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	<item>
		<title>Expedição revela 31 espécies potencialmente novas no Atlântico Sul</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Christiane Cardoso]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 12:07:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Oceanografia]]></category>
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					<description><![CDATA[Missão Designing the Future 3 mergulhou fundo ao largo do litoral nordestino em busca de formas de vida pouco — ou nada — conhecidas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em apenas duas semanas, a expedição <a href="https://schmidtocean.org/cruise/designing-the-future-3/" target="_blank" rel="noopener">Designing the Future 3</a>, realizada pelo Schmidt Ocean Institute, uma fundação privada sem fins lucrativos dos Estados Unidos, a bordo do navio de pesquisa Falkor (too), identificou 31 novas espécies ainda não descritas ao largo da costa bra­sileira. A equipe — formada por 37 tripulantes (incluindo oficiais, técnicos navais e engenheiros), além de cerca de 30 cientistas de diversas áreas — utilizou tecnologias de ponta, como lasers, sistemas de escaneamento óptico em 3D e sequenciamento genético realizado a bordo, para caracterizar os organismos e acelerar sua identificação.</p>
<p>A missão, ocorrida em abril de 2026, entre Salvador e Fortaleza, foi coordenada por Karen Osborn, curadora do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian Ins­titution (EUA), e teve como objetivo investigar a fauna que vive entre 200 e 1.200 metros de profundidade, nas zonas mesopelágica e batipelágica do Atlântico Sul tropical.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/dJjQ7rldybg?si=w6_iGPl1BIiUja-h" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p>Essa faixa do oceano é palco da chamada migração verti­cal diária (MVD), considerada o maior movimento sincro­nizado de biomassa animal do planeta (confira no infográ­fico). Todas as noites — quando as águas da superfície estão escuras, dificultando a vida dos predadores —, bilhões de organismos deixam as profundezas e sobem para se alimen­tar. Ao amanhecer, fazem o caminho de volta. Nesse vaivém, ajudam a levar carbono das águas superficiais para o oceano profundo, contribuindo para regular o clima do planeta. É como se formassem um “elevador biológico” de carbono: ao se alimentar na superfície, esses animais incorporam carbono e, ao retornar às profundezas, o levam consigo, liberando-o pela respiração e pela excreção ou transferin­do-o para outros organismos por meio da cadeia alimen­tar. Estudar esse processo, porém, não é tarefa fácil: essas regiões são de difícil acesso, e muitos dos organismos que vivem ali são extremamente frágeis.</p>
<p>Apesar dos avanços da oceanografia, o Atlântico Sul con­tinua entre as regiões menos exploradas do planeta. “Nossa motivação foi estudar a diversidade desses organismos, suas adaptações e teias tróficas em uma área de águas interna­cionais ao largo do Nordeste brasileiro [entre Salvador e Fortaleza numa faixa distante entre 160 e 480 quilôme­tros da costa], onde o fundo do oceano está a 4.500 metros”, explica Marcelo Melo, professor do Instituto Oceanográ­fico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e integrante da expedição, cuja pesquisa conta com <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/120884/molecular-diversity-of-deep-sea-fishes-actinopterygii-teleostei-in-the-western-south-atlantic-a-high/" target="_blank" rel="noopener">apoio da FAPESP</a>.</p>
<p>Os resultados revelam o quanto ainda há para desco­brir em águas abertas. “As grandes expedições dedicadas ao estudo da biodiversidade em mar aberto ocorreram ao longo do século 19, há cerca de dois séculos. Mesmo assim, seguimos encontrando novas espécies. Isso mos­tra que ainda existem vastas áreas dos oceanos que nunca foram exploradas cientificamente e guardam uma enorme diversidade desconhecida”, afirma Renato Nagata, profes­sor do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg).</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/infografico-migracao-vertical-diaria-mvd_desktop.png" data-tablet_size="1140x600" alt="Infográfico mostra a Migração Vertical Diária de organismos marinhos entre a superfície e as profundezas">
    <source srcset="/wp-content/uploads/2026/10/infografico-migracao-vertical-diaria-mvd_desktop.png" media="(min-width: 1920px)" />
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP</span></div><div class="post-content sequence">
<p>De acordo com Michela Borges, coordenadora do Museu de Diversidade Biológica do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cuja pesquisa é <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/119174/descobrindo-e-descrevendo-a-diversidade-de-ophiuroidea-echinodermata-de-localidades-remotas/" target="_blank" rel="noopener">apoiada pela FAPESP</a>, cada nova espécie descrita amplia o conhecimento sobre a biodiversidade e sobre a própria história da vida na Terra. “Embora as pessoas ima­ginem que a maior parte das espécies já tenha sido des­crita, a realidade é que ainda conhecemos apenas uma pequena parcela da vida, especialmente quando falamos de invertebrados e de ambientes de difícil acesso, como o oceano profundo”, afirma. Para ela, essas descobertas aju­dam a compreender a evolução dos organismos, o funcio­namento dos ecossistemas e a orientar estudos em eco­logia, biogeografia e conservação.</p>
<p>Para Nagata, compreender a vida na zona mesopelá­gica exige considerar essas condições extremas. “É um ambiente frio, escuro, sob alta pressão e com pouco ali­mento disponível. Mesmo assim, abriga uma enorme diversidade de organismos que desenvolveram adapta­ções extraordinárias ao longo da evolução”, afirma.</p>
<div id="attachment_588323" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-588323 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="(max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span>Um sifonóforo — invertebrado marinho aparentado com a venenosa caravela-portuguesa. Espécie ainda não havia sido descrita e é, provavelmente, nova para a ciência<span class="media-credits">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span></p></div>
<h2><strong>Enxergando o invisível</strong></h2>
<p>A expedição mostrou como novas tecnologias estão trans­formando a exploração dos oceanos. Equipamentos que observam organismos delicados em seu ambiente natu­ral permitiram registrar estruturas e comportamentos que dificilmente seriam preservados pelos métodos tra­dicionais de coleta.</p>
<p>Instalados no ROV SuBastian — veículo subaquático não tripulado operado remotamente que estava a bordo do Falkor (too) —, os sistemas de imageamento tridimen­sional DeepPIV e EyeRIS, desenvolvidos pelo Laboratório de Bioinspiração do Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI), centro privado e sem fins lucrativos de pesquisa oceanográfica localizado na Califórnia (EUA), utilizam lasers para gerar modelos digitais detalhados de organismos transparentes e opacos.</p>
<div id="attachment_588315" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright vertical"><img decoding="async" class="wp-image-588315 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-gelatinoso-2026-10-800.webp" alt="Animal gelatinoso de águas profundas vista de perto, com tentáculos brancos enrolados" width="800" height="780" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-gelatinoso-2026-10-800.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-gelatinoso-2026-10-800-250x244.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-gelatinoso-2026-10-800-700x683.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-gelatinoso-2026-10-800-120x117.webp 120w" sizes="(max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Emily Clark/MBARI via Schmidt Ocean Institute</span>Animal gelatinoso coletado a 1.157 m de profundidade pelo ROV SuBastian e fotografado a bordo do navio Falkor (too)<span class="media-credits">Emily Clark/MBARI via Schmidt Ocean Institute</span></p></div>
<p>Enquanto o DeepPIV permite observar estruturas inter­nas e o movimento de fluidos — usando uma folha de luz laser e câmeras de alta definição —, o EyeRIS registra a parte externa dos organismos em detalhes. O sistema uti­liza uma câmera 3D de campo de luz, capaz de acompa­nhar, em tempo real, animais opacos e seus movimentos na superfície. Outra tecnologia de ponta embarcada na missão é o microscópio Squid, desenvolvido pelo <a href="https://prakashlab.stanford.edu/" target="_blank" rel="noopener">Prakash Lab</a> da Universidade Stanford (EUA), que permite obter imagens tridimensionais de estruturas celulares de orga­nismos vivos ainda a bordo, revelando detalhes inéditos de uma rizária-gigante, por exemplo.</p>
<p>A investigação genética também ficou mais ágil. O DNA dos organismos coletados foi extraído e sequenciado em tempo real por pesquisadores da Universidade de Tohoku, do Japão. Para garantir a qualidade das análises, as amos­tras eram preservadas imediatamente após chegarem ao convés, evitando alterações provocadas por temperatura ou contaminação.</p>
<p>Para Melo, a integração entre observação, imageamento tridimensional e genética representa uma mudança na forma de estudar a biodiversidade marinha. “Imagine reconhecer uma espécie potencialmente nova antes mesmo de ela ser coletada e, logo em seguida, obter seu genoma ainda a bordo do RV Falkor (too). Isso gera um volume extraordinário de informações e acelera enor­memente o conhecimento sobre esses organismos e sobre essa região do oceano”, destaca.</p>
<h2><strong>Missão internacional</strong></h2>
<p>A expedição reuniu pesquisadores de instituições de Bra­sil, Austrália, EUA e Japão, integrando especialistas em bio­logia, oceanografia, engenharia, genética e bioinformática para investigar os organismos sob diferentes perspectivas.</p>
<p>Segundo Melo, a cooperação internacional garante que o conhecimento produzido permaneça acessível. “O mate­rial coletado será depositado no Museu de Zoologia da USP, garantindo que permaneça no Brasil e fique disponível para futuros estudos por outros pesquisadores”, destaca.</p>
<div id="attachment_588327" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588327 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-novo-2026-10-1140.webp" alt="Sifonóforo bioluminescente em forma de S brilha em azul nas profundezas do oceano" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-novo-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-novo-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-novo-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-novo-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span>As imagens deste sifonóforo foram capturadas a 552 metros de profundidade. Trata-se de um gênero ainda não descrito — talvez até mesmo de uma nova família do grupo Physonectae<span class="media-credits">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span></p></div>
<p>A missão também teve forte componente de divulgação científica. As operações do ROV SuBastian foram trans­mitidas ao vivo pelo Schmidt Ocean Institute, acompa­nhadas de encontros virtuais com estudantes de escolas e universidades brasileiras. Além disso, os modelos tri­dimensionais gerados pelos sistemas DeepPIV e EyeRIS estão disponíveis gratuitamente no <a href="https://sketchfab.com/mbari" target="_blank" rel="noopener">site do Laboratório de Bioinspiração do MBARI</a> para uso em aulas, pesquisas e atividades de divulgação científica. “Essa aproximação faz com que os resultados ultrapassem os artigos cientí­ficos, despertem o interesse pela biodiversidade marinha e incentivem novas gerações de cientistas”, avalia.</p>
<p>As descobertas da expedição podem ir além da amplia­ção do conhecimento. Muitos dos organismos estudados também podem inspirar avanços em áreas como enge­nharia e biotecnologia. De acordo com Nagata, cerca de um terço da equipe científica era formada por engenhei­ros dedicados à bioinspiração, área que busca desenvol­ver soluções tecnológicas a partir de mecanismos encon­trados na natureza. “Estudamos como esses organismos nadam, se locomovem e interagem com a água para enten­der princípios eficientes do ponto de vista energético”, explica. Essas informações podem orientar o desenvolvi­mento de robôs subaquáticos, veículos autônomos e novos sistemas de propulsão.</p>
<div id="attachment_588299" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588299 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-tomopteris-2026-10-1140.webp" alt="Verme poliqueta transparente com longo filamento bioluminescente em águas profundas" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-tomopteris-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-tomopteris-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-tomopteris-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-tomopteris-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span>Nova espécie do gênero <em>Tomopteris</em>, conhecidos como vermes-teia. Pouco se sabe sobre a vida desses animais além de alguns estudos sobre sua bioluminescência amarela brilhante<span class="media-credits">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span></p></div>
<p>Nagata defende também que ampliar o conhecimento científico sobre essas regiões é condição indispensável para qualquer decisão sobre o uso de seus recursos. “Deve­mos adotar o princípio da precaução: aquilo que ainda não conhecemos precisa ser preservado.” Para o pesqui­sador, grandes áreas do Atlântico Sul ainda podem abrigar espécies, funções ecológicas e processos ambientais iné­ditos, tornando indispensável ampliar sua investigação científica antes de qualquer forma de exploração.</p>
<div id="attachment_588319" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588319 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-pesquisadores-2026-10-1140.webp" alt="Pesquisadores analisam organismos marinhos coletados em expedição oceanográfica a bordo do navio" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-pesquisadores-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-pesquisadores-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-pesquisadores-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-pesquisadores-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Fotos Alex Ingle/Schmidt Ocean Institute; Marcelo Melo/Arquivo pessoal</span>À esq., Emily Clark (MBARI) fotografa criaturas de águas intermediárias com câmeras multiângulo, parte do arsenal tecnológico usado na expedição; acima, Silvina Botta (Furg) coleta água do ROV SuBastian para análise de isótopos estáveis, que mostra como o carbono circula no oceano; à dir., equipe da expedição realiza a triagem do material coletado nas águas profundas do Atlântico Sul<span class="media-credits">Fotos Alex Ingle/Schmidt Ocean Institute; Marcelo Melo/Arquivo pessoal</span></p></div>
<h2><strong>Novas fronteiras</strong></h2>
<p>Outras missões realizadas em 2026 mostram que o esforço para mapear regiões pouco exploradas do Atlântico vai além da biodiversidade da coluna d’água. Entre elas está a <a href="https://schmidtocean.org/the-doldrums-fracture-zone-is-anything-but-dull/" target="_blank" rel="noopener">expedição Matrics</a>, dedicada ao Sistema Megatransfor­mante de Doldrums — uma extensa zona de fraturas da Cordilheira Mesoatlântica, onde o afastamento das pla­cas tectônicas cria novos fundos oceânicos, com fumaro­las que aquecem as águas e transportam minerais, susten­tando ecossistemas pouco conhecidos. Essas expedições também ajudam a compreender regiões que despertam interesse pela presença de minerais estratégicos. “Antes de qualquer discussão sobre a exploração desses recur­sos, é fundamental entender como esses ambientes fun­cionam. Cada expedição mostra que o oceano profundo é mais complexo, diverso e dinâmico do que imaginávamos”, afirma Vivian Pellizari, professora do IO-USP que integrou a Matrics, realizada entre maio e junho de 2026.</p>
<p>A mesma visão é compartilhada por Borges, da Uni­camp. Para a pesquisadora, observar e descrever novas espécies é um passo essencial para orientar decisões sobre conservação e uso sustentável dos ecossistemas. “Não é possível proteger aquilo que não conhecemos”, resume.</p>
<div id="attachment_588311" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588311 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-agua-viva-2026-10-1140.webp" alt="Quatro organismos gelatinosos de águas profundas: água-viva, ctenóforo e poliqueta bioluminescente" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-agua-viva-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-agua-viva-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-agua-viva-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-agua-viva-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Fotos ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span><strong>1</strong> Água-viva do gênero <em>Atorella</em> é nova espécie, achada a 845 m de profundidade <strong>2</strong> Novo sifonóforo escaneado pelo DeepPIV a 350 m de profundidade <strong>3</strong> Larváceo em ‘casa’ de muco; espécie nova para a ciência <strong>4</strong> Água-viva do gênero <em>Bathykorus</em>, encontrada a 950 m de profundidade<span class="media-credits">Fotos ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span></p></div>
<p>Embora pareça remoto, o oceano profundo tam­bém sofre os impactos das atividades humanas, como as mudanças climáticas, o aquecimento e a acidificação dos oceanos, além da poluição por plásticos e outros contami­nantes. Borges alerta que esses ecossistemas continuam entre os menos estudados do planeta devido às dificulda­des de acesso, ao alto custo das expedições e à escassez de especialistas capazes de identificar e descrever sua biodi­versidade. “Em muitos casos, uma espécie pode desapa­recer antes mesmo de ser descoberta e descrita.”</p>
<p>Para a pesquisadora, investir em pesquisa é essencial para compreender o funcionamento desses ecossistemas e embasar políticas públicas de conservação. “Conhecer a biodiversidade do oceano profundo nos permite pre­servar um ambiente essencial para o equilíbrio do pla­neta”, conclui.</p>
<div class="box"><strong>Ao todo foram coletadas novas espécies dos seguintes tipos e quantidades<br />
</strong><br />
• <strong>1 Anfípode:</strong> Pequeno crustáceo aparentado com caranguejos e lagostas<br />
• <strong>1 Poliqueta-fada:</strong> Poliqueta pelágica de movimentos rápidos<br />
• <strong>9 Águas-vivas:</strong> Cnidários também conhecidos como medusas<br />
• <strong>7 Sifonóforos:</strong> Hidrozoários coloniais formados por milhares de pequenos animais chamados zooides<br />
• <strong>7 Ctenóforos:</strong> Carambolas-do-mar, de corpo gelatinoso e transparente<br />
• <strong>4 Larváceos:</strong> Cordados transparentes que vivem em delicados casulos de muco<br />
• <strong>2 Rizárias-gigantes:</strong> Organismos unicelulares visíveis a olho nu<br />
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Tradição e bom humor</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/tradicao-e-bom-humor/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=tradicao-e-bom-humor</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Soares]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Oct 2026 11:57:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Bioenergia]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Pisar em cobras rende Ig Nobel para brasileiro. Veja ainda outras homenagens, eventos e livros]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nos primórdios do Instituto Butantan, dizem as histó­rias, Vital Brazil e sua equipe pioneira chegaram a aplicar em si mesmos doses controladas de venenos ou do soro experimental que criavam. Não havia os protocolos éticos atuais, e foi em parte com essas pesquisas que o Brasil ganhou uma insti­tuição científica mundialmente reconhecida.</p>
<p>Hoje, pisar em jararacas pela ciência é considerado algo tão exótico que nos traz um troféu Ig Nobel, como veremos nesta edição. Em seus melhores momentos, o prêmio da revista <em>Annals of Improbable Research </em>celebra com humor a criatividade metodológica. (O artigo foi retratado porque, segundo o comitê de ética, eles pisaram em cobras recém-nascidas. A equipe discorda.)</p>
<p>Neste mês, trazemos também as homenagens mais tradicionais, como os ganhadores do Prêmio Fundação Conrado Wessel, e os livros lançados por pesquisadores brasileiros. E vai ter moda de viola em Barão Geraldo!</p>
<h2><strong>Prêmio Wessel</strong></h2>
<p><strong>Mario Murakami</strong>, engenheiro de alimentos e doutor em física nuclear pela Unesp, foi reconhecido com o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Ciência. Diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Mate­riais e coordenador do Programa FAPESP de Pesquisa em Transição Energética, ele pesquisa os desafios da bioenergia, bioeconomia e biorrenováveis.</p>
<p>O prêmio de Cultura foi para o padre <strong>Júlio Lancellotti</strong>, reconhecido nacional e internacionalmente por seu trabalho de acolhimento e atenção à fatia mais excluída da população de São Paulo. Cada um receberá um prêmio de R$ 500 mil em dinheiro, numa cerimônia que ocorrerá em outubro.</p>
<p>“São escolhas que reafirmam o propósito do Prêmio FCW de reconhecer trajetórias de excelência, impacto social e compromisso ético”, disse Carlos Vogt, diretor­-presidente da fundação e ex-presidente da FAPESP.</p>
<h2><strong>Ig Nobel</strong></h2>
<p>O bem-humorado prêmio a pesquisas científicas pouco ortodoxas foi concedido, na categoria Biologia, a um grupo de pesquisadores brasileiros e foi repre­sentado por <strong>João Miguel Alves Nunes</strong>, atualmente estudante de doutorado no IB-USP. Eles avaliaram o que faz com que uma jararaca-da-mata (<em>Bothrops jararaca</em>) dê o bote quando é pisada — e desco­briram que não é sequer preciso tocar na cobra para que ela reaja. No Brasil, estima-se que mordidas dessa jararaca correspondem a 90% dos acidentes registrados envolvendo humanos e cobras.</p>
<p>A metodologia foi o que chamou a atenção da banca: em ambiente controlado, com botas de segu­rança, os autores pisaram perto e sobre diversas partes do corpo de 75 cobras peçonhentas, com várias intensidades, registrando em relação aos cien­tistas o tamanho do corpo, sexo, temperatura do corpo, temperatura ambiental e hora do dia em que a interação ocorria. À imprensa, Nunes disse que descobriu no experimento ser alérgico ao veneno.</p>
<h2><strong>Residência artística</strong></h2>
<p><strong>Ivan Vilela</strong>, violeiro, professor da USP e pesquisador de cultura popular, iniciou em setembro uma residência artística no Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA). Até dezembro, ele dará palestras e minicursos sobre temas que capturam sua atenção, como as tradi­ções culturais orais e o Clube da Esquina. De 5 a 9 de outubro, ele oferece uma oficina para os estudantes de música do Instituto de Artes da universidade.</p>
<h2><strong>Comunicação da ciência</strong></h2>
<p>Em 26 e 27 de outubro, o Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) realiza no Goethe-Institut São Paulo o encontro “Science Communication in Transition: Strategies, Responsibilities and Emerging Challenges in Germany and Brazil”.</p>
<p>Os palestrantes alemães incluem os pesquisadores <strong>Benedikt Fecher</strong>, diretor da Wissenschaft im Dialog (WiD), <strong>Jeanne Rubner</strong>, da Universidade Técnica de Munique, e <strong>Monika Taddicken</strong>, da Universidade Técnica de Braunschweig, além do jornalista <strong>Markus Lehmkuhl</strong>. Do Brasil, participam os jornalistas <strong>Bruno de Pierro</strong>, <strong>Daniel Dieb, Luiza Caires</strong>, <strong>Meghie Rodrigues </strong>e <strong>Karina Toledo</strong>, editora da <em>Agência FAPESP, </em>além dos pesquisadores <strong>Juri Castelfranchi </strong>e <strong>Mariana Rodrigues Pezzo</strong>. Mais informações e inscrições estão no site do DWIH-São Paulo: tinyurl.com/2s3rntat.</p>
<h2><strong>Estante</strong></h2>
<p><strong><em>A ciência do universo: (quase) tudo o que você sempre quis saber sobre o cosmos, mas nunca perguntou</em></strong><br />
Rogério Rosenfeld (Companhia das Letras)</p>
<p>O professor de física teórica da Unesp explica as descobertas da área que ajudaram a entender o mundo desde os primeiros modelos cosmoló­gicos baseados na Teoria da Relatividade Geral.</p>
<p><strong><em>Matemática para seres humanos (e alguns robôs)</em></strong><br />
Marcelo Viana (Tinta-da-China)</p>
<p>O diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) organiza textos seus publicados no jornal <em>Folha de S.Paulo</em>, mostrando como a matemá­tica se manifesta em diversos aspectos do cotidiano.</p>
<p><strong><em>Estrela do novo rumo: literatura negra e os sentidos da modernidade periférica</em></strong><br />
Mário Augusto Medeiros da Silva (Zahar)</p>
<p>O sociólogo, professor da Unicamp e pesquisador da cultura produzida pelos negros no Brasil analisa a luta pela abertura dos espaços culturais de São Paulo a autores, de Carolina Maria de Jesus aos Racionais MCs.</p>
<p><strong><em>Presença indígena no Brasil </em></strong><br />
Mércio Pereira Gomes (Contexto)</p>
<p>Um dos mais longevos presidentes da Funai (2003-2007), o professor de antropologia da UFRJ analisa a demografia indígena no Brasil, mostrando que a população dos povos originários tem aumentado.</p>
<p><strong><em>Ecologias de crise: uma teoria cibernética da radicalização</em></strong><br />
Leticia Cesarino (Ubu)</p>
<p>A pesquisadora da UFSC investigou como a parti­cipação em ambientes digitais pode levar usuários a aderir ao extremismo e cometer atos de violência extrema, de cunho político ou não.</p>
<div class="box"><strong>Anote na agenda</strong></p>
<p><strong>30.set a 2.fev. | FICA-SP (Fixação e Incentivo à Carreira Acadêmica em São Paulo)</strong></p>
<p>Doutores em início de carreira com alto potencial acadêmico e sem vínculo empregatício, com base em São Paulo, podem se inscrever na segunda chamada do FICA-SP. Serão selecionados até 100 projetos, em várias áreas acadêmicas. O programa é uma parceria da FAPESP com o CNPq e a Capes.</p>
<p><strong>5 e 6.nov. | 1º Congresso Acadêmico Brasileiro de Cannabis Medicinal</strong></p>
<p>Estão abertas as inscrições para o Cabcann-FCF/USP, que ocorrerá no campus USP Butantã. Criado por Paulo Chanel Deodato de Freitas, o evento tem apoio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamentou o cultivo, a pesquisa, a fabricação e a comercialização de cannabis para fins medicinais e científicos no Brasil.</div>
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		<item>
		<title>Procrastinação duvidosa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 12:03:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boas práticas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Experimento que avaliou se espaçar prazos de entrega reduz atrasos é retratado por manipulação de dados]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Um artigo publicado em 2002 no periódico <em>Psychological Science</em>, que avaliou como diferenças de prazo para concluir um trabalho podem afetar a procrastinação, acaba de ser <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/09567976261488042" target="_blank" rel="noopener">retratado</a> após a descoberta de evidências de manipulação de dados. Assinado por Dan Ariely, professor da Universidade Duke, e Klaus Wertenbroch, da escola de negócios francesa Insead, o estudo concluiu que prazos de entrega igualmente espaçados poderiam reduzir a tendência a atrasar o trabalho e aumentar a probabilidade de as tarefas serem concluídas dentro do prazo.</p>
<p>O artigo descrevia dois experimentos. Em um deles, 60 estudantes receberam três tarefas de revisão de texto e podiam entregá-las em lotes com intervalos de uma semana, todas ao final de 21 dias ou em datas escolhidas por eles próprios. O trabalho concluiu que os prazos espaçados produziam melhores resultados do que deixar a definição das datas a cargo dos participantes.</p>
<p>No segundo experimento, os estudantes também foram divididos em grupos com diferentes prazos de entrega e receberam notas de acordo com seu desempenho. Os alunos que tinham prazos de entrega igualmente espaçados receberam notas significativamente maiores do que aqueles que definiam suas próprias datas de conclusão do trabalho.</p>
<p>O periódico decidiu “despublicar” o artigo depois que uma tentativa independente de replicar os experimentos não corroborou seus resultados e quando uma análise posterior apontou anomalias nos dados originais. A nota de retratação, assinada por Simine Vazire, editora-chefe da revista, informa que ambos os autores concordaram com a decisão.</p>
<p>A história começou duas décadas antes. Em 2006, os economistas Kyle Hyndman e Alberto Bisin tiveram acesso aos dados brutos da pesquisa ao estudar o mesmo tema. Anos depois, decidiram repetir um dos experimentos. Em artigo publicado em julho deste ano na própria <em>Psychological Science</em>, os autores relataram não conseguir reproduzir as conclusões do estudo original.</p>
<p>Os dados também foram analisados por Uri Simonsohn, Leif Nelson e Joe Simmons, pesquisadores responsáveis pelo blog Data Colada, especializado em investigar problemas em estudos científicos. Em textos publicados em <a href="https://datacolada.org/138" target="_blank" rel="noopener">31 de agosto</a> e <a href="https://datacolada.org/139" target="_blank" rel="noopener">2 de setembro</a>, eles apontaram uma série de inconsistências no conjunto de dados usado no artigo de 2002.</p>
<p>Entre os sinais de alerta estava um resultado muito mais claro do que seria esperado para uma amostra pequena, valores duplicados nas respostas dos participantes e ausência de correlação entre variáveis que deveriam estar fortemente relacionadas. Ao analisar o outro experimento do artigo, os pesquisadores também encontraram indícios de manipulação nas notas atribuídas aos participantes que definiam os próprios prazos.</p>
<p>Wertenbroch solicitou a retratação do artigo após tomar conhecimento da análise do Data Colada. Em <a href="https://datacolada.org/wp-content/uploads/Wertenbroch-Response-to-Data-Colada-Posts-138-139.pdf" target="_blank" rel="noopener">nota</a> enviada aos pesquisadores, afirmou nunca ter tido acesso aos dados originais dos experimentos conduzidos por Ariely e que sua participação havia se concentrado na formulação da ideia, escrita e revisão do texto original.</p>
<p>“Retratações são uma das piores coisas que podem acontecer a um cientista (&#8230;). Infelizmente, os problemas de dados apresentados invalidam as descobertas de nosso artigo de 2002. Ainda assim, um artigo meu anterior (Wertenbroch, 1998) (&#8230;) e a replicação de Hyndman e Bisin (2026) mostram os custos específicos de prazos de entrega. Estou triste, mas também feliz que a equipe do Data Colada está pondo essa história em pratos limpos”, declarou.</p>
<p>Ariely publicou em 7 de agosto uma <a href="https://danariely.com/dan-ariely-statement-on-2002-procrastination-study/" target="_blank" rel="noopener">nota</a> em seu site dizendo ter sido informado de que “os dados de sua pesquisa [de 2002] contêm sérias anomalias”. “A partir de agora, minha responsabilidade será atestar a acurácia do trabalho, atualizando o registro desses experimentos e, em conjunto com meu coautor, cooperando com o [editorial] do periódico que publicou nossa versão original do manuscrito.” Procurado por <em>Pesquisa FAPESP</em>, ele se recusou a dar entrevistas e pediu que se fizesse referência ao comunicado.</p>
<p>Não é a primeira vez que Ariely tem um <em>paper</em> retratado. O pesquisador de 59 anos, autor de livros sobre comportamento humano, teve um <a href="https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.1209746109" target="_blank" rel="noopener">estudo</a> de 2012 sobre desonestidade, publicado no periódico <em>PNAS</em> em coautoria com Francesca Gino, da Universidade Harvard, retratado após questionamentos sobre a fabricação de dados.</p>
<p>Outros dois artigos do professor receberam <em>expressions of concern</em>, ou seja, alertas editoriais sobre possíveis problemas. Um deles, <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/00222437241285882" target="_blank" rel="noopener">publicado</a> em 2008 no <em>Journal of Marketing Research</em>, foi questionado por problemas de replicação. <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1111/j.0956-7976.2004.00757.x" target="_blank" rel="noopener">Outro</a>, de 2004, também na <em>Psychological Science</em>, recebeu o alerta por incertezas relacionadas aos testes estatísticos e à análise. Ariely não quis comentar esses casos.</p>
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		<title>De volta para o futuro</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/de-volta-para-o-futuro/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=de-volta-para-o-futuro</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tiago Jokura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Sep 2026 13:11:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Botânica]]></category>
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					<description><![CDATA[Projeto resgata, em imagens digitalizadas, acervo de espécimes coletados por europeus no passado ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nos primeiros meses de 1832, um jovem inglês de 23 anos percorria os arredores de Salvador, na Bahia, com uma prensa de madeira e uma pilha de papel sob o braço. Tinha acabado de desembarcar de um navio de levantamento hidrográfico da Marinha britânica e, deslumbrado com a exuberância da Mata Atlântica, anotou em seu diário que &#8220;deleite&#8221; era pouco para descrever o prazer de explorar uma floresta brasileira pela primeira vez. Entre as plantas que prensou, secou e etiquetou naquelas semanas baianas não havia nada de espetacular: o exemplar nº 158 de sua coleta era uma ervinha de beira de caminho e de flores brancas, dessas que crescem em qualquer chão. Quase dois séculos depois, o registro ainda guarda a caligrafia do coletor: Charles Darwin (1809-1882), que passou pelo Brasil durante sua histórica viagem a bordo do HMS Beagle.</p>
<div class="box-lateral"><strong>O que é exsicata</strong><br />
Amostra de planta prensada, seca em estufa e fixada em cartolina ao lado de uma etiqueta com nome da espécie e do coletor, data e local da coleta e um número de tombo único. É a unidade básica de um herbário e um registro da presença daquela planta em determinado lugar e momento.<br />
</div>
<p>A planta coletada nunca mais voltou à Bahia. Como o restante do material botânico da viagem, seguiu em caixotes para Cambridge, na Inglaterra, aos cuidados do reverendo John Stevens Henslow, professor e mentor de Darwin, que distribuiu duplicatas entre colegas. Uma delas foi parar no herbário particular de William Jackson Hooker, primeiro diretor dos Jardins Botânicos Reais de Kew — que hoje abrigam cerca de 450 espécimes vegetais coletados pela expedição do Beagle —, e pai de Joseph Dalton Hooker, melhor amigo do naturalista. William morreu em 1865 e sua coleção pessoal foi comprada pelo governo britânico no ano seguinte. Em 1867, a ficha da ervinha coletada por Darwin foi marcada com as palavras &#8220;Herbarium Hookerianum&#8221;. O carimbo azul continua lá, intacto, ao lado do ramo seco.</p>
<p>Nos 150 anos seguintes, o espécime trocou de nome quatro vezes, e cada botânico que o examinou colou na cartolina uma etiqueta nova, refletindo a sucessiva reclassificação da espécie em diferentes gêneros: <em>Hemidiodia</em> (ano indeterminado), <em>Diodia</em> (1991), <em>Borreria</em> (2000), <em>Spermacoce</em>. Essa última é de fevereiro de 2014, assinada por uma pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Sueli M. Gomes. Ao lado da planta seca, três códigos de barras — um para cada exemplar da ficha, incluindo o de Darwin, ao centro — trazem impressa a mesma frase: <em>Imaged for Reflora</em>.</p>
<p>Foi um desses registros que o hematologista Marco Antonio Zago viu em 6 de outubro de 2009. Então presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ele estava em Kew para assinar uma carta de entendimento que daria origem ao Reflora — programa do CNPq, lançado no ano seguinte, para trazer de volta ao Brasil, digitalmente, amostras da flora brasileira levadas por naturalistas europeus entre os séculos 18 e 20. Ao ouvir dos anfitriões que a coleção britânica guardava algo como 300 mil amostras de plantas brasileiras, ele não hesitou. &#8220;Eu pedi para ver uma. E eles trouxeram logo uma <u>exsicata</u> coletada pelo Charles Darwin&#8221;, lembra Zago, hoje presidente da FAPESP. &#8220;É emocionante ter contato com amostras que uma figura dessa importância para a ciência coletou aqui, no Brasil.&#8221;</p>
<div id="attachment_588148" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588148 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-darwin-2026-09-800.webp" alt="" width="800" height="1300" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-darwin-2026-09-800.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-darwin-2026-09-800-250x406.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-darwin-2026-09-800-700x1138.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-darwin-2026-09-800-120x195.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo Kew</span>Erva (<em>no centro</em>) colhida pelo inglês Charles Darwin em passagem pela Bahia, em 1832<span class="media-credits">Acervo Kew</span></p></div>
<h2><strong>Simbiose internacional</strong></h2>
<p>Dezesseis anos depois do acordo assinado, quem menciona o programa brasileiro como referência é o próprio Kew. Em março, o jardim botânico britânico concluiu o maior projeto científico de sua história: a digitalização de 7,4 milhões de espécimes de plantas e fungos, num esforço de quatro anos. Na direção executiva de ciência de Kew desde 2019, o biólogo Alexandre Antonelli — primeiro brasileiro no cargo — aponta para a semente da ideia. &#8220;O Reflora foi o primeiro projeto mundial de repatriação digital de coleções brasileiras depositadas no exterior e foi uma inspiração para nós&#8221;, declarou à <a href="https://agencia.fapesp.br/o-cientista-brasileiro-que-liderou-a-digitalizacao-de-400-anos-de-historia-da-flora-do-planeta/58410" target="_blank" rel="noopener">Agência FAPESP</a> em junho de 2026.</p>
<p>Repatriar, nesse caso, não é trazer a planta seca de volta ao Brasil, mas a sua imagem. A promessa de retorno que Gilberto Gil entoa em &#8220;Eu vim da Bahia&#8221; (“Mas eu volto pra lá”) se cumpre em altíssima resolução e realce: cada exsicata é fotografada com etiqueta, escala e código de barras, e a imagem é enviada ao <a href="https://reflora.jbrj.gov.br/reflora/herbarioVirtual/" target="_blank" rel="noopener">Herbário Virtual Reflora</a>, hospedado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), onde uma equipe transcreve as informações de coleta para um banco de dados estruturado. Foi assim que, até o fechamento desta reportagem, em setembro de 2026, cerca de 265 mil amostras vindas de Kew e por volta de 250 mil do Museu Nacional de História Natural de Paris (MNHN) vieram, digitalmente, parar no Brasil — a maioria delas, repatriadas.</p>
<p>Três dias depois da visita a Kew, em 9 de outubro de 2009, Zago assinou um segundo acordo, dessa vez, em Paris — e a cena rendeu uma coincidência que ele faz questão de recordar. A sala do museu escolhida para a cerimônia tinha, em uma das paredes, uma grande tela com uma girafa. Era Zarafa, que, em 1826, cruzou o Mediterrâneo de navio até Marselha e, como não havia como transportá-la, seguiu a pé até Paris, em uma caminhada de mais de 40 dias e quase 900 km, que atraiu multidões e disparou uma &#8220;girafamania&#8221; na moda e na decoração da época. Zarafa viveu em Paris até 1845 e o retrato mais conhecido dela, pintado em 1827 por Nicolas Huet, integra o acervo do MNHN. De certa forma, a imagem da girafa Zafara, de um espécime retirado do seu hábitat para nunca mais voltar, simbolizava a história das plantas que a expedição brasileira buscava resgatar.</p>
<div class="box-lateral"><strong>Quem foi Zarafa</strong><br />
A primeira girafa a pisar na França foi oferecida pelo vice-rei do Egito, Muhammad Ali (não confundir com o boxeador), ao rei Charles 10º.<br />
</div>
<h2><strong>Repatriação digital</strong></h2>
<p>Quando os acordos foram assinados, ainda não existia Reflora, mas já havia a demanda.</p>
<p>No fim dos anos 1990, botânicos de Kew obtiveram financiamento do fundo britânico Darwin Initiative para um projeto-piloto, de um ano: a ideia era enviar ao Brasil imagens fotográficas de alta resolução de espécimes-tipo (exemplares que servem de referência para a descrição original de cada espécie) oriundos do Nordeste. Juntamente com essas imagens, vieram fotocópias das publicações originais em que as espécies foram descritas como novas para a ciência. Numa segunda fase, apoiada por financiadores corporativos e filantrópicos de Kew, imagens de outras famílias botânicas foram disponibilizadas, mas agora digitalmente e on-line. Paralelamente, numa ação complementar em 1998, o Programa Plantas do Nordeste (PNE) — conduzido por uma associação de pesquisadores em parceria com o Kew e com apoio do CNPq — também colhia dados sobre plantas do Nordeste brasileiro, com foco especial naquelas utilizadas como lenha, forragem e para fins medicinais.</p>
<p>Em 2006, um documento do Ministério da Ciência e Tecnologia já listava o repatriamento de informações sobre a biodiversidade brasileira como necessidade &#8220;indiscutível&#8221;, sem que houvesse iniciativa para executá-lo, como consta em um <a href="https://www.scielo.br/j/bn/a/vHV8Fvn5QYWjt6WwmvJQqKS/?format=pdf&amp;lang=en&amp;ilang=pt_BR" target="_blank" rel="noopener">artigo que reconta a história do Reflora</a>, publicado em 2024 na revista <em>Biota Neotropica</em>.</p>
<div id="attachment_588193" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588193 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-zago-2026-09-800-1.webp" alt="" width="800" height="1200" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-zago-2026-09-800-1.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-zago-2026-09-800-1-250x375.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-zago-2026-09-800-1-700x1050.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-zago-2026-09-800-1-120x180.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Arquivo pessoal</span>Em Paris, em 2009, o então diretor-geral do Museu Nacional de História Natural de Paris, Bertrand-Pierre Galey (<em>à esq.</em>), e Marco Antonio Zago, à época presidente do CNPq, assinam um dos acordos internacionais que originaram o Reflora<span class="media-credits">Arquivo pessoal</span></p></div>
<p>A virada veio de uma conversa. &#8220;A Ana Maria Giulietti, uma botânica importante da nossa época, com uma visão futurista, conseguiu uma reunião com a presidência do CNPq e explicou a situação: estamos avançando, mas para seguir adiante precisamos digitalizar as coleções&#8221;, relembra a botânica Rafaela Forzza, coordenadora do Reflora desde o início do programa. Naquele momento, o país acabava de entregar à Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), da Organização das Nações Unidas (ONU), a lista de espécies da flora brasileira, organizada por ela, mas ainda com pouquíssimos acervos on-line.</p>
<p>Do outro lado da mesa, Zago viu a chance de ampliar o pedido. &#8220;Eu me lembro da proposta de um herbário do Nordeste que queria apoio do CNPq para digitalização. Vi nisso a possibilidade de fazer algo de amplitude nacional&#8221;, diz. A ideia de sediar o sistema no JBRJ surgiu ali, já acompanhada de um obstáculo comum nesse tipo de projeto: convencer os donos de coleções pequenas a aderir à iniciativa. &#8220;É uma discussão dolorosa, porque as pessoas tratam a coleção como propriedade&#8221;, completa.</p>
<p>O repatriamento foi o argumento que faltava. &#8220;Essa foi a novidade que convenceu a todos e fez com que se agregassem&#8221;, afirma Zago, que se informou sobre onde estavam as maiores coleções de plantas brasileiras na Europa e planejou a viagem a Londres e Paris. Ficou impressionado com o número de amostras de Kew — até chegar ao museu francês. &#8220;Falei: &#8216;Lá em Kew tem cerca de 300 mil&#8217;. Responderam: &#8216;Temos bem mais do que isso&#8217;.&#8221;</p>
<p>Repatriar as exsicatas fisicamente estava fora de cogitação. A saída era a tecnologia que começava a se disseminar nos grandes herbários. &#8220;Você pode aumentar a imagem da folha e examinar a densidade e a natureza dos pelos, observar a disposição das nervuras. Ficou evidente que nós não precisávamos ter os espécimes aqui se conseguíssemos digitalizar&#8221;, diz Zago. Os acordos previam bolsistas brasileiros de mestrado e doutorado trabalhando nas coleções europeias, o que ajudava a priorizar as amostras do país.</p>
<p>Zago deixou o CNPq logo depois das assinaturas, e coube ao sucessor, Carlos Alberto Aragão, lançar um edital para a captação de apoio financeiro. Entre 2010 e 2015, o Reflora movimentou cerca de R$ 24,5 milhões, oriundos de diversas fontes: R$ 9,1 milhões do CNPq e do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), R$ 5 milhões de 12 fundações estaduais de amparo à pesquisa, entre elas a FAPESP, R$ 3 milhões da Natura, R$ 2,9 milhões da Capes, R$ 2,7 milhões do Fundo Newton britânico e R$ 1,7 milhão da Vale. O Herbário Virtual Reflora entrou no ar em 30 de setembro de 2013, com cerca de 420 mil imagens.</p>
<div id="attachment_588152" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588152 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-encontro-2026-09-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-encontro-2026-09-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-encontro-2026-09-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-encontro-2026-09-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-encontro-2026-09-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo Kew</span>Lucilene Velo (CNPq), Andy Burchell (Kew), Marco Antonio Zago (CNPq) e Eimear Nic Lughadha (Kew), em encontro que deu origem ao Reflora, em Londres<span class="media-credits">Acervo Kew</span></p></div>
<p>Para os parceiros europeus, o programa já nasceu dando bons frutos. &#8220;O Reflora foi o primeiro herbário virtual do mundo que tinha a conservação como objetivo principal”, destaca a botânica Eimear Nic Lughadha, atualmente líder de pesquisa em avaliação de conservação em Kew e, nos anos 2010, representante da instituição no comitê técnico do Reflora. A afirmação é mensurável: numa <a href="https://conbio.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/cobi.13291" target="_blank" rel="noopener">análise de 806 publicações</a> científicas citando o Reflora até 2017 — quatro anos após o lançamento —, cerca de 50% mencionaram resultados relevantes para a conservação das espécies — o que também foi relatado por 80% dos 1.069 usuários que responderam a uma enquete para o mesmo estudo. “Disponibilizar os dados sobre diversidade biológica à comunidade de pesquisadores faz parte do nosso DNA, e o conhecimento sobre as espécies se beneficia enormemente com isso&#8221;, completa.</p>
