calibre de Portman e Moore.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Segredos de um Escândalo” é complexo mas habilidoso ao entrelaçar suas duas narrativas igualmente intrigantes. A trama inspirada na história real é bastante pesada, de modo que a chegada de Elizabeth dá o respiro necessário para conseguirmos assistir sem que o clima fique tão pesado. Porém, não fosse o impacto da atriz nas inseguranças de Gracie e na vida sufocada de Joe, eles não seriam provocados a sair da acomodação em que se encontravam e refletir sobre toda a situação abjeta que os levou até ali. No fim, o que poderia ser uma cinebiografia de um caso particular de pedofilia acaba se transformando em uma obra crítica sobre moralidade e humanidade.</span></p>
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		<title>Crítica &#124; The Crown (Netflix, 6ª temporada): adeus agridoce à Rainha e à Elizabeth</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Louise Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 Jan 2024 13:14:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Dominic West]]></category>
		<category><![CDATA[Ed McVey]]></category>
		<category><![CDATA[Elizabeth Debicki]]></category>
		<category><![CDATA[Imelda Staunton]]></category>
		<category><![CDATA[Khalid Abdalla]]></category>
		<category><![CDATA[Lesley Manville]]></category>
		<category><![CDATA[Luther Ford]]></category>
		<category><![CDATA[Meg Bellamy]]></category>
		<category><![CDATA[Netflix]]></category>
		<category><![CDATA[Peter Morgan]]></category>
		<category><![CDATA[Salim Daw]]></category>
		<category><![CDATA[The Crown]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Série chega ao fim com uma temporada morna, ainda que melhor do que a anterior, e enquanto as tramas de outros membros da Família Real não agradam, o adeus à soberana é gracioso e satisfatório.</p>
<p>O post <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/625805/critica-the-crown-netflix-6a-temporada-adeus-agridoce-a-rainha-e-a-elizabeth/">Crítica | The Crown (Netflix, 6ª temporada): adeus agridoce à Rainha e à Elizabeth</a> apareceu primeiro em <a href="https://cinemacomrapadura.com.br">Cinema com Rapadura</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Desde a morte da rainha Elizabeth II, em 8 de setembro de 2022, o Reino Unido voltou a ter um rei depois de 70 anos, com a coroação de Charles; Harry se afastou da Família Real e publicou um livro de memórias escandaloso; e <strong>“The Crown”</strong> chegou ao fim com o lançamento de suas duas piores temporadas.</p>
<p>Depois de ter seu <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/618566/critica-the-crown-netflix-5a-temporada-annus-horribilis-para-a-coroa-e-para-a-serie/" target="_blank" rel="noopener"><em>annus horribilis</em></a> em 2022, a série da Netflix se despede deixando um gosto agridoce na boca dos fãs, talvez os únicos que se deram o trabalho de concluir a nova temporada. Dividido em duas partes — uma cobrindo os momentos finais de Diana, outra acompanhando a juventude de seus dois filhos em meio a outros capítulos da Família Real — o último ano não empolga e pouco tem a dizer, mas ainda termina com dignidade.</p>
<p>Começando pelos quatro capítulos lançados na primeira parte, acompanhamos as férias de Diana (Elizabeth Debicki) em Saint-Tropez, tendo a chance de aproveitar bons momentos ao lado de seus dois filhos no iate de Mohamed Al-Fayed (Salim Daw). O magnata egípcio tem o plano de casar seu primogênito Dodi (Khalid Abdalla) com lady Di — a fim de conquistar seu tão sonhado vínculo com a monarquia britânica — e o manipula para que ele deixe sua então noiva e se aproxime da princesa. Assim, Diana vai se deixando levar pelo conforto que a companhia de Dodi lhe proporciona, encontrando-se depois encurralada pelos Al-Fayed e pela imprensa.</p>
<p>Já no terceiro episódio, o fatídico momento em um túnel de Paris acontece, e a série tem de lidar com as consequências da morte de Diana — e não faz isso bem. Peter Morgan, roteirista e showrunner, deve ter pensado que colocar uma “Diana fantasma” tendo um último diálogo com dois daqueles que mais lhe causaram sofrimento em vida seria uma boa forma de oferecê-los o perdão necessário para que eles seguissem suas vidas — e a série, sua narrativa. No entanto, a ideia é apenas brega, sendo reutilizada na segunda parte da temporada, ainda que de melhor gosto.</p>
<p>Na sua vez de interpretar lady Di, Elizabeth Debicki teve pouco com o que trabalhar, e a pouca agência de sua personagem continua aqui. Tudo acontece com Diana, ela pouco pode escolher, e embora a autora que vos escreve não tenha vivido durante os tempos da princesa, é difícil acreditar que ela era tão passiva como a série a pintou em seus últimos anos. Mas assim o foi, e então chegou a vez de William e Harry tomarem o protagonismo. Para citar o episódio 4 da temporada, enquanto marcha à frente do caixão de Diana, William pergunta porque há tantas pessoas chorando por sua mãe, no que seu avô Philip responde: <em>“Elas não estão chorando por ela. Estão chorando por vocês.”</em></p>
<p>Nos primeiros momentos de William (Ed McVey) como um jovem adulto, é inevitável sentir pena da tragédia que lhe aconteceu e ter simpatia pelo garoto que tanto se assemelha a sua mãe. Porém, a insistência da série em dar um protagonismo maior ao príncipe acaba virando a chave e deixando o que antes era interessante, algo monótono. E isso se deve muito à inserção de Kate Middleton (Meg Bellamy) na história.</p>
<p>O romance dos dois é retratado como <em>meant to be</em>, almas gêmeas com ajuda do destino (e de uma mãe esperta), e pelo que parece ser toda a segunda metade da temporada, acompanhamos o tédio que é este núcleo. Soma-se a isso a irritante participação de Harry (Luther Ford), o irmão mais novo de William, sempre à sua sombra, sempre o problemático, como ele tanto enfatiza. A sensação que fica é a de que Peter Morgan pouco se preocupou em dar uma chance ao personagem, e isso parece errado até com a própria versão de Diana que ele escreveu. Afinal, ambos são os amados filhos da princesa.</p>
