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	<title>Revista Pesquisa FAPESP</title>
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		<title>O poder da matemática a serviço da indústria</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Samuel Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Oct 2026 11:57:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Política C&T]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
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		<category><![CDATA[Matemática]]></category>
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					<description><![CDATA[Cemeai ajudou a fortalecer diálogo entre academia e indústria no Brasil]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Durante seu doutorado em análise numérica na Universidade de Oxford, no Reino Unido, o matemático José Alberto Cuminato se surpreendeu com uma atividade promovida pela instituição. Ao longo de uma semana, representantes de diferentes ramos empresariais traziam problemas para serem discutidos e, quem sabe, solucionados por alunos e professores.</p>
<p>Cuminato desconhecia iniciativa parecida no Brasil. Após voltar com seu doutorado concluído, em 1987, quis elaborar algo semelhante no país. A tarefa, no entanto, não era fácil. “Para isso, é preciso ter gente que esteja querendo sentar e conversar. Encontrar pessoas que estejam interessadas”, diz ele.</p>
<p>Na época, havia pouca abertura no país para a matemática aplicada, área voltada a solucionar problemas práticos de pessoas e de empresas. Marcelo Viana, diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro, conta que o interesse por essa área cresceu nos últimos anos no Brasil, mas ainda existem desafios.</p>
<p>“Hoje em dia, ficou claro que o conhecimento matemático é fundamental para a geração de riqueza e o desenvolvimento nacional. Aliás, o impacto econômico das aplicações nessa área está crescendo, à medida que ferramentas como a ciência de dados e a inteligência artificial invadem todas as áreas”, afirma ele.</p>
<p>Para o diretor-geral do Impa, o trabalho de Cuminato foi essencial para popularizar a matemática aplicada. Ele avalia que o <a href="https://cemeai.icmc.usp.br/" target="_blank" rel="noopener">Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (Cemeai)</a>, iniciativa idealizada pelo matemático, foi importante para inserir o tema na pauta nacional.</p>
<p>Anos depois de seu retorno ao Brasil, quando já era professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), em São Carlos, Cuminato observou que instituições de fomento no país passaram a se preocupar mais com a interdisciplinaridade e com os resultados práticos de pesquisas. Foi nesse contexto que o professor da USP enxergou a oportunidade de fundar o Cemeai como um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (<a href="https://cepid.fapesp.br/" target="_blank" rel="noopener">CEPID</a>) da FAPESP.</p>
<p>Desde o início, a proposta do Cemeai era diferente. Normalmente, projetos de criação de CEPIDs contam com objetivos e problemas de pesquisa estabelecidos. Esse não era exatamente o caso do centro. Cuminato desenvolveu uma proposta definida por ele como “a venda de terrenos na Lua”, porque a ideia era, já com financiamento, procurar ramos industriais, entender quais eram seus problemas e, somente a partir desse contato, desenvolver os projetos de pesquisa.</p>
<p>Mesmo com o desenho pouco usual da ideia, o projeto recebeu <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/58570/" target="_blank" rel="noopener">apoio financeiro da FAPESP</a> e saiu do papel em junho de 2013, tendo Cuminato como diretor até 2024. Diferentes iniciativas foram realizadas desde então, incluindo 12 Workshop de Soluções Matemáticas para Problemas Industriais, baseados nos encontros dos quais Cuminato participou durante seu doutorado em Oxford.</p>
<div id="attachment_588971" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-588971 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-CeMEAI-sala-de-aula-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-CeMEAI-sala-de-aula-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-CeMEAI-sala-de-aula-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-CeMEAI-sala-de-aula-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-CeMEAI-sala-de-aula-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="(max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Cemeai/Divulgação</span>Workshop promovido pelo Cemeai foi realizado em Salvador<span class="media-credits">Cemeai/Divulgação</span></p></div>
<h2><strong>Geometria das proteínas</strong></h2>
<p>Desde o doutorado em computação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Carlile Lavor se interessou pelo estudo da geometria de moléculas, principalmente a das proteínas. Entender a estrutura tridimensional dos compostos é essencial para compreender sua função, sendo também útil no desenho de novos medicamentos.</p>
<p>“Em muitos casos, a droga é uma molécula pequena que vai se encaixar em alguma proteína. Nesse processo de encaixe, é intuitivo pensar que a geometria das duas moléculas é um fator-chave”, afirma Lavor, que foi pesquisador principal do Cemeai durante o período em que o centro foi um CEPID da FAPESP e é professor titular do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Universidade Estadual de Campinas (Imecc-Unicamp).</p>
<p>Como as proteínas podem ultrapassar 10 mil átomos, cada um dos quais com possível influência em sua estrutura, a tarefa de decifrá-las é complexa. Para solucionar esse tipo de imbróglio, Lavor começa levando em conta dados provenientes de ressonância magnética nuclear, que funcionam como uma fotografia indireta e incompleta da proteína. Esses registros trazem informações sobre as distâncias entre átomos, mas não especificam a posição exata de cada um deles.</p>
<p>A limitação dos dados da ressonância magnética nuclear dificulta a determinação adequada da estrutura de proteínas, mas uma corrente da matemática chamada geometria de distâncias ajuda a amenizar a incerteza. “Essa área considera exatamente esse tipo de problema. Temos os dados das distâncias e a questão é como saber a localização de cada átomo’”, explica Lavor.</p>
<p>Para fazer isso, a primeira etapa é montar uma lista de equações associadas aos dados das distâncias obtidos por meio da ressonância magnética. Depois, emprega-se um algoritmo que, ao analisar essas equações, vai deduzir a posição dos átomos.</p>
<p>Um dos trabalhos de Lavor na área, publicado no <a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jcc.70256" target="_blank" rel="noopener"><em>Journal of Computational Chemistry</em></a>, mostrou como é possível transformar a estrutura tridimensional de uma molécula em um espaço abstrato de cinco dimensões. Essa conversão permite representar matematicamente a translação e a rotação das moléculas. Não ter as representações desses dois movimentos, algo que ocorre quando a estrutura das proteínas é calculada em três dimensões, compromete a localização de cada átomo. É por isso que a estrutura 5D é vantajosa para esse tipo de estudo.</p>
<p>O artigo assinado por Lavor e outros pesquisadores também mostra que, após realizar os cálculos matemáticos em cinco dimensões, é possível retornar para o contexto original de três dimensões e, assim, chegar à estrutura proteica real. Esse tipo de abordagem é útil, por exemplo, na indústria farmacêutica, reduzindo o tempo computacional envolvido no processo custoso e complexo de descoberta de novos medicamentos.</p>
<div id="attachment_588959" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-588959 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-CeMEAI-servidor-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-CeMEAI-servidor-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-CeMEAI-servidor-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-CeMEAI-servidor-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-CeMEAI-servidor-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="(max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Cemeai/Divulgação</span>Pesquisadores junto ao supercomputador Cluster Euler, do Cemeai<span class="media-credits">Cemeai/Divulgação</span></p></div>
<h2><strong>IA e matemática aplicada</strong></h2>
<p>João Paulo Papa, que também foi pesquisador principal do Cemeai enquanto o centro era um CEPID, mescla, em seu trabalho, conhecimentos matemáticos e IA para solução de problemas de diferentes naturezas. No Cemeai, com estudos na área médica, desenvolveu uma IA para auxiliar na identificação de tumores no esôfago.</p>
<p>“A nossa ideia era que, durante uma endoscopia, o médico contaria com um monitor auxiliar, onde a inteligência artificial que desenvolvemos apontaria regiões de interesse: ‘Olha, isso aqui parece alguma coisa ou isso ali parece outra coisa’. Já temos um protótipo dessa tecnologia e a validamos numa clínica”, explica Papa, que também é professor do Departamento de Computação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.</p>
<p>As bases do desenvolvimento da ferramenta são as redes neurais, versões tremendamente simplificadas de como poderia ocorrer o aprendizado humano a partir da conexão entre neurônios. No caso de uma rede neural, existem neurônios artificiais. A comunicação entre eles é representada matematicamente, mapeando a intensidade envolvida em tais conexões. “Então, o algoritmo aprende e troca esses números à medida que vai aprendendo, de tal forma a minimizar os erros”, diz Papa.</p>
<p>No entanto, o projeto adotou uma forma diferente de representação matemática das conexões: em vez de usar apenas números reais (o que inclui os números inteiros e suas frações), também foram adotados números complexos. Tais números contêm duas partes: uma real e outra imaginária (como as raízes quadradas de números negativos). Com isso, os números complexos capturam mais informações sobre como ocorre a comunicação entre os neurônios artificiais.</p>
<p>Ao usar novas representações numéricas para aprimorar a compreensão de como uma IA aprende, o projeto se insere no amplo leque de possibilidades da matemática aplicada.</p>
<p>Davidson Moreira, diretor do Centro de Pesquisa em Inteligência Artificial para a Indústria (CPA-IAI), do Centro Universitário Senai Cimatec, também encara a inteligência artificial como um importante ramo da matemática aplicada. No caso dele, o enfoque é a área de ciências atmosféricas, levando em conta questões como poluição do ar e meteorologia. “O que tem de mais moderno em ciências atmosféricas é a utilização de inteligência artificial para previsão do tempo, eventos extremos e mudanças climáticas”, explica.</p>
<p>O pesquisador afirma que o meio acadêmico já demonstra interesse em atuar junto à indústria, mas as empresas desejam solucionar problemas muito rapidamente, algo que destoa do modelo científico. “A inteligência artificial é um elo muito forte entre universidades e empresas para que atuem de forma mais rápida. Hoje em dia, há certos problemas que podem ser resolvidos facilmente e em tempo muito curto por meio dessa ferramenta. Por exemplo, aqueles que têm dados medidos. Se a empresa conta com dados confiáveis, o problema basicamente está solucionado.”</p>
<p>Para que o petróleo chegue à costa brasileira, é necessário que navios enormes levem a matéria-prima, extraída em plataformas em alto-mar, até terminais costeiros. A operação, dada a magnitude das embarcações, é difícil de ser realizada. “É uma operação gigante do ponto de vista logístico, por causa da enorme movimentação de carga e de volume, além das distâncias”, afirma Reinaldo Morabito, professor de engenharia de produção da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e outro pesquisador principal do Cemeai durante o financiamento da FAPESP.</p>
<p>Foi por isso que um projeto encabeçado por ele e realizado em parceria com a Petrobras buscou otimizar o movimento dessas cargas a fim de reduzir os custos, o tempo e a necessidade de embarcações, aumentando a eficiência logística da operação. O desenvolvimento de algoritmos tinha o objetivo de otimizar, de forma automatizada, os processos ligados às cargas. Morabito explica que o protótipo do algoritmo foi entregue à Petrobras e, desde então, a empresa é a responsável pela implementação.</p>
<h2><strong>Entre o futuro e o passado do Cemeai</strong></h2>
<p>Em julho de 2026, o Cemeai deixou de ser um CEPID da FAPESP. No entanto, o projeto continua existindo, agora como um dos Centros de Pesquisa e Inovação Especiais (Cepix) da USP, uma iniciativa da universidade para continuar com os centros inicialmente apoiados pela fundação. “Ao longo da trajetória do centro, nós percebemos que precisamos ser adaptáveis e ter iniciativas permanentemente em andamento”, afirma Francisco Louzada Neto, professor do ICMC-USP e atual diretor do Cemeai.</p>
<p>Antes de assumir a direção do centro depois de Cuminato, Louzada foi diretor de transferência da iniciativa e colaborou no diálogo entre academia e indústria. A criação de um mestrado profissional em matemática, estatística e computação aplicadas à indústria foi uma das ações do centro nesse sentido. No programa, o estudante pode trazer um problema industrial para ser solucionado durante o mestrado. Depois foi criada outra formação, um MBA em ciências de dados, que conta com uma estrutura parecida com a do mestrado profissional, mas que pode ser finalizado em um ano, metade do tempo médio dos que buscam o título de mestre.</p>
<p>Além disso, Louzada pretende expandir os workshops idealizados por Cuminato para outras regiões do país. O atual diretor do centro afirma que uma edição do evento já aconteceu em Salvador e outra está agendada para ocorrer em Manaus.</p>
<p>Outra ideia para o futuro do Cemeai é criar relações com outras instituições e projetos, para disseminar o modelo de trabalho do centro nas demais regiões brasileiras, algo que já vem ocorrendo. “O Cemeai foi uma das inspirações para a criação do Centro de Projetos e Inovação, ou Centro Pi, do Impa, o qual, como ele, trabalha para aproximar a academia dos setores produtivos, por meio de parcerias tecnológicas que possam beneficiar a sociedade”, afirma o diretor-geral do Impa.</p>
<p>Lucas Nissenbaum, gerente de projetos tecnológicos do Impa, atuou em diferentes ações da iniciativa, entre elas uma parceria firmada com a prefeitura do Rio de Janeiro para melhorar o monitoramento e os avisos sobre chuvas na cidade.</p>
<p>Ao acessar informações de radar e satélite fornecidas pela prefeitura, a equipe do Centro Pi desenvolveu um sistema de inteligência artificial para esse projeto, que já foi disponibilizado para o município. “O objetivo era prevenir riscos ligados às chuvas, com foco maior na previsão de enchentes, numa janela de curto prazo e com boa capacidade de determinar a localização das ameaças”, explica Nissenbaum.</p>
<p>Embora os resultados positivos do Cemeai no desafio de aproximar indústria e academia sejam visíveis, ainda há espaço para melhorar. Cuminato afirma que o cenário melhorou, mas lacunas no diálogo se mantêm. E isso é causado por ambos os lados.</p>
<p>Da parte da academia, falta uma abertura maior em relação a projetos fora do ambiente universitário. “Os nossos programas de pós-graduação são muito acadêmicos”, resume Cuminato. Já do lado da indústria, existe um comodismo que acaba incentivando a compra de tecnologia estrangeira. “O empresariado brasileiro prefere comprar um produto pronto, porque ele vai produzir resultados amanhã, do que investir numa solução com universidades. A pesquisa demora mais, é óbvio, só que a indústria não pensa nas repercussões dessa solução aparentemente pronta. Se amanhã for preciso modificar esse produto que o empresário comprou, ele terá de pagar tudo de novo”, completa ele.</p>
<p>Essa dificuldade é vista mesmo em projetos do Cemeai. Alguns deles, embora já tenham proposto soluções para problemas reais, ainda enfrentam dificuldades de adentrar o meio industrial. Esse é o caso da pesquisa de Lavor sobre geometria molecular, que poderia ser importante para o desenvolvimento mais eficaz de medicamentos por farmacêuticas. Para ele, duas razões explicam por que a relação entre academia e indústria não é a melhor, o que impacta pesquisas como a que está desenvolvendo. O primeiro motivo é a demora natural para realizar uma pesquisa desse tipo, gerando ansiedade na indústria, que deseja confirmar logo se o estudo vai resultar num produto ou numa aplicação real. Já a segunda razão está ligada ao próprio cenário brasileiro.</p>
<p>“Se compararmos o país com grandes centros, a proximidade entre os dois lados ainda é pequena. O próprio Cemeai foi fundamental para diminuir essa distância. Mas, tirando exceções, a academia é muito distante tanto da sociedade quanto da indústria”, afirma Lavor.</p>
<div class="box"><strong>Breve história do Cemeai</strong><br />
<em>Além de soluções para a indústria, o centro ajudou a enfrentar a pandemia</em></p>
<p><strong>jun.2013:</strong> Criação do Cemeai como um CEPID da FAPESP<br />
<strong>set.2015:</strong> Realização do primeiro Workshop de Soluções Matemáticas para Problemas Industriais<br />
<strong>jan.2020:</strong> Criação do MBA em ciências de dados<br />
<strong>mai.2020:</strong> Início do projeto Vidas Salvas, feito para estimar o impacto do isolamento social na diminuição de mortes na pandemia<br />
<strong>fev.2021:</strong> Apoio do Cemeai na criação do <strong>Info Tracker</strong>, ferramenta para monitorar dados sobre a Covid-19 no estado de São Paulo e, depois, em outras regiões do Brasil<br />
<strong>out.2024:</strong> Atualização do <strong>supercomputador Cluster Euler</strong><br />
<strong>jun.2026:</strong> Marco de 12 edições do Workshop de Soluções Matemáticas para Problemas Industriais<br />
<strong>Até jul.2026:</strong> Publicação de 3.400 artigos científicos derivados de pesquisas com o apoio do Cemeai<br />
<strong>Até jul.2026:</strong> R$ 45 milhões investidos em projetos desenvolvidos em parceria com a indústria<br />
<strong>jul.2026:</strong> Inclusão do Cemeai na iniciativa Cepix, da USP</div>
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			</item>
		<item>
		<title>Quais são as pistas do Alzheimer antes dos primeiros sintomas?</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/quais-sao-as-pistas-do-alzheimer-antes-dos-primeiros-sintomas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=quais-sao-as-pistas-do-alzheimer-antes-dos-primeiros-sintomas</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tiago Jokura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 17:25:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Bioquímica]]></category>
		<category><![CDATA[Fisiologia]]></category>
		<category><![CDATA[Neurociência]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Pública]]></category>
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					<description><![CDATA[Estudo da Unifesp busca biomarcadores da doença na população brasileira e enfrenta o dilema de revelar sinais biológicos quando a demência ainda não se manifestou]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando o diagnóstico de Alzheimer chega, quase sempre é tarde demais. Alterações associadas à doença podem começar a se acumular no cérebro por 15 ou 20 anos antes que a pessoa esqueça compromissos, repita as mesmas perguntas ou não saiba mais operar o controle da TV. É essa ampla janela de tempo que a medicina tenta descortinar para antever sinais de demência antes de ela se manifestar. “Embora seja possível controlar sintomas e aliviar o sofrimento, não é possível intervir no curso da doença quando a pessoa já não sabe ligar uma televisão. É tarde”, resume o neurologista Gustavo Melo de Andrade Lima, presidente do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Envelhecimento Cerebral (Nudec) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).</p>
<p>Antecipar esse relógio é o objetivo do Estudo Brasileiro em Doença de Alzheimer (Bioaz), um estudo de coorte (pesquisa que acompanha um grupo ao longo do tempo) que a equipe da Unifesp começou a montar com apoio de um <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/118897/novos-biomarcadores-para-doenca-de-alzheimer-uma-coorte-de-pacientes-com-queixa-de-memoria/" target="_blank" rel="noopener">projeto temático da FAPESP</a>. A proposta é acompanhar, por cinco anos, 500 brasileiros a partir de 55 anos que já têm queixas de memória, mas ainda não desenvolveram demência, colhendo deles uma quantidade incomum de dados clínicos e biológicos. A expectativa é encontrar biomarcadores que indiquem quem vai desenvolver Alzheimer.</p>
<p>Mas a pesquisa carrega, embutida, uma pergunta desconfortável: o que significa se voluntariar para um estudo que pode revelar, com anos de antecedência, que você está no caminho da demência?</p>
<div class="box-lateral"><strong>Antes do esquecimento</strong><br />
15 a 20 anos é o tempo em que alterações associadas ao Alzheimer podem se acumular no cérebro antes dos primeiros sintomas</p>
<p><strong>Estudo Bioaz</strong><br />
500 brasileiros com 55 anos ou mais, com queixas de memória mas sem demência, serão acompanhados por cinco anos<br />
</div>
<p>O projeto nasceu por vias tortuosas, como boa parte da ciência. No pós-pandemia, Lima propôs um mestrado modesto: rastrear por telefone e e-mail pessoas com queixa de memória. “Quando percebi que ia fazer um trabalho de triagem sem poder acompanhar os indivíduos, achei que seria um desperdício”, conta. Diante da escassez de grandes coortes sobre Alzheimer em países de baixa e média renda, ele reescreveu seu projeto: a triagem virou porta de entrada para um estudo longitudinal, e o mestrado se transformou em um doutorado.</p>
<p>Para viabilizar uma coorte que exige muitos recursos, Lima foi “amarrando” departamentos dentro da Unifesp — oftalmologia, fonoaudiologia, bioquímica, informática, diagnóstico por imagem etc. Hoje, o projeto envolve cinco departamentos e mais de 100 pesquisadores, com colaboração da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Não conheço nenhum outro estudo no Brasil que tenha uma fenotipagem tão profunda quanto o nosso”, afirma, referindo-se à caracterização detalhada dos participantes. A abordagem clínica inclui um questionário de autorrelato — a fim de coletar dados sobre escolaridade, renda, exposição à violência e poluição, entre outros itens — seguido de entrevista com especialistas e avaliações de neuropsicologia, fonoaudiologia e nutrição.</p>
<p>Na frente biológica, o rastreamento também é amplo e inclui análises de plasma, tomografia de coerência óptica (OCT), audiometria, neuroimagem e, em breve, coleta de líquor. A OCT foi, aliás, a semente do projeto. “A ideia inicial era ver como a tomografia de coerência óptica — que, grosseiramente, mede a espessura da retina, geralmente reduzida na doença de Alzheimer — poderia identificar um risco para quem tem comprometimento cognitivo leve”, relembra o neurologista Paulo Henrique Ferreira Bertolucci, professor titular de neurologia na Unifesp e pesquisador responsável do temático. “Começou bastante simples, mas o escopo inicial da coleta de dados foi se ampliando a partir dos marcadores de sangue e de líquor, para exames de imagem, testes cognitivos, genoma, transcriptoma [sequenciamento de RNA] e assim por diante.”</p>
<h2><strong>Amostragem valiosa</strong></h2>
<p>Apesar de toda a tecnologia de mapeamento de biomarcadores embarcada no projeto, o que torna o Bioaz singular é a população-alvo. Quase todas as grandes coortes de Alzheimer do mundo foram construídas com caucasianos. “Se você olhar estudos norte-americanos comparando marcadores no plasma de caucasianos e negros, existe uma diferença de comportamento. E ela não fica bem esclarecida, porque as amostras de negros são pequenas”, explica Bertolucci. O ponto é que a genética influencia os biomarcadores — e o DNA brasileiro não tem equivalente no mundo. “Os caucasianos dos Estados Unidos, por exemplo, vieram em sua maioria da Inglaterra, da Escócia, da Alemanha. Os nossos vieram majoritariamente da Itália, de Portugal e da Espanha. E os negros norte-americanos vieram do noroeste da África; os que vieram para o Brasil, em sua maioria, vieram do Congo, de Angola etc. É outra genética, é outro perfil. Nós vamos ter que descobrir qual é o nosso”, detalha. Para ser representativa da cidade de São Paulo, defende o pesquisador, a coorte precisa ter cerca de 10% de pessoas pretas e um terço de pardos, semelhante ao que demonstra o Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).</p>
<p>Aí mora o maior obstáculo do projeto. Mesmo com divulgação em rádio, redes sociais e nos canais da própria universidade, quem aparece para participar tem um perfil semelhante. A pesquisadora Kil Sun Lee, professora associada do departamento de Bioquímica da Unifesp, exemplifica: “quem mais se voluntaria são pessoas brancas, na maioria, mulheres, de alta escolaridade. O que não representa bem a população que a gente quer rastrear.” Por ora, o recrutamento está em pausa enquanto a equipe redesenha a estratégia.</p>
<p>Uma das saídas para o problema é a técnica de <em>community engagement research</em> (pesquisa com engajamento comunitário, em tradução livre do inglês). Em vez de esperar que a comunidade venha até a pesquisa, os pesquisadores procuram lideranças comunitárias, criam vínculo em escolas e igrejas e trazem alguém da própria comunidade para desenhar o recrutamento junto. “É um processo que vai levar anos. Mas, se a gente quiser vencer essa barreira da falta de diversidade, tem que ser assim”, diz Lima, que mira bairros como o Capão Redondo, na periferia paulistana. A motivação é, além de territorial, geopolítica: “Se o Brasil quiser ter esse dado, precisamos fazer isso.”</p>
<p>Outro detalhe que carrega intencionalidade é a idade de corte para os voluntários, a partir de 55 anos. A primeira versão do projeto previa 60 anos como idade mínima, mas pesquisadores do National Institutes of Health (NIH, agência do governo dos Estados Unidos para pesquisas biomédicas e de saúde) sugeriram baixar a régua. “O Brasil tem uma carga de doença vascular e de fatores de risco para demência alta porque, por causa da pobreza, as pessoas não controlam bem esses fatores”, explica Lima. Reduzir cinco anos foi, segundo ele, uma aposta no exposoma — o conjunto de fatores de risco ambientais, sociais e comportamentais ao qual a população brasileira está exposta ao longo da vida. O alvo é o indivíduo ainda ativo, com uma queixa leve que se confunde com o esquecimento normal da idade: exatamente aquele em que uma intervenção precoce, na era dos anticorpos monoclonais e da medicina de precisão, pode fazer diferença.</p>
<p>Os primeiros números, ainda preliminares, animam. A coorte reúne cerca de 125 participantes no primeiro ano, e análises exploratórias do plasma — feitas pelo grupo do farmacologista e bioquímico Eduardo Zimmer, na UFRGS — sugerem que aproximadamente 25% da amostra têm marcadores compatíveis com Alzheimer, como, por exemplo, a pTau217 plasmática (proteína tau fosforilada no aminoácido 217 presente no plasma sanguíneo).</p>
<p>No laboratório de Lee, algumas pistas moleculares começam a aparecer. “Em uma análise ainda preliminar dos dados proteômicos do plasma dos participantes, observamos que proteínas relacionadas à resposta inflamatória, ao sistema complemento [grupo de proteínas que combate infecções] e ao metabolismo de lipídios apresentam associações com o desempenho em testes cognitivos e com os níveis plasmáticos de pTau. Essas observações iniciais são coerentes com mecanismos já descritos na literatura e, embora ainda precisem ser confirmadas em um número maior de participantes, indicam que estamos detectando sinais biológicos consistentes com o que se conhece sobre comprometimento cognitivo e doenças neurodegenerativas.”</p>
<p>Em outra frente da pesquisa, a equipe liderada por Marimelia Porcionatto, professora titular do departamento de Bioquímica da Unifesp, reprograma células do sangue para gerar células-tronco e rastrear os efeitos dos fatores genéticos. A ideia é investigar se, ao transformar essas células-tronco em neurônios, surgem características celulares associadas à doença. “São vários subprojetos que a gente tenta integrar para ter uma visão completa sobre a doença”, detalha Lee.</p>
<div id="attachment_588946" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-588946 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-alzheimer-fotos-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="530" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-alzheimer-fotos-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-alzheimer-fotos-2026-10-1140-250x116.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-alzheimer-fotos-2026-10-1140-700x325.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-alzheimer-fotos-2026-10-1140-120x56.webp 120w" sizes="(max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Rosangela Andrade</span><strong>Memória em revelação</strong>: As imagens que ilustram esta reportagem são cenas do filme <em>Ausência</em>, um projeto da fotógrafa e laboratorista Rosangela Andrade. Sua mãe, Therezinha, foi diagnosticada com Alzheimer há mais de dez anos. Partindo da ideia de que a memória depende do registro, Rosangela convidou a mãe a fotografar e a revelar as próprias imagens no laboratório. Ao prestar atenção em seu redor e depois reconhecer nas fotos pessoas, lugares, acontecimentos e a si mesma, Therezinha passou a exercitar a memória afetiva e recente. Já Rosangela pôde lidar com o diagnóstico da mãe de forma lúdica e construtiva.<span class="media-credits">Rosangela Andrade</span></p></div>
<h2><strong>O peso de saber</strong></h2>
<p>Na etapa da coleta de líquor, uma das mais relevantes e cruciais do projeto, um dilema se instala na mente e no coração de voluntários e pesquisadores. É que o exame do líquido cefalorraquidiano oferece o diagnóstico biológico mais próximo do padrão-ouro — e, com isso, uma quase certeza sobre um futuro que o paciente talvez não quisesse conhecer. “O leigo vai entender como uma sentença”, pondera Lima. Por isso, cada participante passa por uma conversa individual com um pesquisador clínico experiente que integra o projeto. Antes de qualquer coisa, entende-se se a pessoa quer saber. A partir daí, o pesquisador interpreta os resultados de testes cognitivos e exames com os pacientes, orientando-os sobre como proceder quando a demência já está instalada ou não. “Tem muita gente que quer saber e vai se engajar na prevenção, e isso pode prevenir uma piora, postergar o início da demência, fazendo diferença no prognóstico. E tem gente que vai saber e entrar numa crise de ansiedade”, diz. A equipe estuda montar um suporte de psicologia para essas devolutivas.</p>
<p>O contexto clínico dá densidade ao dilema. O psiquiatra Orestes Forlenza, chefe do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP), lembra que a doença tem como marco inicial o acúmulo do peptídeo beta-amiloide, que se agrega em placas e desencadeia uma cascata de eventos neurotóxicos que resultam na morte neuronal. Detectar esse processo antes dos sintomas define um estágio singular: “A doença já está presente do ponto de vista patológico cerebral, ela apenas não se manifestou”, aponta Forlenza. É o Alzheimer pré-clínico — fase em que os marcadores de sangue, cada vez mais sensíveis, podem até substituir o líquor num futuro próximo.</p>
<div class="box-lateral"><strong>O que são as drogas antiamiloide</strong><br />
O donanemabe, da farmacêutica norte-americana Eli Lilly, e o lecanemabe, da japonesa Eisai, são anticorpos monoclonais, moléculas produzidas em laboratório para reconhecer um alvo específico no organismo. O alvo é o peptídeo beta-amiloide, que se acumula no cérebro de pessoas com Alzheimer. Os anticorpos se ligam ao amiloide e ajudam o sistema imune a removê-lo, o que desacelera o declínio cognitivo. Os medicamentos são indicados apenas para a fase inicial da doença, não a curam nem recuperam a memória perdida<br />
</div>
<p>Além de enfatizar a importância de gerar dados brasileiros, Forlenza menciona também as opções de tratamento já disponíveis: duas drogas antiamiloide, donanemabe e lecanemabe, aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo ele, os medicamentos têm “benefício clínico discreto, mas estatisticamente significante” e “se demonstram mais efetivos quanto mais cedo introduzidos”. Embora não curem o Alzheimer, ambos os anticorpos monoclonais têm o potencial de retardar o declínio cognitivo — mas a um custo altíssimo, entre R$ 10 mil e R$ 20 mil mensais.</p>
<p>O valor dessa coleta abrangente de dados não se limita à capital paulista. O psiquiatra Gilberto Sousa Alves, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), estuda cognição em comunidades quilombolas e vê no projeto um modelo a ser espalhado. “É preciso adaptar metodologias e tecnologias para outras realidades brasileiras, a ponto de incluirmos peculiaridades culturais, sociais e demográficas da nossa população na busca por biomarcadores relacionados à demência”, afirma. Ele reforça a mensagem que atravessa toda a pesquisa: numa faixa etária mais jovem do que a que costuma procurar o médico, fatores como colesterol alto, sedentarismo, obesidade, hipertensão e diabetes são controláveis e pesam no risco de declínio cognitivo no envelhecimento. “Precisamos de campanhas de esclarecimento sobre a prevenção do risco de demência.”</p>
<p>Para Lima, um desafio tão importante quanto rastrear indícios precoces de Alzheimer é fazer a coorte sobreviver para além do término dos financiamentos. “O ideal seria o Brasil ter uma coorte abrangente que fosse suportada e financiada não somente por agências de fomento, mas que despertasse o interesse público, fazendo com que iniciativas governamentais e políticas garantissem fundos permanentes”, explica. “Uma dificuldade, por exemplo, é manter dezenas de clínicos, que no caso do Bioaz são altamente especializados, com pelo menos dois anos de experiência com demências, trabalhando de forma voluntária. Isso ocorre porque, no Brasil, o pesquisador clínico raramente é pesquisador em tempo integral”, complementa.</p>
<p>A ambição, no entanto, é proporcional ao tamanho do desafio. A Iniciativa de Neuroimagem da Doença de Alzheimer (ADNI, na sigla em inglês), maior coorte do mundo, tem, atualmente, cerca de 2.700 participantes; o grupo de Lima concorre a financiamentos nacionais e internacionais que ampliariam o Bioaz para 2 mil voluntários e dez anos de acompanhamento. “Seria, sem dúvida, a maior coorte da América Latina”, diz.</p>
<p>No fim das contas, tão valioso quanto identificar precocemente os sinais biológicos da doença é transformar o tempo ganho pelos biomarcadores em prevenção e tratamento. A doença de Alzheimer começa muito antes do esquecimento — e a ciência corre para chegar antes dos sintomas.</p>
<div class="box"><strong>Biomarcadores de Alzheimer não são diagnóstico de demência</strong><br />
Sinais biológicos da doença de Alzheimer não devem ser considerados atestados prévios de demência. Ainda que exames como PET (para identificar acúmulo do peptídeo beta-amiloide) e análises de líquor e de plasma (sensíveis a proteínas específicas, como a pTau217, cujo nível no sangue sobe com as alterações cerebrais do Alzheimer) sejam capazes de indicar a patologia, diagnósticos biológicos não garantem que o paciente vá desenvolver demência.</p>
<p>Esses sinais sugerem risco aumentado para a doença, que depende de outros fatores para se concretizar. Lima explica que “a demência é diagnosticada clinicamente, quando se observa no indivíduo um declínio cognitivo e perdas funcionais que o tornam dependente para atividades da vida diária”. “Nesses casos, quando há confirmação biológica, por meio de biomarcadores relacionados à doença de Alzheimer, temos o diagnóstico de demência na doença de Alzheimer”, completa.</div>
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		<title>Universidades paulistas estão no topo de ranking da Folha desde a primeira edição</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/universidades-paulistas-estao-no-topo-de-ranking-da-folha-desde-a-primeira-edicao/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=universidades-paulistas-estao-no-topo-de-ranking-da-folha-desde-a-primeira-edicao</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sabine Righetti]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2026 11:56:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dados]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
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					<description><![CDATA[USP, Unicamp, Unesp e UFSCar estão no top 10 do RUF 2026, que avaliou 205 universidades]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Há um fenômeno evidente no RUF &#8211; Ranking Universitário Folha: a predominância de universidades públicas paulistas classificadas entre as melhores do país. A última edição, que veio à tona em outubro, trouxe duas universidades do estado —  a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) — na liderança nacional do ranking. Também estão no topo a Universidade Estadual Paulista (Unesp), em sexto lugar, e a Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), em décimo.</p>
<p>O ranking, que ajudei a criar e cujo conselho consultivo eu integro, é publicado anualmente pelo jornal <em>Folha de S.Paulo </em>desde 2012, com um hiato na pandemia (não houve edições em 2020, 2021 e 2022). Essa é, portanto, a 12<sup>ª </sup>edição da listagem, a única nesse perfil no país.</p>
<p>A avaliação olha para todas as universidades brasileiras a partir de cinco critérios: pesquisa, internacionalização, inovação, ensino e mercado — os três primeiros valem metade da nota recebida por cada universidade, e os últimos somam a segunda metade. Instituições que vão bem no RUF (como as universidades públicas paulistas) tendem a se destacar nacionalmente nos esforços e nos resultados para a produção de ciência e de tecnologia.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/RPF-dados-universidades-2026-10-1140.webp" data-tablet_size="1140x655" alt="">
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<p>Estamos falando, por exemplo, da quantidade de artigos científicos produzidos ou de teses defendidas para cada docente e de patentes concedidas para cada universidade. Esses dados — e os demais que compõem o ranking — são coletados pelo RUF em bases variadas, internacionais e nacionais, e chegam a milhões de campos de informação por edição da listagem.</p>
<p>A USP liderou todas as edições do RUF com exceção daquelas de 2016 e de 2017, quando o topo nacional ficou com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E o desempenho paulista tem melhorado a cada ano. Na primeira edição do RUF (2012) havia três paulistas no topo: USP (primeiro lugar), Unicamp (quinto lugar) e Unesp (sexto lugar). Agora, como vimos, são quatro universidades públicas paulistas no top 10.</p>
<p>Para se ter uma ideia, em média, uma universidade estadual ou federal de São Paulo recebeu 91 pontos na edição do RUF de 2026. No país, a nota média é de 49,7 pontos, considerando as 205 universidades brasileiras (todas as instituições ativas no MEC, de acordo com o último Censo da Educação Superior disponível, entram na classificação).</p>
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<p>Também são avaliados no RUF anualmente aspectos relacionados ao ensino e ao mercado. Aqui, entram na conta indicadores como a nota média dos estudantes de cada universidade no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), do MEC, e a quantidade proporcional de professores com dedicação parcial e integral na instituição (ou seja, o número de docentes que não recebem apenas por hora-aula, os chamados horistas).</p>
<p>Compõem a nota de ensino e de mercado do RUF, também, duas pesquisas nacionais feitas pelo Datafolha com professores e com empregadores de todo o país. Essa é a parte qualitativa do ranking, que visa transformar opinião em indicadores de avaliação. Foi inspirada em rankings universitários britânicos, que avaliam universidades de todo o mundo, como o Times Higher Education (THE) e o QS. O Ranking de Shangai, o ARWU, que já foi assunto nesta <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/o-que-a-ascensao-das-universidades-chinesas-tem-a-nos-ensinar/" target="_blank" rel="noopener">coluna</a>, baseia-se integralmente em indicadores quantitativos.</p>
<p>As universidades públicas paulistas lideram todos os indicadores do RUF: ensino, pesquisa e mercado (USP), inovação (Unicamp) e internacionalização (Universidade Federal do ABC, a UFABC) — esse último mede, por exemplo, a porcentagem de pesquisas feitas em colaboração internacional e a quantidade proporcional de docentes estrangeiros. Aqui, vale um adendo: a UFABC, fundada em 2005, é a melhor universidade do país entre as mais jovens no RUF. Está em 36º lugar na classificação total do país no ranking, mas sobe para o primeiro lugar nacional considerando apenas as universidades com menos de 30 anos.</p>
<p>Há, ainda, universidades privadas de destaque nos indicadores do RUF no cenário paulista (existem 27 universidades privadas em SP). Caso da Universidade Presbiteriana Mackenzie (71,72 pontos), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC-SP, (68,42 pontos) e da PUC-Campinas (59,39). Todas têm mais de 50 anos.</p>
<p>A informação sobre a idade da instituição é importante. Isso porque há uma correlação entre o tempo de fundação da universidade e a sua posição no ranking. Basicamente, universidades mais antigas tendem a ficar mais bem posicionadas no RUF.</p>
<p>Com exceção da Unesp, que completa 50 anos neste 2026, as 25 melhores universidades do país no RUF têm mais de meio século de vida. Vão muito bem no RUF, desde as primeiras edições, por exemplo, as universidades federais de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. Aqui se observa outro fenômeno: uma concentração de universidades no Sudeste e no Sul do país no topo da lista.</p>
<p>É claro que avaliações como o RUF — e qualquer outro ranking universitário — deixam muita coisa de fora dos critérios de avaliação. Caso do relacionamento entre aluno e docente que influencia o processo de aprendizagem, dos aspectos estruturais das instituições e da diversidade do corpo docente e discente. São aspectos muitas vezes difíceis de mensurar.</p>
<p>Justamente por isso, rankings mais recentes, como a listagem do Times Higher Education com foco em impacto social, começaram a incluir na conta aspectos como a quantidade de pesquisa sobre combate à pobreza na universidade, programas de assistência estudantil e ações da universidade para reduzir o desperdício de comida.</p>
<p>Isso tudo, claro, deve entrar na reflexão sobre o que é uma boa universidade e qual é a sua missão no seu entorno ou no país. O RUF mostra, no entanto, a partir do seu conjunto de critérios, que é inegável o destaque de São Paulo no ecossistema da educação superior do Brasil.</p>
<div class="box"><strong>Todos os indicadores do RUF 2026 são liderados por universidades públicas de SP</strong><br />
• Ensino &#8211; USP<br />
• Pesquisa &#8211; USP<br />
• Internacionalização &#8211; UFABC<br />
• Inovação &#8211; Unicamp<br />
• Mercado &#8211; USP</p>
<p><strong>4 universidades públicas paulistas estão no top 10 nacional</strong><br />
• USP (1º lugar)<br />
• Unicamp (2º lugar)<br />
• Unesp (6º lugar)<br />
• Ufscar (10º)</p>
<p><strong>Foram avaliadas 205 universidades</strong> na edição do RUF de 2026 35 dessas universidades estão em SP: seis públicas estaduais e federais, 27 privadas e duas municipais</p>
<p><strong>91 pontos </strong>foi a nota média recebida por estaduais e federais paulistas<br />
<strong>42 pontos</strong> foi a nota média recebida pelas universidades privadas paulistas<br />
<strong>49,7 pontos</strong> é a nota média de uma universidade brasileira no RUF<br />
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Chamas na UFPE destroem 40 anos de pesquisas para tratamento do câncer</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/chamas-na-ufpe-destroem-40-anos-de-pesquisas-para-tratamento-do-cancer/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=chamas-na-ufpe-destroem-40-anos-de-pesquisas-para-tratamento-do-cancer</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Adriana Amâncio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Oct 2026 18:22:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Política C&T]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Financiamento]]></category>
		<category><![CDATA[Pol. Públicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Chamas na UFPE destroem 40 anos de pesquisas para tratamento do câncer]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Victor Ferreira, doutorando em ciências fisiológicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), estudava para uma prova junto com uma colega na antiga sede da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) da universidade por volta das 18h30 do último dia 7. Dois seguranças bateram no vidro da janela pedindo que os pós-graduandos se retirassem, pois havia um princípio de incêndio. Do lado de fora, acompanharam as movimentações com a esperança de que as chamas seriam contidas rapidamente. “O sentimento foi mudando, até a gente entender que o incêndio teria um impacto catastrófico”, recorda ele.</p>
<p>De fato, as chamas avançaram rapidamente, a ponto de consumir toda a estrutura. O prejuízo total estimado é de R$ 100 milhões, dos quais R$ 50 milhões correspondem a um repositório com 20 mil moléculas, fruto de 40 anos de pesquisa para aperfeiçoamento de diagnóstico e produção de fármacos mais eficientes para diversos tipos de câncer.</p>
<p>Essa era uma das linhas de investigação do Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica (Nupit), coordenado pelo professor Moacyr Rego. O núcleo também atuava na área clínica, com um biorrepositório de amostras de pacientes com diversos tipos de câncer, entre pâncreas, vesículas biliares, bexiga e pulmão, além de amostras de 900 pacientes com Chikungunya, que eram monitorados pela equipe havia três anos.</p>
<div id="attachment_588911" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588911 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-entrevista-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-entrevista-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-entrevista-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-entrevista-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-entrevista-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Lucas Emanuel/UFPE</span>Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos, em visita ao local do incêndio. Ela anunciou apoio de R$ 40 milhões<span class="media-credits">Lucas Emanuel/UFPE</span></p></div>
<p>O laboratório também realiza monitoramento de trabalhadores da cana-de-açúcar, nas regiões das zonas da Mata Sul e Norte, e do Polo Gesseiro, localizado no Sertão do Araripe. As atividades envolvem exposição a agrotóxicos, fuligem e outras condições insalubres. O trabalho é feito em parceria com o Ministério Público do Trabalho de Pernambuco.</p>
<p>“O dano material a gente consegue reconstruir, mas o causado pela perda das amostras dos pacientes e do banco de moléculas a gente não tem como recuperar”, lamenta o coordenador Moacyr Rego, que já vislumbra uma parceria com o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco para o recrutamento de pacientes que possam doar material para a reconstrução do conjunto de amostras de material genético.</p>
<div id="attachment_588915" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588915 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-janelas-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-janelas-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-janelas-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-janelas-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-janelas-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Lucas Emanuel/UFPE</span>Exaustores do ar condicionado na lateral da parede do primeiro andar do antigo NIDE, local apontado como possível ponto onde as chamas começaram<span class="media-credits">Lucas Emanuel/UFPE</span></p></div>
<p>Com uma área construída de 2.967 metros quadrados e dois andares, o antigo DINE sediava também  o Departamento de Educação Física e o Laboratório de Biossegurança nível 3 (NB3). Toda a estrutura foi destruída. A causa do incêndio não foi revelada. Em nota a <em>Pesquisa FAPESP</em>, a Polícia Federal de Pernambuco declarou que um inquérito sobre o desastre está em andamento. Já o Corpo de Bombeiros informou à reportagem que o controle das chamas contou com oito viaturas e que a causa das chamas será apurada por meio de perícia técnica.</p>
