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<lastBuildDate><![CDATA[Thu, 12 Nov 2009 01:13:35 GMT]]></lastBuildDate>
<title><![CDATA[Rascunho]]></title>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net]]></link>
<description><![CDATA[Crónicas Rascunho.net]]></description>
<atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" href="http://feeds.feedburner.com/cronicasrascunho" type="application/rss+xml" /><feedburner:browserFriendly></feedburner:browserFriendly><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="hub" href="http://pubsubhubbub.appspot.com" /><item>
<title><![CDATA[Estaleiro]]></title>
<description><![CDATA[<img src='http://www.rascunho.net/img/ana_salome-cronica_r.jpg'><br /><i>«Fazendo fórmulas exactas para o tempo em que deveria intervir»</i><br /><br /><p>O estaleiro ficava ainda
a um estic&atilde;o. Embrenharam-se naquela noite, como que por sobre ela, porque os
seus passos n&atilde;o se faziam ouvir. As lojas de santos seguiam-se &agrave;s lojas com
artigos f&aacute;licos, como a Casa das Bananas, que se seguiam &agrave;s lojas de roupas e a
caf&eacute;s que mais pareciam tocas de homens que fugiam &agrave; companhia das suas
mulheres fl&aacute;cidas e tristes que ficavam nas casas &agrave; espera. Uns ficavam l&aacute;
dentro e confundiam-se com o cheiro a cervejas servidas umas atr&aacute;s das outras e
outros vinham para fora limpar os dentes com palitos dos pratinhos de salgados.
Os que vinham c&aacute; fora j&aacute; n&atilde;o sabiam o que era o frio e nos olhos traziam todas
as nuvens das suas hist&oacute;rias de vida. As m&atilde;os que trabalhavam pesado durante o
dia queriam de noite agarrar a cintura a qualquer mocinha que pela porta do
caf&eacute; passasse, menos a de suas mulheres fl&aacute;cidas e tristes que ficavam em casa
&agrave; espera. Enquanto um ou dois desses homens escarravam para o ch&atilde;o, os dois
amigos avan&ccedil;avam mais um quarteir&atilde;o com passos precisos.</p>
<p class="MsoNormal"><span>&nbsp;</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>A porta vermelha e
escarafunchada, com uma cancela de ferro forjado trabalhado que dava at&eacute; meia
altura da porta, convidava &agrave; entrada. Alguns rapazes acendiam uns cigarros
maquinalmente, resguardando o fogo com a m&atilde;o. O amigo iluminando tamb&eacute;m um,
subia as escadas a pensar. Ela interrompeu a subida comentando que aquela ideia
de escrever um poema nas paredes ao longo das escadas fora perfeita, e, com as
suas m&atilde;os, ia passando por todas as letras do poema, como se s&oacute; assim o pudesse
sentir plenamente, interrompendo-lhe n&atilde;o s&oacute; a passada, mas, sobretudo, o
pensamento.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>&nbsp;</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>Come&ccedil;avam j&aacute; a sentir-se
os burburinhos do espa&ccedil;o de caf&eacute;, no primeiro piso. A um canto, no fim, ou no
come&ccedil;o, do poema, ele. Ele a discursar sobre algo que, pelo semblante, a ela
lhe parecia sublime. Naquela altura sentia-se como um daqueles estudantes de
Coimbra que via o Santo, no seu traje negro, a pregar sobre literatura e
pol&iacute;tica &agrave; luz incandescente de raios e de um luar mal posto. Com as suas
palavras levaria todas aquelas almas &agrave; rendi&ccedil;&atilde;o ou &agrave; perdi&ccedil;&atilde;o. Bastava-lhe
escolher o caminho por onde os levar. A inquietude que se via no rosto
espalhava-se por toda a sala, atrav&eacute;s da voz. Apaixonada, por&eacute;m, de uma
estranha calma tamb&eacute;m. Apenas os olhos, rasgados e escuros, do tamanho de
crep&uacute;sculos, faziam pressentir um cora&ccedil;&atilde;o ardente, mesmo nas coisas geladas,
como numa trag&eacute;dia grega. Assim o via, naquela mesa, destacado num fumo suave
que ia tornando aos poucos o andar irrespir&aacute;vel. N&atilde;o havia raios que
iluminassem o momento, mas ela juraria que sim. Acordou daquela passividade com
um pux&atilde;o brusco no bra&ccedil;o. <em>Vamos?</em></span></p>
<p class="MsoNormal"><span>&nbsp;</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>Sentaram-se com os
devidos cumprimentos. Ela estendia a m&atilde;o, vigorosamente, enquanto todos
estranhavam aquela atitude d&uacute;bia com um sorriso ao canto da boca. Alguns
ocupavam o sof&aacute; embutido na parede. Cabedal cor-de-vinho, &agrave; moda antiga, com
bot&otilde;es redondos e pregados no espaldar, da mesma cor dos pequen&iacute;ssimos azulejos
que jogavam com outros mais azuis numa fileira que encimava os sof&aacute;s, por todas
as paredes que contornavam o andar do caf&eacute; e que, assim, davam um ar completamente
escavacado e fragmentado &agrave;quele espa&ccedil;o. Ela baixava os olhos, s&oacute; de vez em
quando os fazia levantar para um grande espelho que iluminava a entrada. Aos
cantos desse espelho lascas de ferrugem, como se o tempo o tivesse esgravatado
h&aacute; muito tempo. E, no meio dele, ele, como num retrato antigo. Serviram os
ch&aacute;s, os aromas, queijadas e queques, da forma das madalenas de Proust. Algumas
cervejas de garrafa tamb&eacute;m. O amigo fazia-lhe gestos com os olhos, instigando-a
com um leve toque de censura, a falar sobre o que os tinha levado at&eacute; ali. Sabia
bem que, &agrave;s vezes, ela estagnava e fechava-se em copas em situa&ccedil;&otilde;es semelhantes
&agrave;quela. Conversas de caf&eacute; com muitas pessoas novas reunidas era coisa que,
quando a desconfortava, se para a&iacute; n&atilde;o estivesse virada, s&oacute; ami&uacute;de a fazia
pronunciar uns sons que mais se assemelhavam a um clarear de garganta de <em>primadona</em> amuada.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>&nbsp;</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>Ele, por&eacute;m, rompeu o mar
de m&atilde;os e de conversas paralelas, e apresentou-se. Estendeu-lhe a m&atilde;o, no
seguimento do gesto anterior dela. Ela, sem antes sentir silenciar tudo em
redor do nome, disse-lhe o dela. </span><span lang="EN-US">&Eacute; um nome
problem&aacute;tico, comentou ele.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>&nbsp;</span></p>
<p>A cara empalidecia enquanto os cabelos ficaram de repente mais negros,
mais vermelhos, com a brusquid&atilde;o da pergunta <em>Porqu&ecirc;?</em>, quase desesperada.
Ambos sabiam a hist&oacute;ria b&iacute;blica, ambos viam a cabe&ccedil;a na bandeja de prata e
antes a limpidez das &aacute;guas do rio Jord&atilde;o, tamb&eacute;m viam o ventre que dan&ccedil;ava a um
ponto de lux&uacute;ria quase insuport&aacute;vel, o assassinato na casa pequena, o milagre,
dois le&otilde;es num quadro. Ele fez um sinal &oacute;bvio com o qual rematou aquele
pre&acirc;mbulo e sorriu. Ela contorceu as m&atilde;os, debaixo da mesa, e amarrotou a saia.
