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<p style="text-align: justify;">Jurado: <strong>Lucas Murtinho</strong><a href="http://www.laab.com.br/"><strong></strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">Como na primeira edição da CLB, um livro chega à final aos trancos e barrancos enquanto o outro surge como franco favorito, tendo vencido todos os seus jogos com autoridade de campeão. Mas ao contrário da Copa passada, em que os dois finalistas me pareceram mais ou menos equivalentes em qualidades e defeitos, desta vez não tenho dúvidas sobre quem merece ganhar: a decisão entre um livro bom — <em>O filho eterno</em>, de Cristovão Tezza — e outro menos do que isso — <em>O dia Mastroianni</em>, de João Paulo Cuenca — é fácil. &#8220;Bom&#8221;, porém, pode parecer pouco para uma obra tão elogiada quanto <em>O filho eterno</em>, e me encontro agora na desagradável posição de apontar os defeitos de um romance do qual gostei.</p>
<p style="text-align: justify;">Vi dois problemas em <em>O filho eterno</em>. O primeiro é que o desejo do autor de escrever bem é tão proeminente quanto o fato de ele realmente escrever bem. Quando comentei isso com o Alex Castro ele tirou um sarro da minha cara: &#8220;Pois é, eu também acho que o problema do Pelé era que ele claramente queria mostrar pra todo mundo que sabia jogar bola&#8221;. Aceito a crítica mas mantenho a posição: a busca da imagem perfeita e da frase primorosa é evidente demais em <em>O filho eterno</em>, e acabou me distraindo da perfeição e do primor mesmo quando eles foram alcançados. Mais grave ainda, tal busca me distraiu da história contada por Tezza, funcionando como uma barreira entre o leitor e o duro retrato que o autor compõe de um personagem óbvia e sabidamente inspirado em si mesmo: o perfeccionismo de Tezza reduz o impacto emocional da sua narrativa. O segundo problema que enxerguei no romance, aliás, também causa uma redução de impacto emocional: é a quantidade de vezes que o narrador-autor divaga, delira, pensa em outra coisa — a quantidade de vezes, enfim, em que ele evita tratar do assunto central do livro, da difícil convivência com e aceitação do seu filho que sofre de síndrome de Down. Por mais que eu tenha gostado de finalmente descobrir por que os dias da semana têm nomes tão ridículos em português, por exemplo, fiquei com a impressão de que informações desse tipo entraram no romance apenas para que Tezza não precisasse ir tão longe no seu autoexame quanto muita gente acredita que ele foi.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas falo desses problemas apenas para explicar a modicidade do meu elogio diante de tantos leitores — incluindo alguns jurados da Copa — que colocam <em>O filho eterno</em> entre os melhores romances brasileiros da década ou mesmo de todos os tempos. Não vou tão longe, mas não hesito em dizer que se trata de um livro acima da média e de um excelente cartão de visitas para quem, como eu, não conhecia a obra de Tezza. Mais do que isso, e para fazer eco às apreciações encontradas em alguns dos textos que seguem abaixo, <em>O filho eterno</em> é um romance adulto, no sentido de ser uma obra madura cujos defeitos não se encontram em elementos básicos como seu conteúdo, sua forma ou a adequação entre ambos. Voltando à metáfora futebolística que felizmente teima a permanecer viva na Copa, <em>O filho eterno</em> é como o hexa/tricampeão São Paulo: um clube com estádio próprio, finanças em dia, elenco talentoso, equipe técnica estável e grande torcida. Nem todos os passes saem certos e nem todos os jogos são vitórias por goleada, mas o poder de fogo do time é inegável e ele será sempre um sério candidato ao título. Passando para uma menos usada metáfora escolar, <em>O filho eterno</em> é um aluno que, ainda que não tire dez, certamente passará com tranquilidade de ano.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia outros clubes estruturados ou alunos aplicados nesta Copa — <em>O sol se põe em São Paulo</em> e <em>Toda terça</em> são os meus dois exemplos — mas por um acidente como os que sempre acontecerão em torneios deste tipo o outro finalista não é um deles: <em>O dia Mastroianni</em> está mais para o meu querido e esquizofrênico Flamengo ou para o aluno desligado conversando no fundo da sala. <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-15">A resenha do Sérgio Rodrigues</a> me fez reconsiderar alguns pontos do meu primeiro e extremamente negativo julgamento de <em>O dia Mastroianni</em>: o romance tem uma lógica interna, um conjunto de objetivos que se propõe a atingir, e consigo entender por que alguns leitores pensam que ele os atingiu. Mas ainda julgo que nem os objetivos valiam a pena nem a execução foi satisfatória. Concordo relutantemente com Rodrigues quando ele diz que <em>O dia Mastroianni</em> é puro exercício de estilo, e senti ao lê-lo o despojamento criativo de que André Sant&#8217;Anna falou na <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-13">sua resenha</a>. Mas o exercício de estilo só deixa de ser isso, mero exercício, quando é levado ao limite e explora novas possibilidades (como <em>Finnegans wake</em>, para citar o único exemplo que me vem à mente neste instante): se não é o caso, seu lugar é na gaveta de rascunhos do autor, à espera de um conteúdo que lhe dê razão de ser. Mais grave ainda — mas menos sujeito a uma discussão argumentada e por isso menos interessante — a meu ver nem mesmo como exercício de estilo banal <em>O dia Mastroianni</em> é digno de nota. Há alguns erros entre os consideráveis acertos, e foram poucos os momentos em que as múltiplas sacadas de Cuenca me deixaram sinceramente admirado: na maior parte do tempo elas me pareceram malabarismo com palavras, algo que eu não poderia fazer mas que ainda assim não me prende a atenção por mais de cinco minutos. Talvez se Cuenca tivesse trocado as bolas de tênis por serras elétricas — se houvesse algum risco ou alguma novidade no que ele fez. Mas não há.</p>
<p style="text-align: justify;">Faltou, portanto, um adversário à altura de <em>O filho eterno</em> para animar esta final. Pelo menos o meu voto ele leva fácil.</p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 0 x 1 <em>O filho eterno</em> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://laab.com.br/"><strong>Luiz Antonio de Assis Brasil</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">Cuenca: Eis aí um livro que, para além da avaliação de sua qualidade estética, merece uma consideração de natureza cultural. É o retrato do modo de vida de certo segmento de nossa sociedade — ligado a determinada faixa etária e econômica e a uma certa tabela de valores sociais e pessoais. Todas minhas cautelas restritivas indicam que não é um &#8220;retrato de época&#8221; <em>tout court</em>; isso seria erigir o livro à condição de metonímia epocal, o que não é bom para nenhum livro nem para a literatura. Em outras palavras, <em>O dia Mastroianni</em> deve ser entendido em seu contexto, e nesse contexto ele funciona, e funciona bem, e merece seu espaço.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, peçam-me para falar sobre esse livro daqui a dez anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Tezza: O livro de Tezza tem tudo para ser considerado como literatura; e sou levado a dizer isso porque: a) o texto é, poético, forte, elegante, persuasivo; b) o conteúdo tem drama humano e emoção. É certo que fala de uma questão específica (e dolorosa, no caso), mas qualquer romance trata de uma questão específica. Não há literatura em abstrato. A literatura tem temas, e vive em função dos temas. Por isso considero ociosa a discussão sobre o que vale mais, neste romance. Ele é literatura na sua integralidade, e pronto. E dizer que é literatura significa dizer, implicitamente, que é boa literatura.</p>
<p><strong></strong></p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 0 x 2 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://todoprosa.com.br/"><strong>Sérgio Rodrigues</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">O desequilíbrio de forças desta partida final chega a ser um pouco aflitivo, embora os dois times sejam inegavelmente profissionais.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O dia Mastroianni</em> é uma novela curta que se dedica a fazer graça (muita) e provocar reflexão (pouca) sobre a suposta irrelevância da literatura no mundo de hoje. <em>O filho eterno</em> é um romance suculento que desmente de forma avassaladora a tese da irrelevância da literatura no mundo de hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">O livrinho de João Paulo Cuenca é ligeiro e assumidamente imaturo, ainda que construído com inteligência e sustentado por um domínio técnico da prosa bem acima da média nacional — um bom <em>divertissement</em>. O livraço de Cristovão Tezza dá um show de maturidade, tanto emocional quanto literária, e faz do domínio técnico um instrumento, não um fim. Sem tratar a literatura como mero veículo para o confessional, nem por isso desiste de iluminar o que está fora dela: o viver, que, como se sabe, é muito perigoso.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é mais que previsível. A <em>O dia Mastroianni</em> resta o consolo de ser derrotado por um livro que, até onde me foi dado ler, tem raros adversários à altura na literatura brasileira dos últimos anos.</p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 0 x 3 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p>Jurado: <a href="http://antoniomarcospereira.wordpress.com/"><strong>Antonio Marcos Pereira</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">Há um momento em <em>Ratatouille</em> no qual o feroz crítico gastronômico Anton Ego expõe seu credo a respeito da crítica, suas funções, seus imperativos. É um credo como qualquer outro — é relativo, é idiossincrático, é matéria de debate e não determina leis imutáveis. Mas funciona bem para mim, e volta e meia reflito sobre os desafios implícitos em sua aparente simplicidade moral, e sobre o que ali me parece ser o elogio de uma potência da crítica à qual gostaria, como comentador de literatura, de fazer jus: refiro-me ao momento em que Ego, após dizer da relativa facilidade do trabalho do crítico enquanto aquele que fala contra, que impõe reparos, diz que <em>há momentos nos quais um crítico realmente arrisca algo, e isso ocorre na descoberta e na defesa do novo. O mundo é muito injusto com os novos talentos, as novas criações, e o novo precisa de amigos.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A minha grande tristeza nessa final da Copa 2008 é que me vejo mais uma vez impossibilitado de ser amigo do novo, de estar ao lado de uma produção que arrisca algo e, assim, de arriscar junto, de apostar em outras formas de fazer e ler literatura. Acreditando que uma construção como a literatura não está ainda dada, ou pronta, mas está se fazendo e transformando diante de nossos olhos e por nosso próprio empenho, sempre cobro de mim mesmo evitar ter um único fiel da balança, julgar de uma maneira muito unilateral os produtos que me aparecem e que solicitam meu juízo. Quero poder ouvir alguma vozinha miúda e ainda incerta sobre a tradição com a qual conversa, e quero aprender com o que essa voz pode ter a me dizer. Ano passado, um trabalho muito eloqüente, de grande potência — <em>O paraíso é bem bacana</em>, de André Sant&#8217;Anna — foi deixado de lado por uma resenha que julguei obnubilada e nostálgica. Resultado: levou o caneco um livro que me lembrou a seleção em tempos de Parreira: o <em>Música perdida</em>, do Assis Brasil. E dessa vez,  apesar de minha simpatia programática e apriorística com o que ele respresenta no certame, não tem jeito de favorecer o livro do Cuenca, <em>O dia Mastroianni</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Cuenca representa bem para mim &#8220;o novo&#8221;: é um cara jovem e não tem atrás de si uma carreira tão longeva, nem seu livro tem uma trajetória tão eivada de prêmios quanto a de <em>O filho eterno</em>. Queria que o livro do Cuenca fosse o precário e talvez precoce investimento na <em>salerosidad</em> às expensas da respeitabilidade, o advento de uma literatura neo-dada com caipirinha, a celebração do dandismo como opção ainda legítima, um dandismo de pobre, um dandismo carioca e nosso. Queria que a citação do Oswald na epígrafe indicasse que se seguiria uma máquina de comer cultura nas páginas vindouras, algo que pudesse dizer melhor, e em outra chave, menos marcada pela chatura do Oswald, que pegamos a cultura européia e o tédio do <em>flâneur</em> mastroiânico e fizemos disso outra coisa, um novo fruto sob o sol. Queria, enfim, muitas coisas desse livro, mas não pensem que queria demais, ou que já sabia o que queria: a cobrança maior, talvez a única cobrança, é que o livro me desse algo que não tenho ainda, que me mostrasse algo estranho a mim e, assim, cumprisse quem sabe uma das funções atribuíveis a esse negócio, que tem a ver com uma dimensão de aprendizado.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas que nada: o livro é mais do mesmo, e é só onanismo mesmo: Cuenca captura um bom tema, e encontra uma matriz interessante (Mastroianni, Fellini) para tratar dele. Mas seu autor assume muito pouco risco, circunavega o próprio umbigo, flerta com a ficção de si e resolve seu dilema criativo com algo (ai!) à guisa de metaficção. O pouco risco está em toda parte: nas marcas de bom gosto distribuídas pelo livro, no ethos bom moço traduzido nos desenhos, nas letras graúdas, na afetação inofensiva do discurso dos personagens, nas séries sincopadas de elementos díspares e nas referências oblíquas a elementos da cultura contemporânea dos antenados — tudo parece cortejar justamente aqueles que, supomos, seria o alvo da crítica operada pelo livro, essa geração ao mesmo tempo destituída e abundante à qual tenho a dúbia fortuna de pertencer.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O dia Mastroianni</em> falha, creio, justamente por isso: ao ser demasiado inofensivo, não consegue dizer nada, apesar de aparentemente desejar ser um livro sobre algo — algo como a impossibilidade de escrever hoje, o peso da tradição e da influência, a dificuldade de escrever o tédio com leveza e o delírio com ludicidade. Eu gostaria de ter lido um livro com esse temário, que talvez produziria uma resolução interessante para uma dicotomia que aparece nos tratamentos mais amplos da ficção brasileira contemporânea que julgo mais interessantes, a que toma uma estética da delicadeza como paralela a uma estética da transgressão — mas esse não é o livro que o Cuenca escreveu. É, todavia, o livro que creio que ele poderia ter escrito, e que acredito que ele escreverá — mas essa altura especulativa vai me aproximar demasiado de mãe Dinah, e é melhor abrir mão dela.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre o Tezza e seu livro já falei à farta <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-14">em minha resenha</a>; outros comentaristas fizeram o mesmo, e pelo visto ele vai somar mais este modesto prêmio imaterial à sua longa galeria de premiações. Mas reitero: ao escolhê-lo mais uma vez vencedor, lamento — e não porque seu livro seja privado de merecimento, como deve estar claro para quem leu meus comentários a respeito. Lamento porque, mais uma vez, mesmo querendo muito ser amigo do novo, não pude sê-lo.