<p>Mais de 90 pesquisadores de mestrado e doutorado e outros 20 de iniciação científica trabalham no Nupit. Passado o choque em relação à tragédia, o professor diz que os esforços estão sendo canalizados para a realocação desses pesquisadores e a retomada de seus projetos. “Tanto o Ministério da Ciência e Tecnologia quanto a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] se dispuseram a nos ajudar com ações de mobilidade, pagando para que os estudantes tenham acesso a outros laboratórios, tanto no Brasil quanto no mundo”, afirma. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Capes e a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), órgãos que fomentavam pesquisas no prédio destruído, já prorrogaram as bolsas de estudo.</p>
<p>Para Rego, a mobilização da comunidade científica em prol dos afetados pelo incêndio traz algum alívio. “Uma das coisas mais bonitas que aconteceram a partir dessa tragédia foi a solidariedade. A gente não para de receber ligações de professores de diversas instituições do Brasil, oferecendo os seus laboratórios”, diz ele.</p>
<div id="attachment_588919" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588919 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-laboratorio-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-laboratorio-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-laboratorio-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-laboratorio-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-laboratorio-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Arquivo pessoal/Michelle Melgarejo</span>Área de pesquisa sobre casos de suicídio entre policiais rodoviários, cujas amostras foram completamente destruídas<span class="media-credits">Arquivo pessoal/Michelle Melgarejo</span></p></div>
<p>Entre os pesquisadores que atuavam na área incendiada estava a neurocientista Michelle Melgarejo, que investigava como a combinação entre o estresse no ambiente de trabalho e variações genéticas favorecia casos de depressão e suícidio entre os policiais rodoviários de Pernambuco. Trata-se de um problema crescente no Brasil. De acordo com a mais recente edição do Anuário de Segurança Pública, 110 policiais tiraram a própria vida no país em 2025. De 2017 até aqui, esses suicídios cresceram 37%.</p>
<p>Com a catástrofe, Melgarejo perdeu 20 amostras de sangue de policiais que eram acompanhados. A pesquisa tinha perspectivas de ser ampliada para outros grupos populacionais.  Os primeiros dias após o incêndio, conta Michelle, foram marcados pela perplexidade e pelo abalo emocional. “Eu comecei a receber hoje pela manhã mensagens dos estudantes dizendo que só agora pararam para pensar em como o projeto vai continuar. As perdas não envolveram apenas equipamentos, amostras, reagentes, mas histórias que estavam sendo contadas.”</p>
<div id="attachment_588907" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588907 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-aula-2026-10-800.webp" alt="" width="800" height="1000" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-aula-2026-10-800.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-aula-2026-10-800-250x313.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-aula-2026-10-800-700x875.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-incendio-UFPE-aula-2026-10-800-120x150.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Arquivo Pessoal/Victor Ferreira</span>Victor Ferreira perdeu parte dos dados do doutorado sobre o impacto da pandemia da Covid-19 no desempenho escolar de crianças<span class="media-credits">Arquivo Pessoal/Victor Ferreira</span></p></div>
<p>Já o doutorando Victor Ferreira estava prestes a defender a sua tese, desenvolvida no Departamento de Educação Física. Parte dos dados produzidos em oito anos de pesquisa com estudantes dos Ensinos Fundamental I e II do município de Lagoa do Carro viraram cinzas em minutos.</p>
<p>O trabalho teve início com análises de desempenho cognitivo dos estudantes. Com a chegada da pandemia, o pesquisador direcionou a investigação para o impacto dela no desempenho escolar dos avaliados. A partir de então, passou a combinar análises da performance acadêmica, pelos resultados da prova do Sistema de Avaliação da Educação Profissional (Saep), com a do desempenho cognitivo, usando técnicas que mediam o nível de atenção dos estudantes.</p>
<p>Os resultados das análises foram salvos, mas as informações obtidas nas análises de atenção, que estavam escritas em papel, foram destruídas por completo. “Como a gente não tinha tabulado os dados ainda, uma parte do trabalho, que seria a devolutiva dos dados para a população, fica comprometida”, explica.</p>
<p>Rafael dos Santos, diretor de Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação da UFPE, lamenta a perda. “É um projeto que provocou mudanças sociais dentro do município. Criação de praças, parques, implementação de aulas de educação física, várias outras coisas que foram derivadas de resultados do projeto e que impactam diretamente no desempenho acadêmico.”</p>
<p>O laboratório, localizado nas salas do andar inferior do prédio, tinha vínculos com a Secretaria de Ciência e Tecnologia do governo estadual, por meio de um Programa de Rede de Inovação da Facepe. Alguns dos equipamentos estavam em locais externos, como quadras de esporte, razão pela qual não foram danificados. O grupo tinha projetos nas áreas de envelhecimento, infância e juventude, bem como monitoramento de performance física em práticas de dança, como o tradicional frevo. A captura desses movimentos para análise envolvia equipamentos como câmeras tridimensionais de captação detalhada e fotocélulas.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Da genômica à linguística, a África transfigurada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Patricia Mariuzzo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Oct 2026 11:57:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[Linguística]]></category>
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					<description><![CDATA[Pesquisas multidisciplinares enxergam o continente e suas relações com o Brasil para além dos estereótipos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Muitos povos da África ao sul do Saara não registravam sua história por meio da escrita antes do contato com os europeus, mas isso não significa que seja impossível reconstruir esse passado. Transformações no som e no sentido das palavras em idiomas que descendem da mesma língua-mãe, por exemplo, podem funcionar como um roteiro dessa história, conectando as transformações linguísticas a mudanças na cultura, na organização social e até nas condições ambientais enfrentadas por tais grupos.</p>
<p>Pistas fundamentais sobre o passado e o presente desses povos também podem vir do DNA – tanto o das populações que ainda ocupam o continente africano quanto o dos descendentes delas no Brasil. Linguística histórica e genômica, ao lado de trabalhos pioneiros sobre a história da produção do conhecimento científico pelos próprios africanos, fazem parte de uma série de abordagens por meio das quais pesquisadores brasileiros estão traçando um quadro mais complexo e aprofundado da África.</p>
<div class="box-lateral">Em 2008, a <strong>Lei nº 11.645</strong> ampliou a obrigatoriedade de ensino nas escolas para a história e a cultura indígenas, incluindo no currículo a luta dos povos originários no Brasil e sua contribuição para a formação da sociedade nacional</div>
<p>A ampliação das pesquisas sobre o continente no contexto brasileiro é indissociável da promulgação da Lei nº 10.639, em 2003, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) para tornar obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio. Segundo Marina de Mello e Souza, professora de história da África da Universidade de São Paulo (USP), a lei é uma conquista do movimento negro. “Especialmente a partir do período de redemocratização, intelectuais e ativistas passaram a defender o ensino dessa temática como um caminho para a superação do racismo”, diz ela.</p>
<p>Uma dessas pessoas foi Nilma Lino Gomes, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que desempenhou um papel de articulação entre a produção acadêmica e as demandas do movimento negro. Em 2012, em artigo na revista <em>Currículo sem Fronteiras, </em>ela afirmou: “A aprovação da lei aponta para um passo importante na construção de uma ruptura epistemológica e cultural, para uma (re) construção histórica alternativa e emancipatória”.</p>
<p>A mudança se desdobra na formação docente, na produção de material didático e na pesquisa acadêmica. Uma análise do número de dissertações e teses no portal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) mostra um crescimento linear e constante na primeira década após a promulgação da lei. Em 2003, registram-se 68 trabalhos. O número mais do que dobra em cinco anos, chegando a 162 em 2008, e, a partir de 2019, passa de 400 em diversos casos. O crescimento nos projetos de pesquisa sobre a África financiados pela FAPESP foi mais lento, mas o volume de concessões em 2026 é três vezes maior do que o de pesquisas iniciadas em 2003.</p>
<p>A lei também fomentou a formação de professores e de pesquisadores. Inicialmente, as investigações concentravam-se na África de colonização portuguesa, englobando nações como Angola, Moçambique e Cabo Verde. O foco temporal era majoritariamente o chamado período Atlântico (a fase inicial de contato com os europeus), motivado pelo interesse em compreender o comércio de escravizados e as conexões históricas com o Brasil.</p>
<div class="box-lateral"><strong><em>Intelligentsia</em></strong><br />
É o conjunto dos intelectuais de uma sociedade, considerados uma elite ou vanguarda cultural, social ou política.</div>
<p>“Contudo, nos últimos dez anos, o escopo das pesquisas se expandiu. Há pesquisadores brasileiros que analisam uma ampla diversidade de temas contemporâneos, incluindo o islamismo nos séculos 19 e 20, as guerras de independência, o <em>apartheid </em>na África do Sul e o genocídio de Ruanda”, afirma Souza.</p>
<p>“É impossível pensar um país do porte do Brasil, com os vínculos que temos com a África, sem uma <em>intelligentsia</em> capaz de pensar esse continente tão complexo, que demanda pesquisas a partir de seus próprios termos”, argumenta Marcos Leitão de Almeida, historiador da USP. Para ele, as pesquisas comportam dimensões múltiplas, desde a pedagógica, passando pela política e pela geopolítica do conhecimento. “Esses estudos colaboram para abandonar a maneira simplista com que intelectuais e políticos se engajam com o passado africano”, diz ele.</p>
<h2><strong>Na ponta das línguas</strong></h2>
<p>Especialista na região do Baixo Congo, Almeida tem utilizado a linguística histórica para reconstruir parte importante da história da África.</p>
<p>“A linguística histórica oferece, por exemplo, uma visão única sobre as conceituações êmicas do que significava estar com fome na África antiga”, explica. Utilizado principalmente em antropologia, ciências sociais e linguística, o termo “êmico” serve para descrever pontos de vista, valores e comportamentos sob a perspectiva interna de um grupo ou de uma cultura.</p>
<p>“Na prática, é como montar um grande quebra-cabeça cujas peças são listas de palavras, que comparamos com registros arqueológicos e dados paleoclimatológicos. O resultado desse esforço é uma árvore linguística, que ajuda a compreender os significados das palavras ao longo do tempo, de maneira a construir uma narrativa sobre o continente africano pré-colonial”, explica o pesquisador.</p>
<p>Almeida tem analisado como os povos falantes de línguas da família linguística bantu (uma das mais importantes do continente, correspondente a cerca de 600 idiomas e falada por mais ou menos um terço dos africanos) conceberam e enfrentaram crises decorrentes da chamada anomalia climática medieval (ACM).</p>
<p>A sigla é usada para designar um intervalo de tempo no qual ocorre um aquecimento do planeta, abrangendo os séculos centrais do que a historiografia ocidental definiu como Idade Média (aproximadamente entre os anos 900 e 1250 da Era Cristã ou Era Comum). “Em geral, associar o termo ‘medieval’ à África causa um estranhamento, porque a ideia de medievalidade está muito atrelada ao espaço europeu e ao chamado feudalismo, onde os efeitos da anomalia climática foram supostamente benignos”, explica o pesquisador da USP.</p>
<p>No entanto, a anomalia climática medieval não foi um fenômeno exclusivamente europeu. No caso da África Subsaariana, emerge outra acepção do conceito, um tempo no qual o aumento da temperatura média global – que, na região, resultou em secas prolongadas – introduziu uma variável de vulnerabilidade para sociedades camponesas, que praticavam uma agricultura de subsistência.</p>
<p>“O estudo comparativo das línguas bantu fornecerá o método para reconstruir o vocabulário voltado para a conceituação da fome, das estações e do ambiente, para a organização da produção e para a criação de vulnerabilidade e marginalidade, que frequentemente resultam de tempos de fome”, aponta Almeida.</p>
<p>Uma situação como essa também tem um impacto em elementos rituais e simbólicos. É o caso da reconstrução do vocabulário adotado para designar um objeto ritual ou amuleto usado para manipular a chuva nas culturas bantu numa área que vai do Gabão a Angola. A forma hipotética reconstruída para a palavra original (marcada com um asterisco) é *lu-kándù, conforme mostra o infográfico abaixo.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/INFO_AFRICA_desktop_largo_WEBP_final.webp" data-tablet_size="1140x1330" alt="">
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<p>O trabalho do historiador busca romper com percepções da África como um ‘espaço de escassez’, com sociedades perpetuamente vulneráveis. Por outro lado, segundo Almeida, após os processos de independência, a partir da década de 1960, muitos nacionalistas acabam criando um tipo de mitologia oposta à narrativa colonial, imputando ao colonialismo todos os problemas posteriores.</p>
<p>“Daí a importância de escapar dessas visões binárias, que descrevem ou a fome perpétua ou a superabundância, e de compreender a fome na história antiga da África como um processo histórico profundamente entrelaçado com as maneiras pelas quais os primeiros africanos construíram sistemas políticos, diferenciação social e estratégias de resiliência”, afirma.</p>
<p>Ainda segundo ele, uma pesquisa nesses moldes pode ajudar a reformular as narrativas básicas sobre os tempos designados como pré-coloniais e consolidar uma noção de “Idade Média Global”.</p>
<p>Não se pode esquecer que as línguas bantu estão mais perto de nós do que imaginamos. “O contato diário com os escravizados disseminou essa matriz linguística por todo o país. O português falado no Brasil é mais próximo do idioma de Angola e de Moçambique do que daquele de Portugal. É uma herança que moldou a sonoridade, o vocabulário e a gramática do brasileiro”, pontua Souza. “Os valores, sensibilidades e formas de pensamento africanas influenciaram toda a sociedade brasileira, e não apenas a população negra, resultando em uma identidade profundamente mestiça”, diz ela.</p>
<h2><strong>Diversidade nos genes</strong></h2>
<p>É claro que essa mestiçagem, em sentido estrito, também se reflete no genoma dos brasileiros. De acordo com Iscia Lopes-Cendes, do Departamento de Genética Médica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), não é possível compreender plenamente a população brasileira sem conhecer melhor a diversidade genética africana.</p>
<p>Segundo ela, nos últimos anos houve um crescimento importante das pesquisas genômicas envolvendo populações do continente, inclusive com a participação de grupos brasileiros. Isso aconteceu a partir do reconhecimento de que a maior parte dos bancos de dados foi construída com populações de ancestralidade europeia, o que limita o conhecimento na área e sua aplicação, especialmente no desenvolvimento da medicina de precisão para a população do Brasil.</p>
<p>Para ampliar o que se sabe sobre essa diversidade, foi criado o projeto AGenDA (sigla para “avaliação da diversidade genética na África”), que vai sequenciar 750 amostras de DNA coletadas em Angola. “Essa análise será conduzida em colaboração com os pesquisadores angolanos, assegurando também o treinamento de cientistas locais ao longo do desenvolvimento da pesquisa”, conta a médica.</p>
<p>Quanto mais representativa for a diversidade presente nos bancos de referência, mais precisos serão os diagnósticos, a interpretação de variantes de DNA e, no futuro, as aplicações da medicina de precisão. “O objetivo não é desenvolver uma medicina baseada em categorias populacionais, mas algo que represente adequadamente a variabilidade genética de toda a população brasileira”, aponta.</p>
<p>Os estudos de genômica populacional ajudam ainda a compreender melhor a história da formação do Brasil. “A genética mostra claramente que não existe base científica para qualquer forma de discriminação baseada na origem geográfica ou na ancestralidade dos indivíduos”, destaca Lopes-Cendes. “Também é importante lembrar que a identidade de uma pessoa envolve história, cultura, pertencimento e vivências, aspectos que vão muito além do DNA. Minha contribuição é produzir conhecimento científico que torne a medicina mais precisa e mais representativa da diversidade humana, para que seus benefícios possam ser aplicados a toda a população, sem discriminação.”</p>
<h2><strong>Outros nomes no mapa</strong></h2>
<p>O crescimento das pesquisas sobre a África feitas por brasileiros também tem possibilitado reduzir as lacunas sobre a presença de personagens negros na história das ciências no século 20. E, se o oceano Atlântico se torna um rio que conecta dois continentes e suas histórias, como afirmou o historiador e diplomata Alberto da Costa e Silva (1931-2023), o continente africano pode ser comparado a um vasto oceano, de onde emergem novas possibilidades para o pensamento geográfico.</p>
<div class="box-lateral">Em <em>Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África</em>, de 2003, Alberto da Costa e Silva descreve o oceano como um caminho de mão dupla, pelo qual circularam pessoas, técnicas, línguas e crenças entre os dois continentes.<br />
</div>
<p>Um exemplo é a obra do professor e geógrafo nigeriano Gabriel Jimoh Afolabi Ojo (1929–2020). Em 1966, ele publicou <em>Yoruba Culture: a geographical analysis</em> (University of Ife e University of London Press), livro no qual analisa a relação entre o meio ambiente e a cultura iorubá. Ele utiliza uma abordagem inovadora ao destacar essa interação por meio de exemplos do mundo material e espiritual daquele povo, buscando demonstrar como o ambiente afeta ou modifica normas e práticas culturais.</p>
<p>“Chama a atenção o fato de ele conseguir relacionar a dimensão geográfica do ambiente com o florescer da cultura iorubá”, destaca Guilherme dos Santos Claudino, professor do Departamento de Geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="800" height="1000" class="size-full wp-image-588775 alignright" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-africa-brasil-2026-10-800.webp" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-africa-brasil-2026-10-800.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-africa-brasil-2026-10-800-250x313.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-africa-brasil-2026-10-800-700x875.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-africa-brasil-2026-10-800-120x150.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><span class="media-credits-inline">Edson Ikê</span>A cultura iorubá é uma das principais raízes da cultura e identidade afro-brasileiras, presente tanto em nossa língua como na religiosidade e na gastronomia. Na opinião de Claudino, trata-se de um estudo que poderia ter sido aproveitado pela geografia brasileira, que só no final dos anos 1990 começou a se interessar pela cultura negra, afro-brasileira e africana de forma mais sistemática.</p>
<p>Pouco conhecido, o livro de Ojo ainda não tem tradução no Brasil, mas Claudino tem feito esforços para recuperar o pensamento de outros especialistas africanos como ele. Em julho deste ano, chegou às livrarias o título <em>A dimensão racial na história do pensamento geográfico: constelações Orí e nervuras da raça</em>. Com quase 800 páginas, a obra traz os resultados iniciais da pesquisa de Claudino, que é apoiada pela FAPESP.</p>
<p>O livro é o primeiro resultado do projeto de pesquisa, que tem como objetivo a construção de uma enciclopédia sobre a presença de geógrafos negros na história do pensamento de sua disciplina, do final do século 19 até a última década do século 20, no Brasil, nos Estados Unidos e em seis países da África (Uganda, Gana, Nigéria, Quênia, Moçambique e África do Sul). “A ausência de pessoas negras nas narrativas da história da geografia foi a inquietação que motivou meu interesse por revelar a participação, ou a razão da ausência, de homens e mulheres que, por outros caminhos, produziram conhecimento geográfico”, conta ele.</p>
<p>“No caso da geografia, percebo um crescimento do interesse sobre a África especialmente nos últimos dez anos, quando vemos um ponto de inflexão na medida em que, sobretudo para os pesquisadores negros na universidade, não basta entender o racismo científico do passado, é preciso entender como os negros também tiveram contribuições intelectuais importantes”, afirma Claudino.</p>
<p>Para ele, isso é fundamental para desmistificar estereótipos que resultaram em leituras parciais sobre um continente que tem mais de 50 países, cerca de 2 mil línguas e uma das maiores diversidades geográficas do planeta.</p>
<p>“Encontramos análises elaboradas a partir de uma perspectiva crítica por parte de geógrafos africanos”, diz ele. Um dos primeiros professores universitários da África Oriental, por exemplo, foi o queniano Simeon Ominde (1924-1995), docente no Departamento de Geografia da Universidade de Nairóbi. Na década de 1960, ele desempenhou um papel fundamental na reestruturação do sistema educacional queniano após a independência, lançando as bases para a reforma que eliminaria o legado colonial segregacionista na organização escolar.</p>
<p>A consolidação da universidade como um espaço legítimo de pesquisa sobre a África em todas as áreas do conhecimento abre espaço para questionamentos antes negligenciados. Para Almeida, responder a essa demanda é fundamental para superar um binarismo que se traduzia na ideia de que a África não possuía história ou, indo na direção oposta, em uma exaltação de seus grandes reinos e impérios, como Gana (que não corresponde ao país atual com esse nome) e Zimbábue. “Acredito que a principal contribuição dessa vertente de pesquisa é a normalização do continente africano nos manuais didáticos e no pensamento historiográfico, superando a dicotomia entre a condenação e a celebração”, resume ele.</p>
<p>E, sob essa perspectiva, justifica-se a investigação de temas sensíveis como a fome e a escravidão. “Evidenciar essas dinâmicas não diminui a história africana. Pelo contrário, confere-lhe densidade humana”, diz. “Longe de buscar a polêmica vazia, tais conceitos humanizam o processo histórico ao demonstrar que os sujeitos agem em meio a tensões e ambiguidades, seja na Europa do século 19, seja na África dos séculos 3 a 5. Resgatar essas complexidades é um compromisso republicano e democrático.”</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Corrida de obstáculos para os biossensores portáteis</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/corrida-de-obstaculos-para-os-biossensores-portateis/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=corrida-de-obstaculos-para-os-biossensores-portateis</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Igor Zolnerkevic]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Oct 2026 12:07:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE)]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Inovação]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina]]></category>
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					<description><![CDATA[Apesar dos resultados promissores em laboratório, a maioria dos dispositivos ainda não está pronta para uso clínico e comercialização]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A pandemia de Covid-19 desencadeou uma corrida entre pesquisadores do mundo inteiro pelo desenvolvimento de novos métodos para detectar o vírus Sars-CoV-2, causador da doença. O objetivo era criar soluções tão baratas e rápidas quanto os testes vendidos em farmácias, mas com a mesma sensibilidade do melhor exame laboratorial então disponível. Dezenas de dispositivos portáteis de baixo custo capazes de detectar o vírus em poucos minutos, mesmo em baixas concentrações, foram descritos em artigos científicos e divulgados à imprensa. A maioria, entretanto, não chegou ao mercado.</p>
<p>Transformar protótipos em produtos comerciais continua sendo o principal desafio dos pesquisadores que desenvolvem biossensores portáteis ou vestíveis. Além de identificar rapidamente infecções por vírus e bactérias, esses dispositivos prometem facilitar o diagnóstico e o acompanhamento de uma série de doenças, substituindo, em algumas aplicações, exames de sangue por análises rápidas de lágrimas, saliva ou suor. Também poderiam permitir diagnósticos mais precoces e tratamentos personalizados.</p>
<p>“Fazer a transferência do que funciona na bancada para o mundo real é, muitas vezes, um passo muito desafiador para os pesquisadores, mas sinto que a comunidade acadêmica está seguindo nessa direção”, avalia a física Laís Brazaca, do Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo (IQSC-USP). Ela é a primeira autora de um <a href="https://doi.org/10.1021/acsami.6c04520" target="_blank" rel="noopener">artigo</a> de revisão sobre sensores vestíveis para saúde, publicado em junho na revista <em>ACS Applied Materials &amp; Interfaces</em>.</p>
<p>Brazaca lidera um <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/114879/novos-biossensores-vestiveis-para-analises-nao-invasivas-de-biomarcadores-proteicos/?q=23/10141-2" target="_blank" rel="noopener">projeto</a> financiado pela FAPESP cuja meta é desenvolver biossensores vestíveis para monitorar proteínas no suor associadas a doenças. A maioria dos aparelhos que funcionam colados à pele detecta no suor apenas eletrólitos (íons de sódio, cloro e outros) e metabólitos (pequenas moléculas, como glicose e lactato). “Minha ideia é desenvolver dispositivos que coletem e analisem moléculas maiores, como proteínas”, diz.</p>
<p>O sangue transporta uma grande variedade dessas moléculas, mas apenas algumas conseguem atravessar os vasos sanguíneos e chegar ao suor. Entre elas estão a clusterina e a dermicidina. No sangue, altas concentrações de clusterina estão associadas à doença de Alzheimer, enquanto níveis elevados de dermicidina vêm sendo relacionados ao câncer de mama. Um dos objetivos do projeto é verificar se essas relações também ocorrem no suor, o que pode depender de muitos fatores do organismo.</p>
<p>Há também o fato de que as concentrações de proteínas medidas pelo sensor podem diferir das realmente presentes no suor. Por fim, é preciso resolver a dificuldade de integrar, em um aparelho flexível, uma espécie de laboratório de química em miniatura, chamado de circuito microfluídico, a um circuito microeletrônico capaz de registrar e transmitir sem fio os dados para um computador ou celular. Para superar esses obstáculos, Brazaca colabora com os químicos Emanuel Carrilho, seu colega no IQSC-USP; Khaled Abdelazim, da Universidade Harvard; e Juliane Sempionatto, da Universidade Rice (EUA), que também é nanoengenheira.</p>
<p>Recentemente, o grupo de Sempionatto desenvolveu protótipos de biossensores vestíveis para medir eletrólitos e metabólitos no suor. Outro projeto seu busca monitorar hormônios relacionados à saúde da mulher. “Há uma necessidade enorme de ferramentas que permitam acompanhar mudanças hormonais desde a adolescência feminina até a menopausa”, explica. Os protótipos de ambos os projetos ainda precisam de trabalho adicional para chegar ao mercado.</p>
<p>“A área está amadurecendo”, afirma Sempionatto, também coautora da revisão. “O desafio real é transformar a leitura de dados em uma informação clínica confiável e útil para uma decisão médica.”</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/Biossensores_ONLINE_desktop_final.webp" data-tablet_size="1140x2552" alt="Infográfico explica como funciona um biossensor, de testes rápidos de Covid-19 a sensores vestíveis que monitoram o suor">
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  </picture></div><div class="post-content sequence">
<h2><strong>Do espaço para a prateleira</strong></h2>
<p>O desenvolvimento de sensores vestíveis começou na década de 1980, para monitorar à distância os sinais vitais de astronautas durante missões espaciais. Esses primeiros instrumentos deram origem aos chamados sensores físicos, capazes de registrar pequenas variações de pressão associadas ao funcionamento de coração, pulmões e sistema nervoso, por exemplo. Muitas dessas medições hoje podem ser feitas por celulares e relógios inteligentes.</p>
<p>Já os primeiros sensores biológicos vestíveis surgiram no final da década de 1990. Esses dispositivos consistem em uma superfície capaz de abrigar um componente de origem biológica — um anticorpo, uma enzima, um pedaço de DNA, ou mesmo uma célula inteira —, que reage na presença de uma molécula específica produzida pelo corpo humano, por vírus ou por bactérias. Essa reação gera um sinal mensurável, como uma mudança de cor, nos biossensores colorimétricos, ou uma alteração nas propriedades elétricas do material, nos eletroquímicos.</p>
<div class="box-lateral"><strong>Na década de 1980</strong> começou o desenvolvimento de sensores vestíveis, para monitorar à distância os sinais vitais de astronautas em missões espaciais</p>
<p><strong>No fim da década de 1990</strong> chegaram os primeiros sensores biológicos vestíveis, que reagem na presença de uma molécula específica produzida pelo corpo humano, por vírus ou por bactérias</p>
<p><strong>Hoje</strong>: Os testes rápidos de Covid-19, HIV e gravidez são os principais biossensores colorimétricos, em que a reação gera uma mudança de cor, disponíveis no mercado</p>
<p>Entre os eletroquímicos, em que a reação altera as propriedades elétricas do material, os únicos já comuns são os medidores de glicose</p>
<p><strong>60 mil artigos científicos</strong> sobre biossensores vestíveis para saúde foram publicados desde 2005, segundo revisão liderada pela física Laís Brazaca, do IQSC-USP<br />
</div>
<p>Atualmente, os testes rápidos de Covid-19, HIV e gravidez, entre outros, são os principais biossensores colorimétricos no mercado. Entre os eletroquímicos, os únicos já comuns são os medidores de glicose. Em geral, analisam uma gota de sangue obtida por uma picada no dedo, enquanto os mais avançados funcionam em um adesivo aplicado ao braço, monitorando a glicose por alguns dias por meio de microagulhas.</p>
<p>Esses produtos representam uma pequena fração dos protótipos já desenvolvidos. A revisão liderada por Brazaca contabilizou 60 mil artigos científicos sobre biossensores vestíveis para saúde publicados desde 2005. Novos materiais tornaram os dispositivos mais flexíveis e compatíveis com a pele e outras partes do corpo.</p>
<p>“A grande variedade de possíveis materiais e aplicações tornou o campo atraente para a pesquisa básica e aplicada, mas a consolidação em produtos exige foco nas aplicações viáveis comercialmente”, considera o físico Osvaldo Novais de Oliveira Jr., do Instituto de Física de São Carlos da USP (IFSC-USP), também coautor da revisão. Com apoio da FAPESP, Oliveira <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/117924/sensores-e-biossensores-para-monitoramento-de-saude-e-ambiental/" target="_blank" rel="noopener">desenvolve</a> biossensores para saúde e monitoramento ambiental. Seu grupo já criou dispositivos que <a href="https://doi.org/10.1016/j.talanta.2019.120609" target="_blank" rel="noopener">identificam</a> genes associados a câncer de cabeça e pescoço, testados com amostras de células de pacientes do Hospital de Amor, em Barretos (SP).</p>
<p>A principal dificuldade dos biossensores é manter seu funcionamento por tempo suficiente fora do laboratório. Seus componentes biológicos são moléculas frágeis que, depois de imobilizadas no sensor por ligações químicas, precisam continuar ativas em condições muito diferentes das encontradas no corpo humano. Para prolongar sua vida útil, pesquisadores têm recorrido a versões sintéticas mais estáveis e a camadas protetoras. Ainda assim, muitos não duram mais do que algumas semanas.</p>
<p>Um exemplo é o biossensor eletroquímico integrado aos óculos, desenvolvido no laboratório de Joseph Wang, na Universidade da Califórnia em San Diego. Sempionatto foi aluna de doutorado de Wang, enquanto Brazaca fez estágio no laboratório em 2017, durante seu doutorado, sob orientação do engenheiro de materiais Valtencir Zucolotto, do IFSC-USP. Juntas, elas <a href="https://doi.org/10.1016/j.bios.2019.04.058" target="_blank" rel="noopener">colaboraram</a> para criar o primeiro biossensor vestível capaz de monitorar álcool em lágrimas, além de vitaminas e glicose. As enzimas usadas nas detecções precisavam ser preparadas no máximo um dia antes do uso.</p>
<p>Além da estabilidade dos componentes biológicos, a síntese dos nanomateriais empregados na interface do sensor envolve reações químicas cujo controle pode ser desafiador. “A reprodutibilidade é muito difícil”, afirma a química Juliana Cancino-Bernardi, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Segundo ela, esses materiais apresentam variações inevitáveis de tamanho durante a fabricação, podendo alterar suas propriedades eletrônicas. Isso significa que biossensores produzidos pelo mesmo processo podem gerar sinais elétricos diferentes em resposta à mesma concentração da substância-alvo.</p>
<p>“Para gerar dados confiáveis durante dias, semanas ou meses, o comportamento do sensor precisa ser muito estável ou, pelo menos, previsível”, ressalta Sempionatto.</p>
<h2><strong>Amostras reais</strong></h2>
<p>Outro problema é que a maioria dos estudos testa seus protótipos apenas em condições idealizadas em laboratório. Alguns avançam para analisar fluidos sintéticos — versões artificiais de suor, saliva ou sangue com composição conhecida. Mais raros são os que utilizam amostras de fluidos reais de pacientes. Apenas uma pequena parcela chega aos testes clínicos.</p>
<p>“Um diferencial do nosso grupo sempre foi utilizar amostras reais”, afirma o químico William Reis de Araújo, que coordena um laboratório da área na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e também fez estágio no laboratório de Wang.</p>
<p>No auge da pandemia, em 2020, o pesquisador da Unicamp iniciou uma colaboração remota com o grupo de Cesar de la Fuente-Nunez, da Universidade da Pensilvânia (EUA), especialista em compostos antimicrobianos. Dois alunos de Araújo foram ao laboratório dele para desenvolver biossensores baseados na proteína ACE2, receptor presente na superfície de células humanas e usado pelo vírus SARS-CoV-2 para invadi-las. A estratégia se mostrou acertada porque, embora novas variantes do vírus tenham tornado obsoletos muitos biossensores baseados em anticorpos, elas continuaram a se ligar ao ACE2.</p>
<p>Um dos dispositivos era um microcircuito eletrônico de grafite modificado, impresso a laser em papel. Cada unidade descartável custava menos de R$ 25. Após receber uma amostra de saliva ou esfregaço nasal com cotonete, o sensor era inserido em um pequeno aparelho comercial chamado de potenciostato, conectado a um celular ou computador – o resultado vinha em quatro minutos. Em 2021, a equipe <a href="https://doi.org/10.1016/j.isci.2022.104055" target="_blank" rel="noopener">validou</a> o biossensor em 321 pacientes do hospital da universidade americana. Dois anos depois, <a href="https://doi.org/10.1016/j.xcrp.2023.101476" target="_blank" rel="noopener">reduziu</a> seu custo para cerca de R$ 17. Apesar de estimarem que milhões de unidades poderiam ser fabricadas por semana durante a pandemia, a patente ainda não foi licenciada para uma empresa.</p>
<p>Em 2022, um surto mundial de varíola dos macacos, mais conhecida como mpox (doença viral transmitida pelo contato com fluidos de pessoas ou animais infectados), chegou a Campinas, com 96 casos registrados. O episódio levou Araújo a criar o primeiro biossensor eletroquímico para detectar o vírus em amostras de sangue, saliva ou secreções das lesões. Dois anos depois, sua equipe <a href="https://doi.org/10.1016/j.xcrp.2023.101476" target="_blank" rel="noopener">aprimorou</a> o biossensor, inicialmente feito em papel, na forma de um tecido flexível que pode ser incorporado a curativos.</p>
<p>Esse trabalho integra um <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/111975/desenvolvimento-de-biossensores-portateis-e-acessiveis-para-diagnosticos-clinicos-de-infeccoes-bacte/" target="_blank" rel="noopener">projeto</a> de Araújo financiado pela FAPESP para criar biossensores descartáveis para detecção de infecções virais e bacterianas. Outros dispositivos poderão diferenciar dengue, zika e chikungunya, além de identificar as espécies de bactérias responsáveis por uma infecção. Um dos protótipos concluídos <a href="https://doi.org/10.1016/j.cej.2024.152885" target="_blank" rel="noopener">reúne</a> quatro testes em um abaixador de língua — o palito usado por médicos para facilitar o exame da boca e da garganta.</p>
<h2><strong>Etapas invisíveis </strong></h2>
<div id="attachment_588724" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588724 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-biossensores-pesquisadoras-2026-10-800.webp" alt="" width="800" height="900" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-biossensores-pesquisadoras-2026-10-800.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-biossensores-pesquisadoras-2026-10-800-250x281.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-biossensores-pesquisadoras-2026-10-800-700x788.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-biossensores-pesquisadoras-2026-10-800-120x135.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Rice University</span>Equipe de Juliane Sempionatto (primeira à esquerda), na Universidade Rice, testa biosensor sobre a pele do antebraço de voluntária (segunda à esquerda). Dispositivo mede eletrólitos do suor e transmite seus dados a celular (terceira à esquerda)<span class="media-credits">Rice University</span></p></div>
<p>Araújo enfatiza que, embora o objetivo seja criar testes cada vez mais baratos, a pesquisa básica necessária para desenvolver um protótipo exige insumos e equipamentos que custam em torno de R$ 100 mil. Segundo a revisão liderada por Brazaca, o investimento para levar um novo dispositivo ao mercado pode ultrapassar centenas de milhões de dólares, o que pode desestimular o investimento nos projetos.</p>
<p>Para Sempionatto, as agências de financiamento precisam apoiar melhor etapas menos visíveis, mas decisivas, como estudos de reprodutibilidade, padronização da coleta, validação clínica, usabilidade, controle de qualidade e planejamento regulatório. “Esses estudos, menos atraentes em novidade científica, são os que determinam se uma tecnologia poderá ser usada fora do laboratório.”</p>
<p>“E as empresas precisam participar mais cedo do processo, ajudando a definir custo, fabricação, experiência do usuário e formas de pagamento pelo sistema de saúde”, diz ela. “Médicos e pacientes também devem estar envolvidos desde o início. O desenvolvimento funciona melhor quando todas as áreas trabalham juntas continuamente.”</p>
<p>Essa transição entre o mundo acadêmico e o comercial é conhecida como vale da morte, explica Araújo. Para superá-la, ele considera essenciais programas como o Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (<a href="https://fapesp.br/pipe/" target="_blank" rel="noopener">PIPE</a>), da FAPESP, que financia estudos em micro, pequenas e médias empresas.</p>
<p>“O PIPE estimulou a criação de empresas a partir de nosso laboratório”, conta Brazaca. Seu colega Carrilho incentivou os alunos a empreender depois de atuar, de 2007 a 2009, como professor visitante na Universidade Harvard, no grupo de George Whitesides, conhecido por criar tecnologias que deram origem a empresas. Em 2012, três alunos de Carrilho aceitaram o desafio e fundaram a Partecurae Analysis, voltada a testes diagnósticos rápidos para saúde animal. Quatro anos depois, outro grupo criou a Solve Biotecnologia, dedicada à saúde humana. Ambas receberam financiamento inicial do PIPE.</p>
<p>As duas empresas se fundiram em 2020, dando origem à Prothera Biotecnologia. Durante a pandemia, a empresa desenvolveu um teste rápido para Covid-19, semelhante aos disponíveis no mercado, que chegou a ser comercializado na região de São Carlos. “Chorei de felicidade quando vi nosso produto na farmácia”, lembra a pesquisadora Regiane Travensolo, sócia-fundadora da Partecurae e da Prothera.</p>
<p>A fabricação dos testes, porém, só foi possível graças a uma parceria com um investidor, encerrada por questões jurídicas em 2023. Desde então, a Prothera reestruturou seu modelo de negócios e passou a oferecer consultoria a empresas e pesquisadores interessados em empreender na área de biotecnologia.</p>
<h2><strong>Monitorando poluentes</strong></h2>
<p>Tecnologias semelhantes às dos biossensores para a saúde vêm sendo adaptadas para monitorar substâncias de difícil detecção no ambiente. Esses dispositivos podem contribuir para a conservação de alimentos, a agricultura de precisão e o controle dos chamados poluentes emergentes — agrotóxicos, fármacos, hormônios, microplásticos e outros contaminantes invisíveis a olho nu que se acumulam em rios e lagos.</p>
<p>No ano passado, o grupo de Araújo adaptou sua técnica de fabricação de eletrodos em papel para <a href="https://doi.org/10.1016/j.talanta.2025.128212" target="_blank" rel="noopener">criar</a> um pequeno sensor impermeável que pode ser fixado a folhas e outras partes das plantas para detectar o herbicida paraquat, proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2020 por seus riscos à saúde. O aparelho funciona por uma reação química entre os eletrodos e as moléculas do herbicida e transmite seus resultados sem fio para um aplicativo.</p>
<p>Para detectar água contaminada com paraquat, a química Cibely Martin, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Ilha Solteira, <a href="https://doi.org/10.1021/acsomega.6c00888" target="_blank" rel="noopener">desenvolveu</a> nanomateriais que aumentam o desempenho dos sensores eletroquímicos e permitem potencializar a detecção por meio da espectroscopia. “Eles identificam uma família de compostos e sua concentração, enquanto a espectroscopia fornece a impressão digital de cada molécula”, explica Martin, que coordena um <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/113918/materiais-nanoestruturados-aplicados-como-plataforma-sensoriais-via-espectroeletroquimica-para-a-det/" target="_blank" rel="noopener">projeto</a> financiado pela FAPESP. As moléculas de paraquat são tão semelhantes às de outros herbicidas que a eletroquímica, sozinha, não consegue distinguí-las. Apenas a combinação entre as duas técnicas permite diferenciá-las e tornar a detecção mais seletiva.</p>
<p>Na Universidade Federal do ABC (UFABC), o biofísico Wanius Garcia lidera um <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/119992/desenvolvimento-de-nanossensores-bioconjugados-plasmonicos-para-a-deteccao-de-antibioticos-e-pestici/" target="_blank" rel="noopener">projeto</a> financiado pela FAPESP para o desenvolvimento de nanossensores para detecção de antibióticos e inseticidas em amostras ambientais, como solo e corpos d’água, ou em matrizes biológicas, como o sangue. A ideia surgiu após seu grupo, em colaboração com a equipe do bioquímico Claudener Teixeira, da Universidade Federal do Cariri (UFCA), mostrar que certas proteínas da família das lectinas se ligam a moléculas de antibióticos da classe dos aminoglicosídeos, como a gentamicina, usados no tratamento de infecções graves. Os pesquisadores mostraram que essa interação altera a absorção de luz por nanopartículas de haleto de prata revestidas com lectinas, alterando suas propriedades ópticas. Garcia vem aplicando o mesmo princípio com enzimas chamadas esterases para detectar inseticidas.</p>
<p>“Já demonstramos a sensibilidade da técnica, mas ainda precisamos verificar sua especificidade, para saber se outras moléculas podem interferir na detecção”, explica. Segundo ele, no futuro todo o procedimento poderá ser integrado a um dispositivo portátil – por exemplo, um celular – permitindo análises rápidas e leituras diretas na tela.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Como é a trajetória do cotista: da entrada na universidade ao mercado de trabalho</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/como-e-a-trajetoria-do-cotista-da-entrada-na-universidade-ao-mercado-de-trabalho/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=como-e-a-trajetoria-do-cotista-da-entrada-na-universidade-ao-mercado-de-trabalho</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Judite Cypreste]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Oct 2026 11:57:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Política C&T]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Pol. Públicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Pesquisas acompanham por que alunos que ingressam na graduação por reserva de vagas abandonam os cursos, o que faz outros permanecerem e como eles constroem a trajetória profissional]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A Lei de Cotas (12.711/2012), que completou 14 anos em 2026, alterou o perfil dos estudantes nas universidades públicas brasileiras. Entre 2013 e 2024, mais de 1,4 milhão de pessoas ingressaram em instituições federais de ensino por meio de reserva de vagas, segundo o Censo da Educação Superior, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).</p>
<p>Parte dos efeitos dessa política de inclusão também são observáveis no Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre 2010 e 2022, o percentual de pessoas com 25 anos ou mais graduadas em nível superior mais do que duplicou entre pretos e pardos — o aumento entre brancos, no mesmo período, foi em torno de 55%.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/Formados_DESKTOP.png" data-tablet_size="1140x859" alt="Gráfico mostra que a proporção de pessoas com ensino superior completo cresceu entre 2010 e 2022 em todos os grupos de cor ou raça">
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<p>Nas universidades públicas do Estado de São Paulo, os impactos da política de cotas também são evidentes: na Universidade Estadual Paulista (Unesp), primeira instituição estadual paulista a adotar o sistema, no vestibular 2014, os ingressantes vindos de escola pública são maioria desde 2017. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por sua vez, foi pioneira entre as estaduais paulistas ao ampliar as cotas, reservando vagas para estudantes trans, travestis e não binários no vestibular 2026. Já na Universidade de São Paulo (USP), que aderiu às cotas no vestibular 2018, 28,3% dos ingressantes se declararam pretos, pardos e indígenas (PPI) em 2025.</p>
<div class="box-lateral"><strong>Os caminhos da Lei de Cotas</strong><br />
<strong>2012</strong>: A Lei nº 12.711 criou a reserva de vagas nas instituições federais de ensino. Pelo menos 50% das vagas passaram a ser destinadas a estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas. Dentro dessa reserva, são considerados critérios de renda familiar e de pertencimento étnico-racial.</p>
<p><strong>2016</strong>: A Lei nº 13.409 incluiu as pessoas com deficiência entre os beneficiários da reserva de vagas.</p>
<p><strong>2023</strong>: A Lei nº 14.723 trouxe mais mudanças com a inclusão de quilombolas, a redução do limite de renda familiar per capita de 1,5 para 1 salário mínimo e a alteração do mecanismo de ingresso. Os candidatos às cotas passam primeiro pela ampla concorrência e, caso não sejam aprovados, disputam as vagas reservadas.<br />
</div>
<p>Apesar de a legislação garantir direito de acesso à graduação, o desafio que se impõe para os beneficiários dessa política pública é o da permanência no espaço acadêmico. Dados do mesmo levantamento do Inep mostram que, em 2024, 49% dos alunos cotistas em instituições federais concluíram a graduação, proporção maior que a dos demais ingressantes, de 42%. Esses números não explicam por que a maioria dos estudantes, cotistas ou não, ainda não conclui seus cursos.</p>
<p>Identificar o risco de evasão com antecedência tornou-se o objetivo de uma <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/114533/politicas-publicas-e-acoes-afirmativas-na-universidade-publica-definindo-algoritmo-para-alerta-de-ev/" target="_blank" rel="noopener">pesquisa, na linha de Auxílio à Pesquisa em Políticas Públicas da FAPESP</a>, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp (FCT-Unesp), no campus de Presidente Prudente (SP).</p>
