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	<title>Luiz Henrique Matos</title>
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	<description>Correndo atrás do vento</description>
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		<title>Luiz Henrique Matos</title>
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		<title>De mal a Dior</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Jun 2026 10:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Ela estava no banheiro quando ele entrou. Antes que o assunto importante sobre o qual precisavam falar fosse trazido, veio a pergunta: &#8211; Amor, acha que minha maquiagem está muito forte? &#8211; Não. Está ótima. &#8211; Mesmo? Às vezes, eu acho que fica meio exagerada. Olha esse lado aqui. &#8211; Não, imagine. Você sempre faz [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Ela estava no banheiro quando ele entrou. Antes que o assunto importante sobre o qual precisavam falar fosse trazido, veio a pergunta:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Amor, acha que minha maquiagem está muito forte?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não. Está ótima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mesmo? Às vezes, eu acho que fica meio exagerada. Olha esse lado aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não, imagine. Você sempre faz de forma muito suave, com traços firmes. Na parte dos olhos não dá nem pra perceber. E o batom combinou. Só às vezes, eu acho que você usa um tom mais forte…</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não sei. Mas e com essa roupa, fica bom?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Fica. A cor do batom faz um contraste com a da roupa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mesmo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Sim. Você sempre se veste muito bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Eu acho tudo em mim básico demais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Você? Jamais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Só você mesmo pra achar isso de mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Agora, você vai com esse brinco?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Por quê? Não tá bom?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não falei isso. Só queria saber.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Eu estava em dúvida entre esse, que é mais assim, tcham, sabe? Ou aquele outro… peraí.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pegou a jóia que estava sobre a pia e colocou na frente do rosto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ah, eu acho que fica bem melhor. Suaviza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mas então a maquiagem tá forte?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não, eu falei que é no conjunto, amor. Assim harmoniza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Seu olhar pra isso é melhor do que o meu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não é. Mas o meu olhar sobre você é melhor do que o seu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um sorriso. Eles se observavam através do espelho. Ele se aproximou por trás dela, afastou seu cabelo e lhe deu um beijo no rosto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Cuidado, você vai sujar minha bochecha com esse batom.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Esse fixa bem. E você falou que não estava exagerado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Você está lindo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Obrigado. E eu precisava te falar uma coisa importante, mas agora já esqueci e estou mega atrasado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Me fala.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Nossa… o que era mesmo? Deixa quieto, eu te ligo do carro quando lembrar. Mas vê se atende o celular!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Tá bom. Boa sorte lá. Te amo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deu uma última olhada no espelho para conferir o cabelo, ajeitou a gola da camisa, comprimiu os lábios para espalhar o batom e saiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/de-mal-a-dior/">Estadão</a>)</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Tudo, menos livros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 16:09:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Estreou no último domingo a minha outra coluna no UOL, essa mensal, sobre livros e leituras. Chamada Leituras, essa fará parte do canal Livros Mudam Vidas no UOL Tab. “Tudo, menos livros” é meu primeiro texto. Tomo emprestado (com admiração tributada) o cabeçalho de &#8220;Títulos comprados X Títulos lidos&#8221; da coluna mantida pelo Nick Hornby [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Estreou no último domingo a minha outra coluna no UOL, essa mensal, sobre livros e leituras. Chamada Leituras, essa fará parte do canal Livros Mudam Vidas no UOL Tab.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2026/05/24/tudo-menos-livros.htm">“Tudo, menos livros”</a> é meu primeiro texto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tomo emprestado (com admiração tributada) o cabeçalho de &#8220;Títulos comprados X Títulos lidos&#8221; da coluna mantida pelo Nick Hornby na The Observer para, a partir daí, fazer uma crônica a respeito de um tema ligado aos livros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leia lá :)</p>
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		<title>Patologia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 May 2026 14:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Meu pai arrumou um pato. Foi meio surpresa, meio anunciado, como era quase sempre quando saíamos aos sábados pela manhã só ele, meu irmão e eu. Se nosso destino não fosse uma quadra de futebol para um jogo do campeonato de salão que ele disputava no banco (e que meu irmão e eu assistíamos da [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Meu pai arrumou um pato. Foi meio surpresa, meio anunciado, como era quase sempre quando saíamos aos sábados pela manhã só ele, meu irmão e eu. Se nosso destino não fosse uma quadra de futebol para um jogo do campeonato de salão que ele disputava no banco (e que meu irmão e eu assistíamos da lateral, chutando bola um pro outro, imaginando um dia poder vestir uniformes como aqueles e jogar em um time oficial do… Bradesco), então era alguma coisa para os meninos. Por coisa para os meninos, leia-se ir numa loja de carros, comprar carne, levar o carro numa oficina ou fazer a feira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquela manhã, saímos para buscar um pato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não deu pra entender direito como foi que ele ganhou o pato, mas não importava naquela hora porque o pato era legal demais. O pato se movia todo engraçado, era bonzinho, tinha penas brancas e era, claro que era, o animal de estimação perfeito que nunca tivemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até aquele dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pato vinha perto da gente, corria de mim pra lá e pra cá, deixava a gente fazer carinho e o pato, poxa, o meu pato, veio ao meu lado no banco de trás do carro quando o levamos pra casa. Quando eu estava sentado, o pato era mais alto do que eu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Mãe, olha, a gente ganhou um pato!”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Leva ele pro quintal.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Fê, olha esse pato!”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A Fê ainda não tem idade pra brincar com o pato. Leva ele pro quintal.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">O meu pato gostou do nosso quintalzinho que, os vasos e gaiolas, era do tamanho do nosso quarto. Saiu bicando as plantas da minha mãe, saiu correndo de mim dando voltas por aquele espaço, batendo as asas meio assustado e assustando os passarinhos que meu pai criava num viveiro. Eu sempre quis ter um cachorro, mas ali não cabia, me contentava em brincar com os cachorros dos meus primos. Tentamos adotar um gato de rua, mas meu pai não deixou. Falou que ia comer os pássaros. Mas agora fazia todo sentido numa casa que criava passarinhos ter um pato pra brincar. É claro que ele estava feliz. Nosso pato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Agora é hora de entrar, Rique. Vai lavar as mãos.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Mas a gente tá brincando.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Vem pra dentro. Já já a gente vai se arrumar pra almoçar. Seus tios vem comer aqui hoje.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eba, visita! Eu entrei, fui lavar as mãos, troquei de roupa, voltei para a cozinha e a porta que dava para o quintal estava fechada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Porque tá fechada?”. A porta nunca ficava fechada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Seu pai está lá fora.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Posso sair?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Não. Ele tá… está com o pato. É que o pato, filho…”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele dia, tivemos visitas, mas eu só comi arroz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/patologia/">Estadão</a>)</p>
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		<item>
		<title>Da Copa do Mundo que talvez eu jogue</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 May 2026 00:43:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando um email da CBF chegou anunciando minha convocação para os jogos amistosos contra Japão e Coreia do Sul, ele não veio em boa hora. Era outubro e muita coisa vinha acontecendo. Eu andava às voltas com a decisão iminente de mudar de carreira. Depois de três décadas vendidas ao mundo corporativo, estava decidido a [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Quando um email da CBF chegou anunciando minha convocação para os jogos amistosos contra Japão e Coreia do Sul, ele não veio em boa hora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era outubro e muita coisa vinha acontecendo. Eu andava às voltas com a decisão iminente de mudar de carreira. Depois de três décadas vendidas ao mundo corporativo, estava decidido a me afastar e me dedicar em tempo integral à escrita, um sonho que alimentava desde a juventude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, poxa, poder jogar pela seleção brasileira às vésperas da Copa ia além de um sonho juvenil. É o tipo de coisa que poderia alterar completamente os planos e fazer com que minha vida de centroavante não-praticante mudasse de patamar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Reli o email para ver se não era spam, golpe ou trote. Não era. O remetente era a gerência de seleções da CBF (com domínio @cbf.com.br e tudo), incluía outros executivos da confederação em cópia, era direcionado ao manager de um clube russo cujo nome meu teclado é incapaz de reproduzir e ao atleta convocado. Call up dizia o título e a mensagem vinha toda em inglês. O mais importante: diziam no corpo da mensagem que eles tinham &#8220;the pleasure to confirm&#8221; a convocação do jogador listado no documento anexo para &#8220;join the Brazilian National Men&#8217;s Team&#8221; na disputa de duas partidas amistosas durante a Data Fifa do final de ano. E o tal documento em anexo que abri como se fosse uma caixa de bombons tinha lá:</p>



<p class="wp-block-paragraph">PLAYER: Luiz Henrique | Left Winger</p>



<p class="wp-block-paragraph">Euzinho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em carta oficial, datada, carimbada e assinada pelo diretor de futebol logo depois de um &#8220;we thank you very much in advance for your support&#8221; e mais um tanto de firulas com as quais, essas sim, eu estava bem acostumado. Comecei a me animar ao me dar conta de que ser jogador de futebol, afinal, tinha lá suas semelhanças com a vida corporativa que eu levava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No outro anexo, um visto para entrar na Coreia do Sul e as passagens aéreas. Porque é claro que eu, o atleta, aceitaria a convocação e também é claro que mesmo surpreso com a novidade, acreditava que um dia, finalmente, o reconhecimento pelo meu talento chegaria (mesmo que ele fosse desconhecido, inclusive, por mim) e, é evidente, sem a menor sombra de dúvidas, que só existe um Luiz Henrique no planeta e que meu email jamais poderia ter sido copiado por engano, mesmo sendo ele luizhenrique@algumacoisa.com e pareça fácil de ser adicionado por engano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, quem liga se a foto da pessoa ao lado do meu nome na folha de visto não se parecia comigo e nem que eu more em São Paulo e não em São Petersburgo, de onde partiria meu voo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O fato &#8211; e sei que você concorda comigo &#8211; o fato inconteste é que fui convocado. Ou meu email o foi. E se isso colocou em cheque decisões de vida e carreira até então sólidas, o ponto é: quem se importa? Eu iria para um jogo da seleção. E a partir daí, jogar a Copa só dependia da minha capacidade de aprender a praticar futebol. Mas é para isso, dizem, que existe a IA.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A convocação para ser parte da Seleção Nacional é sempre o ponto alto na carreira de um atleta e um reconhecimento do seu talento e bom trabalho realizado&#8221;, dizia a carta, que eu já lia às lágrimas. E seguia: &#8220;Todos os envolvidos merecem as máximas congratulações&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Obrigado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se minha meta pessoal até aquela tarde era aprender a escrever com a precisão estilística da Lygia Fagundes Telles, dali em diante eu me dei conta de que, para agradar à torcida e à crítica, precisaria de empenho para alcançar um vocabulário à altura do Vampeta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na Ásia, fiquei no banco passando frio. Cheguei a pensar que meu sonho com o manto amarelinho estava encerrado. Aterrissando em São Paulo (ou melhor, São Petesburgo), segui com a rotina que tinha até a chegada daquele email.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No começo de novembro, eu já havia pedido demissão do emprego e cumpria um aviso prévio estendido. Era uma tarde de segunda-feira, eu estava parado no engarrafamento de São Paulo, quando abri o celular e lá estava ela, a CBF. Novamente um &#8220;Call up &#8211; Brazilian National Team&#8221; e eu sabia o que era aquilo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nem li o que veio depois do &#8220;Dear qualquer-nome-em-russo&#8221; e fui direto para o anexo. Estava lá o player, meu nome de novo, o lance do ponto alto da carreira, as máximas congratulações, o nome do diretor e o carimbo, tudo igualzinho. Os jogos seriam dali duas semanas, contra Senegal e Tunísia, na Inglaterra e na França.