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	<title>Soy Loco Por Ti, América</title>
	
	<link>http://www.locoporti.blog.br</link>
	<description>Política, Mídias, Economia, Arte, Futebol e Humor na América Latina</description>
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		<title>Relato das ações no Coque Livre</title>
		<link>http://feedproxy.google.com/~r/locoporti/~3/i7A8GpdFlGs/</link>
		<comments>http://www.locoporti.blog.br/relato-das-acoes-no-coque-livre/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 18:05:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coisas imateriais]]></category>
		<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[Coque]]></category>
		<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Metareciclagem]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia & Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Vou postar aqui nos próximos dias algumas reflexões sobre os ciclos de atividades do Projeto Coque Livre, que implementamos em 2011 na comunidade do Coque, centro do Recife. Os textos têm uma pegada um tanto acadêmica &#8211; sobretudo a parte inicial, em que segue uma introdução a alguns conceitos que permearam as oficinas dos ciclos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><em>Vou postar aqui nos próximos dias algumas reflexões sobre os ciclos de atividades do <a href="http://www.locoporti.blog.br/oficinas-do-coque-livre-comecam-amanha/" target="_blank">Projeto Coque Livre</a>, que implementamos em 2011 na comunidade do Coque, centro do Recife. Os textos têm uma pegada um tanto acadêmica &#8211; sobretudo a parte inicial, em que segue uma introdução a alguns conceitos que permearam as oficinas dos ciclos. Isso porque precisaremos apresentar esses relatos ao CNPq, que financiou as atividades. </em><em>Nos próximos dias coloco as descrições das atividades mesmas. </em></strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>1. Análise crítica das bases teórico-metodologias das oficinas de mídias livres</strong></p>
<p>As oficinas com tecnologias livres baseiam-se teórica e metodologicamente no  que podem ser chamadas &#8216;ações coletivas com mídias livres&#8217;. Tais ações expressam um conflito e uma oposição ao modo com que os bens informacionais são comercialmente produzidos e controlados, bem como os objetivos dessa produção. Considerar como eixo característico a disposição antagonista implica em reconhecer a existência de questionamentos coletivos quanto à legitimidade do poder  e ao modelo estabelecido para o uso dos recursos sociais – esses princípios conduzem a base metodológica e filosófica das oficinas.</p>
<p>O sentido das oficinas com tecnologias livres está associado à criação de condições estruturais e conceituais para a produção, circulação, apropriação e usufruto de conhecimento, informação e cultura fora das hostes comerciais. Em termos filosóficos,  essa orientação, que prevalece sobre as outras linhas de atuação, expressa a atualização da análise de Ranciére (1996) para a emergência do exercício da política, com uma correspondente instituição de uma outra ordem do sensível. Ou seja a criação de tais condições estruturais e conceituais se vincula a um virtuoso processo de atualização da reivindicação da parcela dos que não têm parcela, da reivindicação da fala, do dissenso, da possibilidade e das condições para a expressão do desentendimento em relação a como se reparte o todo, entre os que têm parcela ou partes do todo e os que não têm nada.</p>
<p>Por outro lado, é possível considerar o modelo predominante de &#8216;inclusão digital&#8217; ancorado à lógica da Justiça Distributiva . Nesse sentido, tal modelo também precisa ser compreendido sob os eflúvios das mudanças pelas quais passa o capitalismo pós-industrial – sobretudo naquilo que se refere à crise da noção de valor, que acompanha tais alterações sistêmicas. Se é verdade que no capitalismo pós-industrial não é mais no produto, na matéria, que se concentra o centro do valor, mas no conhecimento, na forma de se organizar e modelar a inteligência coletiva, então à Justiça Distributiva deve-se interpor um outro front de crítica – inclusive como forma de enquadrar e compreender  a perspectiva, os discursos e a programática de ações coletivas que lançam mão de tecnologias livres.</p>
<p>É necessário, antes de continuar, deixar claro a que se refere esse termo. As &#8216;tecnologias livres&#8217; a que nos referimos são constituídas por softwares e hardwares que permitem que sejam usados, copiados, estudados e redistribuídos sem restrições, o que implica que as modificações feitas tanto em programas quanto nos equipamentos físicos podem se realizados e compartilhados também sem restrições. O conceito de &#8216;livre&#8217; se opõe ao de restritivo e à noção de software proprietário, cujas alterações no seu código de funcionamento são vedadas. Tanto softwares livres quanto hardwares livres são vinculados a licenças de uso que visam garantir as liberdades de execução, distribuição, modificação e repasse sem que para isso seja necessário a permissão do(s) autor(es) (Torvalds &amp; Diamond, 2001). Portanto, para tecnologias livres estão associados licenças de uso que procuram garantir<br />
•    A liberdade de executar o programa ou de uso do hardware, para qualquer propósito;<br />
•    A liberdade de estudar como o programa ou hardware funciona, e adaptá-lo para as suas necessidades. Acesso ao código-fonte, no caso dos softwares, é um pré-requisito para esta liberdade;<br />
•    A liberdade de redistribuir cópias de modo que se possa beneficiar o próximo;<br />
•    A liberdade de aperfeiçoar o programa e/ou hardware, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie. Acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade.<br />
Portanto, o uso do termo tecnologia livre nesse texto considera será considerado livre se todos os seus usuários tiverem essas quatro liberdades.</p>
<p style="text-align: left;"><span id="more-2562"></span><br />
Ora, sabemos que no capitalismo em sua fase industrial, a organização do trabalho dispõe os sujeitos em um sistema de trabalho – a linha de montagem – na qual suas capacidades subjetivas e criativas são sublimadas. Isso não implica que não haja criatividade e mesmo inovação na indústria, como os sucessivos processos de adaptação a demandas de mercado e/ou crises financeiras revelaram. Mas a previsibilidade é uma exigência dessa etapa, assim como uma política de escassez que regule as cópias da produção; e explicite e especifique o custo de um novo produto (ou do erro em sua fabricação, quando ocorre) a partir da necessidade de mais matéria-prima e de tempo para sua transformação.</p>
<p>A organização dos sujeitos em classe – a um tempo, uma distribuição econômica, mas também simbólica – expressa e condiciona esse quadro político-econômico: ao proletário não cabem o direito nem alternativas para que suas experiências sensíveis e subjetivas interfiram nos processos de transformação da matéria-prima (Gorz, 2005).</p>
<p>Assim, enquanto o trabalhador opera (não se realiza) no espaço quadriculado do chão de fábrica, com o ganho definido, com o movimento repetitivo, os proprietários dos meios de produção operam de forma dinâmica, em alguns casos alocando de forma nômade seu capital, assumindo papéis, posições e ganhos variados num sistema de hierarquia nítida e bem demarcada.<br />
Há portanto uma definição do lugar do sujeito na ordem estética e na indústria, além de uma concepção de valor específica, centrada no “produto”.</p>
<p>A Justiça Distributiva reedita a organização dos sujeitos a partir dessa distribuição de lugares com base econômica (a classe) e simbólica, na qual o papel que cabe ao sujeito que não detém os meios de produção é o de mero usuário ou de peça do sistema produtivo, e não a de produtor de valor, em face a suas experiências sensíveis e subjetivas. O que está subsumido aí é uma relação tutelada com o objeto técnico usado para a produção de valor, em que a autonomia é extremamente limitada em função dos interesses do comércio e da indústria. O sujeito lida com caixas pretas, cuja lógica de funcionamento interno é uma prerrogativa de elites logotécnicas que servem à indústria (Neves, 2006). A desnecessidade de saber como tal objeto técnico funciona, ou é produzido, ou pode ser modificado e melhorado exprime a dificuldade de sua apropriação imposta pelo sistema produtivo industrial e a consequente tutela do valor produzido. Essa condição foi assimilada pelo senso comum e não é questionada – o corolário dessa dessa lei de mercado é a impossibilidade de se ver as vias abertas ou por emergir da interferência criativa sobre as ferramentas de produção de valor.</p>
<p>A Justiça Distributiva por fim reedita e renova o regime discursivo e estético no qual ao trabalhador está reservado a ação calculada, previsível, controlada, sem margem para a expansão da criatividade e da inovação, a partir de sua vida, que operem sobe o sensível, o dizível e o visível. O modelo hegemônico dos programas de inclusão digital expressam essa distribuição econômica e simbólica na medida em que refletem o relacionamento com o objeto técnico no qual os “beneficiados” têm acesso a caixas pretas, em função do que seu uso é tutelado, é comprometida a autonomia e limitadas as possibilidades de expressão em face a experiências sensíveis e subjetivas.</p>
<p><strong>x.x.x.x.x</strong></p>
<p>Os ciclos planejados e executados ao longo do Projeto Coque Livre, por outro lado, basearam-se no que pode ser nomeado “ações coletivas com tecnologias livres”,  que praticam uma perspectiva oposta à dos programas &#8216;tradicionais&#8217; de inclusão digital, e na qual são tecidas as condições de possibilidade para que aconteça uma apropriação crítica das tecnologias; apropriação esta que torne possível a produção de valor com base na improvisação contínua, na comunicação, nas subjetividades culturalmente construídas, nas relações afetivas, no cotidiano sensitivo das comunidades envolvidas. Assim, uma linha de fuga se estabelece, explicitando o aspecto não-utilitarista dos processos de ensino-aprendizagem inspirados nasações coletivas com mídias livres que se pretendeu implementar nesse projeto.</p>
<p>O trabalho imaterial que se desprende dessas potencialidades está afinado com aquilo que André Gorz pontuou como sendo o “trabalho da produção de si” (GORZ, 2005). Nesse sentido, o caminho que se pretendeu traçar nos Ciclos é tal que permite contribuir para a construção de espaços (lógicos, físicos e afetivos) que permitam a expansão das potências criativas, a quebra da previsibilidade  e a superação da relação industrial entre projeto e produto.</p>
<p>Essa abordagem não-utilitarista permeia a apropriação crítica de ferramentas e de linguagens de expressão, de modo que é por si já uma alternativa à lógica de mercado, da preparação da mão-de-obra e do &#8216;produto&#8217;, que habitam as entrelinhas dos programas de inclusão digital. Essa apropriação crítica de ferramentas da informação e comunicação, fomentadas nas e pelas ações coletivas com tecnologias livres, é um objetivo que tem o potencial de se tornar possível ao se lançar mão de tecnologias livres, de metodologias e de referências discursivas que precisam ser pontuadas.</p>
<p>É necessário observar inicialmente a perspectiva que procura adequar às necessidades simbólicas, aos espaços disponíveis e/ou construídos coletivamente nas comunidades e ao cotidiano delas a implementação dos ambiente de conexão à internet que servem às comunidades – os telecentros. Nestes casos a instalação dos computadores é um processo realizado com os futuros usuários deles, em oficinas nas quais as máquinas são literalmente desconstruídas. As máquinas são abertas e seu interior esquadrinhado em atividades cujo resultado é o funcionamento de um número mínimo de computadores em rede, conectados à internet. Mas que implica também num processo de desmistificação do artefato, e que contribui para que ele não seja manuseado com &#8216;excessivo respeito&#8217;, como um outro externo e distante.   A ideia que permeia isso é a noção de que é possível interferir sobre a tecnologia, o que por seu lado também se vincula a uma perspectiva antiutilitarista, e contribui com outros processos de aprendizagem, de formação de identidade, de pertencimento, de expressão de relatos e subjetividades que não encontram espaço nos canais comerciais de comunicação; de veiculação de reivindicações variadas. A &#8216;capacitação&#8217; não é um elemento prioritário embora acabe ocorrendo também.</p>
<p>Aplicado às tecnologias digitais, aos computadores pessoais e à eletrônica embarcada em equipamentos de uso cotidiano, o conceito passa a se referir à transformação do computador de uma mera ferramenta de trabalho (inacessível e desconhecida) em um instrumento de comunicação sobre o qual os sujeitos podem intervir; e de uma nova linguagem de criação e expressão para  refletir as necessidades locais de cada comunidade.</p>
<p>Nesse sentido, o relacionamento com os aparatos técnicos colocados em prática nas oficinas procuraram colocar em suspensão a técnica como algo natural (positivo) ou artificial (negativo). E tomam-na como algo sobre o qual é ainda possível atuar. Nesse sentido, Simondon chama atenção para o trabalho do artesão, que é baseado numa organização analítica, deixando sempre a via livre a novas possibilidades. Diz Simondon:</p>
<p><em>&#8220;estas possibilidades são a manifestação exterior de uma contingência interior. No afrontamento da coerência do trabalho técnico com a coerência do sistema de necessidades de utilização, é a coerência da utilização que vence porque o objeto técnico (construído) sob medida é de fato um objeto sem medida intrínseca; as suas normas vêm-lhe do exterior: não realizou ainda a sua coerência interna; não é um sistema do necessário; corresponde a um sistema aberto de exigências&#8221;.  (SIMONDON, 1989b, p. 23).</em></p>
<p>Em Deleuze, surge a possibilidade de pensar a técnica, não como o  domínio global e totalizante, mas como multiplicidade que permite uma incessante produção a partir dela mesma, uma produção por atualização de uma instância virtual, ou seja, da Diferença. A margem deleuziana, outra importante referência filosófica para as práticas das oficinas, permite ver a técnica como produtiva, dinâmica, alucinada e, ao mesmo tempo, não abortiva, não finalizadora, não destrutiva.</p>
<p>De forma virtuosamente não-utilitarista, a técnica é tomada como multiplicidade, a uma multiplicidade solta das amarras da medição e da organização de forças previamente determinadas. É essa perspectiva, tornada plástica, que anima as apropriações realizadas pelas ações coletivas com tecnologias livres em geral e as oficinas realizadas no Coque Livre em particular.</p>
<p>Uma das consequencias da forma coletiva de construção (ou de reorganização) de um telecentro descrita acima (ou da execução de projetos como os realizados nos ciclos do Coque Livre, descritas abaixo) é que os resultados da interação coletiva passam a ser entendidos pelas comunidades onde funcionam como espaço, objetos, equipamentos sobre o qual todos têm responsabilidades e acesso. É da mesma ordem de apropriação o uso que dele emerge. No caso de telecentros, a função que eles assumem vai bem além da capacitação da mão de obra para o mercado de trabalho. E é nesse sentido que se torna possível a superação da noção utilitária em que se ancora boa parte dos modelos de inclusão digital sob a lógica da Justiça Distributiva. Como já mencionado, outros elementos emergem em sintonia com demandas de ordem imaterial de pessoas e grupos.</p>
<p>Desse processo-percurso, em busca da apropriação crítica de tecnologias, faz parte o uso de softwares livres – a começar pelos sistema operacionais, o pacote de programas através dos quais nós nos relacionamos com a máquina. O uso de softwares livres, aliás, é uma condição (não a única) para a efetividade dessa apropriação – sendo tanto mais profunda quanto mais longa possível é o tempo de utilização de tais tecnologias. Eles oferecem a possibilidade de que o uso dos instrumentos de produção de valor não aconteça de forma tutelada, em função dos interesses estabelecidos pela indústria do software proprietário; acena com a possibilidade de conquista de autonomia no trato com os equipamentos; e o relacionamento com uma economia de bens simbólicos calcada na abundância de recursos. Como os softwares livres  são abertos à modificação por qualquer pessoa, de acordo com suas necessidades, abre-se a possibilidade para a criação, para a transformação, para a expressão de talentos, subjetividades e inovação em um patamar que não é possível quando se utilizam softwares proprietários.</p>
<p>O entendimento de que tais ferramentas são sempre passíveis de serem retiradas do modelo de uso atribuído pelo trabalho industrial expressa uma posição política. A &#8216;apropriação&#8217; &#8211; celebrada palavra usada nos &#8216;tradicionais&#8217; projetos de inclusão digital –, ganha um status radical, na medida em que é pensada para ocorrer na zona obscura, entre a forma e a matéria, entre as essências formais e as  coisas formadas, o que abre férteis possibilidades para a subversão dos objetos técnicos desenvolvidos, criados e construidos pelas instâncias comerciais no/do capitalismo tardio.</p>
<p>A criação de dispositivos a partir de sucata, a partir de objetos convencionais, do dia a dia, postos em interação com dispositivos computacionais também constituem processos de ensino e aprendizagem não convencionais que abrem múltiplas possibilidades de expressão e formação. Nesses casos lança-se mão do uso de arduinos , de hardwares livres, do hackeamento  de equipamentos, mas sobretudo das demandas de ordem subjetiva vivenciadas pela comunidade onde se desenvolve a ação.</p>
<p>Nesse sentido, uma das ações mais relevantes é o projeto Mimosa (Máquina de Intervenção Urbana e Correção Informacional) – aplicada numa dos ciclos do Coque Livre. Consiste em oficinas de mídia e mobilização através das quais se realiza a montagem de um estúdio portátil móvel de gravação, produção e veiculação de mídias – geralmente montado em um carrinho de super-mercado – ou qualquer outra base, desde que móvel. Diversas Mimosas já foram criadas em diferentes projetos de inclusão digital na linha que vem sendo aqui exposta. Ao longo de seu processo de construção, explicam-se, aos integrantes da comunidade que participam do processo, equações de primeiro grau, elementos básicos de programação computacional, do funcionamento e montagem de placas de circuitos elétricos, de elementos básicos de eletrônica ao mesmo tempo em que se procura identificar os relatos que os integrantes da oficina gostariam de gravar, provocar, veicular. A experiência dessas oficinas revela um profundo processo de reconhecimento e construção identitária para além do que a lógica utilitarista dos &#8216;tradicionais&#8217; programas de inclusão digital permite alcançar. É interessante observar ainda que o nome e a construção da Mimosa incorpora algo mais: o humor, o carinho, o afeto são elementos tão sólidos e necessários quanto as placas de circuito que permitem a mobilidade da máquina que grava e reproduz relatos, reivindicações, histórias, vivências, experiências.</p>