<p>Conduzida por Sueyla Ferreira da Silva dos Santos, pesquisadora responsável pelo projeto, a equipe usou machine learning para construir um algoritmo classificador de risco de evasão, a partir de dados de mais de 50 mil alunos da universidade ao longo de uma década.</p>
<p>O modelo analisa diferentes variáveis, como as notas dos alunos, a frequência, as reprovações, o curso e a distância da moradia até o campus, escolhidas a partir de uma matriz de correlação estatística. O resultado é um sistema capaz de sinalizar, já no primeiro semestre, quais estudantes correm mais risco de abandonar o curso.</p>
<p>Entre essas variáveis, o desempenho acadêmico é o que mais pesa no risco de evasão já no primeiro ano. É também nesse período que a origem do estudante faz diferença: alunos que entraram por ações afirmativas reprovam mais do que seus colegas.</p>
<p>Para a pesquisadora, uma possível explicação para esse fenômeno é o tempo de resposta das políticas de permanência, bolsas e auxílios, que deveriam amparar o aluno logo na chegada à graduação, mas cujos editais costumam abrir meses depois da matrícula. Uma vez que o suporte chega, “esse problema se anula”, diz Santos, e o rendimento acadêmico desses estudantes se iguala ao de quem entrou pela ampla concorrência.</p>
<p>Atualmente, o sistema funciona com uma interface em que diferentes gestores acompanham o risco de evasão conforme seu nível de acesso. Um coordenador vê o cenário do próprio curso; um chefe de departamento, o da própria unidade; e a reitoria, o de toda a universidade. Os dados chegam à equipe já protegidos pela universidade, sem nome, CPF ou número de matrícula. Cada aluno é representado por um código que não o identifica. &#8220;Dentro da ciência de dados, não trabalhamos com informações vinculadas aos indivíduos, mas sim com o conjunto de dados. O importante é saber o comportamento daquele grupo, e não o de determinadas pessoas&#8221;, diz Santos. Na prática, isso permite que um professor identifique se a própria disciplina concentra risco de evasão e avalie o que pode ser alterado nela, por exemplo.</p>
<div id="attachment_588681" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588681 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-evasao-2026-10-1140.webp" alt="Painel de análise de dados com chat mostra correlação de 60,2% entre o desempenho no primeiro semestre e a evasão de estudantes" width="1140" height="590" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-evasao-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-evasao-2026-10-1140-250x129.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-evasao-2026-10-1140-700x362.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-evasao-2026-10-1140-120x62.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Reprodução</span>Painel mostra como o desempenho do aluno no primeiro semestre se relaciona com a chance de permanência no curso. O modelo desenvolvido por pesquisadores da Unesp analisa diferentes variáveis, entre elas notas dos alunos, frequência e distância da moradia até o campus<span class="media-credits">Reprodução</span></p></div>
<p>O modelo estatístico elaborado pelos pesquisadores já é capaz de explicar as razões pelas quais um aluno poderia deixar o curso. Para os próximos meses, a expectativa é entender também o que os leva a continuar a vida acadêmica. “Já sabemos o que faz eles saírem”, aponta Santos. “Queremos saber o que faz eles permanecerem.”</p>
<p>Uma pista vem de seminários preliminares feitos com os próprios alunos: eles apontam a biblioteca como um dos espaços mais democráticos da universidade, em contraste com os grupos de pesquisa e laboratórios, cujo acesso depende do vínculo com algum coordenador. “Nem sempre os alunos se sentem pertencentes a esses espaços, porque isso vai exigir que ele tenha o melhor coeficiente, seja aprovado num processo seletivo, ou que o professor o eleja como alguém com potencial para contribuir com o grupo”, afirma a pesquisadora.</p>
<div id="attachment_588657" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588657 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-interface-2026-10-1140.webp" alt="Tela do sistema Fica na Facul, da Unesp, lista cursos com taxa de evasão e risco de abandono por aluno" width="1140" height="590" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-interface-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-interface-2026-10-1140-250x129.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-interface-2026-10-1140-700x362.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-interface-2026-10-1140-120x62.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Reprodução</span>Sistema de alerta de evasão da Unesp mostra ao gestor a lista de cursos oferecidos pela Faculdade de Ciências e Tecnologia, no campus de Presidente Prudente. Cada linha traz o nome do curso, a unidade, o campus e o tipo de ingresso, além do percentual de risco de evasão calculado pelo modelo estatístico, na coluna mais à direita<span class="media-credits">Reprodução</span></p></div>
<h2><strong>Desafios étnicos</strong></h2>
<p>A construção desse pertencimento, ainda que sob outra ótica, também orienta a pesquisa do antropólogo José Maurício Arruti, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/116189/indigenas-e-quilombolas-no-ensino-superior-analise-das-politicas-de-acesso-e-permanencia-das-institu/" target="_blank" rel="noopener">O estudo, apoiado pela FAPESP</a>, lança um novo olhar sobre o acesso e a permanência de estudantes indígenas e quilombolas no ensino superior.</p>
<p>A pesquisa combina três frentes: a quantitativa, que cruza dados oficiais, como o Censo Escolar e o Censo da Educação Superior, do Inep, e o Censo Demográfico, do IBGE; a documental, baseada em editais das universidades e entrevistas com gestores; e a etnográfica, que acompanha de perto a experiência desses estudantes dentro da universidade, em parceria com pesquisadores que atuam junto a grupos específicos, como os povos Pankararu e Xakriabá.</p>
<p>A escolha por uma pesquisa multimétodo é motivada pelas particularidades impostas pelos dados relativos a indígenas e quilombolas. “Estamos diante de uma situação de inúmeras lacunas de informação”, diz Arruti. Um exemplo disso é a escassez de conhecimento demográfico sobre a população quilombola, que só passou a ser contabilizada oficialmente pelo IBGE em 2022. O Censo da Educação Superior também só incluiu essa população em 2024 e deixou de registrar esse dado no ano seguinte.</p>
<p>Para o pesquisador, um dos critérios que mais pesam na permanência de cotistas indígenas e quilombolas na graduação é a relação entre as instituições de ensino e o território de origem do estudante. Universidades mais territorializadas, ou seja, mais próximas às aldeias ou aos quilombos de onde vêm seus alunos, permitem que eles mantenham vínculos com a cultura de origem via alimentação, língua, rede familiar etc. Já as instituições desterritorializadas recebem estudantes que mudam drasticamente de contexto de vida.</p>
<div class="box-lateral">São Gabriel da Cachoeira é o terceiro município com maior percentual de indígenas no total da sua população, com 93,17%, segundo o Censo de 2022. Fica atrás apenas de Uiramutã, em Roraima, com 96,60%, e da também amazonense Santa Isabel do Rio Negro, com 96,17%</div>
<p>É o caso da Unicamp, que chegou a receber até 80% de seus alunos indígenas vindos de São Gabriel da Cachoeira (AM), no extremo noroeste do país. Segundo Arruti, a distância e o custo das passagens tornam o retorno para casa inviável para muitos deles. “É comum não conseguirem voltar durante as férias, não ter dinheiro para voltar”, diz Arruti. “Não ter a farinha, aquele açaí ou aquele peixe com que estão acostumados também é doloroso”, ressalta.</p>
<p>Dificuldades como essas têm obrigado as universidades a se adaptar. Na Unicamp, por exemplo, foram criados espaços como um jardim com redário e um ambiente sem paredes para a realização de reuniões. Ao mesmo tempo, multiplicam-se coletivos indígenas e quilombolas organizados por fora do movimento estudantil tradicional, abrindo novas frentes de diálogo e de demanda com as pró-reitorias.</p>
<p>Outra das medidas de adaptação da Unicamp é o Programa Intercultural Formativo para Ingressantes pelo Vestibular Indígena (ProFIIVI), que oferece suporte acadêmico e interdisciplinar para aprovados antes de iniciarem o currículo pleno de suas graduações. De acordo com Arruti, o programa busca atuar logo no primeiro ano, por meio de um estágio de adaptação que favorece a fixação dos estudantes indígenas nos cursos.</p>
<p>Há, porém, um limite que essas adaptações não alcançam: o critério que define o sucesso acadêmico. Nem toda interrupção do curso é evasão, argumenta o antropólogo. Ele cita o caso de um estudante indígena de engenharia agrícola na Unicamp, que, apesar do bom desempenho, decidiu voltar para a aldeia no meio da graduação. Questionado pela equipe de apoio estudantil sobre o motivo, o aluno respondeu que já tinha aprendido o que precisava no espaço acadêmico.</p>
<p>Para o pesquisador, casos como esse mostram que a própria definição de uma trajetória acadêmica bem-sucedida pode variar e que um indicador pensado para a maioria dos estudantes pode classificar como fracasso aquilo que, para o aluno, foi um objetivo cumprido. “É difícil classificar situações assim como evasão, porque, para o próprio estudante, ele completou o que precisava”, diz.</p>
<h2><strong>Cruzando a linha</strong></h2>
<p>Conquistar a diplomação também está longe de resolver as desigualdades. <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/115539/desigualdades-de-genero-renda-e-raca-no-ensino-superior-trajetorias-redes-de-contato-e-insercao-no-m/" target="_blank" rel="noopener">É o que mostra uma pesquisa</a>, conduzida no Observatório de Desigualdades no Ensino Superior e Mercado de Trabalho do Insper, coordenado pela professora Ursula Mattioli Mello, também com apoio da FAPESP.</p>
<p>A equipe cruzou dados do Inep com a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), que reúne informações de todos os trabalhadores com carteira assinada no país, para reconstruir a trajetória de mais de 20 milhões de estudantes que ingressaram no ensino superior do Brasil entre 2010 e 2016, do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ao mercado de trabalho. O objetivo era entender se ter estudado na mesma turma aumenta a chance de colegas trabalharem juntos depois da formatura e, nesse caso, quais fatores influenciam mais.</p>
<p>A equipe analisou características como gênero, origem socioeconômica e raça, e descobriu que esta última é a que mais conta nessa equação. “As pessoas que são brancas acabam indicando mais colegas brancos. As pessoas que são negras acabam indicando mais colegas negros”, destaca Eloiza Almeida, pesquisadora do grupo.</p>
<p>O padrão, que os pesquisadores chamam de homofilia de rede, aparece mesmo em turmas universitárias que foram heterogêneas e tiveram a presença de pessoas de diferentes raças, rendas e origens. “Por mais que você tenha estudado com pessoas de outros grupos, você acaba tendo um relacionamento mais forte com tipos similares ao seu, e isso perdura após o ensino superior, no mercado de trabalho”, diz a pesquisadora.</p>
<p>Para confirmar que se trata mesmo de uma tendência, e não de coincidências, a equipe observa um momento específico da vida dos profissionais: a promoção para cargos com poder de contratação, como o de gerente. Quando um ex-aluno chega a essa posição, os dados mostram um aumento na contratação de pessoas da mesma turma e do mesmo curso naquela empresa. E o recorte racial se repete: gerentes não brancos alavancam mais a contratação de outros profissionais não brancos, ainda que tenham estudado com colegas dos dois grupos.</p>
<p>A força desse efeito varia por área. Em finanças, administração, economia, engenharia e tecnologia da informação, a indicação de colegas de turma é mais comum. “É normal uma pessoa chamar outra”, diz Almeida. Em educação e medicina, o efeito é menor. Não por falta de indicação, mas porque esses mercados têm menos empregadores e maior concentração regional, o que faz os profissionais se encontrarem de qualquer forma. Já no direito, área em que a literatura internacional aponta forte influência de redes na ascensão a sócio de escritórios, o efeito no Brasil é bem mais fraco do que em finanças ou em engenharia.</p>
<p>Na próxima fase da pesquisa, a equipe quer investigar se esse efeito de rede é igualmente vantajoso para todos os indicados. A hipótese é que profissionais pretos, pardos, indígenas e amarelos sejam direcionados a empresas ou posições com salários mais baixos do que os de colegas brancos formados na mesma turma. “A gente acha valioso estudar junto e que esse relacionamento se estenda para o mercado de trabalho. Mas, se nem todos estiverem em uma boa posição, do que adianta?”, resume a pesquisadora.</p>
<div class="box"><strong>“Comecei a me perceber como indígena aqui”</strong><br />
<em>O percurso de um cotista que estendeu o vínculo com a universidade para além da graduação</em></p>
<p>*Por Victor Martins</p>
<p><div id="attachment_588677" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588677 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-denilson-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-denilson-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-denilson-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-denilson-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-cotas-unesp-denilson-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Ricardo Lima / Revista Pesquisa FAPESP</span>Denilson Camico, 25, estudante de Pedagogia na Unicamp<span class="media-credits">Ricardo Lima / Revista Pesquisa FAPESP</span></p></div></p>
<p>Mais de 3 mil quilômetros separam São Gabriel da Cachoeira (AM), às margens do rio Negro, da Unicamp, no interior paulista. Foi essa a distância que Denilson Camico, de 25 anos, percorreu para desafiar os índices de evasão no ensino superior. No fim de 2026, o jovem da etnia Baré vai se graduar em pedagogia com um currículo que inclui intercâmbio internacional.</p>
<p>Ao final de 2021, Camico assistiu a uma palestra de veteranos da Unicamp em sua escola. “Me interessei pelo vestibular indígena para buscar oportunidades”, relata. Sem dinheiro para o cursinho preparatório, montou um cronograma autodidata com provas de edições anteriores e foi aprovado para 2022.</p>
<p>A viagem para Campinas colocou o estudante diante de incertezas. Selecionado para o Programa de Moradia Estudantil da Unicamp, dividiu casa com quatro desconhecidos. O deslocamento alterou até a maneira como ele se via no mundo. “Morando numa cidade de maioria indígena, você não se rotula assim. Comecei a me perceber como indígena aqui em São Paulo. Antes eu não tinha essa noção”, explica. Além da dedicação aos estudos, Camico passou a praticar esportes para conhecer pessoas e se inteirar dos costumes locais.</p>
<p>A adaptação se consolidou via extensão acadêmica. A produção de um podcast que promove o diálogo entre saberes tradicionais e conhecimento científico — o <a href="https://www.ecoamaloca.labjor.unicamp.br/" target="_blank" rel="noopener">Ecoa Maloca</a> — abriu as portas para um intercâmbio em Portugal. A experiência abriu caminho para a iniciação científica com <a href="https://bv.fapesp.br/pt/bolsas/235811/cobertura-do-oceano-na-grande-midia-e-na-midia-especializada-2021-2025-diagnostico-e-estrategias-no-/" target="_blank" rel="noopener">bolsa da FAPESP</a>.</p>
<p>Prestes a receber o diploma, Camico já se candidatou ao mestrado no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp. Ao olhar para o próprio percurso e orientar calouros que desembarcam do Amazonas, resume o papel da política afirmativa em sua vida: “As cotas foram importantes porque eu estava perdido sobre como entrar na graduação. Não que o caminho via cotas seja fácil, mas eu não tinha as informações. Quando tive acesso, aproveitei.”</div>
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		<title>Zero glúten: é possível na prática?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Fernanda Bassette]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Oct 2026 11:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Nutrição]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Pública]]></category>
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					<description><![CDATA[Doença celíaca atinge cerca de 1% da população e exige cuidados na escolha e preparo dos alimentos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_588632" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588632 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-gluten-2026-10-800.webp" alt="" width="800" height="900" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-gluten-2026-10-800.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-gluten-2026-10-800-250x281.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-gluten-2026-10-800-700x788.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-gluten-2026-10-800-120x135.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Divulgação</span>Pão sem glúten enriquecido com fibras desenvolvido no Laboratório de Tecnologia de Alimentos e Nutrição (LabTAN/ Unifesp). Pesquisadores testam o potencial prebiótico (modulação da microbiota intestinal) em estudos in vitro e, em breve, com pessoas celíacas<span class="media-credits">Divulgação</span></p></div>
<p>Aos nove anos, Vinícius começou a apresentar um cansaço incomum para uma criança praticante de esportes. Nos treinos de futebol, já não conseguia correr por mais de dez ou 15 minutos. Vieram também episódios de diarreia, alguns dias de febre e alterações na pele. Como os sintomas apareciam e desapareciam, a família pensava nas explicações mais comuns: uma virose, uma infecção, o calor excessivo durante o treino. Até que um dia Vinícius voltou para casa tão debilitado que o pai, o infectologista Alexandre Rodrigues Marra, precisou ajudá-lo a tirar a roupa. “Estava tão fraco que não conseguia tomar banho sozinho de tanta fadiga. Fiquei preocupado”, recorda.</p>
<p>Uma investigação revelou que o menino tinha doença celíaca, uma condição autoimune desencadeada, em pessoas geneticamente predispostas, pelo consumo de glúten – um conjunto de proteínas encontrado principalmente no trigo, no centeio e na cevada. Dez anos depois do diagnóstico e de mudanças que envolveram toda a família, Marra relatou a experiência em uma carta publicada na revista científica <em>Einstein</em>. Sob o título <a href="https://journal.einstein.br/pt-br/article/gluten-free-is-not-enough/" target="_blank" rel="noopener"><em>Gluten-free is not enough</em></a> (“Sem glúten não é suficiente”), o texto chama atenção para dois desafios ainda presentes na vida de quem tem a doença: chegar ao diagnóstico e, depois dele, manter uma alimentação efetivamente segura. “Os verdadeiros desafios não estão na adequação nutricional, mas no diagnóstico correto, na segurança e na inclusão social”, diz.</p>
<p>Estima-se que a doença celíaca atinja cerca de 1% da população mundial, mas uma grande parcela dos casos permanece sem diagnóstico. Um dos motivos para explicar essa subnotificação é a variedade de manifestações. Embora a doença tenha sido associada durante muito tempo a crianças magras e com diarreia crônica, hoje se sabe que a condição pode aparecer em qualquer idade, inclusive em pessoas com sobrepeso ou obesidade, e provocar sintomas que vão além do intestino, atrasando o reconhecimento dos sinais.</p>
<h2><strong>Ataque ao próprio intestino</strong></h2>
<p>A gastroenterologista Lorete Kotze, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), presidente de honra do Instituto Brasileiro para Estudo da Doença Celíaca (IBREDOC, ligado à Federação Brasileira de Gastroenterologia), e estudiosa do tema há mais de 50 anos, explica que a reação começa quando o glúten chega ao intestino delgado de uma pessoa predisposta. A proteína desencadeia uma resposta do sistema imunológico que provoca uma agressão ao próprio organismo.</p>
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<p>Uma das consequências desse ataque é a atrofia das vilosidades, projeções que revestem o intestino delgado e são responsáveis por ampliar a área disponível para a absorção dos nutrientes. À medida que essas estruturas são danificadas, o organismo pode ter dificuldade para absorver ferro, cálcio, vitaminas e outros nutrientes essenciais. “É como se uma superfície cheia de saliências ficasse progressivamente achatada”, diz Kotze.</p>
<p>As principais manifestações da doença celíaca são diarreia, distensão e dor abdominal, mas não são as únicas. Sintomas como constipação, anemia, alterações de humor, cefaleia, fraqueza e fadiga também podem aparecer. Dependendo da idade do paciente, podem ocorrer alterações ósseas, neurológicas, dermatológicas e até reprodutivas. A doença pode ser descoberta, por exemplo, durante a investigação de uma osteoporose precoce ou de uma anemia sem causa aparente.</p>
<p>É por isso que chegar ao diagnóstico pode levar anos. “A jornada é longa. Às vezes, o paciente passa por vários especialistas e ninguém percebe os sinais menos comuns”, afirma Kotze. Para ela, é preciso que os profissionais de saúde abandonem a imagem tradicional do celíaco necessariamente muito magro e com diarreia. “O perfil dos pacientes mudou nas últimas décadas. Temos que adaptar o diagnóstico para o período em que vivemos”, ressalta.</p>
<h2><strong>Investigar é preciso</strong></h2>
<p>Chegar ao diagnóstico correto não é simples. Diante da suspeita clínica, o mais comum é investigar a partir de exames de sangue para detectar anticorpos relacionados à doença e, às vezes, de uma endoscopia digestiva alta com biópsia do intestino delgado. Isso é necessário para uma análise microscópica dos fragmentos a fim de identificar alterações características da doença, entre elas a atrofia das vilosidades do intestino.</p>
<p>Foi a biópsia que confirmou o diagnóstico de Vinícius. Embora a mucosa parecesse normal na endoscopia, a análise microscópica revelou comprometimento importante do intestino do garoto. O caso ilustra uma das dificuldades apontadas por Kotze: alterações intestinais podem não ser facilmente percebidas visualmente e não necessariamente estão distribuídas de maneira uniforme ao longo do trato. Por isso, a coleta adequada de fragmentos e a análise do patologista são fundamentais.</p>
<p>Um dos problemas é que, diante de sintomas digestivos, algumas pessoas decidem aderir por conta própria a uma dieta sem glúten sem procurar um médico. A especialista alerta que esse comportamento pode dificultar a investigação e o diagnóstico, já que a retirada da proteína da alimentação reduz a resposta imunológica e pode alterar os resultados da sorologia e da avaliação da mucosa. “Orientamos que o paciente faça os exames comendo glúten.” Uma vez estabelecido o diagnóstico, a recomendação se inverte<strong>: </strong>o glúten precisa ser excluído da dieta permanentemente.</p>
<h2><strong>Abstinência completa</strong></h2>
<p>O tratamento da doença celíaca continua sendo a exclusão total do glúten da alimentação, além da correção de deficiências nutricionais e do acompanhamento de possíveis condições relacionadas. Ainda não existe medicamento aprovado que substitua a dieta sem glúten. Mas há estratégias terapêuticas em estudo, entre elas imunobiológicos que visam interferir em etapas da resposta imunológica desencadeada pelo glúten. “Acredito que, em poucos anos, teremos tratamentos capazes de mudar a vida dos celíacos. Tenho acompanhado a evolução das doenças inflamatórias e hoje temos medicamentos biológicos potentes”, afirma Kotze, que vê o desenvolvimento desse tipo de fármacos com uma perspectiva promissora.</p>
<p>Por enquanto, nenhum deles substitui a dieta rigorosa. Por isso, o nutricionista especializado é peça-chave para orientar o paciente a adotar uma alimentação segura e equilibrada e a evitar deficiências nutricionais, além de ganhos ou perdas inadequados de peso. O problema é que retirar pão, macarrão, pizza e bolo não resolve a questão. Isso porque os alimentos naturalmente sem glúten podem entrar em contato com a proteína durante o armazenamento, a produção ou o preparo.</p>
<p>Uma tábua usada para cortar um pão francês convencional, uma torradeira com migalhas, uma esponja de lavar a louça, uma faca ou até o óleo usado para fritar um alimento empanado podem servir de veículo para o contato cruzado e expor o paciente celíaco ao glúten. Por isso, escolher um produto identificado como “livre de glúten” é apenas parte do cuidado e é preciso observar como ele será armazenado, manipulado e preparado.</p>
<p>“Para o celíaco, não basta só ler o rótulo para estar seguro”, afirma a nutricionista e tecnóloga de alimentos Raísa Moreira Dardaque Mucinhato, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que desenvolve <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/119580/" target="_blank" rel="noopener">pesquisas voltadas à melhoria da segurança da alimentação sem glúten,</a><a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/119580/"> por meio do Projeto Geração da FAPESP</a>.</p>
<p>Na família de Marra, esses cuidados extras viraram rotina com o diagnóstico de Vinícius. Nas viagens, eles levam uma torradeira de casa, usada exclusivamente para produtos sem glúten. A precaução evita que o pão de Vinícius entre em contato com migalhas deixadas por hóspedes em uma torradeira compartilhada, num exemplo de como o risco de contato cruzado acompanha o paciente fora de casa.</p>
<p>Mas Mucinhato ressalta que isso não torna impossível preparar uma refeição segura em uma cozinha que manipule alimentos com glúten. “É possível fazê-lo desde que sejam adotadas boas práticas e que funcionários e gestores dos serviços de alimentação recebam treinamento adequado”, ressalta.</p>
<h2><strong>Mercado livre?</strong></h2>
<p>A oferta de alimentos sem glúten mudou nas últimas duas décadas. No início dos anos 2000, encontrar versões de pães, massas e outros produtos destinados a celíacos era mais difícil. Segundo a nutricionista Vanessa Dias Capriles, docente de nutrição na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e pesquisadora na área de alimentos sem glúten há 20 anos, o mercado começou a se expandir na década de 2010, quando a dieta sem glúten se popularizou entre pessoas sem doença celíaca ou outra condição que justificasse a restrição.</p>
<p>“A fama da dieta sem glúten foi impulsionada por influenciadores e celebridades que passaram a associar a retirada do ingrediente ao emagrecimento e a uma alimentação mais saudável. Com isso, a procura aumentou e ampliou a variedade de produtos”, conta a Capriles.</p>
<p>O crescimento da oferta, no entanto, não resolveu todos os problemas. “Ainda prevalecem dificuldades como alto custo, baixa variedade, pouca conveniência, limitações de textura e sabor e, principalmente, o perfil nutricional”, afirma Capriles. Ela destaca que vários produtos sem glúten são feitos à base de amidos e farinhas refinadas e podem apresentar composição nutricional pobre.</p>
<p>Isso acontece especialmente pelo uso de aditivos. Como o glúten tem função importante na estrutura e na textura dos alimentos, sua retirada cria um desafio tecnológico para a indústria. Para tentar reproduzir características como maciez, elasticidade e estabilidade, as formulações recorrem a combinações de ingredientes e aditivos. “Há consumidores buscando alimentos sem glúten por acreditar que são mais saudáveis ou menos processados que as versões convencionais, mas esses produtos frequentemente apresentam listas extensas de ingredientes e de aditivos”, diz Capriles.</p>
<h2><strong>Em busca de um pão melhor</strong></h2>
<p>Parte desses desafios motivou o início da linha de pesquisa de Capriles na Unifesp em 2013, por meio do programa Jovem Pesquisador da FAPESP. Há mais de uma década o grupo do Laboratório de Tecnologia de Alimentos e Nutrição (LabTAN/ Unifesp) investiga como produzir alimentos sem glúten que aliem segurança, melhor composição nutricional e características como sabor, textura e maciez.</p>
<p>O pão é um dos principais alvos de investigação, já que é um alimento símbolo do café da manhã do brasileiro. Com <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/109414/" target="_blank" rel="noopener">financiamento da FAPESP</a>, o grupo montou uma planta-piloto de panificação exclusiva para produtos sem glúten. Ali são estudadas combinações de ingredientes como milheto, sorgo, amaranto, trigo-sarraceno, quinoa, grão-de-bico, arroz e até farinha de pinhão, tipicamente brasileira, e rica em nutrientes. Algumas formulações desenvolvidas pelos cientistas originaram pedidos de patente.</p>
<div id="attachment_588628" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588628 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-gluten-paes-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-gluten-paes-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-gluten-paes-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-gluten-paes-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-gluten-paes-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Divulgação</span>Três tipos de pão sem glúten desenvolvidos no Laboratório de Tecnologia de Alimentos e Nutrição (LabTAN/ Unifesp)<span class="media-credits">Divulgação</span></p></div>
<p>“Nosso objetivo não é apenas chegar a um pão parecido com o tradicional. Queremos aumentar o teor de fibras e melhorar a qualidade nutricional das formulações”, diz Capriles, que também desenvolve pesquisas com consumidores para identificar demandas. . Em uma enquete do grupo com quase 200 brasileiros com doença celíaca, apareceram reclamações sobre preço, disponibilidade, sabor, textura, vida de prateleira e qualidade nutricional dos alimentos. “O desafio científico é desenvolver produtos livres da proteína que desencadeia a doença, mas que sejam saborosos, saudáveis e acessíveis”, afirma.</p>
<p>O grupo criou o Centro de Estudos de Nutrição em Doença Celíaca (CENUC), com o objetivo de transformar os resultados obtidos em subsídios técnicos para o aprimoramento de legislações, materiais educativos e políticas públicas, além de ações de divulgação científica voltadas para profissionais do setor da alimentação e consumidores.</p>
<h2><strong>Comer também é conviver</strong></h2>
<p>Dentro desse cenário, ainda há o impacto da doença celíaca sobre a vida social. Comer faz parte de aniversários, viagens, encontros familiares, escola e trabalho. Para quem precisa evitar o glúten permanentemente, essas situações exigem planejamento. Em um restaurante, não basta saber se determinado prato leva farinha, é preciso ter segurança sobre a forma de preparo. Em uma festa, pode ser necessário levar a própria comida. Durante uma viagem, localizar previamente restaurantes e mercados faz parte do roteiro.</p>
<p>Mucinhato chama de “autovigilância” essa carga sobre o paciente: ele precisa ler corretamente os rótulos, perguntar sobre ingredientes, investigar como a refeição foi preparada e avaliar o risco de exposição constantemente. Para a pesquisadora, essa responsabilidade não deveria ficar apenas com o indivíduo.</p>
<p>Kotze acrescenta que a preocupação com a segurança não pode levar o celíaco ao isolamento social. “Não o coloque numa clausura. É absolutamente possível ter uma vida normal.” Para ela, é importante que as pessoas ao redor, seja na escola, no trabalho ou em outros espaços de convivência, conheçam a condição e evitem contato com glúten. Hoje, aos 19 anos, Vinícius é saudável. A dieta funciona, mas a experiência da família ensinou ao pai que a expressão “sem glúten” é mais complexa do que livrar o prato de determinados alimentos.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Jogo do remedinho: testes clínicos ou bets?</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/jogo-do-remedinho-testes-clinicos-ou-bets/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=jogo-do-remedinho-testes-clinicos-ou-bets</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Theo Ruprecht]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 Oct 2026 12:03:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boas práticas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Pública]]></category>
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					<description><![CDATA[Mercado de predição abre apostas em pesquisas clínicas e levanta debate sobre ética e integridade científica]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quer apostar que a cura do diabetes tipo 1 estará disponível antes de 2033 (ou que isso não acontecerá, <a href="https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/diabetes" target="_blank" rel="noopener">para a tristeza das mais de 9 milhões de pessoas com a doença mundo afora</a>)? Se desejar — e, a bem da verdade, se não estiver no Brasil —, você pode fazer essa aposta. Apesar do nome pomposo, o “mercado de predição” basicamente permite que qualquer um invista seu dinheiro na possibilidade de um evento futuro acontecer, desde a vitória de um político nas eleições até a quantidade de <em>plays</em> que um músico acumulará em um ano. E, recentemente, plataformas digitais desse segmento, como Polymarket e Kalshi, <a href="https://www.reuters.com/legal/litigation/kalshi-allow-bets-clinical-trials-fda-decisions-2026-07-16/" target="_blank" rel="noopener">anunciaram a possibilidade de apostar em pesquisas clínicas e aprovações de medicamentos</a>.</p>
<p>Além da tal cura do diabetes tipo 1, em outubro a aba de &#8220;Medicina&#8221; da Kalshi, permitia apostar quando a retatrutida, um medicamento contra obesidade, seria aprovada pela FDA, a agência que regula fármacos e alimentos nos EUA. Ou se um tratamento para o angioedema hereditário, uma doença rara, chegaria antes ou depois de julho de 2027. Ou em qual momento alguma empresa submeteria os estudos clínicos de uma terapia inovadora contra a doença falciforme.</p>
<p>Antes de entrar nas repercussões científicas, confesso que sinto um certo desconforto ao acessar um site com cara de monitor de bolsa de valores e ver que muitos contratos negociados ali envolvem, em última instância, a vida de pessoas fragilizadas por diversas doenças. Quem aposta no fracasso de um ensaio clínico acaba torcendo pela falta de uma nova opção terapêutica — em resumo, pela desgraça alheia — em nome de uma conta bancária polpuda.</p>
<p>Foi por aí que comecei a conversa com Andrei Sposito, coordenador do Centro de Pesquisa Clínica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O mercado financeiro convencional já possui outros mecanismos para lucrar com o fracasso de pesquisas clínicas. Isso não é novo.” O que mais desalenta Sposito é, na verdade, a onda de apostar em tudo, dos esportes à medicina, um fenômeno capaz de levar famílias a sofrer prejuízos consideráveis.</p>
<p><a href="https://kalshi.com/biotech?utm_campaign=kalshi-launches-biotech-prediction-markets-pilot-program&amp;utm_medium=referral&amp;utm_source=news.kalshi.com" target="_blank" rel="noopener">Um relatório da Kalshi</a> defende que o mercado de predição ajuda a gerar informações objetivas sobre quão promissoras seriam certas pesquisas, o que, entre outras vantagens, ajuda pacientes em busca de soluções para seus problemas. A base do argumento? Nessas plataformas, a <em>odd</em> — perdão, o preço de contrato, ou “ação” — é definido pelas transações entre os usuários, o que refletiria a expectativa coletiva sobre um tratamento em avaliação. Se muitas pessoas (inclusive especialistas) estão dispostas a colocar dinheiro no sucesso de uma terapia, o preço do contrato tende a subir, o que funcionaria como um indicador de potencial.</p>
<p>Essa visão, no entanto, encontra resistências. <a href="https://jamanetwork.com/journals/jama-health-forum/fullarticle/2854282">Em um artigo de opinião na revista científica </a><a href="https://jamanetwork.com/journals/jama-health-forum/fullarticle/2854282" target="_blank" rel="noopener"><em>JAMA Health Forum</em></a>, a economista Genevieve Kanter, da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, defendeu que esse modelo de negócios pode comprometer o recrutamento para pesquisas clínicas consideradas menos promissoras pelo mercado. Quem gostaria de entrar em um experimento no qual quase ninguém está apostando?</p>
<p>Só que, no caso das pesquisas clínicas, o mercado de predição teria menor potencial de… predição. Um dos segredos para antecipar o futuro é se munir da maior quantidade possível de informações disponíveis no presente, o que é particularmente complicado em um setor cercado por contratos de confidencialidade e metodologias duplo-cegas.</p>
<p>Poucos indivíduos, como os pesquisadores e os patrocinadores, têm acesso a mais dados e, mesmo assim, com restrições. Então o sujeito que desiste de entrar em um ensaio clínico porque uma plataforma do mercado de predição não exibe dados prévios otimistas está tomando uma decisão baseada em enorme incerteza —e, potencialmente, fechando as portas para uma melhoria na própria saúde.</p>
<p>O artigo da <em>JAMA Health Forum </em>também manifestou preocupação com possíveis manipulações científicas, principalmente na ausência de regras claras e específicas. “Imagine [&#8230;] um pesquisador de ensaio clínico modificando critérios de exclusão para influenciar os resultados do estudo aos quais uma aposta está vinculada”, escreveu Kanter. Ou pior, um profissional de saúde com dívida na praça que interfere nas doses administradas aos participantes para levar a aposta e sair do vermelho.</p>
<p>Para Sposito, no entanto, as regulações focadas em pesquisas clínicas e na aprovação de medicamentos dificultam esse tipo de fraude, uma vez que existem diferentes pontos de controle: “O pesquisador, a empresa, a seguradora, as agências reguladoras… todo mundo teria de ser enganado ou participar do esquema”. Em resumo, o risco maior estaria em apostas voltadas para estudos iniciais, em que há menor vigilância.</p>
<p>O mercado de predição não gosta de ser comparado às casas de apostas. E realmente existem diferenças. Por exemplo: em vez de “apostar contra a bet”, você na verdade compra e vende contratos com outros usuários, como em uma bolsa de valores — a plataforma ganha pela mediação.</p>
<p>Mas, para o usuário comum, essa distinção fica, no mínimo, diluída nos sites. Essa interpretação não é (só) minha: em abril deste ano, o governo federal proibiu plataformas como Kalshi e Polymarket de operarem no Brasil porque não estariam enquadradas nos setores previamente autorizados do mercado de apostas (resultados esportivos e cassinos on-line, como o jogo do Tigrinho).</p>
<p>Ou seja, o governo enxergou essas plataformas como bets repaginadas. “Começamos a ver o crescimento de um setor que se apresentava como outra coisa, mas o que observamos efetivamente ‌é que tem cara, focinho e nariz de aposta”, disse na ocasião Régis Dudena, secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, à <a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2026/04/24/brasil-proibe-mercados-de-predicao-como-kalshi-e-polymarket.htm" target="_blank" rel="noopener"><em>Reuters</em></a>. Com a medida provisória que baniu por completo as bets, ficou ainda mais complicado para o mercado de predição. Você apostaria que esse veto vai ficar de pé no ano que vem?</p>
<h2><strong>Castelo de cartas</strong></h2>
<p>Em 2022, a especialista em integridade científica Leslie McIntosh revelou, junto com outros colegas, a existência de uma rede falsa de cientistas, a Pharmakon Neuroscience Network (PNN), que vendia espaços de autoria em milhares de estudos adulterados. Quatro anos depois, ela e Federica Silvi recuperaram uma base com quase 2 mil artigos publicados que listavam ao menos um coautor da PNN — um indicativo claro de fraude — para verificar quantos foram incluídos nas referências de patentes, manuais e afins.</p>
<p>De acordo com os <a href="https://arxiv.org/abs/2608.30613" target="_blank" rel="noopener">dados que as duas publicaram em formato pré-print</a>, 57 foram citados em guias de políticas públicas, 12 em diretrizes clínicas e incríveis 480 em patentes.</p>
<p>Deixando o alarmismo de lado, isso não significa que cada um desses documentos está completamente manchado, ou mesmo que recomenda práticas sem evidência científica. Muitos outros artigos — esses, aparentemente confiáveis — também eram listados nessas páginas.</p>
<p>No mais, se você deseja lucrar com fábricas de artigos falsos (as <em>paper mills</em>), uma boa estratégia é não chamar a atenção e produzir textos que, embora falsos, sigam a correnteza e gerem conclusões similares às da maioria dos textos publicados. Ainda assim, a penetração desses artigos em documentos oficiais reforça como debates sobre integridade científica desaguam em impactos reais. E você pensando em pular a leitura desta coluna…</p>
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		<title>Mário Murakami: Roer o osso para quebrar a celulose</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/roer-o-osso-quebrar-a-celulose/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=roer-o-osso-quebrar-a-celulose</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Oct 2026 11:57:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Bioenergia]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Engenharia]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
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					<description><![CDATA[Diretor no CNPEM e vencedor do Prêmio FCW 2026 vê na biodiversidade a base de novas biorrefinarias]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Mário Tyago Murakami usa uma expressão curiosa para falar de si e de quem trabalha com ele: roedor de osso. É quem não larga a tarefa no meio do caminho, vai até o limite e, quando falta conhecimento, corre atrás.</p>
<p>Bolsista recém-chegado da escola pública a um colégio particular de Bauru (SP), largou de vez a televisão para tirar o atraso em relação aos colegas; fez o doutorado (direto) em apenas três anos num laboratório onde o orientador fomentava a competição entre os alunos como forma de estímulo; aceitou uma vaga de suplente na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), “no fundo da sala”, só para aprender como funciona a regulação da área — acabou presidente da comissão. Isso sem falar na sequência de <em>papers</em> em periódicos de prestígio, entre eles <em>Nature, Science, Journal of Biological Chemistry</em> e <em>Nature Communications</em>.</p>
<div class="box-lateral"><strong>Mário Tyago Murakami</strong>, 45, é especialista em bioquímica e biologia estrutural de enzimas e biotecnologia industrial. É diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR) do CNPEM.<br />
<strong>Formação:</strong> Graduação em engenharia de alimentos e doutorado em biofísica molecular pela Unesp, com estágio no síncrotron Desy, em Hamburgo (Alemanha); livre-docência pela Unicamp (2013)</div>
<p>Aos 45 anos, Murakami dirige o Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), onde chegou em 2008, trocando a perspectiva de um posto estável na Universidade Estadual Paulista (Unesp) por um contrato CLT. Ali, seu grupo procura na biodiversidade brasileira, do intestino da capivara aos confins dos genomas de microrganismos, enzimas capazes de desmontar a celulose e transformar resíduos agrícolas em combustível. Alguns desses achados embasam uma nova tecnologia que se aproxima de aplicação industrial.</p>
<p>Murakami é ainda o vencedor do Prêmio FCW de Ciência de 2026, da Fundação Conrado Wessel, no valor de R$ 500 mil, cujo tema neste ano foi a transição energética. Em toda a trajetória do prêmio, Murakami é o segundo mais jovem a conquistá-lo em uma modalidade científica — o mais comum é ver entre os vencedores cientistas com mais tempo de carreira. “O prêmio tem tido, de fato, esta tendência: reconhecer a trajetória antes que a promessa, a não ser que a promessa se mostre já estar sendo cumprida”, diz Carlos Vogt, diretor-presidente da fundação.</p>
<p>Além do laboratório e da CTNBio, Murakami coordena o Programa FAPESP de Pesquisa em Transição Energética e diz que uma de suas grandes realizações será criar um ambiente científico no qual surja massa crítica em áreas estratégicas para o tema.</p>
<p>Na entrevista, ele conta sua trajetória, explica por que mudou o foco de sua carreira de cristalografia para bioeconomia e desenha o futuro dessa área estratégica para o país.</p>
<p><strong>Como foi sua trajetória escolar?<br />
</strong>Estudei sempre em escola pública até o segundo colegial. Fui um dos destaques da Olimpíada Regional de Matemática, feita pela Unesp de Bauru, e ganhei uma bolsa para estudar na escola particular, a melhor da cidade, altamente competitiva. Cheguei com uma defasagem muito grande. Vinha de uma escola em que alunos jogavam truco durante a aula — uma várzea. Pensei: “Se eu não estudar, não vou ser ninguém”. Eu falo que não sou da alta plumagem, não tenho sangue azul na veia. A família é muito humilde; meu pai era mecânico, ninguém na família tinha feito graduação. Sem a bolsa, eu não ia conseguir estudar. Naquele ano eu parei tudo. Não ligava a televisão, não saía. Era um relógio: escola das 7h15 às 12h30, almoço, reforço à tarde até as 18h, em casa lia um pouco do <em>Estadão</em>, que meu padrasto assinava, e ia dormir. Foi uma autoimposição. Eu tinha certeza de que o jeito de ter uma vida digna era com estudo.</p>
<p><strong>E como o senhor se encantou pela área científica?<br />
</strong>Eu sempre tive muita aptidão para a área de exatas. Só que eu tinha interesse pela bioquímica, então ficava dividido. Montei meu primeiro computador, comprei as peças. Fui meio Professor Pardal.</p>
<p>Quando fui prestar o vestibular, pensei: que curso consegue combinar biologia com exatas? Não existia biotecnologia de forma ampla como hoje. O que mais se aproximava era engenharia química, que tinha física, química e matemática, mas não biologia. A engenharia de alimentos tinha a parte microbiológica. Passei nos dois e optei pela engenharia de alimentos.</p>
<p>Já no primeiro ano fui procurar estágio no departamento de física. Fui trabalhar com biofísica molecular, com cristalografia de macromoléculas, que usa conceitos da física para enxergar a estrutura das proteínas átomo a átomo.</p>
<p><strong>Quem foram as pessoas decisivas na sua formação?<br />
</strong>Tive um professor de física 2 muito interessante. Tirei notas dez frequentes na disciplina dele e fui pedir estágio. Ele foi muito sincero: “Mário, acho que você tem muito potencial. Se ficar comigo, talvez eu não consiga oferecer todas as oportunidades necessárias para o seu pleno desenvolvimento. Quero apresentá-lo a um docente que está na fronteira do conhecimento em uma área emergente e que poderá ampliar suas possibilidades de crescimento”. Achei uma atitude muito altruísta. Quem não quer um bom aluno que bate na sua porta? Eu tinha 18 anos e precisava da bolsa de iniciação científica para viver. Ele me apresentou o Raghuvir Arni, que viria a ser meu orientador de doutorado.</p>
<p>O Arni me deu quatro pilhas de livros, tudo em inglês, que eu ainda não falava direito, e disse: “Quando você voltar das férias, vou te entrevistar. Se conseguir responder, te pego para estágio”. Era bem durão, rigoroso. Mas deu certo.</p>
<p>Eu tinha um colchonete no laboratório e dormia lá muitas noites acompanhando experimentos. O Arni era muito competitivo. Quem trabalhasse mais sobrevivia. Eu era roedor de osso. Muitos desistiam, eu continuava. Fiz o doutorado direto em três anos, com seis meses na Alemanha, no síncrotron do Desy [Síncrotron Alemão de Elétrons], em Hamburgo.</p>
<div id="attachment_588574" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588574 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-mesa-2026-10-800.webp" alt="" width="800" height="980" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-mesa-2026-10-800.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-mesa-2026-10-800-250x306.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-mesa-2026-10-800-700x858.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-mesa-2026-10-800-120x147.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Keiny Andrade/Revista Pesquisa FAPESP</span>Fungos estudados em laboratório; a partir deles é possível obter enzimas capazes de otimizar a quebra da celulose e a produção de biocombustíveis<span class="media-credits">Keiny Andrade/Revista Pesquisa FAPESP</span></p></div>
<p><strong>O senhor era professor na Unesp e trocou a universidade pública por uma vaga CLT no CNPEM. Por quê?<br />
</strong>Fiquei um ano como professor colaborador na Unesp, na física, e percebi que só fazer cristalografia estava me limitando cientificamente. Eu dependia da ciência de outras pessoas para fazer a minha. Tentei trazer a biologia molecular para lá, mas era um departamento de biofísica, não tinha infraestrutura, não tinha apoio suficiente. Sem biologia molecular, minha ciência sempre ia depender de alguém chegar para colaborar, entregar uma amostra. Eu não queria ser um cristalógrafo, um aplicador de técnica. Queria responder perguntas biológicas relevantes. A técnica, por si só, tem limitação; você tem que buscar a ferramenta que a pergunta exige.</p>
