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	<item>
		<title>Folheie ou baixe a edição 364</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:31:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Impressa]]></category>
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					<description><![CDATA[Folheie ou baixe a edição de junho de 2026]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="position: relative; padding-top: max(60%,326px); height: 0; width: 100%;"><iframe style="position: absolute; border: none; width: 100%; height: 100%; left: 0; right: 0; top: 0; bottom: 0;" title="Reinvenção do patrimônio" src="https://e.issuu.com/embed.html?d=reinven_o_do_patrim_nio&amp;u=pesquisafapesp" sandbox="allow-top-navigation allow-top-navigation-by-user-activation allow-downloads allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-modals allow-popups-to-escape-sandbox allow-forms" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></div>
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		<title>Uma floresta flutuante?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:27:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fotolab]]></category>
		<category><![CDATA[Química]]></category>
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					<description><![CDATA[Microrganismos podem ter ação antitumoral]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em frascos de laboratório crescem colônias de cianobactérias, microrganismos cuja riqueza química pode dar origem a moléculas com potencial farmacológico. Durante seu treinamento na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Andrei Godinho andava com frascos no bolso para coletar água de poças esverdeadas, depois da chuva, e cuidava dos organismos até poder extrair suas substâncias e testar sua potencial ação anticancerígena em células tumorais. “No Brasil, ainda não pusemos no mercado um fármaco oriundo de moléculas da nossa biodiversidade de cianobactérias”, afirma.</p>
<p><em>Imagem enviada por Andrei Celestino Godinho, estudante de graduação em biotecnologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP.</em></p>
<p class="bibliografia separador-bibliografia">Sua pesquisa rende fotos bonitas? Mande para <a href="mailto:imagempesquisa@fapesp.br" target="_blank" rel="noopener noreferrer">imagempesquisa@fapesp.br</a>. Seu trabalho poderá ser publicado na revista.</p>
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		<title>Comentários 364</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/comentarios-364/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=comentarios-364</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:27:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartas]]></category>
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					<description><![CDATA[Pantanal seco, câncer de intestino e vídeos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Pantanal seco</strong><br />
Uma pesquisa importante (“<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/pantanal-e-o-bioma-brasileiro-que-mais-aqueceu-e-perdeu-chuvas-em-40-anos/" target="_blank" rel="noopener">Um Pantanal mais seco e quente</a>”, edição 360), com dados muito relevantes – inclusive já verificados no estudo que estou desenvolvendo atualmente. Infelizmente, ela revela uma realidade preocupante, especialmente para biomas como a Amazônia e o Pantanal. Neste último, a situação é ainda mais alarmante, com uma progressão acelerada de danos, como a perda de água.<br />
<strong>Marcelo Mazin</strong><br />
*<br />
<strong>Câncer de intestino</strong><br />
Esse tipo de estudo é extremamente importante (“<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/estudo-projeta-aumento-de-mortes-e-de-perda-de-produtividade-por-cancer-de-intestino/" target="_blank" rel="noopener">Os custos de uma doença</a>”, edição 362). Ciência é isso, tem que ser pragmática, em busca de melhores condições para a sociedade. A máquina pública não se preocupa com a família ou os filhos que a pessoa vai deixar se morrer; se preocupa se deixamos de trabalhar e pagar impostos. É necessário mostrar que cuidar da saúde das pessoas é benéfico para todos.<br />
<strong>Marcos Paulo Amorim</strong><br />
**<br />
<strong>Vídeos</strong><br />
Ótimo conteúdo (“<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/aquecimento-global-empurra-corais-para-ponto-de-nao-retorno/" target="_blank" rel="noopener">Aquecimento global empurra corais para ponto de não retorno</a>”). Triste, mas fundamental. Fiquei pensando no próximo El Niño, esperado para o segundo semestre deste ano, e na dificuldade de os países assumirem compromissos juntos. É imprescindível que cada país comece fazendo a sua parte.<br />
<strong>Glaucia Aragão</strong><br />
*<br />
Parabéns pela informação tão didática e importante sobre corais. Agradeço o esforço de conscientização.<br />
<strong>Charles Jacquard</strong><br />
*<br />
Que vídeo completo, superdidático. Muito bom. Vou encaminhar!<br />
<strong>Ana Elisa de Nadal</strong><br />
*<br />
Ótima análise da obra e das ideias de Milton Santos (“<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/milton-santos-100-anos-do-pensador-que-redefiniu-o-espaco-geografico/" target="_blank" rel="noopener">Milton Santos: 100 anos do pensador que redefiniu o espaço geográfico</a>”).<br />
<strong>Márcio José Catelan</strong><br />
*<br />
Parabéns ao professor Fernando Landgraf pela capacidade didática de nos colocar a par de um tema tão contemporâneo quanto importante (“<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/o-que-sao-as-terras-raras/" target="_blank" rel="noopener">O que são as terras-raras?</a>”). Infelizmente, continuamos na lanterna da pesquisa aplicada.<br />
<strong>Georgina Alves Vieira da Silva</strong></p>
<p>Muito esclarecedor e urgente que a população crie o hábito de conhecer mais profundamente o tema terras-raras.<br />
<strong>Eremita Castanheira Novaes</strong><br />
***<br />
<p class="bibliografia">Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza. <a href="mailto:cartas@fapesp.br" target="_blank" rel="noopener">cartas@fapesp.br</a>.</p></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Algoritmos que fazem política</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/algoritmos-que-fazem-politica/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=algoritmos-que-fazem-politica</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fabio Kon]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:27:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Ciênc. Política]]></category>
		<category><![CDATA[Computação]]></category>
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					<description><![CDATA[Livro propõe que algoritmos se tornaram instituições da vida contemporânea]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img fetchpriority="high" decoding="async" width="800" height="1193" class="size-full wp-image-585015 alignright" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-resenha-algoritmos-2026-06-800.jpg" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-resenha-algoritmos-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-resenha-algoritmos-2026-06-800-250x373.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-resenha-algoritmos-2026-06-800-700x1044.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-resenha-algoritmos-2026-06-800-120x179.jpg 120w" sizes="(max-width: 800px) 100vw, 800px" />Ada é uma jovem agitadamente bonita. Ela está um pouco nervosa porque vai sair com um novo candidato a namorado que conheceu no Tinder. Eles vão jantar pela primeira vez, então ela quer que tudo dê certo. Para garantir, pergunta ao ChatGPT que tipo de restaurante seria mais apropriado para esse primeiro encontro e a resposta foi “italiano moderno. É quase impossível errar com massa”. Ela gostou da sugestão, então abre o Maps, procura por “italiano moderno”, escolhe aquele com melhor avaliação e manda o link para o “candidato”, que responde rapidamente com um ícone de joinha e um emoji de coração.</p>
<p>O Maps mostra que a caminhada até lá levaria 23 minutos e Ada considera ir a pé.  Mas, ao traçar a rota recomendada, percebe que teria que passar por ruas escuras que, mesmo cheias de câmeras de segurança com reconhecimento facial, não inspiram muita confiança; então, ela decide chamar um Uber. Ada fica preocupada, pois a bateria do seu celular está acabando e o Uber está estranhamente caro, mas tudo dá certo. Ao chegar ao restaurante, repara em um rapaz sentado à mesa, fissurado em seu celular, tentando baixar um aplicativo para escolher a música ambiente. Aproxima-se e pergunta: “Alan, é você?”. Ele ergue os olhos, sorri e responde: “Você é mais bonita pessoalmente”.</p>
<p>Vivemos em um mundo regido por algoritmos. Eles ditam boa parte dos nossos movimentos, os caminhos que fazemos, a música que ouvimos, os filmes a que assistimos, as notícias que lemos, a comida que comemos, os remédios que tomamos, os impostos que pagamos e as pessoas com quem nos relacionamos. Eles também influenciam políticas públicas e resultados de eleições.</p>
<p>No livro <em>Política dos algoritmos – Instituições e as transformações da vida social</em>, os cientistas políticos Ricardo Mendonça e Fernando Filgueiras e o cientista da computação Virgílio Almeida não só discutem como os algoritmos estão transformando a vida social (o que já sabíamos), mas também argumentam que os algoritmos são novas instituições. Analisando a digitalização das sociedades sob a ótica do institucionalismo, os autores mostram como o arcabouço conceitual das instituições é adequado para compreender melhor o papel dos algoritmos no contexto atual.</p>
<p>O termo algoritmo designa uma sequência sistemática de operações lógico-matemáticas destinada a resolver um problema ou a alcançar um objetivo específico. Existem algoritmos para colocar nomes em ordem alfabética, resolver sistemas de equações, converter imagens coloridas em branco e preto, localizar registros em um grande banco de dados e muito mais.</p>
<p>Na última década, o aumento do poder do hard­ware dos computadores e a grande quantidade de dados disponíveis para análise impulsionaram o avanço dos algoritmos de aprendizado de máquina, que passaram a obter resultados expressivos em uma nova gama de aplicações. Entre elas estão, por exemplo, a recomendação de filmes em plataformas de <em>streaming</em>, a detecção de fraudes no imposto de renda ou em licitações ou a decisão de quem deve receber um auxílio emergencial em caso de calamidade pública.</p>
<p>Na abertura do livro, é apresentada a ideia de institucionalismo, estabelecendo os conceitos básicos da área. Ao propor que os algoritmos sejam compreendidos como instituições, os autores fogem de abordagens superficiais, tanto daquelas que os tratam, em um extremo, como agentes autônomos animados quanto das que os reduzem a ferramentas neutras. Para os autores, os algoritmos são, simultaneamente, estruturas e formas de agência, com impactos individuais e coletivos.  Em seguida, eles apresentam uma série de exemplos concretos em áreas como segurança pública e saúde, auxiliando o leitor a refletir sobre essa nova forma de enxergar a sociedade.</p>
<p>Por fim, o livro enfatiza a necessidade de a sociedade impor limites ao modo como os algoritmos são inseridos em nossas vidas, ressaltando que valores da ética, da responsabilidade e da democracia devem prevalecer. Trata-se, portanto, de uma leitura fundamental para quem deseja refletir sobre o papel dos algoritmos nas sociedades contemporâneas, seus perigos e oportunidades, e sobre o que podemos fazer para não perdermos o controle. O institucionalismo algorítmico proposto pelos autores oferece um arcabouço analítico consistente para compreender um mundo em transformação.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Fabio Kon</strong> é professor titular do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (IME-USP).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Historiadora encontrou refúgio na profissão após a morte da filha</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/historiadora-encontrou-refugio-na-profissao-apos-a-morte-da-filha/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=historiadora-encontrou-refugio-na-profissao-apos-a-morte-da-filha</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Mariuzzo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:27:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Itinerários de pesquisa]]></category>
		<category><![CDATA[Demografia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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					<description><![CDATA[Especializada em demografia histórica, Ana Silvia Volpi Scott estuda as relações familiares no passado e as desigualdades da sociedade brasileira]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nasci na cidade de São Paulo e cresci no bairro Vila Monumento, próximo ao Museu do Ipiranga. Aquele prédio, com suas escadarias, jardins e fontes imponentes, era minha paisagem cotidiana. Talvez isso, aliado à paixão pela leitura, me fez ter um gosto especial pelas aulas de história. Lá pelos 13 anos já tinha decidido que seria historiadora. Egressa da escola pública, fui aprovada no vestibular e entrei no curso de história na USP [Universidade de São Paulo] em 1977, aos 17 anos.</p>
<p>Logo no início da graduação, fui “capturada” pela demografia histórica por influência da professora Maria Luiza Marcílio, uma das responsáveis pela introdução e desenvolvimento dessa área no Brasil e na América Latina. No segundo ano, com uma bolsa de iniciação científica da FAPESP, passei a trabalhar no projeto “População, terra e herança na capitania de São Paulo”, cujo objetivo era entender como a elite paulista gerenciava seu patrimônio, casamentos e sucessões hereditárias entre o final do século XVIII e início do XIX.</p>
<p>Até hoje me emociono ao lembrar da primeira lista nominativa que li no Arquivo Público do Estado de São Paulo. As primeiras contagens populacionais realizadas pela Coroa portuguesa aconteceram no século XVI. No entanto, para aprimorar o controle sobre seus territórios, Portugal passou a elaborar, em meados do século XVIII, listas e mapas das populações de suas colônias na África e na América.</p>
<p>Produzidas até 1836, as listas da capitania de São Paulo trazem o número dos habitantes em cada vila, com nome, idade, cor e naturalidade, identificando ainda os chefes dos domicílios, agregados, dependentes e escravizados. Esses documentos constituem a mais importante coleção de levantamentos populacionais realizados na América portuguesa.</p>
<p>O assunto acabou inspirando minha pesquisa de mestrado, “Dinâmica familiar da elite paulista (1765-1836): Estudo diferencial de demografia histórica das famílias dos proprietários de grandes escravarias do Vale do Paraíba e região da capital de São Paulo”. Defendi a dissertação na USP, em 1987, sob orientação da professora Maria Luiza. Dois anos antes eu havia participado da criação do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina [Cedhal], idealizado por ela na USP.</p>
<p>Foi por meio do centro que tive oportunidade de concorrer a uma das bolsas do programa de doutorado do Instituto Universitário Europeu [EUI]. Minha proposta era comparar os padrões de casamentos luso-brasileiros. Em 1989, na companhia do meu marido, Dario, embarquei para Florença, onde fica a sede do instituto. Os três anos que passei na Itália foram permeados por frequentes estadas em Portugal, nas cidades do Porto, Braga e Guimarães. Por conta da riqueza das fontes que encontrei na Europa, desisti da proposta inicial de fazer uma análise comparada e privilegiei na tese o lado português da pesquisa.</p>
<p>Terminado o período da bolsa do EUI, fiquei por alguns meses na Universidade do Minho, em Portugal, com uma bolsa do Instituto Camões. Até que, em 1992, engravidei de Thaís e decidimos voltar ao Brasil, sem eu ter defendido o doutorado.</p>
<p>Anos depois, em 1996, recebi um convite para participar de um projeto no então recém-criado Núcleo de Estudos de População e Sociedade [Neps], na Universidade do Minho, em Portugal. Minha nova estada na Europa culminou com a defesa da minha tese de doutorado “Famílias, formas de união e reprodução social no noroeste português, séculos XVIII e XIX”, junto ao Departamento de História e Civilização do EUI, em 1998.</p>
<div id="attachment_585026" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img decoding="async" class="wp-image-585026 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-itinerarios-Ana-Scott-familia-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="1071" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-itinerarios-Ana-Scott-familia-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-itinerarios-Ana-Scott-familia-2026-06-800-250x335.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-itinerarios-Ana-Scott-familia-2026-06-800-700x937.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-itinerarios-Ana-Scott-familia-2026-06-800-120x161.jpg 120w" sizes="(max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Arquivo pessoal</span>Com o marido, Dario, e a filha, Thaís, em 2006; e com os gêmeos Anna Beatriz e Tomás Aramis, em 2014<span class="media-credits">Arquivo pessoal</span></p></div>
<p>De volta ao Brasil, atuei como professora visitante no Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá [UEM], no Paraná, entre 2000 e 2002. E, a partir de 2003, comecei a participar como pesquisadora do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas [<a href="https://www.nepo.unicamp.br/nacaob/app/" target="_blank" rel="noopener">Nepo-Unicamp</a>].</p>
<p>Em 2005, fomos para São Leopoldo [RS] depois que fui aprovada em concurso para ser professora no Programa de Pós-graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, a Unisinos. Os primeiros anos foram muito felizes: criei um grupo de estudo, exatamente como havia aprendido com a professora Maria Luiza, na USP, e começamos a alimentar um banco de dados [Nacaob] sobre as famílias gaúchas no período colonial.</p>
<p>Eu contava com a colaboração de Dario, que acabou se tornando também um parceiro acadêmico. Por minha “culpa”, ele, que vinha da área de informática, se envolveu na década de 1980 com os desafios de organizar bancos de dados da demografia histórica, passando a colaborar como pesquisador no Cedhal. Em 2020, defendeu seu doutorado em demografia, na Unicamp, com um trabalho sobre a mortalidade da população livre e escravizada em Porto Alegre.</p>
<p>A história de nossa família é marcada por uma tragédia. Em julho de 2007, a Unisinos sediou o simpósio da Associação Nacional de História [Anpuh], o maior encontro brasileiro da área. Por conta disso, Thaís embarcou com uma amiga, Rebeca, em Porto Alegre, para passar férias com os avós em São Paulo. Elas estão entre as 199 vítimas fatais do acidente com a aeronave da TAM no aeroporto de Congonhas, na capital paulista. Tinham 14 anos.</p>
<p>A maneira que encontrei para lidar com uma perda tão brutal foi transformar o trabalho em refúgio. Passava dias inteiros na universidade. Em meio ao processo de luto, veio um convite da editora Contexto para escrever um dos livros da coleção Povos e Civilizações. Em 2010, publiquei <em>Os portugueses</em>, obra em que revisito os grandes ciclos de expansão, crise e reinvenção atravessados por esse povo.</p>
<p>E foi essa palavra, reinvenção, que me guiou quando, aos 48 anos, decidi iniciar um tratamento de fertilidade. Em nome de tudo de bom que vivemos com a Thaís, sentimos que era preciso criar outras memórias. Engravidei já na primeira tentativa de inseminação e, em 2010, chegaram os gêmeos Anna Beatriz e Tomás Aramis.</p>
<p>Iniciei uma nova etapa profissional em 2015, quando fui aprovada em concurso do Departamento de Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas [IFCH] da Unicamp. Pude retomar também meu vínculo como pesquisadora do Nepo e, desde então, parcerias com colegas do departamento e do núcleo têm possibilitado minha inserção em estudos populacionais.</p>
<p>Um deles é o projeto de pesquisa “Regiões: História social das desigualdades no Brasil”, vinculado ao programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [INCT-CNPq], que investiga como processos históricos de longa duração, articulados ao espaço regional brasileiro, produziram e mantêm as desigualdades sociais nos dias de hoje. O outro é o temático FAPESP, “Dinâmicas de incorporação, mobilidade social e dominação no oeste paulista, 1850-1950”, que se debruça sobre diferentes estratos populacionais daquele período.</p>
<p class="bibliografia">A reportagem acima foi publicada com o título “<strong>Histórias de família</strong>” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O médico que fortaleceu a estatística no Brasil</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/o-medico-que-fortaleceu-a-estatistica-no-brasil/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-medico-que-fortaleceu-a-estatistica-no-brasil</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Suzel Tunes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:26:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Demografia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Inovação]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
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					<description><![CDATA[No início do século XX, Bulhões Carvalho implementou novos métodos de trabalho e lançou as bases do IBGE]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em 9 de maio de 1826, como resultado dos debates da primeira legislatura do Brasil imperial, definiu-se a criação de uma Comissão de Estatística, sob o argumento irrefutável do senador Francisco de Assis Mascarenhas (1779-1843): “Sem termos a estatística, como conheceremos o Brasil?”. Nascia assim, oficialmente, a área de estatísticas oficiais, definida posteriormente como a produção e disseminação de informações por agências governamentais, com base em regulamentos administrativos, conceitos e definições apropriados, como forma de auxiliar o planejamento, a execução e o acompanhamento de políticas públicas. Por muito tempo, porém, o país continuaria praticamente desconhecido para seus gestores, após fazer censos incompletos ou inteiramente fracassados.</p>
<p>O Censo de 1920 seria um ponto de inflexão nesse cenário devido ao trabalho do médico e demógrafo José Luiz Sayão de Bulhões Carvalho (1866-1940) à frente da Diretoria Geral de Estatística (DGE). “Ele foi o responsável pelo primeiro censo realmente bem-sucedido, resultado de um trabalho hercúleo, após cinco anos de preparação”, destaca o historiador Leandro Malavota, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), instituição formalizada em 1938, que herdou o acervo do DGE.</p>
<div id="attachment_585052" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img decoding="async" class="wp-image-585052 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="1033" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-2026-06-800-250x323.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-2026-06-800-700x904.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-2026-06-800-120x155.jpg 120w" sizes="(max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Academia Nacional de Medicina / Wikimedia Commons</span>Bulhões Carvalho<span class="media-credits">Academia Nacional de Medicina / Wikimedia Commons</span></p></div>
<p>Até então, o país nunca havia planejado tão minuciosamente um recenseamento da população e da economia e nunca o fizera de forma tão ampla, ressalta o economista Nelson de Castro Senra, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence-IBGE) e autor de artigos e livros sobre a história da estatística no Brasil e Bulhões Carvalho.</p>
<p>“A visão que ele tinha da estatística era muito moderna para a época”, afirma Senra. Segundo ele, foram promovidas iniciativas pioneiras, das quais a mais importante foi a unificação do trabalho estatístico a partir da organização da coleta de dados dos estados e municípios, sob a coordenação do DGE. “Bulhões Carvalho convenceu governadores, presidentes de província e chefes de setores estatísticos dos estados a trabalharem com ele. Até então não se produzia estatística em uníssono.” O demógrafo fez palestras de esclarecimento sobre o censo e conseguiu o apoio da imprensa e da igreja na divulgação para a população. Na tabulação dos dados coletados, utilizou o que havia de melhor em tecnologia, as máquinas Hollerith.</p>
<p>A tabuladora mecânica criada pelo norte-americano Herman Hollerith (1860-1929) era usada no Census Bureau, principal agência estatística federal norte-americano, desde o fim do século XIX. No Brasil, a máquina – que acabaria se tornando mais conhecida pela emissão de comprovantes de rendimentos, convertendo o nome Hollerith em sinônimo de contracheque – foi essencial para o tratamento eficiente dos dados censitários dentro do prazo previsto.</p>
<p>Outra inovação do Censo de 1920 foi a apresentação dos resultados, com o uso de recursos visuais como gráficos, mapas, fotografias e ilustrações didáticas (<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/radiografia-do-campo/" target="_blank" rel="noopener"><em>ver</em> Pesquisa FAPESP <em>nº 289</em></a>). De acordo com Senra, o emprego desses recursos já era conhecido em outros países; no Brasil, foi introduzido por Bulhões Carvalho.</p>
<p>O próprio demógrafo justificou a escolha do recurso gráfico em seu livro <em>Estatística: Método e aplicação </em>(Tipografia Leuzinger, 1933): “A utilidade dos gráficos para esclarecer ou ilustrar as estatísticas é hoje universalmente reconhecida [&#8230;]. Uma simples curva, um pontilhado, a combinação de linhas coloridas, ou de colunas de vários matizes, tornam visível a influência numérica de certos fatos sociais. Suprem, às vezes, por uma noção precisa, instantânea e quase intuitiva, o comentário dos algarismos, não raro longo e enfadonho. Particularizam detalhes, dando ao mesmo tempo a ideia do conjunto”.</p>
<div id="attachment_585072" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585072 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-populacao-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="892" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-populacao-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-populacao-2026-06-1140-250x196.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-populacao-2026-06-1140-700x548.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-populacao-2026-06-1140-120x94.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo do IBGE</span>Uma das inovações do Censo de 1920 foi o esmero nas ilustrações<span class="media-credits">Acervo do IBGE</span></p></div>
<p>Os gráficos do Censo de 1920 foram também ampliados em grandes quadros e exibidos na <em>Exposição universal comemorativa do centenário da Independência</em>, no Pavilhão da Estatística, em 1922. A imprensa da época apelidou o local de “Pavilhão da Ciência da Certeza”.</p>
<p>Bulhões Carvalho nunca foi um estatístico graduado – o primeiro curso de formação universitária em estatística no Brasil surgiria apenas em 1953, com a criação da Ence. Ele era um médico – mais especificamente, um demógrafo sanitarista. Carioca, formou-se em 1888 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Nessa época, a estatística já era bastante usada no estudo e combate de epidemias, como febre amarela, varíola e peste bubônica.</p>
<p>Em 1892, ele entrou para o serviço público como comissário da Inspetoria Geral de Higiene Pública. No ano seguinte, passou para o cargo de auxiliar na Seção de Demografia, sob a coordenação do médico Aureliano Portugal (1851-1924), pioneiro em demografia sanitária no Brasil, com quem teve um treinamento prático nessa área. Também em 1893 ele começou a publicar artigos na revista <em>Brasil-Médico</em> sobre as condições sanitárias da cidade do Rio de Janeiro. Em 1894, ocupou seu primeiro cargo de chefia, à frente da Seção de Demografia do recém-criado Instituto Sanitário Federal. Em um de seus relatórios, ele detalhou, com dados estatísticos, as razões da alta mortalidade pela peste bubônica, febre amarela e varíola.</p>
<div id="attachment_585048" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585048 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-sexo-estado-civil-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="416" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-sexo-estado-civil-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-sexo-estado-civil-2026-06-1140-250x91.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-sexo-estado-civil-2026-06-1140-700x255.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-sexo-estado-civil-2026-06-1140-120x44.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo do IBGE</span>As análises populacionais indicaram que no início do século XX a expectativa média de vida era de 34,5 anos, menos da metade que os 76,6 de hoje<span class="media-credits">Acervo do IBGE</span></p></div>
<p>Em 1907, assumiu o comando da DGE sob grandes expectativas. A estatística brasileira tinha, então, um histórico de lacunas e insucessos que o órgão tentava superar desde que fora criado, em 1871. Em 1852, um censo instituído juntamente com a obrigatoriedade de registro civil despertara um levante popular, especialmente em Pernambuco e Alagoas, que ficaria conhecido como Revolta dos Marimbondos. Dizia-se que o governo pretendia escravizar homens pobres livres e reescravizar libertos. Segundo Senra, em seu livro <em>Uma breve história das estatísticas brasileiras (1822-2002)</em> (IBGE, 2009), “o povo, armado de ‘bacamartes, chuços, cacetes e facões’, gritava contra a lei e ameaçava as autoridades”. O governo imperial recuou e suspendeu a aplicação dos decretos.</p>
<p>O primeiro e único censo do Império ocorreu em 1872, já sob a gestão da DGE, criada para esse fim. O Brasil acabava de sair da Guerra do Paraguai (1864-1870), que havia revelado, de forma contundente, a carência de informações: faltavam dados sobre recursos humanos, estoques de alimentos e cartografia confiável, essenciais aos esforços de guerra. Segundo Malavota, os resultados desse censo foram considerados razoáveis, dada a inexperiência e a falta de recursos técnicos.</p>