<em>Que desastre que eu sou. Vou tentar controlar-me</em>. E assim, ia medindo as
suas palavras, equacionando as dele, as dos outros, fazendo f&oacute;rmulas exactas
para o tempo em que deveria intervir. <em>&Eacute; melhor calar-me agora. Sim, agora.</em> E justificava o seu sil&ecirc;ncio, nessa altura, com um sorriso pouco esclarecedor e
virava-se para ele sem se aperceber, procurando-lhe a transpar&ecirc;ncia dos olhos. Tudo
em instantes de instantes de eternidade, para se fixar depois na janela. Era
v&iacute;cio que lhe ficara de pequena. A fuga. Conseguia ver mesmo daquele ponto da
sala a zona para que dava a janela. Parecia um po&ccedil;o feito do espa&ccedil;o que sobrava
entre o pr&eacute;dio do estaleiro e o do lado. Aqueles pr&eacute;dios, de quatro andares no
m&aacute;ximo, eram esguios, dando a sensa&ccedil;&atilde;o de que a qualquer momento o vento ou
gruas poderiam faz&ecirc;-los ruir. Era a parte do terra&ccedil;o. Um quadrado de ch&atilde;o, um
v&aacute;cuo, que na altura servia de lixeira, ou, ao menos, assim lhe parecia. As
ervas daninhas trepavam na esperan&ccedil;a de sentirem algum sol, mesmo de noite &ndash; e
ningu&eacute;m lhes tirava a esperan&ccedil;a. E a um canto qualquer daquela revolu&ccedil;&atilde;o
intratada uma bicicleta sem pneus, sem brilho, sem vida. Mesmo assim, uma bicicleta.
Ela ainda se perguntou se aquele desarranjo todo n&atilde;o seria mais uma pe&ccedil;a de
arte contempor&acirc;nea, <em>na&iuml;f</em>, como havia nas salas de exposi&ccedil;&atilde;o do
estaleiro, porque estava extremamente iluminada ou seria dos seus olhos? Para
ela era arte que ali estava. E apetecia-lhe roubar a bicicleta, como no livro
da Simone de Beauvoir, em que uma pintora pegou numa bicicleta verde por mero
capricho. Aquela ideia come&ccedil;ava a inebri&aacute;-la at&eacute; que algo, de novo na mesa, a
fez despertar com estremecimento. Ele fumava e dirigia-lhe a palavra, com uma
m&atilde;o sobre o seu joelho. <em>Onde estavas?</em> A palavra que agitava sangue e
mais al&eacute;m.</p>]]></description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/cronica.php?id=233]]></link>
<author><![CDATA[Ana Salomé]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-11-11 11:56:55]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Muro que caiu, e o que o esquecimento levanta]]></title>
<description><![CDATA[<img src='http://www.rascunho.net/img/alex_gamela-cronica_r.jpeg'><br /><i>«A História pode e deve ser rentabilizada pelos media em geral, os digitais em particular»</i><br /><br /><p>1989 &eacute; um ano m&aacute;gico na hist&oacute;ria do s&eacute;culo XX. Era o
princ&iacute;pio do fim de d&eacute;cadas de bipolariza&ccedil;&atilde;o mundial, da Guerra Fria. Tiananmen
em Maio, a queda do Muro de Berlim em Novembro, foram os dois momentos que
marcaram o panorama informativo desse ano.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">A noite que o Muro caiu ficou sempre comigo. Na velha
televis&atilde;o a preto e branco l&aacute; de casa, e que j&aacute; dava as &uacute;ltimas, vi o mundo a
mudar para sempre, pessoas felizes a deitar abaixo o s&iacute;mbolo que definia aquela
&eacute;poca, mas tamb&eacute;m o cen&aacute;rio tr&aacute;gico de v&aacute;rias tentativas de fuga para a
liberdade. Incid&ecirc;ncias hist&oacute;rico-pol&iacute;ticas &agrave; parte, este &eacute; um dos meus momentos
favoritos nas not&iacute;cias enquanto crescia. A televis&atilde;o era o meio que nos
permitia ter acesso a estes momentos, que aproximava as diferentes realidades,
transformando o planeta num s&iacute;tio mais pequeno.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Vinte anos depois, o mundo n&atilde;o &eacute; s&oacute; mais pequeno, mas acima
de tudo, interligado. N&atilde;o posso deixar de pensar como seria a queda do Muro de
Berlim com as tecnologias de hoje: seria semelhante ao fen&oacute;meno das
manifesta&ccedil;&otilde;es do Ir&atilde;o, com relatos das ruas e imagens partilhadas por quem
estava l&aacute;; seria comentado amplamente por todos os blogues e a tag <em>#BerlinWall</em> seria a maior <em>trend</em> no Twitter; no Facebook os grupos que apoiavam a
queda do Muro e a liberta&ccedil;&atilde;o do povo de Leste estariam a aumentar
exponencialmente, porque h&aacute; sempre algu&eacute;m que quer mostrar que apoiava a causa
depois do facto consumado. Em poucos minutos haveria peda&ccedil;os de bet&atilde;o &agrave; venda
online, com a indica&ccedil;&atilde;o de que viriam do Muro.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Dos dois lados da barreira, utilizadores combinariam
encontrar-se para conhecer em pessoa os seus amigos/seguidores/f&atilde;s que
mantinham na sua rede de contactos e que o Muro separava, e a experi&ecirc;ncia seria
partilhada em tempo real, que &eacute; a express&atilde;o que substitui o &laquo;directo&raquo;
televisivo. Os sites informativos iriam passar a noite &agrave; pesca de relatos na
primeira pessoa, sem enviarem um &uacute;nico jornalista para o local. Em poucas
horas, ter&iacute;amos slideshows, infografias, mashups, com a hist&oacute;ria e as est&oacute;rias
do Muro. E todos ter&iacute;amos um olho na televis&atilde;o, e outro no computador, pelo
menos no in&iacute;cio. Depois deix&aacute;vamo-nos levar pela discuss&atilde;o com os outros,
porque &eacute; muito mais interessante fazer parte do que rodeia o acontecimento, do
que assistir passivamente no sof&aacute; ao seu desenvolvimento. Resultou durante
muitos anos, mas j&aacute; n&atilde;o &eacute; suficiente.</p>
<p class="MsoNormal">Mas foram precisas duas d&eacute;cadas para chegar onde estamos, a
uma Europa unida, e &agrave; sociedade digital, virtualmente sem barreiras. O que me
preocupa &eacute; a impot&ecirc;ncia dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, especialmente os com mais
hist&oacute;ria, em dar valor &agrave; pr&oacute;pria Hist&oacute;ria, da qual o jornalismo &eacute; o seu
primeiro esbo&ccedil;o. Deve haver quem nasceu em 89 que n&atilde;o sabe porque &eacute; que houve
um Muro de Berlim, nem porque &eacute; que a sua queda &eacute; t&atilde;o importante. Ali&aacute;s, na
minha pr&oacute;pria gera&ccedil;&atilde;o h&aacute; quem nem fa&ccedil;a ideia que isto aconteceu, e estou a
falar de gente com forma&ccedil;&atilde;o dita superior.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Por isso, acho que a Hist&oacute;ria pode e deve ser rentabilizada
pelos media em geral, os digitais em particular. N&atilde;o s&atilde;o <em>breaking news</em>,
mas podem agregar tanta ou mais aten&ccedil;&atilde;o e durante mais tempo. Vamos chamar-lhes
<em>restoring news</em>, j&aacute; que ajudam a recuperar algo que cada vez mais
negligenciado pelo jornalismo: a mem&oacute;ria. Sem se compreender o passado, nunca
se poder&aacute; compreender o futuro, e, definitivamente, os jornalistas s&atilde;o os
historiadores do presente, os facilitadores da nossa compreens&atilde;o do mundo. O
esquecimento &eacute; um muro por si s&oacute;.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Na recupera&ccedil;&atilde;o do que foi essa noite m&aacute;gica de h&aacute; 20 anos,
dos media portugueses que vi s&oacute; tr&ecirc;s quiseram ir para al&eacute;m dos formatos
tradicionais: o <em><a href="http://jn.sapo.pt/multimedia/infografia.aspx?content_id=1412830" target="_blank">JN</a></em> tem uma infografia, o <em><a href="http://dn.sapo.pt/galerias/fotos/?content_id=1414148&amp;seccao=Globo" target="_blank">DN</a></em> e o <em><a href="http://www.ionline.pt/ifotogaleria/31601-21389-muro-berlim-noite-que-marcou-queda-um-imperio" target="_blank">i</a></em> galerias de fotos. &Eacute; muito pouco, com todas as
