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		<author>
			<name>João Rui Afonso</name>
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		<title type="html"><![CDATA[O isco]]></title>
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		<updated>2012-02-27T14:08:16Z</updated>
		<published>2012-02-27T13:23:32Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="inverno-j" />		<summary type="html"><![CDATA[+++++O pescador chega à beira do lago. Tem um chapéu de palha com uma fita laranja do PSD, tem meias brancas até meio das canelas por baixo de sandálias de cabedal. Lança. A bóia descreve uma parábola e mergulha distâncias depois atrás da chumbada, regressa à tona, flutua. +++++Quando era pequeno tinha muitos irmãos, agora [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/o-isco?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=o-isco">&lt;p&gt;&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;O pescador chega à beira do lago. Tem um chapéu de palha com uma fita laranja do PSD, tem meias brancas até meio das canelas por baixo de sandálias de cabedal. Lança. A bóia descreve uma parábola e mergulha distâncias depois atrás da chumbada, regressa à tona, flutua.&lt;br /&gt;
&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;&lt;em&gt;Quando era pequeno tinha muitos irmãos, agora já não tenho tantos. Nascer numa família grande, com demasiadas bocas, destila de sentido a palavra infância. Há jogos, há brincadeiras, mas falta inocência, infiltra-se sempre o presságio de que somos nós ou eles.&lt;br /&gt;
&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;Visto de um certo prisma até que me saí bem. Os da minha altura cedo identificaram em mim uma qualquer forma de ascendência, carisma e pareciam ter necessidade ou prazer em estar comigo. Ainda era um fedelho e já tinha um grupo. Andávamos juntos pelas paragens escuras, pressionávamos os míudos, sentíamo-nos bons.&lt;br /&gt;
&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;Certas coisas entram em nós, fazem-nos. Como com as fêmeas, sempre tão assustadas mas desejosas. Não era preciso procurar, seduzir, elas chegavam-se encantadas pelo poder e indiferença, a altivez. Queriam os meus genes para o seus filhos. Tive as que me apeteceu. Ou em verdade não as tive, ou elas a mim, foi apenas esperma sobre óvulos.&lt;br /&gt;
&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;Ser adulto mais não é que afirmar uma personagem. Dizer: este sou eu e agir conforme para merecer o respeito. Assim, quando dei por mim, tudo eram já entranhas, a vivência não mudara, apenas se refinara, ganhara autoridade. O mundo definia-se ainda no ganhar e no perder, na presença ou ausência da razão, na necessidade de a ter.&lt;br /&gt;
&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;Existiram alguns a quem declarei amizade, amigos. Gostava quando estávamos juntos, mas nunca deixei de me sentir ameaçado, confuso. Era difícil conciliar a ternura que lhes tinha com o sentimento emergente da inveja, afinal a substância do ser eu nunca se afastara demais da penúria da primazia, a dependência do triunfo.&lt;br /&gt;
&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;Agora sou velho. Já não intimido ou posso competir. Os peixes mais novos aproximam-se e arrancam-me à dentada pedaços das barbatanas. Tenho que os compreender. Mesmo que não as conheçamos, ou que a vida nos tenha feito mais do que nós a ela, todas as opções terminam em consequência. E eu termino assim, enfiado no anzol, apesar de saber bem do gordo lá em cima, apesar de não gostar de minhocas.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
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		<author>
			<name>Guilherme José Pires</name>
					</author>
		<title type="html"><![CDATA[Enquanto não acordo]]></title>
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		<updated>2012-02-23T00:04:23Z</updated>
