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		<author>
			<name>Histórias Daninhas</name>
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		<title type="html"><![CDATA[Este é o nosso adeus]]></title>
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		<published>2012-07-19T16:50:07Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="verao-g" /><category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="verao-j" />		<summary type="html"><![CDATA[Hoje, 19 de Julho de 2012, quinze meses depois do tiro de partida, pintamos o ponto final no Histórias Daninhas. Para nos despedirmos, inventámos um livro. Demos-lhe alguns dos nossos contos, uma capa amarela, guardas e cortinas azuis, um marcador. Acrescentámos as histórias dos nossos 13 convidados, agora amigos. Fizemos imprimir 300 exemplares. É com [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/o-nosso-adeus?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-nosso-adeus"><![CDATA[<p><a href="http://historiasdaninhas.pt/o-nosso-adeus/a" rel="attachment wp-att-1736"><img class="alignnone size-full wp-image-1736" title="a" src="http://historiasdaninhas.pt/wp-content/uploads/2012/07/a.png" alt="" width="620" height="450" /></a></p>
<p>Hoje, 19 de Julho de 2012, quinze meses depois do tiro de partida, pintamos o ponto final no Histórias Daninhas.</p>
<p>Para nos despedirmos, inventámos um livro. Demos-lhe alguns dos nossos contos, uma capa amarela, guardas e cortinas azuis, um marcador. Acrescentámos as histórias dos nossos 13 convidados, agora amigos. Fizemos imprimir 300 exemplares. É com muita satisfação que o apresentamos ao mundo.</p>
	
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<p>O livro tem 140 páginas e custa 9,99 €. Está à venda nas livrarias <a href="http://fnac.pt/" target="_blank">Fnac</a> de Lisboa, do Porto e de Coimbra, <a href="http://www.letralivre.com/" target="_blank">Letra Livre</a>, <a href="http://www.lerdevagar.com/" target="_blank">Ler Devagar</a>, Les <a href="https://www.facebook.com/pages/Les-Enfants-Terribles-Bar-livraria-do-Cinema-King/141221621285" target="_blank">Enfants</a> Terribles e <a href="http://www.wook.pt" target="_blank">wook</a>.pt. (Esta lista estará em permanente actualização.) Quem quiser, pode comprá-lo directamente a nós: basta enviar um <em>e-mail</em><em> </em>para conversa@historiasdaninhas.pt.</p>
<p>Adeus.</p>
<p><em>Guilherme Pires e João Afonso</em></p>
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		<author>
			<name>Histórias Daninhas</name>
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		<title type="html"><![CDATA[O fim, a dois]]></title>
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		<updated>2012-07-15T22:34:47Z</updated>
		<published>2012-07-10T16:46:32Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="verao-g" /><category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="verao-j" />		<summary type="html"><![CDATA[1. Uma sobra de cauda desaparecendo sob os móveis; pegadas de pó esquecidas no sobrado; uivos abafados por entre o cantar dos objectos de escrever, no quarto das porfias, o da porta quase sempre fechada; lúnulas e fragmentos de coisas desunidas, íntimas, entalados nos refegos dos braços do sofá; cortinados tatuados por bafos de sangue, [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/o-fim?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-fim"><![CDATA[<p>1.</p>
<p>Uma sobra de cauda desaparecendo sob os móveis; pegadas de pó esquecidas no sobrado; uivos abafados por entre o cantar dos objectos de escrever, no quarto das porfias, o da porta quase sempre fechada; lúnulas e fragmentos de coisas desunidas, íntimas, entalados nos refegos dos braços do sofá; cortinados tatuados por bafos de sangue, as cores da terra, por espirros lupinos.</p>
<p>Não era fácil conviver com o animal, manter a casa composta, as molduras alinhadas. Queríamos conhecer-lhe as incertezas, partilhar dos medos, ser o ombro, ser a certeza. E ali nos encontrávamos, pé ante pé desde o nosso quarto até à cozinha e de retorno, agachados a meio caminho espreitando pela fechadura para saber o outro lado.</p>