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns comentaristas disseram que eu podia ter tido mais oportunidades. Mas quando chegou o fim do ano, pendurei as chuteiras no meu trabalho e segui o plano de carreira original. No começo de 2026 me despedi dos companheiros na empresa e empunhei uma caneta para me aventurar na vida de cronista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estava com os papéis na mesa e meia dúzia de ideias equivocadas na cabeça quando meu o luizhenrique@ notificou uma nova mensagem. Era ela, eram eles, era a glória sendo anunciada na forma de mais dois amistosos contra França e Croácia. Aos 45 &#8211; de idade e do segundo tempo &#8211; minha última chance chegou, em anexo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os amistosos acabaram e aproveitei os últimos meses para fazer media training. Caso o chamado para a Copa finalmente chegasse, gostaria de estar pronto para conceder entrevistas com um vocabulário à altura dos meus colegas. Mas, eu não consigo falar &#8220;o professor&#8221; em russo, quanto mais &#8220;meus companheiros&#8221;, &#8220;trazer alegria para o torcedor brasileiro&#8221;, &#8220;dar o meu melhor em campo&#8221; e &#8220;respeitar o adversário&#8221;. Então eu ficava praticando na frente do espelho para não dar vexame nas entrevistas na beira do gramado. Ainda mais depois que apareci na pré-lista da seleção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">No mês passado, saiu o álbum de figurinhas da Copa. E nas páginas 20 e 21, reservadas à seleção brasileira, aparecem os espaços dos jogadores ainda em branco e, no topo direito, número 12, lá estou, semi-convocado. Quem precisa de Ancelotti quando você tem a Panini? Desde aquele sábado, numa pré-temporada aqui em São Paulo, passo as tardes na portaria do condomínio oferecendo R$ 5 pela figurinha do Luiz Henrique a cada criança que cruza pela rua. Eu ando popular nas bancas da zona oeste. Ontem, fiquei a tarde toda numa pracinha trocando cromos, batendo bafo e escutando a vizinhança dizer que mereço a convocação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;O professor&#8221;, eu disse para o Feijão, dono da banca aqui do bairro, e um grupo de adolescentes com seus álbuns em mãos, &#8220;sabe o que é melhor para o grupo. Eu só quero poder ajudar meus companheiros, respeitando o adversário sempre, vou dar o meu melhor em campo para contribuir com a seleção e trazer alegria para o torcedor. E se Deus quiser, conseguir esse título para nossa torcida maravilhosa&#8221;. Eu estava pronto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde os primeiros minutos de hoje, 18 de maio, meu email estava aberto esperando um sinal do @cbf.com.br e seguia atualizando a página a cada três minutos com toques de ansiedade e desejo de glória, ajoelhado diante de uma parede preenchida com minhas figurinhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O professor disse que a lista sairia às 5h da tarde. Às 16:59, sem email na caixa de entrada, sintonizei o radinho na programação esportiva, abri os sites de futebol no computador e liguei a TV à espera da minha consagração.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2026/05/19/da-copa-do-mundo-que-talvez-eu-jogue.htm">UOL</a>)</p>
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		<title>Agora (também) no UOL e Substack</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2026/05/15/agora-tambem-no-uol-e-substack/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 May 2026 12:28:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Olá, amigos. Comecei a publicar meus textos no Substack recentemente. Migrei parte dos textos para lá e estou testando a plataforma para ver se migro. O elemento de integração social e o recurso de newsletter me pareceram bons. Aqui o link para o Correndo atrás do vento caso queira assinar. Desde a última semana estreei [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Olá, amigos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comecei a publicar meus textos no Substack recentemente. Migrei parte dos textos para lá e estou testando a plataforma para ver se migro. O elemento de integração social e o recurso de newsletter me pareceram bons. <a href="https://correndoatrasdovento.substack.com/">Aqui o link</a> para o <strong>Correndo atrás do vento</strong> caso queira assinar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde a última semana estreei uma coluna semanal no <strong>UOL</strong> para tratar de cultura digital, mídia e tecnologia, assuntos que ocuparam minhas horas úteis nos últimos trinta anos e sobre os quais passarei a comentar daqui pra frente. <a href="https://www.uol.com.br/tilt/colunas/luiz-henrique-matos/">Esse é o link para a coluna</a>, que também é uma newsletter.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Terei também uma coluna mensal sobre livros e experiência de leitura para falar um pouco sobre meu assunto favorito e que ocuparam minhas horas não úteis desde que fui contaminado pelo perfume de tinta sobre celulose pela primeira vez. Essa, assim que estrear, <a href="https://tab.uol.com.br/">estará aqui</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sigo com <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/">meu blog de crônicas no <strong>Estadão</strong></a>, no canal Metrópole, a partir de agora com publicações quinzenais, que também serão linkadas aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Obrigado pela companhia!</p>
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		<title>Cortinas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 May 2026 02:11:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Dessa janela por onde olho agora, vejo um bairro de periferia. Do espaço que se abre entre meu trabalho e a distração, só vejo o topo de uns quatro prédios cuja distância os deixa na altura dos meus polegares, a copa das árvores aqui da rua e uma fileira de casas na via que sobe [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Dessa janela por onde olho agora, vejo um bairro de periferia. Do espaço que se abre entre meu trabalho e a distração, só vejo o topo de uns quatro prédios cuja distância os deixa na altura dos meus polegares, a copa das árvores aqui da rua e uma fileira de casas na via que sobe até a avenida. Nada que inspire poesia vem da janela de um apartamento no primeiro andar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por esse espaço já vi chegar chuva e ventania, já vi entrar barata voadora e pernilongos assassinos, já escutei a canção que é a voz da Cecília me chamando lá do parquinho. Por essa fresta entram os ruídos das obras em prédios e casas na vizinhança, o grito entusiasmado do corintiano do terceiro andar e o som do carro do vendedor de “óleo, óleo, óleo, olha o carro do óleo!”. Por ali vi passar a pandemia, quase toda, e então foi o tempo em que esse pequeno vislumbre de mundo era toda visão que tínhamos de uma vida exterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fico idealizando paisagens mais literárias quando penso no que poderia ver ali. Queria que fosse o mar no horizonte azul, gostaria que fosse a cena de minhas meninas ainda pequenas outra vez correndo em volta do prédio, queria uma mata densa de floresta, queria montanhas. Isso, um paredão de montanhas salpicadas de verde sobre as quais eu poderia ver o contraste dos pássaros voando num fim de tarde. Colinas atrás das quais o sol se poria deixando sua luz deitar e um filete de raio alaranjado bater aqui na parede de casa. Nas suas encostas eu seguiria os bichos fluindo em seu rumo e veria também por ali, nas manhãs frias, um casal de velhos saindo de sua casinha para pegar lenha e alimentar o forno que os aqueceria enquanto a fumaça soprava por aquele céu. Aquele céu ali, que eu contemplo em busca de sinais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O céu de onde vem chuva, de onde vem luz, que se preenche dos astros todos que na escuridão me inspiram todo tipo de mistério existencial. Do céu figurado, por que não, onde deito minha fé. Se houvesse montanhas e campo e pássaros e minhas meninas e dois velhos e chuva, esse céu seria aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pudera eu ter essa vista aqui na janela. Quem me dera o privilégio de poder contemplar tais visões, por elas ser consumido, distraído e até ser capaz, quem sabe, de escrever sobre as coisas que por ali não vi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no Estadão)</p>
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		<title>Venho por meio desta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Apr 2026 19:25:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Toda vez que venho por meio desta para alguma coisa, venho para algo importante. Por meio desta só existe solenidade, em geral escrita de próprio punho, o que já implica pedir, por gentileza, ou melhor, por obséquio, uma folha extra de papel, me posicionar ereto na cadeira, escolher uma caneta específica e respirar de forma [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Toda vez que venho por meio desta para alguma coisa, venho para algo importante. Por meio desta só existe solenidade, em geral escrita de próprio punho, o que já implica pedir, por gentileza, ou melhor, por obséquio, uma folha extra de papel, me posicionar ereto na cadeira, escolher uma caneta específica e respirar de forma controlada porque é claro que vou tremer ao escrever e rasurar tudo e precisar, droga, daquela folha a mais porque errei justamente a maldita data, na última linha antes de assinar, logo depois do subscrevo-me, que era bem mais difícil e não errei, e de permanecer à disposição para quais esclarecimentos que se fizessem necessários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quaisquer” soa muito engraçado falado em voz alta, eu pensei alguns segundos antes. Quaisquer, hahah. E acho que me distrair com isso me fez errar a data. Poxa, logo a data?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrevi tudo firme, claro, espaçado e com caligrafia cuidadosa justamente para evitar o risco de ser convocado no futuro a esclarecer seja lá o que fosse, mas errei, justo o dia, que era pra ser 1 de abril e escrevi 3 – e não, não adianta insistir porque não dá pra puxar nenhuma perninha no 3 e fazer ele virar 1. E aí tive que vir por meio daquela novamente, tremendo ainda mais, respirando ofegante e a postura já toda comprometida porque agora nem folhas extras eu tinha para usar em caso de rasura. Não se rasura documentos dessa natureza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por meio desta, escrevendo à mão, costuma-se vir para pedir que o Detran reconsidere uma multa de trânsito mal aplicada, que o síndico acate uma reclamação contra o vizinho barulhento do apartamento de cima que insiste em andar de sapatos com salto e arrastar cadeiras e gritar com a família depois da meia-noite (oi, Emerson), autorizar as filhas a viajar com a escola para o acampamento ou, como é o meu caso nesta feita (estou para formalidades, lembra?), pedir demissão do emprego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Solicitar o meu desligamento e, outrossim &#8211; com dois esses, aprendi hoje &#8211; a liberação do cumprimento do aviso prévio, contando com vossa compreensão e tudo mais e ainda permanecendo à disposição para os tais e quaisquer esclarecimentos necessários (quaisquer… risos).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, que tipo de esclarecimentos poderiam ser necessários e até quando eu devo permanecer até que seja devidamente, hum, desligado? Espera, tem crase em “à disposição”? Tem? Putz, se não tiver vou ter que escrever a carta inteira de novo. Ou permanecer no emprego, com disposição ou sem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, por meio daquela, eu fui. E tenho vindo desde então. Agora por meio desta e de tantas outras páginas, rasuradas, desimportantes, atenciosamente errando as linhas e, por fim, subscrevendo-me, sempre em datas um tanto atrasadas.</p>
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		<title>A menina que desenhou o infinito</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 28 Mar 2026 22:59:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img width="768" height="1024" data-attachment-id="9310" data-permalink="https://luizhenriquematos.com/2026/03/28/a-menina-que-desenhou-o-infinito/img_3242/" data-orig-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2026/03/img_3242.jpeg" data-orig-size="3426,4568" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;1.78&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;iPhone 17 Pro&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1774126198&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;6.7649998656528&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;640&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.03030303030303&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;latitude&quot;:&quot;48.858741666667&quot;,&quot;longitude&quot;:&quot;2.3287083333333&quot;}" data-image-title="IMG_3242" data-image-description="" data-image-caption="" data-large-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2026/03/img_3242.jpeg?w=768" src="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2026/03/img_3242.jpeg?w=768" alt="" class="wp-image-9310" srcset="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2026/03/img_3242.jpeg?w=768 768w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2026/03/img_3242.jpeg?w=1536 1536w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2026/03/img_3242.jpeg?w=113 113w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2026/03/img_3242.jpeg?w=225 225w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2026/03/img_3242.jpeg?w=1440 1440w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A professora nos mostrou a folha de papel onde havia o desenho de uma garrafa com rótulo e, dentro do rótulo, o desenho de outra garrafa com um rótulo igual e, dentro, a garrafa de novo e então outro, mais outro e assim ia, diminuindo e diminuindo e mesmo que já não desse para ver, era possível entender que a imagem se repetiria indefinidamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando perguntada sobre o que a levou a fazer aquele desenho, Cecília respondeu: “É o infinito. Eu queria fazer o infinito porque eu… fico pensando nisso o tempo todo: o que é o infinito? Como é isso?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aos dez anos, minha filha sofre com dúvidas existenciais. E também faz perguntas desconfortáveis sobre a natureza das coisas, questiona nossas motivações e contesta decisões que lhe afetam e que a seu ver são “muito injustas”. Para nosso incômodo, ela é o tipo de criança que alguns adultos chamam de difícil. Talvez porque não desempenhe o papel que gente mais velha espera que crianças assumam, mas também pode ser porque suas questões remexem em pontos que deixamos de tocar e preferimos que repousem quietos numa gaveta mental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às vezes, chego a desejar que ela se entretivesse com coisas mais triviais e lúdicas. Nessa idade, eu só pensava a que horas passaria o Mundo da Lua na televisão e como é que o Lucas Silva e Silva fazia para registrar tantas coisas naquele gravador cheio de luzes. Pensava também no Chaves, na Caverna do Dragão e no Gato Félix, tudo separado por intervalos em que me abastecia com leite B gelado regado a doses cavalares de Nescau. Fora isso, a vida seguia um curso pacato, interrompido pelos finais de semana e pela escola onde, ali sim, tinha a sensação de que o infinito me era apresentado pelo professor Takahashi na monotonia incalculável das aulas de matemática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entrei em seu quarto para desejar um bom sono numa noite dessas e ela estava arrumando o travesseiro na cama. Sentou perto da cabeceira, encolheu os joelhos e me pediu para sentar. “Pai”, ela fez uma pausa enquanto refletia no que diria, “já aconteceu em algum momento de você achar que sua vida está parada? Que os anos estão passando mais devagar? É como se todo mundo estivesse andando junto em um caminho, mas de repente esse caminho se abrisse em dois e seguissem separados. Só que todo mundo vai para um lado e eu vou sozinha para o outro.