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		<title>Vivi Maurey</title>
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		<title>Eu quero escrever</title>
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		<dc:creator><![CDATA[vivimaurey]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 07:52:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diário de uma escritora]]></category>
		<category><![CDATA[Desafios]]></category>
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					<description><![CDATA[Eu quero escrever. Às vezes quero me envolver com a fantasia, criar mundos e personagens, dar voz ao que não existe. Mas, às vezes, quero falar das coisas que mexem comigo, de situações reais, de mágoas, de alegrias, de admiração e decepções; quero partilhar a dor e o aprendizado que veio com ela, quero elogiar e criticar sem magoar, porque afinal quando nós trocamos é quando genuinamente aprendemos e vivemos. Nada se faz sozinho. No entanto, temo dizer o que penso e o que sinto. Pode ser que os amigos e os colegas vejam o que escrevo e achem que é uma indireta para eles, que a família se sinta atingida ou exposta, que a empresa onde trabalho veja de forma negativa um desabafo e se sinta atacada ou desrespeitada; pode ser que os amigos de outros tempos e os que estão longe não percebam o amor nas palavras. Sinto que me permiti ser silenciada por alguma atmosfera do momento em que estamos vivendo ou talvez eu seja meu próprio juiz que sentenciou minha mente a uma dieta sem voz. Eu quero escrever porque sou escritora, sempre fui, desde pequena. Tenho textos e textos digitalizados dos meus diários que mostram que a minha maneira de lidar com a felicidade e com a tristeza e os desafios é escrevendo. É como eu sou, é quem eu sou. Fiz um podcast para filosofar e tem feito um bem danado, ainda que não sejam os textos que provocam e pedem mais de mim ou das pessoas; textos esses que estão aqui na minha cabeça e não veem a luz do dia por medo. Quando minha mãe era viva, eu brincava dizendo que me sentiria mais à vontade para dizer certas verdades do mundo depois que ela morresse, porque não precisaria mais me preocupar o que ela pensaria ou se ficaria preocupada comigo. Aconteceu o oposto. Eu nunca tive medo de escrever antes. Eu abria meu coração, sempre honesta, sempre ética, sempre com um toque de provocação, e ela se orgulhava de mim e dos meus textos, porque eles vinham de um lugar bom e do coração, ainda que fossem por vezes duros e difíceis de escrever e provavelmente de ler. Eu escrevia cartas para amigos, no papel e por email, para minha mãe e para crushs e ex namorados. Eu sempre soube me expressar melhor por escrito. Não tenho o dom da fala. Mas sei traduzir em palavras os meus pensamentos, ainda que nem sempre sejam as mais indicadas pelos acadêmicos. Ser imigrante não é fácil e o desafio não está em alguns choques de cultura, está no dia a dia. E gostaria de falar mais abertamente sobre isso sem ferir, sem colocar em pauta pessoas específicas ou situações específicas, queria muito que houvesse mais espaço para discutir e ser ouvida. Ser brasileira, ser mulher, ser uma agente de mudança… tudo contribui para que minha realidade não seja a das mais tranquilas. E o fato de eu ser muito transparente incomoda muita gente. Acho que as pessoas, no geral, não estão acostumadas com esse tipo de comportamento e interpretam errado as minhas ações. Eu lembro que minha mãe dizia “faz aquilo que acredita ser o correto, minha filha”. Ela era a pessoa mais genuína desse mundo. Você sabia exatamente o que ela pensava das coisas, o que ela sentia, e sabia também quando ela mentia para proteger alguém ou ela mesma. Uma amiga minha uma vez me disse que eu era a pessoa mais transparente que ela conhecia. No auge da minha inocência e juventude cheguei a pensar “mas eu escondo muita coisa, tem muita coisa sobre mim que não falo, ela não faz ideia…”. Mas hoje, depois de mais de 20 anos de ter ouvido isso, percebo a verdade por trás dessas palavras. Porque, hoje, mesmo calada, com medo de escrever o que sinto, “escondendo” tanta coisa que tenho vivido e sido feita a mim, minha transparência nunca foi tão latente. Estou confiante de que ela, e todos aqueles mais próximos, traduziriam imediatamente meu momento apenas ao olhar pra mim. Espero conseguir um dia, em breve, aprender a lidar com tanto luto e recuperar a minha voz, de uma vez por todas.]]></description>
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<p>Eu quero escrever. Às vezes quero me envolver com a fantasia, criar mundos e personagens, dar voz ao que não existe. Mas, às vezes, quero falar das coisas que mexem comigo, de situações reais, de mágoas, de alegrias, de admiração e decepções; quero partilhar a dor e o aprendizado que veio com ela, quero elogiar e criticar sem magoar, porque afinal quando nós trocamos é quando genuinamente aprendemos e vivemos. Nada se faz sozinho.</p>



<p><br>No entanto, temo dizer o que penso e o que sinto. Pode ser que os amigos e os colegas vejam o que escrevo e achem que é uma indireta para eles, que a família se sinta atingida ou exposta, que a empresa onde trabalho veja de forma negativa um desabafo e se sinta atacada ou desrespeitada; pode ser que os amigos de outros tempos e os que estão longe não percebam o amor nas palavras.</p>



<p><br>Sinto que me permiti ser silenciada por alguma atmosfera do momento em que estamos vivendo ou talvez eu seja meu próprio juiz que sentenciou minha mente a uma dieta sem voz.</p>



<p><br>Eu quero escrever porque sou escritora, sempre fui, desde pequena. Tenho textos e textos digitalizados dos meus diários que mostram que a minha maneira de lidar com a felicidade e com a tristeza e os desafios é escrevendo. É como eu sou, é quem eu sou. Fiz um podcast para filosofar e tem feito um bem danado, ainda que não sejam os textos que provocam e pedem mais de mim ou das pessoas; textos esses que estão aqui na minha cabeça e não veem a luz do dia por medo.</p>



<p><br>Quando minha mãe era viva, eu brincava dizendo que me sentiria mais à vontade para dizer certas verdades do mundo depois que ela morresse, porque não precisaria mais me preocupar o que ela pensaria ou se ficaria preocupada comigo. Aconteceu o oposto. Eu nunca tive medo de escrever antes. Eu abria meu coração, sempre honesta, sempre ética, sempre com um toque de provocação, e ela se orgulhava de mim e dos meus textos, porque eles vinham de um lugar bom e do coração, ainda que fossem por vezes duros e difíceis de escrever e provavelmente de ler.</p>



<p><br>Eu escrevia cartas para amigos, no papel e por email, para minha mãe e para crushs e ex namorados. Eu sempre soube me expressar melhor por escrito. Não tenho o dom da fala. Mas sei traduzir em palavras os meus pensamentos, ainda que nem sempre sejam as mais indicadas pelos acadêmicos.</p>



<p><br>Ser imigrante não é fácil e o desafio não está em alguns choques de cultura, está no dia a dia. E gostaria de falar mais abertamente sobre isso sem ferir, sem colocar em pauta pessoas específicas ou situações específicas, queria muito que houvesse mais espaço para discutir e ser ouvida.</p>



<p><br>Ser brasileira, ser mulher, ser uma agente de mudança… tudo contribui para que minha realidade não seja a das mais tranquilas. E o fato de eu ser muito transparente incomoda muita gente. Acho que as pessoas, no geral, não estão acostumadas com esse tipo de comportamento e interpretam errado as minhas ações.</p>



<p><br>Eu lembro que minha mãe dizia “faz aquilo que acredita ser o correto, minha filha”. Ela era a pessoa mais genuína desse mundo. Você sabia exatamente o que ela pensava das coisas, o que ela sentia, e sabia também quando ela mentia para proteger alguém ou ela mesma.</p>



<p><br>Uma amiga minha uma vez me disse que eu era a pessoa mais transparente que ela conhecia. No auge da minha inocência e juventude cheguei a pensar “mas eu escondo muita coisa, tem muita coisa sobre mim que não falo, ela não faz ideia…”. Mas hoje, depois de mais de 20 anos de ter ouvido isso, percebo a verdade por trás dessas palavras.</p>



<p><br>Porque, hoje, mesmo calada, com medo de escrever o que sinto, “escondendo” tanta coisa que tenho vivido e sido feita a mim, minha transparência nunca foi tão latente. Estou confiante de que ela, e todos aqueles mais próximos, traduziriam imediatamente meu momento apenas ao olhar pra mim.</p>