<p>Quando o silêncio caía, nasciam angústias no chão que pisávamos, ervas daninhas.</p>
<p>Tentámos contrariar-lhe a natureza. Transformar os seus repentes em cavalos troianos. Usámos um armário de reflexos, feito por encomenda. O inventor de espelhos ofereceu-nos os vidros mais fatais, capazes de luzeiros que se defrontam com o interior das verdades que se repetem, fosfenos inteiros, aberrações de sensibilidade. Nenhum de nós ousou abrir as portas e espreitar a imensidão própria: deixámo-lo no canto mais iluminado do quarto das porfias num dia em que o bicho saíra e sentámo-nos à porta de casa, à espera.</p>
<p>Vista dali a amizade parecia uma ruína distante.</p>
<p style="text-align: right;"><em>(Primeira parte de uma história daninha escrita a dois. Continua.)</em></p>
<p>2.</p>
<p>Quando chegaram, numa tarde de sol e lençóis floridos de avó, passeava eu o lustro pelos muros e telhados cercanos, desalinhando o cio das belas bichinhas. Fazia já uns meses que a velhota caíra entre a banheira e o bidé, embrulhada no reposteiro com as geografias do mundo, silenciosa e imune à vassourinha da minha cauda penteando-lhe as pálpebras. Sabia que a casa não ficaria vã para sempre e tinha por claro que os novos inquilinos dificilmente seriam tão sábios como a Dona Márcia, esperta na psique dos gatos e nos cismas dos homens, na distância que os deve separar. Lembrei-me disto quando assomei ao lapso da janela e os vi tão moços e afoitos, confiados.</p>
<p>Fagundes, o persa filósofo que habita um televisor e se alimenta em exclusivo de ratos por ele persuadidos da inevitabilidade do suicídio, aconselhou-me a desamparar o poiso, <em>que o lar de um gato é o mundo abaixo do céu estrelado</em>, mas eu sou do tipo sentimental e sofro de ansiedade de separação para com os apartamentos, não podia tão só ir-me embora.</p>
<p>Nos primeiros tempos fui breve, procurei não lhes espevitar as vistas, movia-me nevoeiro pelas esquinas e ao abrigo das saias dos cortinados, escondia-me veloz sob os móveis quando lhes topava os passos e as vozes. Mas os ávidos humanos têm razões imperfeitas marcadas por omnipotências e determinadas na obstinação. Comecei a polvilhar pegadas, a confundir objectos de lugar, no meu casebre do quarto das tralhas urdia sons esbaforidos que largava às demências da imaginação. E falharam os dois a explicação mais simples: a do gato gordo que por ali andava tenteando-lhes a vida. Introjectaram minudências em delírios e obcecações, congeminaram assombros prenhes de angústias e palavras graves, vacilaram, sucumbiram em si e a si, um monstro que imaginavam fora habitando dentro, um gato que aumentava dentro existindo fora.</p>
<p>Estão sentados à porta com o peso do mundo que imaginam ser eles vergando-lhes os ombros. Com um quê de fortuna talvez vão hoje embora. Quem sabe à noite já possa dar uma festa, servir espetadas de barata com um tomate <em>cherry</em> na ponta, telefonar e mandar vir umas <em>strippers</em> sphynx.</p>
<p style="text-align: right;"><em>(Segunda parte de uma história daninha escrita a dois. Continua.)</em></p>
<p>3.</p>
<p>[de braço esticado com microfone na ponta, o homem-câmara dá o palco à testemunha]<br />
— (&#8230;) as sirenes e os gritos não nos deixavam pensar, estava aqui uma confusão desgraçada, se querem saber: gente de pé a olhar para o prédio, com medo que as chamas e os fumos saltassem para outras casas, os bombeiros cá fora sem saber se deviam entrar, tal era o inferno, e os dois vizinhos à janela dizendo que se queriam desfazer da casa, que se estavam a desfazer da casa, foi isso que percebi, não tenho dúvida, diziam e diziam <em>de uma vez por todas!, de uma vez por todas!</em> Uma miséria. Só gente ruim é que se lembra de fazer isto para se livrar de uma casa, não acha?</p>
<p>[na morada ciberespacial do tablóide da moda, a notícia apregoa o fim anunciado]<br />
<strong>Lobo à solta leva dois homens à loucura </strong><br />