<p>Um grande incômodo das duas temporadas finais é a falta de arcos temáticos que eram tão marcantes nos anos anteriores da série. Acontecimentos por vezes pouco relevantes ou de pouco interesse se tornavam peças fundamentais na construção de uma narrativa cíclica. No entanto, os capítulos mais recentes apenas jogam cenas da vida da Família Real como se Morgan dissesse: “Vocês já sabem o que aconteceu, não preciso dar significado a isso” &#8211; sendo que era esse o diferencial de seu roteiro! Um exemplo gritante é o polêmico episódio da vida de Harry em que ele decide ir para uma festa à fantasia vestido com um uniforme nazista. Assunto já tocado por várias vezes na mídia desde que aconteceu, foi também revisitado pelo próprio Harry em seu livro de memórias <em>“O que Sobra”</em>, em que ele dá detalhes sobre o maior envolvimento de William e Kate na decisão de usar o uniforme, e reflete sobre sua vergonha e arrependimento. Na série, o momento apenas acontece, a Família Real balança a cabeça negativamente, decide como puni-lo e vida que segue, sem grandes reflexões sobre a significância do ato ou sobre os pensamentos de Harry.</p>
<p>A intenção aqui não é defender algum membro da realeza, e muito menos a monarquia britânica, mas especialmente nesta última temporada as preferências de Morgan se transparecem. Enquanto Harry é ignorado e descartado, William parece ser o melhor posicionado como herdeiro ao trono, mais bem-visto até que seu pai (o que parece refletir a preferência do povo britânico), e por sua vez o agora Rei Charles III (Dominic West) continua retratado como o “quase lá”, com a possibilidade de abdicação da sua mãe novamente trazida à tona. Ao longo de toda a série, a mensagem sempre foi: a Coroa está acima de tudo e todos. Mas enfim, com a partida da rainha Elizabeth II, Morgan decidiu escolher Ela. A soberana mais longeva do Reino Unido teve sua homenagem e uma despedida graciosa.</p>
<p>O fio narrativo que traz Elizabeth (Imelda Staunton) ao seu fim é aquele que foi o mais forte desde o começo: seu vínculo com Margaret. Antes da abdicação que levou seu pai ao trono, as jovens podiam ser apenas duas irmãs, vivendo a vida juntas, passando pelas mesmas experiências lado a lado. O destino não quis que fosse assim, e quando Elizabeth sobe ao posto de rainha, Margaret fica só. Embora tenha perdido sua excelência e errado com alguns de seus personagens, “The Crown” sempre fez Margaret brilhar. Seja com a doçura e a vulnerabilidade de Vanessa Kirby, com a ironia e a sagacidade de Helena Bonham Carter, ou com a vivência e a resolução de Lesley Manville, a personagem teve alguns dos arcos mais emocionantes da série, e foi quem sempre trouxe humanidade à Elizabeth quando ela insistia em ser apenas a personificação da Coroa. Ao lembrar que a rainha era também irmã, o público podia ver que em meio às futilidades, ainda havia coração. No episódio 8, talvez o melhor da temporada, tal vínculo é posto em destaque.</p>
<p>“The Crown” chega ao fim no momento certo, não pelo acontecimento histórico retratado em seu final — esse sendo até pouco importante meio a outros tantos candidatos — mas pela quase admissão de Peter Morgan de ser incapaz de adaptar os dias atuais da Família Real britânica. A verdade é que a História só consegue ser polida e embelezada quando já está distante, e talvez por isso a melhor versão da série tenha sido <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/588840/critica-the-crown-netflix-1a-2a-e-3a-temporadas-retrato-brilhante-de-uma-instituicao-superflua/" target="_blank" rel="noopener">seu começo</a>.</p>
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		<title>Crítica &#124; Beekeeper — Rede de Vingança (2024): se perde pelo medo de ser clichê</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jan 2024 12:53:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Beekeeper]]></category>
		<category><![CDATA[David Ayer]]></category>
		<category><![CDATA[Emmy Raver-Lampman]]></category>
		<category><![CDATA[Jason Statham]]></category>
		<category><![CDATA[Kurt Wimmer]]></category>
		<category><![CDATA[Phylicia Rashad]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>História de vingança, ator e diretor conhecedores de ação, elenco secundário de qualidade... Só faltou seguir a fórmula.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">A vingança é um daqueles temas universais do cinema, presente em inúmeros filmes, sejam eles bons ou ruins. A abrangência do tema acabou gerando tantos exemplares que é possível separá-los em categorias bem específicas, como aqueles em que o protagonista é um verdadeiro exército de um homem só, é forçado a largar a aposentadoria para enfrentar uma série de desafios em busca da desforra. &#8220;<strong>Beekeeper — Rede de Vingança</strong>&#8221; se insere nesse contexto, tentando trazer influências mais atuais a uma fórmula clássica. Porém, ao tentar se desviar dos trilhos para fazer algo diferente, acabou descarrilhando de vez.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama segue Adam Clay (Jason Statham), um apicultor enigmático que trabalha em um celeiro arrendado por Eloise Parker (Phylicia Rashad), por quem ele desenvolve uma relação de afeto. Quando um golpe faz Eloise perder todo o seu dinheiro e resulta em uma tragédia, o passado de Clay como ex-agente da organização clandestina Beekeepers vem à tona. Ele então embarca em uma </span>jornada frenética e incansável para se vingar e colocar um fim em todo o sistema criminoso responsável por sua perda. Porém, a caçada de Clay acaba tomando proporções muito maiores, envolvendo governos e instituições poderosas.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Filmes como “Beekeeper” costumam apostar na intensidade das cenas de ação e na catarse emocional proporcionada pela jornada do protagonista. Aqui não é diferente, especialmente levando em conta os três pilares de sustentação da produção: Jason Statham, veterano do gênero de ação; direção de David Ayer, envolvido com narrativas policiais desde o início da carreira; e roteiro de Kurt Wimmer, conhecedor do cinema de gênero, ainda que a qualidade de suas últimas incursões seja questionável, para dizer o mínimo. </span><span style="font-weight: 400;">Destes, o destaque fica com o protagonista, cuja presença física e habilidades em cenas de ação são inegáveis, entregando mais uma performance sólida, porém nada tão inspirado. Ayer se alinha ao tom da obra, oferecendo momentos de adrenalina, mas sem escapar totalmente das convenções do gênero. Contudo, as cenas de ação carecem de inovação, deixando o público ansioso por sequências mais surpreendentes. Apesar destes contratempos, o longa ainda seria um entretenimento simples e honesto, não fosse o roteiro de Wimmer e a necessidade de fugir do que deveria ser o seu foco: abraçar a fórmula e se aceitar como um clichê.