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para o tipo de perguntas que ela faz, os adultos costumam tangenciar oferecendo respostas vagas ou inventam pequenas fábulas que ilustram soluções fáceis porque acham que temas complexos sempre precisam de alegorias para serem compreendidos pelas crianças. E era isso que estava fazendo quando comecei a escrever um conto sobre uma menina que adorava mergulhar no mar, mas que para conseguir enxergar os peixes e tesouros que estavam longe da parte rasa, precisava criar coragem para mergulhar mais fundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não escrevi além de duas ou três linhas. Minha filha merecia uma tentativa de resposta franca e que não descambasse no lugar comum. Além do mais, seria de uma cara de pau tamanha que eu não poderia sustentar. Entre os medos que tenho, um dos mais desconfortáveis é nadar em praias ou lagos onde não consigo enxergar com clareza a profundidade abaixo de mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu medo maior, no entanto, tem sido outro nesses dias. É o receio de que ela se conforme. Às vésperas de fazer mais um aniversário, me apavora a ideia de que Cecília, percebendo que as expectativas que os outros depositam contradizem seus impulsos, se ajuste ao olhar alheio para caber em modelos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O que é a vida? Não a minha vida. Mas, o que é vida, saber que estamos vivos, o que é isso?”, ela levantou como dúvida, sentada no banco de trás do carro enquanto íamos para o shopping center e eu só pensava se comeria um bife mal passado ou macarrão ao sugo no almoço. “O que teria sido do mundo se Eva e Adão não tivessem comido aquela fruta?”, as dúvidas sucedem. “Como eu vou ser no futuro?”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela pensa no futuro e parece que foi ontem que ela nasceu. Naquela manhã de 29 de março, um dia que já estava marcado por outras celebrações domésticas. Mas já não importava. Havia uma voz mais alta a ser escutada, um choro, um riso, a menina e sua presença intensa que sempre se sobrepôs, não porque manda em algo, mas porque sempre foi assim &#8211; e tem sido &#8211; sua existência radiante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao passo em que se expressa, ela levanta questões para as quais também queremos respostas. Há ciclos se cumprindo em sua vida, em seu corpo e ao redor. Há recomeços pela casa toda que a cercam e afetam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No último ano, a mãe trocou de trabalho, nos últimos meses ela cresceu doze centímetros, há algumas semanas a irmã viajou para passar uma temporada em outro país, daqui alguns dias eu mudarei de carreira, no mês passado movemos um sofá de lugar na sala da avó e ela chorou porque estávamos mudando tudo. A vida toda em transição. Como será o futuro não é uma dúvida que habita apenas aquela cabecinha ruiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E se antes esse caos existencial se refletia também numa bagunça irremediável de brinquedos, cadernos e roupas espalhadas, agora ela calhou de ser eficiente ao extremo. De algumas semanas para cá, ela passou a se deitar sozinha e esperar no escuro virem o sono e os sonhos. Levanta às cinco da manhã despertada por um alarme recém comprado, arruma a cama, alimenta as cachorras, põe a mesa do café. Em vez de uma pré-adolescente de padrões instáveis, a casa está sendo invadida por um protótipo de capa da Forbes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seria admirável se não fosse possível notar também uma correção nos modos que a fazem perceber que, se agir como se espera, as coisas pacificam. Ninguém julga quem não provoca. “Muito bem, mocinha! Que linda, Cecília. Nossa, como está responsável e como fala bem. Como cresceu. Já dorme a noite toda, já tira o prato, que exemplo, lindinha que ela é!” Fica mais simples se ajustar e ela dá sinais de que percebe. Ela agradece, sorri discretamente e se fecha naquele olhar de quem entendeu a regra do jogo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não, filha, por favor não faça assim. Tentamos achar meios de lhe falar. A conveniência dos outros tem a força de podar o que de belo te compõe. Não corte essa raiz. O conto da água parecia mesmo simplista e não vou subestimar sua inteligência com aquilo, mas não se deixe ficar na superfície se você é quem nos mostra que nós deveríamos ir mais fundo e nos confronta com o absurdo da nossa realidade. Porque quando nos fazemos as perguntas que você nos ensina, é bastante provável que precisemos lidar e fazer algo a respeito com as respostas que encontramos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já faz tempo que ensaio escrever esse texto. Eu o comecei há um ano, pouco antes do seu último aniversário e queria, de alguma forma, celebrar um traço de minha filha que me ensinava tanto às vésperas de decisões que precisaria tomar. As inconformadas, desajustadas, questionadoras, jamais trilham o caminho mais fácil. Mas o mundo só é legal, a vida só parece real, quando &#8211; ou para quem &#8211; as coisas se revelam fora do lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amanhã ela fará onze anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caminha pela casa e já não saltita como costumava fazer. Entre passeios de bicicleta, tardes regadas a desenhos do Pokémon, Bluey e pilhas de livros de fantasia que sob o braço, ela questiona o que observa ao redor, desenha capivaras e gatos por todos os lados, ri com piadas infames e cresce na velocidade incontrolável do tempo que escorre e que agora a angustia tanto quanto a nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela me perguntou se podemos escrever um livro juntos. É claro que podemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas ela tem sua própria história para compor. E talvez esteja notando, pela primeira vez, que há um caminho diante de si que é todo dela, e só dela. Isso pode parecer grande demais para encarar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passava das onze e eu estava lendo na cama quando escutei sua voz chamando: “Mãe, pai? Não tô conseguindo dormir”. O que há dois meses era o martírio recorrente das noites interrompidas, soou como canção de ninar para meus ouvidos. Fui até lá e deitei ao seu lado. Ela estava inquieta, a perna vinha por cima de mim, o braço esbarrava na orelha, ela se virava de um lado pro outro. Deixei que fosse se ajeitando até encontrar uma posição mais confortável e então, aos poucos, começou a respirar mais devagar até que acalmou e nossa respiração entrou em sincronia. Esperei, enquanto ela, com a cabeça tombada sobre meu peito, submergia no sono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A menina que desenha o infinito precisa de algo para dar conta da existência, aqui e agora. Um dia de cada vez, um suspiro e uma noite que lhe apascente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fiquei por ali mirando as luzes que entravam pela janela e refletiam no teto do quarto. Lá fora dava para ver no céu limpo algumas estrelas. Acabei dormindo por ali e só fui acordado por uma gritaria distante vinda das ruas vizinhas, quando o time-cujo-nome-não-pronunciamos-nesta-casa fez um gol. Levantei com cuidado sua cabeça e puxei o braço em cima do qual ela estava deitada. Ajeitei o travesseiro, arrumei seu cabelo atrás da orelha e a cobri com sua manta e uma prece. Ia fechar a janela, mas desisti. O céu era uma boa imagem do infinito para ela contemplar se acordasse, era também uma alegoria de eternidade que nos consola.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cecília tem muitas perguntas. E tem o olhar curioso de quem escrutina o redor atrás do que possa saciar suas dúvidas. Ela quer mais do que enxerga, quer saber, deseja entender além do que sua mente é capaz de processar agora. Ela quer abraçar o mundo tanto quanto abraça sua coleção infinita de bichinhos de pelúcia. Ela quer compreender o sentido da vida e também quer uma festa do pijama com um bolo decorado de Naruto e hoje lhe faremos uma.</p>
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		<title>Ao torcedor de Arujá</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Nov 2025 17:18:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Domingo à noite, nove e alguma coisa para ser impreciso, tv ligada no jogo do São Paulo contra o Vasco lá em São Januário (ou, aí em São Januário, caso o leitor seja vascaíno e nativo). Precisávamos ganhar, mas era pouco provável, bem pouco mesmo. Em um daqueles momentos em que a bola escapa para [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Domingo à noite, nove e alguma coisa para ser impreciso, tv ligada no jogo do São Paulo contra o Vasco lá em São Januário (ou, aí em São Januário, caso o leitor seja vascaíno e nativo). Precisávamos ganhar, mas era pouco provável, bem pouco mesmo. Em um daqueles momentos em que a bola escapa para a lateral e algum jogador já cansado fica fazendo cera na reposição, a câmera não tinha lá muito o que mostrar e resolveu dar aquela checada na arquibancada para alegria dos telespectadores. Vascaínos faziam festa jogando em casa, o estádio cheio, a torcida eufórica tendo em conta os cinco jogos vitoriosos até ali. Em um canto desprestigiado da arquibancada &#8211; mas bem desprestigiado mesmo, como costuma ser entre visitantes &#8211; a televisão mostrou os torcedores do São Paulo Futebol Clube, a pequena torcida do São Paulo, os duzentos ou trezentos gatos-pingados torcedores do São Paulo, cantando com tudo o que suas gargantas permitiam sobre as glórias tricolores, fazendo coro como se daquele jogo dependesse o título, tocando samba e levantando bandeiras. Faixas especialmente criadas para serem levadas a um estádio e o orgulhoso torcedor poder marcar território com o nome do seu local de origem. A câmera deu seu close em “Arujá!”, era o que estampava a maior delas, de forma que cobria a cabeça do torcedor e deixava seu corpinho à mostra. Outra, um pouco menor, conclamava orgulho de pertencer a “Grajaú” (com o reforço na legenda dizendo “Zona Sul”, para certificar que se tratava do bairro paulistano e não o carioca). Domingo, meus amigos. Domingo à noite, nove e tantas. E enquanto eu vestia uma calça xadrez flanelada e pantufas sentado no meu sofá, bebericando um copo de suco, comendo rosquinhas de coco e bocejando com os passes mal dados de um lado e do outro naquela partida, essa gente que, tanto quanto eu, teria que encarar a labuta no dia seguinte, estava lá em São Januário, fazendo batuque, a nove horas de viagem de ônibus de casa, acreditando que o melhor a fazer com sua preciosa vida era estar naquele campo, em outro estado, para torcer para o São Paulo conquistar, veja bem, a oitava posição na tabela classificatória. Era impensável, um tanto quanto irracional e eu lamentava por aqueles homens até que, já nos acréscimos do primeiro tempo, Arboleda sofreu um pênalti que o juiz a princípio não deu, mas foi checar no zero-emocionante VAR, naquela cena sem graça, mas minha frequência cardíaca já começou a subir sensivelmente e aí o Lucas Moura, o amado Lucas Moura que eu nunca critiquei, o craque Lucas, colocou a bola pra dentro, no cantinho, deslocando o goleiro. E eu já estava sem as pantufas, em festa, batucando o hino do São Paulo no fundo de um balde de pipoca e desejando muito poder estar ali para abraçar aqueles duzentos ou trezentos camaradas numa noite visivelmente gloriosa. O futebol é uma caixinha de… Pandora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no Estadão em 3/11/25)</p>
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		<title>José do Egito dirige um táxi</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Oct 2025 12:44:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[“Eu sei o que é isso aí”, ele disse enquanto me fitava os olhos através do espelho, “quando eu tinha quinze anos, meu pai me expulsou de casa. E foi por causa do casamento com essa outra mulher. Ele me mandou embora, assim ó. Me jogou pra fora e eu fiquei ali na rua, sem [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">“Eu sei o que é isso aí”, ele disse enquanto me fitava os olhos através do espelho, “quando eu tinha quinze anos, meu pai me expulsou de casa. E foi por causa do casamento com essa outra mulher. Ele me mandou embora, assim ó. Me jogou pra fora e eu fiquei ali na rua, sem ter pra onde ir”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Suas costas preenchiam todo o banco do carro e ainda sobrava para as laterais. A cabeça quase tocava o teto, ele se apoiava curvado sobre o braço que repousava no volante. Sentado no banco de trás, era isso o que eu via daquele homem. Do seu rosto, só um pedaço dos olhos refletidos no espelho retrovisor, emoldurados também por um par de óculos de armação fina. Seu olhar manso oscilava entre a atenção ao trânsito e me encarar pelo espelho para poder narrar sua história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Minha mãe morava em outro estado, eu não tinha família perto, saí pedindo ajuda para algumas pessoas para ver se me deixavam dormir na casa delas uma noite aqui, outra ali, até eu arrumar um trabalho e começar a me virar. Hoje, com a graça de Deus eu tô aqui em São Paulo. Sou eu que ajudo minha família na Bahia. Mas só volto lá para passear. Morar eu não consigo mais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O assunto que nos levou ao seu comentário foi uma notícia irrelevante que ouvíamos no rádio. Mas eu disse alguma coisa que serviu como gatilho para ele abrir as comportas dessa represa. Irrelevante também me parece agora qualquer coisa que eu tenha dito. Foi um diálogo longo, eu me lembro. Mas nada me parece merecer mais essas linhas do que a história que escutei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Tem meu pai, meus irmãos… Os que também são filhos da minha mãe, mais novos que eu. E os que meu pai teve com essa mulher depois. Eu tinha seis anos de idade. Minha mãe foi embora e deixou a gente com meu pai. Ele se casou de novo. E a nova mulher dele, ela não gostava de mim, sabe? E, cara, eu só tinha seis anos. Ele trabalhava o dia todo e foi deixando a gente. Ele me esqueceu, sei lá. Ela me deixava trancado num quarto, acredita?