Está aberta a caça ao lobo mentalista, um espécime raro nativo das Beiras Baixas que terá estado na origem do incêndio que destruiu, ontem, uma casa centenária na capital. Fonte da polícia divulgou que as vítimas, dois homens com cerca de trinta anos, referiram com insistência que o animal os atormentava desde Abril de 2011, «escondendo-se nas entrelinhas das paredes para nos encher de ansiedade, rugindo aos parágrafos armadilhados que espalhávamos nas divisões, bufando nas sombras para nos minguar». De acordo com a mesma fonte, estes lobos têm originado todos os impulsos suicidas registados nas regiões interiores do país desde 1982, «arrancando gestos e palavras imprudentes aos indivíduos mais incautos». <em>Leia mais na versão em papel.</em></p>
<p>[de perna cruzada, sentado à onda média, o comentador dá o parecer]<br />
— (&#8230;) não tenho dúvidas, pois, de que se trata de um caso evidente de loucura lupina de tuta e meia. As pessoas não sabem isto: dentro da casa, num dos quartos mais nobres, havia um armário de espelhos sombrio e enorme, de madeira grossa. Quando os bombeiros conseguiram romper as fechaduras, encontraram os dois rapazotes sentados entre os vidros do armário, desmultiplicados em reflexos mil, toda aquela gente à procura de uma coisa apenas: o lobo invisível de que os jornalistas tanto falam. Mas ouso perguntar: alguém viu o lobo? As casas existem para serem abandonadas, não duvidem, e cada um de nós é tudo o que consegue fazer para delas se excisar, como provam o incêndio da semana passada e as declarações das vítimas, com aquelas expressões gongóricas, meio perdidas de sentido, aluadas. E que tem o lobo? Mas porque insiste nessa pergunta? Não diga parvoíces, homem.</p>
<p style="text-align: right;"><em>(Terceira parte de uma história daninha escrita a dois. Continua.)</em></p>
<p>4.</p>
<p>Pára!, pára tudo que isto já vai para cume de regabofe. É o que dá dar rédea larga aos escritorinhos, mal um gajo se distrai zumba, burricada.  Bem sei que vocês não me conhecem, mas eu sou o gajo que delibera aqui, sou o gajo do pilim e da gerência, o meu nome é Pedro Mello e Castro, isso mesmo, Mello e Castro, com dois «L».  Esta feira é toda do Pedro, Histórias Daninhas, <em>haverá vida para além das histórias</em>, excursões filmadas ao Guincho e à Serra de Sintra, contecos, poetizices, demónios gástricos, meditações existencialofilosóficas, foi tudo ideia minha, tudinho! O Beatles tiveram o Brian Epstein, os Sex Pistols o Malcolm McLaren, as Spice Girls o Simon Fuller e as Histórias Daninhas pari-as eu, com dores e sem placenta, que o sangue incomoda-me um bocado.</p>
<p>Quando os convidei, o Guilherme escrevia horóscopos para a <em>Nova Gente</em> e o João era assistente de campo do Professor Bambo e tinha um <em>part-time</em> numa clínica de psicologia canina. Ofereci-lhes a vasa da vida deles, de mão beijada, à patrão, e ao fim de um ano a fazê-los ilustres, a empilhar amigos no Facebook, estragam-me assim o engenhanço. E a ideia era boa, a ideia era bela, acabar com uma história escrita a dois mesmo antes de</p>
<p><em>Mas o que é que lhe deu?, porque é que ficou tão zangado? Porra, Guilherme, foi o lobo, pá!, quem é que te mandou escrever lá o lobo, o gajo tinha sido bem claro: </em>gatos, vocês ponham-me lá gatos que é disso que as entradotas gostam. Não andem cá com ilusões de estrela <em>rock</em> que as vossas leitoras são dos cinquenta para cima,  são as que vão aos concertos de Il Divo e saem de lá com os êxtases, como quando tinham vinte anos e  imaginavam o John Lennon nos rabiscos das ondas hertzianas. Por isso já sabem: gatos, força nos gatos! <em>E pumba vais tu e em vez de gatos espetas lá com lobos e monstros e armários armadilhados de espelhos, lobos invisíveis ainda por cima. Eh pá, entusiasmei-me, o que é que queres, as ideias vinham e vinham que pareciam os golos do Cardozo, mas também não era razão para nos despedir, para nos expulsar da garagem, onde vamos abancar agora? </em></p>
<p><em>Sabes, Gui, não interessa, não nos preocupemos, logo escrevemos uma canoa e descemos o Tejo do Rodão até Lisboa, dormimos sob as estrelas que imaginarmos. Foi um bonito ano, não foi, João? Foi um ano muito bonito, vamos beber uma cerveja? Mas tu não gostas de cerveja, pá. Pois não, mas tenho um cúmplice no bar que me serve Champomim em copos tulipa.</em></p>
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		<author>