possibilidades que hoje est&atilde;o ao dispor, para mostrar a quem n&atilde;o sabe, que o
mundo que tomamos por adquirido era t&atilde;o diferente h&aacute; t&atilde;o pouco tempo atr&aacute;s.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p>
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</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&laquo;In fact future generations may very well point to this night and say: that was the night the Cold War really ended&raquo;</p>]]></description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/cronica.php?id=232]]></link>
<author><![CDATA[Alexandre Gamela]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-11-09 11:43:58]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Cais das colunas]]></title>
<description><![CDATA[<img src='http://www.rascunho.net/img/ana_salome-cronica_r.jpeg'><br /><i>«As minhas mãos nasceram para se espraiarem sobre o que amo»</i><br /><br /><p class="MsoNormal">Desconhe&ccedil;o a origem do encanto que dan&ccedil;a sobre tudo o que
vejo. Serei imprecisa se me propuser a falar sobre a superf&iacute;cie &ndash; e, note-se,
apenas a superf&iacute;cie &ndash; desse encanto. N&atilde;o &eacute; s&oacute; o contraste da brancura violenta
das gaivotas com o grasnar luminoso que v&atilde;o largando na rasura e no inquietante
debicar das &aacute;guas; nem s&oacute; daqueles bra&ccedil;os para sempre abertos a sugerir um
abra&ccedil;o que n&atilde;o foi dado &ndash; ou ter&aacute; sido, de outra forma, secretamente? &ndash;; n&atilde;o s&oacute;
tamb&eacute;m do apitar solene e denso dos barcos pesando nas nossas vozes
equidistantes, Gil Vicente, entre Outros, a bulir com cabelos prateando-me o
olhar pelas cabe&ccedil;as idosas contra o sorriso onde todos &ndash; assim acontece &ndash;
deca&iacute;mos, que algu&eacute;m, sentado num degrau, o terceiro a contar de cima &ndash; eu
estou num dos banco templ&aacute;rios &agrave; esquerda &ndash;, se esfor&ccedil;a por dar como que em
esperan&ccedil;a &ndash; toda a esperan&ccedil;a adv&eacute;m do encanto rubro &ndash;, de certo modo tamb&eacute;m eu
a tenho; nem s&oacute; &ndash; prossigamos &ndash; o com&iacute;cio de peixes amontoados a flutuar a
mil&iacute;metros da fronteira onde o ar come&ccedil;a, junto do pared&atilde;o azul&iacute;neo que espera
o sangue de algum embate, como se fosse deles o destino das ondas serem assim,
e por agora, somenos suaves do que as das minhas palavras por dizer, na
ambiguidade que aceita um pouco &ndash; e s&oacute; um pouco &ndash; a vis&atilde;o do encanto onde,
neste preciso momento, se descal&ccedil;a a velha amorosamente pobre em segundo
degrau, com os p&eacute;s no mesmo terceiro daquele algu&eacute;m cujo sorriso j&aacute; saboreou a
desist&ecirc;ncia.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Pod&iacute;amos estar na Gr&eacute;cia, num bote de salvamento assomando entre as duas
colunas marm&oacute;reas, enfarpeladas pela subtileza do lodo e das bact&eacute;rias de uma
excedente felicidade que por a&iacute; anda a vogar longe de n&oacute;s, se n&atilde;o f&ocirc;ssemos
modernos. Estamos aqui onde Cardoso Pires bebeu a sua douradora cerveja junto
dos cacilheiros, num lugar de citadino desejo, melhor &ndash; deixem-me corrigir &ndash;,
empenho, de contempla&ccedil;&atilde;o multiplicada e dispersa, demasiado vaga.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Tamb&eacute;m podia ser o rio, bastava querer, que amea&ccedil;a partir com a nuvem mais
al&eacute;m. Podia deixar-me ficar como o arrepio de massa esp&uacute;mea em ac&ccedil;&atilde;o demorada,
j&aacute; que as minhas m&atilde;os nasceram para se espraiarem sobre o que amo; mas h&aacute; ainda
a circunst&acirc;ncia solar marcada para um dia depois, a uma hora &ndash; quem saber&aacute;? &ndash;
imposs&iacute;vel, da qual vi apenas um vislumbre, retendo-se na semicerra&ccedil;&atilde;o
boquiaberta das tuas p&aacute;lpebras principais. Essa &eacute; a hist&oacute;ria de um sol
esperante no cimo da noite e que se p&otilde;e a escutar o volume do deslumbre do
nosso tempo no rio. E j&aacute; cifro, j&aacute; me estabele&ccedil;o em tudo como s&iacute;mbolo que corre
nos pulsos, um infinito qualquer que inventaram na primordialidade do nosso
nascimento e da nossa morte. Criaram-se para n&oacute;s cardumes diferentes, outras
frotas, outras pontes f&eacute;rreas, outras m&atilde;os que sejam absolutamente nossas sobre
os ombros &ndash; movimento de explica&ccedil;&atilde;o descoordenado &ndash;, como roupa igual. Falar de
amor agora seria o mesmo que n&atilde;o falar de amor &ndash; agora ou depois ou, vejamos,
antes at&eacute;. &Eacute; escusado, pois &eacute; acontecido. Falar de factos &eacute; tarefa que nos
desagrada sobejamente. Assim, estou aqui no cais &agrave; espera que se movam os
bancos &ndash; bancos de namoro &agrave;s escondidas em janelas de mosteiros &ndash; da pedra da
minha contempla&ccedil;&atilde;o at&eacute; ficar na posi&ccedil;&atilde;o solar certa para que vejas, por dentro
do sil&ecirc;ncio, o principiar da &aacute;gua imensa que nos junte os reflexos de anjos
ancorados.</p>]]></description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/cronica.php?id=231]]></link>
<author><![CDATA[Ana Salomé]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-11-04 09:13:44]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Duas semanas, fins e princípios]]></title>
<description><![CDATA[<img src='http://www.rascunho.net/img/alexandre_gamela.jpg'><br /><i>«Em duas semanas aconteceram algumas coisas interessantes relacionadas com os media e o jornalismo»</i><br /><br /><p>Antes de mais tenho que pedir desculpa por ter falhado com o
caderno a semana passada, mas foi imposs&iacute;vel ter tempo para tudo, mal consegui
acompanhar o que se passa em Portugal. E em duas semanas aconteceram algumas
coisas interessantes relacionadas com os media e o jornalismo.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">A primeira men&ccedil;&atilde;o vai para o fim do jornal <em><a href="http://semanario.pt/" target="_blank">Seman&aacute;rio</a></em>. Na bolsa de apostas dos jornais que iriam
encerrar primeiro, esta publica&ccedil;&atilde;o nem vinha assinalada, pois estava arredada
dos seus tempos de gl&oacute;ria. Talvez fosse porque esteve sempre conotado com uma
linha ideol&oacute;gica definida, e n&atilde;o fosse visto como uma refer&ecirc;ncia do jornalismo
nacional. De qualquer forma, acabou, e &eacute; um de muitos que continuar&atilde;o a
desaparecer nos pr&oacute;ximos tempos. Aceitam-se apostas para a pr&oacute;xima publica&ccedil;&atilde;o a
fechar as portas.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Jos&eacute; Manuel Fernandes abandonou o seu cargo de editor no <em>P&uacute;blico</em>, sendo acusado de ter usado o
jornal como um ve&iacute;culo contra o governo. Isso n&atilde;o sei, porque n&atilde;o compro o <em>P&uacute;blico</em>, que foi o meu jornal enquanto
estudei jornalismo na universidade, ainda no s&eacute;culo passado, mas que
regularmente me foi desiludindo nas op&ccedil;&otilde;es editoriais que tomava. Cheguei mesmo
a ler reportagens onde os factos foram distorcidos apenas para criar efeito, e
recordo-me particularmente de um caso que envolveu pessoas que fazem parte do
meu c&iacute;rculo de amigos, o que me permitiu esclarecer alguns pormenores, e