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">O trânsito estava fluindo livre. Como em raras ocasiões, naquela tarde eu ia chegar mais cedo no destino daquela corrida. Como em raras ocasiões, desejei que chegássemos atrasados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Assim que meu pai saia pro trabalho, ela me mandava para o quarto e trancava a porta. Eu ficava o dia todo lá sozinho. Me levava um prato de comida no almoço. Eu tinha que comer ali mesmo. Até as coisas de banheiro, eu tinha que fazer ali no chão, num cantinho”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com seis anos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Um pouco antes do meu pai chegar, ela abria a porta, me fazia lavar e limpar aquela sujeira e me mandava tomar banho. Aí ele chegava em casa e sentava pra jantar. Só ele tinha janta, com comida mesmo, a gente comia a sobra do que tinha do almoço. E durante o jantar, ela sentava do lado dele e falava, falava e falava de mim pra ele, até ele se convencer de que eu merecia apanhar. Cara, eu apanhava toda noite. Enquanto meus irmãos viam alguma coisa na TV, eu levava surra”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mansidão do olhar também estava na fala. Contava a história como se narrasse sua última ida até a quitanda. Falava do pai com afeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Foi assim desde que eu tinha uns seis anos. E durou até perto dos meus quinze anos, por aí. Quando tinha dez, onze, comecei a ir pra escola. Fui aprender tudo atrasado. Mas era sair e voltar para casa. E apanhar. Aos quinze foi quando ele me expulsou de casa e eu fiquei na rua&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">José. Seu nome é José.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Eu me revoltei, sabe? Não vou dizer que não. Mas eu fiquei tentando entender e não conseguia. Como pode? Com uma criança. Era meu pai”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Me diga, por favor, que essas pessoas estão presas. Eu pensava. Não. Só me diga que houve justiça, que houve algum tipo de reparação, me conte sobre os pedidos de perdão. Fale, José.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ameaçava chuva. O céu escurecia com as nuvens se formando, tornando o horizonte de São Paulo ainda mais cinza. Mas era na Bahia dos anos 80 que estávamos. Até que ele me trouxe de volta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Hoje, eu sou o filho pra quem ele pede conselho, acredita? Meu pai me liga quase todo dia, me pergunta as coisas, pede ajuda. Para você ver como são as coisas. Meus irmãos que ficaram lá, não tiveram as oportunidades que eu tive. Eu ajudo eles também, direto. Eu fui aquele que se deu bem”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu observava o movimento frenético de carros e pessoas fora da janela, mas o universo todo estava era ali dentro. Me peguei balbuciando, quase num reflexo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; José do Egito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Sou eu! &#8211; ele sorriu e se aproximou do espelho, como se quisesse chegar mais perto de mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Conhece a história?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Esse era meu apelido. Um sujeito na firma onde eu trabalhava disse que eu era José do Egito. Aí eu fui ler para entender. É &#8211; sorriu largo &#8211; eu mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; “O mal que vocês me fizeram, Deus transformou em bem”. O sujeito sofreu o que sofreu e depois ajudou o pai e os irmãos. Seu pai ainda é casado com essa mulher?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Sim. Eu vou lá, tudo certo, cumprimento. Fazer o quê?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; E seu pai?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Hoje somos amigos. Eu amo meu pai.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu ia de carona. No carro e na história. O carro foi desacelerando enquanto chegávamos no destino antes do horário previsto. Ele suspirou e seguiu:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ele nunca me falou nada, sabia? Nunca me pediu desculpas. Mas, eu sei. Eu sinto, sabe? O jeito como ele é comigo hoje, como ele fala e me trata. E às vezes, ele me olha de uma forma e fica um silêncio assim, fica me olhando e parece que tem uma coisa que ele quer dizer e não fala. Mas eu também não quero que ele diga, eu prefiro assim. Porque se ele disser… se ele disser, aí eu também vou ter que falar tudo. E tudo… isso aqui, meu irmão &#8211; e bateu com o punho cerrado no peito &#8211; tudo… eu acho que não consigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">José dirige um táxi no Egito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não tinha um raio de luz naquela tarde. A noite se aproximava, o tempo estava nublado, o ar era frio, o céu escuro, o dia triste. José, não. José era sol.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/">Estadão</a>)</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>A César o que é de César</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Apr 2025 19:40:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Na fila de imigração para entrar oficialmente em território argentino, me percebi imediatamente atrás de Chico César, o cantor, filho da Mama África, que sustentou o pequeno garoto como empacotadeira nas Casas Bahia antes dele ficar famoso. Passava das onze da noite, a fila era curta e logo ele foi chamado pelo oficial da fronteira [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Na fila de imigração para entrar oficialmente em território argentino, me percebi imediatamente atrás de Chico César, o cantor, filho da Mama África, que sustentou o pequeno garoto como empacotadeira nas Casas Bahia antes dele ficar famoso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passava das onze da noite, a fila era curta e logo ele foi chamado pelo oficial da fronteira para apresentar seus documentos. A dois metros, eu observava a cena. Pude ver a bolsinha de documentos do Chico César de onde ele sacou uns papeis, vi o passaporte do Chico César (mas sou míope e infelizmente não consegui ler o nome da mãe pra fazer o fact checking da música), vi o chapeuzinho do Chico César, que ele sacou da cabeça para poder tirar a foto que o oficial registrou. Vi a expressão de apreensão do Chico César enquanto o oficial folheava seu documento. Vi também, depois de alguma interação em portunhol que não consegui entender, o Chico César ficar na pontinha dos pés para alcançar o microfone da cabine blindada e aproximar o rosto, bem pertinho do vidro e oferecer uma canja para o oficial, cantarolando à capela: “Quando não tinha nada, eu quis; Quando tudo era ausência, esperei; Quando tive frio, tremi; Quando tive coragem, liguei…”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E sem qualquer outra pergunta, contato visual ou interação direta, eu vi o oficial da imigração baixar a cabeça, abrir o passaporte do Chico César, carimbar, assinar e lhe devolver desejando uma boa estadia em terras portenhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fiquei em dúvida se deveria aplaudir ou não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vi Chico César desaparecer pelo corredor em direção a seja lá o que tenha ido fazer em Buenos Aires enquanto o som da música ecoava em minha mente e eu tentava lembrar como era, raios, a continuação da letra e só me vinha “dzaia, dzaia, soiê” e sabia que isso não era português e não era espanhol e talvez fosse aquela uma oportunidade para interpelar Chico César e esclarecer elementos existenciais da sua obra. Mas era espanhol, por supuesto era español, o “señor! Señor?!” que eu escutava e que então me dei conta, vinha do oficial de imigração que me chamava, impaciente, para apresentar os documentos em sua cabine já vazia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Buenas noches”, ele disse. Eu quis responder: “Quando me chamou, eu vim; Quando dei por mim, tava aqui…”, mas minha voz não estava boa para serenatas àquela altura. Mas eu sorria largo enquanto tirava a foto de registro facial, satisfeito por finalmente conseguir lembrar o resto da letra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passaporte carimbado, tal como o artista, “quando criei asas, voei…”. “Dzaia, dzaia! Aí iii…”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vi Chico César de novo, lá no saguão de desembarque abraçando amigos, um deles com um violão em mãos, que entregou para o cantor apreciar e dedilhar, como se ele fosse continuar sua performance ali mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Sr. Chico, por favor, o que significa amarrara dzaia soiê?”, pensei em perguntar. Era a primeira das importantes perguntas que tinha em mente e tenho certeza que ele ficaria super feliz em responder, mas sou tímido. Enquanto esperava o táxi chegar, recorri ao Google.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“o correto é: ‘ô amarrara dzaia soiê; dzaia dzaia; aí iii iinga dunrã”, respondeu @chicocesarof (o próprio) num tuíte de 2020, em letras minúsculas, enigmático e cheio de meias meias palavras com “of”, imagino, sendo abreviação de “oficial”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E por fim completou: “e não quer dizer absolutamente nada. :)”, com ponto final e um emoji.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afe, César!</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Aquela noite outra vez</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Mar 2025 10:08:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Acho que a coisa toda começou a complicar no momento em que ela disse: “pai, acho que já está na hora”. Passeávamos com as cachorras em um fim de tarde e ela soltou essa convocação sem olhar na minha direção e com certa formalidade. &#8211; O que foi, Nina? Hora de quê? &#8211; Está na [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Acho que a coisa toda começou a complicar no momento em que ela disse: “pai, acho que já está na hora”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passeávamos com as cachorras em um fim de tarde e ela soltou essa convocação sem olhar na minha direção e com certa formalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; O que foi, Nina? Hora de quê?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Está na hora de você me ensinar a dirigir. Falta pouco para eu completar blábláblá anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem um tipo de bloqueio auditivo que me assalta quando esse assunto vem à tona, esse inevitável acontecimento que se projetava num futuro tão próximo, próximo demais, e eu não conseguia assimilar a ideia de que, muito antes do que eu imaginei, minha Nina enfim completaria blábláblá anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu resisto. A fala dela tinha uma seriedade não disfarçada, um tom de quem ensaiou antes para dizer. Ela resiste também. “Claro, claro. Eu vou, filha… Nós vamos, pode deixar”, comentei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É claro que é difícil pensar naquela criança saindo por aí dirigindo um carro, adulta e independente nos seus rumos. Claro que estou com medo, em luto ou seja qual for esse sentimento de constatação do desapego do outro. Não é uma questão de apego ao carro, veja bem, mas uma questão de apego à filha, que ainda levo para cima e para baixo na carona enquanto dirijo e que levaria no colo até, se ela deixasse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O “falta pouco” daquele dia chegou. Em poucas horas ela faz aniversário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Adulta? Eu escrevi isso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela tinha dois anos e fazíamos nossa primeira viagem longa em família. Nina ainda dormia quando o avião pousou e seguiu dormindo no meu colo enquanto esperávamos na fila para sair da aeronave. O rosto encaixado no meu pescoço, o cabelo ondulado caído sobre as bochechas, a respiração completamente entregue. À minha frente, uma senhora a fitou por alguns instantes, sorriu e me disse: “e daqui uma semana ela fará vinte anos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhum avião voa tão rápido como o tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cheguei a escrever a respeito alguns meses depois. Uma crônica chamada <a href="https://correndoatrasdovento.com/2011/03/18/ela-ainda-cabe-no-meu-colo/">“Ela ainda cabe no meu colo”</a> com divagações angustiadas a respeito dos sentimentos que ela nutriria &#8211; ou deixaria de nutrir &#8211; a meu respeito quando se tornasse adulta. O comecinho diz: &#8220;No próximo fim de semana, ela fará quatro anos. Eu posso jurar que nunca imaginei esse momento chegando…” e por aí segue em altas doses de neurose e melancolia. Se eu não me comportar direito aqui hoje, talvez acabe inserindo um trecho no final.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sorte que não sou mais assim. Sorte também que ainda falta uma eternidade para ela chegar aos vinte anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrevo com a lapiseira que ganhei da Manu dezoito anos atrás. Quer dizer, neste momento eu digito em um teclado, mas venho escrevendo e sublinhando algumas leituras com aquela velha lapiseira que, passado algum tempo, resolvi voltar a usar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi em julho de 2006 que eu a ganhei de presente. Não é uma lapiseira com qualquer atributo que a torne especial ou rara senão a circunstância em que me foi dada. E por isso, claro, lembro do dia exato em que compramos um conjunto de caneta e lapiseira como presente para meu sogro, que adorava canetas e lapiseiras, e Manu pediu ao vendedor que colocasse numa caixinha preta cartonada bonita, que vinha com um laço também preto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela saiu pelo shopping com aquele presente em mãos e com ele ficou em mãos o tempo todo, até quando foi ao banheiro, até quando sentamos para comer e até depois, no carro, quando estávamos indo para casa e ela sugeriu que parassemos para visitar meus pais. E se eu estranhei que ela sugerisse visitarmos meus pais, já não estranhei que o presente do meu sogro estivesse com ela o tempo todo e nem que ela o tenha levado consigo para dentro da casa e ficado com o embrulho em mãos quando sentamos todos no sofá da sala para conversar e só ali, depois de alguns minutos, ela repentinamente disse “ah, você gostou tanto, fique para você. Depois eu compro outro presente para o meu pai”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu não era tão apegado a canetas e lapiseiras, mas fiquei feliz com o gesto. E se não era surpresa que eu soubesse o que tínhamos escolhido para estar dentro daquela sacola, foi surpresa o gesto, foi surpresa o contexto e foi surpresa, definitivamente, abrir o embrulho e notar, no lugar da lapiseira e da caneta, um teste de gravidez com dois pequenos traços indicando que, positivo? Caramba, positivo! Teríamos um bebê.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em março de 2007, Nina nasceu. Ela é um pouco mais nova do que uma lapiseira Faber-Castell preta com a qual tenho mantido um perigoso vínculo nesses dias. Mais velha do que eu jamais imaginei que uma criança poderia ser. Mas filhos sempre são crianças, afinal. Ainda à beira de tantas coisas que se prenunciam em sua história que virá com suas próprias surpresas, traços e formas. Mas, cujo breve passado de vez em quando eu rabisco com grafites 0.7 2B.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu bloco de notas tem uma dúzia de listas de pendências para as mais diferentes categorias de assuntos e atividades nas quais me envolvo. O principal liberador de dopamina no meu cérebro vem da recompensa de poder clicar nas bolinhas de tarefas completadas. Nesses dias, tenho uma lista com a Nina como título.