</p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 0 x 4 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Jurado: <strong>André Sant&#8217;Anna</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O filho eterno</em>, de Cristovão Tezza, é um livro sensacional! É a história de um jovem escritor, que podia ter escolhido uma profissão na vida, mas preferiu percorrer os árduos caminhos da arte, escrevendo livros, mesmo que, para isso, tivesse que ser sustentado pela esposa e, ainda por cima, tem um filho com síndrome de Down, passando pelos inúmeros conflitos que isso acarreta, como o sentimento de culpa inicial pela rejeição ao filho &#8220;defeituoso&#8221; até o amor que surge e, finalmente, pauta a relação de pai e filho daí por diante. É uma história sensacional, que tinha tudo para se tornar piegas, não fosse a categoria do escritor em ir além dos fatos propriamente ditos. O Tezza é um escritor sensacional, que domina a técnica, além de contar com grande criatividade e honestidade na hora de desenvolver sua visão de mundo. Eu, que gosto muito de futebol, me emocionei muito com o final do livro, com aquela perspectiva de não saber o que pode acontecer no segundo seguinte, nos gramados e na vida. Para que se tenha a certeza de que <em>O filho eterno</em> é um livro sensacional, basta ver as críticas publicadas nos principais jornais do país, os prêmios conquistados pelo Tezza este ano, além das resenhas sensacionais escritas pelos juizes desta Copa de Literatura Brasileira. Fora isso, o Tezza também é mais ou menos meu amigo. Fomos jurados juntos em um outro prêmio literário aí, vimos juntos um filme chinês aí, batemos uns papos legais num boteco aí etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu voto final vai para <em>O dia Mastroianni</em>, de João Paulo Cuenca, que é um livro sensacional, embora não se possa dizer que é mais sensacional do que <em>O filho eterno</em>, de Cristovão Tezza. Meu voto em <em>O dia Mastroianni</em> não é um voto de amizade. É um voto político contra a opinião formada, contra as resenhas plausíveis, contra o Vinicius Jatobá, a favor da aventura e da irresponsabilidade, essas porra.</p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 1 x 4 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://www.interney.net/blogs/lll/"><strong>Alex Castro</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">Confesso que não entendi muito bem <em>O dia Mastroianni</em>. Ou melhor, até entendi a proposta. Li as resenhas vitoriosas sobre o livro na Copa. Mas não entendi por que isso é bom. Ok, é um livro debochado, que brinca com a linguagem, etc. etc., mas e daí? No final, produziu-se boa literatura ou só uma boa piada interna, pra ser entendida pelo pequeno círculo de jovens autores contemporâneos? Veja bem: não é que eu leve a literatura a sério, deus me livre! O mais maravilhoso do romance é ser o único gênero literário que comporta sua antítese, sua paródia: uma tragédia nunca poderá ser anti-trágica, um épico não pode ser anti-épico, mas um romance pode ser um anti-romance, uma crítica de si mesmo. E, sim, entendo que foi isso que Cuenca quis fazer. E ficou até divertido. Mas e daí? Qual o conteúdo além disso? Era só a piada interna ou tinha mais? Se era só mesmo a piada interna, valeu a pena? Correndo o risco de ser repetitivo: sim, entendi a proposta do autor, sim, li tudo e acho que ele executou essa proposta muito bem, mas, ok, e daí? <em>O filho eterno</em>, por outro lado, e por tudo que falei em <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-12">minha resenha do jogo 12</a>, que não vou repetir aqui, é talvez o livro do ano. Cuenca demonstrou que tem talento mas ficou fazendo embaixadinhas pra arquibancada; Tezza partiu pro gol e fez um atrás do outro, verdadeira goleada. Sinceramente, não tem comparação.</p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 1 x 5 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Jurada: <a href="http://simonecampos.blogspot.com/"><strong>Simone Campos</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O dia Mastroianni</em> é realmente uma masturbação (assumidíssima), no sentido de que não é autobiografia, mas idealização. É a fantasia de uma malandragem que tudo perdoa com invólucro sociológico (o menino de rua, o mendigo) e fashion (a bebida certa, a roupa certa) numa cidade híbrida com muitas moças bonitas. O problema é que o ideal máximo do ego só costuma ser proveitoso para o ego. O autor preparou toda uma pré-defesa: o título, a definição do mesmo puxada da cartola no começo, a epígrafe sobre onanismo, os interlúdios com um ser superior que lhe desqualifica em maiúsculas — e o final. Mas escolher uma estrutura sob medida para justificar a ausência de fio narrativo não vai fazer (como não faz) o leitor se conectar ao livro. Mesmo lendo com tempo de sobra, topei com um palavrório derramado e um excesso de referências que me lembrou estudar química tarde da noite antes da prova: ruído, puro ruído. No final, <em>O dia Mastroianni</em> melhora um pouco, mas nessa altura do campeonato&#8230; É um problema parecido com o do livro do Backes que critiquei (<a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-11">jogo 11</a>). Reitero que a literatura nacional hoje tem muito autor dominador pra pouco leitor submisso.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O filho eterno</em> também é um produto do ego, mas ao contrário de <em>Mastroianni</em> o material não parece ter sido colhido em benefício apenas do autor. Longe de mim querer glorificar o sofrimento do escritor ou a tragédia em detrimento da comédia; é simplesmente que em <em>O filho eterno</em> há coesão e molejo narrativos. O leitor consegue acompanhar a história e goza também. Isso, quem escreve sabe, demanda sensibilidade, empenho e persistência. Meu voto fica com <em>O filho eterno</em>.</p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 1 x 6 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><em>O jurado do jogo 10, Vinicius Jatobá, decidiu não participar da Copa e, portanto, não votou nesta final.</em></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://odisseialiteraria.com/"><strong>Leandro Oliveira</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O dia Mastroianni</em>, embora seja um bom livro, é um livro que escolhe seu público — possivelmente aqueles que não acompanham o cenário literário nacional não perceberão uma série de ironias do texto e a motivação por trás de algumas cenas do enredo. Já <em>O filho eterno</em> é um livro que, além de não escolher seu leitor, seduz aqueles que não conhecem seu enredo ou o trabalho do autor, emocionando sem recorrer aos usuais artifícios de linguagem que fabricam falsos sentimentos que duram apenas uma página. O segredo do livro de Tezza é manter o equilíbrio, numa primeira parte mais distante, com um narrador mais cruel, e numa segunda mais próxima, com um narrador mais compassivo. O equilíbrio e a integração entre elementos da obra vão além ao ambientar a ação dos acontecimentos em um Brasil em transição, saindo de um longo período de ditadura e tendo diante de si problemas graves a serem solucionados, como a hiperinflação. <em>O filho eterno</em> é sem dúvida um dos grandes livros da literatura brasileira e por isso meu voto é dado a ele.</p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 1 x 7 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://gymnopedies.blogspot.com/"><strong>Jonas Lopes</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">João Paulo Cuenca sofre do mal que vem contaminando boa parte da produção dos jovens autores brasileiros: excesso de umbiguismo. Voltado para o próprio ego, desperdiçando a qualidade da prosa em favor de um humor frívolo (transgressão atrasada em quase um século), o autor não conseguiu fazer de <em>O dia Mastroianni</em> muito mais do que uma piadinha sem graça de final de noite. E o pior, tentando fazer de conta que ironiza as bobagens, os lugares-comuns. No diálogo entre o protagonista, Pedro Cassavas, e uma entidade misteriosa (sua consciência?), esta última brada: &#8220;Estamos cansados de narrativas que se curvam sobre si mesmas escritas por narradores autoconscientes em crise&#8221;. E, um pouco depois: &#8220;Essa literatura inútil e umbiguista não serve nem como vanguarda, &#8216;embora tenha todos os defeitos do vanguardismo&#8217;&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Acontece que conhecer as próprias limitações, embora seja um bom começo, não significa necessariamente que se conseguiu driblá-las — a ironia não possui tal poder reparador. Daí as piadinhas pobres, a trama banal e sem frescor, a forma datada de tratar o erotismo (como se fosse um escândalo e estivéssemos em 1936). O que Cuenca e alguns de seus companheiros de geração parecem não ter compreendido ainda é que é possível, sim, falar de juventude ou boemia sem soar adolescente. Fellini, evocado no romance desde o título, que o diga.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto a <em>O filho eterno</em>, repito as qualidades ressaltadas no <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-8">jogo 8</a> sem me estender muito para não cair na redundância. Além de ser o melhor trabalho de Cristovão Tezza até hoje — evolução natural de <em>O fotógrafo</em> e <em>Breve espaço entre cor e sombra</em> —, é também um dos principais romances brasileiros recentes. O escritor radicado em Curitiba deixou para trás a irregularidade e encontrou o ponto certo entre energia e reflexão, ajudado pelo manejo eficiente do discurso indireto na narração — a terceira pessoa se confunde com a primeira, aproximando e afastando o leitor, mascarando uma possível confissão e, ao mesmo tempo, tratando com distância apaixonada o protagonista, a ponto de muita gente achar que de fato se trata apenas de um livro sobre um filho com síndrome de Down&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Tezza, não sem razão, levou a maioria dos prêmios que disputou por <em>O filho eterno</em>. Seria um concorrente sério mesmo em uma lista com os melhores da década. Nada mais natural, portanto, que seja o merecedor do troféu da CLB. A se lamentar apenas não ter tido na final um adversário à altura, como o teriam sido, por exemplo, Bernardo Carvalho ou Marcelo Backes.</p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 1 x 8 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><em>Por incompetência do organizador, a jurada do jogo 7, <a href="http://www.insanus.org/carolbensimon">Carol Bensimon</a>, não recebeu os livros da final em tempo hábil para dar o seu voto.</em></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Jurado: <strong>Fabio Silvestre Cardoso</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Assim como um torneio de futebol, em que a trajetória nem sempre é triunfal e pode reservar surpresas, esta Copa Brasileira de Literatura alcança o jogo final com a disputa entre <em>O filho eterno</em>, de Cristovão Tezza, e <em>O dia Mastroianni</em>, de João Paulo Cuenca. Pode-se afirmar que o duelo marca o choque entre duas gerações de escritores, do mesmo modo que duas formas de escrita, duas vozes narrativas, dois estilos. Nesse sentido, Cristovão Tezza representa uma escola mais tradicional, filiada ao estilo mais clássico da construção das histórias. Começo, meio e fim. De sua parte, João Paulo Cuenca está alinhado a uma tendência mais contemporânea da narrativa, utilizando recursos não apenas da literatura, mas, sobretudo, do discurso das mídias, do cinema e da televisão que aparecem desde o título do livro (sobre isso, a propósito, comentarei mais adiante). Esse detalhe é importante para que se possa entender por que o livro de Tezza está muito à frente da obra de Cuenca. Para este árbitro-resenhista, trata-se de uma conta muito simples: enquanto Tezza se expressa com uma voz que se destaca pela qualidade provada pela experiência, Cuenca gera uma literatura que ainda carece de voz própria, algo escrita automática, muito dependente que é dos recursos utilizados ao longo do livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse aspecto, a virtude da obra de João Paulo Cuenca é dialogar com os leitores de seu tempo, tanto no que se refere ao tema (a saber, a errante saga de Pedro Cassavas e seus amigos cujo mote de vida é aproveitar a vida como se não houvesse amanhã) quanto no que tange ao estilo sobremaneira coloquial com o qual o narrador se direciona ao leitor. Há momentos de extrema qualidade, como quando um dos personagens ri de seus pares escritores, fazendo troça de certa intelectualidade e afins. O problema de <em>O dia Mastroianni</em> é o fato de que tais qualidades ora se perdem, ora são rapidamente substituídas por novas piadas rápidas, numa tentativa de não deixar o ritmo da história cair na mornidão. Por essa razão, o ritmo é frenético, o que compromete a digestão sadia do livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Já em <em>O filho eterno</em>, Cristovão Tezza também dialoga com os temas de seu tempo ao trazer para a ficção um caso, a um só tempo, de ordem privada e bastante polêmico. Em síntese: como um pai lida com um filho que tem síndrome de Down? Não, não se trata de um livro de auto-ajuda, tampouco de um estudo científico sobre o tema. O que se lê, em vez disso, é uma obra de rara profundidade e delicadeza. Profundidade porque o autor não fica no lugar-comum de apresentar de que maneira o personagem central aprendeu a conviver com suas condições especiais, para usar um jargão politicamente correto. Delicado, neste caso, porque sem cair no discurso das patrulhas, o autor é certeiro ao tratar de um drama desse tamanho com sutileza e agressividade nos momentos certos. Surpresa: o pai e a mãe não são vítimas perfeitas, posto que também têm dúvidas, emoções e tantos outros pensamentos imperfeitos acerca do filho, que, aos poucos, também conquista seu território no livro.</p>
<p style="text-align: justify;">À medida que se desenvolvem, <em>O filho eterno</em> e <em>O dia Mastroianni</em> ganham contornos definitivos acerca do caráter de seus respectivos protagonistas. No caso de Tezza, um homem assumidamente imperfeito, temendo o futuro imediato por não saber o que fazer, como deve reagir, o que pensar. Do lado de Cuenca, Pedro Cassavas se projeta como o homem ideal de seu tempo, despreocupado que está com o mundo à sua volta, só interessado no prazer mais imediato, e isso pode ser sexo, drogas e rock&#8217;n'roll. Por tudo isso, o drama construído por Tezza é mais sensível do que a jornada elaborada por João Paulo Cuenca. Não necessariamente devido ao tema ou à natureza da história, mas, especialmente, em virtude da maneira como o autor de <em>O filho eterno</em> molda desde os personagens centrais até a elegância com a qual ele conta uma história que poderia ser facilmente vilipendiada. Num torneio com autores de seu status, o livro de Cuenca poderia ser considerado vencedor. Nesse tipo de confronto, no entanto, não há surpresa em declarar a obra de Tezza como a detentora do triunfo desta Copa da Literatura Brasileira.</p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 1 x 9 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p>Jurado: <a href="http://maracanazzo.wordpress.com/"><strong>Felipe Charbel</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Comecei como poeta. Quase sempre acreditei, e continuo acreditando, que escrever prosa é de um mau gosto bestial. E digo isso a sério.&#8221; Lembrei-me dessa frase de Roberto Bolaño enquanto relia o primeiro capítulo de <em>O filho eterno</em>, especialmente a passagem em que o narrador evoca a perda do sentimento do sublime, que ainda jovem o afasta da poesia e o aproxima da prosa ficcional. &#8220;É preciso ter força e peito para chamar a si a linguagem do mundo, sem cair no ridículo&#8221;, diz o narrador. No livro de Tezza, a conquista da linguagem do mundo é tematizada pela mobilização de tópica recorrente no gênero romance de formação: a busca, lenta e muitas vezes indistinguível, do estilo como substância-mundo capaz de articular literariamente a experiência vivida.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>O filho eterno</em>, porém, não é o mergulho interior, o distanciamento subjetivo ou a busca de uma improvável originalidade romântica o que movimenta o narrador em sua evocação do passado, mas a tentativa de fazer aparecer, a contrapelo, a íntima relação entre modelagem de si e aprendizado da alteridade. Esta preocupação se revela na lenta aquisição, pelo protagonista, da consciência de que a conquista da linguagem do mundo só pode se dar por meio de atrito com o chão áspero, para empregar imagem imortalizada por Wittgenstein. É assim, ao rés do chão, que a construção nada naturalizada da especularidade entre pai e filho é abordada em <em>O filho eterno</em> — para o pai, um exercício constante de se colocar no lugar do filho e então voltar a si mesmo incorporando diferenças.</p>