			<name>João Rui Afonso</name>
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		<title type="html"><![CDATA[Retrato do artista]]></title>
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		<updated>2012-06-26T00:03:50Z</updated>
		<published>2012-06-26T00:03:50Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="verao-j" />		<summary type="html"><![CDATA[Vestia um casaco cinzento de algodão rafeiro e capuz puxado para a frente de modo a proteger o rosto e o tom. Fumava uma ganza que trouxera enrolada no bolso e tentava com o calcanhar limar da fachada um musgo que crescera nos dissensos do betão. Tinha as mãos lacadas de tinta e apertadas de [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/retrato-do-artista?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=retrato-do-artista"><![CDATA[<p>Vestia um casaco cinzento de algodão rafeiro e capuz puxado para a frente de modo a proteger o rosto e o tom.  Fumava uma ganza que trouxera enrolada no bolso e tentava com o calcanhar limar da fachada um musgo que crescera nos dissensos do betão. Tinha as mãos lacadas de tinta e apertadas de frio, mas não se queixava, gostava da dor e do desconforto onde recuperava vida, como quando tracejava os antebraços com a lâmina de barbear. </p>
<p>Lá em baixo a cidade imaginava-a como uma grelha de luzes de onde as retinas automáticas extraíam padrões semelhantes a circuitos de engenheiro ou diagramas de metropolitano. Apesar de usual, nunca abrangera as razões deste olhar geométrico, o porquê da realidade infinita por vezes se desmanchar e depois se recompor para ele, inteira de padrões. </p>
<p>Uma sirene avança pela rede como um impulso eléctrico. Ao passar pelos clubes na 24 de Julho o carro abranda e o polícia tira o braço pela janela apoiando-o na porta. Olha em inquérito as adolescentes de calções síntese e coxas espessas, com as caras pintalgadas de mulher e os sapatos mais crescidos que os das mães. Elas já percebem o jogo, iniciam-se no poder e sorriem-lhe apesar dos namorados ali ao lado lampinhos como querubins.</p>
<p>Há anos apostara com um amigo desenhar uma piçada na parede da esquadra do bairro. Sabia que seria apanhado, que telefonariam, Temos o seu filho connosco, mas fê-lo na mesma, de propósito. Queria saber do embaraço embaraçado no agente, Não sabíamos Senhor ministro, pedimos muita desculpa Senhor ministro, e da raiva de porrada de cinto explorando o rosto do pai que para ele não olhou.</p>
<p>Cheirava a vermelho, a azul, a amarelo e a misturas combinatórias que se chamavam outras cores. Amava muitas vezes a sua psicose da realidade e grafitava-a pelos muros da cidade abrindo portas aos outros. Os outros também lhas abriam, possessos das suas visões privadas, mas ele não gostava, temia o existir diferente, a ameaça de verem mais limpo e mais fundo que ele. Tinha inveja e a inveja destruía.</p>
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		<author>
			<name>Guilherme José Pires</name>
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		<title type="html"><![CDATA[A canção é sempre a mesma]]></title>
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		<updated>2012-06-14T02:39:23Z</updated>
		<published>2012-06-12T11:30:17Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="primavera-g" />		<summary type="html"><![CDATA[O poço secara. Por mais água que se lhe juntasse — pelo braço das chuvas, pelo esforço do tempo, pelos quereres dos homens —, nada a fazer: o poço secara. E tal como os limites do furo se torceram em musgo e terra mole de pardo, também ele embrutecera, um ser estéril, uma coisa em [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/a-cancao-e-sempre-a-mesma?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=a-cancao-e-sempre-a-mesma"><![CDATA[<p>O poço secara.</p>
<p>Por mais água que se lhe juntasse — pelo braço das chuvas, pelo esforço do tempo, pelos quereres dos homens —, nada a fazer: o poço secara.</p>
<p>E tal como os limites do furo se torceram em musgo e terra mole de pardo, também ele embrutecera, um ser estéril, uma coisa em pausa, um homem sem</p>