<p>Em Paris, o botânico Marc Pignal, ex-diretor de coleções do MNHN e representante do museu no comitê técnico do Reflora, lembra bem da visita de Zago. &#8220;Apresentamos o herbário da princesa Isabel, que mantemos nas coleções históricas. No âmbito do Reflora, produzimos réplicas digitais fiéis depositadas no Museu Nacional do Rio de Janeiro&#8221;, conta. Entre 2010 e 2013, o museu digitalizou integralmente seu herbário, e a experiência se estendeu a países vizinhos do Brasil. &#8220;Partimos do princípio de que a distribuição das espécies vegetais não está ligada às fronteiras políticas dos países.&#8221; Pignal também menciona a importância de projetos anteriores de digitalização envolvendo o MNHN e outras instituições brasileiras, como o antigo Instituto de Botânica de São Paulo (IBt) — atualmente integrado ao Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) — e o Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria), de Campinas (SP).</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/Online-Reflora-Desk-V3-scaled.jpg" data-tablet_size="1069x2560" alt="Infográfico mostra as 7 etapas de produção de uma exsicata, da coleta em campo ao armazenamento no herbário">
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<h2><strong>Biblioteca viva</strong></h2>
<p>O Reflora nasceu para repatriar, mas não parou por aí. &#8220;A ideia inicial era somente trazer de volta dados e imagens dos acervos de Kew e Paris. Só que essa pessoa que vos fala era curadora do maior herbário do Brasil, que não tinha imagens das próprias amostras&#8221;, diz Forzza, que foi curadora do herbário do JBRJ entre 2006 e 2023. &#8220;Parecia incoerente eu trabalhar no repatriamento de imagens sendo que as amostras de que eu era curadora também precisavam ser digitalizadas.&#8221; O acervo do Jardim Botânico, então, entrou no pacote. A partir de 2014, com apoio do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (<a href="http://www.sibbr.gov.br/" target="_blank" rel="noopener">SiBBr</a>) e do Inventário Florestal Nacional (<a href="http://www.florestal.gov.br/inventario-florestal-nacional" target="_blank" rel="noopener">IFN</a>), outros herbários europeus, norte-americanos e brasileiros foram incluídos no projeto, alguns deles recebendo equipamentos, treinamento e bolsistas para a digitalização de seus espécimes. Hoje, o Herbário Virtual reúne 4.866.086 imagens de 86 coleções do Brasil e do exterior — 806.582 delas do herbário do JBRJ, identificado pela sigla RB (&#8220;R” de “Rio” e “B” de “botanic”, seguindo o código internacional para nomenclatura de herbários).</p>
<p>Visitei o RB em julho, recebido pelos curadores Cassia Sakuragui e Ricardo da Gama Bahia, que percorreram comigo não somente os corredores do herbário, mas o caminho de uma planta, vinda da mata, até parar num servidor de dados (<em>mais detalhes no infográfico acima</em>). Tudo começa em campo, com a coleta de um ramo, idealmente com flores ou frutos, e o registro de coordenadas, altitude, hábito, cor e outros detalhes que somem com a secagem. O material é prensado entre folhas de jornal para transporte — ou embebido em álcool para não apodrecer, em expedições por regiões úmidas. Chegando ao herbário, a planta vira recheio de um sanduíche de jornais, papelões e chapas de alumínio corrugados, que vai para a estufa a 70 °C até secar por completo. Identificada, a planta ganha número de tombo, um código de barras, e é fixada em cartolina ao lado da etiqueta, fotografada em alta resolução e, enfim, guardada em armários a 18 °C constantes, organizados por família, gênero e espécie.</p>
<p>&#8220;A incorporação ao herbário não encerra a história daquele exemplar. Na realidade, é quando começa sua vida como parte de uma infraestrutura científica permanente&#8221;, explica Bahia. O exemplar pode ser emprestado a outras instituições, receber novas identificações e alimentar estudos que vão da taxonomia à biogeografia, incluindo a conservação de espécies ameaçadas de extinção.</p>
<p>Lá também me apresentaram a mesa de digitalização, que é um dos símbolos do Reflora. Enquanto Paris fotografava as fichas em esteiras industriais e Kew usava câmeras especiais, os acervos brasileiros precisavam encontrar soluções mais viáveis economicamente. &#8220;Chamamos um marceneiro, um serralheiro, contratamos um fotógrafo que nos deu consultoria: &#8216;Posiciona a lâmpada aqui. Essa lente é a melhor&#8217;. E assim montamos um modelo de mesa que hoje diversos herbários pelo Brasil reproduzem. Fomos nós que desenvolvemos&#8221;, conta Forzza. E assim foi possível digitalizar coleções menores. &#8220;Se o Reflora não tinha esse objetivo, eu tinha&#8221;, afirma.</p>
<p>Os gargalos seguintes eram invisíveis ao público. As imagens repatriadas chegam em arquivos digitais brutos, muito maiores do que as versões consultadas on-line, e a rede do JBRJ não dava conta. Foi preciso trocar todo o cabeamento e montar um data center. Em alguns momentos, as equipes europeias vinham ao Rio com malas cheias de HDs externos. &#8220;Eu sou só botânica, e de uma geração antiga. Quando alguém falava &#8216;precisa comprar um servidor&#8217;, eu pensava que servidor faz concurso público&#8221;, diz, brincando, Forzza. Do outro lado da tela, um time de bolsistas abria cada imagem e transcrevia o que lia em etiquetas manuscritas em inglês ou francês dos séculos 18 e 19. &#8220;Não tem nada de IA nisso. Tinha alguém capturando a imagem, alguém mandando para o Brasil, alguém transcrevendo, alguém desenvolvendo o sistema. São muitas pessoas para que uma imagem chegue bonita, on-line, para todo mundo.&#8221;</p>
<div class="box"></p>
<p><strong>Ficha limpa<br />
</strong><i><span style="font-weight: 400;">Conheça os principais detalhes preservados — e observados — em uma exsicata</span></i></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="1667" height="2396" class="aligncenter size-full wp-image-588290" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU.jpg" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU.jpg 1667w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU-250x359.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU-700x1006.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU-1069x1536.jpg 1069w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU-1425x2048.jpg 1425w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU-120x172.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1667px) 100vw, 1667px" /></p>
<p><strong>1. FOLHAS</strong><br />
A primeira observação do taxonomista — que identifica, descreve, nomeia e classifica os seres vivos em categorias ordenadas — é determinar se a folha é simples ou composta e como está posicionada no caule. Esses costumam ser alguns passos das chaves dicotômicas que orientam o fluxo de investigação até a família botânica.</p>
<p><strong>Chaves dicotômicas</strong><br />
O taxonomista segue pistas sequenciais que, geralmente, apresentam duas alternativas por vez — folhas simples ou compostas, por exemplo. Cada escolha o conduz a uma nova etapa e, à medida que ele avança na análise das partes da planta, as possibilidades ficam mais restritas, encaminhando a identificação.</p>
<p><strong>2. IMPRESSÃO “DIGITAL”</strong><br />
Neste exemplar, as folhas são compostas e trifolioladas, ou seja, cada folha é formada por três folíolos. A partir daí, o taxonomista começa a analisar detalhes mais específicos: como esses folíolos estão dispostos, seu formato, ápice e base, margem, nervação, textura e presença de pelos (tricomas). Ele também analisa estruturas como estípulas e pecíolos.</p>
<p><strong>3. ESTRUTUTAS REPRODUTIVAS</strong><br />
Observar flores e frutos é fundamental na maioria dos casos. Primeiro, observa-se como as flores estão organizadas — se isoladas ou reunidas em inflorescências e qual é o tipo e a posição dessas inflorescências. Na flor, examinam-se cálice, corola, estames e gineceu. Número, forma, tamanho, união ou separação e posição dessas peças são decisivos para avançar a classificação da família para o gênero e, finalmente, para a espécie.</p>
<p><strong>4. CÓDIGO DE BARRAS</strong><br />
Permite saber exatamente qual exemplar está sendo examinado e acessar os dados associados a ele no banco de dados, como local, data da coleta, coletor e identificações anteriores.</p>
<p><strong>5. ETIQUETA</strong><br />
Manuscrita ou impressa, contém dados como nome científico (Monnieria trifolia, à época) e data da coleta (junho de 1941) — neste caso, relativos ao ramo com raiz, à direita.</p>
<p><strong>6. FORÇA DO HÁBITO</strong><br />
Também vale observar o hábito: forma geral e porte de um exemplar adulto, incluindo estrutura, tipo de caule e modo de crescimento. Esta imagem é de uma planta subarbustiva da espécie Ertela trifolia (popularmente conhecida como alfavaca-de-cobra). Como ela preservou a raiz e parte do sistema subterrâneo, é possível observar características que se perderiam se apenas um ramo tivesse sido coletado.</p>
<p><strong>7. RÉGUA</strong><br />
Ferramenta importante para a identificação, já que muitos caracteres utilizados nas descrições e nas chaves taxonômicas são dimensionados. Por meio dela, o pesquisador pode avaliar o tamanho real das estruturas e comparar medidas com as descrições das espécies.</p>
<p><strong>8. COLOR CHECKER</strong><br />
Referência padronizada de cor que pode ser um ponto de identificação importante em determinadas estruturas. É preciso, contudo, ter cautela porque o processo de secagem é capaz de alterar significativamente a coloração original.</p>
<p></div>
<p>O sistema, aliás, é o desafio menos óbvio. Antes do Reflora, o JBRJ já havia criado o Jabot, um gerenciador de coleções desenvolvido internamente a partir de 2003 e hoje usado por cerca de 100 herbários brasileiros. Um acervo biológico, explica Forzza, não é um estoque com entradas e saídas: ele é vivo e, por isso, dinâmico. Cada novo consenso taxonômico — e eles não são raros, como demonstra a exsicata baiana de Darwin — pode rebatizar espécies, fundir gêneros ou desmembrar famílias, e o banco de dados precisa acompanhar essa reestruturação. &#8220;A gente tinha que desenvolver um sistema de dados capaz de entender o que os botânicos fazem. O que eu falava tinha que ser entendido pelos engenheiros de computação e analistas que estavam desenvolvendo o sistema, e o que eles falavam tinha que ser entendido por mim. Foram muitos tropeços até funcionar&#8221;, relata Forzza. Para o Herbário Virtual, entrou em cena a Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o matemático Geraldo Zimbrão à frente de uma equipe de analistas e pós-graduandos. &#8220;Nenhum dos nossos sistemas foi copiado de países desenvolvidos. A tecnologia é toda nacional, feita por servidores públicos. Tenho orgulho disso&#8221;, diz.</p>
<p>O CNPq lançou um único edital do Reflora, em 2010, e o programa sobrevive desde então com aportes pontuais. &#8220;É o único país do mundo que faz isso tão bem, com tecnologia própria. Não é justo abandonar os botânicos&#8221;, diz Forzza, que vê como próximo passo a construção de bibliotecas de imagens capazes de treinar sistemas de identificação automática — atualmente ruins para trabalhar com a flora tropical porque vastas regiões do Brasil ainda não têm amostras coletadas. &#8220;A máquina vai aprender por onde, se a gente não ensinar?&#8221;</p>
<p>Em paralelo, Zago sugere novas expedições a partir das informações repatriadas. Como cada imagem traz o local exato da coleta, ele já propôs enviar equipes aos mesmos pontos, colher amostras equivalentes e sequenciar o DNA, reconstruindo, quase dois séculos depois, o caminho dos naturalistas de outrora. &#8220;Isso não andou. Quem sabe ainda ande um dia.&#8221;</p>
<p>Para Sakuragui, seguir refazendo essa trilha é possível. &#8220;Uma exsicata é um registro permanente de uma planta em determinado lugar e momento. Por isso, coleções históricas permitem responder perguntas que seus próprios coletores nem poderiam ter imaginado.&#8221; Que o diga aquele jovem naturalista inglês de 23 anos que, coletando e prensando folhas na Bahia, jamais imaginaria que, um dia, sua planta voltaria para lá.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um mapa do calcanhar de aquiles celeste</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/um-mapa-do-calcanhar-de-aquiles-celeste/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=um-mapa-do-calcanhar-de-aquiles-celeste</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sophia La Banca]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Sep 2026 16:01:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
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					<description><![CDATA[Novos instrumentos devem ajudar a entender o ponto mais fraco no campo magnético da Terra, localizado acima do território do Brasil]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) estão desenvolvendo instrumentos para satélites com o objetivo de estudar a Anomalia Magnética do Atlântico Sul (Sama, na sigla em inglês), uma região em que o campo magnético da Terra é significativamente mais fraco e que cobre parte da América do Sul, do Atlântico Sul e do continente africano. A anomalia tem efeitos que vão além das variações mais comuns no campo magnético terrestre, podendo trazer riscos para satélites e os serviços que dependem deles.</p>
<p>O planeta Terra é protegido por um campo magnético que desvia grande parte das partículas emitidas pelo Sol. A proteção proporcionada por esse campo é o que permite a existência de nossa atmosfera. “Se esse campo não existisse, o fluxo de partículas arrastaria consigo todas as moléculas dos gases que estão no ar. Sem gases atmosféricos, sem vida. Nosso planeta seria como Marte”, resume Gelvam Hartmann, professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).</p>
<p>Por causa da tecnologia contemporânea, esse escudo magnético se tornou ainda mais importante. Ele protege os delicados componentes eletrônicos dos satélites usados para telecomunicação e geolocalização, por exemplo. Mas fenômenos climáticos espaciais, como as tempestades geomagnéticas causadas por perturbações nos ventos solares, podem colocar esses equipamentos em risco ou atrapalhar seu funcionamento. Quando eventos assim ocorrem, partículas com carga elétrica podem chegar até a ionosfera, uma camada atmosférica ocupada por gases carregados eletricamente. “Isso altera as condições de propagação de ondas de rádio, e todos os sistemas baseados em satélites, que dependem de sinais atravessando a camada, sofrem efeitos negativos”, explica Emília Correa, pesquisadora do Inpe, que conta com <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/113556/caracterizacao-da-dinamica-da-ionosfera-no-setor-da-america-do-sul-ate-a-antartica-sob-os-impactos-d/" target="_blank" rel="noopener">projeto</a> apoiado pela FAPESP na linha de Auxílio à Pesquisa — Regular. Ela usa o GPS como um exemplo de um sistema que pode ser afetado. “Se forem muito fortes, as tempestades causam a perda da sintonia de comunicação do sistema GPS, prejudicando a precisão de navegação.”</p>
<p>Nesse cenário, algumas ações ajudam a proteger os equipamentos. “Tem satélites que recolhem o painel solar, e outros desligam certos instrumentos internos”, exemplifica Paulo Fagundes, professor adjunto na Universidade do Vale do Paraíba, que também tem <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/113814/estudo-global-da-variabilidade-diurna-dia-a-dia-e-sazonal-da-eletrodinamica-ionosferica-em-funcao-do/" target="_blank" rel="noopener">projeto</a> com financiamento da FAPESP na linha de Auxílio à Pesquisa — Temático. Medidas desse tipo são ainda mais necessárias em satélites que se encontram na região da Sama. Como o campo magnético nela é mais fraco, as partículas carregadas responsáveis pelo dano podem atingir camadas mais baixas da atmosfera. “Esses íons vão penetrar mais profundamente”, diz Fagundes.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/Anomalia_DESKTOP.png" data-tablet_size="1140x930" alt="Infográfico explica como surge a Anomalia Magnética do Atlântico Sul (SAMA) e afeta satélites">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP</span></div><div class="post-content sequence">
<h2><strong>Previsão do clima espacial</strong></h2>
<p>Apesar da importância para a manutenção dos sistemas de satélite, ainda se sabe pouco sobre como essas partículas atravessam as camadas de nossa atmosfera na região da Sama. Entender como isso ocorre pode levar ao desenvolvimento de novas estratégias para a proteção dos equipamentos. Livia Ribeiro Alves, pesquisadora do Inpe, compara isso à previsão das chuvas na superfície do planeta. “É como tentar impedir a chuva. Não tem como, ela vai acontecer. Mas, se soubermos qual vai ser o volume de água que cai e onde ela vai cair, podemos pensar em estratégias de proteção.”</p>
<p>A equipe de Alves trabalha no desenvolvimento de equipamentos para a medição do fluxo de elétrons, uma das partículas carregadas que pode atravessar as camadas da atmosfera, com o objetivo de fazer essa previsão do clima espacial. “Pensamos em monitorar a recorrência da precipitação de partículas, a quantidade precipitada, as espécies [tipos de partículas] que se precipitam e onde”, explica Alves. Além de estudar como isso se dá em contextos normais, entender como as condições espaciais mudam durante as tempestades geomagnéticas também faz parte do projeto. “E quando eu tenho uma tempestade, como essa precipitação acontece? Existe alguma região que não é atingida e que vai passar a ser afetada quando isso acontecer? São essas as perguntas que queremos responder.”</p>
<p>A precipitação das partículas não ocorre aleatoriamente. Elas ficam presas ao campo magnético da Terra em dois cinturões de radiação na parte externa da atmosfera, até que a interação com ondas de determinadas frequências causa a sua queda. “Elas estão lá girando, mas, quando interagem com uma onda, não conseguem mais ficar estabilizadas, então se precipitam e caem na região da anomalia magnética” explica Correa.</p>
<p>Entender como ocorre a interação entre as partículas e as ondas que causam sua precipitação é outro ponto importante do Sama-Suite. Em especial, as ondas whistler, que possuem a frequência necessária para causar a precipitação das partículas dos cinturões de radiação. “O que se sabe é que a única forma de haver essa precipitação é se houver a interação com as ondas whistler, que têm uma faixa de frequência próxima da frequência de giro dos elétrons”, explica Alves.</p>
<h2><strong>Preparando os instrumentos</strong></h2>
<p>O Sama-Suite ainda se encontra nas fases iniciais de desenvolvimento. No momento, a equipe de Alves determina os requisitos que os instrumentos que serão levados nos satélites devem cumprir. Ainda não existem satélites capazes de fazer as medições necessárias para o projeto. Os que podem medir o fluxo de partículas carregadas costumam ser projetados para órbitas mais altas do que o necessário para estudar as partículas na Sama. Por outro lado, satélites de baixa órbita costumam carregar instrumentos para medição do clima e imageamento da vegetação. Isso significa que novos instrumentos terão de ser desenvolvidos especialmente para esse projeto. Além disso, como atuarão na Sama, os aparelhos precisam ser capazes de resistir mesmo com uma menor proteção do campo magnético.</p>
<p>Além dos cálculos e simulações, a equipe de Alves realizará testes em ambientes controlados para garantir que os equipamentos estejam preparados uma vez lançados. “Faremos testes como os de detecção, do comportamento da eletrônica, de temperatura e de radiação”, diz ela.</p>
<p>Já existem missões espaciais que são candidatas para levar os instrumentos desenvolvidos, como o CBERS, um programa de cooperação tecnológica entre China e Brasil, e a missão Galileo, que pretende lançar um telescópio espacial solar.</p>
<p>Alves destaca a importância do projeto para o país. “Ninguém é mais interessado nessa pesquisa do que o Brasil, certo? Afinal, a Sama está em cima das nossas cabeças. Precisamos ter condições de fazer as medidas não só com parceiros e colaboradores internacionais, mas também usando a tecnologia e o desenvolvimento experimental que temos nas instituições brasileiras.”</p>
<blockquote><p>&#8220;É como tentar impedir a chuva. Não tem como, ela vai acontecer. Mas, se soubermos qual vai ser o volume de água que cai e onde ela vai cair, podemos pensar em estratégias de proteção&#8221; – Livia Ribeiro Alves, pesquisadora do Inpe</p></blockquote>
<h2><strong>De onde vem a Sama</strong></h2>
<p>O campo magnético da Terra é gerado pelo movimento do ferro líquido na camada externa do núcleo terrestre, a 2.900 quilômetros de profundidade. De maneira geral, ele funciona como um dipolo, ou seja, como um grande ímã de geladeira. Mas alguns pontos do planeta são exceções. “Se a gente pega a América do Sul, o Atlântico Sul, o sul da África, a gente pode dizer que o comportamento dipolar não funciona”, exemplifica Hartmann.</p>
<p>O comportamento anômalo pode ser explicado pela polaridade do campo magnético no núcleo da Terra. Sob a Sama, o polo magnético do campo é o contrário do esperado. O professor Ricardo Trindade, do Departamento de Geofísica do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), explica que essa inversão é gerada por manchas magnéticas — pontos onde as linhas do campo magnético são voltadas para o interior do planeta, em vez de para o exterior. Elas existem na interface entre o núcleo externo e o manto, a camada que fica logo acima do núcleo na estrutura de nosso planeta. “São manchas grandes. Maiores do que o estado de Minas Gerais, maiores do que o sul do Brasil. É fácil imaginar que, se você tem um campo naquele local com uma polaridade invertida, ele vai reduzir a intensidade do campo magnético do planeta.”</p>
<p>Trindade também explica que as manchas não são estáticas – elas se movem junto com a Sama em direção ao oeste, até desaparecer e reemergir no sul da África. Apesar disso, não dão sinal nenhum de que irão sumir. “Essas manchas e esse efeito da anomalia devem estar aí por milhões de anos. Não é uma coisa recente. Então, como risco espacial, é algo que temos que contar como parte do contexto geomagnético terrestre. Não dá para pensar nisso como uma coisa pontual, que vai desaparecer”, conclui o professor.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O ensino de ciências que o Pisa revela</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/o-ensino-de-ciencias-que-o-pisa-revela/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-ensino-de-ciencias-que-o-pisa-revela</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sabine Righetti]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Sep 2026 11:58:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dados]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
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					<description><![CDATA[Números mostram que o Brasil avançou pouco no ensino de ciências nos últimos 20 anos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Na década de 2000, o linguista da Unicamp Carlos Vogt propôs que os processos que envolvem a ciência — sua produção, difusão, ensino e divulgação — estão diretamente conectados e se retroalimentam. Nessa perspectiva, os dados do último Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, na sigla em inglês) se tornam ainda mais preocupantes.</p>
<p>O Brasil ficou em 67°<sup> </sup>lugar no mundo em ciências, entre 91 países que participaram do exame. Isso significa que, por aqui, os estudantes tiveram mais dificuldade para explicar fenômenos cientificamente ou para usar informações científicas para tomada de decisão do que alunos de países como Estados Unidos (13°) e Chile (43°).</p>
<p>A avaliação internacional organizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mede o desempenho de estudantes de 15 anos em matemática, leitura e ciências. A última edição teve foco em ciências, e os resultados foram divulgados em setembro.</p>
<p>O problema é que o Brasil está beirando o último pelotão no ensino de ciências dentre os países avaliados. E, voltando à análise de Vogt, uma educação científica de base que deixa a desejar compromete toda a cultura científica do país. Distancia as pessoas da ciência, prejudica a formação de novos pesquisadores.</p>
<p>Na série histórica, o Brasil tem melhorado timidamente na prova. Passou de 390 pontos em 2006 — primeira edição do Pisa da qual participou da avaliação com foco em ciências — para 409 pontos em 2025. A China, país com a maior nota do mundo atualmente, ainda que avaliado apenas em um grupo de províncias, passou de 575 pontos (em 2009; não há dados de 2006) para 597 pontos (2025). Já a média dos países da OCDE em ciências tem caído: foi de 500 pontos (2006) para 482 pontos (2025) — a pior nota da série.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/PISA-Web-Vale-Este-Desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="2372x2560" alt="Gráfico do desempenho do Brasil no PISA de 2006 a 2025 comparado a Chile, Estados Unidos, China e média da OCDE">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara/Revista Pesquisa FAPESP</span>
<p>A queda de desempenho dos países ricos europeus no Pisa tem despertado reflexões entre especialistas. O que se diz é que as distrações tecnológicas e uma consequente queda do hábito de leitura têm prejudicado o resultado do exame. Trocando em miúdos, na média, os adolescentes desses países estão aprendendo menos sobre ciências.</p>
<p>É claro que o Pisa traz um retrato parcial e limitado de como se dá o ensino nos países avaliados. As informações devem ser complementadas com outros instrumentos locais e com dados complementares, que sejam importantes em cada contexto.</p>
<p>No cenário brasileiro, por exemplo, há dados oficiais que dizem muito sobre a estrutura da educação que pode afetar a aprendizagem em ciências. O Censo Escolar do Ministério da Educação (MEC) mostra que, em 2025, menos da metade das escolas públicas de ensino médio do país tinham laboratório de ciências (e não sabemos se esses espaços, quando existem, são, de fato, utilizados).</p>
<p>A menos que as escolas tenham, por exemplo, laboratórios didáticos móveis não contabilizados no censo, a ausência desses equipamentos pode ser um problema para a educação experimental em ciências.</p>
<p>E o retrato fica pior quando olhamos para a educação científica fora das escolas. A última Pesquisa Nacional de Percepção Pública da Ciência, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), de 2023, revelou que nove em cada dez brasileiros declararam não ter visitado espaços como museus de ciências nos 12 meses anteriores ao questionamento. Tudo isso, claro, pode impactar os resultados de exames como o Pisa.</p>
<p>O fortalecimento do ensino de ciências nas escolas e nos espaços extraescolares de divulgação científica é essencial para uma cultura científica mais forte. E o Pisa nos dá sinais de que temos de avançar nesse quesito para fortalecer a ciência produzida no país.</p>
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			</item>
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		<title>As origens e a lógica do grupo controle</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/as-origens-e-a-logica-do-grupo-controle/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=as-origens-e-a-logica-do-grupo-controle</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Letícia Naísa]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Sep 2026 12:03:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Epidemiologia]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Farmacologia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina]]></category>
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					<description><![CDATA[O caso da polilaminina traz à tona o debate sobre as regras que governam os testes de medicamentos e em que contextos eles podem ser flexibilizados]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em fevereiro deste ano, na estreia do jornalista Ernesto Paglia à frente do programa Roda Viva, da TV Cultura, os holofotes recaíram sobre a cientista Tatiana Sampaio. A especialista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estava em destaque desde meados de 2025, quando começaram a circular reportagens sobre sua pesquisa com a <span style="text-decoration: underline;">polilaminina</span>, uma molécula que, em estudos iniciais, mostrou indícios de que poderia ser usada para tratar lesões medulares. Na berlinda, Sampaio foi questionada sobre a necessidade de submeter a substância a estudos clínicos controlados. “Vamos supor que esses 30 pacientes todos voltem a andar. Você teria coragem de fazer um estudo clínico controlado?”, rebateu a pesquisadora.</p>
<p><div class="box-lateral"><strong>Próxima fase</strong><br />
O laboratório Cristália anunciou no último dia 16 que vai iniciar o estudo de fase 1 com a polilaminina. A partir de 24 de setembro, cinco pacientes adultos &#8211; que tenham sofrido uma lesão grave na medula há menos de 72 horas &#8211; devem ser recrutados para participar da pesquisa, que tem como principal objetivo avaliar a segurança do tratamento.</p>
<p>O estudo será realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e na Santa Casa de Misericórdia.<br />
</div>As declarações reacenderam um debate que atravessa a história da ciência: quando é possível (ou aceitável) dispensar um estudo nesse formato? Atualmente, pesquisas clínicas randomizadas com grupo controle são consideradas uma metodologia padrão-ouro, ou seja, a mais confiável para descobrir se um tratamento é realmente eficaz, mesmo com os dilemas éticos que a rondam. Mas nem sempre foi assim.</p>
<p>“Existe a impressão de que se trata de uma metodologia atemporal. Mas, na verdade, é algo muito recente”, aponta Luiz Alves Araújo Neto, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor de história da medicina na Casa de Oswaldo Cruz. &#8220;Até o século 19, o processo de introdução de novas tecnologias e medicamentos era essencialmente clínico: terapias eram testadas caso a caso&#8221;, explica o historiador.</p>
<p>Foi no século 20 que esse jeito de fazer as coisas passou a ser questionado e uma nova forma de produção de conhecimento na medicina começou a ser aplicada, a do ensaio clínico como o conhecemos hoje, no qual é possível destacar três características: o grupo controle, a randomização e a ideia de duplo-cego.</p>
<p>Segundo o historiador da Fiocruz, a primeira testagem em massa de que se tem notícia aconteceu em 1910, com o objetivo de avaliar um medicamento contra a sífilis chamado <span style="text-decoration: underline;">Salvarsan</span> . O teste foi feito em milhares de pessoas, e o remédio funcionou para muitas delas. Mas causava uma série de efeitos colaterais e, em altas doses, era tóxico. Anos depois, foi substituído pela penicilina, que também nunca passou pelo escrutínio de um estudo clínico com grupo controle, mas foi avaliada em testes com soldados durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa época, já se instalava a ideia de que um tratamento precisa funcionar em muitas pessoas para ser validado.</p>
<div class="box-lateral"> <strong>O que era o Salvarsan </strong><br />
Composto orgânico à base de arsênico, foi desenvolvido pelo cientista alemão Paul Ehrlich em colaboração com o bacteriologista japonês Sahachiro Hata. Antes dele, a sífilis era tratada com compostos tóxicos de mercúrio e apresentava altas taxas de mortalidade.<br />
</div>
<h2><strong>Marco inicial</strong></h2>
<p>O marco de nascimento dos ensaios clínicos randomizados modernos é o estudo britânico dos anos 1940 sobre a estreptomicina, um medicamento para tratar a tuberculose, conduzido, entre outros pesquisadores, pelo epidemiologista e estatístico Austin Bradford Hill. Desde 1937, o britânico defendia o método da randomização e de grupos controle no estudo de tratamentos.</p>
<p>No artigo sobre o ensaio clínico da estreptomicina, Hill e sua equipe justificam a abordagem destacando que, apesar dos resultados animadores da droga no laboratório e em testes com porcos, ainda não se tinha certeza de que o medicamento seria seguro e benéfico para humanos. “O uso de uma nova droga em alguns poucos casos não pode ser aceito como prova de seu efeito”, <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2091872/pdf/brmedj03701-0007.pdf">escreveram os cientistas, em 1948, no </a><a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2091872/pdf/brmedj03701-0007.pdf" target="_blank" rel="noopener"><em>British Medical Journal</em></a>.</p>
<p>Assim, eles reuniram 107 pacientes e os dividiram em dois grupos: 55 pessoas receberam a estreptomicina e outros 52 o tratamento vigente até então (repouso absoluto). Foi aplicada a metodologia da randomização, ou seja, os pacientes foram escolhidos aleatoriamente para tomar o remédio (mas não a técnica de duplo-cego). O primeiro grupo recebeu a droga, enquanto ao segundo coube só o tratamento padrão da época. A avaliação dos resultados foi feita por profissionais que não participaram da aplicação do tratamento e não sabiam quem tinha recebido a estreptomicina.</p>
<p>Seis meses depois, 28 pacientes tratados com o medicamento apresentaram melhora considerável, enquanto 4 do grupo controle tiveram o mesmo progresso. A taxa de mortalidade no grupo que recebeu a estreptomicina também foi menor. A conclusão dos pesquisadores foi que a droga realmente funcionava e que a metodologia do estudo servia para provar sua eficácia.</p>
<p>“O grupo controle é uma tentativa de resolver uma questão chamada de problema fundamental da inferência causal”, explica o epidemiologista Guilherme Werneck, professor associado do Departamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professor adjunto do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da UFRJ. Para estabelecer uma relação de causa e efeito entre a aplicação de um medicamento e a cura de uma doença, seria necessário testar a mesma pessoa em condições opostas simultaneamente. Ou seja, em um cenário ela receberia o tratamento e no outro não.</p>
<p>“Obviamente, isso é impossível. Não existe um ‘mundo paralelo’ em que se possa testar duas coisas na mesma pessoa”, aponta Werneck. A opção possível é comparar essa pessoa com outra muito parecida com ela, exceto pelo fato de não ter recebido o tratamento. “Claro que não podemos fazer isso na proporção de 1 para 1, tem de ser feito com grupos maiores”, diz o epidemiologista. Por isso, os participantes são separados em grupos, um que recebe o tratamento e outro que não o recebe, sendo chamado de grupo controle.</p>
<p>Poder comparar os dois resultados é fundamental, já que existem três razões principais para a melhora de um paciente, de acordo com o epidemiologista Fredi A. Diaz Quijano, professor associado do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e diretor do Laboratório de Inferência Causal em Epidemiologia (LINCE-USP).</p>
<p>A primeira delas é a história natural da doença. “Muitas pessoas melhoram espontaneamente”, diz Quijano. “Por exemplo, em diversas moléstias infecciosas o corpo tem mecanismos para controlar e reverter a doença. Até em alguns tipos de traumas há mecanismos que fazem com que muitas pessoas melhorem sem necessidade de nenhuma intervenção”, afirma. A segunda abrange fatores inespecíficos, como o efeito placebo ou o impacto psicológico do cuidado e acompanhamento do paciente por uma equipe médica. A terceira razão é o efeito específico de uma intervenção, como um medicamento.</p>
<p>É justamente para separar essa terceira razão das outras que o grupo controle se faz necessário, já que ele permite isolar e quantificar o mérito de um tratamento. “Sem isso, a hipótese contrária, a de que um medicamento é capaz de fazer mal, também pode ser defendida”, diz Werneck. “Sem ele, ficamos sem mecanismo para contrapor as hipóteses.”</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/ensaio-clinico-desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="1500x2560" alt="Infográfico das 4 fases do ensaio clínico: teste de segurança, eficácia, comparação estatística e monitoramento pós-aprovação">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Carolina Daffara/Revista Pesquisa FAPESP</span>
<h2><strong>Padrão-ouro</strong></h2>
<p>Ao longo do tempo, a possibilidade de confrontar dados sobre dois grupos de pessoas em condições muito parecidas se transformou na maneira mais confiável de se fazer ciência. Segundo Araújo Neto, o contexto do pós-guerra, no final dos anos 1940, foi marcado pelo avanço dos investimentos em pesquisas biomédicas, especialmente nos EUA, na Inglaterra e na França. Além da discussão mais rigorosa sobre causalidade, havia a preocupação crescente com segurança e regulação de substâncias.</p>
<p>“Nesse momento da história, o debate bioético surge com força, muito associado aos crimes de guerra e ao nazismo”, aponta o historiador.</p>
<p>Um dos pontos de virada nos marcos regulatórios foi o desastre da talidomida no final dos anos 1950. A droga foi criada para o tratamento de hanseníase e lúpus, mas passou a ser receitada para tratar enjoos em grávidas. Com o tempo, viu-se que ela estava causando malformações congênitas em milhares de bebês. A empresa alemã responsável pelo medicamento foi processada, assim como governos que disponibilizaram o medicamento.</p>
<p>Por conta disso, em 1962, uma emenda à legislação americana foi aprovada e passou a exigir comprovação de eficácia por meio de estudos controlados antes da aprovação de qualquer novo medicamento. O modelo regulatório se espalhou pelo mundo, inclusive para o Brasil. Hoje, órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) só autorizam a circulação de um novo fármaco após estudos clínicos randomizados com grupo controle.</p>
<p>“Os ensaios clínicos mudaram a lógica de autoridade dentro da medicina, que sempre foi do médico”, aponta Araújo Neto. A produção de dados e atuação de outros profissionais quanto à segurança e eficácia de tratamento desloca essa autoridade para outras disciplinas biomédicas, estruturando a medicina baseada em evidências.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/piramide-desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="1652x2560" alt="Pirâmide das evidências científicas com 5 níveis, de metanálises a relatos de caso">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Carolina Daffara/Revista Pesquisa FAPESP</span>
<h2><strong>Tensões pandêmicas</strong></h2>
<p>Transformar o ensaio clínico em metodologia padrão não foi um processo livre de tensões, especialmente em momentos de crise, como a da Aids. Nos anos 1980, a comunidade LGBTQIAP+ nos EUA pressionou as autoridades para acelerar os protocolos de testagem do AZT, primeiro antirretroviral aprovado contra o HIV. O tempo exigido pela ciência não acompanhava a velocidade com que a doença matava. “Surge um confronto entre a racionalidade da produção de conhecimento e a urgência de quem está morrendo”, explica Araújo Neto.</p>
<p>Em 2020, a pandemia de Covid-19 criou dilemas parecidos. O caso da hidroxicloroquina evidenciou o custo de abrir mão do rigor metodológico em nome da urgência. Estudos iniciais em laboratório apontaram que a droga poderia inibir o coronavírus, mas foram os estudos clínicos randomizados de grande porte que produziram evidências robustas de que não havia benefícios do medicamento nesses casos. Ainda assim, o uso do fármaco foi politizado, e experimentos feitos <em>in vitro </em>estimularam a desinformação.</p>
<p>Mesmo sob pressão do tempo e da ética, os estudos com grupo controle foram mantidos, ainda que sofrendo modificações. Uma vez comprovada a eficácia das vacinas em análises preliminares, as empresas farmacêuticas deveriam oferecê-las aos voluntários do grupo placebo, que seriam informados sobre ter recebido substâncias inócuas <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8264198/" target="_blank" rel="noopener">por questões éticas</a> – o que não acontece em um estudo clínico observacional. “Em meio à ausência de opções, foi muito tentador abandonar o rigor em nome de uma ação imediata, mas houve persistência da comunidade científica, o que permitiu definir o que funcionava ou não”, avalia o epidemiologista Fredi Quijano, da USP.</p>
<p>Para resolver certos problemas metodológicos da comparação de grupos de tratamento, os ensaios clínicos incorporaram alguns procedimentos. O primeiro é a randomização: os grupos são separados de forma aleatória, não se escolhe quem vai receber uma intervenção e quem não vai. O segundo é o método do duplo-cego. Nem o paciente nem o profissional de saúde sabem quem está recebendo remédio ou placebo. A ideia é que os dois princípios garantam a comparabilidade e a avaliação imparcial.</p>
<p>São também cada vez menos comuns os casos em que pessoas que fazem parte de grupos controle fiquem totalmente sem tratamento. “Para doenças em que já existe alguma opção, o grupo controle vai receber o melhor disponível naquele momento”, afirma Werneck. Esse tipo de exigência está formalizada na <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/principios-eticos/" target="_blank" rel="noopener">Declaração de Helsinque</a>, feita nos anos 1960 pela Associação Médica Mundial, que <a href="https://www.scielo.br/j/csp/a/PKsMdyHpFLGrxKmPPbxxqMg/?lang=en" target="_blank" rel="noopener">proibiu o uso de placebo em ensaios clínicos</a> em casos em que já existisse uma intervenção comprovadamente eficaz. A regra foi flexibilizada em 2008, permitindo o uso de placebo em situações metodologicamente justificadas e sem risco de dano sério ou irreversível aos participantes. O Código de Ética Médica brasileiro é ainda mais restritivo: proíbe qualquer vínculo de médicos com estudos que usem placebo como única intervenção sempre que houver medida terapêutica eficaz disponível.</p>
<p>Ao incorporar um novo tratamento, é preciso que o ensaio clínico também avalie possíveis consequências prejudiciais aos pacientes e, em alguns casos, o estudo pode ser interrompido. “Nos casos de HIV, os primeiros antivirais eram muito menos eficazes e muito mais traumáticos. O paciente podia não morrer de HIV, mas poderia ficar cego, por exemplo”, lembra Werneck. “Os ensaios têm um tempo de duração e um comitê externo que acompanha e pode sugerir a interrupção, seja pela demonstração da eficácia, seja por efeitos colaterais maiores.”</p>
<p>O fim de um ensaio clínico também não significa o fim da avaliação do tratamento. É para isso que existem os estudos clínicos de fase 4 ou pós-comercialização, nos quais grandes números de pacientes são monitorados para analisar os efeitos de um fármaco usado em massa. Nesse caso, os pesquisadores geralmente recorrem a estudos observacionais, que ajudam a identificar efeitos colaterais raros ou benefícios adicionais que não foram percebidos nos ensaios clínicos menores.</p>
<h2><strong>Exceções à regra</strong></h2>
<p>Existem algumas circunstâncias em que pode ser aplicado o chamado uso compassivo de uma substância ainda sem evidências robustas. É algo que acontece em tratamentos experimentais, fora de um estudo clínico. São situações em que os pacientes não podem esperar o tempo necessário para a conclusão de um estudo mais rigoroso e não há outras opções terapêuticas disponíveis. Nesses casos, protocolos experimentais podem ser aplicados fora do desenho de um ensaio clínico randomizado.</p>
<p>Outro cenário de exceção é quando uma doença é rara demais para reunir participantes suficientes para um ensaio clínico. Foi o que aconteceu com a molécula larotrectinibe, aprovada pela Anvisa em 2019 para uso em tumores que carregam fusões do gene NTRK, bastante raros, sem estudo com braço controle.</p>
<p>Um caminho intermediário acontece na oncologia. Nos EUA, a FDA, a agência reguladora de medicamentos, faz aprovações aceleradas baseadas em estudos de fase 2 quando resultados preliminares se mostram promissores. Um <a href="https://jamanetwork.com/journals/jamaoncology/article-abstract/2800126" target="_blank" rel="noopener">levantamento publicado na revista científica </a><a href="https://jamanetwork.com/journals/jamaoncology/article-abstract/2800126" target="_blank" rel="noopener"><em>Journal of the American Medical Association (JAMA)</em></a><a href="https://jamanetwork.com/journals/jamaoncology/article-abstract/2800126" target="_blank" rel="noopener"> em 2022</a> mostra que, entre 176 medicamentos de hematologia e oncologia aprovados pelo FDA por esse modelo, 38% tiveram o benefício confirmado posteriormente, mais da metade ainda aguardava confirmação e 9% acabaram retirados do mercado depois que o estudo controlado revelou que o efeito inicial não se sustentava. &#8220;No Brasil, a Anvisa costuma ser mais conservadora nesse ponto, aguardando os estudos confirmatórios antes de liberar o uso amplo&#8221;, diz o oncologista Gilberto de Castro Junior, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp).</p>
<p><!--EndFragment --></p>
<h2><strong>Fora da medicina</strong></h2>
<p>A ideia de comparar dois mundos paralelos para encontrar relações de causalidade nunca ficou restrita ao campo biomédico. Ao longo do século 20, as ciências sociais também passaram a aplicar a metodologia. “Em educação, saúde e demais políticas públicas, é basicamente o que diferencia uma avaliação bem feita de uma pouco confiável”, afirma Naercio Menezes Filho, professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper e professor associado da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP. Sem um grupo para comparação, é impossível distinguir os efeitos de uma política de outros fatores que afetam uma população.</p>
<p>A metodologia também é aplicada de maneira randomizada e enfrenta dilemas éticos similares, principalmente em situações de urgência, como a pandemia. A política do auxílio emergencial adotada no Brasil, por exemplo, não passou por experimentos com grupo controle, já que não seria ético fazer as pessoas esperarem pelo benefício naquele contexto.</p>
<p>Seja no uso da polilaminina ou na aplicação de uma política pública, a pergunta que ronda os estudos com grupo controle é sempre a mesma: a melhora se deve à intervenção aplicada ou ela teria acontecido de qualquer forma? A resposta raramente é simples. Nos anos 1960, o filósofo da ciência Thomas Kuhn defendeu que um paradigma científico só cai por terra quando surge outro capaz de explicar melhor uma anomalia. É por isso que o grupo controle resiste: não porque seja perfeito, mas porque, até agora, ninguém propôs um substituto à altura.</p>
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		<item>
		<title>Edição impressa de Pesquisa FAPESP está de volta com ‘super El Niño’, Belo Monte e IA na ciência</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/edicao-impressa-de-pesquisa-fapesp-esta-de-volta-com-super-el-nino-belo-monte-e-ia-na-ciencia/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=edicao-impressa-de-pesquisa-fapesp-esta-de-volta-com-super-el-nino-belo-monte-e-ia-na-ciencia</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Dieb]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2026 21:27:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