<p style="text-align: justify;">A aspereza do contato com o chão se revela, também, na crueldade empregada pelo narrador na urdidura da imagem, predominante em boa parte do livro, de um humanista-bárbaro viajando ao fundo do ego. Trata-se de alguém que &#8220;ainda não sabia&#8221;, ou &#8220;não podia saber&#8221; — mantras recorrentes que margeiam um sentido quase agostiniano de conversão, a dissipação das sombras que encobrem a verdade. Curioso é que tal conversão, embora não se concentre exclusivamente num único momento, possui um claro &#8220;grau zero&#8221;: uma experiência <em>at the limits</em> do protagonista, a &#8220;maior vertigem de sua existência, a rigor a única que ele não teve tempo (e durante a vida inteira não terá) de domesticar numa representação literária&#8221;, a saber, o momento em que recebe a notícia de que o filho era portador de síndrome de Down. O sublime sai pela porta da frente e entra pela porta dos fundos, o que contribui, em meio a descrenças e ceticismos, para o delineamento de um &#8220;sentido de fim&#8221; levemente otimista, horizonte talvez inalcançável onde as coisas possam afinal fazer algum sentido.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O filho eterno</em> é não apenas o melhor livro brasileiro de 2007. Trata-se de um grande livro de ficção, desses que terei vontade de revisitar muitas vezes. Em todos os sentidos, ele é bem diferente de <em>O dia Mastroianni</em>. Uma conversão literária como a de Tezza, efetivo deslocamento &#8220;do mundo da mensagem para o mundo da percepção&#8221;, não possui lugar no universo ficcional de João Paulo Cuenca, concebido, como nota Sérgio Rodrigues <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-15">em sua resenha</a>, como &#8220;linguagem pura&#8221;. Um livro sem referente — o que não deixa de ser uma boa premissa.</p>
<p style="text-align: justify;">O principal problema de <em>O dia Mastroianni</em> é o excesso de excesso. Não basta o recurso ao meta-ficiconal; é preciso ser meta-meta-ficciconal e debochar da meta-ficção. Não basta a escatologia; é preciso ridicularizar os que argumentam contra a idéia de que nojeiras podem ser fins-em-si, descolados de qualquer critério de coerência ficcional. É muito importante, quase um imperativo categórico, ser moderninho, ou melhor, pós-moderninho.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O dia Mastroianni</em> tem (poucos) bons momentos: o título é ótimo; o verbete de abertura é inspiradíssimo, embora prometa o que o restante do livro se recusa a cumprir; a atmosfera de não-lugar é bastante original, e alguns diálogos entre Pedro Cassavas e Tomás Anselmo são repletos de agudezas. É fato que João Paulo Cuenca sabe escrever. Mas isso basta? No geral, tive a impressão de que o autor quer doutrinar pela negativa, como se dissesse &#8220;não nos resta nada, então vamos radicalizar e dar boas risadas&#8221;. Boas risadas, não as dei. O que se pretendia leve tornou-se um fardo insuportável. A afetação do livro é tanta que minou minhas sinceras tentativas de distanciamento crítico. O universo ficcional de <em>O dia Mastroianni</em> permaneceu completamente opaco. Com receio do que talvez viesse a encontrar, preferi deixá-lo quieto. Afinal, quem merece aquela voz em <em>caps lock</em>, bradando anti-verdades desconstruídas e espertinhas?</p>
<p><strong></strong></p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 1 x 10 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p>Jurado: <a href="http://drplausivel.blogspot.com/"><strong>Doutor Plausível</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">Meu voto vai pro livro do Cuenca. Não gostei de <em>O dia Mastroianni</em>. Gostei de <em>O filho eterno</em>. Portanto, preciso explicar meu voto.</p>
<p style="text-align: justify;">Julgo livros aqui pela regra A-002b de meu calvinball: pra mim, a trama dum livro na CLB deve ser inventada, ou pelo menos aparentar isso. Tou atrás de invenções do intelecto humano expressas em língua portuguesa. A participação de <em>O filho eterno</em> [OFE] na Copa se baseia não numa invenção mas num artifício, num recurso. Acho q apenas um leitor BEM desavisado leria esse livro como ficção; nas primeiras páginas, já fica óbvio tratar-se de um documentário. Aliás, um efeito curioso do livro é q ele todo tem o estilo de um documentário sem narrador, desses q acompanham um sujeito pra cima e pra baixo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em múltiplas passagens, Tezza impacta pela franqueza de suas fraquezas humanas. O autor usou interessantemente o recurso de falar do &#8216;eu&#8217; como um &#8216;ele&#8217; pra simultaneamente confessar e ausentar-se, mas a tentativa de apresentar OFE como romance não me convenceu: o livro nunca transcende além de sua concepção original — um depoimento sobre uma paternidade dolorida mesclado com cenas memorialistas, q pode  muito bem ter começado como artigo pruma revista. Não é um romance; é, talvez, uma inovação: um demeterpes — depoimento memorialista em terceira pessoa.</p>
<p style="text-align: justify;">É bem vindo um livro sobre mongolismo pelos olhos de um pai, ainda mais um q parece tão disposto a confessar o inconfessável. Mas muita coisa me irrita em OFE. Menciono algumas: a oscilação entre indicativo presente e pretérito na mesma cena; o <em>name-dropping</em> de grandes figurinhas carimbadas das artes, da literatura e da filosofia; os ganchos gratuitos entre a narrativa sobre o filho e as memórias do pai; a semelhança, em informação e tom, com a ampla literatura sobre mongolismo — desde manuais pra pais até fóruns na internet — em q são moeda corrente as angústias, as peculiaridades, o trabalho multiplicado, as revelações inesperadas (internas e externas), o desejo latente de alívio, o questionamento da própria normalidade, a lenta aceitação da pessoa do mongolóide junto com a descoberta de sua singularidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Adiciono a isso não outra irritação mas uma decepção — dada a expectativa — em ler uma prosa apenas mediana (embora admiravelmente regular) e circunscrita num raio de ação intelectual mais estreito do q eu esperava, com oportunidades perdidas e pouca profundidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Seu adversário <em>O dia Mastroianni</em> [ODM] sabe q é um livro onanista, um livro sobre o &#8220;personagem&#8221;, sobre o ilusionismo da literatura, sobre o próprio onanismo da própria literatura em q o próprio personagem escreve o q ele mesmo quer ler sobre si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Pausa pra bocejar.</p>
<p style="text-align: justify;">Cuenca sabe q não é pra ser levado a sério um livro em q, em cenas reminiscentes da filmografia italiana, um personagem da série <em>Super-Homem</em> — o vilão brincalhão Mister Mxyzptlk — toma as rédeas narrativas pra ensinar ao protagonista q o próprio livro em q estão não existiria sem ele, o protagonista. Um livro inteiro baseado numa idéia juvenil. É interessantíssimo vc se perguntar aos oito anos se o mundo continua existindo enquanto vc dorme; mas ¿um livro perguntar-se isso? Aliás, ¿um livro concluir com esse assunto? ¿E depois do <em>Show de Truman</em>, q partiu dessa pergunta? Outraliás, Mxyzptlk mostra a Pedro Cassavas q tudo q ele vê e descreve só existe pra ser visto e descrito por ele; compare isso com a percepção complexa e desenganada (ia dizer adulta) na qual Salman Rushdie baseou seu <em>The Midnight Children</em> — &#8220;<em>most of what matters in your life happens in your absence</em>&#8221; —, e a absurdez e irrelevância da ambição de ODM sobe à tona como gelo num martíni.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora seja difícil rir e bocejar ao mesmo tempo, há muito humor em ODM; há uma virtuosidade pro besteirol etílico, descambante prà chulice falocêntrica; há toda uma verve com as palavras — embora amiúde, e aparentemente sem intenção, soe como traduzês do inglês (logo na primeira página lê-se &#8220;Eu faço as perguntas aqui&#8221; e &#8220;Eu não posso ver nada&#8221;). Neste livro, Cuenca — cuja prosa evidencia um talento óbvio e palpável — é como uma criança q já entendeu por que os adultos lhe dão pincéis e tintas, mas ainda não sabe <em>conceber </em>uma obra de arte.</p>
<p style="text-align: justify;">ODM ganha meu voto por essa verve, o único indício de algo parecido com alguma coisa inventiva de algum valor entre os dois finalistas.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma pena q, pela estrutura dos jogos desta copa e por outras razões, ODM tenha passado às finais por uma zebra cavalar, resultando em q um romance maduro, multilegível e afiado como <em>Toda terça</em> tenha perdido a oportunidade de ser mais lido e comentado.</p>
<p><strong></strong></p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 2 x 10 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><em>Luciana Araujo, jurada do jogo 3, não pôde participar da final da Copa por motivos profissionais. </em></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Jurado: <strong><a href="http://eduardonasi.blogspot.com/">Eduardo Nasi</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Num ano demente desses, não dei pra Copa a bola que ela merecia. Pelo que sei, a culpa no atraso do apito final é minha e deste textinho mixuruca. Foi mal aí.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa maluquice toda, acabei largando <em>O dia Mastroianni</em> lá atrás para, passado um semestre, reencontrá-lo só aqui na final, diante de <em>O filho eterno</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Fato é que eu me apeguei ao mundo onírico que Cuenca criou. Gosto demais de lembrar de como a leitura foi uma curtição. Tenho vontade de dar o livro de presente de Natal para deixar pessoas felizes.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas jogo sem conjunção adversativa não tem graça. E <em>O filho eterno</em> é um baita &#8220;mas&#8221; nessa final, porque é um petardo. Daria pra falar da técnica, da trama, da consistência, do vigor, de como o livro é íntegro, verdadeiro e profundamente emocionante. Só que eu cheguei depois e estou com a impressão de que meus elogios seriam todos apenas redundantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, pra não atrasar mais o trabalho do Lucas, deixo só o meu econômico voto pro livro do Tezza.</p>
<p><strong><em>O dia Mastroianni</em> 2 x 11 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://urbanalenda.blogspot.com/"><strong>Nelson de Oliveira</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">Dois romances muito diferentes. Eu diria, incomparáveis. Isso me lembra um comentário de Adorno. Volto ao seu livro. Num dos aforismos das <em>Minima moralia</em> ele faz sérias objeções à nossa compulsão em comparar as obras literárias, principalmente &#8220;as do mais alto nível e por isso mesmo incomparáveis&#8221;. Nessa compulsão Adorno vê o instinto do comerciante, do burguês bem estabelecido que tenta medir tudo sempre com a mesma régua. Para esses a arte e a literatura não podem e não devem conter nada de irracional ou subjetivo, e a melhor maneira de neutralizar a irracionalidade e a subjetividade de certos romances é forçando-os a caber nos pratos da mesma balança.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse comentário de Adorno sempre me incomodou. Ele está certo: a compulsão à comparação, no mundo da arte e da literatura, é uma perversão de burgueses fetichistas. Espera lá, será que ele está mesmo certo? Não tenho tanta certeza. Afinal qualquer atividade crítica só é possível por meio da comparação das obras, dos programas poéticos, das idéias. Certo ou não, estamos nesta Copa pra comparar. Por esporte, por diversão, sem maiores pretensões.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O filho eterno</em> e <em>O dia Mastroianni</em>: dois romances muito diferentes. O narrador, a linguagem e as situações do primeiro não têm nada a ver com o narrador, a linguagem e as situações do segundo. <em>O filho eterno</em> pertence à linhagem realista de sondagem psicológica, de matriz biográfica. Sua ação é cronológica, e seu narrador esférico e <em>verdadeiro</em> é do tipo detalhista e moralista, ou seja, ele é cuidadoso com os pormenores narrativos e impiedoso ao analisar cartesianamente sua própria conduta e a de seus pares. A essa linhagem também pertencem <em>Crime e castigo</em>, <em>Dom Casmurro</em>, <em>Angústia</em> e <em>Doutor Fausto</em>, entre outros.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar do forte apelo sentimental e do desenlace edificante, em que a fé na humanidade permanece intacta, <em>O filho eterno</em> é um dos melhores romances realistas da década. O problema é que depois de ler todo o Flaubert, todo o Dostoievski, todo o Proust e a maior parte do Machado e do Thomas Mann, eu acabei pegando certa ojeriza a romances realistas de sondagem psicológica.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O dia Mastroianni</em>, ao contrário, pertence à linhagem não-realista de sondagem onírica, de matriz delirante. Sua ação é fragmentária, e seu narrador plano e artificial é do tipo irreverente e obsceno, ou seja, ele se deixa conduzir o tempo todo pelo nonsense, pelo anarquismo e pela libertinagem. A essa linhagem pertencem as <em>Memórias póstumas de Bras Cubas</em>, <em>Macunaíma</em>, <em>O jogo da amarelinha</em> e <em>Agora é que são elas</em>, entre outros. No momento essa é a linhagem romanesca que mais me interessa, pois aqui a norma culta e os sentimentos nobres são constantemente ridicularizados. E isso acaba atingindo também a própria instituição literária.</p>
<p style="text-align: justify;">Por que eu disse tudo isso? Apenas pra deixar claro que sempre que um romance realista de sondagem psicológica estiver competindo com um não-realista de sondagem onírica, meu voto será pra este último.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu voto vai para <em>O dia Mastroianni</em> não porque este seja um romance melhor do que <em>O filho eterno</em> (calma, meu caro Theo, eu sei que são incomparáveis), mas porque ele pertence ao gênero romanesco de minha predileção.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>O dia Mastroianni</em> 3 x 11 <em>O filho eterno</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/tezza.jpg" border="1" alt="O filho eterno" width="120" height="180" /><br />
<strong>O filho eterno</strong><br />
de Cristovão Tezza</p>
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</div>]]></content:encoded><description>Jurado: Lucas Murtinho
Como na primeira edição da CLB, um livro chega à final aos trancos e barrancos enquanto o outro surge como franco favorito, tendo vencido todos os seus jogos com autoridade de campeão. Mas ao contrário da Copa passada, em que os dois finalistas me pareceram mais ou menos equivalentes em qualidades [...]</description><wfw:commentRss xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/">http://copadeliteratura.com/2008/jogo-17/feed/</wfw:commentRss><slash:comments xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/">79</slash:comments><feedburner:origLink>http://copadeliteratura.com/2008/jogo-17/</feedburner:origLink></item><item><title>Repescagem</title><link>http://feedproxy.google.com/~r/clb/~3/X_5fqBGz28s/</link><category>2008</category><dc:creator xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/">Lucas Murtinho</dc:creator><pubDate>Mon, 01 Dec 2008 03:40:40 PST</pubDate><guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=372</guid><content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/tezza.jpg" border="1" alt="O filho eterno" width="120" height="180" /> <img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/10/jogo16.gif" alt="jogo 16" width="256" height="177" /> <img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/capucho.jpg" border="1" alt="Rato" width="120" height="180" /></p>
<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://www.laab.com.br/"><strong>Luiz Antonio de Assis Brasil</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">Prezados desportistas literários: em campo <em>Rato</em>, de Luís Capucho, e <em>O filho eterno</em>, de Cristovão Tezza. O tempo estará sujeito a chuvas e trovoadas. Soa o apito inicial.</p>