<p>Eu tinha 26 anos quando abriu uma vaga aqui no CNPEM. Ainda era a ABTLuS [Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron, organização que geria o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron e depois passou a se chamar CNPEM], não existia o laboratório que eu dirijo hoje [LNBR]. A família falou: “Você é louco, vai abandonar a estabilidade da universidade pública para ser CLT e ganhar a mesma coisa?” Mas eu não estava pensando no dinheiro. Estava pensando em melhorar a qualidade da minha ciência: aqui eu continuaria fazendo a cristalografia que sei fazer bem e aprenderia biologia molecular com os colegas, para ganhar independência científica.</p>
<p><strong>Mas deu uma guinada também nos temas de pesquisa.<br />
</strong>Eu queria independência científica, e a linha de toxinas e coagulação era do meu orientador. Não vislumbrava uma progressão de médio e longo prazo; o tema já tinha passado do ápice. E desde aquela época eu entendia que o Brasil era muito forte em bioenergia, pioneiro com o programa Proálcool [Programa Nacional do Álcool, lançado para incentivar o etanol de cana como combustível]. A saúde é obviamente muito importante, mas eu pensava na competitividade, no protagonismo, na chance de fazer diferença e ter impacto real além do que aparece na plataforma Lattes.</p>
<p>Para um cristalógrafo que quer entender mecanismos de inibição para desenvolver um fármaco, sem pré-clínico, sem hospital e parceiros para conduzir as fases clínicas, eu nunca ia conseguir transferir meu conhecimento. Ia prometer a vida inteira entregar uma molécula, um fármaco, que eu nunca entregaria. Isso me gerava frustração, porque sou um perfil realizador.</p>
<p>Aqui eu tinha uma planta-piloto, que era o mais perto da indústria que uma instituição de pesquisa sem fins lucrativos poderia chegar. Tinha tecnologias de sequenciamento de última geração para explorar a biodiversidade microbiana e uma equipe de sustentabilidade que fazia a ponte entre o laboratório e a indústria, com avaliações técnico-econômicas e de ciclo de vida. Foi a partir dessa perspectiva que ficou claro que uma descoberta feita ao estudar a biodiversidade microbiana, investigando trajetórias evolutivas em nível molecular construídas ao longo de milhões de anos, poderia realmente gerar impacto para a sociedade.</p>
<p><div class="box-lateral"><strong>Enzima escondida na usina</strong></p>
<p>Em 2025, o grupo de Murakami descreveu na <em>Nature</em> a CelOCE, enzima que quebra a celulose por oxidação, achada no genoma de uma bactéria desconhecida do solo onde uma usina de Quatá (SP) estocava bagaço de cana havia mais de 20 anos. Pequena, com menos de 120 aminoácidos, ela tem um sítio ativo compacto e um modo inédito de se ligar à celulose. Inserida num fungo usado na fabricação de enzimas industriais, aumentou em 21% a glicose liberada do bagaço de cana.</div><strong>Quão difícil foi construir uma linha de pesquisa própria?<br />
</strong>Aprendi muito com o Arni, com todos com quem pude interagir na minha jornada, mas, no tema científico, eu que me autoconstruí. Não herdei o tema do meu orientador de doutorado nem do pós-doc. É diferente de quem faz pós-doc num grupo grande, herda uma pergunta biológica e continua desenvolvendo. Escolhi uma linha totalmente diferente e que levou tempo para amadurecer, mas acabou definindo minha identidade como cientista.</p>
<p>Sempre fui muito produtivo, mas o alto impacto foi uma construção lenta, décadas de aprendizado, aprimoramento e de muita resiliência. Chegamos a entrar na fase de revisão por pares na <em>Nature Communications</em> e na <em>PNAS</em> três vezes, sem sucesso nas primeiras tentativas. Muitos olham o presente, mas desconhecem o histórico e as dificuldades. Tive que ser autodidata em como publicar em alto impacto. Quem está num laboratório que já faz isso tem uma estrada pavimentada, tem uma rede de contatos que abre caminhos. Se alguém disser que sonha publicar na <em>Nature</em> como autor correspondente no Brasil, sendo filho de chocadeira, numa pesquisa construída do zero, é uma insanidade.</p>
<p>Eu nunca almejei isso. Almejei sentir que a minha ciência estava evoluindo. O trabalho na <em>Nature </em>(<em>ver box</em>) foi o ápice: nós descobrimos na biodiversidade, elucidamos o mecanismo, integramos numa plataforma tecnológica nacional e demonstramos em escala industrialmente relevante. Mudamos o paradigma de uma questão fundamental, o metabolismo da celulose, o polímero mais abundante do planeta, pela vida microbiana, com impacto direto para a indústria brasileira.</p>
<p><strong>Como se monta um grupo capaz de obter esses resultados?<br />
</strong>Ninguém ia conseguir fazer isso sozinho. Não era um projeto do Mário, da Priscila, da Gabriela, da Letícia, da Mariana. Era um projeto comum, todo mundo abordando o mesmo problema por perspectivas diferentes. Um bando de jovens, todo mundo com trinta e poucos anos, todos roedores de osso. E a parte de que eu tenho mais orgulho é que as pessoas que se juntaram nessa causa hoje têm identidade científica própria.</p>
<p>Priscila [Giuseppe], Letícia [Zanphorlin], Gabriela [Persinoti], Mariana [Morais] publicam como autoras correspondentes nesse mesmo patamar, com projetos FAPESP delas, a maioria sem o meu nome. Sem demagogia: tenho mais orgulho disso do que das entregas. Não faria sentido alcançar isso sugando as pessoas sem deixar que elas se desenvolvessem.</p>
<p>No modelo americano, muitas vezes há sacrifício de carreiras. Eu não estudei princípios de liderança, mas duas palavras são muito importantes: transparência e previsibilidade. O cientista de alto nível precisa ter sentimento de pertencimento. O combinado não sai caro. Se a pessoa não confia em você, se você tem agenda oculta, isso mina tudo.</p>
<p>Hoje somos quase 200 pessoas na unidade. A liderança se reúne toda segunda-feira e discute o orçamento abertamente; um lê o trabalho do outro mesmo sem ser autor. Contratar numa divisão e não na outra geralmente dá briga. Aqui não dá, porque todos participam da priorização.</p>
<div id="attachment_588594" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588594 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-LNBR-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-LNBR-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-LNBR-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-LNBR-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-LNBR-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Keiny Andrade/Revista Pesquisa FAPESP</span>Planta-piloto do LNBR, em Campinas, onde processos testados em bancada chegam à escala semi-industrial; o grupo quer transformá-la em planta de demonstração, estrutura que permitiria a startups brasileiras produzir no país lotes-testes de seus produtos<span class="media-credits">Keiny Andrade/Revista Pesquisa FAPESP</span></p></div>
<p><strong>O senhor dirige o LNBR, preside a CTNBio e coordena o Programa FAPESP de Pesquisa em Transição Energética. Como essas funções foram se somando? Ainda há tempo para a pesquisa?<br />
</strong>Fui para a CTNBio porque, para levar minha ciência para a sociedade, eu tinha que entender o regulatório. Algumas pesquisas nossas eram muito legais, mas tinham tomado um caminho na contramão do regulatório, e a chance de virarem produto era muito baixa. Consegui uma vaguinha de suplente. Pedi: “me bota no fundo da sala, só para ouvir”. Como bom roedor de osso, fui estudando. Virei titular, coordenador da setorial, vice-presidente e presidente, sem precisar pedir voto. A presidência foi mais um fardo do que um presente: a situação exigia. E, quando há um chamado, você não vira as costas.</p>
<p>É ali que se discute o produto que vai estar na indústria daqui a dez anos: uma orquídea naturalmente azul, uma tilápia de duplo músculo, uma nova resolução para terapia gênica humana. E, sem esse regulatório, a nossa enzima não chegaria à indústria. Agora estou num <em>phase-out</em> da CTNBio e num <em>phase-in</em> da FAPESP.</p>
<p>Como pesquisador, eu me sinto realizado. O que posso fazer além disso é ver o pessoal que trabalhou comigo virar a nova liderança e ajudar o ecossistema. No CNPEM eu tenho alcance; na FAPESP, amplifico esse alcance. Sair de 200 pessoas para muito além. Mas não abandono a pesquisa. No domingo acordo às 6h e trabalho numa cafeteria até as 9h, antes de minha filha acordar. Ela diz que o papai perdeu o endereço de casa.</p>
<p><strong>Onde o senhor quer chegar com essa pesquisa nos próximos anos?<br />
</strong>Hoje o Brasil é um país de biorrefinaria de etanol. O futuro é transformar esse modelo numa biorrefinaria de hidrocarbonetos, de combustível de aviação sustentável, o SAF. Porque esse é um combustível global; o etanol não é. É o petróleo verde: idêntico ao petróleo, só que de fonte renovável. Que isso floresça no Brasil como um novo Proálcool, um pró-petróleo verde. Não vai acontecer em 5, 10 anos; vai acontecer em 15, 20. Se vingar, vai ser tão grande quanto o Proálcool e terá impacto global para a transição energética, porque se desprende de uma molécula regional. Esse é um dos meus grandes objetivos de carreira. Mas a gente não quer viver num sonho para daqui a 20 anos.</p>
<p>A nossa planta-piloto precisa virar uma planta de demonstração. Quando a indústria pede um lote do nosso produto para testar com um parceiro, eu não consigo fazer isso no Brasil; teria que mandar para o Fraunhofer, na Alemanha, ou para os Estados Unidos. Uma campanha para gerar um lote de teste custa R$ 6 a 7 milhões. Transformar a planta-piloto em planta de demonstração custa R$ 30 milhões. Muitas startups brasileiras de biotecnologia industrial não avançam porque não têm onde produzir um lote para mostrar ao cliente. Acredito que essa ação já vai trazer impacto imediato à nossa bioindústria e à soberania tecnológica.</p>
<p><strong>O tema do Prêmio FCW deste ano foi a transição energética. Qual a importância de falar desse tema agora, e o que o prêmio reconhece no seu trabalho?<br />
</strong>A humanidade está passando por grandes catástrofes climáticas. O mundo está aquecendo numa velocidade enorme, de forma muito agressiva. Aquele limite de 1,5 °C, a gente já ultrapassou nos últimos anos. E as questões geopolíticas, da Rússia com a Ucrânia, dos Estados Unidos com o Irã, mostram a nossa dependência de fontes fósseis.</p>
<p>Para o Brasil, país tropical, 2 °C de aquecimento é catastrófico. Quem mora na Finlândia vai achar mais agradável; para quem mora em Teresina ou em Palmas é questão de sobrevivência. A agricultura vai mudar, a umidade do solo vai ser drasticamente perdida. O Brasil vai sentir primeiro: o desastre no Rio Grande do Sul é um exemplo. Ao mesmo tempo, é o único país que consegue produzir mais energia e mais alimento capturando carbono em escala planetária. O Brasil tem aproximadamente 100 milhões de hectares de terras degradadas; se recuperar um terço disso, pode produzir o que o mundo todo produz hoje em bioenergia, com emissões negativas.</p>
<p>Quanto a mim, acho que o prêmio reconhece uma singularidade que alcançamos, um nirvana entre pesquisa de alto impacto, inovação e valor público. De forma constante, não em picos a cada 5, 8 anos. Às vezes grandes cientistas estão tão próximos da inovação e não conseguem tracionar. Transitar com excelência no mundo regulatório, no mundo aplicado e na ciência fundamental não é trivial: vejo que esses foram os fatores importantes para o que atingimos de forma perene.</p>
<div class="box"><strong>Jacu-cigana, a vaca que voa</strong></p>
<p><div id="attachment_588590" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588590 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-ave-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-ave-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-ave-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-ave-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-entrevsita-murakami-ave-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Miroslav Srb/Shutterstock</span>Jacu-cigana, única ave que digere folhas por fermentação no papo, semelhante ao que fazem os ruminantes<span class="media-credits">Miroslav Srb/Shutterstock</span></p></div></p>
<p>O jacu-cigana (<em>Opisthocomus hoazin</em>) vive nas várzeas amazônicas e é a única ave que digere folhas fermentando-as no papo, como o boi faz no rúmen (a primeira e maior câmara do estômago do ruminante). E é a última de sua linhagem, cujos parentes, conhecidos por fósseis de mais de 20 milhões de anos no Brasil e na África, desapareceram. “É uma ave única”, resume Mário Murakami, cujo grupo de pesquisa tem se dedicado à questão.</p>
<p>A ave carrega consigo um paradoxo. Herbívoros pequenos costumam ser lentos, como o bicho-preguiça, porque a conversão de energia a partir das folhas é custosa. Voar, por sua vez, é uma das atividades mais energeticamente caras para um animal. “Como essa ave estritamente herbívora de pequeno porte consegue obter toda a energia suficiente para atender sua demanda metabólica?”, questiona Murakami. A hipótese é que o papo funcione como um biorreator de raríssima eficiência.</p>
<p>O que a equipe achou lá dentro ainda não foi publicado. Segundo o cientista, nenhum dos microrganismos do papo (bactérias em sua maioria e alguns fungos) corresponde a espécies conhecidas, e há candidatos a gêneros e famílias novos.</p>
<p>Outro achado é curioso (e um pouco nojento). Os ruminantes mamam primeiro e só depois pegam do ambiente os micróbios que digerem o capim. No jacu-cigana, a primeira refeição do filhote é o alimento regurgitado pelos pais, já fermentado e com cheiro de esterco de vaca. E filhotes, jovens e adultos têm a mesma comunidade de micróbios. “A gente está mudando um paradigma. Tudo que a gente conhece é baseado em mamíferos.”</p>
<p>O interesse vai além das curiosidades zoológicas ou etológicas. Enzimas que desmontam a parte mais intrincada das folhas são o que se busca em bioprocessos para transformar bagaço e palha em combustível. “Se funciona bem no biorreator da ave, pode ser que ajude na biorrefinaria.” O grupo prevê mais um ano e meio de trabalho,<a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/113143/mecanismos-enzimaticos-do-microbioma-de-herbivoros-aquaticos-para-a-despolimerizacao-e-metabolismo-d/" target="_blank" rel="noopener"> com apoio da FAPESP</a>, para isolar os fungos e entender como o sistema funciona.</div>
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			</item>
		<item>
		<title>Folheie a edição de outubro de 2026</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Oct 2026 12:28:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Impressa]]></category>
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					<description><![CDATA[Folheie ou baixe a edição 366]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="position:relative;padding-top:max(60%,326px);height:0;width:100%"><iframe title="Mercado de cannabis medicinal avança mais rápido do que evidências sobre benefícios" allow="clipboard-write; autoplay; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" sandbox="allow-top-navigation allow-top-navigation-by-user-activation allow-downloads allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-modals allow-popups-to-escape-sandbox allow-forms" allowfullscreen="true" style="position:absolute;border:none;width:100%;height:100%;left:0;right:0;top:0;bottom:0;" src="https://e.issuu.com/embed.html?backgroundColorFullscreen=&#038;d=mercado_de_cannabis_medicinal_avan_a_mais_r_pido_d&#038;u=pesquisafapesp"></iframe></div>
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		<item>
		<title>Plantar, prensar e colher</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Alves - Diretor de Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Oct 2026 12:16:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Editorial]]></category>
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					<description><![CDATA[Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, dois laboratórios perseguiam uma pergunta que parecia pequena diante da encrenca global: de que é feita a maconha? Na Universidade de Illinois, Roger Adams (1889-1971), que chefiava o departamento de química, trabalhava a pedido do governo norte-americano. As autoridades, que haviam acabado de, na prática, proibir a planta... <a class="view-article" href="https://revistapesquisa.fapesp.br/plantar-prensar-e-colher/">Ver artigo</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, dois laboratórios perseguiam uma pergunta que parecia pequena diante da encrenca global: de que é feita a maconha? Na Universidade de Illinois, Roger Adams (1889-1971), que chefiava o departamento de química, trabalhava a pedido do governo norte-americano. As autoridades, que haviam acabado de, na prática, proibir a planta com o Marijuana Tax Act, queriam saber exatamente o que havia dentro dela. Na Ingla­terra, em Manchester, sob bombardeio, Alexander Todd (1907-1997), diretor dos laboratórios de química da universidade e futuro Nobel de Química, trabalhava com um haxixe indiano (a resina extraída das flores da cannabis, prensada em bloco) que um colega refugiado do nazismo despachara da Índia em mala diplomática. Os dois isolaram o canabidiol, o CBD, e disputaram a autoria da descoberta. Nenhum dos dois achou o que procurava: o tetra-hidrocanabinol (THC) só seria identificado em 1964, em Jerusalém, por Raphael Mechoulam (1930-2023).</p>
<p>Em toda a década de 1940, o PubMed, plataforma que reúne as mais importantes revistas científicas da área biomédica, registrou menos de 50 artigos com a palavra “cannabis”. Em 2006 foram 533; em 2025, mais de 4.100, recorde histórico. Boa parte dessa produção não investiga os efeitos do uso recreativo, e sim possí­veis aplicações médicas — das epilepsias graves da infância aos espasmos da esclerose múltipla, passando por insônia, autismo e síndrome de Tourette. A nova trincheira, contudo, é acumular evidências de quali­dade para essas e outras condições. É o que a dupla de <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/cannabis-medicinal-promessas-e-lacunas-nas-evidencias/" target="_blank" rel="noopener">reportagens de capa</a> desta edição procura mostrar.</p>
<p>De um lado, <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/cannabis-medicinal-promessas-e-lacunas-nas-evidencias/" target="_blank" rel="noopener">faltam estudos maiores, mais longos e bem desenhados</a>. Como disse à revista o professor Lucindo Quintans Júnior, da Universidade Federal de Sergipe, “o entusiasmo clínico e comer­cial correu mais depressa que os ensaios clínicos”.</p>
<p>De outro, <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/movimentos-sociais-impulsionaram-cannabis-medicinal-mas-perdem-espaco-para-grandes-corporacoes/" target="_blank" rel="noopener">o mercado avança descompassado</a>: as autorizações da Anvisa para uso de canabinoides saltaram de 850, em 2015, para quase 195 mil em 2025, ano em que o setor movimentou perto de R$ 1 bilhão no país. Convivem aí dois regimes: 25 empresas detêm os 52 produtos autorizados pela agência, registro restrito à indústria farmacêutica; as associações de pacientes, 315 com cadastro ativo, fornecem a seus associados mediante decisão judicial.</p>
<p>Em 1832, os mistérios por trás da flora também encantavam certo naturalista inglês de 23 anos que, de passagem pela Bahia, colheu uma ervinha de beira de caminho. O espécime seguiu para a Inglaterra e nunca regressou. Mas voltou, de certa forma, e em altíssima resolução: <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/de-volta-para-o-futuro/" target="_blank" rel="noopener">a reportagem sobre a iniciativa Reflora</a>  conta como o Brasil vem recuperando, em imagem, a flora que saiu daqui em caixotes. Plantas prensadas e secas são o arquivo de onde a botânica tira boa parte de suas respostas — e parte importante do arquivo mora no estrangeiro. Só os Jardins Botâ­nicos Reais de Kew, em Londres, guardam cerca de 300 mil amostras brasileiras. Desde 2010, o programa fotografa essas fichas uma a uma e as devolve a um herbário virtual hospedado no Rio de Janeiro: já são 265 mil vindas de Kew e 250 mil do Museu Nacional de História Natural em Paris. A ervinha baiana é uma delas; o coletor era Charles Darwin (1809-1882).</p>
<p>No Jardim Botânico do Rio, as plantas repousam em armários a 18 °C constantes. Fora dali, na lavoura, temperatura não se escolhe. Com o El Niño provavelmente da categoria “muito forte” em ação, <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/pesquisadores-redesenham-o-mapa-dos-efeitos-do-el-nino-na-agricultura/" target="_blank" rel="noopener">pesquisadores redesenharam o mapa dos efeitos do fenômeno na agricultura</a>. O resultado é uma redistribuição, e não um veredito: algumas culturas podem até se beneficiar da chuvarada, dependendo de quando ela vier, mas o tipo de solo, o momento do ciclo em que a água chega e um veranico de dez dias na hora errada embutem erro em qualquer projeção.</p>
<p>Mas o campo também produz o que nenhum modelo prevê. O interior guardou um instrumento que já passou pelas mãos dos jesuítas, dos tropeiros e dos astros do sertanejo de hoje: a viola, trazida no século 16 como ferramenta de catequese, foi se “acaipirando” terra adentro e <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/o-triunfo-da-viola-no-campo-e-na-cidade/" target="_blank" rel="noopener">virou tese de douto­rado premiada e livro</a>. Em 1929, a indústria musical achava que viola caipira não vendia. O folclo­rista Cornélio Pires (1884-1958) bancou a prensagem, encomendou milhares de discos e provou o contrário. Algumas colheitas demoram, outras não, mas todas dependem de alguém ter plantado (e cuidado).</p>
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		<title>O triunfo da viola no campo e na cidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo Magossi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Oct 2026 11:57:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[Livro conta como o instrumento se confunde com as transformações da história brasileira, dos jesuítas e poetas às celebridades atuais]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O que os jesuítas, os bandeirantes, o poeta barroco Gregório de Matos (1636-1696) e o cantor sertanejo e celebridade Gusttavo Lima têm em comum? Mesmo separados por sécu­los, todos tiveram uma viola em suas mãos. Mais que um simples instru­mento, a viola é uma chave para com­preender a formação social do Brasil, principalmente no interior do país.</p>
<p>Introduzida por missionários jesuítas vindos de Portugal logo após o descobrimento, no século 16, ela começou sua trajetória na colônia, sendo utilizada na catequese dos povos originários. Depois, foi adotada pela população das nascentes áreas urba­nas e dedilhada em festas populares e religiosas. Aos poucos, foi se embre­nhando território adentro, acompa­nhando bandeirantes e tropeiros, tor­nando-se um símbolo da identidade do Brasil rural que vem se transfor­mando e se expandindo ao longo do tempo, sem perder seu caráter de organizadora das relações sociais, do modo de vida e das formas de perten­cimento das comunidades rurais.</p>
<p>“Desde sua chegada com os por­tugueses, a viola se ambientou bem no solo brasileiro, foi se acaipirando, até se tornar símbolo de uma socie­dade, de uma matriz cultural. E, com as primeiras gravações, a partir de 1929, ela deu origem a um gênero, a música caipira, que sobrevive até hoje”, resume Luiz Antonio Guerra, violeiro, sociólogo, cientista político e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), que acaba de lançar o livro <em>Uma sociologia da viola caipira </em>(Edusp, 2026), baseado em sua tese de doutorado. Defendida em 2021, a tese ganhou o Prêmio Silvio Romero de melhor monografia sobre cultura popular, o Prêmio Capes 2022 e o Prê­mio Destaque USP 2022.</p>
<p>Com subtítulo <em>Os mestres de ontem e de hoje</em>, o livro é dividido em duas partes. Na primeira, Guerra apresenta o alicerce histórico da introdução da viola no Brasil pelos colonizadores e narra sua transição de instrumento de centros urbanos para o mundo rural em meio às transformações socioeconômicas.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/anatomia-viola-caipira-partes-instrumento_desktop.webp" data-tablet_size="1140x800" alt="Diagrama com as partes da viola caipira em vistas frontal, traseira e lateral, como braço, cavalete, roseta e cravelhas">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">William Mur</span></div><div class="post-content sequence">
<p>“Quando as violas chegaram aqui com os navegadores e jesuítas, elas não eram padronizadas pela fabri­cação industrial. Essa variabilidade continuou existindo no Brasil. Como o instrumento seguiu o caminho da colonização, a viola de cada região tem uma forma específica de fabricação, afinação e repertório. Era comum o próprio violeiro construir seu instru­mento artesanalmente”, diz Guerra.</p>
<p>Aquela que acompanhou os ban­deirantes e tropeiros para o interior de São Paulo, Minas Gerais e Goiás ficou conhecida como viola caipira, objeto de estudo do sociólogo. Já no Recôncavo Baiano, por exemplo, a viola machete é instrumento impor­tante no samba de roda, sendo con­siderada patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “É uma vio­linha pequena, tocada de forma total­mente diferente da caipira”, explica o pesquisador. No fim dessa fase inicial, surgem as primeiras fábricas brasilei­ras de violas padronizadas, a Del Vec­chio e a Giannini, fundadas em São Paulo na virada do século 19 para o 20, na esteira do aumento da imigra­ção de italianos, conta Guerra.</p>
<p>Na segunda parte do livro, o autor demonstra como a trajetória da viola acompanha transformações sociais mais amplas, especialmente o êxodo rural que marcou o Brasil ao longo do século 20. A migração de popula­ções interioranas para grandes cida­des levou consigo práticas culturais, entre elas a viola caipira, que passou a ocupar novos espaços e adquirir novos significados.</p>
<p>“Já na cidade, os migrantes do campo usavam a música caipira para expressar sua nostalgia e saudade da vida de outrora”, diz ele. Se antes era um símbolo quase exclusivo da vida rural, a viola passou a ecoar em um novo ambiente, formado por palcos urbanos, universidades, festivais con­temporâneos e produções fonográfi­cas que misturam tradição e experi­mentação. Para montar esse cenário, Guerra entrevistou mais de 60 violei­ros, que preservam técnicas tradicio­nais de afinação, toques e repertório, ao mesmo tempo que dialogam com outras linguagens musicais, como a MPB, o rock e a música instrumental.</p>
<p>Nesse diálogo, segundo o pesquisa­dor, a música caipira passa a ser cha­mada sertaneja. Nessa fase, ela se diferencia da caipira por absorver instrumentos e arranjos urbanos e tratar de temas mais universais, longe do universo rural. “Os violeiros con­temporâneos também são mediado­res entre mundos, o rural e o urbano, o tradicional e o moderno, o oral e o acadêmico”, explica.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/diferenca-violao-viola-caipira-viola-classica_desktop.webp" data-tablet_size="1140x782" alt="Ilustração compara violão, viola caipira e viola clássica, mostrando diferenças de tamanho e formato dos instrumentos">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">William Mur</span></div><div class="post-content sequence">
<h2><strong>Lima e a viola</strong></h2>
<p>Um exemplo é o cantor e celebri­dade Gusttavo Lima, um dos entre­vistados do livro. Nascido em família pobre, acompanhava seu pai na Folia de Reis e mais tarde tocou viola cai­pira em um trio com seus irmãos. A partir de 2010, tornou-se símbolo do sucesso da música sertaneja nas baladas urbanas. Embora não utilize o instrumento tradicional em suas gra­vações, Lima afirmou que ele é a base de sua formação musical e costuma tocá-la pontualmente em suas apre­sentações ao vivo.</p>
<p>“Ele se considera um herdeiro do Tião Carreiro [1934-1993], um dos principais expoentes da viola caipira”, conta o autor. Com base nisso, Guerra conclui que mesmo os principais artis­tas sertanejos, que protagonizam as grandes transformações estéticas no gênero com inclusão de novas sonori­dades e elementos culturais urbanos, têm sido um dos principais vetores de difusão da prática da viola caipira.</p>
<p>O livro é prefaciado por Ivan Vilela, também violeiro e professor livre-do­cente da Escola de Comunicações e Artes da USP. Compositor com 20 discos gravados, Vilela foi ainda o res­ponsável pela criação do bacharelado em Viola Caipira na universidade, a partir de 2005. “Um instrumento com mais de 800 anos de idade só foi ter um curso superior dedicado a ele no século 21”, observa.</p>
<p>Segundo Vilela, a viola é uma moderadora do surgimento das rela­ções dentro das culturas populares no Brasil. “A música popular ainda é a grande cronista dos povos que não tiveram outra maneira de registrar a sua história, como os caipiras, os sam­bistas favelados do início do século 20, os retirantes nordestinos. O que sabe­ríamos de sua vida se não fossem suas músicas? E, na maioria dos casos, a viola está inserida nesse cenário.”</p>
<blockquote><p>“A música popular ainda é a grande cronista dos povos que não tiveram outra maneira de registrar a sua história, como os caipiras, os sambistas favelados do início do século 20, os retirantes nordestinos. O que saberíamos de sua vida se não fossem suas músicas? E, na maioria dos casos, a viola está inserida nesse cenário” — Ivan Vilela, violeiro e professor livre-docente da Escola de Comunicações e Artes da USP</p></blockquote>
<p>O músico destaca o fato de que gravuras de viajantes e quadros de pintores do século 19 retratam ape­nas pessoas do povo tocando viola, as quais aparecem nas pinturas de vio­leiros de Almeida Júnior (1850-1899) e Oscar Pereira da Silva (1867-1939). Vilela nota que, quando é uma pes­soa branca que está se apresentando nas imagens, ela não toca viola, e sim bandola, um instrumento cuja por­ção inferior é arredondada, quase circular — está presente nas gra­vuras de Johann Moritz Rugendas (1802-1858) e Jean-Baptiste Debret (1768-1848). “Quando o personagem é pobre ou negro, é uma viola que ele está tocando. Assim, a viola acaba tra­zendo junto com ela um traço cultu­ral e étnico dos locais onde está ligada a esses grupos”, afirma.</p>
<p>Até meados do século 19, a viola era o principal acompanhamento dos cantores. “Ela cumpria o papel que o violão tem hoje. E eu sempre vi a viola como um instrumento de uma difusão bastante democrática, permeando todas as classes sociais. A historiadora Isabel Lustosa comenta que dom Pedro 1º [1798-1834] tocava viola. O padre José Maurício Nunes Garcia [1767-1830] a usava em suas aulas de música porque não tinha um cravo [instrumento semelhante a um piano]. O biógrafo do poeta Gre­gório de Matos afirma que ele próprio tinha feito a viola que tocava”, conta Marcia Taborda, violonista e profes­sora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).</p>
<p>Já o violão chega ao Brasil tra­zido pela família real portuguesa, que foge para o Rio de Janeiro em 1808 para escapar das forças invaso­ras do imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821). Chamado de “guitarra francesa”, o instrumento aos poucos foi ocupando o lugar que a viola tinha nas cidades. Mais fácil de afinar e tocar, acaba se popula­rizando. Enquanto o violão apre­senta um corpo maior, seis cordas simples e uma afinação universal, a viola caipira possui cinco cordas duplas (totalizando dez), várias afi­nações e um corpo menor e mais estreito. É a partir daí que ela vai ficando mais associada às regiões interioranas.</p>
<p>Para Guerra, a modernização dos ritos da Igreja Católica também con­tribuiu para o desaparecimento da viola nos centros urbanos. Segundo o pesquisador, era um instrumento muito usado em festejos religio­sos, como Folia de Reis e Cururus. “A Igreja acaba desestimulando esses fol­guedos para controlar as formas de<br />
culto. Essas festas e danças vão sobre­vivendo no interior, onde a fiscaliza­ção do Estado e a doutrinação religiosa eram menores, e a viola sobrevive com elas, tornando-se um importante ele­mento sociocultural dessas comuni­dades”, afirma. Nesse contexto, a viola se torna símbolo de pertencimento dentro da cultura da oralidade, em que saberes são transmitidos por convi­vência, prática e memória. “O violeiro não é apenas músico. Ele é guardião da memória, narrador e mediador cul­tural”, resume.</p>
<div id="attachment_588489" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588489 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/cornelio-pires-em-apresentacao.webp" alt="" width="1140" height="730" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/cornelio-pires-em-apresentacao.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/cornelio-pires-em-apresentacao-250x160.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/cornelio-pires-em-apresentacao-700x448.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/cornelio-pires-em-apresentacao-120x77.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo Pedro Massa/Instituto Cornélio Pires</span>Cornélio Pires, pioneiro na gravação de viola caipira, em apresentação no início do século 20<span class="media-credits">Acervo Pedro Massa/Instituto Cornélio Pires</span></p></div>
<h2><strong>Nas ondas do rádio</strong></h2>
<p>No início do século 20, a viola caipira faz o caminho inverso e amplia seu alcance por meio da nascente indús­tria fonográfica e do rádio. Em 1929, o folclorista e pesquisador Cornélio Pires (1884-1958) foi pioneiro na gra­vação do que ficou conhecido como “música caipira” ao financiar o regis­tro de violeiros e duplas.</p>
<p>Foi a primeira vez que uma viola caipira entrou em um estúdio de gra­vação. Pires anunciou o lançamento de <em>Moda de viola</em>, em outubro de 1929, com a seguinte declaração: “Esse é o canto popular do caipira paulista em que se percebe bem a tristeza do índio escravizado, a melancolia pro­funda do africano no cativeiro e a saudade enorme do português da sua pátria distante”.</p>
<p>“Havia uma demanda por reper­tórios que representassem a cultura rural, e a própria elite paulista tam­bém tinha interesse no resgate de suas tradições”, avalia Guerra. Segundo ele, a iniciativa de Pires levou à consoli­dação de um novo gênero musical, ampliada pela difusão no rádio. “Ele não padronizou apenas um estilo, mas também um jeito de tocar viola, uma afinação específica”, afirma, res­saltando que, por outro lado, a indús­tria fonográfica acabou por dar uma forma menos variável à música cai­pira, eliminando os improvisos exis­tentes do meio rural.</p>
<p>Martha Tupinambá de Ulhôa, professora da Universidade Fede­ral do Estado do Rio de Janeiro (Uni­rio), observa que, à medida que o país vai se transformando, as músi­cas que representam o Brasil rural do centro-sul também mudam. Nos anos 1950, por exemplo, a influência da música paraguaia, com as guarâ­nias, foi forte e, a partir dos anos 1960, a música caipira absorve sonoridades mexicanas, da Jovem Guarda e até dos Beatles. “Então, na música caipira, vai haver sempre uma tensão entre o que se inova e o que é tradicional, mas a viola mantém sua identidade mesmo quando se reinventa”, afirma.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/tipos-viola-brasileira-arame-cocho-machete-buriti_desktop.webp" data-tablet_size="1400x700" alt="Ilustração de sete tipos de viola brasileira: de arame, caipira, de cocho, dinâmica, caiçara, machete e de buriti">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">William Mur</span></div><div class="post-content sequence">
<p>Vilela avalia que, embora a urba­nização tenha mudado as narrati­vas, a identidade da viola continua a mesma. “A viola é uma cronista social de seu tempo”, diz. “Quando Corné­lio Pires grava músicas falando da Revolução de 1930, ou Alvarenga e Ranchinho cantam a falta de gaso­lina durante a Segunda Guerra Mundial, eles estão narrando exa­tamente o tempo em que estavam vivendo. Da mesma forma, músicas como ‘Menino da porteira’ e ‘Sau­dade da minha terra’ narram a nos­talgia de quem abandonou o campo e migrou para a cidade, mas foram compostas anacronicamente por pes­soas que já estavam no meio urbano”, conta. Para o violeiro, a manutenção da identidade do instrumento explica a existência de mais de 250 orquestras de viola no estado de São Paulo.</p>
<p>Com 29 anos de estrada, a Orques­tra Paulistana de Viola Caipira é comandada desde sua fundação pelo maestro Rui Torneze. Com for­mação em violão clássico, ele se apai­xonou pela viola em suas andanças pelo interior paulista como auditor contábil. Aos 30 anos, decidiu trocar a contabilidade pela música.</p>
<p>“Comecei a dar aulas de viola na Universidade Livre de Música, hoje Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim, e outras escolas de viola caipira. E os alunos desses cur­sos queriam também a prática do ins­trumento. A criação da orquestra foi um desdobramento das aulas”, conta.</p>
<p>Com 54 integrantes, a orquestra tem um CD de viola caipira indicado ao Grammy Latino e acumula apre­sentações na Europa. Segundo Tor­neze, um diferencial é que todos os músicos leem partitura. “Ela fun­ciona como uma orquestra sinfô­nica”, diz. O repertório é variado, unindo clássicos da música da roça com MPB e rock. “Tocamos de Vivaldi a Tonico e Tinoco, de Michael Jackson a Guns N’ Roses”, diz. Torneze define o repertório como dedicado à “forma­ção de público”. “Tocamos as músi­cas mais conhecidas e depois parti­mos para os clássicos da viola.”</p>
<p>Também com repertório que vai muito além das músicas caipiras, a Orquestra Filarmônica de Viola com­pletou 25 anos. Fundada por Ivan Vilela em 2001 na cidade de Cam­pinas (SP), a filarmônica é dirigida por João Paulo Amaral desde 2011. “A ideia inicial era criar um grupo a partir da socialização, dos violeiros e das violeiras que se encontravam para aprender e tocar viola. Depois o grupo naturalmente foi se profissio­nalizando e se aprimorando. O Vilela viu a possibilidade de tocar música caipira, mas também outros repertó­rios na viola. Ele teve a ideia de sepa­rar os violeiros como se fossem nai­pes de uma orquestra convencional”, afirma Amaral, ou seja, como os dife­rentes tipos de instrumentos musi­cais — cordas, percussão etc.</p>
<p>No repertório, clássicos da música caipira se mesclam a obras de nomes da música popular brasileira, como Milton Nascimento, Gilberto Gil e Tom Jobim (1927-1994), chegando até a Villa-Lobos (1887-1959) e à banda de rock britânica Led Zeppelin. Sem apoio institucional, a orquestra, de 15 componentes, sobrevive com cachê de shows e de recursos de outros tra­balhos. Recentemente a orquestra se apresentou na Sala São Paulo e no Fes­tival de Inverno de Campos do Jordão. “É um marco importante para a viola ter esse reconhecimento e tocar em um festival internacional, que é mais dedicado à música clássica e música de concerto”, diz ele.</p>
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		<title>Novas fronteiras amazônicas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Oct 2026 12:03:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fotolab]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Conheça o pequeno sapo-foguete, uma das possíveis novas espécies descobertas na serra do Aracá (AM)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Uma expedição científica à serra do Aracá (AM), financiada pela FAPESP, reuniu 16 pesquisadores, de instituições brasileiras e internacionais, para desbravar uma área pouco conhecida da Amazônia. Durante 19 dias, a equipe explorou a biodiversidade de ecossistemas de altitude no norte do Amazonas. Foram dois acampamentos: um na mata nebular, um tipo de floresta úmida de altitude, constantemente envolvida por neblina ou nuvens baixas, e outro em uma região batizada pelos pesquisadores de Aracazinho, com terrenos predominantemente arenosos e pouca pedra visível. Os especialistas registraram nove espécies de lagartos (das quais cinco são provavelmente novas para a ciência), cinco espécies de cobras (uma delas inédita) e 18 espécies de anfíbios (com cerca de dez prováveis novidades). Entre eles, uma nova espécie de sapo-foguete do gênero <em>Anomaloglossus</em>, fotografada por Phelipe Janning, editor audiovisual de <em>Pesquisa FAPESP</em>. Com cerca de 2 centímetros de comprimento, esse anfíbio habita riachos, córregos e trechos alagados das formações abertas da serra do Aracá, onde canta e forrageia durante o dia, explica Taran Grant, professor do Instituto de Biociências da USP.</p>
<p class="bibliografia separador-bibliografia">Seu trabalho poderá ser publicado na revista. Envie para <a href="mailto:imagempesquisa@fapesp.br" target="_blank" rel="noopener noreferrer">imagempesquisa@fapesp.br</a>.</p>
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		<title>O milagre da multiplicação de referências bibliográficas (fantasmas)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Theo Ruprecht]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Oct 2026 11:57:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boas práticas]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
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					<description><![CDATA[As inteligências artificiais por trás do milagre da multiplicação de referências bibliográficas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" width="800" height="974" class="alignright size-full wp-image-588411" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-BP-referencias-fantasmas-2026-10-800.webp" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-BP-referencias-fantasmas-2026-10-800.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-BP-referencias-fantasmas-2026-10-800-250x304.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-BP-referencias-fantasmas-2026-10-800-700x852.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-BP-referencias-fantasmas-2026-10-800-120x146.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><span class="media-credits-inline">Ariel Severino</span>Em 2023, cerca de 4 em cada 10 mil artigos biomédicos continham ao menos uma referência bibliográfica fabri­cada. Nem parece tanto em um primeiro momento, mas repare no ritmo de crescimento: no último trimestre de 2025, a proporção já tinha pulado para 51,3 por 10 mil e, no começo de 2026, chegou a 56,9 — cerca de 14 vezes mais. A constatação vem de uma <a href="https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(26)00603-3/fulltext" target="_blank" rel="noopener">auditoria</a> publi­cada na seção de correspondências do periódico <em>The Lancet, </em>que reuniu 2,5 milhões de estudos publicados de 2023 a fevereiro deste ano. Esse calhamaço de manus­critos somou incríveis 125.615.773 referências (sim, mais de 125 milhões). Como verificar a procedência de cada uma? Em vez de acessar “manualmente” todos os links, o que implicaria mais de 25 milhões de cliques de cada um dos cinco autores e prováveis diagnósticos de lesão por esforço repetitivo, foi desenvolvido um sistema automatizado que comparava os registros bibliográ­ficos com artigos de verdade disponíveis na rede.</p>
<p>Os dados mostram a aceleração dessa tendência no meio de 2024. Por quê? “A inflexão [&#8230;] coincide com o atraso esperado entre a adoção disseminada de LLMs [modelos de inteligência artificial de linguagem de grande escala] e a publicação dos artigos, embora o aumento da atividade de paper mills [pesquisas falsas feitas sob encomenda] e mudanças nas práticas de indexação dos periódicos também possam ter contri­buído”, escrevem os autores. A cronologia é a seguinte: entre o fim de 2023 e o início de 2024, inicia-se a massi­ficação do uso de ChatGPT, Claude e afins. De 100 a 200 dias depois (tempo médio da submissão à publi­cação de um artigo, segundo os pesquisadores), o gráfico com a taxa de referências manipuladas começa a tomar a forma de uma montanha digna de teleférico.</p>
<p>Após a exposição do cenário, a carta parte para as reco­mendações, como as de que as editoras deveriam integrar processos de verificação automatizada das referências, antes da revisão por pares, e fazer triagens retrospectivas dos periódicos para, quando necessário, emitir corre­ções. Hoje, não existe um padrão bem estabelecido do que fazer com estudos com referências manipuladas. Na seção de <a href="https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(26)00798-1/abstract" target="_blank" rel="noopener">comentários</a> da revista <em>The Lancet</em>, Howard Bauchner, da Universidade de Boston, e Frederick Rivara, da Universidade de Washington, propõem a lógica da punição exemplar: “Acreditamos que um manuscrito publicado no qual apareça uma referência falsa deve ser retratado. [&#8230;] A retratação pode levar ao maior escru­tínio das referências por autores de manuscritos”.</p>
<p>Um detalhe irônico da auditoria é que a principal suspeita de fomentar a multiplicação de referên­cias-fantasmas foi utilizada para diferenciar erros de padronização, uma falha menos grave, das refe­rências que realmente não existem. Sim, os autores recorreram à IA — no caso, o Claude — para identi­ficar se as menções a outros documentos só não batiam por estarem com erros de digitação, abreviações etc.</p>
<h2><strong>Fogo contra fogo?</strong></h2>
<p>A IA generativa polariza debates tanto na produção dos artigos quanto nas etapas de revisão por pares. Uma <a href="https://www.science.org/content/article/can-ai-help-solve-peer-review-crisis-here-are-its-promises-and-pitfalls" target="_blank" rel="noopener">reportagem</a> da revista <em>Science </em>esclarece como essa disputa não ocorre no vácuo. Vale <a href="https://www.science.org/content/article/can-ai-help-solve-peer-review-crisis-here-are-its-promises-and-pitfalls" target="_blank" rel="noopener">ler na íntegra</a>, mas dois pontos chamam a atenção logo de cara: <a href="https://www.frontiersin.org/news/2025/12/15/most-peer-reviewers-now-use-ai-and-publishing-policy-must-keep-pace" target="_blank" rel="noopener">alguns levantamentos</a> sugerem que mais da metade dos revisores recorrem à inte­ligência artificial em alguma etapa do processo. E as editoras já estão testando as águas. Para ficar em um episódio descrito, a <em>NEJM AI</em>, afiliada do presti­giado periódico <em>The New England Journal of Medicine</em>, iniciou um projeto-piloto que oferece um modelo rápido de aprovação baseado em uma análise de IA do manuscrito, seguida da revisão de um editor (humano, só para constar). O atalho estaria disponível apenas para artigos com alta chance de aprovação.</p>
<p>“O uso da IA na revisão é uma questão tanto subes­timada como superestimada”, confidenciou-me o sociólogo Luiz Augusto Campos, editor-chefe da revista científica <em>Dados </em>e professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Para quem mal enxerga os riscos, ele destaca que o próprio termo “inteligência artificial” não descreve muito bem o que essas ferramentas realizam: “Eu brinco que ela é uma máquina de produzir senso comum”. Isso pode significar que pesquisas mais ousadas saiam perdendo — ou mesmo que subespecia­lidades pouco estudadas recebam análises simplistas.</p>
<p>Há também o receio de que as IAs intensifiquem processos de exclusão. Um <a href="https://arxiv.org/abs/2509.15122" target="_blank" rel="noopener">estudo em pré-print</a> (ainda não publicado) botou uma ferramenta de LLM para aprovar ou rejeitar vários artigos idênticos, exceto pela autoria. Finja estar surpreso com o resultado: pesquisa­dores de instituições renomadas apresentaram maior taxa de aprovação. “A IA pode reforçar uma geopolí­tica desigual do conhecimento”, resume Campos.</p>
<p>Já para os que propõem tirar as máquinas da tomada, a reportagem da <em>Science </em>enumera pesquisas que apontam áreas onde a IA se sai melhor do que os atarefados revisores humanos. Detecção de plágio e erros, validação de métodos estatísticos e contas matemáticas e avaliação das já mencio­nadas referências bibliográficas estão entre elas.</p>
<p>Por enquanto, cada periódico e revisor têm adotado uma postura. A Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq faz uma única menção mais direta ao tema: “É vedada a inserção de projetos de pesquisa de terceiros em ferramentas de inteligência artificial generativa para elaboração de pareceres científicos”.</p>
<p>A restrição também decorre do temor de que dados ainda não publicados sejam, de alguma forma, proces­sados e integrados pelos algoritmos. Já o SciELO vem solicitando aos periódicos da sua rede que estabeleçam critérios e, no passado, fez algumas recomendações gerais em um <a href="https://www.scielo.org/documents/31/Guide-to-the-Use-of-AI-tools-and-resources-20230914.pdf" target="_blank" rel="noopener">guia sobre a IA na comunicação cientí­fica</a>. Ele reconhece que determinados recursos podem auxiliar os revisores e pede que eles estejam atua­lizados sobre como utilizá-los adequadamente (e sobre como analisar materiais produzidos com IA).</p>