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[ ] Fazer matrícula na auto-escola<br>[ ] Ensinar a Nina a dirigir<br>[ ] Preencher autorização para excursão<br>[ ] Organizar festa com amigos e familiares<br>[ ] Deixar a Nina fazer tatuagem (???)<br>[ ] Agendar exames médicos (@Manu)<br>[ ] Comprar presente de aniversário da Nina (@Manu)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes eram fraldas, brinquedos, idas ao pediatra e atividades escolares. Os afazeres mudam, mas não o centro em torno dos quais gravitam. Desde que chegaram, nossas filhas são o objeto para o qual nossos olhares são atraídos primariamente, para quem nosso afeto se destina e uma força que intensifica nosso laço. Porque éramos um casal e viramos família. E vê-las florescer sob este teto é um privilégio singular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem cheiro de chuva entrando pela janela agora. Uma garoa fina cai, exatamente como naquela noite. Aquela noite outra vez. A noite em que Nina nasceu. Era madrugada quando saímos com as malas nos ombros a caminho da maternidade. Manu se contorcia no carro com as dores das contrações, eu cruzei as ruas alagadas da cidade, os semáforos apagados e chegamos ao hospital, que estava sem energia elétrica. Era como se fosse preciso certa escuridão para alguém poder dar a luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Três dias depois, cruzaria novamente a cidade, dirigindo a vinte quilômetros por hora (ou menos), coberto de medo enquanto levava pra casa aquele bebê, acomodada na cadeirinha super estofada e protegida do banco de trás.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E agora, coberta de razão, ela quer pular para o banco do motorista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque existem os ciclos que se cumprem, os ciclos que se refazem, existem as histórias sobrepostas, um emaranhado de eventos que assistimos e existe essa linha, esse fio cuja ponta puxamos, seguimos e que nos conta a história de alguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, é a história da Nina que testemunhamos gratos. Do primeiro abrir de olhos, do primeiro choro, os primeiros passos, saltos, tombos, suas danças, o desbravar a vida e suas tantas experiências pela primeira vez. Inserida, mas também alheia aos fatos que a cercam, enquanto a guerra acontece, enquanto o mundo despenca, enquanto o bolo assa no forno, enquanto a terra segue girando, Nina cresce. O nascimento de cada criança é esse fio de esperança que se tece. E sua existência, o deslumbre magnífico da eternidade. Deus em festa regendo a vida, enquanto seguimos seu ritmo, rendidos a essas pequenezas, a vida miúda que edificamos e que nos maravilha e assombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela vai dirigir um carro, claro que vai. Vai seguir rumos e estradas que serão novas também para nós. Seguirá, a seu modo, traçando os caminhos que trilha com uma velha lapiseira 0.7 e colorindo com as cores de sua aquarela as paisagens que a encantam e o futuro que apenas seus olhos enxergam. Nina vê um mundo novo que se abre. Nós a vemos. Mais um ano diante dela. Que tenha música, que seja com festa, que Deus a preencha e o amor a inspire em cada pequeno passo. Que a vida a contemple.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/aquela-noite-outra-vez/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Não vejo a hora</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Feb 2025 01:33:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Não preciso saber as horas. A menos não nessa semana em que tirei férias, me desfiz de compromissos e me devoto à intenção de não ser útil (a inutilidade voluntária pode ser desafiadora). Tanto faz se faltam quinze para as tantas ou se já são alguma-coisa-e-meia. Não preciso saber o horário, a medida, o volume [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Não preciso saber as horas. A menos não nessa semana em que tirei férias, me desfiz de compromissos e me devoto à intenção de não ser útil (a inutilidade voluntária pode ser desafiadora). Tanto faz se faltam quinze para as tantas ou se já são alguma-coisa-e-meia. Não preciso saber o horário, a medida, o volume ou o peso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero essa sensação de liberdade. Mas, a linha pálida em meu punho denuncia o relógio que não está ali. Joguei o dito na gaveta nas primeiras horas dessa folga e a marca da parte não queimada pelo sol fica no meu braço, deixando um risco branco em contraste com o antebraço e o dorso da mão. A linha da pulseira onde tradicionalmente ficam os números piscantes que determinam cada evento dos meus dias, agora carrega aquela marca para onde olho centenas de vezes ao dia, mesmo sem precisar, em busca do tempo que já perdi. Já não vejo a hora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não preciso saber que um porta-aviões norte-americano agora navega em águas próximas ao sudeste asiático, próximo de onde os chineses se posicionam defensivamente. Não preciso saber do resultado do recurso apresentado pelo presidente, ou presidente afastado, ou ex-presidente da Coreia do Sul a respeito de seu processo de impeachment. Não quero saber de muros, tarifas, embargos. Não preciso saber se o mercado está mal humorado ou saltitante de alegria, se o teto da inflação está sendo perfurado, se haverá reforma de ministérios e se as commodities seguem seu vai e vem, sei lá de onde e para onde, preenchendo de expectativas o cenário internacional que agora se revela com ondas de otimismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero saber é do riso que nos assalta, do humor incontido, o ir-e-vir das águas trazendo suas ondas gentis na direção da praia onde meus pés repousam enterrados num montinho de areia. Hoje, o cenário que espero contemplar é só esse, essa a linha azul infinita que é o mar divisando o horizonte com a outra linha azul infinita que é o céu imenso como teto sobre minha cabeça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não preciso saber do resultado das oitavas de final da disputa masculina do Aberto da Austrália, dos últimos reforços contratados pelo São Paulo para o Campeonato Paulista, da convocação do Dorival Júnior para os jogos da Seleção nas eliminatórias. Não preciso conhecer as tabelas de classificação de jogo algum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero saber é de jogar conversa fora, a céu aberto. Quero me empenhar na prática preguiçosa do frescobol (o único esporte onde só se ganha quando ambos ganham). Eliminar as disputas, as contas tolas, as camisas. Vestir um calção de banho e deixar que os dias se regulem pela tabela das marés. Quero esquecer o telefone num canto até que a bateria acabe. E que tudo silencie por um instante, enquanto eu recarrego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não sei o bastante sobre a crise climática, mas preciso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero. Mas não hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não preciso saber da agenda cultural essa semana, das estreias no cinema, da programação da tv, do teatro, dos museus, dos shows infinitos e caríssimos que se sucedem e não vou frequentar. Não preciso &#8211; e nem desejo &#8211; estar em blocos, multidões e filas. Não preciso saber quais foram as vinte músicas mais tocadas no Spotify ontem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero o som da chuva, quero assistir minhas filhas em seu ócio, ouvir a canção de suas risadas à toa, o tilintar da louça e dos talheres sendo colocados na mesa, um descanso com a Manú nos braços no meio da tarde. Quero que nosso pequeno universo doméstico seja a multidão toda que se basta, por alguns dias, com o que transbordamos uns para os outros. A rotina que estreia repetida em cada novo dia. Essa é a única música em cujo ritmo me empenho em dançar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Continuo não precisando saber que horas são. Só de birra, chamarei as horas de oras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero, definitivamente, perder tempo. Acordar e dormir ao sabor da disposição. E que o deitar tenha o mesmo valor e nobreza do despertar porque, afinal, não estar é o melhor estar nessas oras. Quero não precisar, desejo não desejar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, eu sei. Fico a remoer precisamente as coisas que gostaria de evitar, pensando e pensando nas tragédias iminentes e concretas que enfrentamos e não precisávamos. Taxas, tabelas, índices, métricas, dados, notícias, imagens e prognósticos. Procuro por um sinal dos tempos. Olho para o pulso. Já não era sem hora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não preciso fazer citações, mas não resisto em ecoar uns versos do Caetano que sobram por aqui nesses dias: “a esperança é um dom que eu tenho em mim”. E ele insiste: “eu tenho sim”. Talvez essa seja uma boa trilha sonora para sobrepor os tantos ruídos de fundo que insistem em nos assombrar cotidianamente e nos afastam do essencial, bloqueiam a inutilidade necessária para que o utilitarismo maligno siga nos escravizando/esvaziando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero que a esperança possa preencher esse tempo. O tempo… Ora. Miro meu pulso e ele não está lá. Eu oro para ter uma porção de paz nesses dias. Não quero guerras de nenhuma espécie. Desejo ficar o dia todo descalço. O corpo leve e o coração prostrado, contemplando os lírios do campo, como Ele disse. Fabricar gelo em doses cavalares, carregar um livro fácil de ler sob o braço pra cima e pra baixo e talvez ler um capítulo ou uma linha até cochilar numa sombra. Ver minha filha sorrir de uma piada boba e então fazer uma prece. Ter filhos é um ato de fé.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Preciso seguir por esse caminho para me distanciar do tumulto, esquecer do que não preciso agora e procurar lembrar do que importa, só esse mínimo tão essencial, hoje, para conseguir refazer a ordem justa das coisas enfim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não vejo a hora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/nao-vejo-a-hora/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Doce doce lar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Jan 2025 19:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Na poltrona 4D eu sentei, na ida e na volta, de um voo para Buenos Aires. Na poltrona 3C, diagonal à minha frente, sentou-se o mesmo sujeito, na ida e também na volta, dois dias depois. Pediu água, dispensou os snacks, não quis café, trocou gentilezas com os comissários. Da minha parte, água, snacks e [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Na poltrona 4D eu sentei, na ida e na volta, de um voo para Buenos Aires.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na poltrona 3C, diagonal à minha frente, sentou-se o mesmo sujeito, na ida e também na volta, dois dias depois.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pediu água, dispensou os snacks, não quis café, trocou gentilezas com os comissários. Da minha parte, água, snacks e cafés foram bem vindos. A timidez &#8211; e não a falta de educação &#8211; é que me impede de avançar na troca de amenidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu &#8211; preciso informar, antes que você se preocupe &#8211; não fico bisbilhotando vizinhos de viagem, só guardei detalhes sobre esse passageiro especificamente porque o homem falava alto. Simpático, sorridente e muito alto no tom grave em que se manifestava, a ponto de vencer a barreira do bloqueio sonoro dos meus fones de ouvido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Me atraiu em especial, no entanto, o fato de que nas três horas de viagem da ida e nas outras três horas da volta, empunhando um tablet de treze polegadas, ele se dedicou a superar fases e recordes jogando Candy Crush Saga. A tela reluzia no corredor da aeronave, que deslizava sobre nuvens e o sul do continente, enquanto o dedo indicador do meu vizinho se transformava num eficiente e motivado instrumento destruidor de gelatinas, balas e frutas coloridas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Delicious!” brilhava o texto na tela e me distraía, na penumbra do voo noturno, da leitura do último Paul Auster que, por melhor que seja, não conseguia competir com o instinto de torcer por aquele guerreiro em sua saga para deixar o mundo mais doce.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na hora do jantar, ele não dispensou a sobremesa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/doce-doce-lar/">no Estadão</a>)</p>
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		<title>Polo morte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Dec 2024 11:00:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Papai Noel fumava um cigarro sentado na calçada em frente a árvore de Natal que era rodeada por uma multidão de famílias e crianças saltitantes encantadas com suas luzes e inebriadas pela canção natalina que saía sabe-se lá de onde. Alheio ao grupo de pequenos admiradores, à sombra de todo espetáculo, Noel fitava o infinito [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Papai Noel fumava um cigarro sentado na calçada em frente a árvore de Natal que era rodeada por uma multidão de famílias e crianças saltitantes encantadas com suas luzes e inebriadas pela canção natalina que saía sabe-se lá de onde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alheio ao grupo de pequenos admiradores, à sombra de todo espetáculo, Noel fitava o infinito com olhos caídos, o gorro tombado para o lado e a longa barba desalinhada sobre o casaco frouxo, revelando a camiseta branca puída sob a roupa vermelha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tragou fundo no tubinho branco fazendo a brasa queimar forte a ponta e deixando o cigarro quase um centímetro menor. Soprou a fumaça num desabafo longo, desgostoso e então deixou tombar o corpo sobre o cotovelo direito apoiado no joelho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não tinha saco, nem cheio, nem vazio, aos pés do bom velhinho. Sinal de missão cumprida ou de uma tragédia a essa altura irremediável na cadeia logística de duendes e renas em sua equipe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A árvore gigante reluzia com uma estrela iluminada no topo e a admiração das pessoas que ali davam voltas para… para… bem, sabe-se lá para qual fim pessoas dão voltas em árvores iluminadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha filha mais nova, que ainda gosta de acreditar na ideia de acreditar em Papai Noel, caminhava na direção dessa cena quando foi interpelada pela minha filha mais velha &#8211; que ainda gosta de acreditar no acreditar da irmã em acreditar &#8211; e tapou-lhe os olhos tentando distraí-la, como se um crime hediondo estivesse prestes a acontecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passei fitando o homem, nossos olhares se cruzaram. Estava com pressa, não dava tempo de dizer nada, mas tivesse eu um instante, só por empatia, acho que diria a frase banal que mais repito nesses dias: “Passou voando, né amigo? Esse finzinho de ano está uma correria só”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas eu não sei falar a língua que eles falam no Polo Norte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/polo-morte/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Linhas