<div id="attachment_585068" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585068 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-censo-1950-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="735" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-censo-1950-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-censo-1950-2026-06-1140-250x161.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-censo-1950-2026-06-1140-700x451.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-censo-1950-2026-06-1140-120x77.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo do IBGE</span>Jipe de campanha de divulgação do Censo de 1950<span class="media-credits">Acervo do IBGE</span></p></div>
<p>Em 1890, foi feito o Recenseamento Geral da República. Em meio à instalação de um novo regime, as instabilidades políticas, com levantes em várias partes do país, desorganização administrativa e falta de recursos comprometeram a qualidade do trabalho. E o Censo de 1900 seria ainda pior, como resultado da falta de recursos humanos e financeiros. “No Distrito Federal, teve de ser anulado, pela falta de confiabilidade”, relata o historiador. Foi necessário refazer o trabalho no Distrito Federal [Rio de Janeiro] em 1906; Bulhões participou da comissão organizadora desse novo recenseamento, antes mesmo de assumir a direção da DGE, no ano seguinte. “Ele entrou com a missão de fazer uma ampla reforma na DGE e estabelecer um sistema estatístico efetivo”, diz Malavota. Ao se aproximar o centenário da Independência, havia também uma pressão social, expressa sobretudo pela imprensa, por dados confiáveis que refletissem a realidade do país – o que explica o prestígio conquistado pelo organizador do Censo bem-sucedido de 1920.</p>
<p>Em 1925, Bulhões Carvalho participou, em Roma, da 16ª reunião do International Statistical Institute (ISI), na qual relatou o trabalho feito no Censo de 1920. Dois anos depois, em outra reunião do ISI, no Cairo, Egito, fez uma exposição sobre acidentes no trabalho e registro civil de óbitos e nascimentos no Brasil. Ele ainda planejou um recenseamento em 1930, que não se concretizou devido à revolução que encerrou a Primeira República. A DGE foi extinta pelo governo Vargas, em 1931, e o demógrafo sanitarista resolveu se aposentar do serviço público. Mas continuou como nome de referência para o setor.</p>
<div id="attachment_585064" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585064 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-censo-1940-celular-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="585" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-censo-1940-celular-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-censo-1940-celular-2026-06-1140-250x128.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-censo-1940-celular-2026-06-1140-700x359.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-censo-1940-celular-2026-06-1140-120x62.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo do IBGE | Tânia Rêgo / Agência Brasil</span>O intenso trabalho manual, como no Censo de 1940, diminuiu com o atual uso do celular na coleta de dados<span class="media-credits">Acervo do IBGE | Tânia Rêgo / Agência Brasil</span></p></div>
<p>O demógrafo morreu em 1940 e nunca se casou ou teve filhos. O advogado e estatístico Mário Augusto Teixeira de Freitas (1890-1956), idealizador e primeiro secretário-geral do IBGE, e o advogado e diplomata José Carlos de Macedo Soares (1883-1968), então presidente do IBGE, pediram a Getúlio Vargas (1882-<br />
-1954) para que os sobrinhos dos quais ele cuidava desde a morte do irmão fossem nomeados seus herdeiros. “Esse fato reflete o prestígio que Bulhões conservou com esse grupo”, relata Malavota.</p>
<p>Segundo Senra, o primeiro censo realizado pelo IBGE, em 1940, dois anos após a criação da instituição, “seguia muito de perto os passos de Bulhões adotados no Censo de 1920”. Seu legado não foi apenas a metodologia sistematizada em um manual de 603 páginas: “Ficou também a crença na importância das informações estatísticas como subsídio fundamental para o exercício do poder do Estado e para a tomada de decisões da sociedade”, ressalta Malavota.</p>
<div id="attachment_585044" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585044 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-sao-paulo-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="747" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-sao-paulo-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-sao-paulo-2026-06-1140-250x164.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-sao-paulo-2026-06-1140-700x459.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RFP-memoria-bulhoes-sao-paulo-2026-06-1140-120x79.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Folhapress</span>Jipes utilizados no Censo de 1950 para chegar aos bairros periféricos da cidade de São Paulo<span class="media-credits">Folhapress</span></p></div>
<p>Segundo o historiador, Bulhões Carvalho e Teixeira de Freitas consolidaram o conceito que perdura até hoje como diretriz do IBGE: a natureza pública das informações. “Eles reconheciam as informações como bens públicos, que devem resultar em benefício para a população, justificando o investimento do Estado”, afirma. Decorre desse conceito o compromisso de divulgação dos dados coletados, expresso no regulamento da DGE, criado por Bulhões. O artigo 7º desse regulamento já trazia a proposta de criação regular de anuários e boletins. “Ele foi pioneiro não apenas na produção, mas na disseminação das informações”, diz o historiador.</p>
<p>Atualmente funcionam no Brasil 35 cursos de graduação em estatística e estima-se em cerca de 15 mil profissionais especializados nessa área em atuação no país. Hoje, com o auxílio da tecnologia, a estatística vislumbra um passo além da divulgação: a interpretação das informações obtidas, visando à elaboração de políticas públicas. Esse é um dos objetivos do projeto liderado pelo matemático Paulo de Martino Jannuzzi, professor da Ence-IBGE e diretor do Centro de Colaboração Interinstitucional de Inteligência Artificial Aplicada às Políticas Públicas (Ciap). “Temos muita informação hoje; vivemos o paradoxo da escassez de conhecimentos na abundância de dados. Os gestores precisam de um facilitador da interpretação desses dados e a IA pode ser uma grande aliada nesse sentido”, afirma.</p>
<p>Com a parceria da Universidade Federal de Goiás (UFG) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além do apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), Januzzi tem empregado recursos de IA na formação de um acervo de políticas públicas e na criação de uma ferramenta de consulta destinada a gestores. Segundo ele, uma das vertentes do projeto é oferecer um serviço de respostas técnicas, a partir do emprego da IA generativa, capaz de gerar conteúdos, como textos, imagens, vídeos e áudios. Denominada <a href="https://ciap.org.br/chatpp" target="_blank" rel="noopener">ChatPP</a>, Assistente de Inteligência Artificial para Políticas Públicas, essa ferramenta vem sendo alimentada com um acervo de boas práticas em gestão pública construído a partir de artigos, publicações de eventos e projetos de extensão de universidades.</p>
<p class="bibliografia">A reportagem acima foi publicada com o título “<strong>As bases da estatística no Brasil</strong>” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Artigo científico</strong><br />
SENRA, N. de C. <a href="https://seer.ufrgs.br/estatisticaesociedade/article/view/88248/50689" target="_blank" rel="noopener">Da DGE até hoje, com o IBGE, uma sucessão em linha reta</a>. <strong>Estadística y Sociedad</strong>. n. 5, p. 56-81. nov. 2018.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Livros</strong><br />
SENRA, N. de C. (org.) <a href="https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv36869.pdf" target="_blank" rel="noopener"><strong>Bulhões Carvalho, um médico cuidando da estatística brasileira</strong></a>. Rio de Janeiro: IBGE, 2007.<br />
SENRA, N. de C. <a href="https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=242899" target="_blank" rel="noopener"><strong>Uma breve história das estatísticas brasileiras (1822-2002)</strong></a>. Rio de Janeiro: IBGE, 2009.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Novas edições recuperam textos originais de Graciliano Ramos</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/novas-edicoes-recuperam-textos-originais-de-graciliano-ramos/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=novas-edicoes-recuperam-textos-originais-de-graciliano-ramos</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Beatriz Rangel]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:18:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://revistapesquisa.fapesp.br/?p=585077</guid>

					<description><![CDATA[Manuscritos evidenciam o trabalho detalhista do escritor alagoano, autor de clássicos como <em>Vidas secas</em> e <em>S. Bernardo</em>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em <em>S. Bernardo</em>, romance publicado originalmente em 1934, Graciliano Ramos (1892-1953) narra os conflitos existenciais que acompanham a ascensão de um trabalhador pobre do sertão a proprietário de terra. Em 2026, o título ganhou nova edição pela Todavia, organizada por Thiago Mio Salla, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Estudioso da obra do escritor alagoano há duas décadas, ele é autor de livros como <em>Graciliano Ramos e a cultura política </em>(Edusp, 2016), fruto de sua tese de doutorado defendida em 2010 na USP. Ambos tiveram apoio da FAPESP.</p>
<p><em>S. Bernardo</em> não é o único a receber novos olhares editoriais. A entrada em domínio público da obra de Graciliano em janeiro de 2024 vem impulsionando uma série de reedições de seu legado literário, que inclui quatro romances, dois livros memorialísticos, um relato de viagem, três volumes infantojuvenis, três coletâneas de contos, além de textos avulsos em prosa e verso publicados na imprensa entre os anos 1900 e 1950. As pesquisas em torno do tema têm contribuído para essa iniciativa. É o caso de Salla que, organizou, além de <em>S. Bernardo</em>, outras três novas edições de Graciliano pela Todavia: os romances <em>Vidas secas </em>(1938) e<em> Angústia </em>(1936) e o infantojuvenil inédito <em>Os filhos da coruja</em>, baseado em poema escrito na década de 1920 e publicado em 2024.</p>
<p>“Em relação a <em>Vidas secas</em>, assim como acontece com <em>Angústia</em> e <em>S. Bernardo</em>, procuramos corrigir os erros acumulados ao longo das sucessivas edições, o que demandou um trabalho de cotejo do original e de outras 12 versões do texto. As alterações foram detalhadas em notas de rodapé e nas notas finais para quem quiser se aprofundar”, explica Salla. As imprecisões corrigidas vão desde a distribuição dos parágrafos e erros gramaticais até a troca de palavras, como é o caso da substituição, no primeiro parágrafo do livro, do verbo “aparecer” no original por “parecer” nas edições à venda até a entrada da obra de Graciliano em domínio público. “Esse tipo de alteração pode levar a equívocos de interpretação”, argumenta o pesquisador.</p>
<p><em>Vidas secas</em>, romance que narra a saga de uma família atravessando as misérias do sertão, tornou-se um clássico da literatura nacional e um sucesso de vendas. “Graciliano é um autor que entra em domínio público com alto potencial comercial, o que naturalmente atrai as editoras. Esse processo amplia a circulação da obra e multiplica as edições; minha preocupação foi preservar a versão mais fiel do texto”, prossegue Salla.</p>
<p>Mario Santin Frugiuele, gerente editorial da Todavia e responsável por conduzir o projeto de reedição das obras de Graciliano realizado por Salla, concluiu o doutorado em filologia e língua portuguesa na USP com uma tese dedicada ao autor alagoano. “Quando iniciei a pesquisa, em 2018, já tinha em vista a entrada da obra em domínio público, em 2024, e a preocupação de que, quando isso ocorresse, houvesse uma edição mais fidedigna à vontade do autor”, conta.</p>
<p>A tese do pesquisador, “Os manuscritos de <em>Vidas secas</em>: A gênese”, analisa o clássico de Graciliano pelo viés da crítica genética. Campo teórico-metodológico, a crítica genética nasceu na França entre as décadas de 1970 e 1980. Seu propósito original é reconstituir o processo de criação de uma obra literária a partir dos vestígios deixados pelo autor, embora hoje essa abordagem seja empregada também em outras formas de expressão artística, como pintura, peça de teatro e roteiro cinematográfico.</p>
<p>No caso de Graciliano, conhecido por revisar obsessivamente os próprios textos, riscando palavras até quase torná-las ilegíveis, o trabalho de pesquisa exigiu uma verdadeira “autópsia” da escrita. “Examinei os manuscritos em mesa de luz e recorri à lupa, à luz infravermelha e outros recursos disponíveis para identificar os traços da grafia. Isso me permitiu compreender em profundidade as rasuras de Graciliano e o modo como desenhava cada letra”, conta Frugiuele. “Inicialmente, ele faz um texto mais derramado, com uso frequente de palavras como ‘coitada’ ou ‘coitadinha’ para descrever a família de retirantes. Os cortes que realizou e que caracterizaram seu estilo conciso e direto fizeram do texto uma obra-prima.”</p>
<div id="attachment_585114" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585114 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-pagina-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="1100" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-pagina-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-pagina-2026-06-800-250x344.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-pagina-2026-06-800-700x963.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-pagina-2026-06-800-120x165.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – PRCEU / USP</span>Frontispício da prova tipográfica da primeira edição de <em>Vidas secas</em> (1938); durante a revisão do documento, Graciliano riscou a opção anterior de título, <em>O mundo coberto de penas</em><span class="media-credits">Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – PRCEU / USP</span></p></div>
<p>Entre as emendas feitas por Graciliano em <em>Vidas secas</em>, identificadas pela análise genética do manuscrito, destaca-se uma que evidencia a consciência do autor sobre o peso do sistema escravista na construção das imagens evocadas pelo personagem Fabiano. Na frase “Vivia trabalhando como um condenado”, presente no capítulo “Cadeia”, o autor substituiu “condenado” por “escravo”. Segundo Edilson Dias de Moura, doutor em literatura pela USP e autor de <em>Graciliano: Romancista, homem público, antirracista</em> (Edições Sesc, 2023), esse não é um caso isolado. “A presença de imagens do homem negro e escravizado no romance é recorrente e intencional, mas, até muito recentemente, foi pouco observada”, constata.</p>
<p>De acordo com Moura, parte da crítica contemporânea tende a enfatizar os aspectos racistas no léxico empregado por Graciliano em seus romances. O pesquisador argumenta, contudo, que essa leitura não deve ser dissociada de uma análise da trajetória do escritor alagoano como funcionário público. “O uso de certas expressões racistas integra o léxico corrente da época e dialoga com as teorias eugenistas que marcaram a formação de Graciliano, mas que ele progressivamente abandona e passa a refutar ao longo dos anos. Em sua trajetória pública, ao contrário, ele atua pela inclusão da população negra.”</p>
<p>Em 1933, quando esteve à frente do Departamento de Instrução Pública de Alagoas, Graciliano promoveu Irene Braga de Miguel Garrido, professora negra que trabalhava no interior do estado, ao cargo de diretora escolar na capital, Maceió. “A gestão de Graciliano na educação alagoana proporcionou gradualmente uma maior inclusão nas escolas. Durante sua gestão, instituiu-se um programa de merenda escolar, medida que, como ele próprio registrou em relatórios, impulsionou o número de matrículas de crianças negras”, afirma Moura.</p>
<p>O percurso de Graciliano no funcionalismo público não foi apenas uma função paralela à vida de escritor, mas o terreno em que despontaram suas primeiras incursões literárias. Em um relatório publicado em 1928, quando era prefeito de Palmeira dos Índios (AL), escreveu: “Constava a existência de um código municipal, coisa inatingível e obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao espiritismo, convenci-me de que o código era uma espécie de lobisomem”.</p>
<p>O tom sarcástico, incomum à linguagem burocrática dos relatórios, era uma marca de Graciliano e contribuiu para projetá-lo como escritor, segundo Moura. Pelo uso singular de uma prosa marcada por humor e ironia, esses textos escritos para a prefeitura de Palmeira dos Índios passaram a circular na imprensa carioca e nos meios intelectuais, impulsionando a publicação de seu primeiro romance, <em>Caetés</em>, em 1933, pela Schmidt Editora.</p>
<p>A relação entre a obra literária de Graciliano e sua atuação como funcionário público – primeiro como prefeito (1928-1929) e depois como diretor da Imprensa Oficial de Alagoas (1930-1931) – é analisada por Salla no artigo “Entre a escrita e a escrituração: A prosa de guarda-livros de Graciliano Ramos”. O texto integra um dossiê dedicado ao escritor, organizado pelo pesquisador e publicado na <em>Revista USP</em> em 2025. “É possível encontrar o embrião de romances que ele escreveria mais tarde nesses relatórios, pois, enquanto ainda não tinha livros publicados, era ali que o seu estilo encontrava espaço para se manifestar”, observa Salla.</p>
<p>Embora ainda não fosse filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o que só ocorreria em 1945, a notoriedade de seus relatórios e das ações progressistas como funcionário público despertou suspeitas entre os agentes que trabalhavam na repressão do governo Getúlio Vargas (1930-1945). Havia a suspeita quanto a um possível envolvimento do escritor na Intentona Comunista, rebelião político-militar que visava destituir o poder vigente. Ainda que tal envolvimento não se confirmasse e não houvesse nenhuma acusação formal, Graciliano permaneceu preso no Rio de Janeiro por 11 meses, entre 1936 e 1937. A experiência deu origem ao livro <em>Memórias do cárcere</em>, cuja escrita iniciada em 1946 foi interrompida em 1953 com a morte do autor, sendo publicado, no mesmo ano, pela editora José Olympio.</p>
<p>Fabio Cesar Alves, professor de literatura brasileira da USP, sustenta que essa obra mostra uma faceta menos conhecida de Graciliano. “Ele é frequentemente associado à alcunha de ‘escritor da seca’, mas há também um lado mais dostoievskiano, voltado à investigação das profundezas do ser. Essa dimensão aparece tanto em <em>Memórias do cárcere</em> quanto em livros como <em>Angústia </em>ou <em>Infância</em>, que costumam ser menos explorados”, afirma Alves, um dos organizadores do livro <em>Graciliano Ramos, a paixão medida: Ensaios de interpretação da obra </em>(Hucitec, 2025).</p>
<div id="attachment_585086" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585086 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-amaral-gurgel-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="765" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-amaral-gurgel-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-amaral-gurgel-2026-06-1140-250x168.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-amaral-gurgel-2026-06-1140-700x470.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-amaral-gurgel-2026-06-1140-120x81.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Guilherme Gurgel / acervo da Família Amaral Gurgel / Wikimedia Commons</span>O escritor, em 1949, com o radialista Amaral Gurgel, responsável pela adaptação do livro <em>S. Bernardo</em> para a Rádio Globo<span class="media-credits">Guilherme Gurgel / acervo da Família Amaral Gurgel / Wikimedia Commons</span></p></div>
<p>O pesquisador avalia que o teor confessional da obra pode ser atrativo no atual protagonismo da autoficção – gênero que mistura autobiografia com ficção – no cenário literário. No entanto, ele ressalta que o autor alagoano oferece uma experiência distinta aos leitores contemporâneos. “Hoje, há uma demanda do público e uma expectativa dos escritores por uma subjetividade plena e transparente”, diz. “Porém a escrita confessional de Graciliano apresenta um eu esgarçado, marcado pela repressão, e, ao mesmo tempo, atento ao entorno, sempre filtrado pelo olhar do outro. Em <em>Memórias do cárcere</em>, por exemplo, ele se recusa a se chamar pelo próprio nome.”</p>
<p>O caráter subjetivo dos conflitos vividos na prisão, explorados por Graciliano no livro, é apontado por Alves como um dos fatores que explicam a recepção discreta da obra na imprensa comunista da época. Ao relatar o pedido de desculpas de um capitão do Exército após um desentendimento durante o período de detenção, o escritor admite rever sua visão sobre os militares: “O meu juízo a respeito dos militares desmoronava-se, um sujeito de farda aplicara-me lição bem rude”, escreve. Segundo Alves, a perspectiva apresentada na obra não é puramente ideológica nem dogmática e os personagens reais aparecem em suas nuances existenciais. “Além disso, ele não se furta a fazer críticas aos rumos que o PCB vinha tomando, o que certamente não agradou a seus dirigentes”, afirma o pesquisador.</p>
<p>Com a entrada da obra de Graciliano em domínio público, <em>Memórias do cárcere </em>também ganhou nova edição pela Penguin-Companhia das Letras, em 2025. De forma inédita, o volume reúne 11 capítulos reescritos pelo autor para publicação na imprensa e foi organizado pela crítica literária Ieda Lebensztayn, que pesquisou o autor no mestrado, no doutorado e no pós-doutorado na USP, com apoio da FAPESP. Trata-se de versões diferentes das publicadas originalmente em 1953 e que serviram de base para as edições posteriores. Para estabelecer o novo texto, Lebensztayn, além de ter localizado os 11 capítulos reescritos, cotejou os originais publicados pela José Olympio e os datiloscritos corrigidos pelo próprio escritor, preservados na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. O trabalho permitiu identificar três passagens ausentes nas versões em circulação até agora.</p>
<p>Atualmente, Lebensztayn trabalha em parceria com Salla na edição da correspondência inédita de Graciliano com outros escritores, como Jorge Amado (1912-2001). Os pesquisadores encontraram as cartas em diferentes arquivos pelo Brasil, entre eles o do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, que guarda mais de 15 mil documentos relacionados ao autor. O material deve ser publicado em 2026. “Ao longo desse trabalho, foi possível compreender a obsessão de Graciliano por aprimorar o texto, o que pode ser visto, em um primeiro momento, como um desejo de comunicação com o público”, analisa a crítica literária. “Mas acredito que essa obstinação em ‘consertar’ a escrita também funciona como um reflexo formal do seu desejo de corrigir as injustiças e desigualdades do mundo, marcas que atravessam toda a sua obra.”</p>
<div id="attachment_585090" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585090 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-livros-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="466" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-livros-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-livros-2026-06-1140-250x102.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-livros-2026-06-1140-700x286.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-graciliano-ramos-livros-2026-06-1140-120x49.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Reprodução</span>Novas edições da obra de Graciliano publicadas pela Todavia (<em>as três primeiras, a partir da esquerda</em>) e pela Penguin-Companhia das Letras<span class="media-credits">Reprodução</span></p></div>
<p class="bibliografia">A reportagem acima foi publicada com o título “<strong>Em busca do texto perdido</strong>” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Projeto</strong><br />
O estilo de Graça nas cartas: Organização e estudo da Série Correspondência Graciliano Ramos no Instituto de Estudos Brasileiros – USP (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/bolsas/61106/o-estilo-de-graca-nas-cartas-organizacao-e-estudo-da-serie-correspondencia-graciliano-ramos-no-inst/?q=10/12034-9" target="_blank" rel="noopener">nº 10/12034-9</a>); <strong>Modalidade</strong> Bolsa de Pós-doutorado; <strong>Pesquisador responsável</strong> Marcos Antonio de Moraes (USP); <strong>Bolsista</strong> Ieda Lebensztayn</p>
<p class="bibliografia"><strong>Dossiê</strong><br />
SALLA, T. M. (org.). Dossiê Graciliano Ramos. <strong>Revista USP</strong>. São Paulo, n. 146, 2025.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Livros</strong><br />
ALVES, F. C. <strong>Armas de papel: Graciliano Ramos, as <em>Memórias do cárcere</em> e o Partido Comunista</strong>. São Paulo: Editora 34, 2016.<br />
ALVES, F. C. <em>et al</em> (orgs). <em>Graciliano Ramos, a paixão medida: Ensaios de interpretação da obra</em>. São Paulo: Hucitec, 2025.<br />
LEBENSZTAYN, I. <strong>Graciliano Ramos e a <em>novidade</em>: O astrônomo do inferno e os meninos impossíveis.</strong> São Paulo: Hedra, 2010.<br />
MOURA, E. D. de. <strong>Graciliano: Romancista, homem público, antirracista</strong>. São Paulo: Edições Sesc, 2023.<br />
SALLA, T. M. <strong>Graciliano Ramos e a cultura política: Mediação editorial e construção do sentido</strong>. São Paulo: Edusp, 2016.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Reagentes aceleram produção de proteínas sintéticas</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/reagentes-aceleram-producao-de-proteinas-sinteticas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=reagentes-aceleram-producao-de-proteinas-sinteticas</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carlos Fioravanti]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:15:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE)]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Biotecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Inovação]]></category>
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					<description><![CDATA[Kit reduz de semanas para horas o tempo de síntese de macromoléculas usadas em aplicações médicas e industriais]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A biomédica Thainá Rodrigues de Almeida segura uma delicada lâmina de gel e examina as marcas deixadas pelas proteínas que acabou de purificar, deixando-as prontas para uso. Como as alturas das marcas são diferentes, ela comenta, desconfiada, que talvez a purificação não tenha sido perfeita. Mais experiente nessa área, a médica-veterinária Iris Todeschini aproxima-se e a tranquiliza: os tamanhos distintos podem ser o resultado de um fenômeno chamado oligomerização, pelo qual estruturas menores se unem para formar uma maior, como vagões de um trem.</p>
<p>Elas estão em um dos laboratórios da Biolinker, uma startup de biotecnologia instalada em um parque industrial de Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo. De lá, segundo a fundadora da empresa, a bioquímica e médica-veterinária Mona Oliveira, já saíram cerca de 250 tipos de proteínas – como enzimas, anticorpos e vacinas animais – para grupos de pesquisa de empresas ou universidades de vários estados do país.</p>
<p>A categoria que mais dá orgulho à equipe, por causa de suas estruturas complexas, são os chamados fatores de crescimento, que induzem o desenvolvimento celular, e já são usados por produtores nacionais de carne de laboratório em substituição ao soro fetal bovino (<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/proteinas-vegetais-aprimoram-producao-de-carne-de-laboratorio/" target="_blank" rel="noopener"><em>ver</em> Pesquisa FAPESP <em>nº 343</em></a>). Custam caro: a versão importada para pesquisa do fator de crescimento epitelial (EGF) sai de R$ 3 mil a R$ 8 mil por micrograma (mcg, um milionésimo de grama) e para uso médico, mais purificada, de R$ 10 mil a R$ 30 mil por mcg. O fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), que estimula a formação de vasos sanguíneos, pode chegar a R$ 80 mil por mcg.</p>
<div id="attachment_585132" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585132 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-biolinker-gel-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="729" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-biolinker-gel-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-biolinker-gel-2026-06-1140-250x160.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-biolinker-gel-2026-06-1140-700x448.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-biolinker-gel-2026-06-1140-120x77.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP</span>O tamanho das colunas no gel indica o grau de purificação das proteínas<span class="media-credits">Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP</span></p></div>
<p>A Biolinker desenvolveu um sistema de inteligência artificial (IA) que facilita o planejamento e a produção de proteínas materializado em um kit de quatro tubos com 3 centímetros (cm) de altura. O rendimento da primeira versão do kit, lançada em 2020, já com ingredientes liofilizados (em pó), era de 10 microgramas por litro (mcg/L); na mais recente, distribuída a partir de setembro de 2025, saltou para 500 mcg/L. O sistema foi apoiado por cerca de R$ 8 milhões de investidores privados, como o ex-CEO do iFood Fabricio Bloisi, de empresas como o Google e de órgãos públicos, como a FAPESP, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o programa Desenvolve São Paulo.</p>
<p>“Reduzimos o tempo de síntese proteica de 15 dias para algumas horas”, afirma Oliveira. É um tempo próximo do executado pelos organismos vivos: as células do pâncreas produzem insulina, formada por 51 aminoácidos, e a deixam pronta para uso em duas horas.</p>