perceber at&eacute; que ponto essa reportagem era uma treta pegada. O que ainda admiro
no <em>P&uacute;blico</em> &eacute; a sua presen&ccedil;a online, e
se n&atilde;o &eacute; o meu jornal em papel &eacute; o meu definitivamente na net.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Num <a href="http://publico.pt/1407731" target="_blank">editorial
apontado &agrave; mudan&ccedil;a</a>, l&ecirc;-se: &laquo;N&atilde;o serviremos governos, nem procuraremos
certificados de bom comportamento&raquo;. Pois, n&atilde;o ser&aacute; definitivamente essa a
fun&ccedil;&atilde;o de nenhum jornal, nem dos profissionais que nele trabalham. A nova
direc&ccedil;&atilde;o tem que lidar n&atilde;o s&oacute; com os erros do passado, mas tamb&eacute;m com as
mudan&ccedil;as todas que a imprensa est&aacute; a atravessar. Felizmente, o <em>P&uacute;blico</em> &eacute; dos jornais portugueses que
melhor t&ecirc;m sabido adaptar-se &agrave;s novas realidades. E para se aferir do prest&iacute;gio
que tem, ainda &eacute; o jornal para que muitos jovens estudantes de jornalismo
gostariam de ir trabalhar um dia. Eu tamb&eacute;m gostava, confesso.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Mas quem quer trabalhar depois do curso, tem que estagiar,
muitas vezes para empresas que t&ecirc;m vivido &agrave; conta de estagi&aacute;rios, que se
empenham por per&iacute;odos de tr&ecirc;s meses para serem substitu&iacute;dos por outros, num
ciclo perp&eacute;tuo e viciado. As ajudas de 150 euros por m&ecirc;s at&eacute; s&atilde;o um incentivo,
mas se virmos bem, estes est&aacute;gios n&atilde;o s&atilde;o oportunidades de aprendizagem, mas
uma forma diferente de explora&ccedil;&atilde;o, e de n&atilde;o cria&ccedil;&atilde;o de postos de trabalho
efectivos. O <a href="http://www.cargadetrabalhos.net/" target="_blank">cargadetrabalhos.net </a>&nbsp;sempre foi um dos sites que recomendei e usei na procura de emprego
na &aacute;rea dos media, mas nos &uacute;ltimos tempos era vergonhoso ler alguns dos
an&uacute;ncios que por l&aacute; passavam: est&aacute;gios n&atilde;o remunerados que podiam durar at&eacute; um
ano a exigir superjornalistas, experientes e sem vida pessoal; os mesmos
an&uacute;ncios das mesmas duas ou tr&ecirc;s empresas a anunciar est&aacute;gios de tr&ecirc;s meses
para os mesmos cargos de tr&ecirc;s em tr&ecirc;s meses, entre outras &laquo;ofertas&raquo;
habilidosas.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Os respons&aacute;veis do carga <a href="http://www.cargadetrabalhos.net/2009/10/28/estagios-no-carga-de-trabalhos/" target="_blank">decidiram mudar a sua pol&iacute;tica</a> de an&uacute;ncios de est&aacute;gios, num
gesto que merece ser louvado e apoiado. E se algu&eacute;m quiser criar uma lista
negra das empresas de comunica&ccedil;&atilde;o que incorrem neste tipo de esquemas, eu sou o
primeiro a apoiar. J&aacute; trabalhei para intruj&otilde;es suficientes para ter gosto em
expor algumas das vergonhas que se passam no mercado de trabalho de comunica&ccedil;&atilde;o
em Portugal. &Eacute; preciso ter princ&iacute;pios e combater os espertalh&otilde;es que n&atilde;o os
t&ecirc;m.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Aqui por onde ando, o jornal de refer&ecirc;ncia da cidade, o <em><a href="http://www.birminghampost.net/" target="_blank">Birmingham Post</a></em>, vai deixar de ser di&aacute;rio e passar a
seman&aacute;rio, para compensar a perda de 6 milh&otilde;es de libras at&eacute; 2010, tendo sido
despedidas 40 pessoas da redac&ccedil;&atilde;o. Ou seja, n&atilde;o pensem que a&iacute; se est&aacute; pior.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Tudo isto em apenas duas semanas. Vou tentar n&atilde;o falhar
outra vez.</p>]]></description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/cronica.php?id=230]]></link>
<author><![CDATA[Alexandre Gamela]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-11-02 09:33:39]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Órbita]]></title>
<description><![CDATA[<img src='http://www.rascunho.net/img/ana_salome-cronica_r.jpeg'><br /><i>«Porquê desmenti-lo? A escrita é um desvio de pensamento das leituras»</i><br /><br /><p>&Eacute; noite, chove muito, oi&ccedil;o uma composi&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica para
piano que acompanha o gotejar no terra&ccedil;o onde temos alecrim, cravos, cactos e
rosas, de Bach que, de vez em quando, sorve o ar como se aspirasse o frio de
uma reverbera&ccedil;&atilde;o mais duradoura e eu ficasse por aqui, sentada a pensar nalgum
recanto de mundo enquanto folheio um livro de Durrell negligentemente, fora do
compasso, com os dedos t&atilde;o menos dedicados e inspirados do que aqueles do
pianista no teclado. H&aacute; l&aacute;grimas a galgar olhos, h&aacute; sempre, como rio que sempre
irrompe, vindo n&atilde;o se sabe bem de onde &ndash; h&aacute; quem jure que o rio se forma nas
gl&acirc;ndulas lacrimais da &oacute;rbita ocular, &agrave;s vezes at&eacute; em latim, mas eu e uns
quantos continuamos sem saber &ndash;, quando nos pomos a pastorear as nossas
pr&oacute;prias noites, e nos exagera as letras, escangalhando a tinta negra pelas
linhas outrora t&atilde;o bem impressas, de tal forma, ao inclinarmos a cabe&ccedil;a para as
folhas, que mais vale desabar e abrir logo todas as comportas sobre o romance
ou o ensaio. Porqu&ecirc; desmenti-lo? A escrita &eacute; um desvio de pensamento das leituras,
&eacute; quando a curva imensa dos outros nos p&otilde;e a pensar em n&oacute;s, ou nos nossos
outros, &eacute; a fissura no cora&ccedil;&atilde;o que o papel cortou a sangue quente. T&ecirc;-lo-&aacute; sido
tamb&eacute;m para escritores como Durrell, de olhos encrespados, ao imaginar Melissa
numa banheira, assim como E&ccedil;a imaginara Lu&iacute;sa que nas vagas de vapor espalhava
as &uacute;ltimas sentimentalidades da carta recebida. Mas foi Pursewarden que a viu
fazer um gesto<em> como para mostrar um universo inteiro </em>para lhe dizer:<em> repare</em>. Ele reparou, claro. E agora uma escala descendente na &aacute;gua quente
onde vou, aos poucos, entrando pelos bra&ccedil;os do rio. Continua a chover l&aacute; fora,
ouve-se entran&ccedil;ar-se na m&uacute;sica. Tem muito jeito este pianista. <em>Tomou-a
delicadamente nos bra&ccedil;os e levou-a para a casa de banho. Na banheira Melissa
acordou, espregui&ccedil;ando-se como essas flores japonesas de papel que se abrem
dentro de &aacute;gua. Estendeu-se voluptuosamente, brincando com a &aacute;gua, fazendo
ondazinhas que lhe cobriam e descobriam os seios enquanto as coxas iam tomando
uma cor rosada. Pursewarden sentou-se num pequeno galapo e, com uma das m&atilde;os
mergulhadas no banho, foi-lhe falando para impedir que ela tornasse a
adormecer.</em> Adormeceria por completo se n&atilde;o fosse a pergunta &ndash; s&atilde;o sempre as
perguntas que nos acordam ou quase sempre &ndash; que me fizeste quando me chamaste
um nome que n&atilde;o o meu. Era aquele que de sublinhado se alagou na p&aacute;gina aberta
deste livro no meu colo: <em>Melissa </em>&ndash; e por isso hesitaste um pouco &ndash;<em>,
comment vous d&eacute;fendez-vous contre la solitude? </em>Entretanto, a chuva parou e
o terra&ccedil;o, de certo, mostra as constela&ccedil;&otilde;es como nunca t&atilde;o luarentas nesse
preciso tom de voz que usaste para ler como se n&atilde;o fosse lido, mas sentido,
como se partisse de ti esse regresso a um sufoco em Paris &ndash; minto, no Egipto. O
pianista deixou tamb&eacute;m de tocar. Esquecendo-se de fechar o tampo do teclado,