<p>***</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Rato</em>, de Luís Capucho, é uma narrativa que inicialmente privilegia o espaço, descrito sob o ponto de vista de um narrador-protagonista. Sem se nomear ao longo do relato, o rapaz começa por detalhar o entorno, para, em seguida, esmiuçar  &#8220;Cabeça-de-porco&#8221;, apelido do casarão, e cada um dos sobreviventes que o habita. Nesse sentido, a ilustração da capa funciona como convite ao leitor (extra e intratextual) para subir as escadas e entrar no recinto, a fim de percorrer as peças constituintes de &#8220;Cabeça-de-porco&#8221;: um a um, os moradores lhe serão apresentados. Ademais, a capa denota outra especificidade: o foco apontado para o canto inferior da entrada. Precisamente na página vinte e nove, o leitor dá-se conta do motivo pelo qual a visão narrativa é direcionada de baixo para cima: &#8220;Eu sou um rato. Saio da toca sobressaltado, rápido, para conseguir um pouco de comida, mas meu mundo mesmo é a toca.&#8221; É, pois, desse viés, sob uma perspectiva homoerótica, que narra o anfitrião. Vou chamá-lo assim, haja vista a posição de &#8220;superioridade&#8221; que ocupa como filho da responsável administrativa do casarão.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de entrar, ele chama atenção para a sensação de lilás, cor da atmosfera que envolve o ambiente, associada ao cheiro exalado pelos homens.  A seguir, o narrador abre o portão de ferro, apontando Peri, que mais adiante ele ressaltará: dei ao cachorro o nome do índio de José de Alencar. Já dentro da casa, descreve os quartos dos hóspedes, a sala, e a pequena peça onde ele e a mãe repartem um beliche, recebem amigos e cozinham.</p>
<p style="text-align: justify;">O anfitrião mostra o primeiro quarto, ocupado por Júlio, alcoólatra  de finais de semana; Gaúcho, marinheiro bonito; Carlos, marinheiro nordestino; Oliveira, bonachão expansivo; seu Verúcio, conserta-tudo. Para ele, os hóspedes são, primeiro, avaliados de acordo com o desejo sexual que lhe despertam. Assim, Gaúcho e Carlos, por seus portes físicos e sensualidade, ganham destaque em relação a Oliveira e seu Verúcio. No outro quarto, ficam Guilherme, moreno, alto, com bigodes; Valdir, extrovertido; Arthur, com seqüelas da poliomielite; Antônio, &#8220;baixinho, barrigudinho, sofre de ataques de epilepsia&#8221;; Amaral, &#8220;cara descomplicado&#8221;; Jofre, alcoólatra e Plínio, namorado do narrador. Desses, apenas Guilherme e Plínio excitam sexualmente o narrador. Os outros dois — Valdir e Arthur — contrapõem-se a ele e sua mãe, pois encabeçam a resistência ao pagamento do aluguel. Há ainda um quarto onde &#8220;moram dois caras estranhos&#8221;, e dois últimos aposentos em que residem Ernesto, sobre quem o narrador nada informa, e Nogueira, &#8220;velho de barriga enorme e redonda&#8221;. A descrição do alpendre e do quintal ocorre a seguir. Na profusão descritiva, a mãe do rapaz é revelada como &#8220;de uma bondade burra, irritante, mas a bondade sempre tem razão&#8221;. Além das personagens que habitam &#8220;Cabeça-de-porco&#8221;, o narrador relaciona-se com Ari e sua esposa.</p>
<p style="text-align: justify;">Apresentar os moradores se revela como pretexto para o anfitrião mostrar a si próprio e confessar suas preferências sexuais. Imerso no ato confessional, maneira encontrada para ele manifestar queixas, o anfitrião não desincumbe com eficiência a tarefa a que havia se proposto, já que esquece a existência do leitor, antes convidado a ouvir sua história. Dessa forma, contamina o leitor o tédio que o rapaz afirma sentir acerca de tudo e todos.</p>
<p style="text-align: justify;">O rato, digo, o narrador, não efetua trabalhos domésticos, nem os &#8220;considerados masculinos&#8221;, não gosta de jogo de futebol, pois é &#8220;relacionado ao universo masculino&#8221;. Entre o tédio e a vadiagem, o rapaz conta com o amparo financeiro da mãe, que ganha seu sustento lavando as roupas dos hóspedes, já que o dinheiro pago pelos aluguéis, ela repassa à proprietária do imóvel. Justamente aí se instaura o conflito da narrativa. Dona Creuza viaja a fim de visitar um parente hospitalizado; Valdir e Arthur se aproveitam de sua ausência para convencer os outros hóspedes a decretarem a suspensão definitiva do pagamento da locação. O narrador abrigara-se na casa de Ari e aguarda o retorno da mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, o imobilismo não é o principal traço do protagonista, pois, diariamente, o rato e Plínio percorrem a cidade em busca de um espaço afastado onde possam manter relações sexuais. O desejo, ou o sexo — sua concretização —, portanto, é a mola propulsora da ação. Por conseguinte, na inter-relação do rapaz com as outras personagens, evidencia-se o egocentrismo como sua característica fundamental. Eis o grande entrave da narrativa, visto que não há avanço, nem retrocesso: o narrador continua a esperar, &#8220;Cristo pode voltar com seu generoso pau sob fralda de nuvens: bondoso, belo, balsâmico&#8221;.  Assim, o rato sobrevive do furto do tempo.</p>
<p>***</p>
<p style="text-align: justify;">O rato também está presente em <em>O filho eterno</em>, de Cristovão Tezza. Talvez o pequeno mamífero metaforize uma das diferenças entre as duas narrativas, pois &#8220;na biblioteca que o mestre deixou na ilha [...] o pequeno rato foi avançando com a voracidade de um arqueólogo, lendo um livro atrás do outro&#8230;&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Anos depois, o nascimento de um filho portador de Síndrome de Down é responsável pelo desencadeamento de vários conflitos — internos e externos — na vida do rato, agora um pai desempregado, que acalenta o sonho de se tornar um escritor. Engana-se quem se deixa envolver pela aparente simplicidade do fio narrativo de <em>O filho eterno</em>.  A existência de fios paralelos, que garantirão o lastro necessário à tessitura narrativa, constitui o método maiêutico por meio do qual o passado vai desvelando o presente. Nesse processo, os livros, aqueles devorados pelo rato, farão a diferença.</p>
<p style="text-align: justify;">Tomado pelo pânico inicial, o desejo do pai é de se livrar do filho, cuja autonomia está para sempre comprometida. Ele ainda não sabe que a existência se faz por elos que ligam um rito de passagem a outro. Não me refiro ao eterno retorno de um destino inexorável, mas às inúmeras experiências materializadas ao longo da vida.  Logo, sem perceber, o pai que &#8220;sempre teve alguma ponta de dificuldade para lidar com o afeto&#8221; dedica-se ao menino. Paralelamente, entrega-se à escrita de livros, com futuro tão incerto quanto o do filho e o dele mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos dois anos e dois meses após o nascimento, Felipe ensaia os primeiros passos. &#8220;A linguagem, no entanto, se atrasa penosamente.&#8221; Consideradas as devidas proporções, o pai também trava um embate com a linguagem. Pela palavra impressa no papel intenta organizar o seu mundo. Para o menino, &#8220;o tempo será sempre um presente absoluto&#8221;. Enquanto cuida do filho, remexe no baú mnemônico e dali puxa as histórias vividas na adolescência e na juventude. O passado se transforma em presente, como também os espaços longínquos: Alemanha e os trabalhos clandestinos; Lisboa e a Revolução dos Cravos; Brasil, ditadura, os amigos daquele período com quem compartilhou sonhos.  O resgate do passado significa a procura de peças que precisam ser encaixadas no mapa dos afetos.</p>
<p style="text-align: justify;">Felipe, o pai descobre com o tempo, organiza seu universo pela afetividade. Então, é o afeto que o une às pessoas que o rodeiam, ao time de futebol, aos desenhos na televisão, aos jogos no computador, à pintura. Por sua vez, o menino demonstra amabilidade, mimetizando tanto a realidade circundante quanto os programas exibidos pelos meios de comunicação. Impedidas de desaparecerem, as dificuldades  se atenuam, pois &#8220;[...] a tentativa de acompanhar o menino exerceu também uma influência inversa, a do filho sobre ele, também um pai com permanente dificuldade para a vida adulta madura, seja isso o que for, ele pensa, sorrindo&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim simplificada, a narrativa <em>O filho eterno</em> perde parte do vigor, caracterizado pela linguagem contundente, que corta tal qual bisturi operando a autópsia da vida. Daí emergem as tramas paralelas cujos fios se entrelaçam à narrativa principal, dando-lhe consistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Todavia, mesmo em resumo tão exíguo, torna-se perceptível a semelhança e a diferença entre o narrador de <em>Rato</em> e o pai de <em>O filho eterno</em>. Se de início, ambos são egocêntricos, a necessidade de transformação do pai, bem como o modo catártico de que ela ocorre, diferenciam as narrativa analisadas, já que no final da história de Tezza, para pai e filho &#8220;[...] o jogo começa mais uma vez. Nenhum dos dois tem a mínima idéia de como vai acabar, e isso é muito bom.&#8221;</p>
<p>***</p>
<p style="text-align: justify;">Finda a breve análise das duas narrativas, vamos ao resultado do jogo, com candidatos manifestando grande disparidade entre si. A ausência de uma trama bem elaborada, de narrador e personagens que denotem complexidade psicológica, compromete, inevitavelmente, a performance de <em> Rato</em>, de Luís Capucho. Seu adversário, <em>O filho eterno</em>, é o vencedor, ao revelar uma história muito bem construída. Embora o título remeta ao filho, o pai é a personagem sobre quem recai o foco da história. A partir de sua visão, são expostas — sem subterfúgios — as contradições imanentes ao ser humano. A personagem não somente convence o leitor como o cativa. Assim, percorrer com o narrador (e com o pai) as sendas da narrativa, em um contínuo desvelamento das incoerências denotadas no exame da geografia dos afetos, é uma grande compensação estética e, principalmente, humana.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/tezza.jpg" border="1" alt="O filho eterno" width="120" height="180" /><br />
<strong>O filho eterno</strong><br />
de Cristovão Tezza</p>
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</div>]]></content:encoded><description>Jurado: Luiz Antonio de Assis Brasil
Prezados desportistas literários: em campo Rato, de Luís Capucho, e O filho eterno, de Cristovão Tezza. O tempo estará sujeito a chuvas e trovoadas. Soa o apito inicial.
***
Rato, de Luís Capucho, é uma narrativa que inicialmente privilegia o espaço, descrito sob o ponto de vista de um narrador-protagonista. [...]</description><wfw:commentRss xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/">http://copadeliteratura.com/2008/jogo-16/feed/</wfw:commentRss><slash:comments xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/">41</slash:comments><feedburner:origLink>http://copadeliteratura.com/2008/jogo-16/</feedburner:origLink></item><item><title>Repescagem</title><link>http://feedproxy.google.com/~r/clb/~3/PzIZFVAryi8/</link><category>2008</category><dc:creator xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/">Lucas Murtinho</dc:creator><pubDate>Mon, 24 Nov 2008 02:54:15 PST</pubDate><guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=361</guid><content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/cuenca.jpg" border="1" alt="O dia Mastroianni" width="120" height="180" /> <img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/10/jogo15.gif" alt="jogo 15" width="256" height="177" /> <img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/stacecilia.jpg" border="1" alt="Cão de cabelo" width="120" height="180" /></p>
<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://www.todoprosa.com.br/"><strong>Sérgio Rodrigues</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cão de cabelo</em> é o primeiro dos livros que voltam à Copa pela porta da repescagem, uma novidade no regulamento deste ano: dois concorrentes eliminados nas primeiras fases retornam pelo &#8220;voto popular&#8221; (nem tão popular, considerando a penetração menos que maciça desta brincadeira literária) para enfrentar semifinalistas que passaram pelas etapas convencionais. No caso do livro de Mauro Sta. Cecília, para desafiar <em>O dia Mastroianni</em>, de João Paulo Cuenca.</p>
<p style="text-align: justify;">A adoção da repescagem provocou alguma polêmica entre os jurados. Fui um dos que se opuseram a ela, argumentando que o universo de votantes é pequeno demais — e portanto manipulável demais por campanhas entre amigos — para permitir o sucesso da idéia que estava em sua origem: criar um mecanismo que pudesse corrigir eventuais injustiças e ainda adicionar à disputa uma certa vertigem na reta final.</p>
<p style="text-align: justify;">Voto vencido, passei imediatamente a torcer, como aficionado de primeira hora da Copa, pelo êxito da repescagem. Mas  perdi de novo. Cheio de boas intenções às quais falta realização literária, o romance de estréia de Sta. Cecília não é adversário para o segundo de Cuenca, e sua reentrada em campo chega a expô-lo desnecessariamente. Numa semifinal desprovida de graça, <em>O dia Mastroianni </em>é o primeiro livro classificado para decidir a CLB 2008.</p>
<p>* * *</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cão de cabelo</em> conta a história da ascensão e queda de Lelo Costa, jovem carioca nascido na favela e educado — de favor — em um bom colégio de classe média. Apresentado como um cara talentoso com as palavras, ele escreve a letra de uma canção romântica, <em>A chave do teu coração</em>, que se torna o maior sucesso do gênero em décadas. Ganha fama e dinheiro, mas não se livra de seu conflito de formação: pouco à vontade tanto no morro quanto no asfalto, caminha inevitavelmente para um fim trágico.</p>
<p style="text-align: justify;">O argumento, embora batido, poderia render uma boa história. Não se pode acusá-lo de artificial ou fútil: pelo menos em tese, os conflitos do protagonista fazem sentido humano e ainda espelham feridas sociais que são autênticas e, no caso do Rio de Janeiro, ostensivas. Eis as boas intenções. O sentimento básico que move o texto também é promissor: a raiva, aquilo que Susan Sontag apontou como um dos dois motores da ficção — o outro seria o medo.</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente, tudo isso se esvai numa história descosturada em que personagens esquemáticos ou mal definidos vagam por cenas soltas como se fossem movidos por seus papéis sociais, não por apetites de gente. Quando chega, sem que a baixa tensão narrativa tenha preparado o terreno, o clímax violento consegue ser ao mesmo tempo previsível e postiço. Muita coisa não funciona em <em>Cão de cabelo</em>, mas acredito que na base de tudo esteja um problema de linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Lelo Costa é um narrador do tipo conspícuo. Comenta, generaliza, anuncia os próximos movimentos, dirige-se vez por outra ao leitor e cultiva o hábito de colar na maioria das cenas umas legendas vagamente sociológicas ou psicanalíticas. O recurso, que contribui para achatar os demais personagens e desperdiçar o potencial de ação da trama, poderia funcionar se o festejado letrista tivesse algo menos banal a dizer. Mas Lelo passa longe de justificar a fama de habilidoso com as palavras:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nossa cidade tem uma característica fantástica que a distingue das outras. Estou falando dessa proximidade, ou promiscuidade, sei lá, entre favela e casa de bacana num cenário pra nenhum milionário gringo botar defeito. Sou produto exatamente dessa pororoca. Cresci no morro e freqüentei colégio de classe média alta. Conheci um lado e outro.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Voz em que Sta. Cecília pendura todo o peso do livro, o narrador de <em>Cão de cabelo</em> nada de braçada — e, como não há sombra de distanciamento irônico, com ele o autor — num mar de lugares-comuns, platitudes e palavrões de botequim, incapaz de um pensamento que fuja do trivial dos jornais populares:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tânia, a neguinha quente do samba no pé, era irmã do traficante mor da área. O tal do Jacaré. Mesmo assim tivemos um caso. Um caso discreto, é verdade, mas rolou. Comi ela gostoso umas quatro, cinco vezes. A primeira vez foi a melhor. Foi naquela noite mesmo, no escurinho da viela 2. Ela me pagou um boquete e depois enfiei a jeba ali mesmo, de pé. Gostosa, putinha, com seu bocão e cara de safada. Adorei gozar em sua boca.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É deliberada, claro, a adoção de um estilo &#8220;sujo&#8221;, &#8220;urbano&#8221;, &#8220;visceral&#8221;, &#8220;antiliterário&#8221; ou qualquer outro desses adjetivos que uma abordagem indulgente poderia conceder ao livro. Resta lamentar a tentativa de jogar a &#8220;fala das ruas&#8221; na página sem um trabalho mínimo de estilização em que se pudesse vislumbrar a assimilação do legado de João Antônio, Antônio Fraga ou Rubem Fonseca — para citar apenas três sujeitos que, cada um a seu modo, encontraram saídas para essa difícil sinuca.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao transformar, por contraste, <em>Cidade de Deus</em> na obra de um virtuose da prosa, <em>Cão de cabelo</em> acaba sendo um compêndio de defeitos de um certo naturalismo <em>naïf </em>que já despachou tantas boas intenções para aquela região que dizem ser cheia delas.</p>