<p>A concorrência, porém, é grande. As poucas fabricantes nacionais de proteínas por engenharia genética – como a Biolinker, a ApexZymes, de Campinas (SP), a ByMyCell e a FastBio, ambas de Ribeirão Preto (SP), cada uma com seu próprio perfil e alvos comerciais muitas vezes sobrepostos – convivem com um mercado competitivo. Nessa área, predominam as filiais de multinacionais e as importadoras de proteínas produzidas na China, nos Estados Unidos e na Europa. Apesar disso, as perspectivas de negócio são boas: em conjunto, o mercado nacional, considerando apenas as enzimas, responde por vendas anuais próximas a US$ 300 milhões, de acordo com levantamentos de duas empresas de consultoria, a Grand View Research e a MarkNtel Advisors, realizados em 2025.</p>
<p>É um mercado grande, apesar de essas macromoléculas serem estruturas minúsculas. Formadas por blocos conhecidos como aminoácidos, as proteínas são de 100 a 10 mil vezes menores que uma célula humana, formada por milhares de tipos diferentes dessa categoria de moléculas complexas. Elas medem em média 5 nanômetros (nm, 1 milionésimo do milímetro), embora as maiores cheguem a 8 nm. Enzimas como a alfa-amilase, lactase e celulase, de menor peso molecular, são essenciais para a produção de alimentos como leite sem lactose e vinhos, detergentes, papel e celulose, etanol, enquanto as de maior porte, como os anticorpos e hormônios, ajudam a salvar vidas.</p>
<p>Tanto o sistema de IA quanto o kit da Biolinker nasceram de processos internos, remodelados para atender a usuários externos. Financiada parcialmente pela Google, a plataforma de IA da empresa, Bioinformatic Agents for Integrated Operations (<a href="http://www.baiohub.com/" target="_blank" rel="noopener">bAIo</a>), integra ferramentas de bioinformática, facilita a confecção de sequências de DNA ou RNA que conduzem a produção de proteínas, determina sua estrutura e interações com outras moléculas em bases públicas de dados. “Já estamos com 140 usuários inscritos”, informa</p>
<p>Esse e outros programas, como o AlphaFold, da Google, e o RoseTTAFold, da Universidade de Washington, ambos nos Estados Unidos, elucidam pelo computador as estruturas de proteínas, normalmente identificadas por meio de técnicas caras e demoradas, como a cristalografia de raios X e a ressonância magnética nuclear. Tais aparelhos revelaram a conformação espacial de cerca de 170 mil proteínas, uma parcela pequena diante dos estimados 200 milhões de tipos produzidos continuamente pelos organismos vivos.</p>
<p>Já o kit consiste em uma técnica de produção de proteínas chamada <em>cell-free</em> (livre de células), usando DNA ou RNA, enzimas e ribossomos (estruturas celulares responsáveis pela síntese proteica), dispensando as próprias células. Ainda que os ribossomos necessitem de armazenamento e transporte sob temperaturas negativas, é um método rápido e flexível, usado mundialmente desde os anos 1960.</p>
<p>Cada fabricante tem seus próprios ingredientes, mas o princípio é o mesmo (<em>ver infográfico abaixo</em>). A Biolinker produz no Brasil o kit <em>cell-free</em>, geralmente importado de multinacionais como Thermo Fisher Scientific, GenScript, Synthelis e Synbio Technologies por um preço médio de R$ 5 mil.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-biolinker-2026-06-info-760.png" data-tablet_size="670x520" alt="Basta misturar: A técnica cell-free simplifica a produção de proteínas">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP</span>
<p>“Para pesquisa em pequena escala, de microgramas, e para ensino, o <em>cell-free </em>é fantástico. É simples e rápido, além de permitir a produção de proteínas que seriam tóxicas para as células, como as do coronavírus”, comenta a bióloga Danielle Pedrolli, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), <em>campus</em> de Araraquara, que não participou da pesquisa. “A restrição é que produz apenas uma quantidade limitada de proteínas, diferentemente da <em>E. coli</em> engenheirada, que poderia produzi-las continuamente e em quantidade maior.”</p>
<p>Pedrolli usou a técnica para identificar funções de moléculas específicas no interior das células e para construir sensores para vírus, permitindo sua detecção mesmo em baixas concentrações. Descritos em um artigo publicado em outubro de 2023 na <em>ACS Synthetic Biology</em>, esses sensores poderiam servir para diagnósticos médicos e detecção de contaminantes, a partir de amostras de sangue ou da água e do esgoto.</p>
<p>Em um estudo com o Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), o médico-veterinário Phelipe Vitale, cofundador da Biolinker, examina as interações entre os reagentes do kit em um aparelho de ressonância magnética nuclear. À medida que a pesquisa avança, ele saberá o que deve ser aprimorado para reduzir o tempo das reações. “Queremos ter o melhor <em>cell-free</em> do mundo”, almeja Oliveira.</p>
<p>Em outra pesquisa, que reforça essa meta, a equipe da empresa tenta produzir proteínas usando células vegetais de espécies brasileiras. Dotada de ribossomos maiores que os das células animais, as de plantas são a princípio capazes de oferecer um rendimento maior. “Está indo bem”, resume Oliveira. Sua previsão é oferecer essa técnica comercialmente a partir de 2028. Uma empresa alemã do grupo Europa Biosite já produz proteínas usando células de tabaco pelo método <em>cell-free</em>, com um rendimento 30 vezes maior que o dos métodos tradicionais.</p>
<div id="attachment_585120" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585120 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-biolinker-proteina-verde-fluorescente-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="593" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-biolinker-proteina-verde-fluorescente-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-biolinker-proteina-verde-fluorescente-2026-06-1140-250x130.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-biolinker-proteina-verde-fluorescente-2026-06-1140-700x364.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-biolinker-proteina-verde-fluorescente-2026-06-1140-120x62.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP</span>À esquerda, o kit de produção rápida de proteínas. À direita, a proteína verde fluorescente (GFP), usada como marcador de outras proteínas<span class="media-credits">Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP</span></p></div>
<p><strong>Ampliação </strong><br />
A Biolinker está ampliando a escala de produção. Em outro laboratório, a médica-veterinária Todeschini mostra um aparelho chamado sonicador. Com um formato semelhante a um <em>mixer</em> usado para triturar alimentos, ele gera frequências de ultrassom que rompem membranas celulares e libera as proteínas produzidas por engenharia genética em bactérias <em>E. coli</em>. “Com esse aparelho, fazíamos de 10 a 15 mililitros (mL) por vez”, ela conta. Em seguida, mostra com satisfação outro aparelho, fechado – o homogeneizador. “Resolveu nossa vida. Faz até 10 L por hora, embora não usemos tanto, porque as empresas compram no máximo 50 mL de proteínas por vez.”</p>
<p>Mais do que equipamentos, o que falta nessa área é mão de obra qualificada, na visão do engenheiro químico Luismar Marques Porto, professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diretor técnico da empresa de biotecnologia 4Wood Biotech e diretor executivo da consultoria Tubanharon Innovation Systems. “A formação de pessoal para trabalhar com proteínas no Brasil é precária. O ensino é muito compartimentalizado e os institutos pouco integrados.”</p>
<p>Ele conta que, em 2009, conseguiu um financiamento internacional para um projeto em biologia sintética, mas teve de desistir porque não conseguiu formar um grupo de pesquisa na UFSC, do qual seria o coordenador. “Em 2021, para formar a equipe da Divisão de Carne Cultivada da JBS, tive de buscar fora. Trouxe pesquisadores brasileiros que estavam nos Estados Unidos, em Singapura, na Noruega e em outros países para compor a equipe prevista no projeto”, relata. Em março de 2024, para viabilizar outros projetos, Porto deixou a JBS, que em março inaugurou em Florianópolis o JBS Biotech Innovation Center, com o propósito de produzir suplementos proteicos a partir de células semelhantes às do tecido muscular animal, para serem usados em bebidas ricas em proteínas – os <em>shakes</em> – e barras de cereais.</p>
<p>Para Pedrolli, não faltam especialistas. Segundo ela, tem havido um crescimento contínuo de especialistas formados no Brasil desde 2020. A Rede Brasileira de Biologia Sintética reúne cerca de 30 grupos de pesquisa espalhados por 18 instituições de todo o país, como detalhado em um artigo de 2025 na <em>ACS Omega</em>. “O que falta”, observa, “são boas ofertas de emprego para quem termina sua formação acadêmica”.</p>
<p>A despeito das dificuldades, a Biolinker faz planos. Para ampliar a produção e reforçar a equipe de vendas, a empresa, com 12 funcionários, conseguiu R$ 2,5 milhões e pretende conseguir mais R$ 13 milhões de investimento privado. Oliveira busca também parceiros globais. “Já andei pela Bélgica, Alemanha, Portugal, Arábia Saudita, Estados Unidos e Hong Kong”, ela conta. “Até o fim do ano reforçaremos nossa atividade internacional, hoje limitada à Colômbia e a Portugal.”</p>
<p class="bibliografia">A reportagem acima foi publicada com o título “<strong>Proteínas com rapidez</strong>” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Projetos</strong><br />
<strong>1.</strong> Estudo de estabilidade, reprodutibilidade e escalonamento dos kits de cell-free protein sintesis SynthEasy®&#xfe0f; (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/116316/estudo-de-estabilidade-reprodutibilidade-e-escalonamento-dos-kits-de-cell-free-protein-sintesis-synt/" target="_blank" rel="noopener">n° 23/09974-0</a>); <strong>Modalidade</strong> Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); <strong>Acordo</strong> de Cooperação Sebrae-SP; <strong>Pesquisador responsável</strong> Phelipe Augusto Mariano Vitale (Biolinker); <strong>Investimento</strong> R$ 1.097.076,71.<br />
<strong>2.</strong> Desenvolvimento de kits liofilizados para síntese de proteínas livres de células (CFPS), Syntheasy (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/106480/desenvolvimento-de-kits-liofilizados-para-sintese-de-proteinas-livres-de-celulas-cfps-syntheasy/" target="_blank" rel="noopener">n° 19/16625-6</a>); <strong>Modalidade</strong> Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); <strong>Pesquisadora responsável</strong> Natalia Marchesan Bexiga (Biolinker); <strong>Investimento</strong> R$ 137.561,67.<br />
<strong>3.</strong> BioApatIgG &#8211; diagnóstico sorológico de baixo custo e alta performance (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/106829/bioapatigg-diagnostico-sorologico-de-baixo-custo-e-alta-performance/" target="_blank" rel="noopener">n° 20/05023-2</a>); <strong>Modalidade</strong> Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); <strong>Acordo</strong> de Cooperação Finep &#8211; Pipe/Pappe Subvenção; <strong>Pesquisadora responsável</strong> Mona das Neves Oliveira (Biolinker); <strong>Investimento</strong> R$ 857.035,91.<br />
<strong>4.</strong> LuciSTARC sistema de bioluminescência para ambientes químicos complexos (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/111927/lucistarc-sistema-de-bioluminescencia-para-ambientes-quimicos-complexos/" target="_blank" rel="noopener">n° 22/13678-4</a>); <strong>Modalidade</strong> Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); <strong>Acordo</strong> de Cooperação Sebrae-SP; <strong>Pesquisadora responsável</strong> Mona das Neves Oliveira (Biolinker); <strong>Investimento</strong> R$ 449.452,75.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Artigos científicos</strong><br />
FRANCO, R. A. L. <em>et al.</em> <a href="https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acssynbio.3c00227" target="_blank" rel="noopener">Signal amplification for cell-free biosensors, an analog-to-digital converter</a>. <strong>ACS Synthetic Biology</strong>. v. 12, n. 10. 4 out. 2023.<br />
SANTOS, L. V. <em>et al.</em> <a href="https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acsomega.5c03077https:/pubs.acs.org/doi/10.1021/acsomega.5c03077" target="_blank" rel="noopener">Unveiling the frontiers of synthetic biology in Brazil: Pioneering the national synthetic biology network</a>. <strong>ACS Omega</strong>. v. 10, n. 30. 23 jul. 2023.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>As novas ferramentas que deverão transformar o sistema financeiro brasileiro</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/as-novas-ferramentas-que-deverao-transformar-o-sistema-financeiro-brasileiro/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=as-novas-ferramentas-que-deverao-transformar-o-sistema-financeiro-brasileiro</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Domingos Zaparolli]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:15:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE)]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Inovação]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://revistapesquisa.fapesp.br/?p=585149</guid>

					<description><![CDATA[Uma das novidades é uma moeda digital criada pelo Banco Central para tornar transações comerciais e financeiras mais seguras]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Ainda este ano, uma versão digital do real, a moeda nacional, será disponibilizada aos brasileiros. O desenvolvimento dessa inovação financeira, batizada de Drex, vem sendo conduzido pelo Banco Central do Brasil. No mundo, dezenas de países elaboram suas versões de moeda digital de banco central (CBDC, de Central Bank Digital Currency), sendo que China, Bahamas, Nigéria e Jamaica estão entre pioneiras no uso de moedas criptografadas oficiais, lançadas por esses países em 2024. A proposta do Drex, contudo, diferencia-se das CBDC em uso. O Banco Central quer disponibilizar não apenas uma moeda digital, mas uma plataforma de transações financeiras seguras. “O Drex é inovador. A principal inspiração é o ambiente de finanças descentralizadas [DeFi, de <em>decentralized finance</em>]”, diz o economista e engenheiro eletricista Fabio Araujo, coordenador do projeto Drex no Banco Central.</p>
<p>O DeFi funciona como uma plataforma independente, em que os usuários realizam transações entre si, sem a intermediação de governos, bancos ou corretoras. Para isso, utiliza a tecnologia <em>blockchain</em>, um registro digital imutável, criptografado, que pode ser compartilhado de forma descentralizada, como ocorre com as criptomoedas (<em>ver glossário abaixo</em>). “Queremos trazer para o ambiente regulado os desenvolvimentos que estão acontecendo em DeFi, que se encontram majoritariamente ao largo da regulação”, detalha Araujo.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-inovacoesfinanceiras-2026-06-info-1140.png" data-tablet_size="1140x560" alt="Glossário">
    <source srcset="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-inovacoesfinanceiras-2026-06-info-1140.png" media="(min-width: 1920px)" />
    <source srcset="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-inovacoesfinanceiras-2026-06-info-1140.png" media="(min-width: 1140px)" />
    <img decoding="async" class="responsive-img" src="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-inovacoesfinanceiras-2026-06-info-760.png" />
  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP</span></div><div class="post-content sequence">
<p>Entre as inovações em DeFi que o Banco Central planeja incorporar ao Drex estão os contratos inteligentes, um sistema que executa transações automaticamente quando condições específicas são atendidas. Um exemplo é a transferência de titularidade de um imóvel ou de um veículo de forma sincronizada com o pagamento. Outra inovação é a tokenização de ativos, ou seja, a conversão de ativos físicos, como títulos públicos, imóveis e outros bens materiais, em uma unidade de valor digital, um token, que pode servir como garantia rastreável de empréstimos.</p>
<p>A meta do Banco Central é lançar uma versão-piloto do Drex em 2026, que permita a ampliação de suas funcionalidades disponíveis ao longo do tempo. Para isso, o desenvolvimento da moeda digital ainda precisa superar desafios importantes, admite Araujo, como avançar em requisitos de segurança e de escala. Será preciso também adaptar serviços financeiros distintos para operação em conjunto, de forma integrada e harmoniosa, independentemente de suas diferentes estruturas tecnológicas.</p>
<p>O Drex é resultado de uma estratégia de inovação aberta. No seu desenvolvimento, o Banco Central teve a colaboração de instituições financeiras, entidades públicas – como a Comissão de Valores Mobiliários – e instituições acadêmicas, como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a Fundação Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações e o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="1140" height="776" class="aligncenter size-full wp-image-585158" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-inovacoes-financeiras-2026-06-1140-2.jpg" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-inovacoes-financeiras-2026-06-1140-2.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-inovacoes-financeiras-2026-06-1140-2-250x170.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-inovacoes-financeiras-2026-06-1140-2-700x476.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-inovacoes-financeiras-2026-06-1140-2-120x82.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><span class="media-credits-inline">Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP</span></p>
<p>A moeda digital do Banco Central compõe um conjunto de iniciativas de base tecnológica criadas pela instituição que causaram grande impacto no sistema financeiro nacional. Uma delas é o Pix, sistema de pagamentos instantâneos disponibilizado 24 horas por dia, sete dias por semana, lançado em 2020. Mais de 170 milhões de pessoas físicas estão cadastradas no Pix, cerca de 80% da população do país. Em janeiro, foram realizadas mais de 7 bilhões de transações por essa modalidade, que movimentaram R$ 3,16 bilhões.</p>
<p>“Por volta de 60 países têm sistemas de pagamentos instantâneos em operação, sendo que alguns deles, como o da Coreia do Sul e o de Hong Kong, já estão em operação há mais de duas décadas”, diz Araujo. “Nenhum teve uma adoção tão rápida e abrangente quanto o Pix.” Dois fatores foram decisivos para a grande adesão dos brasileiros à inovação: a gratuidade das transações para as pessoas físicas e a facilidade operacional. O uso de chaves de identificação e QR Code dispensou o usuário de digitar o banco, a agência e a conta do destinatário dos recursos.</p>
<p>Outra iniciativa do Banco Central viabilizada pelo uso de tecnologia é o <em>open finance</em>, ou sistema financeiro aberto, lançado em 2021. Nele, o cliente, e não as instituições, tem o controle dos dados relativos a suas contas bancárias, investimentos, contratação de seguros e previdência, e pode, se desejar, compartilhar de forma digital as informações entre diferentes instituições. Antes, os bancos não disponibilizavam os dados cadastrais e histórico de movimentações de seus clientes para outras instituições.</p>
<p>Com o <em>open finance</em>, o correntista pode permitir que uma gestora de investimentos acesse seus dados cadastrais e histórico no banco no qual é correntista e oferte produtos financeiros com taxas de retorno mais atraentes do que as disponibilizadas pelo banco de origem. O cliente também pode usar seu histórico para negociar empréstimos com várias instituições de crédito, obter melhores condições na contratação de seguros ou realizar uma transferência de Pix por uma instituição usando o saldo constante em outro banco.</p>
<p>Em janeiro, 128 milhões de correntistas já haviam aderido ao <em>open finance</em> no Brasil. O Reino Unido foi o pioneiro, com a adoção em 2018 de um sistema de <em>open banking</em>, uma plataforma mais restrita, limitada ao compartilhamento de informações entre bancos e sem a participação de instituições gestoras de investimentos, seguradoras e empresas de crédito. Brasil e Austrália possuem os sistemas mais completos, que abrangem um maior número de serviços financeiros, e se tornaram referência internacional. União Europeia, Estados Unidos, México e Índia lançaram plataformas de <em>open banking</em> e agora migram para modelos de <em>open finance</em>.</p>
<p><strong>Sempre na vanguarda</strong><br />
Nos últimos 50 anos, o Brasil tem se posicionado entre os líderes globais de desenvolvimento e adoção de tecnologias bancárias. Na década de 1980, os bancos brasileiros investiram em automação como forma de ganhar eficiência para fazer frente a um processo de hiperinflação que fazia o dinheiro perder valor rapidamente. Em um cenário como esse, é preciso agilizar as transações para serem prontamente processadas. O país foi um dos primeiros a ter agências conectadas em tempo real, permitindo que um depósito feito em uma agência bancária de uma cidade qualquer aparecesse no mesmo dia no saldo do cliente beneficiário.</p>
<blockquote><p>O Brasil foi um dos primeiros a implementar o <em>internet banking</em> e o <em>mobile banking</em></p></blockquote>
<p>Também nos anos 1980 surgiram os caixas eletrônicos, que usavam hardware e software desenvolvidos pelas próprias instituições bancárias do país. Nos anos seguintes, os bancos brasileiros investiram em biometria e chips de cartão muito antes de instituições europeias ou norte-americanas.</p>
<p>O Brasil foi, ainda, um dos pioneiros na implementação de <em>internet banking</em> e, na sequência, do <em>mobile banking</em> (sistema para smartphones). Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), 82% das transações bancárias no país foram realizadas por canais digitais em 2024. Como consequência, o número de agências bancárias no país caiu de 22,8 mil para 14,3 mil nos últimos 10 anos.</p>
<p>A disponibilidade de tecnologia bancária de ponta e as oportunidades transacionais surgidas com o <em>open finance</em> impulsionaram as fintechs no Brasil, que somam 1.481 startups, de acordo com a Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs). O aumento da concorrência, por sua vez, estimulou os grandes bancos a inovar. A estimativa da Febraban é que o orçamento dos bancos brasileiros em despesas e investimentos destinados à tecnologia somaram R$ 47,8 bilhões em 2025, valor 58% superior ao verificado cinco anos antes. Os recursos são destinados a desenvolvimentos tecnológicos próprios e a parcerias com centros de pesquisas independentes e universidades.</p>
<p><strong>A força dos agentes de IA</strong><br />
“Há um cenário inovativo intenso no sistema financeiro nacional”, avalia o engenheiro eletricista Anderson Soares, fundador e vice-presidente de tecnologia do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (UFG). “Estamos no top 3 global no uso de inteligência artificial [IA] no setor”, complementa o especialista, que vê o Brasil atrás apenas de China e Coreia do Sul, mas à frente dos Estados Unidos, em intensidade de desenvolvimento de soluções e adoção de sistemas de IA na área financeira.</p>
<p>A inteligência artificial está entre as principais prioridades tecnológicas do setor no país, segundo o documento “Estudo de tecnologias emergentes para o setor bancário 2025”, elaborado pela Febraban e a consultoria Accenture. Uma das principais aplicações de IA constatada é no Ciclo de Vida de Desenvolvimento de Software (SDLC), um processo de criação de softwares em fases estruturadas que englobam análise, planejamento, design, desenvolvimento, testes, implementação e suporte. “O uso de times mistos, formados por humanos e agentes de IA, gera mais eficiência ao processo de criação de softwares, com ganhos de produtividade superiores a 20%”, diz Eduarda Davidovic, diretora-adjunta de Inovação e Tecnologia da Febraban.</p>
<blockquote><p>Os agentes de inteligência artificial são a nova tecnologia emergente</p></blockquote>
<p>Os agentes de IA são uma tecnologia emergente. Trata-se de sistemas computacionais autônomos que usam inteligência artificial generativa para perceber o ambiente, processar informações multimodais, como voz, texto e imagens, e planejar e executar ações para alcançar objetivos predefinidos. São empregados no setor financeiro para executar tarefas que vão do atendimento ao cliente em meios digitais, substituindo os antigos <em>chatbots</em>, ao aconselhamento personalizado de investimentos ou à avaliação de contratação de serviços. Podem ser empregados em ações de apoio a funcionários, fornecendo informações sobre normas, processos e procedimentos, e auxílio às equipes de P&amp;D, dando suporte ao desenvolvimento de softwares e soluções tecnológicas.</p>
<p>O Bradesco foi um dos pioneiros no uso de agentes de IA, com a assistente virtual BIA. Lançada em 2016 como um <em>chatbot</em>, a ferramenta depois evoluiu com a incorporação de recursos de IA generativa. Atualmente, o banco tem três versões do sistema: BIA Cliente, que, segundo a instituição, apresenta uma taxa de resolução das demandas dos usuários sem intervenção humana acima de 85%; BIA Corporativa, voltada para dar suporte aos funcionários; e BIA Tech, destinada ao desenvolvimento de softwares e soluções tecnológicas.</p>
<p>No Itaú Unibanco, os agentes de IA generativa estão por trás de um pioneiro serviço de Pix no WhatsApp, pelo qual os clientes realizam transferências de dinheiro por meios multimodais, como texto, áudio, QR Code e imagem. Cabe ao sistema interpretar automaticamente fotos contendo o valor e a chave Pix. A tecnologia multimodal que serve de base para esse sistema de Pix teve como base pesquisas realizadas no Centro de Ciência de Dados (C2D), criado a partir de uma parceria entre o banco e a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).</p>
<p>O Itaú também dispõe de um agente de investimentos capaz de interpretar perfis de investidores, analisar cenários de mercado e sugerir estratégias personalizadas, além de um agente de IA generativa jurídico, que analisa mais de 100 mil documentos por mês. O banco soma 21 depósitos de patentes envolvendo o uso de IA em atividades financeiras.</p>
<p>A expectativa é que, no futuro próximo, os agentes de IA possam realizar automaticamente, sem intervenção humana, tarefas complexas, como o pagamento de contas, a contratação de um seguro, a compra de um bem no varejo on-line e até analisar e definir investimentos ou realizar o fluxo de caixa e a gestão financeira de uma empresa. “Ninguém acorda com vontade de pagar um boleto”, brinca Carlos Eduardo Mazzei, diretor de Tecnologia do Itaú Unibanco. “Os agentes de IA vão cuidar das tarefas burocráticas do dia a dia e as pessoas poderão se preocupar em definir as estratégias.”</p>
<p><strong>Soluções maduras</strong><br />
Desenvolver agentes de IA capazes de executar tarefas complexas de forma segura para os usuários e as instituições é um dos principais desafios que os centros de pesquisas dos bancos e seus parceiros na academia enfrentam. “Finanças é um setor de alto risco que demanda soluções tecnológicas suficientemente maduras antes de serem implementadas”, avalia o pesquisador em cybersegurança Marcos Antonio Simplicio Junior, do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da Poli-USP.</p>
<p>“O agente de IA pode induzir o cliente a um erro. O banco também fica vulnerável, uma vez que ao disponibilizar e impulsionar o uso da ferramenta pode ser responsabilizado pelas ações do sistema”, complementa Simplicio. Um risco extra, destaca, é o uso malicioso do agente de IA para gerar erros propositais e oportunidades de processos de indenização.</p>
<p>Uma forma de reduzir riscos é manter nas ações dos agentes de IA a tradicional validação humana, exigindo no final do processo a confirmação do cliente de que está de acordo com a ação definida pela IA. Os centros de pesquisas trabalham principalmente no aperfeiçoamento das arquiteturas de sistemas. No Laboratório de Arquitetura e Redes de Computadores (Larc) da USP, que mantém parceria tecnológica com o Bradesco, Simplicio lidera um trabalho de pesquisa ofensiva e defensiva, realizando ataques aos sistemas computacionais dos agentes de IA para descobrir vulnerabilidades que depois serão trabalhadas pelas equipes de desenvolvedores de soluções.</p>
<p>Outra preocupação é com a garantia de que os sistemas de IA façam avaliações isentas e não discriminatórias dos usuários, evitando que a análise para a concessão de um empréstimo ou cartão de crédito seja influenciada por fatores como a orientação sexual ou religiosa do cliente, questões étnicas ou origem geográfica e localização da moradia do usuário. “Nosso desafio é que o sistema de IA use apenas critérios objetivos em suas análises”, diz o engenheiro eletricista Enio Alterman Blay, pesquisador do C2D, que realiza trabalhos numa área conhecida como IA responsável.</p>
<p>Discriminações exercidas por agentes de IA são geradas por bancos de dados desenvolvidos de forma enviesada, diz o especialista. “Trabalhamos no desenvolvimento de ferramentas algorítmicas que resultem em bancos de dados que garantam resultados objetivos para todos os grupos sociais”, diz Blay. Em setembro de 2025, pesquisadores da USP e do Instituto de Ciência e Tecnologia do Itaú publicaram artigo sobre IA responsável no Proceedings of the Workshop on Bots in Software Engineering (WBOTS).</p>
<p><strong><img loading="lazy" decoding="async" width="1140" height="683" class="aligncenter size-full wp-image-585162" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-inovacoes-financeiras-2026-06-1140-3.jpg" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-inovacoes-financeiras-2026-06-1140-3.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-inovacoes-financeiras-2026-06-1140-3-250x150.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-inovacoes-financeiras-2026-06-1140-3-700x419.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/rpf-inovacoes-financeiras-2026-06-1140-3-120x72.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><span class="media-credits-inline">Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP</span>Emergência da computação quântica</strong><br />