deixou a noite e tudo o resto em aberto, ao p&oacute;.</p>]]></description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/cronica.php?id=229]]></link>
<author><![CDATA[Ana Salomé]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-10-21 07:58:44]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Se está no jornal, é porque é verdade]]></title>
<description><![CDATA[<img src='http://www.rascunho.net/img/alex_gamela-cronica_r.jpg'><br /><i>«A falta de aplicação dos procedimentos básicos por parte de alguns jornalistas tem levado ao aumento da desconfiança do público em relação aos meios de comunicação»</i><br /><br /><p>Esta
semana a imprensa tabl&oacute;ide brit&acirc;nica foi abalada com um rude golpe na sua
credib&hellip; hum&hellip; metodologia de recolha de not&iacute;cias sobre celebridades. Chris
Atkins est&aacute; a terminar o seu mais recente document&aacute;rio intitulado <em><a href="http://www.starsuckersmovie.com/" target="_blank">Starsuckers</a></em>, uma cr&iacute;tica ao relacionamento dos media
com os famosos do entretenimento, e <a href="http://www.guardian.co.uk/media/2009/oct/14/starsuckers-tabloids-hoax-celebrities" target="_blank">revelou esta semana</a> que a sua equipa conseguiu que alguns
tabl&oacute;ides publicassem hist&oacute;rias fabricadas pela sua equipa, sobre algumas das
suas estrelas favoritas. A ideia era ver quem publicaria as informa&ccedil;&otilde;es falsas.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Vou
s&oacute; dizer que os seus esfor&ccedil;os foram recompensados, com todas as hist&oacute;rias a
serem publicadas menos uma e, em alguns casos, a serem enriquecidas com outros
pormenores que n&atilde;o foram fornecidos pela equipa de Atkins. A brincadeira veio
questionar a forma como os jornais n&atilde;o verificam a informa&ccedil;&atilde;o que lhes &eacute; fornecida,
mas o problema n&atilde;o se levanta apenas em rela&ccedil;&atilde;o aos tabl&oacute;ides. Apesar de
recorrerem a pr&aacute;ticas no m&iacute;nimo question&aacute;veis, como pagamentos a fontes, e
utiliza&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o de forma no m&iacute;nimo eticamente question&aacute;vel, os media
de refer&ecirc;ncia tamb&eacute;m n&atilde;o est&atilde;o isentos de incorrer na asneira de n&atilde;o verificar
a informa&ccedil;&atilde;o. A verdade &eacute; que algumas dessas not&iacute;cias inventadas foram
republicadas por outros meios informativos que as tomaram como verdadeiras. E
quando nos apercebemos que muito do material informativo que enche p&aacute;ginas de
jornal &eacute; not&iacute;cia de ag&ecirc;ncia, muitas vezes gerada por estagi&aacute;rios &ndash; em Portugal,
na <em>Lusa</em> s&atilde;o muitos a ganhar 150 euros
por m&ecirc;s, durante tr&ecirc;s meses, o que n&atilde;o implica falta de qualidade nas pessoas
mas na gest&atilde;o geral, j&aacute; que em tr&ecirc;s meses n&atilde;o se aprende muito sobre a
profiss&atilde;o, numa ag&ecirc;ncia &ndash; que depois outras tantas vezes &eacute; tratada por
estagi&aacute;rios. A falta de experi&ecirc;ncia pode levar a erros de palmat&oacute;ria na
confirma&ccedil;&atilde;o dos factos, se n&atilde;o forem supervisionados em conformidade. E acreditem
que por vezes essa supervis&atilde;o n&atilde;o existe.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">A
facilidade de dissemina&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de redes sociais veio trazer
problemas acrescidos aos jornalistas, que muitas vezes t&ecirc;m na pr&aacute;tica um
produto acabado e pronto a publicar, de tal qualidade que se torna complicado
n&atilde;o acreditar nele. Os embustes no Twitter sobre as hospitaliza&ccedil;&otilde;es de Steve
Jobs chegaram mesmo a ser levados a s&eacute;rio pelos &oacute;rg&atilde;os de comunica&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o
foram caso &uacute;nico, e ter&aacute; sido por isso que os media tradicionais foram
resistentes &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o da morte de Michael Jackson. Mas &eacute; cada vez mais
complicado fechar os olhos a toda a informa&ccedil;&atilde;o que flutua na internet. &Eacute; t&atilde;o
complicado, que o site humor&iacute;stico <em><a href="http://www.theonion.com/" target="_blank">The Onion</a></em> tem tido
algumas das suas &laquo;not&iacute;cias&raquo; publicadas como verdadeiras noutros media
internacionais. A falta de aplica&ccedil;&atilde;o dos procedimentos b&aacute;sicos por parte de
alguns jornalistas tem levado ao aumento da desconfian&ccedil;a do p&uacute;blico em rela&ccedil;&atilde;o
aos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Para mais quando, agora, qualquer utilizador pode
verificar por sua conta, at&eacute; certo ponto, se a informa&ccedil;&atilde;o &eacute; verdadeira.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">A
press&atilde;o da not&iacute;cia de &uacute;ltima hora, o desinteresse no investimento em jornalismo
de investiga&ccedil;&atilde;o em algumas redac&ccedil;&otilde;es, a transforma&ccedil;&atilde;o de alguns media em
c&acirc;maras de eco de conte&uacute;dos de ag&ecirc;ncia, com uma quantidade irris&oacute;ria de
conte&uacute;dos originais, tudo isto tem levado &agrave; destrui&ccedil;&atilde;o da credibilidade do
jornalismo. Os consumidores querem mais, e querem melhor. Mas as empresas
querem investir menos, e o pre&ccedil;o a pagar &eacute; elevado.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Quanto
ao document&aacute;rio de Atkins, tem a sua validade para um mundo que vive
sobrecarregado de pseudo-not&iacute;cias sobre pseudo-celebridades, que s&atilde;o famosas
por serem famosas, numa sociedade obcecada por elas. Mas n&atilde;o duvidem que esta
foi uma manobra fant&aacute;stica de promo&ccedil;&atilde;o do seu filme, que j&aacute; anda nas bocas do
mundo, ainda antes de estar acabado.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">E
voc&ecirc;s, acreditam em tudo o que l&ecirc;em?</p>]]></description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/cronica.php?id=228]]></link>
<author><![CDATA[Alexandre Gamela]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-10-19 12:14:08]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Deslize]]></title>
<description><![CDATA[<img src='http://www.rascunho.net/img/ana_salome-cronica_r.jpeg'><br /><i>«Baixou os olhos e, depois de uma pausa, falou como se dissesse em voz, não muito alta, mas decisiva, a fala que abre o livro que há muito se queria ler»</i><br /><br /><p>A noite estava anormalmente escura, os candeeiros iluminavam
apenas dois ou tr&ecirc;s metros a partir do ch&atilde;o, parecendo que uma risca de incerta
claridade se abatia sobre o largo velho e o resto era tudo escurid&atilde;o. Junto &agrave;
S&eacute;, um grupo segurava a cabe&ccedil;a de algu&eacute;m que vomitava e um c&atilde;o fugia de uma das
ruas estreitas, ensombrando as estatuetas sacras por cima da portada de ferro.
O grupo acabou por se dispersar e a sombra por se diluir. A m&uacute;sica vinda do bar
resistia. Ressoava ainda, agora com a for&ccedil;a dos batimentos de um cora&ccedil;&atilde;o
cansado e um ou outro tilintar de ecos mais dram&aacute;ticos de copos, moedas e
conversas ia caindo por terra. Estavam s&oacute;s. Ficaram assim, encostados &agrave; parede,
enrolados nos cachec&oacute;is, por algum tempo, fr&aacute;geis, como dois espelhos de eternidade.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Depois de o olhar, ela entrou pela espessa massa da noite.