<p>* * *</p>
<p style="text-align: justify;">De naturalista — ou, a propósito, de ingênuo — o livro de João Paulo Cuenca não tem nada. Se alguma luz o romance de Mauro Sta. Cecília ajuda a lançar sobre a novela do adversário, é esta: <em>O dia Mastroianni</em> pode ser lido como um <em>Cão de cabelo</em> em negativo, seu antípoda perfeito. Um é condenado pela linguagem, num acidente de percurso que faz capotar o projeto sensato e para todos os efeitos louvável de contar uma história &#8220;relevante&#8221;; o outro debocha tanto das histórias quanto de sua relevância, e tem um ponto de partida tão extravagante e leve, quase uma bobagem, que seria uma completa perda de tempo se não fosse salvo pela linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que salvo pela linguagem, <em>O dia Mastroianni</em> é linguagem pura, um belo exercício de estilo erguido sobre o vazio que o século XXI abriu sob os pés dos escritores, essas figuras anacrônicas e vagamente ridículas. Ou pelo menos sob os pés de uma nova geração de artistas sem obra, só pose e joguinhos de palavras, com seu cinismo de butique e seu tédio <em>prêt-à-porter</em>. Uma geração que, além de ser a do próprio Cuenca, é a de Pedro Cassavas, narrador de cinco sextos do livro e protagonista de sua totalidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O dia Mastroianni</em> acompanha as perambulações etílico-filosófico-sexuais de Cassavas e seu amigo Tomás Anselmo, dois <em>flâneurs</em> muito jovens e muito bem vestidos, por uma metrópole de sonho. Em sua riqueza de detalhes arquitetônicos e urbanísticos, o cenário chega a lembrar uma das &#8220;cidades invisíveis&#8221; de Italo Calvino:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">No salão envidraçado, vemos os distantes canais arroxeados cortando o casario medieval e os sobrados afundados feito caracóis na areia, as pontes ligando quarteirões e pequenas ilhas, o centro financeiro e seus arranha-céus, as gruas sobre esqueletos metálicos, as cúpulas ásperas das catedrais, os grandes teatros <em>art déco</em> e, por trás de tudo, depois das colinas do bairro histórico, o deserto e seus desfiladeiros.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Da manhã à noite, nada muito importante acontece — e se acontecesse não faria diferença, porque nenhum dos dois dândis acredita na realidade. A tarefa de manter o leitor interessado fica a cargo da prosa, que se desincumbe da tarefa assobiando. Para isso desfila recursos como enumeração surrealista, citações pop mais ou menos veladas, adjetivação surpreendente e, coisa cada vez mais rara nas letras nacionais, um apurado senso de humor:</p>
<blockquote><p>Saímos na hora da oração, quando todos se ajoelham em direção a Madureira. O <em>maître</em> nos alcança, nos cobra e nos conta uma fábula.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os capítulos são entremeados de curtos blocos de diálogo em que Cassavas é interpelado por uma voz rude que soa como um superego anabolizado e grita com ele em maiúsculas para criticar a história que está sendo contada. Só no capítulo final, quando a tal voz assume o comando, fica claro que presenciamos uma conversa entre autor e personagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Se esse resumo acende algumas luzes de alerta — esteticismo, futilidade, metalinguagem e niilismo de almanaque —, parabéns, você é um leitor perspicaz. Mas é preciso levar em conta que tudo isso está nos planos de Cuenca. Esperto, seu livrinho encena, sublinha, justifica, tira sarro e finalmente rebate as críticas de irrelevância que lhe possam ser endereçadas. A resposta é algo como: não, a literatura não serve mesmo para nada, mas o que mais poderia criar uma inutilidade tão prazerosa quanto esta?</p>
<p style="text-align: justify;">
<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/cuenca.jpg" border="1" alt="O dia Mastroianni" width="120" height="180" /><br />
<strong>O dia Mastroianni</strong><br />
de João Paulo Cuenca</p>
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</div>]]></content:encoded><description>Jurado: Sérgio Rodrigues
Cão de cabelo é o primeiro dos livros que voltam à Copa pela porta da repescagem, uma novidade no regulamento deste ano: dois concorrentes eliminados nas primeiras fases retornam pelo &amp;#8220;voto popular&amp;#8221; (nem tão popular, considerando a penetração menos que maciça desta brincadeira literária) para enfrentar semifinalistas que passaram pelas etapas [...]</description><wfw:commentRss xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/">http://copadeliteratura.com/2008/jogo-15/feed/</wfw:commentRss><slash:comments xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/">68</slash:comments><feedburner:origLink>http://copadeliteratura.com/2008/jogo-15/</feedburner:origLink></item><item><title>Resultado da repescagem</title><link>http://feedproxy.google.com/~r/clb/~3/gscuLqyGLoA/</link><category>2008</category><dc:creator xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/">Lucas Murtinho</dc:creator><pubDate>Sat, 22 Nov 2008 03:59:40 PST</pubDate><guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=356</guid><content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os frequentadores do site da Copa hão de se lembrar da enquete feita para escolher dois concorrentes que teriam uma segunda chance de chegar às finais do torneio. Apurados os votos, vão para a repescagem <em>Rato</em>, de Luís Capucho — que enfrentará <em>O filho eterno</em>, de Cristovão Tezza, em jogo apitado por Luiz Antonio de Assis Brasil — e <em>Cão de cabelo</em>, de Mauro Sta. Cecília — que enfrentará <em>O dia Mastroianni</em>, de João Paulo Cuenca, em jogo apitado por Sérgio Rodrigues.</p>
<p>Lucas Murtinho</p>
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<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://antoniomarcospereira.wordpress.com/"><strong>Antonio Marcos Pereira</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">Em torno de qualquer objeto literário que encontramos há uma rede de crenças, desejos, opiniões e quejandos que distribui diferencialmente nossa atenção, colocando no centro do palco aquilo que nos confirma, confinando à marginalidade aquilo que nos antagoniza e — salvo casos de rematada má-fé — fazendo o melhor possível para lidar com o objeto anômalo, que põe em xeque justamente nossas crenças e desejos mais ordinários, nossa costumeira fisionomia moral, nossas certezas professadas em mesa de bar, conversas domésticas, textos jornalísticos e acadêmicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é um fato menor, que constitui a experiência de qualquer leitor que reflita sobre o que faz enquanto lê. Mas em nosso caso — comentadores, críticos e produtores de literatura, em diversos momentos da carreira e graus de profissionalização — a importância desse fato cresce, e a reflexão sobre a relação entre expectativas e experiências de leitura é quase um <em>sine qua non</em> da atividade. Somos participantes de um jogo cujas regras são variáveis e no qual a própria idéia de vencedor é matéria de discussão. O que é, claro, bom — é no debate e na conversa que o que quer que seja literatura pode se transformar, avançar, progredir.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos, portanto, conversar a respeito de <em>Na multidão</em>, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, e de <em>O filho eterno</em>, de Cristovão Tezza. Seria possível que alguém conectado à produção de literatura no Brasil hoje ignorasse um desses títulos? Duvido: ambos procedem de nomes-marca, autores de carreira longeva e, malgrado as diferenças salientes entre os projetos de cada um, inequivocamente nomes que hoje provocam acolhimento crítico imediato. Ambos são títulos publicados por grandes casas editoriais, e não creio que qualquer editoria de grande veículo de mídia tenha deixado passar esses dois lançamentos sem resenhá-los. Li, ao sabor das circunstâncias e com diversos graus de atenção e respeito ao comentador, várias dessas resenhas, que variavam do tom moderadamente admoestador ao francamente encomiástico.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso tudo, ambos chegam a essa altura nesta Copa por já terem passado por embates anteriores, deixando seus adversários para trás. <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-5">Na resenha de Felipe Charbel</a>, <em>Na multidão</em> bateu o livro de Ruy Castro, o sofrível e oportunista <em>Era no tempo do rei</em>. Charbel registra, creio que com acerto, que o livro de Garcia-Roza é um caso em que &#8220;o projeto acaba sendo mais atraente que sua realização&#8221;. Tendo a concordar com essa afirmação: a epígrafe de Walter Benjamin, que explica o título e insinua uma conexão entre a indiferenciação do indivíduo na grande metrópole e a forja do gênero policial, não pode ser trivializada. Na verdade, em minha leitura é isso que dá mais valor ao livro: um certo regime proto-ensaístico, que Charbel menciona ao falar em &#8220;divagações quase conceituais sobre a natureza da memória, da multidão e do individualismo contemporâneo&#8221;. Embora às vezes peque por didatismo (mas há que pensar na audiência do livro, há que pensar num modelo ideal para os fãs do delegado Espinosa), isso confere certa graça especulativa a um formato que creio cansado, e que tende a me interessar mais ao se aproximar do bizarro, do surreal, do estilo <em>mondo</em> — algo que, creio, já está em Poe. Aqui nada há de bizarro: há um protagonista cansado, envelhecendo. Há um Rio de Janeiro com as marcas da velhice e do cansaço também. Como apontado por Simone Campos, <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-11">na resenha</a> em que deu a vitória a <em>Na multidão</em> contra <em>maisquememória</em>, de Marcelo Backes, há também as personagens femininas pouco desenvolvidas, as tramas paralelas que se insinuam mas não conseguem respirar o suficiente, os personagens acessórios e, enfim, há esses diálogos entre detetives cariocas nos quais, francamente, não consigo acreditar, que não consigo ler sem acusar (mediocremente, sei) o autor de ser inverossímil, fato que se repete em uma cena de sexo que parece ter sido escrita para-minha-mãe-não-enrubescer. Há, portanto, uma matriz cansada: esse livro tematiza isso, concedendo o que pode ao formulaico no gênero e tentando articular, pela chave memorialística, algo afinado talvez com a epígrafe para convergir na afirmação conclusiva de fim, na remissão de Espinosa a um momento apropriado para, tendo sobrevivido até aqui, &#8220;sair de cena&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é muito inteligente executar uma colagem entre fala do personagem e voz do autor, mas aqui creio que se trata de uma burrice tentadora. Os sinais de cansaço espalhados pelo livro, o regime de evocação memorialística de uma velha Copacabana, de um Bairro Peixoto que, como a Urca, simboliza uma ilha de sossego em meio ao caos da metrópole — não consigo deixar de pensar em Garcia-Roza desejando se livrar, enfim, deste personagem. Penso em Garcia-Roza passeando por Copacabana, evocando sua infância, refletindo sobre seu sucesso literário com o delegado Espinosa e, quem sabe, pensando que já é hora de dizer adeus. Se era esse o empenho, o livro é um sucesso, pois ao lê-lo pensei que, sem dúvida, já é mesmo hora de Espinosa sair de cena. Se era outro o empenho, o livro falha. Para mim, falhou como entretenimento, ao me retornar vezes sem conta à minha obrigação de comentador, ao ser incapaz de me retirar de um horizonte de ordinariedade e cobrança, ao ser incapaz de me oferecer algo de novo, estimulante, estremecedor (e sei que aqui manobro em uma exigência quase infantil: a de que a narrativa &#8220;me prenda&#8221;, e de que o trabalho de ficção é melhor na medida em que executa essa captura de maneira inequívoca — trata-se, obviamente, de matéria debatível, expressão de minha própria &#8220;ética supersticiosa&#8221; como leitor, mas quem não tem uma que atire a primeira pedra). E falhou também como reflexão sobre o gênero policial, o que talvez fosse uma ambição de seu autor (ou ambição forjada por mim, ao constatar a pompa e o vulto das epígrafes), ou sobre as relações entre memória, história, experiência e narrativa. O arremate de Charbel à sua resenha parece perfeito, e o roubarei para arrematar esse comentário: pareceria mesmo o caso de o livro ter perdido &#8220;para si mesmo&#8221;, não fosse seu adversário tão qualificado.</p>
<p style="text-align: justify;">E agora me aproximo de <em>O filho eterno</em>, de Cristóvão Tezza que a essa altura do campeonato geral dos livros no país já vai cheio de louros, láureas, prêmios a granel. Trata-se de autor que nunca me interessou em particular, e ao qual dediquei atenção medíocre até agora — que me lembre, já me queixei várias vezes, entre amigos, a respeito da atuação de Tezza como comentador de literatura. Assim, não poderia fazer aqui uma análise como a de Jonas Lopes, que <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-8">em sua resenha</a> confere perspectiva e particularidade a <em>O filho eterno </em>contrastando-o com produções anteriores de Tezza e a partir disso afirmando que este &#8220;é seu melhor livro&#8221;, é seu produto &#8220;mais equilibrado&#8221;, aquele no qual &#8220;pela primeira vez emoção e técnica aparecem em doses iguais&#8221;. Eu estaria disposto a discutir esse ideal de simetria e equilíbrio como esteio de um juízo de qualidade, mas isso nos levaria em outras direções. Cabe valorizar aqui o que Lopes produz ao enfatizar algo que percebi de maneira semelhante: &#8220;O risco era enorme: o resultado do livro poderia ser um relato piegas do filho que fez o pai deixar as trevas e ver o quanto a vida é bela&#8221;. Assim como Alex Castro — que <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-12">resenhou </a>o embate entre <em>O filho eterno</em> e <em>Rakushisha</em>, de Adriana Lisboa — eu &#8220;[p]revia um romance demagogo e apelativo, cheio de momentos ‘chora agora&#8217;: aquelas longas cenas em que você sente que o autor está preparando o terreno e minando sua resistência, até culminar em uma frase de efeito absolutamente brega mas que ainda assim, para seu imenso ódio, te faz chorar&#8221;. Lembro mais: lembro de pensar que não seria possível fazer melhor que Oe — que tematizou situação semelhante em vários escritos; lembro de pensar também, com vileza, que Tezza havia aprendido a arte de copiar sem dar o devido valor à fonte com Teixeira Coelho, cujo vaidoso e derivativo <em>História natural da ditadura</em> Tezza havia elogiado copiosamente. Teixeira Coelho predou Sebald, agora estaria Tezza sugando em tema e forma Oe? Ademais, boa literatura raramente se faz com boas intenções, e o tema de Tezza parecia tão ajustável a um regime de boas intenções que tomei a catadupa de prêmios que foi conferida ao livro como comprovação efetiva de sua provável mediocridade. Com tanto aplauso, só podia ser ruim.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não para por aí. Além de minha antipatia imediata pelo título, assim que recebi o livro deparei-me com uma epígrafe de Thomas Bernhard que me pareceu escusatória e piegas, aliciadora de uma jogatina com o &#8220;autobiográfico&#8221; como equivalente ao &#8220;verdadeiro&#8221;, e outra de Kierkegaard a respeito das relações entre pai e filho que só reforçava minha crença de que eu avançava célere para um encontro com a breguice.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário de Alex Castro — que diz em sua resenha que não conhece ninguém com síndrome de Down e que por isso o assunto não lhe interessa (!) — não me aproximei do livro com nenhum <em>parti pris</em> antagônico ao tema: creio que boa literatura se faz com qualquer conteúdo, pouco importa o que é tematizado, importa é o <em>como</em>. Já havia lido Oe e admirado muito o que ele faz em zona semelhante; guardadas as devidas proporções há Steinbeck e Faulkner lidando com tema afim: &#8220;Vamos ver&#8221;, pensava eu. E vi uma narrativa excelente, com uma voz oscilante em perspectiva — e lugar temporal, e horizonte moral — que me deixou magnetizado do início ao fim. O livro, apesar de toda minha má vontade, funciona, e muito bem: rompeu meu antagonismo inicial, conquistou plenamente minha atenção, me deslocou e — perdoem minha breguice <em>à la</em> Afrânio Coutinho — me elevou. Que os prêmios abundem e que Tezza seja feliz, pois mandou muito bem.</p>