A computação quântica, que explora propriedades da física quântica para realizar cálculos simultâneos em uma ordem de magnitude muito superior à dos supercomputadores atuais (<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/a-era-dos-qubits/" target="_blank" rel="noopener"><em>ver </em>Pesquisa FAPESP <em>nº 284</em></a>), é outra tecnologia emergente destacada no estudo da Febraban. Apesar de ainda não existirem computadores quânticos comerciais de alta performance e desempenho estável, a tecnologia já é uma das prioridades dos centros de pesquisas das instituições financeiras e de seus parceiros na academia.</p>
<p>“No futuro, algoritmos quânticos vão ampliar a segurança, a precisão e a velocidade das decisões financeiras. Poderão melhorar a qualidade da oferta de crédito, otimizar investimentos em tempo real e apoiar operações em que agentes de IA poderão atuar como ‘clientes’, tomando decisões autônomas”, diz Renata Petrovic, diretora do inovabra, o ecossistema de inovação do Bradesco. “Mas a computação quântica também apresenta potencial para quebrar alguns mecanismos de segurança utilizados hoje pelo sistema bancário”, complementa a executiva. Por isso, segundo ela, a segurança na era pós-quântica é uma das pautas mais discutidas nas áreas de pesquisa do setor.</p>
<p>“É provável que um computador quântico possa quebrar facilmente uma criptografia que hoje não é ameaçada nem pela soma da capacidade computacional de todos os supercomputadores existentes no mundo atuando de forma conjunta durante anos”, prevê Simplicio. “Juntamente com a comunidade internacional de criptologia, estamos trabalhando no desenvolvimento de algoritmos mais robustos, capazes de proporcionar esquemas criptográficos resistentes a ataques promovidos por algoritmos quânticos”, complementa o pesquisador, que recebeu apoio da FAPESP em seus estudos iniciais sobre criptografia pós-quântica e, recentemente, publicou com colegas do Larc-USP um artigo sobre o tema nos anais do 25th International Symposium on Cluster, Cloud and Internet Computing (CCGrid).</p>
<p>A avaliação da comunidade científica, diz Simplicio, é que a computação quântica apresentará um desafio significativo à segurança da criptografia até 2035. “Nossa meta é ter esquemas de criptografia pós-quântica desenvolvidos e em uso no país entre 2030 e 2035”, diz o pesquisador da Poli-USP.</p>
<p class="bibliografia">A reportagem acima foi publicada com o título “<strong>Banco do futuro</strong>” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Projeto</strong><br />
Criptografia pós quântica e eficiente para a construção de aplicações de segurança avançadas (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/93810/criptografia-pos-quantica-e-eficiente-para-a-construcao-de-aplicacoes-de-seguranca-avancadas/?q=15/50520-6" target="_blank" rel="noopener">nº 15/50520-6</a>); <strong>Modalidade</strong> Parceria para Inovação Tecnológica (Pite); <strong>Pesquisador responsável</strong> Marcos Antonio Simplicio Junior (USP).</p>
<p class="bibliografia"><strong>Artigos científicos</strong><br />
SILVA, C. H. C. <em>et al</em>. <a href="https://sol.sbc.org.br/index.php/wbots/article/view/36920" target="_blank" rel="noopener">Evaluating LLM-based chatbots through touchpoint-driven process models</a>. <strong>Proceedings of the workshop no bots in software engineering (WBOTS)</strong>. 22 set. 2025.<br />
CARDOSO, L.C . <em>et al</em>. <a href="https://ieeexplore.ieee.org/abstract/document/11044812/" target="_blank" rel="noopener">Next-Generation SPIFF/SPIRE identity management systems with post-quantum cryptography algorithms</a>. <strong>2025 IEEE 25<sup>th</sup> International Symposium on Cluster, Cloud and Internet Computing (CCGrid)</strong>. 30 jun. 2025.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Como danos causados por descoloração e raios ultravioleta mudam as propriedades do cabelo</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/como-danos-causados-por-descoloracao-e-raios-ultravioleta-mudam-as-propriedades-do-cabelo/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=como-danos-causados-por-descoloracao-e-raios-ultravioleta-mudam-as-propriedades-do-cabelo</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Igor Zolnerkevic]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:15:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
		<category><![CDATA[Química]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://revistapesquisa.fapesp.br/?p=585191</guid>

					<description><![CDATA[Ao absorver mais água, fios se enfraquecem e se tornam mais quebradiços]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Pegue um fio de cabelo saudável com as mãos e tente amassá-lo sem danificar sua superfície. “É quase impossível deformá-lo por compressão”, diz o químico Raphael Machado. Ao longo de seu estágio de pós-doutorado no grupo da física Maria Cecília Salvadori, da Universidade de São Paulo (USP), o pesquisador aprendeu a apreciar a surpreendente resistência desse material biológico, comparável à de fibras sintéticas como o náilon. Também constatou como a rigidez de fios de cabelos humanos naturalmente expostos à luz solar ao longo da vida pode ser reduzida em até seis vezes, depois de uma aplicação de um pó descolorante com água oxigenada.</p>
<p>Usando diferentes técnicas de microscopia, Machado produziu uma série de imagens mostrando as propriedades da superfície de fios de cabelo, com uma resolução de até cerca de 60 nanômetros (nm), mais de mil vezes menor do que a própria espessura do filamento. A análise desses mapas microscópicos ajudou a entender melhor como os danos provocados pela descoloração e a radiação ultravioleta [UV] alteram o relevo e a composição química dos fios em posições anatômicas diferentes ao longo da mecha e transformam um material naturalmente hidrofóbico – isto é, que repele a água – em seu oposto, hidrofílico, que “gosta” do líquido. Absorvendo mais água, o cabelo enfraquece sua estrutura e se torna mais quebradiço. Os resultados da pesquisa, publicados em março na revista<em> Journal of the Mechanical Behavior of Biomedical Materials</em>, podem ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos.</p>
<p>Fios de cabelo têm uma espessura média de cerca de 100 mil nm, embora existam grandes variações entre populações distintas. Assim como as unhas, são um tecido morto formado principalmente pela proteína queratina. Sua estrutura mais interna é uma pequena região central denominada medula, que é envolvida pelo córtex, camada intermediária que corresponde a cerca de 85% da massa dos cabelos. Os fios nascem do couro cabeludo com o córtex totalmente coberto pela cutícula, estrutura externa que forma uma armadura de escamas de queratina mais compacta e organizada. Por sua vez, a cutícula é recoberta por uma fina camada de gordura, com espessura da ordem de 1 nm, composta pelo ácido 18-metileicosanoico (18-MEA), que se liga a átomos de enxofre da queratina, deixando a porção hidrofóbica da molécula voltada para fora. A aversão natural dos fios à água decorre sobretudo dessa camada, mas também dos espaços criados pelos degraus entre as escamas da cutícula, que reduzem a área de contato com a água.</p>
<p>Durante a descoloração, os reagentes removem o 18-MEA, rompendo sua ligação com a queratina. Ao mesmo tempo, a oxidação degrada a queratina, produzindo moléculas com hidroxilas, carboxilatos e sulfonatos, que atraem água em vez de repeli-la. Enfraquecidas por microfissuras, as escamas da cutícula podem se quebrar e se desprender, expondo o córtex à ação química e à água.</p>
<p>A radiação UV induz reações semelhantes: erode a camada de 18-MEA e também forma moléculas hidrofílicas. Esse processo ocorre de forma mais gradual e localizada, criando pequenos poros na cutícula que podem acelerar os danos causados pela descoloração. Todo esse dano é mais intenso nas pontas dos fios, onde a cutícula já se encontra naturalmente desgastada pelo envelhecimento. “As pontas guardam um histórico de tudo a que elas foram expostas desde o último corte de cabelo”, conta Machado.</p>
<div id="attachment_585196" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585196 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-cabelo-danificado-microscopia-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="738" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-cabelo-danificado-microscopia-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-cabelo-danificado-microscopia-2026-06-1140-250x162.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-cabelo-danificado-microscopia-2026-06-1140-700x453.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-cabelo-danificado-microscopia-2026-06-1140-120x78.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Machado, R. <em>et al</em>. <strong>Journal of the Mechanical Behavior of Biomedical Materials</strong>. 2026</span>Imagem de microscopia eletrônica de varredura da raiz de fio de cabelo humano em quatro diferentes condições: natural e preservado (A); natural, com poucos sinais de alterações (B); descolorido, com alguma deterioração (C); e descolorido, envelhecido e com danos químicos (D)<span class="media-credits">Machado, R. <em>et al</em>. <strong>Journal of the Mechanical Behavior of Biomedical Materials</strong>. 2026</span></p></div>
<p>As mechas analisadas por Machado foram preparadas pela equipe do farmacêutico Flávio Camargo Júnior, gerente de terapia capilar e testes clínicos da Chemyunion, uma indústria química brasileira que vende, no país e no exterior, ingredientes para produtos cosméticos, farmacêuticos e de outros setores. Desde 2016, o Laboratório de Filmes Finos do Instituto de Física da USP, coordenado por Salvadori, presta serviços de microscopia à Chemyunion, que financiou o estudo. A colaboração rendeu sua primeira pesquisa científica em 2021, quando a física Raissa de Oblitas defendeu seu doutorado, orientado por Salvadori, mostrando que uma das fórmulas da empresa foi capaz de penetrar na cutícula e melhorar a resistência dos fios. Durante o processo, Oblitas criou um método mais preciso que o convencional para calcular o chamado módulo elástico, que mede o quão rígido é um material, a partir de imagens de microscopia de força atômica.</p>
<p>Assim como a agulha de uma vitrola extrai música ao subir e descer sobre os pequenos sulcos de um disco de vinil, a ponta nanométrica de um microscópio de força atômica pode se aproximar e se afastar de uma superfície milhares de vezes por segundo, registrando forças de atração e repulsão entre os átomos. “A cada ciclo de aproximação e retração medimos cinco grandezas: topografia da superfície, módulo elástico, deformação, adesão e energia dissipada”, explica Machado. “A adesão, a capacidade de grudar mais ou menos, é a propriedade mais sensível às interações intermoleculares e à composição química superficial.”</p>
<p>Os mapas de adesão revelaram que a descoloração elimina a variedade natural de moléculas da queratina, deixando no lugar uma superfície mais homogênea, dominada pelos sulfonatos e até cinco vezes mais adesiva nas pontas dos fios. Machado validou a composição química inferida pela adesão utilizando um microscópio eletrônico de varredura.</p>
<p>O estudo foi o primeiro a usar uma técnica de análise de dados conhecida como densidade espectral de potência para medir a rugosidade da superfície dos fios. “Foi difícil encontrar um revisor adequado para o artigo, porque não se utiliza normalmente essa ferramenta analítica para estudar fibras capilares”, lembra Salvadori.</p>
<p>A técnica traduz a informação espacial das imagens em gráficos de distribuição de frequências, analisando como a rugosidade está distribuída na superfície dos fios. Os gráficos mostraram que, em fios virgens, predominam frequências mais baixas, dado que indica a presença de feições de relevo maiores, como as bordas das escamas. Por outro lado, em fios descoloridos e irradiados se destacam frequências mais altas, apontando variações no relevo em escala menor, criadas pelos poros e fissuras que tornam a superfície mais áspera, propensa a reter água.</p>
<p>“Os resultados são muito interessantes”, comenta a cientista de materiais Valéria Longo, fundadora e diretora de ciência e inovação da startup Katléia Lab, que não participou do estudo. Criada em São Carlos (SP), a Katléia desenvolve, por meio de um projeto financiado pela FAPESP na modalidade Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), um diagnóstico capilar personalizado. Segundo Longo, analisar a cutícula, a estrutura mais externa dos fios, é importante para entender a interação do cabelo com os cosméticos. Para um diagnóstico ainda mais aprofundado da saúde dos fios, a pesquisadora diz ser necessário um estudo de todo o córtex capilar.</p>
<p class="bibliografia">A reportagem acima foi publicada com o título “<strong>Histórias de um fio de cabelo</strong>” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Artigo científico</strong><br />
MACHADO, R.C.L. <em>et al</em>. <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1751616126000470" target="_blank" rel="noopener">Unveiling the link between surface physicochemistry and nanomechanical behavior in bleached and UV-irradiated human hair fibers</a>. <strong>Journal of the Mechanical Behavior of Biomedical Materials</strong>. 6 mar. 2026.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Taxar ultraprocessados pode reduzir doenças crônicas e mortes associadas ao excesso de peso</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/taxar-ultraprocessados-pode-reduzir-doencas-cronicas-e-mortes-associadas-ao-excesso-de-peso/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=taxar-ultraprocessados-pode-reduzir-doencas-cronicas-e-mortes-associadas-ao-excesso-de-peso</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Giselle Soares]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:14:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Epidemiologia]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Pública]]></category>
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					<description><![CDATA[Tributos podem evitar quase 1,8 milhão de adoecimentos e 237 mil óbitos até 2044]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Mantido no ritmo atual, o ganho de peso da população adulta brasileira deve levar ao surgimento de 10 milhões de novos casos de 11 doenças crônicas evitáveis entre 2024 e 2044. São enfermidades comuns e bem conhecidas, como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer, que se instalam mais facilmente e com maior frequência quando a massa corporal do indivíduo permanece superior à saudável por alguns anos. Nessas duas décadas, estima-se que a proporção de adultos com sobrepeso – índice de massa corporal (IMC) entre 25 e 29 – no país passe dos 57% atuais para 75% e ocorra pouco mais de 1 milhão de mortes em decorrência desses problemas.</p>
<p>Diante desse cenário, o epidemiologista Leandro Rezende e sua equipe na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) decidiram simular o impacto que a imposição de taxas a alimentos pouco saudáveis poderia gerar na saúde da população. Eles escolheram trabalhar com os chamados ultraprocessados, categoria genérica de alimentos industrializados aos quais são adicionados altos teores de açúcar, gordura, sal ou compostos químicos com a finalidade de aumentar sua durabilidade ou palatabilidade (<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/alguns-efeitos-dos-alimentos-fabricados/" target="_blank" rel="noopener"><em>ver</em> Pesquisa FAPESP <em>nº 265</em></a>). O consumo desses alimentos cresceu no país – a proporção de calorias obtidas de ultraprocessados subiu de 16% em 2003 para 20% em 2018 –, embora permaneça bem abaixo do de nações como os Estados Unidos, onde ultrapassa os 50% das calorias ingeridas diariamente.</p>
<p>Cobrar mais pelos ultraprocessados gera um efeito relevante, que aumenta com o incremento da taxação. Impor uma taxa de 10% sobre o valor desses alimentos pode, nesses 20 anos, restringir a 67% o total de adultos com sobrepeso em 2044, evitando quase 526 mil casos novos das doenças associadas ao sobrepeso e 71 mil mortes. Com 20% de aumento, a parcela de brasileiros com sobrepeso cairia um pouco mais, para 63%. Seriam evitados 861 mil casos de doenças crônicas e 115 mil óbitos. Já se a taxação chegasse a 50% do valor dos alimentos, a frequência de sobrepeso na população baixaria para 50% em 2044, prevenindo 1,8 milhão de adoecimentos e 237 mil mortes (<em>ver tabela abaixo</em>) Os resultados foram publicados em abril no periódico<a href="https://www.ajpmonline.org/article/S0749-3797(25)00677-4/abstract" target="_blank" rel="noopener"><em> American Journal of Preventive Medicine</em></a>.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-taxacaoultraprocessados-2026-06-info-1140.png" data-tablet_size="1140x280" alt="Efeito progressivo: Quanto maior o tributo cobrado, maior o número de casos de 11 doenças crônicas e de óbitos evitados">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP</span></div><div class="post-content sequence">
<p>“Nosso estudo avança em relação a trabalhos anteriores ao estimar o potencial impacto da tributação do conjunto dos alimentos ultraprocessados, e não de itens isolados, como as bebidas açucaradas”, conta Rezende, coordenador do estudo e do <a href="https://cronicas.unifesp.br/" target="_blank" rel="noopener">Núcleo de Pesquisa em Epidemiologia de Doenças Crônicas</a> da Unifesp. “A maior parte das políticas e dos estudos se concentra em produtos específicos, mas o efeito da alimentação sobre a saúde depende do padrão alimentar geral. Por isso, ações voltadas ao conjunto dos ultraprocessados tendem a ter um potencial maior de impacto na redução do excesso de peso e das doenças crônicas”, explica.</p>
<p>Só a taxação de ultraprocessados, no entanto, pode não resolver o problema e até reduzir o poder de compra. Em um estudo divulgado em março, o economista Valter Palmieri Júnior, da organização não governamental ACT Promoção da Saúde, que defende políticas de saúde pública como a alimentação saudável, analisou o comportamento e a composição da inflação de alimentos no Brasil nas últimas quatro décadas. A conclusão é que o aumento do preço dos alimentos no país é um fenômeno estrutural e sistêmico, e não ocasional, relacionado a problemas conjunturais.</p>
<p>“Nas últimas duas décadas, a inflação de alimentos manteve-se consistentemente acima da inflação geral. Esse aumento, porém, não ocorre de forma homogênea entre os diferentes tipos de alimentos”, escreve Palmieri no documento. “Produtos<em> in natura</em> ou minimamente processados têm registrado elevações de preço mais intensas do que os ultraprocessados. Esse padrão é preocupante, pois o consumo de ultraprocessados está associado ao aumento de doenças crônicas.” De acordo com o trabalho, entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas, por exemplo, caiu cerca de 31%. “Esse movimento altera os incentivos econômicos de consumo e tende a piorar a qualidade da dieta”, afirmou o economista em <a href="https://abori.com.br/economia/estudo-explica-por-que-inflacao-de-alimentos-e-fenomeno-estrutural-no-brasil/" target="_blank" rel="noopener">comunicado à imprensa</a> divulgado pela <em>Agência de Notícias Bori.</em></p>
<div id="attachment_585214" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585214 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-ultraprocessados-pepino-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="680" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-ultraprocessados-pepino-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-ultraprocessados-pepino-2026-06-1140-250x149.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-ultraprocessados-pepino-2026-06-1140-700x418.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-ultraprocessados-pepino-2026-06-1140-120x72.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP</span>No Brasil, produtos <em>in natura</em> ou minimamente processados têm registrado elevações de preço mais intensas do que os ultraprocessados<span class="media-credits">Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP</span></p></div>
<p>“Os efeitos da taxação de alimentos sobre o sobrepeso e a ocorrência de doenças crônicas são plausíveis, mas tendem a ser maiores quando combinados com outras políticas públicas, como a regulação da publicidade, a educação alimentar e a criação de ambientes que favoreçam a escolha de alimentos mais saudáveis”, afirma a epidemiologista Eurídice Martínez Steele, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens-USP), que não participou do estudo publicado no <em>American Journal of Preventive Medicine</em>. “A resposta ao aumento de preços não é fixa e depende das condições sociais e do ambiente alimentar. Sem políticas complementares, como subsídios a alimentos <em>in natura</em>, a taxação pode ter efeito limitado ou até gerar resultados indesejados, caso não existam substitutos saudáveis acessíveis”, pondera a pesquisadora.</p>
<p>A avaliação de Steele é compartilhada por Helen Hermana Hermsdorff, nutricionista e professora do Departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que também não participou do trabalho da equipe da Unifesp. “A taxação pode ajudar no enfrentamento das doenças crônicas, mas não resolve o problema sozinha. O sobrepeso e a obesidade envolvem fatores biológicos, sociais e econômicos, o que exige um conjunto mais amplo de políticas públicas. É importante retirar do indivíduo a responsabilidade exclusiva pelo enfrentamento da obesidade e reconhecer que as escolhas alimentares dependem de políticas públicas que tornem as opções saudáveis mais acessíveis”, afirma.</p>
<p>No Brasil, a reforma tributária aprovada em 2023 criou o chamado imposto seletivo, que entra em vigor a partir de janeiro próximo e deve taxar apenas uma parte dos ultraprocessados: as bebidas açucaradas, que incluem refrigerantes, sucos industrializados e chás prontos com açúcar.</p>
<p class="bibliografia">A reportagem acima foi publicada com o título “<strong>O impacto de taxar os ultraprocessados</strong>” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Artigo científico</strong><br />
CAMARGO, J. M. <em>et al.</em> <a href="https://doi.org/10.1016/j.amepre.2025.108209" target="_blank" rel="noopener">Effect of ultraprocessed foods taxation on overweight prevalence and noncommunicable diseases in Brazil</a>. <strong>American Journal of Preventive Medicine</strong>. abr. 2026.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Neurônios ligados à expiração forçada também controlam a pressão arterial</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/neuronios-ligados-a-expiracao-forcada-tambem-controlam-a-pressao-arterial/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=neuronios-ligados-a-expiracao-forcada-tambem-controlam-a-pressao-arterial</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mariana Ceci]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:14:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Fisiologia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://revistapesquisa.fapesp.br/?p=585235</guid>

					<description><![CDATA[Experimentados de maneira crônica, episódios intermitentes de queda de oxigenação, típicos da apneia do sono, tornam essas células hiperativas e podem levar à hipertensão]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Uma conexão intrincada e profunda entre a respiração e a hipertensão arterial começa agora a ser mais bem compreendida graças ao trabalho de pesquisadores brasileiros. Em estudos com ratos, a equipe coordenada pelo fisiologista Davi Moraes, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), verificou que uma região cerebral diminuta responsável pela expiração ativa ou forçada, aquela que exige a contração dos músculos do abdômen para eliminar com mais eficiência dos pulmões o ar rico em gás carbônico (CO<sub>2</sub>), também influencia o controle da pressão sanguínea. Essa região é chamada de parafacial lateral (pFL), um pequeno conjunto de células – nos roedores, elas somam um pouco mais de 100 – localizado na parte anterior do bulbo, estrutura que lembra um cone de sorvete sem a metade inferior e conecta o cérebro à medula espinhal.</p>
<p>Há tempos se sabe que os neurônios desse núcleo, quando ativados, mobilizam a musculatura do abdômen na expiração ativa, ajudando o corpo a expulsar com mais intensidade o ar dos pulmões. Na expiração normal, o ar sai dos pulmões sem esforço, em consequência da elasticidade das estruturas do sistema respiratório, que tendem a voltar ao estado inicial após se expandir. Agora, usando técnicas que permitem mapear as conexões e medir a atividade dos neurônios da região pFL, os pesquisadores constataram que uma parte deles se comunica com neurônios de outras duas regiões próximas – uma em posição ligeiramente mais interna, no bulbo ventrolateral rostral (RVLM), e outra situada a centímetros acima, em uma estrutura chamada ponte – responsáveis por disparar os comandos nervosos que fazem as artérias se contraírem e a pressão sanguínea aumentar (<em>ver infográfico abaixo</em>).</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-hipertensao-2026-06-info-1140.png" data-tablet_size="1140x720" alt="Uma forma de controle da pressão: Neurônios do bulbo que ativam os músculos abdominais na expiração forçada também controlam a contração das artérias">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso / Revista Pesquisa Fapesp</span></div><div class="post-content sequence">
<p>“Mostramos agora que os neurônios da região parafacial lateral têm uma função dupla. Eles ativam os músculos que levam à expiração forçada ao mesmo tempo que ativam áreas no bulbo e na ponte responsáveis pela contração da musculatura das artérias”, conta Moraes.</p>
<p>Apresentados em um artigo publicado na edição de janeiro na revista <a href="https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIRCRESAHA.125.326674?url_ver=Z39.88-2003&amp;rfr_id=ori:rid:crossref.org&amp;rfr_dat=cr_pub%20%200pubmed" target="_blank" rel="noopener"><em>Circulation Research</em></a>, os achados, segundo os pesquisadores, ajudam a entender como a apneia obstrutiva do sono, marcada por interrupções momentâneas na respiração enquanto se dorme, contribui para o surgimento da hipertensão arterial. Também abrem o caminho para a busca de estratégias para controlar a pressão arterial diferentes das atuais. As medicações disponíveis hoje atuam de três formas – reduzem a força ou a frequência dos batimentos cardíacos, ajudam a diminuir o volume de sangue ou relaxam os vasos sanguíneos. Esses anti-hipertensivos, no entanto, não funcionam para cerca de 40% das pessoas com pressão arterial elevada, problema que afeta um em cada três brasileiros adultos e aumenta o risco de acidente vascular cerebral e de doenças cardíacas.</p>
<p>No trabalho da <em>Circulation Research</em>, feito em parceria com a equipe do fisiologista Benedito Honorio Machado, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, os pesquisadores usaram um modelo que simula a apneia do sono humano para induzir a hipertensão em ratos. Durante cerca de oito horas por dia, os animais eram expostos de tempos em tempos a uma atmosfera com baixa concentração (6%) de oxigênio (O₂) – no ar, ela é de 21%.</p>
<p>A redução na disponibilidade de O₂ imita o que ocorre na apneia durante o sono, quando interrupções momentâneas e recorrentes na respiração impedem a chegada de ar aos pulmões. Como resultado, os batimentos cardíacos aumentam e os vasos sanguíneos se contraem, fazendo o sangue circular mais intensamente pelos tecidos na tentativa de compensar a redução na disponibilidade de O₂, gás essencial para o funcionamento das células.</p>
<p>Em situações normais, os pulmões, o coração e os vasos sanguíneos atuam de forma coordenada levando níveis adequados de O₂ aos diferentes tecidos e retirando deles o CO<sub>2</sub> gerado pelas células ao desempenhar suas diferentes funções. Essa coordenação é regida por um pequeno sensor químico: o corpúsculo carotídeo, uma estrutura do tamanho de um grão de amendoim situada no pescoço, ao lado da carótida, a artéria que irriga o cérebro. Reduções no nível de O₂ ou aumentos na concentração de CO<sub>2</sub> no sangue ativam neurônios do corpúsculo que se conectam diretamente com o bulbo, onde estão os centros de controle involuntário (automático) da respiração, dos batimentos cardíacos e da contração dos vasos sanguíneos.</p>
<p>No início dos anos 1970, o fisiologista brasileiro Pedro Guertzenstein (1938-1994), trabalhando com o fisiologista de origem alemã Wilhelm Feldberg (1900-1993), havia observado que a atividade do RVLM era fundamental para regular a pressão arterial. Não havia, no entanto, clareza de como os sinais do corpúsculo carotídeo chegavam até o RVLM nas situações em que o O₂ baixava.</p>
<p>Moraes e colaboradores suspeitavam que a região pFL pudesse funcionar como um intermediador dos sinais. É que seus neurônios se encontram em repouso durante a respiração normal, mas são acionados na expiração ativa, justamente a fase da respiração em que o RVLM envia os sinais nervosos que ajustam a contração dos vasos sanguíneos.</p>
<p>A fim de descobrir o papel desse núcleo, os pesquisadores realizaram uma série de experimentos com ratos ao longo de quase sete anos. Em um deles, usaram um vírus inofensivo aos animais para inserir nos neurônios da região pFL o gene codificando uma proteína que os tornava sensíveis à luz. Depois, usando um laser, os pesquisadores ativavam esses neurônios por alguns instantes, simulando o que ocorre quando os níveis de O₂ caem e os de CO<sub>2</sub> aumentam momentaneamente ao se prender a respiração por alguns instantes ou realizar atividade física intensa a ponto de tirar o fôlego. Ao despertar os neurônios da região pFL com a luz, os pesquisadores observaram a mobilização dos músculos abdominais acionados na expiração ativa ao mesmo tempo que detectaram um aumento da atividade dos neurônios do RVLM e da ponte responsáveis pela contração dos vasos sanguíneos. Como resultado, a pressão arterial dos animais aumentou. Ela voltou a baixar quando os neurônios da região pFL eram silenciados.</p>
<p>A seguir, os pesquisadores decidiram investigar o que aconteceria com o organismo se os neurônios da região pFL fossem recrutados repetidamente. “Queríamos saber se essa interação que normalmente é fisiológica, em certas condições, poderia se tornar prejudicial e contribuir para o surgimento da hipertensão”, lembra a fisiologista Karolyne Magalhães, primeira autora do artigo na <em>Circulation Research</em>, que realizou os experimentos durante o doutorado feito sob a orientação de Moraes – hoje ela faz pós-doutorado na Universidade de Alberta, no Canadá.</p>