<p>Espero conseguir um dia, em breve, aprender a lidar com tanto luto e recuperar a minha voz, de uma vez por todas.</p>
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		<title>A Ponte Vecchio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[vivimaurey]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Apr 2026 20:15:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diário de uma escritora]]></category>
		<category><![CDATA[Viagens]]></category>
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					<description><![CDATA[A primeira coisa que vi em Florença foi a Ponte Vecchio. Posso ter visto um pouco antes algumas ruas e a estação de trem e o aeroporto e alguma coisa ou outra da vista no caminho de lá até o centro, mas para fins de narrativa, peço aqui a licença criativa, a ponte Vecchio foi meu primeiro marco. E eu tava fazendo vídeo pro meu melhor amigo, no exato momento em que virei a rua e vi o rio e a ponte, ao fundo. Mostrei pra ele no vídeo o que minha mente também absorvia, ao mesmo tempo, e senti os olhos encherem d&#8217;água. A ponte não é, em si, a mais bela das belas. É uma ponte pra lá de interessante, com lojas (de marca) e construções no meio dela, é muito diferente de tudo o que eu já tinha visto, mas o fato de ser praticamente uma rua normal, ao atravessá-la, já que só no meio, e num pequeno pedaço, você consegue ver a água, eu não consigo categorizá-la como uma ponte bonita. Mas, sem dúvida alguma, é grandiosa e uma ponte não precisa ser bonita pra ser especial. Já é um dos elementos mais importantes de Florença pra mim, por esse motivo especial que ficou marcado no meu coração. E o duomo, por outros motivos, quer dizer, também ficou marcado no meu coração, mas não porque eu o via pela primeira vez com meu melhor amigo via telefone, mas porque eu lembrei de quando jogava, muito de vez em quando, Assassin&#8217;s Creed, e pensei &#8220;um dia, vou visitar a Itália e ver esses domos com meus próprios olhos&#8221;; e lá estava eu, comemorando meus 40 anos, em Florença, um minúsculo ser, parado no meio da rua, olhando pra cima, com a boca semiaberta, mal podendo acreditar naquela construção bestial e magnífica. Eu chorei algumas vezes nessa cidade. Eu percebi que choro mais quando viajo sozinha. Mas, curiosamente, as lágrimas do duomo tinham a ver com o passado e com a conquista de algo idealizado; já as da Ponte Vecchio tinha a ver justamente por eu não estar sozinha e ter experimentado essa primeira experiência turística de Florença com o meu melhor amigo. Lágrimas e emoções podem ser tão confusas e paradoxais, né? Por incrível que pareça, e por conta também do meu tempo e do horário marcado com o tour gastronômico que fiz na sexta-feira, dia que cheguei lá, embora a Ponte tenha sido a primeira coisa que vi, eu não atravessei de imediato. Só no fim do dia, e depois de já ter visitado dezenas de coisas marcadas no meu google maps com a bandeirinha verde de &#8216;Quero Visitar&#8217;, foi que o guia nos levou para o outro lado do rio para jantar bisteca florentina e saborear um gelado de sobremesa. Fui e voltei várias vezes dessa e de outras pontes ao longo de 3 dias em Florença. Visitei a catedral e o museu da igreja, vi David e as artes da Galeria degli Ufizzi, fui no palácio Pitti e no jardim de Boboli, subi os degraus da torre e do duomo; comi pasta, risotto e gelados, bebi vinho e comemorei meu aniversário do jeito que eu queria, com estilo e fazendo exatamente o que gosto. O charme de Florença é mesmo avassalador e magnético. Eu até queria ter conhecido mais dos arredores e não apenas a área central de um lado e de outro da ponte, mas eram só três dias e, de fato, a área ali da catedral, das praças e do duomo atraem os turistas como a luz aprisiona as mariposas. É impossível se afastar com tanta coisa acontecendo. Eu poderia ficar três meses, hospedada exatamente onde estava, no coração de Florença, na margem do rio entre as pontes Vecchio e Santa Trinita, e ainda assim não conseguiria conhecer tudo o que o centro pode nos oferecer. Por coincidência, ou não, no meu último dia, no domingo de Páscoa, uma das últimas coisas que fiz antes de passar no hotel para buscar minha mochila, foi atravessar a Ponte Vecchio. Era depois do almoço, eu tinha acabado de comer ravioli, acompanhado de um vinho maravilhoso, e gelado de sobremesa, é claro; estava caminhando um pouco para fazer a digestão, antes de ir para o aeroporto, e pensei no no meu melhor amigo, naquele primeiro momento, ao chegar nessa cidade, no meu sorriso e na minha felicidade de estar viajando, que é a coisa que eu mais amo nesse mundo. Pensei no tempo decorrido da viagem e como ele se transforma num instante, quando tudo acaba. No entanto, o que fica é a experiência e as lembranças e os momentos, e faz mesmo toda a diferença quando dividimos esses instantes com alguém, mesmo que esse alguém esteja do outro lado do mundo, e acompanhando através de um telefone. Agora é fechar os olhos e viver as lembranças de um passado, que já não existe, sempre que der vontade.]]></description>
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<p>A primeira coisa que vi em Florença foi a Ponte Vecchio. Posso ter visto um pouco antes algumas ruas e a estação de trem e o aeroporto e alguma coisa ou outra da vista no caminho de lá até o centro, mas para fins de narrativa, peço aqui a licença criativa, a ponte Vecchio foi meu primeiro marco. E eu tava fazendo vídeo pro meu melhor amigo, no exato momento em que virei a rua e vi o rio e a ponte, ao fundo. Mostrei pra ele no vídeo o que minha mente também absorvia, ao mesmo tempo, e senti os olhos encherem d&#8217;água. </p>



<p>A ponte não é, em si, a mais bela das belas. É uma ponte pra lá de interessante, com lojas (de marca) e construções no meio dela, é muito diferente de tudo o que eu já tinha visto, mas o fato de ser praticamente uma rua normal, ao atravessá-la, já que só no meio, e num pequeno pedaço, você consegue ver a água, eu não consigo categorizá-la como uma ponte bonita. Mas, sem dúvida alguma, é grandiosa e uma ponte não precisa ser bonita pra ser especial. </p>



<p>Já é um dos elementos mais importantes de Florença pra mim, por esse motivo especial que ficou marcado no meu coração. E o <em>duomo</em>, por outros motivos, quer dizer, também ficou marcado no meu coração, mas não porque eu o via pela primeira vez com meu melhor amigo via telefone, mas porque eu lembrei de quando jogava, muito de vez em quando, Assassin&#8217;s Creed, e pensei &#8220;um dia, vou visitar a Itália e ver esses domos com meus próprios olhos&#8221;; e lá estava eu, comemorando meus 40 anos, em Florença, um minúsculo ser, parado no meio da rua, olhando pra cima, com a boca semiaberta, mal podendo acreditar naquela construção bestial e magnífica. </p>



<p>Eu chorei algumas vezes nessa cidade. Eu percebi que choro mais quando viajo sozinha. Mas, curiosamente, as lágrimas do <em>duomo</em> tinham a ver com o passado e com a conquista de algo idealizado; já as da Ponte Vecchio tinha a ver justamente por eu não estar sozinha e ter experimentado essa primeira experiência turística de Florença com o meu melhor amigo. Lágrimas e emoções podem ser tão confusas e paradoxais, né? </p>



<p>Por incrível que pareça, e por conta também do meu tempo e do horário marcado com o tour gastronômico que fiz na sexta-feira, dia que cheguei lá, embora a Ponte tenha sido a primeira coisa que vi, eu não atravessei de imediato. Só no fim do dia, e depois de já ter visitado dezenas de coisas marcadas no meu google maps com a bandeirinha verde de &#8216;Quero Visitar&#8217;, foi que o guia nos levou para o outro lado do rio para jantar bisteca florentina e saborear um gelado de sobremesa. </p>



<p>Fui e voltei várias vezes dessa e de outras pontes ao longo de 3 dias em Florença. Visitei a catedral e o museu da igreja, vi David e as artes da Galeria degli Ufizzi, fui no palácio Pitti e no jardim de Boboli, subi os degraus da torre e do duomo; comi pasta, risotto e gelados, bebi vinho e comemorei meu aniversário do jeito que eu queria, com estilo e fazendo exatamente o que gosto. </p>