<p style="text-align: justify;">O resumo apresentado por Lopes é eficaz e preciso, e a conexão sugerida com a voz do ciclo autobiográfico de Coetzee é muito produtiva — há uma efetiva semelhança na natureza do exame de si, nas características do projeto dos dois. Mas creio que em Tezza a volta adicional do parafuso é fazer a biografia de um em relação ao outro: os protagonistas do livro, pai e filho, constituem-se reciprocamente, e a biografia é, portanto, dupla. Com tudo de dubitativo, titubeante e falho que o pai aparenta ter, é sempre o filho que está ali, como presença e perspectiva que confere sentido aos gestos e feitos do pai. Dizer que pai e filho constituem-se reciprocamente é uma trivialidade; fazer ficção com tal matéria, e conduzir com tal afinco essa moralidade hesitante, de foco variável, não. Fala-se aqui de crescer nos anos 60, tornar-se adulto entre os 70 e os 80, ser o que se pode ser hoje; fala-se de agruras por grana e respeitabilidade, de auto-imagens que são sempre produtos especulares, de sonhos e desejos erráticos, mutáveis, infirmes. Como romance de formação que é, o livro tem um endereçamento moral mas, do mesmo jeito que as narrativas biográficas de Coetzee, não há uma &#8220;lição&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de ser um livro que explora muitos erros, juízos equivocados, problemas comezinhos, aflições miúdas aos olhos de estranhos e imensas pra quem as vive, uma mesma voltagem percorre a trama de cabo a rabo: um acolhimento do problemático como matéria da existência, uma recusa à resolução fácil do conflito na ópera ficcional pela via da ironia, perfazendo um trabalho no qual nenhum <em>deus ex machina</em> é conclamado, nem há qualquer grande epifania final. E é sem nenhuma grande epifania que, creio, deve ser apropriado concluir essa resenha: na mesma chave com que o livro de Tezza chega ao seu final, que é — na medida em que representa a conclusão bem-sucedida de um projeto literário — indubitavelmente feliz.</p>
<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/tezza.jpg" border="1" alt="O filho eterno" width="120" height="180" /><br />
<strong>O filho eterno</strong><br />
de Cristovão Tezza</p>
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</div>]]></content:encoded><description>Jurado: Antonio Marcos Pereira
Em torno de qualquer objeto literário que encontramos há uma rede de crenças, desejos, opiniões e quejandos que distribui diferencialmente nossa atenção, colocando no centro do palco aquilo que nos confirma, confinando à marginalidade aquilo que nos antagoniza e — salvo casos de rematada má-fé — fazendo o melhor possível [...]</description><wfw:commentRss xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/">http://copadeliteratura.com/2008/jogo-14/feed/</wfw:commentRss><slash:comments xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/">73</slash:comments><feedburner:origLink>http://copadeliteratura.com/2008/jogo-14/</feedburner:origLink></item><item><title>Semifinais</title><link>http://feedproxy.google.com/~r/clb/~3/eKxyiZQgM5Q/</link><category>2008</category><dc:creator xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/">Lucas Murtinho</dc:creator><pubDate>Mon, 10 Nov 2008 03:07:06 PST</pubDate><guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=313</guid><content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/cuenca.jpg" border="1" alt="O dia Mastroianni" width="120" height="180" /> <img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/10/jogo13.gif" alt="jogo 13" width="256" height="177" /> <img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/saavedra.jpg" border="1" alt="Toda terça" width="120" height="180" /></p>
<p style="text-align: justify;">Jurado: <strong>André Sant&#8217;Anna</strong><a href="http://www.interney.net/blogs/lll/"><strong><br />
</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Toda terça</em>, de Carola Saavedra, e <em>O dia Mastroianni</em>, de João Paulo Cuenca, são livros excelentes. <em>Toda terça </em>só poderia ter sido escrito por Carola Saavedra e <em>O dia Mastroianni</em> só poderia ter sido escrito por João Paulo Cuenca e isso é que é bom. Aliás, boa literatura é isso: quando um autor diz aquilo que só poderia ser dito por ele mesmo, quando um autor revela seu mundo interno e externo para nós, leitores, quando um autor mostra pra gente que existe um mundo para cada pessoa. E o melhor de ler literatura é justamente visitar mundos diferentes do nosso.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou de acordo com Jean-Luc Godard, quando afirma, em <em>JLG por JLG</em>, que a cultura é inimiga da arte, que a arte é uma expressão única, individual (claro, pode haver também criações coletivas e tal, mas estou falando de outra coisa), e que, ao ser observada/usufruída/apreciada, deve, necessariamente, causar o impacto do nunca visto. Por sua vez, a cultura, que hoje serve ao mercado e ao culto da celebridade, segue a trilha do reconhecível, das ditaduras formais: &#8220;um bom livro não pode ser longo demais para não cansar o leitor&#8221;, &#8220;as frases tem que ser curtas&#8221;, &#8220;o que interessa é contar uma boa história&#8221;, &#8220;os autores devem se comunicar com o público leitor&#8221; e demais idiotices culturais.</p>
<p style="text-align: justify;">Carola Saavedra, em <em>Toda terça</em>, não só nos apresenta seu mundo individual e único, como também o descreve com uma linguagem individual e única, usando a pontuação como elemento literário e não como regra a ser cumprida. O livro trata do encontro, na Alemanha, de pessoas com várias nacionalidades, especialmente de latino-americanos e alemães. Carola vive na Alemanha, conhece aquele mundo e tem, nitidamente, as preocupações de seus personagens. Há um enredo, uma construção, no livro. Mas isso é o de menos. O que faz <em>Toda terça</em> ser um livro tão bom é que Carola, do jeito único dela, faz a gente entrar naquele universo, ficar pensando naquelas propostas filosóficas, sexuais, propostas de encontros multiculturais e acaba entrando em um outro universo. Ou seja, é entretenimento artístico da mais alta qualidade, pra gente, que vive reclamando do entretenimento cultural de baixa qualidade da televisão, do cinema comercial, do Paulo Coelho etc.</p>
<p style="text-align: justify;">O João Paulo Cuenca, em <em>O dia Mastroianni</em>, da mesma forma. Quer dizer, de forma diferente. <em>O dia Mastroianni</em> é um livro menos profundo do que <em>Toda terça</em>. É um livro vazio. É um livro porra-louca. É um livro que não quer dizer nada. Uns caras, na Europa, saem pelo mundo encontrando gente estranha, fazendo porra-louquices, bebendo, trepando, de vez em quando aparece uma consciência do João Paulo Cuenca reclamando do livro numa espécie de metalinguagem porra-louca. É a vida sendo vivida, é arte sendo escrita. O que mais gosto em <em>O dia Mastroianni</em> é que o João Paulo Cuenca escreve improvisado. Tenho a impressão de que ele não ficou lá, todo angustiado, tentando escrever o troço mais espetacular da face da Terra. O João Paulo Cuenca foi, foi escrevendo e pronto. E a minha leitura do livro dele foi assim também. Eu abria o livro no ônibus e ia lendo, eu abria o livro na espera do médico e ia lendo, antes de dormir, eu ia lendo o livro do João Paulo Cuenca e pronto. Foi bom pra mim.</p>
<p>É isso a minha resenha? É isso: achei <em>Toda terça</em> e <em>O dia Mastroianni</em> livros do caralho!</p>
<p style="text-align: justify;">O que não é do caralho é o jeito que os resenhistas, críticos, essas porra, escrevem no jornal; essa falta de generosidade; esse troço tacanho de ficar julgando a arte alheia segundo os próprios critérios culturais. É impressionante a quantidade de resenhas elogiosas que gastam a maior parte de seu espaço apontando os defeitos dos livros, como se elogiar demais alguma coisa fosse sinal de puxassaquismo, ou fazeção de média, ou falta da tal cultura. São uns mesquinhos mesmo esses filhos da puta. Viva a literatura do caralho!</p>
<p style="text-align: justify;">Mas alguém tem que ganhar o jogo, né? Então, vai o João Paulo Cuenca. Por quê? <em>O dia Mastroianni </em>é melhor do que <em>Toda terça</em>? Não, não é. É que eu estive com o João Paulo Cuenca, no começo do ano, num evento literário lá em Portugal, e a gente deu umas voltas por Povoa do Varzim e por Lisboa e batemos uns papos e ficamos amigos e tal. A Carola deve ser gente boa também, mas eu não a conheço pessoalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">É só isso tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas alguém pode insistir e dizer que estou fazendo isso para ficar bem com todo mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, eu estou fazendo isso para ficar bem com todo mundo. Eu acho muito bom ficar bem com todo mundo.</p>
<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/cuenca.jpg" border="1" alt="O dia Mastroianni" width="120" height="180" /><br />
<strong>O dia Mastroianni</strong><br />
de João Paulo Cuenca</p>
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</div>]]></content:encoded><description>Jurado: André Sant&amp;#8217;Anna

Toda terça, de Carola Saavedra, e O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, são livros excelentes. Toda terça só poderia ter sido escrito por Carola Saavedra e O dia Mastroianni só poderia ter sido escrito por João Paulo Cuenca e isso é que é bom. Aliás, boa literatura é isso: quando [...]</description><wfw:commentRss xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/">http://copadeliteratura.com/2008/jogo-13/feed/</wfw:commentRss><slash:comments xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/">249</slash:comments><feedburner:origLink>http://copadeliteratura.com/2008/jogo-13/</feedburner:origLink></item><item><title>Quartas de final</title><link>http://feedproxy.google.com/~r/clb/~3/WUsp3gpQ7o8/</link><category>2008</category><dc:creator xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/">Lucas Murtinho</dc:creator><pubDate>Mon, 03 Nov 2008 07:17:23 PST</pubDate><guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=308</guid><content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/lisboa.jpg" border="1" alt="Rakushisha" width="120" height="180" /> <img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/10/jogo12.gif" alt="jogo 12" width="256" height="177" /> <img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/tezza.jpg" border="1" alt="O filho eterno" width="120" height="180" /></p>
<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://www.interney.net/blogs/lll/"><strong>Alex Castro<br />
</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">Para a Copa de Literatura, fui escalado para ler <em>O filho eterno</em>, de Cristovão Tezza, e <em>Rakushisha,</em> de Adriana Lisboa. Dois autores que eu nunca tinha lido escrevendo sobre assuntos que não me interessavam: síndrome de Down e Japão. Pensei: vejamos se um deles consegue me interessar.</p>
<p>***</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Rakushisha</em> foi escrito com o auxílio de uma bolsa Fellowship, da Fundação Japão, que permitiu à autora viajar a este país. A trama é simples: Haruki, desenhista nissei sem vínculos afetivos ou linguísticos com a terra de seus ancestrais, encarregado de ilustrar a tradução brasileira do diário do poeta Basho, é enviado ao Japão para se inspirar. No metrô do Rio, conhece uma moça, Celina, que lhe pergunta sobre o livro japonês que está carregando. Num impulso, Haruki a convida para ir ao Japão com ele e ela, num impulso, aceita — torrando assim todas as suas economias. Tantos impulsos parecem excessivos e o leitor mais safadinho pode imaginar que estamos prestes a entrar em &#8220;nove semanas e meia de amor no Japão&#8221;, mas a autora cedo deixa claro que a relação entre os personagens é puramente platônica. Chegando lá, Haruki e Celina logo se separam, e ele some um pouco da trama, que se centra nas andanças da moça em Kyoto, intercalada com trechos dos diários e poesias de Basho.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir daí, nada mais acontece, o que não é problemático por si só. Meu romance preferido é <em>Água viva</em>, de Clarice Lispector, e quero ver alguém descrever sua &#8220;trama&#8221;. Mas, em geral, nos romances em que nada acontece, as personagens embarcam em poderosas viagens internas que lhes causam toda sorte de revelações até que, ao final, literalmente não são mais as mesmas. Não é o caso em <em>Rakushisha</em>: Celina, por exemplo, não muda, não conclui nada. A progressão de sua narrativa é uma revelação de fatos do seu passado para o leitor, mas não uma revelação para si mesma. À medida que Celina andava por Kyoto, nós, os leitores, fomos conhecendo mais sobre seu passado mas ela mesma não mudou, não cresceu, não descobriu nada sobre si mesma. Para Celina, o livro começa como termina.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe certa indecisão entre surpresa e não-surpresa que, a meu ver, esvazia o livro de tensão. No começo das reminiscências de Celina, somos apresentandos a Marco e Alice: fica imediatamente claro que são a filha e ex-marido de Celina, e que ambos não estão mais em sua vida; como não existe ex-filha, a hipótese mais provável é a menina ter morrido ou, no mínimo, estar sob a tutela exclusiva do pai em algum local distante. À medida que o romance progride, Celina continua pensando em Marco e Alice, mas sempre em termos vagos e algo misteriosos. No finalzinho do livro, vem a revelação completamente anticlimática: Alice tinha morrido num acidente de carro  em que Marco era o motorista!</p>
<p style="text-align: justify;">Confesso que fiquei perdido quanto às intenções da autora. Já me parecia tão óbvio que a menina estava morta que isso ser oferecido como grande revelação surpreendente me soou quase como que um menosprezo à percepção do leitor. Das duas uma: se a autora quisesse que a morte de Alice fosse a grande revelação do final do romance, deveria ter dado menos pistas. Por outro lado, se não era para ser surpresa, o melhor provavelmente teria sido deixar as pistas e eliminar a grande revelação bombástica: os leitores perceptivos preencheriam as lacunas e concluiriam que a menina estava morta. Como está, o final tem gosto de decepção: &#8220;era isso o grande mistério? Mas isso eu já sabia desde o meio do livro!&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">A narrativa é intercalada com poesia e trechos do diário de Basho. Reli o livro especificamente para encontrar pontes ou conexões entre as citações e a trama do romance, e não consegui: elas me pareceram tão aleatórias quanto à primeira leitura, aumentando assim a impressão amorfa do romance.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, algumas lições de moral me pareceram um pouco dispensáveis e bastante óbvias até, dignas de um livro de auto-ajuda mas não de um romance. Já na terceira página, quase que dando tom ao livro, podemos ler:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa é a verdade da viagem. Eu não sabia.</p>