<p>Quando excisadas dos pássaros, as penas caem rudemente sobre a terra, presas à gravidade: deixam de saber mergulhar ar adentro. </p>
<p>A caminho do poço, balde com vinco de aço pendurado em quatro dedos, polegares esticados, com fé surda, muda e cega nas águas e nas frescuras de uma fenda de onde retirara, até sempre, os gostos e o saber, o senhor desumanizado punha-se no caminho da esperança, mas a esperança ordena mais do que o pobre desgraçado que lhe sente o calor, é como se</p>
<p>Queria o mar. Tinha gosto por pisar as ondas, enfiar o nariz nos líquenes das árvores oceânicas, fazer bolsos rijos de areia. Vivia nas saias interiores do país, nem o suor lhe comprara um poiso no litoral: se lhe oferecessem palavras de conforto, responderia, como sempre, que o tempo e o trabalho são uma fina</p>
<p>Nos lugares até ao poço, fraldas ao vento, passos incompletos, as coisas selvagens viam-no surgir nos cabeços todo hirto como estátuas lavradas na vertical, confiante na conquista da verdade, conquanto o poço se mantivesse útil apenas no seu querer, por capricho dos seus desejos: mas o buraco esgotara-se.</p>
<p>Desculpava-se para os filhos oferecendo-lhes o pretexto de que ia recolher água, levantar da terra o que beber, regressar completo. Se os miúdos existissem e lhe respondessem, não daria atenção, ouviria outro algo, antes o trinco das portas, abriria a boca, revolveria a língua e deixaria as frases </p>
<p>Porque o poço ficara enxuto e com isso tudo o resto.</p>
<p>Repetia-se: punha a camisa sem suspensórios, as calças sem dobra ao fundo, os sapatos sem pó para os aromas fétidos, agarrava o balde com quatro dedos, polegares esticados, e fugia porta fora até</p>
<p>Por mais água que se lhe juntasse, no chão existia agora um buraco profundo, a armadilha do planeta, planta carnívora.</p>
<p>E nada a fazer.</p>
]]></content>
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		<author>
			<name>Histórias Daninhas</name>
					</author>
		<title type="html"><![CDATA[Tempo para isto, tempo para aquilo]]></title>
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		<id>http://historiasdaninhas.pt/?p=1682</id>
		<updated>2012-06-04T22:27:20Z</updated>
		<published>2012-06-04T22:27:20Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="Uncategorized" />		<summary type="html"><![CDATA[Devemos um pedido de desculpa a quem nos visita regularmente e nada tem encontrado nos últimos 10 dias. O tempo não nos tem dado tréguas: por um motivo qualquer, as daninhas não têm nascido. Na próxima segunda-feira, dia 11, regressamos com uma história escrita pelo Guilherme. Até lá, sugerimos que escolham uma das nossas árvores [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/tempo-para-isto-tempo-para-aquilo-2?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=tempo-para-isto-tempo-para-aquilo-2"><![CDATA[<p>Devemos um pedido de desculpa a quem nos visita regularmente e nada tem encontrado nos últimos 10 dias. O tempo não nos tem dado tréguas: por um motivo qualquer, as daninhas não têm nascido. Na próxima segunda-feira, dia 11, regressamos com uma história escrita pelo Guilherme.</p>
<p>Até lá, sugerimos que escolham uma das <a href="http://historiasdaninhas.pt/guilherme" target="_blank">nossas</a> <a href="http://historiasdaninhas.pt/joao" target="_blank">árvores</a> e se reencontrem com uma daninha de outros tempos.</p>
<p>Obrigado.</p>
]]></content>
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		<author>
			<name>João Rui Afonso</name>
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		<title type="html"><![CDATA[A um Deus]]></title>
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		<updated>2012-07-16T17:15:59Z</updated>
		<published>2012-05-21T10:47:17Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="primavera-j" />		<summary type="html"><![CDATA[Poisou o envelope sobre a mesa de carvalho e saiu. Era branco, a querer o bege, com letras desenhadas a azul. O senhor Moreira não estava. Chegaria daí a uma hora. Sabia &#8211; viera mais cedo de propósito, tudo fora já tratado, não era necessário novo encontro, agitação. Levava apenas o preciso, mas o BMW [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/a-um-deus?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=a-um-deus"><![CDATA[<p>Poisou o envelope sobre a mesa de carvalho e saiu. Era branco, a querer o bege, com letras desenhadas a azul. O senhor Moreira não estava. Chegaria daí a uma hora. Sabia &#8211; viera mais cedo de propósito, tudo fora já tratado, não era necessário novo encontro, agitação.</p>