de expressão</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2024/11/03/linhas-de-expressao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Nov 2024 22:10:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Ao lado do açougue onde um velho desossava metade de um boi na calçada, ficava a loja em que o homem que torrava cafés estava encostado na porta, vestindo seu avental jeans e observando o movimento de turistas na rua. Estávamos em uma ilha com pouco mais de cinco mil habitantes e só me tornei [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Ao lado do açougue onde um velho desossava metade de um boi na calçada, ficava a loja em que o homem que torrava cafés estava encostado na porta, vestindo seu avental jeans e observando o movimento de turistas na rua. Estávamos em uma ilha com pouco mais de cinco mil habitantes e só me tornei alvo do seu olhar negligente quando entrei na loja atraído pelo cheiro agradável e pelo saco de juta de sessenta quilos escrito “Café do Brasil” prostrado na entrada e a julgar pelo estado, viajou para aquele lugar décadas antes de mim. Pelo período em que as meninas perambularam por uma loja de acessórios coloridos dispostos em corredores infinitos, eu me distraí naquele ambiente monocromático, observando a máquina de torra e moagem, os recipientes com a diversidade de grãos e as ferramentas empoeiradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sozinho e socialmente desconfortável à medida que era seguido pelo dono do estabelecimento, fiz o que sempre faço nessas horas: piorei a situação. Desembestei a fazer perguntas para as quais eu não tinha interesse em saber a resposta, mas me pareceu uma medida de sobrevivência útil no momento. Até que uma saída melhor me ocorreu: comprar. Vinte minutos depois, saí dali com um pacote de meio quilo de grãos nobres de café forte e encorpado &#8211; foi o que ele disse e me fez acreditar que anotou, em seu idioma, na etiqueta que colou no lacre que selou na hora &#8211; me dando conta então de que aquela embalagem viajaria comigo pelos próximos vinte dias, a milhares de quilômetros da minha própria cafeteira, onde Manú prepara todas as manhãs nosso café nada forte, nem encorpado, mas com habitual nobreza e conversas nada constrangidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentei-me num banco na rua para esperar as meninas. O homem voltou para a porta da loja. O açougueiro seguia com sua carnificina, agora ajudado por um menino. Enquanto estive ali, ninguém entrou para comprar café ou carne.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viver em uma pequena ilha, crescer em uma ilha, os limites tão claramente definidos, as linhas de fronteiras perfeitamente visíveis, o mar. Gastar ali os dias, talvez a vida toda, cortando bifes, vendendo presilhas ou torrando cafés importados de lugares cujos pés nunca tocaram. Tornar-se uma ilha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O caderno onde eu faria anotações sobre as experiências e impressões de viagem não tem uma frase escrita por mim. Eu o carrego na mochila, mas tão logo o ponho sobre a mesa, é surrupiado por alguma mãozinha, cujo esforço é confrontado por outra e elas brigam pelo caderno, repartem folhas, me pedem a caneta &#8220;eu primeiro! Eu pedi primeiro!&#8221; e eu tiro da bolsa duas canetas porque já era claro, desde sempre, que essa cena se repetiria, como se repete, cada vez que papeis e canetas aparecem sobre a mesa de qualquer lugar onde estejamos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nina agora desenha com traços cada vez mais precisos, bastante artísticos e poéticos e já se expressa com uma identidade bem definida. Cecília observa e tenta imitar a irmã mais velha, mas embora procure por um espelho, ela acaba fazendo do seu jeito, com cores, histórias e riscos que desrespeitam limites que os anos impõem e, especialmente por isso, também são tão belos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E são elas que registram em meu pequeno bloco, a seu modo, as impressões do que viram. Seus rastros em meus cadernos, lembranças de destinos por onde passamos, que se somam às notas mentais que preservo dessas andanças na esperança de que a memória preserve as imagens que devem permanecer. Porque eu não poderia escrever nada melhor do que isso que vejo e guardo. As linhas para onde volto quando desejo viajar no tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Linhas de expressão. No espelho e, sobretudo, nas fotos em que me vi. Vejo linhas que não existiam antes e agora marcam meu rosto. Fios grisalhos ocupando uma área cada vez maior de cabelo e barba. O rosto curvado, a coluna míope, a visão que me trai, uma certa confusão com as palavras&#8230; E ao redor disso, as meninas, também mais crescidas e mudando a fisionomia. Consegui notar &#8211; a contragosto, registrem &#8211; o avanço da idade de uma forma que no dia-a-dia, entre um pão com manteiga pela manhã e a hora da televisão à noite, não dá para assimilar. Seguimos adiante, uma dor no joelho aqui, um frasco com comprimidos ali, o evitar de café depois das seis acolá e permanecemos crentes de que é pouco, só um pouco de dias a mais que se acumulam. Por isso, quando viajamos nas férias e passamos algumas semanas confinados juntos nessa época do ano, é como se existisse um recorte na marcação do tempo que funciona como a janela de espaço temporal em que observamo-nos. O fio da existência, sutil, nos arrasta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O fio da meada se perde, de repente, e sem que um aviso prévio seja dado, a cápsula em que habitávamos e nos fazia acreditar que pertencíamos a um grupo geracional em movimento, explode. E notamos que esse degrau que um dia duramente descobrimos existir entre nós e nossos pais também se apresenta, acachapante, entre nós e nossas filhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falando neles, meus pais estavam em nossa casa há algumas semanas e Cecília veio do quarto para a sala. “Como ela está grande! Até assustei quando vi”, minha mãe comentou. “Às vezes”, respondi, “escuto os passos de uma delas vindo pelo corredor e imagino que a criança que vai passar pela porta é menor do que a que aparece. Na minha mente, elas sempre são muito menores do que já estão”. Meu pai pousou sua xícara sobre a mesa e olhando para baixo, deu um sorriso discreto e comentou “isso nunca muda”. Esperou um instante &#8211; ele sempre espera mais um instante &#8211; e emendou: “não importa quanto tempo passe, a gente só vê as crianças”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em algumas manhãs, quando saio para correr, noto à distância um casal vindo no sentido contrário. A miopia me impede de enxergar com clareza, mas pelo movimento dos braços, o jeito de caminhar, sei que são meus pais fazendo sua caminhada matutina. Eu queria que soubessem que em certos dias eu vejo aquele casal de idosos com seus passos curtos e dentro de mim também bate, ainda, o sentimento do menino querendo colo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Nenhum homem é uma ilha&#8221;, escreveu John Donne, que nasceu e morreu em uma, nas suas meditações. Pensava nisso enquanto viajávamos entre pedaços de terra pseudo-flutuantes naquelas férias. Cruzando o mar dentro de um barco enorme durante uma noite inteira e, lá fora, era água, água, céu, água, céu, o barco, uns pássaros, outros barcos, muita água passando em movimento e eu esticado na cama sem conseguir dormir. Caramba, como os pássaros chegam até aqui? Viajar num barco é estar em estado completo de impermanência. Entre uma cidade e outra, seguíamos. Navegar a vida não é nada preciso. Há esses portos novos onde atracamos e há o lugar a que pertencemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante aqueles dias, nossas mãos tocaram monumentos e artefatos que foram criados há milhares de anos. Caminhávamos por aqueles lugares, cercados de câmeras capturando fotos que habitariam publicações que sobrevivem por míseras horas num perfil de internet. O passado que sondávamos por essas frestas e fragmentos da história era mais intenso que o presente efêmero em que estávamos. O que é o tempo, o que é velhice, o que determina esse espaço entre começo e fim e o que significa o passar dos dias diante dessa imensidão? Frutos de mãos como as nossas, trançando fios e linhas. A impermanência do homem que permanece em suas obras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O homem nasce com o anseio pela eternidade em seu coração”, disse um rei no fim de sua vida. Essa eternidade que nos ocupa, plantada em nós pelo Eterno em quem habitamos, o fruto que somos e os frutos que damos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso fazer do tempo um amigo, foi um conselho que recebi e teimo em não acatar. Em geral, é justamente o tempo meu algoz e inseparável companhia. Jamais um amigo. Nele navego e me refestelo nas lembranças que me compõem. Com ele também luto, luto e sempre perco a batalha, na expectativa de que suas águas fluam de forma mais serena e possam ser navegadas, com o desejo de que possamos vivenciar melhor os dias, nossas filhas, no espaço miúdo da rotina caseira em que habitamos e que tanto nos preenche.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhum homem é uma filha, o poeta talvez dissesse se fosse testemunha da minha nostalgia. &#8220;Mas, e filhas?&#8221;, eu iria retrucar, só de teimosia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Volto e volto nessas páginas, reviro lembranças e cadernos com os traços que elas deixam por aqui para compor nossa história. É um quadro, fico pensando. A imagem que capturamos convivendo diariamente, microscópicamente, abrindo os sentidos para experiências novas enquanto nos unimos nessas viagens. Rastros de eternidade. Olho pela janela, vejo as fotos que registramos, penso nas meninas em cada lugar que desembarcamos como se as novas paisagens que contemplamos nessas caminhadas fossem a moldura que se move em torno do que atrai meu olhar como ímã: elas, sempre ali, que permanecem como o único ponto de continuidade enquanto tudo ao redor se movimenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os sinos da igreja tocaram para nos lembrar que era hora de partir. O sol se punha sobre o mar no horizonte. Terminamos nosso jantar apressados e corremos para a balsa que nos levaria embora. Manú dormiu aconchegada em meu ombro enquanto navegávamos. Por sorte, há coisas que não mudam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viver em uma ilha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">John Donne segue: &#8220;Nenhum homem é uma ilha, um ser inteiro em si mesmo; todo homem é um partícula do continente, uma parte da terra. Se um pequeno torrão carregado pelo mar deixa menor a Europa, como se todo um promontório fosse, ou a herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem me diminui, porque eu pertenço à humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda não abri o pacote de café que comprei naquela manhã. De vez em quando, eu pego a embalagem no armário, aperto um pouco para sentir o cheiro dos grãos ali dentro e fico conferindo os traços da caligrafia do homem e lembrando dos dias em que fingimos suspender a passagem do tempo só para poder contemplá-lo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Me distraio enquanto meu café esfria na xícara sobre a mesa e Manu termina de preparar a refeição que as meninas comem apressadas antes de irem para a escola. Desde que voltamos, entramos novamente na cápsula cotidiana que mascara as linhas de expressão e a passagem dos dias. A hora se impõe. Elas saem apressadas, lanches nas mãos, a bagagem cheia de cadernos e folhas em branco. Linhas e linhas, pela vida afora. Eternidade adentro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">(&#8220;Linhas de expressão&#8221;. Depois de muito tempo, voltando com as crônicas para o Estadão).</p>
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		<title>Escrevendo a lapso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Aug 2024 02:03:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Poemas]]></category>
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					<description><![CDATA[Vontade de escrever a mão,de rabiscar com lápis,de rasurar papel,sentir cheiro do grafite,da folha, do lápis apontado,do resto de borracha apagada.As lembranças dos primeiros diasde escola. Vontade de ficar descalço,de pisar o chão,de caminhar na grama,sentir o cheiro do mato,da terra,da folha,do resto de orvalho.Um lapso dos últimos diasde inocência. Vontade de escrever a lapso,de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="p1 wp-block-paragraph">Vontade de escrever a mão,<br />de rabiscar com lápis,<br />de <s>rasurar</s> papel,<br />sentir cheiro do grafite,<br />da folha, do lápis apontado,<br />do resto de borracha apagada.<br />As lembranças dos primeiros dias<br />de escola.</p>



<p class="p1 wp-block-paragraph">Vontade de ficar descalço,<br />de pisar o chão,<br />de caminhar na grama,<br />sentir o cheiro do mato,<br />da terra,<br />da folha,<br />do resto de orvalho.<br />Um lapso dos últimos dias<br />de inocência.</p>