		<published>2012-02-23T00:03:19Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="inverno-g" />		<summary type="html"><![CDATA[A noite investe para os ninhos. Embrenha-se nas colchas, silencia as estantes, cobre tudo de palidez, como se todos os ninhos fossem o quarto, este quarto, o meu lugar. Ali estou, deitada na cama, adormecida, carne e ossos fugidos pelos sonhos. O meu corpo caído na noite inventa coices para dizer dessas utopias. Subo ao [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/enquanto-nao-acordo?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=enquanto-nao-acordo">&lt;p&gt;A noite investe para os ninhos. Embrenha-se nas colchas, silencia as estantes, cobre tudo de palidez, como se todos os ninhos fossem o quarto, este quarto, o meu lugar. Ali estou, deitada na cama, adormecida, carne e ossos fugidos pelos sonhos. O meu corpo caído na noite inventa coices para dizer dessas utopias. Subo ao tecto. Observo-me: mordi a almofada, entreabri os olhos, enrolei-me, fiz-me gata, o barrigão de lado, as águas por rebentar, não me compreendo ali deitada de fugida pela noite.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas dentro de mim, no outro lado dessa que dorme, escondo-me invisível e sentada a teu lado, meu pai, que sofres sem direito a descanso no branco afiado do recobro. Deitaram-te aqui junto à janela para que oiças as árvores, e tens-me a teu lado cada vez mais pequena, vou engrandecendo à medida que me faço criança. A adulta sem coragem para te auscultar o peito — encostar o ouvido ao búzio e ouvir um mar quebrante, interrompido pelo pêndulo rouco da morte — a engrandecer imaginando-se criança. Se me volto para o horizonte vejo ao longe uma falua a varar. Quem nos dera a inocência, meu pai. Agora pego-te na mão. Sinto-lhe o peso como se de uma estátua eu quisesse descobrir o presente e nela te reencontrasse, um homem possível, um pai sem mácula embrulhado em papel de aniversário. Digo-te do meu filho: estou quase mãe, meu pai, e tu estás quase avô. Afago a barriga enquanto me desfaço em novidades. Desapareço. Os médicos não sabem como informar a família. Não existe método para tais palavras. É impossível explicar esta ausência. Desapareceu-lhe a mão, ficou sem mão esquerda; Mas ainda respira, doutor?; Ainda respira, mas, não sei se ouviu o que lhe disse, a mão esquerda do seu marido desapareceu, o braço termina no pulso, não temos como explicar; Tudo bem, doutor, enquanto ele respirar também eu tenho fôlego, a mão pouco importa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O quarto eclipsa-se na noite. No colchão o meu corpo inventa coices, quer acordar o mundo, abandonar-me noutros lugares, deixar a parte distante do todo. Observo-me: será que choro? De manhã, imaginarei a baba na fronha. Acordarei extenuada. Malditos sonhos que não me deixam em descanso; amanhã engulo um Alprozalam antes de vestir o pijama.&lt;/p&gt;
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		<author>
			<name>João Rui Afonso</name>
					</author>
		<title type="html"><![CDATA[Paisagens]]></title>
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		<updated>2012-02-21T11:39:50Z</updated>
		<published>2012-02-20T18:45:59Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="inverno-j" />		<summary type="html"><![CDATA[+++++Saiu da capela mortuária faltavam dez minutos para as onze. Talvez a sua função, obrigação, estivesse em permanecer noite dentro junto do corpo da mãe como os outros que a velavam, mas assim não aconteceu. Não pôde. Não foi capaz. Surgiu-lhe dentro um cenário norte americano: deserto desterrado e vermelho, highway negra e incisa de [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/paisagens?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=paisagens">&lt;p&gt;&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;Saiu da capela mortuária faltavam dez minutos para as onze. Talvez a sua função, obrigação, estivesse em permanecer noite dentro junto do corpo da mãe como os outros que a velavam, mas assim não aconteceu. Não pôde. Não foi capaz. Surgiu-lhe dentro um cenário norte americano: deserto desterrado e vermelho, highway negra e incisa de asfalto, a lâmina dentada das Rocky Mountains fechando o distante. Sofria de um géne(ro) complexo de sinestesia em que as emoções lhe apareciam encriptadas em paisagens.&lt;br /&gt;
&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;Sirva-me uma bebida forte que a minha mãe morreu, pediu encostado ao balcão, sabe, só quando as mães morrem é que os filhos são em absoluto livres e se quedam irremediavelmente e para sempre sós.&lt;br /&gt;
&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;Depois dele, o único no bar aquela hora era um espanhol magro, de pele branca e aparência frágil, chamado Pablo. Usava as unhas da mão direita crescidas e as da esquerda cortadas. Vestia de maneira despreocupada que procurava ser correcta. Falava apontando os olhos azuis numa intensidade frontal difícil de suportar. Era físico teórico e estudava as dinâmicas e incongruência dos sinais.&lt;br /&gt;