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					<description><![CDATA[Edição impressa de <em>Pesquisa FAPESP</em> está de volta com ‘super El Niño’, Belo Monte e IA na ciência]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" width="800" height="1058" class="size-full wp-image-587978 alignright" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/capa-800.png" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/capa-800.png 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/capa-800-250x331.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/capa-800-700x926.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/capa-800-120x159.png 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><span class="media-credits-inline">Reprodução</span>Três meses após o lançamento da edição 364, <em>Pesquisa FAPESP</em> está de volta com a <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/revista/ver-edicao-editorias/?e_id=529" target="_blank" rel="noopener">edição impressa 365</a>. A capa traz um alerta: o Pacífico Equatorial está mais quente do que em qualquer outro momento desde o início das medições em 1950. É um indício de que o <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/ameaca-de-um-super-el-nino-desafia-cidades-brasileiras-a-se-preparar-para-eventos-extremos/" target="_blank" rel="noopener">El Niño pode se tornar muito forte</a>, com efeitos sobre as cidades brasileiras — tema que a edição também aprofunda ao acompanhar a crise hídrica no entorno da usina de <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/o-dilema-de-belo-monte-mudancas-climaticas-tendem-a-agravar-conflito-por-agua-do-rio-xingu/" target="_blank" rel="noopener">Belo Monte</a>.</p>
<p>A revista também traz o <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/a-ciencia-esta-mais-inteligente-ou-mais-artificial-com-a-ia/" target="_blank" rel="noopener">impacto da inteligência artificial</a> na diversidade de temas da pesquisa científica, o <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/racismo-e-exclusao-no-mercado-do-amor/" target="_blank" rel="noopener">racismo no mercado afetivo brasileiro</a> e a <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/especial-jabuti-academico/" target="_blank" rel="noopener">cobertura do prêmio Jabuti Acadêmico</a>, que homenageou o físico <a href="https://centrodememoria.fapesp.br/entrevista/entrevista-com-jose-goldemberg/" target="_blank" rel="noopener">José Goldemberg</a>.</p>
<p>O hiato marca um período de reformulação editorial e gráfica para renovar o fôlego da publicação e adaptá-la ao nosso tempo.</p>
<p>“Uma das principais mudanças para o leitor é a lógica digital first: cada reportagem sai primeiro no site, no seu próprio tempo, com um momento só dela e uma vida mais longa”, define Gabriel Alves, diretor de redação. Nessa nova lógica, a versão impressa ganha relevância como um compilado de leitura do mês, com curadoria e hierarquia do que foi publicado no período, em projeto gráfico novo, com fonte maior, mais infográficos, imagens e quadros — formas de fisgar o leitor e fazê-lo se encantar pelo conteúdo. Parte importante dessa reestruturação é a parceria editorial e acadêmica com o <a href="https://www.labjor.unicamp.br/" target="_blank" rel="noopener">Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor)</a>, da Unicamp.</p>
<p>Além disso, a revista passa a ter mais sinergia com a Gerência de Comunicação da FAPESP e suas outras iniciativas de comunicação, como a <a href="https://agencia.fapesp.br/" target="_blank" rel="noopener">Agência FAPESP</a>, o <a href="https://centrodememoria.fapesp.br/" target="_blank" rel="noopener">Centro de Memória</a> e o <a href="https://pesquisaparainovacao.fapesp.br/" target="_blank" rel="noopener">Pesquisa para Inovação</a>.</p>
<p>Também em setembro, <em>Pesquisa FAPESP</em> recebeu o <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/revista-pesquisa-fapesp-recebe-o-premio-jose-reis-de-divulgacao-cientifica/" target="_blank" rel="noopener">46º Prêmio José Reis</a> de Divulgação Científica e Tecnológica, concedido pelo CNPq na categoria Instituição e Veículo de Comunicação — considerada a maior honraria do jornalismo científico brasileiro.</p>
<p>O reconhecimento é fruto de uma trajetória que começou três décadas atrás, em agosto de 1995, com o informativo Notícias FAPESP, criado para levar informações sobre ciência e tecnologia a pesquisadores, gestores de política científica e jornalistas. Em 1999, na 47ª edição, o informativo deu lugar à revista <em>Pesquisa FAPESP</em>, que incorporou as editorias de Ciência, Tecnologia, Humanidades e Política Científica e Tecnológica, mantidas até hoje.</p>
<p><em>Pesquisa FAPESP</em> chegou à internet em 2001 e, no ano seguinte, adotou o formato que consolidou sua presença nas bancas e entre assinantes, com 12 edições anuais. A primeira edição em outra língua, o inglês, foi publicada em 2002. Em seguida, veio uma versão em espanhol — uma ação para ampliar o alcance e chegar a leitores em diversos países.</p>
<p>Em 2018, o site ganhou novo desenho e, em 2022, uma edição especial marcou os 200 anos da Independência do Brasil.</p>
<p>Nesta nova etapa, <em>Pesquisa FAPESP</em> quer aprofundar a conexão com seus diversos públicos — do estudante do ensino médio ao gestor público, passando pela comunidade de pesquisadores — atuando em quatro frentes: a edição impressa, o site, as redes sociais e as newsletters. Mais adiante, iniciativas multimídia, como vídeos e podcast, serão retomadas.</p>
<p>Mais de três décadas depois do primeiro Notícias FAPESP, o compromisso da revista permanece: fazer com que a ciência produzida em São Paulo e no Brasil chegue, com profundidade e rigor, a quem a financia: a sociedade.</p>
<p><!-- Linha do tempo Pesquisa FAPESP — cole em um bloco "HTML personalizado" do WordPress. A fonte Oculum é a do tema do site (já carregada pelo tema). --></p>
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<section class="pf-tl" aria-labelledby="pf-tl-title">
<header class="pf-tl__head">
<h2 class="pf-tl__title" id="pf-tl-title">Linha do tempo</h2>
<p class="pf-tl__subtitle">Acompanhe a trajetória de <em class="pf-tl__em">Pesquisa FAPESP</em> ao longo de mais de 30 anos</p>
</header>
<ol class="pf-tl__list">
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">1995</span>
<p class="pf-tl__text">A FAPESP lança, em agosto, o informativo Notícias FAPESP, com distribuição gratuita para os pesquisadores paulistas, gestores da política nacional de ciência e tecnologia e jornalistas.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">1999</span>
<p class="pf-tl__text">O informativo deixa de circular em setembro e em outubro é lançada a revista <em class="pf-tl__em">Pesquisa FAPESP</em>, com reportagens sobre Ciência, Tecnologia, Humanidades e Política Científica e Tecnológica, com ênfase em resultados de pesquisa financiados pela FAPESP.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2001</span>
<p class="pf-tl__text">A publicação chega à internet e passa a publicar o conteúdo da revista impressa, além de notícias sobre ciência e tecnologia.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2002</span>
<p class="pf-tl__text">A publicação passa a ter o formato atual, com 12 edições anuais de 100 páginas cada. Além do envio a pesquisadores e bolsistas ligados à FAPESP, a publicação começa a ser vendida em bancas e por assinatura. Em novembro, a versão impressa ganha a primeira edição em inglês, com uma seleção das melhores reportagens.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2010</span>
<p class="pf-tl__text">Questões de provas de vestibular de universidades públicas paulistas, como a da Unicamp, e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passam a ser formuladas com frequência a partir de reportagens da <em class="pf-tl__em">Pesquisa FAPESP</em>.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2018</span>
<p class="pf-tl__text">O site é redesenhado, com navegação facilitada entre texto, imagem e áudio/vídeo e leitura otimizada para celular, mantendo um acervo de mais de 20 anos de reportagens.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2022</span>
<p class="pf-tl__text">Em agosto, é lançada a edição especial da <em class="pf-tl__em">Pesquisa FAPESP</em> sobre o <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/revista/ver-edicao-editorias/?e_id=456" target="_blank">bicentenário da independência do Brasil</a>. Ao longo do ano, foram publicadas no site mais de 30 reportagens, vídeos e podcasts, reunidos em um pequeno <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/brasil-200-anos/" target="_blank">acervo</a>.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2026</span>
<p class="pf-tl__text"><em class="pf-tl__em">Pesquisa FAPESP</em> recebe o 46º Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, do CNPq, na categoria Instituição e Veículo de Comunicação — a maior honraria do jornalismo científico brasileiro, concedida desde 1978. Inicia também uma nova etapa, com o trabalho editorial mais alinhado com outras frentes de comunicação da FAPESP.</p>
</li>
</ol>
</section>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ameaça de um ‘super El Niño’ desafia cidades brasileiras a se preparar para eventos extremos</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/ameaca-de-um-super-el-nino-desafia-cidades-brasileiras-a-se-preparar-para-eventos-extremos/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=ameaca-de-um-super-el-nino-desafia-cidades-brasileiras-a-se-preparar-para-eventos-extremos</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Dantas]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2026 11:57:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Capa]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Ciênc. Atmosféricas]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Chegada do fenômeno e sua intensificação pelo aquecimento global poderão produzir secas e chuvas intensas em diversas regiões do país]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Milhares de quilômetros a oeste do Peru e a leste da Indo­nésia, no coração azul do oceano Pacífico equatorial, um aumento pequeno, porém persistente, da temperatura da água está colocando o planeta inteiro em alerta. Cien­tistas preveem que, até o fim deste ano, o deslocamento dessa massa de água aquecida na direção da América do Sul poderá desencadear o mais intenso evento de El Niño já registrado pela ciência moderna, com consequências potencialmente gravíssimas para diversas regiões do mundo, incluindo o Brasil.</p>
<p>O primeiro alerta veio no início de junho, quando a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa, sigla em inglês) anunciou que um El Niño havia se formado. Isso acontece quando a temperatura da água na faixa equatorial do oceano Pací­fico permanece pelo menos 0,5 °C acima da média por vários meses consecutivos, acompanhada de mudanças no padrão de circulação dos ventos alísios, que normal­mente empurram essa água quente na direção da Aus­trália e do Sudeste Asiático <em>(<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/Pesquisa-FAPESP-365-El-Nino.pdf" target="_blank" rel="noopener">veja infográfico completo</a>).</em></p>
<p>Desde então, a situação só piorou. Em julho, a anoma­lia térmica já havia ultrapassado 2 °C em grande parte da região leste do Pacífico, que banha a América do Sul. Em 13 de agosto, a Noaa anunciou que havia 90% de proba­bilidade de esse El Niño se tornar “muito forte”, com um aumento persistente acima de 2 °C na temperatura média da água nessa região, e 69% de probabilidade de ele se tor­nar o El Niño mais forte já registrado desde 1950, com um aquecimento próximo de 3 °C.</p>
<div id="attachment_587849" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587849 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-telhado-2026-09-1140.png" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-telhado-2026-09-1140.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-telhado-2026-09-1140-250x138.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-telhado-2026-09-1140-700x387.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-telhado-2026-09-1140-120x66.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Amanda Perobelli/Reuters</span>Uma placa de “pare” e o topo de uma casa emergem da água em Canoas, em 5 de maio de 2024. As duas imagens integram a série “Brazil’s Worst-Ever Floods”, premiada no World Press Photo 2025. O júri destacou o registro de um dos maiores desastres climáticos da história do país<span class="media-credits">Amanda Perobelli/Reuters</span></p></div>
<p>Segundo o programa de monitoramento climático Copernicus, da União Europeia, a temperatura média do oceano como um todo em julho deste ano (20,96 °C) foi a maior registrada nas últimas cinco décadas, e muitos pes­quisadores já preveem que 2026 e 2027 poderão ser os anos mais quentes da história moderna — em grande parte, por causa desse “super El Niño” que está se configurando. Tudo isso, agravado pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas globais já em curso.</p>
<p>“A classificação do El Niño varia entre fraco, moderado, forte e muito forte”, explica o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cen­tro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Natu­rais (Cemaden), em São José dos Campos (SP). “Agora, além do aquecimento do Pacífico, temos como pano de fundo o aquecimento global. Ou seja, a soma dos dois processos. É por isso que surgem termos como ‘super El Niño’, embora eles não façam parte da classificação científica.” Num pla­neta mais aquecido, a atmosfera armazena mais umidade e, quando isso acontece, é como se estivessem colocando mais “gasolina no fogo”, compara Marengo.</p>
<p>Ninguém pode alegar que foi pego de surpresa. O El Niño é um fenômeno natural bem conhecido e bem moni­torado, que costuma se repetir em ciclos de dois a sete anos, e cujos efeitos são sentidos, principalmente, entre o último trimestre de um ano e o início do ano seguinte. Os eventos El Niño mais fortes já documentados pela ciência ocorreram em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016. Vários estudos alertam, porém, que esses eventos pode­rão se tornar cada vez mais frequentes, mais intensos e mais imprevisíveis à medida que a temperatura média do planeta aumenta.</p>
<blockquote><p>A Noaa estima 90% de chance de o El Niño de 2026 se tornar “muito forte” e 69% de chance de ser o mais intenso já registrado desde 1950</p></blockquote>
<p>As consequências são sentidas em todo o mundo, com variações bruscas nos padrões meteorológicos e aumento na ocorrência de eventos extremos, como ondas de calor, secas e tempestades. No Brasil, a tendência é que chova menos no Norte e mais no Sul do país, com consequências potencialmente severas para ambientes naturais, agríco­las e urbanos. Em 1983, por exemplo, a cidade de Blume­nau (SC) permaneceu por cerca de um mês debaixo d’água e mais de 200 mil pessoas ficaram desabrigadas no estado. Em maio de 2024 (também um ano de El Niño intenso), quatro décadas depois, agora com a temperatura média do planeta ainda mais quente, o Rio Grande do Sul sofreu uma inundação de proporções avassaladoras, com mais de 5,5 milhões de pessoas afetadas, particularmente em Porto Alegre, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geo­grafia e Estatística (IBGE).</p>
<p>Marengo argumenta que o El Niño nunca é o causador isolado do impacto, nem a mudança climática. Os even­tos extremos provocados pelo fenômeno constituem a ameaça ambiental, mas, para que ela se transforme em desastre, também é necessária uma alta vulnerabilidade das populações que vivem em áreas expostas — algo que depende de políticas públicas, e não do clima. O climato­logista lembra que, em setembro de 2023, quando o fenô­meno já estava se configurando e confirmado, ocorreram chuvas intensas no Vale do Taquari, região localizada no interior do Rio Grande do Sul, a cerca de 100 km da capi­tal gaúcha.</p>
<p>“A inundação em Porto Alegre foi em maio de 2024, quando o El Niño já estava terminando. O El Niño teve o seu auge em janeiro e depois diminuiu. Mas, então, o que aconteceu? A inundação foi consequência das chu­vas que caíram no Vale do Taquari, dos rios que levaram a água para o Guaíba e, então, as comportas não funcio­naram como o esperado. Não foram só as chuvas do El Niño”, argumenta o pesquisador.</p>
<p>O escritório brasileiro do World Resources Institute (WRI Brasil) publicou, em maio deste ano, uma análise multissetorial das causas do desastre de 2024 na capital gaúcha. Os autores do documento também afirmam que o alto volume de chuva foi apenas o início do problema: “A geomorfologia e o modelo de ocupação territorial do estado, com muitas cidades construídas às margens dos rios, foram determinantes para a magnitude das perdas e danos”. O relatório aponta que a resiliência só será pos­sível com ações coordenadas utilizando uma governança regional, com troca de informações e estratégias entre os diferentes níveis do governo; aumento da capacidade orçamentária dos municípios; investimento no combate à desinformação e medidas diferenciadas para os grupos mais vulneráveis, entre outras ações.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-info1-2026-09-1140.png" data-tablet_size="1140x1605" alt="El Niño altera padrões de chuva, provocando excesso de precipitação em algumas regiões do mundo e seca em outras">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara/Revista <em>Pesquisa FAPESP</em></span>
<p><strong>Adaptação das cidades</strong><br />
Neste ano, se os padrões dos últimos eventos se repetirem, espera-se que o El Niño de forte intensidade cause mais chuva no Sul e Sudeste, enquanto o Norte poderá sofrer com uma seca. Em outubro de 2024, o rio Negro, na bacia do Amazonas, a maior bacia hidrográfica do mundo, atin­giu os níveis mais baixos de sua história. Naquele ano, porém, além do El Niño, houve a influência do aqueci­mento do Atlântico Norte tropical. Esse segundo fenô­meno ainda não se confirmou para este ano, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agên­cia ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), o que poderá reduzir a gravidade dos impactos do El Niño.</p>
<p>O que está consolidado é a existência desse El Niño e do aquecimento global. A ciência e os órgãos de monito­ramento internacionais e nacionais divulgam periodica­mente boletins com previsões e novos dados. Há o con­senso científico de que eventos extremos — secas, ondas de calor e enchentes — serão cada vez mais frequentes. E fenômenos que já ocorrem naturalmente, como El Niño e La Niña, tendem a ser intensificados pelo aquecimento do planeta. Entra em cena, portanto, a adaptação: o rede­senho das estratégias para a vida na Terra de acordo com os impactos já sentidos.</p>
<p>Assim como são discutidas as estratégias para evitar o agravamento do aquecimento do planeta, com a redu­ção de emissões, também chegou a vez da pauta de redu­ção do impacto do que já está em curso. André Corrêa do Lago, presidente da 30ª Conferência das Nações Uni­das sobre as Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém no ano passado, chegou a divulgar uma carta, em outubro de 2025, para dizer: “A adaptação climática dei­xou de ser uma escolha que sucede à mitigação”.</p>
<div class="box-lateral"><strong>O que é o Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) – Cidades Resilientes a Inundações</strong><br />
Financiado pela FAPESP e sediado no IPT, o centro reúne governo, universidades e empresas para desenvolver gêmeos digitais urbanos e ferramentas de apoio à prevenção e resposta a inundações em São Paulo<br />
</div>
<p>Iniciativas surgem, então, para mapear as regiões mais suscetíveis aos desastres. Em julho, o AdaptaBrasil, plata­forma do governo federal que reúne indicadores de risco de impactos das mudanças climáticas, lançou o Painel Cidades, com dados sobre ameaças climáticas, exposição e vulnerabilidade para os 5.570 municípios do país. A cidade de São Paulo tem risco muito alto de exposição a inun­dações, enxurradas e alagamentos. O mesmo vale para o Rio de Janeiro e para outras cidades do Sul e Sudeste, como Porto Alegre.</p>
<p>Filipe Falcetta, pesquisador em hidrologia urbana do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), conhece o dilema das cidades concretadas. Engenheiro civil de for­mação, ele conta que São Paulo é uma cidade repleta de rios, mas que estão sob o concreto após um processo de “soterramento” histórico. As consequências aparecem agora, com as chuvas intensas do El Niño.</p>
<p>Ele lembra que, em 2022, por exemplo, o Beco do Batman, em Pinheiros (bairro da Zona Oeste de São Paulo), chegou a ganhar o apelido de Beco do Aquaman depois de uma enchente. “O Beco do Batman, por exemplo, é uma passagem do rio Verde, um afluente do rio Pinheiros que passa embaixo da rua Cardeal Arcoverde”, explica. E com­pleta: “Se a gente olhar para o tecido urbano, de um modo geral, ele dá as respostas para a adaptação”.</p>
<p>Falcetta e outros cientistas estão trabalhando jun­tos no <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/120089/centro-de-ciencia-para-o-desenvolvimento-ccd-cidades-resilientes-a-inundacoes/" target="_blank" rel="noopener"><u>Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) – Cidades Resilientes a Inundações</u></a>, um projeto financiado pela FAPESP e fruto da parceria entre o IPT e a Secreta­ria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo (SCTI), a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado de São Paulo (SDUH), a SP Águas, o Metrô-SP, a Companhia Paulista de Trens Metropolita­nos (CPTM), a Universidade de São Paulo (USP), a Univer­sidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal do ABC (UFABC), o Insper, a Universidade Presbi­teriana Mackenzie, a Uninove e instituições internacionais.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/Super-El-Nino-Desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="2560x2167" alt="Infográfico mostra o que acontece quando muda a temperatura do Pacífico, causando o El Niño">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara/Revista Pesquisa FAPESP</span></div><div class="post-content sequence">
<p>A iniciativa busca analisar onde as cidades ainda podem ser modificadas para fornecer aos gestores públicos infor­mações estratégicas. O grupo, como conta o engenheiro civil, quer “medir e mostrar, de forma lúdica, que um território não perturbado geraria deter­minada resposta, enquanto o território que temos hoje gera a resposta que vemos nos jor­nais toda vez que chove”.</p>
<p>As regiões de São Paulo que ainda têm espaços verdes são mais fáceis de modificar, segundo Falcetta, principal­mente para reduzir a impermeabilização do solo e criar áreas maiores para o escoamento da água. No entanto, ele diz que a “região periférica ainda é um desafio” justamente pela falta de espaço para a ampliação do verde. As regiões passíveis de adaptação são os “lotes transformáveis”, mas, em algumas partes das cidades, eles podem ser muito popu­losos, incluir escolas e equipamentos públicos e não ter árvores. Isso aumenta o grau de dificuldade da adaptação.</p>
<p>Inicialmente, o projeto do IPT deve se focar na resiliên­cia às inundações em São Paulo, em um plano-piloto. Mas o especialista diz que as modificações que podem ser fei­tas na cidade devem ajudar, de forma indireta, em outros fenômenos também, como as ondas de calor. “Significa deixar de ser uma selva de pedra total e ser uma cidade mais verde. Estamos olhando indiretamente para a ques­tão do calor extremo, do conforto, de uma cidade mais amiga do verde, do meio ambiente. Ou seja, também para outros ganhos”, afirma o engenheiro.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-info3-2026-09-1140.png" data-tablet_size="1140x449" alt="Linha do tempo mostra a intensidade dos episódios e alguns de seus impactos no Brasil">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco LaraGlauco Lara/Revista <em>Pesquisa FAPESP</em></span></div><div class="post-content sequence">
<p><strong>Vulnerabilidade </strong><br />
Os dados sobre ameaças climáticas e exposição mostram que São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre têm risco “muito alto” de inundações. Mas a plataforma AdaptaBra­sil também traz outro parâmetro: a vulnerabilidade. Nesse caso, essas cidades apresentam um risco “muito baixo”.</p>
<p>Isso significa que, apesar de serem suscetíveis ao pro­blema, essas metrópoles têm maior capacidade de se recuperar e menos sensibilidade aos desastres, com um sistema de saúde mais estruturado, menor risco de a popu­lação contrair doenças e melhor acesso à infraestrutura, entre uma série de outros fatores.</p>
<p>Em outras regiões do país, a resposta após um desastre costuma demorar mais por questões estruturais de desi­gualdade. A cidade mais indígena do país, São Gabriel da Cachoeira (AM), por exemplo, apresenta um alto índice de vulnerabilidade, segundo a plataforma do governo federal. Há maior distância até as rodovias e baixa cobertura de saneamento básico, além de desafios relacionados à renda e ao acesso à educação. É uma realidade que se repete em muitos municípios do Norte e do Nordeste.</p>
<p>Belém apresenta alto risco de exposição ao estresse hídrico, considerando a disponibilidade, a oferta e a demanda de água. O mesmo ocorre em outras cidades do Norte e do Centro-Oeste, como Rio Branco, Campo Grande e Manaus. É nessas regiões do país, com esse perfil, que há possibilidade de seca devido ao El Niño e a “eventos climáti­cos compostos”, quando diferentes fenômenos ocorrem de forma simultânea ou encadeada — uma situação cada vez mais comum em tempos de emergência climática, como explica Tercio Ambrizzi, professor do Instituto de Ener­gia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP).</p>
<div id="attachment_587845" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587845 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-montagem-2026-09-1140.png" alt="" width="1140" height="580" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-montagem-2026-09-1140.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-montagem-2026-09-1140-250x127.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-montagem-2026-09-1140-700x356.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-montagem-2026-09-1140-120x61.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo pessoal</span><strong>Mesmo problema, 42 anos depois</strong>: O fotógrafo Daniel Marenco, aos 2 anos, em um barco com os pais e uma tia pelas ruas alagadas de São Leopoldo (RS), durante as enchentes de 1982, quando chuvas intensas começaram a atingir o estado, no início do ciclo do histórico El Niño de 1982-1983. Em 2024, já como profissional, Marenco voltou à cidade para registrar as inundações que atingiram o estado. À direita, a rua onde sua mãe mora atualmente.<span class="media-credits">Acervo pessoal</span></p></div>
<p>“Com a seca, já há o favorecimento de uma onda de calor. Você junta os dois e acontecem simplesmente recordes extremos. Isso tem matado mais do que qual­quer coisa”, explica, citando um <a href="https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/cgcl/paginas/saude-e-ondas-de-calor" target="_blank" rel="noopener">estudo</a> divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em junho deste ano, que contabilizou mais de 120 mil mortes no Brasil em decorrência das ondas de calor entre 2000 e 2019.</p>
<p>Nesses casos, ele defende medidas estruturais. “Arma­zenar água, particularmente para enfrentar os períodos mais secos, é importante porque, mesmo que a estiagem se prolongue, em algum momento vai chover. Não é um deserto”, afirma.</p>
<p>A adaptação também chegou ao campo. Ambrizzi lem­bra que as enchentes provocadas pelo El Niño de 1983 cau­saram grandes prejuízos à produção agrícola. Desde então, agricultores passaram a planejar os ciclos de plantio com base nas previsões de seca e chuva.</p>
<p>“Com as commodities, você pode imaginar onde e quando plantar, se precisa colher [o alimento] mais cedo. Para as regiões que têm irrigação, você fica mais tranquilo, porque consegue fornecer o nível de água de que as plantas precisam. Mas, se isso não está disponível, é um grande pro­blema”, afirma. Esse é o caso de Santa Maria de Jetibá (ES). Conhecida pela concentração de pequenas propriedades rurais, a cidade tem baixa capacidade de adaptação ao estresse hídrico, segundo o AdaptaBrasil, devido ao com­prometimento do balanço hídrico pelas atividades agro­pecuárias e industriais.</p>
<p>Para Marengo, o El Niño, “super” ou forte, não pode ser evitado, mas seus efeitos podem ser reduzidos. “Os desastres vêm e não há como parar. Já sabemos quais são as regiões. Podemos gerenciar o risco de desastres gerados pelo El Niño, mas não podemos combater o fenômeno”, afirma. O climatologista diz que esse conhecimento deve servir de alerta. “Sabemos o que aconteceu antes, onde a população continua crescendo e em que ainda há ocupação e constru­ção em áreas irregulares, onde não se deveria construir. É aí que notamos os maiores impactos. O que vemos é que o El Niño deixou de ser só um fenômeno climático. É, tam­bém, um fenômeno socioeconômico”, conclui.</p>
<p><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/E7EVY0kLU68?si=XB9fNBiuOHp8XF6i" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
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		<title>Folheie ou baixe a edição 365</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2026 09:03:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Impressa]]></category>
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					<description><![CDATA[Folheie ou baixe a edição de setembro de 2026]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="position:relative;padding-top:max(60%,326px);height:0;width:100%"><iframe title="El Niño coloca à prova a resiliência climática das cidades" allow="clipboard-write; autoplay; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" sandbox="allow-top-navigation allow-top-navigation-by-user-activation allow-downloads allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-modals allow-popups-to-escape-sandbox allow-forms" allowfullscreen="true" style="position:absolute;border:none;width:100%;height:100%;left:0;right:0;top:0;bottom:0;" src="https://e.issuu.com/embed.html?backgroundColorFullscreen=&#038;d=el_ni_o_coloca_prova_a_resili_ncia_clim_tica_das&#038;u=pesquisafapesp"></iframe></div>
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		<title>O menino cresceu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Alves - Diretor de Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2026 09:00:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Carta do editor]]></category>
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					<description><![CDATA[Não bastassem os desafios sociais e econômicos, as provações climáticas também não dão nem darão descanso às atuais e às próximas gerações. Entre elas, poucas são tão familiares e presentes quanto El Niño, nome dado por pescadores do norte do Peru, em alusão ao Menino Jesus, à quente corrente oceânica que aparecia no Pacífico logo... <a class="view-article" href="https://revistapesquisa.fapesp.br/o-menino-cresceu/">Ver artigo</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Não bastassem os desafios sociais e econômicos, as provações climáticas também não dão nem darão descanso às atuais e às próximas gerações. Entre elas, poucas são tão familiares e presentes quanto El Niño, nome dado por pescadores do norte do Peru, em alusão ao Menino Jesus, à quente corrente oceânica que aparecia no Pacífico logo depois do Natal. O apelido chegou à ciência em 1892, num relato do capitão de navio Camilo Carrillo à Sociedade Geográfica de Lima (Peru). Esse conhecimento poderia estar apenas em uma nota mirrada num livro de geografia, mas o fenômeno só cresce em relevância e impacto — e cá estamos.</p>
<p>Já vimos secas históricas na Amazônia, com a água do lago Tefé chegando a quase 40 °C (e matando peixes e botos aos montes), e enchentes devastadoras no Sul (em que o “pequeno” foi um coadjuvante de peso). Essas cenas escancaram o quanto nossas cidades estão despreparadas para conviver com ele. E “conviver” realmente é a palavra a ser incorporada à nossa rotina.</p>
<p>Adaptar-se ao que já está aí é o caminho, ao mesmo tempo que se trabalha para frear emissões de gases do efeito estufa. <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/ameaca-de-um-super-el-nino-desafia-cidades-brasileiras-a-se-preparar-para-eventos-extremos/" target="_blank" rel="noopener">A reportagem de capa desta edição</a> discute esse tema e outras nuances, como a busca por maneiras de tornar a cidade mais segura. O infográfico que acompanha a matéria disseca o mecanismo do fenômeno, seus efeitos globais e a série histórica das últimas décadas.</p>
<p>Na sequência, em entrevista a Ricardo Balthazar, a arquiteta <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/denise-duarte-os-riscos-do-calor-extremo-sao-um-reflexo-das-nossas-desigualdades-sociais/" target="_blank" rel="noopener">Denise Duarte</a>, da FAU-USP, demonstra como o risco climático é o retrato da desigualdade e enumera os absurdos que se acumulam: pontos de ônibus cobertos de vidro, sem sombra; torres comerciais que precisam ser evacuadas se falta energia, porque a fachada é toda envidraçada e as janelas, seladas; apartamentos novos projetados como caixas de vidro, com varanda falsa e área reservada para a condensadora do ar-condicionado. “Nunca vi plantas tão ruins como agora”, diz ela.</p>
<p>Da insegurança climática à habitacional: <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/aluguel-social-como-alternativa-a-crise-habitacional-em-sao-paulo/" target="_blank" rel="noopener">reportagem sobre aluguel social</a> mostra que a política existe em São Paulo desde 2002, tem bons índices de acesso e permanência, mas ainda não ganhou escala. Há ainda a insegurança dos dados: <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/a-criptografia-que-promete-esconder-dados-ate-da-nuvem/" target="_blank" rel="noopener">reportagem sobre a criptografia totalmente homomórfica</a> acompanha a corrida para que um servidor processe informações cifradas sem enxergá-las, algo já possível na prática, embora ainda muito mais lento que o processamento comum.</p>
<p>A <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/revista/ver-edicao-editorias/?e_id=529" target="_blank" rel="noopener">edição 365</a> marca o início de uma nova etapa de <em>Pesquisa FAPESP</em>, que renova os projetos editorial e gráfico e traz mudanças no conteúdo. A revista quer falar com mais gente sem abrir mão do rigor que a sustenta há 27 anos. Reestreiam as seções <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/a-cadeia-alimentar-das-revistas-predatorias/" target="_blank" rel="noopener">Boas Práticas</a>, por Theo Ruprecht, sobre malfeitos científicos, e <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/o-que-a-ascensao-das-universidades-chinesas-tem-a-nos-ensinar/" target="_blank" rel="noopener">Dados</a>, por Sabine Righetti, sobre os indicadores da ciência nacional e internacional. A coluna <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/especial-jabuti-academico/" target="_blank" rel="noopener">Gente da Pesquisa</a>, de Marcelo Soares, é mais uma forma de a revista se conectar ao mundo acadêmico-científico e seus atores.</p>
<p>Fechamos a edição com uma <a href="https://agencia.fapesp.br/elza-berquo-pioneira-da-demografia-brasileira-morre-aos-100-anos-de-idade/58706" target="_blank" rel="noopener">homenagem a Elza Berquó</a>, morta em julho, aos 100 anos. Matemática de formação e demógrafa por vocação, ela institucionalizou os estudos populacionais no Brasil, fundou o Cebrap em 1969 e o Nepo na Unicamp, em 1982, e passou a carreira cobrando que se produzissem não somente dados brutos, mas dados pensados. Costumava dizer que por trás de cada tabela há pessoas.</p>
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		<title>O olhar mais aguçado das pesquisas qualitativas</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/o-olhar-mais-agucado-das-pesquisas-qualitativas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-olhar-mais-agucado-das-pesquisas-qualitativas</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fábio de Castro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Sep 2026 20:38:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[Com metodologias mais robustas e desenhos de pesquisa mais sofisticados, essas abordagens qualitativas ajudam a estudar fenômenos que os números não decifram sozinhos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Por décadas, a pesquisa qualitativa foi vista com descon­fiança pela comunidade científica, ficando em segundo plano por ser considerada excessivamente subjetiva. Na última década, porém, as abordagens desse tipo têm passado por um processo de refinamento metodológico, tornando­-se ferramentas importantes para buscar respostas a per­guntas complexas. Em uma nova fronteira desse processo estão os métodos mistos, cada vez mais sofisticados, que buscam integrar abordagens qualitativas e quantitativas.</p>
<p>Esse modelo tem se mostrado útil para pesquisadores que investigam questões tão diversas como a experiência subjetiva de pacientes de esquizofrenia durante um tra­tamento de longo prazo, a redução da vacinação infan­til ligada à desinformação, as transições socioambientais produzidas por iniciativas de desenvolvimento sustentá­vel na Amazônia ou os diversos fatores associados à saúde mental de estudantes universitários.</p>
<p>Os métodos da pesquisa qualitativa, que envolvem abordagens como entrevistas aprofundadas ou grupos focais (ou seja, o acompanhamento das conversas sobre um tema que acontecem entre os membros de um grupo pequeno de pessoas), buscam investigar aspectos que não são fáceis de transformar em números. Eles ajudam a entender a percepção subjetiva das pessoas e os significados que elas atribuem aos fenômenos.</p>
<p>O avanço da abordagem é particularmente evidente na área da saúde. Nas últimas décadas, seu emprego cresceu em publicações de revistas científicas biomédicas, de saúde pública e das diversas profissões clínicas. Na pla­taforma PubMed, o número de artigos passou de pouco mais de 2.000 em 1980 para mais de 26 mil em 2000. Em 2020, já eram mais de 230 mil, e o número quase dobrou de lá para cá, chegando a <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=qualitative%2Bstudy&amp;sort=date&amp;size=200" target="_blank" rel="noopener">425 mil em 2026</a>.</p>
<p>Para o psiquiatra Egberto Ribeiro Turato, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), essa explosão está associada ao crescente interesse pela humanização das atividades clí­nicas, que passaram a exigir a compreensão das dimen­sões emocionais e sociais.</p>
<p>“Na área de saúde, os métodos quantitativos sempre foram muito valorizados, porque os resultados estatísti­cos explicam os nexos causais entre os fenômenos do adoe­cimento e dos cuidados. Mas cada vez mais a comunidade científica sentia necessidade de métodos capazes de respon­der como pacientes, familiares e os próprios profissionais clínicos vivenciam os fenômenos humanos”, afirma Turato.</p>
<div class="box-lateral"><strong>O que é o método clínico-qualitativo</strong><br />
O método clínico-qualitativo (MCQ) aplica recursos das ciências humanas à saúde, buscando compreender significados, sentimentos e valores envolvidos nos processos de saúde e doença<br />
</div>
<h2><strong>Humanas na saúde</strong></h2>
<p>Conhecido como criador do <a href="https://www.researchgate.net/publication/343150881_Tratado_da_metodologia_da_pesquisa_clinico-qualitativa_Construcao_teorico-epistemologica_discussao_comparada_e_aplicacao_nas_areas_da_saude_e_humanas" target="_blank" rel="noopener"><u>método clínico-qualitativo</u></a>, difundido em cursos de pós-graduação em todo o país nos últimos 30 anos, Turato define a pesquisa qualitativa em saúde como “a investigação das ciências humanas, ou simbólicas, aplicada às áreas da clínica e da saúde cole­tiva”. Segundo ele, em vez das relações de causa e efeito, a abordagem busca nexos simbólicos, impulsionada por referências teóricas psicanalíticas, antropológicas e de escolas filosóficas.</p>
<p>“Quando um médico ou enfermeiro pesquisa por que o paciente não faz uso correto da medicação, a abordagem quantitativa seria capaz de mostrar o percentual dos que esquecem de tomar. Mas a razão que o leva a esquecer é de ordem subjetiva e exige outro tipo de avaliação. A pes­quisa qualitativa vai mudar a relação emocional e cultural do profissional de saúde com o paciente”, explica Turato.</p>
<p>Em uma de suas pesquisas mais recentes, ele orien­tou uma pesquisa sobre a experiência de pacientes com esquizofrenia no ambulatório especializado em psiquia­tria da FCM-Unicamp. Eles participam de um protocolo de tratamento com clozapina (antipsicótico de alta efi­cácia para casos de esquizofrenia resistente a outras dro­gas). Mas o medicamento tem entre seus efeitos colate­rais a alteração na produção de sangue na medula óssea, com a diminuição de glóbulos brancos e vermelhos, o que demanda um protocolo rígido.</p>
<p>“É preciso coletar sangue para um hemograma semanal­mente, por 14 semanas. Nosso objetivo não era saber se o tra­tamento estava funcionando, mas sim o que sente o paciente ao ir à Unicamp com tanta fre­quência, já que isso poderia gerar impressões negativas, talvez pre­judicando o tratamento. Foram feitas entrevistas abertas em profundidade, exploradas com um método de análise de conteúdo clínico-qualitativa”, explica Turato.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="1140" height="630" class="aligncenter size-full wp-image-587894" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-cabeças-2026-09-1140.webp" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-cabeças-2026-09-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-cabeças-2026-09-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-cabeças-2026-09-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-cabeças-2026-09-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><span class="media-credits-inline">Ariel Severino/Revista <em>Pesquisa FAPESP</em></span></p>
<p>A conclusão foi que o tratamento não levava a simbo­lizações negativas – as visitas semanais faziam os pacien­tes se sentirem mais acolhidos. “Concluímos que o pro­tocolo promove a percepção de segurança e favorece a adesão ao tratamento, além de mitigar o isolamento dos pacientes”, resume ele. O trabalho gerou um <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12638437/" target="_blank" rel="noopener">artigo</a> que foi publicado na revista <em>Brain and Behavior</em>, com <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/119340/experiencia-percebida-do-protocolo-de-tratamento-com-clozapina-um-estudo-qualitativo-de-relatos-de-p/?q=25/24179-7" target="_blank" rel="noopener">apoio da FAPESP</a> nas modalidades de Bolsa de Iniciação Cien­tífica e Publicações de Artigos.</p>
<p>Em sua tese de doutorado, concluída em 1988, com bolsa da FAPESP, Turato conduziu uma pesquisa inteiramente quantitativa. “Nem utilizávamos esse termo, porque o uso da estatística era simplesmente algo óbvio”, recorda. Na década de 1990, o professor integrou, na Unicamp, a disci­plina de psicologia médica, campo inaugurado na década de 1950 pelo húngaro Michael Balint, autor de “<a href="https://ia601501.us.archive.org/18/items/in.ernet.dli.2015.139200/2015.139200.The-Doctor-His-Patient-And-The-Illness_text.pdf" target="_blank" rel="noopener">O médico, seu paciente e a doença</a>”. “Eu ensinava a disciplina e come­cei a usar intuitivamente entrevistas com pacientes”, conta. Em 1993, orientou o primeiro artigo publicado usando o método clínico-psicológico qualitativo na Unicamp.</p>
<p>A partir daí, Turato se aprofundou na abordagem e teve contato com a autora da primeira obra de pesquisa qua­litativa em saúde no Brasil, “<a href="https://www.researchgate.net/publication/33023325_O_desafio_do_conhecimento_Pesquisa_qualitativa_em_saude" target="_blank" rel="noopener">O Desafio do Conhecimento: Pesquisa Qualitativa em Saúde</a>”, de Cecília Minayo, da Fio­cruz. Em 2003, ele publicou o “<a href="https://www.researchgate.net/publication/343150881_Tratado_da_metodologia_da_pesquisa_clinico-qualitativa_Construcao_teorico-epistemologica_discussao_comparada_e_aplicacao_nas_areas_da_saude_e_humanas" target="_blank" rel="noopener">Tratado da Metodologia da Pesquisa Clínico-Qualitativa</a>”, que também se tornou referência no Brasil.</p>
<p>Em 2016, a resolução nº 510 do Conselho Nacional de Saúde estabeleceu as regras éticas para pesquisas em ciências humanas e sociais, e hoje as revistas científicas mais exigentes já estabeleceram checklists para garantir a qualidade metodológica e evitar análises superficiais dos dados. Mas o professor argumenta que, para manter o rigor necessário, as abordagens mistas podem trazer confusões conceituais e epistemológicas.</p>
<p>“As definições dos métodos qualitativos e quantitati­vos são rigorosas, e há uma grande diferença entre seus elementos constitutivos, como amostragens, instrumen­tos de coletas e análises. Por isso, acho que, para fazer pesquisa ‘quali-quanti’, é preciso ter o dobro de conhe­cimento metodológico, mas também o dobro de tempo, de dinheiro e de energia mental.”</p>
<div class="box-lateral"><strong>CRESCIMENTO NA ÁREA DA SAÚDE (PUBMED)</strong><br />
<strong>425 mil</strong> artigos qualitativos publicados em 2026 — eram pouco mais de 2 mil em 1980</p>
<p><strong>TEMAS EM PESQUISA QUALITATIVA HOJE</strong><br />
• Saúde mental de universitários<br />
• Desinformação sobre vacinas<br />
• Transição socioambiental na Amazônia<br />
• Adesão a tratamento na esquizofrenia</p>
<p></div>
<h2><strong>Outra visão da saúde mental</strong></h2>
<p>Os métodos mistos, porém, são amplamente utilizados em outros tipos de pesquisa. Um exemplo é o trabalho da psicanalista Kelly Cristina Brandão da Silva, também da FCM-Unicamp. Ao contrário de Turato, ela teve sua carreira científica fundamentada em estudos qualitati­vos, mas decidiu agregar uma etapa quantitativa ao seu <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/118535/vivencias-de-cuidado-e-sofrimento-psiquico-o-sentido-de-pertencimento-entre-estudantes-universitario/?q=25/13804-8" target="_blank" rel="noopener">projeto de pesquisa</a> sobre saúde mental e sofrimento psí­quico dos alunos na universidade.</p>
<p>Iniciado em julho de 2024, com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa &#8211; Regular, o projeto nasceu apenas com abordagem qualitativa, baseada em grupos focais. “A abordagem qualitativa predomina entre os psi­canalistas, mas cada vez entendemos mais que os dados brutos de uma etapa quantitativa ajudam a melhorar as nossas perguntas. As abordagens se iluminam de forma recíproca”, diz ela.</p>
<p>A pesquisadora explica que a inclusão da etapa quan­titativa exigiu mais recursos humanos &#8211; e para isso foram obtidas sete bolsas no âmbito do auxílio da FAPESP. Essa fase incluiu um questionário online, com 118 pergun­tas, que cobriu diversos dados sociodemográficos, com informações sobre permanência estudantil, questões de racismo, gênero, assédio na universidade e expectativas sobre o futuro profissional.</p>
<p>“Os dados mostraram que a universidade mudou muito. A Unicamp introduziu cotas para pessoas trans e com defi­ciências muito recentemente, e o perfil dos alunos é muito diferente. A grande maioria tem renda familiar entre 1 e 3 salários mínimos. As demandas estudantis também se transformaram. Houve uma inflação de diagnósticos psiquiátricos, e aumentou a demanda por assistência à saúde mental”, afirma.</p>
<p>Segundo ela, esses dados refinaram as perguntas da etapa qualitativa. Os resultados apontaram que, apesar da ampliação das formas de ingresso na universidade, há uma percepção de que as políticas de permanência são insufi­cientes. “Os grupos focais também detectaram um con­flito de pertencimento: alunos pretos, pardos e indígenas começam a reivindicar uma mudança nas bibliografias, alheias a seus saberes e cosmovisões. Há um sofrimento específico dessa nova população universitária, com des­taque para os refugiados.”</p>
<div class="box-lateral"><strong>IMPACTO DA DESINFORMAÇÃO ANTIVACINA</strong><br />
Entre 2019 e 2021, as narrativas antivacina no Telegram cresceram <strong>689 vezes </strong>com base em 80 milhões de posts analisados em 1.785 grupos no Telegram.</p>