<p>A principal inspiração fornecida pelas ações coletivas com tecnologias livres trouxeram para o âmbito das oficinas nos Ciclos do Coque Livre é que os agenciamentos sócio-técnicos atuais não precisam ser de um único modo – ou em uma única direção, utilitarista –, aquele em que, aliás, o “processo industrial do grande degrada mais as reservas humanas e materiais do que ele próprio pode criar ou regenerar”, (SLÖTERDJIK, 1999, p. 78)</p>
<p>O que a teorização deleuziana permite observar é que o que muda substancialmente não são as ligações com os objetos técnicos, mas antes a consciência dessas ligações e os modos não industriais e não comerciais que elas podem tomar. Estas passam necessariamente pelas artes do fazer cotidiano, pelos afetos, pelas manipulações singulares de instrumentos e dispositivos, pelas experiências que se abrem a subversões do aparato tecno-midiático instituído, pelas possibilidades reais de se criar um espaço-tempo de subversão das práticas e teorias sobre tecnologia e cultura.</p>
<p>O que a teorização de Simondon, retomada por Deleuze, aponta é uma sucessão de estados metaestáveis em que o objeto técnico nessa perspectiva é pensado e transformado, apropriado e re-significado por práticas artesãs. É uma realidade em fluxo, nômade, de busca do objeto técnico, de busca pela apreensão e apropriação do objeto técnico e que permite que a operação tecnológica seja separada do modelo de trabalho estanque, passando a se sujeitar a operações de deformação, a operações que se aproximam mais de uma modulação do que de uma moldagem.</p>
<p>Nas oficinas realizadas no Coque Livre procurou-se operar sobre/nessa zona obscura da individuação dos objetos técnicos, abandonando a divisão estanque entre a essência da coisa e a coisa formada. As formas pelas quais essa zona obscura da individuação é iluminada permitem a criação de condições estruturais e conceituais para a produção, circulação, apropriação e usufruto de conhecimento, informação e cultura fora das hostes comerciais.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Referências até aqui.</strong></p>
<p style="text-align: left;">TORVALDS, Linux. e DIAMOND, David. <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=559929&amp;sid=1961782051423576036276618" target="_blank">Só por prazer. Linux: bastidores de sua criação.</a> Rio de Janeiro: Editora Campus, 2001.</p>
<p>GORZ, André. <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=7005615&amp;sid=1961782051423576036276618" target="_blank">O Imaterial: Conhecimento, Valor e Capital</a>.  Annablume, 2005.</p>
<p>SLÖTERDIJK, Peter . <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=201393&amp;sid=1961782051423576036276618" target="_blank">No mesmo barco. Ensaio sobre a hiperpolítica</a>. São Paulo: Editora Estação Liberdade, 1999.</p>
<p>SIMONDON, G. L&#8217;individu et sa genèse physico-biologique, Paris: PUF, 1964.</p>
<p>___________. L&#8217;individuation psychique et collective, Paris: Aubier, 1989a.</p>
<p>___________. Du mode d&#8217;existence des objets techniques, Paris: Aubier, 1989b.</p>
<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;"><strong>Nos próximos dias vou postando o restante do relatório.  O próximo ponto é a análise dos ciclos. </strong></p>
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		<title>Escrevendo a história dos vencedores</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Feb 2012 21:33:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diálogos impertinentes]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia & Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Recebi uma encomenda que deverá me ocupar até pelo menos outubro desse ano: escrever a história da moderna engenharia em Pernambuco. A base das informações será a memória de algumas pessoas, os registros de algumas obras, documentos e leitura de livros sobre o assunto. A tarefa tem um certo vínculo com a predominante forma de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Recebi uma encomenda que deverá me ocupar até pelo menos outubro desse ano: escrever a história da moderna engenharia em Pernambuco. A base das informações será a memória de algumas pessoas, os registros de algumas obras, documentos e leitura de livros sobre o assunto. A tarefa tem um certo vínculo com a predominante forma de se fazer a história no Brasil: o olhar dos vencedores ou, pelo menos, dos principais beneficiados do desenvolvimento das engenharias &#8211; sobretudo a engenharia mecânica e a elétrica &#8211; de fins do século XIX e da metade do século XX. Estarei sendo preconceituoso?</p>
<p>O fato é que não posso deixar a encomenda &#8211; faz tempo que não escrevo nada, muito tempo e esse blog tem sido testemunha disso. O assunto é próximo a meus interesses &#8211; tecnologias e política e sociedade. E de mais a mais não é exatamente um livro sobre engenharia &#8211; ou pelo menos não quero que seja. A construção de certos prédios na cidade &#8211; o Teatro Santa Isabel e o Mercado de São José criaram ambientes de sociabilidade diferenciados do que até então havia aqui. As companhias de engenharia inglesas e francesas gozaram de um espetacular privilégio nos últimos 20 anos do século XVIII até a primeira metade do século XIX pelo menos. Os portos navegáveis deram uma dinâmica no deslocamento das pessoas na cidade que não existia até metade do século XIX &#8211; o tráfego pelos rios que cortam o Recife, aliás, não acontece mais hoje. Pernambuco já teve o quarto porto mais movimentado o país (e isso, sendo no meio da cidade), na época em que era o maior exportador de algodão e açúcar &#8211; coisa vinculada enre muitas outras coisas à expertise de engenheiros aqui.</p>
<p>É a história dos vencedores? Sim. O que não impede de se aproveitar as fissuras, os espaços para falar dos vencidos, dos dominados cujas gerações de descendentes ainda circulam nas cidades dessas velha cidade fedorenta carregando seus andrajos, recolhendo a sobrevivência de cada dia.</p>
<p>É sem dúvida um bom começo de ano, esse.</p>
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		<title>thirty things to stop doing to yourself:</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Dec 2011 19:19:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Investigações paralelas]]></category>
		<category><![CDATA[O inferno são os outros]]></category>
		<category><![CDATA[Sangue, suor e lágrimas]]></category>
		<category><![CDATA[Sexo]]></category>
		<category><![CDATA[Viagens e afins]]></category>

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		<description><![CDATA[
as maria robinson  once said, “nobody can go back and start a new  beginning, but anyone  can start today and make a new ending.” nothing  could be closer to the  truth. but before you can begin this process of  transformation you have  to stop doing the things that [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-2554" href="http://www.locoporti.blog.br/thirty-things-to-stop-doing-to-yourself/attachment/30/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2554" title="30" src="http://www.locoporti.blog.br/wp-content/uploads/2011/12/30.jpg" alt="" width="500" height="333" /></a></p>
<p><strong></strong><em>as maria robinson  once said, “nobody can go back and start a new  beginning, but anyone  can start today and make a new ending.” nothing  could be closer to the  truth. but before you can begin this process of  transformation you have  to stop doing the things that have been holding  you back. here are  some ideas to get you started:</em></p>
<ol>
<li><em><strong>stop spending time with the wrong people.</strong> – life is  too  short to spend time with people who suck the happiness out of you. if  someone wants you in their life, they’ll make room for you. you   shouldn’t have to fight for a spot.  never, ever insist yourself to   someone who continuously overlooks your worth. and remember, it’s not   the people that stand by your side when you’re at your best, but the   ones who stand beside you when you’re at your worst that are your true   friends.</em></li>
<li><em><strong>stop running from your problems.</strong> – face them head  on. no, it  won’t be easy. there is no person in the world capable of  flawlessly  handling every punch thrown at them. we aren’t supposed to  be able to  instantly solve problems. that’s not how we’re made. in  fact, we’re  made to get upset, sad, hurt, stumble and fall. because  that’s the  whole purpose of living – to face problems, learn, adapt, and  solve  them over the course of time. this is what ultimately molds us  into the  person we become.</em></li>
<li><em><strong>stop lying to yourself.</strong> – you can lie to anyone  else in the  world, but you can’t lie to yourself. our lives improve  only when we  take chances, and the first and most difficult chance we  can take is to  be honest with ourselves.</em></li>
<li><em><strong>stop putting your own needs on the back burner.</strong> – the most  painful thing is losing yourself in the process of loving  someone too  much, and forgetting that you are special too. yes, help  others; but  help yourself too. if there was ever a moment to follow  your passion  and do something that matters to you, that moment is now.</em></li>
<li><em><strong>stop trying to be someone you’re not.</strong> – one of the greatest  challenges in life is being yourself in a world that’s trying to make  you like  everyone else.  someone will always be prettier, someone will  always be  smarter, someone will always be younger, but they will never  be you. don’t change so people will like you. be yourself and the right  people  will love the real you.</em></li>
<li><em><strong>stop trying to hold onto the past.</strong> – you can’t start the next chapter of your life if you keep re-reading your last one.</em></li>
<li><em><strong>stop being scared to make a mistake.</strong> – doing  something and  getting it wrong is at least ten times more productive  than doing  nothing. every success has a trail of failures behind it,  and every  failure is leading towards success. you end up regretting the  things  you did NOT do far more than the things you did.</em></li>
<li><em><strong>stop berating yourself for old mistakes.</strong> – we may  love the  wrong person and cry about the wrong things, but no matter how  things  go wrong, one thing is for sure, mistakes help us find the person  and  things that are right for us. we all make mistakes, have  struggles, and  even regret things in our past. but you are not your  mistakes, you are  not your struggles, and you are here NOW with the  power to shape your  day and your future. every single thing that has  ever happened in your  life is preparing you for a moment that is yet to  come.</em></li>
<li><em><strong>stop trying to buy happiness.</strong> – many of the things  we desire   are expensive. but the truth is, the things that really  satisfy us  are  totally free – love, laughter and working on our  passions.</em></li>
<li><em><strong>stop exclusively looking to others for happiness.</strong> – if you’re  not happy with who you are on the inside, you won’t be happy  in a  long-term relationship with anyone else either. you have to create   stability in your own life first before you can share it with someone   else.</em></li>
<li><em><strong>stop being idle.</strong> – don’t think too much or you’ll  create a  problem that wasn’t even there in the first place. evaluate  situations  and take decisive action. you cannot change what you refuse  to  confront. making progress involves risk. period! you can’t make it  to  second base with your foot on first.</em></li>
<li><em><strong>stop thinking you’re not ready.</strong> – nobody ever feels  100%  ready when an opportunity arises. because most great  opportunities in  life force us to grow beyond our comfort zones, which  means we won’t  feel totally comfortable at first.</em></li>
<li><em><strong>stop getting involved in relationships for the wrong reasons.</strong> – relationships must be chosen wisely. it’s better to be alone than to   be in bad company. there’s no need to rush. if something is meant to   be, it will happen – in the right time, with the right person, and for   the best reason. fall in love when you’re ready, not when you’re lonely.</em></li>
<li><em><strong>stop rejecting new relationships just because old ones didn’t work.</strong> – in life you’ll realize that there is a purpose for everyone you   meet. some will test you, some will use you and some will teach you. but  most importantly, some will bring out the best in you.</em></li>
<li><em><strong>stop trying to compete against everyone else.</strong> – don’t worry  about what others doing better than you. concentrate on  beating your  own records every day. success is a battle between YOU and  YOURSELF  only.</em></li>
<li><em><strong>stop being jealous of others.</strong> – jealousy is the art  of  counting someone else’s blessings instead of your own.  ask yourself   this:  “what’s something i have that everyone wants?”</em></li>
<li><em><strong>stop complaining and feeling sorry for yourself.</strong> – life’s  curveballs are thrown for a reason – to shift your path in a  direction  that is meant for you. you may not see or understand  everything the  moment it happens, and it may be tough. but reflect back  on those  negative curveballs thrown at you in the past. you’ll often  see that  eventually they led you to a better place, person, state of  mind, or  situation. so smile! let everyone know that today you are a  lot  stronger than you were yesterday, and you will be.</em></li>
<li><em><strong>stop holding grudges.</strong> – don’t live your life with  hate in  your heart. you will end up hurting yourself more than the  people you  hate. forgiveness is not saying, “what you did to me is  okay.” it is  saying, “i’m not going to let what you did to me ruin my  happiness  forever.” forgiveness is the answer… let go, find peace,  liberate  yourself! and remember, forgiveness is not just for other  people, it’s  for you too. if you must, forgive yourself, move on and  try to do  better next time.</em></li>
<li><em><strong>stop letting others bring you down to their level.</strong> – refuse to lower your standards to accommodate those who refuse to raise theirs.</em></li>
<li><em><strong>stop wasting time explaining yourself to others.</strong> – your friends don’t need it and your enemies won’t believe it anyway. just do what you know in your heart is right.</em></li>
<li><em><strong>stop doing the same things over and over without taking a break.</strong> – the time to take a deep breath is when you don’t have time for it. if  you keep doing what you’re doing, you’ll keep getting what you’re   getting. sometimes you need to distance yourself to see things clearly.</em></li>
<li><em><strong>stop overlooking the beauty of small moments.</strong> – enjoy the  little things, because one day you may look back and discover  they were  the big things. the best portion of your life will be the  small,  nameless moments you spend smiling with someone who matters to  you.</em></li>
<li><em><strong>stop trying to make things perfect.</strong> – the real world doesn’t reward perfectionists, it rewards people who get things done.</em></li>
<li><em><strong>stop following the path of least resistance.</strong> – life  is not  easy, especially when you plan on achieving something  worthwhile. don’t  take the easy way out. do something extraordinary.</em></li>
<li><em><strong>stop acting like everything is fine if it isn’t.</strong> – it’s okay  to fall apart for a little while. you don’t always have to  pretend to  be strong, and there is no need to constantly prove that  everything is  going well. you shouldn’t be concerned with what other  people are  thinking either – cry if you need to – it’s healthy to shed  your tears.  the sooner you do, the sooner you will be able to smile  again.</em></li>
<li><em><strong>stop blaming others for your troubles.</strong> – the extent  to which  you can achieve your dreams depends on the extent to which you  take  responsibility for your life. when you blame others for what  you’re  going through, you deny responsibility – you give others power  over  that part of your life.</em></li>
<li><em><strong>stop trying to be everything to everyone.</strong> – doing  so is  impossible, and trying will only burn you out. but making one  person  smile CAN change the world. maybe not the whole world, but their  world.  so narrow your focus.</em></li>
<li><em><strong>stop worrying so much.</strong> – worry will not strip  tomorrow of  its burdens, it will strip today of its joy. one way to  check if  something is worth mulling over is to ask yourself this  question: “will  this matter in one year’s time? three years? five  years?” if not, then  it’s not worth worrying about.</em></li>
<li><em><strong>stop focusing on what you don’t want to happen.</strong> – focus on  what you do want to happen. positive thinking is at the  forefront of  every great success story. if you awake every morning with  the thought  that something wonderful will happen in your life today,  and you pay  close attention, you’ll often find that you’re right.</em></li>
<li><em><strong>stop being ungrateful.</strong> – no matter how good or bad  you have  it, wake up each day thankful for your life. someone somewhere  else is  desperately fighting for theirs. instead of thinking about  what you’re  missing, try thinking about what you have that everyone else  is  missing.</em></li>
</ol>
<p>via <a href="http://www.marcandangel.com/2011/12/11/30-things-to-stop-doing-to-yourself/">marcandangel</a>, mas vi <a href="http://completo.tumblr.com/post/14238488406/isaacmartinez-thirty-things-to-stop-doing-to" target="_blank">aqui</a>.</p>
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		<title>Why not you? Why not you in this city and in this night, …</title>
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		<comments>http://www.locoporti.blog.br/why-not-you-why-not-you-in-this-city-and-in-this-night/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 13 Dec 2011 01:42:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sangue, suor e lágrimas]]></category>
		<category><![CDATA[Sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[“I meet you. I remember you. Who are you? You’re destroying me. You’re good for me. How could I know this city was tailor-made for love? How could I know you fit my body like a glove? I like you. How unlikely. I like you. How slow all of a sudden. How sweet. You cannot [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">“I meet you. I remember you. Who are you? You’re destroying me. You’re good for me. How could I know this city was tailor-made for love? How could I know you fit my body like a glove? I like you. How unlikely. I like you. How slow all of a sudden. How sweet. You cannot know. You’re destroying me. You’re good for me. You’re destroying me. You’re good for me. I have time. Please, devour me. Deform me to the point of ugliness. Why not you? Why not you in this city and in this night, so like other cities and other nights you can hardly tell the difference? I beg of you.”</p>
<p>- Hiroshima Mon Amour, written by Marguerite Duras,</p>
<p>(não, ainda não em 2011 que o Soy Loco por Ti morreu).</p>
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		<title>Sobre jornalismo, greve, categorias e classe</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Nov 2011 17:38:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[
Talvez haja algo a se tirar de proveitoso da greve dos gráficos e do indicativo à deflagração do Estado de Greve pelos jornalistas em Pernambuco. Até agora, o que me tem parecido mais evidente é a profunda fragilização da categoria, associada à incompreensão geral dos processos que geraram isso. A desobrigação do diploma para o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://24.media.tumblr.com/tumblr_lu1ephoDcD1qhnncfo1_500.jpg"><img class="aligncenter" src="http://24.media.tumblr.com/tumblr_lu1ephoDcD1qhnncfo1_500.jpg" alt="" width="436" height="462" /></a></p>
<p>Talvez haja algo a se tirar de proveitoso da greve dos gráficos e do <a href="http://www.sinpro-pe.org.br/base/2011/11/10/jornalistas-se-reunem-em-assembleia-para-determinar-rumos-da-greve/" target="_blank">indicativo à deflagração do Estado de Greve</a> pelos jornalistas em Pernambuco. Até agora, o que me tem parecido mais evidente é a profunda fragilização da categoria, associada à incompreensão geral dos processos que geraram isso. A desobrigação do diploma para o registro profissional definida pelo STF em 2009 é um efeito e não a causa de problemas pela qual vem passando essa atividade profissional. É a ponta de um iceberg que mostra aqui e ali seu tamanho. Na entrelinha está a política, ou a falta dela.</p>
<p><strong>Mercados &amp; mercados</strong><br />
Os gráficos pararam porque, ao contrário de sua categoria meio-irmã, continuam com um mercado amarrado a quem detém as estruturas de trabalho: o gráfico não vai para casa e faz um frila à noite. Seu trabalho é nas dependências da empresa porque é lá que está o maquinário e que torna possível sua atividade.</p>
<p>O mercado dos jornalistas não. O crescimento da economia nos últimos anos gerou mais trabalho – não necessariamente mais emprego – e isso é, por incrível que pareça, um elemento de desmobilização política por onde a reivindicação de melhores condições salariais e de trabalho no modelo sindical.</p>
<p>Com um piso de R$ 944 (gráficos em jornais) e R$ 718 (em empresas gráficas) e sem alternativas reais de complementação de renda, é muito mais provável que a categoria dos gráficos se mobilizassem para a greve antes dos jornalistas (e sem eles).</p>
<p><strong>Hegemonia &amp; comunicação</strong><br />
Outro aspecto da fragilização da categoria de jornalistas tem a ver com a hegemonia política no Estado – na verdade, no meu entender essa fragilização é não somente da categoria, mas de toda a economia-política da comunicação, ou seja envolve as empresas e o Jornalismo realizado por elas também. Porque uma sociedade é mais plural e reflete isso no jornalismo (e também nas artes, na economia, etc) quando sua política é mais socializada e isso implica naquilo que a gente chama de condições de possibilidade da crítica.</p>
<p>Mas esse aspecto político é ainda mais amplo. A queda da obrigatoriedade do diploma pro registro em 2009 pelo nosso querido STF é o fim de um percurso (talvez não seja um fim, enfim) no qual se cruzam a queda de credibilidade do fazer jornalístico comercial, que se plasmou num modelo ou em certos modelos que não atendem mais a necessidades da sociedade, e um certo descentramento do sujeito que usa da ferramenta jornalística. Em outras palavras, mais gente passou a produzir informação, cultura e conhecimento, a fazê-la circular, a mixá-la também e isso muitas vezes acontece usando-se jornalismo como modo de construção de discursos. Mais gente, mais recursos, mais informação circulando e isso é ótimo.</p>
<p>E isso tá  convivendo por um lado com um excepcional retrocesso do grosso das empresas de comunicação (sobretudo as grandes) no quesito democracia, pluralidade e ética e por outro lado com um modelo plasmado ensinado nas universidades também, onde o nível de classe dos estudantes mudou.</p>
<p><strong>Economias &amp; comunicação</strong><br />
Porque no mercado de ensino do jornalismo a novidade dos últimos 20 anos não é somente o maior número de escolas e faculdades. É que também aumentou o poder aquisitivo dos estudantes que resolvem ser jornalistas – e isso é patente em qualquer redação de região metropolitana brasileira hoje.</p>
<p>Maior poder aquisitivo significa não somente mais conforto, mas também uma inflexão no tipo de egressos de classe que passou a compor a categoria dos jornalistas (atenção, classe é diferente de categoria). E isso tem implicações para a maior ou menor mobilização política. A classe ou as classes em que se enquadram a categoria dos gráficos tem passado por dificuldades por ter se mantido mais ou menos a mesma. E, assim sendo, passar por mais ou menos os mesmos perrengues financeiros que a empurram para mais reivindicação e confronto com os patrões.</p>
<p><a href="http://www.ooo000ooo.com/images/Brian_Morris_birds.jpg"><img class="aligncenter" src="http://www.ooo000ooo.com/images/Brian_Morris_birds.jpg" alt="" width="649" height="335" /></a></p>
<p><strong>Categoria &amp; classe</strong><br />
A desmobilização da categoria jornalistas, que não é um privilégio negativo da pernambucanidade, mas que está relacionada a um universo maior de problemas, me faz pensar que talvez essa seja uma categoria que pode acabar em mais alguns anos. Será?</p>
<p>Eu não conheço nenhuma pauta de reivindicação sindical que inclua, por exemplo, o debate sobre a flexibilização/proteção de direitos autorais de obras produzidas no circuito comercial do jornalismo; ou o debate sobre navegação anônima na internet; ou o debate sobre a manutenção do princípio de neutralidade na internet; ou o das possibilidades de aprendizado do jornalismo comercial com a comunicação pública, por onde aquele poderia voltar a garantir sua relevância na dinâmica de nossas cidades, de nossa vida social, de nossas políticas  – é o envolvimento com essas coisas que garantirá a continuidade do jornalismo como categoria e como categoria relevante para a democracia, porque é a democracia que está em jogo sempre.</p>
<p>É também o envolvimento com essas discussões que poderá dar um perfil de categoria ao jornalismo, mais do que a garantia do diploma.</p>
<p>Meus dois vinténs.</p>
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		<title>“Seja fofo e garanta o leitinho das crianças”</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Oct 2011 19:18:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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Fabiana Moraes

Formado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, João Carlos Ferreira Filho é o criador do @JornalismoWando,  perfil com 1.355 seguidores na primeira semana de outubro e apenas  1.153 postagens (o que, no mundo Twitter, indica ou que o dono do perfil  posta pouco ou é relativamente novo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;"><a href="http://2.bp.blogspot.com/_oWHX4eH3YDA/TQpjaCCZQ3I/AAAAAAAAAHU/lLpIcVIGYVE/s1600/wando.jpg"><img class="aligncenter" src="http://2.bp.blogspot.com/_oWHX4eH3YDA/TQpjaCCZQ3I/AAAAAAAAAHU/lLpIcVIGYVE/s1600/wando.jpg" alt="" width="372" height="563" /></a></p>
<p style="text-align: right;"><strong>Fabiana Moraes</strong></p>
<div>
<p><em>Formado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, João Carlos Ferreira Filho é o criador do </em><em>@JornalismoWando,  perfil com 1.355 seguidores na primeira semana de outubro e apenas  1.153 postagens (o que, no mundo Twitter, indica ou que o dono do perfil  posta pouco ou é relativamente novo naquele ambiente). O sucesso que  acompanha o avatar no qual vemos o rosto do famoso cantor popular  (fofíssimo, não acham?) faz sentido: usando expressões como “beijo no  coração!”, o perfil alfineta jornalistas e jornais famosos, chamando  atenção para a candura não apropriada para suas práticas. Conversamos  com João Carlos sobre seu alter ego. “O Wando ficou com ciúmes”, avisou.</em></p>
<p><em><br />
<strong>Na sua opinião, por que o jornalismo do coração parece buscar sempre o consenso, tem esse caráter quase apaziguador?</strong><br />
Acredito  que as faculdades de jornalismo (como todas as outras faculdades) estão  mais preocupadas em preparar profissionais que se adequem aos  interesses do mercado do que cumprir sua verdadeira função, que é de  formar jornalistas que contribuam de alguma forma para a sociedade. A  opinião, o espírito crítico e a reflexão não são incentivadas como  deveriam, porque não ajudam o jovem que sai da faculdade a conseguir um  bom emprego. Pelo contrário, quanto mais dócil e alinhado aos interesses  do mercado o jornalista for, mais chances ele terá de ser bem sucedido  profissionalmente.</em></p>
<p><em><br />
<strong>Outra característica do Jornalismo Wando é a  tentativa de estabelecer linguagem íntima tanto com o entrevistado  quanto com a audiência. Você acha que essa é uma maneira/técnica de  angariar mais espectadores/leitores?</strong><br />
Não. Acho que essa é  uma técnica usada por jornalista mal preparado. Até porque não é da  alçada do jornalista se preocupar com audiência. Conquistar a simpatia  do entrevistado não é objetivo da profissão. Isso quem faz é a Ana Maria  Braga, o Gugu e o Faustão. Jornalismo tem que ser, necessariamente,  formal, sério e objetivo. Afinal de contas, sua função principal é  relatar a realidade de forma nua e crua. Infelizmente, uma doçura quase  infantil ocupou o espaço da opinião e da reflexão crítica dentro do  jornalismo. Esse processo de “anamariabraguização” do jornalismo  tupiniquim caminha a passos largos.</em></p>
<p><em><br />
<strong>Houve um momento no qual jornalistas eram mitificados: a  eles estavam ligadas as ideias de coragem, esforço, isenção, verdade,  heroísmo. Hoje, a imagem é diferente: jornalistas têm um poder menor de  influência e são duramente criticados no espaço da sociedade civil (os  denominados blogueiros progressistas são um exemplo). A prática do Jornalismo Wando, a fofura como técnica de trabalho, não seria resultado desse lugar menos legítimo que a profissão hoje enfrenta?</strong><br />
O tal </em><em>Jornalismo Wando é atemporal. Sempre existiu e sempre vai existir. Mas, é evidente que  isso está se acentuando. Acho que existe, sim, esse componente que você  citou. Acho que os grandes monopólios de comunicação são os maiores  indutores e incentivadores do </em><em>Jornalismo Wando. Nenhuma empresa  vai contratar jornalista que faça críticas que atrapalhem seus  interesses. Nenhum empresário de comunicação, por exemplo, aceitaria um  jornalista seu criticando uma empresa anunciante ou um ator/músico  contratado dessa empresa. Vejamos os últimos </em><em>ombudsman</em> da <em>Folha de S. Paulo. Passaram jornalistas bastante críticos do jornal pelo cargo. Cansada, a direção da </em><em>Folha resolveu colocar um profissional alinhado aos seus interesses.</em></p>
<p><em><br />
<strong>Você acha que esse jornalismo que preconiza o consenso  enfraquece a prática jornalística que tem como fim informar, divulgar,  provocar o debate?</strong><br />
Sem dúvidas. A natureza da profissão de  jornalista está sendo totalmente desvirtuada. Não é à toa que vemos  muitos jornalistas migrando para programas de entretenimento, como o  Pedro Bial e o Britto Jr. Jornalismo e entretenimento estão cada vez  mais próximos. Como diz o </em><em>@JornalismoWando: “Nasceu com o  espírito crítico e investigativo? Então jornalismo não é sua praia,  querido. Vá criticar restaurante e cinema ou ser investigador de  Polícia. Jornalismo sem sentimento, não faz sentido.”</em></p>
<p><em><br />
<strong>Há um sentido político do jornalismo fofo – falo dele em si, seu espraiamento, sua força, sua reprodução?</strong><br />
Claro  que sim. Não é à toa que jornalista que faz crítica que fere o  interesse do patrão é colocado no olho da rua. Isso inibe a  sobrevivência de bons profissionais que querem exercer jornalismo de  fato. É muito mais cômodo ser fofo e manter seu emprego, do que ser  jornalista de verdade e correr riscos. Os poucos profissionais que não  se submetem ao esquemão são obrigados a escrever em blogs e na imprensa  independente, o que obviamente dá muito menos dinheiro. As poucas  famílias que comandam as empresas de comunicação no país têm rabo preso  com setores políticos e com grandes empresas. Acaba não sobrando quase  nada pra criticar. Aí então, o profissional que já vem “adestrado” da  faculdade, chega à conclusão de que é melhor sorrir, ser fofo e garantir  o leitinho das crianças.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em><strong>Leia mais:</strong><br />
<a href="http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=443:um-beijinho-em-quem-ler-esta-pagina&amp;catid=37:especial&amp;Itemid=4" target="_blank">Um beijinho em quem ler esta página</a>, pro Fabiana Moraes</em></p>
</div>
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		<title>Meu bem querer</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Oct 2011 14:04:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coisas imateriais]]></category>
		<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sangue, suor e lágrimas]]></category>
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Muiras vezes se questionou se o início do Tratado da Emenda do intelecto é uma narrativa autobiográfica. Já que escreveu em primeira pessoa, Espinosa teria exposto nesse tratado seu próprio itinerário? Uma questão como essa nos faz pensar na observação de Flaubert sobre Bouvard e Pécucher ao ler romances de Walter Scott: “sem conhecer os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://30.media.tumblr.com/tumblr_l8b4etfvmw1qz7lxdo1_500.jpg"><img class="aligncenter" src="http://30.media.tumblr.com/tumblr_l8b4etfvmw1qz7lxdo1_500.jpg" alt="" width="500" height="477" /></a></p>
<p><em>Muiras vezes se questionou se o início do Tratado da Emenda do intelecto é uma narrativa autobiográfica. Já que escreveu em primeira pessoa, Espinosa teria exposto nesse tratado seu próprio itinerário? Uma questão como essa nos faz pensar na observação de Flaubert sobre Bouvard e Pécucher ao ler romances de Walter Scott: “sem conhecer os modelos, encontravam as pinturas assemelhadas” . Nada permite atribuir o “ eu” ao comerciante de Amstredã conhecido pelo nome de Baruch de Espinosa. Além disso, colocando uma tal questão e respondendo-a afirmativa ou negativamente perde-se de vista um movimento essencial do texto e, portanto, do pensamento: um movimento que já apontamos antes, a saber, aquele que toca o sujeito dos enunciados.</em></p>
<p><em><strong>O texto é escrito em primeira pessoa enquanto expõe a decisão, a hesitação e o fracasso. É escrito em terceira pessoa ao expor as causas do fracasso da conciliação entre perseguição de bens comuns e a busca do verdadeiro bem. Ora os sujeitos são esses bens, ora é a mente, ora os homens, ura um “nós”. Mas, mesmo quando o texto é escrito em primeira pessoa, o “eu” não é idêntico a si mesmo. A narrativa não remete somente a acontecimentos situados fora do eixo. Alguns acontecimentos ocorrem  dentro dele.</strong> Por exemplo, em duas retomadas, o estilo se torna indireto: “Digo que ‘me decidi’ enfim”, ou, mais adiante, “ Entretanto, não é sem razão que usei destes termos”. Espinosa volta ao que escreveu, reflete sobre o que escreveu; há porém, ainda mais: a narrativa ou a exposição da decisão, da hesitação e do fracasso está no passado, enquanto a narrativa das causas ou razões da hesitação e do fracasso está no presente. Do ponto de  vista da narrativa, os efeitos (hesitação, fracasso) são anteriores ás causas (busca dos bens comuns). Espinosa superou por sua própria conta os obstáculos cujas causas são ainda presentes. Ele se eleva dos efeitos às causas e vem do passado para o presente. O presente é, nesse momento do texto, aquele espírito dilacerado, distraído, extraviado na perseguição de prazeres, riquezas e honras. Portanto o “eu” da narrativa não pode ser identificado à mente.</em></p>
<div class="zemanta-img" style="margin: 1em; display: block;">
<div class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><em><a href="http://commons.wikipedia.org/wiki/File:Frans_Hals_-_Portret_van_Ren%C3%A9_Descartes.jpg"><img class="zemanta-img-configured" title="Portrait of René Descartes, dubbed the &quot;F..." src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/73/Frans_Hals_-_Portret_van_Ren%C3%A9_Descartes.jpg/300px-Frans_Hals_-_Portret_van_Ren%C3%A9_Descartes.jpg" alt="Portrait of René Descartes, dubbed the &quot;F..." width="300" height="367" /></a></em><p class="wp-caption-text">Image via Wikipedia</p></div>
</div>
<p><em>De certa maneira, Espinosa se distingue, sem mostrá-lo explicitamente de Descartes. Com efeito, Descartes escreve o início das Meditações metafísicas em primeira pessoa, e o “eu” que duvida se transforma sem deixar de ser o mesmo “eu” do “eu penso”, que é o “eu” do “eu existo”. O “eu” cartesiano é, por asism dizer a mente que fala e que se torna o átomo da certeza, simples e indivisível. <strong>Para Espinosa, ao contrário, o “eu” não pode ser digno de identidade simples e indivisível, porque é a marca de uma mente decomposta. Logo, a hesitação da mente que não sabe para onde se voltar é a reflexão ou o retorno sobre si da mente distraída em sua própria distração. Espinosa se abisma na greta da mente, ele não escapa. E nada é antecipado. Pelo contrário.</strong></em></p>
<p><em><strong>O prazer gera tristeza, as honras nos acorrentam aos outros, a riqueza nos causas preocupações. Todos esses bens ocasionam efeitos que são seus contrários, eles são enganosos e inconstantes. São bens, mas incertos. Se não incertos é porque estão privados do que os tornaria certos como bens ou do que faria deles males certos. Todo mundo conhece sua inconstância, como explicar então que não deixe de persegui-los?</strong> É que, se os homens se deixam levar por todo tipo de ilusão, é-lhes difícil persistir na mesma. O conteúdo desses bens varia, mas não sua forma. Mas isso todo mundo Sab, é o fundamento mesmo de toda superstição e de toda servidão.E a decepção não basta para fazer filosofia, esta não começa por uma renúncia, nem pelo remorso ou pela consciência pesada.</em></p>
<p><em><strong>A riqueza, por exemplo, causa grandes preocupações</strong> e, no entanto, sua aquisição deveria nos livrar delas. Basta renunciar à riqueza para se liberar das preocupações que ela causa? Não. Essa renúncia é uma ilusão. E, antes de tudo, uma ilusão sobe o dinheiro. O dinheiro é um meio, a renúncia a ele participa inteiramente da mesma ilusão que acumulá-lo, a ilusão de tomá-lo como um fim. Mas tomar o dinheiro como meio não é tão evidente, sobretudo quando o dinheiro toma a si mesmo como um fim. E a busca da riqueza aumenta necessariamente a dificuldade, inclusive para aquele que não a busca, porque essa busca não significa somente possuir mais dinheiros, mas também fazer que o dinheiro produza a riqueza, que se auto-reproduza. <strong>E a riqueza se torna um problema.</strong> Há, pois, uma modalidade, uma forma na qual o prazer, as honras e a riqueza se oferecem como bens a serem perseguidos. A conseqüência é que essa modalidade impõe a representação desses bens. Se a busca desses bens opõe e divide os homens entre si – todo mundo os persegue e eles não se dividem -, ela não o destrói, no entanto, suas relações; ela engendra, por conseguinte, relações de força e dominação.</em></p>
<p><em>Logo, não é a renúncia que vai atribuir certeza ao que é incerto, mas, ao contrário, é a certeza que vai produzir como efeito a renúncia, e essa certeza vai abraçar de uma só vez os bens incertos e o bem procurado. Os bens incertos são males certos, o bem procurado é um bem certo, é incerto apenas que se o obtenha. Assim, a certeza de males não basta para obter o bem. O perigo é extremo, porque só esse bem procurado poderia curar males certos, mas ao mesmo tempo os males certos impedem que se alcance esse bem procurado. Logo, a única certeza é a do desejo, o desejo de um bem estável e certo, como “um doente que sofre de uma enfermidade letal, prevendo a morte certa se não empregar um remédio, é coagido a buscá-lo, ainda que incerto, com máxima força&#8230;”. Mas como se pode estar certo do que não se está certo de obter?</em></p>
<p><em>“Espinosa” – Ed. Liberdade.<br />
André Scala, Cap 1 (Tratado da Correção do intelecto), pgs. 30-33</em></p>
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		<title>Vai começar o último ciclo de oficinas do Coque Livre</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Oct 2011 13:35:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje (17 de outubro) tivemos mais uma reunião de planejamento do projeto de intervenção Coque Livre &#8211; na verdade, a última este ano, visto que esse será o último ciclo de oficinas esse ano. Tiramos as datas de divulgação nas escolas da comunidade (essa semana, quarta, quinta e sexta), da aula demonstração (dia 20, quinta-feira) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje (17 de outubro) tivemos mais uma reunião de planejamento do projeto de intervenção Coque Livre &#8211; na verdade, a última este ano, visto que esse será o último ciclo de oficinas esse ano. Tiramos as datas de divulgação nas escolas da comunidade (essa semana, quarta, quinta e sexta), da aula demonstração (dia 20, quinta-feira) e do início das oficinas propriamente ditas (a partir do dia 25, na próxima semana). Ricardo Ruiz e Ricardo Brazileiro serão os oficineiros mais uma vez e dessa vez vão trabalhar com programação básica e com uma tentativa de hackeamento do Facebook. Nas últimas semanas estivemos pensando em como trazer a rede social de Mark Zuckeberg para as ações de intervenção que temos pensado/realizado no Coque Livre. Ao lado, ou ao largo, do debate sobre o caráter fechado do Facebook &#8211; sua tendência (ou objetivo) de cercar as possibilidades de acesso aos bens comuns -  e de seu caráter vigilantista; resolvemos planejar esse último ciclo de modo a de alguma forma agenciar debates.</p>
<p>Não é, claro, nada novo. O núcleo duro formado pelas pessoas que estão há uns seis anos intervindo no Coque já procurou esse tipo de coisa em relação aos jornais locais, que até hoje reproduzem uma construção discursiva na qual o bairro e a comunidade são identificados como local de crime e de criminosos. Como se pode inferir, esse tipo de demarcação discursiva se agarra às pessoas que lá vivem e elas sofrem por causa disso com o preconceito na hora de buscar um emprego, por exemplo.</p>
<p>A ideia agora, enfim, é procurar criar condições para que os meninos que passarem pela oficina dos Ricardos possam ir além do mural de recados do Facebook e que se construa coletivamente uma potência de mobilização. E que mobilização? Com que finalidade? Com qual artífice?</p>
<p>Foi aí que na reunião pensamos na figura do Galeguinho do Coque e de acionar esse personagem na rede como um avatar &#8211; nos mesmos moldes de Wanderlyne Selva, de Luther Blisset, de <a class="zem_slink" title="Wu Ming" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Wu_Ming">Wu Ming</a>, Vitória Mário. Não do mesmo jeito exatamente, entenda-se: esses sujeitos vão nos servir de inspiração, digamos, para acionar um sujeito de construção e de desconstrução da carga discursiva sobre a comunidade do Coque e sua gente.</p>
<p>Isso porque José Everaldo Belo da Silva, mais conhecido como Galeguinho do Coque (não adianta procurar ainda, não existe verbete na Wikipedia) foi um criminoso que viveu no bairro e que alimentou um dos vetores de preconceito que cercam o lugar. Foi um assaltante com atividade regular na cidade durante a década de 196 e foi preso em 1971. Na cadeia converteu-se à religião evangélica, depois de solto abriu um comércio no Alto do Jordão e foi encontrado morto anos depois na cidade de Moreno, com uma bíblia falsa nos braços e um revólver .38 dentro. O Galeguinho do Coque não deu início à onda de violência no lugar e sua regeneração e morte não colocaram fim a ela também. Mas sua figura contribuiu muito para a identificação entre Coque e violência feita pelos rádios e jornais locais.</p>
<p>Pois bem. Nossa ideia então foi usar o Galeguinho do Coque como um gancho para várias coisas. Uma delas é um resgate da história recente da comunidade e de sua formação. Isso pode ajudar na compreensão histórica de determinações que já estavam aí quando os adolescentes que participam das oficinas nasceram. Penso (acho que pensamos) que um olhar para o passado recente ajuda a entender esse presente e a perceber que esse presente não é eterno &#8211; embora o olhar da necessidade diário possa convencer do contrário.</p>
<p>O Galeguinho do Coque poderá ser gancho para outra coisa. Talvez a compreensão última da noção de subversão. Porque no (arriscado) intento de mobilizar o avatar com o mesmo nome (signo) do &#8216;original&#8217;, estamos procurando fazê-lo com outro significante. Estamos tentando emplacar uma subversão do personagem histórico, no sentido de fazer com que o Galeguinho Reload, o Galeguinho 2.0, o nosso Galeguinho possa ser um agente que atue no sentido de inverter o processo de construção da imagem do Coque. Nossa intenção é que, como outros daqueles personagens, o Galeguinho do Coque agora seja um artista, um multi artista, que materialize as expressões da turma que fará a oficina inicialmente.</p>
<p>A idéia é contribuir com outro vetor, contrário, ao que o Galeguinho original acabou contribuindo para cristalizar. Um Galeguinho reinventado para se redimir? É uma ideia arriscada, sim, porque o sentido de apropriação que temos trabalhado em todo o Coque Livre pode ser usado aqui também num sentido que não desejável. Mas aí entra uma pergunta: desejável por quem? A imagem de um sujeito violento, inacessível, fugitivo, justiceiro e muito sedutora, sobretudo para crianças e adolescentes na faixa de risco em que se encontram muitos dos meninos que passam pelo Neimfa.</p>
<p>É por essa razão também que há um terceito elemento de gancho para o qual o personagem do Galeguindo do Coque pode ser útil: é o vínculo com o debate sobre agenciamento midiático, concentração de meios de comunicação, regulação dos media, direito de resposta, comunicação popular e comunicação pública. É um viés que pensamos que precisa ser trabalhado logo no início do ciclo.</p>
<p>A ideia de Brazuca é utilizar o Process (um ambiente de programação intuitivo) onde será construido o aplicativo para Facebook que permitirá postagens usando a identidade do Galeguinho 2.0. Essa será a trilha das oficinas no que se refere a programação para redes sociais. A ideia é que como Wanderlyne, Vitória Mário, Luther, o Galeguinho 2.0 possa agenciar múltiplas vontades, ações, presenças, criações, manifestos e que multiplique o tempo.</p>
<p>Bom, esse post tá em construção e vai ser melhorado à medida que as ideias forem circulando.</p>
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		<title>Igreja católica, comunicação pública e o cansaço da política</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Oct 2011 15:50:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Políticos brasileiros]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Recebi o texto abaixo numa das listas de discussão que assino. Na caixa de comentários eu comento o que acho dele&#8230;
O que mais quer a igreja católica?
Dioclécio Luz, no Observatório de Imprensa

A igreja católica não quer abrir mão do espaço que conseguiu na Empresa Brasil de Comunicação (EBC). No início de 2011, depois de prorrogar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">Recebi o texto abaixo numa das listas de discussão que assino. Na caixa de comentários eu comento o que acho dele&#8230;</p>
<h1>O que mais quer a igreja católica?</h1>
<p style="text-align: right;"><strong>Dioclécio Luz, no <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/-o-que-mais-quer-a-igreja-catolica" target="_blank">Observatório de Imprensa</a></strong></p>
<p><em><a href="http://27.media.tumblr.com/tumblr_l5rn2bqrFC1qz9v0to1_400.jpg"><img class="alignright" src="http://27.media.tumblr.com/tumblr_l5rn2bqrFC1qz9v0to1_400.jpg" alt="" width="305" height="500" /></a></em></p>
<p><em>A igreja católica não quer abrir mão do espaço que conseguiu na Empresa Brasil de Comunicação (EBC). No início de 2011, depois de prorrogar por um ano seu posicionamento, o Conselho da EBC decidiu que os programas religiosos – cultos e missas – deveriam sair da grade de programação da TV Brasil. Para chegar a isso, a EBC colocou o tema em consulta pública. Por fim, decidiu que os programas das igrejas tinham um prazo para sair do ar – setembro de 2011 – e seriam substituídos por programas educativos que tratassem do fenômeno religioso. É o lógico, é o correto, é o decente.</em></p>
<p><em>Mas, quando estava prestes a cair o prazo para a igreja abandonar o lugar que não lhe pertence, ela apelou para o “tapetão”, a Justiça. E achou um juiz que manteve os privilégios.</em></p>
<p><em>Não me espanta que a igreja católica tenha feito isso. Acharia estranho se ela – democraticamente – acatasse a decisão. Por quê? Porque estamos tratando de uma religião acostumada a mandar, dar ordens, determinar como o mundo girar e, naturalmente, ter poder acima de todos os outros poderes. A igreja se acha o deus que ela inventou. E para deixar bem claro quem manda, coloca o crucifixo (seu símbolo) no plenário da Câmara dos Deputados, no Senado, no Supremo Tribunal Federal, nas várias Assembleias Legislativas. Inaugurada em 2010, a Câmara Distrital do Distrito Federal ostenta no plenário um grande crucifixo. Sobre a mesa, aberta, a Bíblia alerta sobre quem manda ali. O cristianismo – católico ou evangélico – não abre mão do poder.</em></p>
<p><em>A igreja católica entrou na justiça contra a EBC porque ela sempre mandou neste país – em todos os poderes – e não admite deixar esse poder. É claro que, do ponto de vista da moral, não há sustentação para ela permanecer ocupando esse espaço público. Mas desde quando a igreja tem pudores com relação à usurpação de espaços públicos?</em></p>
<p><strong><em>A Constituição proíbe, mas&#8230;</em></strong></p>
<p><em>Vide o que ocorre em todas as cidades do Brasil. A igreja sempre pegou os melhores terrenos para construir seus templos, suas catedrais, suas casas paroquiais etc. Isso não é coisa do passado. O caso de Brasília é emblemático. Ao buscar um terreno para instalar a Universidade de Brasília, Darcy Riberio descobriu que a melhor área já tinha dono: a igreja católica. Em seu livro Confissões, ele relata como teve que ir ao Vaticano para negociar com o papa o terreno.</em></p>
<p><em>Como a igreja conseguiu um terreno numa cidade que mal tinha sido inaugurada? Ela comprou esse terreno? Claro que não. Do mesmo modo, não veio um centavo do Banco do Vaticano para comprar o terreno e construir a catedral de Brasília, na Esplanada dos Ministérios. É a única religião instalada na Esplanada dos Ministérios. Como ela conseguiu pegar esse terreno público em área nobre, destinada somente aos ministérios? Ora, porque sempre foi poder.</em></p>
<p><em>Hoje, quando a catedral precisa de reforma ou de ampliação de suas instalações, são empregados recursos públicos. Para construção do batistério, por exemplo, ela recebeu R$ 1 milhão. Na verdade, essa coisa de receber dinheiro público para reconstrução de igrejas “seria” ilegal, mas como elas (essas igrejas velhas) recebem a tipificação de “patrimônio histórico”, sempre têm dinheiro público para sua reconstrução. Isso está em lei. Ou melhor, no acordo assinado pelo governo brasileiro com a Santa Sé – a gente reconstrói as igrejas deles. A Constituição proíbe, mas como se trata da igreja católica&#8230; Ou a sociedade aceitaria o investimento de recursos públicos num templo da Igreja Universal?</em></p>
<p><strong><em>Revelações do passado</em></strong></p>
<p><em><a href="http://29.media.tumblr.com/tumblr_l6yb7e0Fb01qz9v0to1_500.jpg"><img class="alignright" src="http://29.media.tumblr.com/tumblr_l6yb7e0Fb01qz9v0to1_500.jpg" alt="" width="402" height="568" /></a>Esse tipo de coisa acontece em todo Brasil. No Rio de Janeiro, por exemplo, as pessoas acham normal ter uma imensa imagem católica (o Cristo) num espaço público, construído com recursos públicos, mas sob o comando da igreja. Ela fatura para “administrar” essa imagem. Em determinadas regiões, como no Nordeste, a força da igreja é tal que metade dos terrenos de alguns municípios lhe pertence. Sem contar o seu esforço de continuar dominando o povo pobre com milagres e mistificações. O melhor exemplo, no caso, é Juazeiro do Norte (CE), onde se estimula o sofrimento como forma de moeda de troca do deus criado pela igreja católica e se reconstrói a imagem de Padre Cícero, como santo, e agora – acredite-se – até como “ecologista”.</em></p>
<p><em>Acontece que, ao entrar com a ação na Justiça contra a EBC, a igreja católica não percebeu que o mundo mudou. Acostumada a mandar e a não receber críticas, agora ela está recebendo um monte delas. Pior, seu passado está sendo revelado. Pior ainda, revelou novamente sua ambição por mais poder e riqueza.</em></p>
<p><em>Consta que a ação pela manutenção dos programas foi apresentada pela arquidiocese do Rio de Janeiro na 15ª Vara de Brasília. Na ação, a igreja diz que houve “discriminação religiosa”. Se fosse sincera deveria dizer: “Olha, estamos acostumados a mandar no Brasil, por que vocês não obedecem?” Ou então: “Queremos manter esse espaço porque sempre ocupamos espaços públicos e ninguém nunca reclamou”.</em></p>
<p><em>Ações como essa da igreja têm a ver com a sua decadência. O número de católicos caiu quase 20% nos últimos 10 anos; falta quem queira ser padre. Tudo isso tem a ver com a sua imagem (manchada com as acusações de pedofilia acobertadas pelo papa); a falibilidade da retórica cristã sustentada por dogmas e imposições (que não convencem ninguém); revelações do seu passado de (muita) lama e sangue, incluindo matança de não-cristãos, de mulheres (somente por serem mulheres) e até relações com Hitler e Mussolini.</em></p>
<p><strong><em>Não é preciso ser ateu</em></strong></p>
<p><em>A doutrina ou moral católica é uma questão central nesse debate. Porque, afinal, o que a igreja quer é o direito de usar um espaço público – rádio e TV – para difundir que a mulher não vale nada; que homossexualidade é doença; que a camisinha não deve ser usada “porque não garante sexo seguro”; que o homem veio da mulher; que o sofrimento é bom; que somos todos pecadores; que o casamento deve ser eterno. O mais espetacular é que quem prega tudo isso são pessoas a quem foi proibido namorar, transar, casar, ter filhos, formar família. Bem, caiu a ficha: muita gente descobriu o óbvio: essa pessoa não tem condições de dar conselhos sobre família, filhos, sexo, moral.</em></p>
<p><em>Vejamos a questão política. Inventou-se na América Latina a tal Teologia da Libertação. A doutrina não mudou uma linha, apenas incorporou o pobre em seus discursos. Entenda-se o processo: ela não abandonou sua relação com o poder, com os ricos; somente acrescentou os pobres. Fez-se uma releitura dos ensinamentos bíblicos e se descobriu que Jesus era esquerdista e revolucionário. Surge a igreja progressista. Como se por acaso essa doutrina e essa hierarquia tivessem algo de socialista ou democrático.</em></p>
<p><em>No bojo disso tudo, para suprir a carência de religião do revolucionário de esquerda, dá-se um nó no marxismo e inventa-se o marxista cristão, o marxista transgênico. Desse modo todos ficam felizes: não é preciso ser ateu para ser marxista; o cristianismo aceita. No túmulo, Marx se revolve com esta invenção moderna da igreja. Patologia tupiniquim. Freud já explicou essa carência que faz com que o militante não consiga viver sem pedir a benção aos padres.</em></p>
<p><strong><em>Morte anunciada</em></strong></p>
<p><em>A igreja tem poder sobre os espaços públicos, mas também atua na educação (é dona das escolas mais ricas) e, principalmente, na comunicação. Embora se apresente como aliada do movimento pelo direito à comunicação (tem gente que acredita nisso), a igreja católica (progressista? direitista?) é “dona” de 46 emissoras de televisão, tem 863 retransmissoras e nove grupos filiados. Essa igreja católica dos padres de direita e dos “progressistas” possui 133 emissoras de rádio. Alguns programas ela consegue retransmitir por mais de mil emissoras. (Fonte: www.donosdamidia.com.br).</em></p>
<p><em>Por que essa igreja não se satisfaz com o que tem? Rica em finanças, dona de escolas, terras, emissoras de rádio e TV, ela ainda quer mais. Qual o limite para a ambição da igreja católica? A resposta é: a igreja tem um projeto de poder eterno e para conseguir isso ela precisa sempre e sempre juntar mais e mais poder. Este seu projeto não aceitaria jamais abrir mão de um espaço na TV e no rádio, mesmo que seja moralmente indefensável. Mesmo sabendo que se encontra em processo de extinção – ou talvez por isso mesmo. É o seu jeito de evitar a morte anunciada.</em></p>
<p><em>***</em></p>
<p><em>[Dioclécio Luz é jornalista, mestre em Comunicação pela UnB, autor de A arte de pensar e fazer rádios comunitárias]<br />
</em></p>
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		<title>Unico filme copyleft do Festival de Cinema de Brasília recebe prêmio</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Oct 2011 19:39:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia & Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Thiago Novaes, na Lista Submidialogia
Nesta segunda &#8211; 03.10.11 o coletivo CMI-DF recebeu prêmio de R$ 35 mil no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com o filme Sagrada Terra Especulada.
Narrado pelo rapper GOG, é um grito contra a especulação imobiliária e pelo respeito à diversidade. Trata da luta entre a permanência do Santuário Sagrado dos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><strong>Thiago Novaes, na Lista Submidialogia</strong></p>
<p><em>Nesta segunda &#8211; 03.10.11 o coletivo CMI-DF recebeu prêmio de R$ 35 mil no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com o filme Sagrada Terra Especulada.</em></p>
<p><em>Narrado pelo rapper GOG, é um grito contra a especulação imobiliária e pelo respeito à diversidade. Trata da luta entre a permanência do Santuário Sagrado dos Pajés que é uma comunidade indígena Fulni-ô, localizada no plano-piloto de Brasília, e a construção do bairro Noroeste, destinado à classe alta do Distrito Federal.</em> <em></em></p>
<p><em>Único filme copyleft do Festival, o documentário não recebeu qualquer tipo</em> <em> de patrocínio e foi realizado de maneira voluntária e coletiva.</em></p>
<p><em>Baixe, Assista, exiba, distribua livremente &#8211; </em> <em><a href="http://vimeo.com/28597529" target="_blank">http://vimeo.com/28597529</a></em></p>
<p><em>Neste momento o Santuário e matas nativa de cerrado são atacados ilegalmente por tratores da construtora EMPLAVI. O filme serve como arma a favor da população indígena e de rua contra os novos e constantes ataques.</em> <em></em></p>
<p><em>Em tempo, este prêmio é uma resposta a cada bola de borracha, bomba de gás, pra cada transmissor de rádio livre roubado pelo Rei,pra cada noite na delegacia.Esse prêmio vai pra cada indígena, moradora de rua, sem-terra</em> <em><br />
assassinad@s ontem, hoje e amanhã. Ao cerrado sua fauna e flora, a quem dá vida aos movimentos sociais,todas as heroínas e heróis anônim@s, a quem se apropria da tecnologia como forma de libertação e&#8230;especialmente, do<br />
fundo do coração pra cada voluntári@ que dedicou seu tempo e sonhos à REDE IndYmedia ! Som@s tod@s ! Venceremos ! ((( I )))</em></p>
<p><em>wiki do santuário:</em> <em><a href="http://radius.tachanka.org/santuariodospajes/" target="_blank">http://radius.tachanka.org/santuariodospajes/</a></em></p>
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		<title>Hey June…</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 23:42:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Investigações paralelas]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-2512" href="http://www.locoporti.blog.br/hey-june/ring/"><img class="aligncenter size-medium wp-image-2512" title="ring" src="http://www.locoporti.blog.br/wp-content/uploads/2011/10/ring-418x600.jpg" alt="" width="454" height="651" /></a></p>
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		<title>Dia 17 de outubro, um encontro na rua</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Sep 2011 23:00:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[
Uma manifestação global está sendo convocada para o dia 15 de outubro para “reclamar direitos e reivindicar uma democracia de verdade”. A ideia é formar uma mobilização global não-violenta. Como afirma o texto de convocação, disponível aqui, “os poderes constituídos trabalham para o benefício de poucos, ignorando o futuro da vasta maioria da humanidade e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.adbusters.org/files/newsletter/2011/Wall-Street-text.jpg"><img class="aligncenter" src="http://www.adbusters.org/files/newsletter/2011/Wall-Street-text.jpg" alt="" width="668" height="1012" /></a></p>
<p>Uma manifestação global está sendo convocada para o dia 15 de outubro para “reclamar direitos e reivindicar uma democracia de verdade”. A ideia é formar uma mobilização global não-violenta. Como afirma o texto de convocação, disponível aqui, “os poderes constituídos trabalham para o benefício de poucos, ignorando o futuro da vasta maioria da humanidade e o preço ambiental que todos devemos pagar. Essa situação deve parar”.</p>
<p>O texto continua afirmando que “unidos em uma única voz, nós vamos fazer os políticos e as elites financeiras que eles servem, saberem que depende de nós, o povo, decidir o futuro”.</p>
<p>O texto avisa ainda que políticos e banqueiros não representam o povo e que é tempo de nos unirmos (o povo) e é tempo deles ouvirem.</p>
<p>A articulação está sendo feita em todos os continentes. No Brasil há os endereços abaixo do Facebook para onde devem convergir as organizações localizadas.</p>
<p><strong>BRAZIL</strong><br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=117904894971979">http://www.facebook.com/event.php?eid=117904894971979<br />
</a><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=258688750828711">http://www.facebook.com/event.php?eid=258688750828711<br />
</a><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=146385872122731">http://www.facebook.com/event.php?eid=146385872122731<br />
</a></p>
<p>E também páginas por estado e algumas cidades.</p>
<p>Salvador:<br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=275867459106289">http://www.facebook.com/event.php?eid=275867459106289</a></p>
<p><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=275867459106289"></a>Curitiba:<br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=258777194153031">http://www.facebook.com/event.php?eid=258777194153031</a></p>
<p><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=258777194153031"></a>Bauru:<br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=162471733830405">http://www.facebook.com/event.php?eid=162471733830405</a></p>
<p><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=162471733830405"></a>São Paulo:<br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=219577354763943">http://www.facebook.com/event.php?eid=219577354763943<br />
</a><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=265869633423819">http://www.facebook.com/event.php?eid=265869633423819<br />
</a><a href="http://roarmag.org/2011/09/call-to-action-united-for-global-change-on-october-15/onclick=">https://www.facebook.com/event.php?eid=173815709361127</a></p>
<p><a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=173815709361127"></a>Natal:<br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=282614531753257">http://www.facebook.com/event.php?eid=282614531753257</a></p>
<p>Porto Alegre:<br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=158484344236080">http://www.facebook.com/event.php?eid=158484344236080</a><br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=247070485334275">http://www.facebook.com/event.php?eid=247070485334275</a></p>
<p><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=247070485334275"></a>Passo Fundo:<br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=123428414425569">http://www.facebook.com/event.php?eid=123428414425569</a></p>
<p><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=123428414425569"></a>Florianópolis:<br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=270312849659994">http://www.facebook.com/event.php?eid=270312849659994</a></p>
<p><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=270312849659994"></a>Tubarão:<br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=149415055149282">http://www.facebook.com/event.php?eid=149415055149282</a></p>
<p><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=149415055149282"></a>Londrina<br />
<a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=102851526490798">https://www.facebook.com/event.php?eid=102851526490798 </a></p>
<p><a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=102851526490798"></a>Novo Friburgo<br />
<a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=238261839553540">https://www.facebook.com/event.php?eid=238261839553540</a></p>
<p><a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=238261839553540"></a>Pelotas<br />
<a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=197233963679960">https://www.facebook.com/event.php?eid=197233963679960</a></p>
<p><a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=197233963679960"></a>Grande ABC<br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=195095650560793">http://www.facebook.com/event.php?eid=195095650560793</a></p>
<p><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=195095650560793"></a>Sorocaba<br />
<a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=100351233407836">http://www.facebook.com/event.php?eid=100351233407836</a></p>
<p><a href="http://www.facebook.com/event.php?eid=100351233407836"></a>Belo Horizonte<br />
<a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=193303720739631">https://www.facebook.com/event.php?eid=193303720739631</a></p>
<p><a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=193303720739631"></a>Brasilia<br />
<a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=288392251174437">https://www.facebook.com/event.php?eid=288392251174437</a></p>
<p><a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=288392251174437"></a>Goiânia<br />
<a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=173002856113832">https://www.facebook.com/event.php?eid=173002856113832</a></p>
<p>A convocatório foi feita pelo grupo ROAR, que está entre outros organizando as ocupações em Wall  Street, desde o dia 17. Mas os parceiros do Roar, que vem organizando as manifestações em alguns países da Europa, também estão envolvidos.</p>
<p>Entre eles: <a href="http://www.euroalter.com/network/">http://www.euroalter.com/network/</a>, <a href="http://www.usdayofrage.org/">http://www.usdayofrage.org/</a>, <a href="http://takethesquare.net/">http://takethesquare.net/</a>, <a href="http://spanishrevolution.es/">http://spanishrevolution.es/</a>, <a href="http://amesi-dimokratia.org/">http://amesi-dimokratia.org/</a>, <a href="http://www.adbusters.org/">http://www.adbusters.org/</a>, e outras (comentei aí embaixo que eu coloco aqui sua contribuição).</p>
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		<title>Sobre o momento digital</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Sep 2011 17:30:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Metareciclagem]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia & Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[
Rodrigo Savazoni, na Revista Zona Digital




O teórico do ciberespaço Howard Rheingold afirma em seu livro Smart  Mobs (Multidões inteligentes), ainda não traduzido para o português,  que, do ponto de vista tecnológico, nosso mundo vem se transformando não  pela ação dos líderes industriais estabelecidos (como já ocorrera com o  surgimento da internet [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://29.media.tumblr.com/tumblr_lr370fa5if1qz6f9yo1_500.jpg"><img class="alignnone" src="http://29.media.tumblr.com/tumblr_lr370fa5if1qz6f9yo1_500.jpg" alt="" width="499" height="368" /></a></p>
<p style="text-align: right;">Rodrigo Savazoni, na <a href="http://zonadigital.pacc.ufrj.br/reflexoes-criticas/sobre-o-momento-digital/" target="_blank">Revista Zona Digital</a></p>
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<p><em>O teórico do ciberespaço Howard Rheingold afirma em seu livro Smart  Mobs (Multidões inteligentes), ainda não traduzido para o português,  que, do ponto de vista tecnológico, nosso mundo vem se transformando não  pela ação dos líderes industriais estabelecidos (como já ocorrera com o  surgimento da internet e dos computadores pessoais), mas pela força de  “pequenos grupos de jovens empreendedores e de associações de  aficcionados”. Aliás, Rheingold, nessa passagem, reforça: “sobretudo por  meio de associações de aficcionados”.</em></p>
<p><em>Também não é por meio dos líderes estabelecidos e das forças  tradicionais que a política se reinventa e se reforça, mas sim pela ação  de grupo de “jovens realizadores”, cujo objetivo é a construção de  novos territórios para as causas comuns. No Brasil, são justamente esses  “jovens realizadores”, ativistas conectados à internet, os arquitetos  dos movimentos sociais do século 21. Por meio de projetos democráticos e  métodos provocativos, esses agrupamentos contemporâneos estão  confrontando forças estabelecidas de nossa sociedade e já fazem algum  barulho.</em></p>
<p><em>Uma característica (1) desse movimento é que ele provém de  articulações cuja origem não está nas estruturas partidárias, sindicais  ou mesmo nos movimentos sociais  surgidos nas três décadas anteriores  (como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST – ou mesmo as  grandes associações de lutas por direitos humanos e sociais – como  Ibase ou Ação Educativa, para ficar em apenas dois exemplos). São, acima  de tudo, forças articuladas em rede, com forte influência do uso das  novas tecnologias de informação e comunicação, que nem sequer podem ser  chamadas de “organizações”.</em></p>
<p><em>Outro aspecto importante (2) é que são grupos que não se prendem a  filiações ideológicas rígidas. Sua marca é a ação. São ideólogos da  prática. Pode-se tentar compreendê-los buscando referências na esquerda  libertária, de onde provém muitos dos princípios dessas articulações,  mas boa parte de seus participantes não se furta a saquear métodos e  símbolos extraídos da cultura corporativa. Há uma forte conexão com o  altermundismo, o movimento por uma outra globalização que se espraiou no  final dos anos 1990 e no início da primeira década do século 21, tendo  nos Dias de Ação Global e no Fórum Social Mundial seus grandes momentos  de reunião e expressão,  mas somente essa filiação não explica o que  está ocorrendo.</em></p>
<p><em>Se aproximarmos nossa lupa, cresce a imagem da cultura digital, que,  conforme nos explica o professor André Lemos, da Universidade Federal da  Bahia, se forja a partir do surgimento da internet e da popularização  da microinformática, processos iniciados no final dos anos de 1970. Essa  cultura ganha impulso adicional e assume sua forma mais visível com a  aparição da web, nos anos 1990. Trata-se de uma cultura baseada na  recombinação e na colaboração que se alastrou pelo planeta e produziu um  curto-circuito no comportamento, na economia, nas artes, na mídia e,  evidentemente, na política.</em></p>
<p><em>A percepção dessas transformações, com a massificação das  tecnologias, só faz crescer. Com suas ferramentas digitais, esses  “jovens realizadores” não só descrevem a realidade, mas acima de tudo  transformam-na. Técnica e política, neste debate, jamais podem ser  observadas em separado.</em></p>
<p><em>Por fim (3), outra característica da articulação desses “jovens  realizadores” tecnológicos é a busca pela radicalização da política e da  democracia, que vêm sendo paulatinamente aprisionadas pelos interesses  econômicos e pela vacilações do representantes políticos tradicionais.  Portanto, não se trata de um movimento de negação da política, mas de  confrontação das estruturas e dos representantes desse mundo caduco.</em></p>
<p><em><strong>Expoentes da transformação em curso</strong></em></p>
<p><em>Destaco três redes como aquelas que são os expoentes do que descrevi  acima. A rede Transparência Hacker, a rede Metareciclagem e a rede Fora  do Eixo. Na sequencia, faço uma rápida descrição das três, para que  posteriormente possamos avançar no debate.</em></p>
<p><em>A Transparência Hacker (1) é uma comunidade formada por ativistas,  jornalistas, programadores e gestores públicos que conta com cerca de  800 membros em sua lista de discussão[1]. Essa rede conta com apoio do  escritório brasileiro do W3C, a instituição criada por Tim Berners Lee  para manter a world wide web (www) aberta e livre.</em></p>
<p><em>De acordo com Daniela Silva, da Esfera e da Casa da Cultura Digital,  uma das principais articuladoras da rede, não existem regras prévias  para participar da #THacker, mas sugere que a “colaboração, liberdade,  autonomia, ética hacker, abertura para formas novas de agir e de pensar  sobre o mundo, valores políticos emergentes e mutáveis (ou mutantes) e  um certo gostinho pela provocação” são as principais características do  movimento. Como está escrito na página do coletivo na internet,  interessam “ideias e projetos que utilizem a tecnologia para fins de  interesse da sociedade” e sua vocação específica é exigir a abertura dos  dados governamentais. Ou seja, os ativistas querem que o estado, na era  da informação, compartilhe com os cidadãos suas informações, o que por  si só se constitui em uma forma de compartilhar poder.</em></p>
<p><em>A rede Metareciclagem (2) é pioneira desse movimento, tendo surgido  no contexto do Fórum Social Mundial. Sua lista, que pode ser acessada  por meio do site http://www.metareciclagem.org está ativa há oito anos.  De acordo com Felipe Fonseca, um dos articuladores desse coletivo, “a  metareciclagem é mais um foco de potência de ação política – porque as  pessoas trocam entre si – do que uma instância política autônoma, que  tenha uma coerência”. No início da política pública dos Pontos de  Cultura, muitos dos ativistas desse coletivo trabalharam na elaboração  do que viria a constituir os Kits Multimídia e a ação cultura digital,  cujo objetivo é promover a criação tecnológica utilizando ferramentas  livres. Fonseca é autor do livro Laboratórios do Pós-Digital, disponível  para download no endereço  http://efeefe.no-ip.org/livro/laboratorios-pos-digital, no qual  apresenta muitas das questões centrais da reflexão da Metareciclagem.</em></p>
<p><em>O (3) Fora do Eixo (www.foradoeixo.org.br), por sua vez, é uma rede  de coletivos de produção cultural que está presente em todos os estados  do Brasil. Iniciada em 2005, por meio de uma parceria entre produtores  das cidades de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina  (PR), a rede foi crescendo e hoje é tida como a principal força  político-cultural surgida no país nos últimos anos. Somente no ano  passado, mais de 5 mil bandas circularam por meio das ações dos  coletivos que integram essa rede. A partir das articulações por eles  lideradas, foram promovidas ações como a criação da Associação  Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin)[2], e a criação do  Partido da Cultura[3], que vem buscando interlocução com a classe  política tradicional sobre questões de interesse das novas gerações, e  as Marchas da Liberdade[4], movimento que este ano levou às ruas de  várias cidades militantes em defesa das liberdades. Entre as inúmeras  inovações introduzidas por esse coletivo de coletivos, está a de  utilizar a economia solidária para construir relações sociais  diferenciadas entre sua rede de produtores e ativistas.</em></p>
<p><em><strong>Política Tropicalista</strong></em></p>
<p><em>Descritos os exemplos que nos interessam, podemos prosseguir.</em></p>
<p><em>Durante os oito anos de governo Lula, esses “jovens realizadores”,  adeptos de novas formas de fazer política, foram co-gestores de  políticas públicas. Isso ocorreu especialmente no Ministério da Cultura,  instituição que se apresentou como importante indutor do crescimento  dos coletivos, dando a eles o reconhecimento institucional que, em  geral, articulações de perfil libertário não recebem.</em></p>
<p><em>Essa configuração, porém, não foi especificidade da Cultura, posto  que o diálogo entre os ativistas e o governo federal daqueles tempos  propiciou: 1. as ações em defesa do software livre (que é a matriz  ideológica de boa parte dos movimentos políticos e sociais em rede); 2.  as políticas públicas em favor do compartilhamento do conhecimento, como  o programa Cultura Viva (dos Pontos de Cultura), a defesa da reforma da  Lei de Direitos Autorais (LDA), além de um conjunto de iniciativas mais  pontuais, como o diálogo com a blogosfera, os Pontos de Mídia Livre e a  rede CulturaDigital.Br; 3. a proposição de um Marco Civil de direitos  dos cidadãos digitais pelo Ministério da Justiça, legislação elaborada  de forma aberta e compartilhada (veja o site  www.culturadigital.br/marcocivil).</em></p>
<p><em>Conforme afirma Hermano Vianna, em Políticas da Tropicália:</em></p>
<p><em>“Talvez os softwares livres do ministro Gilberto Gil criem um  ciberespaço onde o espírito tropicalista se reproduza em inteligências  artificiais e virtuais, na periferia de um novo império americano que o  rock amado com tanto custo por determinados jovens baianos dos anos 60  nem sequer podia imaginar”.</em></p>
<p><em>Hermano utiliza neste texto, escrito há alguns anos, a expressão  “talvez”, porque sabia que a reação de setores privilegiados pelas  políticas de estado não tardaria a ocorrer.  Atualmente, essa delicada  relação entre os “novos agentes” e o governo popular” está escorrendo  pelos dedos. O portal rumo ao desconhecido que se abriu durante o  governo Lula, a nova gestão do Ministério da Cultura de Dilma Rousseff –  e sua mudança de orientação – fechou. Com Luiz Inácio Lula da Silva e  Gilberto Gil havia-se aberto um trilha de transformações profundas, no  plano da existência e dos símbolos, que abalou estruturas. Aqueles que  sempre foram privilegiados e entre 2003 e 2010 foram confrontados  reagiram, organizando um movimento de reconquista que conta com a  aderência de parte da esquerda tradicional.</em></p>
<p><em>O recorte tropicalista das políticas culturais, com sua opção de  fomento das dissidências e estímulo às bordas do sistema (ou mesmo por  aqueles que só se divisa a partir de dobras) – que é, conforme a citação  de Rheingold no início deste texto, onde a inovação reside, o caldo da  transformação entorna e a vida parece poder superar o capital –  tornou-se contraditoriamente foco da ira dessa estranha aliança entre  setores da esquerda e do empresariado da comunicação e da cultura. Esse  movimento – é bom lembrar – não é privilégio do Brasil, mas sim uma  reação global[5] à cultura digital.</em></p>
<p><em><strong>Em busca de uma democracia biopolítica</strong></em></p>
<p><em>É preciso mais uma vez reforçar: a essência dos movimentos da cultura  digital provém do software livre. No início dos anos 1980, um grupo de  engenheiros liderados por Richard Stallman criou a Free Software  Foundation (FSF), organização com o objetivo de defender a colaboração e  o compartilhamento quando os softwares começavam a se tornar  instrumentos de enorme ganho financeiro. Para maximizar seus  vencimentos, as empresas de tecnologia começaram a adotar patentes e  mecanismos de proteção de propriedade intelectual, contrariando assim a  essência do desenvolvimento científico, que é baseado na evolução a  partir do conhecimento acumulado.</em></p>
<p><em>Para “amarrar” a liberdade de compartilhar ao modelo de  licenciamento, a FSF criou um modelo alternativo (a licença GPL), que  passou a ser utilizada pelos desenvolvedores no mundo todo. Essa ação,  aparentemente técnica, embutia um confronto político que cresceria desde  então: o da luta contra a propriedade na era do conhecimento.</em></p>
<p><em>É justamente essa visão de superação da propriedade privada que  constitui o diferencial do movimento de cultura digital[6]. Era essa  visão que estava a nortear as políticas públicas desenvolvidas durante o  governo Lula. Uma construção que poderia apontar para  uma democracia  biopolítica, nos termos que propõe Peter Pál Pelbart, com base nos  escritos de Deleuze, Foucault, Negri, Lazzaratto, Agamben, entre tantos  outros pensadores contemporâneos que atualizam nossa compreensão do  mundo.</em></p>
<p><em>Peço licença para uma citação do livro Vida Capital, de Peter Pál Pelbart:</em></p>
<p><em>“Podemos retomar nosso leitmotiv: todos e qualquer um, e não apenas  os trabalhadores inseridos em uma relação assalariada, detêm a  força-invenção, cada cérebro-corpo é fonte de valor, cada parte da rede  pode se tornar vetor de valorização e de autovalorização. Assim, o que  vem à tona, com cada vez maior clareza é a biopotência do coletivo, a  riqueza biopolítica da multidão. É esse corpo vital coletivo  reconfigurado pela economia imaterial das últimas décadas que, nos seus  poderes de afetar e ser afetado e de constituir para si uma  comunialidade expansiva, desenha as possibilidade de uma democracia  biopolítica”.</em></p>
<p><em>Essa capacidade de reinventar o viver, que está na essência do  confronto biopolítico, vejo explícita em dissidentes como o  Transparência Hacker, o Metareciclagem e o Fora do Eixo. Como são  projetos distintos, de formação distinta, ainda que com muitos pontos de  conexão, evidentemente que não caberia analisá-los por igual, mas se há  algo que é comum a todos eles é o permitir novas “formas de viver”,  constituindo-se como agentes  fundamentais no processo de construção  dessa “democracia biopolítica”. Daí que, se estamos falando de políticas  de esquerda, estimulá-los é uma obrigação.</em></p>
<p><em>Fato é, portanto, que algumas questões só poderão ser respondidas se  compreendermos que a inovação cultural passa por esses “jovens  realizadores”. Mais que de uma investigação aprofundada sobre o papel  desses coletivos – algo extremamente necessário[7] – temos necessidade  de políticas que os fomente e fortaleça. Era isso que vinha ocorrendo no  governo Lula e que com Dilma parece ter perdido o passo[8]. A  presidente parece não ter percebido que o investimento nos “jovens  realizadores” pode ser o diferencial do Brasil.</em></p>
<p><em>Para discutir essas questões, as redes e coletivos estarão presencialmente em contato na<a href="http://www.culturadigital.org.br/" target="_blank"> terceira edição</a> do Festival CulturaDigital.Br (que no início foi chamado de Fórum da  Cultura Digital Brasileira). O evento será realizado entre os dias 2 e 4  de dezembro, no Rio de Janeiro, no Museu de Arte Moderna e no Odeon,  com patrocínio da Petrobras e apoio da Secretaria Estadual de Cultura.  Quando ainda se chamava Fórum, esse evento, que acima de tudo é um  processo de construção política, por meio do diálogo em rede, foi  realizado a partir de uma articulação da sociedade civil organizada e o  Ministério da Cultura. Seu objetivo inicial era ser um espaço de  elaboração colaborativa de políticas culturais para o Século 21, o  século das redes, da informação, da produção pós-industrial.</em></p>
<p><em>Atualmente, o Festival CulturaDigital.Br almeja ser um espaço de  encontro dos novos realizadores, produtores e ativistas que operam na  intersecção entre cultura, política e tecnologia, promovendo inovações. A  edição passada foi uma grande arena de contatos e encontros que vêm  reverberando desde então. Este é o momento digital.</em></p>
<p><em>[1] https://groups.google.com/group/thackday?hl=pt</em></p>
<p><em>[2] http://www.abrafin.com.br/</em></p>
<p><em>[3] http://partidodacultura.blogspot.com/</em></p>
<p><em>[4] http://www.marchadaliberdade.org/</em></p>
<p><em>[5] Na Espanha, a lei Sinde-Zapatero permite desconectar internautas  que “violem” direitos autorais; na França, a lei Hadopi abriu caminho  para criminalizar quem compartilha músicas, na Inglaterra, diante dos  protestos dos jovens, que se articulam em redes, o premiê propõe a  desconexão, no Egito, na Tunísia, na Líbia, em todo o norte da África,  computadores (re)agem…</em></p>
<p><em>[6] Para não ser acusado de tecnoutópico, registro que o capital se  propaga com força por meio das redes, e que a colonização da vida por  meio das tecnologias ocorre. No entanto, o fito desta nota é justamente  demonstrar que não existe resistência e superação ao capital fora desse  combate no plano das subjetividades.</em></p>
<p><em>[7] Vale destacar a tese de doutoramento de Hernani Dimantas, na  Universidade de São Paulo, sobre o Metareciclagem, trabalho executado  por um pesquisador que é também um dos mais importantes articuladores  dessa rede.</em></p>
<p><em>[8] O recente artigo do Ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio  Mercadante, “As Razões do Diálogo com os Hackers” parece apontar para  uma nova abertura governamental para políticas de fomento às  dissidências: http://www.trezentos.blog.br/?p=6224</em></p>
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		<title>Um vídeo para o fim de semana</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Sep 2011 20:03:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<title>2011: o ano em que tudo começou</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Sep 2011 18:00:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[
Por Bruno Cava, do Outras Palavras
e Universidade Nômade
O muro de Berlim caiu em 1989. Nos anos seguintes, o socialismo real  desabou como um castelo de cartas. Colapsou em poucas semanas o império  que vencera quase sozinho o Terceiro Reich e assombrara o planeta com o Sputnik.  Menos do que por conspiração imperialista, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><a href="http://24.media.tumblr.com/tumblr_lf8zg376S51qgs2izo1_500.jpg"><img class="aligncenter" src="http://24.media.tumblr.com/tumblr_lf8zg376S51qgs2izo1_500.jpg" alt="" width="555" height="370" /></a></p>
<p style="text-align: right;">Por <strong>Bruno Cava</strong>, do <em>Outras Palavras</em><br />
e <em>Universidade Nômade</em></p>
<p><em>O muro de Berlim caiu em 1989. Nos anos seguintes, o socialismo real  desabou como um castelo de cartas. Colapsou em poucas semanas o império  que vencera quase sozinho o Terceiro Reich e assombrara o planeta com o </em><em>Sputnik.  Menos do que por conspiração imperialista, pela própria incapacidade do  regime socialista. As emendas de Gorbatchov haviam saído piores que o  soneto. Nas décadas anteriores, os insatisfeitos atravessaram </em><em>en masse  a cortina de ferro. Até que um dia eram tantos os descontentes que os  muros perderam a sustentação e os ditadores caíram um após o outro. A  esquerda não adianta se iludir: as pessoas</em><em> desertaram dos países do antigo bloco soviético. Migraram </em><em>voluntariamente para  o capitalismo de mercado. Diante dos blocos cinzentos de apartamentos  em Tirana e Bratislava e do tédio do realismo soviético; o ocidente com  suas BMW, Disneylândias, </em><em>Big Macs e Michael Jackson só poderia mesmo parecer uma utopia maravilhosa.</em></p>
<p><em><span id="more-2482"></span><br />
</em></p>
<p><em>Assim como vazaram da URSS e seus satélites, as pessoas desistiram  dos partidos socialistas pelo mundo, convertidos em curiosidades  anacrônicas. E foi tudo por água abaixo em 1991. Aí veio a tese do fim  da história. A luta de classe acabou. Marx estava certo, mas perdeu. Não  cabem mais grandes narrativas históricas. Em gabinetes e coquetéis, os  capitalistas celebraram a vitória na Guerra Fria e o triunfo de seu modo  de produção. Do outro lado, a ressaca das forças de esquerda. Rendida à  ideologia, paulatinamente se acomodou no insosso discurso de direitos  humanos, numa militância descafeinada “contra todas as formas de  preconceito”. Os partidos de esquerda tucanaram a prática.</em></p>
<p><em>Mas por trás do fim das narrativas, se consolidou uma única grande  história. Se não estamos no melhor dos mundos na política, estaríamos no </em><em>menos pior. Isto é</em><em>, democracias constitucionais  representativas, baseadas na propriedade privada e na divisão social do  trabalho, numa ordem global partilhada entre a monarquia imperial dos  EUA, a aristocracia financista-empresarial e a plebe explorada.</em></p>
<p><em>O totalitarismo passou a ser o outro do capitalismo. Todo o século 20  achatado entre a humanidade-que-prevaleceu e a ditadura das ideologias.  Constituir novos sujeitos revolucionários? Seria repetir os erros do  século. Porque, não tem jeito, o poder do povo acaba usurpado pela  vanguarda revolucionária e então toda a revolução se perde em nome de  quem a enuncia. Não arrisquemos o pouco conquistado, vamos com calma,  com reformas graduais aqui e ali, na medida do possível. A divergência  aceitável passou a ser entre neoliberais e social-democratas. Os  primeiros, convictos defensores da aristocracia do “mercado livre”. Os  segundos, a favor de reformas graduais e pontuais, por um capitalismo  mais humano ou sustentável. A palavra “revolução” passou a atestar a  ingenuidade ou falta de bom senso do interlocutor. Não é pra levar a  sério, em pleno raiar do século 21, quem ainda acredita em revolução,  comunismo, política radical… Somente em 2001, na esteira das marchas  anticapitalistas de Seattle e Gênova, o filósofo <a class="zem_slink" title="Antonio Negri" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Antonio_Negri">Antonio Negri</a> e o  professor <a class="zem_slink" title="Michael Hardt" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Michael_Hardt">Michael Hardt</a> viriam a publicar um manifesto revolucionário à  altura dos desafios, com o livro </em><em>Império, perturbando o consenso.</em></p>
<p><em>Nessa terra arrasada que foi a década de 1990, se formou a minha </em><em>não-geração. Ao som do</em><em> </em><em>Nirvana, </em><em>Plebe Rude, </em><em><a class="zem_slink" title="Garotos Podres" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Garotos_Podres">Garotos Podres</a>, </em><em>Pearl Jam,  fragmentada e desorientada como num filme de <a class="zem_slink" title="Quentin Tarantino" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Quentin_Tarantino">Quentin Tarantino</a>, entre  partidos esquerdistas falidos e a rendição cabal à classe dominante  presidida por Collor e FHC; muitos afundaram no niilismo eclético do </em><em>pós-tudo. Pior do que o pavor do holocausto nuclear e da AIDS dos 1980, a completa ausência de perspectiva em meio à banalidade do </em><em>showbiz, ao politicamente correto reformista e ao neoliberalismo.</em></p>
<p><em><a class="zem_slink" title="Kurt Cobain" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Kurt_Cobain">Kurt Cobain</a> se matou aos 27 com um tiro na cara, enquanto Ewan  MacGregor mergulhava nos esgotos lisérgicos dessa geração ausente, em </em><em>Transpotting. Não poderia ser mais oportuno o </em><em>gran finale,  quando os Estados Unidos comeram o pão que seu governo amassou durante o  século. O Centro do Comércio Mundial (WTC) estremeceu e ruiu, abatido  pelo Frankenstein que ele próprio despertou e alimentou: a Al Qaeda de  Osama bin Laden. Naquele 11 de setembro, um sentimento ambíguo de horror  e júbilo percorreu a não-geração em todo o planeta. Ressentida, foi ao  delírio sádico com as imagens hollywoodianas ao vivo, excitação mais  intensa do que assistir à </em><em>Tropa de Elite.</em></p>
<p><em>Portanto, não dá pra passar em branco a singularidade deste ano. Se a  geração somente se constitui na sua luta afirmativa por uma vida menos  ordinária, começamos. O século acabou em 2001, mas recomeçou em 2011. Só  interessa o sujeito quando em atividade: </em><em>subjetividade. A  resistência já é em si um mundo, que se autovaloriza e autolegitima.  Erra feio quem não enxerga os pontos de convergência, o </em><em>comum de primavera árabe, Túnis e Tahrir, a onda 2.0 pela nova Europa, Itália,  Grécia, Inglaterra, Espanha, entre a afirmação de direitos de indígenas  e negros por toda a América do Sul, as ocupações de Wisconsin, o </em><em>software livre, o </em><em>Wikileaks, zapatistas, autonomistas, pós-operaístas, comunistas, hackers, </em><em>anonymous e anarquistas, o movimento pela cultura digital e tantas e tantas  coisas que estão rolando e só não vê quem não quer ver.  Nisso não  importa a idade, porque juventude e velhice não podem ser conceitos  biológicos. A grande imprensa finge que não, mas o movimento da geração é  local no choque de forças, mas global na proliferação de afetos ativos,  na formação de redes.</em></p>
<p><em>A história não acabou. A revolução não saiu da moda. Quem saiu da  moda foi a ideologia dos 1990. Confrontada com os acontecimentos, não  está conseguindo se sustentar. Hoje, os neoliberais têm dificuldade para  socializar a crise, distribuindo as perdas. Se todos passaram a falar  em “capitalismo”, é porque as coisas não vão bem para a ordem vigente. A  aristocracia de mercado apenas agravou a crise. Os sábios de olhos  azuis faliram de vez a economia mundial. No território dos  estados-nações ricos, generalizam-se a pobreza, a violência policial, o  racismo civil. 1% da população americana detém 80% da riqueza. Não há  mais sinal de estado de bem-estar em boa parte da Europa, mas </em><em>warfare state,  fundado no controle social e na ideologia da guerra. A grande imprensa  não consegue esconder o mal estar, ao mesmo tempo que novas mídias e  redes sociais lhe arrancam a opinião pública. Voltou-se a falar sem  pudor em política radical.  Isto não significa que devamos voltar às  apostas do socialismo real, tão fracassado quanto o capitalismo real.</em></p>
<p><em>O esquerdismo também continua fora da moda. Porque não possui leitura  do movimento generacional. Como sempre, desde o socialismo utópico e  dos esquerdistas contra Lênin, se recusa a viver o seu tempo histórico.  Não consegue se identificar com as lutas reais, nem sabe como funcionam.  Para o esquerdismo, as resistências, marchas e novos sujeitos não  seriam </em><em>anticapitalistas o suficiente. Pretendem uma Antígona de  negação abstrata. Curioso como os mais “revolucionários” serão os  últimos a percebê-la. Talvez quando se derem conta a revolução já terá  passado. Não perceberam que a contestação radical não parte contra o  Sistema. Não se formula assim, não circula assim entre as pessoas e  movimentos, sequer depende de uma concepção clara do que seja o Sistema.  Ninguém vai se revoltar porque alguém o convenceu que um outro sistema  seria mais interessante ou produtivo ou igualitário. Essa  conscientização é simplória.</em></p>
<p><em>A geração, os jovens, os precários, os pobres, os oprimidos, os humilhados, os movimentos insurgentes e as multidões queer</em><em> já lutam o tempo todo e se revoltam todos os dias.  Constituem eles mesmos os horizontes da geração, suas narrativas e  organizações políticas. São múltiplos focos, pautas e frentes das lutas  reais que, intensificados em sinergia, aos poucos vão revolucionando, </em><em>por dentro e para além, o sistema político-econômico, ou seja, a cultura de seu tempo.</em></p>
<p><em>Em suma, nem capitalismo real, nem socialismo real. </em><em>Querem outra coisa. O quê? Vá e veja!</em></p>
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		<title>O inferno astral do neoliberalismo: ascensão e queda</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Sep 2011 15:32:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[
Por Antonio Lassance, na Carta Maior
O velho liberalismo romântico
O neoliberalismo é uma ideologia, uma visão de mundo. Mais precisamente,  é uma visão de mundo adepta do individualismo, da competição, do Estado  mínimo e da primazia do mercado, o que justifica sua filiação ao velho  liberalismo. O que havia de novo nesse liberalismo?
O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://11.media.tumblr.com/tumblr_kvj3irMhLo1qz6f9yo1_500.png"><img class="aligncenter" src="http://11.media.tumblr.com/tumblr_kvj3irMhLo1qz6f9yo1_500.png" alt="" width="573" height="437" /></a></p>
<p style="text-align: right;"><strong><em>Por Antonio Lassance, na <a href="http://www.cartamaior.com.br/" target="_blank">Carta Maior</a></em></strong></p>
<p><em><strong>O velho liberalismo romântico</strong><br />
O neoliberalismo é uma ideologia, uma visão de mundo. Mais precisamente,  é uma visão de mundo adepta do individualismo, da competição, do Estado  mínimo e da primazia do mercado, o que justifica sua filiação ao velho  liberalismo. O que havia de novo nesse liberalismo?</em></p>
<p><em>O velho liberalismo de Adam Smith reservava funções claras ao Estado,  mesmo que sumárias, como a defesa do território, a proteção (que hoje  preferimos chamar de segurança pública), o recolhimento de impostos e a  política monetária. Mas nenhum liberal clássico, ao defender o  indivíduo, deixava de olhar a sociedade como um todo. A liberdade  individual supostamente promoveria o bem estar da sociedade. Smith  externava preocupação com o [fato] de que seus concidadãos, que vestiam o  mundo, estavam em farrapos.</em></p>
<p><em>Para o neoliberalismo, porém, não existe sociedade; o que existe são  indivíduos (frase de Margareth Thatcher, ex-primeira ministra do Reino  Unido). Não existe serviço público que não possa e não deva ser prestado  por empresas privadas (frase de David Cameron, atual primeiro ministro  do britânico).</em></p>
<p><em>Para o liberalismo clássico, as corporações eram um problema a ser  atacado. “A riqueza das nações”, de Adam Smith, criticava a proteção  estatal às companhias comerciais, que exerciam atividades mercantis de  forma monopolística, financiadas e escoltadas com recursos públicos.  Para o novo liberalismo, as corporações são “a firma” e são equiparadas  aos indivíduos. São pessoas jurídicas e têm por trás de si acionistas  (indivíduos). Ao contrário da versão original, para o neoliberalismo a  riqueza dos indivíduos é apátrida, e não uma riqueza “das nações”.</em></p>
<p><em>Outro fator de novidade do neoliberalismo era a globalização, uma  marcha tida como inexorável para o domínio absoluto do globo por essas  grandes corporações (comerciais, industriais, mas sobretudo  financeiras). Bem diferente da ideia de divisão internacional do  trabalho, que tinha como base as nações, e não as empresas.  Romanticamente, Smith apontava um caminho para cada país encontrar seu  lugar ao sol, produzindo de acordo com sua vocação. Deve-se dar um  desconto ao romantismo de Adam Smith, pois ele era contemporâneo da  poesia de Lord Byron, da música de Beethoven, da pintura de Delacroix. O  mundo respirava romantismo por todos os lados e parecia que o progresso  salvaria a todos.</em></p>
<p><em><span id="more-2478"></span><br />
</em></p>
<p><em>A visão do neoliberalismo não é nada romântica. Os neoliberais são  realistas até o último fio de cabelo. Eles são herdeiros da mutação  genética introduzida no velho liberalismo pelo darwinismo social de  Herbert Spencer, na segunda metade do século XIX. Sua vinculação a  Friedrich Hayek tem traços claros que os colocam mais como apóstolos da  lei do mais forte do que da lei do livre mercado.</em></p>
<p><em><strong>Ascensão e queda do neoliberalismo</strong><br />
A construção do neoliberalismo desenrolou-se aos soluços, com inúmeros  sobressaltos. Ele sobreviveu em estado vegetativo por décadas, até  ganhar uma dimensão política avassaladora com o tridente formado por  Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, nos anos 1980, personificado nas  lideranças de Ronald Reagan, Margareth Thatcher e Helmut Kohl.</em></p>
<p><em>Sua força política empunhava um ideário econômico agressivo, cuja  síntese mais propalada tornou-se conhecida como o “Consenso de  Washington”.</em></p>
<p><em>O ciclo do neoliberalismo, quase como um ciclo biológico tradicional,  durou cerca de vinte e cinco anos. É difícil encontrar hoje em dia algo  que não traga sinais dessa herança. Mesmo com seus abalos, ao final dos  anos 1990, ele ainda ganhou uma sobrevida por meio de governos da  autointitulada “terceira via”. Sob esse guarda-chuvas está uma legião  composta pelos democratas nos EUA (Bill Clinton), socialdemocratas da  Europa (Tony Blair, no Reino Unido; Gerhard Schröder, na Alemanha;  Lionel Jospin, na França; Massimo D’Alema, na Itália) e parte da América  Latina (como Fernando Henrique Cardoso, no Brasil; Carlos Andrés Perez,  na Venezuela; Carlos Menem, na Argentina; e todos os governos da  Concertación chilena).</em></p>
<p><em><strong>O inferno astral</strong><br />
O neoliberalismo sofreria um profundo abalo e entraria definitivamente  em seu inferno astral a partir de 2008, quando se ouviu um dobre de  finados não na periferia do sistema, mas na catedral do capitalismo, em  Nova York. Era o enterro da Lehman Brothers Holdings Incorporated.</em></p>
<p><em>Mas uma das características do neoliberalismo, além da ousadia e do  cinismo, é a teimosia. Ele insistia em disputar projetos políticos e em  ganhar eleições com seus arautos. Neles residiam as últimas esperanças  de dar a volta por cima, recobrar as energias e reinventar formas de  acumulação que evitassem que o capitalismo carregasse a pecha de ser um  grande prejuízo para a vida da maioria dos mortais.</em></p>
<p><em>Para a surpresa dos incautos, o neoliberalismo conseguiu eleger novos  garotos-propaganda. Na pátria-mãe, o Reino Unido, David Cameron; no  Chile, Sebastián Piñera; na Alemanha, Angela Merkel.</em></p>
<p><em>O Reino Unido é o exemplo mais retumbante do fracasso estrutural do  neoliberalismo. Sua política econômica tem como eixo a redução de  serviços públicos e a tentativa de desmonte de estruturas de Estado, uma  retórica persistente, mas pouco efetiva. O inglês mantém um alto grau  de prestação de serviços públicos estatais. Conjunturalmente, a inflação  está em alta, com as projeções beirando os 5% – pois é, eles não vão  cumprir a meta de inflação, que por lá está fixada em 2%. O desemprego  não só está em alta, como é o maior dos últimos dois anos.</em></p>
<p><em>A Escócia de Adam Smith, em má homenagem ao credo neoliberal, ostenta  um grande número de serviços públicos gratuitos à população. Seu Estado  de bem-estar social faz inveja ao dos ingleses. Os escoceses já haviam  conseguido um parlamento próprio e agora têm ganhado mais adeptos em  favor de sua independência. A política de desmonte, do governo Cameron,  tem ajudado em muito a aumentar a adesão à proposta de secessão. As  receitas da Escócia são suficientes para mostrar que, se alguém pode  sair perdendo com a separação, é a Inglaterra.</em></p>
<p><em>No País de Gales, a seção local do partido conservador cogita até  trocar de nome e reclama de sua associação ao legado de Margareth  Thatcher. A má fama do thatcherismo, segundo pesquisas, os prejudica  eleitoralmente.</em></p>
<p><em>No Chile, Piñera enfrenta as maiores manifestações desde Pinochet.  Além dos estudantes nas ruas, grande parte dos moradores das cidades do  sul do país, dependentes do gás subsidiado para se proteger do frio,  protesta contra o reajuste do produto e o encarecimento do custo de  vida.</em></p>
<p><em>Na Alemanha, Merkel tem feito pouca coisa que pode ser considerada  verdadeiramente neoliberal. Tanto que até seu companheiro de partido,  Helmut Kohl, lhe faz críticas sistemáticas. Os socialdemocratas alemães  parecem bem mais apegados ao neoliberalismo e dizem que a Alemanha vai  pagar caro pelas “vacilações” de Merkel, que deveria ser mais dura em  cobrar ajustes rigorosos em toda a zona do Euro.<br />
<strong><br />
O conservadorismo e seu contraponto</strong></em> <em><br />
Mas a hora não é dada a comemorações. O que está ruim ainda tem a chance  de ficar pior. A crise profunda do neoliberalismo tem tido como efeito  político a ressurreição do conservadorismo. Se os novos liberais  perderam força, os conservadores tomaram muito de seu espaço. A última  vez em que isso aconteceu foi após a I Guerra Mundial, com o nazismo e  do facismo.</em></p>
<p><em>O conservadorismo tem como bandeiras o combate aos imigrantes, o  protecionismo, o militarismo e o gasto social seletivo. Quer reduzir a  prestação de serviços públicos e trocá-los por cheques, “vouchers” e  descontos de imposto de renda, mas não exatamente por razões  privatistas. Há um duplo propósito. Torna possível financiar empresas  privadas nacionais para prestar serviços públicos essenciais e fecha a  porta aos imigrantes, que vivem na ilegalidade e não podem receber esses  benefícios focalizados.</em></p>
<p><em>O conservadorismo que tem no “Tea Party”, dos EUA, seu movimento mais  proeminente, é protecionista, nacionalista, militarista, xenófobo,  intolerante Os neoliberais não são a fonte desses cacoetes. Seus vícios  originais são outros, embora aceitem compartilhá-los, principalmente o  militarismo, se isso justificar vantagens competitivas.</em></p>
<p><em>Neoliberais apóiam a imigração como forma de atrair talentos de  qualquer parte do mundo e reduzir o custo da mão-de-obra, assim como  para manter uma ampla parcela de trabalhadores apartada de direitos  sociais. São a favor do direito de mulheres muçulmanas escolherem se  querem ou não usar a burka, pois sua proibição desrespeita a liberdade  individual. São cautelosos quanto ao militarismo, pois seus gastos são  elevados. Henry Kissinger e James Baker escreveram, meses atrás, um  artigo condenando a intervenção na guerra da Líbia, com base em um  cálculo da relação custo-benefício para os Estados Unidos.</em></p>
<p><em>Na crise financeira de 2008, os neoliberais foram, em grande medida,  “liquidacionistas”, como o velho Hayek pergava. Disseram que os bancos  em dificuldades deveriam ser deixados à sua própria sorte e quebrarem,  se preciso fosse.</em></p>
<p><em>Se há um contraponto político ao conservadorismo, ele ronda a América  do Sul. Está pelo Brasil, pela Argentina, o Uruguai, o Paraguai, a  Bolívia, a Venezuela, o Equador e o Peru. Com defeitos, limitações,  tibiezas e inúmeros problemas. Na Europa e nos Estados Unidos, os  movimentos de esquerda são de uma espontaneidade sem luxemburguismo (o  da Rosa, não o do Vanderley). Dependem de associações civis pouco  conectadas à luta política nacional e têm um profundo descrédito pelos  partidos, inclusive os de ultraesquerda, afogados em sua própria  retórica e empacados em sua falta de projeto.</em></p>
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		<title>Onko Chishin, tatoo rules and feelings, Japan, Yakuza, etc.</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Sep 2011 01:12:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Investigações paralelas]]></category>

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		<title>A Empresa Pernambuco de Comunicação e os rumos da comunicação pública na terrinha</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Sep 2011 18:54:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coisas imateriais]]></category>
		<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia & Sociedade]]></category>

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Bueno
faz tempo que não escrevo por aqui e a possibilidade de que o Projeto de Lei Autorizativa para criar a Empresa Pernambuco de Comunicação seja votado hoje na próxima semana é uma boa razão para espanar as teias de aranha desse sítio. Foi um longo caminho para que esse PL chegasse a ser apreciado na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.domestic.fr/_images_produits/58-gd-V100.jpg"><img class="aligncenter" src="http://www.domestic.fr/_images_produits/58-gd-V100.jpg" alt="" width="410" height="356" /></a></p>
<p>Bueno</p>
<p>faz tempo que não escrevo por aqui e a possibilidade de que o <a href="http://www.locoporti.blog.br/wp-admin/media.php?action=edit&amp;attachment_id=2471" target="_blank">Projeto de Lei Autorizativa para criar a Empresa Pernambuco de Comunicação</a> seja votado <span style="text-decoration: line-through;">hoje</span> na próxima semana é uma boa razão para espanar as teias de aranha desse sítio. Foi um <a href="http://www.locoporti.blog.br/wp-admin/media.php?action=edit&amp;attachment_id=2463" target="_blank">longo caminho</a> para que esse PL chegasse a ser apreciado na Assembléia Legislativa de Pernambuco. Como pode ser lido no texto e como vem sendo discutido publicamente desde março de 2010, a criação da EPC (da querida EPC pois já nasce com esse status) sinaliza a convergência da articulação política e afetiva de vários movimentos sociais, organizações culturais, fóruns, produtores, criadores, artistas de toda sorte e militantes de causas variadas.</p>
<p>A EPC também é resultado da convergênciado trabalho de vários atores sensibilizados/prejudicados/preocupados com a questão da comunicação no geral e em Pernambuco em particular. A &#8220;questão da comunicação&#8221; para quem não é &#8220;da área&#8221; parece com frequencia estar associada ao mundo da arte e do jornalismo de uma forma bem específica: desvinculada de suas implicações políticas e, de algum modo, com implicações ou invisíveis ou desimportantes. Me parece que é recente o entendimento mais geral de que &#8220;a questão da comunicação&#8221; envolve toda a sociedade, que diz respeito a todos. Esse entendimento parece ter recebido nos últimos anos a contribuição advinda das empresas de comunicação estabelecidas, aquelas, detentoras de concessões públicas de uso do espectro eletromagnético e que no entanto têm conseguido produzir uma incrível coleção de desserviços justamente ao público, ao bem comum e à democracia no Brasil em geral e em Pernambuco muito particularmente.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.domestic.fr/_images_produits/39-gd-V080.jpg"><img class="aligncenter" src="http://www.domestic.fr/_images_produits/39-gd-V080.jpg" alt="" width="368" height="368" /></a></p>
<p>Vou me poupar de fazer a relação, que seria impossível sobretudo porque há muito para escrever e contruir ali na frente, no futuro. A começar de agora.</p>
<p><strong>1. O projeto foi elaborado de forma a criar as condições para suportar um sistema de comunicação que no futuro poderá não somente envolver a produção de noticiário em TV, mas também outras mídias &#8211; rádio, web, web rádio, web tv. As possibilidades abertas apontam para a transmidiação, coisa que nem mesmo as emissoras que já adotaram a transmissão digital conseguem ou se interessam em fazer. Ou seja, a EPC não é um projeto de TV, apenas. Uma das sugestões levantadas durante o <a href="httphttp://www.facebook.com/note.php?note_id=153316074756255" target="_blank">debate </a>com o Fórum Permanente da Música de Pernambuco</strong><strong>, esta semana, foi a criaçãod e uma agência de notícias &#8211; coisa que, embora não possa ser implementada já, está no horizonte das possibilidades possíveis.<br />
</strong></p>
<p>A infraestrutura de retransmissão da atual TV Pernambuco é, provavelmente, a mais ampla do Estado de Pernambuco. Anos e anos de abandono despotencializaram uma rede de distribuição que pode, por exemplo, vir a ser ponto de apoio para a implantação em municípios do interior de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Redes_Mesh" target="_blank">redes mesh</a> e/ou estrutura para transmissão de rádios comunitárias ou mesmo para o compartilhamento de web rádios e web tvs com base em rede de fibra ótica alocada ao longo desses sítios.</p>
<p>De acordo com o PL, as decisões estratégicas como essas aqui sugeridas são atribuição de um conselho cujos integrantes são representantes do governo estadual e da sociedade civil (meio a meio), com voto de minerva reservado para a Associação dos Municípios de Pernambuco &#8211; ou seja, até o voto de minerva é associativo. Ao conselho também caberá a possibilidade de destituir da diretoria.</p>
<p>Esse modelo foi estabelecido tendo em vista a EBC, mas também a escuta de várias entidades representativas da sociedade pernambucana por meio de três seminários e das contribuições feitas por carta, email, vídeo, pessoal,emte, sinais de fumaça, pombo correio, tambores. O aspecto coletivo e democrático de coleta de contribuições para a  escrita do Projeto de Lei deve ser observado por aqueles que resolverem criticar sem atenção e de forma maliciosa a proposta.</p>
<p>Também é bom observar, embora já me pareça claro pelo que escrevi nesse post até aqui, que a EPC não emerge como resultado de uma provocação do governo do Estado para que essas contribuições pudessem acontecer. Na verdade foi bem o contrário o que aconteceu. A demanda geral da sociedade brasileira, insatisfeita com a comunicação empresarial, e de maneira mais geral ainda com a indústria da intermediação, é que fez o governo do Estado se sensibilizar -  ainda que com atraso -, a tocar um projeto que atendesse às demandas já mencionadas.</p>
<p>Nesse sentido, a EPC foi pensada para funcionar prioritariamente como um canal de veiculação da produção social imaterial e simbólica que é gestada na sociedade. Produtoras colaborativas, pontos de cultura, associações comunitárias, sindicais, cineastas, estudantis etc. poderão e princípio <em>escoar</em> sua produção via TV Pernambuco, dentro dos padrões de aceitabilidade da comunicação pública.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://behance.vo.llnwd.net/profiles8/567747/projects/2008867/1a1e78f9c066e808857aef503f062a7b.jpg"><img class="aligncenter" src="http://behance.vo.llnwd.net/profiles8/567747/projects/2008867/1a1e78f9c066e808857aef503f062a7b.jpg" alt="" width="581" height="822" /></a></p>
<p><strong>2. Mais do que  uma articulação bem sucedida, a criação da EPC  sinaliza vários desafios que deverão ser enfrentados nos próximos meses e anos e que não dizem respeito solamente à EPC.</strong></p>
<p>De que forma o Estado poderá contribuir com a democratização das ferramentas institucionais de veculação de valores &#8211; estéticos, políticos, afetivos, culturais &#8211; sem sequestrar ou lotear tais ferramentas?</p>
<p>Como a sociedade civil organizada poderá influenciar politicamente as decisões dos governos de forma a alcançar esse intento?</p>
<p>As respostas a essas perguntas, no entendimento deste escriba, serão resultado de um aprendizado que só tem a amadurecer a nossa débil democracia. Isso é fácil? Não é fácil e a carga de responsabilidade maior recairá sobre a sociedade civil, que é a detentora das possibilidades de hegemonia nesse e em qualquer outro ponto.</p>
<p>Quais profissionais serão necessários para a efetivar uma comunciação pública, considerando que o modelo estabelecido de comunicação é baseado em profissionais formados nas escolas de comunicação e que esse modelo não atende mais (atendeu algum dia?) às demandas da sociedade, a sua virtuosa mistura e complexidades? Esse, aliás, não é um problema trivial. Ele aponta por exemplo para uma articulação com as escolas de formação de profissionais de comunicação e para a abertura a profissionais de outras áreas. A celebrada transmidiação e a perseguida comunicação pública não são exigências/necessidades que se atendem com o formato tradicional de se fazer mídias.</p>
<p>Embora esse seja um desafio e tanto, ele também representa uma possibilidade de diferenciação em relação ao que vem sendo feito pela mídia comercial. Mais que isso, transmidiação, comunicação pública e novos atores na produção também apontam para a possibilidade de veicular coisas de interesse público de formas criativas, interessantes e que permitam uma briga pela audiência.</p>
<p>Conseguir níveis bons de audiência deve ser uma busca constante porque sinalizará o recebimento, na ponta, de conteúdo pensados de forma coletiva para tender à coletividade, ao interesse comum. É fácild e fazer? Não. São poucas as experiências institucionais no Brasil que vêm conseguindo isso.</p>
<p>Ao mesmo tempo, o caminho até agora tem mostrado que essa virtuosidade é possível. A proposta de gestão e sua gestação estão em sintonia com essa possibilidade e poderá, quem sabe, representar uma referência para outras inciaitivas de TV pública noutros estados.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://allanpeters.com/blog/wp-content/uploads/fortuneglobe.jpg"><img class="aligncenter" src="http://allanpeters.com/blog/wp-content/uploads/fortuneglobe.jpg" alt="" width="634" height="635" /></a></p>
<p><strong>3. Por fim, será interessante observar como os canais comerciais de comunicação reagirão à entrada de cena de uma empresa pública de comunicação. Até agora a mídia corporativa no Brasil inteirinho tem reagido de forma presunçosa, ignorante e conservadora (para dizer o mínimo) às propostas de mudança da legislação, à possibilidade de instauração de um conselho nacional de comunicação,  e a canais públicos. Além disso, o uso irregular de concessões públicas por alguns desses canais comerciais refletem o desrespeito à coisa pública por definição.</strong></p>
<p>E isso não será somente um aspecto a ser acompanhado, se não também um desafio. A votação e provável aprovação do PL que autoriza a criação da EPC não será suficiente. A partir daí os grupos que acompanharam, participaram e colaboraram precisarão chegar junto para consolidar a ideia de uma comunicação pública. E nesse sentido a ideia de um conselho estadual de comunicação poderá ser extremamente necessário pois tenderia a fortalecer e aglutinar e organizar a pressão pela crítica à mídia comercial e reforçar a necessidade de instrumentos públicos de comunicação.</p>
<p>O PL está em sintonia com o PL 116 e, talvez por isso mesmo talvez venha a <a href="http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-novo-modelo-da-televisao-brasileira" target="_blank">angariar reações á esquerda e à direita </a>também. Se a discussão for conduzida de forma democrática e acompanhada de forma atenta pela sociedade civil também será um elemento de fortalecimento de nossa democracia. E se não? Acho que não há alternativa. A criação desses instrumentos, as demandas da sociedade, as formas abertas de expressão, articulação e ação em rede exigem um debate sobre a economia política da comunicação num nível mais sofisticado, que supere interesses particularistas.</p>
<p>Esse post continuará em construção. Se tiver correções/colaborações/adendos comente ou mande um email.</p>
<p>Gracias</p>
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		<title>Rumo à era da cooperação?</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Sep 2011 12:35:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coisas imateriais]]></category>
		<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[                                               Por Ricardo Abramovay*
A riqueza contida na Wikipedia, nos softwares livres, nas plataformas de compartilhamento musical ou no YouTube não se deve apenas aos extraordinários meios técnicos oferecidos pela conexão em rede de computadores e “smart phones” cada vez mais poderosos e baratos. O mais importante, e o que faz desses exemplos parte do processo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>                                               <em>Por Ricardo Abramovay*</em></p>
<p><em>A riqueza contida na Wikipedia, nos softwares livres, nas plataformas de compartilhamento musical ou no YouTube não se deve apenas aos extraordinários meios técnicos oferecidos pela conexão em rede de computadores e “smart phones” cada vez mais poderosos e baratos. O mais importante, e o que faz desses exemplos parte do processo de construção de uma nova economia, são seus fundamentos sociais, que não podem ser dissociados das normas éticas que lhes dão sustentação. Longe de um paroquialismo tradicionalista ou de um movimento alternativo confinado a seitas e grupos eternamente minoritários, a cooperação está na origem das formas mais interessantes e promissoras de criação de prosperidade no mundo contemporâneo. E na raiz dessa cooperação (presente com força crescente no mundo privado, nos negócios públicos e na própria relação entre Estado e cidadãos) estão vínculos humanos reais, abrangentes, significativos, dotados do poder de comunicar e criar confiança entre as pessoas. É daí que vem o título do mais recente livro de Yochai Benkler, professor de direito em Harvard, ganhador do prêmio da Associação Americana de Ciência Política por seu livro de 2006, The Wealth of Networks, e certamente um dos pensadores mais originais da atualidade.</em></p>
<p><em>Por um lado, o Leviatã exprime organizações hierárquicas (públicas ou privadas) apoiadas em duas premissas centrais: a primeira é a clara distinção entre quem manda e quem obedece, quem concebe e quem executa, quem cria e quem consome, quem oferece e quem assiste. A segunda premissa está na assimilação entre racionalidade e egoísmo: o mundo econômico, sob a ótica do Leviatã, funcionaria tanto melhor quanto mais os indivíduos seguissem sua inclinação, supostamente natural, para defender exclusivamente o que lhes convém, só levando em conta os interesses alheios dentro dos limites exigidos pela lei e por uma reciprocidade abstrata, em que não há laços imediatos de colaboração entre as pessoas.</em></p>
<p><em>Em contraposição à centralização totalitária do Leviatã não está o mercado e sim o Pinguim, ícone da criação pioneira do engenheiro e hacker finlandês Linus Torvalds, autor do Linux kernel, o mais importante sistema operacional de acesso livre e que revolucionou o mundo digital desde o início dos anos 1990. O Pinguim simboliza a cooperação humana direta, voluntária e gratuita, cuja principal recompensa está no sentimento de que as relações entre as pessoas são justas, estimulam sua inteligência, valorizam sua participação, ampliam seu conhecimento, apoiam-se na comunicação e abrem espaço para a resolução conjunta de problemas.</em></p>
<p><em>A assimilação entre racionalidade e egoísmo (um dos pilares do pensamento de Hobbes e de quase toda a ciência econômica) é contestada não por uma metafísica a respeito da natureza humana, mas a partir da pesquisa científica. Benkler mobiliza de forma fascinante e didática evidências empíricas e experimentais da biologia da evolução, da neurologia, da psicologia, da economia experimental, da sociologia das redes e da ciência política para trazer à tona o que a vida cotidiana revela e muitas vezes o conhecimento especializado esconde: as pessoas não só são muito mais cooperativas do que habitualmente a ciência econômica e o senso comum supõem, mas, sobretudo, os processos de cooperação fluem tanto melhor quanto mais se apoiam em relações humanas reais, na satisfação do reconhecimento mútuo, no respeito e na confiança.</em></p>
<p><em>Os exemplos são inúmeros e vão desde o paradoxo de sistemas de doação de sangue que funcionam melhor quando gratuitos (na Grã-Bretanha) do que quando pagos (nos Estados Unidos, até os anos 1970), até a organização industrial em que o crescimento das disparidades salariais e as formas de trabalho que inibem iniciativas dos operários (na indústria automobilística americana) conduzem a resultados desastrosos diante da inovação que caracteriza o sistema japonês, em que os executivos ganham menos e os trabalhadores têm voz no chão de fábrica.</em></p>
<p><em>O subtítulo do livro de Benkler (o triunfo da cooperação sobre o autointeresse), mais que uma utopia, mostra uma das mais importantes tendências das organizações contemporâneas, que se exprimem em três dimensões fundamentais.</em></p>
<p><em>A primeira é de natureza ética: os estudos e as experiências citadas no livro derrubam o mito de que as organizações funcionam melhor quando apoiadas estritamente em incentivos materiais. Ao contrário, o pertencimento, o sentimento de que as negociações são feitas sobre base visível, clara e equânime, o prazer do convívio, o intercâmbio de ideias, a capacidade de ouvir e o poder de falar são atributos decisivos de realização humana e, ao mesmo tempo, estimulam melhores resultados nas organizações.</em></p>
<p><em>Daí o segundo aspecto do triunfo da cooperação, este de natureza política: sistemas de incentivo baseados no aumento da comunicação entre as pessoas, no estímulo a suas iniciativas e na compreensão das situações em que se encontram funcionam melhor que recompensa e punição. Estes princípios nortearam, por exemplo, a polícia de Chicago e lideranças religiosas que conseguiram, por meio da participação social, melhorar a qualidade da vida em bairros até então dominados pela violência das gangues.</em></p>
<p><em>O triunfo da cooperação, terceira dimensão, está igualmente no cerne das mais importantes organizações privadas. Linux é usado hoje pela IBM e por inúmeras corporações, sem deixar de ser um sistema aberto. Ao mesmo tempo, plataformas originalmente voltadas a finalidades de bem público transformam-se em prósperos negócios, sem que isso as condene a abandonar as bases relacionais em que se apoiaram quando criadas.</em></p>
<p><em>A obra de Yochai Benkler é parte de uma revolução científica em que convergem revelações surpreendentes sobre os comportamentos humanos e formas inéditas de organização do Estado, dos negócios e da vida associativa. A cooperação direta, intencional, apoiada em normas sociais claras, mas nem por isso localistas ou provincianas, é o mais importante caminho para novas relações entre economia e ética.</em></p>
<p><em>A OBRA:</em></p>
<p><em>The Penguin and the Leviathan – How Cooperation Triumphs Over Self-Interest, de Yochai Benkler</em><br />
<em>À venda pela internet.</em></p>
<p><em>–</em><br />
<em>Ricardo Abramovay é professor titular do departamento de economia da FEA, do Instituto de Relações Internacionais da USP, pesquisador do CNP e da Fapesp (www.abramovay.pro.br). Este texto também foi publicado no Valor Econômico.</em></p>
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		<title>O 11 de setembro</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Sep 2011 12:04:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Luis Hernández Navarro – Correspondente da Carta Maior na Cidade do México
No dia 11 de setembro de 1973 um golpe militar derrubou no Chile o governo do socialista Salvador Allende. A partir desse momento, com o apoio dos falcões de Washington, caiu sobre a maioria dos países da América Latina a noite sombria das ditaduras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Luis Hernández Navarro – Correspondente da Carta Maior na Cidade do México</em></p>
<p><em>No dia 11 de setembro de 1973 um golpe militar derrubou no Chile o governo do socialista Salvador Allende. A partir desse momento, com o apoio dos falcões de Washington, caiu sobre a maioria dos países da América Latina a noite sombria das ditaduras militares, a repressão e o desmantelamento das conquistas sociais. O Chile se converteu no grande laboratório neoliberal de onde seriam exportadas suas políticas para todo o mundo. Sacrificando Allende se quis frear as lutas de libertação no continente.</em></p>
<p><em>O 11 de setembro de 2001, o ataque às Torres Gêmeas em Nova York serviu como pretexto para que o governo de George W. Bush fizesse da guerra contra o terrorismo o instrumento principal para instaurar um novo poder constituinte. No calor da tragédia, os EUA fixaram uma nova doutrina de segurança nacional na qual advertiram que não tolerariam desafios ao seu poder, defendem a ação militar solitária em defesa da unidade nacional, sustentam o direito de efetuar ataques preventivos em qualquer parte do mundo e advertem que a dissuasão contra inimigos que “odeiam os EUA e tudo o que representam” é inútil.</em></p>
<p><em>Os dois 11 de setembro são datas que marcam o início de ofensivas do Império para reforçar seus interesses e abrir no continente americano e no Oriente Médio um novo ciclo de dominação e de acumulação de capital. No primeiro caso, o golpe de Estado serviu para frear o avanço da esquerda e das forças nacional-populares no Cone Sul, aprofundar a penetração do capital estadunidense e ampliar a presença militar. No segundo, permitiu à Casa Branca, com o pretexto do combate ao fundamentalismo religioso, avançar no controle dos recursos petroleiros no Oriente Médio e fazer da guerra parte do ciclo de expansão e consolidação da globalização neoliberal. Seu objetivo foi impor uma nova ordem internacional unilateral; estabelecer, pela lógica do fato consumado, um governo autoritário da globalização.</em></p>
<p><em>Os dois 11 de setembro reafirmaram o “excepcionalismo” estadunidense. Em 1787, James Madison, conhecido como o “pai da Constituição” dos Estados Unidos, assinalou que o objetivo principal do governo devia ser “proteger a minoria opulenta da maioria”. Em plena Convenção Constitucional, expressou que temia que o número cada vez maior de habitantes que sofriam as desigualdades da sociedade “suspirasse secretamente por uma distribuição mais equitativa dos bens”. A democracia, sentenciou, devia ser reduzida.</em></p>
<p><em>Nessa época, outro dos “pais fundadores” desse país, Thomas Jefferson, afirmou: “Estou persuadido que nunca houve nenhuma constituição tão bem calculada como a nossa para a expansão imperial e o autogoverno”.</em><br />
<em>Quase dois séculos depois, primeiro Richard Nixon e depois George W. Bush se empenharam em tornar realidade em escala planetária a missão que Madison atribuía ao governo e que Jefferson atribuía à Constituição de seu país.</em></p>
<p><em>A 38 anos do primeiro 11 de setembro e dez do segundo, na América Latina os povos resistem. Derrubaram as ditaduras militares da década dos setenta e meados dos oitenta e abriram a porta para que candidatos de centro-esquerda ganhassem as eleições. Antes do triunfo eleitoral, já tinha se produzido uma vitória cultural. O que o Império quis evitar com o Golpe de Estado no Chile renasceu por outras vias. As aventuras imperiais de Washington no Oriente Médio debilitaram o controle sobre a área que era considerada o quintal dos Estados Unidos.</em></p>
<p><em>Os governos progressistas na América Latina impulsionaram um processo de reconstrução da arquitetura do poder e da geopolítica na região. Há no continente uma redefinição profunda das relações e da inserção com os Estados Unidos, que se expressa tanto no rechaço das políticas da Casa Branca como no surgimento de um novo tecido institucional para favorecer a integração regional. A Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) foi torpedeada e, no Equador, não se renovou o contrato para que os EUA utilizassem a base militar de Manta. Também na contramão de Washington, a solidariedade com Cuba e as relações diplomáticas ativas com o Irã tem sido uma constante. O investimento chinês cresceu vertiginosamente. Com dificuldades, uma proposta pós-neoliberal abre caminho na região.</em></p>
<p><em>Ironias da história, dois 11 de setembro depois, o legado de Salvador Allende na região está mais vivo do que nunca.</em></p>
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