<p>O charme de Florença é mesmo avassalador e magnético. Eu até queria ter conhecido mais dos arredores e não apenas a área central de um lado e de outro da ponte, mas eram só três dias e, de fato, a área ali da catedral, das praças e do duomo atraem os turistas como a luz aprisiona as mariposas. É impossível se afastar com tanta coisa acontecendo. Eu poderia ficar três meses, hospedada exatamente onde estava, no coração de Florença, na margem do rio entre as pontes Vecchio e Santa Trinita, e ainda assim não conseguiria conhecer tudo o que o centro pode nos oferecer. </p>



<p>Por coincidência, ou não, no meu último dia, no domingo de Páscoa, uma das últimas coisas que fiz antes de passar no hotel para buscar minha mochila, foi atravessar a Ponte Vecchio. Era depois do almoço, eu tinha acabado de comer ravioli, acompanhado de um vinho maravilhoso, e gelado de sobremesa, é claro; estava caminhando um pouco para fazer a digestão, antes de ir para o aeroporto, e pensei no no meu melhor amigo, naquele primeiro momento, ao chegar nessa cidade, no meu sorriso e na minha felicidade de estar viajando, que é a coisa que eu mais amo nesse mundo. Pensei no tempo decorrido da viagem e como ele se transforma num instante, quando tudo acaba. No entanto, o que fica é a experiência e as lembranças e os momentos, e faz mesmo toda a diferença quando dividimos esses instantes com alguém, mesmo que esse alguém esteja do outro lado do mundo, e acompanhando através de um telefone. </p>



<p>Agora é fechar os olhos e viver as lembranças de um passado, que já não existe, sempre que der vontade. </p>
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		<title>Sobrevivi… mas agora eu quero viver.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[vivimaurey]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 Mar 2026 19:54:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diário de uma escritora]]></category>
		<category><![CDATA[Lisboa]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
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					<description><![CDATA[Assim que voltei do Brasil pra Portugal, ano passado, em meados de março, há um ano, eu fiz uma analogia pra minha psicóloga sobre estar vivendo um inverno durante a primavera. Curioso é que, por mais que a gente pense no luto como algo infinito e eu saiba que vou conviver com ele pelo resto da minha vida, ainda assim, eu estipulei que naquele momento eu vivia um inverno duro, frio, chuvoso e triste, e em nada me conectava naquele momento com a ideia de florescimento e renascimento. Um ano depois, eu ainda sinto o luto tomar conta de mim e ainda quebro em mil pedaços, como aconteceu ontem, escrevendo o episódio de podcast de domingo. No entanto, eu já não me sinto mais no inverno. O tempo passou e eu aprendi tanto. E pensar que um dos maiores aprendizados foi que a sensação de estar perdida e de não ter mais o norte que eu tinha, que encontrava na voz da minha mãe, jamais será eliminada. Ainda assim, estou finalmente pronta pra entrar na primavera. Dia 1 de abril completo 3 anos em Portugal. São 3x todas as estações. E aqui se sente cada estação, diferente do Rio. As manhã de primavera são bem frescas, as tardes quentes e, durante as noites, o frio volta. Começam os dias de esplanadas, conversas na varanda do trabalho, almoços do lado de fora, pegando um pouco de sol no rosto, e os dias bem mais longos. São 20h30 e ainda não anoiteceu. Ao mesmo tempo que sinto conhecer Lisboa, e ter uma grande admiração por este lugar, às vezes, ainda me sinto um tanto perdida ao andar pelas ruas do centro. Eu moro afastada e vou pouco para os bairros mais conhecidos pelos turistas. Chiado, Alcântara, Bairro Alto&#8230; imagino que os turistas conheçam cada centímetro de cada rua, enquanto eu ainda nem sei diferenciar um bairro do outro. Isso me faz pensar no quanto eu tenho saído pouco de casa, no quanto eu tenho focado no trabalho e no pouco que tenho escolhido viver. E a impressão que fica é que tenho me permitido viver um inverno há mais tempo do que deveria. Se eu escolhi sair do Brasil porque não via mais lugar para mim lá, se escolhi vir pra cá para desfrutar de uma cidade mais segura, em que eu pudesse caminhar mais, explorar mais, então por que ainda fico tanto em casa, trabalho-casa, casa-trabalho, como se ainda estivesse vivendo num apartamento em São Paulo, isolada de todos, durante uma pandemia? Mas tô sendo injusta comigo mesma, como sempre. Não é como se eu não tivesse passeado por aqui, por Portugal, conhecido outras cidades, viajado pela Europa. No entanto, não consigo me convencer de que conheço bem o centro de Lisboa, que é o que todos que vêm visitar mais conhecem. A gente pensa que vai viver como turista para sempre, numa cidade nova, quando somos imigrantes novatos. Quando cheguei aqui, fiz vários passeios e lembro de ter pensado: vou conhecer algo novo todo fim de semana. E aí o tempo passa, o trabalho aperta, o valor que eu dou para coisas que não devia ganha ainda mais peso e tudo que consigo pensar agora num sábado ou num domingo, depois de lavar roupa e voltar da yoga, é &#8216;quero descansar, ver um filme e relaxar a cabeça&#8217;. Não há uma semana que eu não pense sobre essa realidade, se isso é vida ou sobrevivência, e me questiono se não estou vivendo errado. Quando a primavera chega aqui, ou melhor, quando é o momento de subir as roupas de frio e descer as do verão, parece até que a gente acorda de uma hibernação esquisita. Até o humor das pessoas na Europa muda, de acordo com a estação. Na primavera elas sorriem um pouco mais, ainda muito menos que o brasileiro, claro, e nem parece que se lembram de todas as vezes que fecharam a cara e foram pessoas cruéis com você há tão pouco tempo, durante um inverno difícil. Dizem que a cultura é muito parecida entre brasileiros e portugueses, mas a verdade é que quanto mais tempo eu passo aqui mais eu percebo o quanto somos diferentes. E digo isso no bom sentido. Pelo menos, da minha parte, acho que só temos a agregar na vida dos outros quando temos coisas diferentes para ensinar e aprender. Há muitos desafios, é claro, nos choques culturais, coisas que eu nunca vou entender, mas preciso respeitar, ainda que não haja sempre o mesmo respeito de volta, mas no geral ser estrangeira numa terra nova antiga ainda é uma das experiências mais ricas e incríveis de toda a minha vida. Eu não sei o que o amanhã me reserva, mas sei que, apesar de momentos muito difíceis, a minha bússola continua com o ponteiro virado para Lisboa. Se isso vai mudar um dia, eu não faço ideia, mas sinto que três anos ainda é muito pouco para eu conhecer tudo que há para absorver desse lugar. Quero acreditar que a primavera vai começar, finalmente, depois de um longo inverno. Quase como se eu estivesse chegando agora em Portugal. O passado não mais existe, vamos passar a limpo e viver a partir de agora tudo o que há pra viver. Deixar a preguiça dos dias chuvosos para trás e abraçar a energia de um tempo renascido. Entrar nos 40 anos, dia 4 de abril, sentindo esperança, de uma nova era, uma nova etapa, uma nova fase, é o melhor presente que eu podia ter recebido, depois de tanta mágoa. Sobrevivi&#8230; mas agora eu quero viver.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Assim que voltei do Brasil pra Portugal, ano passado, em meados de março, há um ano, eu fiz uma analogia pra minha psicóloga sobre estar vivendo um inverno durante a primavera. Curioso é que, por mais que a gente pense no luto como algo infinito e eu saiba que vou conviver com ele pelo resto da minha vida, ainda assim, eu estipulei que naquele momento eu vivia um inverno duro, frio, chuvoso e triste, e em nada me conectava naquele momento com a ideia de florescimento e renascimento. </p>



<p>Um ano depois, eu ainda sinto o luto tomar conta de mim e ainda quebro em mil pedaços, como aconteceu ontem, escrevendo o episódio de podcast de domingo. No entanto, eu já não me sinto mais no inverno. O tempo passou e eu aprendi tanto. E pensar que um dos maiores aprendizados foi que a sensação de estar perdida e de não ter mais o norte que eu tinha, que encontrava na voz da minha mãe, jamais será eliminada. Ainda assim, estou finalmente pronta pra entrar na primavera. </p>