<p>Levava apenas o preciso, mas o BMW azul e antigo agachava-se e protestava sob o peso. <em>Lembras o burro dos ciganos a caminho do mercado</em>, pensou e sorriu misturando com a mão o cabelo. Ainda lhe custava a imagem da casa vazia. A recordação do que oferecera, vendera ou simplesmente aventara. Quando pousadas nos caixotes, as invisibilidades que perfaziam os cantos dos móveis teimavam em reclamar-se memórias.</p>
<p>Dirigia devagar pelo traço de alcatrão. Cuidava que lhe cheirava feno, a cantares e a pastos. De algo a algo um carro cruzava breve ou uma carroça, no mais era só ele e o Ribatejo entre curvas. Sempre gostara de divagar pelas nacionais, longe das rápidas autoestradas, que imaginava a cicatriz da cirurgia cardiotorácica.</p>
<p>Chegou sucedia a noite e as casas em volta repousavam de luzes guardadas. Em novo fora ali férias e reuniões de família, depois os avós morreram e o pavilhão ficou ao abandono, envelhecendo junto ao lago.</p>
<p>Na tarde do dia seguinte, enquanto as ervas há pouco ceifadas ardiam espalhando fumo no vento, terminou de sachar o solo duro e seco, descobrindo a terra castanha e fértil ao sol que tombava.</p>
<p>No alpendre das traseiras, defronte da água ondulada, fincou as mãos magoadas na balaustrada. Da madeira soltava-se a tinta crestada, que se quebrava em lascas brancas e azuis que cobriam o chão. <em>Amanhã começo a lixar, a trabalhar nas paredes</em>, planeou. Tinha agora os olhos fechados e o queixo seguro no peito. Descobria-o a ternura da última luz e o suor inventava-lhe na pele suja pequenos carreiros. À sua volta trinavam pássaros, pertenças e todas as espécies de silêncios.</p>
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		<author>
			<name>Guilherme José Pires</name>
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		<title type="html"><![CDATA[O sonho dos outros]]></title>
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		<updated>2012-05-16T10:47:04Z</updated>
		<published>2012-05-16T10:40:18Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="primavera-g" />		<summary type="html"><![CDATA[Caminham algures por sobre as mágoas de um horizonte sem azuis. Têm vento nos bolsos, os cabelos deitados como ramos de magras árvores pendulares no vazio, um si bemol, um dó maior, leves e caídos nas notas escuras. Fotografam aves de rapina. Gestos delicados compõem harmonias de condor. Descem a sós, usam as costas das [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/o-sonho-dos-outros?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-sonho-dos-outros"><![CDATA[<p>Caminham algures por sobre as mágoas de um horizonte sem azuis.<br />
Têm vento nos bolsos, os cabelos deitados como ramos de magras árvores pendulares no vazio, um si bemol, um dó maior, leves e caídos nas notas escuras.<br />
Fotografam aves de rapina.<br />
Gestos delicados compõem harmonias de condor.<br />
Descem a sós, usam as costas das mãos para enxotar o pó das mangas e dos ombros da camisa, e muito do que perdem enquanto ocupam o pensamento com movimentos triviais é tudo o que lhes escapa nas certezas e nas verdades em que acreditam.<br />
Encontram-se nos recantos de Verão às horas da trovoada seca com outros seres inventados, para trocar pertences e habitar a chuva.<br />
Rombos, relâmpagos, estoiros, marés vivas, dias tapados de perigos, estalidos de vidros e talheres, rasgões, tremuras, corvos trovadores, penas escuras em banho-maria nos restos de café, bafos lentos do planeta, burburinho, vagar.<br />
É então que soltam os animais de observar a tarde e com eles aprendem a esticar o pescoço, a decorar as elipses perfeitas das andorinhas e a ouvir.<br />
Enfiam as carapaças pela cabeça, calçam as escamas, afiam a paciência.<br />
E eis no horizonte um certo azul madrugador que regressa, tardio, a contratempo.<br />