&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;Algo me obrigava a fixá-lo, a olhá-lo como se o quisesse absorver, um fascínio. Sempre pensara que fosse possível um dia vir a amar outro homem e agora ali estava a confirmação. Não era um desejo ou querer sexual, antes um amor de identificação, aspiração. Como se nos sentisse unidos na partilha de algo fundamental e profundo, mas ao mesmo tempo soubesse que ele conhecia já muito mais, que tinha ido a um longe que eu jamais alcançaria.&lt;br /&gt;
&lt;span style="visibility: hidden;"&gt;+++++&lt;/span&gt;Senhores, pedimos desculpa mas vamos fechar, a última bebida é por conta da casa.&lt;/p&gt;
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		<author>
			<name>Guilherme José Pires</name>
					</author>
		<title type="html"><![CDATA[Quem é este homem?]]></title>
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		<updated>2012-02-21T22:04:27Z</updated>
		<published>2012-02-16T01:17:49Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="inverno-g" />		<summary type="html"><![CDATA[O personagem nasceu a 25 de Fevereiro, apto a despertar o queixume dos autores, que haviam filhado um ser mudo, sem choro e sem birra — um tormento, porque antes dele a motivação fugira solteira, desatada no fogo lento da casa, após o que decretaram (sem que se entregassem às mãos um do outro) a [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/quem-e-este-homem?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=quem-e-este-homem">&lt;p&gt;O personagem nasceu a 25 de Fevereiro, apto a despertar o queixume dos autores, que haviam filhado um ser mudo, sem choro e sem birra — um tormento, porque antes dele a motivação fugira solteira, desatada no fogo lento da casa, após o que decretaram (sem que se entregassem às mãos um do outro) a obrigatoriedade de recuperar o mistério para o amor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;(e não existe segredo maior do que um filho.)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cinquenta anos depois, graças à renovação absoluta das células que o compõem, este homem não se reconheceria mesmo se lhe mostrassem, tão eternas, as bochechas e os caracóis de boneco com o rabo na alcofa a encarar o fotógrafo. Era já um outro ser, em tudo distinto desse que primeiro se viu fazer no mundo, tornado especialista, nas rádios urbanas, em amores nevados de perdidos e achados. Indiferente, por mutação celular, ao pai que fugira da mãe que encolhera, mísera, a um canto na sala de estar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora vemos o personagem vestido de camurça dos pés ao pescoço, num jeito seco de quem perdeu o tempo para pensar, caminhando pela calçada de uma cidade entre a luz que apenas incide até meia parede, onde mulheres postas no volteio das janelas exibem gatos penteados à medida das suas maquilhagens.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Desapareceu ontem, na Rua dos Lírios, pelas dez horas, vestia camisola e calça escura de camurça, acabado de sair da mudança de pele. A família deseja o seu regresso, por todas as razões e por nenhuma. Se o encontrar, telefone. Oferecemos recompensa.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O personagem passa junto e nem os gatos o reconhecem. Passara na mesma janela dobrando a esquina todos os dias nos meses anteriores, sem hora certa, a caminho de. As outras células e a pele vazia acenariam às mulheres e ao seu colo de gatos; este de agora diz, pela primeira vez, bom dia. Quem é este homem?&lt;/p&gt;
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		<author>
			<name>Paulo Ferreira</name>
					</author>
		<title type="html"><![CDATA[Fractura exposta]]></title>
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		<updated>2012-02-13T10:46:13Z</updated>