<p class="p1 wp-block-paragraph">Vontade de escrever a lapso,<br />de rabiscar o chão,<br />de descalçar na terra,<br />sentir o cheiro dos primeiros dias<br />da inocência,<br />da escola<br />que aponta as folhas<br />de lembranças apagadas.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Quando você sai, já está dentro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Apr 2024 02:26:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[“Eu queria ficar só um dia preso. Dois, três, até dá. Se for mais, bem, vou ter que aguentar, né? Mas é f… Tem uma galera que fica uns dois meses. Aconteceu com um amigo meu. Mas, depois, não tem erro. Quando sai, você já tá dentro”. Minutos depois, ele completou: “o cara precisa ter [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">“Eu queria ficar só um dia preso. Dois, três, até dá. Se for mais, bem, vou ter que aguentar, né? Mas é f… Tem uma galera que fica uns dois meses. Aconteceu com um amigo meu. Mas, depois, não tem erro. Quando sai, você já tá dentro”. Minutos depois, ele completou: “o cara precisa ter ambição na vida. Não dá pra ficar parado”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Desculpe, eu não queria estar em seu lugar”, foi o que eu disse para ele quando nos falamos pela primeira vez. Não em função da convidativa história que me contou, mas porque me sentei por engano na sua poltrona no avião. O sujeito chegou, mochila de cinquenta litros nas costas e disse que 7C era o assento dele. Estava certo. Recolhi celular, livro e garrafa d’água e pulei para a 7K no corredor ao lado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instantes depois, murmurei em voz alta que minhas pernas não cabiam na poltrona do avião e o joelho ficava apontando para fora. Olhei em volta e ele estava me fitando. Superei meu bloqueio para socializar com desconhecidos e soltei:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; E a gente ainda paga mais caro pra ter essas poltronas com espaço extra. Onde tem espaço extra?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pois é… Pelo menos o voo é rapidinho, né? Duas horinhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Duas? Não, esse é um voo de seis horas. Do Brasil até a Colômbia tem muito chão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Jura? Achei que era rapidinho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mostrei a passagem para ele &#8211; a mesma que ele também tinha &#8211; e apontei o tempo de viagem anotado no cartão de embarque.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que raios, pensei, quem embarca numa viagem sem ter ideia de quanto tempo o trajeto leva? Eu ligo o Waze até pra saber quanto tempo demora para chegar no açougue. Eu ligo o Waze quando pego Uber pra ver se o tempo estimado no Waze do Uber está coordenado com o meu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meia hora depois, senti um cutucão no braço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Viu isso aqui? Nem água eles dão de graça no voo. Me cobraram mais de vinte reais numa garrafa. Não vão servir nem um biscoitinho de graça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Palhaçada. E a poltrona com espaço extra, pelo qual a gente paga, mas que não tem espaço extra? &#8211; eu estava meio obsessivo com essa reclamação e ainda não a tinha esgotado o suficiente para poder embarcar em outra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Você vai ficar por lá mesmo? Na viagem? &#8211; e apontou na direção da cabine do piloto como se estivesse enxergando pelo pára-brisas de um ônibus algum ponto de chegada ali na frente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pra Colômbia? Sim. Vou a trabalho para Bogotá e volto em alguns dias. Você não?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não, meu velho &#8211; ele comprimiu os lábios, coçou o topo da cabeça e sondou as pessoas em volta &#8211; ainda tô só no começo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Conexão em Bogotá é cansativo. Vai pra onde? &#8211; perguntei, enquanto pensava quem diabos ainda chama os outros de “meu velho” nesses dias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Lá pra cima. Estados Unidos. Mas &#8211; longas reticências por parte dele &#8211; não é bem conexão. Em Bogotá tenho outro voo para El Salvador. De lá, a gente sobe de carro até Cancún, no México. Aí tem outro voo para Tijuana, de onde seguimos a pé para cruzar a &#8211; outras reticências, por sua conta &#8211; cruzar a fronteira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhum livro que eu pretendia ler, nenhuma incompatibilidade social ou timidez que me consomem, nenhum podcast salvo em meu telefone, nenhum espaço limitado para as pernas na poltrona que supostamente deveria ter 15 centímetros adicionais pelos quais pagamos uma pequena fortuna ou qualquer filme baixado em meu computador para me entreter ao longo de seis horas de viagem, nada, era mais interessante do que aquela história. Mas, claro, eu fingi normalidade:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ah é? Caramba… Co-como assim? Rapaz! Mas, e aí, como faz? Eu sei de uma galera que tenta cruzar a fronteira pela floresta ou ali pelo sul da Califórnia. Só que é difícil, não é?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; O esquema, eles falam, é você ir a pé e ficar lá no deserto esperando. Quem vai pela floresta, se esconde ou tenta pular qualquer cerca, é difícil, mas pode até conseguir passar. Mas depois fica por lá como ilegal e se complica para regularizar a documentação. Sem falar que se te capturam, mandam de volta e você fica marcado. Agora, nesse outro esquema, você vai preso antes, se entrega. Você só precisa ir para o deserto e eles te pegam. De boa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; De boa. E depois?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Aí você vai preso, né? Os caras te levam, ficham e você fica lá à espera de asilo. Depois de tudo, eles te soltam lá mesmo e você fica como imigrante. Mas já está lá dentro, nos Estados Unidos. Tem umas organizações que ajudam com documento e a ser inserido. Dependendo da situação, é rapidinho, até uns três dias. Mas se estiver muito cheio, se tiver criança junto, aí pode demorar mais. Tudo isso influencia o tempo que você vai ficar fechado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele olhou em volta novamente:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Meu velho, só aqui nesse voo tem mais de dez pessoas indo. Tudo lá da minha cidade, em Rondônia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Você é de Rondônia?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu nunca conheci ninguém de Rondônia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ahãm. Cheguei hoje em São Paulo. Vim de ônibus. Olha, é puxado. Mas vai muita gente. Na minha cidade, só na minha cidade, que tem uns três mil habitantes, já tem mais de 300 pessoas que já foram embora esse ano. Gente solteira, família, casal, velho, tem de tudo. A gente precisa buscar uma situação melhor, né? Eu não tenho medo, não. Já morei em um monte de lugar, já morei até na Bolívia. Agora, esse esquema pode mudar tudo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Outra vida, né? Em Rondônia, você faz o quê?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Era corretor. Vendia casa, sítio. Mas tava ruim demais. Preciso ir, né? Tentar melhorar. O cara tem que ter ambição na vida. Não dá pra ficar parado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto me contava sua história com a normalidade de quem resume um empate em 0 x 0 da segunda divisão do campeonato rondoniense, ele tentava sem sucesso conectar o carregador do celular na tomada da aeronave. Me mostrou o cabo. Tinha trazido o adaptador errado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Cara, e agora? Imagina se eu ficar sem bateria nessa viagem? Aí já era tudo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Peguei o meu adaptador na mochila e ofereci. Ele agradeceu, espetou o cabo no celular, ligou um filme, afundou em sua jaqueta e dormiu em seguida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto ele cochila, amigos, vamos recapitular essa rota:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Viagem de ônibus de Rondônia a São Paulo (58 horas).</li>



<li>Voo de São Paulo a Bogotá na Colômbia (6 horas).</li>



<li>Voo de Bogotá a San Salvador em El Salvador (3 horas).</li>



<li>Viagem de carro de San Salvador até Cancún, no México (20 horas).</li>



<li>Voo de Cancún até Tijuana (5 horas).</li>



<li>Viagem a pé pelo deserto de Tijuana até… até ser preso depois de cruzar a fronteira do México com os</li>



<li>Estados Unidos (8 a 72 horas, em média).</li>



<li>Depois da prisão (sabe-se lá quantos dias), uma viagem de ônibus até Ohio para assumir um trabalho braçal (6 horas).</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Ambição na vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Procurei pela palavra “coiote” na minha mente por algumas horas durante e depois dessa conversa, tentando lembrar das longas reportagens do Globo Repórter narrando o trabalho das pessoas que cobravam pequenas fortunas para facilitar a saga dos imigrantes ilegais cruzando a fronteira do México com os Estados Unidos ou de cidadãos cubanos que tentavam chegar nas praias da Flórida navegando em balsas. Só agora, no entanto, ela me veio à mente finalmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante aquele voo, a palavra que mais me ocorria era “mula”, nome dado a quem se dispõe a transportar drogas e outros contrabandos em sua bagagem ou junto ao corpo em viagens em troca de dinheiro. Porque tudo isso parecia inverossímil, é claro. A história toda, o roteiro, as pessoas, o deserto, a prisão, Rondônia (no duro, você conhece 300 pessoas de Rondônia?). O mais provável era que ele fosse só um traficante (só um traficante, repito) com uma história inóspita para me cooptar e convencer a levar alguma mercadoria daquela pochete gorda que tinha acoplada ao corpo para dentro da Colômbia, para além da linha de imigração, para as mãos de algum sujeito obscuro que nos aguardava no desembarque. Ou, quem sabe, o que seria ainda mais nocivo para meu patrimônio, um cleptomaníaco interessado em embolsar meu carregador de celular e entediado com as seis horas de viagem pela frente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ele acordou, derrubando minha última tese, quis devolver o adaptador. Recusei:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pode ficar, eu tenho dois. Você vai precisar mais. Espero que te ajude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dar a outra face, disse Jesus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mas, me conta uma coisa: nesse grupo, também vai alguém que organiza? Tem tipo um agência, uma pessoa, uma empresa que cuida do processo todo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Uma “empresa”, né? Tem um chefão lá e cinco ajudantes. Eles vão monitorando à distância e dando as orientações. A gente chega nos lugares e já tem tudo esquematizado esperando: carro, transporte, passagens. E aqui &#8211; deu três tapas na pochete &#8211; tem o dinheiro. Tudo em dólar e separadinho, pra gente ir pagando as propinas no caminho. Sobra uns 50 dólares pra tomar um café, o resto é pra suborno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem família, o rapaz. Pai e mãe que ficaram cuidando do sítio. O irmão, com esposa e filhos, trabalha numa loja de móveis e pretende viajar em breve, no mesmo esquema. Ele parte com desejo de voltar. Quer um mundo novo para si e quer seu mundo de volta. No momento em que escrevo, me dou conta de que se o plano teve sucesso, ele está encarcerado em algum presídio norte-americano neste instante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Quero ter um documento. Ai posso voltar e ver meus pais. Juntar uma grana. Se bobear até arrumo uma americana por lá e me caso. Não quero ficar trabalhando muito, não. Eu gosto de roça, gosto de terra. Queria mesmo é ter uma terrinha, um gadinho. Eu sou do mato. Isso já tava bom.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perambulando num deserto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; O esquema é esse. Vou lá, ficar parado no deserto até um carro me prender. Vai dar certo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esfregou as mãos, esticou o pescoço e olhou para frente de novo esperando enxergar um destino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Se não der, não tem problema. Aí a gente volta e tenta outra coisa, não é mesmo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando pousamos, desejei boa sorte e nos apresentamos. Na saída do avião, a fila foi se aglomerando e o perdi de vista. Alonguei o corpo, aliviado em poder finalmente esticar as pernas, que agora doíam pra caramba em função da poltrona que deveria ter… e pela qual… bem, a outra face a gente até dá, mas os joelhos são outra história, eu acho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do lado de fora, num canto depois do desembarque, eu o avistei novamente. Estava com um grupo de cinco ou seis pessoas, aguardando outros passageiros descerem. Não conversavam. Todos tinham mochilas enormes, mantinham as mãos nos bolsos e o semblante intranquilo. Trocamos olhares, ele acenou com a cabeça, eu sorri de volta e enquanto caminhava rumo ao meu destino, fiquei pensando se, por acaso, a cela do presídio teria tomada para ele espetar o carregador.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Quando você sai, aí já está dentro&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu não queria estar naquele lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/quando-voce-sai-ja-esta-dentro/">Estadão</a>)</p>
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		<title>A fortaleza das lembranças</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2024/03/30/a-fortaleza-das-lembrancas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 30 Mar 2024 21:19:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8220;Salvar alguma coisa deste tempo ao qual nós nunca mais voltaremos&#8221; (Annie Ernaux). Quando entrava no quartinho dos fundos para pegar minha caixa de brinquedos, eu escolhia três soldadinhos Comandos em Ação e, antes de fechar a tampa, ficava incomodado com a ideia de que o Rambo, com seus complexos e cicatrizes, poderia estar chateado [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Salvar alguma coisa deste tempo ao qual nós nunca mais voltaremos&#8221; (Annie Ernaux).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando entrava no quartinho dos fundos para pegar minha caixa de brinquedos, eu escolhia três soldadinhos Comandos em Ação e, antes de fechar a tampa, ficava incomodado com a ideia de que o Rambo, com seus complexos e cicatrizes, poderia estar chateado murmurando “poxa, agora eles vão lá fora viver grandes aventuras, salvar o mundo e tal, e eu vou ficar aqui nessa gaveta escura com esse bando de Playmobil carecas”. Então eu voltava, pegava o Rambo e o levava junto. E também os Playmobil. Nem que fosse para exercerem um papel coadjuvante na história daquela tarde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por alguns anos, achei que meus brinquedos tinham sentimentos. Não que eu acreditasse nisso de verdade, mas no fundo ficava com aquele sentimento de que, bem, ainda que inverossímil, isso poderia ser real. Eu não sabia o que era inverossímil, então assumia a fantasia e seus mistérios como sendo realidade, assim como quase tudo nessa fase da vida. Houve um tempo em que eu colocava esses sentimentos em outras coisas. Certa vez, meu pai vendeu um Monza vermelho e eu passei algum tempo melancólico porque não me despedi do carro. Ele deveria estar com seu capô cabisbaixo, o farol apagado e pneus murchos lá no estacionamento da loja, ao lado daquelas dezenas de outros carros usados porque nós o trocamos pelo Del Rey cinza, três anos mais novo e muito mais legal porque tinha aquele relógio digital que permanecia aceso no painel.