<p>Considerando que o número de artigos publi­cados dobrou nos últimos cinco anos, o que pode ter a ver com a IA e certamente sobrecarrega os revi­sores, vem a pergunta: estaria a inteligência artificial ganhando espaço no mercado editorial da ciência apenas para apagar o incêndio que ela mesma alastrou?</p>
<p>Luiz Augusto Campos derrubou esse prin­cípio de hipótese com duas frases (proferidas com carinho, caro leitor): “A crise da revisão por pares é anterior à disseminação da IA. Esse modelo está sendo pressionado há pelo menos 20 anos”.</p>
<p>Ele ressalta o óbvio: a transformação do artigo na principal métrica de sucesso de um pesquisador e o incentivo a fatiar descobertas, dois dos muitos fatores que vêm abarrotando a mesa dos revisores com manus­critos, antecedem os LLMs. No momento, o que a inteligência artificial parece estar fazendo é ampliar virtudes e defeitos humanos. Até por isso, não deveria ser usada sozinha — provavelmente nunca será confiável o suficiente para isso. “Não sei dizer qual o limite ideal entre o lado humano e o artificial da revisão por pares. Só sei que não estamos nele”, conclui.</p>
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		<title>Do controle dos neurônios à Grécia reimaginada</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/do-controle-dos-neuronios-a-grecia-reimaginada/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=do-controle-dos-neuronios-a-grecia-reimaginada</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Reinaldo José Lopes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Oct 2026 17:46:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
		<category><![CDATA[Fisiologia]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina]]></category>
		<category><![CDATA[Neurociência]]></category>
		<category><![CDATA[Química]]></category>
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					<description><![CDATA[Nobel premia optogenética, detecção de neutrinos, moléculas assimétricas e autora que se inspira em Homero]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Se você perdeu os anúncios do Prêmio Nobel ao longo desta semana, <em>Pesquisa FAPESP</em> traz a seguir o essencial sobre os laureados nas áreas de Fisiologia ou Medicina, Física, Química e Literatura em 2026.</p>
<h2><strong>Medicina: luz para neurônios</strong></h2>
<div id="attachment_588477" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588477 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-medicina-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-medicina-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-medicina-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-medicina-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-medicina-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach </span>Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel<span class="media-credits">Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach </span></p></div>
<p>O Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina (esse é o nome oficial da láurea) destaca neste ano uma complexa combinação de microbiologia, genômica e neurociência que tem ajudado a compreender como o cérebro funciona a partir de suas células individuais. Trata-se da abordagem conhecida como optogenética, na qual pulsos de luz são capazes de ativar neurônios com precisão. O processo ainda não deu origem a novas terapias, embora um possível uso no tratamento de problemas como deficiências visuais e auditivas já esteja na mesa.</p>
<p>Entre o trio de ganhadores da área em 2026, o primeiro passo na área foi dado pelo biofísico alemão Peter Hegemann, hoje com 71 anos e professor da Universidade Humboldt de Berlim.</p>
<p>Ele estudava as algas microscópicas do gênero <em>Chlamydomonas</em>, que têm sensibilidade à luz por conta da presença de uma proteína especializada, que fica num pontinho alaranjado na superfície de suas células. O pesquisador alemão verificou que, em apenas meio milissegundo, o pontinho alaranjado era capaz de produzir um impulso elétrico, o qual estimulava o nado das algas unicelulares rumo à fonte de luz.</p>
<p>A capacidade de reação era muito mais rápida que a das células da retina humana que cumprem função parecida, levando Hegemann a propor que uma única proteína seria responsável pelo processo todo. Ela atuaria tanto como detectora de luz quanto como um canal de íons. Ou seja, ela ficaria aberta para a passagem de átomos ou moléculas eletricamente carregados, e a travessia deles produziria um sinal elétrico.</p>
<p>O pesquisador só conseguiu confirmar a ideia com a ajuda do segundo ganhador, o também alemão Georg Nagel, nascido em 1953 e atualmente professor da Universidade de Würzburg. Ele inseriu dois genes da alga que pareciam estar ligados à detecção de luz em óvulos de rãs.</p>
<p>As células de anfíbios produziram as proteínas correspondentes aos genes, e, de fato, elas eram canais de íons que se abriam quando expostos à luz.</p>
<p>O salto dessa ideia para aplicações laboratoriais no organismo de mamíferos foi dado pelo mais jovem do trio de vencedores, o americano Karl Deisseroth, 54, do Instituto Médico Howard Hughes e da Universidade Stanford.</p>
<p>Ao inserir um dos mesmos genes, a canalrodopsina-2, em neurônios (primeiro <em>in vitro </em>e depois em camundongos vivos), ele mostrou que era possível usar a luz emitida por fibra óptica para ativar de forma seletiva células de circuitos cerebrais específicos, como os associados ao movimento das vibrissas (&#8220;bigodes&#8221;) dos roedores ou mesmo a memórias de medo.</p>
<h2><strong>Física: neutrinos numa fria</strong></h2>
<div id="attachment_588469" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588469 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-fisica-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-fisica-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-fisica-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-fisica-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-fisica-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach </span>Francis Halzen<span class="media-credits">Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach </span></p></div>
<p>Truques para usar a luz como ponte para novas descobertas também foram importantes para o único laureado de Física de 2026, o belga Francis Halzen, 82, da Universidade de Wisconsin em Madison (EUA). Mas, no caso dele, a luz entra na história apenas de forma indireta, porque a especialidade do ganhador é detectar as célebres “partículas-fantasma”, os neutrinos, que são algumas das entidades mais difíceis de “enxergar” do Cosmos.</p>
<p>Como o apelido sugere, os neutrinos raramente interagem com qualquer forma de matéria que os cientistas conhecem bem, o que exige muita criatividade para “caçá-los”. Halzen decidiu empregar as grandes massas de gelo da Antártida para mitigar esse problema, por meio do ambicioso projeto IceCube, literalmente localizado no polo Sul.</p>
<p>A equipe liderada pelo belga espalhou seus detectores num cubo de gelo de 1 km de profundidade. A ideia era aproveitar a transparência do gelo à luz azul que ocasionalmente é produzida quando um bombardeio de neutrinos atravessa a matéria – os detectores usados no projeto capturam justamente essa luz, e o isolamento, estabilidade e pureza do gelo no polo Sul aumentam muito a confiabilidade das medições.</p>
<p>Halzen e os demais participantes do IceCube (que alcançou sua capacidade máxima em 2011, com mais de 5.000 sensores no fundo do gelo) não estão interessados em qualquer neutrino. Seu principal objetivo é captar a presença e as características dos neutrinos de alta energia vindos de eventos relativamente distantes no Cosmos ao nosso redor, como supernovas (grosso modo, a fase explosiva final da vida de uma estrela de grande massa). O trabalho vai ser ampliado com o IceCube-Gen2, que ocupará 8 quilômetros cúbicos de gelo.</p>
<h2><strong>Química: espelho, espelho meu</strong></h2>
<div id="attachment_588457" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588457 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-quimica-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-quimica-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-quimica-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-quimica-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-quimica-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach </span>Henri B. Kagan e Kenso Soai<span class="media-credits">Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach </span></p></div>
<p>O Prêmio Nobel em Química foi concedido a dois pesquisadores, o francês Henri Kagan, 95, professor emérito da Université Paris-Sud, e o japonês Kenso Soai, 76, professor emérito da Universidade de Ciência de Tóquio, por trabalhos que ajudam a reproduzir de forma cada vez mais próxima em laboratório uma das características mais intrigantes das moléculas dos seres vivos: sua predileção ferrenha por um só lado.</p>
<p>Conhecida como homoquiralidade, essa orientação espacial preferencial faz com que, por exemplo, todos os aminoácidos (componentes básicos das proteínas) presentes naturalmente nas nossas células, e em todas as demais células animais, vegetais e microbianas, entre outras, sejam estruturalmente “canhotos”, orientados para o lado esquerdo.</p>
<p>É perfeitamente possível produzir aminoácidos que sejam imagens especulares dos naturais, orientados para a direita, como se o par de moléculas correspondesse às mãos direita e esquerda de uma pessoa. É daí que deriva o termo “quiralidade”, a partir da palavra grega para “mão”.</p>
<p>No entanto, se moléculas com a orientação errada forem usadas como fármacos, por exemplo, sua presença no organismo será totalmente inócua, já que ele não “saberá” como metabolizá-las, ou mesmo nociva. Foi o que aconteceu nos anos 1960 com o escândalo da talidomida, remédio para enjoo durante a gravidez que acabou produzindo defeitos congênitos em bebês.</p>
<p>Faz muito sentido, portanto, tentar entender e controlar a homoquiralidade, seja para aumentar a segurança e a eficácia farmacêutica, seja para compreender os passos que levaram as moléculas da vida a ganharem apenas uma orientação espacial.</p>
<p>Kagan e Soai deram passos importantes nesse sentido, desenvolvendo tipos de reações químicas que aumentam significativamente a quiralidade “correta”. Soai, em especial, desenvolveu uma reação autocalítica (na qual a molécula responsável por acelerar a reação produz mais cópias de si mesma) que, em seus estágios finais, produz praticamente apenas moléculas com a mesma orientação, e não com orientações misturadas.</p>
<h2><strong>Literatura: canta, ó musa</strong></h2>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="1140" height="630" class="aligncenter size-full wp-image-588473" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-literatura-2026-10-1140.webp" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-literatura-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-literatura-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-literatura-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-nobel-literatura-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><span class="media-credits-inline">Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach </span>Num ano em que o diretor Christopher Nolan e sua adaptação da <em>Odisseia</em> fez o mundo aparentemente voltar a prestar atenção nos múltiplos significados da Grécia antiga, o Prêmio Nobel em Literatura ficou com uma autora que se dedica a reimaginar esse legado.</p>
<p>Com efeito, a canadense Anne Carson, poeta, ensaísta e tradutora de 76 anos, não precisou pensar muito nem deu detalhes ao falar do que a inspira: “Homero”, declarou em entrevista ao site do Nobel pouco depois do anúncio de sua premiação. Ela disse ainda que seu lema como escritora é “Comece pelo meio” – uma possível brincadeira com a técnica literária clássica conhecida como <em>in medias res</em> (algo como “no meio das coisas”), técnica usada pelo próprio Homero e outros poetas épicos da Antiguidade, que preferiam jogar o leitor ou ouvinte diretamente no meio da ação, em vez de narrar fatos cronologicamente.</p>
<p>O trabalho de Carson “é uma obra ousada e inventiva que, em diálogo brincalhão com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”, declarou o comitê do Nobel ao anunciar o prêmio. Ao longo da vida, a canadense combinou o trabalho acadêmico (ela fez graduação, mestrado e doutorado em letras clássicas na Universidade de Toronto, além de ensinar literatura grega antiga em diferentes universidades de seu país natal e dos EUA) com uma produção artística híbrida e fragmentada, na qual nem sempre é fácil identificar a separação entre poesia, ensaio e narrativa de ficção.</p>
<p>O comitê do Nobel destaca sua sensibilidade de filóloga, partindo da etimologia das palavras desde seu primeiro livro, o ensaio <em>Eros, o doce-amargo</em> (a palavra composta traduz o termo grego <em>glykýpikron</em>, usado pela poeta Safo, que viveu por volta de 600 a.C.). Ela reinventou o confronto entre o herói Hércules e o gigante Gerião como uma história de amor destrutiva em <em>Autobiografia do Vermelho</em> e traduziu e/ou recriou dez tragédias gregas antigas, entre as quais <em>Electra</em> e <em>Antígona</em>, ambas do ateniense Sófocles (século V a.C.).</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A encruzilhada depois do doutorado</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/a-encruzilhada-depois-do-doutorado/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=a-encruzilhada-depois-do-doutorado</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Eduardo Geraque]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Oct 2026 12:03:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Política C&T]]></category>
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					<description><![CDATA[O dilema dos jovens pesquisadores, muitas vezes, fica entre caminhos instáveis e a fuga das universidades]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Um momento decisivo da vida acadêmica é quando o pes­quisador termina o doutorado. Para um número crescente de jovens pesquisadores, a questão é achar um caminho factível depois dele. Nos últimos anos, quem é recém­-doutor tem de lidar com opções escassas. De um lado, as vagas permanentes em universidades e institutos de pes­quisa não são suficientes para absorver a todos. De outro, ao menos em países como o Brasil, há um relativo desin­teresse do setor privado na formação dessas pessoas. Há ainda a chance de fazer um pós-doutorado, caminho que também é temporário, durando apenas alguns anos.</p>
<div class="box-lateral"><strong>Sobre o estudo<br />
</strong><strong>1,3 milhão</strong> de publicações científicas analisadas</p>
<p>Publicadas entre <strong>2005 e 2020</strong></p>
<p><strong>Circulação, não fuga</strong><br />
Dos brasileiros com experiência internacional no exterior <strong>68% retornaram</strong> para o Brasil</p>
<p><strong>Poucos, mas produtivos</strong><br />
Só 15% dos pesquisadores tiveram experiência internacional, mas eles foram responsáveis por <strong>59%</strong> de toda a produção científica analisada<br />
</div>
<p>“O pós-doc não é exatamente uma alternativa à carreira acadêmica, mas faz parte dela”, diz Stevens Rehen, pro­fessor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor). O neurocientista tem décadas de experiência com proje­tos que unem os setores público e privado. “O que estamos vendo hoje, no Brasil e fora dele, é que esse período deixou de ser uma etapa de transição relativamente curta e passou a funcionar, muitas vezes, como um período prolongado e inevitável da formação, mas também de incerteza.”</p>
<p>A consequência de todo esse processo é uma geração que vive entre bolsas temporárias, vínculos frágeis e deci­sões profissionais cada vez mais difíceis. É possível conti­nuar procurando vagas de pós-doutorado em diferentes instituições, por exemplo, já que não há um limite para o número desses projetos de pesquisa, mas não se trata de uma solução de longo prazo. Para muitos jovens pes­quisadores, a escolha tem sido entre permanecer nesse ciclo sem muita saída ou buscar caminhos fora da uni­versidade — no setor privado, no empreendedorismo, no serviço público ou no exterior.</p>
<p>O fenômeno é global. Reportagem publicada em junho de 2025 na <em>Nature</em>, assinada por Diana Kwon, apontava que o número de doutores formados no mundo cresceu em ritmo muito superior à oferta de vagas na academia — cenário que vem pressionando universidades a repensar o modelo tradicional de formação de PhDs.</p>
<p>Países como China e Índia lideram essa expansão. No gigante asiático, por exemplo, o número de estudantes matriculados em programas de doutorado dobrou em uma década: passou de cerca de 300 mil, em 2013, para mais de 600 mil, em 2023. O crescimento é impulsionado pela ampliação do acesso ao ensino superior e pela percepção de que títulos acadêmicos aumentam as chances de ascen­são social e econômica. A pergunta “Onde você estudou?” entre os chineses é, muitas vezes, fundamental.</p>
<p>O problema é que o mercado acadêmico não acompa­nhou esse avanço. O número de vagas em universidades e centros de pesquisa cresce em ritmo muito menor do que o contingente de doutores formados. Muitos estu­dantes ainda entram no doutorado pensando exclusiva­mente em uma carreira universitária, embora a realidade atual seja marcada por forte competição e poucas opor­tunidades permanentes na academia.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/mobilidade-internacional-pesquisadores-brasileiros-desktop.png" data-tablet_size="670x600" alt="Gráfico mostra que só 15% dos pesquisadores brasileiros têm experiência internacional, a maioria em apenas um país">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP</span>
<p>Nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália, a maior parte dos doutores já trabalha fora do ambiente acadêmico. Uma pesquisa feita no país europeu com mais de 4.500 doutores, ainda segundo a <em>Nature</em>, mostrou que mais de dois terços atuam em empregos não acadêmicos. Em muitos casos, esses profissionais acabam em funções pouco relacionadas à área de especialização desenvolvida durante o doutorado.</p>
<p>Na África do Sul, por exemplo, 18% dos doutores entre­vistados em uma pesquisa afirmaram ter dificuldade para encontrar empregos ligados à própria área de exper­tise. Parte deles relata a sensação de sobrequalificação e subaproveitamento profissional.</p>
<p>Apesar disso, a satisfação geral com a carreira perma­nece relativamente alta: mais de 90% dos doutores bri­tânicos disseram estar satisfeitos com o trabalho atual. A diferença aparece principalmente entre áreas. Forma­dos em ciências e tecnologia tendem a encontrar mais posições ligadas à pesquisa e inovação, enquanto profis­sionais das áreas de humanas e artes enfrentam maior dificuldade de inserção em empregos diretamente conec­tados ao doutorado.</p>
<p>O texto também levanta uma questão cada vez mais presente no debate internacional: o doutorado ainda traz vantagens salariais claras em relação ao mestrado? Um estudo citado pela reportagem mostra que doutores bri­tânicos, em média, ganham mais por hora do que mes­tres — mas isso não ocorre em todas as áreas. Em cam­pos como direito, economia e gestão, doutores chegaram a receber ligeiramente menos do que profissionais que tenham apenas mestrado. Quando o tempo de experiên­cia profissional é considerado, mestres passam a apresen­tar rendimento médio um pouco superior.</p>
<p>Diante desse cenário, pesquisadores e formuladores de políticas públicas defendem uma reformulação dos programas de doutorado. A ideia é que eles deixem de funcionar apenas como treinamento para a carreira uni­versitária e passem a preparar estudantes para diferen­tes setores da economia. Países como Japão, Alemanha e Reino Unido já começaram a implementar mudanças, incluindo estágios remunerados em empresas e modelos de “doutorado industrial”, realizados em parceria com o setor privado.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/paises-destino-doutores-formados-brasil-2013-2024-desktop.png" data-tablet_size="1140x680" alt="Mapa-múndi com os países de destino de doutores formados no Brasil entre 2013 e 2024, liderados por EUA, Colômbia e Alemanha">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP</span></div><div class="post-content sequence">
<p>As habilidades desenvolvidas durante o doutorado — como pensamento crítico, capacidade analítica e inovação — continuam valiosas no mercado, mas as universidades precisam adaptar a formação à nova realidade profissio­nal dos doutores. Inclusive no Brasil, como afirma Eliza­beth Balbachevsky, especialista em políticas públicas e ensino superior. “A pós-graduação brasileira ainda é muito calcada na lógica do produto acadêmico”, afirma.</p>
<p>Segundo a cientista social da Universidade de São Paulo (USP), embora a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pes­soal de Nível Superior (Capes) tenha começado a demons­trar preocupação com o destino profissional dos egressos, o sistema continua fortemente orientado para a repro­dução da própria carreira acadêmica. “Uma pós-gradua­ção que só pensa na formação dos futuros acadêmicos é uma coisa do século passado. Não existe mais.” Uma abor­dagem que busca enfrentar esse problema é a criação de mestrados e doutorados profissionais, os quais enfatizam, por exemplo, consultorias e estágios aplicados em empre­sas ou órgãos públicos.</p>
<p>Para a pesquisadora, o problema não está ape­nas no número limitado de vagas universitárias, mas em uma lógica histórica, que formou doutores quase exclusivamente para permanecer dentro da própria uni­versidade. “Você entra numa dinâmica autofágica do sis­tema”, afirma.</p>
<p>O desafio se torna ainda mais evidente porque a pes­quisa acadêmica é cara e, por definição, não consegue se expandir indefinidamente. Sem canais robustos de absor­ção em empresas, instituições públicas, terceiro setor ou ecossistemas de inovação, parte dos pesquisadores acaba presa em trajetórias profissionais precárias ou pouco conectadas à produção de conhecimento.</p>
<p>Balbachevsky avalia que o país avançou pouco em polí­ticas voltadas à formação continuada e à integração entre pós-graduação e outros setores da sociedade. Em países europeus, por exemplo, universidades de ciências apli­cadas e programas de requalificação profissional aproxi­mam pesquisa, Estado e mercado de trabalho. No Brasil, esse espaço permanece fragmentado.</p>
<h2><strong>O setor privado ainda pesquisa pouco</strong></h2>
<p>Toda a complexidade da vida de quem sai do doutorado também revela uma característica estrutural da econo­mia brasileira: o baixo investimento privado em pesquisa e desenvolvimento. Em economias mais intensivas em inovação, deixar a universidade não significa necessaria­mente abandonar a ciência. Empresas de tecnologia, far­macêuticas, centros de pesquisa aplicada e startups absor­vem parte importante dos doutores. No Brasil, essa ponte ainda é limitada, apesar de algumas áreas, como a do agro­negócio, chegarem a encaminhar algumas soluções.</p>
<p>Isso ajuda a explicar por que muitos pesquisadores enxergam o exterior como alternativa mais atraente. Além de salários mais altos, universidades e centros interna­cionais oferecem infraestrutura mais robusta, redes glo­bais de colaboração e maior previsibilidade institucional.</p>
<p>Mesmo assim, a chamada “fuga de cérebros” talvez não seja o conceito mais adequado para entender o fenômeno atual. Um estudo publicado na edição de 2 de abril deste ano da revista <em>Quantitative Science Studies </em>analisou mais de 1,3 milhão de publicações científicas de pesquisado­res brasileiros das áreas de saúde e ciências da vida entre 2005 e 2020. O levantamento mostrou que 68% dos cien­tistas brasileiros que tiveram experiência internacional retornaram ao país.</p>
<p>Os dados ajudam a fortalecer uma ideia que vem ganhando espaço no debate internacional segundo o neu­rocientista Stevens Rehen: a da “circulação de cérebros”. O problema não seria simplesmente sair do país, mas a capacidade — ou incapacidade — de transformar mobi­lidade internacional em ganho científico, tecnológico e econômico para o sistema nacional.</p>
<p>O estudo traz outro dado revelador: embora apenas 15% dos pesquisadores analisados tenham tido expe­riência internacional, eles responderam por 59% das publicações científicas.</p>
<p>“Isso sugere que a mobilidade é um ativo desde que exista um ecossistema doméstico capaz de capitalizar essas conexões”, afirma Rehen. “Sem isso, a circulação tende a se converter, na prática, em perda.”</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/fluxos-migratorios-pesquisadores-brasileiros-2020-2025.jpeg" data-tablet_size="2222x1219" alt="Gráfico compara destinos e origens de pesquisadores brasileiros entre 2020 e 2025, com os EUA liderando nos dois fluxos">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Thea Severino / Revista Pesquisa FAPESP</span>
<h2><strong>Empreender com ciência profunda</strong></h2>
<p>Nesse cenário, o empreendedorismo científico passou a aparecer como alternativa possível para parte dos pesqui­sadores. O crescimento de startups de biotecnologia, de soluções para saúde e iniciativas de <em>deep tech </em>(que buscam transformar descobertas científicas relevantes em tecnolo­gias que possam ser patenteadas) abriu novas perspectivas para doutores interessados em transformar pesquisa em produto. Mas o caminho está longe de ser simples.</p>
<p>“O empreendedorismo é um caminho possível, mas ainda bastante desafiador no contexto brasileiro, especialmente nas áreas biológica e biomédica”, explica Rehen.</p>
<p>Segundo o cientista brasileiro, existe um desalinhamento estrutural entre o tempo da ciência e a lógica predominante do mercado financeiro. Enquanto investidores acostumados ao universo digital esperam retornos rápidos, pesquisas científicas profundas exigem validação experimental, tes­tes regulatórios e ciclos longos de maturação. “Isso torna o ambiente menos favorável para iniciativas de <em>deep tech </em>e acaba desestimulando parte dos pesquisadores”, diz.</p>
<p>Na prática, muitos cientistas precisam aprender simultaneamente pesquisa, gestão, captação de recursos e desen­volvimento de negócios — em um ecossistema que ainda é marcado por burocracia, financiamento instável e baixa integração entre universidade e setor privado.</p>
<h2><strong>A decisão individual</strong></h2>
<p>Por trás dos indicadores, existe também uma dimensão pessoal difícil de medir em estatísticas.</p>
<p>A trajetória prolongada de formação frequentemente empurra decisões fundamentais da vida adulta para mais tarde. Estabilidade financeira, planejamento familiar e consolidação profissional acabam adiados por anos. “O ponto crítico costuma aparecer na transição entre o dou­torado e os primeiros anos de pós-doc”, diz Rehen. “A dife­rença entre permanecer ou sair do país deixa de ser ape­nas uma questão vocacional e passa a ser, cada vez mais, uma questão estrutural, de perspectiva de vida.”</p>
<p>Balbachevsky concorda que a nova geração já avalia a pós-graduação de maneira diferente. “O jovem hoje olha para o mundo e pergunta: ‘E aí? O que eu vou fazer?’.”</p>
<p>Para ela, o próprio conceito de formação precisa mudar. Em vez de enxergar educação como uma etapa encerrada no início da vida adulta, países mais desenvolvidos pas­saram a tratá-la como um processo contínuo, capaz de acompanhar diferentes momentos profissionais. O pós­-doc, hoje, ou mesmo o mestrado e o doutorado, voltou a ser opção para profissionais que deixaram a universidade há mais tempo. “O nosso departamento passou a receber, pouco tempo atrás, delegados da Polícia Federal e oficiais da polícia militar que fizeram mestrado em ciência política. É algo extremamente rico. É um item, inclusive, que pre­cisa entrar na avaliação da Capes”, pondera Balbachevsky.</p>
<p>Apesar das dificuldades, ambos os pesquisadores evitam uma visão totalmente pessimista. Há sinais de mudança dentro do sistema acadêmico brasileiro. Alguns programas de pós-graduação já tentam oferecer uma formação mais flexível, aproximando alunos do setor público, de empre­sas e de trajetórias profissionais diversas.</p>
<p>Do ponto de vista da sociedade, segundo Balbachevsky, o ganho existe em diferentes caminhos. “Uma pós-gra­duação polivalente, que produza pessoas para a vida aca­dêmica e também para a vida profissional, é muito impor­tante para o país.” O desafio brasileiro talvez já não seja apenas formar cérebros. O problema passou a ser criar condições para que eles consigam circular, permanecer, inovar e produzir conhecimento sem transformar a pró­pria carreira em um exercício permanente de incerteza, em tempos em que o aprendizado se torna obsoleto em anos, mas o conhecimento e a experiência vão se acumu­lando ao longo da vida profissional.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Cannabis e saúde mental: promessas e lacunas nas evidências</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/cannabis-medicinal-promessas-e-lacunas-nas-evidencias/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=cannabis-medicinal-promessas-e-lacunas-nas-evidencias</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luna D’Alama]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Oct 2026 12:55:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Capa]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Farmacologia]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Pública]]></category>
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					<description><![CDATA[Maior revisão já feita sobre o tema vê sinais promissores, mas pede estudos mais amplos e rigorosos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>As evidências sobre o uso medicinal de canabinoides em transtornos mentais ainda são escassas para a maioria das indicações e faltam estudos mais consistentes, com amos­tras maiores. Há sinais promissores para insônia, trans­torno do espectro autista (TEA), síndrome de Tourette e transtorno por uso de cannabis, mas a qualidade geral das evidências é baixa ou muito baixa, e o uso rotineiro des­ses produtos seria “raramente justificado” com base nos resultados disponíveis. As conclusões são da maior revi­são sistemática de estudos clínicos randomizados já feita sobre o tema, conduzida por pesquisadores das universi­dades de Sydney, Queensland e Melbourne, na Austrália, e Bath, no Reino Unido.</p>
<p>Publicada em março na revista <a href="https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(26)00015-5/fulltext" target="_blank" rel="noopener"><em>The Lancet Psychiatry</em></a>, a metanálise avaliou a eficácia e a segurança desses com­postos — derivados da planta <em>Cannabis sativa</em>, como o canabidiol (CBD) e o tetra-hidrocanabinol (THC) — em 54 ensaios publicados entre 1980 e 2025, com 2.477 partici­pantes, acompanhados por cerca de cinco semanas.</p>
<div class="box-lateral"><strong>SAÚDE MENTAL</strong><br />
A revisão analisou 54 ensaios clínicos, com 2.477 participantes, acompanhados por cerca de cinco semanas — o escopo da maior metanálise já feita sobre canabinoides</p>
<p><strong>OMS</strong><br />
Mais de 1 bi de pessoas vivem hoje no mundo com problemas de saúde mental<br />
</div>
<p>Segundo o artigo, não foram observadas comprovações significativas da eficácia do uso medicinal de canabinoides contra ansiedade, anorexia nervosa, transtornos psicóti­cos, transtorno de estresse pós-traumático e transtorno por uso de opioides. Também não havia dados suficientes para avaliar seus efeitos em casos de transtorno de défi­cit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno bipo­lar, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e transtorno por uso de tabaco. Com a metodologia adotada, os auto­res tampouco localizaram ensaios clínicos randomizados sobre depressão, um dos transtornos mentais mais pre­valentes do mundo. De acordo com a Organização Mun­dial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas vivem com problemas de saúde mental.</p>
<p>“A metanálise não demonstra que os canabinoides não funcionam para os transtornos mentais. Na verdade, ela indica que, para uma parcela importante dessas condi­ções, ainda não temos evidências clínicas suficientes para afirmar que funcionam e, principalmente, para recomen­dar seu uso rotineiro”, pondera Lucindo José Quintans Júnior, professor titular do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e coordenador do Laboratório de Neurociências e Ensaios Farmacológi­cos (Lanef). O mesmo vale para a segurança. “O estudo não mostrou que os canabinoides são perigosos. Mostrou que produzem eventos adversos e que esse custo precisa ser colocado na balança diante de benefícios que, para mui­tas indicações psiquiátricas, continuam incertos.”</p>
<p>Essa assimetria — um evento adverso adicional a cada sete pacientes tratados, sem eficácia demonstrada — jus­tifica a cautela dos autores, avalia José Luiz da Costa, coor­denador do Centro de Informação e Assistência Toxicoló­gica de Campinas (Ciatox), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). E o resultado tem precedente. “O mesmo grupo australiano publicou uma metanálise seme­lhante em 2019, na própria <em>The Lancet Psychiatry</em>, com conclusões semelhantes: sete anos e dezenas de ensaios depois, o que cresceu foi o volume da base de evidências, não a sua qualidade”, diz.</p>
<p>A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Uni­versidade de São Paulo (FMRP-USP) teve sete trabalhos incluídos na revisão. O grupo do Departamento de Neu­rociências e Ciências do Comportamento investiga o tema há décadas, em estudos pré-clínicos e clínicos, boa parte sob liderança do psiquiatra e neurocientista José Alexan­dre Crippa. Para ele, a revisão aponta sinais promisso­res em alguns transtornos, mas confirma a necessidade de ensaios maiores, bem controlados, com doses defini­das, formulações padronizadas e acompanhamento mais longo. “A revisão não fala em evidências definitivas que possam ser usadas agora na prática clínica, embora aponte para alguma permissividade futura”, avalia. O pesquisa­dor liderou recentemente um ensaio clínico randomi­zado com canabidiol em pacientes com Covid-19, finan­ciado pela FAPESP.</p>
<p>No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) auto­riza, desde 2022, o uso medicinal do óleo de canabidiol ape­nas contra formas graves de epilepsia refratária na infân­cia e na adolescência e em pacientes com síndromes como Dravet, Doose e Lennox-Gastaut, além de esclerose tube­rosa — condições fora do escopo da nova revisão, mas cujo tratamento com canabidiol encontra respaldo em ensaios clínicos randomizados. Em países como Canadá, Uruguai e Portugal, a prescrição é permitida para outras condições. “O que falta no meio do caminho, entre o CFM, o médico e o paciente, são estudos que comprovem a eficácia dessas medicações e autorizem suas prescrições”, afirma Crippa.</p>
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP</span>
<h2><strong>Mercado à frente da ciência</strong></h2>
<p>Embora o debate sobre o uso medicinal da <em>Cannabis sativa </em>tenha ganhado força nos últimos anos, os pesquisadores consideram que a produção de evidências clínicas ainda não acompanhou o ritmo de expansão do mercado.</p>
<p>“O apelo popular e o da indústria fizeram os produtos à base de cannabis chegar às farmácias antes das evidên­cias, que ainda estão sendo construídas pela ciência”, ana­lisa o psiquiatra José Diogo Souza, da FMRP-USP. Segundo ele, as publicações sobre canabidiol cresceram, mas os ensaios clínicos são recentes e envolvem grupos pequenos de pacientes. “Precisamos de mais pesquisas em huma­nos, de fases 2, 3 e 4”, afirma.</p>
<p>Quintans Júnior faz uma leitura semelhante. “O entu­siasmo clínico e comercial correu mais depressa que os ensaios clínicos. Agora cabe à boa ciência alcançar o que a prática já colocou na rua. Até lá, a posição cientificamente mais correta não é condenar nem celebrar os canabinoi­des”, recomenda.</p>
<p>O descompasso entre uso e conhecimento preocupa o psiquiatra Luís Fernando Tófoli, coordenador do Labo­ratório de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoati­vos (Leipsi) da Unicamp. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e um estudo de seu grupo, publicado em 2025 no <em>International Journal of Drug Policy</em>, “apontam que transtornos mentais estão entre as prin­cipais razões para o uso medicinal de cannabis, embora sejam justamente algumas das indicações para as quais tenhamos evidências mais fracas”, diz. O levantamento, com 1.335 pacientes ou cuidadores, identificou cinco per­fis de usuários — sinal de que não existe um único perfil de paciente e de que é preciso formular perguntas clíni­cas mais específicas, em vez de misturar pacientes, pro­dutos e indicações. Para ele, “não há base para uso roti­neiro, mas há necessidade de mais pesquisa, não de um encerramento da questão”.</p>
<p>Crippa ressalta que esse cenário não significa a ausência de pesquisas nacionais. O grupo da FMRP-USP é pioneiro na testagem de canabidiol em transtornos como esquizo­frenia, ansiedade patológica e doença de Parkinson e, mais recentemente, passou a investigar aplicações no TOC e no TEA, além de novas formulações combinando diferentes canabinoides. Muitos desses estudos ficaram fora da revi­são por não usarem placebo ou não atenderem a outros critérios dos autores. A transição para grandes ensaios clínicos, sugere o psiquiatra, depende de mais investi­mentos. “Os estudos universitários são iniciais, peque­nos, limitados e com poucos recursos. Apontamos uma direção para que, posteriormente, o mercado possa avan­çar de outras formas. Esse é o papel da indústria, e o lucro que as farmacêuticas teriam já justificaria conduzir essas pesquisas”, analisa.</p>
<blockquote><p>O atual interesse pelo uso medicinal de canabinoides ganhou impulso com o caso de Charlotte Figi, menina norte-americana com síndrome de Dravet cujas crises convulsivas diminuíram após o início do tratamento com um extrato rico em CBD. A história ganhou projeção internacional em 2013, quando foi apresentada no documentário <em>Weed</em>, da CNN</p></blockquote>
<h2><strong>Limites da revisão e expansão do mercado</strong></h2>
<p>Nem todos os pesquisadores, porém, interpretam a revi­são da <em>The Lancet Psychiatry </em>da mesma forma. Para o neu­rocientista Sidarta Ribeiro, um dos fundadores do Insti­tuto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a metanálise é bem-vinda, mas reúne estu­dos diversos, o que dificulta conclusões definitivas. “Ela junta estudos com canabidiol e THC isolados, combinados, óleo, extrato, diferentes doses, formulações, vias de admi­nistração, duração dos tratamentos, e joga tudo no mesmo balaio. As amostras são pequenas, há disparidade de gêne­ros”, afirma. Produzir ensaios em larga escala, acrescenta, é caro e exige “interesse da sociedade, das universidades e dos cientistas”.</p>
<p>Enquanto a produção de evidências avança lenta­mente, o mercado de produtos derivados da cannabis cresce de maneira rápida. No Brasil, o acesso ocorre por vias regulamentadas pela Anvisa: medicamentos regis­trados, produtos de cannabis com autorização sanitária e importação para uso próprio mediante prescrição. A agência registra um medicamento à base de canabidiol e THC para a espasticidade da esclerose múltipla, além de 52 produtos de cannabis autorizados. Entre 2015 e 2025, o número de autorizações para uso de canabinoides sal­tou de 850 para 194.682, aumento de quase 230 vezes. Segundo o <em>Anuário da Cannabis Medicinal 2025</em>, da con­sultoria <a href="https://www.kayamind.com/relatorios/" target="_blank" rel="noopener">Kaya Mind</a>, o mercado movimentou quase R$ 1 bilhão no ano passado.</p>
<p>Para a farmacêutica Priscila Gava Mazzola, da Facul­dade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp, a revisão é abrangente e metodologicamente rigorosa, mas deixa cla­ras as limitações das evidências. “As amostras são pequenas e pouco representativas, há uma disparidade em relação a pacientes do sexo masculino. Quase metade dos estudos apresentou alto risco de viés, e em 20% ele estava relacio­nado a conflitos de interesse com a indústria. Quando os autores retiram das análises de sensibilidade esses estu­dos, vários efeitos positivos desaparecem ou perdem sig­nificância estatística”, argumenta. Ela destaca como ponto positivo o fato de a revisão analisar separadamente CBD isolado, THC isolado e a combinação dos dois, mas chama a atenção para a curta duração dos estudos e para a ausên­cia de ensaios sobre depressão, uma das principais razões para o uso medicinal da cannabis. Os resultados, avalia, não autorizam concluir que os canabinoides sejam inefi­cazes. “Não curam nenhuma doença, mas podem aliviar sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.”</p>
<p>Separar os compostos importa porque combi­ná-los nem sempre soma benefícios. Em estudo com camundongos apoiado pela FAPESP, na Uni­camp, o doutorando Alexandre Barcia de Godoi comparou CBD e canabigerol (CBG), isolados e associados, em modelo de crises convulsivas. O CBD repe­tido protegeu os animais mesmo 24 horas após a última dose, o CBG teve eficácia limitada e a combinação, em doses equivalentes, associou-se a crises mais graves. “A premissa de que combinações de canabinoides seriam intrinseca­mente superiores aos compostos isolados não se sustentou nas condições testadas. Controle de composição não é deta­lhe técnico: é variável determinante de eficácia e de segu­rança, com implicação direta sobre os produtos de ‘amplo espectro’ disponíveis no mercado”, explica Godoi.</p>
<p>Publicar esse tipo de resultado é uma escolha delibe­rada, diz Costa. “O campo está espremido entre o entu­siasmo militante e o ceticismo reflexo, e nenhum dos dois favorece a boa ciência. Resultados negativos ou incômo­dos tendem a ser menos publicados, o que enviesa as revi­sões sistemáticas seguintes. Achados negativos bem con­duzidos são tão necessários quanto os positivos para que o campo saia do impasse.”</p>
<p>Os entraves vão além. “O maior obstáculo continua sendo o preconceito contra a própria pesquisa com can­nabis. Parte da falta de evidência existe porque, durante décadas, foi difícil estudar essas substâncias, e ainda há barreiras regulatórias, institucionais e financeiras para obter produtos padronizados e realizar ensaios maiores”, pontua Tófoli.</p>
<p>Além das limitações dos ensaios clínicos, pesquisado­res destacam que a área ainda enfrenta uma lacuna funda­mental: o conhecimento sobre os mecanismos de ação dos fitocanabinoides permanece incompleto. Essa limitação dificulta compreender por que alguns compostos parecem beneficiar determinados pacientes ou transtornos, mas não outros, e torna mais difícil projetar estudos clínicos capazes de responder a essas questões. Para o neurologista Esper Abrão Cavalheiro, professor emérito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o problema começa antes: como se conhece pouco a causa da maioria dos transtor­nos neuropsiquiátricos, os tratamentos miram os sinto­mas mais visíveis, e um mesmo diagnóstico reúne pacien­tes com causas distintas. Ele lembra que o uso recente dos canabinoides começou “quase por acaso”, com o caso de Charlotte Figi, menina norte-americana com síndrome de Dravet cujas crises diminuíram com uma formulação arte­sanal rica em CBD, divulgado pela CNN em 2013. “Do uso no controle das crises epilépticas ao uso em outras doenças neurológicas e psiquiátricas, foi apenas questão de anos — uma expansão que, na maioria das vezes, se deu por pres­são popular e midiática”, afirma.</p>
<p>Para Quintans Júnior, é preciso mudar de escala. “A pergunta já não pode ser apenas ‘Cannabis funciona ou não funciona?’. Ela ficou pequena. Precisamos saber qual canabinoide, para qual doença, em qual formulação, dose, mecanismo e paciente. É esse refinamento que pode transformar um uso terapêutico milenar em evidência moderna, segura e capaz de dialogar com as políticas e recomendações em saúde.”</p>
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		<title>Pesquisadores redesenham o mapa dos efeitos do El Niño na agricultura</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/pesquisadores-redesenham-o-mapa-dos-efeitos-do-el-nino-na-agricultura/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=pesquisadores-redesenham-o-mapa-dos-efeitos-do-el-nino-na-agricultura</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Emilio Sant’Anna]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Oct 2026 14:13:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Genética]]></category>
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					<description><![CDATA[Pesquisadores redesenham mapa dos diferentes efeitos que o El Niño deve ter na agricultura do país]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os efeitos do El Niño vão além dos limi­tes das cidades. No campo, ele redis­tribui a chuva e o calor e redesenha o mapa da produção agrícola brasileira. O setor é responsável por 25% do PIB nacional. Na safra 2023/2024, a pro­dução de grãos caiu 21,4 milhões de toneladas, período em que o fenômeno climático atingiu em cheio o país. Os números são, respectivamente, da Confederação da Agricultura e Pecuá­ria do Brasil (CNA), em levantamento com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), e da Companhia Nacional de Abasteci­mento (Conab). Ganhos e perdas no agro, porém, dependem de uma série de variáveis e do nível de adaptação.</p>
<p>Distribuição de chuvas, localização, fase de desenvolvimento da planta, capacidade do solo de armazenar e dre­nar água, genética e manejo são fatores que entram nessa equação. Para avaliar essas condições e se antecipar aos efei­tos do fenômeno climático, um arse­nal científico auxilia os agricultores.</p>
<p>O El Niño se caracteriza pelo aqueci­mento das águas superficiais do oceano Pacífico na região equatorial. As conse­quências são as mudanças dos padrões de circulação das correntes marítimas e das massas de ar, o que leva a reper­cussões distintas ao redor do planeta (<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/Pesquisa-FAPESP-365-El-Nino.pdf" target="_blank" rel="noopener">veja infográfico</a>). As preocupações com eventos extre­mos que o fenômeno pode trazer aumentaram no início de setembro, com o anúncio do Centro de Previsão Climática (CPC), dos Estados Unidos, ligado à Administração Nacional Oceâ­nica e Atmosférica (Noaa, na sigla em inglês). A probabilidade de o El Niño atingir a categoria “muito forte” entre o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/2027 supera 90%. A possibilidade de alcançar intensidade maior que a dos episódios registrados desde 1950 é de 75%.</p>
<p>Este é um cenário que abre dois caminhos para grande parte dos pro­dutores: adaptação ou perdas de pro­dutividade e econômicas. “Para nós, fornecedores de cana, um El Niño forte significa que as mudanças climá­ticas vão afetar diretamente o nosso negócio e o nosso bolso. A colheita pode ser prejudicada, caso as chu­vas atrapalhem a moagem, afetando o teor de sacarose da cana”, afirma Francisco César Urenha, diretor­-presidente executivo da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Copercana).</p>
<p>No Brasil, os reflexos variam entre as regiões. No Sul, o fenômeno climá­tico tende a aumentar o volume e a frequência das chuvas e dos eventos extremos, como em 2024, quando mais de 2 milhões de pessoas foram atingidas por enchentes. No Norte e no Nordeste, favorece as secas na Amazônia e no interior nordestino. As imagens dos leitos quase secos dos rios amazônicos, no mesmo ano, ainda não desapareceram da memó­ria coletiva. No Centro-Oeste e no Sudeste do país, temperaturas acima da média, ondas de calor e períodos de baixa umidade costumam ser resultados diretos do El Niño.</p>
<p>As alterações no clima, que usual­mente se dão em intervalos de dois a sete anos, levam para o agro bra­sileiro um cenário condicionado por uma série de variáveis e que costuma se apresentar da seguinte forma: soja, milho de verão, pastagens e arroz irrigado podem ser favorecidos pela maior disponibilidade de água no Sul. Milho e feijão de sequeiro, pastagens e pecuária ficam mais expostos à falta de chuva no Norte e no Nordeste.</p>
<p>No Centro-Oeste, o atraso da esta­ção chuvosa diminui a janela do milho safrinha e ameaça a soja. Cana, café, citros, trigo, arroz e hortaliças ocu­pam uma faixa intermediária: podem ganhar em crescimento ou oferta de água e perder em qualidade, sanidade, radiação solar ou condições de colheita.</p>
<blockquote><p>“O El Niño não adiciona nem subtrai produtividade de forma uniforme pelo país. Ele redistribui água e energia, e o sinal do efeito em cada lavoura depende de qual era o fator limitante naquele sistema” — Fábio Marin, professor da Esalq-USP e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Sistemas Agrícolas</p></blockquote>