<p>Nesse mesmo cenário, a vacinação infantil no Brasil caiu de <strong>mais de 90%</strong> menos de 68% das crianças de até 12 meses vacinadas (2013–2020)<br />
</div>
<p>A temática do estudo nasceu em 2021, durante a pandemia de Covid-19, quando a pesquisadora verificou um aumento de ideação suicida entre os alunos do curso de fonoaudiologia, no qual leciona. A pesquisa foi inserida em um estudo multicêntrico, que já resultou na publica­ção de cinco artigos, um capítulo de livro e do “<a href="https://drive.google.com/file/d/1cHJAThep1p6QkMvAywXnXhsoUYqW7YZi/view" target="_blank" rel="noopener">Guia para o bem-viver na universidade: psicanálise, saúde mental e políticas de cuidado</a>”, lançado em 2025.</p>
<p>O objetivo da pesquisa era fazer um “diagnóstico clíni­co-político” sobre o sofrimento psíquico de estudantes, que poderá ajudar a Unicamp a aperfeiçoar suas políticas. A perspectiva clínico-política leva em conta que o sofri­mento mental não é um problema puramente individual ou biológico, mas um produto das dinâmicas institucio­nais no contexto do neoliberalismo.</p>
<p>A metodologia mista permitiu identificar, por exem­plo, o sofrimento produzido por uma ideia de que todos precisam ser empreendedores, ou pelas dificuldades de conciliação entre trabalho doméstico, maternidade e universidade.</p>
<p>A inclusão de uma abordagem quantitativa foi uma ino­vação para os psicanalistas da Unicamp, mas, em outros campos do conhecimento, como a área ambiental, há uma tendência ao pluralismo metodológico, e a abordagem mista é predominante. É o caso do <a href="https://irl2034.fr/duramaz3-trajetorias-socioecologicas-e-transicoes-sustentaveis-na-amazonia-brasileira?lang=pt-br" target="_blank" rel="noopener">Projeto Duramaz 3</a>, que busca compreender como as mudanças produzidas em nível local por projetos de desenvolvimento susten­tável podem impulsionar transformações socioambien­tais de grande escala na Amazônia. Parte de um programa internacional iniciado em 2007, que envolve diversas uni­versidades do Brasil e da França, o projeto está entrando em sua terceira fase.</p>
<p>“A iniciativa examina as transições socioambientais em 15 regiões da Amazônia. A ideia é compreender por que alguns territórios adotam uma trajetória de desenvolvi­mento sustentável e outros a de degradação”, explica Carla Morsello, professora da Escola de Artes, Ciências e Humani­dades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). A terceira fase do projeto, iniciada em março, teve <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/119723/duramaz3-trajetorias-regionais-de-transicao-socioecologica-na-amazonia-rumo-a-sustentabilidade/?q=25/10829-0" target="_blank" rel="noopener">apoio da FAPESP</a> na modalidade Auxílio à Pesquisa &#8211; Temático, contando com Morsello como pesquisadora responsável.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="1140" height="630" class="aligncenter size-full wp-image-587890" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-barco-2026-09-1140.webp" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-barco-2026-09-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-barco-2026-09-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-barco-2026-09-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-barco-2026-09-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><span class="media-credits-inline">Ariel Severino/Revista <em>Pesquisa FAPESP</em></span></p>
<p>“Nas duas primeiras fases foram levantados dados para a <a href="https://hal.science/hal-00644885v1/document" target="_blank" rel="noopener">produção de indicadores</a> de diferentes áreas. Na ter­ceira, o objetivo é incluir mais indicadores qualitativos, ao mesmo tempo em que vamos refinar e sintetizar nosso conjunto de indicadores para que eles sejam relevantes principalmente para as populações locais”, explica.</p>
<p>O método qualitativo empregado prevê o desenvolvi­mento de “jogos sérios” (que têm um componente lúdico, mas sem propósito de entretenimento) que servirão como ferramentas para processos participativos na definição de cenários. A criação do jogo será a parte central do traba­lho da equipe brasileira do projeto.</p>
<p>“A ideia é que seja jogado com as comunidades locais e os gestores públicos. Os indicadores serão utilizados no jogo, para que os participantes entendam os resultados de suas tomadas de decisão”, detalha Morsello. “Quando estudamos esse processo, seria possível fazer um estudo de observação direta e descobrir que decisões foram tomadas. Mas não basta para compreender as razões por trás das escolhas. Os jogos nos ajudam nisso”, explica a cientista ambiental. Além disso, os métodos qualitativos são importantes em estudos que buscam investigar o conhecimento tradicional.</p>
<p>Segundo Mário Aquino Alves, professor do Departa­mento de Gestão Pública da FGV que tem se dedicado aos estudos qualitativos nas últimas três décadas, ainda há preconceito contra esse tipo de abordagem por um suposto excesso de subjetividade. “O que tem mudado de muitas maneiras é a sofisticação cada vez maior dos dese­nhos de pesquisa, da formalização dos procedimentos e da interpretação de dados. Temos protocolos muito mais específicos para todas as fases da pesquisa.”</p>
<p>Todo trabalho científico tem um grau de subjetividade, segundo ele, já que envolve escolhas: que perguntas fazer, qual modelo será usado, como será montada a base de dados. Na pesquisa qualitativa, porém, isso é mais visível porque há necessidade de interpretar as evidências. “Só que interpretar não significa que haja arbitrariedade. Há um rigor em tornar o processo transparente”, explica.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="800" height="1119" class="size-full wp-image-587898 alignright" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-médico-2026-09-800.webp" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-médico-2026-09-800.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-médico-2026-09-800-250x350.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-médico-2026-09-800-700x979.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-pesquisas-qualitativas-médico-2026-09-800-120x168.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><span class="media-credits-inline">Ariel Severino/Revista <em>Pesquisa FAPESP</em></span></p>
<h2><strong>Teias da desinformação</strong></h2>
<p>Um exemplo desse rigor é o estudo atualmente conduzido por Alves sobre a associação entre a desinformação sobre vacinas e a redução da cobertura vacinal nos últimos anos no Brasil. Parte de uma pesquisa feito pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públi­cas da FGV, com apoio do CNPq, o <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/118841/razoes-e-sentidos-do-discurso-antivacina-no-brasil-uma-abordagem-pragmatica-da-justificacao-social/" target="_blank" rel="noopener">projeto</a> também teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa &#8211; Pes­quisador Visitante Internacional, para garantir a partici­pação do psicólogo social Lupicínio Iniguez Reda, da Uni­versidade Autônoma de Barcelona, que é especialista em análise do discurso.</p>
<p>“Montamos o projeto para tentar entender como emer­gem esses discursos antivacina em grupos de teorias cons­piratórias, com dados obtidos no Telegram. Esse aplicativo tem uma característica interessante, a presença de gru­pos abertos públicos, totalmente rastreáveis”, diz o pes­quisador. O grupo desenvolveu um mecanismo capaz de rastrear as comunidades e identificar conteúdos antiva­cina. “Uma análise quantitativa pode mostrar que tipo de discurso está crescendo, mas a qualitativa nos ajuda a entender por que essas narrativas se tornam convincen­tes”, explica Alves.</p>
<blockquote><p>Emprego da IA também facilita a pesquisa qualitativa ao permitir trabalho com volume maior de textos, vídeos e áudios</p></blockquote>
<p>A pandemia de Covid-19 foi acompanhada de uma queda drástica da vacinação infantil, que só começou a ser revertida a partir de 2024. Mas, mesmo antes da pan­demia, entre 2013 e 2020, o percentual de bebês brasilei­ros de até 12 meses vacinados caiu de mais de 90% para menos de 68%. Esse fenômeno também foi acompanhado de um aumento da desinformação. Só entre 2019 e 2021, os posts com narrativas antivacina aumentaram 689 vezes, de acordo com os <a href="https://zenodo.org/records/17374340" target="_blank" rel="noopener">estudos dos pesquisadores da FGV</a> que <a href="https://desinfopop.org/2026/02/06/dossie-desinformacao-sobre-vacinas-na-america-latina-e-no-caribe/" target="_blank" rel="noopener">analisaram mais de 80 milhões de postagens</a> feitas em 1.785 grupos no Telegram.</p>
<p>O estudo atual também busca entender o efeito dessas narrativas sobre pessoas em situação vulnerável. Para isso foram montados dois grupos de controle: um em Guapi­ruvu, bairro rural do município paulista de Sete Barras, no Vale do Ribeira, e o outro numa comunidade em situação vulnerável na Zona Sul da cidade de São Paulo. “No grupo de Guapiruvu, todos têm celular, mas não têm acesso à internet, porque não há cobertura. Já o grupo da Zona Sul tem total conectividade”, conta Alves. Com a ajuda do professor da Universidade de Barcelona, os pesquisa­dores usam a análise do discurso para interpretar quali­tativamente os conteúdos que circulam.</p>
<blockquote><p>“O que tem mudado de muitas maneiras é a sofisticação cada vez maior dos desenhos de pesquisa, da formalização dos procedimentos e da interpretação de dados” – Mário Aquino Alves, professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV)</p></blockquote>
<p>“A cobertura vacinal em Guapiruvu é muito alta. Em uma área com fortes laços comunitários, por ser muito depen­dente de políticas públicas, o discurso de descrença no Estado parece que não faz sucesso. Já na Zona Sul, apesar da situação vulnerável, há menos laços comunitários, e as teorias cons­piratórias tendem a penetrar mais”, explica Alves.</p>
<p>“Outro achado é que os interesses em jogo por trás da desinformação não são necessariamente homogêneos. Há interesses econômicos, conexões religiosas ou ideo­lógicas. Não há um único elemento que seja prepon­derante”, diz o pesquisador, que também faz parte do núcleo de Cidades do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sobre <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/115446/governanca-de-mudancas-ambientais-globais/" target="_blank" rel="noopener">Governança de Mudan­ças Ambientais Globais</a>.</p>
<blockquote><p>“Quando estudamos esse processo, seria possível fazer um estudo de observação direta e descobrir que decisões foram tomadas. Mas não basta para compreender as razões” – Carla Morsello, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP)</p></blockquote>
<p>Para Alves, nem toda pesquisa precisa de métodos qua­litativos ou mistos, mas eles têm permitido que os pesqui­sadores trabalhem com perguntas mais complexas que há poucos anos nem poderiam ser propostas. Segundo ele, mais recentemente, os pesquisadores têm integrado a inteligência artificial (IA) a essas abordagens.</p>
<p>“A IA está mudando muito a pesquisa qualitativa, e para melhor. Hoje conseguimos trabalhar não apenas com volumes de texto imensos, mas com vários tipos de docu­mentos e outras formas de interação digital, incluindo vídeo e áudio, cuja análise seria totalmente impossível há cinco anos.”</p>
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		<title>Especial Jabuti Acadêmico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Soares]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Sep 2026 12:03:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gente da pesquisa]]></category>
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					<description><![CDATA[José Goldemberg é homenageado no Jabuti Acadêmico. Veja outros destaques, além de eventos e livros]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A terceira edição do prêmio Jabuti Acadêmico, que tem o apoio da FAPESP, da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, revelou seus vencedores em 12 de agosto, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.</p>
<p>O físico <strong>José Goldemberg</strong>, 98 anos, foi escolhido como a Personalidade Acadêmica homenageada no ano. Ex-presidente da FAPESP, professor emérito da USP, ex-ministro da Educação e da Saúde e ex-se­cretário estadual do Meio Ambiente em São Paulo, Goldemberg iniciou sua atividade científica em 1950. Em seu discurso, ele falou sobre a relação entre a pesquisa científica e o que o governo e a sociedade esperam dela. “Receber o prêmio [&#8230;] neste momento da minha jornada é mais do que um reconhecimento pessoal. É a validação de uma premissa à qual dediquei minha vida, a de que a ciência brasileira tem voz, autonomia e responsabilidade diante do mundo.”</p>
<p><strong>Nina Beatriz Stocco Ranieri</strong>, professora da Facul­dade de Direito da USP e coordenadora da Cátedra Unesco do Direito à Educação, estreou como curadora do prêmio, substituindo o físico <strong>Marcelo Knobel</strong>, idealizador e curador das primeiras duas edições. Ela destacou como um importante avanço na edição atual a política de uso da inteligência artificial que segue os padrões adotados internacionalmente.</p>
<p>A historiadora <strong>Mary Del Priore </strong>foi reconhecida com o Livro Acadêmico Clássico do ano: <em>História das mulheres do Brasil</em>, lançado pela Editora Contexto e pela Unesp em 1997, com o apoio da FAPESP. Ela organizou a obra pioneira, que reúne 19 artigos acadêmicos e um texto de Lygia Fagundes Telles.</p>
<h2><strong>Destaques entre os vencedores deste ano</strong></h2>
<p><strong>Thiago Benucci</strong>, com <em>O jeito Yanomami de pendurar redes </em>(Perspectiva), na categoria Antropologia, Sociologia, Demografia, Ciência Política e Relações Internacionais. Em 2016, ele estudou as formas Yanomami de habitar com apoio da FAPESP.</p>
<p><strong>Reginaldo Prandi</strong>, professor emérito de socio­logia na USP, com <em>Brasil africano: orixás, sacerdotes, seguidores </em>(Pallas), na categoria Ciências da Religião e Teologia. Em abril, ele deu <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/reginaldo-prandi-e-a-ciencia-dos-terreiros/" target="_blank" rel="noopener">entrevista à <em>Pesquisa FAPESP </em></a>sobre sua trajetória de pesquisa.</p>
<p><strong>Michael França</strong>, pesquisador do Insper, e <strong>Fillipi Nascimento</strong>, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, com <em>A loteria do nascimento </em>(Jandaíra), na cate­goria Economia. Entre 2018 e 2020, França teve apoio da FAPESP para estudar a relação entre fecun­didade, identificação racial e desigualdade.</p>
<p><strong>José Eduardo Faria</strong>, professor titular da Faculdade de Direito da USP, com <em>A democracia e o direito depois da pandemia </em>(Perspectiva), na categoria Direito.</p>
<p><strong>Carlos Eduardo Cerri</strong>, professor titular da Esalq-USP, e três coautores, com <em>Saúde do solo em ecossistemas tropicais </em>(Fealq), na categoria Ciências Agrárias e Ciências Ambientais.</p>
<h2><strong>Estante<br />
</strong></h2>
<p><strong>Lucia Sano</strong>, professora associada de letras na Unifesp, traduziu do grego <em>Anábase: a expedição persa</em>, de Xenofonte. O relato da guerra de mercenários atenienses contra o rei Arta­xerxes II, em 401 a.C., ganha uma versão contemporânea pela Penguin-Companhia das Letras. Entre 2014 e 2016, a profes­sora traduziu e anotou a <em>Ciropédia</em>, com o apoio da FAPESP.</p>
<p><strong>Denise Vilela</strong>, da Universidade Federal de São Carlos, lança <em>Alice hoje: lógica e nonsense </em>(Fábrica de Cânones). Pesquisadora do ensino de matemática, Denise caiu pelo buraco de coelho de Lewis Carroll para propor exercí­cios didáticos lúdicos. O projeto teve apoio da FAPESP.</p>
<p>O psicanalista <strong>Christian Dunker</strong>, professor titular do Instituto de Psicologia da USP, lançou <em>Discurso e narra­tiva em psicanálise </em>(Autêntica), articulando conceitos fundamentais com a prática clínica na convivência com pacientes que não conseguem narrar a própria vida.</p>
<p><strong>Marcio Pimenta</strong>, jornalista e sobretudo impressio­nante fotógrafo, atravessou a Patagônia com o apoio da National Geographic Society, refazendo parte da viagem de Charles Darwin com o Beagle e entrevis­tando cientistas e povos originários da região. Essa jornada deu origem ao livro <em>Encontrando Darwin: uma expedição através da Patagônia </em>(Solisluna).</p>
<p>A Diálogos Editora, liderada por <strong>Eleilson Leite</strong>, lança em setembro os primeiros títulos da coleção Diálogos Urgentes. Ela traz obras que traduzem para o público geral temas da atualidade, como a acele­ração da vida cotidiana, o machismo digital, o capacitismo e a degradação da internet. Os primeiros volumes serão lançados na Bienal do Livro.</p>
<div class="box"><strong>ANOTE NA AGENDA </strong></p>
<p>2.out. | <strong>Conferência “Explorando o uso de IA para publicações científicas”</strong></p>
<p>A oitava Conferência FAPESP deste ano será com Henrik Rudolph, editor-chefe da revista <em>Progress in Surface Science</em>, da Elsevier, e professor emérito da Universidade de Utrecht (Países Baixos). A conferência tratará das vantagens, desvantagens e questões relativas à autoria no uso de aplicações de inteligência artificial na academia.</p>
<p>30.out. | <strong>Conferência “Solidão, redes sociais e doenças crônicas não transmissíveis”</strong></p>
<p>Eliete Bouskela, pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e primeira mulher a presidir a Academia Nacional de Medicina, fará a nona Conferência FAPESP deste ano. Ela tem acompanhado os efeitos da solidão no sedentarismo, na obesidade e nas condições cardiovasculares derivadas.</p>
<p>9 a 13.nov. | <strong>Escolas Interdisciplinares</strong></p>
<p>A FAPESP realiza edições das Escolas Interdisciplinares, que reúnem pesquisadores em início de carreira e cientistas convidados do Brasil e do exterior. São dois encontros, um de Ciências Exatas, Naturais, Engenharia e Medicina, e outro de Humanidades, Ciências Sociais e Artes. Informações em <a href="https://fapesp.br/escolasfapesp2026" target="_blank" rel="noopener">fapesp.br/18333</a>.</p>
<p></div>
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		<title>Denise Duarte: Os riscos do calor extremo são um reflexo das nossas desigualdades sociais</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/denise-duarte-os-riscos-do-calor-extremo-sao-um-reflexo-das-nossas-desigualdades-sociais/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=denise-duarte-os-riscos-do-calor-extremo-sao-um-reflexo-das-nossas-desigualdades-sociais</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Balthazar]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Sep 2026 12:44:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://revistapesquisa.fapesp.br/?p=587776</guid>

					<description><![CDATA[Professora da FAU-USP estuda o clima urbano, coordena projetos da FAPESP sobre a adaptação climática e elabora o relatório do IPCC sobre cidades]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A cidade de São Paulo passou a contar no ano passado com um mapa deta­lhado do risco da popula­ção ao calor extremo, que combina condições ambientais e aspectos socioeconômicos para identificar as áreas de maior perigo, exposição e vulnerabilidade.</p>
<p>O mapa foi produzido por Denise Duarte, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da Universidade de São Paulo (USP), com a pesquisadora Luiza Muñoz, que desenvolveu o trabalho em seu doutorado na FAU-USP, e o profes­sor Rohinton Emmanuel, da Uni­versidade Caledônia de Glasgow, na Escócia. Os principais resultados foram <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S2212095525002846" target="_blank" rel="noopener">publica­dos</a> em setembro de 2025 na revista <em>Urban Climate</em>.</p>
<p>Os pesquisadores cruzaram ima­gens de satélite e indicadores ambien­tais com características socioeconô­micas, como renda, idade e condições de moradia. Dados do Censo 2022 per­mitiram analisar cada um dos 27.592 setores censitários em que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divide São Paulo.</p>
<p>A conclusão é de que o risco ao calor extremo é mais alta em áreas periféricas da capital, com maior densidade populacional e moradores de menor renda. “Essa é a população mais afetada, aquela que pode morrer por causa do calor”, afirma Duarte.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/RPF-entrevsita-denise-info-2026-09-1140.png" data-tablet_size="1140x1025" alt="Mapa dividido em duas partes mostrando o risco de calor em diferentes áreas da cidade de São Paulo.">
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  </picture>
<p>Nesta entrevista, ela discute estra­tégias para reduzir os riscos das ondas de calor e defende que evidências como as reunidas no mapa orientem as prioridades das políticas de adap­tação às mudanças climáticas.</p>
<p>A pesquisadora coordena proje­tos financiados pela FAPESP sobre resiliência e adaptação das cida­des, com foco em soluções baseadas na natureza, e integra como autora a elaboração do Relatório Especial sobre Mudança do Clima e Cidades (SRCities), do Sétimo Rela­tório de Avaliação (AR7), do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).</p>
<p><strong>Como o mapa que vocês criaram se diferencia de outros levantamen­tos similares?</strong><br />
Ao cruzar os dados ambientais com as informações socioeconômi­cas em cada um dos setores censitá­rios da cidade de São Paulo, consegui­mos um refinamento maior. Outros levantamentos são mais genéricos, por grandes regiões, por exemplo. Com os dados do Censo, é possível chegar a uma escala mais detalhada para fazer simulações sobre efeitos das mudanças climáticas e das políti­cas adotadas para enfrentá-las.</p>
<p>Como trabalhamos com dados abertos, o mapa pode ser atualizado a qualquer momento, se surgirem informações novas, ou quando hou­ver um novo Censo. Nossa metodolo­gia também está disponível, e outras cidades podem reproduzi-la para criar seus próprios mapas de risco.</p>
<p><strong>O que o mapa de São Paulo revela?</strong><br />
Constatamos que os riscos são um reflexo das nossas desigualdades. Pes­soas que vivem em áreas periféri­cas, de maior densidade populacio­nal, como as favelas, estão expostas a riscos maiores do que os que afe­tam moradores de outras regiões da cidade. Isso reflete não só as condi­ções de moradia, mas também outros aspectos econômicos, como a renda das pessoas.</p>
<p>Em países europeus, onde as desi­gualdades são menores, a idade é o fator que mais influi na vulnerabili­dade das pessoas. Em São Paulo, não, porque a maioria dos idosos vive em bairros mais centrais, em condições mais favoráveis para se adaptar aos riscos criados por ondas de calor. Nas favelas, onde o risco é maior, a popula­ção é mais jovem e há muitas crianças.</p>
<p>A proximidade de parques e áreas verdes ajuda a reduzir os riscos, mas nosso mapa mostra que nem sempre isso ocorre quando consideramos outros fatores. Na periferia, mui­tas pessoas vivem a quilômetros de distância do parque mais próximo. Muitos parques têm poucas árvores e pouca sombra, além de infraestrutura deficiente para receber a população.</p>
<div id="attachment_587777" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright vertical"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587777 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-entrevsita-denise-calor-2026-09-800.png" alt="" width="800" height="720" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-entrevsita-denise-calor-2026-09-800.png 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-entrevsita-denise-calor-2026-09-800-250x225.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-entrevsita-denise-calor-2026-09-800-700x630.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-entrevsita-denise-calor-2026-09-800-120x108.png 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Alexssandro Josias /Shutterstock</span>Região do Jardim Colombo, comunidade da Zona Sul de São Paulo vizinha a Paraisópolis, da qual é separada pela avenida Giovanni Gronchi. O adensamento populacional e a escassez de vegetação aumentam o desafio de adaptar essas e outras áreas às temperaturas mais altas<span class="media-credits">Alexssandro Josias /Shutterstock</span></p></div>
<p><strong>De que forma o poder público tem respondido a essas evidências?</strong><br />
O mapa pode ajudar a definir prio­ridades, e já expusemos nosso trabalho a integrantes da administração muni­cipal algumas vezes. Em 2023, quando tivemos ondas de calor muito fortes, a prefeitura começou a executar planos de emergência, com a Operação Altas Temperaturas, oferecendo água, fru­tas e sombra em tendas erguidas em alguns pontos da cidade. Essas ações nos parecem insuficientes.</p>
<p>Com os dados do mapa, podemos ter ações estruturantes para adap­tação ao calor extremo. Poderíamos criar verdadeiros oásis urbanos ao longo dos eixos de mobilidade, apro­veitando a estrutura de terminais de ônibus e metrô, parques, escolas e centros esportivos como pontos de apoio para ampliar o alcance desse tipo de ação emergencial.</p>
<p>Os moradores da periferia pas­sam horas por dia se deslocando no trânsito. Muitos trabalham expostos ao calor, nas ruas, sem abrigo. É um formigueiro humano sujeito aos ris­cos permanentemente. Uma estraté­gia como essa poderia multiplicar os pontos de acolhimento nos períodos de calor mais intenso.</p>
<p><strong>O que mais poderia ser feito?</strong><br />
Temos de buscar uma estratégia compatível com nossa realidade. Na Europa, estão usando bibliotecas, centros comunitários e outros edifícios com ar-condicionado para criar uma rede de refúgios urbanos. Nós não temos tantas bibliotecas como eles, mas temos muitas escolas e cen­tros esportivos que poderiam ser usa­dos como abrigos durante uma onda de calor extremo.</p>
<p>A saída para a adaptação às mudan­ças no clima não pode depender ape­nas de aparelhos de ar-condicionado. Precisamos aproveitar estruturas já existentes e transformá-las em postos onde as pessoas possam se refrescar, se hidratar e receber atendimento se passarem mal.</p>
<p>A Prefeitura diz que áreas verdes cobrem metade de São Paulo, mas a conta inclui terrenos baldios e cam­pos de golfe, além de outras áreas verdes inacessíveis à popula­ção. A maioria não tem vegetação ade­quada nem estrutura para receber a população. Nosso mapa mostra isso com clareza, e como o plantio de árvo­res também é desigual.</p>
<p><strong>O uso de aparelhos de ar condi­cionado tem crescido em ônibus, trens e edifícios comerciais e resi­denciais. Por que não é suficiente?</strong></p>
<p>Eles obviamente são essenciais em alguns lugares, como hospitais. Mas não dá para simplesmente “ar-condicionar” uma cidade como São Paulo. Imagine o impacto disso no consumo de energia. O ar-condi­cionado pode ser parte da solução, mas há muito a fazer com condicio­namento passivo, vegetação e outras soluções baseadas na natureza.</p>
<p>Nem todos os ônibus têm ar-condi­cionado, e mesmo os que têm nem sem­pre estão com a manutenção em dia. A superlotação em longos trajetos e a precariedade dos pontos de ônibus também aumentam a exposição das pessoas durante uma onda de calor. Ainda temos em São Paulo pontos de ônibus cobertos com vidros, sem sombra, o que é um absurdo.</p>
<p>Alguns edifícios de escritórios pre­cisam ser evacuados se o ar-condicio­nado não funcionar, ou se houver um apagão. Eles não têm um plano B de operação, porque a fachada é inteira de vidro e as janelas são seladas. São como caixas de vidro fechadas, que absor­vem a radiação solar e aprisionam o calor dentro. Não dá para imaginar que essa seja a única saída.</p>
<div class="box-lateral"><strong>Plano Comunitário de Redução de Riscos e Adaptação Climática do Jardim Colombo (PCRA)</strong><br />
Uma ferramenta construída coletivamente para fortalecer o enfrentamento da crise climática e reduzir os riscos junto à comunidade. Faz parte de um conjunto de 12 planos que contribuíram para o desenho de uma política pública inovadora, formulada pelo Departamento de Mitigação e Prevenção de Risco da Secretaria Nacional de Periferias (SNP), do Ministério das Cidades.<br />
</div>
<p><strong>Faltam pesquisas sobre o impacto das mudanças climáticas na pe­riferia?</strong><br />
Participei de um grupo de pesqui­sadores que desenvolveu um plano de adaptação para o Jardim Colombo, no complexo de Paraisópolis. Fizemos primeiro uma revisão da literatura e depois um levantamento de riscos, pro­blemas e soluções, a partir de entrevis­tas e encontros com pessoas da comu­nidade. O projeto foi apresentado ao Ministério das Cidades.</p>
<p>Uma das coisas que verificamos é que, para assentamentos informais como esse, há muitos estudos sobre chuvas, enchentes e deslizamen­tos, mas muito pouco sobre o calor. Entre os moradores, os riscos asso­ciados ao calor extremo parecem ser menos percebidos do que os causa­dos pelas chuvas. Eles têm consciên­cia da falta de ventilação da casa nos dias mais quentes, mas enchentes e deslizamentos são ameaças mais evi­dentes para eles. Talvez isso mude com a repercussão de eventos como a onda de calor que atingiu os euro­peus neste ano.</p>
<p>Em São Paulo, há uma iniciativa notável da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, o pro­grama Sampa Adapta, em coope­ração técnica com o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), da USP. A secretaria conseguiu recursos da Vital Strategies, organização inter­nacional que apoia políticas na área de saúde, e adquiriu 25 sensores de temperatura e umidade, que insta­lamos em cinco bairros da cidade. Moradores das próprias comunida­des receberam alguns dos instru­mentos e ficaram responsáveis por cuidar deles após a instalação. Com os sensores, teremos medições locais de temperatura e umidade em áreas vulneráveis.</p>
<p><strong>Existem dados suficientes para construir mapas de risco em ou­tras cidades brasileiras? </strong><br />
Em São Paulo, temos uma vanta­gem, que é o GeoSampa, plataforma que reúne grande quantidade de dados georreferenciados. É graças a ela que podemos fazer cruzamentos como os que permitiram construir o mapa de riscos. Outras capitais, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte, tam­bém têm mapas digitais, mas não dis­põem da mesma quantidade de dados em uma única plataforma.</p>
<blockquote><p>Os moradores da periferia passam horas no trânsito. Muitos trabalham expostos ao calor nas ruas. É um formigueiro humano exposto aos riscos permanentemente</p></blockquote>
<p><strong>Há exemplos de políticas de adap­tação climática eficazes em outras capitais brasileiras?</strong><br />
O Rio de Janeiro adotou um protocolo para lidar com situações de calor extremo. Na esteira do que ocor­reu durante o show de Taylor Swift, em 2023, quando uma garota pas­sou mal e faleceu em decorrência do calor excessivo, foi aprovada a lei estadual 10.557/24, que obriga pro­motores de eventos a fornecer água gratuitamente aos espectadores. E a prefeitura adotou um protocolo a ser seguido se a temperatura ultra­passar certos limites, com um sistema de alertas, fornecimento de água e outras medidas. Há restrições para eventos e atividades ao ar livre se tem­peraturas acima de 40 °C forem regis­tradas por três dias seguidos.</p>
<p><strong>Sua formação passou pela enge­nharia, pela música e pela arqui­tetura. Como esse percurso a le­vou ao estudo do clima urbano?</strong><br />
Sou mato-grossense, de Cuiabá. Não havia curso de arquitetura no estado quando entrei na faculdade, então fiz engenharia civil e, assim que terminei, fui para a Escola de Engenharia de São Carlos, da USP, que tinha um departa­mento de arquitetura. Também cur­sei música, por influência da minha mãe, que é pianista. Eu tocava piano, mas parei há décadas.</p>
<blockquote><p>A Prefeitura diz que áreas verdes cobrem metade de São Paulo, mas a conta inclui terrenos baldios e campos de golfe inacessíveis à população</p></blockquote>
<p>Durante o mestrado em São Carlos (SP), fiz as disciplinas de arquitetura que não tive na graduação e estudei conforto ambiental em edifícios cons­truídos em Cuiabá. No doutorado, na FAU-USP, examinei como diferentes formas de ocupação do solo afetam os microclimas urbanos. Como é um tema interdisciplinar, fiquei mais pró­xima na USP de outras áreas impor­tantes para estudá-lo, como a meteo­rologia e a geografia.</p>
<div class="box-lateral"><br />
<strong>27.592</strong> setores censitários de São Paulo para construir o mapa de risco ao calor extremo</p>
<p>Segundo protocolo da prefeitura <strong>40 °C por 3 dias seguidos</strong> é o limite que aciona restrições a eventos ao ar livre no Rio de Janeiro<br />
</div>
<p><strong>Por que escolheu a questão climá­tica como foco de pesquisa? </strong><br />
Em 2010, fui convidada a par­ticipar de um Projeto Temático da FAPESP, multidisciplinar, sobre o impacto das mudanças climáticas, coordenado por Fábio Gonçalves, do IAG. Nosso grupo analisou o conforto térmico dos idosos e sugeriu mudan­ças arquitetônicas que os ajudassem a enfrentar o calor. Quando comecei a estudar os relatórios do IPCC, per­cebi a gravidade do problema.</p>
<p>Decidi que trabalharia para essa causa no resto da minha carreira acadêmica. Eu me dei conta de que a arquitetura e o urbanismo tinham uma contribuição importante a dar e passei a direcionar meus projetos sobre microclimas urbanos, vegeta­ção e adensamento para esse campo interdisciplinar.</p>
<p><strong>Os cursos de arquitetura têm in­corporado esse esforço interdis­ciplinar? </strong><br />
Na pós-graduação da FAU-USP, atuo na área de tecnologia da arquite­tura. Temos três disciplinas voltadas para as mudanças climáticas. A mais antiga trata de conforto ambiental em ruas, calçadas e outros espaços aber­tos e foi reformulada com o tempo. Criei mais duas, com meu colega Leo­nardo Monteiro. Uma amplia a escala para olhar as cidades como um todo. Na outra, estudamos o impacto nos edifícios — não só da crise climática, mas também da crise energética e sanitária, em decorrência da pandemia de Covid-19.</p>
<p>Essas disciplinas têm atraído alunos de outras formações. Temos uma interação bastante forte com pes­quisadores das ciências biológicas, da saúde pública, da engenharia e da meteorologia. Não tem sentido restringir o estudo desses temas aos aspectos arquitetônicos e urbanís­ticos, sem parcerias com as outras áreas. Temos levado isso à gradua­ção também.</p>
<p><strong>As novas construções estão sendo projetadas para enfrentar um ce­nário de temperaturas mais ele­vadas? </strong><br />
Sabe os folhetos que distribuem nas ruas quando lançam novos imó­veis? São todos iguais, basicamente a mesma planta, porque os códigos municipais não regulam nada, e o mercado imobiliário dita as regras. Não há preocupação com questões tér­micas e adaptação. Estamos incenti­vando a construção de caixas de vidro, com varandas falsas, áreas reserva­das para condensadoras de ar-condi­cionado e janelas fechadas. Nunca vi plantas tão ruins como agora.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>O que a ascensão das universidades chinesas tem a nos ensinar</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/o-que-a-ascensao-das-universidades-chinesas-tem-a-nos-ensinar/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-que-a-ascensao-das-universidades-chinesas-tem-a-nos-ensinar</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sabine Righetti]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Sep 2026 13:56:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dados]]></category>
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					<description><![CDATA[Em ranking, três universidades chinesas estão entre as melhores do mundo; Brasil não avança]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em sua primeira edição, realizada em 2003, o ARWU (Academic Ranking of World Universities), dedicado a classificar as principais universidades do mundo, destacou a USP entre as 200 melhores instituições do mundo, mas não trouxe nenhuma universidade chinesa no topo. Pouco mais de duas décadas depois, a posição do Brasil no ranking segue bem parecida. Já na China, o cenário mudou completamente.</p>
<p>Em 2003, a Universidade Tsinghua estava no grupo das 201-250 melhores universidades do mundo, de acordo com a classificação do ARWU, que também é conhecido como Ranking de Shanghai (a listagem foi feita inicialmente por uma equipe de acadêmicos da Shanghai Jiao Tong). A Universidade de Pequim figurava na sequência, no grupo das 251-300 melhores universidades globais. Ambas ficavam “atrás” da USP, que estava no grupo das 152-200 melhores do mundo naquela época.</p>
<p>Na última edição do ranking, publicada em setembro, no entanto, a China contava com três universidades no chamado primeiro quartil da listagem: Tsinghua (18º lugar no mundo), Pequim (23°) e Zhejiang (24°) — uma ascensão sem paralelos. A USP ainda é a única instituição brasileira entre as 200 melhores universidades do mundo: no último ARWU, figura no grupo das 101-150 melhores universidades globais.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/RPF-dados-info-2026-09-1140.png" data-tablet_size="1140x620" alt="">
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<p>A posição da USP na classificação, vale destacar, impressiona. Apesar de ser uma das maiores e mais antigas universidades do Brasil, ela está entre as instituições mais jovens no topo da classificação mundial — e compete na produção científica em nível de igualdade. Para ter uma ideia, Harvard (EUA), a melhor universidade do mundo no ARWU desde a primeira edição da listagem, foi fundada em 1636.</p>
<p>É claro que rankings universitários como esse — e como as muitas listagens globais que surgiram depois dele — trazem um retrato parcial e questionável da educação superior no mundo. No caso do ARWU, por exemplo, os indicadores principais são prêmios internacionais de alto prestígio, como o Nobel e a Medalha Fields (dedicada à pesquisa em matemática), volume e impacto de publicações científicas. Então, são bem classificadas as universidades que se destacam nesses quesitos.</p>
<p>Ainda assim, o avanço das universidades da China nessas classificações tem algo a nos ensinar. O país tem feito um investimento maciço em ciência e tecnologia como política de Estado. A nova potência científica elevou seus gastos em pesquisa de menos de 1% do PIB em 2000 para quase 3% do PIB atualmente. Enquanto a participação da ciência no PIB do país cresceu, o próprio PIB chinês também aumentou no período.</p>
<blockquote><p>Enquanto o Brasil segue praticamente estável no ranking ARWU desde 2013, a China multiplicou o investimento em ciência e hoje lidera a produção científica mundial</p></blockquote>
<p>O resultado aparece nos números. Desde 2020, a China ultrapassou os Estados Unidos e lidera a produção científica mundial em termos de quantidade de artigos científicos. Em 2025, cientistas ligados a universidades, instituições de pesquisa, hospitais e empresas da China publicaram aproximadamente 1,4 milhão de artigos científicos, de acordo com dados da base internacional SCImago. Isso é quase o dobro da produção científica total dos Estados Unidos no mesmo ano.</p>
<p>Mais do que isso, as universidades chinesas foram incentivadas a competir internacionalmente, a publicar em periódicos científicos de alto impacto e a atrair cérebros do exterior — políticas que demandam recursos. Hoje, em conversas com pós-graduandos nos corredores das universidades brasileiras sobre intercâmbios de pesquisa no exterior, as instituições da China costumam se destacar entre os destinos universitários mais desejados.</p>
<p>Como nos ensina a experiência chinesa, um salto quantitativo na produção científica demanda recursos contínuos em pesquisa e desenvolvimento. E deixa claro que o país se desenvolve quando a produção de conhecimento cresce.</p>
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		<item>
		<title>O sertão que ainda se descobre</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/o-sertao-que-ainda-se-descobre/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-sertao-que-ainda-se-descobre</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claudia Izique]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Sep 2026 12:02:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[Setenta anos após a publicação de <em>Grande sertão: veredas</em>, o acervo de Guimarães Rosa no IEB-USP e os papéis guardados pela família seguem revelando manuscritos, mapas e projetos inacabados a pesquisadores]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em maio de 1952, João Guimarães Rosa (1908-1967) — médico, diplomata e autor de <em>Sagarana</em> (1946), então já incensado pela crítica — tangeu uma boiada por 220 quilômetros, dos gerais até os pastos da fazenda de um primo, em Araçaí (MG), perto de Cordisburgo (MG), sua terra natal. “Ele voltava de uma estada de três anos em Paris e estava morrendo de saudades do sertão”, conta Érico Melo, pós-doutor em literatura comparada pela Universidade de São Paulo (USP) e rosiano (especialista no autor mineiro) há mais de 20 anos.</p>
<p>Guimarães Rosa fez o percurso a cavalo, dormindo ao relento com vaqueiros, enquanto anotava observações em cadernetas — ou cahiers d’écrivain, como ele preferia —, que trazia atadas com barbante no segundo botão da “camisa-blusa”.</p>
<p>Essa travessia foi o “evento deflagrador” da escrita de <em>Corpo de baile</em>, volume que reuniria sete novelas, afirma Melo. Nos anos seguintes, uma narrativa concebida como a oitava, até então intitulada <em>O diabo na rua, no meio do redemunho</em>, ganhou vida própria e a saga de Riobaldo e Diadorim se materializou em <em>Grande sertão: veredas</em>. Os dois livros foram publicados, respectivamente, em fevereiro e julho de 1956.</p>
<p>As anotações dessa viagem estão reunidas em 157 páginas datilografadas, distribuídas em dois maços, que Rosa intitulou <em>A boiada 1</em> e <em>A boiada 2</em>. “Ali há frases inteiras que ele reproduz nos dois livros”, diz Melo. Esses registros — que incluem algumas das cadernetas de viagem — estão entre os cerca de 20 mil documentos do Fundo João Guimarães Rosa, do Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo (IEB-USP), adquiridos da família do autor em 1973, dos quais 10 mil estão catalogados. <em>A boiada 1</em> e <em>2</em> foram publicados em 2011 em edição fac-similar pela editora Nova Fronteira.</p>
<p>“Mas nem tudo do acervo de Guimarães Rosa está no IEB-USP. Os documentos que ainda estão com a família da esposa, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, são uma mina de ouro para estudiosos”, conta Melo. Foi ali que o pesquisador descobriu 12 folhas retocadas à mão do livro inacabado que levaria o título <em>Boiada</em>. Se concluído, seria um relato em primeira pessoa da expedição boiadeira de Rosa, em 1952. O fac-símile de uma das páginas de <em>Boiada</em> está reproduzido no artigo assinado por Melo e incluído na edição especial de 70 anos da obra, lançada pela Companhia das Letras em 16 de julho — na mesma data da publicação da edição original, em 1956.</p>
<blockquote><p>As anotações da viagem, em 157 páginas datilografadas, integram o fundo João Guimarães Rosa do IEB-USP, acervo de cerca de 20 mil documentos, dos quais 10 mil estão catalogados</p></blockquote>
<p><strong>“Guimarães Rosa? Dá 2.500 anos para ele”<br />
</strong>A edição comemorativa da Companhia das Letras é a 23a de <em>Grande sertão: veredas</em>. A primeira, lançada há sete décadas pela Livraria José Olympio Editora, com 594 páginas, recebeu os prêmios Carmen Dolores Barbosa e Paula Brito, ambos em 1957. Em 1961, Rosa ganharia o Machado de Assis pelo conjunto da obra.</p>
<p>Manuel Cavalcanti Proença (1905-1966), romancista e crítico literário, em <em>Trilhas no grande sertão</em> (1958), enxergou no romance uma superposição de planos: subjetivo, coletivo, telúrico e mítico. No mesmo ano, o tradutor, crítico e professor húngaro naturalizado brasileiro Paulo Rónai (1907-1992) escreveu em <em>Encontros com o Brasil</em> que o sertão emerge da obra de Rosa como símbolo do inconsciente, e a vereda, como símbolo da consciência. Antonio Candido (1918-2017), sociólogo, crítico literário e professor universitário, no ensaio <em>O homem dos avessos</em> (1962), definiu o livro como “o primeiro grande romance metafísico da literatura brasileira”.</p>
<p>O sucesso da obra de Rosa transbordou para o século 21. Em 2009, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), especialista em Euclides da Cunha, indagada pela <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/a-donzela-guerreira/" target="_blank" rel="noopener"><em>Pesquisa FAPESP</em></a> se haveria leitores para Cunha e Guimarães Rosa no futuro, respondeu: “Homero ainda dialoga conosco. Ao lermos Homero, estamos lendo o que chamamos de ‘grande literatura’. Guimarães Rosa? Dá 2.500 anos para ele também, que sempre haverá gente para ler e gostar.”</p>
<p>As sucessivas edições, o olhar perscrutante da crítica e o interesse de pesquisadores pelo romance de Rosa parecem atestar o vaticínio de Walnice Galvão. “<em>Grande sertão: veredas</em> é a obra literária brasileira mais importante do século 20 porque é um retrato perfeito do Brasil a partir da região central, do sertão”, diz Willi Bolle, crítico literário e professor de literatura alemã na FFLCH- -USP, autor de <em>grandesertão.br: o romance de formação do Brasil</em>, publicado pela Duas Cidades/Editora 34, em primeira edição, em 2004 e, em segunda edição, em 2023.</p>
<p>O livro, segundo Bolle, conversa com os principais retratos do país, a começar pela obra “matricial” de Euclides da Cunha, <em>Os sertões</em> (1902); passando por Gilberto Freyre, em <em>Casa-grande &amp; senzala</em> (1933); Sérgio Buarque de Holanda, em <em>Raízes do Brasil</em> (1936); e Caio Prado Jr., em <em>Formação do Brasil contemporâneo</em> (1942). Bolle acrescenta a essa lista três outros “retratos”, posteriores à obra de Rosa: o de Raimundo Faoro, <em>Os donos do poder</em> (1958); o de Celso Furtado, <em>Formação econômica do Brasil</em> (1959), e o de Darcy Ribeiro, em <em>O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil </em>(1995).</p>
<p>A obra “labiríntica” de Rosa, como Bolle diz, também dialoga com o grande público por tratar da questão do amor. “Como disse um professor de literatura de Berlim [Bolle é alemão], não existe grande obra literária sem a temática do amor. E de fato o amor de Riobaldo e Diadorim, no plano mais amplo, é o amor pelo povo do sertão e do Brasil, que se mostra na atenção que Rosa dá às falas do povo, criticando a falta de diálogo entre as classes dos letrados e as pessoas do povo.”</p>
<p>“Rosa continua lido e vivo”, afirma Luiz Roncari, professor titular da área de literatura brasileira da USP, e autor, entre outros, de <em>O Brasil de Rosa </em>(2004), cuja publicação contou com <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/35272/o-brasil-de-rosa-mito-e-historia-no-universo-rosiano-o-amor-e-o-poder/" target="_blank" rel="noopener">apoio da FAPESP</a>, e <em>Lutas e auroras</em> (2018). No primeiro, Roncari investiga a genealogia dos três primeiros livros do autor e no segundo, as agruras, lutas e perdas de Riobaldo, a “parte negra” de <em>Grande sertão: veredas</em>.</p>
<p>“Como todo bom escritor, Rosa tinha também os olhos na ‘eternidade’, por isso não barateou a sua obra. Trabalhou para se firmar na Literatura Brasileira, que conhecia tão bem quanto a universal, pois era um homem culto, que tinha consciência da grandeza e complexidade do universo no qual queria entrar. Aí não havia lugar para a ingenuidade e o engano”, afirma Roncari.</p>