<p style="text-align: justify;">A viagem nos ensina algumas coisas. Que a vida é o caminho e não o ponto fixo no espaço. Que somos feito a passagem dos dias e dos meses e dos anos, como escreveu o poeta japonês Mitsuo Basho num diário de viagem, e aquilo que possuímos de fato, nosso único bem, é a capacidade de locomoção. É o talento para viajar.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nada poderia ser mais brochante do que esse parágrafo. Além de ser claramente uma tentativa do autor de impor ao leitor a moral da história, é <em>brega</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das minhas regras de revisão é: quando encontrar um trecho particularmente bom, corte-o: os trechos que os autores mais gostam em geral são os piores, os que mais destoam do resto do trabalho. Mas tudo bem, eu penso: todo mundo sempre acaba esquecendo um ou outro. Vai ver esse foi o da Adriana.</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente, não foi descuido de revisão. No último parágrafo da última página, literalmente fechando o livro, o trecho acima está reproduzido de novo. Ou seja, houve dolo. Única coisa grosseira em um texto tão sutil, a dispensável mensagem foi novamente martelada na cabeça do leitor, para garantir que ninguém saia do livro sem saber que a &#8220;verdade da viagem&#8221; é que o nosso &#8220;único bem&#8221; é o &#8220;talento para viajar&#8221;. Ok, entendi.</p>
<p>***</p>
<p style="text-align: justify;">A princípio, confesso, <em>O filho eterno</em>, de Cristovão Tezza, não me apeteceu. Não conheço ninguém com síndrome de Down e o assunto não me interessa. Previa um romance demagogo e apelativo, cheio de momentos &#8220;chora agora&#8221;: aquelas longas cenas em que você sente que o autor está preparando o terreno e minando sua resistência, até culminar em uma frase de efeito absolutamente brega mas que ainda assim, para seu imenso ódio, te faz chorar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao final de <em>O filho eterno</em>, realmente, sentado sob o sol na varanda de um Starbuck&#8217;s de Nova Orleans, eu estava às lágrimas: não por causa de uma cena específica construída pra me fazer vazar, mas por estar na presença de um dos poucos romances realmente grandiosos escritos no Brasil nos últimos anos. E fiquei grato à Copa de Literatura, pois sem ela eu jamais teria tido essa experiência.</p>
<p style="text-align: justify;">Não darei muitos detalhes sobre <em>O filho eterno</em>. É daqueles livros gigantescos e gigantescos que, tomando qualquer tema como mote, seja a caça a uma baleia branca ou a destruição de um arraial no interior da Bahia, rapidamente alçam vôo e abarcam o bem, o mal, a condição humana, a inteligência, a autoria, a paternidade, a masculinidade e tudo o mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Um trecho preferido: um dia, o menino se perde. Ao lado do desespero de pai buscando pelo filho, o narrador tem um drama adicional linguístico: depois de anos sistematicamente negando a condição do filho e somente se referindo a ela por eufemismos e tergiversações, ele precisa finalmente&#8230; descrevê-lo! Não vai mais poder se enganar ou negar a verdade: se não descrever o filho com precisão, ele jamais será encontrado. Mas como articular o que ele mesmo ainda não aceita completamente?</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Teria de achar a palavra certa para explicar, as pessoas não sabem — talvez dizer &#8220;você viu meu filho? Ele é um menino com problema&#8221;, ou &#8220;ele é meio bobo&#8221;; ou &#8220;ele é deficiente mental&#8221;, e tudo aquilo não corresponde nem ao filho nem ao que ele quer dizer para definir o seu filho; ele é uma criança carinhosa mas meio tontinho, talvez assim ficasse melhor; não pode dizer &#8220;mongolóide&#8221;, que dói, nem &#8220;síndrome de Down&#8221;.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Freud disse uma vez, sobre Nietszche, que nenhum outro homem tinha tamanho auto-conhecimento. Pensei bastante nisso enquanto lia <em>O filho eterno</em>. Nunca vi nenhum autor (nenhuma pessoa, na verdade) se expor tanto. Jamais, em nenhuma autobiografia, o narrador se mostrou tanto em suas fraquezas, em suas vacilações, em seus pequenos pensamentos mesquinhos. Somente sob o fino véu da ficção isso seria possível.</p>
<p>***</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O filho eterno</em>, de goleada. Provavelmente vai ganhar a Copa. Feliz do Brasil se produzisse dois livros do nível desse no mesmo ano<em></em>.</p>
<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/tezza.jpg" border="1" alt="O filho eterno" width="120" height="180" /><br />
<strong>O filho eterno</strong><br />
de Cristovão Tezza</p>
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</div>]]></content:encoded><description>Jurado: Alex Castro

Para a Copa de Literatura, fui escalado para ler O filho eterno, de Cristovão Tezza, e Rakushisha, de Adriana Lisboa. Dois autores que eu nunca tinha lido escrevendo sobre assuntos que não me interessavam: síndrome de Down e Japão. Pensei: vejamos se um deles consegue me interessar.
***
Rakushisha foi escrito com o [...]</description><wfw:commentRss xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/">http://copadeliteratura.com/2008/jogo-12/feed/</wfw:commentRss><slash:comments xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/">71</slash:comments><feedburner:origLink>http://copadeliteratura.com/2008/jogo-12/</feedburner:origLink></item><item><title>Quartas de final</title><link>http://feedproxy.google.com/~r/clb/~3/zY_RepXTtqI/</link><category>2008</category><dc:creator xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/">Lucas Murtinho</dc:creator><pubDate>Tue, 28 Oct 2008 05:26:38 PDT</pubDate><guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=301</guid><content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/garciaroza.jpg" border="1" alt="Na multidão" width="120" height="180" /> <img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/10/jogo11.gif" alt="jogo 11" /> <img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/backes.jpg" border="1" alt="maisquememória" width="120" height="180" /></p>
<p style="text-align: justify;">Jurada: <a href="http://simonecampos.blogspot.com/"><strong>Simone Campos<br />
</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Na multidão</em> não é um livro excepcional. É apenas agradável. Mas aqui e ali dá para perceber indícios do porquê de Luiz Alfredo Garcia-Roza ser cultuado. Os ingredientes são claros: um detetive carismático, um mistério, cenas de ação e de sexo, aqui e ali uma cena prosaica para manter o ritmo, ou uma reflexão nem profunda demais, nem adolescente demais, e que escapa da auto-ajuda por ser aplicável à situação muito particular de Espinosa, ou de outro personagem, naquele momento. Algumas dá vontade de guardar e reler. Isso ajuda na conexão entre leitor e personagem.</p>
<p style="text-align: justify;">É um livro centrado em dois personagens, Espinosa e Hugo Breno, com trocas freqüentes de ponto de vista. Espinosa conta com a vantagem de uma apresentação a longo prazo, uma caracterização proveniente de livros anteriores, mas que não deixa (nem poderia deixar) de ser reforçada neste. Hugo Breno soa um tanto robótico em suas rotinas, já que é caracterizado de dentro para fora. O mundo visto por ele se parece com uma gigantesca engrenagem, o que pode ser cansativo para quem não compartilha de suas manias. É meio forçado o desenvolvimento de Vânia, amiga e possível amante de Irene, a namorada de Espinosa. Vânia não se resolve, parece estar ali só para apimentar a história e encher lingüiça. Poderia servir como uma espécie de contraponto a Hugo Breno, mas não passa de uma Mulher MacGuffin, distraindo o leitor enquanto o autor prepara novas surpresas nos bastidores.</p>
<p style="text-align: justify;">De início, Garcia-Roza lança mão de um narrador onisciente não-confiável, uma espécie de deus mentiroso, para só depois passar a restringir esta consciência às de Espinosa, Hugo Breno e outros. É notável como o diálogo reproduzido logo no primeiro capítulo entre o caixa e a aposentada será reconstituído depois — por outro narrador não-confiável! —, &#8220;descobrindo-se&#8221; que as coisas realmente ditas foram bem diferentes das relatadas ao leitor no começo. A memória engana, e para reproduzir este fato, Garcia-Roza manipula a memória fraca de Espinosa, só permitindo que seu esforço mental alcance determinados detalhes de sua infância quando isso se encaixa no momento narrativo que pretende criar. Este recurso implica em sentimentos ambíguos: talvez por deformação profissional, identifiquei logo de primeira o que o autor pretendia e senti mecanicidade no personagem. Leitores menos imersos no ofício talvez não sintam este travo.</p>
<p style="text-align: justify;">Há também um número considerável de tramas auxiliares e nuances mais profundas que não são completamente elucidadas — algumas para o mal, outras para o bem. Dou um exemplo de cada. O leitor fica sem saber qual era a de Vânia, vendo-a apenas pelas lentes de Espinosa; é uma ponta solta que poderia ter sido melhor costurada com a ajuda da personagem Irene. Talvez, por algum motivo, o autor tenha evitado entrar na pele das personagens femininas mais jovens. Já o fato de um personagem importante das lembranças de Espinosa não ter sua identidade revelada deixa uma porta aberta — o próprio detetive pode ser esse personagem — e enriquece a história.</p>
<p style="text-align: justify;">O final me soou abrupto e, ao mesmo tempo, adequado, com seu gracejo metalingüístico. Mas há sempre uma necessidade de se respirar depois do pico de ação de uma narrativa policial, e em <em>Na multidão </em>esse respiro foi um tanto curto — embora seja, até onde sei, uma inovação, por puxar o tapete do leitor, trair suas expectativas. A ambigüidade permeia este livro, coalhado de mecanismos que tanto podem ser julgados excelentes como péssimos, às vezes ambos ao mesmo tempo. Metalingüisticamente me ocorre que, tal como as dúbias <em>femmes fatales</em> do romance policial clássico, este possa ser um l<em>ivre fatal</em>. Quizás, quizás, quizás&#8230; Na opinião desta juíza um romance razoavelmente legível e envolvente. O que não é o caso do seu concorrente.</p>
<p style="text-align: justify;">Marcelo Backes escolheu um determinado recurso para narrar seu livro <em> maisquememória</em>, talvez procurando torná-lo mais palatável, talvez querendo acrescentar um ingrediente mais (afro-)brasileiro à tradição do diário de viagem. Há um cavalo, que seria o eu lírico do autor, e o seu cavaleiro, espécie de caboclo irreverente que narra a maior parte do romance. Esse recurso é subutilizado: os dois concordam demais. Digladiam-se pelo palco, mas têm as mesmas idéias de fundo (como um certo antiamericanismo). A própria entidade assume que já discordaram mais anteriormente, durante a adolescência missioneira do cavalo; no tempo da viagem pela Europa, a cumplicidade é quase total.</p>
<p style="text-align: justify;">O cavaleiro gosta de se embebedar, de comer mulheres bonitas, de praticar pequenos atos de transgressão, de cavoucar semelhanças entre sua trajetória e as de personagens de vulto, além de esbravejar contra desafetos pessoais (sob apelidos facilmente reconhecíveis). O cavalo pratica intromissões mais acadêmicas. Acaba-se por conhecer melhor o cavaleiro, que, enquanto ente sobrenatural, não sofre muitos percalços ou dúvidas existenciais. Lembrou-me o &#8220;Poema em linha reta&#8221; de Álvaro de Campos: &#8220;Toda a gente que eu conheço e que fala comigo / Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, / Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida&#8230;&#8221;. Em sua boca, até a menção às raízes interioranas do cavalo tem um tom triunfalista. Só no final há um revés dos grandes (para ambos os narradores), mas já é tarde para conquistar nossa empatia. Se o objetivo era forjar um anti-herói, falhou. Colocando em termos cinematográficos, o cavaleiro pretende ser Ferris Bueller, mas soa como Jabba the Hutt.</p>
<p style="text-align: justify;">Os trechos mais aproveitáveis são aqueles em que se sai do umbigo do(s) eu(s) lírico(s). São interessantes as interações com japonês, egípcio, sueca e alemães, cada um com sua idiossincrasia no ambiente sanitizado europeu, até por serem dos poucos a nublar o céu de brigadeiro do narrador. Porém, isso é uma fatia finíssima do livro. A maioria esmagadora das páginas se dedica a elucubrações internas em primeira pessoa, colóquios entre cavaleiro e cavalo, e pequenas intromissões expositivas deste último — didáticas a dar com pau, algo que já me incomodou no <em>Um defeito de cor</em>, <a href="http://copadeliteratura.com/2007/jogo13">ano passado</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">O diário de uma viagem como essa, sem objetivo, de exploração indolente, pedia uma mão muito mais firme — senão a do autor, pelo menos a do editor. Não é que falte personalização na seleção dos dados de cada cidade. Ela falta, isso sim, no estilo com que estes são narrados (especialmente considerando o narrador entidade dionisíaca). Um dos poucos acertos foi aportuguesar os nomes das cidades que não têm nomes em português corrente. Às vezes o texto lembra um livro de História; às vezes, uma enciclopédia; ou ainda, um guia turístico. Sinta:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">E que tal a Ilha dos Museus, com seus cinco importantes museus? Absolutamente imperdível. Bem mais que o imperdível e emblemático Portão de Brandemburgo, construído por Carl Gotthard Langhans segundo o modelo dos propileus da Acrópolis em Atenas, entre 1788 e 1791. Mas a história do célebre portão não pára por aí. Gottfried Schadow coroou-o com a Quadriga — com o coche e Eirene, a deusa da Paz — em 1793. Napoleão surripiou a deusa, coche e cavalos em 1806, levando-os para Paris. O marechal Blücher devolveu na mesma moeda em 1814, ao invadir Paris, e Karl Friedrich Schinkel transformou a dama cobiçada, com uma cruz de ferro na coroa de carvalho, na deusa da Vitória pouco mais tarde. A Alemanha Oriental fez tirar a cruz de ferro acusando nela um símbolo do militarismo alemão e, na restauração de 1991 — como se para provar a anexação de vez —, a cruz de ferro voltou para onde estava desde a derrota de Napoleão. No portão, a história da Europa&#8230;</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Quando o escritor procura despejar toda a sua erudição ou pesquisa no texto, não só entedia quem já conhece as histórias como não impressiona quem ainda não as conhece. O leitor fica alijado do <em>grand tour Europe</em> de Backes.</p>
<p style="text-align: justify;">Era essa mesmo a intenção, a julgar pela página 226, em que o narrador lamenta &#8220;não ser único no mundo&#8221; quando seu cavalo descobre, numa roda de amigos, que um deles também conhecia a cidadezinha obscura que mencionara. Aí tive a confirmação do que se insinuava desde as primeiras páginas: <em>maisquememória</em> é uma egotrip assumida, na qual o único papel que nos caberia seria o de baixar a cabeça e acatá-la — daí os vocativos, como ignorante leitor e inculto leitor, com que o narrador nos adorna. Mas nem todos os leitores têm prazer nessa auto-anulação. Talvez a literatura brasileira atual tenha muito autor dominador para pouco leitor submisso.</p>
<p style="text-align: justify;">Torcer contra o protagonista é uma coisa; não querer saber mais da vida dele é outra, bem diferente. Senti um desejo quase incontornável de largar o livro logo no prelúdio (do próprio autor) que, página a página, foi se convertendo num desejo de atirá-lo longe — o que fiz efetivamente umas duas vezes, viva o livro objeto físico. Só pelo compromisso com a Copa e com a ética é que venci as 400 páginas de <em>maisquememória</em>, tão contrariada quanto uma Leia acorrentada.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode parecer injusto que um livro de ação como <em>Na multidão</em> concorra com um livro de inação como <em>maisquememória</em>. Mas me ocorreu que livros de inação precisam provocar comprometimento emocional no leitor, conquistá-lo, e este não o faz. É mais fácil escrever um livro de inação do que um de ação, mas é incomparavelmente mais difícil escrever um bom livro de inação. É por isso que tantos tentam e tantos fracassam.</p>