<p>Com produção concentrada no Cen­tro-Oeste, a soja é o produto agrícola de maior peso na balança comercial bra­sileira. Em 2025, respondeu por US$ 43,5 bilhões em exportações, segundo o Ministério da Agricultura. Conside­rando também farelo e óleo, foram US$ 52,9 bilhões. O milho é o segundo em volume de produção de grãos, com 139,7 milhões de toneladas na safra 2024/2025, de acordo com a pasta.</p>
<p>As duas culturas também ocu­pam os primeiros lugares no ran­king do valor da produção agrícola brasileira. Em 2025 foram R$ 927,2 bilhões, no total, segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), do IBGE. A soja respondeu por um terço, com R$ 315,2 bilhões e uma safra recorde de 165,3 milhões de toneladas, cres­cimento de 14,4% em relação ao ano anterior. O milho ocupou a segunda posição, com R$ 122,1 bilhões (13,2%). Na sequência, vieram a cana-de-açú­car, com R$ 108,9 bilhões (11,7%); o café, com R$ 100 bilhões (10,8%); e o algodão, com R$ 40,6 bilhões (4,4%). Laranja, arroz, mandioca e banana completaram o grupo das principais culturas, com participações de 2,5%, 2,1%, 2% e 1,8%, respectivamente, no valor total da produção.</p>
<p>Manter esses resultados neste ano depende de diferentes fatores. O solo faz parte dessa série de variá­veis. Segundo Carlos Eduardo Pelle­grino Cerri, professor da Escola Supe­rior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esal­q-USP), coordenador do <a href="https://cepid.fapesp.br/centro-de-estudos-de-carbono-em-agricultura-tropical" target="_blank" rel="noopener">Centro de Estudos de Carbono em Agricul­tura Tropical (CCarbon)</a>, um Cen­tro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID), da FAPESP, é preciso con­siderar a duração do ciclo da planta, textura, estrutura e profundidade do solo, drenagem, topografia e sistema de produção. Suas pesquisas ava­liam fatores ligados à capacidade da lavoura de atravessar tanto períodos secos quanto chuvas intensas.</p>
<p>Ele explica que áreas de cultivo que passam por preparo convencio­nal, plantio direto na palha ou siste­mas integrados não respondem da mesma maneira à mesma chuva. “O efeito depende não somente da cul­tura [exemplo: ciclo curto versus culturas anuais versus semiperenes ou perenes] mas também do tipo de solo [arenoso, argiloso ou textura média], da drenagem [usualmente mais bem estruturada quando prá­ticas de manejo sustentáveis são ado­tadas], da topografia [platô, encosta ou planície de deposição] e do sistema de produção”, afirma Cerri.</p>
<p>Soja, milho, mandioca e cana-de­-açúcar têm grande demanda hídrica. Plantadas em solo bem drenado, podem aproveitar uma estação mais chuvosa, especialmente quando a pre­cipitação coincide com as fases críticas do ciclo. Em solos compactados ou com drenagem ineficiente, porém, há queda da oxigenação das raízes, o que altera a absorção de nutrientes e pode favore­cer doenças e pragas. “Em geral, as mes­mas culturas que podem ser beneficia­das por um aumento de chuvas podem também sofrer efeitos adversos depen­dendo das condições edáficas [carac­terísticas do solo] de onde estão sendo cultivadas”, explica Cerri.</p>
<p>Isso ajuda a entender por que o El Niño pode ser associado a ganhos de produtividade em uma série his­tórica e, ao mesmo tempo, provocar prejuízo em propriedades com solo compactado, descoberto ou sujeito a alagamentos. Em uma superfície sem a cobertura adequada, a chuva rompe os agregados do solo, favorece a formação de crostas e aumenta o escoamento.</p>
<p>“Em geral, solos com maior teor de matéria orgânica [carbono orgânico do solo] tendem a ter maior capaci­dade de armazenar água e disponibi­lizá-la às plantas”, diz Cerri.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/desktop_el-nino-no-campo.jpg" data-tablet_size="1280x674" alt="Mapa do Brasil mostra os efeitos do El Niño sobre soja, milho, cana, trigo, café e outras culturas por região">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Ricardo Davino</span></div><div class="post-content sequence">
<h2><strong>Chuva demais no Centro-Sul, e de menos no Norte e no Nordeste</strong></h2>
<p>Além do solo, a localização e fase da cultura fazem parte da equação, diz Marco Aurélio Takita, pesquisador do Instituto Agronômico de Campi­nas (IAC) e coordenador do <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/119452/centro-de-inovacao-para-aumento-da-resiliencia-agricola-frente-aos-estresses-do-clima/" target="_blank" rel="noopener">Centro de Inovação para Aumento da Resiliência Agrícola Frente aos Estresses do Clima</a>, parte dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCD), da FAPESP. O núcleo pesquisa estratégias para rela­cionar clima, solo, manejo e genética e elevar a resiliência da produção.</p>
<p>Takita lembra que as previsões para o fim de 2026 indicam chuva acima da média no Centro-Sul e abaixo da média, principalmente, no Norte e no Nordeste, enquanto a temperatura tende a permanecer elevada em quase toda a América do Sul. “Esse padrão contrastante de chuva, somado às temperaturas acima da média, per­mite antecipar um quadro de redis­tribuição regional, e não de perda ou de ganho generalizado”, afirma.</p>
<p>A distribuição dos efeitos dá uma ideia do delicado equilíbrio que con­diciona o benefício a uma determinada cultura. Na região Sul do país, no sul de São Paulo e em Mato Grosso do Sul, a maior oferta de água na primavera e no verão tende a favorecer soja, milho e pastagens de sequeiro. No Rio Grande do Sul, o arroz irrigado pode se benefi­ciar da recomposição dos reservatórios.</p>
<p>O benefício, porém, não é automá­tico. No Sul, o efeito depende da esta­ção e da cultura. No verão, soja e milho de sequeiro tendem a ganhar com mais água, e a perda, quando ocorre, se manifesta menos como quebra de produtividade e mais como redução de qualidade e de dias úteis de operação, salvo quando o excesso de chuva cai na maturação e na colheita. No inverno é o contrário: trigo e aveia têm quebra de produtividade documentada.</p>
<p>Fábio Marin, professor da Esalq­-USP e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Sis­temas Agrícolas, reforça essa análise. Ele, que pesquisa séries históricas, indicadores agrometeorológicos, efeitos das mudanças climáticas na agricultura e modelos que simulam o desenvolvimento das culturas, diz que o “El Niño não adiciona nem subtrai produtividade de forma uni­forme pelo país”. “Ele redistribui água e energia, e o sinal do efeito em cada lavoura depende de qual era o fator limitante naquele sistema.”</p>
<p>Os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná estão na faixa do país em que a relação entre o fenô­meno climático, a chuva de primavera e verão e a produtividade é mais bem documentada. “No Sul, vale uma leitura honesta do que é esse ganho: boa parte dele é perda evitada”, diz Marin.</p>
<p>É uma constatação da importância da ciência para o setor. Para a soja, por exemplo, a chuva em excesso durante a germinação e o surgimento das plantas pode reduzir o número de plantas que se estabelecem na lavoura. Durante a maturação e a colheita, a umidade favo­rece a deterioração dos grãos e o apa­recimento de doenças. A avaliação do volume total de chuva, isoladamente, esconde diferenças. Para o milho, um veranico de 10 a 15 dias durante a fase reprodutiva pode causar mais dano do que um déficit hídrico maior, dis­tribuído em outros momentos. O calor em torno de 35 0C ameaça o pólen do milho e pode provocar abortamento de flores e vagens na soja. Com evaporação elevada, a planta fecha os estômatos e perde produtividade mesmo quando ainda existe água no solo.</p>
<p>No caso do arroz irrigado gaúcho, as chuvas podem garantir os reser­vatórios que serão utilizados, mas os períodos nublados reduzem a radia­ção solar e limitam o enchimento dos grãos. O trigo também pode perder no ambiente úmido: chuva no flo­rescimento favorece a giberela, uma doença causada por fungos. Além disso, perto da colheita, pode pro­vocar germinação na espiga e queda da qualidade comercial. O produtor pode ter mais volume de colheita e receber menos pelo produto.</p>
<p>Os efeitos se espalham pelo país. Nas regiões Norte e Nordeste, menos chuva aumenta os riscos para milho e feijão de sequeiro e para a pecuária. É fato, mas não certeza, que vá aconte­cer. Marin explica que a temperatura do oceano Atlântico na região tropi­cal sul, por exemplo, pode amenizar ou até anular parte dos efeitos nega­tivos no Nordeste.</p>
<p>As variáveis valem também para o Centro-Oeste, uma zona de tran­sição. Isso pode levar a mais dificul­dade na interpretação e prognóstico. O problema pode começar no calen­dário: se a estação chuvosa atrasa, a soja é semeada e colhida mais tarde, diminuindo a janela do milho de segunda safra. O El Niño pode, assim, comprometer uma cultura meses antes de seu plantio. O norte de Mato Grosso e o entorno da região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) também ficam expostos à combinação entre chuvas tardias e veranicos.</p>
<blockquote><p>Não existe hoje uma cana-de-açúcar imune a um super El Niño. Não há uma solução genética disponível contra encharcamento prolongado ou contra a redução de radiação provocada por longos períodos nublados</p></blockquote>
<h2><strong>A resposta vem dos genes</strong></h2>
<p>A genética também é uma variável que ajuda a definir benefícios ou pre­juízos às culturas agrícolas. Mariân­gela Cristofani-Yaly, pesquisadora do IAC e do <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/108950/estrategias-biotecnologicas-e-genomicas-para-qualidade-produtividade-e-manejo-sustentavel-de-citros-/" target="_blank" rel="noopener">CCD-Crop (Citrus, Coffee and Cane Research Organization for Inno­vative Products)</a>, estuda citros, café e cana-de-açúcar por meio de avalia­ções fisiológicas, genéticas e biotec­nológicas. O núcleo identifica mate­riais mais tolerantes aos estresses e investiga como diferentes genótipos respondem à seca, às altas temperatu­ras e à disponibilidade de água.</p>
<p>A cana-de-açúcar também mostra por que uma cultura pode ser favore­cida e prejudicada na mesma safra. Chu­vas bem distribuídas favorecem folhas, colmos e biomassa. “A cana-de-açúcar pode ser particularmente beneficiada pelo El Niño quando há maior dispo­nibilidade hídrica durante as fases de estabelecimento, perfilhamento e, principalmente, de crescimento vege­tativo intenso, período em que a cultura apresenta elevada demanda por água”, afirma Cristofani-Yaly.</p>
<p>Na maturação, a necessidade muda. Um período seco interrompe o crescimento vegetativo e favorece o acúmulo de açúcar. Chuva abundante pode atrasar esse processo, reduzir a concentração de sacarose e diminuir os dias disponíveis para a colheita e o processo de moagem. “Para a cana, não é apenas a quantidade de chuva que importa, mas a regularidade de uma oferta hídrica adequada nos períodos de maior crescimento e a escassez de chuvas no período de maturação”, diz a pesquisadora.</p>
<p>O Crop busca formas de reduzir as vulnerabilidades da cana. Nos últimos cinco anos, a equipe investigou genes relacionados à tolerância à seca, com­parou genótipos, estudou sua expres­são gênica e avaliou a alteração gené­tica. Os resultados foram plantas que mantiveram o crescimento sob estresse hídrico e acumularam mais biomassa. Parte das tecnologias está protegida por propriedade intelectual.</p>
<p>Isso não significa uma cana imune a um super El Niño. Segundo Sil­vana Creste, pesquisadora da Divi­são Avançada de Pesquisa e Desenvol­vimento de Cana, do IAC, não existe hoje solução genética disponível con­tra encharcamento prolongado ou contra a redução de radiação provo­cada por longos períodos nublados. “O melhoramento confere proteção consistente contra estresses de inten­sidade moderada, e atua sobretudo reduzindo a perda em anos desfavo­ráveis, mais do que elevando o teto produtivo em anos favoráveis”, diz.</p>
<p>Nos citros, o programa de porta­-enxertos teve resultados mais ime­diatos. Ensaios com diferentes com­binações de copa e porta-enxerto mostram que o material escolhido altera a capacidade de manter o sis­tema radicular ativo e fixar frutos sob altas temperaturas e evaporação ele­vada. Cristofani-Yaly cita três porta­-enxertos mais tolerantes à seca, IAC 3152 Itajobi, IAC 3299 Muriti e IAC 3222. Os dois primeiros já estão dis­poníveis para os produtores.</p>
<p>No café, floração, pegamento e desenvolvimento inicial dos fru­tos também são períodos sensíveis. A floração responde à distribuição das chuvas. Déficits prolongados ou umidade excessiva podem afetar o desenvolvimento reprodutivo. Em anos chuvosos, as perdas de qualidade também podem ocorrer na colheita, na secagem e na pós-colheita.</p>
<h2><strong>Equilíbrio delicado</strong></h2>
<p>A sanidade completa o quadro. Con­dições favoráveis ao crescimento das plantas podem ser benéficas, ao mesmo tempo, para organismos que reduzem a produção. “Os efeitos sobre o cresci­mento da planta e sobre sua sanidade acontecem ao mesmo tempo”, afirma Mário Eidi Sato, pesquisador do Insti­tuto Biológico e responsável pelo <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/113652/centro-de-manejo-sustentavel-de-pragas-doencas-e-plantas-daninhas/" target="_blank" rel="noopener">Cen­tro de Manejo Sustentável de Pragas, Doenças e Plantas Daninhas (Cemasu)</a>, outro CCD da FAPESP.</p>
<p>Para que uma doença se instale na planta é preciso que exista uma “condi­ção ideal”, ou seja, a coincidência entre patógeno, planta suscetível e ambiente favorável. Mais do que o volume men­sal de chuva, importa o tempo em que folhas, flores e frutos permanecem molhados. Chuvas repetidas prolon­gam as oportunidades de infecção.</p>
<p>Nos citros, as chuvas frequentes na florada favorecem a podridão flo­ral por espécies de fungo <em>Colletotri­chum </em>e a queda de frutos jovens. No café, o volume de água necessário ao desenvolvimento pode coincidir com condições favoráveis à ferrugem. Em hortaliças a céu aberto, a umidade prolongada das plantas e a drenagem deficiente favorecem doenças folia­res e podridões. Na cana, solo úmido pode beneficiar a cigarrinha-das-raí­zes, mesmo quando a água favorece o crescimento dos colmos. As pragas, por sua vez, podem reagir no sentido oposto. Calor e tempo seco favore­cem o bicho-mineiro do cafeeiro em determinadas regiões.</p>
<p>O clima interfere também nas fer­ramentas de controle. Temperatura, umidade e chuva alteram inimigos naturais, agentes biológicos e biopes­ticidas. O calor extremo pode compro­meter parasitoides e a baixa umidade limita a eclosão dos ovos de alguns ácaros predadores. A previsão sazo­nal prepara a estratégia, mas a deci­são operacional depende do micro­clima e do monitoramento da lavoura.</p>
<p>De acordo com o diretor-presidente executivo da Copercana, informação e planejamento são ferramentas das quais o produtor não pode abrir mão para enfrentar o fenômeno climático. “Os tratos culturais precisam ser feitos com mais planejamento. Os insumos precisam ser muito bem aplicados para não haver desperdício de pro­duto já que teremos solos encharca­dos”, afirma Francisco César Urenha. “O produtor precisa estar atento e bem informado para conduzir o seu cana­vial e evitar prejuízos.”</p>
<p>Dados de um projeto da CNA e do Serviço Nacional de Aprendiza­gem Rural (Senar), chamado Campo Futuro, reforçam o alerta de Urenha. Os resultados do programa aponta­ram um aumento de até 400% no custo de aplicação de fungicidas em regiões do Rio Grande do Sul durante anos de El Niño.</p>
<p>A mitigação de impactos como esse, em um cenário de fenômeno climá­tico muito forte, como se apresenta o El Niño neste ano com probabilidade cada vez maior, exige conservação do solo, planejamento climático e pro­teção financeira, diz Ana Lígia Lenat, coordenadora de Inteligência e Pro­jetos da CNA. “Apesar do comprovado valor técnico dessas soluções, uma parcela expressiva dessas medidas de adaptação permanece fora do alcance da maioria dos pequenos e médios produtores rurais. O principal obstá­culo está na elevada necessidade de capital intensivo para a implantação de infraestruturas de proteção”, diz.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Expedição revela 31 espécies potencialmente novas no Atlântico Sul</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/expedicao-revela-31-especies-potencialmente-novas-no-atlantico-sul/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=expedicao-revela-31-especies-potencialmente-novas-no-atlantico-sul</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Christiane Cardoso]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 12:07:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Oceanografia]]></category>
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					<description><![CDATA[Expedição mergulhou no Atlântico Sul e voltou com 31 espécies potencialmente novas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em apenas duas semanas, a expedição <a href="https://schmidtocean.org/cruise/designing-the-future-3/" target="_blank" rel="noopener">Designing the Future 3</a>, realizada pelo Schmidt Ocean Institute, uma fundação privada sem fins lucrativos dos Estados Unidos, a bordo do navio de pesquisa Falkor (too), identificou 31 novas espécies ainda não descritas ao largo da costa bra­sileira. A equipe — formada por 37 tripulantes (incluindo oficiais, técnicos navais e engenheiros), além de cerca de 30 cientistas de diversas áreas — utilizou tecnologias de ponta, como lasers, sistemas de escaneamento óptico em 3D e sequenciamento genético realizado a bordo, para caracterizar os organismos e acelerar sua identificação.</p>
<p>A missão, ocorrida em abril de 2026, entre Salvador e Fortaleza, foi coordenada por Karen Osborn, curadora do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian Ins­titution (EUA), e teve como objetivo investigar a fauna que vive entre 200 e 1.200 metros de profundidade, nas zonas mesopelágica e batipelágica do Atlântico Sul tropical.</p>
<p><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/dJjQ7rldybg?si=w6_iGPl1BIiUja-h" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p>Essa faixa do oceano é palco da chamada migração verti­cal diária (MVD), considerada o maior movimento sincro­nizado de biomassa animal do planeta (confira no infográ­fico). Todas as noites — quando as águas da superfície estão escuras, dificultando a vida dos predadores —, bilhões de organismos deixam as profundezas e sobem para se alimen­tar. Ao amanhecer, fazem o caminho de volta. Nesse vaivém, ajudam a levar carbono das águas superficiais para o oceano profundo, contribuindo para regular o clima do planeta. É como se formassem um “elevador biológico” de carbono: ao se alimentar na superfície, esses animais incorporam carbono e, ao retornar às profundezas, o levam consigo, liberando-o pela respiração e pela excreção ou transferin­do-o para outros organismos por meio da cadeia alimen­tar. Estudar esse processo, porém, não é tarefa fácil: essas regiões são de difícil acesso, e muitos dos organismos que vivem ali são extremamente frágeis.</p>
<p>Apesar dos avanços da oceanografia, o Atlântico Sul con­tinua entre as regiões menos exploradas do planeta. “Nossa motivação foi estudar a diversidade desses organismos, suas adaptações e teias tróficas em uma área de águas interna­cionais ao largo do Nordeste brasileiro [entre Salvador e Fortaleza numa faixa distante entre 160 e 480 quilôme­tros da costa], onde o fundo do oceano está a 4.500 metros”, explica Marcelo Melo, professor do Instituto Oceanográ­fico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e integrante da expedição, cuja pesquisa conta com <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/120884/molecular-diversity-of-deep-sea-fishes-actinopterygii-teleostei-in-the-western-south-atlantic-a-high/" target="_blank" rel="noopener">apoio da FAPESP</a>.</p>
<p>Os resultados revelam o quanto ainda há para desco­brir em águas abertas. “As grandes expedições dedicadas ao estudo da biodiversidade em mar aberto ocorreram ao longo do século 19, há cerca de dois séculos. Mesmo assim, seguimos encontrando novas espécies. Isso mos­tra que ainda existem vastas áreas dos oceanos que nunca foram exploradas cientificamente e guardam uma enorme diversidade desconhecida”, afirma Renato Nagata, profes­sor do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg).</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/10/infografico-migracao-vertical-diaria-mvd_desktop.png" data-tablet_size="1140x600" alt="Infográfico mostra a Migração Vertical Diária de organismos marinhos entre a superfície e as profundezas">
    <source srcset="/wp-content/uploads/2026/10/infografico-migracao-vertical-diaria-mvd_desktop.png" media="(min-width: 1920px)" />
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP</span></div><div class="post-content sequence">
<p>De acordo com Michela Borges, coordenadora do Museu de Diversidade Biológica do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cuja pesquisa é <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/119174/descobrindo-e-descrevendo-a-diversidade-de-ophiuroidea-echinodermata-de-localidades-remotas/" target="_blank" rel="noopener">apoiada pela FAPESP</a>, cada nova espécie descrita amplia o conhecimento sobre a biodiversidade e sobre a própria história da vida na Terra. “Embora as pessoas ima­ginem que a maior parte das espécies já tenha sido des­crita, a realidade é que ainda conhecemos apenas uma pequena parcela da vida, especialmente quando falamos de invertebrados e de ambientes de difícil acesso, como o oceano profundo”, afirma. Para ela, essas descobertas aju­dam a compreender a evolução dos organismos, o funcio­namento dos ecossistemas e a orientar estudos em eco­logia, biogeografia e conservação.</p>
<p>Para Nagata, compreender a vida na zona mesopelá­gica exige considerar essas condições extremas. “É um ambiente frio, escuro, sob alta pressão e com pouco ali­mento disponível. Mesmo assim, abriga uma enorme diversidade de organismos que desenvolveram adapta­ções extraordinárias ao longo da evolução”, afirma.</p>
<div id="attachment_588323" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588323 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-2026-10-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span>Um sifonóforo — invertebrado marinho aparentado com a venenosa caravela-portuguesa. Espécie ainda não havia sido descrita e é, provavelmente, nova para a ciência<span class="media-credits">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span></p></div>
<h2><strong>Enxergando o invisível</strong></h2>
<p>A expedição mostrou como novas tecnologias estão trans­formando a exploração dos oceanos. Equipamentos que observam organismos delicados em seu ambiente natu­ral permitiram registrar estruturas e comportamentos que dificilmente seriam preservados pelos métodos tra­dicionais de coleta.</p>
<p>Instalados no ROV SuBastian — veículo subaquático não tripulado operado remotamente que estava a bordo do Falkor (too) —, os sistemas de imageamento tridimen­sional DeepPIV e EyeRIS, desenvolvidos pelo Laboratório de Bioinspiração do Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI), centro privado e sem fins lucrativos de pesquisa oceanográfica localizado na Califórnia (EUA), utilizam lasers para gerar modelos digitais detalhados de organismos transparentes e opacos.</p>
<div id="attachment_588315" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright vertical"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588315 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-gelatinoso-2026-10-800.webp" alt="Animal gelatinoso de águas profundas vista de perto, com tentáculos brancos enrolados" width="800" height="780" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-gelatinoso-2026-10-800.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-gelatinoso-2026-10-800-250x244.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-gelatinoso-2026-10-800-700x683.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-gelatinoso-2026-10-800-120x117.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Emily Clark/MBARI via Schmidt Ocean Institute</span>Animal gelatinoso coletado a 1.157 m de profundidade pelo ROV SuBastian e fotografado a bordo do navio Falkor (too)<span class="media-credits">Emily Clark/MBARI via Schmidt Ocean Institute</span></p></div>
<p>Enquanto o DeepPIV permite observar estruturas inter­nas e o movimento de fluidos — usando uma folha de luz laser e câmeras de alta definição —, o EyeRIS registra a parte externa dos organismos em detalhes. O sistema uti­liza uma câmera 3D de campo de luz, capaz de acompa­nhar, em tempo real, animais opacos e seus movimentos na superfície. Outra tecnologia de ponta embarcada na missão é o microscópio Squid, desenvolvido pelo <a href="https://prakashlab.stanford.edu/" target="_blank" rel="noopener">Prakash Lab</a> da Universidade Stanford (EUA), que permite obter imagens tridimensionais de estruturas celulares de orga­nismos vivos ainda a bordo, revelando detalhes inéditos de uma rizária-gigante, por exemplo.</p>
<p>A investigação genética também ficou mais ágil. O DNA dos organismos coletados foi extraído e sequenciado em tempo real por pesquisadores da Universidade de Tohoku, do Japão. Para garantir a qualidade das análises, as amos­tras eram preservadas imediatamente após chegarem ao convés, evitando alterações provocadas por temperatura ou contaminação.</p>
<p>Para Melo, a integração entre observação, imageamento tridimensional e genética representa uma mudança na forma de estudar a biodiversidade marinha. “Imagine reconhecer uma espécie potencialmente nova antes mesmo de ela ser coletada e, logo em seguida, obter seu genoma ainda a bordo do RV Falkor (too). Isso gera um volume extraordinário de informações e acelera enor­memente o conhecimento sobre esses organismos e sobre essa região do oceano”, destaca.</p>
<h2><strong>Missão internacional</strong></h2>
<p>A expedição reuniu pesquisadores de instituições de Bra­sil, Austrália, EUA e Japão, integrando especialistas em bio­logia, oceanografia, engenharia, genética e bioinformática para investigar os organismos sob diferentes perspectivas.</p>
<p>Segundo Melo, a cooperação internacional garante que o conhecimento produzido permaneça acessível. “O mate­rial coletado será depositado no Museu de Zoologia da USP, garantindo que permaneça no Brasil e fique disponível para futuros estudos por outros pesquisadores”, destaca.</p>
<div id="attachment_588327" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588327 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-novo-2026-10-1140.webp" alt="Sifonóforo bioluminescente em forma de S brilha em azul nas profundezas do oceano" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-novo-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-novo-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-novo-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-sifonoforo-novo-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span>As imagens deste sifonóforo foram capturadas a 552 metros de profundidade. Trata-se de um gênero ainda não descrito — talvez até mesmo de uma nova família do grupo Physonectae<span class="media-credits">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span></p></div>
<p>A missão também teve forte componente de divulgação científica. As operações do ROV SuBastian foram trans­mitidas ao vivo pelo Schmidt Ocean Institute, acompa­nhadas de encontros virtuais com estudantes de escolas e universidades brasileiras. Além disso, os modelos tri­dimensionais gerados pelos sistemas DeepPIV e EyeRIS estão disponíveis gratuitamente no <a href="https://sketchfab.com/mbari" target="_blank" rel="noopener">site do Laboratório de Bioinspiração do MBARI</a> para uso em aulas, pesquisas e atividades de divulgação científica. “Essa aproximação faz com que os resultados ultrapassem os artigos cientí­ficos, despertem o interesse pela biodiversidade marinha e incentivem novas gerações de cientistas”, avalia.</p>
<p>As descobertas da expedição podem ir além da amplia­ção do conhecimento. Muitos dos organismos estudados também podem inspirar avanços em áreas como enge­nharia e biotecnologia. De acordo com Nagata, cerca de um terço da equipe científica era formada por engenhei­ros dedicados à bioinspiração, área que busca desenvol­ver soluções tecnológicas a partir de mecanismos encon­trados na natureza. “Estudamos como esses organismos nadam, se locomovem e interagem com a água para enten­der princípios eficientes do ponto de vista energético”, explica. Essas informações podem orientar o desenvolvi­mento de robôs subaquáticos, veículos autônomos e novos sistemas de propulsão.</p>
<div id="attachment_588299" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588299 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-tomopteris-2026-10-1140.webp" alt="Verme poliqueta transparente com longo filamento bioluminescente em águas profundas" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-tomopteris-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-tomopteris-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-tomopteris-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-tomopteris-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span>Nova espécie do gênero <em>Tomopteris</em>, conhecidos como vermes-teia. Pouco se sabe sobre a vida desses animais além de alguns estudos sobre sua bioluminescência amarela brilhante<span class="media-credits">ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span></p></div>
<p>Nagata defende também que ampliar o conhecimento científico sobre essas regiões é condição indispensável para qualquer decisão sobre o uso de seus recursos. “Deve­mos adotar o princípio da precaução: aquilo que ainda não conhecemos precisa ser preservado.” Para o pesqui­sador, grandes áreas do Atlântico Sul ainda podem abrigar espécies, funções ecológicas e processos ambientais iné­ditos, tornando indispensável ampliar sua investigação científica antes de qualquer forma de exploração.</p>
<div id="attachment_588319" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588319 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-pesquisadores-2026-10-1140.webp" alt="Pesquisadores analisam organismos marinhos coletados em expedição oceanográfica a bordo do navio" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-pesquisadores-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-pesquisadores-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-pesquisadores-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-pesquisadores-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Fotos Alex Ingle/Schmidt Ocean Institute; Marcelo Melo/Arquivo pessoal</span>À esq., Emily Clark (MBARI) fotografa criaturas de águas intermediárias com câmeras multiângulo, parte do arsenal tecnológico usado na expedição; acima, Silvina Botta (Furg) coleta água do ROV SuBastian para análise de isótopos estáveis, que mostra como o carbono circula no oceano; à dir., equipe da expedição realiza a triagem do material coletado nas águas profundas do Atlântico Sul<span class="media-credits">Fotos Alex Ingle/Schmidt Ocean Institute; Marcelo Melo/Arquivo pessoal</span></p></div>
<h2><strong>Novas fronteiras</strong></h2>
<p>Outras missões realizadas em 2026 mostram que o esforço para mapear regiões pouco exploradas do Atlântico vai além da biodiversidade da coluna d’água. Entre elas está a <a href="https://schmidtocean.org/the-doldrums-fracture-zone-is-anything-but-dull/" target="_blank" rel="noopener">expedição Matrics</a>, dedicada ao Sistema Megatransfor­mante de Doldrums — uma extensa zona de fraturas da Cordilheira Mesoatlântica, onde o afastamento das pla­cas tectônicas cria novos fundos oceânicos, com fumaro­las que aquecem as águas e transportam minerais, susten­tando ecossistemas pouco conhecidos. Essas expedições também ajudam a compreender regiões que despertam interesse pela presença de minerais estratégicos. “Antes de qualquer discussão sobre a exploração desses recur­sos, é fundamental entender como esses ambientes fun­cionam. Cada expedição mostra que o oceano profundo é mais complexo, diverso e dinâmico do que imaginávamos”, afirma Vivian Pellizari, professora do IO-USP que integrou a Matrics, realizada entre maio e junho de 2026.</p>
<p>A mesma visão é compartilhada por Borges, da Uni­camp. Para a pesquisadora, observar e descrever novas espécies é um passo essencial para orientar decisões sobre conservação e uso sustentável dos ecossistemas. “Não é possível proteger aquilo que não conhecemos”, resume.</p>
<div id="attachment_588311" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588311 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-agua-viva-2026-10-1140.webp" alt="Quatro organismos gelatinosos de águas profundas: água-viva, ctenóforo e poliqueta bioluminescente" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-agua-viva-2026-10-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-agua-viva-2026-10-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-agua-viva-2026-10-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/10/RPF-expedicoes-agua-viva-2026-10-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Fotos ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span><strong>1</strong> Água-viva do gênero <em>Atorella</em> é nova espécie, achada a 845 m de profundidade <strong>2</strong> Novo sifonóforo escaneado pelo DeepPIV a 350 m de profundidade <strong>3</strong> Larváceo em ‘casa’ de muco; espécie nova para a ciência <strong>4</strong> Água-viva do gênero <em>Bathykorus</em>, encontrada a 950 m de profundidade<span class="media-credits">Fotos ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute</span></p></div>
<p>Embora pareça remoto, o oceano profundo tam­bém sofre os impactos das atividades humanas, como as mudanças climáticas, o aquecimento e a acidificação dos oceanos, além da poluição por plásticos e outros contami­nantes. Borges alerta que esses ecossistemas continuam entre os menos estudados do planeta devido às dificulda­des de acesso, ao alto custo das expedições e à escassez de especialistas capazes de identificar e descrever sua biodi­versidade. “Em muitos casos, uma espécie pode desapa­recer antes mesmo de ser descoberta e descrita.”</p>
<p>Para a pesquisadora, investir em pesquisa é essencial para compreender o funcionamento desses ecossistemas e embasar políticas públicas de conservação. “Conhecer a biodiversidade do oceano profundo nos permite pre­servar um ambiente essencial para o equilíbrio do pla­neta”, conclui.</p>
<div class="box"><strong>Ao todo foram coletadas novas espécies dos seguintes tipos e quantidades<br />
</strong><br />
• <strong>1 Anfípode:</strong> Pequeno crustáceo aparentado com caranguejos e lagostas<br />
• <strong>1 Poliqueta-fada:</strong> Poliqueta pelágica de movimentos rápidos<br />
• <strong>9 Águas-vivas:</strong> Cnidários também conhecidos como medusas<br />
• <strong>7 Sifonóforos:</strong> Hidrozoários coloniais formados por milhares de pequenos animais chamados zooides<br />
• <strong>7 Ctenóforos:</strong> Carambolas-do-mar, de corpo gelatinoso e transparente<br />
• <strong>4 Larváceos:</strong> Cordados transparentes que vivem em delicados casulos de muco<br />
• <strong>2 Rizárias-gigantes:</strong> Organismos unicelulares visíveis a olho nu<br />
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Tradição e bom humor</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/tradicao-e-bom-humor/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=tradicao-e-bom-humor</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Soares]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Oct 2026 11:57:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gente da pesquisa]]></category>
		<category><![CDATA[Bioenergia]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://revistapesquisa.fapesp.br/?p=588230</guid>

					<description><![CDATA[Pisar em cobras rende Ig Nobel para brasileiro. Veja ainda outras homenagens, eventos e livros]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nos primórdios do Instituto Butantan, dizem as histó­rias, Vital Brazil e sua equipe pioneira chegaram a aplicar em si mesmos doses controladas de venenos ou do soro experimental que criavam. Não havia os protocolos éticos atuais, e foi em parte com essas pesquisas que o Brasil ganhou uma insti­tuição científica mundialmente reconhecida.</p>
<p>Hoje, pisar em jararacas pela ciência é considerado algo tão exótico que nos traz um troféu Ig Nobel, como veremos nesta edição. Em seus melhores momentos, o prêmio da revista <em>Annals of Improbable Research </em>celebra com humor a criatividade metodológica. (O artigo foi retratado porque, segundo o comitê de ética, eles pisaram em cobras recém-nascidas. A equipe discorda.)</p>
<p>Neste mês, trazemos também as homenagens mais tradicionais, como os ganhadores do Prêmio Fundação Conrado Wessel, e os livros lançados por pesquisadores brasileiros. E vai ter moda de viola em Barão Geraldo!</p>
<h2><strong>Prêmio Wessel</strong></h2>
<p><strong>Mario Murakami</strong>, engenheiro de alimentos e doutor em física nuclear pela Unesp, foi reconhecido com o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Ciência. Diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Mate­riais e coordenador do Programa FAPESP de Pesquisa em Transição Energética, ele pesquisa os desafios da bioenergia, bioeconomia e biorrenováveis.</p>
<p>O prêmio de Cultura foi para o padre <strong>Júlio Lancellotti</strong>, reconhecido nacional e internacionalmente por seu trabalho de acolhimento e atenção à fatia mais excluída da população de São Paulo. Cada um receberá um prêmio de R$ 500 mil em dinheiro, numa cerimônia que ocorrerá em outubro.</p>
<p>“São escolhas que reafirmam o propósito do Prêmio FCW de reconhecer trajetórias de excelência, impacto social e compromisso ético”, disse Carlos Vogt, diretor­-presidente da fundação e ex-presidente da FAPESP.</p>
<h2><strong>Ig Nobel</strong></h2>
<p>O bem-humorado prêmio a pesquisas científicas pouco ortodoxas foi concedido, na categoria Biologia, a um grupo de pesquisadores brasileiros e foi repre­sentado por <strong>João Miguel Alves Nunes</strong>, atualmente estudante de doutorado no IB-USP. Eles avaliaram o que faz com que uma jararaca-da-mata (<em>Bothrops jararaca</em>) dê o bote quando é pisada — e desco­briram que não é sequer preciso tocar na cobra para que ela reaja. No Brasil, estima-se que mordidas dessa jararaca correspondem a 90% dos acidentes registrados envolvendo humanos e cobras.</p>
<p>A metodologia foi o que chamou a atenção da banca: em ambiente controlado, com botas de segu­rança, os autores pisaram perto e sobre diversas partes do corpo de 75 cobras peçonhentas, com várias intensidades, registrando em relação aos cien­tistas o tamanho do corpo, sexo, temperatura do corpo, temperatura ambiental e hora do dia em que a interação ocorria. À imprensa, Nunes disse que descobriu no experimento ser alérgico ao veneno.</p>
<h2><strong>Residência artística</strong></h2>
<p><strong>Ivan Vilela</strong>, violeiro, professor da USP e pesquisador de cultura popular, iniciou em setembro uma residência artística no Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA). Até dezembro, ele dará palestras e minicursos sobre temas que capturam sua atenção, como as tradi­ções culturais orais e o Clube da Esquina. De 5 a 9 de outubro, ele oferece uma oficina para os estudantes de música do Instituto de Artes da universidade.</p>
<h2><strong>Comunicação da ciência</strong></h2>
<p>Em 26 e 27 de outubro, o Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) realiza no Goethe-Institut São Paulo o encontro “Science Communication in Transition: Strategies, Responsibilities and Emerging Challenges in Germany and Brazil”.</p>
<p>Os palestrantes alemães incluem os pesquisadores <strong>Benedikt Fecher</strong>, diretor da Wissenschaft im Dialog (WiD), <strong>Jeanne Rubner</strong>, da Universidade Técnica de Munique, e <strong>Monika Taddicken</strong>, da Universidade Técnica de Braunschweig, além do jornalista <strong>Markus Lehmkuhl</strong>. Do Brasil, participam os jornalistas <strong>Bruno de Pierro</strong>, <strong>Daniel Dieb, Luiza Caires</strong>, <strong>Meghie Rodrigues </strong>e <strong>Karina Toledo</strong>, editora da <em>Agência FAPESP, </em>além dos pesquisadores <strong>Juri Castelfranchi </strong>e <strong>Mariana Rodrigues Pezzo</strong>. Mais informações e inscrições estão no site do DWIH-São Paulo: tinyurl.com/2s3rntat.</p>
<h2><strong>Estante</strong></h2>
<p><strong><em>A ciência do universo: (quase) tudo o que você sempre quis saber sobre o cosmos, mas nunca perguntou</em></strong><br />
Rogério Rosenfeld (Companhia das Letras)</p>
<p>O professor de física teórica da Unesp explica as descobertas da área que ajudaram a entender o mundo desde os primeiros modelos cosmoló­gicos baseados na Teoria da Relatividade Geral.</p>
<p><strong><em>Matemática para seres humanos (e alguns robôs)</em></strong><br />
Marcelo Viana (Tinta-da-China)</p>
<p>O diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) organiza textos seus publicados no jornal <em>Folha de S.Paulo</em>, mostrando como a matemá­tica se manifesta em diversos aspectos do cotidiano.</p>
<p><strong><em>Estrela do novo rumo: literatura negra e os sentidos da modernidade periférica</em></strong><br />
Mário Augusto Medeiros da Silva (Zahar)</p>
<p>O sociólogo, professor da Unicamp e pesquisador da cultura produzida pelos negros no Brasil analisa a luta pela abertura dos espaços culturais de São Paulo a autores, de Carolina Maria de Jesus aos Racionais MCs.</p>
<p><strong><em>Presença indígena no Brasil </em></strong><br />
Mércio Pereira Gomes (Contexto)</p>
<p>Um dos mais longevos presidentes da Funai (2003-2007), o professor de antropologia da UFRJ analisa a demografia indígena no Brasil, mostrando que a população dos povos originários tem aumentado.</p>
<p><strong><em>Ecologias de crise: uma teoria cibernética da radicalização</em></strong><br />
Leticia Cesarino (Ubu)</p>
<p>A pesquisadora da UFSC investigou como a parti­cipação em ambientes digitais pode levar usuários a aderir ao extremismo e cometer atos de violência extrema, de cunho político ou não.</p>
<div class="box"><strong>Anote na agenda</strong></p>
<p><strong>30.set a 2.fev. | FICA-SP (Fixação e Incentivo à Carreira Acadêmica em São Paulo)</strong></p>
<p>Doutores em início de carreira com alto potencial acadêmico e sem vínculo empregatício, com base em São Paulo, podem se inscrever na segunda chamada do FICA-SP. Serão selecionados até 100 projetos, em várias áreas acadêmicas. O programa é uma parceria da FAPESP com o CNPq e a Capes.</p>
<p><strong>5 e 6.nov. | 1º Congresso Acadêmico Brasileiro de Cannabis Medicinal</strong></p>
<p>Estão abertas as inscrições para o Cabcann-FCF/USP, que ocorrerá no campus USP Butantã. Criado por Paulo Chanel Deodato de Freitas, o evento tem apoio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamentou o cultivo, a pesquisa, a fabricação e a comercialização de cannabis para fins medicinais e científicos no Brasil.</div>
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			</item>
		<item>
		<title>Procrastinação duvidosa</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/procrastinacao-duvidosa/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=procrastinacao-duvidosa</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 12:03:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boas práticas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Experimento que avaliou se espaçar prazos de entrega reduz atrasos é retratado por manipulação de dados]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Um artigo publicado em 2002 no periódico <em>Psychological Science</em>, que avaliou como diferenças de prazo para concluir um trabalho podem afetar a procrastinação, acaba de ser <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/09567976261488042" target="_blank" rel="noopener">retratado</a> após a descoberta de evidências de manipulação de dados. Assinado por Dan Ariely, professor da Universidade Duke, e Klaus Wertenbroch, da escola de negócios francesa Insead, o estudo concluiu que prazos de entrega igualmente espaçados poderiam reduzir a tendência a atrasar o trabalho e aumentar a probabilidade de as tarefas serem concluídas dentro do prazo.</p>
<p>O artigo descrevia dois experimentos. Em um deles, 60 estudantes receberam três tarefas de revisão de texto e podiam entregá-las em lotes com intervalos de uma semana, todas ao final de 21 dias ou em datas escolhidas por eles próprios. O trabalho concluiu que os prazos espaçados produziam melhores resultados do que deixar a definição das datas a cargo dos participantes.</p>
<p>No segundo experimento, os estudantes também foram divididos em grupos com diferentes prazos de entrega e receberam notas de acordo com seu desempenho. Os alunos que tinham prazos de entrega igualmente espaçados receberam notas significativamente maiores do que aqueles que definiam suas próprias datas de conclusão do trabalho.</p>
<p>O periódico decidiu “despublicar” o artigo depois que uma tentativa independente de replicar os experimentos não corroborou seus resultados e quando uma análise posterior apontou anomalias nos dados originais. A nota de retratação, assinada por Simine Vazire, editora-chefe da revista, informa que ambos os autores concordaram com a decisão.</p>
<p>A história começou duas décadas antes. Em 2006, os economistas Kyle Hyndman e Alberto Bisin tiveram acesso aos dados brutos da pesquisa ao estudar o mesmo tema. Anos depois, decidiram repetir um dos experimentos. Em artigo publicado em julho deste ano na própria <em>Psychological Science</em>, os autores relataram não conseguir reproduzir as conclusões do estudo original.</p>
<p>Os dados também foram analisados por Uri Simonsohn, Leif Nelson e Joe Simmons, pesquisadores responsáveis pelo blog Data Colada, especializado em investigar problemas em estudos científicos. Em textos publicados em <a href="https://datacolada.org/138" target="_blank" rel="noopener">31 de agosto</a> e <a href="https://datacolada.org/139" target="_blank" rel="noopener">2 de setembro</a>, eles apontaram uma série de inconsistências no conjunto de dados usado no artigo de 2002.</p>
<p>Entre os sinais de alerta estava um resultado muito mais claro do que seria esperado para uma amostra pequena, valores duplicados nas respostas dos participantes e ausência de correlação entre variáveis que deveriam estar fortemente relacionadas. Ao analisar o outro experimento do artigo, os pesquisadores também encontraram indícios de manipulação nas notas atribuídas aos participantes que definiam os próprios prazos.</p>
<p>Wertenbroch solicitou a retratação do artigo após tomar conhecimento da análise do Data Colada. Em <a href="https://datacolada.org/wp-content/uploads/Wertenbroch-Response-to-Data-Colada-Posts-138-139.pdf" target="_blank" rel="noopener">nota</a> enviada aos pesquisadores, afirmou nunca ter tido acesso aos dados originais dos experimentos conduzidos por Ariely e que sua participação havia se concentrado na formulação da ideia, escrita e revisão do texto original.</p>
<p>“Retratações são uma das piores coisas que podem acontecer a um cientista (&#8230;). Infelizmente, os problemas de dados apresentados invalidam as descobertas de nosso artigo de 2002. Ainda assim, um artigo meu anterior (Wertenbroch, 1998) (&#8230;) e a replicação de Hyndman e Bisin (2026) mostram os custos específicos de prazos de entrega. Estou triste, mas também feliz que a equipe do Data Colada está pondo essa história em pratos limpos”, declarou.</p>
<p>Ariely publicou em 7 de agosto uma <a href="https://danariely.com/dan-ariely-statement-on-2002-procrastination-study/" target="_blank" rel="noopener">nota</a> em seu site dizendo ter sido informado de que “os dados de sua pesquisa [de 2002] contêm sérias anomalias”. “A partir de agora, minha responsabilidade será atestar a acurácia do trabalho, atualizando o registro desses experimentos e, em conjunto com meu coautor, cooperando com o [editorial] do periódico que publicou nossa versão original do manuscrito.” Procurado por <em>Pesquisa FAPESP</em>, ele se recusou a dar entrevistas e pediu que se fizesse referência ao comunicado.</p>
<p>Não é a primeira vez que Ariely tem um <em>paper</em> retratado. O pesquisador de 59 anos, autor de livros sobre comportamento humano, teve um <a href="https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.1209746109" target="_blank" rel="noopener">estudo</a> de 2012 sobre desonestidade, publicado no periódico <em>PNAS</em> em coautoria com Francesca Gino, da Universidade Harvard, retratado após questionamentos sobre a fabricação de dados.</p>
<p>Outros dois artigos do professor receberam <em>expressions of concern</em>, ou seja, alertas editoriais sobre possíveis problemas. Um deles, <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/00222437241285882" target="_blank" rel="noopener">publicado</a> em 2008 no <em>Journal of Marketing Research</em>, foi questionado por problemas de replicação. <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1111/j.0956-7976.2004.00757.x" target="_blank" rel="noopener">Outro</a>, de 2004, também na <em>Psychological Science</em>, recebeu o alerta por incertezas relacionadas aos testes estatísticos e à análise. Ariely não quis comentar esses casos.</p>