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por várias vezes a trama esquece seu personagem principal para tentar desenvolver qualquer outra coisa. Seja a organização secreta Beekeepers, sejam as infindáveis metáforas relacionadas à abelhas, sejam os vários coadjuvantes apresentados e descartados em seguida… O longa assume conscientemente sua natureza genérica, mas essas tentativas de incorporar uma mitologia no background do protagonista não atingem o mesmo sucesso visto em produções recentes como a franquia </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;John Wick&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">. Esses momentos de exposição parecem forçados e destoam da simplicidade que torna filmes desse gênero atraentes. Ao invés de enriquecer, tais elementos acabam por enfraquecer a coesão da narrativa. Apesar de alguns diálogos se tornarem cômicos de tão deslocados, o ápice dessa inconsistência são os personagens secundários, sobretudo o plot envolvendo o FBI e a agente Verona Parker (Emmy Raver-Lampman), filha de Eloise; e a participação inexplicável de Jeremy Irons como Wallace Westwyld, um ex-diretor da CIA incapaz de causar qualquer impacto no rumo da história além de provocar mais medo nas pessoas que ele supostamente deveria proteger.<br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;Beekeeper&#8221; pode não revolucionar o gênero de vingança, mas se esforça para cumprir sua proposta de entretenimento genérico. Jason Statham e David Ayer, apesar de se encaixarem bem no molde, não conseguem elevar o filme a patamares mais altos. Enquanto o público pode desfrutar das cenas de ação e da jornada de vingança, a falta de inovação e a tentativa incômoda de expansão do universo do protagonista revelam as limitações da obra dentro de um contexto mais amplo. O que há de mais memorável no longa, infelizmente para ele, são as partes negativas.</span></p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; Arcane (Netflix, 1ª Temporada, 2021): ousada e impecável</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jan 2024 20:40:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Arcane]]></category>
		<category><![CDATA[Netflix]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Série adapta história do universo League of Legends e inova tanto no visual quanto na narrativa, se firmando como um dos melhores exemplares do gênero dos últimos tempos</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Ainda que possam ser equiparadas com toda a sorte de </span><span style="font-weight: 400;">live-actions </span><span style="font-weight: 400;">existente — afinal, cada mídia deve ser capaz de atingir o melhor resultado possível dentro das suas limitações — as animações acabam sendo muito mais permissivas em suas possibilidades. Em outras palavras, obras animadas permitem que seus realizadores extrapolem suas ideias mais facilmente, transformando o gênero em um ambiente prolífico para conceber coisas extraordinárias. Para a felicidade tanto dos fãs dos jogos da </span><i><span style="font-weight: 400;">Riot Games</span></i><span style="font-weight: 400;"> quanto dos meros admiradores de produções de qualidade, &#8220;</span><span style="font-weight: 400;"><strong>Arcane</strong>&#8220;</span><span style="font-weight: 400;"> chegou ao catálogo da </span><span style="font-weight: 400;">Netflix </span><span style="font-weight: 400;">se credenciando como uma das melhores animações (e adaptações de games) dos últimos tempos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A série mergulha em dois embates principais que se misturam durante a narrativa. O primeiro conflito envolve as irmãs Jinx e Vi, personagens muito populares entre os jogadores de </span><i><span style="font-weight: 400;">League of Legends</span></i><span style="font-weight: 400;">, que acabam se tornando adversárias anos após vários traumas separarem seus caminhos. Ambas estão inseridas e diretamente ligadas ao segundo confronto, envolvendo as cidades-irmãs Piltover, marcada pela busca incessante pelo progresso e pela inovação, e Zaun, definida por uma profunda desigualdade social, assim como uma mágoa constante pelo destrato da “vizinha rica”. Note que não se tratam de premissas exatamente originais, mas o que diferencia a história contada em “Arcane”</span><span style="font-weight: 400;"> — e o que talvez seja o seu maior mérito — é a coragem de abraçar as decisões mais difíceis dentro do que foi apresentado inicialmente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A mitologia contida no game original é muito vasta, de forma que seria impossível escolher o recorte ideal para trabalhar sem conhecer muito bem o material fonte. Não por acaso, a </span><i><span style="font-weight: 400;">Riot Games </span></i><span style="font-weight: 400;">selecionou Christian Linke e Alex Yee como criadores da série, dois funcionários antigos da casa e sem nenhum histórico em algo de fora da empresa. Definida a história, era preciso encontrar o estilo de animação perfeito, e a escolha da </span><i><span style="font-weight: 400;">Fortiche Productions</span></i><span style="font-weight: 400;"> não poderia ter sido melhor. Já qualificada por produzir alguns curtas animados anteriores para a empresa (inclusive de personagens presentes no elenco de “Arcane”), o estúdio francês entrega um traço tradicional na Europa, mesclando produção em 3D com texturas em 2D, e cada frame se assemelha a uma linda pintura. Isso sem falar na minuciosa atenção aos detalhes, ao peso dos movimentos, à força dos impactos e demais minúcias que contribuem para toda a experiência visual.