<p style="text-align: justify;">Concorreram aqui dois autores cultos, mas um deles se preocupa menos em deixar isto patente para o leitor. Talvez ambos conheçam as técnicas para prender a atenção do leitor, mas apenas um se preocupou em utilizá-las. Um deles enreda o leitor com seus ardis, mas nunca o entedia ou irrita, mantendo-o sempre por perto; o outro decepciona desde o primeiro momento e só depois de resmas de decepção é que entrega um pouco do ouro. Por tudo isso, a vitória é de <em>Na multidão</em>.</p>
<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/garciaroza.jpg" border="1" alt="Na multidão" width="120" height="180" /><br />
<strong>Na multidão</strong><br />
de Luiz Alfredo Garcia-Roza</p>
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</div>]]></content:encoded><description>Jurada: Simone Campos

Na multidão não é um livro excepcional. É apenas agradável. Mas aqui e ali dá para perceber indícios do porquê de Luiz Alfredo Garcia-Roza ser cultuado. Os ingredientes são claros: um detetive carismático, um mistério, cenas de ação e de sexo, aqui e ali uma cena prosaica para manter o ritmo, [...]</description><wfw:commentRss xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/">http://copadeliteratura.com/2008/jogo-11/feed/</wfw:commentRss><slash:comments xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/">54</slash:comments><feedburner:origLink>http://copadeliteratura.com/2008/jogo-11/</feedburner:origLink></item><item><title>Quartas de final</title><link>http://feedproxy.google.com/~r/clb/~3/RbFlQwTMT0M/</link><category>2008</category><dc:creator xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/">Lucas Murtinho</dc:creator><pubDate>Thu, 23 Oct 2008 05:04:28 PDT</pubDate><guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=285</guid><content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/capucho.jpg" border="1" alt="Rato" width="120" height="180" /> <img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/10/jogo10.gif" alt="jogo 10" /> <img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/saavedra.jpg" border="1" alt="Toda terça" width="120" height="180" /></p>
<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://outrababel.blogspot.com/"><strong><span style="text-decoration: line-through;">Vinicius Jatobá</span></strong></a><strong> Lucas Murtinho<br />
</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O crítico literário Vinicius Jatobá, que havia concordado em apitar o jogo 10 desta segunda edição da Copa de Literatura Brasileira, decidiu se retirar do torneio após haver anunciado o vencedor do seu jogo mas antes de escrever a resenha do mesmo. Jatobá explicou num email que se retirava porque alguns jurados estariam decidindo seus jogos por motivos políticos e não estéticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Jatobá não é o primeiro jurado a desistir de participar da Copa. Rodrigo Gurgel foi substituído por Nelson de Oliveira no apito do primeiro jogo desta segunda edição; na primeira edição, Paulo Polzonoff e Francisco José Viegas foram substituídos por Simone Campos e Luiz Biajoni. Mas Jatobá é o primeiro a desistir após ter anunciado a decisão do jogo, o que criou um problema logístico: quando ele me informou da sua desistência, o resultado já havia sido informado ao árbitro da semifinal, e reverter o processo seria trabalhoso e demorado. Além disso, o motivo alegado por Jatobá merece ser discutido aqui, por mim, pelos jurados e pelos leitores. Por isso, decidi manter a decisão de Jatobá — <em>Toda terça</em> passa para as semifinais — e convidar os leitores da Copa a usar a caixa de comentários deste jogo para conversar sobre os dois livros que deveriam ter sido analisados por ele na sua resenha. Antes, porém, algumas considerações sobre a situação.</p>
<p style="text-align: justify;">O mais curioso sobre a atitude de Jatobá é que ele não lera nenhuma das resenhas que foram e serão publicadas nesta Copa antes de decidir que os critérios usados por alguns jurados eram políticos e não estéticos: sua conclusão foi baseada exclusivamente nos resultados dos jogos e não nos argumentos apresentados pelos juízes. Ou seja, de acordo com Jatobá os critérios estéticos poderiam levar a apenas um resultado, e quando este resultado não se verificou a única explicação possível era que alguns jurados estavam usando outros critérios.</p>
<p style="text-align: justify;">A idéia de que critérios estéticos são objetivos me parece profundamente errada, mas respeito os que a advogam. Só que não é difícil entender que a Copa é um prêmio literário baseado justamente na negação dessa idéia: é por isso que diversos jurados lêem e falam de um mesmo livro, para podermos ver e discutir como diferentes valores estéticos podem levar a diferentes apreciações de uma obra. E se Vinicius Jatobá pensa que critérios estéticos são objetivos é difícil entender não por que ele saiu da Copa e sim por que ele aceitou participar dela.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso, do meu ponto de vista confessadamente parcial, torna Jatobá culpado de falta de reflexão no momento de decidir participar da Copa e de falta de generosidade no momento de julgar as decisões dos outros jurados. Mas há outra acusação que pode ser feita contra Jatobá, mais grave do que as duas primeiras segundo os seus próprios padrões. Nos bastidores da Copa, pessoalmente e por telefone, Jatobá se mostrou muito insatisfeito com o fato de <em>O dia Mastroianni</em>, de João Paulo Cuenca, estar avançando na competição. E a leitura dos comentários a <a href="http://colunistas.ig.com.br/sergiorodrigues/2006/11/09/a-polmica-da-vez/">esse texto de Sérgio Rodrigues</a>, publicado no blog Todoprosa, mostra que Jatobá e Cuenca tiveram rusgas no passado. O que me leva a pensar que ao acusar &#8220;outros jurados&#8221; de decidir seus jogos por razões &#8220;políticas&#8221; Jatobá talvez estivesse apenas tentando mascarar suas próprias motivações não estéticas.</p>
<p>***</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de entender a tentação das intrigas de bastidores e de acreditar que a análise dos livros será eclipsada pela discussão sobre a decisão de Jatobá, gostaria de dar o pontapé inicial na conversa que deveria ser a protagonista da Copa, sobre os romances que competem nela.</p>
<p style="text-align: justify;">Concordo com a decisão do ex-jurado. Embora <em>Toda terça</em> não tenha me encantado como ao Doutor Plausível, <a href="http://copadeliteratura.com/2008/jogo-4">sua resenha</a> me fez pensar que talvez eu não tenha lido o livro com a atenção que ele merecia; e mesmo entre almoços apressados e viagens de metrô o estilo de Carola Saavedra (que, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Full_disclosure_(journalism)"><em>full disclosure,</em></a> é amiga da minha sogra; também andei trabalhando para a Companhia das Letras e para a Rocco) tem um charme que raramente se encontra na literatura brasileira contemporânea. Meu problema com o livro foi que a grande pergunta implícita ao longo da narrativa — por que duas histórias tão díspares estão na mesma grande história — recebe uma resposta vaga que deixa muitos fios soltos e muitas questões em aberto. A angústia de sentir nos dedos da mão direita a finura do número de páginas a ler e concluir que a história não terá um desfecho satisfatório é minha velha conhecida, e raras vezes ocorre sem me deixar um pouco decepcionado. Para alguns é um defeito menor; meu gosto pela arte de contar histórias faz com que eu o considere relativamente grave. Mas, como já disse, de repente o fim do romance simplesmente foi mais inteligente do que eu.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu problema com <em>Rato</em> foi parecido, mas num nível mais profundo. O romance de Luís Capucho começa com uma descrição lenta e detalhada da cabeça-de-porco onde o narrador vive e dos seus outros moradores, um <em>dramatis personae</em> prolixo inserido no corpo do texto. É um recurso que deixa o leitor com água na boca esperando para saber o que acontecerá com aqueles personagens; e quando quase nada acontece a decepção é grande. Há alguns conflitos, claro, mas em geral o romance fica preso demais ao seu narrador e às reflexões algo repetitivas sobre sua homossexualidade, deixando um ótimo elenco cozinhando em banho-maria, perdendo o gosto. Além disso, o não-evento que encerra a história, embora seja uma decisão narrativa interessante, acaba caindo no vazio, como se sua ocorrência fosse a decisão de um escritor desinteressado ou temeroso de abordar conflitos capazes de gerar uma voltagem dramática mais elevada. E a lírica de Capucho, embora tenha seus momentos, é menos original e por isso menos interessante do que a de Saavedra.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses são meus dois tostões. Mas quem acompanha a Copa sabe que Capucho tem uma legião fiel de fãs e que <em>Toda terça</em> recebeu uma boa quantidade de elogios nos comentários. Portanto, quem se habilitar a matar no peito e dar prosseguimento à jogada será bem-vindo.</p>
<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/saavedra.jpg" border="1" alt="Toda terça" width="120" height="180" /><br />
<strong>Toda terça</strong><br />
de Carola Saavedra</p>
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</div>]]></content:encoded><description>Jurado: Vinicius Jatobá Lucas Murtinho

O crítico literário Vinicius Jatobá, que havia concordado em apitar o jogo 10 desta segunda edição da Copa de Literatura Brasileira, decidiu se retirar do torneio após haver anunciado o vencedor do seu jogo mas antes de escrever a resenha do mesmo. Jatobá explicou num email que se retirava [...]</description><wfw:commentRss xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/">http://copadeliteratura.com/2008/jogo-10/feed/</wfw:commentRss><slash:comments xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/">72</slash:comments><feedburner:origLink>http://copadeliteratura.com/2008/jogo-10/</feedburner:origLink></item><item><title>Quartas de final</title><link>http://feedproxy.google.com/~r/clb/~3/G-lgyiCpGLE/</link><category>2008</category><dc:creator xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/">Lucas Murtinho</dc:creator><pubDate>Mon, 20 Oct 2008 04:44:39 PDT</pubDate><guid isPermaLink="false">http://copadeliteratura.com/?p=276</guid><content:encoded xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><![CDATA[<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/carrero.jpg" border="1" alt="O amor não tem bons sentimentos" width="120" height="180" /> <img src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/10/jogo9.gif" alt="jogo 9" /> <img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/cuenca.jpg" border="1" alt="O dia Mastroianni" width="120" height="180" /></p>
<p style="text-align: justify;">Jurado: <a href="http://odisseialiteraria.com/"><strong>Leandro Oliveira<br />
</strong></a></p>
<p style="text-align: justify;">A avaliação de livros tão distintos torna necessário encontrar elementos que possam conduzir o veredicto a algo mais claro que um simples &#8220;gostei mais desse do que aquele&#8221;. Nesse sentido elenquei quatro aspectos que fixaram minha atenção durante a leitura das duas obras. O primeiro foi reconhecer as idéias contidas no enredo das obras. Ligado a isso, o segundo passo foi avaliar a originalidade dessas idéias — afinal mesmo os temas mais comuns da literatura podem interessar ao leitor se forem explorados dum modo original. Estando bem claros esses dois primeiros pontos, é mais fácil avaliar o terceiro aspecto: o modo como a história é contada, ou seja, o estilo de cada autor. Em último lugar, cabe avaliar a capacidade de construção de personagens que interessam aos leitores.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O amor não tem bons sentimentos</em> é um longo delírio do atormentado narrador, que encontra a prima morta. Hipóteses são apresentadas e refutadas formando uma narrativa de contradições e nonsense, tendo a família como um núcleo opressor. A base desse núcleo é Dolores, a mãe do narrador, que o abandonou quando criança e posteriormente foi presa, acusada de matar o marido. No delírio do narrador rondam elementos sexuais e de morte, uma espécie de embate contínuo entre Eros e Tanatos. Sem dúvida, o ponto forte do livro é a qualidade do texto de Carrero, reflexo de um escritor maduro e experiente. Porém, infelizmente, somente um texto bem escrito não é capaz de sustentar o interesse do leitor e, basicamente, esse é seu maior defeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Os circunlóquios do texto não tornam as idéias mais interessantes ou intrincadas. Essa ausência de desenvolvimento da idéia principal — que não vai além da tematização da loucura — faz parecer que a falta de originalidade é resultado, na verdade, da ausência de idéias que sustentariam toda a loucura do personagem. O tom também não incita à curiosidade sobre a ação (que, aliás, poderia surgir naturalmente em torno da morte da menina, como num <em>thriller</em>, por exemplo). No fim, o interesse pelos personagens foi convertido em enfado.</p>
<p style="text-align: justify;">Abrir o livro e ter na primeira página uma citação de Baudelaire num enredo em que os dois personagens principais apenas transitam por lugares com o objetivo de farrear: assim é <em>O dia Mastroianni</em>. A figura do <em>flâneur</em> é importante porque nos diz que tudo ali espelha algo, e já no início o leitor reconhece o que é: o olhar inverso do escritor sobre a crítica. Mas nada é sério e o olhar é cheio de humor e ironia. A dupla itinerante, Pedro Cassavas e Tomás Anselmo, é engraçada demais para ter seus modos rebatidos por contra-argumentos sérios dos críticos. Também o autor não cai na armadilha de utilizar a ficção como recalque para um acerto de contas com desafetos. À medida que os outros personagens são apresentados, o leitor se rende à brincadeira e passa rir de todo o desdém contido na história.</p>
<p style="text-align: justify;">As marcas da contemporaneidade que tanto incomodam alguns críticos, como as cenas de sexo, a banalidade do enredo ou o niilismo de personagens, estão todas em <em>O dia Mastroianni</em>. Cuenca faz uso proposital desses elementos para ironizar as tentativas que vemos frequentemente de classificar uma diversidade de escritores contemporâneos (inclusive ele) como seguidores de Rubem Fonseca ou dos <em>beats</em> americanos. Mostra que na literatura não existe imposição de regras do que pode ou não pode ser feito e sim escritores que utilizam recursos de um modo bom ou ruim. E Cuenca faz, sem dúvida, bom uso do que tem na mão. As piadas autodepreciativas, com ironia por todo lado, mostram um escritor que se recusa a rezar pela cartilha do que se deve ou não fazer na literatura. Ao transformar os pontos de vista de críticos em clichês, Cuenca vira a mesa. Sua obra conversa com a tradição, ao mesmo tempo em que afirma o contemporâneo do caos cultural em que vivemos. Suas referências são cultas — literárias com Beckett, musicais com Tom Jobim e Miles Davis ou cinematográficas com Fellini —, mas também pops — com desenhos animados, como o Mxyzptlk da Liga da Justiça. Desse balaio de gatos saiu um livro engraçado, original e surpreendente.</p>
<p style="text-align: justify;">Cuenca pode não ter o estilo maduro de Carrero: seu texto tem defeitos — pessoalmente achei desnecessárias as passagens em que uma voz explicita recursos da obra para criticá-los em seguida —, mas ganha de <em>O amor não tem bons sentimentos</em> nos outros três aspectos. Com isso, enquanto o livro de Carrero diminui a cada página, a obra de Cuenca cresce, fazendo o leitor se divertir com o inusitado do enredo. Por tudo isso, avança <em>O dia Mastroianni</em>.</p>
<p align="center"><img style="border: 1px solid black;" src="http://copadeliteratura.com/wp-content/uploads/2008/03/02/cuenca.jpg" border="1" alt="O dia Mastroianni" width="120" height="180" /><br />
<strong>O dia Mastroianni</strong><br />
de João Paulo Cuenca</p>
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