<p>Para isso, usaram um modelo de ativação mais duradoura dos neurônios da região pFL. Novamente com o auxílio dos vírus, eles modificaram essas células para que apresentassem em sua superfície uma proteína (receptor) que funcionava como um botão de liga e desliga. Ao se conectar a esse receptor, a molécula de clozapina, um medicamento usado para tratar esquizofrenia, mantinha os neurônios da região pFL em atividade por horas, e não mais por alguns instantes. Desse modo, conseguiram simular o que deve ocorrer na região pFL na apneia do sono.</p>
<p>A ativação prolongada aumentou a expiração forçada e elevou a pressão arterial, sem alterar de forma relevante a frequência cardíaca. Esse resultado reforçou a ideia de que os neurônios da região pFL não apenas participam da expiração ativa, mas também acionam os circuitos do bulbo e da ponte que causam vasoconstrição e fazem a pressão arterial subir. “Quem sofre de apneia do sono experimenta de forma crônica, ao longo de 7 ou 8 horas por dia, episódios intermitentes de baixa concentração de O₂ no sangue e a consequente ativação dos neurônios do pFL”, explica Moraes. “O resultado é que esses neurônios se tornam ativos de modo duradouro, como se entendessem que o indivíduo vive em situação de hipóxia [baixa oxigenação] permanente.”</p>
<div id="attachment_585252" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright vertical"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585252 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-hipertensao-rato-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="729" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-hipertensao-rato-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-hipertensao-rato-2026-06-800-250x228.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-hipertensao-rato-2026-06-800-700x638.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-hipertensao-rato-2026-06-800-120x109.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Davi Moraes / ICB-USP</span>A imagem de microscopia do bulbo de um rato mostra, em verde, os neurônios da área parafacial lateral, que controlam a respiração ativa e os níveis da pressão arterial<span class="media-credits">Davi Moraes / ICB-USP</span></p></div>
<p>Na etapa seguinte, fez-se o caminho inverso: em ratos com hipertensão induzida por hipóxia intermitente e crônica, os pesquisadores alteraram os neurônios da região pFL para que se tornassem inativos na presença de clozapina. A ideia era verificar se a inibição desses neurônios diminuiria a atividade do RVLM e da ponte, fazendo baixar a pressão arterial.</p>
<p>Funcionou. A inibição sustentada da região pFL reduziu a expiração ativa e normalizou a pressão arterial nos animais hipertensos. Nos ratos sem hipertensão, que integravam o grupo de controle do estudo, não houve mudança. Esse resultado sugere que o circuito fica especialmente ativo apenas na hipertensão.</p>
<p>“As células caracterizadas pela equipe da USP parecem funcionar como intermediários e transmitir os comandos que recebem do sensor químico de gases do sangue para os circuitos que controlam a contração dos vasos sanguíneos”, comenta o fisiologista Sergio Cravo, da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), que não participou do artigo. “É um elemento neural novo, diferente de alguns mecanismos sensíveis ao gás carbônico que já conhecíamos”, completa.</p>
<p>O achado abre caminho para que se busquem novas estratégias farmacológicas para combater a hipertensão. Antes, porém, são necessários mais estudos. “Essa é uma pesquisa básica com características translacionais. É possível que, futuramente, se consiga usar o que se observou nos experimentos com animais para tratar pessoas com hipertensão”, conta o fisiologista Ruy Ribeiro de Campos, também da EPM-Unifesp, que foi orientado por Guertzenstein no doutorado. “Antes disso, no entanto, será necessário conhecer melhor as características das células da região estudada pelos autores e testar o seu papel em outros modelos de hipertensão”, conclui.</p>
<p class="bibliografia">A reportagem acima foi publicada com o título “<strong>Uma conexão entre a respiração e a hipertensão</strong>” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Projetos<br />
1.</strong> Papel dos receptores purinérgicos do corpúsculo carotídeo na insuficiência cardíaca (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/109276/papel-dos-receptores-purinergicos-do-corpusculo-carotideo-na-insuficiencia-cardiaca/?q=21/06886-7" target="_blank" rel="noopener">nº 21/06886-7</a>); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisador responsável Davi José de Almeida Moraes (ICB-USP); Investimento R$ 1.456.721,34.<br />
<strong>2.</strong> Contribuição do grupo respiratório parafacial nas respostas inspiratórias, expiratórias e cardiovasculares de ratos à estimulação de fibras aferentes musculares (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/bolsas/194811/contribuicao-do-grupo-respiratorio-parafacial-nas-respostas-inspiratorias-expiratorias-e-cardiovascu/?q=19/24060-9" target="_blank" rel="noopener">nº 19/24060-9</a>); <strong>Modalidade</strong> Bolsa de Doutorado; <strong>Pesquisador</strong> <strong>responsável</strong> Davi José de Almeida Moraes (ICB-USP); <strong>Bolsista</strong> Karolyne Silva Magalhães; <strong>Investimento</strong> R$ 318.087,68.<br />
<strong>3.</strong> Modulação astrocítica dos neurônios bulbares envolvidos com a geração e controle das atividades simpática e respiratória de roedores submetidos à hipóxia (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/104956/modulacao-astrocitica-dos-neuronios-bulbares-envolvidos-com-a-geracao-e-controle-das-atividades-simp/?q=18/15957-2" target="_blank" rel="noopener">nº 18/15957-2</a>); <strong>Modalidade</strong> Projeto Temático; <strong>Pesquisador</strong> <strong>responsável</strong> Benedito Honorio Machado (FMRP-USP); <strong>Investimento</strong> R$ 6.385.117,10.<br />
<strong>4.</strong> Participação dos interneurônios somatostatinérgicos da região parafacial lateral na geração da expiração ativa de camundongos (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/bolsas/210031/participacao-dos-interneuronios-somatostatinergicos-da-regiao-parafacial-lateral-na-geracao-da-expir/?q=23/02560-5" target="_blank" rel="noopener">nº 23/02560-5</a>); <strong>Modalidade</strong> Bolsa de Doutorado; <strong>Pesquisador</strong> <strong>responsável</strong> Davi José de Almeida Moraes (ICB-USP); <strong>Bolsista</strong> Nathalia Salim; Investimento R$ 414.736,03.<br />
<strong>5.</strong> Modulação autonômica (simpática e parassimpática) das respostas inflamatórias e cardiocirculatórias em situações fisiopatológicas clínicas e experimentais (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/108166/modulacao-autonomica-simpatica-e-parassimpatica-das-respostas-inflamatorias-e-cardiocirculatorias-em/?q=20/06043-7" target="_blank" rel="noopener">nº 20/06043-7</a>); <strong>Modalidade</strong> Projeto Temático; <strong>Pesquisador</strong> <strong>responsável</strong> Helio Cesar Salgado (FMRP-USP); <strong>Investimento</strong> R$ 3.862.832,74.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Artigo científico<br />
</strong>MAGALHÃES, K. S. <em>et al.</em> <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41404666/" target="_blank" rel="noopener">Lateral parafacial neurons evoked expiratory oscillations driving neurogenic hypertension</a>. <strong>Circulation Research</strong>. 6 de jan. de 2026.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Levantamentos de organismos bioluminescentes geram propostas turísticas</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/levantamentos-de-organismos-bioluminescentes-geram-propostas-turisticas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=levantamentos-de-organismos-bioluminescentes-geram-propostas-turisticas</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Igor Zolnerkevic]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:11:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Química]]></category>
		<category><![CDATA[Zoologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Vagalumes e outros seres luminosos podem gerar renda, de forma controlada, para reservas ecológicas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Desde 2007, o biólogo Danilo Trabuco do Amaral participa de expedições noturnas em regiões de mata fechada do estado de São Paulo e de outros locais do país procurando por espécies de vagalumes. Um dos lugares que mais impressionaram o pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC) foi a Estação Ecológica de Jureia-Itatins (EEJI), um dos trechos mais bem preservados de Mata Atlântica, com 844 quilômetros quadrados (km²) de extensão, em Peruíbe, no litoral sul paulista. Ali, Amaral chegou a avistar em uma única noite até 15 vagalumes por metro de trilha. “Eles trombam e pousam em você, de tantos que são”, ele conta.</p>
<p>Em um levantamento inédito na região, Amaral e sua equipe encontraram 23 espécies de vagalumes, quatro de fungos e uma de microrganismo marinho que brilham no escuro – um espetáculo com potencial de aliar turismo à conservação da natureza. Em um artigo publicado em fevereiro na revista <em>Journal for Nature Conservation</em>, eles discutiram os possíveis benefícios de fomentar o ecoturismo de bioluminescência na EEJI e em outras reservas de Mata Atlântica.</p>
<p>A inspiração veio de experiências bem-sucedidas no exterior. No Japão, os vagalumes são celebrados em festivais tradicionais de verão conhecidos como <em>hotaru matsuri, </em>e seu hábitat natural – matas próximas a cursos de água – é preservado, mesmo em áreas urbanas. Nos Estados Unidos, a partir dos anos 2000, o Parque Nacional das Grandes Montanhas Fumegantes, entre o Tennessee e a Carolina do Norte, começou a receber pequenos grupos de turistas para observar o fenômeno da sincronização, em que centenas a milhares de vagalumes <em>Photinus carolinus</em> piscam de maneira coordenada.</p>
<div id="attachment_585303" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585303 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-roxo-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="868" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-roxo-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-roxo-2026-06-800-250x271.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-roxo-2026-06-800-700x760.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-roxo-2026-06-800-120x130.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Cassius Stevani / USP</span>Em expedições noturnas, por vezes aparecem espécies fluorescentes não identificadas, como esse fungo em tronco de árvore<span class="media-credits">Cassius Stevani / USP</span></p></div>
<p>Nos últimos 10 anos, um conjunto de santuários para vagalumes nas vilas de Nanacamilpa e Ameacameca, a cerca de 100 quilômetros da Cidade do México, tem atraído mais de 100 mil visitantes todo ano à procura da abundância de <em>Photinus palaciosi</em> e sua sincronização parcial, proporcionando renda às comunidades locais e conscientizando o público para a preservação da floresta. O mesmo ocorre na Malásia, em Kuala Selangor, onde enxames de <em>Pteroptyx tener</em> tomam os manguezais nas margens do rio Selangor, piscando em total sincronismo – uma estratégia de comunicação usada no contexto de atração de parceiras reprodutivas.</p>
<p>Apesar de ser o país com a maior diversidade de besouros bioluminescentes, abrigando cerca de 500 das aproximadamente 3 mil espécies conhecidas no mundo, o Brasil ainda explora pouco seu potencial turístico. O destino nacional mais famoso é o Parque Nacional das Emas, em Goiás, uma área plana de Cerrado onde as larvas do vagalume <em>Pyrearinus termitilluminans</em>, abrigadas em milhões de cupinzeiros que podem chegar a quase 2 metros de altura, emitem uma luz verde contínua nas noites de primavera. Passeios noturnos são oferecidos por algumas operadoras de turismo da região, atraindo alguns milhares de visitantes por ano.</p>
<p>Amaral fez iniciação científica e doutorado com o bioquímico Vadim Viviani, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que há mais de 30 anos pesquisa insetos bioluminescentes em todo o país, em busca de novas espécies e do monitoramento de sua diversidade. Isso inclui a clonagem de luciferases – as enzimas responsáveis por induzir a reação química que gera o brilho dos vagalumes, para os quais é central na comunicação, e de outros seres luminosos (<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/verde-amarelo-ou-vermelho/" target="_blank" rel="noopener"><em>ver </em>Pesquisa FAPESP<em> nº 274</em></a>). A reação luminosa é muito utilizada em biotecnologia, no desenvolvimento de novos ensaios para indústria, ambiente e medicina. Mas a Jureia esteve fora do roteiro deles até o início de 2024, quando Amaral esteve lá pela primeira vez.</p>
<div id="attachment_585287" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585287 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-pessoas-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="862" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-pessoas-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-pessoas-2026-06-1140-250x189.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-pessoas-2026-06-1140-700x529.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-pessoas-2026-06-1140-120x91.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Cassius Stevani / USP</span>Estudantes do curso de química ambiental do IQ-USP fazem observação em campo<span class="media-credits">Cassius Stevani / USP</span></p></div>
<p>Em 2022, o programa Biota-FAPESP, em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do estado de São Paulo e a Fundação Florestal, lançou uma chamada de propostas que contribuíssem com a conservação, a restauração e o uso sustentável da biodiversidade da EEJI. Um dos sete projetos aprovados foi o levantamento de organismos bioluminescentes da região. Extremamente sensíveis à poluição da água, do solo e ao excesso de luz artificial, a presença desses seres funciona como indicador de saúde de um ecossistema.</p>
<p>De janeiro de 2024 a janeiro de 2026, Amaral contou com a ajuda de sua colaboradora e esposa, a bióloga Isabel Bonatelli, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e três orientandos – o aluno de graduação Rodrigo Castro e os de mestrado João Roberto Machado e Lara Muniz – para realizar coletas mensais de dois a três dias de duração na EEJI. O grupo aguardava o pôr do sol para explorar os sete locais escolhidos para representar a diversidade de ambientes da estação, seguindo ao longo do rio Una do Prelado e cruzando desde florestas de encostas de montanha até a vegetação à beira da praia da Barra do Una. Os trabalhos se encerravam por volta das 22h30.</p>
<p>Caçar vagalumes exige o máximo possível de escuridão. O segredo para caminhar no escuro sem tropeçar é cobrir lanternas comuns com papel celofane vermelho. “A luz vermelha tem dois benefícios”, explica Amaral. “Ao acender e apagar uma luz branca no escuro, você não consegue enxergar mais nada por algum tempo, enquanto a luz vermelha não interfere tanto na sensibilidade dos olhos. Além disso, os vagalumes não enxergam bem a cor vermelha, então quase não se abalam.”</p>
<div id="attachment_585283" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585283 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-inseto-vermelho-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="901" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-inseto-vermelho-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-inseto-vermelho-2026-06-800-250x282.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-inseto-vermelho-2026-06-800-700x788.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-inseto-vermelho-2026-06-800-120x135.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Cassius Stevani / USP</span>Os besouros tec-tec se caracterizam pelas lanternas na cabeça<span class="media-credits">Cassius Stevani / USP</span></p></div>
<p>“Você acende um pouco a luz, vê o caminho e segue em silêncio e devagar, porque mesmo uma pisada forte pode afugentar algumas espécies, depois para e presta atenção”, ele relata. “Precisa olhar para cima, onde os vagalumes podem estar voando, mas também para o solo, onde vivem suas larvas bioluminescentes.”</p>
<p>A primeira espécie identificada pela equipe foi a inconfundível larva-trenzinho (<em>Phrixothrix hirtus</em>), o único ser bioluminescente terrestre capaz de emitir luz vermelha. A larva tem uma lanterna dessa cor na cabeça, que pode iluminar seu caminho em busca de presas, como o piolho-de-cobra, que também não enxerga muito bem o vermelho. Assim como todas as espécies de vagalume da família dos fengodídeos, a larva-trenzinho exibe uma sequência de luzes verdes do lado de cada segmento de seu corpo, que espantam predadores em potencial. A maioria das espécies de vagalume passa a maior parte da vida, entre um e dois anos, como larvas predadoras de outros invertebrados, até se transformarem em insetos alados, normalmente no verão, vivendo apenas o tempo de se reproduzir, o que ocorre em poucas semanas.</p>
<p>O levantamento na EEJI encontrou espécies das três principais famílias que ocorrem no Brasil: os fengodídeos, cujas fêmeas adultas permanecem como larvas e apenas os machos se transformam; os elaterídeos, ou besouros tec-tec, conhecidos por duas lanternas laterais verdes, amarelas ou laranja, que acendem quase continuamente; e os lampirídeos, os vagalumes de luz piscante verde, azul ou amarela, localizada geralmente na ponta do abdômen. Amaral está utilizando os dados coletados para revisar a filogenia, ou classificação das espécies, enquanto Bonatelli investiga se a variabilidade genética da população do lampirídeo <em>Photinus succensus</em> na EEJI é suficiente para garantir a sobrevivência da espécie.</p>
<div id="attachment_585275" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585275 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-escorpiao-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="729" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-escorpiao-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-escorpiao-2026-06-1140-250x160.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-escorpiao-2026-06-1140-700x448.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-escorpiao-2026-06-1140-120x77.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Cassius Stevani / USP</span>Escorpiões frequentemente exibem fluorescência<span class="media-credits">Cassius Stevani / USP</span></p></div>
<p>Em troncos ou embaixo da serrapilheira do chão da floresta, se confundindo com as larvas de vagalumes, os pesquisadores encontraram também redes de filamentos bioluminescentes de fungos, talvez dos gêneros <em>Gerronema</em> e <em>Mycena</em>, de onde brotam cogumelos de brilho verde durante o verão. A luz noturna dos fungos atrai insetos que acabam carregando pequenas porções de seus filamentos para outras áreas, ajudando a dispersá-los pela floresta, <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/ritmo-biologico-controla-brilho-de-cogumelos/" target="_blank" rel="noopener">conforme mostraram experimentos</a> do grupo do químico Cassius Stevani, da Universidade de São Paulo (USP).</p>
<p>Além disso, em setembro e outubro de 2024 a equipe testemunhou um brilho azulado no mar da praia da Barra do Una, criado pelo dinoflagelado <em>Noctiluca scintillans</em>, um dos microrganismos que podem proliferar durante florações de microalgas e emitem luz quando a água se agita, seja pelas ondas ou pelos movimentos dos banhistas. Comum em outras partes do mundo como o Sudeste Asiático, o fenômeno, considerado mecanismo de defesa contra predadores, é observado ocasionalmente em algumas praias das regiões Sul e Sudeste do Brasil.</p>
<p>Amaral vem discutindo com Aruã Caetano, gestor da EEJI, como implementar o turismo de bioluminescência em pequena escala na estação. O acesso à reserva é normalmente restrito a atividades educacionais e de pesquisa, com algumas áreas liberadas a pequenos grupos de turistas autorizados. A ideia é promover passeios noturnos conduzidos por guias especialmente treinados, voltados para pequenos grupos instruídos por meio de palestras e material impresso. Novas trilhas precisariam ser feitas com passarelas e plataformas para reduzir o impacto do pisoteio que compacta o solo, prejudicando fungos e larvas. A atividade ofereceria uma fonte de renda extra à população caiçara que vive dentro ou próxima à estação, além de conscientizá-la a reduzir a poluição luminosa – as luzes externas acesas durante toda a noite em muitas casas da região afugentam os vagalumes, além dos morcegos e das corujas.</p>
<div id="attachment_585291" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585291 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-planta-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="933" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-planta-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-planta-2026-06-800-250x292.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-planta-2026-06-800-700x816.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-planta-2026-06-800-120x140.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Cassius Stevani / USP</span>Líquens luminosos no núcleo Santana, no Petar<span class="media-credits">Cassius Stevani / USP</span></p></div>
<p>O pesquisador defende que projetos semelhantes poderiam ser aplicados em outras áreas de Mata Atlântica com biodiversidade comparável, como o Parque Estadual Carlos Botelho, em São Miguel Arcanjo, no sudoeste paulista. Ali vive uma das poucas espécies conhecidas de vagalumes brasileiros capazes de atingir alto grau de sincronização, do gênero <em>Bicellonycha</em>. Amaral conta que o piscar coletivo desses insetos produz ondas sincronizadas, como a “ola” de uma torcida em um estádio. Outras espécies até tentam sincronizar, mas raramente conseguem. Na Jureia, sua equipe observou esse comportamento em apenas duas ocasiões.</p>
<p>“Concordo totalmente com o Danilo”, afirma Stevani, um dos responsáveis por elucidar o mecanismo de geração de luz em fungos bioluminescentes (<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/luzes-vivas/" target="_blank" rel="noopener"><em>ver </em>Pesquisa FAPESP <em>nº 168</em></a>), sobre o potencial turístico da luminosidade natural. Desde 2002, Stevani e seus colaboradores frequentam o núcleo Santana do Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira (Petar), em Iporanga, no sul paulista, onde descreveram 17 espécies desses fungos, um dos maiores números já registrados em uma mesma região. Em 2022, a agência de turismo Planeta Trilha venceu uma licitação do parque para oferecer o passeio “Luminescência no Petar”, com guias inicialmente treinados por Stevani.</p>
<p>A proposta da experiência turística é mostrar não apenas fungos bioluminescentes e algumas das cerca de 30 espécies de vagalumes da região, mas também outros fenômenos naturais. Efeitos conhecidos como fluorescência e fosforescência fazem com que alguns seres vivos e minerais brilhem quando iluminados por luz ultravioleta. Folhas podem emitir fluorescência vermelha; líquens, tons de azul, verde ou amarelo; escorpiões, ciano; e opiliões, azul. Rochas de calcita, encontradas na entrada das cavernas do parque, emitem um brilho verde. Também nas cavernas, o choque entre cristais de quartzo pode produzir breves flashes de luz amarela por outro efeito, a triboluminescência, decorrente da quebra dos cristais e recombinação das cargas elétricas geradas.</p>
<div id="attachment_585279" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585279 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-inseto-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="702" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-inseto-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-inseto-2026-06-1140-250x154.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-inseto-2026-06-1140-700x431.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-bioluminescencia-inseto-2026-06-1140-120x74.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Cassius Stevani / USP</span>Opilíões, que são aracnídeos, também podem ser fluorescentes<span class="media-credits">Cassius Stevani / USP</span></p></div>
<p>“A experiência da floresta à noite é completamente diferente: os sons, os cheiros, todas as sensações”, descreve o químico Antônio Cardoso Neto, guia turístico da Planeta Trilha. Ele conta que o passeio se tornou uma das atividades principais da agência, tendo atendido cerca de mil pessoas ao longo dos últimos três anos, entre turmas de escolas e grupos de famílias e amigos. “Trabalho no Petar há quase 30 anos e uma das experiências que mais me marcou foi a vez em que uma senhora se agachou para ver de perto um grupo de cerca de 100 cogumelos de <em>Mycena lucentipes</em> crescendo em um tronco e chorou de emoção.”</p>
<p>“Essas operações turísticas não são apenas viáveis, mas desejáveis como ferramentas de desenvolvimento local”, considera o biólogo José Sabino, diretor da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), que pesquisa a relação entre ecoturismo e conservação no Pantanal. Ele nota que os requisitos para observar a bioluminescência – silêncio, controle rigoroso da iluminação e guias especializados – são os mesmos dos passeios de observação de aves noturnas, as chamadas corujadas. Para o pesquisador, as duas atividades poderiam ser facilmente combinadas, ampliando o potencial educativo e imersivo da experiência. “Transformar elementos pouco percebidos da biodiversidade em um ativo valorizado cria um incentivo concreto para a sua proteção.”</p>
<p class="bibliografia">Uma versão deste texto foi publicada na edição impressa <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/050-051_bioluminescencia_364.pdf" target="_blank" rel="noopener">representada no pdf</a>.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Projeto</strong><br />
Levantamento de organismos bioluminescentes da Estação Ecológica de Jureia-Itatins: biodiversidade, evolução molecular e bioindicador ambiental (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/113442/levantamento-de-organismos-bioluminescentes-da-estacao-ecologica-de-jureia-itatins-biodiversidade-ev/?q=22/09910-9" target="_blank" rel="noopener">nº 22/09910-9</a>); <strong>Modalidade</strong> Auxílio à pesquisa – Regular; <strong>Programa</strong> Biota; <strong>Pesquisador responsável</strong> Danilo Trabuco do Amaral (UFABC); <strong>Investimento</strong> R$ 273.553,42.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Artigo científico</strong><br />
AMARAL, D. T. <em>et al. </em><a href="https://doi.org/10.1016/j.jnc.2026.127247" target="_blank" rel="noopener">Bioluminescent diversity and ecotourism potential in the Juréia-Itatins Ecological Station, integrating conservation and sustainable development</a>. <strong>Journal for Nature Conservation. </strong>24 fev. 2026.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Experimento internacional vai estudar como a Amazônia reage a ambiente rico em dióxido de carbono</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/experimento-internacional-vai-estudar-como-a-amazonia-reage-a-ambiente-rico-em-dioxido-de-carbono/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=experimento-internacional-vai-estudar-como-a-amazonia-reage-a-ambiente-rico-em-dioxido-de-carbono</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcos Pivetta]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:58:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://revistapesquisa.fapesp.br/?p=585310</guid>

					<description><![CDATA[Programa AmazonFace vai acompanhar por dez anos crescimento de seis parcelas da floresta submetidas a uma atmosfera com 50% a mais de CO<sub>2</sub> do que hoje]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Água, luz solar e dióxido de carbono (CO<sub>2</sub>) são os reagentes que servem de combustível para as plantas fazerem fotossíntese, processo que lhes fornece energia para crescer e se manter vivas. Como se comportaria a Amazônia, a maior floresta tropical do planeta, onde se estima haver 400 bilhões de árvores, se a quantidade de um desses ingredientes, o CO<sub>2</sub>, principal gás responsável pelo aquecimento global, fosse 50% maior do que a atual? Essa é a grande pergunta que vai orientar as atividades do principal experimento de campo do programa AmazonFace, uma colaboração internacional que se iniciou em 2011 e entra agora em sua fase mais importante.</p>
<p>Em junho, começam os testes finais das instalações que vão monitorar em detalhes, pelos próximos 10 anos, seis parcelas de floresta adulta e preservada na reserva ZF2, uma estação experimental do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), localizada a cerca de 70 quilômetros ao norte do centro de Manaus. A tecnologia usada em campo é denominada <em>free-air CO<sub>2</sub> enrichment </em>(Face) e serviu de inspiração para o nome do programa. Foi criada na década de 1990 nos Estados Unidos e tem sido empregada em estudos que tentam entender o impacto de uma atmosfera rica em CO<sub>2</sub> sobre o comportamento de diversos tipos de vegetação.</p>
<div id="attachment_585311" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585311 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-torre-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="1151" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-torre-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-torre-2026-06-800-250x360.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-torre-2026-06-800-700x1007.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-torre-2026-06-800-120x173.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">João M. Rosa / AmazonFace</span>Torre de liberação de CO<sub>2</sub> na atmosfera<span class="media-credits">João M. Rosa / AmazonFace</span></p></div>