Deixa-se acompanhar de farrapos para compor reticências.<br />
Um horizonte quase azul com pedaços de branco quase nuvens.<br />
Os que sonham são lestos, mas lentos, a sair da noite para o sono despertador.<br />
Enquanto partem grito por eles e atiro-lhes uma coisa de aumentar palavras.<br />
Não sei se a utilizam para ler com pormenor quem mais gostam de ler, mas nos sonhos que germinam no momento em que a porta se fecha e eles se desfazem encontro-os sempre vestidos para o pequeno-almoço, meia de leite e bolo seco quietos sobre a mesa redonda de metal, livro de papel ou jornal desportivo — e conta-fios no colo.<br />
Querem perceber melhor os objectos que existem.<br />
Julgo que os ajudo.<br />
De nariz espalmado no vidro qualquer um se imagina gigante, todo possibilidades, qualquer algo pelo preço de um mero pensamento, o pensar é um novelo barato.<br />
Mas o cinzento vai tomando o lugar da cor.<br />
Duas pálpebras descendentes.<br />
A luz que se desfaz como ramagens de fio de coco.<br />
Breves rombos na escuridão, esparsos, burburinho, quietação.</p>
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		<author>
			<name>João Rui Afonso</name>
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		<title type="html"><![CDATA[Estrangeiro]]></title>
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		<updated>2012-05-07T08:57:31Z</updated>
		<published>2012-05-07T08:57:31Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="primavera-j" />		<summary type="html"><![CDATA[+++++Em Lisboa a noite nunca é negra e as estrelas ralas vezes são mais que os dedos de uma mão. Nas melhores, como as de hoje, e quão esparsas elas são, lá se encarde o céu de pobre escuro e mesmo assim não em absoluto, pois rente ao horizonte, aconchegada aos prédios aos andaimes aos [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/estrangeiro?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=estrangeiro"><![CDATA[<p><span style="visibility: hidden;">+++++</span>Em Lisboa a noite nunca é negra e as estrelas ralas vezes são mais que os dedos de uma mão. Nas melhores, como as de hoje, e quão esparsas elas são, lá se encarde o céu de pobre escuro e mesmo assim não em absoluto, pois rente ao horizonte, aconchegada aos prédios aos andaimes aos guindastes, persiste sempre a transpiração púrpura das luzes dos homens.<br />
<span style="visibility: hidden;">+++++</span>Na minha noite, uma não de aqui, de outros tempos, de um eu que já não sou, para lá dos pinheiros ciciando ao vento nos visos das serras, insinuando-se nas fendas das cigarras, das corujas e dos cães ocasionais, soava sempre, vindo antigo das profundas, o zunido inquebrantável do silêncio.<br />
<span style="visibility: hidden;">+++++</span>Agora aqui, nesta noite sumida incapaz de calar dos telhados as sombras dos gatos, mesmo nos leves momentos em que todo o ruído cessa, o silêncio não se escuta, não existe. A princípio, nas primeiras vezes que aqui vim, ainda cuidei ouvi-lo ganindo baixinho por entre as baforadas do pensamento, mas não, era o Tejo, o longo gemido do Tejo espreguiçando-se pela colina num arrastar de árvores, prédios e mortos, até me afagar a face num desconsolo de maré vaza.</p>
]]></content>
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		<author>
			<name>Guilherme José Pires</name>
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		<title type="html"><![CDATA[Em louvor dos melancólicos (roubo qualificado)]]></title>
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		<updated>2012-04-30T00:50:10Z</updated>
		<published>2012-04-30T00:45:46Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="primavera-g" />		<summary type="html"><![CDATA[Descobres a porta. Vai abrindo espaço para a tua insónia, as dobradiças por olear conquistadas pela ferrugem e pelo gerúndio. Vai abrindo (piano, piano) e ali estou como sempre estou, em segundo plano no quarto onde adormecemos. Vejo-te ao revolver da porta e poupo as minhas palavras porque sei de memória (no nervo da memória) [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/em-louvor-dos-melancolicos?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=em-louvor-dos-melancolicos"><![CDATA[<p>Descobres a porta. Vai abrindo espaço para a tua insónia, as dobradiças por olear conquistadas pela ferrugem e pelo gerúndio. Vai abrindo <em>(piano, piano)</em> e ali estou como sempre estou, em segundo plano no quarto onde adormecemos. Vejo-te ao revolver da porta e poupo as minhas palavras porque sei de memória (no nervo da memória) as palavras que queres ouvir, apenas te amo quando estou cabisbaixo, assim, derrotado, assim, decrescente, liliputiano.</p>