Ele seguia-a em sil&ecirc;ncio. Dessa forma podia observ&aacute;-la, pela primeira vez,
muito melhor, apesar da dificuldade em acompanh&aacute;-la. N&atilde;o que n&atilde;o fosse capaz,
ultrapass&aacute;-la-ia sem qualquer esfor&ccedil;o, o cora&ccedil;&atilde;o &eacute; que falhava o compasso, de
tal modo era irregular, que tinha de fazer paragens para respirar o ar imenso
que perfurava em <em>&eacute;sses</em> aquelas ruas. Por momentos, sa&iacute;a daquela cena
como um se fosse apenas um observador. Via-se na <em>Avenida N&eacute;vski</em>, numa
persegui&ccedil;&atilde;o a uma alem&atilde;zinha por entre a turba imagin&aacute;ria de oficiais,
prostitutas, velhos, pintores, leiloeiros e casais bem vestidos com <em>ushankas</em>,
mas logo o som abafado do caminho, como m&uacute;sica de xilofone tocada muito devagar
por baquetas de l&atilde;, o trazia de volta &agrave;quelas ruas e &agrave;quelas m&atilde;os que, mais &agrave;
frente, se fechavam nos bolsos do sobretudo preto e branco como lhe pareciam
ser as gelosias das casinholas que dormiam ao frio do filme onde jurava t&ecirc;-las
visto antes. Ela confundia-se assim com a noite e com um destino que come&ccedil;ava a
obscurecer-lhe os passos, deslizando para uma neblina que, em breve, tomaria
tudo por completo.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Ela parou em frente a uma porta gren&aacute; uva, com um buraco no
lado direito inferior, por onde passaria um gato com esguia facilidade, e uma
bicicleta atrelada a um gancho quase solto, junto da caixa de correio. Ao
parar, os seus cabelos fizeram um movimento brusco de curva inesperada e
agitavam-se com o vento &ndash; milh&otilde;es de pequenas bandeiras pretas brilhantes
inquietas no ar. Aquilo f&ecirc;-lo estremecer. Ela notara-o. Baixou os olhos e,
depois de uma pausa, falou como se dissesse em voz, n&atilde;o muito alta,
mas&nbsp;decisiva, a fala que abre o livro que h&aacute; muito se queria ler, mas de
que quase se desistira de procurar&nbsp;por ser quase imposs&iacute;vel encontrar.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">&ndash; <em>&Eacute; aqui que eu moro</em>, tirando um tr&eacute;mulo molho de
chaves, gordo e dourado, do bolso esquerdo do sobretudo.</p>]]></description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/cronica.php?id=227]]></link>
<author><![CDATA[Ana Salomé]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-10-14 14:48:53]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O peso do local]]></title>
<description><![CDATA[<img src='http://www.rascunho.net/img/alex_gamela-cronica_r.jpeg'><br /><i>«Comprem os jornais da vossa terra, e digam porque é que o fazem todas as semanas ou não»</i><br /><br /><p>Desta vez as perguntas v&ecirc;m no in&iacute;cio: quantos de voc&ecirc;s l&ecirc;em
o jornal da vossa terra? O que &eacute; que procuram nele? E como &eacute; que esse jornal se
procura relacionar com voc&ecirc;s?</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Eu cresci numa cidade de m&eacute;dia dimens&atilde;o, que sempre teve
entre tr&ecirc;s a quatro jornais locais, fora o da par&oacute;quia. Compravam-se por
tradi&ccedil;&atilde;o e pela necrologia, e raramente pelas not&iacute;cias. Ali&aacute;s, tenho a certeza
que muita gente comprava os jornais locais para saber quem &eacute; que morreu nessa
semana, pouco se interessando pelas not&iacute;cias <em>maiores</em>. Uma das sec&ccedil;&otilde;es preferidas de um dos jornais da minha
cidade eram os apontamentos curtos e de tom humor&iacute;stico, acompanhados de fotos
a mostrar as pequenas imperfei&ccedil;&otilde;es da cidade que ningu&eacute;m se dava ao trabalho de
resolver, num estilo muito semelhante ao dos blogs, mas muito anterior (<a href="http://opalhetas.blogspot.com/" target="_blank">por acaso h&aacute; blog</a>).</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">N&oacute;s procuramos informa&ccedil;&atilde;o que nos afecte ou com a qual nos
relacionamos directamente. Mas a d&uacute;vida &eacute; se os jornais locais t&ecirc;m for&ccedil;a e peso
suficientes para manter essa rela&ccedil;&atilde;o.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal"><a href="http://www.shirky.com/weblog/2009/10/rescuing-the-reporters/" target="_blank">Clay Shirky fez um pequeno exerc&iacute;cio com um jornal local</a>,
que acho que todos dev&iacute;amos fazer em casa com o nosso: pegou numa tesoura e
recortou os artigos, e separou-os em montes. A ideia era colocar numa balan&ccedil;a
os conte&uacute;dos locais contra o resto &ndash; publicidade, artigos de ag&ecirc;ncia, a palha,
a opini&atilde;o (n&atilde;o me levem a mal por p&ocirc;r a palha ao lado das colunas de opini&atilde;o,
eu acho que s&atilde;o muito importantes nos jornais locais, mas n&atilde;o s&atilde;o not&iacute;cias.
Al&eacute;m disso n&atilde;o fui eu, foi o Shirky que fez isso). Vou s&oacute; dizer que a pilha das
not&iacute;cias que se relacionavam com a vida daquela localidade era pequena. E
acredito que deve ser cada vez mais assim em todo o lado, e isso est&aacute; a
provocar a decad&ecirc;ncia do jornalismo local.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">&Eacute; preciso ver que o exerc&iacute;cio de Shirky &eacute; feito numa
realidade diferente, com uma popula&ccedil;&atilde;o alvo superior &agrave; m&eacute;dia das cidades
portuguesas, e sobre uma redac&ccedil;&atilde;o com tantos jornalistas como algumas
publica&ccedil;&otilde;es nacionais. Mas aplica-se. Especialmente quando inclu&iacute;mos outros
factores na nossa balan&ccedil;a: em muitas localidades h&aacute; mais do que um jornal para
contrabalan&ccedil;ar a influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica que a concorr&ecirc;ncia pode ter; h&aacute; jornais
que est&atilde;o ligados a empresas com uma influ&ecirc;ncia econ&oacute;mica grande na sua regi&atilde;o,
e que n&atilde;o podem ser melindradas; h&aacute; tamb&eacute;m outro factor importante, que &eacute;
muitas vezes n&atilde;o haver gente suficiente e capaz de fazer trabalhos de
investiga&ccedil;&atilde;o. E nem em todos os s&iacute;tios h&aacute; investiga&ccedil;&otilde;es para fazer todas as
semanas.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Os jornalistas locais s&atilde;o das pessoas mais abnegadas e
esfor&ccedil;adas que conhe&ccedil;o. V&atilde;o a tr&ecirc;s confer&ecirc;ncias de imprensa na mesma semana com
as mesmas personagens em todas elas, suportam e vivem com as press&otilde;es dos
aparelhos partid&aacute;rios locais, estejam ou n&atilde;o ligados a algum deles, fazem o
desporto, a pol&iacute;tica, a cultura, os acidentes de carro, e ganham mal. Trabalham
para empresas familiares que det&ecirc;m a publica&ccedil;&atilde;o h&aacute; d&eacute;cadas, e que t&ecirc;m
dificuldades em renovar e encontrar novos p&uacute;blicos porque o seu est&aacute; a
desaparecer. E s&atilde;o cada vez mais novos, o que por si s&oacute; &eacute; um sinal de
esperan&ccedil;a.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Os jornalistas da velha guarda, que nunca tiraram cursos mas
que conheciam a sua cidade e as suas gentes como a palma da m&atilde;o, est&atilde;o a ser
substitu&iacute;dos por uma gera&ccedil;&atilde;o com outro tipo de forma&ccedil;&atilde;o, com uma abordagem e
metodologia diferentes. E outras ambi&ccedil;&otilde;es, mas da maneira como anda o neg&oacute;cio
das not&iacute;cias, acho que deviam repensar o seu plano de vida. Esta gera&ccedil;&atilde;o vai
ser determinante para a sobreviv&ecirc;ncia do jornalismo local, e na sua rela&ccedil;&atilde;o com
o seu p&uacute;blico. Acima de tudo, dever&atilde;o ter a consci&ecirc;ncia que para muitos o que se
passa &agrave; porta de casa &eacute; o que lhes interessa, porque hoje em dia &eacute; mais f&aacute;cil
saber o que aconteceu no fim do mundo, mas n&atilde;o ao fundo da rua, parafraseando o
lema da <em>TSF</em>. E ter&atilde;o que aprender com
os velhos e conhecer a cidade e os seus habitantes como a palma da vossa m&atilde;o,
porque ter fotos de tr&ecirc;s confer&ecirc;ncias de imprensa com o presidente da c&acirc;mara na
mesma edi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o diz nada aos vossos leitores.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">&Eacute; preciso pegar na balan&ccedil;a e saber o que temos e o que
queremos do jornalismo local, como leitores ou como jornalistas, mas acima de
tudo, como cidad&atilde;os e habitantes de localidades fora dos grandes centros.