<p>Para Márcia Valéria Martinez de Aguiar, da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), <em>Grande sertão: veredas</em> é um “poema de 600 páginas”. “É uma escrita complexa, ancorada no sertão, mas que transcende o sertão, uma mistura de real, de metafísica e de poesia, construída no texto pelo feiticeiro da palavra que era Guimarães Rosa, uma construção que encanta cada vez mais.”</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/RPF-guimares-rosa-paginas-2026-09-1140.png" data-tablet_size="1140x470" alt="">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Acervo IEB-USP</span></div><div class="post-content sequence">
<p><strong>Sertão sem fronteiras<br />
</strong>A obra de Guimarães Rosa ultrapassou as fronteiras do sertão e também as do Brasil, sendo traduzida em várias línguas. A <a href="https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8146/tde-31052011-135449/publico/2010_MarciaValeriaMartinezdeAguiar.pdf" target="_blank" rel="noopener">tese</a> de doutorado de Aguiar, defendida em 2011 na FFLCH-USP, examinou as duas versões francesas de <em>Grande sertão: veredas</em>, ambas publicadas pela Éditions Albin Michel — a primeira, assinada por Jean-Jacques Villard, de 1965, e a segunda, por Maryvonne Lapouge-Pettorelli, de 1991. Mais recentemente, em pesquisa <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/104325/jean-jacques-villard-e-a-recepcao-de-guimaraes-rosa-na-franca-dos-anos-1960/" target="_blank" rel="noopener">apoiada pela FAPESP</a>, Aguiar estudou as cartas trocadas entre Rosa e Villard. A investigação que orienta os estudos de Aguiar trata de como diferentes tradutores recriam, em outras línguas, as sobreposições entre oralidade sertaneja, erudição e invenção poética.</p>
<p>“Verter Guimarães Rosa para outra língua continua sendo um desafio para os tradutores, em razão justamente da mistura entre o real e o fantástico, que constitui sua poética. Seus primeiros tradutores, ao longo dos anos 1960, enfrentaram valentemente a tarefa, buscando tanto entender os elementos concretos de suas obras — interrogando, além dos escassos dicionários da época e consultores brasileiros, o próprio Guimarães Rosa, com o qual trocavam correspondências —, quanto desvendar sua poética e metafísica.”</p>
<p>Ela lembra um critério sugerido por Rónai para saber se uma tradução funcionou: o leitor conseguir chegar ao final do livro. “E a primeira versão alemã e a primeira versão francesa de <em>Grande sertão: veredas</em>, por ele analisadas, passaram no teste”, ela afirma.</p>
<p>Aguiar reconhece que original e tradução são, inevitavelmente, dois livros distintos. “Mas os livros e suas traduções conversam. É como um caleidoscópio, que vai iluminando partes diferentes do original”, compara.</p>
<p>As duas edições francesas analisadas por Aguiar têm como título <em>Diadorim</em>. A primeira tradução para o inglês, assinada por Harriet de Onís e James L. Taylor, de 1963, foi intitulada <em>The devil to pay in the backlands</em>. Uma nova tradução para o inglês, de Alison Entrekin, <em>Vastlands: the crossin</em>g, tem lançamento previsto para o início de 2027.</p>
<p>Na tradução alemã de Curt Meyer-Clason, lançada em 1964 pela editora Kiepenheuer &amp; Witsch, o livro recebeu o título de <em>Grande sertão</em>. Na nova versão, de Berthold Zilly, com lançamento também previsto para o começo do próximo ano, pela editora S. Fischer Verlag, o título será <em>Großer sertão: querungen</em>. “A palavra ‘sertão’ foi incorporada à língua alemã”, sublinha Willi Bolle.</p>
<div id="attachment_587707" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587707 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-guimares-rosa-foto-2026-09-800.png" alt="" width="800" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-guimares-rosa-foto-2026-09-800.png 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-guimares-rosa-foto-2026-09-800-250x197.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-guimares-rosa-foto-2026-09-800-700x551.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-guimares-rosa-foto-2026-09-800-120x95.png 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Eugênio Silva</span>Guimarães Rosa durante a viagem da boiada por Minas Gerais, em maio de 1952<span class="media-credits">Eugênio Silva</span></p></div>
<p><strong>Cartografias do sertão<br />
</strong>Apesar de já ter disponível à época a tradução alemã, Bolle leu <em>Grande sertão: veredas</em> pela primeira vez em português, em 1966, quando, ainda estudante, fez um curso de introdução ao livro com Antonio Augusto Soares Amora na Freie Universität Berlin. “Eu tinha 22 anos, estava no quinto semestre, mas o livro me fascinou tanto que pedi ao professor Amora um estágio no Brasil para estudar Guimarães Rosa. E ele aceitou”, conta Bolle. Embarcou num navio e, depois de uma travessia de 21 dias, aportou no Rio de Janeiro — o destino final era Santos. “Liguei para o professor Amora, que sugeriu que eu desembarcasse e procurasse Guimarães Rosa no Itamaraty [que, então, ficava no Rio de Janeiro]. Saí do navio e conheci Guimarães Rosa!”</p>
<p>Instalado em São Paulo, utilizou um método pouco usual para estudar a obra: comprou dois exemplares de <em>Grande sertão: veredas</em>, cortou as páginas e forrou as paredes do local em que vivia. “Eu queria ter um insight, uma visão que iluminasse minha compreensão”, explica. Décadas depois, durante um estágio de pós-doutorado na Universidade de Stanford, em 1999, repetiu a experiência, cobrindo as paredes de seu gabinete com as páginas da obra. “E escrevi a primeira versão de<em> grandesertão.br</em>.”</p>
<p>O fascínio provocado pela leitura de Guimarães Rosa também levou o goiano Érico Melo a mergulhar no universo rosiano. “Sou engenheiro químico formado pela Universidade Estadual de Campinas [Unicamp]. Trabalhei cinco anos numa empresa multinacional até descobrir Guimarães Rosa.” Deixou o emprego, entrou na graduação em letras na USP — que não finalizou —, escreveu um projeto de mestrado, <a href="https://bv.fapesp.br/pt/bolsas/105162/os-ocultos-caminhos-a-unidade-constelada-de-corpo-de-baile/" target="_blank" rel="noopener">obteve apoio da FAPESP</a> e acabou aceito para um doutorado direto na FFLCH-USP sob a orientação de José Miguel Soares Wisnik.</p>
<p>Hoje, editor e “pesquisador independente”, Melo segue naquele que foi o tema de seu doutorado, investindo numa modalidade de crítica literária que utiliza dados toponímicos, corográficos e geodésicos — ou seja, nomes de lugares, descrições de regiões e medições de coordenadas e altitudes — para mapear o romance. “Em <em>Corpo de baile</em> e <em>Grande sertão: veredas</em>, Rosa se baseou tão intensivamente na paisagem mineira que parece ter tido acesso a imagens aéreas.” E ele suspeita que, de fato, tenha tido. “Ele era chefe de gabinete no Itamaraty e negociou diretamente com os americanos o Acordo Militar de 1953, que resultou na produção dos primeiros mapas do Brasil desenhados pelo IBGE, com base em imagens fornecidas pela força aérea estadunidense.”</p>
<p>Essas negociações aconteceram entre 1951 e 1953, período em que Rosa foi chefe de gabinete de João Neves de Fontoura, ministro das Relações Exteriores. “Ele já estava escrevendo <em>Corpo de baile</em> e <em>Grande sertão: veredas</em>. Descobri essa informação nos jornais da época e na correspondência entre Rosa e Fontoura, que está no IEB-USP. Encontrei os mapas, primeiro na mapoteca da biblioteca da FFLCH-USP e depois no site do IBGE, digitalizados. Um desses mapas, com anotações, está no Fundo João Guimarães Rosa do IEB, o que indica que ele efetivamente os consultou.”</p>
<p>Ele lembra, ainda, que Rosa era membro titular da Sociedade Brasileira de Geografia. “Esse órgão era muito ligado a esse momento capital da cartografia brasileira. Sua reputação de especialista em geografia lhe rendeu a indicação para representar o Itamaraty no Diretório Central do Conselho Nacional de Geografia/IBGE, uma semana antes da publicação de <em>Grande sertão: veredas</em>.”</p>
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		<title>A cadeia alimentar das revistas predatórias</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/a-cadeia-alimentar-das-revistas-predatorias/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=a-cadeia-alimentar-das-revistas-predatorias</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Theo Ruprecht]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2026 11:57:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boas práticas]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
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					<description><![CDATA[Da revista de fachada à venda de autoria, o mercado que se alimenta da corrida por publicar]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Na hora de submeter para publicação um artigo que fazia parte do seu mestrado, o engenheiro de computação Fábio Lobato foi atraído por um convite de um periódico científico de suposta relevância (era classificado como B4 pelo sistema Qualis). No final de 2017, seu trabalho foi publicado. Mas, depois de cerca de um ano, veio o alerta de um colega de fora do país: aquela era uma revista predatória. Foi seu primeiro contato com esse termo, conforme me contou por telefone. “Conversando com colegas sobre o assunto, surgiu uma curiosidade científica de compreender as vulnerabilidades dos pesquisadores brasileiros”, conta.</p>
<p>Desse interesse nasceu, possivelmente, o mais amplo <a href="https://link.springer.com/article/10.1007/s11192-026-05614-0#Tab5" target="_blank" rel="noopener">estudo</a> nacional sobre percepções dos cientistas a respeito das revistas predatórias. Foram mais de 3 mil entrevistados, dos quais 1.065 possuíam artigos publicados e, portanto, tiveram suas respostas incluídas em um paper que saiu em abril no periódico <em>Scientometrics </em>— esse, claro, legítimo.</p>
<p>A partir da análise de 36 questões, ficou estabelecido que Lobato não foi o único acadêmico a não enxergar o predador. Entre os fatores associados a publicações predatórias, um dos mais mencionados é a falta de conhecimento. “Para não cairmos em um golpe, precisamos reconhecê-lo”, resumiu o professor, recém chegado ao Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo, em São Carlos. E-mails e convites insistentes e valores abaixo da média para publicação também estavam entre os pontos mais destacados pelos participantes.</p>
<p>Se esses resultados eram esperados, outros surpreenderam em um primeiro momento. Por exemplo: acadêmicos experientes demonstraram maior preocupação com os custos de publicação em comparação com os em início de carreira, o que poderia torná-los especialmente suscetíveis aos preços atraentes das revistas predatórias. O artigo destaca que “isso possivelmente reflete a estrutura de financiamento de pesquisa no Brasil, onde pesquisadores sêniores são tipicamente responsáveis por gerenciar os orçamentos e pagar as taxas de processamento de artigos”.</p>
<p>Por trás de tudo isso, a pesquisa confirmou uma associação entre a pressão por publicar e a experiência prévia com um periódico predatório. Do seu lado, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem adotado métricas que priorizam a qualidade dos estudos, em detrimento da quantidade, e o impacto na sociedade. Já o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que concede bolsas e financia pesquisas, criou em março deste ano <a href="http://memoria2.cnpq.br/web/guest/view/-/journal_content/56_INSTANCE_0oED/10157/23142775" target="_blank" rel="noopener">a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq</a>. Entre as diretrizes, temos: “abster-se de submeter trabalhos a periódicos, eventos ou editais reconhecidamente predatórios, ou participar de práticas editoriais fraudulentas”.</p>
<p>Ainda assim, essas publicações estão longe da extinção. Ao perguntar a Lobato sobre os destaques de sua pesquisa recente, ouvi que ele se surpreendeu com a sinceridade dos entrevistados. “Recebemos respostas detalhadas com um teor de ‘eu escolho um periódico porque meu orientador mandou’”, exemplifica. Nesses casos, além da confiança, é importante valorizar o pensamento crítico.</p>
<p><strong>Cardápio de tramoias</strong><br />
Talvez você queira ser creditado como o criador de um “<a href="https://search.ipaustralia.gov.au/designs/search/details/202318505?s=abdc45e3-2109-4be2-8261-fa94d83e3b7a" target="_blank" rel="noopener">biorreator de membrana baseado em inteligência artificial para tratamento de esgoto</a>”. Ou, quem sabe, de um “robô humanoide com aplicações industriais”. Pois se de um lado temos revistas predatórias que aceitam artigos sem muitos critérios, do outro há fábricas de artigos científicos (as <em>paper mills</em>) prolíficas e com um portfólio de falcatruas cada vez mais extenso. Uma reportagem do jornal <a href="https://www.theguardian.com/science/2026/aug/16/science-or-fiction-shadowy-paper-mills-let-you-pay-to-be-a-published-author-of-fraudulent-research" target="_blank" rel="noopener"><em>The Guardian</em></a> publicada em agosto divulgou o <a href="https://arxiv.org/abs/2604.24576" target="_blank" rel="noopener">trabalho do matemático Reese Richardson</a>, que localizou, entre 2020 e 2026, mais de 18 mil anúncios em redes como WhatsApp, Telegram e Facebook com propostas para inflar o currículo de cientistas.</p>
<p>Foram identificadas 14 diferentes categorias de produtos, que vão das conhecidas ofertas para inserir artificialmente nomes em estudos falsos até a possibilidade de entrar como detentor de uma patente — a propósito, os exemplos acima são verdadeiros. A IP Australia, órgão do governo australiano onde essas patentes foram depositadas, afirmou que está aberta a analisar suspeitas de desvios, mas que não existem evidências de que a organização vem sendo usada em larga escala para esse tipo de fraude.</p>
<p>O caso, no entanto, indica como as <em>paper mills</em> adotam um modelo de negócios ao mesmo tempo obscuro e agressivo, inclusive manipulando estruturas públicas vinculadas à ciência para abrir atalhos na carreira acadêmica. <a href="https://www.theguardian.com/science/2026/aug/16/science-or-fiction-shadowy-paper-mills-let-you-pay-to-be-a-published-author-of-fraudulent-research" target="_blank" rel="noopener">Uma estimativa de Richardson reportada na mesma matéria do <em>Guardian</em> sugere que a quantidade de “produtos” desse mercado vem dobrando a cada 18 meses</a>. Em seus estudos, ele abriu o bueiro do esgoto digital e entrou em dezenas de grupos nos quais as <em>paper mills</em> disponibilizam seus serviços a cientistas pressionados pela lógica do publicar ou perecer. Seu celular, pelo visto, não para de apitar: “Posso simplesmente olhar minhas notificações e ver que recebi 20 mensagens de WhatsApp de <em>paper mills</em> nas últimas 24 horas”.</p>
<p><strong>Um escândalo anacrônico</strong><br />
Quem viu a clássica série <em>Plantão Médico</em> (<em>ER </em>na versão original) sabe: pagers faziam parte do cotidiano dos profissionais de saúde. Popular nas décadas de 1980 e 1990, esse equipamento recebia — só recebia — mensagens curtas, o que, para um médico ou enfermeiro que atuou na Era Pré-Popularização do Celular, funcionava como um alerta ou chamado para atender um caso urgente, por exemplo. Eis que os pagers, ou bips, como os apelidamos por aqui, estão de volta. <a href="https://www.bbc.com/news/articles/clyj92j210do" target="_blank" rel="noopener">Uma investigação da BBC</a> mostrou que o <em>NHS Blood and Transplant</em>, órgão do Reino Unido responsável por serviços de transplante, enviou informações confidenciais, como nomes completos de pacientes e tipos de órgãos necessários, de forma não encriptada para pagers de equipes de hospitais. Detalhe: esses dispositivos operam por radiofrequência, então qualquer um poderia receber as mensagens se estivesse “no canal” correto.</p>
<p>Havia um pedido para que os pagers fossem aposentados até 2021 no sistema de saúde de lá, porém alguns elos da cadeia de transplantes não incorporaram a recomendação. O <em>NHS Blood and Transplant</em>, que é obrigado a proteger dados dos pacientes, confirmou a falha e afirmou que a prática foi interrompida. Será que, depois de um atentado na primeira temporada e um ataque hacker na segunda, a série <em>The Pitt </em>prestará homenagem à sua musa inspiradora com um escândalo envolvendo um aparelhinho arqueológico?</p>
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		<title>Impa premia reportagem de Pesquisa FAPESP sobre terras-raras</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/impa-premia-reportagem-da-pesquisa-fapesp-sobre-terras-raras/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=impa-premia-reportagem-da-pesquisa-fapesp-sobre-terras-raras</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Dieb]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Aug 2026 13:32:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Inovação]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Reportagem de Frances Jones e Yuri Vasconcelos ficou em terceiro lugar na categoria Divulgação Científica da 9ª edição do Prêmio Impa de Jornalismo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) anunciou nesta terça-feira (25) os vencedores da <a href="https://impa.br/notices/o-povo-ce-e-superinteressante-levam-o-9o-premio-impa-de-jornalismo/" target="_blank" rel="noopener">9ª edição do Prêmio Impa de Jornalismo</a>, que reconhece reportagens sobre matemática e ciência publicadas no país. A revista <em>Pesquisa FAPESP</em> ficou em 3o lugar na categoria Divulgação Científica, com a matéria <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/brasil-investe-em-pesquisa-para-dominar-o-ciclo-produtivo-das-terras-raras-e-dos-superimas/" target="_blank" rel="noopener">Brasil investe em pesquisa para dominar o ciclo produtivo das terras-raras e dos superímãs</a>, escrita por Frances Jones e Yuri Vasconcelos.</p>
<p>A reportagem premiada mostra o esforço de pesquisadores, universidades e empresas para dominar o ciclo completo de exploração e processamento desses elementos, essenciais para a transição energética. O texto também destaca o potencial brasileiro, que tem uma das maiores reservas conhecidas do mundo.</p>
<p>Ainda na categoria Divulgação Científica, o primeiro lugar ficou com Maria Clara Rossini, da <em>Superinteressante</em>, por &#8220;A vida através do espelho&#8221;, sobre quiralidade — característica de objetos que não podem ser sobrepostos à sua imagem no espelho, e suas manifestações na física, na química e na biologia — e o que a assimetria da natureza pode revelar sobre as origens da vida. O segundo lugar ficou com Ed Wanderley, da Agência Pública, pela série documental em áudio &#8220;A Última Bolacha&#8221;.</p>
<p>Na categoria Matemática, a vencedora foi Catalina Leite, do jornal <em>O Povo</em> (CE), com &#8220;Além dos números: como a matemática constrói a gramática do Universo&#8221;.</p>
<p>Ao todo, nove mulheres inscritas como autoras foram premiadas nesta edição, incluindo a repórter Frances Jones, por <em>Pesquisa FAPESP</em> — pela primeira vez, elas foram maioria entre os vencedores. &#8220;A matemática só tem a ganhar quando as histórias são contadas por vozes diversas&#8221;, afirmou Marcelo Viana, diretor-geral do Impa e presidente da comissão julgadora.</p>
<p>A cerimônia de premiação acontece no sábado (29), às 17h30, durante o Festival Nacional da Matemática, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, e reunirá os jornalistas premiados em uma mesa-redonda sobre os desafios de transformar matemática e ciência em histórias acessíveis ao público.</p>
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		<item>
		<title>O dilema de Belo Monte: mudanças climáticas tendem a agravar conflito por água do rio Xingu</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/o-dilema-de-belo-monte-mudancas-climaticas-tendem-a-agravar-conflito-por-agua-do-rio-xingu/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-dilema-de-belo-monte-mudancas-climaticas-tendem-a-agravar-conflito-por-agua-do-rio-xingu</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Herton Escobar]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Aug 2026 12:01:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Ciênc. Atmosféricas]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Energia]]></category>
		<category><![CDATA[Geologia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://revistapesquisa.fapesp.br/?p=587474</guid>

					<description><![CDATA[Comunidades indígenas e ribeirinhas relatam sofrimento com escassez hídrica gerada pelas barragens da usina hidrelétrica na região de Altamira, no Pará. Empresa responsável pela operação nega gravidade e diz que impactos estão dentro do previsto]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Passados dez anos desde a sua inauguração, a usina hidrelétrica de Belo Monte, no norte do Pará, continua sendo um dos projetos de infraestrutura mais contestados da Amazônia. Comunidades tradicionais afetadas pelo empreendimento relatam impactos severos aos ecossistemas e à qualidade de vida na região da Volta Grande do rio Xingu, enquanto cientistas alertam que as mudanças climáticas deverão agravar ainda mais esse quadro nas próximas décadas.</p>
<p>Inaugurada em 2016, Belo Monte é a segunda maior usina hidrelétrica em operação no Brasil, responsável pela produção de 5 a 10% da energia elétrica consumida no país, dependendo da época do ano e das condições climáticas. Para fazer isso, ela desvia cerca de 80% da água do rio Xingu por meio de um sistema de barragens e canais artificiais na região de Altamira (PA), direcionando-a para a geração de eletricidade. A consequência disso é que um trecho de 100 quilômetros do rio teve sua vazão drasticamente reduzida nos últimos anos, com impactos diretos sobre os ecossistemas locais e as comunidades indígenas e ribeirinhas que dependem desses recursos para a sua sobrevivência.</p>
<div class="box-lateral"><strong>O que é a Volta Grande do Xingu</strong><br />
Trecho de 100 km do rio Xingu, na região de Altamira (PA), onde a vazão é controlada por Belo Monte desde 2016. Abriga comunidades indígenas e ribeirinhas e ecossistemas únicos de floresta alagada.<br />
</div>
<p>“Essa redução da vazão gera uma infinidade de problemas”, diz o geólogo André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências (IGC), da Universidade de São Paulo (USP), e coordenador de um projeto de pesquisa sobre o tema, <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/111392/partilha-da-agua-e-resiliencia-de-um-sistema-socio-ecologico-unico-na-volta-grande-do-xingu/" target="_blank" rel="noopener">apoiado pela FAPESP</a> e pelas Fundações de Amparo à Pesquisa dos Estados do Pará e do Amazonas (Fapespa e Fapeam). Segundo ele, os efeitos da usina sobre a Volta Grande do Xingu “são muito piores do que os previstos” no processo de licenciamento, tanto do ponto de vista social quanto ambiental.</p>
<p>A Norte Energia, empresa responsável pelo empreendimento, por outro lado, diz que os impactos estão dentro do esperado e que não há justificativa técnica para alterar os padrões de funcionamento da usina, que produz energia elétrica para milhões de famílias em todo o país. Belo Monte foi oficialmente inaugurada em 5 de maio de 2016, com duas de suas 24 turbinas em operação. A operação completa, com todas as turbinas em funcionamento, começou três anos e meio mais tarde, em novembro de 2019.</p>
<p>“Parece que é um debate de narrativas, mas não é. É um debate de dados”, argumenta Sawakuchi, que também é integrante do Monitoramento Ambiental Territorial Independente (Mati), uma iniciativa de pesquisadores indígenas, ribeirinhos e acadêmicos, que há anos monitora os impactos da usina na região (<em>leia mais em </em><a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/belo-monte-e-estiagem-secam-volta-grande-do-xingu/" target="_blank" rel="noopener">Belo Monte e estiagem secam Volta Grande do Xingu</a>).</p>
<p>A licença operacional de Belo Monte venceu em novembro de 2021, mas a usina permanece em funcionamento graças a um mecanismo de renovação automática. Desde então há uma batalha jurídica e administrativa em curso, associada à renovação definitiva da licença, em que o Ministério Público Federal (MPF) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tentam obrigar a Norte Energia a implementar um novo plano de repartição da água (hidrograma), que garanta mais recursos hídricos para as comunidades e os ecossistemas da Volta Grande.</p>
<p>Em dezembro de 2025, a Justiça Federal em Altamira condenou a Norte Energia e o Ibama a revisar o atual hidrograma e a estabelecer um novo regime de vazões para Belo Monte, mas o cumprimento da sentença só deve ser efetivado após o trânsito em julgado do processo — ou seja, quando não houver mais possibilidade de recurso.</p>
<p>Paralelamente, o Ibama já havia dado um prazo para que a empresa apresentasse um novo hidrograma até 12 de janeiro deste ano, mas a Norte Energia contestou a demanda em caráter administrativo. Em fevereiro, o prazo foi prorrogado até 13 de abril. A empresa, novamente, não apresentou um novo plano de partilha da água, argumentando que os impactos estão dentro do previsto e que a revisão do hidrograma precisaria partir de uma decisão colegiada, envolvendo o Ministério de Minas e Energia (MME), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).</p>
<p>Desde então, o hidrograma já adotado pela usina permanece em vigor. O MME defende a manutenção desse regime em 2026, sob o argumento de que Belo Monte tem um papel estratégico para a segurança do sistema elétrico nacional, enquanto prossegue a discussão com os órgãos ambientais sobre uma eventual revisão das vazões.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/08/vazao-mensal-mapa-desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="2302x2560" alt="O caminho das águas em Belo Monte">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara</span>
<p><strong>Vazão reduzida, impactos ampliados</strong><br />
A <a href="https://www.researchgate.net/publication/397608369_ANALISE_HIDROLOGICA_E_PROPOSTA_DE_UM_HIDROGRAMA_DE_VAZAO_AMBIENTAL_PARA_A_VOLTA_GRANDE_DO_XINGU" target="_blank" rel="noopener">nota técnica</a> mais recente do Mati, divulgada em novembro de 2025, faz uma comparação mês a mês da quantidade de água que passou pelo chamado Trecho de Vazão Reduzida (TVR) do rio Xingu — trecho de 100 km em que o fluxo do rio é controlado pela usina — antes (de 1972 a 2014) e depois (de 2016 a 2024) da inauguração de Belo Monte, com base em dados oficiais de monitoramento da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). As análises revelam alterações radicais nos padrões hidrológicos da região, não só em relação à quantidade de água disponível no rio, mas também ao momento de ocorrência (timing) e à duração das fases de enchente e vazante, que são fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas locais.</p>
<p>Segundo o Mati, houve meses em que a vazão média do rio chegou a ser reduzida em quase 90%, em comparação com a série histórica do período pré-barragem. A duração média dos períodos de cheia, que era de aproximadamente 80 dias por ano, caiu para apenas nove dias, enquanto os períodos de seca extrema aumentaram, em média, de 45 para 104 dias. O ano mais crítico foi 2024, com seis meses seguidos de seca extrema, em função da ocorrência de um forte El Niño — fenômeno climático global que reduz a quantidade de chuvas na Amazônia.</p>
<p>“Com base nesses indicadores, é notável a diminuição do período da cheia e o prolongamento da seca, que tem causado efeitos deletérios e preocupantes, e que podem continuar e até se agravar sob as condições decorrentes das mudanças climáticas em curso no planeta”, diz o relatório do Mati. O documento é assinado por mais de 40 pesquisadores e monitores, vinculados a instituições públicas de pesquisa e comunidades tradicionais da Volta Grande do Xingu, incluindo Sawakuchi. Parte dos dados que subsidiam os relatórios do grupo foi publicada em 2025 nas revistas <a href="https://conbio.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/cobi.70043" target="_blank" rel="noopener"><em>Conservation Biology</em></a> e <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2530064425000021" target="_blank" rel="noopener"><em>Perspectives in Ecology and Conservation</em></a><em>.</em></p>
<div id="attachment_587487" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587487 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-seca-2026-08-1140.png" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-seca-2026-08-1140.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-seca-2026-08-1140-250x138.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-seca-2026-08-1140-700x387.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-seca-2026-08-1140-120x66.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Carlos Mazoca/GeoHereditas</span>Leito do rio Xingu fica naturalmente exposto durante os períodos de seca na Volta Grande. O problema é o prolongamento e o agravamento desses períodos de escassez hídrica nos trechos impactados pela usina de Belo Monte<span class="media-credits">Carlos Mazoca/GeoHereditas</span></p></div>
<p>As projeções climáticas para as próximas décadas desenham um cenário ainda mais complicado. Estudos preveem reduções significativas de precipitação em diversas regiões da América do Sul, incluindo o sul e o leste da Amazônia, onde fica a bacia do rio Xingu, o que deverá reduzir ainda mais a quantidade de água disponível na região de Belo Monte, tanto para a produção de energia quanto para as comunidades e os ecossistemas da Volta Grande. As pesquisas levam em consideração tanto os efeitos da mudança climática quanto do desmatamento na Amazônia, que também contribui para o aumento da temperatura e a redução da precipitação nas áreas afetadas.</p>
<p>A redução da precipitação sobre a bacia do rio Xingu, especificamente, poderá chegar a 500 milímetros de chuva por ano até o final deste século, a depender do grau de aquecimento global, segundo projeções feitas pelo professor Nicolás Stríkis, do Instituto de Geociências da USP, com base em modelos acoplados de previsão climática. Isso reduziria a precipitação média da bacia dos atuais 1.800 mm/ano para algo entre 1.500 e 1.300 mm/ano em diversas áreas, incluindo anos de seca extrema, em que a precipitação cairia para a faixa de 800 a 900 mm/ano. “Isso é clima de Cerrado”, destaca Stríkis.</p>
<p>O rio Xingu nasce no leste de Mato Grosso e percorre cerca de 2 mil quilômetros até desaguar no rio Amazonas, no Pará. Sua bacia, abrangendo todos os seus afluentes, tem cerca de 530 mil quilômetros quadrados (uma área maior do que a da Espanha).</p>
<blockquote><p>Desde a operação de Belo Monte, a duração média das cheias no rio Xingu caiu de 80 para apenas nove dias por ano, enquanto os períodos de seca extrema mais que dobraram, de 45 para 104 dias</p></blockquote>
<p>Stríkis explica que o balanço hídrico de uma bacia hidrográfica depende essencialmente de dois fatores: precipitação e evapotranspiração — em outras palavras, a quantidade de água que entra no sistema por meio da chuva e a quantidade de água que sai do sistema por meio da evaporação e da transpiração das plantas. Se entra mais água do que sai, o balanço é positivo. Se sai mais água do que entra, é negativo. A temperatura é outro fator importante: quanto mais quente o clima, maior é a evapotranspiração.</p>
<p>Na bacia do rio Xingu, a tendência já é de queda há alguns anos. “O resumo da ópera é que a partir dos anos 2000 a gente começa a ter balanços hídricos negativos, e a tendência é que eles se tornem cada vez mais negativos daqui para a frente. Ou seja, o rio está secando”, afirma o professor da USP. Os dados dessa modelagem ainda não foram publicados em revista científica, mas são condizentes com os achados de diversos estudos publicados em periódicos de prestígio recentemente.</p>
<p>Um <a href="https://rmets.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/joc.70331" target="_blank" rel="noopener">estudo</a> publicado em março deste ano no <em>International Journal of Climatology</em>, por exemplo, projeta um aumento significativo na duração e na intensidade das estações secas da Amazônia nas próximas décadas, com impactos negativos sobre a disponibilidade hídrica e a capacidade da floresta de resistir a incêndios e estocar carbono. A pesquisa foi liderada por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), <a href="https://bv.fapesp.br/pt/bolsas/235314/o-potencial-das-perdas-economicas-pelo-fogo-no-territorio-brasileiro/" target="_blank" rel="noopener">com apoio da FAPESP</a> (<em>leia mais em <a href="https://agencia.fapesp.br/secas-mais-longas-e-mudancas-nas-chuvas-ja-ocorrem-na-amazonia-apontam-pesquisas/57792" target="_blank" rel="noopener">notícia</a> da </em>Agência FAPESP).</p>
<div id="attachment_587483" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587483 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-raimundo-2026-08-1140.png" alt="" width="1140" height="700" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-raimundo-2026-08-1140.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-raimundo-2026-08-1140-250x154.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-raimundo-2026-08-1140-700x430.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-raimundo-2026-08-1140-120x74.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">André Sawakuchi/Mati-VGX</span>Raimundo da Cruz e Silva, morador da Volta Grande do Xingu, mostra um canal do rio Xingu que leva água para áreas que funcionam como bercários naturais para peixes na comunidade Goianinho, cujos ciclos de inundação foram prejudicados desde a inauguração da usina<span class="media-credits">André Sawakuchi/Mati-VGX</span></p></div>
<p>Procurada pela reportagem, a empresa responsável pela usina contestou as análises do Mati. “A Norte Energia, após detida análise técnica dos estudos apresentados, identificou lacunas metodológicas, ausência de detalhamento do delineamento amostral e indisponibilidade do banco de dados bruto, fatores que fragilizam as inferências apresentadas no estudo [e], logo, suas conclusões”, afirma a empresa. Em resposta a uma solicitação do Ibama, em abril deste ano, a Norte Energia também afirmou que o relatório do Mati possui “limitações relevantes de natureza científica, metodológica e regulatória.</p>
<p><strong>“Empreendimento de morte”</strong><br />
Os dados do Mati foram apresentados na trigésima Conferência das Partes (COP 30) da Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU, realizada em Belém do Pará, em novembro de 2025, no âmbito de uma série de seminários sobre Belo Monte, organizada pelo MPF.</p>
<p>Além da menor disponibilidade de água, a barragem alterou sobremaneira a duração e o timing do chamado pulso de inundação sazonal, que é quando as águas do rio transbordam mata adentro, formando os chamados igapós (trechos de floresta alagada), que são cruciais para a reprodução de diversas espécies de peixes. Normalmente, a água começaria a subir em novembro, até atingir um pico de cheia em abril. Depois começaria a descer de novo, até atingir um pico de seca em outubro. Agora, nem as populações locais e as plantas nem os animais sabem quando esses pulsos vão acontecer ou quanto tempo vão durar, porque a vazão do rio no trecho da Volta Grande passou a ser regulada pela operação da usina, e não mais pela natureza.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/08/vazao-mensal-grafico-desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="2560x2331" alt="Vazão média mensal">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara</span>
<p>O resultado, segundo os pesquisadores do Mati, é um cenário de escassez hídrica extrema, que compromete a sobrevivência dos ecossistemas, da biodiversidade e dos milhares de famílias de populações indígenas e ribeirinhas da Volta Grande do Xingu. Não há um dado oficial sobre o número de pessoas atingidas por Belo Monte no Trecho de Vazão Reduzida, mas as estimativas variam de 3 a 6 mil.</p>
<p>A quantidade de peixes diminuiu radicalmente, comprometendo o sustento e a segurança alimentar das comunidades locais. A locomoção, a disponibilidade de água potável e o acesso a serviços de saúde também foram seriamente prejudicados, segundo os moradores, já que muitos trechos do rio se tornaram quase intransponíveis durante vários meses do ano, por causa do prolongamento das secas. Trechos de floresta inundada que eram usados pelos peixes como áreas de reprodução e berçários naturais (&#8220;piracemas&#8221;, como se diz localmente) hoje estão inacessíveis aos animais, ou porque não alagam mais ou porque não ficam mais inundados pelo tempo suficiente para que esses ciclos reprodutivos se completem.</p>
<p>“Onde a gente saía para pescar antigamente, hoje em dia não consegue mais, porque o nível do rio baixou”, disse o líder indígena Adalto Arara, da Terra Indígena Arara da Volta Grande do Xingu, em um dos seminários promovidos pelo MPF na COP 30. A construção da usina hidrelétrica, segundo ele, “mudou completamente o modo de vida” das populações locais. “Hoje em dia a gente tem que desmatar para fazer roça, para plantar cacau, para tirar nossa renda; por falta de opção. De pescadores, nós viramos agricultores”, completou a jovem indígena Kãyure Juruna, da Terra Indígena Paquiçamba. “(Belo Monte) destruiu toda a nossa vida. Não foi só uma coisa nem outra, foi tudo; porque a gente dependia do rio para tudo.”</p>
<p>“Belo Monte só nos trouxe desastre, em todos os aspectos; a gente não sabe mais como sobreviver naquela localidade”, reforçou Orcylene Reis, moradora de uma comunidade ribeirinha do rio Bacajá, que deságua no Xingu. “Antes do barramento, era uma coisa muito fácil: você ia para o rio e pescava caixas e caixas de peixe. Hoje em dia, o pescador da Volta Grande do Xingu morre de fome.”</p>
<div id="attachment_587491" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587491 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-vazao-2026-08-1140.png" alt="" width="1140" height="700" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-vazao-2026-08-1140.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-vazao-2026-08-1140-250x154.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-vazao-2026-08-1140-700x430.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-belo-monte-vazao-2026-08-1140-120x74.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Carlos Mazoca/GeoHereditas</span>Redução da vazão do rio Xingu causada pela usina de Belo Monte impactou a vida de diversas comunidades ribeirinhas da Volta Grande<span class="media-credits">Carlos Mazoca/GeoHereditas</span></p></div>
<p>A procuradora Thaís Santi, do MPF em Altamira, que conduziu os seminários sobre Belo Monte na COP 30, descreveu a usina como um “empreendimento de morte”. “A destruição dos meios de vida, a destruição dos ecossistemas, retira dessas populações as condições de existência. E não é (só) a condição econômica de existência, é a condição de existência enquanto povo”, disse a procuradora. “Portanto, não há como (…) separar os conceitos de ecocídio, genocídio, etnocídio. É morte.”</p>
<p>Josiel Juruna, coordenador do Mati e vice-liderança da aldeia Mïratu, na Terra Indígena Paquiçamba, disse que monitorar os impactos da usina equivale a “monitorar a morte de um rio”, e que a Volta Grande está se aproximando de um “ponto sem volta”. “Se a gente não tomar uma atitude […], a gente vai perder esse ecossistema. Se a gente perder esse ecossistema, a gente vai perder todo um povo que mora naquela região, toda uma tradição que tem naquela região, tanto indígena como ribeirinho, assim como algumas pessoas quilombolas, que dependem também do rio. Então, a gente vai perder tudo isso”, disse.</p>
<p>A Norte Energia rebate as críticas e questiona a credibilidade técnica dos dados do monitoramento local. “Ainda que os estudos do Mati possam oferecer percepções complementares, não possuem consistência metodológica e transparência para embasar, por si só, alterações no Hidrograma de Consenso”, argumenta a empresa, em uma nota técnica de dezembro de 2025.</p>
<p>A empresa nega que a usina esteja causando impactos significativos nos ecossistemas ou no modo de vida das comunidades locais, argumentando que os dados do monitoramento conduzido pela própria operadora mostram um cenário diferente. “Quando flora (plantas), ictiofauna (peixes), pesca e quelônios (cágados, tartarugas e jabutis) são avaliados de forma integrada […], os quatro componentes demonstram que não houve ruptura ecológica, perda irreversível de habitats, extinção local de espécies ou interrupção de ciclos reprodutivos”, diz a Norte Energia, em uma outra nota técnica, também elaborada em resposta aos questionamentos do Ibama. Segundo a empresa, o que se observa é “um sistema em reorganização, exatamente como previsto no EIA (Estudo de Impacto Ambiental) e coerente com o comportamento de grandes rios após regulação hidrológica.” Em nota enviada à reportagem, a Norte Energia disse que monitora as condições de vida das famílias do Trecho de Vazão Reduzida desde 2012 e desenvolve “um conjunto abrangente de programas e ações socioambientais” na região, com o objetivo de “prevenir, mitigar e compensar eventuais impactos decorrentes da operação do empreendimento”. (<em>Leia a íntegra na nota da empresa <a href="https://drive.google.com/file/d/1HWJQP9DqU0ZwmYJ3yOwWIFUuEHaiTjWh/view" target="_blank" rel="noopener">aqui</a></em>)</p>
<p><strong>Hidrograma em xeque</strong><br />
A quantidade de água que Belo Monte pode desviar do rio Xingu para a produção de energia a cada mês é condicionada a um plano batizado de Hidrograma de Consenso, que estipula valores mínimos de vazão para o Trecho de Vazão Reduzida (TVR). Esse hidrograma tem duas versões (A e B), que deveriam ser alternadas anualmente para, supostamente, garantir a sobrevivência dos ecossistemas e das comunidades da Volta Grande.</p>
<p>Pelo Hidrograma A, a usina é obrigada a liberar uma média mínima de 4 mil metros cúbicos por segundo (m<sup>3</sup>/s) de água para o TVR no mês de abril, que representa o pico da cheia. Pelo Hidrograma B, essa média mínima obrigatória é de 8 mil m<sup>3</sup>/s. Os valores são diferentes para cada mês, chegando a 700 m<sup>3</sup>/s em outubro, no auge do período de seca.</p>
<p>Esses valores foram definidos no processo de licenciamento ambiental da usina, mas o volume previsto no Hidrograma A é tão baixo que nunca chegou a ser implementado, por determinação do Ibama. Desde novembro de 2019, quando todas as turbinas de Belo Monte entraram em operação, a usina trabalha apenas com o Hidrograma B, que permanece em vigor em 2026, enquanto prossegue a discussão sobre sua revisão. Ainda assim, estudos científicos e relatos de moradores indicam que as vazões previstas nesse hidrograma são insuficientes para manter vivos os ecossistemas da região.</p>
<p>Segundo o Mati, a média histórica da vazão natural do Xingu no TVR em abril, por exemplo, era de 19 mil m<sup>3</sup>/s — ou seja, mais que o dobro do mínimo previsto no Hidrograma B. A vazão média efetivamente liberada pela usina para aquele mês no período de 2016 a 2024, segundo o relatório do grupo, foi de 11.750 m<sup>3</sup>/s.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/08/vazao-mensal-tabela-desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="2560x1720" alt="Vazão média mensal prevista pelo Hidrograma de Consenso">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara</span>
<p>Além dos baixos volumes de água, segundo os pesquisadores, o hidrograma não respeita a temporalidade dos pulsos naturais de inundação do rio. “Fica evidente que a imposição de um regime hidrológico baseado em médias mensais, com enchente tardia e cheia limitada a 8.000 m³/s apenas durante o mês de abril, com vários meses de atraso em relação à enchente natural, que iniciava em novembro, compromete profundamente a reprodução dos peixes, as interações tróficas da fauna aquática e a integridade da floresta alagável”, aponta <a href="https://drive.google.com/file/d/1QSva_I7NJkE0s65Gi3cVkl11sXTVf1c5/view" target="_blank" rel="noopener">outra nota técnica</a> do Mati, divulgada em junho de 2025, sobre os impactos ambientais da usina.</p>
<p>“Esses relatórios têm essa intenção, de contestar dados oficiais da Norte Energia, que tentam mascarar os impactos e dizer que está tudo bem”, diz a pesquisadora Renata Utsunomiya, integrante do Mati e doutora em ciência ambiental pelo Instituto de Energia e Ambiente (IEE), da USP.</p>
<p>“Além do nível de inundação da cheia, destaca-se a importância da temporalidade e da duração do pulso de inundação. Para que os ciclos ecológicos se completem é necessário que a cheia tenha início mais cedo e que o nível de cheia se mantenha elevado por pelo menos três meses consecutivos”, diz a nota do Mati. O documento propõe a adoção de um hidrograma alternativo, em que o volume de água liberado pela usina para o TVR aumentaria gradualmente a partir de novembro, chegando a 14 mil m³/s em abril, e caindo gradativamente para 850 m³/s em outubro.</p>
<p>Outra proposta, apresentada pelo grupo na nota de novembro, seria adotar um esquema de partilha da água baseado em porcentagens fixas, em vez de volumes específicos de água para cada mês. Nesse caso, segundo a proposta do Mati, 30% da água seria reservada para a produção de energia e 70%, para a Volta Grande do Xingu. Dessa forma, o volume de água efetivamente desviado para cada função variaria de acordo com a vazão natural do rio, e não com as necessidades da usina.</p>
<blockquote><p>&#8220;Antes do barramento, você ia para o rio e pescava caixas e caixas de peixe. Hoje em dia, o pescador a Volta Grande morre de fome&#8221; – Orcylene Reis, moradora de uma comunidade ribeirinha do rio Bacajá</p></blockquote>
<p>O problema, do ponto de vista energético, é que haveria menos água em determinados momentos para a geração de eletricidade, especialmente nos meses de seca. Isso poderia reduzir a produção da usina, que é uma peça fundamental do sistema elétrico nacional. Na virada do ano de 2025 para 2026, em meio a uma forte onda de calor no Sudeste, Belo Monte chegou a gerar mais de 9% da energia elétrica consumida no país, segundo a Norte Energia. E já houve momentos em que esse percentual passou de 10%.</p>
<p>O desafio, segundo Utsunomiya, é encontrar uma solução que contemple tanto a sobrevivência socioambiental da Volta Grande do Xingu quanto as necessidades energéticas do país. Uma discussão que, segundo ela, precisa contemplar outras fontes de energia limpa, como solar e eólica, além da hidreletricidade — que também pode gerar impactos sociais e ambientais expressivos, apesar de emitir menos carbono para a atmosfera, como mostra o caso de Belo Monte.</p>
<p>“Quando você coloca esses impactos socioambientais na balança, a hidrelétrica não vale a pena”, avalia Sawakuchi, do Instituto de Geociências da USP. “Esses efeitos negativos regionais são muito maiores do que qualquer ganho por redução de emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera.” No caso de Belo Monte, segundo ele, até mesmo uma usina termoelétrica seria preferível ao que foi feito na Volta Grande. “Todas as grandes hidrelétricas do Brasil são dependentes da monção da América do Sul; e as projeções climáticas apontam para uma redução de vazão nas bacias de drenagem que abrigam essas grandes hidrelétricas. Então, não é só uma questão de conservar a biodiversidade aquática e as florestas alagáveis da Amazônia. É uma questão de segurança energética também.”</p>