<p>Dia 1 de abril completo 3 anos em Portugal. São 3x todas as estações. E aqui se sente cada estação, diferente do Rio. As manhã de primavera são bem frescas, as tardes quentes e, durante as noites, o frio volta. Começam os dias de esplanadas, conversas na varanda do trabalho, almoços do lado de fora, pegando um pouco de sol no rosto, e os dias bem mais longos. São 20h30 e ainda não anoiteceu. </p>



<p>Ao mesmo tempo que sinto conhecer Lisboa, e ter uma grande admiração por este lugar, às vezes, ainda me sinto um tanto perdida ao andar pelas ruas do centro. Eu moro afastada e vou pouco para os bairros mais conhecidos pelos turistas. Chiado, Alcântara, Bairro Alto&#8230; imagino que os turistas conheçam cada centímetro de cada rua, enquanto eu ainda nem sei diferenciar um bairro do outro. Isso me faz pensar no quanto eu tenho saído pouco de casa, no quanto eu tenho focado no trabalho e no pouco que tenho escolhido viver. E a impressão que fica é que tenho me permitido viver um inverno há mais tempo do que deveria.</p>



<p>Se eu escolhi sair do Brasil porque não via mais lugar para mim lá, se escolhi vir pra cá para desfrutar de uma cidade mais segura, em que eu pudesse caminhar mais, explorar mais, então por que ainda fico tanto em casa, trabalho-casa, casa-trabalho, como se ainda estivesse vivendo num apartamento em São Paulo, isolada de todos, durante uma pandemia? </p>



<p>Mas tô sendo injusta comigo mesma, como sempre. Não é como se eu não tivesse passeado por aqui, por Portugal, conhecido outras cidades, viajado pela Europa. No entanto, não consigo me convencer de que conheço bem o centro de Lisboa, que é o que todos que vêm visitar mais conhecem. </p>



<p>A gente pensa que vai viver como turista para sempre, numa cidade nova, quando somos imigrantes novatos. Quando cheguei aqui, fiz vários passeios e lembro de ter pensado: vou conhecer algo novo todo fim de semana. E aí o tempo passa, o trabalho aperta, o valor que eu dou para coisas que não devia ganha ainda mais peso e tudo que consigo pensar agora num sábado ou num domingo, depois de lavar roupa e voltar da yoga, é &#8216;quero descansar, ver um filme e relaxar a cabeça&#8217;. Não há uma semana que eu não pense sobre essa realidade, se isso é vida ou sobrevivência, e me questiono se não estou vivendo errado. </p>



<p>Quando a primavera chega aqui, ou melhor, quando é o momento de subir as roupas de frio e descer as do verão, parece até que a gente acorda de uma hibernação esquisita. Até o humor das pessoas na Europa muda, de acordo com a estação. Na primavera elas sorriem um pouco mais, ainda muito menos que o brasileiro, claro, e nem parece que se lembram de todas as vezes que fecharam a cara e foram pessoas cruéis com você há tão pouco tempo, durante um inverno difícil. </p>



<p>Dizem que a cultura é muito parecida entre brasileiros e portugueses, mas a verdade é que quanto mais tempo eu passo aqui mais eu percebo o quanto somos diferentes. E digo isso no bom sentido. Pelo menos, da minha parte, acho que só temos a agregar na vida dos outros quando temos coisas diferentes para ensinar e aprender. Há muitos desafios, é claro, nos choques culturais, coisas que eu nunca vou entender, mas preciso respeitar, ainda que não haja sempre o mesmo respeito de volta, mas no geral ser estrangeira numa terra nova antiga ainda é uma das experiências mais ricas e incríveis de toda a minha vida. </p>



<p>Eu não sei o que o amanhã me reserva, mas sei que, apesar de momentos muito difíceis, a minha bússola continua com o ponteiro virado para Lisboa. Se isso vai mudar um dia, eu não faço ideia, mas sinto que três anos ainda é muito pouco para eu conhecer tudo que há para absorver desse lugar. </p>



<p>Quero acreditar que a primavera vai começar, finalmente, depois de um longo inverno. Quase como se eu estivesse chegando agora em Portugal. O passado não mais existe, vamos passar a limpo e viver a partir de agora tudo o que há pra viver. Deixar a preguiça dos dias chuvosos para trás e abraçar a energia de um tempo renascido. </p>



<p>Entrar nos 40 anos, dia 4 de abril, sentindo esperança, de uma nova era, uma nova etapa, uma nova fase, é o melhor presente que eu podia ter recebido, depois de tanta mágoa. Sobrevivi&#8230; mas agora eu quero viver.</p>



<p></p>
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		<title>I was there, Gandalf</title>
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		<dc:creator><![CDATA[vivimaurey]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Mar 2026 19:10:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diário de uma escritora]]></category>
		<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Tolkien]]></category>
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					<description><![CDATA[Meu amigo de outras eras me mandou essa foto ontem de manhã. Foi a primeira coisa que vi, assim que acordei. E chorei. Nostalgia é tramada. Tem outra foto em que estamos sentados lado a lado, encostados na grade do cinema, esperando a bilheteria abrir, mas essa vou deixar guardada, até porque não pedi permissão nem o consentimento do meu amigo para postar sua foto. Isso foi em 2003, na estreia de Senhor dos Anéis O Retorno do Rei. Cinema Leblon, Rio de Janeiro. Eram 10:30 da manhã e já lá estávamos para a estreia do filme que ia começar às 13h. Nós levamos mochila e sacolas com snacks, água, canga para forrar o chão e meu violão preto, para entretenimento na longa espera da fila. Eu não sei quanto a vocês, mas ver Sociedade do Anel no cinema foi um marco, uma experiência de vida, e era apenas o início de uma era, talvez vocês consigam imaginar como eu estava nesse momento para ver o terceiro e último da trilogia, que encerraria 3 anos de muita história de bastidores de uma fã nerd. A primeira sessão, de 13h, foi pra ver em silêncio, chorar e refletir sobre a obra de Peter Jackson. Fomos poucas pessoas, eu, esse meu amigo e mais uns pingados. Foi mais à noite, na última sessão, porque obviamente vimos duas vezes o filme no mesmo dia, é que a galera toda se juntou pra celebrar esse momento épico. Cheguei na fila cedo de novo, por volta das 17h, pro filme que ia começar às 20:30. Dessa vez, teve festa na fila, jogo de cartas, um amigo do meu irmão pegou meu violão e tocou Blind Guardian; cantamos Lord of the Rings como se estivéssemos todos num castelo em família. Eu devia conhecer todas as primeiras 30 ou 40 pessoas da fila. Boa parte do fandom estava ali em peso. Boa parte foi fantasiada. Cinema Leblon era uma segunda casa; foi a época que mas fui ao cinema nessa vida. Em dezembro de 2003 eu tinha 17 anos. Minha maior muleta era não ter ainda 18. É como se eu ainda tivesse todo o tempo do mundo pra decidir ser quem eu quisesse, fazer tudo o que fosse possível. Levaria uns anos ainda pra eu decidir entrar na faculdade de jornalismo e encontrar um caminho que eu considerasse meu. Embora ainda estivesse um tanto perdida, sem saber ao certo o que o futuro me aguardava, neste belo dia de dezembro, ao entrar na sala de cinema e ouvir o tema de abertura de Howard Shore, e ver através de olhos borrados o letreiro do filme Return of the King, eu estava feliz… mas tão feliz. E eu não me arrependia de nada. Ainda não me arrependo.]]></description>
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<p>Meu amigo de outras eras me mandou essa foto ontem de manhã. Foi a primeira coisa que vi, assim que acordei. E chorei. Nostalgia é tramada. Tem outra foto em que estamos sentados lado a lado, encostados na grade do cinema, esperando a bilheteria abrir, mas essa vou deixar guardada, até porque não pedi permissão nem o consentimento do meu amigo para postar sua foto. <br></p>



<p>Isso foi em 2003, na estreia de Senhor dos Anéis O Retorno do Rei. Cinema Leblon, Rio de Janeiro. Eram 10:30 da manhã e já lá estávamos para a estreia do filme que ia começar às 13h. Nós levamos mochila e sacolas com snacks, água, canga para forrar o chão e meu violão preto, para entretenimento na longa espera da fila. <br></p>