Comprem os jornais da vossa terra, e digam porque &eacute; que o fazem todas as
semanas ou n&atilde;o. Ou peguem numa tesoura, e fa&ccedil;am tr&ecirc;s pilhas: o que vos
interessa, o que podem ir ver noutro lado, o que n&atilde;o tem valor para voc&ecirc;s.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">H&aacute; muito que defendo uma l&oacute;gica de mercado que parta do
investimento no local, assente numa rela&ccedil;&atilde;o pr&oacute;xima com as suas comunidades,
que force os media locais a ser mais do que uma r&aacute;dio ou um jornal, mas um
f&oacute;rum de discuss&atilde;o e de identidade regional, que produza conte&uacute;dos que se
relacionem directamente com a viv&ecirc;ncia dos seus leitores, que tenham
significado para eles e n&atilde;o para quaisquer outros noutro lado qualquer. Para
isso &eacute; necess&aacute;rio libertar os jornalistas da edi&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos sem grande
valor para poderem trabalhar em reportagens que sejam realmente importantes
para as suas comunidades. E cabe a esses jornalistas descobrir quais s&atilde;o essas
hist&oacute;rias, pesquisando blogs locais, e interagindo na net com os seus
conterr&acirc;neos, mas acima de tudo, falando com as pessoas na rua, nos caf&eacute;s, nas
lojas, cara a cara, naquilo que podemos chamar de jornalismo de proximidade,
porque se n&atilde;o estiver pr&oacute;ximo das pessoas a que se dirige, &eacute; in&uacute;til.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Neste momento os pratos est&atilde;o demasiado desnivelados. O que
se pode fazer para os equilibrar? Aceitam-se sugest&otilde;es.</p>]]></description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/cronica.php?id=226]]></link>
<author><![CDATA[Alexandre Gamela]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-10-12 09:33:21]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Azul desmaiado]]></title>
<description><![CDATA[<img src='http://www.rascunho.net/img/ana_salome-cronica_r.jpeg'><br /><i>«Tremo sempre que leio poemas desses que imitaram a morte sem operação nenhuma que não seja a da unicidade das suas»</i><br /><br /><p><em>H&aacute; imita&ccedil;&atilde;o quando um
acto tem por antecedente imediato a representa&ccedil;&atilde;o de um acto semelhante, anteriormente
realizado por outrem, sem que, entre esta representa&ccedil;&atilde;o e a execu&ccedil;&atilde;o se
intercale qualquer opera&ccedil;&atilde;o intelectual, expl&iacute;cita ou impl&iacute;cita, dirigida sobre
os caracteres intr&iacute;nsecos do acto reproduzido.</em> Notei agora, ao remexer nas
velhas tralhas de cadernos, que transcrevi esta passagem de &Eacute;mile Durkeim h&aacute;
uns anos, andava eu a criar o esqueleto psicol&oacute;gico de uma rapariga que se
tentou suicidar ao saltar de um telhado, com um bilhete e um retrato no bolso
do vestido, e deu entrada no hospital do romance que ficou a meio de uma cidade
por construir:</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal"><em>No quarto do hospital
tudo estava igual, as moscas desalentadas pairavam, serenamente dentro do
quarto. Em voos baixos, com uma rotina habitual, fazendo a fotoss&iacute;ntese das
l&acirc;mpadas de emerg&ecirc;ncia do hospital, dos doentes, daqueles que os amam e esperam
que os males &ndash; como dizem pelos longos corredores dos suspiros &ndash; se dissipem. A
fotoss&iacute;ntese dos que esperam. Havia ali uma presen&ccedil;a absoluta da espera. Estava
em coma, entre dois biombos brancos, crus. Ela n&atilde;o via, mas sabia que tinha
dois biombos ali. Simplesmente sabia. Enquanto estamos vivos sentimos as
coisas, mesmo que n&atilde;o as consigamos ver. A princ&iacute;pio julgou que eles tinham
sido postos ali para que ela n&atilde;o se apercebesse da morte dos outros companheiros
de quarto. Depois, conseguiu sair do corpo. Era espantoso sair assim, como se a
sua consci&ecirc;ncia ganhasse corpo pr&oacute;prio. Um p&aacute;ssaro com roupa hospitalar de
longos cabelos. Azul desmaiado, um p&aacute;ssaro azul desmaiado. E, vendo melhor,
sobre o cimo de todas as camas, sobre o cimo da cabe&ccedil;a da m&atilde;e, eles escondiam a
sua morte &ndash; sim, n&atilde;o restava nenhuma d&uacute;vida agora &ndash;, assim como a m&atilde;e a
escondia debru&ccedil;ada para o ch&atilde;o, &agrave; espera que a vida regressasse de um lugar
intranspon&iacute;vel, inacess&iacute;vel &agrave;s suas m&atilde;os excessivamente apertadas, uma contra a
outra, pela for&ccedil;a das &uacute;ltimas esperan&ccedil;as, as que j&aacute; nem uma m&atilde;e consegue
acreditar.</em></p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Depois parei. Tem sido, desde ent&atilde;o, um esqueleto no
arm&aacute;rio, que vem &agrave; tona sacudir o p&oacute; por escrever. Como ela outrora fazia, em
p&aacute;ginas anteriores, tremo sempre que leio poemas desses que imitaram a morte
sem opera&ccedil;&atilde;o nenhuma que n&atilde;o seja a da unicidade das suas, ou oi&ccedil;o m&uacute;sicas
desses outros que tamb&eacute;m o fizeram. Abrem-se as portas do meu arm&aacute;rio e sai a
poeta de longas pernas nuas a passear-se de guarda-chuva dentro de um vag&atilde;o, a
m&atilde;e a trancar a porta aos filhos adormecidos, depois de lhes beijar a testa,
para ligar o g&aacute;s do fog&atilde;o e deitar-se no ch&atilde;o de &aacute;guas bem mais distantes dos
que as da sa&uacute;de, a prata das facas a atingir a tatuagem do cora&ccedil;&atilde;o quebrado num
cantinho do peito, um tiro abafado pelo latido dos c&atilde;es da vizinhan&ccedil;a e uma
coroa de cabelos loiros revolvida em sil&ecirc;ncio pelo soalho sujo. Todas estas
hist&oacute;rias t&ecirc;m de ser contadas, de uma forma ou de outra, por quem vai ficando.