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		<title>De volta para o futuro</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/de-volta-para-o-futuro/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=de-volta-para-o-futuro</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tiago Jokura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Sep 2026 13:11:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Botânica]]></category>
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					<description><![CDATA[Projeto Reflora completa 16 anos com quase 5 milhões de imagens produzidas e servindo de inspiração para a digitalização completa de um dos maiores herbários do mundo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nos primeiros meses de 1832, um jovem inglês de 23 anos percorria os arredores de Salvador, na Bahia, com uma prensa de madeira e uma pilha de papel sob o braço. Tinha acabado de desembarcar de um navio de levantamento hidrográfico da Marinha britânica e, deslumbrado com a exuberância da Mata Atlântica, anotou em seu diário que &#8220;deleite&#8221; era pouco para descrever o prazer de explorar uma floresta brasileira pela primeira vez. Entre as plantas que prensou, secou e etiquetou naquelas semanas baianas não havia nada de espetacular: o exemplar nº 158 de sua coleta era uma ervinha de beira de caminho e de flores brancas, dessas que crescem em qualquer chão. Quase dois séculos depois, o registro ainda guarda a caligrafia do coletor: Charles Darwin (1809-1882), que passou pelo Brasil durante sua histórica viagem a bordo do HMS Beagle.</p>
<div class="box-lateral"><strong>O que é exsicata</strong><br />
Amostra de planta prensada, seca em estufa e fixada em cartolina ao lado de uma etiqueta com nome da espécie e do coletor, data e local da coleta e um número de tombo único. É a unidade básica de um herbário e um registro da presença daquela planta em determinado lugar e momento.<br />
</div>
<p>A planta coletada nunca mais voltou à Bahia. Como o restante do material botânico da viagem, seguiu em caixotes para Cambridge, na Inglaterra, aos cuidados do reverendo John Stevens Henslow, professor e mentor de Darwin, que distribuiu duplicatas entre colegas. Uma delas foi parar no herbário particular de William Jackson Hooker, primeiro diretor dos Jardins Botânicos Reais de Kew — que hoje abrigam cerca de 450 espécimes vegetais coletados pela expedição do Beagle —, e pai de Joseph Dalton Hooker, melhor amigo do naturalista. William morreu em 1865 e sua coleção pessoal foi comprada pelo governo britânico no ano seguinte. Em 1867, a ficha da ervinha coletada por Darwin foi marcada com as palavras &#8220;Herbarium Hookerianum&#8221;. O carimbo azul continua lá, intacto, ao lado do ramo seco.</p>
<p>Nos 150 anos seguintes, o espécime trocou de nome quatro vezes, e cada botânico que o examinou colou na cartolina uma etiqueta nova, refletindo a sucessiva reclassificação da espécie em diferentes gêneros: <em>Hemidiodia</em> (ano indeterminado), <em>Diodia</em> (1991), <em>Borreria</em> (2000), <em>Spermacoce</em>. Essa última é de fevereiro de 2014, assinada por uma pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Sueli M. Gomes. Ao lado da planta seca, três códigos de barras — um para cada exemplar da ficha, incluindo o de Darwin, ao centro — trazem impressa a mesma frase: <em>Imaged for Reflora</em>.</p>
<p>Foi um desses registros que o hematologista Marco Antonio Zago viu em 6 de outubro de 2009. Então presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ele estava em Kew para assinar uma carta de entendimento que daria origem ao Reflora — programa do CNPq, lançado no ano seguinte, para trazer de volta ao Brasil, digitalmente, amostras da flora brasileira levadas por naturalistas europeus entre os séculos 18 e 20. Ao ouvir dos anfitriões que a coleção britânica guardava algo como 300 mil amostras de plantas brasileiras, ele não hesitou. &#8220;Eu pedi para ver uma. E eles trouxeram logo uma <u>exsicata</u> coletada pelo Charles Darwin&#8221;, lembra Zago, hoje presidente da FAPESP. &#8220;É emocionante ter contato com amostras que uma figura dessa importância para a ciência coletou aqui, no Brasil.&#8221;</p>
<div id="attachment_588148" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588148 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-darwin-2026-09-800.webp" alt="" width="800" height="1300" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-darwin-2026-09-800.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-darwin-2026-09-800-250x406.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-darwin-2026-09-800-700x1138.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-darwin-2026-09-800-120x195.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo Kew</span>Erva (<em>no centro</em>) colhida pelo inglês Charles Darwin em passagem pela Bahia, em 1832<span class="media-credits">Acervo Kew</span></p></div>
<h2><strong>Simbiose internacional</strong></h2>
<p>Dezesseis anos depois do acordo assinado, quem menciona o programa brasileiro como referência é o próprio Kew. Em março, o jardim botânico britânico concluiu o maior projeto científico de sua história: a digitalização de 7,4 milhões de espécimes de plantas e fungos, num esforço de quatro anos. Na direção executiva de ciência de Kew desde 2019, o biólogo Alexandre Antonelli — primeiro brasileiro no cargo — aponta para a semente da ideia. &#8220;O Reflora foi o primeiro projeto mundial de repatriação digital de coleções brasileiras depositadas no exterior e foi uma inspiração para nós&#8221;, declarou à <a href="https://agencia.fapesp.br/o-cientista-brasileiro-que-liderou-a-digitalizacao-de-400-anos-de-historia-da-flora-do-planeta/58410" target="_blank" rel="noopener">Agência FAPESP</a> em junho de 2026.</p>
<p>Repatriar, nesse caso, não é trazer a planta seca de volta ao Brasil, mas a sua imagem. A promessa de retorno que Gilberto Gil entoa em &#8220;Eu vim da Bahia&#8221; (“Mas eu volto pra lá”) se cumpre em altíssima resolução e realce: cada exsicata é fotografada com etiqueta, escala e código de barras, e a imagem é enviada ao <a href="https://reflora.jbrj.gov.br/reflora/herbarioVirtual/" target="_blank" rel="noopener">Herbário Virtual Reflora</a>, hospedado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), onde uma equipe transcreve as informações de coleta para um banco de dados estruturado. Foi assim que, até o fechamento desta reportagem, em setembro de 2026, cerca de 265 mil amostras vindas de Kew e por volta de 250 mil do Museu Nacional de História Natural de Paris (MNHN) vieram, digitalmente, parar no Brasil — a maioria delas, repatriadas.</p>
<p>Três dias depois da visita a Kew, em 9 de outubro de 2009, Zago assinou um segundo acordo, dessa vez, em Paris — e a cena rendeu uma coincidência que ele faz questão de recordar. A sala do museu escolhida para a cerimônia tinha, em uma das paredes, uma grande tela com uma girafa. Era Zarafa, que, em 1826, cruzou o Mediterrâneo de navio até Marselha e, como não havia como transportá-la, seguiu a pé até Paris, em uma caminhada de mais de 40 dias e quase 900 km, que atraiu multidões e disparou uma &#8220;girafamania&#8221; na moda e na decoração da época. Zarafa viveu em Paris até 1845 e o retrato mais conhecido dela, pintado em 1827 por Nicolas Huet, integra o acervo do MNHN. De certa forma, a imagem da girafa Zafara, de um espécime retirado do seu hábitat para nunca mais voltar, simbolizava a história das plantas que a expedição brasileira buscava resgatar.</p>
<div class="box-lateral"><strong>Quem foi Zarafa</strong><br />
A primeira girafa a pisar na França foi oferecida pelo vice-rei do Egito, Muhammad Ali (não confundir com o boxeador), ao rei Charles 10º.<br />
</div>
<h2><strong>Repatriação digital</strong></h2>
<p>Quando os acordos foram assinados, ainda não existia Reflora, mas já havia a demanda.</p>
<p>No fim dos anos 1990, botânicos de Kew obtiveram financiamento do fundo britânico Darwin Initiative para um projeto-piloto, de um ano: a ideia era enviar ao Brasil imagens fotográficas de alta resolução de espécimes-tipo (exemplares que servem de referência para a descrição original de cada espécie) oriundos do Nordeste. Juntamente com essas imagens, vieram fotocópias das publicações originais em que as espécies foram descritas como novas para a ciência. Numa segunda fase, apoiada por financiadores corporativos e filantrópicos de Kew, imagens de outras famílias botânicas foram disponibilizadas, mas agora digitalmente e on-line. Paralelamente, numa ação complementar em 1998, o Programa Plantas do Nordeste (PNE) — conduzido por uma associação de pesquisadores em parceria com o Kew e com apoio do CNPq — também colhia dados sobre plantas do Nordeste brasileiro, com foco especial naquelas utilizadas como lenha, forragem e para fins medicinais.</p>
<p>Em 2006, um documento do Ministério da Ciência e Tecnologia já listava o repatriamento de informações sobre a biodiversidade brasileira como necessidade &#8220;indiscutível&#8221;, sem que houvesse iniciativa para executá-lo, como consta em um <a href="https://www.scielo.br/j/bn/a/vHV8Fvn5QYWjt6WwmvJQqKS/?format=pdf&amp;lang=en&amp;ilang=pt_BR" target="_blank" rel="noopener">artigo que reconta a história do Reflora</a>, publicado em 2024 na revista <em>Biota Neotropica</em>.</p>
<div id="attachment_588193" style="max-width: 810px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588193 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-zago-2026-09-800-1.webp" alt="" width="800" height="1200" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-zago-2026-09-800-1.webp 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-zago-2026-09-800-1-250x375.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-zago-2026-09-800-1-700x1050.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-zago-2026-09-800-1-120x180.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Arquivo pessoal</span>Em Paris, em 2009, o então diretor-geral do Museu Nacional de História Natural de Paris, Bertrand-Pierre Galey (<em>à esq.</em>), e Marco Antonio Zago, à época presidente do CNPq, assinam um dos acordos internacionais que originaram o Reflora<span class="media-credits">Arquivo pessoal</span></p></div>
<p>A virada veio de uma conversa. &#8220;A Ana Maria Giulietti, uma botânica importante da nossa época, com uma visão futurista, conseguiu uma reunião com a presidência do CNPq e explicou a situação: estamos avançando, mas para seguir adiante precisamos digitalizar as coleções&#8221;, relembra a botânica Rafaela Forzza, coordenadora do Reflora desde o início do programa. Naquele momento, o país acabava de entregar à Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), da Organização das Nações Unidas (ONU), a lista de espécies da flora brasileira, organizada por ela, mas ainda com pouquíssimos acervos on-line.</p>
<p>Do outro lado da mesa, Zago viu a chance de ampliar o pedido. &#8220;Eu me lembro da proposta de um herbário do Nordeste que queria apoio do CNPq para digitalização. Vi nisso a possibilidade de fazer algo de amplitude nacional&#8221;, diz. A ideia de sediar o sistema no JBRJ surgiu ali, já acompanhada de um obstáculo comum nesse tipo de projeto: convencer os donos de coleções pequenas a aderir à iniciativa. &#8220;É uma discussão dolorosa, porque as pessoas tratam a coleção como propriedade&#8221;, completa.</p>
<p>O repatriamento foi o argumento que faltava. &#8220;Essa foi a novidade que convenceu a todos e fez com que se agregassem&#8221;, afirma Zago, que se informou sobre onde estavam as maiores coleções de plantas brasileiras na Europa e planejou a viagem a Londres e Paris. Ficou impressionado com o número de amostras de Kew — até chegar ao museu francês. &#8220;Falei: &#8216;Lá em Kew tem cerca de 300 mil&#8217;. Responderam: &#8216;Temos bem mais do que isso&#8217;.&#8221;</p>
<p>Repatriar as exsicatas fisicamente estava fora de cogitação. A saída era a tecnologia que começava a se disseminar nos grandes herbários. &#8220;Você pode aumentar a imagem da folha e examinar a densidade e a natureza dos pelos, observar a disposição das nervuras. Ficou evidente que nós não precisávamos ter os espécimes aqui se conseguíssemos digitalizar&#8221;, diz Zago. Os acordos previam bolsistas brasileiros de mestrado e doutorado trabalhando nas coleções europeias, o que ajudava a priorizar as amostras do país.</p>
<p>Zago deixou o CNPq logo depois das assinaturas, e coube ao sucessor, Carlos Alberto Aragão, lançar um edital para a captação de apoio financeiro. Entre 2010 e 2015, o Reflora movimentou cerca de R$ 24,5 milhões, oriundos de diversas fontes: R$ 9,1 milhões do CNPq e do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), R$ 5 milhões de 12 fundações estaduais de amparo à pesquisa, entre elas a FAPESP, R$ 3 milhões da Natura, R$ 2,9 milhões da Capes, R$ 2,7 milhões do Fundo Newton britânico e R$ 1,7 milhão da Vale. O Herbário Virtual Reflora entrou no ar em 30 de setembro de 2013, com cerca de 420 mil imagens.</p>
<div id="attachment_588152" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-588152 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-encontro-2026-09-1140.webp" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-encontro-2026-09-1140.webp 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-encontro-2026-09-1140-250x138.webp 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-encontro-2026-09-1140-700x387.webp 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-reflora-encontro-2026-09-1140-120x66.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo Kew</span>Lucilene Velo (CNPq), Andy Burchell (Kew), Marco Antonio Zago (CNPq) e Eimear Nic Lughadha (Kew), em encontro que deu origem ao Reflora, em Londres<span class="media-credits">Acervo Kew</span></p></div>
<p>Para os parceiros europeus, o programa já nasceu dando bons frutos. &#8220;O Reflora foi o primeiro herbário virtual do mundo que tinha a conservação como objetivo principal”, destaca a botânica Eimear Nic Lughadha, atualmente líder de pesquisa em avaliação de conservação em Kew e, nos anos 2010, representante da instituição no comitê técnico do Reflora. A afirmação é mensurável: numa <a href="https://conbio.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/cobi.13291" target="_blank" rel="noopener">análise de 806 publicações</a> científicas citando o Reflora até 2017 — quatro anos após o lançamento —, cerca de 50% mencionaram resultados relevantes para a conservação das espécies — o que também foi relatado por 80% dos 1.069 usuários que responderam a uma enquete para o mesmo estudo. “Disponibilizar os dados sobre diversidade biológica à comunidade de pesquisadores faz parte do nosso DNA, e o conhecimento sobre as espécies se beneficia enormemente com isso&#8221;, completa.</p>
<p>Em Paris, o botânico Marc Pignal, ex-diretor de coleções do MNHN e representante do museu no comitê técnico do Reflora, lembra bem da visita de Zago. &#8220;Apresentamos o herbário da princesa Isabel, que mantemos nas coleções históricas. No âmbito do Reflora, produzimos réplicas digitais fiéis depositadas no Museu Nacional do Rio de Janeiro&#8221;, conta. Entre 2010 e 2013, o museu digitalizou integralmente seu herbário, e a experiência se estendeu a países vizinhos do Brasil. &#8220;Partimos do princípio de que a distribuição das espécies vegetais não está ligada às fronteiras políticas dos países.&#8221; Pignal também menciona a importância de projetos anteriores de digitalização envolvendo o MNHN e outras instituições brasileiras, como o antigo Instituto de Botânica de São Paulo (IBt) — atualmente integrado ao Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) — e o Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria), de Campinas (SP).</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/Online-Reflora-Desk-V3-scaled.jpg" data-tablet_size="1069x2560" alt="Infográfico mostra as 7 etapas de produção de uma exsicata, da coleta em campo ao armazenamento no herbário">
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<h2><strong>Biblioteca viva</strong></h2>
<p>O Reflora nasceu para repatriar, mas não parou por aí. &#8220;A ideia inicial era somente trazer de volta dados e imagens dos acervos de Kew e Paris. Só que essa pessoa que vos fala era curadora do maior herbário do Brasil, que não tinha imagens das próprias amostras&#8221;, diz Forzza, que foi curadora do herbário do JBRJ entre 2006 e 2023. &#8220;Parecia incoerente eu trabalhar no repatriamento de imagens sendo que as amostras de que eu era curadora também precisavam ser digitalizadas.&#8221; O acervo do Jardim Botânico, então, entrou no pacote. A partir de 2014, com apoio do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (<a href="http://www.sibbr.gov.br/" target="_blank" rel="noopener">SiBBr</a>) e do Inventário Florestal Nacional (<a href="http://www.florestal.gov.br/inventario-florestal-nacional" target="_blank" rel="noopener">IFN</a>), outros herbários europeus, norte-americanos e brasileiros foram incluídos no projeto, alguns deles recebendo equipamentos, treinamento e bolsistas para a digitalização de seus espécimes. Hoje, o Herbário Virtual reúne 4.866.086 imagens de 86 coleções do Brasil e do exterior — 806.582 delas do herbário do JBRJ, identificado pela sigla RB (&#8220;R” de “Rio” e “B” de “botanic”, seguindo o código internacional para nomenclatura de herbários).</p>
<p>Visitei o RB em julho, recebido pelos curadores Cassia Sakuragui e Ricardo da Gama Bahia, que percorreram comigo não somente os corredores do herbário, mas o caminho de uma planta, vinda da mata, até parar num servidor de dados (<em>mais detalhes no infográfico acima</em>). Tudo começa em campo, com a coleta de um ramo, idealmente com flores ou frutos, e o registro de coordenadas, altitude, hábito, cor e outros detalhes que somem com a secagem. O material é prensado entre folhas de jornal para transporte — ou embebido em álcool para não apodrecer, em expedições por regiões úmidas. Chegando ao herbário, a planta vira recheio de um sanduíche de jornais, papelões e chapas de alumínio corrugados, que vai para a estufa a 70 °C até secar por completo. Identificada, a planta ganha número de tombo, um código de barras, e é fixada em cartolina ao lado da etiqueta, fotografada em alta resolução e, enfim, guardada em armários a 18 °C constantes, organizados por família, gênero e espécie.</p>
<p>&#8220;A incorporação ao herbário não encerra a história daquele exemplar. Na realidade, é quando começa sua vida como parte de uma infraestrutura científica permanente&#8221;, explica Bahia. O exemplar pode ser emprestado a outras instituições, receber novas identificações e alimentar estudos que vão da taxonomia à biogeografia, incluindo a conservação de espécies ameaçadas de extinção.</p>
<p>Lá também me apresentaram a mesa de digitalização, que é um dos símbolos do Reflora. Enquanto Paris fotografava as fichas em esteiras industriais e Kew usava câmeras especiais, os acervos brasileiros precisavam encontrar soluções mais viáveis economicamente. &#8220;Chamamos um marceneiro, um serralheiro, contratamos um fotógrafo que nos deu consultoria: &#8216;Posiciona a lâmpada aqui. Essa lente é a melhor&#8217;. E assim montamos um modelo de mesa que hoje diversos herbários pelo Brasil reproduzem. Fomos nós que desenvolvemos&#8221;, conta Forzza. E assim foi possível digitalizar coleções menores. &#8220;Se o Reflora não tinha esse objetivo, eu tinha&#8221;, afirma.</p>
<p>Os gargalos seguintes eram invisíveis ao público. As imagens repatriadas chegam em arquivos digitais brutos, muito maiores do que as versões consultadas on-line, e a rede do JBRJ não dava conta. Foi preciso trocar todo o cabeamento e montar um data center. Em alguns momentos, as equipes europeias vinham ao Rio com malas cheias de HDs externos. &#8220;Eu sou só botânica, e de uma geração antiga. Quando alguém falava &#8216;precisa comprar um servidor&#8217;, eu pensava que servidor faz concurso público&#8221;, diz, brincando, Forzza. Do outro lado da tela, um time de bolsistas abria cada imagem e transcrevia o que lia em etiquetas manuscritas em inglês ou francês dos séculos 18 e 19. &#8220;Não tem nada de IA nisso. Tinha alguém capturando a imagem, alguém mandando para o Brasil, alguém transcrevendo, alguém desenvolvendo o sistema. São muitas pessoas para que uma imagem chegue bonita, on-line, para todo mundo.&#8221;</p>
<div class="box"></p>
<p><strong>Ficha limpa<br />
</strong><i><span style="font-weight: 400;">Conheça os principais detalhes preservados — e observados — em uma exsicata</span></i></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="1667" height="2396" class="aligncenter size-full wp-image-588290" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU.jpg" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU.jpg 1667w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU-250x359.jpg 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU-700x1006.jpg 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU-1069x1536.jpg 1069w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU-1425x2048.jpg 1425w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/infografiaEXSICATAonlineIMAGEMsemTITU-120x172.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 1667px) 100vw, 1667px" /></p>
<p><strong>1. FOLHAS</strong><br />
A primeira observação do taxonomista — que identifica, descreve, nomeia e classifica os seres vivos em categorias ordenadas — é determinar se a folha é simples ou composta e como está posicionada no caule. Esses costumam ser alguns passos das chaves dicotômicas que orientam o fluxo de investigação até a família botânica.</p>
<p><strong>Chaves dicotômicas</strong><br />
O taxonomista segue pistas sequenciais que, geralmente, apresentam duas alternativas por vez — folhas simples ou compostas, por exemplo. Cada escolha o conduz a uma nova etapa e, à medida que ele avança na análise das partes da planta, as possibilidades ficam mais restritas, encaminhando a identificação.</p>
<p><strong>2. IMPRESSÃO “DIGITAL”</strong><br />
Neste exemplar, as folhas são compostas e trifolioladas, ou seja, cada folha é formada por três folíolos. A partir daí, o taxonomista começa a analisar detalhes mais específicos: como esses folíolos estão dispostos, seu formato, ápice e base, margem, nervação, textura e presença de pelos (tricomas). Ele também analisa estruturas como estípulas e pecíolos.</p>
<p><strong>3. ESTRUTUTAS REPRODUTIVAS</strong><br />
Observar flores e frutos é fundamental na maioria dos casos. Primeiro, observa-se como as flores estão organizadas — se isoladas ou reunidas em inflorescências e qual é o tipo e a posição dessas inflorescências. Na flor, examinam-se cálice, corola, estames e gineceu. Número, forma, tamanho, união ou separação e posição dessas peças são decisivos para avançar a classificação da família para o gênero e, finalmente, para a espécie.</p>
<p><strong>4. CÓDIGO DE BARRAS</strong><br />
Permite saber exatamente qual exemplar está sendo examinado e acessar os dados associados a ele no banco de dados, como local, data da coleta, coletor e identificações anteriores.</p>
<p><strong>5. ETIQUETA</strong><br />
Manuscrita ou impressa, contém dados como nome científico (Monnieria trifolia, à época) e data da coleta (junho de 1941) — neste caso, relativos ao ramo com raiz, à direita.</p>
<p><strong>6. FORÇA DO HÁBITO</strong><br />
Também vale observar o hábito: forma geral e porte de um exemplar adulto, incluindo estrutura, tipo de caule e modo de crescimento. Esta imagem é de uma planta subarbustiva da espécie Ertela trifolia (popularmente conhecida como alfavaca-de-cobra). Como ela preservou a raiz e parte do sistema subterrâneo, é possível observar características que se perderiam se apenas um ramo tivesse sido coletado.</p>
<p><strong>7. RÉGUA</strong><br />
Ferramenta importante para a identificação, já que muitos caracteres utilizados nas descrições e nas chaves taxonômicas são dimensionados. Por meio dela, o pesquisador pode avaliar o tamanho real das estruturas e comparar medidas com as descrições das espécies.</p>
<p><strong>8. COLOR CHECKER</strong><br />
Referência padronizada de cor que pode ser um ponto de identificação importante em determinadas estruturas. É preciso, contudo, ter cautela porque o processo de secagem é capaz de alterar significativamente a coloração original.</p>
<p></div>
<p>O sistema, aliás, é o desafio menos óbvio. Antes do Reflora, o JBRJ já havia criado o Jabot, um gerenciador de coleções desenvolvido internamente a partir de 2003 e hoje usado por cerca de 100 herbários brasileiros. Um acervo biológico, explica Forzza, não é um estoque com entradas e saídas: ele é vivo e, por isso, dinâmico. Cada novo consenso taxonômico — e eles não são raros, como demonstra a exsicata baiana de Darwin — pode rebatizar espécies, fundir gêneros ou desmembrar famílias, e o banco de dados precisa acompanhar essa reestruturação. &#8220;A gente tinha que desenvolver um sistema de dados capaz de entender o que os botânicos fazem. O que eu falava tinha que ser entendido pelos engenheiros de computação e analistas que estavam desenvolvendo o sistema, e o que eles falavam tinha que ser entendido por mim. Foram muitos tropeços até funcionar&#8221;, relata Forzza. Para o Herbário Virtual, entrou em cena a Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o matemático Geraldo Zimbrão à frente de uma equipe de analistas e pós-graduandos. &#8220;Nenhum dos nossos sistemas foi copiado de países desenvolvidos. A tecnologia é toda nacional, feita por servidores públicos. Tenho orgulho disso&#8221;, diz.</p>
<p>O CNPq lançou um único edital do Reflora, em 2010, e o programa sobrevive desde então com aportes pontuais. &#8220;É o único país do mundo que faz isso tão bem, com tecnologia própria. Não é justo abandonar os botânicos&#8221;, diz Forzza, que vê como próximo passo a construção de bibliotecas de imagens capazes de treinar sistemas de identificação automática — atualmente ruins para trabalhar com a flora tropical porque vastas regiões do Brasil ainda não têm amostras coletadas. &#8220;A máquina vai aprender por onde, se a gente não ensinar?&#8221;</p>
<p>Em paralelo, Zago sugere novas expedições a partir das informações repatriadas. Como cada imagem traz o local exato da coleta, ele já propôs enviar equipes aos mesmos pontos, colher amostras equivalentes e sequenciar o DNA, reconstruindo, quase dois séculos depois, o caminho dos naturalistas de outrora. &#8220;Isso não andou. Quem sabe ainda ande um dia.&#8221;</p>
<p>Para Sakuragui, seguir refazendo essa trilha é possível. &#8220;Uma exsicata é um registro permanente de uma planta em determinado lugar e momento. Por isso, coleções históricas permitem responder perguntas que seus próprios coletores nem poderiam ter imaginado.&#8221; Que o diga aquele jovem naturalista inglês de 23 anos que, coletando e prensando folhas na Bahia, jamais imaginaria que, um dia, sua planta voltaria para lá.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um mapa do calcanhar de aquiles celeste</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/um-mapa-do-calcanhar-de-aquiles-celeste/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=um-mapa-do-calcanhar-de-aquiles-celeste</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sophia La Banca]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Sep 2026 16:01:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
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					<description><![CDATA[Novos instrumentos devem ajudar a entender o ponto mais fraco no campo magnético da Terra, localizado acima do território do Brasil]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) estão desenvolvendo instrumentos para satélites com o objetivo de estudar a Anomalia Magnética do Atlântico Sul (Sama, na sigla em inglês), uma região em que o campo magnético da Terra é significativamente mais fraco e que cobre parte da América do Sul, do Atlântico Sul e do continente africano. A anomalia tem efeitos que vão além das variações mais comuns no campo magnético terrestre, podendo trazer riscos para satélites e os serviços que dependem deles.</p>
<p>O planeta Terra é protegido por um campo magnético que desvia grande parte das partículas emitidas pelo Sol. A proteção proporcionada por esse campo é o que permite a existência de nossa atmosfera. “Se esse campo não existisse, o fluxo de partículas arrastaria consigo todas as moléculas dos gases que estão no ar. Sem gases atmosféricos, sem vida. Nosso planeta seria como Marte”, resume Gelvam Hartmann, professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).</p>
<p>Por causa da tecnologia contemporânea, esse escudo magnético se tornou ainda mais importante. Ele protege os delicados componentes eletrônicos dos satélites usados para telecomunicação e geolocalização, por exemplo. Mas fenômenos climáticos espaciais, como as tempestades geomagnéticas causadas por perturbações nos ventos solares, podem colocar esses equipamentos em risco ou atrapalhar seu funcionamento. Quando eventos assim ocorrem, partículas com carga elétrica podem chegar até a ionosfera, uma camada atmosférica ocupada por gases carregados eletricamente. “Isso altera as condições de propagação de ondas de rádio, e todos os sistemas baseados em satélites, que dependem de sinais atravessando a camada, sofrem efeitos negativos”, explica Emília Correa, pesquisadora do Inpe, que conta com <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/113556/caracterizacao-da-dinamica-da-ionosfera-no-setor-da-america-do-sul-ate-a-antartica-sob-os-impactos-d/" target="_blank" rel="noopener">projeto</a> apoiado pela FAPESP na linha de Auxílio à Pesquisa — Regular. Ela usa o GPS como um exemplo de um sistema que pode ser afetado. “Se forem muito fortes, as tempestades causam a perda da sintonia de comunicação do sistema GPS, prejudicando a precisão de navegação.”</p>
<p>Nesse cenário, algumas ações ajudam a proteger os equipamentos. “Tem satélites que recolhem o painel solar, e outros desligam certos instrumentos internos”, exemplifica Paulo Fagundes, professor adjunto na Universidade do Vale do Paraíba, que também tem <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/113814/estudo-global-da-variabilidade-diurna-dia-a-dia-e-sazonal-da-eletrodinamica-ionosferica-em-funcao-do/" target="_blank" rel="noopener">projeto</a> com financiamento da FAPESP na linha de Auxílio à Pesquisa — Temático. Medidas desse tipo são ainda mais necessárias em satélites que se encontram na região da Sama. Como o campo magnético nela é mais fraco, as partículas carregadas responsáveis pelo dano podem atingir camadas mais baixas da atmosfera. “Esses íons vão penetrar mais profundamente”, diz Fagundes.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/Anomalia_DESKTOP.png" data-tablet_size="1140x930" alt="Infográfico explica como surge a Anomalia Magnética do Atlântico Sul (SAMA) e afeta satélites">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP</span></div><div class="post-content sequence">
<h2><strong>Previsão do clima espacial</strong></h2>
<p>Apesar da importância para a manutenção dos sistemas de satélite, ainda se sabe pouco sobre como essas partículas atravessam as camadas de nossa atmosfera na região da Sama. Entender como isso ocorre pode levar ao desenvolvimento de novas estratégias para a proteção dos equipamentos. Livia Ribeiro Alves, pesquisadora do Inpe, compara isso à previsão das chuvas na superfície do planeta. “É como tentar impedir a chuva. Não tem como, ela vai acontecer. Mas, se soubermos qual vai ser o volume de água que cai e onde ela vai cair, podemos pensar em estratégias de proteção.”</p>
<p>A equipe de Alves trabalha no desenvolvimento de equipamentos para a medição do fluxo de elétrons, uma das partículas carregadas que pode atravessar as camadas da atmosfera, com o objetivo de fazer essa previsão do clima espacial. “Pensamos em monitorar a recorrência da precipitação de partículas, a quantidade precipitada, as espécies [tipos de partículas] que se precipitam e onde”, explica Alves. Além de estudar como isso se dá em contextos normais, entender como as condições espaciais mudam durante as tempestades geomagnéticas também faz parte do projeto. “E quando eu tenho uma tempestade, como essa precipitação acontece? Existe alguma região que não é atingida e que vai passar a ser afetada quando isso acontecer? São essas as perguntas que queremos responder.”</p>
<p>A precipitação das partículas não ocorre aleatoriamente. Elas ficam presas ao campo magnético da Terra em dois cinturões de radiação na parte externa da atmosfera, até que a interação com ondas de determinadas frequências causa a sua queda. “Elas estão lá girando, mas, quando interagem com uma onda, não conseguem mais ficar estabilizadas, então se precipitam e caem na região da anomalia magnética” explica Correa.</p>
<p>Entender como ocorre a interação entre as partículas e as ondas que causam sua precipitação é outro ponto importante do Sama-Suite. Em especial, as ondas whistler, que possuem a frequência necessária para causar a precipitação das partículas dos cinturões de radiação. “O que se sabe é que a única forma de haver essa precipitação é se houver a interação com as ondas whistler, que têm uma faixa de frequência próxima da frequência de giro dos elétrons”, explica Alves.</p>
<h2><strong>Preparando os instrumentos</strong></h2>
<p>O Sama-Suite ainda se encontra nas fases iniciais de desenvolvimento. No momento, a equipe de Alves determina os requisitos que os instrumentos que serão levados nos satélites devem cumprir. Ainda não existem satélites capazes de fazer as medições necessárias para o projeto. Os que podem medir o fluxo de partículas carregadas costumam ser projetados para órbitas mais altas do que o necessário para estudar as partículas na Sama. Por outro lado, satélites de baixa órbita costumam carregar instrumentos para medição do clima e imageamento da vegetação. Isso significa que novos instrumentos terão de ser desenvolvidos especialmente para esse projeto. Além disso, como atuarão na Sama, os aparelhos precisam ser capazes de resistir mesmo com uma menor proteção do campo magnético.</p>
<p>Além dos cálculos e simulações, a equipe de Alves realizará testes em ambientes controlados para garantir que os equipamentos estejam preparados uma vez lançados. “Faremos testes como os de detecção, do comportamento da eletrônica, de temperatura e de radiação”, diz ela.</p>
<p>Já existem missões espaciais que são candidatas para levar os instrumentos desenvolvidos, como o CBERS, um programa de cooperação tecnológica entre China e Brasil, e a missão Galileo, que pretende lançar um telescópio espacial solar.</p>
<p>Alves destaca a importância do projeto para o país. “Ninguém é mais interessado nessa pesquisa do que o Brasil, certo? Afinal, a Sama está em cima das nossas cabeças. Precisamos ter condições de fazer as medidas não só com parceiros e colaboradores internacionais, mas também usando a tecnologia e o desenvolvimento experimental que temos nas instituições brasileiras.”</p>
<blockquote><p>&#8220;É como tentar impedir a chuva. Não tem como, ela vai acontecer. Mas, se soubermos qual vai ser o volume de água que cai e onde ela vai cair, podemos pensar em estratégias de proteção&#8221; – Livia Ribeiro Alves, pesquisadora do Inpe</p></blockquote>
<h2><strong>De onde vem a Sama</strong></h2>
<p>O campo magnético da Terra é gerado pelo movimento do ferro líquido na camada externa do núcleo terrestre, a 2.900 quilômetros de profundidade. De maneira geral, ele funciona como um dipolo, ou seja, como um grande ímã de geladeira. Mas alguns pontos do planeta são exceções. “Se a gente pega a América do Sul, o Atlântico Sul, o sul da África, a gente pode dizer que o comportamento dipolar não funciona”, exemplifica Hartmann.</p>
<p>O comportamento anômalo pode ser explicado pela polaridade do campo magnético no núcleo da Terra. Sob a Sama, o polo magnético do campo é o contrário do esperado. O professor Ricardo Trindade, do Departamento de Geofísica do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), explica que essa inversão é gerada por manchas magnéticas — pontos onde as linhas do campo magnético são voltadas para o interior do planeta, em vez de para o exterior. Elas existem na interface entre o núcleo externo e o manto, a camada que fica logo acima do núcleo na estrutura de nosso planeta. “São manchas grandes. Maiores do que o estado de Minas Gerais, maiores do que o sul do Brasil. É fácil imaginar que, se você tem um campo naquele local com uma polaridade invertida, ele vai reduzir a intensidade do campo magnético do planeta.”</p>
<p>Trindade também explica que as manchas não são estáticas – elas se movem junto com a Sama em direção ao oeste, até desaparecer e reemergir no sul da África. Apesar disso, não dão sinal nenhum de que irão sumir. “Essas manchas e esse efeito da anomalia devem estar aí por milhões de anos. Não é uma coisa recente. Então, como risco espacial, é algo que temos que contar como parte do contexto geomagnético terrestre. Não dá para pensar nisso como uma coisa pontual, que vai desaparecer”, conclui o professor.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O ensino de ciências que o Pisa revela</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/o-ensino-de-ciencias-que-o-pisa-revela/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-ensino-de-ciencias-que-o-pisa-revela</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sabine Righetti]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Sep 2026 11:58:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dados]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://revistapesquisa.fapesp.br/?p=588044</guid>

					<description><![CDATA[Números mostram que o Brasil avançou pouco no ensino de ciências nos últimos 20 anos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Na década de 2000, o linguista da Unicamp Carlos Vogt propôs que os processos que envolvem a ciência — sua produção, difusão, ensino e divulgação — estão diretamente conectados e se retroalimentam. Nessa perspectiva, os dados do último Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, na sigla em inglês) se tornam ainda mais preocupantes.</p>
<p>O Brasil ficou em 67°<sup> </sup>lugar no mundo em ciências, entre 91 países que participaram do exame. Isso significa que, por aqui, os estudantes tiveram mais dificuldade para explicar fenômenos cientificamente ou para usar informações científicas para tomada de decisão do que alunos de países como Estados Unidos (13°) e Chile (43°).</p>
<p>A avaliação internacional organizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mede o desempenho de estudantes de 15 anos em matemática, leitura e ciências. A última edição teve foco em ciências, e os resultados foram divulgados em setembro.</p>
<p>O problema é que o Brasil está beirando o último pelotão no ensino de ciências dentre os países avaliados. E, voltando à análise de Vogt, uma educação científica de base que deixa a desejar compromete toda a cultura científica do país. Distancia as pessoas da ciência, prejudica a formação de novos pesquisadores.</p>
<p>Na série histórica, o Brasil tem melhorado timidamente na prova. Passou de 390 pontos em 2006 — primeira edição do Pisa da qual participou da avaliação com foco em ciências — para 409 pontos em 2025. A China, país com a maior nota do mundo atualmente, ainda que avaliado apenas em um grupo de províncias, passou de 575 pontos (em 2009; não há dados de 2006) para 597 pontos (2025). Já a média dos países da OCDE em ciências tem caído: foi de 500 pontos (2006) para 482 pontos (2025) — a pior nota da série.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/PISA-Web-Vale-Este-Desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="2372x2560" alt="Gráfico do desempenho do Brasil no PISA de 2006 a 2025 comparado a Chile, Estados Unidos, China e média da OCDE">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara/Revista Pesquisa FAPESP</span>
<p>A queda de desempenho dos países ricos europeus no Pisa tem despertado reflexões entre especialistas. O que se diz é que as distrações tecnológicas e uma consequente queda do hábito de leitura têm prejudicado o resultado do exame. Trocando em miúdos, na média, os adolescentes desses países estão aprendendo menos sobre ciências.</p>
<p>É claro que o Pisa traz um retrato parcial e limitado de como se dá o ensino nos países avaliados. As informações devem ser complementadas com outros instrumentos locais e com dados complementares, que sejam importantes em cada contexto.</p>
<p>No cenário brasileiro, por exemplo, há dados oficiais que dizem muito sobre a estrutura da educação que pode afetar a aprendizagem em ciências. O Censo Escolar do Ministério da Educação (MEC) mostra que, em 2025, menos da metade das escolas públicas de ensino médio do país tinham laboratório de ciências (e não sabemos se esses espaços, quando existem, são, de fato, utilizados).</p>
<p>A menos que as escolas tenham, por exemplo, laboratórios didáticos móveis não contabilizados no censo, a ausência desses equipamentos pode ser um problema para a educação experimental em ciências.</p>
<p>E o retrato fica pior quando olhamos para a educação científica fora das escolas. A última Pesquisa Nacional de Percepção Pública da Ciência, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), de 2023, revelou que nove em cada dez brasileiros declararam não ter visitado espaços como museus de ciências nos 12 meses anteriores ao questionamento. Tudo isso, claro, pode impactar os resultados de exames como o Pisa.</p>
<p>O fortalecimento do ensino de ciências nas escolas e nos espaços extraescolares de divulgação científica é essencial para uma cultura científica mais forte. E o Pisa nos dá sinais de que temos de avançar nesse quesito para fortalecer a ciência produzida no país.</p>
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		<title>As origens e a lógica do grupo controle</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/as-origens-e-a-logica-do-grupo-controle/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=as-origens-e-a-logica-do-grupo-controle</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Letícia Naísa]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Sep 2026 12:03:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Política C&T]]></category>
		<category><![CDATA[Epidemiologia]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Farmacologia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina]]></category>
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					<description><![CDATA[O caso da polilaminina traz à tona o debate sobre as regras que governam os testes de medicamentos e em que contextos eles podem ser flexibilizados]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em fevereiro deste ano, na estreia do jornalista Ernesto Paglia à frente do programa Roda Viva, da TV Cultura, os holofotes recaíram sobre a cientista Tatiana Sampaio. A especialista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estava em destaque desde meados de 2025, quando começaram a circular reportagens sobre sua pesquisa com a <span style="text-decoration: underline;">polilaminina</span>, uma molécula que, em estudos iniciais, mostrou indícios de que poderia ser usada para tratar lesões medulares. Na berlinda, Sampaio foi questionada sobre a necessidade de submeter a substância a estudos clínicos controlados. “Vamos supor que esses 30 pacientes todos voltem a andar. Você teria coragem de fazer um estudo clínico controlado?”, rebateu a pesquisadora.</p>
<p><div class="box-lateral"><strong>Próxima fase</strong><br />
O laboratório Cristália anunciou no último dia 16 que vai iniciar o estudo de fase 1 com a polilaminina. A partir de 24 de setembro, cinco pacientes adultos &#8211; que tenham sofrido uma lesão grave na medula há menos de 72 horas &#8211; devem ser recrutados para participar da pesquisa, que tem como principal objetivo avaliar a segurança do tratamento.</p>
<p>O estudo será realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e na Santa Casa de Misericórdia.<br />
</div>As declarações reacenderam um debate que atravessa a história da ciência: quando é possível (ou aceitável) dispensar um estudo nesse formato? Atualmente, pesquisas clínicas randomizadas com grupo controle são consideradas uma metodologia padrão-ouro, ou seja, a mais confiável para descobrir se um tratamento é realmente eficaz, mesmo com os dilemas éticos que a rondam. Mas nem sempre foi assim.</p>
<p>“Existe a impressão de que se trata de uma metodologia atemporal. Mas, na verdade, é algo muito recente”, aponta Luiz Alves Araújo Neto, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor de história da medicina na Casa de Oswaldo Cruz. &#8220;Até o século 19, o processo de introdução de novas tecnologias e medicamentos era essencialmente clínico: terapias eram testadas caso a caso&#8221;, explica o historiador.</p>
<p>Foi no século 20 que esse jeito de fazer as coisas passou a ser questionado e uma nova forma de produção de conhecimento na medicina começou a ser aplicada, a do ensaio clínico como o conhecemos hoje, no qual é possível destacar três características: o grupo controle, a randomização e a ideia de duplo-cego.</p>
<p>Segundo o historiador da Fiocruz, a primeira testagem em massa de que se tem notícia aconteceu em 1910, com o objetivo de avaliar um medicamento contra a sífilis chamado <span style="text-decoration: underline;">Salvarsan</span> . O teste foi feito em milhares de pessoas, e o remédio funcionou para muitas delas. Mas causava uma série de efeitos colaterais e, em altas doses, era tóxico. Anos depois, foi substituído pela penicilina, que também nunca passou pelo escrutínio de um estudo clínico com grupo controle, mas foi avaliada em testes com soldados durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa época, já se instalava a ideia de que um tratamento precisa funcionar em muitas pessoas para ser validado.</p>
<div class="box-lateral"> <strong>O que era o Salvarsan </strong><br />
Composto orgânico à base de arsênico, foi desenvolvido pelo cientista alemão Paul Ehrlich em colaboração com o bacteriologista japonês Sahachiro Hata. Antes dele, a sífilis era tratada com compostos tóxicos de mercúrio e apresentava altas taxas de mortalidade.<br />
</div>
<h2><strong>Marco inicial</strong></h2>
<p>O marco de nascimento dos ensaios clínicos randomizados modernos é o estudo britânico dos anos 1940 sobre a estreptomicina, um medicamento para tratar a tuberculose, conduzido, entre outros pesquisadores, pelo epidemiologista e estatístico Austin Bradford Hill. Desde 1937, o britânico defendia o método da randomização e de grupos controle no estudo de tratamentos.</p>
<p>No artigo sobre o ensaio clínico da estreptomicina, Hill e sua equipe justificam a abordagem destacando que, apesar dos resultados animadores da droga no laboratório e em testes com porcos, ainda não se tinha certeza de que o medicamento seria seguro e benéfico para humanos. “O uso de uma nova droga em alguns poucos casos não pode ser aceito como prova de seu efeito”, <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2091872/pdf/brmedj03701-0007.pdf">escreveram os cientistas, em 1948, no </a><a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2091872/pdf/brmedj03701-0007.pdf" target="_blank" rel="noopener"><em>British Medical Journal</em></a>.</p>
<p>Assim, eles reuniram 107 pacientes e os dividiram em dois grupos: 55 pessoas receberam a estreptomicina e outros 52 o tratamento vigente até então (repouso absoluto). Foi aplicada a metodologia da randomização, ou seja, os pacientes foram escolhidos aleatoriamente para tomar o remédio (mas não a técnica de duplo-cego). O primeiro grupo recebeu a droga, enquanto ao segundo coube só o tratamento padrão da época. A avaliação dos resultados foi feita por profissionais que não participaram da aplicação do tratamento e não sabiam quem tinha recebido a estreptomicina.</p>
<p>Seis meses depois, 28 pacientes tratados com o medicamento apresentaram melhora considerável, enquanto 4 do grupo controle tiveram o mesmo progresso. A taxa de mortalidade no grupo que recebeu a estreptomicina também foi menor. A conclusão dos pesquisadores foi que a droga realmente funcionava e que a metodologia do estudo servia para provar sua eficácia.</p>
<p>“O grupo controle é uma tentativa de resolver uma questão chamada de problema fundamental da inferência causal”, explica o epidemiologista Guilherme Werneck, professor associado do Departamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professor adjunto do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da UFRJ. Para estabelecer uma relação de causa e efeito entre a aplicação de um medicamento e a cura de uma doença, seria necessário testar a mesma pessoa em condições opostas simultaneamente. Ou seja, em um cenário ela receberia o tratamento e no outro não.</p>