<p>Eu não sei quanto a vocês, mas ver Sociedade do Anel no cinema foi um marco, uma experiência de vida, e era apenas o início de uma era, talvez vocês consigam imaginar como eu estava nesse momento para ver o terceiro e último da trilogia, que encerraria 3 anos de muita história de bastidores de uma fã nerd. </p>



<p>A primeira sessão, de 13h, foi pra ver em silêncio, chorar e refletir sobre a obra de Peter Jackson. Fomos poucas pessoas, eu, esse meu amigo e mais uns pingados. Foi mais à noite, na última sessão, porque obviamente vimos duas vezes o filme no mesmo dia, é que a galera toda se juntou pra celebrar esse momento épico. Cheguei na fila cedo de novo, por volta das 17h, pro filme que ia começar às 20:30. Dessa vez, teve festa na fila, jogo de cartas, um amigo do meu irmão pegou meu violão e tocou Blind Guardian; cantamos Lord of the Rings como se estivéssemos todos num castelo em família. Eu devia conhecer todas as primeiras 30 ou 40 pessoas da fila. Boa parte do fandom estava ali em peso. Boa parte foi fantasiada. Cinema Leblon era uma segunda casa; foi a época que mas fui ao cinema nessa vida. </p>



<p>Em dezembro de 2003 eu tinha 17 anos. Minha maior muleta era não ter ainda 18. É como se eu ainda tivesse todo o tempo do mundo pra decidir ser quem eu quisesse, fazer tudo o que fosse possível. </p>



<p>Levaria uns anos ainda pra eu decidir entrar na faculdade de jornalismo e encontrar um caminho que eu considerasse meu. Embora ainda estivesse um tanto perdida, sem saber ao certo o que o futuro me aguardava, neste belo dia de dezembro, ao entrar na sala de cinema e ouvir o tema de abertura de Howard Shore, e ver através de olhos borrados o letreiro do filme Return of the King, eu estava feliz… mas tão feliz. E eu não me arrependia de nada. </p>



<p>Ainda não me arrependo. </p>
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		<title>Montargil desperta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[vivimaurey]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Mar 2026 10:03:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diário de uma escritora]]></category>
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					<description><![CDATA[Existe um paradoxo na natureza em que você pode ao mesmo tempo estar isolada, numa casa de frente para o lago, sem nada em volta a não ser água, árvores e mato, e rodeado de silêncio humano, mas também no centro de operações de uma indústria da flora e da fauna. Os passarinhos, inúmeras espécies, cantando nas árvores e ao longe, os patos, os insetos; uma sinfonia dos bichos inesgotável. A natureza não parece dormir. Ela canta e dança e está sempre trabalhando nos ciclos e nas estações. Como eu adoro uma casa no lago. Minhas amigas me trouxeram aqui para escapar um pouco da rotina, para estarem comigo no dia de ontem, mas não apenas, um fim de semana de jogos de tabuleiro, churrasco e cerveja, numa casa de frente pro lago. O mundo está em guerra, AIs substituindo tudo e parece que estamos no fim da humanidade, mas nesse fim de semana life is good. And I’m happy. &#x2764;&#xfe0f; And I feel loved.]]></description>
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<p>Existe um paradoxo na natureza em que você pode ao mesmo tempo estar isolada, numa casa de frente para o lago, sem nada em volta a não ser água, árvores e mato, e rodeado de silêncio humano, mas também no centro de operações de uma indústria da flora e da fauna. Os passarinhos, inúmeras espécies, cantando nas árvores e ao longe, os patos, os insetos; uma sinfonia dos bichos inesgotável. A natureza não parece dormir. Ela canta e dança e está sempre trabalhando nos ciclos e nas estações. Como eu adoro uma casa no lago. </p>



<p>Minhas amigas me trouxeram aqui para escapar um pouco da rotina, para estarem comigo no dia de ontem, mas não apenas, um fim de semana de jogos de tabuleiro, churrasco e cerveja, numa casa de frente pro lago. </p>



<p>O mundo está em guerra, AIs substituindo tudo e parece que estamos no fim da humanidade, mas nesse fim de semana life is good. And I’m happy. <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/2764.png" alt="❤" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> And I feel loved. </p>



<p></p>
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		<title>Faltam 14 minutos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[vivimaurey]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Mar 2026 10:03:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diário de uma escritora]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
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					<description><![CDATA[É estranho demais pensar no tempo e no passado como algo que já aconteceu, quando na nossa cabeça um acontecimento, um momento, se estende por muito mais tempo do que o segundo atrás que já não existe mais. Faltam 14 minutos pra minha mãe morrer. Ou faltavam quando comecei a escrever esse texto. Faltam 14 minutos pro coração dela parar de bater e ela deixar de existir; pro seu corpo ser deixado sem vida numa cama de hospital. Há exato um ano, estava eu no carro com as amigas a caminho do aeroporto de Lisboa. Eu ainda tinha esperanças, ao me despedir dela antes do embarque, que ia poder visitá-la no hospital, no Rio de Janeiro. O médico não me ligou imediatamente, quando o bip da máquina se tornou estável. Ele esperou duas horas. Faltam 14 minutos para ela nos deixar, mas ainda falta muito para eu receber a notícia e desabar na sala de embarque do aeroporto. Pensar em 1 ano ou até mesmo 365 dias é comprimir o tempo. As lembranças surgem breves e transformam-se num reels de 30 segundos. Mas pensar em momentos de cada dia desses 365 o paradoxo se cria e eu consigo estender a memória por muito mais tempo que até mesmo o próprio dia. Eu penso na chegada ao Brasil e no velório, no meu irmão, nas pessoas que vieram me ver e me abraçaram, nas duas semanas que fiquei no Brasil esvaziando o armário da minha mãe e colocando suas roupas em caixas; descobrindo velhos diários de quando ela tinha 27 anos e falava de um romance e dúvidas sobre um futuro incerto. Penso também na noite anterior quando tive que fazer a mala sem saber para quantos dias, porque não fazia ideia ainda quanto tempo minha mãe tinha de vida, sem saber se eu voltaria para Portugal, sem documento até para poder dar entrada outra vez. Eu não sabia nem se devia pensar numa roupa adequada para um possível velório, eu tinha acabado de receber a notícia do quão grave era a situação. Faltam 2 minutos e eu ainda não estou preparada. Nem que faltassem 60 mil anos eu estaria preparada. Falta 1 minuto. Eu já não falava com ela há dois dias, porque ela não conseguia acordar. Eu não lembro qual foi a última frase que eu disse a ela. Mas lembro de ter dito que a amava e lembro de ter dito &#8220;vai ficar tudo bem&#8221;. O passado acontece em tempo real. O tempo todo. 365 dias são o mesmo que um segundo. Eu ainda a sinto aqui comigo, da mesma forma que ainda sinto que é neste exato segundo que ela deixa de existir nesse mundo e passa a existir apenas nas nossas memórias. Eu te amo, mãe. Vai ficar tudo bem.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>É estranho demais pensar no tempo e no passado como algo que já aconteceu, quando na nossa cabeça  um acontecimento, um momento, se estende por muito mais tempo do que o segundo atrás que já não existe mais. Faltam 14 minutos pra minha mãe morrer. Ou faltavam quando comecei a escrever esse texto. Faltam 14 minutos pro coração dela parar de bater e ela deixar de existir; pro seu corpo ser deixado sem vida numa cama de hospital. </p>



<p>Há exato um ano, estava eu no carro com as amigas a caminho do aeroporto de Lisboa. Eu ainda tinha esperanças, ao me despedir dela antes do embarque, que ia poder visitá-la no hospital, no Rio de Janeiro. O médico não me ligou imediatamente, quando o bip da máquina se tornou estável. Ele esperou duas horas. Faltam 14 minutos para ela nos deixar, mas ainda falta muito para eu receber a notícia e desabar na sala de embarque do aeroporto. </p>



<p>Pensar em 1 ano ou até mesmo 365 dias é comprimir o tempo. As lembranças surgem breves e transformam-se num reels de 30 segundos. Mas pensar em momentos de cada dia desses 365 o paradoxo se cria e eu consigo estender a memória por muito mais tempo que até mesmo o próprio dia. </p>