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando à premissa, vale salientar também que nenhum personagem é, de fato, bom ou ruim. É possível entender seus conflitos internos e pressões externas, de modo que as decisões tomadas no decorrer da história podem ser até questionadas, mas é difícil negar a existência de toda uma construção anterior que sustenta tais escolhas. Silco, por exemplo, possui um visual que, de cara, entrega suas intenções “vilanescas”, com seu rosto esguio e cheio de cicatrizes. Mas ele não apenas possui um passado traumático — assim como praticamente todo morador de Zaun —, como acredita com grande convicção na causa pela qual luta. E o detalhe final que consagra o personagem é o amor paternal desenvolvido por Jinx, resultando em uma das cenas mais surpreendentes e de maior impacto emocional da obra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas talvez nenhum dos personagens de “Arcane” se encaixe tanto nesse cenário como a própria irmã de Vi — a começar pelo conflito de personalidades observado na dualidade Jinx/Powder. E aqui vale mais uma vez destacar a ousadia dos produtores da série, tanto ao fugirem de um possível final clichê, como também por evitarem criar um paralelo com a Arlequina do universo </span><i><span style="font-weight: 400;">DC</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mostrando não ter medo de embarcar nas alternativas mais duras, o roteiro reconhece que todo o sofrimento de Powder atrelado à influência desequilibrada de Silco em sua criação precisaria gerar consequências sérias à mente da personagem. Mas a obra faz questão de expor, tanto visualmente quanto em suas ações, que Jinx não se reduz a um parafuso solto na cabeça, mas é alguém que carrega consigo a todo momento os fantasmas que a fizeram ser assim, seja dos seus amigos e destino trágicos, seja a culpa e o abandono que a assolam desde então.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto a trama das irmãs tem toda a profundidade advinda do desenvolvimento individual dos personagens, o conflito entre Piltover e Zaun deixa um pouco a desejar nesse quesito, ainda que, para o que a obra precisa, seja mais do que o suficiente. É compreensível que algumas lacunas da história requeiram a contribuição do público, uma vez que não estamos vendo algo no estilo de “</span><i><span style="font-weight: 400;">Game Of Thrones</span></i><span style="font-weight: 400;">”, na qual o conluio político ganha tanto (ou até mais) tempo de tela do que os personagens. Um exemplo disso é o conselho que comanda a cidade do progresso. A maioria dos membros parecem existir apenas para denotar uma pluralidade irrelevante, uma vez que a população geral do local nunca é citada diretamente, e tampouco as opiniões dos conselheiros são levadas em conta, pois parecem estar em uma condição de manipulação permanente, sem nenhuma voz ativa. Porém, o cerne da intriga e os impactos da tecnologia Hextech na política interna e externa funcionam bem, contribuindo para a complexidade da narrativa e adicionando ingredientes que certamente serão explorados em episódios futuros — como a influência de Noxus através da mãe da conselheira Mel.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todo o cuidado com o desenvolvimento de cada personagem eleva “Arcane” ao posto de obra-prima, não só do gênero animação, mas do audiovisual como um todo — com o ápice dessa ousadia sendo mostrado na cena final, interrompida pelos créditos em um clímax máximo que imediatamente faz questionar se é possível esperar tanto tempo até que a já confirmada segunda temporada chegue ao catálogo da </span><span style="font-weight: 400;">Netflix</span><span style="font-weight: 400;">. Contudo, mesmo que a série fosse encerrada naquele quadro, passado o calor do momento, é inegável que a jornada até ali foi extremamente satisfatória. A </span><i><span style="font-weight: 400;">Riot Games</span></i><span style="font-weight: 400;"> e a </span><i><span style="font-weight: 400;">Fortiche Productions</span></i><span style="font-weight: 400;"> alçaram os padrões a um patamar difícil de ser alcançado por outras produções. Enquanto muitos procuram diretores renomados e elencos de peso para suas adaptações de games, aprendemos que, às vezes, para chegar ao sucesso máximo, só é preciso dar oportunidade para pessoas apaixonadas pelo material original, e corajosas o bastante para se desviarem dos caminhos fáceis.</span></p>
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		<item>
		<title>Crítica &#124; As Marvels (2023): apressando a fórmula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Nov 2023 00:28:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[As Marvels]]></category>
		<category><![CDATA[Brie Larson]]></category>
		<category><![CDATA[Iman Vellani]]></category>
		<category><![CDATA[Nia DaCosta]]></category>
		<category><![CDATA[Teyonah Parris]]></category>
		<category><![CDATA[Zawe Ashton]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Novo longa do MCU adota uma celeridade exagerada, e como consequência se torna um entretenimento esquecível.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Um jeito óbvio e simples de iniciar um texto sobre “<strong>As Marvels</strong>” seria abordar o esgotamento do gênero de super-heróis, em especial os que seguem a fórmula Marvel. Seria possível também trazer argumentos favoráveis ou contrários ao boicote que o longa sofreu — e isso poderia ocasionar o aparecimento de termos como “woke” e “lacração”. Ou ainda poderíamos tecer inúmeras teorias sobre a continuidade do MCU baseado unicamente em mais uma cena pós-créditos que prenuncia um futuro que nunca chega. A verdade é que tudo isso constrói um contexto ao redor do filme que alimenta um debate infindável e esquece do que deveria ser o principal objeto da discussão: o próprio filme.