		<published>2012-02-13T00:00:17Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="convidados" />		<summary type="html"><![CDATA[Se o que une duas pessoas se pudesse avaliar pela capacidade que têm de fazer bem ao outro, ou dito de outra forma, do que estão disponíveis para abdicar em prol do outro porque essa pessoa é mais importante do que o ego (a palavra dignidade vem noutra pagina do dicionário), Francisco e Mafalda estariam [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/fractura-exposta?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=fractura-exposta">&lt;p&gt;Se o que une duas pessoas se pudesse avaliar pela capacidade que têm de fazer bem ao outro, ou dito de outra forma, do que estão disponíveis para abdicar em prol do outro porque essa pessoa é mais importante do que o ego (a palavra dignidade vem noutra pagina do dicionário), Francisco e Mafalda estariam bem. Não estão. Apesar de ele a fazer rir e ela o fazer sorrir, apesar de ele já não fumar por causa dela e ela só usar vestidos curtos por causa dele, apesar de ele já não colocar tanto perfume (o aroma enjoava-a) e ela, em compensação, nunca se esquecer de usar um pouco de base no rosto (Francisco sempre gostou dos pequenos artifícios e falsidades, que não apenas os da linguagem).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Francisco e Mafalda conheceram-se algures, já não sabem bem onde (são pouco dados a detalhes). Ele tinha 36 anos e um casamento desfeito. Ela tinha 34 e já não acreditava no amor. Mas acreditou nele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora já não falam que não seja por indiferença e silêncio. A pedido dela, e sem que esta dê justificações, ele respeita a ordem (o ego, a dignidade). Incrível como alguém a mastigar pode irritar outra pessoa. Como basta uma gargalhada mais elevada para o outro lado explodir e dizer que acabou tudo. Sem explicar mais nada. É nesse momento, nesse preciso instante, que a noite decide entrar pelo corpo adentro e se aloja. Para sempre.&lt;/p&gt;
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		<author>
			<name>João Rui Afonso</name>
					</author>
		<title type="html"><![CDATA[Mudança]]></title>
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		<updated>2012-02-12T22:31:58Z</updated>
		<published>2012-02-09T00:47:38Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="inverno-j" />		<summary type="html"><![CDATA[No final. Perdoa-me, por favor compreende-me, sei que é injusto, que é tremendo, mas que queres que te explique, não sei, não sou capaz, é que já não gosto de ti. Um ano e meio antes, em dois momentos. Quando se conheceram nenhum dos dois imaginava ainda casar, Pedira para sair mais cedo e o [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/mudanca?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=mudanca">&lt;p&gt;&lt;em&gt;No final.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
Perdoa-me, por favor compreende-me, sei que é injusto, que é tremendo, mas que queres que te explique, não sei, não sou capaz, é que já não gosto de ti. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Um ano e meio antes, em dois momentos.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
Quando se conheceram nenhum dos dois imaginava ainda casar, Pedira para sair mais cedo e o senhor Carlos assentira, tinham sentido sempre a vida como algo demasiado próximo e íntimo para poder ser partilhado, pretendia  ir a casa tomar banho e trocar de fato antes da noite preparada pelos amigos, praticavam um credo de individualismo onde por vezes reconheciam coragem e por vezes medo, recusara num corte limpo a despedida de solteiro mas não fora capaz de negar ao Bruno ao Pedro ao André uma rodada na véspera, contavam que o amor — que é como quem diz a possibilidade de confiar — crescera do pudor com que respeitavam as duas vidas que eram o nós,  afinal talvez fosse pelo melhor que a noite assim passaria mais depressa e a ansiedade chegaria reduzida, e aos onze meses de namoro não foi necessário um pedido já que ambos souberam que sim. estava quase a chegar quando um camião desgovernado rompeu o separador central e embateu de frente contra o carro levando-o de arrasto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Meses depois, ela, no terapeuta.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
Como posso estar a sentir isto, doutor Mário, quem sou eu? É tão injusto para ele, para mim, para nós, e no entanto é  uma ideia cada vez mais forte: o que há a fazer é o que não pode ser feito.  O que irão as pessoas dizer? Ainda no outro dia a Carla, nem sei como reuni coragem para lhe contar, mas precisava tanto de desabafar com alguém, ainda no outro dia a Carla a acenar a cabeça que percebia, compreendia e eu a notar-lhe o esgar de nojo, a maneira como me olhava como a um monstro. É que tudo parece como dantes. O Rui regressou ao mesmo trabalho, bacalhau com natas é ainda o seu prato favorito e ao almoço continua a enviar-me mensagens com piropos e sugestões atrevidas. Ajude-me doutor, só quero saber explicar-lhe que há nele algo de diferente, algo talvez ininteligível mas presente, que para mim ele já não é o Rui, é outra pessoa.&lt;/p&gt;