<p>Eu penso na chegada ao Brasil e no velório, no meu irmão, nas pessoas que vieram me ver e me abraçaram, nas duas semanas que fiquei no Brasil esvaziando o armário da minha mãe e colocando suas roupas em caixas; descobrindo velhos diários de quando ela tinha 27 anos e falava de um romance e dúvidas sobre um futuro incerto. </p>



<p>Penso também na noite anterior quando tive que fazer a mala sem saber para quantos dias, porque não fazia ideia ainda quanto tempo minha mãe tinha de vida, sem saber se eu voltaria para Portugal, sem documento até para poder dar entrada outra vez. Eu não sabia nem se devia pensar numa roupa adequada para um possível velório, eu tinha acabado de receber a notícia do quão grave era a situação. </p>



<p>Faltam 2 minutos e eu ainda não estou preparada. </p>



<p>Nem que faltassem 60 mil anos eu estaria preparada. </p>



<p>Falta 1 minuto. </p>



<p>Eu já não falava com ela há dois dias, porque ela não conseguia acordar. Eu não lembro qual foi a última frase que eu disse a ela. Mas lembro de ter dito que a amava e lembro de ter dito &#8220;vai ficar tudo bem&#8221;. </p>



<p>O passado acontece em tempo real. O tempo todo. 365 dias são o mesmo que um segundo. Eu ainda a sinto aqui comigo, da mesma forma que ainda sinto que é neste exato segundo que ela deixa de existir nesse mundo e passa a existir apenas nas nossas memórias. </p>



<p>Eu te amo, mãe. Vai ficar tudo bem. </p>
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		<title>I Ching das águas de março</title>
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		<dc:creator><![CDATA[vivimaurey]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Mar 2026 11:57:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diário de uma escritora]]></category>
		<category><![CDATA[I Ching]]></category>
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					<description><![CDATA[Não sei se vocês conhecem o I Ching. Eu mesma não sou nenhuma expert, a única coisa que eu sei é que tem que fazer uma pergunta e ver a resposta e interpretar através dos hexagramas. Um dos textos mais antigos da filosofia chinesa e usado há mais de três mil anos como um sistema de reflexão e consulta, a ideia-base, e que tem tudo a ver comigo, é que tudo na vida está em constante transformação. E, através de combinações de seis linhas, chamadas hexagramas (o livro tem 64 hexagramas ao todo), cada um representa um estado ou uma situação possível da realidade. E cada símbolo vem acompanhado por interpretações que te ajudam a refletir sobre momentos de mudança, decisões e caminhos possíveis. Não é sobre prever o futuro nem te encaixar num horóscopo, o I Ching funciona como um espelho filosófico, é um convite pra gente observar a situação presente, tentar compreender as forças em jogo e refletir sobre como agir com mais consciência dentro do fluxo natural das transformações. Eu fiz uma pergunta recentemente e tive de resposta os dois hexagramas abaixo: A interpretação do primeiro tem a ver com Reforma, Sentenciar ou Aplicar a Pena. &#8220;Fala, essencialmente, da aplicação das leis e dos regulamentos, necessários para manter a ordem e proteger as diferentes partes da coletividade. Quando um obstáculo impede a união ou o desenvolvimento de uma iniciativa, o sucesso é alcançado com uma medida cortante. Se o problema se deve a alguém que trama intrigas e traições, é necessário intervir de forma drástica para evitar danos permanentes.&#8221; A ideia aqui é equilibrar firmeza com gentileza, prevenir como melhor remédio e agir com respeito. E então temos o segundo hexagrama, de Desintegração. Não é favorável seguir em direção alguma, seja qual for. Eu gosto particularmente deste trecho da interpretação: &#8220;Devemos nos recolher na quietude, para consolar o coração e cultivar nossos dons para o período de renovação que chegará a seu tempo. Agora não é covardia, e sim sabedoria, aceitar a situação, evitando os gestos impulsivos de reação.&#8221; E este: &#8220;O melhor é continuar onde nos encontramos e aceitar a situação, tomando como modelo o homem nobre que contempla com isenção os períodos de seca e de cheia, a eterna sucessão dos opostos, tanto no espaço celeste quanto na terra.&#8221; O que isso tem a ver com a pergunta diz respeito a mim e a mim only. E a minha leitura da interpretação é conduzida através de conexões que faço com similaridades ou coincidências, e o que ressona com a minha capacidade de aceitar um caminho A ou B. É incrível como ajuda-nos a refletir sobre os assuntos, sem precisar ditar regras ou se passar por certo ou errado. E seja lá qual for a minha decisão, se é que a pergunta que fiz ao oráculo tenha qualquer coisa a ver com decisões, é importante que eu saiba que um livro escrito há milhares de anos não está interessado em ditar minha vida nem dizer o que eu preciso fazer. O texto apenas sugere, através de uma interpretação filosófica de questões pelas quais todos nós passamos, um pensamento para nos ajudar a organizar as dúvidas e retomar a consciência para o que realmente importa. É muito diferente de escolher um candidato para trabalhar numa empresa, porque ele é de Áries, com ascendente em Touro. E é por isso que eu adoro I Ching. E, muito sinceramente, graças ao meu melhor amigo que me lembrou de fazer isso, perguntei ao oráculo num dia muito difícil e, ao refletir pesadamente sobre o que me incomoda, aprendi e enxerguei algumas coisas para as quais acho que ainda não estava preparada para olhar. Instantaneamente, eu me senti mais calma e tranquila. Se alguém tiver lendo isso, e quiser tentar, tá aqui pra consultar I Ching. Muito melhor que qualquer AI.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Não sei se vocês conhecem o I Ching. Eu mesma não sou nenhuma expert, a única coisa que eu sei é que tem que fazer uma pergunta e ver a resposta e interpretar através dos hexagramas. Um dos textos mais antigos da filosofia chinesa e usado há mais de três mil anos como um sistema de reflexão e consulta, a ideia-base, e que tem tudo a ver comigo, é que tudo na vida está em constante transformação. E, através de combinações de seis linhas, chamadas hexagramas (<a href="https://iching.com.br/o-i-ching/os-64-hexagramas-do-iching/">o livro tem 64 hexagramas ao todo</a>), cada um representa um estado ou uma situação possível da realidade. </p>



<p>E cada símbolo vem acompanhado por interpretações que te ajudam a refletir sobre momentos de mudança, decisões e caminhos possíveis. Não é sobre prever o futuro nem te encaixar num horóscopo, o I Ching funciona como um espelho filosófico, é um convite pra gente observar a situação presente, tentar compreender as forças em jogo e refletir sobre como agir com mais consciência dentro do fluxo natural das transformações. </p>



<p>Eu fiz uma pergunta recentemente e tive de resposta os dois hexagramas abaixo: </p>



<figure class="wp-block-gallery has-nested-images columns-1 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex">
<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.vivimaurey.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-Tela-2026-03-05-as-09.57.38.png"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="662" height="428" data-id="2844" src="https://www.vivimaurey.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-Tela-2026-03-05-as-09.57.38.png" alt="" class="wp-image-2844" style="width:155px;height:auto" srcset="https://www.vivimaurey.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-Tela-2026-03-05-as-09.57.38.png 662w, https://www.vivimaurey.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-Tela-2026-03-05-as-09.57.38-300x194.png 300w" sizes="(max-width: 662px) 100vw, 662px" /></a></figure>
</figure>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.vivimaurey.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-Tela-2026-03-05-as-09.58.50.png"><img decoding="async" width="668" height="424" src="https://www.vivimaurey.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-Tela-2026-03-05-as-09.58.50.png" alt="" class="wp-image-2845" style="width:154px;height:auto" srcset="https://www.vivimaurey.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-Tela-2026-03-05-as-09.58.50.png 668w, https://www.vivimaurey.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-Tela-2026-03-05-as-09.58.50-300x190.png 300w" sizes="(max-width: 668px) 100vw, 668px" /></a></figure>