<p>A Norte Energia disse que “acompanha com atenção os estudos científicos acerca do tema [das mudanças climáticas] e seus potenciais impactos sobre os regimes hidrológicos da Amazônia”, e que esses cenários são considerados no planejamento operacional de longo prazo e na gestão de riscos do empreendimento, “como ocorre em todo o setor elétrico”. O desafio de conciliar a geração de energia com a disponibilidade cada vez mais incerta de água no Xingu, portanto, deverá permanecer no centro das discussões sobre o futuro de Belo Monte.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Como a anatomia de abelhas pode salvar a lavoura – e os biomas – das mudanças climáticas</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/como-a-anatomia-de-abelhas-pode-salvar-a-lavoura-e-os-biomas-das-mudancas-climaticas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=como-a-anatomia-de-abelhas-pode-salvar-a-lavoura-e-os-biomas-das-mudancas-climaticas</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Victor Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Aug 2026 18:57:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Evolução]]></category>
		<category><![CDATA[Genética]]></category>
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					<description><![CDATA[Quinze anos de pesquisas e expedições a mais de 30 países revelam a história evolutiva dos polinizadores e indicam como as linhagens se adaptaram a ambientes variados em milhões de anos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Se uma área natural perde parte de sua vegetação e fauna originais, a simples contagem de espécies sobreviventes não revela a história completa da devastação. Junto com o que se perdeu, se esvai também a diversidade de formas e características físicas que compõem e garantem o equilíbrio dos ecossistemas.</p>
<p>Foi buscando resgatar esse tipo de pistas morfológicas que uma equipe de biólogos se engajou para investigar o passado e o futuro de insetos popularmente reconhecidos como guardiões da biodiversidade no planeta: as abelhas</p>
<p>Para entender como as mudanças climáticas e a destruição de hábitats ameaçam a sobrevivência desses polinizadores, a ciência precisa olhar para trás e investigar a jornada evolutiva esculpida em seus esqueletos. Essa é uma das premissas da fenômica, campo que estuda o fenótipo (a totalidade das características visíveis) com a mesma sistemática com que a genômica mapeia o DNA.</p>
<div id="attachment_587541" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587541 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-montagem-A-2026-08-1140.png" alt="" width="1140" height="770" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-montagem-A-2026-08-1140.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-montagem-A-2026-08-1140-250x169.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-montagem-A-2026-08-1140-700x473.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-montagem-A-2026-08-1140-120x81.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Imagem extraída de Lepeco &amp; Almeida. <em>Bulletin of the American Museum of Natural History</em> (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1</span>Preservada em âmbar, a fêmea da abelha <em>Succinapis micheneri</em> é um dos registros da tribo extinta Melikertini. O painel detalha a anatomia de partes específicas do fóssil (A, B e C) e a visão lateral completa do inseto (D). O estudo milimétrico do esqueleto dessas abelhas restritas ao Hemisfério Norte revela características ancestrais que o DNA não alcança, indicando seu parentesco evolutivo com as abelhas-sem-ferrão atuais<span class="media-credits">Imagem extraída de Lepeco & Almeida. <em>Bulletin of the American Museum of Natural History</em> (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1</span></p></div>
<p>Esse resgate da morfologia ancorou dois amplos estudos conduzidos no Programa de Pós-Graduação em Entomologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCLRP-USP), em Ribeirão Preto (SP). Com <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/106049/desimpedimento-taxonomico-de-vespas-aculeadas-visoes-micro-e-macro-regionais-da-fauna-neotropical/" target="_blank" rel="noopener">apoio da FAPESP</a>, os pesquisadores mergulharam na intrincada árvore evolutiva desses insetos. As análises são resultado de cerca de 15 anos de pesquisas e expedições por mais de 30 países em diversos continentes, aliado a visitas e ao intercâmbio de material biológico com acervos de referência, como o do Museu de História Natural de Berlim, na Alemanha, e o do Museu Americano de História Natural, em Nova York.</p>
<div id="attachment_587545" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587545 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-montagem-B-2026-08-1140.png" alt="" width="1140" height="432" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-montagem-B-2026-08-1140.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-montagem-B-2026-08-1140-250x95.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-montagem-B-2026-08-1140-700x265.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-montagem-B-2026-08-1140-120x45.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Imagem extraída de Lepeco &amp; Almeida. <em>Bulletin of the American Museum of Natural History</em> (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1</span>Detalhes anatômicos da abelha-sem-ferrão dominicana (<em>Proplebeia dominicana</em>), incrustada em resina fóssil há cerca de 18 milhões de anos. Mapear detalhes do aparelho bucal com as mandíbulas (<em>esq</em>.) e da vista anterior do pronoto, parte do tórax (<em>dir.</em>), forneceu evidências importantes sobre o lugar da espécie na árvore evolutiva das abelhas-sem-ferrão neotropicais<span class="media-credits">Imagem extraída de Lepeco & Almeida. <em>Bulletin of the American Museum of Natural History</em> (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1</span></p></div>
<p>O mapeamento avançou em duas frentes complementares. O biólogo Anderson Lepeco, atualmente doutorando na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), detalhou a morfologia de uma linhagem específica durante seu mestrado em Entomologia na FFCLRP-USP, dissecando 68 espécies viventes da tribo das abelhas-sem-ferrão (Meliponini), além de incluir na análise anatômica amostras extintas preservadas em âmbar. <span style="font-weight: 400;">Os resultados foram </span><a href="https://doi.org/10.1206/0003-0090.478.1.1"><span style="font-weight: 400;">publicados</span></a><span style="font-weight: 400;"> em fevereiro de 2026 no </span><i><span style="font-weight: 400;">Bulletin of the American Museum of Natural History</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p>Em paralelo, o também biólogo Diego Sasso Porto, que hoje atua como pesquisador associado ao Museu de História Natural da Finlândia, em Helsinque, conduzia seu doutorado sobre a história evolutiva das abelhas catalogando 394 caracteres anatômicos de 116 espécies escolhidas para representar de forma equilibrada as ramificações das grandes famílias espalhadas pelo globo. <span style="font-weight: 400;">O </span><a href="https://digitallibrary.amnh.org/items/8883e4f7-f2f1-4e8f-851f-4148c0de075a"><span style="font-weight: 400;">trabalho</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Porto foi publicado em 19 de agosto, também no </span><i><span style="font-weight: 400;">Bulletin</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div id="attachment_587529" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587529 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-cladograma-2026-08-1140.png" alt="" width="1140" height="1234" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-cladograma-2026-08-1140.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-cladograma-2026-08-1140-250x271.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-cladograma-2026-08-1140-700x758.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-cladograma-2026-08-1140-120x130.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Imagem extraída de Porto &amp; Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). URI: https://hdl.handle.net/2246/7558</span>A árvore genealógica dos polinizadores: o diagrama circular (cladograma) organiza o grau de parentesco entre as grandes famílias de abelhas do globo. Para interpretá-lo, a leitura é feita do centro para as bordas. O miolo representa o passado profundo e os ancestrais comuns; conforme as linhas se ramificam para fora, ilustram a separação das linhagens ao longo de milhões de anos até chegarem às espécies atuais, indicadas nas fotos das extremidades<span class="media-credits">Imagem extraída de Porto & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). URI: https://hdl.handle.net/2246/7558</span></p></div>
<p>Eduardo Almeida, coordenador do Laboratório de Biologia Comparada e Abelhas (LBCA) da FFCLRP-USP e orientador das duas pesquisas, comenta que &#8220;a genética e a morfologia caminham juntas, uma complementando as lacunas que a outra deixa. Quando olhamos apenas para o genoma, não enxergamos a beleza das formas e dos comportamentos. É a morfologia que nos abre a janela para entender o processo de formação da diversidade biológica.&#8221;</p>
<p>As evidências esqueléticas ajudaram a solucionar antigos impasses taxonômicos sobre linhagens extintas, tarefa que a análise de DNA não alcança. Almeida explica que, por muito tempo, houve forte suspeita de que a abelha dominicana (<em>Proplebeia dominicana</em>), incrustada em resina há cerca de 18 milhões de anos, fosse aparentada de abelhas-sem-ferrão viventes que habitam os Neotrópicos. Só faltava uma avaliação morfológica definitiva validando a hipótese – o que ocorreu graças aos estudos.</p>
<p>Outra dúvida pairava sobre a tribo extinta Melikertini, restrita ao Hemisfério Norte. O recorte de Lepeco interligou essas peças: comprovou a relação de proximidade entre a tribo Melikertini e as abelhas-sem-ferrão atuais e confirmou o lugar da abelha dominicana na árvore evolutiva neotropical. Juntos, esses fósseis revelam experimentos evolutivos de linhagens que pararam no tempo e não deixaram descendentes diretos, mas cujas formas físicas ajudam a interpretar o desenvolvimento das espécies viventes hoje. Esses exemplos demonstram morfologia e genética caminhando em paralelo.</p>
<div id="attachment_587537" style="max-width: 810px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587537 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-lingua-2026-08-800.png" alt="" width="800" height="693" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-lingua-2026-08-800.png 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-lingua-2026-08-800-250x217.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-lingua-2026-08-800-700x606.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-lingua-2026-08-800-120x104.png 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Imagem extraída de Lepeco &amp; Almeida. <em>Bulletin of the American Museum of Natural History</em> (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1</span>Detalhe da ponta do aparelho bucal da abelha <em>Paratrigona lineata</em>, espécie que integra o grupo das abelhas de língua longa da família Apidae. O alongamento de partes do aparelho bucal (estrutura equivalente à língua) com formação de flabelo na ponta foram inovações que permitiram a esses polinizadores alcançar o néctar em certos tipos de flores<span class="media-credits">Imagem extraída de Lepeco & Almeida. <em>Bulletin of the American Museum of Natural History</em> (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1</span></p></div>
<p>A segunda pesquisa, focada na amplitude global das famílias, inovou metodologicamente ao utilizar técnicas estatísticas e computacionais criadas nos últimos anos para calcular a taxa da mudança anatômica. Os testes indicaram que diferentes partes do esqueleto de um inseto não evoluem na mesma marcha. O aparelho bucal das abelhas de língua longa, por exemplo, apresentou um ritmo acelerado de alterações durante o período Cretáceo (há mais de 100 milhões de anos), consolidando uma estabilização estrutural profunda logo em seguida.</p>
<p>Esse pico de adaptações se alinha ao surgimento de novidades evolutivas essenciais, como o alongamento de partes do aparelho bucal (uma estrutura complexa e equivalente à nossa língua) e a formação do flabelo na sua ponta, garantindo a capacidade mecânica desses insetos de sugar o néctar no fundo das flores tubulares. &#8220;A evolução produziu soluções diferentes, mas que foram altamente eficientes. A presença de ambos os grupos [de língua curta e de língua longa] há mais de 100 milhões de anos no planeta comprova esse sucesso&#8221;, ressalta Almeida.</p>
<div id="attachment_587533" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587533 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-evolucao-2026-08-1140.png" alt="" width="1140" height="1338" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-evolucao-2026-08-1140.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-evolucao-2026-08-1140-250x293.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-evolucao-2026-08-1140-700x822.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-abelhas-evolucao-2026-08-1140-120x141.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Imagem extraída de Porto &amp; Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). URI: https://hdl.handle.net/2246/7558</span>Mapeamento da história evolutiva da anatomia das abelhas indicando, em roxo, o ramo das abelhas de língua longa (famílias Apidae e Megachilidae). O alongamento de estrutura do aparelho bucal desses insetos possivelmente se associa à capacidade de extrair néctar em flores de corola profunda.<span class="media-credits">Imagem extraída de Porto & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). URI: https://hdl.handle.net/2246/7558</span></p></div>
<p>O futuro da investigação entomológica inclui a digitalização dessas grandes bases de dados anatômicos. Aliado a tecnologias avançadas, como a tomografia microcomputadorizada, esses dados permitirão reconstruções tridimensionais que revelam os insetos de dentro para fora. A partir daí, integrar informações fenotípicas de maneira contínua aos genótipos refinará a compreensão de como cada linhagem reage a estresses ambientais e distúrbios antropogênicos.</p>
<p>Desse modo, haverá mais ferramentas para investigar, por exemplo, as razões pelas quais algumas abelhas desenvolveram ferrões proeminentes e outras aprimoraram estratégias comportamentais distintas de defesa. Outra utilidade prática potencial das abordagens fenômicas é selecionar os polinizadores ideais para lavouras agrícolas e florestas em recuperação, fortalecendo a defesa e a conservação de ecossistemas, especialmente no contexto das mudanças climáticas.</p>
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		<title>A ciência ao redor dos ossos</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/a-ciencia-ao-redor-dos-ossos/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=a-ciencia-ao-redor-dos-ossos</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Letícia Naísa]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Aug 2026 12:56:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[Arqueologia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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					<description><![CDATA[Exposição leva ao público os bastidores de uma pesquisa sobre como peritos constroem conhecimento a partir de remanescentes de vítimas da ditadura militar]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Três pessoas estão em volta de uma mesa com panos azuis em uma sala no Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em cima dos panos, há ossadas humanas. Uma perita pega um dos ossos, segura-o e pergunta para as colegas o que elas acham daquele fragmento. Uma delas observa mais de perto e aponta para uma imagem em uma apostila aberta sobre a mesa. A cena faz parte do cotidiano do laboratório forense que investiga remanescentes de pessoas mortas e desaparecidas durante a ditadura militar no Brasil. Profissionais que trabalham ali investigam remanescentes ósseos de diferentes partes do país que podem pertencer a vítimas da ditadura e têm como missão identificar os corpos e tentar descobrir o que aconteceu com eles. A rotina dos peritos, que foi registrada em vídeo nos últimos quatro anos para uma pesquisa científica, agora se tornou uma exposição imersiva.</p>
<p>A mostra “Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado” fica em cartaz entre os dias 14 de agosto e 27 de setembro no Centro Maria Antonia da Universidade de São Paulo (USP), na capital paulista. Além dos espaços de exposição, conta com uma programação paralela de filmes (entre eles “Nuestras Madres”, do cineasta guatemalteco César Díaz, e “Madres Paralelas”, de Pedro Almodóvar), debates, oficinas sobre atividades forenses, história e memória da ditadura militar e mesas redondas com familiares de desaparecidos políticos. A instalação reúne cenas gravadas para o projeto Fazendo Falar os Ossos, <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/116358/fazendo-falar-os-ossos-linguagem-corpo-materialidade-e-conhecimento-no-trabalho-em-um-laboratorio-fo/?q=24/04810-1" target="_blank" rel="noopener">financiado pela FAPESP</a> e pela agência suíça SNSF (Swiss National Science Foundation), encabeçado pelas pesquisadoras Fernanda Miranda da Cruz, da Unifesp, e Lorenza Mondada, da Universidade de Basileia, na Suíça, em parceria com o filósofo Edson Teles, coordenador do CAAF.</p>
<p>A exposição nasceu da pesquisa que aproxima a linguística da antropologia forense – a ideia do projeto surgiu de uma conversa informal entre os pesquisadores, em que Teles contou para da Cruz e Mondada sobre como os peritos forenses abriam, pela primeira vez, sacos com remanescentes humanos recém-chegados ao laboratório. “Fiquei muito impressionada [com o relato], porque não eram restos humanos quaisquer”, lembra a pesquisadora suíça, uma vez que as ossadas em questão poderiam ser de desaparecidos da ditadura. Na época, Mondada já trabalhava com investigação de interações sociais em ambientes de trabalho delicados, como salas de cirurgia.</p>
<div id="attachment_587452" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587452 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-exposicao-ossos-CAAF-2026-08-1400.png" alt="" width="1140" height="700" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-exposicao-ossos-CAAF-2026-08-1400.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-exposicao-ossos-CAAF-2026-08-1400-250x154.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-exposicao-ossos-CAAF-2026-08-1400-700x430.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-exposicao-ossos-CAAF-2026-08-1400-120x74.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Divulgação / CAAF-Unifesp</span>Remanescentes ósseos que podem pertencer a vítimas da ditadura militar no Brasil são analisados no Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, na capital paulista<span class="media-credits">Divulgação / CAAF-Unifesp</span></p></div>
<p>Da conversa em 2017, surgiu a vontade de entender os detalhes das interações da equipe forense. O projeto se apoia na etnometodologia, abordagem que investiga como as pessoas constroem e dão sentido às práticas do cotidiano, e na análise de conversa, que examina como a fala e os gestos se organizam, momento a momento, na interação entre as pessoas a partir de detalhes como gestos, olhares e pausas. Da Cruz e Mondada registraram em vídeo, com várias câmeras, a forma como os peritos do CAAF examinavam os ossos e fragmentos, como debatiam os casos que chegavam e as dúvidas que surgiam. Para a análise, a dupla transcreveu as cenas para além das palavras: anotavam instantes em que mãos se moviam, olhares eram trocados, objetos eram manuseados.</p>
<p>Enquanto peritos formados em diferentes áreas do conhecimento buscam montar o quebra-cabeça sobre o que aconteceu com os mortos e desaparecidos da ditadura por meio dos ossos severamente danificados pelo tempo e pela ocultação deliberada, muitas vezes sem informações de contexto relevantes, a dupla brasileiro-suíça procura entender como esse conhecimento é produzido.</p>
<p>Cada milímetro de osso encontrado e cada variação patológica descrita pode ser crucial para recompor a biografia das vítimas, assim como cada detalhe, gesto, comentário e olhar durante a investigação nas longas horas de trabalho.</p>
<p>Entre os achados do levantamento está a noção de que o conhecimento é construído de maneira coletiva. Em diálogo com a tradição dos estudos sobre a produção do conhecimento científico que inclui a etnografia de Bruno Latour e Steve Woolgar, registrada no livro “Vida de Laboratório”, de 1979, as pesquisadoras observam em detalhe como o conhecimento é construído durante as próprias interações no laboratório. “Nos interessa o processo do pensar para além do que se passa na cabeça dos peritos; olhar para o que acontece no entorno da mesa, nos diálogos, na observação particular do material que vai permitir chegar a algum resultado, alguma conclusão sobre quem é aquela pessoa e o que aconteceu com ela”, explica Mondada. “É um saber que se constitui de maneira complexa.”</p>
<p>A análise, publicada em <a href="https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/08351813.2024.2410130" target="_blank" rel="noopener">artigo</a> na revista <em>Research on Language and Social Interaction</em> em novembro de 2024, aponta como uma pergunta simples como “o que você acha?” organiza boa parte do trabalho de identificação dos peritos. “Nosso objetivo é revelar aquilo que é mundano para refletir sobre as práticas [no laboratório]”, diz da Cruz. “As interações sociais do cotidiano estão no centro da produção do conhecimento. Quando eu tenho uma dúvida e peço a opinião de um colega, ‘o que você acha?’, o problema se torna coletivo”, aponta Mondada.</p>
<p>Para as pesquisadoras, esse tipo de evidência ajuda a questionar tanto o estereótipo da ciência como produto de um “gênio” que trabalha sozinho quanto a ideia de que a objetividade da ciência prescinde das interações entre os pesquisadores. “Momentos de discordância são muito produtivos para a ciência e a discussão é a base interacional”, diz Mondada. “Se todo mundo concordasse, não haveria conhecimento”, afirma.</p>
<div id="attachment_587456" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587456 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-exposicao-ossos-pesquisadores-2026-08-1400.png" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-exposicao-ossos-pesquisadores-2026-08-1400.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-exposicao-ossos-pesquisadores-2026-08-1400-250x138.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-exposicao-ossos-pesquisadores-2026-08-1400-700x387.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/RPF-exposicao-ossos-pesquisadores-2026-08-1400-120x66.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Divulgação</span>Lorenza Mondada e Fernanda da Cruz trabalhando nas análises linguísticas dos dados do projeto Fazendo falar os ossos, na Universidade de Basileia, na Suíça<span class="media-credits">Divulgação</span></p></div>
<p>Em outro <a href="https://www.ethnographicstudies.org/article/view/6920" target="_blank" rel="noopener">artigo</a>, publicado em 2025 na revista <em>Ethnographic Studies</em>, as pesquisadoras detalham o ato dos peritos de medir os ossos no laboratório. Na ciência tradicional, a medição indica uma ideia de objetividade, mas as interações mostram que há subjetividade na aplicação da metodologia. Duas peritas precisam medir fêmures para calcular a estatura de um indivíduo e também para descobrir se dois ossos são de uma mesma pessoa. Há mais de um método possível sendo discutido para os cálculos. Na interação, elas negociam os movimentos e alinham as ações para chegar a alguma conclusão. O estudo demonstra que a objetividade da medição não reside simplesmente no instrumento, mas também nos procedimentos compartilhados de checagem e validação entre as cientistas.</p>
<p>Na exposição, o público é convidado a ver cenas como essas em trechos dos vídeos gravados para o projeto – ao todo, são mais de 180 horas de material audiovisual. O espaço está dividido em cinco ambientes, com 14 instalações que apresentam vídeos em TVs, telas e projeções. Em uma delas, as imagens são exibidas em uma tela dentro de um saco preto, do tipo utilizado para transportar corpos. Em outra, o visitante observa, por pequenos orifícios em uma parede, cenas do manuseio dos ossos com o som estridente de uma lixadeira que serve para extrair o DNA dos ossos. “É uma realidade desconfortável, mas permite uma experiência imersiva”, explica Mondada.</p>
<p>Além de sensibilizar o público sobre a construção do conhecimento forense, a mostra espera provocar uma reflexão sobre os desaparecidos e mortos da ditadura, uma marca na história brasileira. “Ossos não falam e não há ossos de verdade na exposição; mas a ditadura e as investigações sobre esse período não são uma história do passado, são do presente”, diz da Cruz. No CAAF, os peritos lidam diariamente com uma pergunta que segue em aberto: onde estão os desaparecidos? Para Mondada, expor esse cotidiano é pensar em como o conhecimento sobre a ditadura está presente na ciência e na política, além da história. “É uma questão de democracia, de memória histórica e de não esquecer o que aconteceu”, reflete.</p>
<div class="box"><strong>Serviço</strong><br />
Exposição: Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado<br />
Curadoria: Lorenza Mondada, Fernanda Cruz e Edson Teles<br />
Abertura: sexta-feira, 14 de agosto de 2026, às 18h<br />
Período em cartaz: 14 de agosto a 27 de setembro de 2026<br />
Horário de visitação: terça a domingo, das 10h às 18h<br />
Local: Centro Maria Antonia da USP – Rua Maria Antônia, 258, São Paulo<br />
Entrada: gratuita<br />
Mais informações: <a href="http://www.mariantonia.prceu.usp.br" target="_blank" rel="noopener">www.mariantonia.prceu.usp.br</a> | <a href="https://www.instagram.com/fazerfalarosossos" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/fazerfalarosossos</a></div>
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		<item>
		<title>Racismo e exclusão no mercado do amor</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/racismo-e-exclusao-no-mercado-do-amor/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=racismo-e-exclusao-no-mercado-do-amor</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Neide Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Aug 2026 09:01:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Pesquisa revela as regras invisíveis para mulheres negras em aplicativos de relacionamento]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Na literatura e na poesia, são vários os aforismos que descrevem o amor como um sentimento puro e desinteressado. Mas a ideia de que o amor é cego não se sustenta na vida real. Pesquisas da socióloga Maria Chaves Jardim, professora do Departamento de Ciências Sociais da Unesp de Araraquara e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da mesma universidade, mostram que relações afetivas também são atravessadas por desigualdades sociais e que mulheres negras ocupam a posição mais vulnerável no chamado mercado do afeto.</p>
<p>Desde 2017, no Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Emoções, Sociedade, Poder, Organização e Mercado (Nespom), Jardim investiga como aplicativos de relacionamento reproduzem — em vez de reduzir — desigualdades presentes na sociedade. Em um estudo de etnografia digital, <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/98883/aplicativos-para-relacionamento-e-a-construcao-social-do-mercado-do-afeto-a-contribuicao-da-sociolog/" target="_blank" rel="noopener">financiado pela FAPESP</a>, a pesquisadora interagiu com mais de uma centena de homens nos aplicativos Tinder e Badoo, realizou 15 entrevistas presenciais e conversou com integrantes de um grupo virtual fechado em que mulheres compartilham experiências relacionadas à vida afetiva e suas estratégias para fazer sucesso nos aplicativos.</p>
<p>Os resultados mostram que as ferramentas estão longe de democratizar o acesso ao amor e reproduzem constrangimentos sociais presentes fora do ambiente digital, favorecendo determinados perfis e excluindo outros. Padrões estéticos e preconceitos influenciam diretamente quem é visto como desejável e quem permanece invisível.</p>
<p>A interpretação parte da sociologia econômica, que entende o mercado como um espaço moldado por valores e relações sociais, e não como um ambiente neutro. “Não há aqui uma mágica, um cupido. Há elementos sociais e, entre eles, a exclusão de mulheres fora do padrão estético — que estão acima do peso ou têm o tom de pele diferente daquele considerado legítimo, que é o branco”, afirma Jardim.</p>
<p>A popularização dos aplicativos de namoro trouxe a promessa de ampliar as possibilidades de encontro. Com opções para diferentes perfis e interesses — como idosos, veganos e tantos outros —, criou-se a ideia de um mercado afetivo mais acessível. “Esse discurso é uma falácia, especialmente para mulheres pretas, dado o contexto de vulnerabilidade social, econômica e política no qual grande parte delas se encontra”, afirma Paulo Carvalho Moura, doutorando em Ciências Sociais na Unesp e integrante do Nespom.</p>
<p>Segundo Moura, os aplicativos não eliminam desigualdades, apenas reorganizam e reforçam preconceitos já existentes. “O ambiente digital não é livre de constrangimentos sociais. Trata-se de um mercado com hierarquias e padrões, considerando fatores como raça, gênero, escolaridade e gosto cultural”, destaca.</p>
<p><strong>Quem fica de fora</strong></p>
<p>Se o primeiro estudo mostrou como os aplicativos reproduzem desigualdades, uma pesquisa posterior, publicada na revista <em>Tomo </em>em parceria com Renata Paoliello, também da Unesp, buscou compreender de que maneira essas dinâmicas afetam especificamente a experiência de mulheres negras.</p>
<p>O grupo analisou dados de 64 mulheres negras com diferentes perfis socioeconômicos para avaliar o impacto da cor da pele nas experiências afetivas. O primeiro grupo reunia 45 delas, das quais 40 tinham diploma superior. O segundo era formado por 19 mulheres pretas, sem diploma superior, moradoras de um bairro popular de Araraquara. A conclusão foi direta: mulheres negras enfrentam barreiras estruturais também no mercado do afeto. “O amor, como todas as relações sociais, tem relação com poder. Alguns terão mais acesso a ele do que outros, pois o sentimento está sustentado por valores que carregamos no inconsciente, e o racismo é um deles”, explica Jardim.</p>
<p>Entre as entrevistadas, surgem padrões recorrentes de sofrimento relacionados ao racismo, sofrido desde a infância e adolescência, à invisibilidade afetiva e a relacionamentos abusivos. Embora frustrações amorosas façam parte da experiência de muitas, Jardim observa que elas costumam ser retratadas de formas distintas. Com frequência, o debate público associa as dificuldades enfrentadas por mulheres brancas ao dilema entre casamento e carreira. Já entre as mulheres pretas ouvidas pela pesquisa, o obstáculo aparece antes mesmo desse ponto: muitas descrevem dificuldades para estabelecer relações afetivas estáveis. “O dilema da mulher branca pressupõe uma possibilidade de escolha. A da mulher preta não contempla isso”, comenta a pesquisadora.</p>
<p>Segundo Thaís Caetano de Souza, doutoranda em Ciências Sociais pela Unesp e integrante do Nespom, essa diferença ajuda a compreender por que muitas afirmam não conseguir sequer acessar o modelo de relacionamento romântico tradicional. “A desigualdade aparece de forma mais profunda para mulheres pretas. Elas não estão reorganizando a vida afetiva em prol de projetos profissionais; elas simplesmente não possuem uma vida afetiva no modelo romântico de construção de uma família”, afirma.</p>
<p><strong>Quando o amor não se concretiza</strong></p>
<p>O desejo por relações estáveis aparece na fala das entrevistadas, seja na expectativa do casamento, seja experiências cotidianas simples, como andar de mãos dadas com o parceiro. Jardim coloca seus dados da pesquisa de campo em diálogo com as teorias existentes na sociologia sobre o amor, como o amor romântico, o amor confluente, o poliamor e o chamado “amor líquido”, caracterizado por relações frágeis e instáveis. Entre parte das mulheres pretas ouvidas na pesquisa, porém, esta última acaba sendo percebida como a única possibilidade concreta.</p>
<p>Como consequência, muitas relatam início tardio da vida afetiva e sexual e, em alguns casos, o estabelecimento de relações marcadas pela falta de compromisso ou pela posição de amante, não por escolha, mas pela escassez de alternativas percebidas.</p>
<p>Outro padrão recorrente é o tipo de abordagem recebida nos aplicativos: convites de cunho sexual, que reforçam a objetificação e reduzem as possibilidades de construção de vínculos duradouros. Diante dessas barreiras, algumas relatam optar pelo celibato definitivo, enquanto outras acabam construindo famílias como mães solo. Esse quadro contrasta com o estereótipo historicamente atribuído às negras como pessoas naturalmente hipersexualizadas. Entre as mulheres pretas com diploma universitário, a pesquisadora observou que muitas optam pela solidão afetiva em vez de aceitar relacionamentos “líquidos”.</p>
<p>As experiências narradas pelas participantes da pesquisa não aparecem isoladamente. Indicadores nacionais mostram que as desigualdades observadas nas entrevistas também se refletem na formação de casais e famílias no Brasil. Dados do Censo de 2022 do IBGE revelam maior probabilidade de casamento para mulheres brancas (51%) do que para pretas (44%). Já entre as mães solo, negras (pretas e pardas) representam cerca de 90% do total entre 2022 e 2023, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).</p>
<p>As consequências desse processo, no entanto, não se limitam às trajetórias afetivas. Elas também repercutem na saúde mental das entrevistadas. Segundo Jardim, os impactos emocionais da exclusão afetiva vão além do sentimento de rejeição e da baixa autoestima. A equipe agora pretende investigar de forma mais aprofundada suas consequências para a saúde mental das mulheres pretas. “Esse quadro pode contribuir para o adoecimento psíquico, incluindo depressão e processos de medicalização, e será objeto da próxima etapa da pesquisa”, afirma.</p>
<p>Para a pesquisadora, um dos principais efeitos do estudo é deslocar a responsabilidade do plano individual para o coletivo. Ao reconhecer que essas experiências refletem desigualdades estruturais, muitas deixam de atribuir exclusivamente a si mesmas a culpa pelo chamado “fracasso afetivo”.</p>
<p>“Isso não resolve os problemas pessoais, mas produz uma tomada de consciência de que se trata de uma questão social. É uma forma de compreender que o problema não está nelas, mas na maneira como a sociedade organiza seus preconceitos, colocando em uma hierarquia quais são as mulheres dignas de serem amadas e as que não merecem o amor”, conclui.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
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		<title>Garimpando o solo atrás de avanços tecnológicos</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/garimpando-o-solo-atras-de-avancos-tecnologicos/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=garimpando-o-solo-atras-de-avancos-tecnologicos</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mariella Bodemeier L. Careaga]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2026 15:01:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Computação]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
		<category><![CDATA[Óptica]]></category>
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					<description><![CDATA[Pesquisa mostra como filossilicatos, minerais abundantes na natureza e de baixo custo, podem servir de base para novos dispositivos optoeletrônicos e nanofotônicos ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Em 2004, Andre Geim e Konstantin Novoselov, ambos físicos da Universidade de Manchester, no Reino Unido, utilizaram uma fita adesiva comum para isolar, pela primeira vez, uma folha atômica de grafite, inaugurando uma nova classe de materiais. Conhecido como grafeno, o material conduzia eletricidade tão bem quanto o cobre, era um excelente condutor de calor e, embora sua estrutura muito compacta de carbono o fizesse muito denso, sua espessura ultrafina conferia extrema flexibilidade. A própria obtenção do grafeno foi considerada um feito surpreendente na época, dado que era impensável que materiais cristalinos formados por apenas uma camada atômica fossem estáveis. Tamanho foi o impacto da descoberta que, seis anos após a obtenção do grafeno, a dupla foi agraciada com o Nobel de Física. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora mais de duas décadas tenham se passado desde a descoberta de Geim e Novoselov, cientistas continuam explorando essa nova classe de materiais, conhecida como materiais bidimensionais (2D) ou lamelares. Esses materiais consistem em uma ou poucas camadas atômicas e exibem comportamentos físicos que muitas vezes desaparecem em suas formas tridimensionais, ampliando o leque de potenciais aplicações tecnológicas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A física Ingrid Barcelos, pesquisadora do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (Cnpem), integra um dos grupos brasileiros dedicados ao estudo desses materiais. A pesquisa de Barcelos é centrada no estudo de materiais 2D derivados de filossilicatos, minerais encontrados na natureza, e conta com </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/119848/da-natureza-a-nanofotonica-materiais-2d-sustentaveis-para-o-controle-quantico-da-luz/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">financiamento da FAPESP</span></a><span style="font-weight: 400;">. Segundo Barcelos, embora os filossilicatos sejam muito abundantes na natureza, eles ainda são pouco estudados. A pesquisadora ressalta que, devido ao seu baixo custo quando comparados a materiais 2D sintéticos, esses minerais se apresentam como opções acessíveis para aplicações tecnológicas. Além de serem potencialmente mais sustentáveis, já que têm origem natural e não são processados, causando menor impacto ambiental ao serem descartados.      </span></p>
<p><b>Do grafeno aos minerais naturais</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os filossilicatos são formados pela combinação de átomos de silício e oxigênio, que se organizam estruturalmente em camadas empilhadas, formando o mineral. Assim como Geim e Novoselov, Barcelos utiliza fitas adesivas para esfoliar, ou seja, separar mecanicamente as camadas desses minerais, produzindo flocos de espessuras nanométricas. Segundo a pesquisadora, a separação desses materiais em camadas ultrafinas só é possível pois as interações entre as diferentes camadas sobrepostas são fracas o suficiente para permitir a separação, enquanto as ligações entre os átomos de cada camada são fortes o suficiente para manter a integridade da camada. “É como se você tivesse um pacote de folhas A4 em que você consegue tirar folha por folha desse pacote. E cada folha é uma camada atômica”, explica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Barcelos conta que os filossilicatos possuem características físicas que conferem propriedades de isolantes elétricos a esses materiais. Segundo ela, no universo de materiais 2D, poucos apresentam esse comportamento, e um dos mais utilizados, o nitreto de boro hexagonal, apresenta custo elevado para obtenção do material com alta qualidade cristalina e produção concentrada em poucos locais no mundo, o que limita o seu acesso.<br />
</span></p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/08/materiais2D_desktop.jpeg" data-tablet_size="1140x820" alt="">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso</span></div><div class="post-content sequence">
<p><span style="font-weight: 400;">Essas razões reforçam a necessidade de identificar e estudar novos materiais 2D com propriedades isolantes, aponta Leandro Malard, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “A ideia é que se você tiver um material abundante e barato o suficiente, e achar aplicações interessantes para ele, você poderia fazer algo em larga escala”, conta o pesquisador.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre os filossilicatos estudados por Barcelos está o talco, um material 2D derivado da pedra-sabão. Essa rocha, muito abundante na região de Minas Gerais, é utilizada na fabricação de utensílios de cozinha e, devido à sua maciez e durabilidade, foi o material de escolha do artista Aleijadinho (1738-1814) para esculpir obras nos séculos 18 e 19 que ainda podem ser visitadas.</span></p>
<p><b>Enxergando a luz na escala nanométrica</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2018, Barcelos e colaboradores publicaram um </span><a href="https://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/acsphotonics.7b01017" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">estudo</span></a><span style="font-weight: 400;"> na revista </span><i><span style="font-weight: 400;">ACS Photonics</span></i><span style="font-weight: 400;"> que explorou as propriedades físicas do talco, isoladamente ou combinado com camadas de grafeno, revelando propriedades elétricas e ópticas interessantes para o desenvolvimento de dispositivos optoeletrônicos. Nesse trabalho, os pesquisadores empregaram a nano-espectroscopia de infravermelho, uma técnica que utiliza radiação infravermelha para identificar a composição química dos materiais a partir das suas respostas vibracionais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para estudar como a luz se propaga em materiais na escala nanométrica, como é o caso do talco e outros materiais 2D, os pesquisadores combinaram a nano-espectroscopia de infravermelho com uma técnica de ultramicroscopia conhecida como microscopia óptica de varredura  no campo próximo tipo espalhamento (s-SNOM), que combina o uso do infravermelho com a microscopia de força atômica. Na técnica, uma sonda metálica de dimensões nanométricas é iluminada por radiação no infravermelho, cujo comprimento de onda varia entre 700 nanômetros (nm) e 1 milímetro (mm). Essa interação concentra a luz na ponta da sonda, permitindo investigar materiais em uma escala muito menor do que seria possível com microscópios ópticos convencionais. Ou seja, a técnica permite que uma radiação com comprimento de onda acima da escala nanométrica dos materiais 2D seja utilizada para estudá-los, revelando suas características ópticas, incluindo como o infravermelho se propaga dentro deles. </span></p>
<div id="attachment_587387" style="max-width: 260px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587387 size-medium" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/IngridTrabalhando-250x324.jpeg" alt="" width="250" height="324" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/IngridTrabalhando-250x324.jpeg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/IngridTrabalhando-120x156.jpeg 120w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/IngridTrabalhando.jpeg 606w" sizes="auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo pessoal</span>A física Ingrid Barcelos trabalhando no seu laboratório no LNLS-CNPEM, em Campinas<span class="media-credits">Acervo pessoal</span></p></div>
<p><span style="font-weight: 400;">“É incrível que a técnica permita estudar esses materiais numa escala que está muito longe da escala macroscópica de aplicação dos materiais. Você começa a descobrir propriedades que são, de fato, úteis quando se pensa em, por exemplo, desenvolver novos componentes eletrônicos”, explica o físico Raul Freitas, colaborador de Barcelos, pesquisador e coordenador da IMBUIA, linha de luz dedicada a pesquisas de micro e nano-espectroscopia de infravermelho, no LNLS/Cnpem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em outro </span><a href="https://pubs.rsc.org/en/content/articlelanding/2025/nr/d5nr02966j/unauth" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">estudo</span></a><span style="font-weight: 400;"> publicado em 2025 na revista </span><i><span style="font-weight: 400;">Nanoscale</span></i><span style="font-weight: 400;">, o grupo de pesquisadores deu continuidade ao seu trabalho de caracterização das propriedades ópticas do talco, descrevendo como o material suporta a formação de fônon-poláritons — quasipartículas originadas quando a luz interage intensamente com vibrações de átomos (chamadas fônons) do material. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir da formação dos poláritons, os pesquisadores podem observar como a luz se propaga no material, o que permitiu o estudo de propriedades fundamentais da luz no cristal de talco, explica Francisco Barbosa Maia, pesquisador do LNLS/Cnpem e também colaborador de Barcelos. </span></p>
<div id="attachment_587383" style="max-width: 710px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587383 size-large" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/Dispositivo_optico-eletronico-700x886.png" alt="" width="700" height="886" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/Dispositivo_optico-eletronico-700x886.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/Dispositivo_optico-eletronico-250x316.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/Dispositivo_optico-eletronico-1214x1536.png 1214w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/Dispositivo_optico-eletronico-120x152.png 120w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/Dispositivo_optico-eletronico.png 1242w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo pessoal</span>Chip com dispositivo optoeletrônico integrado, desenvolvido por Ingrid Barcelos, do LNLS-CNPEM, para realizar medições elétricas e ópticas simultaneamente<span class="media-credits">Acervo pessoal</span></p></div>
<p><span style="font-weight: 400;">As propriedades físicas apresentadas por materiais 2D ampliam o seu leque de aplicações em diversas áreas, explica Christiano de Matos, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e colaborador de Barcelos. Segundo Matos, alguns materiais 2D poderiam ser utilizados no campo da eletrônica flexível, permitindo a criação de circuitos que podem ser dobrados e esticados, enquanto que outros já vêm sendo incorporados em plásticos para aumentar sua resistência. Esse é o caso do grafeno, complementa Malard, que é utilizado principalmente pela indústria de polímeros e plásticos. Malard acrescenta que, diferente do grafeno, outros materiais 2D ainda estão em estágios incipientes de caracterização e, por isso, ainda têm um percurso longo até serem aplicados e incorporados em produtos disponíveis para a população. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao investigar minerais abundantes e baratos encontrados na natureza, Barcelos amplia o conhecimento sobre uma família ainda pouco explorada de materiais bidimensionais. Embora as aplicações práticas ainda estejam distantes, esse mapeamento pode abrir caminho para futuros dispositivos optoeletrônicos, nanofotônicos e emissores quânticos de luz.</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Revista Pesquisa FAPESP recebe o Prêmio José Reis de Divulgação Científica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Elton Alisson, da Agência FAPESP]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Jul 2026 07:00:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
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					<description><![CDATA[Distinção mais importante do jornalismo científico brasileiro foi entregue durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Niterói]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A revista <em>Pesquisa FAPESP</em> recebeu nesta terça-feira (28/07) o 46º Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, na categoria “Instituição e Veículo de Comunicação”. A cerimônia de entrega ocorreu durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontece até o próximo sábado (01/08) no campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ).</p>
<p>O jornalista Bernardo Esteves, repórter da revista <em>piauí</em> e autor do livro <em>Admirável novo mundo</em>, foi o vencedor na categoria “Jornalista em Ciência e Tecnologia”.</p>
<p>“Os dois premiados nesta edição ajudam a dar legitimidade política e social para o Prêmio José Reis. A revista <em>Pesquisa FAPESP</em> criou um patamar de qualidade para a comunicação científica no Brasil”, avaliou Olival Freire Junior, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em seu discurso.</p>
<div id="attachment_587348" style="max-width: 710px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587348 size-large" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/IMG_8303-700x467.jpg" alt="" width="700" height="467" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/IMG_8303-700x467.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/IMG_8303-250x167.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/IMG_8303-1536x1024.jpg 1536w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/IMG_8303-2048x1365.jpg 2048w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/IMG_8303-120x80.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Açucena Sande/divulgação</span>Olival Freire Junior, presidente do CNPq; Herton Escobar, gerente de Comunicação da FAPESP; e Luciana Santos, ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação<span class="media-credits">Açucena Sande/divulgação</span></p></div>
<p>O dirigente destacou que a divulgação científica é crucial em um mundo em que o financiamento da ciência depende da sociedade – lembrando que a maior parte do conhecimento científico é produzida em instituições públicas, com recursos públicos, não só no Brasil como no mundo. “A popularização da ciência é parte do empreendimento da promoção da ciência. É preciso que a ciência faça parte da cultura brasileira”, afirmou Freire Junior.</p>
<p>Promovido pelo CNPq desde 1978, o Prêmio José Reis é o mais importante reconhecimento do jornalismo científico brasileiro. A distinção consiste em diploma, medalha e, para o jornalista, R$ 20 mil.</p>
<p>Em 2000, a FAPESP foi premiada na categoria “Instituição”; e, em 2020, o então editor especial da revista <em>Pesquisa FAPESP</em> Carlos Henrique Fioravanti ganhou na categoria “Jornalista”.</p>
<p>“O Prêmio José Reis, que historicamente já era importante, ganha maior relevância no contexto de recrudescimento do ambiente obscurantista no Brasil e no mundo. E o obscurantismo é primo-irmão do autoritarismo. Em momentos como o que estamos vivendo é preciso combatê-lo. E nada é mais desafiador do que afirmar o óbvio, as evidências científicas, para explicar fenômenos naturais, além dos econômicos e sociais que nos cercam”, disse a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, na abertura da cerimônia.</p>
<p>Também foram anunciadas no evento duas menções honrosas do Prêmio José Reis, à jornalista Giovana Girardi, na categoria “Jornalista”, e ao Instituto Serrapilheira, na categoria “Instituição e Veículo de Comunicação”.</p>
<div id="attachment_587319" style="max-width: 710px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587319 size-large" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/sbpc-premiorevista-1-de-1-4-1-700x456.jpg" alt="" width="700" height="456" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/sbpc-premiorevista-1-de-1-4-1-700x456.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/sbpc-premiorevista-1-de-1-4-1-250x163.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/sbpc-premiorevista-1-de-1-4-1-120x78.jpg 120w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/sbpc-premiorevista-1-de-1-4-1.jpg 1300w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Açucena Sande/divulgação</span>O evento reuniu ex-ganhadores do prêmio, como Sabine Righetti e Ildeu de Castro Moreira (quarto da esquerda para a direita). Também esteve presente Bernardo Esteves (segundo da esquerda para a direita), atual vencedor na categoria &#8220;Jornalista em Ciência e Tecnologia&#8221;; Herton Escobar (ao centro), gerente de Comunicação da FAPESP; e Gabriel Alves, diretor de redação de Pesquisa FAPESP<span class="media-credits">Açucena Sande/divulgação</span></p></div>
<p><strong>Continuidade do legado</strong></p>
<p>A revista <em>Pesquisa FAPESP</em> é publicada e financiada integralmente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) desde 1999, como parte de seu compromisso com a difusão e popularização da ciência.</p>
<p>A história da publicação começa em agosto de 1995, com o lançamento do boletim mensal <em>Notícias FAPESP</em>, que quatro anos mais tarde daria origem à revista. Desde a sua primeira edição, em outubro de 1999, a <em>Pesquisa FAPESP</em> consolidou-se como um veículo nacional especializado em dar visibilidade ao impacto social, intelectual e econômico da ciência feita no Brasil, em todas as áreas do conhecimento (<em>leia mais <a href="https://agencia.fapesp.br/revista-pesquisa-fapesp-conquista-o-premio-jose-reis-de-divulgacao-cientifica-2026/58729" target="_blank" rel="noopener">aqui</a></em>).</p>
<p>“Estou muito honrado em receber esse prêmio, representando institucionalmente a FAPESP, e, muito humildemente, também todos os colegas jornalistas que trabalharam ao longo desses últimos 27 anos para construir essa revista que é um patrimônio da divulgação científica no Brasil”, disse Herton Escobar, gerente de Comunicação da FAPESP, em seu discurso de agradecimento.</p>
<p>O gestor explicou que a <em>Pesquisa FAPESP</em> está passando por um processo de transição que se insere em um esforço maior de modernização e integração de todas as plataformas de comunicação da FAPESP, incluindo a <em>Agência FAPESP</em> e o boletim <em>Pesquisa para Inovação</em>. Ele reafirmou o compromisso da instituição em honrar o legado da revista e dar-lhe continuidade. As edições impressas deverão ser retomadas em setembro, após um breve hiato para redesenho gráfico e editorial.</p>
<p>O diretor de redação, Gabriel Alves, sublinhou que a revista continuará sendo guiada pelos mesmos princípios e pelo mesmo compromisso assumido pela Fundação desde o lançamento da publicação, quase três décadas atrás: de fazer com que a ciência chegue à sociedade que a financia e seja apropriada por ela.</p>
<p>“A revista está se transformando, assim como o jornalismo, a ciência e a maneira como as pessoas consomem informação. Vamos investir em novos formatos e buscar novos públicos, mas sem abrir mão do que trouxe a publicação até aqui: apuração rigorosa, explicação honesta e respeito pela inteligência e capacidade cognitiva do leitor”, disse.</p>
<p>O novo projeto editorial da revista está sendo desenvolvido e implementado em colaboração com o Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo (LabJor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Todo o conteúdo da revista pode ser acessado gratuitamente pelo site e pelas redes sociais da <em>Pesquisa FAPESP</em>.</p>
<p>Para receber a newsletter da publicação, <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/newsletter/" target="_blank" rel="noopener">cadastre-se aqui</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Movimentos sociais impulsionaram cannabis medicinal, mas perdem espaço para grandes corporações</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/movimentos-sociais-impulsionaram-cannabis-medicinal-mas-perdem-espaco-para-grandes-corporacoes/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=movimentos-sociais-impulsionaram-cannabis-medicinal-mas-perdem-espaco-para-grandes-corporacoes</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Janes Rocha]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Jul 2026 07:00:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[Já são 52 fármacos autorizados pela Anvisa; pesquisadores alertam que empresas avançam sobre o mercado bilionário]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Pouco mais de uma década se passou desde que um grupo de mães abriu caminho para a legalização da cannabis medicinal no Brasil. A trajetória delas foi retratada no documentário </span><i><span style="font-weight: 400;">Ilegal: a vida não espera</span></i><span style="font-weight: 400;">, disponível no YouTube. Desde então, a cannabis medicinal deixou de ser um tema restrito ao ativismo e passou a movimentar um mercado bilionário que reúne desde associações de pacientes até grandes empresas farmacêuticas. Em 2023, o mercado mundial (legal) estava estimado em US $175 bilhões, segundo a BDSA, empresa de inteligência de mercado de cannabis.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há anos, o professor Paulo José dos Reis Pereira, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Drogas e Relações Internacionais (Nedri) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acompanha os processos de regulação da cannabis em diferentes países, especialmente o papel desempenhado por associações de pacientes e grupos historicamente ligados à luta pela regulamentação da planta. Agora, afirma, uma nova preocupação ganha centralidade: “A grande questão hoje é que o mercado está sendo cada vez mais dominado pelas corporações farmacêuticas e empresas internacionais de cannabis”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pereira investiga como empresas, sobretudo dos Estados Unidos e Canadá, influenciam regulações e avançam sobre os mercados de cannabis na América Latina. A </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/114414/capitalismo-canabico-a-exploracao-da-america-latina-pelas-corporacoes-transnacionais/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">pesquisa</span></a><span style="font-weight: 400;"> que coordena, financiada pela FAPESP, também analisa os impactos sociais desse processo sobre comunidades pobres, rurais e marginalizadas que tradicionalmente participavam do mercado clandestino da planta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A produção brasileira de fármacos à base da planta cresceu rapidamente na última década. Hoje, há 52 produtos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pertencentes a 25 empresas. Entre elas estão laboratórios nacionais, como Eurofarma, Teuto e Biolab, além de companhias estrangeiras, como a israelense Cann10 e a canadense Verdemed. Nenhuma associação de pacientes possui autorização da Anvisa para fabricar medicamentos, já que esse tipo de registro é restrito à indústria farmacêutica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As empresas disputam um mercado que movimentou R$ 971 milhões somente no Brasil em 2025, segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2025, produzido pela consultoria Kaya Mind com base em dados oficiais e levantamentos próprios. O número de pacientes chegou a 873 mil no país, crescimento de 30% em relação ao ano anterior. </span></p>
<div class="flourish-embed flourish-table" data-src="visualisation/29586619"><script src="https://public.flourish.studio/resources/embed.js"></script><noscript><img decoding="async" src="https://public.flourish.studio/visualisation/29586619/thumbnail" width="100%" alt="table visualization" /></noscript></div>
<p><b>Captura do mercado</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo Pereira, a captura corporativa acontece de diferentes formas. Uma delas é o alto custo regulatório: exigências sanitárias, certificações internacionais e necessidade de grandes quantidades de capital tendem a favorecer grandes empresas. Além disso, companhias de países que legalizaram antes passaram a dominar cadeias internacionais de produção, financiamento e tecnologia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso cria uma vantagem estrutural para corporações estrangeiras, enquanto países do Sul Global muitas vezes entram apenas como mercados consumidores ou fornecedores de matéria-prima – no caso, a planta de cannabis. Outro ponto central, segundo o pesquisador, é o controle sobre importação, distribuição, pesquisa clínica, propriedade intelectual e registro de medicamentos – etapas das quais as associações de pacientes normalmente ficam excluídas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um caso que ilustra essas disputas envolveu a farmacêutica brasileira Prati-Donaduzzi. Em 2020, a empresa obteve do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) a aprovação de patente para um fitoterápico à base de canabidiol (CBD) — composto químico não psicoativo extraído da planta <em class="eujQNb" data-sfc-root="ep" data-copy-service-computed-style="font-family: &quot;Google Sans&quot;, Arial, sans-serif; font-size: 16px; font-weight: 500; margin: 0px; text-decoration: none; border-bottom: 0px rgb(238, 240, 255);">Cannabis sativa</em> — com concentração entre 20 mg/ml e 250 mg/ml. Em </span><a href="https://www.tni.org/en/publication/corporate-capture-of-the-latin-american-medical-cannabis-market" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">relatório</span></a><span style="font-weight: 400;"> publicado em 2022 pelo Transnational Institute, organização holandesa com programa voltado à análise da política de drogas, Pereira argumenta que a patente poderia gerar um monopólio na comercialização desse tipo de produto até 2036, dificultando a entrada de concorrentes no mercado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para o pesquisador, o episódio exemplifica como decisões sobre propriedade intelectual podem acabar influenciando quem participa — ou fica de fora — do mercado legal da cannabis. </span></p>
<p><b>Associações e ativismo</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O avanço da cannabis medicinal no Brasil foi impulsionado pela mobilização de pacientes, familiares e associações que passaram a pressionar autoridades sanitárias por acesso ao tratamento, de acordo com Pereira. Hoje, médicos e dentistas prescritores de cannabis já somam mais de 57 mil no Brasil, segundo o anuário da Kaya. Não há uma habilitação específica para isso: a prescrição segue as mesmas regras aplicáveis aos demais medicamentos de controle especial. Ainda é um número pequeno diante dos cerca de 635 mil médicos e 440 mil dentistas registrados no país, mas muito diante da realidade de dez anos atrás, quando praticamente nenhum profissional se arriscava a prescrever canabidiol.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A advogada carioca Margarete Santos de Brito lembra das dificuldades enfrentadas nos anos 2010 para tratar a filha Sofia, hoje com 17 anos, afetada pela síndrome de CDKL5, doença genética rara que provoca crises epilépticas graves e atraso no desenvolvimento neuropsicomotor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de pesquisar alternativas dentro e fora do Brasil, Margarete encontrou no CBD o único medicamento capaz de reduzir as convulsões da filha. Na época, porém, o produto era proibido no país, o que deu início a outra batalha: conseguir importá-lo legalmente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No mesmo período, em João Pessoa, Cassiano Gomes enfrentava problema semelhante para tratar as crises convulsivas da mãe. Além da burocracia, havia a dependência do dólar. “Quando subia, a medicação encarecia”, lembra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Gomes decidiu então fundar a Abrace Esperança, associação que mantém cultivo de cannabis e produz CBD para os associados. Segundo ele, mais de 60 mil pacientes já foram atendidos. “Assumi a responsabilidade de criar uma solução”, afirma.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Margarete Brito e o marido, Marcos Langenbach, seguiram caminho semelhante ao criar a Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi), que hoje cultiva cannabis no interior do Rio de Janeiro para atender cerca de 1.400 associados. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A mobilização dessas associações ajudou a pressionar as autoridades sanitárias. Em março de 2019, a Anvisa publicou a Resolução 327, que regulamentou a fabricação, importação e venda de produtos de cannabis medicinal para uso humano no Brasil.</span></p>
<div id="attachment_587197" style="max-width: 260px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587197 size-medium" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/FVA_0308-250x375.jpg" alt="" width="250" height="375" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/FVA_0308-250x375.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/FVA_0308-700x1050.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/FVA_0308-1024x1536.jpg 1024w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/FVA_0308-1365x2048.jpg 1365w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/FVA_0308-120x180.jpg 120w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/FVA_0308-scaled.jpg 1707w" sizes="auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px" /><p class="wp-caption-text">Cultivo de <em>Cannabis</em> no interior do Rio de Janeiro para atender associados. Foto: Apepi / Divulgação</p></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar do avanço, a situação das associações ainda é considerada precária. Muitas operam amparadas por decisões judiciais: entidades que receberam autorização da Justiça cultivam a planta e fornecem produtos de cannabis medicinal exclusivamente para seus associados, não podendo comercializá-los no mercado como fazem as empresas farmacêuticas. Segundo a consultoria Kaya, havia 315 associações de pacientes com CNPJ ativo em 2025, um aumento de 22% em relação ao ano anterior. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como funcionam por autorização judicial, as associações não são fiscalizadas pela Anvisa. O acompanhamento é feito no âmbito da Justiça, que pode exigir relatórios e prestar contas sobre as atividades autorizadas.</span></p>
<p><b>Modelo fragmentado</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/00914509241309233" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">artigo</span></a><span style="font-weight: 400;"> publicado em 2025 na revista </span><i><span style="font-weight: 400;">Contemporary Drug Problems</span></i><span style="font-weight: 400;">, Pereira analisou o papel dessas associações na transformação do cenário regulatório brasileiro. O estudo conclui que essa “governança de baixo para cima” — isto é, impulsionada por pacientes e movimentos sociais — foi decisiva para ampliar o acesso à cannabis medicinal no país.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“O Brasil não é o país mais atrasado, mas está longe de ser vanguarda na regulação da cannabis”, afirma o pesquisador. Segundo ele, o modelo brasileiro é fragmentado: permite a comercialização de cannabis medicinal, mas o cultivo da planta continua restrito. Associações de pacientes só conseguem plantar mediante ações judiciais, enquanto a Resolução 1.012 aprovada em 2026 pela Anvisa autorizou o cultivo para fins de pesquisa, mediante cadastro prévio, por universidades, instituições científicas e empresas farmacêuticas. A regulamentação entra em vigor em 4 de agosto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pereira comenta que o proibicionismo também prejudicou a pesquisa científica sobre a cannabis. “Havia uma série de restrições para estudar a planta. Nas últimas décadas ocorreu um boom dessa produção acadêmica mundialmente”, afirma.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O grupo liderado por Pereira integra o Centro Transnacional de Pesquisa Sobre Mercados Emergentes de Drogas (TRC-EDM), sediado na Universidade de Loughborough, no Reino Unido, que  conta com financiamento da Fundação Open Society para pesquisar os impactos sociais, econômicos e políticos da regulamentação dos mercados de drogas em diferentes países. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Kojo Koram, pesquisador ganês que coordena o centro, conta que o objetivo é “influenciar processos de legalização da cannabis no Sul Global, para priorizar igualdade econômica, justiça racial e sustentabilidade ambiental em detrimento do lucro corporativo”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Representantes do setor empresarial discordam do temor de concentração de mercado. Denise Queiroz, diretora de Relações Institucionais da farmacêutica Biolab, afirma que a complexidade regulatória no Brasil dificulta investimentos externos nos produtos. “É uma barreira de entrada para competidores internacionais”, diz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Biolab mantém acordo com a companhia suíça Promediol para importação de extratos e CBD purificados para envase e comercialização no Brasil. A empresa também investe na capacitação de médicos e farmacêuticos para atuação na área.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Não vejo risco de concentração [de mercado]”, afirma Caio Santos Abreu, empreendedor que representa no Brasil a empresa americana Entourage Cannabis. Segundo ele, os grandes laboratórios brasileiros ainda investem pouco em pesquisa e desenvolvimento, o que abriria espaço para startups e associações. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Entourage desenvolve uma plataforma de produtos emulsificantes que buscam reduzir efeitos colaterais no fígado comuns nos tratamentos à base de CBD, embora ainda não estejam disponíveis comercialmente.</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Memristores: os chips que imitam o cérebro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago Jokura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jul 2026 09:00:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Computação]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
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					<description><![CDATA[Dispositivos inspirados na plasticidade sináptica unem memória, processamento e novos materiais para criar uma nova geração de sensores e sistemas de inteligência artificial de baixo consumo energético]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Em 1971, o engenheiro eletricista filipino Leon Chua previu a existência de um componente eletrônico passivo, capaz de “lembrar” quanta corrente havia passado por ele mesmo após ser desligado. Ele o chamou de memristor, contração de </span><i><span style="font-weight: 400;">memory resistor</span></i><span style="font-weight: 400;">. Passaram-se 37 anos até que a Hewlett-Packard (HP) construísse o primeiro protótipo concreto, em 2008. Hoje, pesquisadores no Brasil transformam essa ideia em algo ainda mais ambicioso: chips que, além de processar informação, também “aprendem”, imitando mecanismos de memória do cérebro humano em silício e em óxidos metálicos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A chamada computação neuromórfica é promissora. Enquanto o cérebro humano consome cerca de 20 watts (W) – algo parecido com uma lâmpada comum – processando informações com eficiência que nenhum supercomputador atual replica, inteligências artificiais de última geração demandam energia equivalente à de cidades inteiras e ocupam galpões com servidores refrigerados. Uma das principais diferenças é de arquitetura: enquanto computadores convencionais separam processamento de armazenamento, o cérebro faz as duas coisas no mesmo lugar, no nível das sinapses, onde os neurônios se conectam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os memristores prometem superar esse gargalo. &#8220;A vantagem genérica de dispositivos com memória é a capacidade de fazer operações lógicas e armazenar os resultados no mesmo espaço&#8221;, explica o físico cubano Victor Lopez-Richard, do Departamento de Física da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). &#8220;Isso reduz a necessidade de interconectores, diminui o tamanho do dispositivo e, consequentemente, o consumo de energia.&#8221;</span></p>
<p><b>Imitando neurônios</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A cada disparo de um neurônio, a conexão com o neurônio seguinte pode se fortalecer ou enfraquecer – fenômeno conhecido como plasticidade sináptica. Em um dos tipos mais estudados desse processo, conexões neurais que disparam repetidamente em sequência tendem a se fortalecer, contribuindo para a formação de determinadas memórias e para o aprendizado. Os memristores replicam esse comportamento ao alterar sua resistência elétrica em resposta aos pulsos recebidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para explicar esse funcionamento, o físico Marcio Peron Franco de Godoy, também da UFSCar, recorre ao cotidiano: &#8220;Quando fecho uma porta, dali a segundos posso esquecer se a tranquei ou não. Mas eu não esqueço o nome da minha mãe. Isso é uma memória de longa duração – algo que pode ser emulado com dispositivos memristores.&#8221;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A analogia com a biologia, porém, tem limites que Lopez-Richard faz questão de demarcar. &#8220;Nossos dispositivos não reproduzem sinapses, propriamente, porque não transportam íons, mas elétrons que se armazenam em certos lugares. Em termos metafóricos, é um processo semelhante.&#8221;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O resultado mais recente da </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/pesquisa/buscador/?q2=(id_pesquisador_exact%3A2630)%20AND%20(auxilio:*%20AND%20situacao:%22Em%20andamento%22%20AND%20data_inicio:[*%20TO%20NOW])" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">pesquisa</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Lopez-Richard, que conta com financiamento da FAPESP, vai além dos memristores convencionais: um transístor polimorfo que é capaz de assumir diferentes funções – transistor, capacitor ou memristor –, dependendo da configuração do circuito. Em </span><a href="https://doi.org/10.1038/s41467-026-71642-2" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">artigo</span></a><span style="font-weight: 400;"> publicado na </span><i><span style="font-weight: 400;">Nature Communications </span></i><span style="font-weight: 400;">em abril</span><span style="font-weight: 400;">, Lopez-Richard e colaboradores mostram que, na prática, o mesmo componente realiza cálculos e aprende com os padrões dos dados que processa. &#8220;A gente ensina o dispositivo a reconhecer um padrão e depois apresenta outros padrões que, em princípio, ele poderia ajudar a reconhecer&#8221;, descreve. Outra vantagem: o dispositivo opera à temperatura ambiente, sem necessidade de resfriamento extremo. &#8220;A ideia é criar dispositivos que funcionem em condições normais, sem necessidade de criogenia e com baixo consumo de energia.&#8221;</span></p>
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara</span></div><div class="post-content sequence">
<p><b>Quando o calor ajuda</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Godoy relembra que chegou aos memristores por um caminho inesperado. Especialista em óxidos semicondutores — materiais cuja capacidade de conduzir eletricidade pode ser controlada —, ele trabalhava com sensores de gás à base de óxido de zinco quando descobriu que aquele material também era capaz de guardar memória. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;Quando o material era exposto a um ambiente com ozônio, mudava a resistência elétrica, o que indicava uma capacidade de memorização&#8221;. Lopez-Richard chamou a atenção de Godoy para essa propriedade e, em colaboração, seus grupos de pesquisa passaram a investigar esses materiais como sensores para dispositivos neuromórficos, uma nova geração de eletrônicos inspirados nas conexões entre neurônios.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seguida, uma surpresa ampliou o potencial dos experimentos. Normalmente, efeitos de memória em semicondutores enfraquecem com a elevação da temperatura. No óxido de zinco, contudo, aconteceu o oposto. &#8220;Aumentamos a temperatura e ele ficou melhor. Em vez de medir a capacidade memristiva em 20 °C, passamos a medir em 30 °C, 40 °C, e o desempenho aumentou&#8221;, recorda Godoy. A implicação prática é significativa: &#8220;Observamos, com o avanço da IA, processadores cada vez mais rápidos e eficientes, mas que aquecem. Se viabilizarmos dispositivos que trabalhem sem necessidade de resfriamento, seria vantajoso&#8221;, completa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O grupo de Godoy introduziu também a luz como elemento capaz de acionar memristores, em </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/116538/introducao-de-elementos-estrategicos-em-oxidos-semicondutores-para-avanco-em-topicos-de-energia-e-se/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">pesquisa</span></a><span style="font-weight: 400;"> financiada pela FAPESP. &#8220;Estamos trabalhando com a luz para ‘ensinar’ o material, para imprimir memória nele&#8221;, explica Godoy. Outra inovação relevante é a escolha do óxido de zinco na composição dos dispositivos. Além do desempenho técnico, o material é abundante, barato e não tóxico. &#8220;O zinco é um material usado inclusive em cremes dentais. Mesmo na forma de óxido, o impacto ambiental dele é menor&#8221;, detalha Godoy.</span></p>
<p><b>Curativo que sente</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O físico João Vitor Paulin, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro, por sua vez, aposta em um material orgânico e biodegradável para desenvolver transistores eletroquímicos com comportamento memristivo, aliando objetivos médicos e ambientais: a melanina. Presente na pele, nos cabelos e nos olhos, essa molécula natural apresenta uma propriedade incomum, a capacidade de transportar tanto íons, átomos ou moléculas com carga elétrica, quanto elétrons. &#8220;A melanina faz essa conexão entre a eletrônica tradicional e o que a gente considera a ‘eletrônica’ do corpo humano&#8221;, explica Paulin, cuja </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/119446/sensores-neuromorficos-para-diagnosticos-sustentaveis-em-saude/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">pesquisa</span></a><span style="font-weight: 400;"> também conta com o apoio da FAPESP.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O interesse começou quando Paulin percebeu a sensibilidade da melanina na faixa de pH entre 5 e 8, crítica para o monitoramento de feridas. &#8220;Quando o pH está baixo, quer dizer que o processo de cicatrização está correndo bem; quando está alto, pode ter proliferação de bactérias&#8221;, explica. A proposta é um transistor integrado a um curativo comum, como um band-aid, para monitorar em tempo real ferimentos crônicos, como os de pacientes diabéticos.</span></p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/07/Memristores02-Web-Desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="2560x2560" alt="">
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  </picture></div><div class="post-content sequence">
<p><span style="font-weight: 400;">Nessa e em qualquer outra aplicação prática de memristores, dois dos principais desafios são produzir os dispositivos em escala e integrá-los a sistemas de informação complexos. Uma das apostas para superar esses gargalos é o uso de materiais bidimensionais (2D), formados por camadas com apenas alguns átomos de espessura e propriedades incomuns – como flexibilidade mecânica, condutividade elétrica e térmica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Luiz Gustavo Simão Albano, físico e pesquisador no Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, explica que essas camadas podem ser crescidas em wafers de silício de até 8 polegadas, aproximando a tecnologia de aplicações industriais. &#8220;Camadas extremamente finas demandam um campo elétrico menor para operar, o que reduz o consumo energético&#8221;, explica o pesquisador. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo Albano, a precisão dessas estruturas também ajuda a controlar as características físicas e operacionais dos memristores, além de facilitar sua integração a sistemas eletrônicos convencionais. Entre as aplicações estudadas estão armazenamento de imagens, criptografia e radiofrequência – especialmente pensando nas redes 6G. Albano conta com financiamento da FAPESP para o desenvolvimento da </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/119486/dispositivos-memoristivos-baseados-em-materiais-bidimensionais-para-armazenamento-criptografia-e-com/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">pesquisa</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;Pretendemos estender esse projeto para aplicações voltadas à saúde, como biossensores com potencial para aplicações em diagnóstico e monitoramento médico – incluindo tecnologias voltadas ao SUS, acessíveis e aplicáveis à realidade da saúde pública brasileira”, diz. O projeto mantém colaboração internacional com o grupo do físico Jiwoong Park, da Universidade de Chicago (EUA), parceiro frequente da empresa Samsung em pesquisas de materiais avançados e dispositivos nanoeletrônicos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A distância entre protótipos e produtos comercializáveis, no entanto, ainda é considerável. Para Lopez-Richard, o principal gargalo técnico é a não linearidade dos dispositivos. &#8220;Estamos trabalhando com sistemas não lineares, fora do equilíbrio. Os modelos em física, por sua vez, normalmente são modelos de equilíbrio. Isso quer dizer que estamos abordando temas que ficam nos limites das ferramentas teóricas que temos disponíveis hoje&#8221;, esclarece.</span></p>
<div id="attachment_587232" style="max-width: 260px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587232 size-medium" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/Carbon-IDE-250x307.jpeg" alt="" width="250" height="307" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/Carbon-IDE-250x307.jpeg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/Carbon-IDE-700x859.jpeg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/Carbon-IDE-120x147.jpeg 120w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/07/Carbon-IDE.jpeg 1226w" sizes="auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">João Vitor Paulin</span>Protótipo experimental de biossensor em papel para o monitoramento de feridas. A imagem mostra uma etapa do desenvolvimento da tecnologia, na qual uma gota de eletrólito simula o microambiente biológico para avaliar o funcionamento dos eletrodos de carbono.<span class="media-credits">João Vitor Paulin</span></p></div>
<p><b>Conexões internacionais</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em Lisboa, o engenheiro Rodrigo Ferrão de Paiva Martins, da Universidade Nova de Lisboa e presidente da Academia Europeia de Ciências, lidera um dos grupos mais ativos do mundo no desenvolvimento de memristores. Sua trajetória neste campo começou em 2008 com um transístor de papel que apresentou um comportamento de memória inesperado. &#8220;Em vez de tratar isso como falha, encaramos como uma descoberta inovadora&#8221;, relembra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Martins mantém parcerias com pesquisadores brasileiros na Unesp e na Unicamp. &#8220;Essas colaborações têm sido fundamentais e frutíferas&#8221;, ressalta. Sobre o futuro, o pesquisador afirma que a meta é criar ideias disruptivas, desenvolvendo e produzindo dispositivos em nanoescala que façam mais e melhor, utilizando menos materiais. “Se desejamos avançar, devemos começar pelo ecodesign: selecionar materiais sustentáveis, produzi-los com o menor consumo possível de energia e assegurar que, no final, sejam totalmente recicláveis&#8221;.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora ainda emergente, o campo da eletrônica neuromórfica no Brasil já dá sinais de que pode se tornar memorável, articulando centros de pesquisas de várias áreas – como física, engenharia e medicina. &#8220;No Brasil, a área não é totalmente integrada ainda, mas ganhamos maturidade para congregar pessoas e discutir futuros nessa linha&#8221;, avalia Lopez-Richard. &#8220;Queremos criar um fórum internacional de discussões específicas sobre efeito de memória, inclusive trazendo pessoas que estudam o cérebro.&#8221;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto isso, em laboratórios do Brasil, Portugal e outras partes do mundo, componentes inspirados em neurônios, mais finos do que um fio de cabelo, aprendem a guardar memória graças ao trabalho de muitos cérebros humanos.</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Plataforma que simula desequilíbrios quer antecipar risco de quedas em idosos</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/plataforma-que-simula-desequilibrios-quer-antecipar-risco-de-quedas-em-idosos/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=plataforma-que-simula-desequilibrios-quer-antecipar-risco-de-quedas-em-idosos</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fernanda Bassette]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 15:00:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE)]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Inovação]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Pública]]></category>
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					<description><![CDATA[Com sensores, jogos interativos e realidade virtual, tecnologia brasileira busca tornar mais precisa a avaliação do risco de quedas e orientar tratamentos personalizados ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Uma plataforma criada por pesquisadores da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) pretende ajudar a prevenir quedas em idosos ao simular situações reais de desequilíbrio e analisar, em tempo real, como o cérebro, os músculos e o corpo reagem. A tecnologia, desenvolvida ao longo de mais de dez anos de pesquisa com apoio da FAPESP – dos </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/98886/sistema-computadorizado-de-reabilitacao-baseado-em-jogo-para-treinamento-de-equilibrio-dinamico-em-i/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">estudos</span></a><span style="font-weight: 400;"> iniciais, na linha de Auxílio à Pesquisa, ao </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/115235/plataforma-de-forca-com-rotacao-biaxial-controlada-para-treinamento-e-analise-do-equilibrio-de-idoso/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">protótipo</span></a><span style="font-weight: 400;">, na linha de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) –, combina sensores, realidade virtual e jogos interativos e agora se prepara para chegar ao mercado por meio da startup Kerygma Technology, incubada na própria universidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As quedas estão entre as principais causas de internação, perda de autonomia e morte em idosos. A prevalência de quedas na população idosa residente em áreas urbanas é de 25%, de acordo com a última edição do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), financiado pelo Ministério da Saúde. Entre pessoas com mais de 80 anos, o dado é ainda mais alarmante: quatro em cada dez pessoas sofrem esse tipo de acidente anualmente. Além das fraturas e hospitalizações, as quedas frequentemente levam à perda de independência, ao medo de caminhar e ao isolamento social.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo Daniela Cristina Carvalho de Abreu, fisioterapeuta especialista em gerontologia e professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP), o cenário é preocupante porque a sociedade continua tratando a queda como algo “normal” do envelhecimento. “Hoje entendemos a queda como um evento sentinela. Quando ela acontece, muito provavelmente várias alterações já vinham ocorrendo. Ela é a bandeira vermelha de que alguma coisa deixou de  funcionar adequadamente.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi justamente diante desse cenário que o engenheiro da computação Alessandro Pereira da Silva, líder do Laboratório de Ambientes Virtuais e Tecnologia Assistiva (LAVITA), da UMC, começou a desenvolver a tecnologia em 2012. Ele conta que a ideia surgiu a partir de uma inquietação em relação aos métodos tradicionais usados para avaliar o equilíbrio. “Na época, o estudo do equilíbrio era feito em uma plataforma estática e o paciente era o elemento de desequilíbrio. O terapeuta precisava pedir para a pessoa inclinar um pouco para frente, um pouco para trás. No mundo real, no entanto, é o chão que muda, é o ambiente que gera o desequilíbrio”, explica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A solução encontrada foi criar uma plataforma capaz de se movimentar em diferentes direções e inclinações, simulando situações reais de instabilidade e desequilíbrio. </span></p>
<p><b>Simular o desequilíbrio para entender o corpo </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A simulação desses desequilíbrios não acontece apenas pelo movimento da plataforma. Para tornar os exercícios mais próximos de situações do cotidiano e estimular a adesão ao tratamento, os pesquisadores incorporaram recursos de realidade virtual e gameterapia.  Nos jogos desenvolvidos pela equipe, o paciente permanece sobre a plataforma enquanto controla movimentos dentro de ambientes virtuais. Em um dos cenários, por exemplo, o usuário navega por um rio e precisa deslocar o corpo lateralmente para coletar objetos. </span><span style="font-weight: 400;">Quando surgem quedas d’água no ambiente virtual, a plataforma se inclina na mesma direção do cenário exibido nos óculos de realidade virtual. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“O sistema responde ao jogo. Quando o cenário inclina, a plataforma inclina junto. Isso aumenta muito a imersão e nos permite avaliar como o cérebro e os músculos respondem ao desequilíbrio”, explica Silva.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto isso, sensores registram continuamente como o corpo reage aos estímulos. O equipamento, que avalia quatro músculos da perna –  que são chave para entender a chamada estratégia do tornozelo na correção dos desequilíbrios –, consegue rotacionar até 25 graus para frente, para trás e para os lados, com velocidade máxima de 7 graus por segundo, enquanto o sistema capta uma série de informações do paciente em tempo real. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos parâmetros analisados é o chamado centro de pressão (COP), indicador que mostra como o corpo distribui o peso para manter o equilíbrio. O sistema também mede a velocidade de deslocamento corporal, a distribuição da carga corporal, a ativação muscular por meio da eletromiografia (EMG) e a atividade cerebral pelo eletroencefalograma (EEG).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Conseguimos identificar, por exemplo, se a pessoa descarrega mais peso no lado direito do corpo do que no esquerdo. Isso pode indicar fraqueza muscular, alterações vestibulares ou compensações posturais importantes”, diz Silva. Segundo ele, a EMG permite analisar a ativação elétrica dos músculos estabilizadores envolvidos no equilíbrio postural, enquanto o EEG ajuda a identificar como o cérebro responde ao desequilíbrio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A plataforma trabalha justamente com dois mecanismos fundamentais do equilíbrio: o controle antecipatório e o compensatório. O primeiro ocorre antes da perda de estabilidade, quando o cérebro percebe que um desequilíbrio pode acontecer e prepara o corpo para reagir. Já o compensatório entra em ação depois da instabilidade, tentando evitar a queda. Um dos diferenciais da tecnologia, segundo Silva, é a sincronização de todos esses dados em uma mesma linha temporal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Muitas plataformas conseguem coletar esses dados de forma isolada. O grande diferencial da nossa é que tudo é registrado de forma sincronizada. Isso diminui muito o viés metodológico para pesquisa e pode gerar futuramente um sistema preditivo de risco de queda”, afirma.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo Sandra Maria Sbeghen Ferreira de Freitas, professora da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e especialista em controle do movimento humano e biomecânica, plataformas de força já são amplamente utilizadas em pesquisa para avaliação do equilíbrio e da oscilação postural, mas a integração simultânea de diferentes tecnologias ainda é um desafio. “Plataformas de força, eletromiografia e estudos combinando esses equipamentos já existem. O diferencial desse parece estar justamente em sincronizar tudo em um mesmo sistema e transformar isso em uma ferramenta aplicável para o profissional”, afirma.</span></p>
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Carolina Daffara</span>
<p><b>Do diagnóstico à prevenção</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para Abreu, da FMRP-USP, a primeira etapa fundamental é estratificar o risco de queda. “E isso precisa ser simples, rápido e de baixo custo. Não adianta depender de uma ferramenta cara para fazer a triagem populacional”, pondera, ao ressaltar que, atualmente, as sociedades científicas internacionais recomendam que toda pessoa idosa passe ao menos uma vez por ano por uma triagem de risco de quedas, o que ainda não acontece de forma rotineira. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A fisioterapeuta explica que a avaliação é simples: “Basicamente, fazemos três perguntas: se a pessoa caiu no último ano, se tem preocupação em cair e se sente instabilidade para andar ou realizar atividades. Depois aplicamos um teste rápido de mobilidade ou velocidade da marcha. Em menos de cinco minutos é possível classificar esse paciente como baixo, moderado ou alto risco de queda”, explica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na sua avaliação, ferramentas mais avançadas, como a plataforma, entram em uma segunda etapa para aprofundar a avaliação de pessoas idosas com histórico de quedas ou maior risco de novos episódios, que se beneficiam de uma melhor compreensão dos fatores associados a essa condição. “A plataforma permite integrar informações sobre aspectos musculares, neurais e biomecânicos e isso pode ajudar a personalizar os treinamentos e tratamentos”, diz Abreu, esclarecendo que, muitas vezes, uma intervenção funciona para um paciente e não funciona para outro porque as necessidades são diferentes. “Quanto mais preciso é o diagnóstico, mais direcionada tende a ser a intervenção.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O fisioterapeuta Tabajara de Oliveira Gonzalez, integrante do grupo de pesquisa da UMC, afirma que a tecnologia surge justamente para preencher essa lacuna. “A plataforma foi pensada para responder ao desafio do envelhecimento da população. Queda em idosos é um problema de saúde pública no mundo inteiro. Você tem lesões associadas, óbitos, pacientes que acabam ficando acamados, gerando custos para o sistema de saúde e sem um trabalho preventivo muito efetivo”, afirma.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo ele, embora os idosos sejam um dos principais focos das pesquisas, a plataforma pode futuramente atender diferentes perfis de pacientes com alterações de equilíbrio, incluindo pessoas com doenças neurológicas, problemas vestibulares, amputações, obesidade e até mesmo atletas em reabilitação. “Você pode ter um paciente amputado que não consegue distribuir adequadamente o peso entre os lados do corpo, uma criança com déficit cognitivo ou um atleta voltando de lesão. São muitos os públicos possíveis”, diz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Freitas ressalta, porém, que tecnologias desse tipo ainda estão concentradas principalmente em universidades, laboratórios de pesquisa e grandes centros de reabilitação. “Essas avaliações exigem processamento de dados, interpretação especializada e equipamentos de alto custo. Por isso, ainda existem muitos desafios para transformar tudo isso em algo amplamente acessível no dia a dia clínico”, pondera.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar dos recursos de realidade virtual, os pesquisadores ressaltam que a tecnologia não pretende substituir o tratamento fisioterapêutico. “Quem propõe o tratamento é o profissional. O sistema permite que o fisioterapeuta controle velocidade, inclinação, dificuldade e escolha jogos específicos de acordo com a necessidade de cada paciente”, ressalta Silva. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Abreu destaca que o treinamento físico continua sendo a principal ferramenta para prevenção de quedas. “O exercício físico é a base de tudo. E quanto mais o treino trabalha equilíbrio, força e mobilidade juntos, maior o impacto na prevenção.” Para a especialista, o grande desafio agora é transformar o conhecimento científico em política pública. “Precisamos conscientizar a população, capacitar os profissionais de saúde e criar linhas de cuidado para a pessoa idosa. Se conseguirmos identificar precocemente quem começa a perder equilíbrio, força e mobilidade, conseguimos intervir antes da queda acontecer.”</span></p>
<p><b>Da pesquisa ao mercado</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O engenheiro eletricista André Roberto Fernandes da Silva, que também participou do desenvolvimento da tecnologia durante a realização do doutorado em Engenharia Biomédica na UMC, destaca que a equipe trabalhou desde o início para garantir segurança durante os testes. “Tivemos muita atenção para oferecer segurança também para quem usa. A plataforma possui sistemas de sustentação, barras de apoio e cintos de proteção para ampliar o uso mesmo em pessoas com comprometimento importante de equilíbrio.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao final da avaliação, o sistema gera automaticamente um relatório em PDF com os dados coletados, informações clínicas do paciente e sugestões terapêuticas. A expectativa agora é avançar para uma nova etapa com apoio da inteligência artificial. “O hardware e o software básico estão prontos. O próximo passo é desenvolver uma plataforma de dados com inteligência artificial capaz de integrar todas essas informações e auxiliar na construção de modelos preditivos de risco de queda. Mas precisamos ampliar os testes humanos para validar melhor esses modelos”, afirma Fernandes da Silva.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Agora, o objetivo é transformar o protótipo acadêmico em um produto disponível. “Nós já temos um protótipo funcional pronto para comercialização. Queremos ampliar os testes fora do ambiente universitário e levar a plataforma para clínicas, hospitais e centros de reabilitação. Se conseguirmos avançar, acreditamos que em cerca de um ano e meio já será possível escalar o produto para o mercado”, conclui o engenheiro.</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aluguel social como alternativa à crise habitacional em São Paulo</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/aluguel-social-como-alternativa-a-crise-habitacional-em-sao-paulo/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=aluguel-social-como-alternativa-a-crise-habitacional-em-sao-paulo</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Beatriz Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 15:00:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Pol. Públicas]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Pesquisa do LabCidade (FAU-USP) analisa como políticas de aluguel social podem ampliar o acesso à moradia para populações vulneráveis e enfrentar os desafios da casa própria “inacessível”]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">A dificuldade crescente de acesso à casa própria e o aumento do custo da moradia têm levado pesquisadores e gestores públicos a olhar com mais atenção para o aluguel social como parte da solução para a crise habitacional. De acordo com o Censo do IBGE, cerca de 22% das famílias brasileiras viviam em domicílios alugados em 2022. Ao mesmo tempo, a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (MUNIC 2024) mostrou que 67,7% dos municípios afirmam possuir alguma política de aluguel social.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com projetos e políticas públicas em implementação, cidades como São Paulo, Campo Grande, Belo Horizonte e Recife buscam ampliar o acesso à moradia por meio de iniciativas municipais ou federais que adotam esse instrumento. No modelo, as unidades residenciais são oferecidas pelo poder público, que pode intermediar a oferta ou ser proprietário dos imóveis, enquanto o morador paga um aluguel que não compromete excessivamente sua renda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em São Paulo, uma pesquisa conduzida pelo LabCidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), em parceria com a Secretaria Municipal de Habitação da Prefeitura de São Paulo (Sehab-SP), investiga como esse modelo poderia ajudar a enfrentar a crise habitacional da capital. O estudo, que conta com </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/114337/habitacao-como-servico-insumos-para-formulacao-gestao-e-implementacao-de-uma-politica-habitacional-d/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">financiamento da FAPESP</span></a><span style="font-weight: 400;"> e é coordenado pela pesquisadora Paula Freire Santoro e pela gestora pública Daniela Perre, busca soluções para ampliar e diversificar a política de locação social já existente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O déficit habitacional envolve diferentes formas de precariedade, como moradias inadequadas e o chamado ônus excessivo do aluguel — situação em que famílias com renda de até três salários mínimos comprometem mais de 30% do orçamento com o pagamento da moradia. Em São Paulo, esse problema é especialmente expressivo: em 2022, 65% desse público ultrapassava esse limite, segundo dados da Fundação João Pinheiro, instituição de pesquisa, ensino e produção de estatísticas sobre políticas públicas vinculada ao Governo do Estado de Minas Gerais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo Santoro, mesmo no cenário mais otimista – de 30 mil unidades produzidas em uma única gestão municipal, o maior volume já registrado em São Paulo –  seriam necessárias mais de 13 administrações para atender à demanda habitacional calculada em 2016.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Os desafios são enormes e muito diversos. A política habitacional não pode apostar em apenas um modelo centrado na produção de novas moradias pelo mercado para a casa própria”, afirma Santoro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até agora, a pesquisa mapeou diferentes modelos de aluguel social adotados no Brasil e no exterior, desde programas de auxílio e vouchers até parques públicos de locação e parcerias entre governos, sociedade civil e iniciativa privada. O objetivo, segundo as pesquisadoras, não é defender qualquer política baseada no aluguel, mas identificar formatos capazes de ampliar o acesso à moradia sem reproduzir a lógica especulativa do mercado imobiliário, aproveitando melhor o estoque de imóveis já existente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além do levantamento comparativo, o estudo já contribuiu para aprimorar normas do Programa de Locação Social de São Paulo e para discussões sobre regulação do mercado de aluguel e plataformas de locação temporária. As pesquisadoras também participaram da elaboração de propostas para uma política nacional de locação social no âmbito do PlanHab 2040.</span></p>
<div class="flourish-embed flourish-table" data-src="visualisation/29563332"><script src="https://public.flourish.studio/resources/embed.js"></script><noscript><img decoding="async" src="https://public.flourish.studio/visualisation/29563332/thumbnail" width="100%" alt="table visualization" /></noscript></div>
<p><b>O aluguel social como aposta</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diferentemente dos programas voltados à compra da casa própria, o aluguel social prevê acesso a moradias oferecidas pelo poder público, que podem ser de propriedade pública ou privada, com a cobrança de um aluguel a preços acessíveis. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O modelo atende grupos que costumam ficar à margem das políticas tradicionais de financiamento habitacional, como jovens, pessoas em situação de rua e famílias de baixa renda. “Há pessoas para quem a casa própria não é a melhor solução”, afirma Claudia Acosta, professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/110770/cidades-centro-de-inovacao-em-politicas-publicas-urbanas/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">FGV Cidades, Centro de Ciências para o Desenvolvimento (CCD) apoiado pela Fapesp</span></a><span style="font-weight: 400;">. “Se uma pessoa com 60 anos entra no programa Minha Casa, Minha Vida, com 75 anos ainda estará no financiamento. Isso não tem sentido”, diz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para Acosta, a casa própria pode ainda ser uma espécie de “âncora”, limitando a mobilidade urbana quando está localizada em áreas distantes dos empregos e serviços. “O aluguel pode ser uma ferramenta de inclusão social também por manter as pessoas mais próximas das oportunidades”, diz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A possibilidade de manter populações de baixa renda em regiões centrais aparece como um dos principais argumentos em defesa do aluguel social. Segundo Francisco Comaru, professor da Universidade Federal do ABC e coordenador do Laboratório de Justiça Territorial (LabJuta), muitos moradores de cortiços pagam um valor alto para morar no centro da cidade, ainda que em condições precárias. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“São funcionários de lojas, de bares e de restaurantes, empregadas domésticas, trabalhadores da construção civil e ambulantes. Quando empurrados para a periferia, têm a sua qualidade de vida prejudicada, além de gerar impacto no meio ambiente, no trânsito e na própria saúde”, explica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para o pesquisador, políticas permanentes de aluguel social também ajudam a conter processos de expulsão da população de baixa renda das áreas valorizadas da cidade. “É uma maneira de retirar essas moradias do mercado privado e da precificação que ele impõe, mantendo as pessoas de baixa renda em áreas bem servidas por infraestrutura, emprego e serviços”, aponta Comaru.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Modelos de aluguel social são utilizados em diferentes países desde o pós-guerra, especialmente na Europa, em lugares como Reino Unido, França, Itália e Suíça. Na América Latina, Uruguai, Argentina, Chile e México também praticam o modelo de habitação pública para locação. Em vários desses países, a locação social integra permanentemente as políticas habitacionais e convive com programas de acesso à casa própria.</span></p>
<p><b>Uma política antiga que nunca ganhou escala</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de vigente desde 2002, o Programa de Locação Social de São Paulo nunca ganhou escala, ainda que apresente bons índices de acesso e permanência, segundo a pesquisa. Entre os fatores apontados estão a descontinuidade do programa entre diferentes gestões e a preferência histórica por políticas voltadas à casa própria. Nos últimos anos, essa tendência foi reforçada por programas de financiamento habitacional, como o Minha Casa, Minha Vida, criado em 2009 no âmbito do Governo Federal, e por modelos baseados em parcerias com a iniciativa privada, como o programa Pode Entrar, criado pela Prefeitura de São Paulo em 2021.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Hoje, a cidade de São Paulo conta com apenas 937 unidades no formato de locação social. No modelo paulistano, os imóveis pertencem ao poder público e são alugados para pessoas em situação de vulnerabilidade por valores que não podem ultrapassar um percentual de sua renda – entre 10% e 15%, a depender da categoria de beneficiário e do total da renda familiar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Débora Sanches é professora de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie e participou da conceituação e implementação da política. “O programa deu origem a habitações como o Residencial Olarias, no Canindé, e a Vila dos Idosos, no Pari. A partir do momento em que tiveram moradia digna, muitas pessoas voltaram a estudar e tiveram acesso a melhores empregos. Ter um endereço impacta na autoestima das pessoas e nas suas condições de vida”, afirma Sanches. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Parte dessas unidades, porém, pode deixar de integrar o programa nos próximos anos. De acordo com Perre, servidora da Sehab-SP e arquiteta responsável pela parceria com o LabCidade no projeto, dois dos sete empreendimentos do modelo serão desvinculados do programa e a propriedade das unidades será transferida aos beneficiários. Juntos, eles representam cerca da metade das habitações no programa de aluguel social do município. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“No caso do Parque do Gato, no Bom Retiro, e do Residencial Olarias, a desvinculação foi aprovada por uma resolução do Conselho Municipal de Habitação, e a propriedade será transferida sem custo para os moradores”, explica. Segundo a arquiteta, o órgão perdeu o domínio sobre as unidades, sobretudo por conta do tráfico de drogas na região, e não conseguia mais fazer a manutenção das unidades.</span></p>
<div class="flourish-embed flourish-table" data-src="visualisation/29563496"><script src="https://public.flourish.studio/resources/embed.js"></script><noscript><img decoding="async" src="https://public.flourish.studio/visualisation/29563496/thumbnail" width="100%" alt="table visualization" /></noscript></div>
<p><b>Auxílio-aluguel e precarização</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em paralelo ao programa de locação social, São Paulo mantém uma política de auxílio-aluguel voltada a famílias removidas de áreas de risco ou atingidas por obras públicas. Em março deste ano, 29 mil famílias recebiam o benefício.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De acordo com a pesquisadora Isadora Guerreiro, que integra o LabCidade, o maior volume de famílias removidas e atendidas pelo auxílio em São Paulo atualmente está concentrado na zona sul da cidade, com um número expressivo de casos vindos do Programa Mananciais. O projeto da Sehab-SP teve início nos anos 90 na região da bacia hidrográfica de Guarapiranga, promovendo ações para a regularização fundiária de favelas e núcleos na região. Hoje, o programa também atua na bacia Billings, na mesma zona da cidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Guerreiro, no entanto, alerta sobre os problemas do modelo. “Ele não atende à necessidade de moradia das famílias: a Prefeitura não sabe onde elas vão morar, e vemos que a maioria acaba em imóveis precários alugados de maneira informal, sob ameaça de despejo&#8221;, conta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo a pesquisadora, as famílias muitas vezes saem de casas em que investiram dinheiro e vão para lugares piores, pagando aluguel. “Isso não pode ser considerado uma política habitacional”, afirma. A crítica ilustra uma das questões centrais do debate habitacional: oferecer um benefício temporário não necessariamente garante acesso estável à moradia.</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A ciência está mais inteligente ou mais artificial com a IA?</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/a-ciencia-esta-mais-inteligente-ou-mais-artificial-com-a-ia/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=a-ciencia-esta-mais-inteligente-ou-mais-artificial-com-a-ia</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tiago Jokura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 13:03:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Cientometria]]></category>
		<category><![CDATA[Computação]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
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					<description><![CDATA[O maior estudo já realizado sobre o impacto da inteligência artificial na produção científica revela um paradoxo: pesquisadores que usam IA publicam mais, são mais citados e chegam mais cedo à liderança – mas a ciência, como empreitada coletiva, está estreitando seus horizontes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Em janeiro de 2026, a </span><i><span style="font-weight: 400;">Nature</span></i><span style="font-weight: 400;"> publicou um </span><a href="https://www.nature.com/articles/s41586-025-09922-y" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">estudo</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos mais abrangentes e robustos sobre a influência da inteligência artificial (IA) na produção de ciência. Pesquisadores da Universidade de Tsinghua, na China, e da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, analisaram 41,3 milhões de artigos científicos publicados entre 1980 e 2025 em seis grandes áreas das ciências naturais: biologia, ciências dos materiais, física, geologia, medicina e química.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os resultados são positivos para quem adota IA em seus estudos: pesquisadores desse grupo publicam, em média, três vezes mais artigos e recebem quase cinco vezes mais citações do que os demais. A prática também acelera a carreira dos cientistas, que assumem a liderança de projetos mais cedo. A conclusão mais simplória é a de que a IA torna os cientistas mais produtivos, mais visíveis e mais influentes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, o estudo também mostra que a ciência, como construção coletiva, encolheu quase 5% em amplitude temática desde a disseminação da IA e gera 22% menos engajamento cruzado entre pesquisadores. Traduzindo: há mais cientistas publicando mais sobre menos assuntos, e esses trabalhos provocam menos conversas entre os pares.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Fiquei surpreso com a menor probabilidade da IA gerar novos engajamentos”, afirma James Evans, professor de sociologia e ciência de dados na Universidade de Chicago, diretor do Knowledge Lab e um dos autores do artigo. “Pensei que essa tendência pudesse mudar ao longo do tempo que o estudo abrange, mas ela continua valendo para modelos recentes de IA.”</span></p>
<h2><b>Mais produção, menos diversidade</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">O estudo divide a história da IA em três eras: a do aprendizado de máquina clássico (machine learning), de 1980 a 2014; a do aprendizado profundo (deep learning), de 2015 a 2022; e a da IA generativa, de 2023 em diante. Em todas elas, o padrão se repete: o cientista que adota IA ganha em produtividade individual, mas a ciência como um todo perde em diversidade temática.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para medir essa perda, os autores desenvolveram o conceito de “extensão do conhecimento”, uma medida da variedade de temas explorados por um conjunto de artigos. Quando comparados em amostras aleatórias, os artigos que usam IA cobrem um espaço temático quase 5% menor do que os que não usam. E isso vale para mais de 70% das mais de 200 subáreas do conhecimento analisadas no estudo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das explicações para esse resultado é a disponibilidade de dados. A IA funciona melhor onde há mais dados estruturados para treinar modelos e validar previsões. Isso pode atrair pesquisadores para campos já maduros, com padrões e referências consolidados, em detrimento de questões menos estabelecidas e, portanto, “arriscadas”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Acelerar a atividade científica sob a luz lançada por fenômenos de alta visibilidade e ricos em dados afasta a ciência de muitas questões fundamentais e a empurra em direção a questões operacionais”, pontuam os autores no artigo. “A IA parece impulsionar a solução de problemas em vez de gerá-los”, completam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os resultados apresentam a seguinte lógica: se publicar com IA garante mais citações e mais visibilidade, o incentivo para adotar a tecnologia cresce. E quando mais pesquisadores se voltam para os mesmos campos – os mais ricos em dados e aqueles em que o uso da IA já é mais consagrado – a atenção passa a se concentrar em poucos trabalhos de destaque. O estudo mede essa desigualdade com o índice de Gini, que vai de 0 (distribuição perfeitamente equilibrada) a 1 (concentração máxima). Entre os artigos que usam IA, as citações recebidas se acumulam mais: 22% dos papers mais citados abocanham 80% de todas as menções, o que leva o índice a 0,75. Entre os artigos que não usam IA, a atenção se distribui de forma mais espalhada, e o índice fica em 0,69. Ou seja, na ciência feita com IA, alguns poucos estudos concentram uma fatia desproporcional da atenção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Evans chama isso de “multidão solitária”: artigos que se voltam para os mesmos tópicos populares, mas que interagem menos entre si. “A adoção de IA na ciência apresenta o que parece ser um paradoxo: uma expansão do impacto dos cientistas como indivíduos, mas uma contração no alcance da ciência coletiva”, opina.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fabio Cozman, diretor do Centro de Inteligência Artificial da USP (C4AI), </span><a href="https://fapesp.br/cpa/centro_de_inteligencia_artificial_(c4ai)/76" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">apoiado pela FAPESP</span></a><span style="font-weight: 400;">, por outro lado, considera outras possibilidades. “A IA é uma ferramenta útil e poderosa. Se ela for usada para ficar repetindo soluções, ela vai, sim, aumentar o overlapping”, afirma. “Mas cabe a nós, à comunidade acadêmica e também aos órgãos de financiamento, ter uma política agressiva que valorize a originalidade. Isso vai forçar os pesquisadores a usar as ferramentas de IA como suporte para a busca de novas ideias.”</span></p>
<h2><b>Dilemas para jovens cientistas</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Há outra dimensão da adoção de IA na produção acadêmica que levanta um questionamento entre pesquisadores ouvidos pela reportagem: o que acontece com os jovens cientistas que deveriam aprender realizando tarefas que agora a IA executa?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estudo revela que equipes de pesquisa que usam IA tendem a ter menos pesquisadores – sobretudo em início de carreira. O número médio de cientistas júniores em equipes que não trabalham com IA é de 2,89. Já em equipes que aplicam IA na pesquisa, a quantidade é de 1,99 (31% a menos). Considerando pesquisadores sênior, a discrepância é menor: média de 4,01 em times que adotam IA e de 3,58 em times que não adotam. Em outras palavras: proporcionalmente, a IA substitui mais iniciantes do que veteranos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao mesmo tempo, cientistas iniciantes que trabalham com IA têm 45% de chance de se estabelecer na carreira, uma taxa 13,64% superior à dos pares que não usam a tecnologia. “Meu medo não é que os jovens dependam da IA para executar a parte técnica, mas que ela cause uma dessensibilização neles”, comenta Helder Nakaya, pesquisador sênior do Einstein Hospital Israelita e professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências e vice-diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP, compartilha a preocupação e vai além. Para ele, o artigo da </span><i><span style="font-weight: 400;">Nature</span></i><span style="font-weight: 400;"> carrega um risco adicional: ser mal interpretado pelos pesquisadores em formação. “Ele é instrutivo e ao mesmo tempo perigoso. Pode induzir a uma utilização da IA a qualquer custo”, comenta. Afinal, se publicar com IA garante mais citações e uma carreira mais rápida, jovens cientistas pressionados pelo sistema de avaliação acadêmica têm todos os incentivos errados para adotar a tecnologia de forma irrefletida, independentemente da pertinência científica. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A questão da formação tem um aspecto ainda mais concreto. Análise de dados, revisão de literatura e planejamento de experimentos são habilidades aprendidas na prática – errando, corrigindo e refazendo. É nesse processo que surgem perguntas novas, insights inesperados e uma intuição que a IA ainda não oferece.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Uma coisa é usar a IA para aumentar a produtividade em tarefas que o pesquisador já domina. Outra é aprender a fazer ciência usando IA desde o início”, afirma Nakaya. “Há estudos que indicam que o aprendizado com IA não ativa as mesmas áreas do cérebro que são estimuladas pelo aprendizado sem esse apoio”, diz. O estudo deixa em aberto justamente o que acontece quando a tecnologia encurta – ou substitui –  essas etapas fundamentais da formação científica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“O papel do orientador será cada vez mais estimular reflexão, em vez de focar na técnica, que será automatizada”, diz Nakaya. “O que sobra para mim, como cientista, é a parte da curiosidade, que é o que fez a gente entrar nesse caminho.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Buckeridge vê benefícios mais concretos. Desde 2023, os manuscritos de seus alunos passaram a chegar com o inglês mais polido graças à IA generativa. O biólogo vê vantagem na mudança, especialmente para pesquisadores de países que não têm o inglês como língua nativa. “Isso pode liberar o foco do pesquisador para as ideias, para os dados, para tornar a ciência melhor.” Entretanto, ele estabelece limites: “Mas a aprendizagem pelo fazer continua sendo insubstituível.”</span></p>
<h2><b>A ciência que a IA não alcança</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Evans, que além de pesquisador na Universidade de Chicago, é também pesquisador visitante no Google, acredita em uma mudança no foco de aplicação da IA na ciência. Em vez de priorizar dados existentes, o objetivo deveria ser usar a tecnologia para coletar dados novos, em territórios ainda não mapeados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Usar IA para impulsionar a coleta de novos dados representaria uma mudança crucial em direção a problemas que somente ela pode ajudar a resolver”, afirma Evans. “O processamento de dados já existentes demonstra que a IA tem bom desempenho com esse tipo de informação. Contudo, é possível estimular a coleta de dados inéditos que conectem sistemas biológicos conhecidos ou que relacionem informações de escala astronômica com áreas da física que buscam pistas valiosas pelo Universo, como quem procura uma agulha no palheiro.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Evans também trabalha em uma direção menos explorada: abrir novas dimensões nos modelos de linguagem, em vez de apenas comprimir informação existente. “Estamos desenvolvendo modelos para reconhecer dados, afirmações ou artigos surpreendentes e, em seguida, avaliar, a partir de uma surpresa identificada, que outras ideias improváveis até então podem ser mais prováveis agora?” A lógica é a da descoberta: encontrar o que era invisível em vez de otimizar o que já se conhece.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo Cozman, da USP, “cabe a nós valorizar menos a repetição e o número de publicações e valorizar aquilo que é novo, mesmo quando não deu certo, porque isso é o que é difícil na análise e no suporte à pesquisa.”</span></p>
<h2><b>O lugar humano na pesquisa</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Nakaya, que aplica aprendizado de máquina em suas pesquisas há mais de duas décadas, desde seu doutorado, analisa que o impacto da IA na ciência seguirá três estágios. No primeiro, o atual, a tecnologia aumenta a produtividade individual. No segundo, já em curso, a IA passa a executar tarefas melhor do que os humanos, e ao cientista caberá fazer as perguntas certas e entender os gargalos. No terceiro, mais distante, a IA também formulará as perguntas, e o que sobrará para os pesquisadores será, ironicamente, aquilo que os levou à ciência em primeiro lugar: o gosto pela curiosidade. “No futuro, a meu ver, vai sobrar fazer pesquisa não utilitarista, por prazer”, diz Nakaya. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele também traça um paralelo com o xadrez. Em 1997, Garry Kasparov perdeu para o supercomputador Deep Blue e muita gente achou que o jogo acabaria. “Hoje, mais pessoas jogam xadrez do que antes. Temos que perder um pouco desse ego de achar que vamos ser sempre melhores do que as máquinas. Em alguns aspectos seremos piores. Tudo bem. Vamos usar as máquinas para melhorar a nossa pesquisa”, afirma.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Buckeridge evoca uma analogia com outro jogo ainda mais popular: o futebol. “Em relação à IA, assim como no esporte, a gente tem que antever a jogada e se mover para onde a bola vai estar e não se aglomerar onde ela está”. O perigo, para ele, é a ciência correndo atrás “da bola” da IA e abandonando campos com menos dados, mas com questões igualmente importantes. “Vai se repetir o que aconteceu com a biologia molecular. Chegou um momento em que todo mundo foi atrás e faltou gente em bioquímica. Isso é ruim para a ciência, ruim para a produção do conhecimento, mas é assim que o jogo é jogado”, conclui.</span></p>
<h2><b>Conhecimento não é entendimento</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Há uma anedota do físico americano Richard Feynman: você pode saber o nome de um pássaro em todas as línguas do mundo e continuará sem saber nada sobre o pássaro. Em outras palavras, o conhecimento não é a mesma coisa que o entendimento. Ter acesso a toda a literatura científica via um modelo de linguagem não faz de ninguém um cientista, mas somente alguém bem informado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estudo de Evans e colaboradores aponta, nesse sentido, para um horizonte que vai além das métricas de produtividade. Ao final, a pergunta não é apenas quantos artigos a IA ajuda a publicar, mas o que esses artigos estão descobrindo e, mais importante, o que estão deixando de perguntar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Esses achados iluminam um caminho crítico e amplo para o desenvolvimento da IA na ciência”, escrevem os autores no artigo da </span><i><span style="font-weight: 400;">Nature</span></i><span style="font-weight: 400;">. “Para preservar a exploração coletiva numa era de uso de inteligência artificial, precisaremos reimaginar sistemas de IA que expandam não apenas a capacidade cognitiva, mas também a capacidade sensorial e experimental, permitindo e incentivando os cientistas a buscar, selecionar e coletar novos tipos de dados de domínios anteriormente inacessíveis, em vez de meramente otimizar a análise de dados existentes”, completam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história das grandes descobertas científicas, argumentam, está mais ligada a novas formas de ver a natureza do que à otimização das formas já existentes de olhar para ela. O desafio é ensinar à máquina, e aos jovens pesquisadores, o caminho da curiosidade.</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A criptografia que promete esconder dados até da nuvem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bruno Vaiano]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jun 2026 17:44:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Computação]]></category>
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					<description><![CDATA[Cifras completamente homomórficas já funcionam na prática, mas ainda exigem poder computacional além do que os data centers atuais podem oferecer]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Toda vez que você envia um prompt ao ChatGPT, suas palavras são transformadas em um código indecifrável antes de atravessar fibras ópticas e cabos submarinos rumo aos data centers da OpenAI no estado do Texas, nos Estados Unidos – ou em algum outro lugar do mundo. É assim que boa parte da informação do planeta trafega: criptografada. Mas proteger dados em trânsito não resolve tudo. Em algum momento, o servidor precisa decifrar a informação para processá-la — e é justamente aí que surgem as brechas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1995, o pioneiro da segurança digital Gene Spafford resumiu o problema dizendo que “criptografia sem um sistema íntegro equivale a investir em um carro-forte para levar dinheiro de alguém que mora em uma caixa de papelão para outra pessoa fazendo negócios em um banco de parque”. Ou seja, proteger os dados no caminho não adianta se emissor e destinatário continuam vulneráveis.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos últimos 15 anos, passamos a terceirizar cada vez mais funções à nuvem, do streaming ao armazenamento de arquivos e e-mails. A banda larga permite delegar nossas demandas computacionais a esses servidores remotos, mas isso exige enviar muitos dados para empresas com termos e condições de uso intermináveis. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O número do cartão de crédito é apenas a ponta de um iceberg de informações sensíveis que não devem estar na nuvem. Imagine, por exemplo, uma IA da área médica que analisa o prontuário dos pacientes e sugere diagnósticos: uma seguradora de saúde poderia usar esses dados para investigar o histórico de quem tenta contratar o plano — e, assim, negar clientes com doenças crônicas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, um dos grandes objetivos da criptografia contemporânea é desenvolver um tipo de cifra que permita a um data center processar dados cifrados “às cegas” e dar o resultado correto sem precisar bisbilhotar o conteúdo. O nome dessa ideia é criptografia completamente homomórfica (fully homomorphic encryption, ou FHE, na sigla em inglês). Ela já é possível na prática — mas, no estágio atual de desenvolvimento, ainda é uma opção de milhares a milhões de vezes mais lenta do que processar a mesma informação abertamente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Hilder Pereira é professor do Departamento de Teoria da Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e uma referência nacional nessa área. Em 2025, a FAPESP aprovou uma </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/116080/criptografia-homomorfica-e-computacao-sobre-dados-cifrados/"><span style="font-weight: 400;">bolsa Jovem Pesquisador</span></a><span style="font-weight: 400;"> de cinco anos, sob sua coordenação, para avançar na teoria e nas aplicações da FHE. Pereira está na vanguarda mundial dos esforços para transformar a FHE de um campo acadêmico em algo mais próximo de uma tecnologia aplicada no dia a dia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fazer com que a FHE vire realidade envolve dois desafios. O primeiro é que pressionar grandes empresas por avanços em segurança digital não depende apenas de legislação ou de agências reguladoras: segundo o pesquisador, é necessário também um grau de conscientização coletivo que ainda não existe. “Quando alguém aponta uma arma para você, o perigo está na sua frente. Diferente de falar para as pessoas que empresas coletam dados da população e os usam para manipular eleições. Isso ainda soa abstrato”, diz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O segundo é que fazer a FHE funcionar está longe de ser trivial. Do ponto de vista do computador, lidar com uma cifra completamente homomórfica equivale a resolver um cubo mágico de olhos vendados. Para entender como é possível uma máquina processar dados sem enxergá-los (e até que ponto é possível tornar esse processo mais rápido), precisamos voltar algumas casas na história da criptografia — e começar na época em que o homomorfismo ainda era entendido como uma propriedade indesejável pelos criptógrafos. </span></p>
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara</span>
<p><b>A brecha que virou solução</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A criptografia moderna se apoia em operações matemáticas simples de executar, mas extremamente difíceis de desfazer — como fatorar números gigantescos gerados pela multiplicação de dois números primos. Esse é o princípio por trás do RSA, um dos métodos de criptografia mais influentes, criado em 1977. A sigla representa os sobrenomes dos criptógrafos que inventaram a técnica: Rivest, Shamir e Adleman.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os números gigantescos da RSA são inquebráveis na prática. Mas a estrutura matemática dessa cifra é frágil de outra forma: ela permite manipular os criptogramas sem que percam seu significado no processo, ou seja, a equivalência matemática com o conteúdo que deu origem a eles. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma metáfora ajuda a entender. Imagine duas palavras. Uma é “pão”, a outra é “manteiga”. Em RSA, cada uma é representada por um criptograma gigante e difícil de fatorar. Porém, se um servidor multiplicar “pão” e “manteiga”, ele vai obter um criptograma que significa “pão com manteiga”. O servidor não consegue ler o conteúdo, mas a operação continua fazendo sentido. Isso é o homomorfismo: o comportamento das multiplicações realizadas em texto claro (ou </span><i><span style="font-weight: 400;">plaintext, </span></i><span style="font-weight: 400;">em inglês) se mantém ao ser mapeado para o conjunto de dados cifrados (</span><i><span style="font-weight: 400;">ciphertext)</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No caso da RSA, apenas uma operação matemática é homomórfica: a multiplicação. Por isso, a RSA é classificada como uma cifra parcialmente homomórfica. Para computar às cegas, porém, era preciso ir além e construir uma cifra completamente homomórfica — que, além das multiplicações, permitisse também fazer somas sem mudar o conteúdo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas décadas seguintes à invenção da RSA, pesquisadores tentaram ampliar esse princípio para permitir múltiplas operações matemáticas sobre dados cifrados. Em 2005, o criptógrafo israelense Dan Boneh chegou perto: criou uma cifra homomórfica para as duas operações, mas que permitia apenas uma multiplicação, embora suportasse infinitas adições. O avanço decisivo veio em 2009, quando o americano Craig Gentry, então funcionário da IBM, publicou sua tese de doutorado orientada pelo próprio Boneh, apresentando a primeira cifra completamente homomórfica funcional. </span></p>
<p><b>Os limites físicos e teóricos da FHE</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O problema é que as cifras homomórficas acumulam “ruído” matemático a cada operação realizada. Depois de muitas contas, esse ruído cresce tanto que pode corromper o resultado. É como a poluição por mercúrio nos oceanos: cada peixe pequeno tem um pouco desse elemento tóxico no organismo. Mas quando um tubarão come todos eles, acaba concentrando uma quantidade muito maior do metal (processo chamado de bioacumulação).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que Gentry fez foi encontrar um jeito de limpar o ruído a cada ciclo de processamento de dados, técnica que batizou de </span><i><span style="font-weight: 400;">bootstrapping</span></i><span style="font-weight: 400;">. O nome vem da expressão inglesa “puxar a si mesmo pelas alças das próprias botas”, usada para descrever um procedimento recursivo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste caso, o criptograma ruidoso é processado pelas próprias técnicas de FHE para produzir um criptograma equivalente, mas com ruído menor. “Isso abre portas para um número ilimitado de operações. Esse foi o grande problema que Gentry resolveu há pouco mais de 15 anos”, diz Diego Aranha, professor brasileiro que trabalha na Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e ex-orientador de Pereira. O </span><i><span style="font-weight: 400;">bootstrapping</span></i><span style="font-weight: 400;"> é, ao mesmo tempo, o segredo da FHE e sua limitação: limpar o ruído das cifras é uma tarefa pesada, e é a razão de esse tipo de criptografia demorar tanto.</span></p>
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara</span>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi apenas em meados de 2016 que as coisas começaram a parecer “razoavelmente praticáveis”, nas palavras de Pereira. O GPS é um exemplo ilustrativo do tipo de coisa que a FHE ainda não consegue fazer. O aplicativo precisa recalcular a rota em segundos quando você entra em uma rua errada, e realizar essa computação com uma cifra homomórfica poderia levar dias. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao problema computacional se soma um problema econômico. O mundo vive uma crise de disponibilidade de chips de silício causada pela construção acelerada de data centers para inteligência artificial (IA). Grande parte do poder computacional previsto para ser instalado em 2026 já está comprometida com as big techs. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“A parte infeliz é que, do ponto de vista de hardware, acelerar a FHE ou usá-la para delegação segura de computação compete pelo mesmo hardware que a IA”, diz Aranha. “Empresas de internet que operam infraestrutura de nuvem — Amazon, Google, Microsoft — têm seu ganha-pão exatamente nisso: rodar seu código nos servidores delas. Do ponto de vista do cliente, seria muito melhor ter uma garantia matemática do que assinar um papel em que a Amazon promete não bisbilhotar.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma possibilidade é reaproveitar gerações antigas de GPUs (microprocessadores) descartadas pela corrida da IA. O hardware que deixa de ser competitivo para treinar modelos de fronteira pode ajudar a acelerar pesquisas em FHE. Há também startups produzindo chips dedicados à FHE. Na mesma direção, a KU Leuven — que abriga um dos grupos de hardware para criptografia mais respeitados do mundo, onde Pereira fez pós-doutorado — mantém um projeto financiado pela União Europeia.</span></p>
<p><b>Da teoria à indústria</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de trabalhar com o chão de fábrica da FHE — o que significa, por exemplo, </span><a href="https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-032-22698-3_6" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">aperfeiçoar o </span><i><span style="font-weight: 400;">bootstrapping</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> para torná-lo menos dispendioso —, o trabalho de Pereira também tem uma faceta teórica. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Toda cifra é construída sobre a premissa de que um problema matemático é difícil de resolver. A RSA, por exemplo, aposta que fatorar o produto de dois números primos enormes é computacionalmente inviável. Mas Pereira lembra que essa dificuldade não é necessariamente eterna. “Talvez alguém encontre um novo algoritmo de fatoração muito mais eficiente e rápido, que reduza o tempo de fatoração”, explica. Um de seus objetivos no </span><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/116080/criptografia-homomorfica-e-computacao-sobre-dados-cifrados/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">projeto apoiado pela FAPESP</span></a><span style="font-weight: 400;"> é justamente investigar se é possível construir FHE com menos pressupostos matemáticos. Apoiar a segurança num conjunto menor de suposições reduz a vulnerabilidade da cifra caso alguma delas se revele falsa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para a academia, essa é a diferença entre um prédio com fundações construídas para o grau exato de estabilidade do solo e um prédio com precauções extras, que permanece em pé mesmo que o solo se mostre menos firme do que se pensava. Os acadêmicos estão sempre se antecipando, como na criptografia pós-quântica. “Estamos nos preparando para que, se um dia existir o computador quântico, essas novas cifras pós-quânticas </span><a href="https://dl.acm.org/doi/10.1145/3719027.3765181" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">já sejam seguras</span></a><span style="font-weight: 400;">”, explica Pereira. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A FHE é um campo de estudo bem estabelecido no mundo acadêmico. Do lado da indústria, o movimento é mais fragmentado, mas já perceptível. A startup francesa Zama, por exemplo, trabalha em aplicações de machine learning e blockchain com FHE, tentando ocultar não apenas a identidade dos usuários, mas também os próprios fluxos financeiros. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Zama quer cifrar essas transações com FHE, de modo que nem mesmo quem opera a infraestrutura saiba quem mandou quanto para quem. Para Nigel Smart, professor da KU Leuven que também ocupa o cargo de diretor acadêmico</span><span style="font-weight: 400;"> da empresa, esse é um momento equivalente à passagem do protocolo HTTP para o HTTPS na internet, em 1994  — uma camada de privacidade que reconfigura o que é possível fazer online. Foi o ‘S’ de ‘seguro’ que permitiu o uso de cartões de crédito na internet.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Smart, porém, faz questão de desfazer uma ilusão comum sobre as possibilidades da FHE. Esse tipo de cifra não é “uma poeira mágica que se polvilha sobre sistemas existentes para torná-los privados. Elas devem ser vistas como tecnologias que habilitam novos modelos de negócio e novas oportunidades que antes simplesmente não existiam”, diz ele. Um exemplo concreto é o combate à lavagem de dinheiro: bancos precisam cruzar dados de clientes para identificar fluxos suspeitos, mas não querem — e muitas vezes não podem, legalmente — entregar esses dados a concorrentes. Com FHE, a colaboração se torna possível.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já existem outras aplicações de cifras homomórficas saindo do papel. O Microsoft Edge emprega FHE para verificar se senhas foram comprometidas em vazamentos sem revelar as senhas ao servidor. Craig Gentry, criador da primeira FHE viável, hoje trabalha na startup Cornami, com foco no gargalo mais relevante para a IA: tornar a multiplicação de matrizes mais rápida sob cifra homomórfica, já que essa operação é importantíssima para Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs, do inglês) como o GPT.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não existe milagre: é pouco provável que a FHE se torne uma tecnologia amplamente disseminada ainda nas próximas décadas. Mas chegar mais perto desse grau platônico de segurança não é apenas uma questão de avanço científico-tecnológico: é algo que exige uma mudança de mentalidade que também está distante. “As pessoas não estão acostumadas a se preocupar com isso”, resume Pereira. À medida que a vida contemporânea passa a depender cada vez mais de computação delegada, é urgente que o trabalho de pesquisadores como Pereira se traduza em aplicações práticas. </span></p>
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