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		<author>
			<name>Guilherme José Pires</name>
					</author>
		<title type="html"><![CDATA[Carta de demissão]]></title>
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		<updated>2012-02-06T19:11:07Z</updated>
		<published>2012-02-06T01:46:57Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="inverno-g" />		<summary type="html"><![CDATA[Longe estão os dias em que registávamos a vida na memória indecisa das máquinas. Nesta era dos homens ressurgidos escrevemo-la somente nas pedras. Existe, é inevitável, quem as denuncie como novidade perigosa; quem as recuse sem arriscar porque são frias, explícitas; arrastam consciências para o leito sereno dos rios. Terá sido por respeito a esse [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/carta-de-demissao?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=carta-de-demissao">&lt;p&gt;Longe estão os dias em que registávamos a vida na memória indecisa das máquinas. Nesta era dos homens ressurgidos escrevemo-la somente nas pedras.&lt;br /&gt;
Existe, é inevitável, quem as denuncie como novidade perigosa; quem as recuse sem arriscar porque são frias, explícitas; arrastam consciências para o leito sereno dos rios.&lt;br /&gt;
Terá sido por respeito a esse pavor que a esqueceste, convicto, longe da tua presença. Terá sido a pedra que se ausentou na distância após os teus rugidos. Não interessa.&lt;br /&gt;
Informo-te: foi encontrada durante as investigações nas águas. A mulher de mãos em joeira viu quarenta e três mil seiscentas e duas antes de parar na tua.&lt;br /&gt;
Leu-a de pronto sem cuidado, sem ternura.&lt;br /&gt;
Nasceram-lhe trincheiras finas no cérebro, nas áreas destinadas às memórias que se desejam.&lt;br /&gt;
Um hipocampo gordo de estrias e vícios.&lt;br /&gt;
Quando a puxa do bolso, esta mulher é a pedra a ler-se sobre si mesma, agigantada, expressão de lapa.&lt;br /&gt;
Na imobilidade da noite caminha solitária, e diz: Estas memórias deviam ser minhas.&lt;br /&gt;
Não são para ela tais instantes, mas olha por eles e anseia.&lt;br /&gt;
O que estarias a fazer quando te fotografaste descalço sobre as ruas? Que ruas são essas que não a reconhecem? O que será que te esvaziou a poesia nessa hora de outubro na qual te soubeste errante no mundo? Que outubro é esse que não a reconhece? Quem te agarrou o peito aberto? Quem é esse homem — não és tu — que a observa em segundo plano?&lt;br /&gt;
E de novo: &lt;em&gt;Estas memórias deviam ser minhas.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
Para que as descartasse como faz às que a vida lhe trouxe para zelar.&lt;br /&gt;
Para que nelas nascesse outra vez, outra vez, outra vez, alta e difícil como esse cedro que o teu pai vai desmanchando a cada Inverno, sem fruto.&lt;br /&gt;
Longe estão os dias em que registávamos a vida na memória indecisa das máquinas. Agora, se queremos estar próximos de alguém, basta atirar uma pedra e acertar. O oposto é também verdade: observo esta carta que lancei à tua frontaria, irá desfazer o vidro demitindo-me de ti, já não a vejo, está contigo, the end.&lt;/p&gt;
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			<name>João Rui Afonso</name>
					</author>
		<title type="html"><![CDATA[História sem princípio ou destino]]></title>
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		<updated>2012-02-02T10:34:55Z</updated>