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje em dia, não consigo me lembrar de conceitos fundamentais de análise sintática ou de princípios de trigonometria que me seriam úteis em vários momentos da vida adulta (bem, depois me ajude a lembrar quais seriam tais momentos?), mas dessas bobagens eu lembro nitidamente, numa espécie de live action do Toy Story passado na periferia de São Paulo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembro do Monza e lembro também da rua em que crescemos, os lugares onde nos escondíamos, o canto matutino de um bem-te-vi no terreno atrás de casa que nos acordava toda manhã, o sinal de uma fábrica no bairro tocando às sete, lembro do Cuca e do Beto e do Leandro e os detalhes de nossas memoráveis partidas de futebol, das pipas que eu não sabia empinar e meu irmão precisava colocar no alto pra mim, das brigas que encerravam o dia mais cedo e minha mãe chamando às sete porque era hora de &#8220;vem-tomar-banho-seu-pai-chegou-o-jantar-ta-quase-pronto&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembro da escola, os nomes das professoras, do futebolzinho na entrada, dos colegas, da merenda que eu não comia e da cantina com aqueles cheiros misturados que lembravam algum tipo de ração, do barulho do sinal que tocava e fazia aquela mini-multidão correr atabalhoada pelo pátio da Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau Marechal Deodoro da Fonseca, formando filas, do menor pro maior, com distância de um braço estendido e ficar ali parado cochichando por uma eternidade de cinco ou dez minutos até tocar o segundo sinal que era a alforria para sairmos correndo outra vez, naquele mar de pequenas cabeças e mochilas pesadas passando pelo funil de um portão estreito rumo à rua onde nossas mães e um almoço nos esperavam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois dos quarenta anos, a gente se dá conta de que lembra de coisas muito úteis e outras tantas completamente imprestáveis sem ter podido imaginar ou controlar, lá atrás, o que daquilo tudo iria formar o que somos hoje. É um mosaico de memórias para o qual olhamos nesse espelho retrovisor distorcido &#8211; de um carro definitivamente sem sentimentos e consciência de sua condição de carro &#8211; e compomos a história que chamamos de nossa vida. Até aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">À medida que envelhecemos e as lembranças começam a se apagar, como é que nossa mente escolhe as bagagens que vai carregar até o fim dos dias e o que ficará pelo caminho? Esquecemos nomes de pessoas queridas, datas, histórias, fórmulas matemáticas, a hora do remédio, fatos marcantes, mas certas cenas impregnam como fungos um canto obscuro e nos acompanham até o fim. E mesmo que soem absolutamente inúteis, são lembranças assim que nos resgatam de onde estamos nesse instante para nos levar nesse mergulho àqueles primeiros anos em que adquirimos algum tipo de consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A infância é uma fortaleza. A infância é esse universo de lembranças que não escolhemos, o memorial onde reside toda riqueza da existência que carregaremos até o fim de nossas vidas. Desses dias, vêm a percepção mais relativa de tempo que pode existir, porque naquela breve dúzia de anos habitam nossas saudades e ali nascem os alicerces das experiências que perseguiremos pelas décadas restantes: esse resto de vida que vem depois de sermos crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E se penso pouco em Monzas, pipas e Playmobil nesses dias, a verdade é que passo tempo demais pensando na infância. Em especial a das minhas filhas. E penso nas experiências aleatórias que se tornarão memórias no futuro e sobre as quais não temos controle. Podemos levá-las a Marte, ao circo, a um baile de máscaras ou a uma temporada na praia e é possível que, aos quarenta anos, elas se recordem mesmo é de uma tarde em que ficamos sem energia em casa ou do dia em que vendemos um Toyota e elas não puderam se despedir do carro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cecília completou nove anos ontem. Teve festa, com bolo, brigadeiro, as primas, músicas e presentes. E não canso de pensar que nesse momento da vida ela tem experimentado as experiências das quais se lembrará com mais consistência e linearidade quando crescer. Quando a deixo na porta da escola, quando encaramos batalhas de cócegas, trocamos bilhetes e desenhos em post-its ou quando ela reclama que eu trabalho demais, me pego pensando: que lembranças serão essas, em 2050, quando ela se pegar pensando na infância, em seus brinquedos dotados de sentimento, os bem-te-vis marcando o tempo no quintal ou as tardes gastas com amigas da vizinhança? Ela cresce e abandona pelo caminho as coisas dessa primeira fase. Não mais bonecas de pano, não mais &#8220;boboleta&#8221; e palavras trocando o R e o L, nada de seu pijama levantado pra refrescar a barriga no travesseiro frio, as invasões noturnas à nossa cama e desenhos espalhados pela casa. Tudo isso dá lugar a um rumo particular à própria identidade, ainda assombrada pelos monstros que se colocam em seu caminho, mas a cada alvorada avançando com seus patins flutuantes em direção à escuridão para acender, a seu modo, as luzes que lhe abrem uma nova trilha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há pouco mais de uma semana, a Nina fez 17 anos (de-zes-se-te, meu Deus). Mas ela não queria. Queria ficar nesse limiar em que a infância ainda a habita e às vezes faz manha no seu subconsciente e grita pedindo atenção. E ela cede. A Nina moça faz tantas concessões quanto a pequena Nina lhe pede, porque adora o espaço da fantasia, dos filmes, brinquedos, músicas e memórias. Manú sempre fala que tivemos uma filha que nasceu senhora. Ela era nostálgica aos cincos anos. E agora, com a porta da vida adulta aberta diante de si, ela se agarra nos batentes querendo ficar. Tem medo porque não sabe que já está pronta faz tempo. Seus pés descalços escorregam no assoalho e ela foge para um canto, criança, corre pro quarto, mocinha, pega seu piano, respira, ajusta a postura, fecha os olhos e toca lindamente, canta lindamente. Pega um bloco de papéis e tintas, espalha tudo pelo chão, pincéis e traços para todo lado e aí desenha lindamente, pinta lindamente. Ela tem medo, mas não precisa. Seu coração poético vai fazê-la flutuar vida afora, criança, sendo carregada pela fantasia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sinto essa urgência, esse medo de sentir escorrer por um ralo esse tempo, como se não fossem elas a perdê-lo, mas eu, vendo esvair a oportunidade de tê-las nos braços, de brincar no chão, de embalar o sono, acudir um pesadelo, ler histórias ao pé da cama ou consolar um choro. As tomo pelas mãos enquanto caminhamos e agarro, seguro firme como se fosse eu que pudesse me perder. E posso facilmente ser drenado por essa ansiedade que nos faz viver o tempo todo em qualquer outro momento que não o agora. Seguro firme e quero ficar ali naquele instante, sentindo a pele macia das mãos de meninas que elas ainda tem e desejando ingenuamente ter esse registro para sempre. Salvar alguma coisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estávamos na cama numa noite dessas e eu contava uma história para a Cici. Antes de pegar no sono, ela se acomodou no meu peito e comentou: “Hoje a noite está perfeita. Eu comi brigadeiro, estou abraçada com meu pai e vou dormir com meu cachorrinho de pelúcia&#8221;. Esse é o conceito de noite perfeita que ela aspira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos testemunhas dessas histórias que se constroem e que não controlamos em absoluto. No futuro, seremos, Manú e eu, um pedaço de suas lembranças. Mas seremos fragmento, coadjuvantes. O papel que pais e mães querem acreditar que nunca terão, porque se para elas seremos um pedaço no passado que aos poucos deixarão para trás, em nós carregaremos até o fim a certeza de que os filhos são fundamento, uma parte da história que nos constitui. Elas serão sempre uma parte de quem somos. Nós, para elas, uma conexão que precisa abrir espaço aos poucos para que possam começar suas jornadas a seu próprio modo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A verdade é que eu lembro muito pouco da vida que tínhamos antes delas nascerem. É como se os quatro anos de nosso casamento até aquela madrugada em que peguei a Nina nos braços pela primeira vez estivessem encapsulados numa linha curta que se resumia a trabalho, trabalho, macarrão ao molho branco, trabalho, pipoca e maratonas de filmes alugados em cassete e DVD. E essa fase também se tornou um apanhado de cenas esparsas que compõem um período.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Ainda temos o dia de hoje&#8221;, digo a mim mesmo para me desgarrar do passado empoeirado e dessa ideia de elucubrar futuros possíveis que não controlo. E Deus sabe como me empenho nessa tentativa. Porque não tenho mesmo como saber, afinal, que porção das experiências que vivem hoje serão lembranças para essas meninas quando se tornarem adultas. Do meu lado, porém, carrego a certeza de que delas lembrarei muito mais &#8211; mais do que elas mesmas &#8211; porque contemplo essas trajetórias de um lugar privilegiado. E cada fragmento de história, de primeiras palavras a primeiros passos, de cantos de pássaros e pores do sol, de lágrimas colhidas e dentes perdidos, de banalidades cotidianas a viagens épicas, isso carregarei comigo, do que dividimos, porque já não é delas apenas, mas é também quem somos. E salvo tudo o que posso disso, dobrado em gratidão, contemplando esses dois milagres que florescem sob nossos olhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto escrevo, estou sentado em frente ao gramado da casa da minha sogra no interior. Cecília está aqui ao lado brincando com os presentes que ganhou na festa de ontem. Pequenos bonecos dotados de vida e sentimentos. Uma porção de folhas de papel espalhadas pelo piso com os desenhos incompletos da história que ela está escrevendo. Nina e Manú leem algo no quarto enquanto esperam familiares e amigos chegarem para o almoço. Lá fora, o céu azul brilha intenso. Meu olhar se perde um instante no insondável acima de nós. É só mais um dia e ainda é festa. É dia de erguer um altar. Salvar tudo o que posso deste tempo para onde espero sempre poder voltar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente em meu blog no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/a-fortaleza-das-lembrancas/">Estadão</a>)</p>
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		<title>A sombra e a escuridão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Sep 2023 22:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Já era quase hora de dormir, estávamos na cozinha tirando as louças da mesa quando Cecília apareceu vestindo seu pijama, apertando um gato de pelúcia sob o braço e com uma máscara de dormir presa na testa. &#8211; Gente, alguém pode ficar lá no quarto comigo? Eu tô com medo. &#8211; Eu fico, filha. Você [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Já era quase hora de dormir, estávamos na cozinha tirando as louças da mesa quando Cecília apareceu vestindo seu pijama, apertando um gato de pelúcia sob o braço e com uma máscara de dormir presa na testa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Gente, alguém pode ficar lá no quarto comigo? Eu tô com medo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Eu fico, filha. Você está com medo de quê? &#8211; perguntei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Do escuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ué, mas você tem medo do escuro e vai dormir com uma máscara que tapa seus olhos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; É, então. É por isso que eu uso a máscara. Assim eu não vejo o escuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na passagem dos sete para os oito anos, no coraçãozinho dela brotava esse sentimento do passo seguinte. Ela agora tem a idade de que se lembra… lembra que tem um passado, com as memórias em que se agarra, a nostalgia de lembranças breves e que sumirão gradualmente e tem agora alguma consciência de futuro também, de que tem um amanhã, um depois que ela desconhece e não controla. O futuro pode ser uma sombra escura e assustadora muitas vezes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembro de quando tinha medo da escuridão. Deixava a luz do corredor que levava ao banheiro acesa para conseguir dormir sem precisar encarar aquele vazio absoluto repleto de incertezas. Às vezes, naquele resto de luz que garantia que alguma coisa pudesse ser enxergada, as sombras se tornavam aterrorizantes. Um vulto de tecido que se projetava na parede, o receio de algo estranho acontecesse ou o vento soprando a cortina era o que bastava para que monstros me habitassem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cecilia sente-se moça. Já passeia sozinha com a Lucy, nossa cadela de dez anos. Acredita que é capaz de educar a Cora, a nova cadela de seis meses. Faz contas como passatempo, lê seus livrinhos, cria listas com planos para relaxar no fim de semana. Ela agora escova seus dentinhos separados e os cabelos ruivos em frente ao espelho antes de deitar, veste o pijama e sua máscara de dormir e, com aqueles pequenos gestos que emulam a mãe e a irmã mais velha, às vezes também insiste em passar um creme antes de ir para a cama. Cama da qual salta no meio da madrugada e corre para nosso quarto. Pijama estampado, bicho de pelúcia nos braços (às vezes mais de um), a máscara presa na testa. Cecília transita entre a pureza da infância e a realidade dos fatos. Porque tem esses ciclos que fecham e se renovam e, muitas vezes, antes de um terminar, outro novo começa e sobrepõe a ordem natural das coisas. A menina tem medo de monstros, de sonhos ruins, do escuro solitário e das sombras que se projetam à sua frente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo do faz-de-contas está acabando e ela não sabe lidar. Nesses tempos, há noites em que ela chega no quarto e eu também estou acordado. Meus olhos encarando no teto as luzes que entram pela fresta da janela entreaberta, os ouvidos capturando sons que sobem da rua e do campo ao lado de casa, a mente lutando para capturar e controlar o futuro. O tempo, esse tirano, que nos faz pequenos, que dita ciclos que não encomendamos. Há ensaios de desconhecido e tapar os olhos não elimina a realidade que se projeta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estou em um voo nesse instante. A trinta mil pés de altitude, disse o piloto. Todas as vezes, nessa hora em que o piloto fala, deito a poltrona e o mesmo pensamento me toma: trinta mil pezinhos empilhados, um a um, até formar a altura em que flutuamos sobre as nuvens. Pés de crianças, pequeninos ou pés tipo de homens adultos jogadores de basquete? Acho que não faria diferença considerando o pouco repertório de referência que possuo e minha capacidade de abstração, mas fico tentando calcular enquanto penso na imagem. Um pé tem 30,48 centímetros, diz a convenção das medidas imperiais (sim, dos mesmos caras que calculam coisas usando nomes como libras, milhas e onças, nomes bacanas de medidas que, pode crer, facilitam bem as coisas). Minha régua Compact acrílica nos tempos de escola tinha trinta centímetros. Ela tinha quase um pé. Esses 0,48 centímetros adicionais não eram relevantes para as aulas, mas tenho quase certeza que fazem diferença nas rotas de aviões quando multiplicados por 30.000. Cá estamos, imperiais, voando. Eu tenho dois pés sobre os quais me sustento e outros 6,10 pés de altura. Estando a trinta mil deles acima do solo, nenhum desses faz qualquer diferença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meus dois pés medem 29,5 centímetros cada. Não que seja relevante por hora, mas tenho certeza que você estava se perguntando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viagens a trabalho me dão medo. Não tenho medo de altura, seja em metros ou pés (e convenhamos, uma neurose a menos chega a ser um alento). Pelo contrário, gosto de estar em lugares altos, de contemplar a paisagem lá embaixo, da sensação de assistir o mundo em movimento em outra rotação e ritmo, como se eu estivesse momentaneamente à parte daquela realidade, observando a vida dos outros de fora. As partículas se ajustando, vidas em construção e histórias sendo compostas. Pequenas ovelhas num pasto. Me satisfaço assistindo e lembrando de como as coisas se tornam pequenas quando vistas de outra perspectiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessas viagens, meu medo é de outra espécie. Tenho essa sensação de que estou deixando algo para trás ao partir, mesmo que por alguns dias. Uma perda, como se criasse um buraco de ausência por não estar onde geralmente me encaixo. Não gosto do desapego da rotina, do afastamento da zona segurança oferecida pelo ritmo do nosso cotidiano. