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href="http://letras-eletricas.blogspot.com/" /><link rel="next" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25&amp;redirect=false&amp;v=2" /><author><name>Jose Geraldo Gouvea</name><uri>https://profiles.google.com/100228697763293739064</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="32" src="//lh5.googleusercontent.com/-A5R0QpMyLKo/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/IIUKEKFTwLw/s512-c/photo.jpg" /></author><generator version="7.00" uri="http://www.blogger.com">Blogger</generator><openSearch:totalResults>426</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" type="application/atom+xml" href="http://feeds.feedburner.com/letras-eletricas" /><feedburner:info uri="letras-eletricas" /><atom10:link 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fosse famoso. Então poderia esnobar entrevistas e desfilar namoradas bonitas em carros do ano. Não conseguia nem ficar famoso e nem realmente ser amargo: era apenas triste e apagadiço. Sentava-se na primeira das carteiras para fingir ser estudioso, mas andava sempre com notas ruins e sapatos rigorosamente engraxados. Meticuloso em suas escolhas, enquanto não ficava famoso e amante de modelos perfeitas deixou-se namorar por Jaqueline, que era vesga, magra, sardenta, desconjuntada e fanha. Casou com ela inclusive, pensando em abandoná-la quando finalmente um estúdio de cinema comprasse os direitos de suas histórias ou quando ganhasse na loteria esportiva. Não entendia de futebol nem de cinema: suas histórias não tinham pé nem cabeça e seus palpites eram desastrosamente azarados. Em um famoso teste caracterizado por oito incríveis zebras, acertou os oito resultados, mas falhou em adivinhar que o Flamengo ganharia do Olaria e que o Atlético venceria o Democrata de Sete Lagoas. Nunca abandonaria Jaqueline, nem sequer a traiu, embora jurasse que não a amava muito. &lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando o conheci, no segundo ano do secundário, ele já tinha uma cara de velho, velhíssimo. Talvez tivesse repetido umas três séries. Estava impaciente: tinha que formar-se logo, pois tinha um futuro promissor no comércio.Precisava aprender muito, antes que o tio Jacinto batesse as botas. Tio Jacinto era velhinho e viúvo. Tivera dois filhos, ambos mortos: um de câncer antes dos trinta, outro de desgosto na curva dos quarenta. Não tinha netos. Não tinha ninguém, somente a amizade da irmã e o carinho de Américo, que se dizia interessado na herança, mas chorou profundamente no enterro. Tio Jacinto morreu antes que Américo tivesse aprendido o suficiente. Ninguém teve a ideia de deixar-lhe a loja. Em vez disso, venderam o estoque, dilapidaram o prédio, teriam demolido até o terreno. As aves de rapina que voejam em torno dos cadáveres dos pobres velhos ricos que morrem solitários. Não sobrou o suficiente. A mãe de Américo usou seu quinhão para comprar uma linha telefônica, necessidade da família. Isso foi em 1994. Poucos anos depois o governo privatizou a telefonia e até o cachorro que quisesse podia&amp;nbsp;instalar um aparelho em seu canil. A única herança que Américo jamais recebeu foi a de Jaqueline. Morta cedo: ele sempre fora fraquinha, tortinha, esquisita. Uma pneumonia galopante. Américo ficou prostrado no cemitério até muito depois que o penúltimo parente fosse embora. Talvez tenha sido só então que ele percebeu que seu afeto pela esposa tinha sido sincero. Tarde demais para demonstrar isso, para tê-la feito realmente feliz, para ter sido realmente entregue.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi nesse dia que o reencontrei. Tínhamos estado separados por vários anos: ele trabalhando em chão de fábrica e economizando tudo, até unhas. Eu fugira de nossa cidadezinha em busca de algo mais. Passava férias em casa quando me contaram do acontecido. Fui ao enterro em consideração a ambos: tinha sido também um namorado de Jaqueline, antes dele. Nunca lhe contei, é claro. Ainda tenho vergonha disso. Não de não ter contado: de ter sido ela quem me deixou. Depois de um beijo: ainda não entendo o que foi, ela apenas disse que seu anjo da guarda lhe soprara, exatamente no instante de nosso beijo, que algo estava errado e que não daríamos certo. Não deu. Saiu de minha vida e seguiu mancando mais uns anos pela adolescência afora, crescendo e se enredando em si mesma e suas ilusões. Até chegarmos ao segundo ano e encontrarmos lá o Américo, que tinha muito que aprender para um dia herdar a loja do tio solitário e ganhar muito dinheiro, tornar-se dono de uma rede de armarinhos, comprar os concorrentes, ficar famoso, namorar modelos e morrer de tédio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas cheguei atrasado: o cemitério já esvaziado, Américo sozinho lá, perto da tumba, sem coragem até para ajoelhar-se. Eu também não soube o que fazer: &amp;nbsp;não se sabe nunca o que fazer diante da dor sincera de um homem, mesmo que este homem nem seja exatamente amigo. Mas ele me ouviu, sapatos rangendo de novos na calçada de calhaus arrebentados&amp;nbsp;a marteladas. Não me olhou: não precisava saber quem era. Quem chega atrasado não faz mesmo nenhuma diferença. Mas depois de tempo suficiente para entender que algo não estava certo eu levei um braço ao seu ombro e disse-lhe: «vamos, homem, vamos que a vida segue.» Ele me viu finalmente, com os olhos calejados de tanta lágrima que até a pele em volta deles parecia sangrando. «Não, Geraldo, a vida não segue.»&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas ele veio comigo. Para onde iria? O que faria? Esperaria fecharem o cemitério? Convidariam-no a sair sem muita educação e ele ficaria sozinho na rua naquela tarde de sábado, vendo os carros insolentes dos ricaços passando, tocando música alta, carregando mulheres bonitas e vulgares rumo a discotecas, festivais ou simplesmente bares. E ele então se veria sozinho, triste, feio. Principalmente triste, órfão de todos os seus sonhos velhos. Velhísssimos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Já disse que não sei dizer coisas bonitas e nem filosofar. Se não disse, que tenho péssima a memória para coisas recentes, digo agora. Se disse mais de uma vez, que se repita para guardar melhor: ser homem é uma espécie de insensibilidade que se aprende na adolescência. Aprendi muito: por isso sei não ajudar um amigo em um momento de catástrofe.&amp;nbsp;Não, não havia outra palavra. Américo parecia um robô desligado. Depois daquela frase curta e amarga ele não conseguiu, durante horas, dizer nada mais do que acenos, resmungos e uma dor corrente que mantinha fundos os seus olhos, perdidos em poças de tristeza em seu rosto magro e sardento.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Levei-o a praça e nos sentamos lá, como se fôssemos conversar. Veio o sino da igreja, passaram passarinhos, a tarde também se deitou detrás do morro da matriz e a noite foi se desenrolando devagar. Jaqueline estava lá conosco, uma muralha que nos separava. Américo talvez soubesse, ou nunca. Se homem pudesse chorar eu estaria com ele naquela hora: como ele eu também tive um futuro promissor, também fiz planos de poder magoar todos os meus amigos e pisar nos meus inimigos. Por fim estava fingindo férias longas para disfarçar que estava demitido, sobravam-me apenas os meus amigos e nenhuma mulher. Eu nem podia, diferente do Américo, ter saudades de uma morta. Não há tempo para ter sido feliz quando se precisa ganhar muito dinheiro, para tentar comprar a lua que se sonhou quando menino.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por fim, desisti de ser homem e conformei-me em ser humano. Disse a Américo, com rudeza de palavras, que entendia como ele estava arrasado e que, como ele, eu tinha às vezes até ideias de me matar. Ele se assustou com isso: «Isso não, Geraldo, isso não.» Não compreendi sua rejeição: não fora ele que dissera antes que a vida não continuava? Tudo muda, tudo muda. A vida não continua: ela é um monte de folhas sacudidas pelo vento. A gente vai pulando de folha em folha esperando finalmente cair no chão. Todo mundo tem a ilusão de que alguma folha voará para sempre, que alguma folha não vai nunca chegar na terra, que a tarde será imensamente longa. Todo mundo tem essa sensação de que a vida não são minutos. Américo estava ali, sentindo-se montado em outra folha, ainda não sabia que estava mais perto do chão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;«Você que enterra a sua mulher, e eu que não sei para onde ir.»&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Américo sabia, ao contrário de mim, que o que nos torna mais perdidos não é saber para onde vamos, mas não entender de onde, diabos, saímos. Apesar de suas ilusões trituradas pelos dedos duros da vida, ele sabia de onde vinha. Eu estava mais pobre do que ele, perdido até de minha origem, órfão de um passado. Não tinha nem mesmo uma esposa morta para amar com culpa e arrependimento. Não tinha nem remorsos para ilustrar minhas noites. Em mim cabia a frase tanto quanto nele, um futuro promissor transformado em futuro do pretérito, mas a minha dor seria sempre maior que qualquer outra, justificando até eu poluir o luto arrependido de um amigo. Sim, não tinha mais aquele futuro, não tinha nem mesmo escrúpulos de contar a verdade à minha família, de procurar um emprego por lá mesmo, de procurar uma das antigas colegas de escola, talvez a Luciana, que me deixara um bilhete apaixonado dentro de um caderno na noite de formatura: um caderno que eu só fui abrir anos depois, em uma faxina. Então naquele instante, para monstrar a crueldade imensa&amp;nbsp;da sincronicidade, passou a própria, de mãos dadas com um menino. Éramos velhos demais para viver amores de infância: ela tinha uma franja grisalha no rosto ainda bonito e eu escondia uma barriga com a jaqueta dobrada sobre o colo. Tive vontade de segui-la, mas não tive coragem. No meu futuro do pretérito eu tinha.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-2287105805039575736?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;p&gt;O poema que me convenceu da absoluta e inquestionável genialidade do autor não é nenhum dos famosos. Não me identifico no nacionalismo místico de «Mensagem», detesto boa parte dos heterônimos (ainda que alguns poemas de Álvaro de Campos me agradem muito) e compreendo que muito do que está na Obra Poética são rascunhos que o autor dificilmente teria escolhido publicar. Mas este poema, «Hora Absurda», escrito em 1913, quando Pessoa tinha meros vinte e cinco anos e ainda tinha certo flerte com o simbolismo, foi como o murro na cara que nos acorda para a realidade da luta. Muitos de seus versos são fracos, mas a força da maioria deles é tanta que quase rasga o papel. Em um poema de apenas vinte e cinco quadras de versos bárbaros podem ser achadas pelo menos oito trechos que nenhum poeta brasileiro vivo seria capaz de igualar. O poeta nos atinge com simplicidade: «Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro» ou complexidade: «A doida partiu todos os candelabros glabros,/ sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas&amp;hellip;/ E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros&amp;hellip; E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?&amp;hellip;»  Como não ser aceso pela sugestão de que «Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente»?,  Esta sensação de ausência chega à perfeição absoluta quando o poeta diz: «Ah, deixa que eu te ignore&amp;hellip; O teu silêncio é um leque &amp;mdash; / Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,/ Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque.» Como qualificar a beleza maior que existe no leque fechado, potencial, face à decepção de o leque aberto não ser à altura da expectativa construída?  Existe camadas e camadas de sentido que escapam nas primeiras leituras. Precisei ler o poema mais de seis vezes ao longo da vida para entender que a singela frase «É preciso destruir o propósito de todas as pontes» possui mais sentido do que parece: se pontes existem para unir o que está separado, destruir o propósito delas consiste em acabar com todas as separações. Em um mundo onde ninguém estivesse separado não haveria necessidade de pontes. A mais bela das utopias é que as pontes fossem desnecessárias. Não somente as materiais, mas principalmente as metafóricas. Tal como o poeta eu lamento: «Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!&amp;hellip;» Sim, confesso: amo paisagens e pessoas que não existem, amo as que já existiram, mas não as diferencio das que são somente criações e crenças de minha mente insatisfeita com as paisagens que existem, essas que todos veem e que tantos amam.  Esses que, como Pessoa e eu, amam as paisagens que não existem, acabam confessando-se: «Eu sou um doido que estranha a própria alma» (e como, às vezes, ela e eu nos estranhamos). A única diferença é que, ao contrário de Pessoa que, cônscio de sua própria genialidade, previa num futuro pretérito que teria o reconhecimento que a vida lhe negava, eu jamais poderia dizer que «fui amado em efígie num país para além dos sonhos». Ou será, melhor, que Pessoa ao dizer isto sugeria que somente em um lugar ainda mais profundo e longe que o próprio sonho haveria de encontrar o reconhecimento?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Somente a leitura de «Hora Absurda» me gastou quatro horas nestes dias. Este é um daqueles textos que não vale a pena ler com pressa. Quem vive com pressa, e depressa, não pode seguir o conselho mágico: «Vive o momento com saudade dele já ao vivê-lo&amp;hellip;»  Mesmo o poeta, porém, em outro momento, reconheceu que esta contemplação é perigosa. Ao aproximar-se da famosa ribeira do rio, musicado por Danilo Caymmi e gravado por Maria Betânia, o poeta percebe que a vida, o rio, tem por maior propósito justamente engambelar-nos: «Porque o bem dele é que faça / Eu não ver que vai passando.» Passei anos de minha vida sem perceber que o rio estava realmente passando. Por isso só entendi este poema aos trinta e nove anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cada dia acho um tesouro diferente. Para além dos famosos poemas que todo mundo conhece. Tardei quase vinte anos para saber o que seriam as «calhas de roda» nas quais o coração, esse «comboio de corda» chamado coração gira a entreter a razão. Aos poucos percebo as sutilezas do vocabulário tipicamente português (muitas vezes mais belo que o nosso, tão afrancesado e anglicizado). As calhas de roda (trilhos) por onde gira sem destino o comboio (trenzinho) de corda chamado coração são semelhantes ao rio, que passa a tentar nos fazer ignorar sua passagem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E assim, enquanto leio o poeta, enquanto amo lugares que não existem, enquanto lembro tempo em que comemoravam o dia dos meus anos etc., tal como ele me perguntei em certa época «porque fiz eu dos sonhos  a minha única vida. » Depois eu achei que tinha saído dos sonhos e suas brumas e construído uma vida real onde habitar. Terminada esta tarefa, descobri que andara atrás do alvo errado:  nem eu nem pessoa vivíamos de sonho pela falta de uma vida de carne onde habitar. Segue verdade, na vida e no verso, que por mais vida que tenhamos, resta-nos um «Rosebud» que ninguém conhece, habitando no fundo de um sonho, que é o único lugar onde nunca erramos, onde realizamos todos os nossos planos importantes, e onde podemos passar a limpo todos os maus passos. Quando compreendi isso, compreendi junto que os sonhos eram a única vida do poeta simplesmente porque os sonhos são o único lugar onde o ser humano realmente vivo: fora deles cada um de nós é um animal a reproduzir-se e comer.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-416542091077303897?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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Em geral as pessoas estão mais preocupadas em conseguir fazer do que em passar além disso e fazer bem. É um tipo de «estética punk» que valoriza mais a «atitude» do que a habilidade. Os punks, como se sabe, eram músicos que tinham inveja do dinheiro que ganhavam bandas como o Led Zeppelin e o Yes mas, não sabendo tocar nem a décima parte do que o Steve Howe fazia com o pé esquerdo enquanto via televisão, fizeram um ataque calhorda a esses grupos acusando-os justamente de terem se afastado da juventude por tocarem uma música «elitista» e ganharem rios de grana com ela. No fundo o que eles chamavam de «elitismo» era a capacidade de tocar bem os seus instrumentos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os punks não foram os inventores do despeito — apenas os seus mais conhecidos e bem sucedidos praticantes nas últimas décadas — mas uma ideia, quando solta no  mundo, ganha asas e cresce até chegar a lugares onde o seu criador original nem sonhava. Imagino que alguns músicos dos primórdios do movimento punk tenham aprendido a tocar melhor desde então e passaram a respeitar sujeitos como o Jimmy Page; ao mesmo tempo em que devem sentir arrelia nos dentes ao ouvir boa parte da música de hoje — e que só existe porque muita gente entrou pelo buraco que os punks arrombaram no muro que separa a mediocridade do sucesso. Exemplos dessa evolução não faltam lá fora: Robert Smith, do The Cure, não suporta ouvir o primeiro disco de sua banda, e David Byrne, do Talking Heads, largou a música e virou produtor (sendo responsável pela divulgação nos EUA do trabalho de gente como o nosso Tom Zé).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Estes dois parágrafos iniciais, que certamente só farão pleno sentido para quem entende algo de música, servem de introdução para uma constatação que me sobreveio hoje ao receber mais uma «revista eletrônica» (recebo umas seis ou sete por semana, algumas anexadas ao e-mail, outras com uma educada hiperligação me convidando a baixá-la de um servidor na internet). &lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;A constatação de que, no ramo das publicações amadoras, ninguém mais se importa em fazer bem feito. Pode-se fazer feio, que é falta de educação dizer isso. Só que eu sou mesmo mal educado e não me acanho de dizer: a maioria das publicações independentes padece de uma feiura que dói nos olhos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Claro que eu não espero que alguém que faz uma revista amadora tenha capacidade de dar-lhe um acabamento do nível de uma revista semanal publicada por uma grande editora. Não há tempo para isso e certamente os editores amadores não têm grana para comprar os programas profissionais necessários para tanto (e mesmo que os obtenham pela via da pirataria, não terão tempo para aprendê-los até chegarem ao mesmo nível de um profissional gráfico). Mas existem certos erros básicos, que poderiam ser evitados com sensibilidade (para observar como são feitas as revistas profissionais), alguma pesquisa sobre o tema (para conhecer o bê-a-bá da formatação de documentos) e uma certa dose de talento (que nem todo mundo tem). Sem sensibilidade, talento e conhecimento; o resultado é que as revistas eletrônicas amadoras são frequentemente feias, e feias de doer, e ficam mais feias ainda se o leitor resolver imprimir para ler em papel ou distribuir (o que algumas delas chegam a implorar que o leitor faça). Eu acho que não existe desculpa para isso: basta pensar no que significa «amador». Se o amador é alguém que «ama» fazer aquilo que se propõe a fazer, então é de se esperar que o amador se dedique. Quem ama se dedica. E quem se dedica procura o conhecimento, trabalha a sua sensibilidade, aprimora o talento. Com bastante conhecimento e alguma sensibilidade, compensa-se bastante a insuficiência do talento, por exemplo. Portanto, ainda que seja desculpável a falta de talento, nada desculpa a ignorância. Nada. Principalmente nos dias de hoje, em que se pode achar informação sobre quase tudo na internet.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eu mesmo já abordei em vezes anteriores (&lt;a href="http://letras-eletricas.blogspot.com.br/2010/06/formatando-paginas-com-medida-aurea.html"&gt;Formatando Páginas com a Medida Áurea&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://letras-eletricas.blogspot.com/2011/06/medida-aurea-e-paginas-confortaveis.html"&gt;Medida Áurea e Páginas Confortáveis&lt;/a&gt;) alguns temas relacionados à formatação, sempre ressaltando que as «regras» de formatação de documentos não são arbitrárias, mas baseadas em boas práticas que resultam em textos mais agradáveis de ler. Por exemplo: existe uma ciência na quantidade máxima de letras por linha e de linhas por página, uma ciência que, inclusive, se baseia na fisiologia, que explica o funcionamento do olho humano. Mas o amador dirá que essas «firulas» não são importantes, que o importante é ter realizado algo. É um raciocínio que seria respeitável em um mundo onde poucos fizessem alguma coisa. Com tantas facilidades oferecidas hoje pelos computadores, realmente parece haver muita gente fazendo e-zines amadores. Diante desta realidade este raciocínio é uma condenação à mediocridade. Por favor não incluam textos meus neste tipo de publicação. Nos fanzines de antigamente, penosamente xerocados, muitas vezes escritos à mão por falta até de máquina de escrever, havia lugar para a feiura e eu não me importava de ser publicado ali. Mas nesses de hoje, produzidos aos montes usando qualquer editor de textos, a feiura é apenas falta de vontade de evoluir. E me importa aparecer em um trabalho feito por alguém que não se importa com a qualidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A estética do «faça você mesmo» impede que o amador evolua. O simples ato de fazer parece bastar. Não há um objetivo ulterior, de superar, de melhorar, de fazer algo que simplesmente faça a diferença em um mundo tosco, onde cada vez mais as pessoas pensam menos em realizar e mais em «fazer». Um mundo no qual os amadores não amam o que fazem, pois não estão ganhando nada com isso. Um mundo, em suma, no qual o amor verdadeiro só é oferecido por aqueles que cobram por isso. Triste mundo esse, em quesó as prostitutas fazem amor direito. Esta frase final eu dedico ao meu amigo Ronaldo Roque, que a inspirou.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-7155937396009095856?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;p&gt;Como todo autor eu atravesso essas fases também, mas o que mais me dói não é atravessar dias ou semanas sem ter nenhuma ideia interessante para transformar em conto, crônica, romance ou poesia: é no meio desta seca ter uma ideia genial, porém irrealizável diante de minhas limitações. Foi o que me ocorreu ontem.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vocês que acompanham o blogue devem ter percebido que 2012 tem sido um ano de relativa seca criativa para mim. Não apenas tenho postado pouco, mas não tenho postado nova ficção &amp;mdash; e ficção era o carro-chefe desse blogue até fins de novembro passado. Numa fase dessas a gente fica sensível a qualquer coisa que se ouça, qualquer sonho que se sonhe, qualquer letra de canção. Em algum lugar pode estar enterrada uma ideia que, devidamente ordenhada, resultará em uma nova e interessante obra. Qual a decepção, então, de encontrar esta ideia e não estar a altura de desenvolvê-la?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Refiro-me ao meu sonho de ontem. Como andei conversando recentemente com o Gianpaolo Celli, que é um editor que tem feito coletâneas de fantasia «steampunk» (não considero o gênero como ficção científica nem se apontarem um revólver para a minha cabeça), acabei tendo uma ideia ligeiramente relacionada. Uma ideia ótima, diga-se de passagem &amp;mdash; e muito adequada para a próxima coletânea que será publicada pelo Gian, mas&amp;hellip; oh, merda! Uma ideia que está além de minha capacidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sonhei com um Brasil atual descendente de um Brasil «steampunk», conservando dele ainda boa parte de sua tecnologia retrofuturista atrasada em relação aos grandes centros. Um país arcaico, governado por uma espécie de ditador caricato, habitado por uma população ignara, mergulhada em superstições e em mau gosto musical e artístico. Um país em que os monumentos públicos são de gesso pintado, as festas são regadas a caminhões de cachaça barata doada pelo governo e a elite vive em palácios isolados por muros e canhões, comunicando-se por cartas e telefones e viajando em dirigíveis pesados e lentos. O meu herói, um vendedor de salgadinhos, que vive amasiado com um poeta louco e uma mãe de santo baiana, sonha em fugir para a Rússia, por alguma razão, e constrói para si um aparelho esquisito, em forma de roda d'água, movido por uma motocicleta, com o qual acredita que atravessará o mar. Preso durante sua tentativa de fuga, por atrapalhar a diversão dos turistas gringos, é levado até uma fortaleza tosca, onde o torturam a tapas e xingamentos e onde aguarda ser executado ou não. Seus amantes entram na fortaleza durante a madrugada, subornam os guardas e ajudam-no a sair, mas acabam na caçamba de um caminhão que levava mercadorias importadas para uma depósito do palácio e subitamente se veem no meio da festa de eleição do novo monarca. Confundido com um príncipe europeu, o poeta louco é eleito e inicia um governo ainda mais louco, e meu sonho termina com galeras atômicas russas apontando no litoral para exigir que ele se retrate de algumas atitudes e pronunciamentos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eis um resumo das imagens e sons caóticos e supercoloridos que atravessaram a minha mente durante esta noite. Alguns detalhes eu tive de suprir porque o original estava confuso demais, mas creio que 80% do que aí está descreve o que realmente sonhei, embora, como sempre, o sonho tenha sido em sua maior parte esquecido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com um material desses na mão um autor dotado de bom humor e de razoável capacidade de síntese produziria uma obra genial, satirizando alguns aspectos de nossa cultura, aproveitando o mote do «steampunk» ou do «dieselpunk» e resultando em um livro certamente aprovado pelas editoras que publicam esses gêneros no Brasil. Existem, porém, dois problemas que me impedem de realizar isto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O primeiro é que eu não quero entrar nesses gêneros «*punk» porque acredito que esse tipo de cruzamento entre fantasia e ficção científica acaba sendo trabalhoso demais, diante da minha formação e de minhas referências. O segundo é que eu não me sinto capacitado a dar a esta obra o tratamento de farsa que ela precisa ter, devidamente dosado com violência e promiscuidade. Sem essa mistura a obra não é crível. E retornando ao primeiro motivo: esta mistura não me interessa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porém, como sou um cara do tipo «gente boa», resolvi compartilhar o meu sonho com os meus leitores. Aqueles que desejarem pegar a ideia e desenvolver, sintam-se à vontade para isso. Apenas gostaria que tivessem o bom caráter de me recompensar com um agradecimento na edição e/ou um link em seu blogue. Claro, bom caráter não é todo mundo que tem e no Brasil é quase irreal exigir isso, mas vamos ver no que dá. Eu não vou fazer nada com a ideia mesmo, quem sabe não consigo ajudar outro que esteja com bloqueio criativo e ainda faço um novo amigo virtual?&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-8629960809845018840?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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Talvez o faça em uma continuação ou em um conto avulso, ou possivelmente em um capítulo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eis a galeria dos personagens:&lt;/p&gt;&lt;dl&gt;&lt;dt&gt;Raimundo Gomes&lt;/dt&gt;&lt;dd&gt;Um desajustado rebelde sem causa que foge com um circo, encantado por uma «mulher tatuada», e acaba se tornando, muito mais tarde, um estudante de graduação de História com sonhos de grandeza.&lt;/dd&gt;&lt;dt&gt;Encarnación Perez&lt;/dt&gt;&lt;dd&gt;Artista de um circo argentino que se passa por russo. Atiradora de facas, engolidora de espadas e «mulher tatuada».&lt;/dd&gt;&lt;dt&gt;Jacques Erhardt&lt;/dt&gt;&lt;dd&gt;Um luxemburguês de classe média-baixa, filho de um imigrante alemão, que se gradua na prestigiada Universidade de Lovaina, mas tem sua reputação complicada por causa de uma pesquisa obscura sobre o misterioso reino medieval.&lt;/dd&gt;&lt;dt&gt;Phillipe du Plessis&lt;/dt&gt;&lt;dd&gt;Domador de leões, um sul-africano desertor do exército daquele país na época do apartheid (a história se passa ao longo dos anos setenta e oitenta e termina em 1992). Atormentado pelos fantasmas de seu passado, vicia-se em aguardente e em perigo.&lt;/dd&gt;&lt;dt&gt;Clarice Souza&lt;/dt&gt;&lt;dd&gt;Garota pobre e negra, bonita e bastante inteligente, que tenta seduzir Raimundo na época em que ele tenta se reconciliar com seu pai.&lt;/dd&gt;&lt;dt&gt;Estela Urzaiz&lt;/dt&gt;&lt;dd&gt;Mulher misteriosa e meio apátrida, nascida na Bélgica de mãe paraguaia e pai espanhol, ambos exilados das ditaduras de seus países natais. Educada em um lar de comunistas, enfrenta o dilema de tornar-se madame da sociedade decadente de um país periférico da América do Sul.&lt;/dd&gt;&lt;dt&gt;Henrique Gomes&lt;/dt&gt;&lt;dd&gt;O pai de Raimundo. Um comerciante de mentalidade estreita e temperamento autoritário, que a duras penas aprende a respeitar as idiossincrasias do filho.&lt;/dd&gt;&lt;/dl&gt;&lt;p&gt;Entre esses personagens há dois que particularmente me fascinam, Clarice e Phillipe. Inclusive eu tenho uma grande vontade de fazê-los encontrarem-se e viverem uma tórrida paixão. O difícil é que, na época em que Clarice poderia encontrá-lo, ela teria 25 anos mais ou menos, e ele seus 40 e tantos, já grisalho e meio careca. Ou eu redescrevo o Phillipe (e para isso terei que mudar um pouco sua história prévia),  ou envelheço a Clarice (o que é uma covardia, já que mulheres bonitas deveriam ser eternamente jovens), ou desisto de uni-los.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-5138988989950364571?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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Devido ao contexto em que foi escrito, este texto não se dirige ao público amplo que a internet alcança, mas a um público muito mais estrito e regional, alcançado pela imprensa escrita do interior. Lembro-me vagamente de tê-lo preparado para ser lido em um encontro de escritores que se estava tentando organizar na época.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;O centro-sul do Brasil nos é apresentado como a região irradiadora do desenvolvimento econômico e cultural do país, mas quando olhamos de perto verificamos não ser bem assim. O impulso econômico que daqui se espraia é originário de fora e não se volta para a edificação da nacionalidade -- mas para a produção de excedentes que são absorvidos pelos mercados locais, arranjados de acordo com a estruturação do capitalismo internacional, que busca, por sua vez, esmagar as variedades regionais e políticas e impor a plana homogeneidade de uma aldeia global consumista, onde apenas sobrevive a arte como cadáveres das formas antigas de expressão.&lt;a href="#1"&gt;&lt;sup&gt;1&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; E a cultura genuína, que aqui havia, foi suplantada pelos maneirismos modernos e civilizados — que, de fato, nada são além de formas pasteurizadas das culturas de outros locais absorvidos antes pelo polvo capitalista.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Prova disso é o caráter exótico que é atribuído por nós, aqui da região mais globalizada do país, às sobrevivências de folclore das regiões menos amesquinhadas pela sedução da «modernidade» uniformizante. Estamos mais à vontade diante de fotos de antigas estátuas neoclássicas do que diante da obra do Mestre Vitlaino, entendemos melhor de porcelana chinesa do que de cerâmica marajoara, nos agrada mais a música da moda importada da Europa e da América do Norte do que as formas populares de canção.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Que foi feito de nossas festas? Alguém aqui ainda se lembra de ter ouvido uma moda de viola, uma toada, um calango ou um desafio?&amp;nbsp; Estas formas musicais pertencem à rica tradição de Minas Gerais, mas a maioria de nós jamais pegou uma viola, nunca viu uma sanfona de oito baixos, sequer ouviu falar de uma rabeca (eu mesmo me incluo nos dois primeiros grupos). Ninguém aqui saberia dizer o que é uma «torda», raríssimos terão tomado leite de onça em uma festa junina ou comido batata assada. Não faz parte da memória coletiva de nenhum de nós as melodias da Folia de Reis, da Festa do Divino ou de outras festas musicais de antigamente.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Todas estas coisas que citei fazem parte de um mundo antigo, pisado e esquecido desde que a Redentora resolveu se intrometer nos rumos do século XX e matar nossos projetos autônomos de futuro. A descaracterização da cultura popular, antes restrita aos centros de imigração e ao Rio de Janeiro sempre cosmopolita, se enveredaram pelo interior, deixando atrás de si uma terra arrasada, habitada por seguidores de novela e proprietários de radinhos de pilha sintonizados nas estações cariocas ou paulistas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Houve um tempo em que as estradas do interior eram ocasionalmente pontuadas por cruzeiros de madeira. As pessoas sabiam o que comemorava cada um deles. Os antigos cemitérios de escravos ainda existiam, e havia quem plantasse flores neles, ou os cercasse para que o gado ali não pastasse.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Houve um tempo em que se podia organizar uma festa fincando doze bambus no chão e montando uma coberta com folhas de bananeira para proteger do sereno. Isso era uma «torda», e debaixo dela o baile acontecia desde que houvesse um sanfoneiro, um barril de pinga, uma bacia de pães recheados com molho de carne moída e um garrafão de vinho. Não precisava de polícia, nem de alvará. Nem de convite e nem de roupa nova.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vocês podem estar surpresos com meu apego ao passado, achando que pareço um fantasma desses dias antigos, embora seja tão novo. Eu tive tempo de viver algumas destas coisas que estou mencionando, e pelo pouco que vi entendo que tenho motivos suficientes para a saudade. Então eu não venho com regras para nenhuma vanguarda, venho com a história da minha vida e os maus hábitos que os bons autores me ensinaram. Sonho repelir a colonização, pelo menos naquilo que ela mais me mata, e poder falar das coisas que sei e sinto.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Grito por uma arte nacionalista. Cessemos de copiar servis os cânones decadentes de uma Europa grisalha, que em breve será senil.&lt;a href="#2"&gt;&lt;sup&gt;2&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; Nesses países a morte das raízes pode nos parecer ter sido menos grave, porque o novo mundo que eles criaram ainda parece descender de suas antiguidades. É entre nós que o desenraizamento danifica mais, porque substitui o nosso por algo que é alheio. Somos ainda felizes por termos dentro de nossas fronteiras&lt;a href="#3"&gt;&lt;sup&gt;3&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; cinco identidades regionais tão fortes que nem mesmo o uso de uma língua única as nivela. Mas deixamos que prossiga a morte lenta dos dialetos e da saborosa prosódia popular. É um crime de lesa-pátria compactuar com essa emasculação de nossa cultura, antes que dê frutos universais.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na infância, em verdade, porque uma cultura só amadurece no cultivo dos séculos. A nossa data de menos de três, e já está em decadência. O Brasil é um país onde muita coisa que ainda está em construção já está em ruína, como mencionou Gilberto Gil em famoso verso.&lt;a href="#4"&gt;&lt;sup&gt;4 &lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;As obras de nosso folclore estavam ainda em fase de elaboração quando foram surpreendidas pela agressão de um século uniformizado e colonial, que as desprezou como se fossem primitivas, que as insultou de «mestiças» numa época racista em que este termo era uma ofensa. Nossos nativistas do passado apenas refletiram sobre a grandiosidade do que estávamos pondo a perder para  produzir, a partir da síntese dos elementos abandonados, os últimos brilhos da moribunda cultura de talhe ocidental.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O modernismo foi, sim, canto do cisne do Ocidente enquanto construção ideal, ideológica e política. Foi quando o racionalismo neoclássico perdeu a primazia: abriu-se caminho à liberdade, à expressividade, à anarquia. O resultado é mesmo decadência. Que se manifesta no questionamento do objeto, da obra, da arte. Nossa arte tão moderna não produz mais clássicos. Não procura admirar, mas apenas intrigar.&amp;nbsp; Estranhamos essas obras, nos surpreendemos com esses enigmas, mas dificilmente os tomaríamos como enfeite, como objeto de veneração, como símbolos de identidade. São obras que contemplamos à distância, às vezes até com asco.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Enquanto o Ocidente discute seu desmonte, nós vamos substituindo o que tínhamos de nosso pelas telhas quebradas e restos de estuque roubados da demolição deles. Não sei se tudo já foi feito: apenas suspeito que a casa que se faz com restos sempre se parecerá com restos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Infelizmente vivemos sob o signo da mediocridade. A obra do medíocre procura, antes de tudo, justificar a si mesma. O objetivo do medíocre é o consenso: no consenso não há necessidade de criatividade, nem de maior capacidade. Os medíocres podem ser inimigos pessoais, mas concordam em suas obras. Ao contrário dos grandes gênios, que às vezes se insultavam por meio dos jornais falando das obras respectivas, mas frequentemente tomavam cafés cordiais quando se encontravam.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O medíocre acredita no fim da História, que tudo já foi dito e feito. Esta ideologia do fim do mundo interessa a quem suspeita que está morrendo. Depois de mim, que venha o dilúvio. «Morro com minha pátria», disse o ditador que, de fato, quase a levou a morte por um capricho seu. Morreu o ditador, a pátria sobreviveu. A duras penas, mas sobreviveu. O pós modernismo e seu consenso botam a mão na boca da África, da América, da Ásia, de Marte e de Plutão, de onde quer que se suspeite que alguém ainda pode ter uma ideia original: findou a História, morreram as estéticas, transfigurou-se a arte. Pendurem um urinol na parede do museu, amontoem cachorros mortos na Bienal, vendam borrões de tinta por milhões.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sou, porém, um idealista. Acredito que dentro do adormecimento em que vive o resto do Brasil que ainda não foi castrado pela globalização pode ainda existir o anseio pela novidade. E dali pode nascer uma nova nacionalidade, uma nova arte.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nacionalista esta, não por ódio ao alheio, mas por amor ao próprio. Não por repelir o diferente, mas por difundir dissensos criativos. Não por absolutamente pôr num pedestal nosso folclore, que muito tem de obscurantista e retrógrado, mas por oferecer-lhe espaço para que se transforme seu produto em artefato.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esse folclore que ignoramos é uma fonte de indícios de futuro. Podemos inventar de nosso jeito, sonhar em nossa língua, contar a nossa história, cunhar nossa moeda. Independência é isso, é algo que quase ninguém conhece, porque quase ninguém tem.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Convido a todos vocês, descrentes da modernidade, ao lodaçal desafiante da oportunidade. Fora do asfalto estéril que só leva a lugares conhecidos. Entrem comigo nesse brejo perigoso, onde certamente alguém vai se afogar. Vamos fundar ali uma outra tribo, uma que não faça pajelança para gringo ver. Tragam seus tambores, alguém pelo amor de deus me arranje uma rabeca porque eu quero ouvir. Perdidos na insuportável solidão do concreto, vamos imitar pios de pássaros e ler versos em dialeto. Vamor fugir de volta para a região de nossa infância de onde a escola e a academia nos tiraram.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Prometo que não sei como será esse mundo novo que eu sonho ver erguido. Beleza é isso, o imprevisto, o impossível. Mesmo as ruínas do Ocidente serão mais bonitas do que o seu futuro. Procuro profetas para um novo mundo. Venho de Masada, do Langue d'Oc, da Etrúria, de Creta, da Irlanda e do Egito. Venho de Alcácer-Quibir, de Canudos, de Copá e Macchu-Picchu. Venho de lá e estou andando no rumo vago do sertão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Busquemos essa direção, longe do mar corrupto e da montanha inculta. Gritemos a ambos os lados que o progresso é só um lusco-fusco&amp;nbsp; diante da longa idade da humanidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Existe um perigo, no entanto. A proposta que faço é tipicamente talhada para o gosto das elites políticas, e surgirá sempre a tentação fácil de render homenagens ao que já está. Mas a política não é compromissada com estes objetivos, somente com lucros e poder. Verdadeiros artistas não podem compactuar, devem agredir. Esquecer a perspectiva de salários gordos, soldo de mercenários. Sem ilusões: se a política se interessasse por cultura, nosso país estaria bem melhor do que está.&lt;/p&gt;&lt;div class="fnote"&gt;&lt;p&gt;&lt;sup&gt;&lt;a name="1"&gt;1&lt;/a&gt;&lt;/sup&gt; Este texto foi escrito bem antes que eu sequer tivesse acesso à internet, de forma que eu ainda não tinha a compreensão dos fenômenos culturais que ela acabaria por propiciar. No entanto, continuo acreditando que a frase é verdadeira, porque aquilo que a internet produziu de novo é apenas uma variação esvaziada de formas artísticas preexistentes, com o agravante de que a evolução das ferramentas eletrônicas tornou-se muito mais fácil o fazer artístico.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="2"&gt;&lt;sup&gt;2&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; Para quem estudou História e não gastou o tempo fumando maconha no campus, já estava mais do que evidente em 1999 que a Europa tinha subido no telhado. O que ainda não está claro é se a queda a matará ou servirá de alerta para que reencontre o rumo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="3"&gt;&lt;sup&gt;3&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; Neste trecho eu me referia ao estado de Minas Gerais, que possui cinco falares variantes regionais: o mineiro propriamente dito, no centro do estado, o mineiro-baiano, no norte, o triangulino, o sulista (estes dois influenciados, mas não exatamente da mesma forma, pelos falares paulistas) e o mineiro-fluminense da Zona da Mata.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="4"&gt;&lt;sup&gt;4&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; O famoso verso em questão está na canção «Haiti», e se refere a uma curta menção às «ruínas de uma escola em construção».&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-781133533505327092?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;pre class="poem"&gt;Eu a ouvi ontem à noite
e senti aquele punhal de novo em minha carne,
tive saudades suas como tenho
saudades dos pedaços que fui perdendo.