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E quando olhamos diretamente para “As Marvels”, um sentimento domina as percepções: pressa. Temos uma obra com três protagonistas e uma vilã, além de várias participações especiais, e todas precisam se encaixar para caber nos 105 minutos de duração. Se por um lado o trio principal dispensava apresentações demoradas (estas realizadas em </span><i><span style="font-weight: 400;">“Capitã Marvel”</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">“WandaVision”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">“Ms. Marvel”</span></i><span style="font-weight: 400;">), por outro o longa parece não saber distinguir um excesso supérfluo de uma sequência importante para o desenvolvimento de personagens, motivações e afins. Tudo é apresentado muito rápido, discutido muito rápido e resolvido muito rápido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme traz Carol Danvers (Brie Larson), Monica Rambeau (Teyonah Parris) e Kamala Khan (Iman Vellani) com seus poderes imprevisivelmente conectados devido a um acontecimento cósmico. Nesta condição, elas precisam se unir e aprender a trabalhar em sincronia para deter uma inimiga em comum, a nova governante dos Kree, Dar-Benn (Zawe Ashton). Os poderes entrelaçados geram a maioria das cenas de humor — com destaque para a jovem Ms. Marvel enfim conhecendo sua heroína favorita —, enquanto as ações da vilã compõem o núcleo dramático juntamente com o reencontro entre Monica e sua “Tia Carol” depois de muitos anos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As sequências cômicas provocam uma sensação de leveza e descompromisso, o que é bem-vindo para um universo em que as consequências futuras vêm sendo mais priorizadas do que as ações presentes. O trio funciona bem junto, mas Kamala rouba a maioria das cenas para si. É impressionante como a personagem pode ser vista como o frescor que a Marvel precisava ou como uma simples adolescente irritante, tudo baseado na mesma atuação. O contraste de opiniões é apenas mais um sintoma de que o público-alvo do estúdio está se segmentando baseado no gosto ou desgosto por uma narrativa voltada aos jovens. Não por acaso, a montagem segue essa tendência, apressando a trama e apostando tudo na aceleração do ritmo, quase como a dinâmica frenética dos TikToks/Reels.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já do outro lado, o roteiro acrescenta dramaticidade na história ao forçar a Capitã Marvel a confrontar suas escolhas do passado, seja o constrangimento de nunca ter retornado à Terra e mantido contato com Monica, seja a vergonha de destruir a Inteligência Suprema dos Kree, provocando consequências devastadoras para o planeta Hala. Acontece que toda a carga dramática que esse arco deveria conter é pouquíssimo desenvolvida, muito por conta dessa celeridade excessiva sentida em toda a produção. Dar-Benn parece existir apenas como um mecanismo para mover as protagonistas, algo que por si só não prejudica o filme, mas tampouco contribui para elevá-lo. Fatos relevantes como a motivação da escolha dos planetas atacados pela vilã (são lugares importantes para Carol Danvers) precisam ser ditos pelos personagens — e quando o mandamento “mostre, não fale” é deixado de lado, não pode ser um bom sinal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A impressão final de “As Marvels” é de um filme de heróis à moda antiga (se for possível chamar a Fase 1 do MCU de antigo), cujo objetivo é ser um entretenimento descompromissado, porém esquecível. À exceção de uma luta aqui, uma sequência com os flerkens acolá, nada é de fato marcante — e o ritmo e edição apressados contribuem ainda mais para isso. Além de tudo fica a sensação de oportunidade desperdiçada, pois haviam várias chances da produção se destacar, como na direção com Nia DaCosta (<em>&#8220;A Lenda de Candyman&#8221;</em>). No fim, o longa não deve ser lembrado entre os piores do MCU, e certamente não será lembrado entre os melhores. Pensando bem, talvez sequer seja lembrado.</span></p>
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		<title>Crítica &#124; Five Nights at Freddy&#8217;s: O Pesadelo Sem Fim (2023): terror robótico para baixinhos</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/624035/critica-five-nights-at-freddys-o-pesadelo-sem-fim-2023-terror-robotico-para-baixinhos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Julio Bardini]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Oct 2023 14:22:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Elizabeth Lail]]></category>
		<category><![CDATA[Five Nights at Freddy's: O Pesadelo Sem Fim]]></category>
		<category><![CDATA[Five Nights at Freddy’s]]></category>
		<category><![CDATA[Grant Feely]]></category>
		<category><![CDATA[Josh Hutcherson]]></category>
		<category><![CDATA[Kat Conner Sterling]]></category>
		<category><![CDATA[Mary Stuart Masterson]]></category>
		<category><![CDATA[Matthew Lillard]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Longa mostra intenção de presentear os fãs da obra original, mas se limita a espalhar easter eggs e esquece que o foco deveria ser a qualidade do filme.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A ascensão de &#8220;<strong>Five Nights at Freddy&#8217;s</strong>&#8221; ao status atual no mundo do games é algo digno de ser estudado. Com uma mecânica simples e praticamente sem enredo, os jogos construíram suas narrativas através de pequenas dicas deixadas pelo jogo — artigos de jornal em paredes, desenhos de criança largados em um canto, gravações de pessoas dando a entender que algo maior e macabro estava em andamento. Com tanto espaço para sustos e teorias, a comunidade de &#8220;FNAF&#8221; cresceu de tal forma que hoje é uma das mais fervorosas da internet. Após quase 10 anos de espera, eles finalmente têm um filme de sua franquia favorita nos cinemas. É uma pena que ele seja algo tão genérico.</p>
<p>O longa acompanha a jornada infeliz do protagonista Mike Schmidt (Josh Hutcherson), um segurança que não consegue parar em emprego algum devido ao trauma e à obsessão em descobrir quem sequestrou seu irmão Garrett (Lucas Grant) quando eram crianças. Agora, Schmidt tem Abby (Piper Rubio), outra irmã menor a cuidar, mas não consegue focar e ainda está sob risco de perder a guarda dela para a malévola tia Jane (Mary Stuart Masterson). Para tentar lembrar dos detalhes do sequestro, Mike mergulha no estudo dos sonhos lúcidos e, quando encontra um emprego como guarda noturno em uma velha pizzaria abandonada, esta parece a oportunidade ideal para se debruçar sobre suas memórias sem perder um emprego. Mas o lugar tem outros planos. A velha Freddy Fazbear&#8217;s Pizza foi um sucesso infantil nos anos 1980, mas caiu em desgraça quando cinco crianças foram mortas no local pelo dono, William Afton. Atualmente, após a meia-noite, os robôs animatrônicos que antes faziam a alegria da criançada agora rondam a pizzaria matando todos que que têm o infortúnio de trabalhar no local.</p>