<p>A interpretação do primeiro tem a ver com Reforma, Sentenciar ou Aplicar a Pena. &#8220;Fala, essencialmente, da aplicação das leis e dos regulamentos, necessários para manter a ordem e proteger as diferentes partes da coletividade. Quando um obstáculo impede a união ou o desenvolvimento de uma iniciativa, o sucesso é alcançado com uma medida cortante. Se o problema se deve a alguém que trama intrigas e traições, é necessário intervir de forma drástica para evitar danos permanentes.&#8221; A ideia aqui é equilibrar firmeza com gentileza, prevenir como melhor remédio e agir com respeito. </p>



<p>E então temos o segundo hexagrama, de Desintegração. <em>Não é favorável seguir em direção alguma, seja qual for.</em> Eu gosto particularmente deste trecho da interpretação: &#8220;Devemos nos recolher na quietude, para consolar o coração e cultivar nossos dons para o período de renovação que chegará a seu tempo. Agora não é covardia, e sim sabedoria, aceitar a situação, evitando os gestos impulsivos de reação.&#8221; E este: &#8220;O melhor é continuar onde nos encontramos e aceitar a situação, tomando como modelo o homem nobre que contempla com isenção os períodos de seca e de cheia, a eterna sucessão dos opostos, tanto no espaço celeste quanto na terra.&#8221;</p>



<p>O que isso tem a ver com a pergunta diz respeito a mim e a mim only. E a minha leitura da interpretação é conduzida através de conexões que faço com similaridades ou coincidências, e o que ressona com a minha capacidade de aceitar um caminho A ou B. É incrível como ajuda-nos a refletir sobre os assuntos, sem precisar ditar regras ou se passar por certo ou errado.</p>



<p>E seja lá qual for a minha decisão, se é que a pergunta que fiz ao oráculo tenha qualquer coisa a ver com decisões, é importante que eu saiba que um livro escrito há milhares de anos não está interessado em ditar minha vida nem dizer o que eu preciso fazer. O texto apenas sugere, através de uma interpretação filosófica de questões pelas quais todos nós passamos, um pensamento para nos ajudar a organizar as dúvidas e retomar a consciência para o que realmente importa. É muito diferente de escolher um candidato para trabalhar numa empresa, porque ele é de Áries, com ascendente em Touro. E é por isso que eu adoro I Ching. </p>



<p>E, muito sinceramente, graças ao meu melhor amigo que me lembrou de fazer isso, perguntei ao oráculo num dia muito difícil e, ao refletir pesadamente sobre o que me incomoda, aprendi e enxerguei algumas coisas para as quais acho que ainda não estava preparada para olhar. Instantaneamente, eu me senti mais calma e tranquila. </p>



<p>Se alguém tiver lendo isso, e quiser tentar, tá aqui pra <a href="https://consultaiching.com.br/">consultar I Ching</a>. Muito melhor que qualquer AI. </p>
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		<title>É blog que fala?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[vivimaurey]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Mar 2026 20:30:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diário de uma escritora]]></category>
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					<description><![CDATA[Já faz um tempo que estou com um desejo de voltar a blogar. Quase já não consigo mais acompanhar blog nenhum, e duvido que alguém vá conseguir acompanhar o meu, os tempos são outros, e também não vou avisar ninguém dos textos daqui; piada interna para eu descobrir quem passou por aqui e viu que voltei a usar o site. 😉 Ao contrário do meu melhor amigo, não tenho mais registro nenhum dos meus antigos blogs e textos. Apaguei tudo. Acho que a última vez foi em 2017. Ao contrário dele, eu só falava besteira e não escrevia nada que prestasse. Não vai ser muito diferente agora, minha intenção com o blog continua sendo ‘escrever enquanto existo’, e não para performar. Se eu tivesse que pensar para escrever aqui, provavelmente não decidiria voltar. Besides, eu já tenho um espaço para filosofar e podcastar para fingir que sou esperta. 😉 Aqui eu quero apenas pensar em voz alta. Ter um cantinho, o meu cantinho, livre de expectativas. E nada de rede social, escrava de algoritmos. Esse é um espaço meu &#60;3, e eu poderia até fazer umas doideiras, se eu tivesse aprendido a CSSar direito. Sem pânico, a gente usa os plugins do WordPress e tá tudo certo. Mas por que blogar agora, ainda mais numa fase tão difícil de muito trabalho e pouco espaço para lazer e para descansar a mente? Exatamente por isso, meu caro Watson. Estou estafada, exausta, esgotada, cansada de tudo e mais um pouco, trabalhando solo e fazendo o que antes faziam 5 pessoas; e nenhum momento melhor que esse para recalibrar através do desabafo blogal enquanto pratico desapego intelectual. Entre braçadas na natação hoje, experimentei algo que provavelmente todo nadador já experimentou: você ergue a cabeça e abre a boca pra respirar e justamente naquela hora tem alguém na raia ao lado nadando à toda velocidade e levantando água e parte dessa água vai pra sua boca e nem sempre dá tempo de cuspir. É nojento, eu sei, mas acontece. Engoli um cadinho de água mijada hoje. Dei uma tossida de leve e continuei a nadar, fingindo que nada tinha acontecido, mas então refleti sobre o momento que to vivendo e fiz uma analogia com essa cena. Tem meses que eu me sinto exatamente assim, como se tivesse tentando emergir para respirar e alguém, nesses exatos momentos, joga um balde d’água que me faz engasgar e buscar, desesperadamente, por um ar que não vem. É um tanto desesperador ficar sem ar. Coincidentemente, ontem mesmo, antes de dormir, eu revi Total Recall. Quando assistia a esse filme quando criança sempre me impressionava o efeito que deram para os rostos dos atores quando ficam sem ar em Marte; os olhos esbugalhados, o rosto distorcido e o som gutural que saía da garganta deles. Eu me pergunto se meu rosto tem transparecido pro mundo essa minha falta de ar.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Já faz um tempo que estou com um desejo de voltar a blogar. Quase já não consigo mais acompanhar blog nenhum, e duvido que alguém vá conseguir acompanhar o meu, os tempos são outros, e também não vou avisar ninguém dos textos daqui; piada interna para eu descobrir quem passou por aqui e viu que voltei a usar o site. <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f609.png" alt="😉" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /></p>



<p>Ao contrário do <a href="http://www.roney.com.br">meu melhor amigo</a>, não tenho mais registro nenhum dos meus antigos blogs e textos. Apaguei tudo. Acho que a última vez foi em 2017. Ao contrário dele, eu só falava besteira e não escrevia nada que prestasse. Não vai ser muito diferente agora, minha intenção com o blog continua sendo ‘escrever enquanto existo’, e não para performar. Se eu tivesse que pensar para escrever aqui, provavelmente não decidiria voltar.</p>



<p>Besides, eu já tenho um espaço para <a href="http://vivimaurey.substack.com">filosofar e podcast</a>ar para fingir que sou esperta. <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f609.png" alt="😉" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Aqui eu quero apenas pensar em voz alta. Ter um cantinho, o meu cantinho, livre de expectativas. E nada de rede social, escrava de algoritmos. Esse é um espaço meu &lt;3, e eu poderia até fazer umas doideiras, se eu tivesse aprendido a CSSar direito. Sem pânico, a gente usa os plugins do WordPress e tá tudo certo.</p>



<p>Mas por que blogar agora, ainda mais numa fase tão difícil de muito trabalho e pouco espaço para lazer e para descansar a mente? Exatamente por isso, meu caro Watson. Estou estafada, exausta, esgotada, cansada de tudo e mais um pouco, trabalhando solo e fazendo o que antes faziam 5 pessoas; e nenhum momento melhor que esse para recalibrar através do desabafo blogal enquanto pratico desapego intelectual. </p>



<p>Entre braçadas na natação hoje, experimentei algo que provavelmente todo nadador já experimentou: você ergue a cabeça e abre a boca pra respirar e justamente naquela hora tem alguém na raia ao lado nadando à toda velocidade e levantando água e parte dessa água vai pra sua boca e nem sempre dá tempo de cuspir. É nojento, eu sei, mas acontece. Engoli um cadinho de água mijada hoje. </p>



<p>Dei uma tossida de leve e continuei a nadar, fingindo que nada tinha acontecido, mas então refleti sobre o momento que to vivendo e fiz uma analogia com essa cena. Tem meses que eu me sinto exatamente assim, como se tivesse tentando emergir para respirar e alguém, nesses exatos momentos, joga um balde d’água que me faz engasgar e buscar, desesperadamente, por um ar que não vem.  </p>