		<published>2012-02-02T00:05:35Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="inverno-j" />		<summary type="html"><![CDATA[Era um despertador preto e quadrado, de ponteiros fosforecentes, que comprei numa loja dos trezentos, antes de estas desaparecerem e darem lugar a estabelecimentos de chineses com lanternas vermelhas e um homem pequeno acocorado à porta. Marta, a etérea, caminha pela rua branca e jacarandá, direita ao trabalho reflecte nos mistérios da causa e do [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/historia-sem-principio-ou-destino?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=historia-sem-principio-ou-destino">&lt;p&gt;Era um despertador preto e quadrado, de ponteiros fosforecentes, que comprei numa loja dos trezentos, antes de estas desaparecerem e darem lugar a estabelecimentos de chineses com lanternas vermelhas e um homem pequeno acocorado à porta. Marta, a etérea, caminha pela rua branca e jacarandá, direita ao trabalho reflecte nos mistérios da causa e do efeito, brinca no bolso com a chupeta de Maria, que acabou de entregar na escola. Antes de tocar, função que cumpria com dedicada amplitude, lançava um estalido mecânico, evidência de um qualquer gatilho visceral, necessário à fabricação do som. Ao lavarem juntas a loiça do almoço a mãe perguntou-lhe, Madalena, quando te casas, quando me dás um neto, uma mulher tão bonita como tu e Madalena respondeu-lhe, mãe, quantas vezes tenho de te explicar que sou burra e não gosto da felicidade, ou talvez goste de a ver nos outros, os homens das minhas amigas, os filhos das minhas amigas, mas para mim isso não chega ou é simplesmente demais. Tal qual nos filmes de horror e suspense, quando prévia ao morto vivo de encéfalo espremido pelo gargalo do olho, se aproxima uma música de cartola lúbregue, nunca fui acordado pelo latido do seu toque, mas sempre pelo tréc súbito do mecanismo. Ao procurar na gaveta do pai por preservativos que enchia na casa de banho e arremessava aos homens das obras, teriam o pai ou a mãe sida, porque precisariam de preservativos se não tinham sida, Carlos encontrou velhas fotos de África, elefantes, leões, um preto com uma bala no meio dos olhos, que prontamente guardou para levar para a escola e fazer inveja aos amigos. Às vezes na rua, no liceu, ou em qualquer situação, quando um som téc, tléc, tric, tac, se lhe assemelhava, o cérebro descontrolava-se-me em potenciais de acção e o estômago fazia-se-me azeitona, angustiado. Sentados na escadaria junto à torre de Belém, onde cada tarde o pôr do sol se esforçava e conseguia ser melhor que no anterior, Carla pediu Pedro em casamento, não, respondeu-lhe ele, porque um dia vamos morrer, porque podemos desapaixonar-nos, porque o tempo existe e circula. Qual a razão para me ter lembrado do velho despertador, para vos ter falado dele, tantas coisas a ser, tantas pessoas a acontecer e eu vítima de nostalgias. O relógio desenha os números da meia noite, as únicas luzes da casa são no ecrã e no quarto, João selecciona o texto, carrega no botão, espreita a contagem de palavras, 412, escreve o.&lt;/p&gt;
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			<name>Guilherme José Pires</name>
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		<title type="html"><![CDATA[O pintor morreu]]></title>
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		<updated>2012-02-09T13:36:42Z</updated>
		<published>2012-01-30T00:00:56Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="inverno-g" />		<summary type="html"><![CDATA[Desceu com tal ímpeto dos lugares escuros da sua mãe que a parteira falharia, pela primeira vez numa carreira de trinta anos!, a apanha do recém-nascido. Não mais voltaria a sentir a verve da existência; a vida não lhe interessava. Quando o levantaram do chão da maternidade, junto às horas empilhadas sobre os gemidos da [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/o-pintor-morreu?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=o-pintor-morreu">&lt;p&gt;Desceu com tal ímpeto dos lugares escuros da sua mãe que a parteira falharia, &lt;em&gt;pela primeira vez numa carreira de trinta anos!&lt;/em&gt;, a apanha do recém-nascido. Não mais voltaria a sentir a verve da existência; a vida não lhe interessava. Quando o levantaram do chão da maternidade, junto às horas empilhadas sobre os gemidos da mãe estava um esquisso perfeito a borrões de sangue, placenta, pele virgem, restos de útero. Alguém disse: este vai ser artista.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A vida não lhe interessava. Preferia o instante — pesado, lento — em que tudo começa a desaparecer. A forma certa de ser homem: especializou-se em cuidados paliativos, tornou-se assistente de moribundos. As famílias confiavam-lhe os vivos que o vento ia empurrando até à estação terminal, homens e mulheres que podiam comprar o privilégio de morrer em casa — serviço bem pago, com direito a estetoscópio, algodão, éter e meticulosa análise estrutural. Durante as visitas os clientes piavam respostas, partilhavam cicatrizes, revelavam protuberâncias, membros ausentes, cansaços, matérias plásticas para as obras do pintor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os medicamentos como berlindes na cova da mão, pintou-os.&lt;br /&gt;