<p>&#8220;Five Nights at Freddy&#8217;s: O Pesadelo Sem Fim&#8221; é bem dirigido por Emma Tammi, ainda em sua segunda empreitada como diretora. Ela sabe construir o pouco suspense que o roteiro lhe permite, e, até o fim do primeiro ato, consegue deixar pistas do que está acontecendo para que os fãs se divirtam como nos jogos. Infelizmente, por volta da metade do filme, a história toma rumos óbvios e previsíveis, sem assumir qualquer risco ou ousar trazer nada de novo para quem já estava acostumado com os animatrônicos. Estes de fato são um show à parte, produzidos pela lendária Jim Henson&#8217;s Creature Shop, mas não têm tanto o que assustar com uma história tão robótica.</p>
<p>A própria saga de desenvolvimento do filme de &#8220;FNAF&#8221; já não dava sinais de que daria certo, com diversos diretores e roteiristas sendo contratados e demitidos ao longo dos anos. O criador da franquia, Scott Cawthon, teve controle criativo o suficiente para descartar até roteiros de Chris Columbus (&#8220;<em>Gremlins</em>&#8220;, &#8220;<em>Harry Potter</em>&#8220;), e o produtor Jason Blum, preocupado em agradar a base de fãs que confiava em Cawthon, consentiu com tudo. Ao que parece, talvez Cawthon seja melhor como desenvolvedor de jogos do que como contador de histórias. Ele não demonstra entender que o charme da franquia é deixar que outros liguem os pontos que são mostrados de relance nos jogos. No fim das contas, o filme de &#8220;FNAF&#8221; não deixa ponto nenhum para ninguém ligar.</p>
<p>Para os fãs dos jogos, há diversos easter eggs a ser encontrados, com referências aos jogos sendo deixadas onde imaginava-se que o próprio enredo poderia florescer. Como &#8220;FNAF&#8221; surgiu no ápice da cultura youtuber, diversos criadores de conteúdo pegaram carona no jogo, o que contribuiu para o crescimento da base de fãs. A estes, de fato há diversas homenagens, mas fazer um &#8220;filme para os fãs&#8221; não deve ser algo limitado a easter eggs; na verdade, não há maneira melhor de honrá-los do que entregando uma obra que assuste e estimule a imaginação. Infelizmente, &#8220;Five Nights at Freddy&#8217;s: O Pesadelo Sem Fim&#8221; não faz nenhum dos dois.</p>
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		<title>Crítica &#124; Fale Comigo (2023): possuindo a geração das redes sociais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Sep 2023 12:36:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Danny Philippou]]></category>
		<category><![CDATA[Fale Comigo]]></category>
		<category><![CDATA[Joe Bird]]></category>
		<category><![CDATA[Michael Philippou]]></category>
		<category><![CDATA[Sophie Wilde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Longa inova ao apresentar uma perspectiva adolescente para o subgênero da possessão, evitando clichês e mergulhando em questões de pressão social, traumas e vícios.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O gênero de terror frequentemente nos presenteia com uma infinidade de filmes repetitivos e genéricos, mas é inegável que alguns se destacam ao arriscarem e trazerem novas temáticas e discussões para a tela. &#8220;<strong>Fale Comigo</strong>&#8220;, o primeiro longa dirigido pelos irmãos Danny e Michael Philippou, criadores do popular canal RackaRacka no YouTube, é um desses que merecem atenção. Dentro desse rol, parte considerável dos exemplares corajosos têm a chancela do estúdio <em>A24</em>, e &#8220;Fale Comigo&#8221; segue essa tradição, atualizando uma trama clichê como a possessão para o público jovem e inserindo importantes mensagens sobre vícios e traumas.</p>
<p>A premissa já se mostra diferente do habitual ao mostrar a possessão espiritual como algo quase banal, que virou moda nas festas locais. Um grupo de amigos dispõe de uma misteriosa mão embalsamada que permite invocar espíritos e ser possuído por eles por algum tempo. Neste grupo encontra-se a protagonista Mia (Sophie Wilde), determinada a participar da sessão para se distrair do aniversário de morte de sua mãe. A empolgação dos jovens se transforma em apreensão à medida que mergulham em território perigoso quando um deles abre acidentalmente uma porta para o mundo espiritual. Todos acabam ficando vulneráveis a ameaças aterrorizantes, forçando cada um a questionar em quem podem confiar: nos vivos ou nos mortos da outra dimensão.</p>
<p>Uma das grandes forças de &#8220;Fale Comigo&#8221; reside na sua abordagem original do subgênero do terror com possessão. Ao adotar uma perspectiva adolescente, o filme evita os clichês usuais de batalha do bem contra o mal, exorcismos e tudo mais. Em vez disso, a obra opta por explorar a pressão social e a influência dos colegas sobre os jovens. A ideia de que os personagens são encorajados a enfrentar as possessões em busca de popularidade nas redes sociais pode parecer absurda para alguns, mas reflete uma realidade da juventude moderna, onde desafios e tendências virais muitas vezes resultam em sérios prejuízos.</p>
<p>Além disso, &#8220;Fale Comigo&#8221; não se limita ao sobrenatural; ele adiciona camadas de traumas psicológicos, vícios e dores reais que afetam muitos indivíduos hoje em dia. O filme retrata pessoas que recorrem à possessão em busca de adrenalina viciante semelhante ao efeito das drogas. Outras cedem à pressão social e à necessidade de posar para as câmeras e alimentar os feeds de redes sociais, como se corressem o grande perigo de serem excluídos daquela tribo — e o isolamento é uma grande questão para esse público. Ou ainda há os que lutam para lidar com traumas não resolvidos. O luto também é tratado com sensibilidade e realismo, afetando de maneiras diferentes a protagonista, seus amigos próximos e seu pai, mesmo com um tempo de tela menor. Essa complexidade enriquece a narrativa, tornando-a mais envolvente e significativa.</p>