<p>É um tanto desesperador ficar sem ar. Coincidentemente, ontem mesmo, antes de dormir, eu revi Total Recall. Quando assistia a esse filme quando criança sempre me impressionava o efeito que deram para os rostos dos atores quando ficam sem ar em Marte; os olhos esbugalhados, o rosto distorcido e o som gutural que saía da garganta deles. </p>



<p>Eu me pergunto se meu rosto tem transparecido pro mundo essa minha falta de ar.</p>
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		<title>Enquanto eu estiver viva</title>
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		<dc:creator><![CDATA[vivimaurey]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Feb 2026 09:37:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diário de uma escritora]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
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					<description><![CDATA[Arrependimentos, penso eu, são uma forma estéril de ocupar o tempo, e não costumo trilhar esse caminho. Ainda assim, às vezes penso que gostaria de ter gravado, em áudio ou por escrito, as histórias de vida que minha mãe contava: histórias de viagens e encontros, de romances e desencontros, de dor e de saudade, de esperança e ingenuidade. Minha mãe era uma mulher bonita e profundamente vulnerável, e essa combinação dava às suas narrativas um brilho peculiar.]]></description>
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<p>Soube recentemente que uma das grandes amigas da minha mãe faleceu no fim do ano passado, e que o seu marido — também ele um grande amigo da minha mãe — enfrenta um câncer em estágio avançadíssimo, vivendo agora os seus últimos meses. Conheci-os quando ainda era bebê. Os Natais passavam-se na casa da Tia Ana e do Tio Toninho; eram presenças constantes, estruturais, da minha infância. Era com Toninho que minha mãe cantava New York, New York em bares, num tempo menos avesso ao improviso. Cresci sob a convivência constante deles. No entanto, nos anos finais da Tia Ana, estive ausente. E essa ausência, ainda que não reclamada por ninguém, pesa um pouquinho.</p>



<p>Há dias, o meu melhor amigo disse-me uma frase de uma simplicidade surpreendente: enquanto eu estiver viva, minha mãe também estará. Somos nós que carregamos as lembranças e a história daqueles que já não estão aqui, não é mesmo? Essa ideia, aparentemente tão clara, conduziu-me a um pensamento dolorido: a Tia Ana levava consigo uma quantidade imensa de histórias partilhadas com a minha mãe… histórias que, com a sua morte, deixaram de existir. Não foram esquecidas; foram extintas.</p>



<p>Arrependimentos, penso eu, são uma forma estéril de ocupar o tempo, e não costumo trilhar esse caminho. Ainda assim, às vezes penso que gostaria de ter gravado, em áudio ou por escrito, as histórias de vida que minha mãe contava: histórias de viagens e encontros, de romances e desencontros, de dor e de saudade, de esperança e ingenuidade. Minha mãe era uma mulher bonita e profundamente vulnerável, e essa combinação dava às suas narrativas um brilho peculiar.</p>



<p>Ela viveu trinta e sete anos antes de eu surgir na sua vida. Tenho agora pouco mais de trinta e sete, e essa coincidência numérica me oferece uma perspectiva. Imagino quantas histórias ela acumulou ao longo de setenta e cinco anos; quantas delas jamais conhecerei, quantas pertenciam a um tempo partilhado com pessoas que talvez também já tenham desaparecido.</p>



<p>Sempre me atraíram as histórias que narram o momento inicial dos encontros, quando tudo ainda é uma página em branco e a conexão entre as pessoas ainda está sendo construída, lentamente, com cuidado e tempo. Não podemos lembrar do instante em que conhecemos nossos pais, do primeiro olhar, do primeiro sorriso. Não consigo acessar a memória do abraço da minha mãe quando eu ainda era um bebê. Essa imagem permanece fora do meu alcance, como tantas outras.</p>



<p>Por isso, se você conheceu minha mãe, faço-lhe um convite aqui: conte-me essa história. Ajude-me a mantê-la viva por mais um pouco de tempo.</p>
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		<title>A falta que me faz ser filha</title>
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		<dc:creator><![CDATA[vivimaurey]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2025 22:45:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diário de uma escritora]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
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					<description><![CDATA[Sinto uma falta tremenda da minha mãe… e às vezes não é somente pelos motivos óbvios, às vezes é por puro egoísmo. Porque, mais do que ter uma mãe, eu ainda queria ser filha; queria poder ligar pra ela e chorar pelas coisas que me deixam aflita; queria ter sua atenção totalmente dedicada a mim enquanto eu lhe conto as novidades e partilho as vitórias e os tropeços. Queria ouvir que ela me ama mais que tudo nesse mundo e que, não importa o que eu decida fazer, sempre terei o seu apoio. Sinto falta de ter uma âncora, de uma sabedoria maior, de um talismã mágico materno que nos tranquiliza na hora de dormir. Eu choraria e diria estar cansada, e ela encontraria as palavras para me fortalecer. Eu sorriria e diria estar feliz, e ela daria um jeito de me creditar pelo meu sucesso, isentando-se generosamente de tudo o que fez por mim para que eu chegasse até onde cheguei. Sinto falta de um espaço seguro para falar de medos infantis; de monstros dentro do armário. De inseguranças prosaicas e covardias fúteis. De não precisar endurecer a voz nem maquiar o texto. De poder errar na vírgula e ter a liberdade semântica dos inocentes. De ter inocência. A falta que me faz essa ilha… um lugar onde eu pudesse ancorar durante as tempestades e não precisar ser adulta o tempo todo. Poder me permitir ser criança por alguns minutos: fazer de conta, me enfiar debaixo de sua asa, deixar que a responsável abra a porta e resolva enquanto eu posso me esconder atrás dela ou ir pro quarto brincar com meus brinquedos. Que saudade que eu tenho de ouvir sua voz e saber que, no fundo, eu não estou sozinha. Com ela, eu ainda podia ser egoísta, querer tudo isso e ainda ser filha… e ela, minha mãe. Sem isso, sou só um barco à deriva, buscando eternamente pela luz guia de um farol que já não existe. Já não tenho mais lacuna para ser criança. Já não há intermitências na vida adulta. A falta que me faz ser filha.]]></description>
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<p>Sinto uma falta tremenda da minha mãe… e às vezes não é somente pelos motivos óbvios, às vezes é por puro egoísmo. Porque, mais do que ter uma mãe, eu ainda queria ser filha; queria poder ligar pra ela e chorar pelas coisas que me deixam aflita; queria ter sua atenção totalmente dedicada a mim enquanto eu lhe conto as novidades e partilho as vitórias e os tropeços. Queria ouvir que ela me ama mais que tudo nesse mundo e que, não importa o que eu decida fazer, sempre terei o seu apoio.</p>



<p>Sinto falta de ter uma âncora, de uma sabedoria maior, de um talismã mágico materno que nos tranquiliza na hora de dormir. Eu choraria e diria estar cansada, e ela encontraria as palavras para me fortalecer. Eu sorriria e diria estar feliz, e ela daria um jeito de me creditar pelo meu sucesso, isentando-se generosamente de tudo o que fez por mim para que eu chegasse até onde cheguei.</p>



<p>Sinto falta de um espaço seguro para falar de medos infantis; de monstros dentro do armário. De inseguranças prosaicas e covardias fúteis. De não precisar endurecer a voz nem maquiar o texto. De poder errar na vírgula e ter a liberdade semântica dos inocentes. De ter inocência.</p>



<p>A falta que me faz essa ilha… um lugar onde eu pudesse ancorar durante as tempestades e não precisar ser adulta o tempo todo. Poder me permitir ser criança por alguns minutos: fazer de conta, me enfiar debaixo de sua asa, deixar que a responsável abra a porta e resolva enquanto eu posso me esconder atrás dela ou ir pro quarto brincar com meus brinquedos.</p>



<p>Que saudade que eu tenho de ouvir sua voz e saber que, no fundo, eu não estou sozinha.</p>



<p>Com ela, eu ainda podia ser egoísta, querer tudo isso e ainda ser filha… e ela, minha mãe. Sem isso, sou só um barco à deriva, buscando eternamente pela luz guia de um farol que já não existe.</p>



<p>Já não tenho mais lacuna para ser criança. Já não há intermitências na vida adulta.</p>



<p>A falta que me faz ser filha.</p>
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