<p>Em linhas gerais, um ar com mais dióxido de carbono produz nas plantas, em maior ou menor grau, um efeito similar ao emprego de um adubo no solo: promove seu crescimento. É como se o excesso de CO<sub>2</sub> disponível atuasse como um fertilizante: as espécies vegetais retiram mais desse gás da atmosfera e contam com um combustível extra para fazer fotossíntese. Os pesquisadores utilizam comumente a expressão “fertilização por CO<sub>2</sub>”. Ao retirar mais dióxido de carbono da atmosfera, um efeito benéfico ao aquecimento global e às mudanças climáticas, as plantas fixam mais carbono e tendem a produzir mais biomassa (troncos, galhos e folhas). Esse é o quadro genérico, derivado de estudos feitos em pequena escala, geralmente com uma ou poucas espécies vegetais.</p>
<p>Em campo, ainda mais em meio a uma floresta tão biodiversa como a amazônica, onde deve haver cerca de 16 mil espécies vegetais, ninguém sabe ao certo qual seria o impacto da fertilização por CO<sub>2</sub> no ecossistema como um todo. É razoável pensar que a floresta turbinada por uma dose extra desse gás pode mudar a forma como as plantas interagem entre si, adaptam-se às mudanças climáticas e usam os insumos disponíveis, como água e nutrientes.</p>
<p>“O experimento é o primeiro no mundo que vai usar a tecnologia Face para estudar uma floresta tropical. Os outros trabalhos foram feitos em zonas de clima temperado, que têm uma vegetação diferente da Amazônia”, comenta o ecólogo e meteorologista David Lapola, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos dois coordenadores nacionais do AmazonFace. “Se não houver nenhum problema nos testes, deveremos iniciar oficialmente as medições contínuas nas seis parcelas de floresta em agosto.”</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-2026-06-info-670-DESKTOP.png" data-tablet_size="670x810" alt="O local do AmazonFace: O experimento envolve seis parcelas de floresta preservada em uma área do Inpa situada 70 quilômetros ao norte de Manaus">
    <source srcset="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-2026-06-info-670-DESKTOP.png" media="(min-width: 1920px)" />
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP</span>
<p>Uma estrutura significativa foi montada na estação do Inpa. Cada uma das seis parcelas é circundada por um anel com 30 metros (m) de diâmetro, formado por 16 torres de 35 m de altura conectadas a um tanque de armazenamento de CO<sub>2</sub> líquido. Durante o dia, quando há luz solar e os vegetais absorvem dióxido de carbono para fazer fotossíntese, três parcelas serão “alimentadas” com ar enriquecido por uma dose extra desse gás. O reforço elevará a concentração diurna de dióxido de carbono no interior desse trio de anéis das atuais 420 partes por milhão (ppm) para 620 ppm, concentração que a atmosfera terrestre poderá atingir nos próximos 50 anos ou até o final do século, segundo algumas estimativas. Nos outros três anéis, que funcionam como uma espécie de grupo de controle, será aspergido ar com a quantidade atual de dióxido de carbono. O aumento na concentração de CO<sub>2</sub> empregado no experimento é da mesma ordem de grandeza do que ocorreu no planeta entre o final do século XIX e hoje, quando a concentração atmosférica do gás se elevou em 50%, de 280 para 420 ppm.</p>
<p>No AmazonFace, será possível acompanhar a evolução ao longo do tempo das parcelas de floresta mantidas em um ar rico em CO<sub>2</sub> com as que vivem sob uma atmosfera com a concentração atual desse gás. Os anéis foram instalados em pontos muito próximos da floresta, em ambientes praticamente iguais. Distam entre si cerca de 90 metros. A única grande diferença é a quantidade extra de dióxido de carbono em três das seis parcelas. “Dentro de cada anel, há entre 50 e 70 árvores maduras, sem contar a vegetação de menor porte. Dificilmente existe mais de um exemplar de uma mesma espécie arbórea em cada parcela. Nos seis anéis, deve haver cerca de 400 espécies. Vamos ver no experimento, entre outras questões, quais espécies vão se dar bem ou mal no ambiente rico em CO<sub>2</sub>”, explica o engenheiro florestal Carlos Alberto Quesada, especialista em solos do Inpa, o outro coordenador nacional do AmazonFace. “Os estudos com a tecnologia Face costumam ser feitos em áreas de floresta formadas por apenas uma ou duas espécies de árvores.” Na Austrália, por exemplo, está em curso um experimento desse tipo em uma mata nativa constituída predominantemente por eucaliptos, espécie originária da Oceania.</p>
<div id="attachment_585323" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585323 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-gaiola-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="723" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-gaiola-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-gaiola-2026-06-1140-250x159.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-gaiola-2026-06-1140-700x444.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-gaiola-2026-06-1140-120x76.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">João M. Rosa / AmazonFace</span>Visão da parte interna de um anel<span class="media-credits">João M. Rosa / AmazonFace</span></p></div>
<p>Uma série de dispositivos foram instalados nas parcelas para fornecer informações para os estudos e facilitar o trabalho dos cientistas. Diferentes tipos de sensores registram quase tudo que pode ser mensurado no ambiente sob influência dos anéis: temperatura, direção do vento, concentração de dióxido de carbono (entre outros parâmetros atmosféricos), taxa de fotossíntese nas folhas das plantas, dinâmica das raízes e presença de nutrientes no solo. Medições periódicas da biomassa das plantas vão verificar se e quanto as árvores estão engordando com a dieta extra de CO<sub>2</sub>. Cada anel do AmazonFace conta ainda com os serviços de um guindaste especial de 45 m de altura, que foi usado para a construção das torres do sistema, e será empregado, de agora em diante, como meio de acesso à copa das árvores para a realização de medições.</p>
<p>De 2019 a 2022, o AmazonFace contou com seis pequenas câmaras de topo aberto, com diâmetro de 2,5 m e 3 m de altura, um tipo de estrutura que lembra uma estufa circular com um buraco no teto e é usado há décadas para estudar a reação de plantas a ambientes ricos em CO<sub>2</sub>. Instaladas a cerca de 100 m do trecho da floresta amazônica que abriga os anéis do experimento, as câmaras foram usadas para estudos específicos sobre o efeito da fertilização por CO<sub>2</sub> em certas espécies vegetais ou em determinadas condições ambientais.</p>
<div id="attachment_585327" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585327 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-solo-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="983" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-solo-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-solo-2026-06-800-250x307.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-solo-2026-06-800-700x860.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-amazonface-solo-2026-06-800-120x147.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">João M. Rosa / AmazonFace</span>Detalhe da presença de água no solo local<span class="media-credits">João M. Rosa / AmazonFace</span></p></div>
<p>Um trabalho que usou dados das câmaras de topo aberto foi publicado no final de abril na revista <em>Nature Communications</em>. No estudo, os pesquisadores constataram que, após terem sido submetidas a um ar rico em dióxido de carbono por um período de oito meses a um ano, a comunidade de plantas de um sub-bosque da floresta – a vegetação de baixa estatura que cresce sob o dossel das árvores – adotou diferentes estratégias radiculares para se adaptar a essa condição atmosférica. Na serrapilheira, camada sobre o solo onde se acumulam restos de plantas e de material orgânico vivo em decomposição, as raízes se tornaram mais compridas e com menor diâmetro, aumentando sua área de atuação. No solo, elas foram mais colonizadas por micorrizas arbusculares, fungos que melhoram a absorção de nutrientes.</p>
<p>“Essas alterações, tanto no solo como na serapilheira, sugerem que as plantas estão se adaptando para aumentar sua eficiência na aquisição de fósforo, um nutriente que, se estiver em falta, limita seu crescimento na Amazônia”, diz a pesquisadora brasileira Nathielly Martins, da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, autora principal do trabalho e integrante da equipe do AmazonFace. No estudo, também foi encontrada uma menor quantidade de fósforo no solo perto das plantas, um indicativo de que as espécies parecem realmente ter elevado sua capacidade de retirar o nutriente quando submetidas a uma atmosfera com mais dióxido de carbono.</p>
<p>Para o botânico Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), que não participa do AmazonFace, o experimento ao ar livre ao norte de Manaus tem potencial de gerar descobertas interessantes sobre os impactos de um ambiente rico em CO<sub>2</sub> na ecologia das plantas, ou seja, como elas se relacionam entre si na floresta e com o ambiente. “Os efeitos fisiológicos de altas concentrações de dióxido de carbono sobre as plantas estão muito bem caracterizados e dificilmente haverá diferenças significativas nas respostas encontradas pelo AmazonFace. Nessas condições, as espécies aumentam a fotossíntese e o acúmulo de reservas energéticas [açúcares]”, afirma Buckeridge. “Mais de mil trabalhos científicos mostraram isso.” Há mais de duas décadas, o pesquisador da USP estuda as reações fisiológicas de plantas cultivadas dentro de câmaras de topo aberto com ar enriquecido de dióxido de carbono (<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/o-jatoba-contra-a-poluicao/" target="_blank" rel="noopener"><em>ver</em> Pesquisa FAPESP <em>nº 80</em></a>).</p>
<p>Até agora, foram investidos cerca de R$ 80 milhões no AmazonFace. Metade da verba veio de uma série de fontes brasileiras: FAPESP, Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Os outros 50% foram provenientes do MetOffice, o serviço de meteorologia do Reino Unido, cuja participação no programa teve início em 2019. O custo total da iniciativa deverá chegar a R$ 260 milhões nos próximos 10 anos. “Temos verbas garantidas para o funcionamento do AmazonFace por cinco anos”, diz Lapola.</p>
<p class="bibliografia">A reportagem acima foi publicada com o título “<strong>Dando um gás na floresta</strong>” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Projeto</strong><br />
AmazonFACE: avaliação dos efeitos do aumento de CO<sub>2</sub> atmosférico na ecologia da Floresta Amazônica (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/117098/amazonface-avaliacao-dos-efeitos-do-aumento-de-co2-atmosferico-na-ecologia-da-floresta-amazonica/" target="_blank" rel="noopener">n° 23/09046-5</a>); <strong>Modalidade</strong> Projeto Temático; <strong>Pesquisador responsável</strong> David Lapola.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Artigo científico</strong><br />
MARTINS, N.P. <em>et al</em>. <a href="https://www.nature.com/articles/s41467-026-72098-0" target="_blank" rel="noopener">Amazonian understory forests change phosphorus acquisition strategies under elevated CO<sub>2</sub></a>. <strong>Nature Communications</strong>. 28 abr. 2026.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Publicações científicas voltam a crescer após a pandemia</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/publicacoes-cientificas-voltam-a-crescer-apos-a-pandemia/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=publicacoes-cientificas-voltam-a-crescer-apos-a-pandemia</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:57:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dados]]></category>
		<category><![CDATA[Cientometria]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://revistapesquisa.fapesp.br/?p=585345</guid>

					<description><![CDATA[Publicações científicas voltam a crescer após a pandemia]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<ul>
<li>Após queda em quase todos os países durante parte da pandemia, entre 2021 e 2023, o número de publicações científicas indexadas<sup>1</sup> voltou  a crescer entre 2023 e 2025</li>
<li>Entre 2021 e 2023, o total mundial de publicações científicas indexadas diminuiu de 3,10 milhões para 2,90 milhões, retração de 6,7%</li>
<li>Entre 2023 e 2025, a produção mundial voltou a crescer 12,8%, e chegou a 3,27 milhões. Como resultado, o total mundial cresceu 5,2% entre 2021 e 2025</li>
<li>A recuperação entre 2023 e 2025 foi ampla, no entanto poucos países conseguiram recuperar o número de 2021, como mostram os dados abaixo</li>
</ul>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-dados-2026-06-info1-1140.png" data-tablet_size="1140x380" alt="">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Recuperação mínima: Evolução das publicações científicas indexadas no período de 2021 a 2025</span></div><div class="post-content sequence">
<ul>
<li>Dos países incluídos na tabela, China e Arábia Saudita foram os únicos onde houve crescimento significativo entre 2021 e 2023 e continuaram se destacando no período seguinte. Entre 2021 e 2025 tiveram crescimento acima de 40%. Outros países com crescimento entre 2021 e 2025 incluem Turquia, Índia, Chile e Coreia do Sul</li>
<li>Entre os demais países do grupo do Brics, a África do Sul praticamente recuperou sua produção pré-‑pandemia<sup>2</sup>, enquanto Brasil e Rússia se mantêm entre os mais afetados<sup>3</sup></li>
<li>Dos países da América Latina incluídos, além do Chile, constam ainda México, que apresentou boa recuperação, mas ainda está com queda em relação a 2021. Já Argentina, assim como o Brasil, mantém-se em 2025, com 10% abaixo do número de 2021</li>
</ul>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-dados-2026-06-info2-1140.png" data-tablet_size="1140x380" alt="Brasil – número de publicações e participação no total mundial 2015-2025">
    <source srcset="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-dados-2026-06-info2-1140.png" media="(min-width: 1920px)" />
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    <img decoding="async" class="responsive-img" src="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-dados-2026-06-info2-760.png" />
  </picture></div><div class="post-content sequence">
<ul>
<li>No Brasil, a produção científica cresceu por mais de três décadas, até atingir o máximo histórico de 92.310 em 2021. Caiu para 75.658 em 2023, com uma recuperação parcial em 2025, 80.454 publicações. O volume, no entanto, ainda permanece 13% abaixo do registrado em 2021, o que coloca o país entre os mais afetados no grupo analisado</li>
<li>A participação do Brasil no total mundial,  que vinha crescendo há mais de três décadas, também caiu. Após atingir o máximo de 3% entre 2019 e 2021, essa participação diminuiu para 2,5% em 2025</li>
</ul>
<p class="bibliografia"><strong>Notas (1) </strong>Publicações dos tipos “Article”, “Review” e “Proceedings Paper”, Base Web of Science/Clarivate <strong>(2)</strong> A pandemia de Covid-19 não apesenta impacto relevante sobre  o número de publicações científicas nos seus primeiros dois anos, 2020 e 2021, segundo dados das bases bibliométricas internacionais <strong>(3)</strong> A Rússia é o único país do grupo selecionado que vem apresentando queda no número de publicações em todos os anos do período analisado, incluindo os anos iniciais da pandemia</p>
<p class="bibliografia"><strong>Fonte </strong>Incites/Web of Science/Clarivate, dados atualizados até 31/03/2026, baixados em 27/04/2026<br />
<strong>Elaboração</strong> GPAFI/DPCTA/Fapesp</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Perigo à vista!</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/perigo-a-vista/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=perigo-a-vista</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:35:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Aves e macacos formam uma espécie de “rádio da floresta”: quando um animal percebe perigo, o alerta sonoro se espalha]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_585447" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignright vertical"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585447 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-ave-rapina-2026-06.jpg" alt="" width="1140" height="623" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-ave-rapina-2026-06.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-ave-rapina-2026-06-250x137.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-ave-rapina-2026-06-700x383.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-ave-rapina-2026-06-120x66.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Jay Pierstorff / Getty Images</span>Gaviões-asa-de-telha são os primeiros a avisar sobre possíveis predadores<span class="media-credits">Jay Pierstorff / Getty Images</span></p></div>
<p>Aves de rapina do alto das árvores são as primeiras a fazer barulho quando avistam possíveis predadores, que podem ser até mesmo visitantes humanos passeando pela mata. O gavião-asa-de-telha (<em>Parabuteo unicinctus</em>) solta gritos agudos e repetidos, kiii-kiii-kiii, o gavião-bombachinha-grande (<em>Accipiter bicolor</em>) emite notas curtas rápidas, ki-ki-ki-ki-ki, e o falcão-de-coleira (<em>Falco femoralis</em>) um chamado agudo e ritmado, klee-klee-klee. Outras aves próximas captam o chamado, emitem seus próprios sons e espalham o alarme. Rapidamente, diferentes espécies – e não apenas de aves – se conectam em uma rede de informações e fazem a floresta silenciar brevemente. Espécies de aves do gênero <em>Monasa</em>, como o chora-chuva-preto (<em>Monasa nigrifrons</em>), são grandes propagadores de sinais de alarme após ouvirem chamados de outras espécies, que podem ser maiores, incluindo macacos-prego (<em>Sapajus </em>spp<em>.</em>) e macacos-aranha (<em>Ateles </em>spp<em>.</em>). Biólogos da Suíça, da Austrália, do Peru e dos Estados Unidos reconstituíram essa rádio floresta analisando as interações entre 370 espécies de aves e 10 de primatas no Parque Nacional Manu, no Peru. Para simular a propagação de alarmes, eles reproduziram chamados de uma ou mais espécies de aves e primatas e registraram a propagação de alarmes e as reações dos animais (<a href="https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0960982226001557" target="_blank" rel="noopener"><em>Current Biology</em></a>, 20 de abril).</p>
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		<title>Mesmo mineral, outro resultado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:35:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Evolução]]></category>
		<category><![CDATA[Geologia]]></category>
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					<description><![CDATA[O motor que move os continentes da Terra pode ser muito mais antigo do que se imaginava]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_585457" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignnone vertical"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585457 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-terra-arqueano-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="710" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-terra-arqueano-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-terra-arqueano-2026-06-1140-250x156.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-terra-arqueano-2026-06-1140-700x436.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-terra-arqueano-2026-06-1140-120x75.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">NASA / Goddard Space Flight Center / Francis Reddy </span>Representação da Terra no período Arqueano<span class="media-credits">NASA / Goddard Space Flight Center / Francis Reddy </span></p></div>
<p>Em 2024, geólogos de São Paulo e Minas Gerais examinaram as idades de 15 mil amostras do mineral rutilo, que se forma sob temperaturas baixas e altas pressões, verificadas somente quando blocos de rochas que se movimentam em sentidos opostos se encontram. As análises indicaram que as placas litosféricas começaram a se encontrar entre 2,1 bilhões e 1,8 bilhão de anos atrás. O mesmo grupo, em outra análise, chegou a um resultado diferente. “Em rochas da Chapada Diamantina com idade entre 1,8 bilhão e 1 bilhão de anos, encontramos grãos de rutilo que indicam a tectônica [movimentação] de placas operando em períodos bem mais antigos”, conta o geólogo Rodrigo Cerri, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), <em>campus</em> de Rio Claro. “Pelo menos na região que é hoje o Brasil, a tectônica de placas poderia estar operando a partir de 3,2 bilhões a 3 bilhões de anos atrás, já no período Arqueano, quando a crosta terrestre começou a se formar e há uma intensa atividade vulcânica” (<a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0012821X26001196?via%3Dihub" target="_blank" rel="noopener"><em>Earth and Planetary Science Letters</em></a>, 1o de maio).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Infravermelho revela o sexo dos embriões antes de nascerem</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/infravermelho-revela-o-sexo-dos-embrioes-antes-de-nascerem/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=infravermelho-revela-o-sexo-dos-embrioes-antes-de-nascerem</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:34:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Biotecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Agora é possível identificar, ainda dentro do ovo, se um pintinho vai sobreviver e se será macho ou fêmea]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Uma equipe da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (Uiuc), nos Estados Unidos, usou imagens de infravermelho próximo (NIR) e hiperespectrais (HSI) para prever a mortalidade e o sexo de pintinhos em ovos de galinha antes de eclodirem. Para examinar a mortalidade, em vez de projetar uma luz forte através do ovo, como normalmente se faz, os pesquisadores se valeram de uma câmera hiperespectral para adquirir imagens de 300 ovos antes da incubação e após quatro dias na incubadora. Um modelo computacional atingiu 97% de precisão no quarto dia. Outro teste registrou 75% de precisão no início da incubação na classificação de embriões machos e fêmeas. Como interessam apenas as fêmeas, capazes de pôr mais ovos, 6 bilhões de pintinhos machos são descartados todo ano nos Estados Unidos. “Se pudermos identificar os embriões precocemente, podemos evitar o descarte dos machos e usar os ovos para consumo ou na produção de alimentos”, disse Wadud Ahmed, da Uiuc, em um comunicado da universidade. “Com NIR e HSI basta escanear os ovos e o modelo de aprendizado de máquina determinará o parâmetro desejado”, acrescentou Mohammed Kamruzzaman, também da Uiuc (<a href="https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00071668.2026.2620615" target="_blank" rel="noopener"><em>British Poultry Science</em></a>, 20 de fevereiro).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Vermes indicam o estado de conservação dos solos</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/vermes-indicam-o-estado-de-conservacao-dos-solos/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=vermes-indicam-o-estado-de-conservacao-dos-solos</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:34:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Pequenos vermes podem funcionar como termômetros da saúde do solo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_585480" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585480 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-raizes-vermes-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="1008" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-raizes-vermes-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-raizes-vermes-2026-06-800-250x315.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-raizes-vermes-2026-06-800-700x882.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-raizes-vermes-2026-06-800-120x151.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Scot Nelson / Wikimedia Commons</span>Raízes de tomateiro infectado com nematoides das galhas<span class="media-credits">Scot Nelson / Wikimedia Commons</span></p></div>
<p>Quer saber se um solo está saudável? Examine a variedade e a quantidade de um grupo de vermes de corpo cilíndrico e alongado, os nematoides (a minhoca pertence a outro grupo, os anelídeos). Quanto maiores, mais conservado é o solo. Inversamente, quanto menores, mais degradado é o solo. Uma equipe do Instituto Biológico de São Paulo notou contrastes acentuados entre áreas de vegetação nativa ou sob diferentes intensidades de ocupação agrícola no Brasil e em outros países. Em Goiás, Minas Gerais e Distrito Federal, nematoides dos grupos Criconematoidea, Anguinidae e Tylenchidae, comuns em áreas de vegetação nativa, escassearam em áreas ocupadas por culturas agrícolas; por sua vez, os dos gêneros <em>Pratylenchus</em> e <em>Ditylenchus</em> eram encontrados somente em terras cultivadas. Alguns causam danos agrícolas, como o nematoide das galhas (<em>Meloidogyne javanica</em>) e o cavernícola (<em>Radopholus similis</em>). Difíceis de identificar a olho nu, esses animais, com milímetros de comprimento, são transportados por água, ferramentas, tratores ou pelas próprias plantas (<a href="https://www.scielo.br/j/aib/a/FsyK9bHRPVsqXkz4BxbDxhb/?lang=en" target="_blank" rel="noopener"><em>Arquivos do Instituto Biológico</em></a>, fevereiro).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Violino virtual se apoia em leis da física</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/violino-virtual-se-apoia-em-leis-da-fisica/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=violino-virtual-se-apoia-em-leis-da-fisica</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:34:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Violino virtual simula de forma realista o som do instrumento quando as cordas são tocadas com os dedos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_585490" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignright vertical"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585490 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-violino-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="636" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-violino-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-violino-2026-06-1140-250x139.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-violino-2026-06-1140-700x391.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-violino-2026-06-1140-120x67.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Isayurtsever / Getty Images</span>O <em>pizzicato</em> produz vibrações agora criadas por computador<span class="media-credits">Isayurtsever / Getty Images</span></p></div>
<p>Uma equipe do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) fez um violino computacional, que captura a física do instrumento e produz realisticamente seu som quando as cordas são dedilhadas, um tipo de execução conhecido pelos músicos como <em>pizzicato</em>. Ao dedilhar uma corda, um violinista a puxa lateralmente e a solta, fazendo-a vibrar. As vibrações se propagam pelo instrumento, espalham-se pelo ambiente e permitem ao ouvinte captar o som. Apesar das limitações, o violino computacional poderia servir para construtores de instrumentos musicais ajustarem parâmetros, como o tipo de madeira ou a espessura do corpo do violino, e então ouvir o som resultante. Quando os pesquisadores variaram a espessura da tampa traseira do violino virtual ou mudaram o tipo de madeira, puderam ouvir diferenças claras nos sons. Já existem softwares que permitem aos usuários experimentar violinos virtuais, mas seus sons geralmente resultam da amostragem e da média de milhares de notas tocadas por violinos reais. O arco do violino, segundo os pesquisadores, é uma interação muito mais complexa de modelar  (<a href="https://www.nature.com/articles/s44384-026-00049-6" target="_blank" rel="noopener"><em>npj Acoustics</em></a>, 29 de abril).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Empresa paulista vai produzir diamantes</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/empresa-paulista-vai-produzir-diamantes/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=empresa-paulista-vai-produzir-diamantes</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:33:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Engenharia]]></category>
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					<description><![CDATA[Diamantes sintéticos de alta tecnologia, antes quase sempre importados, agora são fabricados no Brasil]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_585506" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright vertical"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585506 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-diamante-lamina-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="791" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-diamante-lamina-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-diamante-lamina-2026-06-800-250x247.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-diamante-lamina-2026-06-800-700x692.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-diamante-lamina-2026-06-800-120x119.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">TCarbon</span>Lâmina com diamante monocristalino: componente para sensores<span class="media-credits">TCarbon</span></p></div>
<p>Nascida da Clorovale, fabricante de diamantes sintéticos policristalinos sediada em São José dos Campos, interior paulista, a TCarbon começou a operar em um prédio anexo ao da outra empresa. Seu propósito é fabricar diamantes monocristalinos, normalmente importados dos Estados Unidos, Índia, China e Japão. Também são produzidos por meio da deposição química de átomos de carbono sobre uma base de nióbio ou molibdênio, mas sob pressão três vezes mais alta e temperaturas mais altas que as usadas para os policristalinos. Outra diferença: “O policristalino cresce em múltiplas direções e o monocristalino tem uma única direção de crescimento”, explica o físico Vladimir Airoldi, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e consultor científico das duas empresas. Os dois tipos são tão resistentes quanto os naturais e têm várias aplicações. Os policristalinos são usados para revestir ferramentas e brocas ultrassônicas para odontologia e os monocristalinos na produção de joias e componentes para sensores e computadores quânticos e baterias nucleares.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Possível fonte de órgãos para transplantes</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/possivel-fonte-de-orgaos-para-transplantes/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=possivel-fonte-de-orgaos-para-transplantes</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:33:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Genética]]></category>