<p>“Obviamente, isso é impossível. Não existe um ‘mundo paralelo’ em que se possa testar duas coisas na mesma pessoa”, aponta Werneck. A opção possível é comparar essa pessoa com outra muito parecida com ela, exceto pelo fato de não ter recebido o tratamento. “Claro que não podemos fazer isso na proporção de 1 para 1, tem de ser feito com grupos maiores”, diz o epidemiologista. Por isso, os participantes são separados em grupos, um que recebe o tratamento e outro que não o recebe, sendo chamado de grupo controle.</p>
<p>Poder comparar os dois resultados é fundamental, já que existem três razões principais para a melhora de um paciente, de acordo com o epidemiologista Fredi A. Diaz Quijano, professor associado do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e diretor do Laboratório de Inferência Causal em Epidemiologia (LINCE-USP).</p>
<p>A primeira delas é a história natural da doença. “Muitas pessoas melhoram espontaneamente”, diz Quijano. “Por exemplo, em diversas moléstias infecciosas o corpo tem mecanismos para controlar e reverter a doença. Até em alguns tipos de traumas há mecanismos que fazem com que muitas pessoas melhorem sem necessidade de nenhuma intervenção”, afirma. A segunda abrange fatores inespecíficos, como o efeito placebo ou o impacto psicológico do cuidado e acompanhamento do paciente por uma equipe médica. A terceira razão é o efeito específico de uma intervenção, como um medicamento.</p>
<p>É justamente para separar essa terceira razão das outras que o grupo controle se faz necessário, já que ele permite isolar e quantificar o mérito de um tratamento. “Sem isso, a hipótese contrária, a de que um medicamento é capaz de fazer mal, também pode ser defendida”, diz Werneck. “Sem ele, ficamos sem mecanismo para contrapor as hipóteses.”</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/ensaio-clinico-desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="1500x2560" alt="Infográfico das 4 fases do ensaio clínico: teste de segurança, eficácia, comparação estatística e monitoramento pós-aprovação">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Carolina Daffara/Revista Pesquisa FAPESP</span>
<h2><strong>Padrão-ouro</strong></h2>
<p>Ao longo do tempo, a possibilidade de confrontar dados sobre dois grupos de pessoas em condições muito parecidas se transformou na maneira mais confiável de se fazer ciência. Segundo Araújo Neto, o contexto do pós-guerra, no final dos anos 1940, foi marcado pelo avanço dos investimentos em pesquisas biomédicas, especialmente nos EUA, na Inglaterra e na França. Além da discussão mais rigorosa sobre causalidade, havia a preocupação crescente com segurança e regulação de substâncias.</p>
<p>“Nesse momento da história, o debate bioético surge com força, muito associado aos crimes de guerra e ao nazismo”, aponta o historiador.</p>
<p>Um dos pontos de virada nos marcos regulatórios foi o desastre da talidomida no final dos anos 1950. A droga foi criada para o tratamento de hanseníase e lúpus, mas passou a ser receitada para tratar enjoos em grávidas. Com o tempo, viu-se que ela estava causando malformações congênitas em milhares de bebês. A empresa alemã responsável pelo medicamento foi processada, assim como governos que disponibilizaram o medicamento.</p>
<p>Por conta disso, em 1962, uma emenda à legislação americana foi aprovada e passou a exigir comprovação de eficácia por meio de estudos controlados antes da aprovação de qualquer novo medicamento. O modelo regulatório se espalhou pelo mundo, inclusive para o Brasil. Hoje, órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) só autorizam a circulação de um novo fármaco após estudos clínicos randomizados com grupo controle.</p>
<p>“Os ensaios clínicos mudaram a lógica de autoridade dentro da medicina, que sempre foi do médico”, aponta Araújo Neto. A produção de dados e atuação de outros profissionais quanto à segurança e eficácia de tratamento desloca essa autoridade para outras disciplinas biomédicas, estruturando a medicina baseada em evidências.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/piramide-desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="1652x2560" alt="Pirâmide das evidências científicas com 5 níveis, de metanálises a relatos de caso">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Carolina Daffara/Revista Pesquisa FAPESP</span>
<h2><strong>Tensões pandêmicas</strong></h2>
<p>Transformar o ensaio clínico em metodologia padrão não foi um processo livre de tensões, especialmente em momentos de crise, como a da Aids. Nos anos 1980, a comunidade LGBTQIAP+ nos EUA pressionou as autoridades para acelerar os protocolos de testagem do AZT, primeiro antirretroviral aprovado contra o HIV. O tempo exigido pela ciência não acompanhava a velocidade com que a doença matava. “Surge um confronto entre a racionalidade da produção de conhecimento e a urgência de quem está morrendo”, explica Araújo Neto.</p>
<p>Em 2020, a pandemia de Covid-19 criou dilemas parecidos. O caso da hidroxicloroquina evidenciou o custo de abrir mão do rigor metodológico em nome da urgência. Estudos iniciais em laboratório apontaram que a droga poderia inibir o coronavírus, mas foram os estudos clínicos randomizados de grande porte que produziram evidências robustas de que não havia benefícios do medicamento nesses casos. Ainda assim, o uso do fármaco foi politizado, e experimentos feitos <em>in vitro </em>estimularam a desinformação.</p>
<p>Mesmo sob pressão do tempo e da ética, os estudos com grupo controle foram mantidos, ainda que sofrendo modificações. Uma vez comprovada a eficácia das vacinas em análises preliminares, as empresas farmacêuticas deveriam oferecê-las aos voluntários do grupo placebo, que seriam informados sobre ter recebido substâncias inócuas <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8264198/" target="_blank" rel="noopener">por questões éticas</a> – o que não acontece em um estudo clínico observacional. “Em meio à ausência de opções, foi muito tentador abandonar o rigor em nome de uma ação imediata, mas houve persistência da comunidade científica, o que permitiu definir o que funcionava ou não”, avalia o epidemiologista Fredi Quijano, da USP.</p>
<p>Para resolver certos problemas metodológicos da comparação de grupos de tratamento, os ensaios clínicos incorporaram alguns procedimentos. O primeiro é a randomização: os grupos são separados de forma aleatória, não se escolhe quem vai receber uma intervenção e quem não vai. O segundo é o método do duplo-cego. Nem o paciente nem o profissional de saúde sabem quem está recebendo remédio ou placebo. A ideia é que os dois princípios garantam a comparabilidade e a avaliação imparcial.</p>
<p>São também cada vez menos comuns os casos em que pessoas que fazem parte de grupos controle fiquem totalmente sem tratamento. “Para doenças em que já existe alguma opção, o grupo controle vai receber o melhor disponível naquele momento”, afirma Werneck. Esse tipo de exigência está formalizada na <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/principios-eticos/" target="_blank" rel="noopener">Declaração de Helsinque</a>, feita nos anos 1960 pela Associação Médica Mundial, que <a href="https://www.scielo.br/j/csp/a/PKsMdyHpFLGrxKmPPbxxqMg/?lang=en" target="_blank" rel="noopener">proibiu o uso de placebo em ensaios clínicos</a> em casos em que já existisse uma intervenção comprovadamente eficaz. A regra foi flexibilizada em 2008, permitindo o uso de placebo em situações metodologicamente justificadas e sem risco de dano sério ou irreversível aos participantes. O Código de Ética Médica brasileiro é ainda mais restritivo: proíbe qualquer vínculo de médicos com estudos que usem placebo como única intervenção sempre que houver medida terapêutica eficaz disponível.</p>
<p>Ao incorporar um novo tratamento, é preciso que o ensaio clínico também avalie possíveis consequências prejudiciais aos pacientes e, em alguns casos, o estudo pode ser interrompido. “Nos casos de HIV, os primeiros antivirais eram muito menos eficazes e muito mais traumáticos. O paciente podia não morrer de HIV, mas poderia ficar cego, por exemplo”, lembra Werneck. “Os ensaios têm um tempo de duração e um comitê externo que acompanha e pode sugerir a interrupção, seja pela demonstração da eficácia, seja por efeitos colaterais maiores.”</p>
<p>O fim de um ensaio clínico também não significa o fim da avaliação do tratamento. É para isso que existem os estudos clínicos de fase 4 ou pós-comercialização, nos quais grandes números de pacientes são monitorados para analisar os efeitos de um fármaco usado em massa. Nesse caso, os pesquisadores geralmente recorrem a estudos observacionais, que ajudam a identificar efeitos colaterais raros ou benefícios adicionais que não foram percebidos nos ensaios clínicos menores.</p>
<h2><strong>Exceções à regra</strong></h2>
<p>Existem algumas circunstâncias em que pode ser aplicado o chamado uso compassivo de uma substância ainda sem evidências robustas. É algo que acontece em tratamentos experimentais, fora de um estudo clínico. São situações em que os pacientes não podem esperar o tempo necessário para a conclusão de um estudo mais rigoroso e não há outras opções terapêuticas disponíveis. Nesses casos, protocolos experimentais podem ser aplicados fora do desenho de um ensaio clínico randomizado.</p>
<p>Outro cenário de exceção é quando uma doença é rara demais para reunir participantes suficientes para um ensaio clínico. Foi o que aconteceu com a molécula larotrectinibe, aprovada pela Anvisa em 2019 para uso em tumores que carregam fusões do gene NTRK, bastante raros, sem estudo com braço controle.</p>
<p>Um caminho intermediário acontece na oncologia. Nos EUA, a FDA, a agência reguladora de medicamentos, faz aprovações aceleradas baseadas em estudos de fase 2 quando resultados preliminares se mostram promissores. Um <a href="https://jamanetwork.com/journals/jamaoncology/article-abstract/2800126" target="_blank" rel="noopener">levantamento publicado na revista científica </a><a href="https://jamanetwork.com/journals/jamaoncology/article-abstract/2800126" target="_blank" rel="noopener"><em>Journal of the American Medical Association (JAMA)</em></a><a href="https://jamanetwork.com/journals/jamaoncology/article-abstract/2800126" target="_blank" rel="noopener"> em 2022</a> mostra que, entre 176 medicamentos de hematologia e oncologia aprovados pelo FDA por esse modelo, 38% tiveram o benefício confirmado posteriormente, mais da metade ainda aguardava confirmação e 9% acabaram retirados do mercado depois que o estudo controlado revelou que o efeito inicial não se sustentava. &#8220;No Brasil, a Anvisa costuma ser mais conservadora nesse ponto, aguardando os estudos confirmatórios antes de liberar o uso amplo&#8221;, diz o oncologista Gilberto de Castro Junior, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp).</p>
<p><!--EndFragment --></p>
<h2><strong>Fora da medicina</strong></h2>
<p>A ideia de comparar dois mundos paralelos para encontrar relações de causalidade nunca ficou restrita ao campo biomédico. Ao longo do século 20, as ciências sociais também passaram a aplicar a metodologia. “Em educação, saúde e demais políticas públicas, é basicamente o que diferencia uma avaliação bem feita de uma pouco confiável”, afirma Naercio Menezes Filho, professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper e professor associado da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP. Sem um grupo para comparação, é impossível distinguir os efeitos de uma política de outros fatores que afetam uma população.</p>
<p>A metodologia também é aplicada de maneira randomizada e enfrenta dilemas éticos similares, principalmente em situações de urgência, como a pandemia. A política do auxílio emergencial adotada no Brasil, por exemplo, não passou por experimentos com grupo controle, já que não seria ético fazer as pessoas esperarem pelo benefício naquele contexto.</p>
<p>Seja no uso da polilaminina ou na aplicação de uma política pública, a pergunta que ronda os estudos com grupo controle é sempre a mesma: a melhora se deve à intervenção aplicada ou ela teria acontecido de qualquer forma? A resposta raramente é simples. Nos anos 1960, o filósofo da ciência Thomas Kuhn defendeu que um paradigma científico só cai por terra quando surge outro capaz de explicar melhor uma anomalia. É por isso que o grupo controle resiste: não porque seja perfeito, mas porque, até agora, ninguém propôs um substituto à altura.</p>
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		<title>Edição impressa de Pesquisa FAPESP está de volta com ‘super El Niño’, Belo Monte e IA na ciência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daniel Dieb]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2026 21:27:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
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					<description><![CDATA[Edição impressa de <em>Pesquisa FAPESP</em> está de volta com ‘super El Niño’, Belo Monte e IA na ciência]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" width="800" height="1058" class="size-full wp-image-587978 alignright" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/capa-800.png" alt="" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/capa-800.png 800w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/capa-800-250x331.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/capa-800-700x926.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/capa-800-120x159.png 120w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><span class="media-credits-inline">Reprodução</span>Três meses após o lançamento da edição 364, <em>Pesquisa FAPESP</em> está de volta com a <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/revista/ver-edicao-editorias/?e_id=529" target="_blank" rel="noopener">edição impressa 365</a>. A capa traz um alerta: o Pacífico Equatorial está mais quente do que em qualquer outro momento desde o início das medições em 1950. É um indício de que o <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/ameaca-de-um-super-el-nino-desafia-cidades-brasileiras-a-se-preparar-para-eventos-extremos/" target="_blank" rel="noopener">El Niño pode se tornar muito forte</a>, com efeitos sobre as cidades brasileiras — tema que a edição também aprofunda ao acompanhar a crise hídrica no entorno da usina de <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/o-dilema-de-belo-monte-mudancas-climaticas-tendem-a-agravar-conflito-por-agua-do-rio-xingu/" target="_blank" rel="noopener">Belo Monte</a>.</p>
<p>A revista também traz o <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/a-ciencia-esta-mais-inteligente-ou-mais-artificial-com-a-ia/" target="_blank" rel="noopener">impacto da inteligência artificial</a> na diversidade de temas da pesquisa científica, o <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/racismo-e-exclusao-no-mercado-do-amor/" target="_blank" rel="noopener">racismo no mercado afetivo brasileiro</a> e a <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/especial-jabuti-academico/" target="_blank" rel="noopener">cobertura do prêmio Jabuti Acadêmico</a>, que homenageou o físico <a href="https://centrodememoria.fapesp.br/entrevista/entrevista-com-jose-goldemberg/" target="_blank" rel="noopener">José Goldemberg</a>.</p>
<p>O hiato marca um período de reformulação editorial e gráfica para renovar o fôlego da publicação e adaptá-la ao nosso tempo.</p>
<p>“Uma das principais mudanças para o leitor é a lógica digital first: cada reportagem sai primeiro no site, no seu próprio tempo, com um momento só dela e uma vida mais longa”, define Gabriel Alves, diretor de redação. Nessa nova lógica, a versão impressa ganha relevância como um compilado de leitura do mês, com curadoria e hierarquia do que foi publicado no período, em projeto gráfico novo, com fonte maior, mais infográficos, imagens e quadros — formas de fisgar o leitor e fazê-lo se encantar pelo conteúdo. Parte importante dessa reestruturação é a parceria editorial e acadêmica com o <a href="https://www.labjor.unicamp.br/" target="_blank" rel="noopener">Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor)</a>, da Unicamp.</p>
<p>Além disso, a revista passa a ter mais sinergia com a Gerência de Comunicação da FAPESP e suas outras iniciativas de comunicação, como a <a href="https://agencia.fapesp.br/" target="_blank" rel="noopener">Agência FAPESP</a>, o <a href="https://centrodememoria.fapesp.br/" target="_blank" rel="noopener">Centro de Memória</a> e o <a href="https://pesquisaparainovacao.fapesp.br/" target="_blank" rel="noopener">Pesquisa para Inovação</a>.</p>
<p>Também em setembro, <em>Pesquisa FAPESP</em> recebeu o <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/revista-pesquisa-fapesp-recebe-o-premio-jose-reis-de-divulgacao-cientifica/" target="_blank" rel="noopener">46º Prêmio José Reis</a> de Divulgação Científica e Tecnológica, concedido pelo CNPq na categoria Instituição e Veículo de Comunicação — considerada a maior honraria do jornalismo científico brasileiro.</p>
<p>O reconhecimento é fruto de uma trajetória que começou três décadas atrás, em agosto de 1995, com o informativo Notícias FAPESP, criado para levar informações sobre ciência e tecnologia a pesquisadores, gestores de política científica e jornalistas. Em 1999, na 47ª edição, o informativo deu lugar à revista <em>Pesquisa FAPESP</em>, que incorporou as editorias de Ciência, Tecnologia, Humanidades e Política Científica e Tecnológica, mantidas até hoje.</p>
<p><em>Pesquisa FAPESP</em> chegou à internet em 2001 e, no ano seguinte, adotou o formato que consolidou sua presença nas bancas e entre assinantes, com 12 edições anuais. A primeira edição em outra língua, o inglês, foi publicada em 2002. Em seguida, veio uma versão em espanhol — uma ação para ampliar o alcance e chegar a leitores em diversos países.</p>
<p>Em 2018, o site ganhou novo desenho e, em 2022, uma edição especial marcou os 200 anos da Independência do Brasil.</p>
<p>Nesta nova etapa, <em>Pesquisa FAPESP</em> quer aprofundar a conexão com seus diversos públicos — do estudante do ensino médio ao gestor público, passando pela comunidade de pesquisadores — atuando em quatro frentes: a edição impressa, o site, as redes sociais e as newsletters. Mais adiante, iniciativas multimídia, como vídeos e podcast, serão retomadas.</p>
<p>Mais de três décadas depois do primeiro Notícias FAPESP, o compromisso da revista permanece: fazer com que a ciência produzida em São Paulo e no Brasil chegue, com profundidade e rigor, a quem a financia: a sociedade.</p>
<p><!-- Linha do tempo Pesquisa FAPESP — cole em um bloco "HTML personalizado" do WordPress. A fonte Oculum é a do tema do site (já carregada pelo tema). --></p>
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<section class="pf-tl" aria-labelledby="pf-tl-title">
<header class="pf-tl__head">
<h2 class="pf-tl__title" id="pf-tl-title">Linha do tempo</h2>
<p class="pf-tl__subtitle">Acompanhe a trajetória de <em class="pf-tl__em">Pesquisa FAPESP</em> ao longo de mais de 30 anos</p>
</header>
<ol class="pf-tl__list">
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">1995</span>
<p class="pf-tl__text">A FAPESP lança, em agosto, o informativo Notícias FAPESP, com distribuição gratuita para os pesquisadores paulistas, gestores da política nacional de ciência e tecnologia e jornalistas.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">1999</span>
<p class="pf-tl__text">O informativo deixa de circular em setembro e em outubro é lançada a revista <em class="pf-tl__em">Pesquisa FAPESP</em>, com reportagens sobre Ciência, Tecnologia, Humanidades e Política Científica e Tecnológica, com ênfase em resultados de pesquisa financiados pela FAPESP.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2001</span>
<p class="pf-tl__text">A publicação chega à internet e passa a publicar o conteúdo da revista impressa, além de notícias sobre ciência e tecnologia.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2002</span>
<p class="pf-tl__text">A publicação passa a ter o formato atual, com 12 edições anuais de 100 páginas cada. Além do envio a pesquisadores e bolsistas ligados à FAPESP, a publicação começa a ser vendida em bancas e por assinatura. Em novembro, a versão impressa ganha a primeira edição em inglês, com uma seleção das melhores reportagens.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2010</span>
<p class="pf-tl__text">Questões de provas de vestibular de universidades públicas paulistas, como a da Unicamp, e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passam a ser formuladas com frequência a partir de reportagens da <em class="pf-tl__em">Pesquisa FAPESP</em>.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2018</span>
<p class="pf-tl__text">O site é redesenhado, com navegação facilitada entre texto, imagem e áudio/vídeo e leitura otimizada para celular, mantendo um acervo de mais de 20 anos de reportagens.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2022</span>
<p class="pf-tl__text">Em agosto, é lançada a edição especial da <em class="pf-tl__em">Pesquisa FAPESP</em> sobre o <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/revista/ver-edicao-editorias/?e_id=456" target="_blank">bicentenário da independência do Brasil</a>. Ao longo do ano, foram publicadas no site mais de 30 reportagens, vídeos e podcasts, reunidos em um pequeno <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/brasil-200-anos/" target="_blank">acervo</a>.</p>
</li>
<li class="pf-tl__item"><span class="pf-tl__year">2026</span>
<p class="pf-tl__text"><em class="pf-tl__em">Pesquisa FAPESP</em> recebe o 46º Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, do CNPq, na categoria Instituição e Veículo de Comunicação — a maior honraria do jornalismo científico brasileiro, concedida desde 1978. Inicia também uma nova etapa, com o trabalho editorial mais alinhado com outras frentes de comunicação da FAPESP.</p>
</li>
</ol>
</section>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ameaça de um ‘super El Niño’ desafia cidades brasileiras a se preparar para eventos extremos</title>
		<link>https://revistapesquisa.fapesp.br/ameaca-de-um-super-el-nino-desafia-cidades-brasileiras-a-se-preparar-para-eventos-extremos/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=ameaca-de-um-super-el-nino-desafia-cidades-brasileiras-a-se-preparar-para-eventos-extremos</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Dantas]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2026 11:57:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Capa]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Ciênc. Atmosféricas]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Chegada do fenômeno e sua intensificação pelo aquecimento global poderão produzir secas e chuvas intensas em diversas regiões do país]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Milhares de quilômetros a oeste do Peru e a leste da Indo­nésia, no coração azul do oceano Pacífico equatorial, um aumento pequeno, porém persistente, da temperatura da água está colocando o planeta inteiro em alerta. Cien­tistas preveem que, até o fim deste ano, o deslocamento dessa massa de água aquecida na direção da América do Sul poderá desencadear o mais intenso evento de El Niño já registrado pela ciência moderna, com consequências potencialmente gravíssimas para diversas regiões do mundo, incluindo o Brasil.</p>
<p>O primeiro alerta veio no início de junho, quando a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa, sigla em inglês) anunciou que um El Niño havia se formado. Isso acontece quando a temperatura da água na faixa equatorial do oceano Pací­fico permanece pelo menos 0,5 °C acima da média por vários meses consecutivos, acompanhada de mudanças no padrão de circulação dos ventos alísios, que normal­mente empurram essa água quente na direção da Aus­trália e do Sudeste Asiático <em>(<a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/08/Pesquisa-FAPESP-365-El-Nino.pdf" target="_blank" rel="noopener">veja infográfico completo</a>).</em></p>
<p>Desde então, a situação só piorou. Em julho, a anoma­lia térmica já havia ultrapassado 2 °C em grande parte da região leste do Pacífico, que banha a América do Sul. Em 13 de agosto, a Noaa anunciou que havia 90% de proba­bilidade de esse El Niño se tornar “muito forte”, com um aumento persistente acima de 2 °C na temperatura média da água nessa região, e 69% de probabilidade de ele se tor­nar o El Niño mais forte já registrado desde 1950, com um aquecimento próximo de 3 °C.</p>
<div id="attachment_587849" style="max-width: 1150px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587849 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-telhado-2026-09-1140.png" alt="" width="1140" height="630" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-telhado-2026-09-1140.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-telhado-2026-09-1140-250x138.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-telhado-2026-09-1140-700x387.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-telhado-2026-09-1140-120x66.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Amanda Perobelli/Reuters</span>Uma placa de “pare” e o topo de uma casa emergem da água em Canoas, em 5 de maio de 2024. As duas imagens integram a série “Brazil’s Worst-Ever Floods”, premiada no World Press Photo 2025. O júri destacou o registro de um dos maiores desastres climáticos da história do país<span class="media-credits">Amanda Perobelli/Reuters</span></p></div>
<p>Segundo o programa de monitoramento climático Copernicus, da União Europeia, a temperatura média do oceano como um todo em julho deste ano (20,96 °C) foi a maior registrada nas últimas cinco décadas, e muitos pes­quisadores já preveem que 2026 e 2027 poderão ser os anos mais quentes da história moderna — em grande parte, por causa desse “super El Niño” que está se configurando. Tudo isso, agravado pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas globais já em curso.</p>
<p>“A classificação do El Niño varia entre fraco, moderado, forte e muito forte”, explica o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cen­tro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Natu­rais (Cemaden), em São José dos Campos (SP). “Agora, além do aquecimento do Pacífico, temos como pano de fundo o aquecimento global. Ou seja, a soma dos dois processos. É por isso que surgem termos como ‘super El Niño’, embora eles não façam parte da classificação científica.” Num pla­neta mais aquecido, a atmosfera armazena mais umidade e, quando isso acontece, é como se estivessem colocando mais “gasolina no fogo”, compara Marengo.</p>
<p>Ninguém pode alegar que foi pego de surpresa. O El Niño é um fenômeno natural bem conhecido e bem moni­torado, que costuma se repetir em ciclos de dois a sete anos, e cujos efeitos são sentidos, principalmente, entre o último trimestre de um ano e o início do ano seguinte. Os eventos El Niño mais fortes já documentados pela ciência ocorreram em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016. Vários estudos alertam, porém, que esses eventos pode­rão se tornar cada vez mais frequentes, mais intensos e mais imprevisíveis à medida que a temperatura média do planeta aumenta.</p>
<blockquote><p>A Noaa estima 90% de chance de o El Niño de 2026 se tornar “muito forte” e 69% de chance de ser o mais intenso já registrado desde 1950</p></blockquote>
<p>As consequências são sentidas em todo o mundo, com variações bruscas nos padrões meteorológicos e aumento na ocorrência de eventos extremos, como ondas de calor, secas e tempestades. No Brasil, a tendência é que chova menos no Norte e mais no Sul do país, com consequências potencialmente severas para ambientes naturais, agríco­las e urbanos. Em 1983, por exemplo, a cidade de Blume­nau (SC) permaneceu por cerca de um mês debaixo d’água e mais de 200 mil pessoas ficaram desabrigadas no estado. Em maio de 2024 (também um ano de El Niño intenso), quatro décadas depois, agora com a temperatura média do planeta ainda mais quente, o Rio Grande do Sul sofreu uma inundação de proporções avassaladoras, com mais de 5,5 milhões de pessoas afetadas, particularmente em Porto Alegre, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geo­grafia e Estatística (IBGE).</p>
<p>Marengo argumenta que o El Niño nunca é o causador isolado do impacto, nem a mudança climática. Os even­tos extremos provocados pelo fenômeno constituem a ameaça ambiental, mas, para que ela se transforme em desastre, também é necessária uma alta vulnerabilidade das populações que vivem em áreas expostas — algo que depende de políticas públicas, e não do clima. O climato­logista lembra que, em setembro de 2023, quando o fenô­meno já estava se configurando e confirmado, ocorreram chuvas intensas no Vale do Taquari, região localizada no interior do Rio Grande do Sul, a cerca de 100 km da capi­tal gaúcha.</p>
<p>“A inundação em Porto Alegre foi em maio de 2024, quando o El Niño já estava terminando. O El Niño teve o seu auge em janeiro e depois diminuiu. Mas, então, o que aconteceu? A inundação foi consequência das chu­vas que caíram no Vale do Taquari, dos rios que levaram a água para o Guaíba e, então, as comportas não funcio­naram como o esperado. Não foram só as chuvas do El Niño”, argumenta o pesquisador.</p>
<p>O escritório brasileiro do World Resources Institute (WRI Brasil) publicou, em maio deste ano, uma análise multissetorial das causas do desastre de 2024 na capital gaúcha. Os autores do documento também afirmam que o alto volume de chuva foi apenas o início do problema: “A geomorfologia e o modelo de ocupação territorial do estado, com muitas cidades construídas às margens dos rios, foram determinantes para a magnitude das perdas e danos”. O relatório aponta que a resiliência só será pos­sível com ações coordenadas utilizando uma governança regional, com troca de informações e estratégias entre os diferentes níveis do governo; aumento da capacidade orçamentária dos municípios; investimento no combate à desinformação e medidas diferenciadas para os grupos mais vulneráveis, entre outras ações.</p>
<picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-info1-2026-09-1140.png" data-tablet_size="1140x1605" alt="El Niño altera padrões de chuva, provocando excesso de precipitação em algumas regiões do mundo e seca em outras">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara/Revista <em>Pesquisa FAPESP</em></span>
<p><strong>Adaptação das cidades</strong><br />
Neste ano, se os padrões dos últimos eventos se repetirem, espera-se que o El Niño de forte intensidade cause mais chuva no Sul e Sudeste, enquanto o Norte poderá sofrer com uma seca. Em outubro de 2024, o rio Negro, na bacia do Amazonas, a maior bacia hidrográfica do mundo, atin­giu os níveis mais baixos de sua história. Naquele ano, porém, além do El Niño, houve a influência do aqueci­mento do Atlântico Norte tropical. Esse segundo fenô­meno ainda não se confirmou para este ano, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agên­cia ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), o que poderá reduzir a gravidade dos impactos do El Niño.</p>
<p>O que está consolidado é a existência desse El Niño e do aquecimento global. A ciência e os órgãos de monito­ramento internacionais e nacionais divulgam periodica­mente boletins com previsões e novos dados. Há o con­senso científico de que eventos extremos — secas, ondas de calor e enchentes — serão cada vez mais frequentes. E fenômenos que já ocorrem naturalmente, como El Niño e La Niña, tendem a ser intensificados pelo aquecimento do planeta. Entra em cena, portanto, a adaptação: o rede­senho das estratégias para a vida na Terra de acordo com os impactos já sentidos.</p>
<p>Assim como são discutidas as estratégias para evitar o agravamento do aquecimento do planeta, com a redu­ção de emissões, também chegou a vez da pauta de redu­ção do impacto do que já está em curso. André Corrêa do Lago, presidente da 30ª Conferência das Nações Uni­das sobre as Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém no ano passado, chegou a divulgar uma carta, em outubro de 2025, para dizer: “A adaptação climática dei­xou de ser uma escolha que sucede à mitigação”.</p>
<div class="box-lateral"><strong>O que é o Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) – Cidades Resilientes a Inundações</strong><br />
Financiado pela FAPESP e sediado no IPT, o centro reúne governo, universidades e empresas para desenvolver gêmeos digitais urbanos e ferramentas de apoio à prevenção e resposta a inundações em São Paulo<br />
</div>
<p>Iniciativas surgem, então, para mapear as regiões mais suscetíveis aos desastres. Em julho, o AdaptaBrasil, plata­forma do governo federal que reúne indicadores de risco de impactos das mudanças climáticas, lançou o Painel Cidades, com dados sobre ameaças climáticas, exposição e vulnerabilidade para os 5.570 municípios do país. A cidade de São Paulo tem risco muito alto de exposição a inun­dações, enxurradas e alagamentos. O mesmo vale para o Rio de Janeiro e para outras cidades do Sul e Sudeste, como Porto Alegre.</p>
<p>Filipe Falcetta, pesquisador em hidrologia urbana do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), conhece o dilema das cidades concretadas. Engenheiro civil de for­mação, ele conta que São Paulo é uma cidade repleta de rios, mas que estão sob o concreto após um processo de “soterramento” histórico. As consequências aparecem agora, com as chuvas intensas do El Niño.</p>
<p>Ele lembra que, em 2022, por exemplo, o Beco do Batman, em Pinheiros (bairro da Zona Oeste de São Paulo), chegou a ganhar o apelido de Beco do Aquaman depois de uma enchente. “O Beco do Batman, por exemplo, é uma passagem do rio Verde, um afluente do rio Pinheiros que passa embaixo da rua Cardeal Arcoverde”, explica. E com­pleta: “Se a gente olhar para o tecido urbano, de um modo geral, ele dá as respostas para a adaptação”.</p>
<p>Falcetta e outros cientistas estão trabalhando jun­tos no <a href="https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/120089/centro-de-ciencia-para-o-desenvolvimento-ccd-cidades-resilientes-a-inundacoes/" target="_blank" rel="noopener"><u>Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) – Cidades Resilientes a Inundações</u></a>, um projeto financiado pela FAPESP e fruto da parceria entre o IPT e a Secreta­ria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo (SCTI), a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado de São Paulo (SDUH), a SP Águas, o Metrô-SP, a Companhia Paulista de Trens Metropolita­nos (CPTM), a Universidade de São Paulo (USP), a Univer­sidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal do ABC (UFABC), o Insper, a Universidade Presbi­teriana Mackenzie, a Uninove e instituições internacionais.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/Super-El-Nino-Desktop-scaled.jpg" data-tablet_size="2560x2167" alt="Infográfico mostra o que acontece quando muda a temperatura do Pacífico, causando o El Niño">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco Lara/Revista Pesquisa FAPESP</span></div><div class="post-content sequence">
<p>A iniciativa busca analisar onde as cidades ainda podem ser modificadas para fornecer aos gestores públicos infor­mações estratégicas. O grupo, como conta o engenheiro civil, quer “medir e mostrar, de forma lúdica, que um território não perturbado geraria deter­minada resposta, enquanto o território que temos hoje gera a resposta que vemos nos jor­nais toda vez que chove”.</p>
<p>As regiões de São Paulo que ainda têm espaços verdes são mais fáceis de modificar, segundo Falcetta, principal­mente para reduzir a impermeabilização do solo e criar áreas maiores para o escoamento da água. No entanto, ele diz que a “região periférica ainda é um desafio” justamente pela falta de espaço para a ampliação do verde. As regiões passíveis de adaptação são os “lotes transformáveis”, mas, em algumas partes das cidades, eles podem ser muito popu­losos, incluir escolas e equipamentos públicos e não ter árvores. Isso aumenta o grau de dificuldade da adaptação.</p>
<p>Inicialmente, o projeto do IPT deve se focar na resiliên­cia às inundações em São Paulo, em um plano-piloto. Mas o especialista diz que as modificações que podem ser fei­tas na cidade devem ajudar, de forma indireta, em outros fenômenos também, como as ondas de calor. “Significa deixar de ser uma selva de pedra total e ser uma cidade mais verde. Estamos olhando indiretamente para a ques­tão do calor extremo, do conforto, de uma cidade mais amiga do verde, do meio ambiente. Ou seja, também para outros ganhos”, afirma o engenheiro.</p>
</div><div class='overflow-responsive-img' style='text-align:center'><picture data-tablet="/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-info3-2026-09-1140.png" data-tablet_size="1140x449" alt="Linha do tempo mostra a intensidade dos episódios e alguns de seus impactos no Brasil">
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  </picture><span class="embed media-credits-inline">Glauco LaraGlauco Lara/Revista <em>Pesquisa FAPESP</em></span></div><div class="post-content sequence">
<p><strong>Vulnerabilidade </strong><br />
Os dados sobre ameaças climáticas e exposição mostram que São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre têm risco “muito alto” de inundações. Mas a plataforma AdaptaBra­sil também traz outro parâmetro: a vulnerabilidade. Nesse caso, essas cidades apresentam um risco “muito baixo”.</p>
<p>Isso significa que, apesar de serem suscetíveis ao pro­blema, essas metrópoles têm maior capacidade de se recuperar e menos sensibilidade aos desastres, com um sistema de saúde mais estruturado, menor risco de a popu­lação contrair doenças e melhor acesso à infraestrutura, entre uma série de outros fatores.</p>
<p>Em outras regiões do país, a resposta após um desastre costuma demorar mais por questões estruturais de desi­gualdade. A cidade mais indígena do país, São Gabriel da Cachoeira (AM), por exemplo, apresenta um alto índice de vulnerabilidade, segundo a plataforma do governo federal. Há maior distância até as rodovias e baixa cobertura de saneamento básico, além de desafios relacionados à renda e ao acesso à educação. É uma realidade que se repete em muitos municípios do Norte e do Nordeste.</p>
<p>Belém apresenta alto risco de exposição ao estresse hídrico, considerando a disponibilidade, a oferta e a demanda de água. O mesmo ocorre em outras cidades do Norte e do Centro-Oeste, como Rio Branco, Campo Grande e Manaus. É nessas regiões do país, com esse perfil, que há possibilidade de seca devido ao El Niño e a “eventos climáti­cos compostos”, quando diferentes fenômenos ocorrem de forma simultânea ou encadeada — uma situação cada vez mais comum em tempos de emergência climática, como explica Tercio Ambrizzi, professor do Instituto de Ener­gia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP).</p>
<div id="attachment_587845" style="max-width: 1150px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-587845 size-full" src="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-montagem-2026-09-1140.png" alt="" width="1140" height="580" srcset="https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-montagem-2026-09-1140.png 1140w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-montagem-2026-09-1140-250x127.png 250w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-montagem-2026-09-1140-700x356.png 700w, https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2026/09/RPF-el-nino-enchente-montagem-2026-09-1140-120x61.png 120w" sizes="auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px" /><p class="wp-caption-text"><span class="media-credits-inline">Acervo pessoal</span><strong>Mesmo problema, 42 anos depois</strong>: O fotógrafo Daniel Marenco, aos 2 anos, em um barco com os pais e uma tia pelas ruas alagadas de São Leopoldo (RS), durante as enchentes de 1982, quando chuvas intensas começaram a atingir o estado, no início do ciclo do histórico El Niño de 1982-1983. Em 2024, já como profissional, Marenco voltou à cidade para registrar as inundações que atingiram o estado. À direita, a rua onde sua mãe mora atualmente.<span class="media-credits">Acervo pessoal</span></p></div>
<p>“Com a seca, já há o favorecimento de uma onda de calor. Você junta os dois e acontecem simplesmente recordes extremos. Isso tem matado mais do que qual­quer coisa”, explica, citando um <a href="https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/cgcl/paginas/saude-e-ondas-de-calor" target="_blank" rel="noopener">estudo</a> divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em junho deste ano, que contabilizou mais de 120 mil mortes no Brasil em decorrência das ondas de calor entre 2000 e 2019.</p>
<p>Nesses casos, ele defende medidas estruturais. “Arma­zenar água, particularmente para enfrentar os períodos mais secos, é importante porque, mesmo que a estiagem se prolongue, em algum momento vai chover. Não é um deserto”, afirma.</p>
<p>A adaptação também chegou ao campo. Ambrizzi lem­bra que as enchentes provocadas pelo El Niño de 1983 cau­saram grandes prejuízos à produção agrícola. Desde então, agricultores passaram a planejar os ciclos de plantio com base nas previsões de seca e chuva.</p>
<p>“Com as commodities, você pode imaginar onde e quando plantar, se precisa colher [o alimento] mais cedo. Para as regiões que têm irrigação, você fica mais tranquilo, porque consegue fornecer o nível de água de que as plantas precisam. Mas, se isso não está disponível, é um grande pro­blema”, afirma. Esse é o caso de Santa Maria de Jetibá (ES). Conhecida pela concentração de pequenas propriedades rurais, a cidade tem baixa capacidade de adaptação ao estresse hídrico, segundo o AdaptaBrasil, devido ao com­prometimento do balanço hídrico pelas atividades agro­pecuárias e industriais.</p>
<p>Para Marengo, o El Niño, “super” ou forte, não pode ser evitado, mas seus efeitos podem ser reduzidos. “Os desastres vêm e não há como parar. Já sabemos quais são as regiões. Podemos gerenciar o risco de desastres gerados pelo El Niño, mas não podemos combater o fenômeno”, afirma. O climatologista diz que esse conhecimento deve servir de alerta. “Sabemos o que aconteceu antes, onde a população continua crescendo e em que ainda há ocupação e constru­ção em áreas irregulares, onde não se deveria construir. É aí que notamos os maiores impactos. O que vemos é que o El Niño deixou de ser só um fenômeno climático. É, tam­bém, um fenômeno socioeconômico”, conclui.</p>
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		<title>Folheie ou baixe a edição 365</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2026 09:03:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Impressa]]></category>
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					<description><![CDATA[Folheie ou baixe a edição de setembro de 2026]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="position:relative;padding-top:max(60%,326px);height:0;width:100%"><iframe title="El Niño coloca à prova a resiliência climática das cidades" allow="clipboard-write; autoplay; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" sandbox="allow-top-navigation allow-top-navigation-by-user-activation allow-downloads allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-modals allow-popups-to-escape-sandbox allow-forms" allowfullscreen="true" style="position:absolute;border:none;width:100%;height:100%;left:0;right:0;top:0;bottom:0;" src="https://e.issuu.com/embed.html?backgroundColorFullscreen=&#038;d=el_ni_o_coloca_prova_a_resili_ncia_clim_tica_das&#038;u=pesquisafapesp"></iframe></div>
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		<title>O menino cresceu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Alves - Diretor de Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2026 09:00:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Carta do editor]]></category>
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					<description><![CDATA[Não bastassem os desafios sociais e econômicos, as provações climáticas também não dão nem darão descanso às atuais e às próximas gerações. Entre elas, poucas são tão familiares e presentes quanto El Niño, nome dado por pescadores do norte do Peru, em alusão ao Menino Jesus, à quente corrente oceânica que aparecia no Pacífico logo... <a class="view-article" href="https://revistapesquisa.fapesp.br/o-menino-cresceu/">Ver artigo</a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Não bastassem os desafios sociais e econômicos, as provações climáticas também não dão nem darão descanso às atuais e às próximas gerações. Entre elas, poucas são tão familiares e presentes quanto El Niño, nome dado por pescadores do norte do Peru, em alusão ao Menino Jesus, à quente corrente oceânica que aparecia no Pacífico logo depois do Natal. O apelido chegou à ciência em 1892, num relato do capitão de navio Camilo Carrillo à Sociedade Geográfica de Lima (Peru). Esse conhecimento poderia estar apenas em uma nota mirrada num livro de geografia, mas o fenômeno só cresce em relevância e impacto — e cá estamos.</p>
<p>Já vimos secas históricas na Amazônia, com a água do lago Tefé chegando a quase 40 °C (e matando peixes e botos aos montes), e enchentes devastadoras no Sul (em que o “pequeno” foi um coadjuvante de peso). Essas cenas escancaram o quanto nossas cidades estão despreparadas para conviver com ele. E “conviver” realmente é a palavra a ser incorporada à nossa rotina.</p>
<p>Adaptar-se ao que já está aí é o caminho, ao mesmo tempo que se trabalha para frear emissões de gases do efeito estufa. <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/ameaca-de-um-super-el-nino-desafia-cidades-brasileiras-a-se-preparar-para-eventos-extremos/" target="_blank" rel="noopener">A reportagem de capa desta edição</a> discute esse tema e outras nuances, como a busca por maneiras de tornar a cidade mais segura. O infográfico que acompanha a matéria disseca o mecanismo do fenômeno, seus efeitos globais e a série histórica das últimas décadas.</p>
<p>Na sequência, em entrevista a Ricardo Balthazar, a arquiteta <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/denise-duarte-os-riscos-do-calor-extremo-sao-um-reflexo-das-nossas-desigualdades-sociais/" target="_blank" rel="noopener">Denise Duarte</a>, da FAU-USP, demonstra como o risco climático é o retrato da desigualdade e enumera os absurdos que se acumulam: pontos de ônibus cobertos de vidro, sem sombra; torres comerciais que precisam ser evacuadas se falta energia, porque a fachada é toda envidraçada e as janelas, seladas; apartamentos novos projetados como caixas de vidro, com varanda falsa e área reservada para a condensadora do ar-condicionado. “Nunca vi plantas tão ruins como agora”, diz ela.</p>
<p>Da insegurança climática à habitacional: <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/aluguel-social-como-alternativa-a-crise-habitacional-em-sao-paulo/" target="_blank" rel="noopener">reportagem sobre aluguel social</a> mostra que a política existe em São Paulo desde 2002, tem bons índices de acesso e permanência, mas ainda não ganhou escala. Há ainda a insegurança dos dados: <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/a-criptografia-que-promete-esconder-dados-ate-da-nuvem/" target="_blank" rel="noopener">reportagem sobre a criptografia totalmente homomórfica</a> acompanha a corrida para que um servidor processe informações cifradas sem enxergá-las, algo já possível na prática, embora ainda muito mais lento que o processamento comum.</p>
<p>A <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/revista/ver-edicao-editorias/?e_id=529" target="_blank" rel="noopener">edição 365</a> marca o início de uma nova etapa de <em>Pesquisa FAPESP</em>, que renova os projetos editorial e gráfico e traz mudanças no conteúdo. A revista quer falar com mais gente sem abrir mão do rigor que a sustenta há 27 anos. Reestreiam as seções <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/a-cadeia-alimentar-das-revistas-predatorias/" target="_blank" rel="noopener">Boas Práticas</a>, por Theo Ruprecht, sobre malfeitos científicos, e <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/o-que-a-ascensao-das-universidades-chinesas-tem-a-nos-ensinar/" target="_blank" rel="noopener">Dados</a>, por Sabine Righetti, sobre os indicadores da ciência nacional e internacional. A coluna <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/especial-jabuti-academico/" target="_blank" rel="noopener">Gente da Pesquisa</a>, de Marcelo Soares, é mais uma forma de a revista se conectar ao mundo acadêmico-científico e seus atores.</p>
<p>Fechamos a edição com uma <a href="https://agencia.fapesp.br/elza-berquo-pioneira-da-demografia-brasileira-morre-aos-100-anos-de-idade/58706" target="_blank" rel="noopener">homenagem a Elza Berquó</a>, morta em julho, aos 100 anos. Matemática de formação e demógrafa por vocação, ela institucionalizou os estudos populacionais no Brasil, fundou o Cebrap em 1969 e o Nepo na Unicamp, em 1982, e passou a carreira cobrando que se produzissem não somente dados brutos, mas dados pensados. Costumava dizer que por trás de cada tabela há pessoas.</p>
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