<p>Quanto aos elementos de terror e sustos, &#8220;Fale Comigo&#8221; adota uma abordagem inteligente. Os diretores reconheceram que utilizar jump scares baratos é uma estratégia batida, e funciona menos ainda com a faixa etária com a qual o longa conversa. Com isso em mente, esse recurso foi pouco utilizado, e quase sempre de forma criativa, driblando as limitações orçamentárias e ajudando a criar transições bruscas que contribuem para criar o sentimento de dúvida sobre o que é real ou não.</p>
<p>A atmosfera de tensão vai sendo construída de maneira sutil, e no decorrer da duração é possível sentir aquele peso no ar, uma sensação intrigante de incerteza sobre o que está por vir, e igualmente uma necessidade de saber como tudo vai terminar. Poucas cenas são realmente memoráveis — em especial duas envolvendo o jovem Riley (Joe Bird) —, e ainda que a trama termine de forma inteligente e corajosa, trata-se de um final que não deve funcionar para todos.</p>
<p>Em resumo, &#8220;Fale Comigo&#8221; é uma adição bem-vinda ao catálogo de filmes de terror, trazendo originalidade, profundidade e reflexões contemporâneas para uma trama clichê como a possessão espiritual. Os irmãos Philippou demonstram talento ao oferecer uma experiência cinematográfica que mostra uma nova perspectiva para algumas convenções do gênero, deixando uma impressão duradoura principalmente no público mais jovem. Certamente chamarão atenção para suas próximas empreitadas no cinema.</p>
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		<title>Crítica &#124; A Noite das Bruxas (2023): mistério funciona e entretém, mas terror é aquém</title>
		<link>https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/623699/critica-a-noite-das-bruxas-2023-misterio-funciona-e-entretem-mas-terror-e-aquem/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Martinho Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Sep 2023 22:15:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[A Noite das Bruxas]]></category>
		<category><![CDATA[Ali Khan]]></category>
		<category><![CDATA[Camille Cottin]]></category>
		<category><![CDATA[Emma Laird]]></category>
		<category><![CDATA[Kenneth Branagh]]></category>
		<category><![CDATA[Michael Green]]></category>
		<category><![CDATA[Michelle Yeoh]]></category>
		<category><![CDATA[Tina Fey]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Kenneth Branagh como diretor/protagonista e Michael Green no roteiro compreendem melhor o material base e se arriscam para trazer frescor à terceira adaptação da obra de Agatha Christie da dupla — e o saldo final é positivo.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Kenneth Branagh já atuou, dirigiu e roteirizou muitos trabalhos reconhecidos, de adaptações shakespearianas a blockbusters de </span><i><span style="font-weight: 400;">Disney </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Marvel</span></i><span style="font-weight: 400;">, além de seu premiado drama </span><i><span style="font-weight: 400;">“Belfast”</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2021), que lhe rendeu um Oscar. Dentre tantos projetos, um que aparenta ter a afeição do cineasta é a adaptação do icônico detetive Hercule Poirot em </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Assassinato no Expresso do Oriente&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2017) e </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Morte no Nilo&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2022), ambos baseados nas obras de Agatha Christie. Pouco mais de uma ano após a mais recente incursão, Branagh retorna como diretor e protagonista em &#8220;<strong>A Noite das Bruxas</strong>&#8220;, trazendo uma abordagem alternativa ao tradicional gênero whodunit retratado nos filmes anteriores.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O novo longa se diferencia ao introduzir elementos de terror na trilogia. A trama é ambientada na Veneza pós-Segunda Guerra Mundial, na véspera do Dia de Todos os Santos (data e época cuidadosamente escolhidas para impactar diretamente alguns personagens). O detetive Poirot é convidado por uma velha amiga a sair de seu exílio auto-imposto e testemunhar uma sessão espírita. Rapidamente, o lugar se se torna cenário de um misterioso assassinato que desafia as convicções do protagonista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O sucesso de um whodunit (ou “quem fez isso?”) depende de um equilíbrio delicado entre mistério e revelação, e &#8220;A Noite das Bruxas&#8221; mantém essa tradição com eficiência. O roteiro de Michael Green adapta livremente a obra de Christie, entregando os pontos-chave da trama de forma a manter o público intrigado, sem tornar a solução óbvia demais, mas também sem escolher caminhos tão inacessíveis que apenas o genial detetive poderia desvendar. No entanto, Green se aproveita da brevidade do material base para inserir elementos de terror na trama, incluindo <em>jump scares</em> que, embora façam sentido com a proposta inicial, parecem por vezes destoantes do tom geral do filme. Embora essa tentativa de adicionar um toque de horror à história seja louvável e funcione em vários momentos, às vezes a forma como isto é introduzido pode parecer forçada e fora de tom.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A direção de Kenneth Branagh é notável desde o fragmento inicial. Utilizando ângulos holandeses, lentes grande-angulares e uma edição cheia de cortes e elipses, ele cria uma atmosfera por vezes sombria e desconfortável. Esses elementos visuais contribuem significativamente para a sensação de incerteza que permeia o filme, deixando sempre no ar a lembrança de que algo não está certo naquele lugar. Os recursos da cinematografia por si só já seriam capazes de construir a aura de terror no longa bem mais do que artifícios como aparições e <em>jump scares</em>. Porém, a edição excessivamente picotada às vezes pode prejudicar a compreensão do que está acontecendo em cena, tornando algumas sequências confusas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora haja nomes de destaque, como a recém-oscarizada Michelle Yeoh, &#8220;A Noite das Bruxas&#8221; felizmente não é tão dependente do </span><i><span style="font-weight: 400;">star power</span></i><span style="font-weight: 400;"> do elenco como seus predecessores. Vemos diferentes tons de atuação, desde a comedida Olga Seminoff (Camille Cottin) até os mais explosivos irmãos Nicholas (Ali Khan) e Desdemona (Emma Laird). Branagh, mais uma vez, se destaca não apenas como o detetive meticuloso e cheio de tiques, mas também ao explorar os sentimentos reclusos de seu personagem, adicionando profundidade à sua atuação. Tina Fey como Ariadne Oliver, escritora de romances policiais e amiga de Poirot, funciona bem como coadjuvante direta, sempre desafiando o protagonista de maneira amigável.