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					<description><![CDATA[Porco clonado é criado no Brasil para pesquisas de transplante de órgãos em humanos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A Universidade de São Paulo (USP) apresentou o primeiro porco clonado do Brasil, resultado de seis anos de trabalho (<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/equipe-da-usp-tenta-gerar-porcos-geneticamente-modificados-para-fornecer-orgaos-a-seres-humanos/" target="_blank" rel="noopener"><em>ver</em> Pesquisa FAPESP <em>nº 339</em></a>). Após uma gestação de quase quatro meses, o porquinho nasceu saudável, com 1,7 quilograma (kg), no Instituto de Zootecnia, em Piracicaba. Esse e outros animais geneticamente modificados devem ser usados para fornecer órgãos para transplantes em seres humanos. Para reduzir o risco de rejeição, foram implantados sete genes humanos nas células suínas. Os embriões resultantes dessas edições foram transferidos para fêmeas híbridas. Os porcos têm sido escolhidos como potenciais doadores para xenotransplante – transferência de órgãos entre espécies diferentes – pela semelhança de tamanho e funcionamento de seus órgãos com os dos humanos. Com sete meses os animais já atingem o peso necessário ao transplante para uma pessoa com 80 quilos. A meta é aproveitar inicialmente rim, córnea, coração e pele, que atendem 94% da demanda por transplantes do Sistema Único de Saúde (<em>Agência FAPESP</em>, 23 de abril).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>47 milhões de galáxias mapeadas</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/47-milhoes-de-galaxias-mapeadas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=47-milhoes-de-galaxias-mapeadas</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:32:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Astronomia]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
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					<description><![CDATA[O maior mapa 3D do Universo reúne dados de milhões de galáxias e estrelas para entender a energia escura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_585520" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignright vertical"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585520 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-galaxias-mapeadas-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="680" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-galaxias-mapeadas-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-galaxias-mapeadas-2026-06-1140-250x149.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-galaxias-mapeadas-2026-06-1140-700x418.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-galaxias-mapeadas-2026-06-1140-120x72.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Claire Lamman / Desi</span>A Terra está no centro deste mapa de galáxias. No detalhe, a estrutura em grande escala do Universo<span class="media-credits">Claire Lamman / Desi</span></p></div>
<p>Gerenciado pelo Laboratório Nacional Lawrence Berkeley (Berkeley Lab) do Departamento de Energia dos Estados Unidos, o Instrumento Espectroscópico de Energia Escura (Desi) concluiu um mapa com 47 milhões de galáxias e quasares (núcleos ativos de galáxias distantes), além de 20 milhões de estrelas próximas usadas para estudar a Via Láctea. O levantamento de cinco anos, concluído antes do prazo e com 13 milhões de galáxias a mais do que o planejado inicialmente, produziu o maior mapa 3D de alta resolução do Universo já feito. Ao comparar a forma como as galáxias se agrupavam no passado com sua distribuição atual, os pesquisadores rastrearam a influência da energia escura ao longo de 11 bilhões de anos da história cósmica. Os dados obtidos nos três primeiros anos do Desi sugeriram que a energia escura poderia estar evoluindo ao longo do tempo. Se confirmado, isso representaria uma grande mudança na forma de pensar o Universo e seu possível destino, que depende do equilíbrio entre matéria e energia escura (Berkeley Lab, 15 de abril).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>China aprova implante cerebral</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:31:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Engenharia]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
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					<description><![CDATA[China aprova, para uso comercial, chip cerebral invasivo permitindo que pessoas com paralisia movam as mãos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A China aprovou um implante cerebral fabricado pela Neuracle, de Xangai, que permite que pessoas com paralisia movam as mãos. É a primeira aprovação mundial de uma interface cérebro-computador invasiva para uso comercial. O chip cerebral, do tamanho de uma moeda, contém oito eletrodos e é colocado em um lado da dura-máter do cérebro, acima do córtex sensório-motor primário. Os eletrodos registram a atividade elétrica neuronal quando uma pessoa imagina mover a mão. Os sinais são enviados a um computador, decodificados e usados ​​para controlar uma luva robótica utilizada pela pessoa, movendo sua mão. Um homem conseguiu agarrar e mover objetos com a mão direita enluvada após receber o dispositivo, indicando que poderia realizar tarefas como comer e beber. Depois de usar a interface cérebro-computador por nove meses, conseguiu agarrar objetos com a mão esquerda, que não havia usado a luva. Exames indicaram que suas conexões neurais na medula espinhal haviam se recuperado. Dispositivos semelhantes estão sendo testados em um número limitado de pacientes. Um deles, da Neuralink, permitiu que três pessoas com paralisia controlassem um cursor na tela do computador pensando em mover os dedos. A tecnologia da Neuralink consiste em um implante fixado no crânio que é conectado a fios contendo mais de mil eletrodos, que penetram no córtex motor do paciente (<a href="https://www.nature.com/articles/s41587-026-03101-8" target="_blank" rel="noopener"><em>Nature Biotechnology</em></a>, 17 abril).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Fim dos dinossauros, início dos primatas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:31:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Paleontologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Pequenos dentes fósseis ajudam a rastrear um dos parentes mais antigos dos primatas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_585532" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignright vertical"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585532 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-primeiros-primatas-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="702" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-primeiros-primatas-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-primeiros-primatas-2026-06-1140-250x154.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-primeiros-primatas-2026-06-1140-700x431.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-primeiros-primatas-2026-06-1140-120x74.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Andrey Atuchin / Cuny</span>Representação artística do <em>Purgatorius</em>, um arborícola<span class="media-credits">Andrey Atuchin / Cuny</span></p></div>
<p>Dentes fósseis com poucos milímetros de altura elucidaram um pouco mais da história da evolução dos seres humanos. Os dentes são de <em>Purgatorius</em>, o parente mais antigo conhecido de todos os primatas – um roedor de 10 centímetros (cm) de comprimento e 10 gramas (g) de peso que provavelmente vivia em árvores e se alimentava de insetos e frutas. Os dentes, desenterrados na bacia de Denver, no estado do Colorado, mais ao sul dos Estados Unidos, indicam que essa espécie de primata arcaico começou a se espalhar imediatamente após a extinção dos dinossauros, há cerca de 66 milhões de anos. Até então, esse mamífero havia sido encontrado apenas no atual estado de Montana e no sudoeste do Canadá. “Pequenos fósseis podem facilmente passar despercebidos”, comentou o coordenador do estudo, Stephen Chester, em um comunicado da City University of New York (Cuny), na qual trabalha. “Com buscas mais intensivas, podemos encontrá-los com mais facilidade e descobriremos muitos outros espécimes importantes” (<a href="https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/02724634.2026.2614024" target="_blank" rel="noopener"><em>Journal of Vertebrate Paleontology</em></a>, 2 de março).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Norte de Minas já foi ainda mais seco</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/norte-de-minas-ja-foi-ainda-mais-seco/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=norte-de-minas-ja-foi-ainda-mais-seco</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:29:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[climatologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Cientistas reconstruíram como era o clima do norte de Minas Gerais há cerca de 150 anos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_585542" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright vertical"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585542 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-imburana-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="953" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-imburana-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-imburana-2026-06-800-250x298.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-imburana-2026-06-800-700x834.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-imburana-2026-06-800-120x143.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Milena de Godoy-Veiga / IPA</span>Anéis do tronco de imburana expressam variações do clima ao longo de 150 anos<span class="media-credits">Milena de Godoy-Veiga / IPA</span></p></div>
<p>Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) e do Instituto Weizmann, de Israel, conseguiram descobrir como era o clima no norte de Minas Gerais há 150 anos analisando os anéis de crescimento do tronco de 28 imburanas (<em>Commiphora leptophloeos</em>), árvore de até 9 metros (m) de altura e frutos comestíveis, típica de ambientes secos. Coletadas no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Januária (MG), as amostras de árvores vivas ou mortas indicaram como as plantas cresciam, em resposta ao clima, de 1870 a 2017. Já nos troncos fósseis, os vasos que conduzem a água na madeira, mais estreitos que nas outras amostras, sugerem que a água era escassa, o ambiente ainda mais seco que o atual e as árvores tinham menor porte, formando uma floresta mais baixa e aberta. Na região, as pesquisas sobre o clima utilizando anéis de crescimento de árvores se concentravam em duas espécies comuns na região, o cedro-rosa (<em>Cedrela fissilis</em>), de até 30 m de altura, e a amburana (<em>Amburana cearensis</em>), que chega a 12 m. Os fósseis de imburana foram os primeiros a ser estudados (<a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1125786526000408" target="_blank" rel="noopener"><em>Dendrochronologia</em>,</a> maio).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Outra forma de construir o DNA</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/outra-forma-de-construir-o-dna/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=outra-forma-de-construir-o-dna</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:28:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Genética]]></category>
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					<description><![CDATA[Descoberta uma enzima capaz de sintetizar DNA a partir da própria estrutura, sem referência externa]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_585552" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright vertical"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585552 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-dna-2026-06-800.jpg" alt="" width="800" height="1013" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-dna-2026-06-800.jpg 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-dna-2026-06-800-250x317.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-dna-2026-06-800-700x886.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-notas-dna-2026-06-800-120x152.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Hyunbin Lee / <em>Science</em></span>Fitas de DNA (<em>laranja e azul-escuro</em>) são sintetizadas por uma enzima (<em>amarelo</em>) a partir de um molde de RNA (<em>bege</em>) e por outra (<em>azul-claro</em>) com seus próprios aminoácidos<span class="media-credits">Hyunbin Lee / <em>Science</em></span></p></div>
<p>A construção do ácido desoxirribonucleico (DNA), responsável pela transmissão de informações biológicas de uma geração a outra, geralmente requer um molde a partir do qual proteínas construtoras chamadas enzimas possam trabalhar. Uma equipe da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, descobriu que isso pode também ser feito de outra forma: um tipo de enzima conhecida como polimerase Drt3b funciona sem um modelo. Seu próprio formato atua como um molde a partir do qual o novo DNA pode ser sintetizado, sem a necessidade de materiais de referência externos. “Foi uma grande surpresa. Essa é uma maneira fundamentalmente nova pela qual a vida produz DNA”, disse Alex Gao, de Stanford, à revista <em>Science</em>. Feita a partir de experimentos com a bactéria <em>Escherichia coli</em> planejados para identificar enzimas que poderiam ajudar na defesa contra vírus, a descoberta tem implicações para a evolução biológica e os blocos de construção da vida. O conjunto de enzimas Drt3, que abrange a Drt3b, representa outra função surpreendente para as transcriptases reversas, enzimas associadas a vírus como o HIV, que se vale de uma delas para sintetizar uma cópia de seu genoma e inseri-la nos cromossomos da célula hospedeira (<a href="https://www.science.org/doi/10.1126/science.aed1656" target="_blank" rel="noopener"><em>Science</em>,</a> 16 de abril).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Patrimônios</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/patrimonios/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=patrimonios</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Neldson Marcolin Editor-chefe]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:25:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Editorial]]></category>
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					<description><![CDATA[Os movimentos culturais estão sempre criando inovações em algum setor da sociedade que ensejam novas formas de ver e pensar sobre temas aparentemente já estabelecidos. O patrimônio cultural é um deles. Originalmente visto apenas como sinônimo de edificações históricas e obras de arte, hoje trata também de bens imateriais (práticas, saberes, celebrações), paisagens (formas de... <a class="view-article" href="https://revistapesquisa.fapesp.br/patrimonios/">Ver artigo</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os movimentos culturais estão sempre criando inovações em algum setor da sociedade que ensejam novas formas de ver e pensar sobre temas aparentemente já estabelecidos. O patrimônio cultural é um deles. Originalmente visto apenas como sinônimo de edificações históricas e obras de arte, hoje trata também de bens imateriais (práticas, saberes, celebrações), paisagens (formas de ocupação do espaço, modos de vida), entre outras possibilidades de manifestação que se deseja ver preservada.</p>
<p>A América Latina vem desenvolvendo um jeito próprio de pensar o patrimônio. Recentemente, esse arcabouço ganhou maior concretude com o lançamento de um atlas, que traz análises e verbetes sobre os significados contemporâneos do patrimônio latino-americano, feito por 40 pesquisadores de 13 países da região. O debate ocorre desde a década de 1960 e começou a ser pensado para abranger a proteção de músicas, danças e expressões populares. Na última década, novos elementos entraram na discussão, como a repatriação de remanescentes humanos e espaços associados a experiências traumáticas, como prisões, manicômios, lugares ligados à escravidão e centros de repressão de ditaduras. A editora assistente Christina Queiroz explica como essa mudança de entendimento rompeu com a <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/america-latina-amplia-o-conceito-de-patrimonio/" target="_blank" rel="noopener">tradição de valorizar somente projetos arquitetônicos históricos</a>.</p>
<p>A diversidade está presente também no estudo sobre as três ondas migratórias que chegaram à América do Sul. A mais recente, sabe-se agora, ocorreu por volta de 1.300 anos atrás. Essa terceira onda não estava documentada e só surgiu após o sequenciamento de 128 genomas representando 45 povos indígenas de oito países sul-americanos. Além dessa descoberta, algo mais merece destaque nesse trabalho: a biomédica Putira Sacuena, da UFPA, é a primeira mulher indígena a trabalhar com antropologia genética, como lembrou a geneticista Tábita Hünemeier, da USP, coordenadora do estudo. <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/indigenas-sul-americanos-sao-diversos-e-descendem-de-terceira-onda-migratoria/" target="_blank" rel="noopener">A editora de Ciências Biológicas Maria Guimarães conta essas histórias.</a></p>
<div id="attachment_585706" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-585706 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/06/rpf-patrimonio-cultural-2026-06-1140-maiscapas.jpg" alt="" width="1140" height="538" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/06/rpf-patrimonio-cultural-2026-06-1140-maiscapas.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/06/rpf-patrimonio-cultural-2026-06-1140-maiscapas-250x118.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/06/rpf-patrimonio-cultural-2026-06-1140-maiscapas-700x330.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/06/rpf-patrimonio-cultural-2026-06-1140-maiscapas-120x57.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Reprodução</span>Revista premiada: reconhecimento à qualidade da cobertura de C&amp;T<span class="media-credits">Reprodução</span></p></div>
<p>Um conjunto de iniciativas de base tecnológica conduzidas pelo Banco Central brasileiro vem causando um impacto significativo no sistema financeiro nacional. A mais famosa delas é o Pix, o modo de transferência monetária instantânea usado por 80% da população. Embora tenha apoio de estudos realizados em universidades, a maioria das inovações nessa área vem da pesquisa e do desenvolvimento feitos dentro de instituições bancárias. Uma delas, chamada de Drex, é uma versão digital do real, que deverá estar disponível em versão-piloto ainda este ano. <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/as-novas-ferramentas-que-deverao-transformar-o-sistema-financeiro-brasileiro/" target="_blank" rel="noopener">A reportagem do colaborador Domingos Zaparolli nos diz como o Drex vai funcionar.</a></p>
<p><em>Pesquisa FAPESP</em> tem noticiado os principais fatos da ciência brasileira contemporânea em seus 27 anos de existência. Quem nos lê, certamente já notou que também não esquecemos o passado. Em todas as edições publicamos a seção Memória, que celebra eventos, contribuições e cientistas de outrora; e, de modo intermitente, publicamos obituários, notadamente sobre pesquisadores que tiveram grande reconhecimento em sua área. Nesta edição tratamos de três: o historiador <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/historiador-associou-colonizacao-e-trafico-de-escravizados-ao-capitalismo/" target="_blank" rel="noopener">Fernando Novais</a>, o arquiteto <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/arquiteto-ajudou-a-consolidar-a-historia-do-urbanismo-no-brasil/" target="_blank" rel="noopener">Nestor Goulart</a> e o médico <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/silvano-raia-fez-o-primeiro-transplante-de-figado-intervivos-do-mundo/" target="_blank" rel="noopener">Silvano Raia</a>. São três trajetórias que deixaram marcas na academia e na sociedade.</p>
<p>Para encerrar, não poderia trazer uma notícia melhor: <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/qualidade-reconhecida/" target="_blank" rel="noopener"><em>Pesquisa FAPESP</em> ganhou o prêmio José Reis de 2026</a>, concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na categoria Instituição e Veículo de Comunicação. A equipe responsável celebra e agradece o reconhecimento. Todo o patrimônio da revista está <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/" target="_blank" rel="noopener">disponível on-line, gratuitamente</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O químico Henrique Toma destacou-se por criar uma técnica de separação de terras-raras</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/o-quimico-henrique-toma-destacou-se-por-criar-uma-tecnica-de-separacao-de-terras-raras/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-quimico-henrique-toma-destacou-se-por-criar-uma-tecnica-de-separacao-de-terras-raras</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Yuri Vasconcelos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 13:02:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Nanotecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Química]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://revistapesquisa.fapesp.br/?p=584961</guid>

					<description><![CDATA[Com 54 anos de vida acadêmica, cientista demonstrou em laboratório como a nano-hidrometalurgia magnética pode ser usada no processamento desses minerais críticos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>É uma rotina que se repete há anos. Após praticar em casa tai chi chuan, o químico Henrique Eisi Toma caminha por uma hora dentro da Cidade Universitária no bairro do Butantã até chegar ao Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP). Professor sênior da instituição e aposentado compulsoriamente em 2024, Toma, de 78 anos, continua produtivo e atuante. “Movido pelo espírito científico e sem os contratempos da vida acadêmica, deixo fluir minha liberdade de criação”, contou a <em>Pesquisa FAPESP</em>.</p>
<p>A vida acadêmica foi iniciada há 54 anos, quando, ainda no doutorado sob orientação de um pesquisador norte-americano que ganharia anos depois o Nobel de Química, foi convidado a lecionar no IQ-USP. Depois de dois estágios de pós-doutorado cursados nos Estados Unidos, retornou ao Brasil em 1980 com uma nova visão da ciência e um interesse pela química bioinorgânica, que evoluiu naturalmente para a química supramolecular e, posteriormente, para a nanotecnologia molecular.</p>
<div class="box-lateral"><strong>Especialidade</strong><br />
Química, nanotecnologia</p>
<p><strong>Instituição</strong><br />
Universidade de São Paulo (USP)</p>
<p><strong>Formação</strong><br />
Graduação (1970) e doutorado (1976) pela USP</div>
<p>O envolvimento com a nanotecnologia fez com que passasse a estudar as nanopartículas inteligentes, estruturas dotadas de novas funcionalidades químicas ou físicas, por meio da adição de moléculas específicas em sua superfície. Uma dessas nanopartículas, as superparamagnéticas, foi a base para a criação de uma nova tecnologia mineral, a nano-hidrometalurgia magnética. “Em laboratório, o processo de separação das terras-raras utilizando essa metodologia já está demonstrado”, assegura.</p>
<p>A divulgação científica é outra área de interesse de Toma. “Tenho vasta produção sobre nanotecnologia e química bioinorgânica voltada ao público geral. São centenas de depoimentos e reportagens para jornais e revistas e 18 livros”, conta. “Pena que os trabalhos de divulgação não sejam devidamente valorizados na academia.”</p>
<p>O pesquisador é casado com a ginecologista Cristiana e tem dois filhos, o também médico Henry, 36, e o biólogo Gustavo, 26. No ano passado, Toma tornou-se professor emérito do IQ-USP.</p>
<p><strong>Como a química entrou na sua vida?<br />
</strong>Minha história e vivência na química é antiga e se aproxima dos 60 anos. Venho de uma família de classe média e lembro que meu pai precisava sustentar nove pessoas, incluindo cinco filhos, a esposa e meus avós. Em 1962, eles decidiram se mudar de Rio Claro [SP] para São Paulo, buscando um futuro melhor para os filhos, já em idade de cursar a universidade. Na capital, meus irmãos conseguiram emprego rapidamente e segui o exemplo deles, embora tivesse apenas 13 anos. Minha primeira tentativa foi trabalhar como <em>office boy</em> em uma empresa têxtil. Logo viram que eu tinha habilidades extras. Dominava a técnica de soroban, em um tempo que não havia calculadoras elétricas ou eletrônicas. Fui realocado no setor de crédito e cobranças. O soroban, uma espécie de ábaco, superava com folga as calculadoras mecânicas, barulhentas, da época. Passei minha adolescência trabalhando de dia e estudando à noite, no Colégio Estadual de São Paulo, a melhor escola da cidade. Naquela época, meados dos anos 1960, pairavam no ar as promessas de instalação da indústria petroquímica no país. A química era vista como uma área promissora, mas só havia um curso superior, oferecido pela USP. Fiz o vestibular e obtive a primeira colocação. Abracei a química com convicção.</p>
<p><strong>Como iniciou sua carreira profissional?</strong><br />
Minha vida acadêmica começou em 1972, quando fui contratado como professor assistente no IQ-USP. Na época, cursava o doutorado no Programa NAS/CNPq [Programa Nacional de Assistência às Universidades do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], um marco na ciência brasileira. Concebido pela Academia de Ciências dos Estados Unidos e pelo CNPq, representou uma quebra de paradigma na pós-graduação no Brasil.</p>
<p><strong>Por quê?</strong><br />
Seu foco central era a internacionalização e envolvia a participação direta de renomados pesquisadores estrangeiros, principalmente norte-americanos, trabalhando em conjunto com professores brasileiros na USP e na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]. Buscava-se, dessa forma, criar um ambiente para a pesquisa em que, além do contato com os docentes estrangeiros, era possível a importação rápida de reagentes e equipamentos – tudo custeado pelo programa. Também vieram equipamentos técnicos avançados, que me ajudaram na pós-graduação. Quando fui contratado pela USP, meu primeiro orientador, John Malin, após três anos no Brasil, estava retornando aos Estados Unidos em busca de uma colocação acadêmica. Assim, após 1972, passei a ser orientado pelo professor Henry Taube [1915-2005], da Universidade Stanford, que se desdobrou para oferecer o suporte necessário, realizando viagens periódicas ao Brasil para acompanhar e estimular o desenvolvimento do grupo. Nossos primeiros trabalhos, publicados naquele mesmo ano, tiveram grande impacto, ficando entre os 50 mais citados na literatura da área. O Programa NAS/CNPq provou que é possível produzir ciência de qualidade no país, desde que se forneça o devido apoio aos pesquisadores e às instituições.</p>
<p><strong>Em que área da química se especializou?</strong><br />
Após o doutorado, com 25 anos, passei a ser responsável pelo grupo de pesquisa no Instituto de Química, tornando-me orientador e professor na pós-graduação. Minha especialidade eram mecanismos de reações inorgânicas, área que consagrou Taube com o Prêmio Nobel de Química de 1983. Em 1976, com meu doutorado concluído, Taube me encaminhou para um estágio no Laboratório Nacional de Brookhaven, em Nova York. Fui trabalhar com técnicas de fotólise relâmpago e fotoquímica. Três anos depois, parti para um segundo estágio de pós-doutorado no Instituto de Tecnologia da Califórnia [Caltech] na área de química bioinorgânica, ramo que estuda o papel de elementos inorgânicos, como ferro e cobre, em sistemas biológicos. Minha pesquisa focou na transferência eletrônica biológica e visava entender os mecanismos de ação das enzimas na cadeia respiratória e na fotossíntese.</p>
<p><strong>Como foi a volta ao Brasil?</strong><br />
Ao retornar ao país em 1980, trazia uma nova visão da ciência, incorporando a química bioinorgânica. Aprendi que a vida necessita de pelo menos 25 elementos químicos, dos quais 19 são tipicamente inorgânicos, ou seja, a maioria. Curiosamente, ninguém olha a vida pelo lado inorgânico, quando na realidade é o mais rico por lidar com todas as transformações que ocorrem nas células, como a cadeia respiratória e a fotossíntese. Embalado por esse sonho, passei a divulgar a química bioinorgânica no Brasil. A convite da OEA [Organização dos Estados Americanos], escrevi um livro de divulgação sobre química bioinorgânica. Essa publicação, de 1984, foi pioneira na América Latina.</p>
<blockquote><p>O Programa NAS/CNPq provou que se pode produzir ciência de qualidade, desde que se forneça o devido apoio</p></blockquote>
<p><strong>Na USP, continuou as pesquisas nessa área?</strong><br />
Sim, mas não dispunha mais da infraestrutura para a extração e purificação de metaloenzimas que tinha no Caltech. Para prosseguir nesse campo, passei a investir na mimetização de biomoléculas por via sintética, focalizando os sítios ativos das enzimas. Passei a desenvolver técnicas de montagem molecular para gerar superestruturas funcionais, inspiradas nas enzimas. Isso lembrava um pouco os trabalhos com Lego, pois estava juntando as peças – ou moléculas – de forma criativa para chegar aonde desejava. Quando já estávamos avançados nas pesquisas, foi anunciado o Prêmio Nobel do químico francês Jean-Marie Lehn, em 1987. Ele perseguia as mesmas abordagens que nós. Foi Lehn quem denominou essa área de química supramolecular – ou química além da molécula. Nessa década, nossos trabalhos sobre transferência eletrônica biológica e porfirinas supramoleculares tiveram bastante impacto, e me levaram a receber os prêmios Rheinboldt-Hauptmann, em 1987, e o de Química da TWAS [Academia Mundial de Ciências], em 1996. Também fui aceito como <em>fellow</em> da John Simon Guggenheim Memorial Foundation, nos Estados Unidos, em 1999.</p>
<p><strong>Qual a importância da química supramolecular?</strong><br />
É o melhor caminho para chegar às moléculas inteligentes, como as que impulsionam a vida. Na biologia, ao contrário da química, as moléculas não atuam por meio de colisões caóticas. Elas estão inseridas em estruturas complexas organizadas, como as proteínas, nas quais podem interagir com múltiplos componentes, possibilitando o exercício de atividades complexas como reconhecimento molecular, aproveitamento de energia, sinalização, comunicação e amplificação. A química supramolecular já foi associada às máquinas moleculares por Fraser Stoddard [1942-2024], Bernard Feringa e Jean-Pierre Sauvage, laureados com o Nobel de 2016. Máquinas moleculares realmente existem e são elas que tornam possível a vida. Elas também alimentaram o sonho do engenheiro norte-americano Eric Drexler, autor da proposta de criação de máquinas moleculares capazes de construir tudo o que existe no mundo. Foi Drexler quem vislumbrou um novo mundo: o mundo nanométrico, movido pela nanotecnologia.</p>
<p><strong>Pode explicar melhor a relação entre química supramolecular e nanotecnologia?</strong><br />
Inspirada nas ideias de Drexler, a química supramolecular tornou-se passaporte para a nanotecnologia molecular, ou seja, para uma tecnologia capaz de operar na escala nanométrica, de um bilionésimo do metro. Essa é a dimensão dos átomos e moléculas. Desde 1981, os físicos Gerd Binnig e Heinrich Rohrer [1933-2013], da IBM, mostraram que é possível visualizar e lidar com objetos nanométricos, como átomos e moléculas, por meio dos microscópios de força atômica e de tunelamento. Foi o primeiro passo para o desenvolvimento da nanotecnologia. No Brasil, em 2004, o [então] Ministério da Ciência e Tecnologia financiou uma missão de visita a centros de nanotecnologia na Europa, coordenada pelo físico Cylon Gonçalves da Silva, da qual participei. No retorno, escrevi um longo relato, deixando sugestões para a implementação de programas nacionais de nanotecnologia. A pedido do ministério, também escrevi um livro de divulgação intitulado <em>O mundo nanométrico: A dimensão do novo século</em> [Editora Oficina dos Textos]. Esse livro ajudou na aproximação das comunidades acadêmica e empresarial da nanotecnologia.</p>
<p><strong>O que o atraiu na nanotecnologia?</strong><br />
O envolvimento com a nanotecnologia fez com que me interessasse pelas nanopartículas, pois representam os nanomateriais genuínos que têm chamado a atenção de todo o mundo. As nanoestruturas de carbono, como fulereno, grafeno e <em>quantum dots</em>, conduziram a três prêmios Nobel. São avanços que têm impactado a tecnologia moderna, principalmente a eletrônica. Mas isso é apenas a ponta do iceberg, pois, além das propriedades eletrônicas, as nanopartículas podem apresentar propriedades multivariadas, como superparamagnetismo, plasmônica e fotônica, sem falar no comportamento químico extremamente rico para exploração em catálise. Entretanto, o que mais me tem motivado é a possibilidade de acoplar moléculas à sua superfície, permitindo explorar uma nova química em um ambiente conjugado às nanopartículas. Esse é o meu interesse principal no momento. Nessa nova abordagem, a nanopartícula passa a atuar como centro de organização, conjugando moléculas ou biomoléculas, abrindo a possibilidade de exploração das interações entre elas. Tenho dito sempre que as moléculas podem tornar as nanopartículas inteligentes, repetindo o mesmo refrão usado na química supramolecular. Por isso, passei a adotar o jargão nanotecnologia supramolecular.</p>
<p><strong>Do que exatamente se trata?</strong><br />
A nanotecnologia supramolecular relaciona-se à criação de nanopartículas inteligentes, dotadas de novas funcionalidades químicas ou físicas, por meio de moléculas específicas colocadas em sua superfície. Há um tipo especial de nanopartículas, chamadas plasmônicas, que ocorrem com metais do tipo cobre, prata e ouro. Nelas, os elétrons oscilam sob a ação das radiações eletromagnéticas, dando origem às ondas plasmônicas, ou plásmons de superfície. Para entender o que é isso, veja o que acontece quando duas uvas são colocadas em contato num micro-ondas. As ondas eletromagnéticas geradas no aparelho produzem campos intensos que provocam descargas elétricas na região de contato. O mesmo acontece quando os elétrons nas nanopartículas são submetidos a um feixe de luz visível. O campo elétrico gerado na confluência de duas nanopartículas é chamado de <em>hot spot</em> e apresenta intensidades aumentadas. Dessa forma, as moléculas próximas a essa região sofrem o efeito desse campo, espalhando fortemente os fótons que incidem sobre elas. Esse espalhamento intenso de luz é conhecido como espalhamento Raman intensificado pelos plásmons de superfície [SERS]. Ele permite efetuar com extrema sensibilidade a análise química das moléculas na superfície de um material. Por isso, as nanopartículas plasmônicas estão sendo usadas como sensores SERS ou espalhadores de luz em dispositivos fotônicos.</p>
<div id="attachment_584974" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-584974 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-entrevista-henrique-toma-tabela-periodica-2026-06-1140.jpg" alt="" width="1140" height="635" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-entrevista-henrique-toma-tabela-periodica-2026-06-1140.jpg 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-entrevista-henrique-toma-tabela-periodica-2026-06-1140-250x139.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-entrevista-henrique-toma-tabela-periodica-2026-06-1140-700x390.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/05/RPF-entrevista-henrique-toma-tabela-periodica-2026-06-1140-120x67.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP</span>Detalhe da tabela periódica criada por Toma e exposta no IQ-USP<span class="media-credits">Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP</span></p></div>
<p><strong>Há outras nanopartículas inteligentes?</strong><br />
Sim, as superparamagnéticas, geralmente formadas por óxidos de ferro, como a magnetita. Elas despertam interesse por serem fortemente atraídas pelos ímãs. Incorporando moléculas ou biomoléculas na superfície, essa partícula pode realizar o transporte magnético, conduzindo-as ao local de interesse. Se a molécula for um fármaco, a partícula poderá ser usada para dirigir o medicamento até o local ou órgão de interesse, realizando seu confinamento por meio de um ímã, de forma a concentrar a ação medicinal. Da mesma forma, podemos colocar enzimas nas nanopartículas magnéticas para realizar biocatálise, com possibilidade de recuperar as enzimas utilizadas no processo, pela aplicação de um ímã, para posterior reúso. Como as enzimas representam a parte mais dispendiosa do processo, as vantagens da reciclabilidade são imensas. Temos trabalhado ativamente nessa área. Existe grande interesse por um tipo especial de molécula, chamado complexante, que é capaz de interagir com elementos metálicos, permitindo realizar sua extração no meio fluido. Esse processo pode ser usado na separação dos elementos químicos e em seu processamento para obter o metal puro. Ele é chamado nano-hidrometalurgia magnética, técnica criada pelo nosso grupo para atuar na mineração e metalurgia.</p>
<p><strong>Quais as aplicações da nano-hidrometalurgia magnética?</strong><br />
Ela parte dos mesmos princípios usados na hidrometalurgia clássica, extraindo e processando os elementos metálicos por meio de agentes complexantes [substâncias químicas que formam complexos com íons, reduzindo sua atividade e aumentando a estabilidade de uma solução]. Porém a diferença é que esses agentes ficam ancorados nas nanopartículas magnéticas, possibilitando sua fácil separação do meio fluido por meio de ímãs. Com isso, o processamento químico é simplificado e a separação clássica pode ser dispensada, tornando o processo mais limpo e ambientalmente correto. Os elementos metálicos capturados pelas nanopartículas podem ser liberados ao controlar a acidez do meio, permitindo sua separação química. Nesse processo, as nanopartículas magnéticas são regeneradas e podem retornar ao processo, estabelecendo um ciclo, considerado ideal em termos de sustentabilidade.</p>
<p><strong>É, portanto, um processo verde.</strong><br />
Sim, ela tem vários atributos verde, pois atua em meio aquoso, em condições ambiente, sem o uso de solventes orgânicos e permite a reciclagem e reúso das nanopartículas complexantes. Além disso, possibilita o confinamento magnético das nanopartículas sobre a superfície de eletrodos para fazer a deposição eletrolítica dos metais até a forma elementar, representando uma economia de etapas, e minimiza ou simplifica as etapas de processamento usando praticamente o mesmo reator químico ao longo de todo o percurso. Por fim, dispensa o processamento químico exaustivo tradicional com solventes e resinas, empregado na hidrometalurgia clássica, que, além de poluente, demanda recursos e equipamentos de alto custo e manutenção.</p>
<p><strong>O método já é usado em escala industrial?</strong><br />
Eis um ponto importante. Como na maioria das inovações tecnológicas, o processo começa na escala de laboratório. Nesse sentido, a viabilidade da nano-hidrometalurgia magnética já foi demonstrada por numerosos trabalhos publicados em revistas e teses de doutorado. A etapa seguinte seria a operação em escala-piloto, o que requer quantidades maiores de reagentes e instalações adequadas, além de investimento. Não é uma etapa trivial e foge dos atributos típicos de uma instituição de ciência básica, como o Instituto de Química. Mesmo assim, já foram firmados convênios com empresas visando à síntese industrial de nanopartículas magnéticas de alta qualidade, em larga escala.</p>
<blockquote><p>A separação dos minerais terras-raras usando nano-hidrometalurgia magnética já está demonstrada</p></blockquote>
<p><strong>Quais os resultados alcançados com esse convênio?</strong><br />
Dois doutorandos foram contratados por uma empresa, a Metal-Chek, de São Paulo, porém com interesse voltado ao uso de nanopartículas magnéticas na detecção de fraturas em metais ferrosos. Eles desenvolveram um processo eficiente de produção industrial de nanopartículas magnéticas, capaz de produzir centenas de quilos, com baixo custo e excelente qualidade. A etapa seguinte seria a geração das nanopartículas complexantes em larga escala, mas isso não era do interesse da empresa. Enquanto isso, os trabalhos de melhoramento das nanopartículas complexantes continuam sendo conduzidos em nosso laboratório. A implementação de uma nova tecnologia na extração e separação mineral, como a nano-hidrometalurgia magnética, deve levar em conta que, nesse setor, as instalações são de grande porte e que a transição dos processos já em operação para uma nova alternativa não pode ser feita de uma hora para outra, sem levar em conta as questões econômicas e os interesses envolvidos. Porém torna-se necessário investir em projetos de longo prazo para desenvolver tecnologias alternativas, até chegar o momento em que elas se tornam viáveis.</p>
<p><strong>O método poderia ser usado no processamento das terras-raras?</strong><br />
Em escala de laboratório, onde o projeto foi concebido, a separação das terras-raras usando nano-hidrometalurgia magnética já está demonstrada e documentada em trabalhos publicados. Mesmo assim, não considero um assunto fechado, pois o objetivo das pesquisas é sempre buscar novos avanços e melhorias, como já está acontecendo. Assim, continuamos pesquisando novas partículas com agentes complexantes, voltadas para a separação das terras-raras, principalmente as presentes em argilas iônicas, que estão sendo descobertas no Brasil. Temos mais de 50 anos de experiência com elementos metálicos, além de capacidade de atuar na área de nanotecnologia, para tornar a nano-hidrometalurgia magnética possível.</p>
<p><strong>Como é seu trabalho de divulgação científica?</strong><br />
Minha atividade nesse campo me acompanha desde o início de minha vida acadêmica, por meio de centenas de depoimentos e reportagens que tenho feito para jornais e revistas. É uma pena que os trabalhos de divulgação não sejam devidamente valorizados na academia. Também tenho atuado na história da ciência, focalizando principalmente biografias de cientistas relacionados com minhas atividades ou formação, e me enveredei pelo campo filosófico, como em um artigo publicado na <em>Revista USP </em>sobre o sentido do tempo na química. Tenho uma vasta produção sobre nanotecnologia e química bioinorgânica voltada ao público em geral. Talvez por causa do meu envolvimento na divulgação tornei-me tradutor associado à Editora Blucher até os anos 1990, com mais de uma dezena de textos didáticos de química e tecnologia. Depois desse percurso, o editor Edgard Blucher me convenceu a escrever os meus próprios livros. Foi assim que me tornei escritor, com 18 livros publicados.</p>
<blockquote><p>Apesar de ter mais de 30 patentes, não sou adepto disso. Elas são muito onerosas e nunca dão o retorno esperado</p></blockquote>
<p><strong>O senhor também é um dos campeões de patentes da USP.</strong><br />
Apesar de ter mais de 30 patentes, não sou adepto disso. A produção de patentes é cobrada pelas agências de financiamento à pesquisa e, por isso, tenho procurado atender a esse quesito na medida do possível. Contudo, as patentes são muito onerosas e, embora possam dar algum prestígio para os inventores, quase nunca dão o retorno esperado, pois as empresas sabem perfeitamente como contorná-las introduzindo pequenas mudanças e ajustes. Nosso projeto de nano-hidrometalurgia magnética, por exemplo, já está patenteado, mas oferece tantas combinações que sempre haverá uma empresa alegando tratar-se de algo diferente. Considero a patente ideal aquela que já envolve uma empresa interessada, que, além de arcar com os custos, fornece inclusive suporte internacional e interesse na sua implementação.</p>
<p><strong>Alguém da família enveredou pelo campo da química?</strong><br />
Sou casado há 38 anos com a Cristiana Sato Toma, médica ginecologista. Meu filho mais velho, Henry, de 36 anos, é cardiologista. O mais jovem, Gustavo, 26, é biólogo e está concluindo o doutorado em genética. O mais velho recebeu seu nome em homenagem ao professor Henry Taube. Mas minha estratégia não colou. Ele preferiu seguir o exemplo da mãe e ir para a medicina. O mais jovem optou pela carreira científica e está fazendo bons progressos.</p>
<p><strong>O que faz nas horas vagas?</strong><br />
Mudei completamente a minha maneira de ser depois que conheci o professor Henry Taube, nos anos 1970. Até então, meu foco estava nos estudos e no trabalho. Lembro-me perfeitamente das horas que Taube passava examinando algum mineral exposto nas feiras semanais da praça da República, na capital paulista, ou os vidros e objetos antigos expostos na feira de antiguidades do Masp [Museu de Arte de São Paulo]. Ele enxergava coisas que eu não via, imaginando as interações eletrônicas que davam origem à cor das pedras preciosas, analisando o estilo, a procedência e a idade dos objetos antigos, ou a cor e os indícios que revelavam qual tipo de pigmento e de técnica eram usados nas pinturas. Um dia, me disse: “Você só conseguirá apreciar o que está vendo quando entender o que significa. Isso precisa do conhecimento. Sem isso, você jamais irá apreciar de verdade o que enxerga, até a própria natureza, arte e as belezas do mundo”. Depois disso, abri minha mente para o mundo e passei a me interessar por quase tudo, desde filosofia, natureza, arte, história e música. Já estudei um pouco de violão clássico e agora estou estudando piano, como autodidata. Mas sou péssimo nisso. É questão de vocação. Tenho viajado bastante, e a busca por novos conhecimentos e culturas tem sido importante em minha vida.</p>
<p><strong>O que ainda gostaria de realizar como pesquisador?</strong><br />
Tenho 58 anos de magistério, sendo 54 anos na USP. Nesse período, publiquei 470 artigos, orientei 80 teses e dissertações e devo ter proferido mais de 500 palestras. Obtive mais reconhecimento do que mereço. Mesmo depois da aposentadoria compulsória, continuo ativo desfrutando diariamente do trabalho e do ensino, depois de praticar tai chi em casa e caminhar por uma hora no <em>campus</em> da Cidade Universitária. Hoje me sinto mais produtivo, sem os contratempos da vida acadêmica, só movido pelo espírito científico. Deixo fluir minha liberdade de criação. Continuo proferindo palestras em congressos nacionais e no exterior. Sou professor sênior da USP e recentemente recebi o honroso título de professor emérito do IQ, o que me deixou muito feliz.</p>
<p class="bibliografia">A entrevista acima foi publicada com o título “<strong>Henrique Toma: O químico nanotecnológico</strong>” na edição impressa nº 364, de junho de 2026.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Estudo aponta que 1,2% dos doutores que se formaram no Brasil estava fora do país em 2025</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/estudo-aponta-que-12-dos-doutores-que-se-formaram-no-brasil-estava-fora-do-pais-em-2025/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=estudo-aponta-que-12-dos-doutores-que-se-formaram-no-brasil-estava-fora-do-pais-em-2025</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sarah Schmidt]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 May 2026 12:58:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Política C&T]]></category>
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					<description><![CDATA[Ao cruzar dados da Capes com informações da Receita Federal, pesquisa do Ipea mapeou onde os titulados entre 2013 e 2024 moravam]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Apenas 1,2% de 254,9 mil doutores formados em instituições brasileiras entre 2013 e 2024 tinha residência fora do Brasil declarada em março de 2025, segundo uma análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgada em maio. Os dados indicam que o temor de uma fuga de cérebros, como é chamada a perda de pessoal com alta qualificação para países com boas oportunidades de trabalho e melhores condições de vida, não encontra respaldo nas estatísticas, ao menos no recorte que observa as pessoas que concluíram doutorado no país.</p>
<p>O estudo revela que, entre os 3.145 doutores titulados no Brasil que emigraram, 20% foram para os Estados Unidos, 8,9% para a Colômbia, 7,9% para a Alemanha, 7,7% para o Canadá e 5,4% para a França. Quase um terço deles (972) era de estrangeiros que vieram fazer sua formação no Brasil e, desses, 904 representam casos de imigração de retorno, ou seja, pessoas que voltaram para o país de origem. Entre eles, a maioria veio da Colômbia (29,84%), seguido do Peru (9,57%) e de Moçambique (9,26%).</p>
<p>“Um problema crônico das análises sobre fuga de cérebros é a falta de dados sobre o volume e o perfil dessas pessoas”, explica o economista e coordenador de métodos e dados do Ipea, Daniel Gama e Colombo, autor do estudo, publicado no boletim <em>Radar</em>. A análise levantou os nomes dos doutores titulados nos últimos 10 anos no país em uma base de dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e verificou os locais onde residem por meio do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) da Receita Federal. “Esses dados indicam que o país apresenta uma taxa de fuga de cérebros baixa, o que pode sinalizar que o investimento feito na formação desses profissionais permanece beneficiando principalmente a sociedade e a economia do país”, destaca Colombo.</p>
<p>Segundo o estudo, outros países têm taxas de emigração de doutores bem superiores – cerca de 13,4% nos Estados Unidos, mais de 20% na Suíça e em torno de 8% no Reino Unido. Colombo aponta que é difícil fazer uma comparação direta, uma vez que os países utilizam métodos de coleta de informações diferentes. Além disso, a circulação de profissionais altamente qualificados nesses países do Norte global é frequente – entre nações da União Europeia, por exemplo, é bastante comum. “Esse movimento é facilitado por acordos que simplificam questões burocráticas, pela reputação internacional das universidades e pelo peso do diploma obtido nessas instituições”, observa Colombo.</p>
<p>O economista usou como recorte os pesquisadores que se formaram em universidades brasileiras com o intuito de avaliar o retorno ou a perda do investimento público que o país fez na formação dessas pessoas. Colombo levanta a hipótese de que a taxa de emigração reduzida também pode indicar dificuldades de inserção internacional de parte dos doutores brasileiros. Um dos dados do estudo que reforça essa ideia é de que a taxa de emigração aumenta quanto mais alto for o conceito dos programas de pós-graduação que os doutores frequentaram.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-fugadecerebros-2026-06-info2-1140.png" data-tablet_size="1140x660" alt="País de destino dos pesquisadores que concluíram o doutorado no Brasil entre 2013 e 2024, incluindo estrangeiros">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP</span></div><div class="post-content sequence">
<p>As áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (conhecidas em inglês como Stem) apresentam maior emigração em comparação às áreas de humanas e ciências sociais aplicadas. O perfil dos doutores que saíram do Brasil é mais jovem e masculino do que o dos que permaneceram no país – a idade média foi de 39,8 anos, diante de 42,7 anos entre os residentes no território nacional. Já as mulheres representavam 54,7% dos doutores que permaneceram no Brasil, mas menos da metade (48,8%) dos que estavam no exterior.</p>
<p><strong>Diáspora</strong><br />
“O acesso aos microdados da Receita Federal é uma vantagem metodológica desse levantamento, permitindo cruzamentos com ocupação, sexo e escolaridade detalhados”, observa a socióloga Ana Maria Carneiro, do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que não participou do estudo do Ipea. Carneiro, que fez em 2023 um levantamento para mapear a situação e as motivações de brasileiros altamente qualificados que estão no exterior, com apoio da FAPESP, avalia que o estudo de Colombo traz informações importantes ao levantar dados quantitativos sobre a saída de pesquisadores.</p>
<p>Ela questiona a opção metodológica de incluir no estudo todos os doutores formados no Brasil, independentemente da nacionalidade. Isso porque o recorte, embora seja válido para medir o retorno do investimento público, desconsidera nuanças. “O fato de a Colômbia ser o segundo país de destino dos pesquisadores ilustra o papel do Brasil como centro periférico: o país manda estudantes para os países do Norte global e, ao mesmo tempo, recebe estudantes da América Latina e da África e eles tendem a retornar aos seus países, o que não configura necessariamente fuga de cérebros”, destaca Carneiro.</p>
<p>O termo fuga de cérebros surgiu nos anos 1960 com conotação de perda associada à emigração de pessoas altamente qualificadas, mas estudos da área evoluíram para reconhecer que o fenômeno é mais complexo e multifacetado, capaz eventualmente de trazer compensações e benefícios para os países envolvidos (<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/talentos-em-transito/" target="_blank" rel="noopener"><em>ver</em> Pesquisa FAPESP <em>nº 152</em></a>) ao estabelecer pontes com grupos de pesquisa no exterior. O grupo do qual Carneiro faz parte, o Laboratório de Estudos sobre a Organização da Pesquisa e da Inovação (LabGeopi), da Unicamp, trabalha com a ideia de mobilidade, que não é necessariamente positiva nem negativa.</p>
<p>Com colegas do Geopi, Carneiro conduziu um estudo que avaliou a diáspora científica brasileira de maneira qualitativa e incluiu pessoas que emigraram antes mesmo do doutorado ou há muito mais tempo. O mapeamento levantou respostas de 1,2 mil pesquisadores em 42 países que estavam fora há pelo menos seis meses. A coleta de informações foi realizada por meio de um questionário on-line divulgado em redes de pesquisadores brasileiros no exterior com o apoio do Ministério das Relações Exteriores.</p>
<p>A média de idade dos participantes era de 37 anos. Mais de 70% informaram que não previam retornar ao país, índice que chegou a 90% entre os que tinham algum contrato permanente, como pesquisador ou professor. Desse contingente, menos da metade (45%) havia feito doutorado no Brasil. Os principais motivos declarados pelos pesquisadores para emigrarem foram: oferta de trabalho ou estágio de pós-doutorado; melhores condições de financiamento para pesquisa; bolsa contemplada no exterior; e a situação política do país.</p>
<p>Apesar da ausência de dados quantitativos consistentes sobre a emigração de pesquisadores altamente qualificados do país, o tema é objeto de preocupação e tem sido alvo de políticas públicas nos últimos anos. O físico e historiador da ciência Olival Freire Jr., presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), lembra que, quando chegou ao órgão em 2023, então como diretor científico, não havia dados estatísticos confiáveis e atualizados sobre o fenômeno da emigração.</p>
<p>“Diante da falta de estudos robustos, por um lado, mas de muitos relatos de pesquisadores que reclamavam da perda de alunos para o exterior, ou de cientistas querendo retornar, decidimos nos movimentar”, conta Freire Jr. Segundo ele, dois alertas internos reforçaram a percepção do problema: o grande volume de processos de brasileiros com dívidas com o Estado por não cumprirem o período de retorno após o recebimento de bolsas das agências de fomento federais e a demanda cinco vezes maior do que a oferta em editais de pós-doutorado júnior, um indicativo de que esses doutores, com acesso limitado a oportunidades de trabalho no Brasil, poderiam ir buscá-las no exterior.</p>
<p>Freire Jr. explica que, para o CNPq, o conceito de diáspora científica engloba profissionais com doutorado que estejam em atividade científica relevante no exterior, seja em ambiente acadêmico ou em laboratórios de empresas. Não se enquadram nessa definição profissionais altamente qualificados que estejam no exterior fora da carreira científica. A resposta do CNPq foi estruturada em três frentes dentro do programa Conhecimento Brasil, financiado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). “Os editais tiveram alta demanda, o que nos mostrou que, de fato, havia um interesse da comunidade acadêmica”, observa.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/05/RPF-fugadecerebros-2026-06-info-670-DESKTOP.png" data-tablet_size="670x440" alt="Emigração por nível de excelência - Proporção de doutores titulados no país entre 2013 e 2024 que tinham residência registrada no exterior em 2025, por conceito do programa de doutorado">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP</span>
<p>A primeira foi a chamada de repatriação, de 2024, que ofereceu bolsas de R$ 13 mil mensais, com duração de até cinco anos, para pesquisadores que estavam trabalhando no exterior ou que tinham concluído doutorado ou pós-doutorado fora a partir de 2019, podendo ou não serem residentes no país. Foram 1.593 candidatos e 599 bolsistas selecionados, oriundos de 34 países. A segunda ação foi o edital Apoio a Projetos em Rede, voltado a conectar pesquisadores no exterior que não queriam retornar a equipes de cientistas no Brasil. Essa chamada recebeu 980 propostas e selecionou 640. O terceiro e mais recente foi o edital Profix Brasil, lançado em 2025 e destinado a fixar talentos no país, com bolsas do mesmo valor do edital de repatriação e duração de quatro anos. A seleção dos contemplados será feita nos próximos meses de maneira descentralizada com as 27 fundações estaduais de amparo à pesquisa, que receberam, ao todo, mil bolsas.</p>
<p>Freire Jr. também destaca que, em 2023, CNPq e Capes revisaram portarias sobre a chamada Política de Novação, que permite a ex-bolsistas substituírem a obrigação de retornar ao Brasil por outros encargos, como estabelecer atividades de colaboração científica com instituições brasileiras. “O impacto foi expressivo: fomos de cinco processos aprovados antes da portaria para mais de 100 aprovações em 2024 e 2025”, diz.</p>
<p>Carneiro, da Unicamp, avalia que, nos últimos anos, o lançamento desses programas e a revisão das portarias representam uma mudança de paradigma para o país, uma vez que a diáspora passa a ser vista como potencial positivo, rompendo com a lógica anterior de multas e obrigatoriedade de retorno sem muita negociação. No entanto, em sua avaliação, ainda há uma ênfase excessiva em repatriação. “Políticas internacionais bem-sucedidas têm focado mais em conexão, redes e mobilidade”, alerta.</p>
<p class="bibliografia">A reportagem acima foi publicada com o título “<strong>Fuga acanhada</strong>” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.</p>
<p class="bibliografia"><strong>Projeto<br />
</strong>Contribuição da Diáspora Científica Brasileira na cooperação internacional do país (<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/110386/contribuicao-da-diaspora-cientifica-brasileira-na-cooperacao-internacional-do-pais/?q=20/04208-9" target="_blank" rel="noopener">nº 20/04208-9</a>); <strong>Modalidade</strong> Auxílio à Pesquisa – Regular; <strong>Pesquisadora</strong> <strong>responsável</strong> Ana Maria Alves Carneiro da Silva</p>
<p class="bibliografia"><strong>Artigo científico<br />
</strong>COLOMBO, D. G. <a href="https://repositorio.ipea.gov.br/entities/publication/ea799f3c-111b-49a0-9f8c-c13fe902d212" target="_blank" rel="noopener">Emigração de doutores titulados no Brasil: Há evidência de fuga de cérebros?</a> <strong>Radar</strong>. n. 81. abr. 2026.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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	</channel>
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