<p>Dizes que a meia-noite abre os braços para mim, apenas para mim, apresenta-se quando me apresento deixando-te a sós contigo, tu e o lugar vazio, e que depois levito e parto com o vento até ao longe, até que a luz me desfoque (te desfoque), até que as marés desapareçam e eu deixe de ter ocasião por onde vaguear e me veja por fora de mim sujeitado pelo nada a aterrar, (apenas te amo quando) cabisbaixo, assim, derrotado, assim, decrescente, liliputiano.</p>
<p>Já o sei: pedes apenas alguns minutos, exiges nada, precisas só de sentir a minha mão no teu ombro ou de alguém que compreenda as tuas ausências, que entenda os silêncios quando foges, alguém, a mão e alguns minutos somente, pois que saibas: eu compreendo.</p>
<p>Vês em mim esperança, muito pouca, tão escassa, um valioso cotão de esperança, e quando a tua felicidade acontece encontra-me ali como sempre me encontra, afogando-me por inteiro de mão na cabeça, feito mármore de estátua, sempre afogado por inteiro nos meus lamentos e (apenas te amo quando) melancólico,</p>
<p>mas, porém, todavia, contudo:</p>
<p>(podes memorizar o que te direi, escrevê-lo, copiá-lo, esconder as palavras no meu bolso algures no futuro, de agora a um milénio, de aqui a um universo) estou sempre assim, fiz-me a cada dia como vês, eternamente cabisbaixo, assim, derrotado, assim, decrescente, liliputiano, sempre.</p>
]]></content>
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		<author>
			<name>Afonso Cruz</name>
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		<title type="html"><![CDATA[Criação]]></title>
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		<updated>2012-04-22T22:09:35Z</updated>
		<published>2012-04-22T23:00:11Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="convidados" />		<summary type="html"><![CDATA[Erik Gould senta-se ao piano, num quarto despojado de quase tudo. A sua mão esquerda cai num acorde menor enquanto a direita toca um arpégio diminuto. Gould fecha os olhos, os cabelos caem-lhe sobre a cara, enquanto toca. O som do piano preenche o quarto e de repente, sem que o pianista se aperceba, surge um [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/criacao?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=criacao"><![CDATA[<p>Erik Gould senta-se ao piano, num quarto despojado de quase tudo. A sua mão esquerda cai num acorde menor enquanto a direita toca um arpégio diminuto. Gould fecha os olhos, os cabelos caem-lhe sobre a cara, enquanto toca. O som do piano preenche o quarto e de repente, sem que o pianista se aperceba, surge um candeeiro de pé, com um abajour de feltro verde. Os acordes sucedem-se, a música enche tudo. Gould continua enlevado, olhos fechados, mexendo a cabeça para cima e para baixo ao ritmo da música. A mão esquerda sobe para a dominante de sétima e aparece, nesse instante e mesmo no meio do quarto, um sofá às riscas e um tapete sírio. A mão de Gould desliza para um meio diminuto: surge um gato em cima do piano. De seguida, enquanto percorre uma escala arábica, aparece uma mulher ruiva deitada no sofá das riscas. Tem olhos verdes e lê um livro de Blake. A música continua e, junto às pernas do pianista, surge uma criança. Tem quatro anos e brinca com um carrinho de madeira. As mãos de Gould atravessam seis oitavas, percorrem o teclado e a música acaba. O pianista fica uns segundos em silêncio antes de abrir os olhos. A mulher ruiva está agora atrás dele, com as mãos pousadas nas suas costas. Gould levanta a cabeça e, quando se depara com todas as mudanças à sua volta, diz, cheio de lágrimas nos olhos: «Ah, então é assim que Ele faz.»</p>
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