Os pensos de algodão que cobriam as mucosas da doença, pintou-os.&lt;br /&gt;
As faces limpas dos filhos, que repetiam as dos pais quando o bicho carpinteiro ainda minúsculo na calada dos corpos, pintou-as.&lt;br /&gt;
Os tons de carvão da última pele de um homem doente, imitou-os.&lt;br /&gt;
Os vivos deitados com a cabeça encostada aos joelhos ao canto do sofá, deixou-os congelados na correnteza imparável do tempo. A tela decompõe-se depois do corpo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas horas misteriosas dos pincéis e das paletas a mutação da realidade em tinta produziu quadros sem pessoas, figuras abstractas, sobreposição das cores e texturas que o pintor descobria nos seus clientes. Não lhe faltou fortuna: sempre que as coincidências do tempo se produziram este homem foi convidado pelas galerias e os curadores fizeram imprimir as sinopses e as suas obras maiores em catálogos de capa dura e tecido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A mãe bradava a destempero para quem se cruzasse com o menino, na rua, em casa: este vai ser artista, e de obra grandiosa&lt;em&gt;. &lt;/em&gt;Assim foi. Mas a vida não lhe chegava.&lt;/p&gt;
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		<author>
			<name>João Rui Afonso</name>
					</author>
		<title type="html"><![CDATA[Memórias de uma casa com varanda]]></title>
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		<updated>2012-02-20T18:32:42Z</updated>
		<published>2012-01-26T01:14:10Z</published>
		<category scheme="http://historiasdaninhas.pt" term="inverno-j" />		<summary type="html"><![CDATA[Era um reino sem banhos. Ou onde os banhos se mantinham escondidos, atrás de reposteiros floridos, antes de se revelarem na véspera dos pais chegarem. Era um reino onde a sujidade brigava com o sol pelo bronzeado e eu tomava o seu partido, derrapando no pó leve dos caminhos em baforadas amarelas que me cobriam [...]]]></summary>
		<content type="html" xml:base="http://historiasdaninhas.pt/memorias-de-uma-casa-com-varanda?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=memorias-de-uma-casa-com-varanda">&lt;p&gt;Era um reino sem banhos. Ou onde os banhos se mantinham escondidos, atrás de reposteiros floridos, antes de se revelarem na véspera dos pais chegarem. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era um reino onde a sujidade brigava com o sol pelo bronzeado e eu tomava o seu partido, derrapando no pó leve dos caminhos em baforadas amarelas que me cobriam e às amoras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E era um reino com pratos enormes de batatas fritas que comia na branda luz morena ao abalar da tarde. Aí, sentado no balcão sobre o bardo, as cabras em baixo depois das grades azuis, largava-me a pensamentos ferventes de aventura e fantasia. Depois da noite regressaria o dia e eu voltaria a ser D.Quixote cavalgando as veredas numa bicicleta de pneus furados, cavaleiro negro em guerras de fisga e espada de pau, Neil Armstrong de calção vermelho e bandeira de ceroulas erguida na superfície do monte do cascalho. Ou então seria apenas eu — chorando pelo arranhão abaixo do joelho e por o João Manuel não me deixar ser o He-Man e casar com a irmã, a Anita, que fazia de Sheera — e procurarei nos braços fortes da Avó Maria consolo para a dor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;São dessa idade as geografias míticas que me fazem, o picoto, a horta d&amp;#8217;além, o lajeado, a eira, a horta do pato, a gruta do três, lugares de existência terrena mas significações íntimas, palavras que bem podiam ser outras, coração, baço, pulmões, cérebro, alma. É das memórias eternas desse tempo, fábulas ou realidades, que nasce a água límpida que me forma os sorrisos, não os assustados e medrosos ou os convencidos e petulantes, não os arrogantes ou convenientes, não os condescendentes, mas aqueles que tão poucos tiveram a paciência e coragem de ir desenterrando de mim, libertando em mim, os inocentes, os desajeitados, os felizes.&lt;/p&gt;
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