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em resumo, &#8220;A Noite das Bruxas&#8221; é uma boa contribuição de Kenneth Branagh para a saga de Hercule Poirot. O filme é o melhor da trilogia em capturar a essência do gênero whodunit, se beneficiando de uma escala menor de produção. Adicionar elementos de terror cria uma nova e inédita camada que casa bem com a estética do diretor, embora alguns artifícios possam ser questionáveis em certos momentos. Ao menos no quesito entretenimento a obra cumpre o que se espera dela, mostrando que o tão estimado projeto de Branagh precisa muito mais de uma história interessante do que de um elenco inchado.</span></p>
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		<title>Crítica &#124; Estranha Forma de Vida (2023): instigante, mas insuficiente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Julio Bardini]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Sep 2023 22:24:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Estranha Forma de Vida]]></category>
		<category><![CDATA[Ethan Hawke]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Almodóvar]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Pascal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Indeciso entre ser um experimento comercial e um retrato sensível sobre um relacionamento proibido, Almodóvar entrega um média-metragem que entretém, mas parece deixado pela metade.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando foi anunciado, &#8220;<strong>Estranha Forma de Vida</strong>&#8221; vinha sempre acompanhado da seguinte descrição: &#8220;É a resposta de <strong>Pedro Almodóvar</strong> a &#8216;<em>O Segredo de Brokeback Mountain</em>&#8216;&#8221;. Nos idos dos anos 2000, o cineasta espanhol teve a oportunidade de dirigir o longa, mas recusou. A ideia de um faroeste com um romance entre dois cowboys permaneceu na cabeça de Almodóvar, que explora o mesmo conceito neste média-metragem, seu primeiro filme em inglês e com elenco de Hollywood.</p>
<p>Mais uma experiência do que um conto em si, &#8220;Estranha Forma de Vida&#8221; foi concebido também de forma estranha por ser uma colaboração de Almodóvar com a grife Yves Saint Laurent, que agora busca atuar no ramo de produções cinematográficas. O toque é perceptível, ainda que não necessariamente relevante, e acaba transformando a obra em algo mais parecido com um comercial com pretensões cinematográficas do que um filme com pretensões comerciais.</p>
<p>Ainda assim, o que há de Almodóvar é encantador. O longa acompanha o reencontro do cowboy Silva (Pedro Pascal) com o xerife Jake (Ethan Hawke) após 25 anos separados. Quando jovem, a dupla trabalhou junta como caçadores de recompensas, e, no calor da juventude, frequentemente confundiam amor, trabalho e festa, mas sempre focando um no outro. Com o passar dos anos, os amantes se distanciaram, apesar do sonho antigo de terem um rancho e viverem juntos. A idade não caiu bem a Jake, que tornou-se um adulto reprimido por suas próprias noções de vida, enquanto Silva permanece tão sanguíneo quanto sempre fora. Quando um caso extremamente pessoal aparece para Jake investigar, seu caminho cruza com o de Silva, e o ex-casal precisa finalmente confrontar quem eram no passado e quem se tornaram no presente.</p>
<p>O contraste entre Jake e Silva fica claro desde o minuto inicial. O primeiro, um xerife que veste preto, sempre com a insígnia alinhada com a lapela do blazer e o cabelo domado com gel. O segundo é um banho de cor em um deserto bege, vestindo jaqueta verde e roupas vermelhas por baixo com cabelo desgrenhado. Inicialmente é de se espantar como eles podem ter sido um casal, de tão diferentes que são até mesmo em sua intimidade.</p>
<p>Em entrevista exibida junto ao filme nos cinemas, Almodóvar explica suas intenções com &#8220;Estranha Forma de Vida&#8221;: explorar como as pessoas deixam que seus desejos e impulsos sejam reprimidos a ponto de tentarem se ver completamente diferentes de quem realmente são. Vem daí o próprio título do filme, referência ao clássico fado português interpretado por Caetano Veloso em falsete, como uma mulher. O olhar sensível e feminino é realmente um atributo de Almodóvar que faz falta aos homens, e analisa a masculinidade do casal protagonista da forma mais tenra possível — enquanto Silva mostra e fala o que seu parceiro quer tanto disfarçar e omitir, Jake parece sempre imerso em sua opressão a si mesmo.</p>
<p>Ainda assim, apesar de Almodóvar considerar que o formato do média-metragem lhe garante maior liberdade para contar histórias sem precisar alongá-las à longa duração, &#8220;Estranha Forma de Vida&#8221; é breve demais, deixando por desejar um desfecho que de fato satisfaça a expectativa criada ao redor do romance proibido de Jake e Silva. Parece, então, que o que ocorreu com o média-metragem foi o contrário do que Almodóvar descreve sobre o formato longo, como se uma história maior tivesse sido contada pela metade para caber em uma experiência mais breve. Quem assiste sai sedento por mais, cabendo facilmente o triplo da duração no filme, o que evidencia o viés comercial e experimental do filme se sobressaindo sobre a visão artística de Almodóvar.</p>
<p>O post <a href="https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/623564/critica-estranha-forma-de-vida-2023-instigante-mas-insuficiente/">Crítica | Estranha Forma de Vida (2023): instigante, mas insuficiente</a> apareceu primeiro em <a href="https://cinemacomrapadura.com.br">Cinema com Rapadura</a>.</p>
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