Os di&aacute;rios s&atilde;o abertos, as fotografias espalhadas pelas m&atilde;os, os gestos
recordados e a correspond&ecirc;ncia &eacute; posta em noite, porque h&aacute; demasiada luz neste
sol negro que desponta de cada vez que. De cada vez que um deles parte para
dentro desse lugar intranspon&iacute;vel. Tamb&eacute;m a da rapariga-p&aacute;ssaro ter&aacute; de o ser
nalgum romance melhor do que aquele onde, por um fio de palavras falhadas,
desaprendeu a voar bem demais.</p>]]></description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/cronica.php?id=225]]></link>
<author><![CDATA[Ana Salomé]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-10-07 09:33:01]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[E-leições]]></title>
<description><![CDATA[<img src='http://www.rascunho.net/img/alex_gamela-cronica_r.jpg'><br /><i>«Se os media conseguirem criar espaços que rentabilizem a participação espontânea dos cidadãos, conseguirão também cativá-los para se tornarem utilizadores assíduos dos seus produtos»</i><br /><br /><p>Os per&iacute;odos eleitorais s&atilde;o exigentes para os media, tanto
nas semanas de campanha como no pr&oacute;prio dia das elei&ccedil;&otilde;es: cruzamento de
declara&ccedil;&otilde;es dos intervenientes pol&iacute;ticos, reac&ccedil;&otilde;es institucionais, uma vida na
estrada atr&aacute;s dos candidatos, os pequenos momentos que fazem o dia-a-dia das
organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas em &eacute;poca de ca&ccedil;a ao voto, e depois a apresenta&ccedil;&atilde;o o mais
r&aacute;pido poss&iacute;vel dos resultados. E a internet &eacute; o melhor s&iacute;tio para se seguir
tudo em tempo real.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">2009 fica assinalado como o ano em que as elei&ccedil;&otilde;es
portuguesas chegaram em for&ccedil;a &agrave; internet. Procurando alcan&ccedil;ar algo semelhante
ao <em>efeito Obama</em>, quase todos os
partidos investiram melhor ou pior numa presen&ccedil;a Web que cativasse os cidad&atilde;os.
Basta olhar para o Twitter e ver quantos presidentes de junta criaram perfis,
ou pesquisar que <a href="http://www.autarquicas09.com/" target="_blank">candidatos a autarquias investiram</a> em websites e nas redes
sociais. Apesar de tudo, esses esfor&ccedil;os surgem na sua maioria como ineficazes,
e pouco esclarecedores para o cidad&atilde;o comum.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Mas para os &oacute;rg&atilde;os de comunica&ccedil;&atilde;o, usar a internet tem sido
uma arma importante para combater a concorr&ecirc;ncia. Para al&eacute;m da agrega&ccedil;&atilde;o de
informa&ccedil;&atilde;o presente noutros websites, a natureza aberta da Web convida &agrave;
discuss&atilde;o e &agrave; express&atilde;o pessoal. &Eacute; poss&iacute;vel fazer sondagens (pouco cient&iacute;ficas)
sobre as tend&ecirc;ncias de voto ou sobre determinados assuntos; ou mesmo avaliar a
qualidade de vida na autarquia onde residem; ou participar em tempo real como
comentadores de debates pol&iacute;ticos. Se os media conseguirem criar espa&ccedil;os que
rentabilizem a participa&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea dos cidad&atilde;os, conseguir&atilde;o tamb&eacute;m
cativ&aacute;-los para se tornarem utilizadores ass&iacute;duos dos seus produtos.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Al&eacute;m disso, a facilidade de produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos em tempo
real permite uma maior proximidade do cidad&atilde;o com os processos pol&iacute;ticos e
c&iacute;vicos destas &eacute;pocas. O interesse existe, &eacute; preciso tamb&eacute;m permitir a sua
participa&ccedil;&atilde;o.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Um dos projectos que me chamaram a aten&ccedil;&atilde;o nesta longa
jornada eleitoral no nosso pa&iacute;s foi <a href="http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/mojoautarquicas09/" target="_blank">o
Jornalista Mobile da RTP</a>. A ideia era ter jornalistas a enviar v&iacute;deos,
relatos, fotos em directo das ac&ccedil;&otilde;es de campanha espalhadas pelo pa&iacute;s. A ideia
&eacute; muito forte, e justifica-se: para qu&ecirc; esperar pelos telejornais se podemos
ver na hora as declara&ccedil;&otilde;es, reac&ccedil;&otilde;es e ac&ccedil;&otilde;es dos pol&iacute;ticos na sua demanda pelo
voto popular. Al&eacute;m disso, apesar de Portugal ser um pa&iacute;s relativamente pouco
extenso, nem sempre se pode ter jornalistas em todos os pontos de campanha. A
busca de conte&uacute;dos gerados por utilizadores e a atribui&ccedil;&atilde;o de equipamento
t&eacute;cnico a correspondentes locais que permita este tipo de cobertura facilitam e
enriquecem o manancial informativo.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Pena &eacute; que nem sempre os jornalistas no terreno estejam bem
preparados para saber utilizar estes meios e distinguir o que &eacute; de interesse
para publicar na net e o que n&atilde;o &eacute;, privilegiando o seu meio natural na hora da
verdadeira not&iacute;cia. Estou a dizer isto porque um dos v&iacute;deos que vi &eacute; uma
arruada vista do outro lado da rua, onde n&atilde;o se percebe qual &eacute; o partido ou o que
est&atilde;o a fazer. Os quatro minutos que o v&iacute;deo demora s&atilde;o in&uacute;teis, e seriam mais
bem aplicados numa entrevista ao candidato, com a c&acirc;mara mesmo em cima dele. &Eacute;
necess&aacute;rio saber orientar os rep&oacute;rteres e definir m&eacute;todos para que este
conte&uacute;do seja valioso e n&atilde;o apenas <em>mais
conte&uacute;do</em>. Creio que os rep&oacute;rteres de r&aacute;dio s&atilde;o naturalmente os mais aptos
para lidar com as conting&ecirc;ncias deste tipo de opera&ccedil;&atilde;o, mas &eacute; preciso que os
ensinem a trabalhar o lado audiovisual. De resto, &eacute; preciso dar os parab&eacute;ns &agrave;
televis&atilde;o p&uacute;blica por investir nesta ideia, e por ter sido o &uacute;nico &oacute;rg&atilde;o de
informa&ccedil;&atilde;o a apostar neste conceito.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Outro projecto muito eficaz foi o <a href="http://eleicoes2009.publico.pt/" target="_blank">Elei&ccedil;&otilde;es2009 do <em>P&uacute;blico</em></a>, que para al&eacute;m de recolher
opini&otilde;es da blogosfera e ter um espa&ccedil;o dedicado a todas as not&iacute;cias das
campanhas, inclu&iacute;a tamb&eacute;m os tweets dos partidos, not&iacute;cias relacionadas com as
elei&ccedil;&otilde;es de outros &oacute;rg&atilde;os de comunica&ccedil;&atilde;o (internacionais), num mashup bem
conseguido, onde a sua forma conceptual beneficia das caracter&iacute;sticas do tema
que aborda. Em portugu&ecirc;s, recolher informa&ccedil;&atilde;o e opini&atilde;o em tempo real sobre
eventos pol&iacute;ticos num mesmo espa&ccedil;o online &eacute; fant&aacute;stico. E parece ter resultado
bem nesta ocasi&atilde;o.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Outra coisa que as elei&ccedil;&otilde;es d&atilde;o e que v&ecirc;m mesmo a calhar
para projectos informativos online s&atilde;o n&uacute;meros: sondagens, votos, absten&ccedil;&atilde;o,
compara&ccedil;&otilde;es com outras elei&ccedil;&otilde;es, tudo espalhado por regi&otilde;es diferentes, e a ser
fornecidos em tempo real. As duas melhores apresenta&ccedil;&otilde;es de resultados eleitorais
para mim foram exactamente as da <a href="http://tv1.rtp.pt/noticias/eleicoes/legislativas2009/index.php" target="_blank">RTP</a> e as do <em><a href="http://eleicoes.publico.pt/" target="_blank">P&uacute;blico</a></em>, pelo menos
foram as &uacute;nicas que me dei ao trabalho de seguir em tempo real.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">O importante &eacute; que os media aproveitam a corrente
informativa e saibam para onde levar o barco. As elei&ccedil;&otilde;es, devido &agrave; quantidade
de conte&uacute;dos mais ou menos elevada e previs&iacute;vel, permite desenvolver
experi&ecirc;ncias e versar os profissionais para os media digitais, para que saibam
o que fazer e como noutros eventos fora da agenda.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal">Como sempre, quero saber a vossa opini&atilde;o: qual foi o vosso
site favorito durante as campanhas? Qual &eacute; que recomendam? E como gostariam de
participar com os sites informativos durante as campanhas eleitorais?</p>]]></description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/cronica.php?id=224]]></link>
<author><![CDATA[Alexandre Gamela]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-10-05 14:58:31]]></pubDate>
</item>
</channel>
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