Tenho saudades de ter sido sozinho,
de ter atravessado sábados sofrendo.
Aquele silêncio antigo me faz falta
porque há dias em que não quero falar
e outros em que precisava de fugir,
achar um lugar entre as montanhas
para poder me distrair.

Tenho saudades de quem me enganou,
quanto maior a mentira, maior a dor,
maior a falta, poderia ter durado mais
e com mais cicatrizes eu tinha mais história
e ninguém sente a dor em seu pretérito.

Por que fui tão esperto?
Se fosse tolo por alguns dias a mais
teria vivido ainda outro dia que lembrar.
Ah, na verdade agora é que sou tolo:
vivendo como meu um plano alheio,
um destino sonhado por meus pais,
e o amor laçou-me na planície durante meu galope.

Sim, tenho saudades. E do tipo pior.
Tenho saudades difusas, 
que não pertencem a coisas,
que não evocam pessoas.
Essas saudades de cores assombram minhas cinzas.&lt;/pre&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-834928137633328118?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Y_L28NQneAqS2Gs5cDIDA4-9dmY/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Y_L28NQneAqS2Gs5cDIDA4-9dmY/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SQU1UCFM8Rtrp64mK6kLrKd_idg/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SQU1UCFM8Rtrp64mK6kLrKd_idg/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SQU1UCFM8Rtrp64mK6kLrKd_idg/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SQU1UCFM8Rtrp64mK6kLrKd_idg/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/letras-eletricas/~4/a3D-cuib_Y4" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://letras-eletricas.blogspot.com/feeds/5141949791936667593/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6932025654517629434&amp;postID=5141949791936667593&amp;isPopup=true" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/5141949791936667593?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/5141949791936667593?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/letras-eletricas/~3/a3D-cuib_Y4/novo-romance-saira-em-breve.html" title="Novo Romance Sairá em Breve" /><author><name>Jose Geraldo Gouvea</name><uri>https://profiles.google.com/100228697763293739064</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="32" src="//lh5.googleusercontent.com/-A5R0QpMyLKo/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/IIUKEKFTwLw/s512-c/photo.jpg" /></author><thr:total>2</thr:total><feedburner:origLink>http://letras-eletricas.blogspot.com/2012/04/novo-romance-saira-em-breve.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;AkQBQH0yeCp7ImA9WhVQEk0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6932025654517629434.post-8184624327816486949</id><published>2012-03-31T09:00:00.000-03:00</published><updated>2012-03-31T12:39:11.390-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2012-03-31T12:39:11.390-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="educação" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="preconceito" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="linguagem" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="gramática" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="cultura" /><title>Sobre Preconceito Linguístico — Parte 3 de 3</title><content type="html">&lt;p&gt;É difícil compreender as razões pelas quais tantas pessoas rejeitam
de forma tão ríspida um ensino progressista do português, baseado
nas descobertas da Linguística e da Pedagogia. Certa­mente as
razões disto envolvem ideologia, pois um ensino que não discrimine
os falares populares ameaça uma estrutura de humilhação das
classes oprimidas. Então, por se oporem à inclusão social e ao
progresso do ensino, erguem bandeira de guerra contra qualquer
indício de que se está buscando uma abordagem não preconceituosa
do fenômeno linguístico.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O caso
recente do livro de português que ensinava «nós pega o peixe» foi
um exemplo emblemático de como a ideologia e o preconceito deram as
mãos para desqualificar uma obra que, com todos os seus defeitos,
tinha o mérito de seguir o que é consenso no mundo científico em
relação ao ensino de línguas.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;As vozes
que se ergueram, porém, foram todas de &lt;i&gt;leigos. &lt;/i&gt;Ninguém
remotamente dotado de alguma formação na área manifestou-se. As
vozes ouvidas foram, em primeiro lugar, de jornalistas — que
aprendem a escrever segundo «manuais de redação» impositivos e
são ensinados por fonoaudiólogas a falar com uma pronúncia
artificial, que busca ser neutra mas emula a da Zona Sul do Rio de
Janeiro e os melhores quarteirões da Paulicéia. Muitos blogueiros
se manifestaram, em geral pessoas das áreas de Exatas e Biológicas,
que entendem muito de planta, de bicho e de números, mas não de
interações entre pessoas, ou pessoas educadas em colégios
rigorosos, em geral mantidos por entidades religiosas. Gente do tipo
que acha que o pessoal de Humanas é um bando de maconheiros que se
formou paquerando a professora, lendo o &lt;i&gt;Manifesto Comunista&lt;/i&gt; e
beijando a bunda de um bode nas sextas-feiras. Nenhuma destas pessoas
parou para analisar seria­mente o livro citado, muito menos para
tentar entender o que é Linguística. Linguística é uma dessas
ciências «esquerdistas», não é mesmo?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mas a
pedagogia moderna propõe ensinar um «vale tudo» linguístico?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Óbvio
que não. Seria uma insanidade derrubar a ideia de uma língua
padrão. O fim do ensino desta é algo que normalmente só ocorre com
o fim de uma civilização, quando o estado falido não é mais capaz
de difundir sua cultura. Foi o que aconteceu com o Império Romano,
levando os dialetos regionais a se dividirem em protolínguas, os
«romances», e dando origem às dez línguas nacionais neolatinas:
português, espanhol, catalão, galego, francês, provençal,
italiano, dálmata (hoje extinto), romanche e romeno. Não se quer
que num futuro próximo o Brasil esteja dividido em dezenas de
regiões independentes, cada qual com sua língua neo-portuguesa.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Tudo o
que a Linguística procura ensinar aos professores de português (mas
uma minoria deles está disposta a aceitar isso, ou é capaz de
aprender isso) é que a situação da língua padrão em relação
aos falares populares requer uma abordagem diferente da que vem sendo
adotada em nossas escolas. Especialmente em países &lt;i&gt;como o Brasil,
&lt;/i&gt;nos quais a divergência entre a língua culta e a coloquial já
se tornou tão grande que podemos afirmar que existe, ou está
próxima de existir, uma situação de «diglossia», ou seja, a
coexistência de duas línguas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Há
vários tipos de diglossia, mas o que nos interessa é aquela
situação na qual a norma padrão é conservadora em relação à
evolução do falar do povo. A do português é intencionalmente
arcaizante, tendo sido definida no século XVIII, sob o paradigma da
imitação do latim e do grego.&lt;a name="1"&gt;&lt;sup&gt;1&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;
&lt;/i&gt;Ao longo do século XX, começando com a reforma ortográfica
portuguesa de 1910 (à qual o Brasil só começou a aderir em 1946),
livramo-nos do ranço desta ortografia, mas não do ranço da
gramática criada pelos mesmos perpetradores da ortografia
etimológica. Isto faz com que a língua que se pretende ensinar na
escola seja diferente da língua que as pessoas estão acostumadas a
empregar no seu dia a dia. Este tipo de situação não é único no
português. Isto já aconteceu antes em outros países e os
resultados foram sempre os mesmos: é inútil opor-se à língua do
povo. Vamos analisar quatro casos bem emblemáticos deste tipo de
diglossia.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Na
Grécia, até bem recentemente, a língua ensinada nas escolas era
praticamente idêntica ao grego comum antigo, o &lt;i&gt;koiné hellenikós.
&lt;/i&gt;Esta língua, o&lt;i&gt; katharevousa&lt;/i&gt; («língua purificada») era
muito diferente do grego falado, a ponto de as pessoas terem que
estudá-lo como se fosse outra língua. Esta situação se manteve
graças ao conservadorismo do Estado, muito mais voltado para a
herança histórica do que para as necessidades presentes do país.
Com a democratização, esta situação foi resolvida e os gregos
passaram a estudar a norma padrão baseada no grego moderno.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Na
Alemanha e na Itália, a existência de uma grande variedade de
falares regionais, alguns muito diferentes entre si, resultado da
unificação tardia dos dois países. Em ambos os casos, porém,
havia uma «norma padrão» anterior. Para o alemão foi o dialeto
turíngio, usado por Lutero para traduzir a Bíblia. Posteriormente
esta norma, até então usada somente pelos escritores e, de forma
limitada, pelo teatro, foi difundida, com a pronúncia prussiana,
como a língua nacional da Alemanha unificada. O italiano padrão foi
o dialeto toscano, utilizado por Dante Aligheri para a famosa &lt;i&gt;Divina
Comédia. &lt;/i&gt;Em ambos os casos o padrão é conservador, embora o
italiano moderno seja mais conservador, em relação ao italiano
medieval, que o alemão. Italianos de hoje não têm grandes
problemas para ler Dante, caso dominem o italiano padrão, mas têm
problema para conseguir dominá-lo porque, para os habitantes de
regiões mais afastadas, especialmente no sul do país, trata-se
quase de uma língua estrangeira. Os alemães permitiram que sua
língua padrão evoluísse um pouco mais, especialmente após a II
Guerra Mundial, quando os movimentos migratórios apagaram um pouco
as diferenças dialetais milenares.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Na Rússia
até a época da Revolução Bolchevique a norma padrão era
extremamente arcaizante, influenciada por uma língua falada mil anos
antes, o «eslavo eclesiástico», «velho búlgaro» ou
«eslavônico». O alfabeto tinha letras desnecessárias, algumas só
usadas para escrever palavras de origem grega, por exemplo. Quando os
comunistas assumiram o poder, uma das primeiras coisas que fizeram
foi simplificar a norma padrão, reduzindo o alfabeto a 36 letras
(eram 40) e mudando a ortografia de milhares de palavras por causa da
eliminação de duas vogais. Sob o domínio soviético a língua
padrão se aproximou do uso comum, eliminando arcaísmos. A reforma
linguís­tica do russo talvez seja o grande motivo pelo qual os
conservadores se opõem à modernização da norma culta. Esquecem-se
de que movimentos semelhantes ocorreram sob regimes de direita, como
a África do Sul dos tempos do &lt;i&gt;apartheid, &lt;/i&gt;quando o holandês
que se falava no país foi alçado à posição de língua
independente, o africâner.&lt;a name="2"&gt;&lt;sup&gt;2&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Nos
quatro casos apresentados a situação de diglossia era resultante de
fatores diferentes. No caso do grego, houve o desenvolvimento
intencional de uma norma arcaizante, algo parecido com o do
português. Nos casos de Alemanha e Itália a diglossia resultou da
formação tardia da identidade nacional a partir de povos que
falavam dialetos muito diferentes. Alguns dialetos «italianos», por
exemplo, estão mais relacionados com os falares do sul da França
(occitânico, provençal) do que com o italiano padrão, enquanto
outros, como o sardo, são de fato línguas independentes. No caso do
Russo a diglossia resultava da contínua influência de um padrão
conservador, o eslavo eclesiástico, travando a atualização da
norma culta, o que também tem certas semelhanças com o caso da
língua portuguesa.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Quando se
tem uma situação de diglossia, como nos casos apresentados, os
estudantes precisam passar, no aprendizado da norma padrão, por um
processo de aprendizagem que tem semelhanças com o do ensino de
línguas estrangeiras. Em uma situação de diglossia, a norma culta
é, para fins práticos, uma outra língua. O «problema» da
aprendizagem de português no Brasil, denunciado por gramáticos
«pop» — como Pasquale Cipro Neto, Sérgio Nogueira Duarte e Luiz
Antônio Sacconi — reflete apenas esta situação: a língua que o
estudante fala é tão divergente da norma padrão que não podemos
simplesmente assumir a «Língua Portuguesa» enquanto disciplina
como sendo «sua» língua, tanto quanto o inglês ou o espanhol não
o são, com a única diferença que o contato com a língua
portuguesa é mais frequente do que com estas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ignorar
esta situação é ignorar a verdadeira causa do problema. Ignorar a
verdadeira causa do problema significa que todas as estratégias
propostas para solucioná-lo estarão erradas, salvo um lance de
sorte improvável. É como trocar peças aleatórias de um carro
defeituoso esperando que ele funcione em algum momento. Se de fato
ele vier a funcionar, será somente por sorte e depois de muito
tempo. De outra forma, sabendo qual peça trocar o carro funcionará
muito mais rápido e sem o desperdício de tantas peças. 
&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O que a
Linguística propõe é a abordagem científica do problema, para
saber «qual peça trocar». As reações que aconteceram aos
recentes casos de livros didáticos «que ensinam o erro» foram
histéricas, injustificadas e obscurantistas. Foram reações de
leigos, de pessoas que não sabem do que estão falando e que se
acham no direito de desqualificar uma ciência que não conhecem, não
entendem ou que rejeitam por razões ideológicas ou por mero
preconceito.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A
rejeição da reforma do ensino da língua portuguesa em nossas
escolas é muito parecida com a rejeição do ensino da Teoria da
Evolução pelos criacionistas. Em ambos os casos temos pessoas mal
informadas ou mal intencionadas, que difundem concepções
retrógradas, pseudocientíficas, reacionárias, preconceituosas e
incorretas, que fazem isso porque estão condicionadas a rejeitar
este conhecimento científico específico por causa ideologia sob a
qual foram criadas. O criacionista rejeita o ensino da TE porque ela
lhe causa insegurança quanto à validade do texto sagrado de sua
religião. O «gramatiquista» rejeita o ensino moderno do português
porque ele próprio se vê detentor de um conhecimento sobre a
língua, que será obsoleto com a reforma. Em ambos os casos se
recorre à «culpa por associação» para desqualificar aquilo que
se rejeita por preconceito. O criacionista associa a TE às crendices
eugênicas do início do século XX, incluindo o nazismo. O
«gramatiquista» associa reformas ortográficas ou mudanças na
língua padrão ao «comunismo». No fundo, ambos sentam-se em cima
de um grande rabo, que não admitem ter: sua rejeição ao
conhecimento se deve a uma confissão implícita da própria
impotência. O criacionista depende da validade plena de seu texto
sagrado. O «gramatiquista», tendo sofrido tanto para aprender o que
sabe de português, teme ter de aprender de novo. Quando foi feita a
primeira reforma ortográfica do alemão, em 1911, adicionou-se à
lei um artigo que autorizava o &lt;i&gt;kaiser&lt;/i&gt; a continuar utilizando a
norma antiga enquanto vivesse.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mas a
grande pergunta que precisa ser respondida para que possamos fechar
esta humilde série de reflexões sobre o tema «preconceito
linguístico» é: &lt;i&gt;de que forma reconhecer uma situação de
diglossia resolve o problema da falta de domínio da língua culta
pelos nossos estudantes?&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Na raiz
desta dúvida há o medo de que o reconhecimento da diglossia seja
uma espécie de Caixa de Pandora, que levará à degeneração da
norma culta, ao esquecimento da literatura e a uma série de males
terríveis e inomináveis. Como vimos nos exemplos da Grécia e da
Rússia, as atualizações da norma culta não produziram nenhum
efeito negativo. No caso da língua grega, os estudantes seguem
incapazes de ler Homero diretamente, tal qual já não conseguiam
antes. Mas hoje conseguem ler e escrever melhor a língua que usam no
dia a dia. Para quem queira ler Homero, as universidades oferecem
edições críticas contendo o texto original e uma versão
modernizada. No caso do russo, os livros apenas tiveram que ser
reimpressos na nova ortografia e os russos não leem menos hoje do
que liam nos tempos do czar. 
&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;
Ambos
os povos saíram de uma situação que era de fato diglossia (caso
grego) ou caminhava para tornar-se (caso russo) e a literatura de
ambas as línguas só teve a ganhar com isso. Não houve degeneração
da norma culta porque a língua já havia de fato mudado, só faltava
aceitar que isso ocorrera. Não houve o esquecimento da literatura,
porque o que faz os jovens lerem não é o arcaísmo da norma padrão,
mas uma tradição (inclusive familiar) de valorização da leitura —
que existia tanto na Grécia quanto na Rússia, mas não se
consolidou ainda entre nós. No entanto, a solução da diglossia
pode não ser desejável nos casos, &lt;i&gt;como o nosso, &lt;/i&gt;em
que a língua sofreu e está sofrendo um processo de dialetação
importante. Em tal situação, análoga às de Itália e Alemanha,
ensinar uma norma culta útil para a comunicação entre as diversas
regiões e estratos sociais é uma forma de manter a unidade
nacional.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;
O
que vem sendo proposto já há alguns anos pelos autores antenados
com a Linguística, para grande ira dos gramáticos normativos
carranças, não é a substituição da norma culta por alguma outra
forma linguística, mas, sim, a adoção de uma estratégia de ensino
do português empregando  técnicas normalmente empregadas no ensino
de línguas estrangeiras — entre elas a separa­ção conceitual
entre a língua que o aluno fala e aquela que a escola pretende
ensinar, conscientizando desde cedo o estudante da dicotomia
existente entre o universo coloquial e o universo da língua formal
padrão nacional. 
&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;
Faz-se
isto por várias razões. Primeiro porque se é possível ensinar
inglês ao estudante brasileiro, tem de ser possível ensinar-lhe
português, que é uma língua muito mais parecida com o que ele
emprega no seu dia a dia. Segundo porque é uma questão de respeito:
o aluno não é um animal estú­pido que tem de «aprender a
falar» na escola, ele é um indivíduo que fala o dialeto peculiar à
sua região, na variante correspondente aos grupos sociais que
frequenta. Terceiro porque reconhe­cer a realidade tal como é
será o primeiro passo para buscar influenciá-la no sentido
desejado.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;
Tendo
em vista estes objetivos, não é nenhum absurdo que um livro
didático contenha a frase «nós pega o peixe» (aliás, na
pronúncia de meu dialeto é «nóis péga o pêxe»), se ela for
usada para ilustrar a diferença entre o coloquial e o formal.
Absurdo é escrever um livro didático que fica de costas para a
realidade do aluno e seguir culpando-o pela própria dificuldade de
aprender algo que lhe é ensinado errado. Absurdo é não ter a
competência de ensinar e dizer que a culpa é do português, por ser
uma língua difícil. Difícil é abrir a cabeça de gente
preconceituosa, que se acha detentora de alguma migalha de saber.&lt;/p&gt;

&lt;div class="fnote"&gt;

&lt;p&gt;&lt;sup&gt;&lt;a name="1"&gt;1&lt;/a&gt;&lt;/sup&gt; Então
 se desenvolveu a «ortografia etimológica» (na verdade
 pseudoetimológica), em que as palavras eram grafadas de forma a
 lembrar sua origem, às vezes em desacordo com a pronúncia:
 &lt;i&gt;pharmacia, machina, mysterio, hybrido, orthographia,
 sceptico, asthma, physico, Hespanha, bahia, propheta, photographia,
 diccionario, eschola &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;choro.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;sup&gt;&lt;a name="2"&gt;2&lt;/a&gt;&lt;/sup&gt; Apesar
 da ideologia racista predominante na África do Sul de então, o
 africâner é um idioma de base fonética e léxica holandesa, com
 grande influência inglesa na gramática e significativa
 contribuição de vocabulário de línguas africanas.&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-8184624327816486949?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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Marcos Bagno&lt;/div&gt;

&lt;p&gt;Na semana passada comecei a falar sobre o
preconceito linguístico que grassa em nosso país de uma forma
particularmente intensa. Lembrei que a Linguística é uma ciência
estabelecida solidamente há mais de duzentos anos, com copiosa
produção de conhecimento, mas que persiste uma profunda ignorância
sobre seus aspectos mais básicos, ignorância alimentada pelos meios
de comunicação, que somente dão espaço ao discurso retrógrado e
pseudocientífico daqueles que rejeitam o conhecimento científico
por razões ideológicas. Perguntei também por que razão pessoas
que são céticas de várias outras formas, e têm tanto a criticar
na postura, por exemplo, dos criacionistas, não percebem que sua
posição em relação à Linguística é idêntica à daqueles em
relação à Biologia: rejeição irrefletida e &lt;i&gt;a priori &lt;/i&gt; motivada
por preconceitos e razões de foro íntimo. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Hoje pretendo explicar melhor em que consiste o famoso «preconceito linguístico»
que é tão ou mais negado que o preconceito racial.&lt;a href="#1"&gt;&lt;sup&gt;1&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;
Para isso tomarei como guia a obra  &lt;i&gt;Preconceito Linguístico:
O Que É, Como Se Faz&lt;/i&gt; , de Marcos
Bagno.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt; Sei que alguns leitores torcerão o nariz, pois o autor tem
uma reputação de «comunista» entre o baixo clero da direita
hidrofóbica que cola esta acusação coringa na testa de quem a
incomoda, para não ter que discutir suas ideias.&lt;a  href="#2"&gt;&lt;sup&gt;2&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;
Mas eu reajo com a mesma resposta que os debatedores «céticos»
mais afoito costumam dar aos criacionistas mais folclóricos quando
vêm com histórias de «hidroplacas» e «baramins» em alguma
discussão sobre Biologia ou Geologia:  &lt;i&gt;vão estudar para
pelo menos entenderem onde estão errando.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O preconceito
linguístico é ligado à confusão criada entre a língua em si e a
gramática normativa. Mas uma receita de bolo não é um bolo, um
molde de roupa não é uma roupa e uma gramática não é uma língua.
Esta confusão, alimentada pela mídia e por uma série de mitos que
fazem parte da autoimagem (muito negativa) que o brasileiro tem de
si, resulta em uma percepção distorcida de nossa cultura e nosso
papel no seio dela. Os mitos a que Bagno se refere são os seguintes:&lt;/p&gt;

&lt;dl&gt;
&lt;dt&gt;A língua
portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente&lt;/dt&gt;
&lt;dd&gt;&lt;p&gt;Este mito foi o primeiro a ser contestado pela ciência, existindo
pesquisas etnográficas e linguísticas datadas desde o início do
século XX que comprovaram que: a) existem dialetos regionais no
Brasil, b) os dialetos regionais se diferenciaram bastante cedo em
nossa história, com base nas origens diversas dos imigrantes que se
estabeleceram nas diferentes regiões e c) apesar da força
homogeneizante da televisão e do rádio, tais dialetos seguem se
diferenciando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É um mito prejudicial porque, ao não reconhecer a variedade regional do
português falado, oferece um diagnóstico incorreto da situação
sociolinguística dos alunos, criando mais uma dificuldade para
trabalhar eficientemente o ensino da língua padrão. Na cabeça dos
preconceituosos, reconhecer a existência dos dialetos é um «perigo»
porque legitimaria o «falar errado» em detrimento do «falar certo»
(conforme o entendem). Trata-se de uma concepção anticientífica
por duas razões: 1) a realidade não precisa ser “reconhecida”
para existir e 2) o diagnóstico incorreto do problema cria novos
problemas em vez de preveni-los ou solucionar os existentes.&lt;/p&gt;
&lt;/dd&gt;

&lt;dt&gt;Brasileiro não sabe falar português.&lt;/dt&gt;
&lt;dd&gt;&lt;p&gt;A ideia de que não sabemos falar a nossa própria língua geralmente
vem associada à de que em Portugal, sim, se fala direito. Não é
preciso mencionar que essa concepção é fruto de uma mentalidade
colonizada, que imagina que um povo «mestiço» ou, dito de uma
forma menos evidentemente racista, «tropical», não seria incapaz
de falar direito nem a «sua» própria língua.&lt;a href="#3"&gt;&lt;sup&gt;3&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;
Obviamente ninguém diz abertamente a razão pela qual o brasileiro
«não sabe falar português» porque envolveria a sugestão de que o
brasileiro é uma espécie de bípede implume que só apreende a
falar se for amestrado na escola. Muitas das pessoas que têm tal
concepção nunca visitaram outros países para ver como seus
habitantes também «não sabem falar» suas respectivas línguas,&lt;a  href="#4"&gt;&lt;sup&gt;4&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;
outros aderem ao preconceito para vender livros. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Este preconceito não resiste à comparação com  &lt;i&gt;nenhum &lt;/i&gt; país
de mais de um milhão de habitantes: italianos de diversas regiões
quase não se entendem em dialeto, franceses tampouco, os falares
alemães chegam a ser agrupados em duas línguas diferentes (alto e
baixo alemão). O árabe da Arábia Saudita é ininteligível por um
egípcio, que, por sua vez, quase nada entende da fala de um
marroquino, que, por sua vez, sofre para entender um sírio. E nem se
fale da salada de dialetos que cruza os Bálcãs, da Ístria à costa
do Mar Negro. Por que, então, diferentemente da maioria dos países
do mundo, o Brasil teria uma «uniformidade surpreendente» de sua
língua? Se existe tal uniformidade, como tanta gente «não sabe
falar»? &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Em todos esses países, a solução para o problema da comunicação é a difusão de uma
língua padrão, a norma culta, geralmente baseada em um dialeto de
prestígio. Em nenhum desses países se aceita que idiotas apareçam
na televisão dizendo que o povo não sabe falar. Ai de quem o diga,
pois as pessoas consideram os dialetos parte da sua identidade e não
aprendem a língua padrão porque «não sabem falar» direito, mas
sim porque desejam integrar-se ao conjunto da nação.&lt;/p&gt;&lt;/dd&gt;

&lt;dt&gt;Português é muito difícil.&lt;/dt&gt;
&lt;dd&gt;&lt;p&gt;«A desculpa do preguiçoso é a dificuldade», dizia o ditado popular. A
dificuldade pode ser uma ilusão, causada pela abordagem incorreta do
problema. Quem tentar carregar água na peneira terá muito mais
dificuldade do que quem usar uma caneca.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A ideia de que o português é muito difícil resulta do fato de o ensino de português
no Brasil partir de um diagnóstico errado da situação do aluno, de
uma apresentação incorreta da matéria e da apresen­tação da
matéria errada. Imagina-se que o aluno, mesmo «não sabendo falar»,
fala uma língua que tem «surpreendente unidade». Esta língua lhe
será então ensinada através de um sistema educa­cional
precário, por profissionais mal treinados e mal remunerados. Por
fim, a língua que se ten­tará ensinar é uma versão
arcaizante, desconectada da realidade do aluno. Então, quando os
alunos falham em massa no aprendizado, a culpa é da língua. Da
pobre língua, única que não pode se defender. Gramáticos e
pedagogos discursam bonito. Políticos, que fazem escolas e definem
currículos, podem defender-se. A língua, porém, é um ser abstrato
e leva a culpa calada.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Nota-se o quanto esse mito está equivocado quando analisamos a percepção que os outros
povos têm de nossa língua. Numerosos levantamentos feitos
internacionalmente com estudantes de diversas partes do mundo colocam
em «2» o nível de dificuldade do português, numa escala de «1»
a «5». No nível «1» ficam as línguas de gramática mais simples
e regular (como esperanto e indonésio) e no nível «5» línguas
como coreano, mandarim, japonês, cantonês, sânscrito e árabe.
Sempre em tais levantamentos o português é colocado no mesmo nível
de dificuldade do inglês, do espanhol e do italiano, e um nível
mais fácil que francês, alemão, ou holandês.&lt;/p&gt;&lt;/dd&gt;

&lt;dt&gt;As pessoas sem instrução falam tudo errado.&lt;/dt&gt;
&lt;dd&gt;&lt;p&gt;Aqui o preconceito fica um pouco mais claro. A falta de instrução
está associada à falta de contato com a língua propagada através
do sistema educacional que, obviamente, é a língua da elite. Existe
uma estigmatização do falar das classes populares, não por causa
de suas características, mas por serem populares. Todos os «erros»
do português coloquial também são encontráveis em textos de
grandes escritores do passado, evidenciando que tais «erros»”
nada mais são do que fenômenos linguísticos que já aconteceram
antes e podem acontecer de novo. A troca do «L» por «R», por
exemplo, considerada a «marca da besta» entre os «erros» de
português, pode ser lida abundantemente nos poetas portugueses e
brasileiros entre os séculos XV e XVIII: «frecha», «pranta» e
«frauta» se encontram aos montes em Camões, Bocage, Sá de
Miranda, Gregório de Matos e Guerra e numerosos outros, provando que
estas pronúncias eram correntes na época. Tanto isso é verdade que
se você as digitar no seu programa de edição de textos se
surpreenderá ao constatar que elas não são marcadas como erros!
Ora, se é válido admitir variações como «flauta/frauta»,
«flecha/frecha», «planta/pranta» e outras, por que não admitir
«plano/prano», «claro/craro» e outras? Trata-se do mesmo fenômeno
linguístico, operando da mesmíssima forma.  &lt;/p&gt;

&lt;p&gt; A única diferença é que as palavras do primeiro grupo foram legitimadas
pela elite através de sua literatura, enquanto as do segundo grupo
são estigmatizadas por serem encontradas somente nas variantes
populares do português. Mas os preconceituosos, em vez de imaginar
que estamos diante da persistência, no seio do povo, de um fenômeno
linguístico que existe há séculos, prefere pensar que quem fala
«craro» possui algum tipo de atraso mental. Talvez se os
preconceituosos lessem mais, aprenderiam sobre a própria língua e
sua história, em vez de confiar em preconceitos alimentados pela
ignorância. &lt;/p&gt;&lt;/dd&gt;

&lt;dt&gt;Onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão.&lt;/dt&gt;
&lt;dd&gt;&lt;p&gt;Parte do complexo de inferioridade do brasileiro em relação à sua
língua se baseia em sempre deslocar geograficamente o lugar onde se
fala o português ideal. Muitas pessoas dizem que é o Maranhão,
afinal ele é suficientemente remoto. Em Minas Gerais muitos
acreditam que os cariocas falam melhor. No Rio de Janeiro existe essa
crendice sobre o Maranhão, mas também sobre o Rio Grande do Sul. Os
paulistanos estigmatizam os «caipiras» do interior, enquanto
reverenciam os gaúchos.  
&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Em geral se acredita que onde se fala ainda o «tu» o português é melhor
(tanto cariocas quanto gaúchos e maranhenses o empregam ainda,
embora raramente conjuguem o verbo de acordo). Esta fixação com o
pronome da segunda pessoa é mais um reflexo da subserviência a
Portugal, que se manifesta no persistente luto de nossos gramáticos
pela morte do sistema pronominal clássico, que ocorreu no Brasil
ainda durante o século XIX, mas ainda hoje não foi assimilada. &lt;/p&gt;&lt;/dd&gt;

&lt;dt&gt;É preciso falar como se escreve.&lt;/dt&gt;
&lt;dd&gt;&lt;p&gt;Se estivéssemos apenas falando de padronizar a pronúncia da norma
culta para facilitar a comunicação inter-regional, seria aceitável
preconizar a pronúncia baseada na ortografia, ainda que de forma
limitada. Mas ocorre que nem mesmo norma culta padrão segue tal
regra. A abolição dos acentos diferenciais tornou ainda mais vaga a
relação entre a letra e a leitura, a ponto de termos pares de
palavras que se distinguem pelo timbre, mas têm a mesma grafia
(«olho» e «olho», «molho» e «molho», «porto» e «porto»,
«pelo» e «pelo»). Como então cobrar que um mineiro leia «móínho»
em vez de «mũe» citando que é preciso falar como se escreve?
Obviamente esta é uma desculpa para negar voz aos dialetos regionais
e forçar a homogeneização a partir de uma norma culta ideal que
não é falada nem mesmo pelos cariocas e paulistas em cujos dialetos
ela supostamente se baseou. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ocorre que a escrita é  representação da fala, tal como o desenho é uma representação
do objeto. A função da escrita é nos lembrar dos elementos que
empregamos na fala, tal como o desenho nos relembra o objeto.
Subordinar a fala à escrita é como querer que as coisas reais
passem a parecer com os desenhos que são feitos delas. Imagine se um
erro de impressão faz com que o desenho de uma galinha saia sem
crista. Quem sairá pelo mundo amputando cristas das penosas? Existe
um erro na avaliação da função da escrita em relação à língua,
e certa categoria de gramáticos «pop» e professores seus fãs
parece querer andar pelo mundo, de estilete à mão.&lt;/p&gt;&lt;/dd&gt;

&lt;dt&gt;É preciso saber gramática para falar e escrever bem.&lt;/dt&gt;
&lt;dd&gt;&lt;p&gt;Se o bom conhecimento da gramática fosse requisito para falar e
escrever bem, todos os bons escritores seriam exímios gramáticos, e
um bom número de gramáticos teria talento literário. Ocorre que
nenhum gramático jamais escreveu coisa que preste em termos de
literatura e os grandes escritores costumam ser unânimes críticos
deles. A lista de escritores que destilaram veneno contra os
gramáticos é extensa e notável, com nomes como Rubem Braga,
Vinícius de Morais, Leon Eliachar, Carlos Drummond de Andrade,
Machado de Assis, Monteiro Lobato, entre outros. Todos, sem exceção,
viam a gramática mais como obstáculo do que como ferramenta de seu
trabalho. Machado de Assis escreveu uma crônica sobre sua
incapacidade para ajudar um sobrinho a fazer seus deveres de
português, por exemplo. Se nem o Bruxo conseguia se dar bem com as
absurdidades da gramática, como podemos esperar que um aluno comum o
consiga? &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mesmo assim, existe uma
«propaganda enganosa» de que os alunos passarão a falar e a
escrever melhor se aprenderem gramática. Esta propaganda esconde que
as gramáticas foram inventadas muito depois da literatura (e esta
muito depois da escrita). A gramática não é a base de coisa
nenhuma, apenas um guia para os que desejam dominar uma determinada
variedade linguística. A primeira gramática grega surgiu somente no
século II a.C., séculos após Homero, Xenofonte, Safo, Platão,
Aristóteles, Eurípides, Aristófanes, Ésquilo, Anacreonte, Hesíodo
e outros. As primeiras gramáticas do português surgiram no século
XVIII, séculos após Sá de Miranda, Camões, Dom Dinis e outros.
Como explicar que tantas obras de tão alta qualidade tivessem sido
produzidas antes da existência de gramáticas? Inspiração pelo
Espírito Santo?&lt;/p&gt;&lt;/dd&gt;

&lt;dt&gt;O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social.&lt;/dt&gt;
&lt;dd&gt;&lt;p&gt;Este mito retorna ao primeiro e ao segundo, aqui se considerando uma
«boa ação» dar uma língua aos «sem língua» para permitir que
eles superem sua condição de pobreza e marginalização. Existe
certa verdade na ideia de que a educação é transformadora da
sociedade, para melhor, mas não se deve levar isso a ferro e fogo.
Se dominar a norma culta fosse um instrumento eficaz de ascensão
social, professores de português (e gramáticos, principalmente)
seriam pessoas extremamente poderosas e prestigiadas.  
&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A verdade fica muito longe disso, com pessoas de pouca ou nenhuma instrução
adquirindo ou conservando popularidade e poder por vários meios.
Mais do que isso: ninguém corrige o falar de um político poderoso,
por mais que cometa solecismos e «erros de concordância». Não
dominar a norma culta não lhe impediu de galgar o poder e não o
expõe à crítica. Portanto, quando criticamos o falar de uma pessoa
do povo, não estamos criticando o falar propriamente dito, mas a sua
condição social.&lt;/p&gt;
&lt;/dd&gt;&lt;/dl&gt;

&lt;p&gt;É fato que a profusão de «erros» está relacionada ao posicionamento
do falante na estrutura da sociedade: quanto mais baixo mais «erra».
Não somente por falta de acesso à «cultura», mas também porque
as classes dominantes não aceitam como legítima a cultura das
classes subalternizadas, a não ser quando apropriada na forma de
folclore ou artesanato. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O preconceito linguístico é uma ferramenta de exclusão e de humilhação
daqueles que se encontram na base da pirâmide: para eles o
reconhecimento só pode vir através do domínio de uma norma culta
que lhes é imposta, domínio que não lhes garante ascensão social
e não os isola de serem ridicularizados ainda assim, por sua
«correção pedante», quando se defrontam com pessoas dotadas de
poder, que não precisam se preocupar com todos os «esses e erres».&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Estes oito mitos do preconceito linguístico se sustentam em um tripé perverso: a
gramática tradicional, o ensino tradicional e o livro didático. A
gramática tradicional (normativa, intolerante, preconceituosa,
arcaizante e lusófila) inspira um sistema educacional tradicional
(excludente, intolerante, unilateral, colonizado), que alimenta a
indústria do livro didático (instrumental, unilateral, alienante,
superficial) que, por sua vez, recorre à gramática tradicional para
fonte de sua ideologia e de seus métodos. Fecha-se um círculo
vicioso difícil de romper, pois livros que tentem desviar da norma
serão combatidos pela mídia (que está associada à indústria do
livro didático e ao ensino particular instrumental) e ignorados
pelas escolas (que são cobradas pela mídia, pelos pais e pelo
“mercado” de acordo com a sua fidelidade ao ensino tradicional).
Escolas que tentem inovar terão dificuldade para conseguir livros
didáticos e sofrerão ataques da mídia e boicote dos pais de
alunos, especialmente se tal escola for particular. E assim se
perpetua a concepção de que o povo não sabe falar, uma situação
na qual a escola não sabe ensinar e um resultado de que o povo nunca
saberá o que precisaria saber: o domínio suficiente da norma culta.&lt;/p&gt;

&lt;div class="fnote"&gt;
&lt;p&gt;&lt;SUP&gt;&lt;a name="1"&gt;1&lt;/a&gt;&lt;/SUP&gt; Eu
 digo que é até pode ser mais negado, porque a prática de tal
 forma de preconceito é uma maneira menos rude de discriminar as
 pessoas sem evidenciar uma posição abertamente racista.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;SUP&gt;&lt;a name="2"&gt;2&lt;/a&gt;&lt;/SUP&gt; Uma
 reputação evidentemente absurda, pois Bagno não é um político,
 mas um cientista, e quase tudo que ele escreve é corroborado por
 pesquisas feitas no mundo todo. Chamá-lo “comunista” ou termo
 que o valha é como acusar todo o estabelecimento universitário da
 maior parte do planeta de estar envolvido em uma conspiração.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;SUP&gt;&lt;a name="3"&gt;3&lt;/a&gt;&lt;/SUP&gt; O
 pronome possessivo vem entre aspas porque nesta série estamos
 justamente discutindo «de quem» é a língua que a escola pretende
 ensinar.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;SUP&gt;&lt;a name="4"&gt;4&lt;/a&gt;&lt;/SUP&gt; Para
 os que consideram a Argentina uma espécie de ilha de cultura nesta
 América Latina mestiça e chucra, sugiro fortemente que pesquisem
 sobre o &lt;i&gt;voseo, &lt;/i&gt; um fenômeno
 linguístico característico do espanhol portenho (comum à
 Argentina, ao Uruguai, ao Paraguai e ao sul da Bolívia) que
 consiste na substituição do «tú» e do «vosotros» por um «vos»
 que se comporta de forma análoga ao «vous» francês e ao «você»
 brasileiro. &lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-6550230202879667728?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/eZXTSFN33YymD1yrTe_KyDO8iFE/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/eZXTSFN33YymD1yrTe_KyDO8iFE/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/letras-eletricas/~4/m3DyRrySieY" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://letras-eletricas.blogspot.com/feeds/6550230202879667728/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6932025654517629434&amp;postID=6550230202879667728&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/6550230202879667728?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/6550230202879667728?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/letras-eletricas/~3/m3DyRrySieY/sobre-preconceito-linguistico-parte-2.html" title="Sobre Preconceito Linguístico &amp;mdash; Parte 2 de 3" /><author><name>Jose Geraldo Gouvea</name><uri>https://profiles.google.com/100228697763293739064</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="32" src="//lh5.googleusercontent.com/-A5R0QpMyLKo/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/IIUKEKFTwLw/s512-c/photo.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://letras-eletricas.blogspot.com/2012/03/sobre-preconceito-linguistico-parte-2.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DkcCQ3Y5eyp7ImA9WhVRFUk.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6932025654517629434.post-8060837821596845734</id><published>2012-03-23T20:07:00.001-03:00</published><updated>2012-03-23T20:07:42.823-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2012-03-23T20:07:42.823-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="autobiografia" /><title>Coisas do Baú: Revista Trem Azul</title><content type="html">&lt;p&gt;Corria o já quase lendário ano de 1998 &amp;mdash; três anos antes do incrível show do Camel em Cataguases &amp;mdash; quando esta foto abaixo foi tirada, pela máquina emprestada por um amigo. Emerson « Toquinho » Teixeira Cardoso e eu estamos empacotando os exemplares do número 4 (e último) da revista &lt;i&gt;Trem Azul&lt;/i&gt;, que nós fizemos, com cara, coragem e alguma falta de juízo. Este é o estande do jornal &lt;i&gt;Zona da Mata&lt;/i&gt;, que nos cedeu o espaço compartilhado em troca de nosso trabalho. Era assim que se tentava fazer revista literária nos anos 90, antes que o computador ficasse tão barato e fácil de usar.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-rYGQYzvU0IY/T2z2751q-SI/AAAAAAAAAaI/Xof_i_kHlhw/s1600/tremazulfinc.png" imageanchor="1" style="margin-left:1em; margin-right:1em"&gt;&lt;img border="0" height="274" width="400" src="http://4.bp.blogspot.com/-rYGQYzvU0IY/T2z2751q-SI/AAAAAAAAAaI/Xof_i_kHlhw/s400/tremazulfinc.png" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;Oportunamente vou desenterrar das cavernas da internet uma série de artigos escritos por mim sobre essa revista.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-8060837821596845734?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LYuc2ijO-Nf8oCkSoL8sPxXPCdI/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LYuc2ijO-Nf8oCkSoL8sPxXPCdI/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LYuc2ijO-Nf8oCkSoL8sPxXPCdI/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LYuc2ijO-Nf8oCkSoL8sPxXPCdI/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/letras-eletricas/~4/EsnzDQieeBo" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://letras-eletricas.blogspot.com/feeds/8060837821596845734/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6932025654517629434&amp;postID=8060837821596845734&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/8060837821596845734?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/8060837821596845734?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/letras-eletricas/~3/EsnzDQieeBo/coisas-do-bau-revista-trem-azul.html" title="Coisas do Baú: Revista Trem Azul" /><author><name>Jose Geraldo Gouvea</name><uri>https://profiles.google.com/100228697763293739064</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="32" src="//lh5.googleusercontent.com/-A5R0QpMyLKo/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/IIUKEKFTwLw/s512-c/photo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://4.bp.blogspot.com/-rYGQYzvU0IY/T2z2751q-SI/AAAAAAAAAaI/Xof_i_kHlhw/s72-c/tremazulfinc.png" height="72" width="72" /><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://letras-eletricas.blogspot.com/2012/03/coisas-do-bau-revista-trem-azul.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;C04NQ3Yzfip7ImA9WhVRE0k.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6932025654517629434.post-8289063444512594460</id><published>2012-03-21T11:59:00.000-03:00</published><updated>2012-03-21T11:59:52.886-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2012-03-21T11:59:52.886-03:00</app:edited><title>Uma Conhecida Fonte de Código Malicioso</title><content type="html">&lt;p&gt;Um amigo meu me enviou uma captura de tela preocupante: quando ele tentou acessar este blog no domingo recebeu um alerta de seu software anti-virus de que aqui seria uma «conhecida fonte de código malicioso» e não houve como fazer a visita. Tentei entrar em contato com a Symantec, empresa responsável pelo programa em questão, mas não consegui localizar nenhum canal que me permitisse interagir com eles e questionar o bloqueio. Pelo menos quando o Google faz isso ele nos dá a opção de ignorar o aviso e também de relatar se o bloqueio procede ou não. Vários sites e blogues que já foram bloqueados pelo Google puderam tomar conhecimento das razões e fazer o desbloqueio. Um bom exemplo foi o blog &lt;a href="http://cloacanews.blogspot.com.br"&gt;Cloaca News&lt;/a&gt;, bloqueado entre outubro e novembro de 2011. Aparentemente, porém, somente usuários do produto em questão podem contactar a Symantec e questionar as marcações. Como eu não sou, e jamais serei, usuário de nenhum produto desta empresa de “venda de proteção”, não tenho como me defender da acusação de que  meu blogue difunde o mal. Peço, portanto, ajuda aos meus leitores que são clientes da Symantec e que estejam conseguindo me ler, através de um navegador ou computador diferente, ou através do &lt;i&gt;feed rss&lt;/i&gt;, para que verifiquem as razões do bloqueio e me ajudem a reverter esta injustiça, que já está se refletindo em sensível queda no número de visitas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Antecipadamente grato&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Este blogueiro que vos escreve infrequentemente.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-8289063444512594460?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/JgBHElKcg3sxeQ7PyYh3FIRmo78/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/JgBHElKcg3sxeQ7PyYh3FIRmo78/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/JgBHElKcg3sxeQ7PyYh3FIRmo78/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/JgBHElKcg3sxeQ7PyYh3FIRmo78/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/letras-eletricas/~4/GiuKwXJGQd4" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://letras-eletricas.blogspot.com/feeds/8289063444512594460/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6932025654517629434&amp;postID=8289063444512594460&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/8289063444512594460?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/8289063444512594460?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/letras-eletricas/~3/GiuKwXJGQd4/uma-conhecida-fonte-de-codigo-malicioso.html" title="Uma Conhecida Fonte de Código Malicioso" /><author><name>Jose Geraldo Gouvea</name><uri>https://profiles.google.com/100228697763293739064</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="32" src="//lh5.googleusercontent.com/-A5R0QpMyLKo/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/IIUKEKFTwLw/s512-c/photo.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://letras-eletricas.blogspot.com/2012/03/uma-conhecida-fonte-de-codigo-malicioso.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;D0EFQH0yfyp7ImA9WhVREEo.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6932025654517629434.post-747147878217515968</id><published>2012-03-18T10:00:00.000-03:00</published><updated>2012-03-18T10:00:11.397-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2012-03-18T10:00:11.397-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="cataguases" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="música" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="saudades" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="autobiografia" /><title>Coisas do Baú: Camel em Cataguases e “José Geraldo, Repórter por um Dia”</title><content type="html">&lt;p&gt;Este post foi escrito originalmente no sábado, mas agendado para hoje, domingo, para não encavalar com o outro que já havia sido escrito ontem. Mas tive de escrevê-lo logo após porque o assunto era urgente, não podia ficar para hora melhor, não havia hora melhor. Ontem, sábado, assisti de novo uma peça perdida de meu passado: o dia em que entrevistei Andy Latimer.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vamos por partes. Andy Latimer, para quem entende de rock progressivo, é um dos nomes mais queridos e importantes da história do gênero. Guitarrista, flautista, vocalista principal e único membro permanente do grupo «Camel», ele é uma lenda viva da música, embora não seja tão famoso quanto outros que tiveram mais sucesso nas paradas. Andy Latimer esteve em turnê no Brasil no ano 2001 e uma das paradas da turnê foi em Cataguases. Sim, você leu certo. Cataguases recebeu um show de um dos maiores grupos de rock progressivo de todos os tempos, lá no Cine Edgard. E eu entrevistei Andy Latimer. Se você consegue acreditar que o Camel esteve em Cataguases, talvez consiga crer que eu fiz mesmo a entrevista.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A loucura foi responsabilidade de Rodrigo «Nômade» Rocha, empresário cataguasense, proprietário da Voltage, extinta loja de discos onde, por muito tempo, eu deixava meu dízimo (mínimo de 10% do salário gasto comprando obras primas da música). &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-lc-zOZ-bQ50/T2U1SqR7e2I/AAAAAAAAAZ0/Ssps3PSgTec/s1600/camel-folder.png" imageanchor="1" style="clear:left; float:right; margin: 0 0 0 -1ex"&gt;&lt;img border="0" height="390" width="211" src="http://1.bp.blogspot.com/-lc-zOZ-bQ50/T2U1SqR7e2I/AAAAAAAAAZ0/Ssps3PSgTec/s400/camel-folder.png" /&gt;&lt;/a&gt; Rodrigo descobriu que trazer artistas de rock progressivo renomados não era difícil: além do cachê ser razoavelmente barato, eles em geral eram pessoas acessíveis e dispostas a aventuras, como encarar horas de estrada para ir tocar em lugares obscuros no interior do Brasil.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Infelizmente pouca gente acreditou na época. Sei disso porque ajudei a divulgar o evento e quando eu começava a falar muita gente achava que eu estava brincando. Mas Latimer veio a Cataguases, hospedou-se no Bevile Hovel com a banda, andou a pé pela rua desfilando seus famosos pés tamanho 46 (motivo do apelido “Sasquatch”). E na noite de 22 de março, às 21h00, subiu no palco do Cine Edgard para mais de oitenta minutos de puro delírio musical na presença de uma platéia de cerca de 100 pessoas mais ou menos (que nem chegou a dar metade da lotação).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Acredito que se Rodrigo morresse sem ter feito mais nada na vida ele já teria deixado algo para ser lembrado: levar o Camel a Cataguases foi uma realização estupenda. Feita na base do puro amor à música, sem pensar em ganhar dinheiro, na base do amadorismo mesmo. Isso é algo que deve dar orgulho. Eu, por exemplo, tenho orgulho de minha pequena parte desempenhada: fiz o cartaz, o fôlder (cuja frente, contendo um autógrafo de Latimer, ilustra esta postagem) e fiz uma entrevista com Latimer, que tenho agora transcrita em DVD a partir do surrado VHS que guardei por onze anos na gaveta &amp;mdash; e que um dia vou postar no YouTube.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Claro que a entrevista ficou uma porcaria. Eu não tenho boa dicção (nem em português, quanto mais em inglês), não sou repórter, não tinha nenhum roteiro prévio e jamais aparecera na televisão. Então, de repente, eis que me aparece uma equipe da TV Minas que ia fazer uma reportagem sobre o evento. Eles tinham vindo sem intérprete e precisavam de alguém para fazer o programa. Alguém me indicou como um «carinha que manja muito de inglês» e eu, num acesso desses de insanidade que tenho de vez em quando, topei a parada. Não havia roteiro, havia quinze minutos para o fim da passagem de som. Rabisquei algumas perguntas em um pedaço de papel qualquer, com sugestões de pessoas que estavam por perto, passei o pente no cabelo mal e mal e me sentei ao lado de Andy para a entrevista, tentando parecer natural, tentando ignorar a luz forte dos refletores e a presença incômoda daquela luzinha vermelha da câmera, que indicava que estavam me gravando.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Andy percebeu o amadorismo da situação e deve ter se perguntado onde, diabos, estava com a cabeça quando topara aquele show, mas mesmo assim concedeu-nos vinte e cinco minutos, respondendo a perguntas que já devia ter respondido cem vezes ou mais em toda a vida. Mas algumas pessoas me disseram que eu fui bem, apesar de gaguejar várias vezes e ter congelado por dez segundos em certo momento. Fui bem porque resisti a tietar e consegui interagir com Andy, mudando as perguntas de acordo com o contexto das respostas. No fim, apertei a mão de meu ídolo e fui pedir autógrafos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esta é uma das histórias que levo pela vida toda, como demonstração inequívoca de que temos de estar preparados para as oportunidades que aparecem, sem medo da luzinha vermelha acesa, sem medo de parecer ridículo como o meu cabelo despenteado.&lt;/p&gt;&lt;pre class="poem"&gt;Naquela noite o Camel tocou com:
&lt;b&gt;Andy Latimer:&lt;/b&gt; guitarra, vocais, flauta
&lt;b&gt;Colin Bass:&lt;/b&gt; contrabaixo, vocais
&lt;b&gt;Guy LeBlanc:&lt;/b&gt; teclados
&lt;b&gt;Dennis Clément:&lt;/b&gt; bateria&lt;/pre&gt;&lt;p&gt;Não tenho o &lt;i&gt;set list&lt;/i&gt;, mas sei que o bis foi “Lady Fantasy” (vídeo compartilhado abaixo, com muito medo do ECAD).&lt;/p&gt;&lt;iframe width="420" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/bvAaV3diYXE" frameborder="0" allowfullscreen&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-747147878217515968?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/_EVV3SSx6ArKCSE3irK9aOGb2qk/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/_EVV3SSx6ArKCSE3irK9aOGb2qk/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/_EVV3SSx6ArKCSE3irK9aOGb2qk/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/_EVV3SSx6ArKCSE3irK9aOGb2qk/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/letras-eletricas/~4/AmAzNToz8bg" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://letras-eletricas.blogspot.com/feeds/747147878217515968/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6932025654517629434&amp;postID=747147878217515968&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/747147878217515968?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/747147878217515968?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/letras-eletricas/~3/AmAzNToz8bg/coisas-do-bau-camel-em-cataguases-e.html" title="Coisas do Baú: Camel em Cataguases e “José Geraldo, Repórter por um Dia”" /><author><name>Jose Geraldo Gouvea</name><uri>https://profiles.google.com/100228697763293739064</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="32" src="//lh5.googleusercontent.com/-A5R0QpMyLKo/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/IIUKEKFTwLw/s512-c/photo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://1.bp.blogspot.com/-lc-zOZ-bQ50/T2U1SqR7e2I/AAAAAAAAAZ0/Ssps3PSgTec/s72-c/camel-folder.png" height="72" width="72" /><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://letras-eletricas.blogspot.com/2012/03/coisas-do-bau-camel-em-cataguases-e.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;Ak8AQnY9fip7ImA9WhVQEUQ.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6932025654517629434.post-4660769064342778267</id><published>2012-03-17T11:28:00.000-03:00</published><updated>2012-03-31T10:00:43.866-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2012-03-31T10:00:43.866-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="educação" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="preconceito" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="linguagem" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="gramática" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="cultura" /><title>Sobre Preconceito Linguístico — Parte 1 de 3</title><content type="html">&lt;p&gt;Nos últimos anos tem estado muito em evidência o debate sobre o “preconceito linguístico”, notadamente desde que um homem do povo (e por isso xingado de “apedeuta” por uma mídia preconceituosa e elitista) chegou ao poder. Tal debate é, porém, feito por leigos e para leigos, &lt;strong&gt;nunca, jamais, em hipótese alguma&lt;/strong&gt; permitindo que os especialistas tenham o mesmo destaque que os palpiteiros. Fala-se sobre a língua, sem nunca sequer mencionar que existem linguistas. O que é mais ou menos como conversar sobre doenças sem mencionar que existem médicos. Fala-se sobre gramáticos, políticos, escritores e professores de português, é verdade, o que equivale a, mesmo esquecendo os médicos, lembrar de uma série de outras profissões relacionadas à saúde, algumas sérias, outras não.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Quando um apologista cristão diz não crer na Evolução e enfileira uma série de comentários deturpados e desconexos, que evidenciam desconhecimento completo ou muito grande das coisas mais básicas de Biologia, as reações jocosas no meio do “movimento ateu” são quase instantâneas. Há quem chegue a recomendar à criatura que “vá estudar”, há quem lhe aponte as “falácias” de seu raciocínio ou até o fato de argumentar desconhecendo coisas básicas e imediatas, que deveriam ser evidentes no quotidiano. É unânime entre os que não são fundamentalistas religiosos que um criacionista é uma pessoa que tem um sério problema intelectual (dissonância cognitiva), uma profunda ignorância científica ou então é um manipulador que desconsidera fatos a fim de ter apelo junto às pessoas que não os conhecem ou compreendem. Em uma linguagem mais direta, criacionista só pode ser burro, ignorante ou desonesto.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Este estado de coisas não tem a ver, necessariamente, com religião. O criacionismo não é causado pela necessidade de crer em Deus, visto que muitas pessoas creem nEle sem serem criacionistas. Na verdade o criacionismo reflete o apego a um conjunto de explicações que — mesmo obsoleto e em contradição com aquilo que se observa na ciência (e até no quotidiano, em alguns casos) — continua tendo apelo porque oferece uma visão de mundo mais simples, imediata e inteligível. “Deus fez” é uma explicação que não exige muito raciocínio, não humilha quem não tem tempo de estudar e tem, na cabeça de muita gente, o salutar efeito de diminuir a distância entre um diploma de primário e um de doutorado. Em simples palavras: o criacionismo é uma reação anti-intelectual, que procura restaurar um mundo ideal  que homens eram homens e sabiam consertar os motores de seus carros.&lt;a href="#1"&gt;&lt;sup&gt;1&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Existe, porém, uma ciência que sofre um ataque muito mais cerrado da pseudociência, um ataque muito mais cruel e eficiente. Esta ciência foi estabelecida há mais de duzentos anos e; mesmo mostrando notável capacidade de produção de conhecimento, inclusive com modelos que permitem fazer predições; é praticamente ignorada fora dos meios acadêmicos, enquanto seus detratores têm acesso fácil à mídia para propagar seus panfletos reacionários. E de tal forma isso, que o discurso pseudocientífico se tornou a norma e os pesquisadores precisam enfrentar o ceticismo e o descrédito quando apresentam seus trabalhos. Ceticismo e descrédito que chegam, inclusive, entre os pesquisadores de outras áreas do conhecimento.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A ciência de que estamos falando é a Linguística. Fora dos círculos acadêmicos pouca gente ouve falar dela, embora seja frequente que os conhecimentos por ela produzidos se difundam, sem crédito, por uma variedade de meios. A Linguística permitiu a tradução de textos em línguas perdidas e a reconstrução da autoria da Bíblia; provou a múltipla autoria do Pentateuco e do Alcorão; determinou as relações étnicas entre os povos da Europa, do Oriente Médio, da Ásia Central e do Subcontinente Indiano; permite detectar fraudes  documentos históricos; é parte da análise que busca determinar a validade de uma inteligência artificial; ajudou a desconstruir o discurso totalitário etc. As descobertas da Linguística são incríveis, para uma ciência tão recente e que estuda um fenômeno tão complexo quanto as linguagens humanas. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Porém a Linguística desperta sua quota de reações entre aqueles que sonham com um mundo ideal,  que homens eram homens e tudo que se precisava aprender era o &lt;em&gt;trivium &lt;/em&gt;  e o &lt;em&gt;quadrivium.&lt;/em&gt;&lt;a href="#2"&gt;&lt;sup&gt;2&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ocorre que a Linguística se insurge contra um dos últimos bastiões do preconceito  nossa sociedade. Não é mais aceitável discriminar os indivíduos por fatores como a cor de sua pele ou a religião, resta apenas como última distinção do elitismo a afirmação de um sistema de castas linguísticas, que perpetua e justifica a exclusão de uns  favor de outros. Ao demonstrar a cientificamente a falsidade dos paradigmas em que se assenta tal divisão, a Linguística atrai a ira dos que se aproveitam deles para exercer privilégios ou para ganhar uns trocados. E ganha-se muito dinheiro vendendo dicionário e gramática, e cursinho e concurso e manual de redação.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Refiro-me, obviamente, à cultura de gramática e dicionário, herdeira dos sistemas medievais de ensino. Tal cultura se baseia na crença de que certas línguas são superiores a outras,&lt;a href="#3"&gt;&lt;sup&gt;3&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; que “as pessoas” (aqui geralmente entendidas como “as pessoas das classes inferiores”) pertencem a uma espécie de bípede pelado e estúpido que não saberá se comunicar a menos que a escola ensine. Se não for ensinadas direitinho pelo “sistema educacional”, crescerão falando “errado”, do jeito que puderam aprender com outros ignorantes, como seus pais, por exemplo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Colocando a coisa nestas palavras ela soa um pouco ofensiva. Talvez algumas pessoas que estejam lendo este texto ouçam soar o alarme: “Ei, eu &lt;b&gt;não&lt;/b&gt; penso assim!” Será mesmo? Façamos um exame de consciência, às vezes só conseguimos enxergar certos detalhes quando exagerados na caricatura. E a caricatura dessa visão de mundo é o gramático normativo conservador, figura já satirizada com força por Monteiro Lobato, em &lt;em&gt;Emília no País da Gramática,&lt;/em&gt; escrito incrivelmente em 1934. Entre esses há um gramático famoso hoje em dia, que tem por sobrenome a marca de um remédio que causa abortos, que tem espaço até na televisão para difundir “regrinhas” de uma gramática que reflete uma língua falada no século XVIII e que nem mesmo a elite fala mais.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Um cético não pode compactuar com essa visão de mundo. Já falei anteriormente sobre como o ceticismo tem sido abastardado pela convivência com preconceitos, a ponto de arengas céticas incluírem injúria racista contra um povo historicamente discriminado. Aqui estou indo além: a cultura da gramática e do dicionário é preconceituosa, embora não da forma grosseira como se manifesta o preconceito racial contra negros, judeus ou ciganos.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O preconceito a que me refiro é reflexo de uma sociedade de classes, na qual os valores e experiências do povo são desconsiderados e os valores e experiências das classes dominantes são impostos através de sistemas ideológicos. A elite é que sabe falar, e vai ensinar o povo a falar. O “não saber falar” significa que, para a elite, o que quer que o povo esteja falando é uma “não língua”. A História está repleta de exemplos de situações nas quais a imposição da língua dominante refletiu um processo de dominação política.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ao ser entrevistado para a &lt;i&gt;Veja&lt;/i&gt;, o professor foi introduzido pelo seguinte comentário: &lt;q&gt;&amp;hellip; professor de português &amp;mdash; idioma que, de tão maltratado no dia a dia dos brasileiros, precisa ser divulgado e explicado para os milhões que o têm por língua materna.&lt;/q&gt; Não houve contestação desta definição por parte do professor, certamente porque ele gosta de se ver assim, como uma espécie de missionário entre os primitivos. Será realmente necessário “divulgar e explicar” o português para pessoas que o têm por língua materna?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ocorre que, conforme demonstra a Linguística, os dialetos populares não são uma “corrupção” da língua nacional pela ignorância do povo: eles têm uma origem, uma história e uma lógica interna. Os dialetos regionais já existiam no Brasil Colônia, como reflexo das origens geográficas diferentes dos imigrantes de cada região do país,&lt;a href="#4"&gt;&lt;sup&gt;4&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; como se percebe facilmente estudando episódios como a “Guerra dos Emboabas”, no qual o falar definia a identidade das pessoas, da mesma forma que seu vestir. Ora, se sabemos que os dialetos têm uma história, como seguir afirmando que nada mais são do que fruto da ignorância de um povo que “não sabe falar”? Não podemos, eis porque segue existindo, entre os que se beneficiam dos métodos de “ensinar a falar”, uma barragem contínua de críticas e desqualificações contra a ciência da Linguística.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Infelizmente, porém, quando uma ciência começa a detectar as estruturas de dominação ideológica que mantêm as coisas “em seu lugar” ela começa a ser associada com movimentos revolucionários que procuraram ou ainda procuram colocar outras coisas no mesmo lugar. Esse discurso da Linguística, que explicita como as elites estabelecem-se como portadoras da “língua certa” e se arrogam a missão de ensinar o povo, passa então a ser visto como perigosamente “comunista” por pessoas que não sabem o que é Linguística e, muitas vezes, não sabem o que é comunismo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Você já deve ter ouvido falar esse tipo de coisa por aí. É muito frequente entre os adeptos de ciências exatas a depreciação das ciências humanas, como se elas fossem coisa de “maconheiros comunistas gays”. Não percebem os que dizem estas bobagens que adotam um discurso análogo ao dos criacionistas, que rejeitam &lt;em&gt;a priori&lt;/em&gt; e em bloco todo um ramo do conhecimento que não estudaram, apenas porque as teses se chocam com as suas opiniões &lt;em&gt;leigas.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Gostaria de enfatizar esta última palavra. Debatedores como o Franciso Quiumento — mas não somente ele — adoram esfregar esse termo na cara de criacionistas para descartar suas opiniões. Acho justo: ninguém confia na opinião de um “leigo  medicina” para tratar-se ou de um “leigo  engenharia” para construir uma ponte. Natural, portanto, que o bom senso rejeite o que um “leigo  biologia” tenha a dizer. Mas será que tipo de reações que eu provocarei se disser que os vociferantes críticos da Linguística são “leigos” que não sabem o que estão falando? Será que essas pessoas terão a racionalidade de reconhecerem que agem como o apologista de Bíblia à mão que grita que “A Evolução É Só Uma Teoria”? Tenho certeza de que a maioria não. Tal como é impossível demover o criacionista, ao menos não subitamente, é impossível demover os críticos da Linguística, porque do alto de sua ignorância eles acham que estão “certos”, que as ciências humanas não são ciências “de verdade”, enquanto eles têm à mão a régua exata para medir o mundo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Cabe perguntar qual a razão do preconceito contra as Ciências Humanas por parte das pessoas que cursam Exatas ou Biológicas. Talvez tal preconceito seja agravado pelo reflexo das distorções de nosso mercado de trabalho, que tornam mais financeiramente bem sucedido um médico ou engenheiro do que um professor, mas o fenômeno é encontrado também  outros lugares do mundo, o que nos sugere uma causa mais profunda do que as imperfeições de nossa sociedade tropical. Se eu quisesse cometer um comentário tão abusivo quanto os que já me foram dirigidos por pessoas de Exatas ou Biológicas eu diria que aqueles que são instrumentalizados pelo sistema serão por ele pregados como peões na luta contra o conhecimento que ameaça a atual estrutura do mesmo sistema. Não creio, porém, que esses comentários sejam deliberados, mas fruto de irreflexão e, portanto, não é justo que eu reaja com um ataque desse tipo. Justo é, porém, que eu convide as pessoas que desqualificam as Ciências Humanas a examinar não as motivações de tais críticas, pois tal pedido seria falacioso, mas a validade delas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Na próxima semana volto ao tema, para falar especificamente sobre as formas como se manifesta tal preconceito.&lt;/p&gt;

&lt;div class="fnote"&gt;
&lt;p&gt;&lt;a name="1"&gt;&lt;sup&gt;1&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; Uma das provas de que o criacionismo não é um monstrengo isolado, nem a Biologia a Geni das ciências, é que existem vários outros fenômenos análogos afetando outras ciências, exatas, humanas e biológicas. A pseudociência existe em todos os ramos do conhecimento, sempre acompanhada de uma pregação panfletária contra o “elitismo” da ciência estabelecida e seus controles e apresentando-se com uma humildade cativante que fala ao coração do &lt;em&gt;leigo&lt;/em&gt; com o conforto da sugestão de que o esforço de estudar é uma vaidade sem sentido. Exemplos de fenômenos tais podem ser encontrados na História (revisionismo do Holocausto, deuses astronautas, fenícios cariocas), na Geografia (Amazônia pulmão do mundo), na Medicina (homeopatia, osteopatia, auras, cura pela fé), na Geologia (terra oca, terra jovem), na Astronomia (Nibiru/Hercólubus) etc. Talvez os outros tipos de pseudociência não consigam ter a mesma projeção do criacionismo por não contar com o púlpito para divulgá-los (inclusive o púlpito eletrônico), mas epistemologicamente falando não há uma grande diferença entre crer  Adão e Eva ou crer  crianças índigo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="2"&gt;&lt;sup&gt;2&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; O currículo das escolas mantidas pela Igreja na Idade Média se baseava no estudo de dois grupos de matérias. As básicas correspondiam ao trivium, de que deriva o adjetivo “trivial”, e as demais eram consideradas avançadas. O trivium era composto de gramática, lógica e retórica; enquanto o quadrivium tinha de aritmética, geometria, música e astronomia. Este currículo correspondia às “artes liberais”, enquanto outros cursos ensinavam as “artes práticas” (como a medicina e a arquitetura).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="3"&gt;&lt;sup&gt;3&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; Os anglófonos, por exemplo, julgam o inglês a língua “mais própria à civilização” por possuir o maior conjunto de vocábulos (ainda que os dicionários de inglês sejam inflados por todo e qualquer termo estrangeiro que adquira certo uso corrente e que as diferentes acepções de uma mesma palavra sejam frequentemente postas  verbetes separados). Os francófonos consideram o francês superior porque possui “o sistema de conjugação verbal mais preciso entre as línguas latinas”, entre outras bobagens. Para cada língua há um meio de demonstrar sua “superioridade” segundo algum critério arbitrário: o alemão e sua incrível capacidade de derivação morfológica, o italiano e sua plasticidade sonora, o espanhol e sua estabilidade ortográfica e gramatical de quase oito séculos, o grego e sua tradição de dois mil e quinhentos anos etc.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="4"&gt;&lt;sup&gt;4&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; A influência açoriana nos dialetos do extremo sul, por exemplo, ou da língua tupi sobre os dialetos do centro-oeste e de São Paulo.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-4660769064342778267?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/NNWMAW-RH0uI3NR_ip9n4V2nOIg/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/NNWMAW-RH0uI3NR_ip9n4V2nOIg/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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Era um mundo melhor, no qual você não se fazia ouvir nem na esquina, mas podia pelo menos desfrutar da doce sensação de que as suas ideias não seriam incompreendidas e ridicularizadas por idiotas.&lt;p&gt;&lt;p&gt;O ser idiota é um ser coletivo, gregário, agremiado, associado, mesmo que informalmente. Ninguém consegue ser realmente um idiota quando está sozinho porque o eco das paredes nos dá a estranha sensação de que não somos geniais ou, ainda pior, de que nossa genialidade nunca será compreendida. Em ambos os casos poupamos o mundo de nossas palavras por tempo suficiente para que amadureçam, ou amadureçamos, ou emudeçamos, ou apodreçamos.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um grupo de pessoas apenas moderadamente bobas pode transformar-se em uma turba vociferante de trogloditas. Um babaca não comprará uma briga contra o carinha que lhe «olhou torto» na rua, um grupo de babacas pode massacrar um mendigo pelo prazer de ouvir ossos quebrando. Coletivamente, a idiotice se potencializa. Mas remova cada um dos idiotas de seu bando e você terá um gatinho educado. Sem «amigos lá fora» para impor sua interpretação idiota do mundo, o gatinho aprenderá a negociar, a conversar. Esta é a grande virtude das prisões: as prisões deveriam ser o «cantinho pensamento» para os meninos maus da sociedade. Infelizmente, vivemos numa sociedade em que os castigos são vistos como manifestações autoritárias da tradição. Talvez sejam, mas negociar uma entrada honrosa no mundo adulto é algo que já saiu meio de moda. Todos querem entrar arrombando, pisoteando, idioteando.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O mundo era melhor no tempo em que não havia tantos bandos de valentes, no tempo em que os valentes se orgulhavam de resolver sozinhos. Hoje em dia, já que estamos ficando modernos, resolvemos redescobrir a Idade Média e trouxemos de lá o que os franceses chamavam de &lt;i&gt;melée&lt;/i&gt;, a guerra bruta e desorganizada que só terminava quando os vivos começavam a tropeçar demais nos mortos. A guerra estúpida e bárbara contra a qual a civilização procurou impor códigos de cavalaria, tréguas dominicais, direitos de asilo, honra militar etc. Briga em porta de escola é um choque de bandos, ninguém ali possui individualidade, são idiotas que se entregam ao espírito do bando &amp;mdash; e todo bando é necessariamente idiota, todo partido é utópico, toda associação é ingênua, todo grupo é meio besta. Houve um tempo em que afirmar-se como indivíduo era sinal de honra. Hoje, a folha de grama que se destaca é aparada.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Conformem-se, garotos que estão hoje nas escolas. Vocês não terão a permissão de viver com a liberdade que eu vivi. Eu vivi sob uma ditadura os meus tempos de escola, mas vivi mais livre do que vocês. Porque as correntes com que nos amarramos a nós mesmos são as mais difíceis de romper. Quem romperá a corrente de massificação, de idiotização? Experimente gostar de uma garota diferente, ouvir uma música diferente, passar por uma rua diferente, vestir-se com uma roupa diferente. Escárnio, no começo, xingamentos, pouco depois, talvez uma pedrada na testa ou, se for possível, um linchamento. Moral ou físico, já tanto faz. Não existe muita vida depois que você perde o direito de ser você mesmo. E passa a ser um dos idiotas do bando.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-7085515876830290512?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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Bertha era a mulher do inventor Karl Benz, construtor de alguns dos primeiros automóveis, entre eles o primeiro movido por motor à explosão, chamado “Benz Patent Motorwagen”.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esta senhora, em uma época em que ainda era cientificamente aceito que a mulher era menos inteligente e menos dotada de iniciativa que o homem, praticou um ato que é impressionante, quando visto em perspectiva.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No dia 5 de agosto de 1888 ela pegou o veículo construído pelo marido e viajou com os dois filhos pequenos, de Manheim, onde ficava a fábrica de Benz, a Pforzheim, onde residiam seus pais.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não foi uma viagem fácil. O veículo tinha três rodas e era instável em estradas esburacadas. Tinha apenas uma marcha, que não era bastante forte para subir os morros mais íngremes levando mais de um passageiro. As pessoas por toda parte fugiam amedrontadas com o barulho e a fumaça produzidos pelo veículo e algumas foram agressivas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Houve problemas mecânicos também. O motor ainda não estava plenamente testado e teve vários defeitos no meio do caminho, que a própria Senhora Benz teve de consertar, já que não havia mecânicos naquela época. O único defeito que ela não consertou pessoalmente foi a ruptura da corrente de tração, que foi solucionada por um ferreiro, que soldou a peça. Entre os defeitos que ela mesma consertou, um entupimento da válvula de alimentação de combustível, que ela solucionou usando um grampo de cabelo, e o desgaste prematuro das lonas de freio, que ela trocou usando um par reserva trazido de casa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Outro problema foi conseguir combustível, já que o tanque do veículo era muito pequeno e o motor, pouco econômico. Ela resolveu isto comprando os ingredientes em empórios de produtos químicos e fazendo ela mesma a mistura, seguindo a receita que vira o marido tantas vezes preparar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A viagem da Senhora Benz foi a primeira viagem da História feita em um veículo movido por motor a explosão. Antes dela ninguém andar mais do que algumas centenas de metros, sempre em recintos fechados. E não foi qualquer viagem, foram 106 quilômetros (mais ou menos dois terços da distância do Rio de Janeiro a Juiz de Fora).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por incrível que pareça, ela não fez isso por mero capricho: ela tinha um objetivo: além de visitar os pais, &lt;b&gt;divulgar a invenção do marido&lt;/b&gt;. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nisso ela foi extremamente bem sucedida: o escândalo que ela causou, as notícias de jornal, tudo contribuiu para popularizar o conceito de automóvel. Bertha Benz não foi a primeira mulher motorista, foi a primeira motorista.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-3577398674450396533?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;p&gt;Começa-se, portanto, com um conceito vago, baseado na palavra mágica que a todos seduz: mercado, esse deus (ou monstro) de muitas mãos e cabeças que, supostamente, regula o valor das coisas e das pessoas (e efetivamente iguala ambas as categorias em uma só, embora as segundas sempre fiquem num patamar ligeiramente secundário, por não serem tão maleáveis e nem tão adaptadas). Acima de tudo, o curso se baseia na ideia de que a escrita tem que ser &lt;i&gt;para o mercado.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quando se parte de uma quimera como essa, fica difícil chegar a algum lugar.&amp;nbsp;Mas esta dúvida se dissipa quando vemos o que é que se ensina. A simples leitura do currículo de certos cursos deveria ruborizar quem os fez, mais ainda quem compra. Se o rótulo de um remédio tivesse a inscrição «placebo ineficaz e amargo que não vai curar seu fígado» e as pessoas ainda insistissem em consumi-lo, isso seria vergonhoso. As matérias incluídas em tais currículos partem de coisas como «gêneros de escrita», «estruturas de enredo», «escrita descritiva», «protagonista e antagonista», «projetos de publicação», «outlining» etc. Obviamente os cursos de «escrita criativa» não incluem a criatividade no plano de curso, apenas técnicas, «macetes», «dicas», «toques». Como dizia Raul: «Enquanto Freud explica as coisas, o diabo fica dando uns toques…»&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Não vou aqui fazer afirmativas peremptórias de que «talento não se ensina». Não tenho tanta certeza disso, apenas de que é impossível ensinar talento com o currículo destes cursos de escritores. Uma certeza limitada é sempre mais segura que uma negativa plana e abrangente. Não pretendo terraplenar o mundo de acordo com os meus conceitos. Apenas acredito que nada tenho a aprender e que, para as pessoas que acham que aprenderão alguma coisa, provavelmente já é tarde demais para aprender.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tarde demais porque já adquiriram muitos vícios, tarde demais porque não tiveram boa formação de leitura durante a infância, tarde demais porque acreditam que a fórmula do sucesso reside na ingestão de uma fórmula. São pessoas com mente de apertador de botões, que acham que seu cérebro possui os botões certos para serem apertados e produzirem um livro genial.&amp;nbsp;Cada um de nós é o produto da gradual transformação, piora ou aperfeiçoamento daquilo que aprendeu, sentiu e viveu quando era ainda criança. Mas as técnicas pseudocientíficas da auto-ajuda sempre insistirão que «nunca é tarde», que se pode «recuperar o tempo perdido» pagando um supletivo, etc. Não se recupera tempo perdido. Tempo passado é tempo esgotado. Tempo é irremediável.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Imagino, porém, que tais cursos não se destinam aos despossuídos das letras, mas a pessoas que já sabem escrever alguma coisa, que apenas querem evoluir. Nesse caso fico mais inseguro. Obviamente, se o curso for frequentado apenas por pessoas que escrevem desde a infância, existe uma tendência a que os formados exibam qualidades literárias evidentes. O fato de terem aprendido a pontuar melhor as frases, dar uma organizada no conteúdo ou apresentarem sua obra devidamente empacotada e pesada (em número de páginas, palavras e capítulos) faz com que tenham a ilusão de que se tornaram escritores melhores. Mas seria justo atribuir mérito ao curso pelo talento que os autores já tinham antes?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Não creio, porém, que haja em suficiente número pessoas que sabem escrever. Um curso dirigido apenas a tais pessoas teria poucos alunos, tão poucos que não se sustentaria. Maior é o número das pessoas que apenas acham que sabem escrever alguma coisa. Parece-me mais provável que este seja o público alvo. Amestrar tais pessoas na arte de construir frases mais claras, distribuir seus conceito em capítulos e organizar suas ideias em sinopses apenas refinará aquilo que elas não possuem: conteúdo. Da destilação deste vazio poderão apenas sair obras vazias, que ajudarão a submergir na massa de sua insignificância a literatura do mundo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Não quero, de maneira alguma, parecer arrogante, mas um outro ponto que me preocupa em tais cursos, mais até do que o currículo, é o mestre. Todos sabemos que um professor capacitado pode dar uma grande aula, mesmo com um currículo produzido por um inepto. Portanto, a salvação do curso pode estar no nome de quem seja escolhido para dar as aulas. Não vejo tal nome apregoado como o grande &lt;i&gt;plus&lt;/i&gt; desse curso. Certamente o mestre não é alguém significativo, porque se fosse pelo menos alguém dotado de notoriedade, ou de um currículo respeitável, estariam imprimindo seu nome em letras vermelhas, negrito, tamanho 48. Que tenho eu para aprender da boca de um anônimo como eu, utilizando um currículo que não me inspira confiança alguma?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Se o professor, mais que alguém com renome, fosse de reconhecido talento, eu nem ligaria para o currículo. Ouvir um autor competente falar sobre abóboras durante vinte minutos ensina mais do que um ano de curso com um professor de português preocupado com a colocação pronominal e que acha que o brasileiro não sabe falar (para estes curiosos espécimes, o povo seria uma criatura simiesca, que precisa ir à escola aprender uma língua de gente). Um diploma sobre abóboras assinado por Carlos Drummond de Andrade é muito mais currículo, para mim, do que uma pós-graduação em Letras Anglo-Saxônicas por uma dessas faculdades &lt;i&gt;fast-food&lt;/i&gt; que pulularam por esse país de trinta anos para cá. Tenho muito a aprender, mesmo que seja só sobre abóboras, com muitos autores que ainda estão vivos. Não tenho nada a aprender sobre «escrita comercial» com um professor de literatura. Escrita comercial eu aprendi no curso noturno de Técnico em Contabilidade, no Colégio Cataguases, turma de 1990.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-712111950643660678?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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com muita vontade, com máquina fotográfica e a esperança de ver na face do vale
a pegada da civilização. A montanha estava à nossa espera ali, onde sempre
estivera, sua face sul vincada como um punho erguido, desafio aos nossos pés
acostumados a planícies. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;A trilha ondeava como uma veia rosada a romper o
verde grosso da floresta original, que se estendia sobre nós a ponto de, às
vezes, não termos a cor do céu para medir as horas. Chovera um pouco durante a
subida, essa chuvinha fina que mal molha o chão. Normalmente um grupo como o
nosso pararia, mas enquanto as pernas não doíam nem as botas machucavam, nossas
almas imploravam pelo fim da sufocante trilha.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Nove
horas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Caramba, parece uma eternidade. Meus pulmões estão
começando a queimar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Não tenham medo, gente &amp;mdash; esclareceu o
guia, quando não der mais para subir a gente para e descansa meia
hora.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Se eu parar por meia hora tenho que voltar
rolando.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Todos riram. Todos voltariam rolando se parassem meia hora. Mas
enquanto ainda tínhamos fôlego e tempo, seguimos subindo a passos cada vez mais
espaçados, pela trilha enforcada de tanta árvore, como formigas escalando um
muro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Vamos parar, pessoal &amp;mdash; pedi, depois que o ar quase
faltou quando meu peito o pediu. O coração bombeava com uma força de tambor em
meus ouvidos e eu só não suava porque estava ainda fresco da manhã recente,
naquela mata onde raramente o sol pousava.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O guia se aproximou, me deu a
mão, ajudou-me a terminar de subir mais um barranco e descortinamos um
descampado um pouco mais tranquilo no altiplano.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Podemos parar
agora, são nove e dez. Saímos de novo às nove e meia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De um grupo de doze
pessoas ouviu-se uma voz ou outra resmungando. O silêncio aliviado de outras dez
ou onze sufocou qualquer reclamação.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Peguei minha garrafa de água e sorvi
um gole longo, «camelídeo», como costumava dizer Estefânia, que o diabo a tenha.
Bebi mais meia garrafa, desejando que fosse rum, mas era só água mineral
gasosa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O guia aproveitou a parada para rever os planos:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash;
Temos já cinquenta e quatro minutos de caminhada. Já percorremos quatro
quilômetros e setecentos e vinte metros e subimos cento e noventa metros acima
do nível do vale.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eram números impressionantes, mas abstratos. Eu não
tinha ânimo para questionar o que ele dissesse. Fossem quatro quilômetros ou
doze eu não conseguia mais distinguir se estava certo. Só tinha a impressão de
que cento e noventa metros parecia muito pouco: era como se tivéssemos subido
até as grimpas das montanhas da serra, mas estávamos ainda arranhando o sopé de
uma delas, nem sequer a maior, apenas a mais próxima.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Vamos, vamos
&amp;mdash; interrompi meus doloridos pensamentos por causa das palmas batidas pelo
guia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sacudindo a parca mochila nos ombros, pus-me à vontade para caminhar
de novo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Continuamos subindo, agora bem mais devagar. No novo passo que
adotamos teríamos andado os mesmos quatro quilômetros em um tempo quase duas
vezes maior. Mas a montanha ficava cada vez mais a pique diante de nós, eu já
temia pelo momento em que teria que usar uma corda. Montanhas são cruéis,
guardam seus trechos mais difíceis para quando os ossos já estão falhando. E as
escaladas são como dizia o cantor: «quando o cansaço e a estafa bater, o sol do
meio-dia espera você».&lt;a href="#1"&gt;*&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eram dez e quarenta quando o primeiro de nós
começou a passar mal, um turista gringo de cabelo cor de cenoura que falava um
português quase bom, mas puxava um esse carioca que soava sempre engraçado.
Quando ele desmaiou e o guia correu para acudir eu me lembrei do quanto fora
relapso no &lt;em&gt;briefing&lt;/em&gt; antes da subida. Fôramos apresentados, um a um, por
nome e profissão. Cada um confessara quantas vezes antes escalara, e que tipo de
montanhas. Calhara de ser o primeiro e, depois de me abrir o mínimo possível,
gastara o resto do tempo contemplando as copas verde-negras das árvores
centenárias, de troncos grossos e nomes arcanos que eu ainda não consegui
decorar. Então o gringo desmaiou e eu, que fui o primeiro a ver, não pude sequer
lembrar seu nome e apenas gritei:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Tem alguém passando mal
aqui.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Senti-me culpado por isso. Imaginei que, do além, ficaria bastante
chateado se no meu velório os meus colegas de trabalho apenas comentassem «tem
um morto ali». Quando ele começou a voltar a si, resolvi compensar minha falta
de tato com um gesto de consideração. Aproximei-me do cabeleira de cenoura,
perguntei se estava bem e pedi-lhe que me confirmasse seu nome. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não sei o
que ele me respondeu. Seja qual for o nome pelo qual seus pais o chamaram quando
o registraram em algum cartório da Holanda ou da Bélgica, não foi um nome
reconhecível pelos meus ouvidos interioranos. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Bem, você tem algum
apelido mais fácil de pronunciar? Posso, por exemplo, chamá-lo de Hans?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O
cabeleira de cenoura sorriu timidamente, esse sorriso curto e envergonhado que
os gringos têm quando estão tentando enturmar-se:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Hansh não é meu
apelido de verdade, mash acho que você também terria dificuldadesh com meu
apelido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tive mesmo. A pronúncia parecia fácil, mas não consegui repetir
nenhuma vez sequer direito. Diante da ameaça de ser chamado de «Cenoura» o
gringo preferiu ser chamado de Hans.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ajudei Hans a se manter de pé depois
que o guia o largou para organizar mais um pouco da subida. Ele reclamava de
dores nas pernas, certamente câimbras como as minhas. Mas ainda tinha vontade de
subir mais.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Dez e quarenta e cinco, dez e quarenta e cinco &amp;mdash;
alertou-nos o guia &amp;mdash; descontando uma parada de vinte minutos e mais dez
minutos desta, pelo meu relógio, temos uma hora e quinze de caminhada total.
Nesse tempo nós percorremos seis quilômetros e meio, e subimos duzentos e
sessenta e sete metros, pelo meus cálculos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Quantos metros tem
mesmo essa montanha da peste? &amp;mdash; perguntou uma voz com vago sotaque
nortista ou nordestino.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Quinhentos e setenta e quatro &amp;mdash;
informou-nos o guia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma vaga de desânimos se manifestou em suspiros,
resmungos e bocejos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Sem drama, gente &amp;mdash; provocou o guia
&amp;mdash; porque se fosse fácil, todo mundo vinha.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tentei calcular
mentalmente quantos grupos de turistas não tentavam aquela mesma escalada todo
mês. A trilha era tão larga e limpa que parecia que um exército espartano subia
e descia por ela todos os dias &amp;mdash; mas não encontráramos ninguém mais,
talvez fosse a época do ano.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Vamos fazer outra
parada?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Resmungos e murmúrios de assentimento apoiaram a sugestão. O guia,
então, consultou o seu bom-senso e recomendou que sim. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Todo mundo
repondo líquido e comendo &lt;em&gt;uma barra de cereal, &lt;/em&gt;somente uma.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O
estalar de doze invólucros de barras alimentares xexelentas perturbou o
silêncio, sufocando o pio dos pássaros. Quinze minutos depois, com os músculos
alongados e os ânimos melhorados um pouquinho, a subida recomeçou.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Era
difícil conversar, tendo que fornecer alento a um corpo tão precário em uma
jornada tão difícil. Hans pareceu entender o meu silêncio lendo a careta em meu
rosto. Ele também não parecia nada bonito com as suas sobrancelhas amarelas
pingando gotas grossas e cada ruga precoce de sua pele de pergaminho preenchida
de sal e suor. Pobre Hans, vindo de um país onde não há montanhas, o que faz
aqui nessa terra onde as planícies se esgueiram com tanto medo por entre os
morros?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Atingíramos um trecho quase horizontal do caminho, que parecia
circular em torno do pico como uma linha enrolada no carretel.  Não poderia ser
de outra forma: à nossa direita a rocha se erguia como uma parede. Andávamos com
as pernas soltas, ousadas, mas já sabendo que teríamos à frente outra subida
malvada. Mesmo andando assim os nossos pulmões andavam carregados de fogo e Hans
suava muito mais do que antes.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Isso porque saíramos do mato e estávamos ao
sol, seguindo por uma estrada que riscava em torno do morro e nos expunha à
claridade impiedosa. A pedra esquentava e um mormaço desconfortável nos fazia
querer ficar longe dela, mas a trilha era estreita e o parapeito, inconfiável.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Começou a ventar. Um vento fresco de outono, mas mesmo assim um vento que
não nos confortava muito. Vinha em guaspadas decididas, súbitas, surpreendentes.
Assobiava nas folhas e nas gretas como uma gaita dos infernos.  O vento vinha do
sul-sudoeste, um sinal sempre péssimo. Vinha chuva. Chuva longa, chuva fria.
Chuva para dias. A descida prometia ser pior que a subida, a menos que chovesse
logo, e a subida ficasse tão ruim quanto possível.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Ninguém olhou a
previsão do tempo, gente? &amp;mdash; questionei em voz alta.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O guia gargalhou
e perguntou, querendo fazer graça:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; E por causa de uma chuvinha
besta a gente deixava de subir essa montanha linda?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Disse isso arrancando
uma flor de capim e tentando parecer leve na subida, mas não teria conseguido
imitar nenhum passo de bailarino. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Vamos voltar!? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash;
Por que, Antônio? Sei que lá no Ceará não chove muito, mas não precisa ter medo,
que não faz mal! &amp;mdash; o guia começava a parecer impertinente, querendo que
subíssemos de qualquer jeito.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Ele tem razão &amp;mdash; interrompeu o
Hans &amp;mdash; em qualquer lugar morro abaixo estarremos sem prroteção contrra a
chuva. Deve haver um abrrigo mais adiante.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Hans estava certo, claro.
Descer só parecia melhor porque a alma da planície sempre pensa que uma desgraça
em baixa altitude é melhor do que num píncaro. Andamos então com o passo mais
justo, tentando vencer logo aquele trecho maldito e exposto em que a trilha
bordejava a pedra nua. Mas foi em vão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A chuva se formou com uma rapidez
que deu até medo. Logo nuvens pesadas se formaram no horizonte, e o vento as
trouxe para abraçar a montanha. O dia foi ficando escuro, os passarinhos calaram
seus bicos no fundo dos ninhos, o vento foi ficando forte, arrancando
pedregulhos, arrastando folhas pelo chão, arrepiando nossas nucas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash;
Valha-me Santa Bárbara! &lt;/p&gt;&lt;p&gt;A visão do vale se dissolveu na névoa. De repente
trovões se ouviram perto, muito perto. O ar coriscou subitamente e o assobio
gorgorejante do vento nas locas e gretas do rochedo pareceu ainda mais
mefistofélico que antes. Desgraçou a chover assim como se tivessem aberto uma
torneira. Chuva gelada, misturada com granizo fino e com um vento que batia
cordas de chuva contra a pedra, nos empurrando e empapando. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Não
tem para onde ir aqui &amp;mdash; berrou o guia, no meio da borrasca &amp;mdash; temos
que continuar subindo porque mais a frente tem um acampamen....&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Outro
trovão, dessa vez mais violento ainda. Meus ouvidos doíam, minha pele estava tão
gelada que minhas roupas pareciam quentes, mesmo molhadas da mesma água. Cada
pelo de meu corpo de eriçara, eletrificado, pavoroso. Trovões, trovões, e a
chuva ficando quase tão densa que era difícil respirar sem por a mão diante das
narinas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;mdash; Todo mundo dando as mãos, e vamos devagar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Todos
aconchegados na proximidade segura da pedra. Todos andando com as botas repletas
de água, rangendo como queijo verde no dente.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nenhuma onomatopeia descreve
aqueles trovões, nenhum adjetivo serve para tanto relâmpago. Além de nossos
próprios medos, só conseguíamos escutar a tempestade, e enxergar dois ou três
metros diante do nariz. Estávamos dentro de uma nuvem de chuva, enfrentando os
raios de bem perto.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por fim chegamos a um lugar escuro, que depois
soubemos ser a sombra de um pau-brasil secular. Ali os &lt;i&gt;hippies&lt;/i&gt; costumavam
acampar. Era o último lugar da montanha aonde se podia chegar em um veículo:
quem fosse bastante louco poderia subir até ali em uma moto ou triciclo. Ali
haviam construído banheiros, captavam água de uma nascente e serviam-na num
tanque. Ali havia um galpão permanente, onde os guias de escalada mantinham
algum equipamento.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Debaixo do galpão, no seco e ao abrigo dos relâmpagos,
começamos a pensar em secar os nossos corpos. Apareceu um fogareiro e outro,
acenderam logo uma fogueira. Logo o lugar estava mais aconchegante, mas ainda
ficamos mais de meia hora tiritando, alguns espirrando, outros tossindo, todos
certamente resfriados até o último poro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O aguaceiro despejou ainda
durante uns dez minutos, depois se reduziu a uma chuva dessas que fazem a gente
dormir na roça, depois uma neblina fina que apenas enodoava o horizonte. Até que
passou a água e ficou a umidade, ficou o frio. Eram mais de uma da tarde quando
finalmente o sol reapareceu.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Saímos do galpão ainda sacudindo água dos
cabelos, como cachorros recém lavados. O sol era melhor do que qualquer
fogueira, mesmo um sol ainda atenuado por tanta nuvem. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;A chuva dera um
banho de cores em tudo quanto era mato ou flor. O vermelho das pétalas parecia
mais aceso, mais líquido, mais feito. Cada folha gotejava, cada lâmina de capim.
Tanta beleza justificava as câimbras todas. Hans sacou de sua máquina, ainda com
os dedos molhados e as sobrancelhas parecendo tufos de flores. Mirava e
disparava sem pensar direito, como se achasse tudo belo, até a lagartixa que
botou a cabeça para fora de sua loca.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Então nos demos conta da fome.
Aquecemos nossas pequenas refeições nos fogos que tínhamos e comemos em silêncio
respeitoso diante da natureza. Quando o tapete de neblina de dissolveu,
finalmente, pudemos ver as cicatrizes da infestação humana nas montanhas mais
distantes. Mas isso não diminuiu a beleza de nenhuma flor sequer, somente nos
fez temer melancolicamente por cada uma delas.&lt;/p&gt;
&lt;div class="fnote"&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="1"&gt;*&lt;/a&gt; O verso é de uma canção do 
mineiro (como eu) Zé Geraldo.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-6238747478099216530?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;pre class="poem"&gt;Temo ferir o teu viço
com os espinhos que adquiri.
Talvez a dor, no entanto, a faça ver mais cedo
o que tão tarde eu descobri:
não há salvação sem a verdade,
não há destino sem partilha
e não há felicidade,
absolutamente.

Mas isso não quer dizer somente
que estou insensível: 
não o ouso dizer, apenas digo.
Preciso de um clarão no horizonte,
e de calor em minhas mãos,
mas isto só se acha onde
eu ache algo que não caiba em mim.

Não fui sempre este estranho,
sou o que me fui tornando.
Não quero mais unir-me ao mundo
com toda sua ânsia.
Caminho só por entre as pessoas
como um romeiro anônimo de um santo antigo,
atravesso pontes como um cão mutilado
em uma estrada hostil,
como uma formiga entre os doces da festa.

Insignificante,
ignorado,
incomunicável.

Como exigirei que se solidarizem com meu absurdo?
Não posso sequer exigir que alguém fique.
Eu sei que já era assim quando você me viu,
mas não precisa ficar mais, pode fingir que descobriu
porque eu sei que os olhos do amor escondem muito.

Não, não vou mudar. Ninguém muda ninguém. Ninguém muda.
Todos apenas se tornam cada vez mais aquilo que vão ser.

Mas como não sei viver nas trevas e sem nada,
como não sou bom adivinho, nem Teseu no labirinto,
nem artista de circo e nem gênio de caricatura,
vou seguindo a trombar entre ilusões, como a sua.

Ah, é esperar demais de mim, você pedir que eu
lhe demonstre mais afeto.
Não tenho tanto amor assim:
Amor é algo tão restrito, tão pequeno,
tão pouco nesse mundo, tão oásis. 
Como você quer que eu tenha em abundância
o que serve de lenda e consolo para todos,
mas não brota como um pasto pelo chão,
mas sim como um cacto nas cinzas.

Ah, é esperar demais de mim, você pedir que eu
lhe demonstre mais afeto.
A nudez dos sentimentos é pior que a do corpo.
Que pouca é a vergonha que você acha que eu tenho!

Ah, não. Não é que eu insisto em feri-la.
Não sou ferino como você acha,
Apenas quero ilusões seguras
como a de não amá-la.&lt;/pre&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-6116592556474588581?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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Como de todas as outras vezes, me restou o queixo caído e uma profunda inveja. Inveja positiva, não essa inveja que tenta apagar o sol alheio que incomoda sua treva pessoal. Tive deixar-lhe um comentário, que aqui reproduzo.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Felipe, eu não preciso repetir o que penso de sua obra. Você sabe muito bem que, em certos momentos, eu quase tenho vontade de lhe pedir um autógrafo. Este conto foi um desses momentos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um autor se torna grande quando consegue escrever uma grande obra sem ter uma "grande" história. Um autor pequeno vai procurar escrever, no mínimo, sobre o fim da civilização ou a destruição até de um universo. Seus personagens precisarão ser fisicamente gigantes para esconderem a pequenez de sua alma.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas o grande autor não precisa de histórias 'grandes' e nem de 'grandes' histórias, ele engrandece as histórias que escolhe contar, mais ou menos como o músico habilidoso que pega um tema popular e o transformar em uma sinfonia. Não pense encontrar nada parecido com as Rapsódias Húngaras de Liszt no folclore da Hungria, nem que os caipiras toquem rabeca e viola como em uma bachiana de Villa-Lobos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esse seu texto é absolutamente um exemplo da razão pela qual eu acho que você é, ou ainda será, um grande autor. Não existe absolutamente NADA nele além de seu talento. Ninguém morre, ninguém nasce, nenhuma civilização desaparece, nenhum vampiro se transforma em lobisomem ou coisa parecida. Está o leitor apenas diante dos meandros de sua alma sofisticada e das histórias absolutamente banais, porém universais, que você capta no dia a dia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Essa sua característica tem algo de Machado de Assis. Sua ficção evoca fortemente o melhor da obra machadiana no aspecto do romanceamento do nada ou do quase-nada. Se você não prestar muita atenção à leitura de Dom Casmurro poderá achar que é apenas a biografia de um resmungão que nada viveu. O mesmo se passa com esse seu conto, entre tantos outros: somente quem lê com talento (é preciso um certo talento para ler) perceberá as minuciosas mudanças e tragédias que ocorrem no fundo da alma dos dois personagens.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A incompreensão de seu protagonista também me evoca o Mersault, d'O Estrangeiro, que matou um desconhecido porque "o sol estava quente". Este estranhamento do homem em relação à própria vida, e à alheia. Todos os seus personagens são absolutamente trágicos, mas não precisam matar e nem matar-se para isso: o modo como vivem é a própria tragédia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Parabéns por este conto, e confesso que já estou começando inconscientemente a me tornar seu imitador.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-5392620751414512878?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iaHipi-7H0NxXn0GwPVNYEM3HnU/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iaHipi-7H0NxXn0GwPVNYEM3HnU/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iaHipi-7H0NxXn0GwPVNYEM3HnU/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iaHipi-7H0NxXn0GwPVNYEM3HnU/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/letras-eletricas/~4/KGGM9cFeytg" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://letras-eletricas.blogspot.com/feeds/5392620751414512878/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6932025654517629434&amp;postID=5392620751414512878&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/5392620751414512878?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/5392620751414512878?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/letras-eletricas/~3/KGGM9cFeytg/gente-que-leio-felipe-holloway.html" title="Gente que Leio: Felipe Holloway" /><author><name>Jose Geraldo Gouvea</name><uri>https://profiles.google.com/100228697763293739064</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="32" src="//lh5.googleusercontent.com/-A5R0QpMyLKo/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/IIUKEKFTwLw/s512-c/photo.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://letras-eletricas.blogspot.com/2012/02/gente-que-leio-felipe-holloway.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;A0ECRnkzeSp7ImA9WhRaFkg.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6932025654517629434.post-1436587062130979157</id><published>2012-02-19T11:53:00.001-02:00</published><updated>2012-02-19T11:54:27.781-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2012-02-19T11:54:27.781-02:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="pesadelo" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="apocalipse" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="romances" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="ficção-científica" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="solidão" /><title>Guardai-nos do Mal</title><content type="html">&lt;div class='TOC'&gt;&lt;p&gt;Prólogo para um romance de ficção científica iniciado em 1999, que eu nunca procurei terminar porque descobri que J.G. Ballard já havia escrito uma história parecida demais.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;As ruas são perigosas. Sair de casa envolve sempre riscos. Por isso procuramos fortalezas, compartimentos isolados para nossos sonhos estanques. Moro em um edifício preparado para isso. Nele moram comigo cerca de mil pessoas, mais ou menos, todas em apartamentos parecidos, de duas ou três peças. Moramos aqui há mais de quinze anos e mesmo depois aqui ainda estão os que não moram mais: em uma necrópole subterrânea geometricamente organizada. Moramos aqui e mal saímos. Trabalho e lazer podem ser achados aqui mesmo: escritórios, ginástica, locadora de filmes, parque aquático coberto, salão de jogos, restaurante, lanchonete, bar dançante, café, salão de beleza, parquinho infantil, lojas de conveniência. São vários os tipos de empregos que podemos ter, graças à internet, trabalhando na segurança de nossos cubículos pessoais. As antenas que nos conectam ao mundo ficam num último andar tão fortificado que é mais fácil chegar nele de helicóptero do que por elevador ou pela escada. Obviamente nem todos têm a sorte de trabalhar dentro de casa: os que se dedicam a atividades braçais precisam sair, outros saem porque já não confiamos que os de fora entrem trazendo-nos entregas de comida, remédios ou outras coisas. Faz quinze anos que este prédio existe, investi nele economias de duas vidas: a minha e a de minha mulher. Tenho quarenta e seis anos, nenhum filho, um emprego péssimo.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sou guarda de segurança. Agora sou guarda de segurança. Escolhi este emprego, talvez na espera de que o risco de morrer me faça querer viver melhor. Melhor, não mais. Saio de casa diariamente, quando o sol já está descendo pelo horizonte como uma bolha de ar em uma janela manchada de sangue, do sangue de Joana, do sangue que espirrou de seu peito. Joana, meu mais precioso tesouro, guardado devidamente numa urna de prata, selada com cera, no fundo de uma gaveta, no fundo de meu coração. Sou guarda de segurança, desde que não consegui proteger Joana.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Digo que «saio», mas não exatamente assim. Um túnel me conduz do térreo a uma estação de metrô. Vários túneis, vindos de outros grandes prédios, que se erguem como uma floresta de árvores sem galhos no planalto. Edifícios para assalariados, como o meu, não são mais construídos a torto e a direito, mas apenas onde chega a linha subterrânea, cada vez mais difícil de expandir. A estação quase nunca está cheia, raramente está deserta. Sei que todos os que nela aparecem são controlados e escolhidos, observados e medidos. Mas quando ela está vazia eu tenho medo de olhar no rosto de quem esteja lá comigo. Tenho medo porque o mal pode ser tanto um mendigo quanto um vizinho. Mendigos tem olhares perdidos e mentes amargas. Vizinhos têm armas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O trem sai da estação e passa por um pátio ferroviário imenso, onde se encontram trilhos que vêm de outros lugares, levando gente como eu, e gente diferente. Os trilhos eletrificados com milhares de volts impedem que os fantasmas que perambulam pelos pátios, sob a luz cancerígena do sol, tentem entrar. Os trens têm anteparos de metal, desenhados para erguer e atirar para o lado os obstáculos que podem ficar sobre os trilhos. Só raramente vejo algum, quase sempre tenho pena.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mendigos, prostitutas e marginais se aglomeram por ali, agitando bugigangas, braços e armas na esperança de fregueses, clientes, vítimas. Meu trem não para nestas estações externas, suas janelas à prova de bala estão sempre cerradas. Mas há os outros trens, vindos dos bairros pobres, com janelas quebradas, com a obrigação de parar em cada estação. Eles fornecem a razão de ser destas pessoas que se derretem sob o sol.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A cidade hoje é muito diferente do que era no século em que nasci. As largas avenidas não existem mais. O trânsito não funciona mais. O louco que tentasse utilizar um veículo de superfície pelas ruas não chegaria longe: ou seria vítima de uma colisão, pois já não há sinais nem regras, ou será atacado por facínoras. Não há mais um mercado para carros roubados, mas o motorista pode ter uma moeda no bolso, para justificar a bala que o bandido atira, e o metal da máquina vale algo para a reciclagem. Nem se comente o que pode acontecer a tal incauto se esbarrar em um dos milhares de pedestres que vagueiam por todo lado sem seguir a mais simples regra de bom senso: estranhos frutos pendem, às vezes, das raras árvores, frutos que frequentemente dão também em postes. Mesmo sobrevivente a todos esses contratempos, o infeliz que tente brincar de motorista não chegará ao fim da viagem na posse de todos os seus bens, quiçá nem de suas roupas. Então, tragédia maior, sem seus trajes cidadãos, seus documentos, seu cartão, seu crachá… Como poderá provar que pode entrar nas zonas reservadas, retornar à própria casa?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os únicos veículos que andam pelas ruas pertencem à própria gente que nela ainda vive. O tráfego é irracional e os acidentes acontecem o tempo todo. Discussões e dúvidas se resolvem a bala ou a faca. Veículos inutilizados são abandonados pelas calçadas, depenados até os ossos de metal ficarem sob o sol, depois serrados aos pedaços, como a carcaça de um animal grande atacado por formigas carnívoras.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No passado a polícia ainda vinha buscar os raros e ousados criminosos que rompiam os sistemas de segurança. Mas isto foi ficando cada vez mais difícil, a ponto de cada agente ter que vir debaixo de uma armadura. Mesmo em grupos e portando armamento pesado era frequente que voltassem carregando um cadáver. Essa dificuldade de abordar o habitat dos bandidos levou à solução natural: cercas melhores e a ordem de matar quem não esteja autorizado a estar onde esteja. A ordem é que o bandido não chegue e voltar, assim não é preciso ir buscar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eu me lembro vagamente, quando ainda era uma criança, de uma época em que as casas tinham portas para as ruas e era possível chegar em todos os lugares. As pessoas costumavam usar bicicletas móveis como transporte: eu mesmo tinha uma prometida para quando meu pai ganhasse um aumento. Mas o agravamento da situação levou o governo a isolar certas áreas das outras, criando fortalezas cada vez mais densas. Compartimentos cada vez mais estanques. A única área livre onde se pode ainda ter a sensação de andar pelas ruas é o centro. Ele foi cercado por um muro alto de pedra, envolto por um campo minado, com guaritas de segurança e luzes fortes. No centro ainda se pode andar por ruas, mas não em bicicletas móveis: há muita gente que precisa andar, muito transporte. Não há espaço para isso, seria estranho perder pedalando um tempo que poderia ser cortado ao meio ao pegar a esteira certa e o elevador direto. Ninguém por lá anda a esmo: todos têm uma direção e cada um conhece o seu caminho, o seu restaurante. Mesmo no centro é relativamente perigoso andar à toa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas se você for rico o bastante, poderá alugar um carro elétrico, com uma carroçaria que imita os antigos sedãs de luxo, e fazer um passeio, romântico ou familiar, pelos parques e praças. Alguns ao lado do centro, outros um pouco mais longe, mas unidos a ele por estreitas passagens por onde se pode ter a antiga sensação de dirigir em uma rodovia sob o sol. No parque ainda se pode tomar sorvete, pedalar no lago um barquinho em forma de cisne, sentar à sombra de uma árvore e desfrutar de minutos relativos de silêncio. Anualmente faço isso. No silêncio entre as árvores escuto a voz de Joana, lembro de quando nos conhecemos num parque desses, numa época em que ainda era aberto.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pouca gente vive no centro. Somente alguns saudosos do passado, que querem ter a sensação de um jardim privado, de uma varanda para a rua ou da contemplação do trânsito. Custa caro, o conforto é menor que em qualquer apartamento, mas os que ainda insistem dizem que vale a pena. Eu pagaria o aluguel de uma dessas casas antigas se pudesse, para ter meu próprio carro elétrico na garagem, um canteiro de rosas na frente e uma churrasqueira no fundo para passar domingos em família. Pagaria se tivesse uma família. Nenhum aluguel seria caro para isso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em vez disso eu vivo nas entranhas de um edifício sem alma. Para onde volto cada noite em busca do fantasma de Joana. Volto, deito-me na cama sem fechar a janela e tento sentir o frio, deixo a luz acesa para dissipar a treva. Não sei aonde pode estar Joana, certamente não em meus sonhos. Trabalho com estranhos, minha tarefa atirar nos que tentam entrar. Tenho vergonha deles, tenho vergonha disso. Guardo meu uniforme num armário no serviço para que ninguém veja o que sou. O monstro que sou. Não salvei Joana, mas mato os sonhos de outras pessoas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não sei quanto tempo ainda vou aguentar. A alegria é uma bolha de ar que já chegou no parapeito da janela. O sangue de Joana escorre lentamente, me lembrando que em breve eu vou também, e não haverá nenhum Paraíso para mim, monstro que sou. Arrasto minha carcaça pelo mundo, por entre corações vazios e olhares gelados. Solitário. Essas pessoas me olham como quadros nas paredes. Mas seus olhares me seguem, às vezes, fazendo-me sentir que estou nos corredores de uma mansão mal assombrada. Um coração sem resposta, um homem sem filho, sozinho com suas lembranças. Talvez essas pessoas me reconheçam. E nenhuma sequer me odeia.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-1436587062130979157?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/jwuQVPNFiyTLwpih3vvVMwDEtjY/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/jwuQVPNFiyTLwpih3vvVMwDEtjY/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/jwuQVPNFiyTLwpih3vvVMwDEtjY/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/jwuQVPNFiyTLwpih3vvVMwDEtjY/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/letras-eletricas/~4/prGsPZcxRd4" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://letras-eletricas.blogspot.com/feeds/7416669043709252282/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6932025654517629434&amp;postID=7416669043709252282&amp;isPopup=true" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/7416669043709252282?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6932025654517629434/posts/default/7416669043709252282?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/letras-eletricas/~3/prGsPZcxRd4/tesouros-da-juventude.html" title="Tesouros da Juventude" /><author><name>Jose Geraldo Gouvea</name><uri>https://profiles.google.com/100228697763293739064</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="32" src="//lh5.googleusercontent.com/-A5R0QpMyLKo/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/IIUKEKFTwLw/s512-c/photo.jpg" /></author><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://letras-eletricas.blogspot.com/2012/02/tesouros-da-juventude.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CU4FRHw9eip7ImA9WhRaEks.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6932025654517629434.post-6859156627982490738</id><published>2012-02-14T21:45:00.000-02:00</published><updated>2012-02-14T21:58:35.262-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2012-02-14T21:58:35.262-02:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="drogas" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="mau gosto" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="bobice" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="surrealismo" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="auto-ajuda" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="livros" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="cultura" /><title>Atentado Violento ao Leitor</title><content type="html">&lt;p&gt;Dei-me conta disso por causa de um desses movimentos literários altruístas e anticapitalistas que surgiram por aí. Acho que o nome é «Doe um Livro», ou coisa parecida. Eu estava esperando em uma fila de banco, ocasião em que o bom gosto fica seriamente comprometido e você pode se pegar lendo com interesse o verso de sua fatura de cartão de crédito ou uma brochura publicitária esquecida por um cliente que foi embora. Estava eu justamente desesperado em busca de letras para ler quando uma moça bonita, apesar do estranho &lt;em&gt;piercing &lt;/em&gt;negro em seu nariz, que parecia um troço de catarro, me ofereceu um livro.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não, obrigado — recusei educadamente como minha mãe me ensinou a fazer da primeira vez para toda e qualquer oferta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Por favor — insistiu a garota com um sorriso de teclado de piano, ou melhor, de sanfona, porque o seu rosto não parava quieto em cima do pescoço.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Mas… você está… me &lt;em&gt;dando&lt;/em&gt; o seu livro…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Oh, sim. Por favor, não estranhe.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Então ela me falou uns três ou quatro minutos sobre seu movimento de difusão da leitura, sobre a ideia de comprar o livro, ler e depois dar para alguém ler. Acho que era «Esqueça um Livro», ou algo assim, esqueci…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Recebi o livro, cuidadosa e femininamente encapado em plástico vermelho, com uma falta de jeito provinciana. Acho que jamais na minha vida um estranho me dera qualquer coisa além de motivos para desconfiança.  &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas enquanto o recebia notei o olhar fuzilante do segurança em nossa direção, verdadeiro agente da repressão ignara, pronto para confiscar a obra ou para dizer que tínhamos de consumi-la em leitódromos cuidadosamente controlados. Ele veio andando em nossa direção, deixando balançar na cintura o grosso cassetete preto, mais volumoso que os braços de cigarra da garota sorridente e irriquieta. Que se levantou apavorada, uma traficante surpresa pela visita da viatura. Ela se misturou entre os clientes, aproveitando-se de sua estatura de ninfa, e nunca mais a vi.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O guarda chegou perto demais, e me abordou com uma voz de tuba:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Aquela garota estava incomodando o senhor?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— De forma alguma, ela só me deu iss…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda estava com metade de «isso aqui» dentro da boca e ele já arrancara o livro de minha mão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Eu fico muito revoltado mesmo com esse tipo de coisa. É um absurdo completo!! A barbárie tá tomando conta do país, a imundície se alastra pelas ruas e qualquer cidadão de bem está exposto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Mas ela só…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O guarda arrancou a capa do livro com violência, usando seus dedos de elefante. Só então percebi do que ele me salvara, quase em lágrimas, agradeci-lhe efusivamente como se ele fosse um irmão que eu não vira por vinte anos:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— É mesmo vergonhoso que a gente não possa esperar em paz na fila do banco sem correr o risco dessa violência — eu lhe disse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mundo de Farenheit 451 seria terrível. Baixos espíritos literários são mais memorizáveis do que o Grande Sertão: Veredas, e para &lt;em&gt;malus&lt;/em&gt;&lt;a href="#1"&gt;&lt;sup&gt;1&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; adicional a presença de um declamador de romance de auto-ajuda na sua vizinhança é mais agressiva do que a presença de um romance do Mago na estante, presente da namorada que acha lindo você ser escritor e pensou que lhe estava agradando muito com aquela obra cheia de verdades.&lt;a href="#2"&gt;&lt;sup&gt;2&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;div class="fnote"&gt;
&lt;p&gt;&lt;a name="1"&gt;&lt;sup&gt;1&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; Um «neolatinismo» inventado para ser o antônimo de «bonus».&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a name="2"&gt;&lt;sup&gt;2&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt; O autor sugere que este conto seja lido de forma iterativa, retornando ao começo depois de ler o último parágrafo, e assim sucessivamente até o leitor ter a certeza de que realmente passou a odiar o autor.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6932025654517629434-6859156627982490738?l=letras-eletricas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/W7IjuskSTGJqlDJv3vHfi_41lKQ/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/W7IjuskSTGJqlDJv3vHfi_41lKQ/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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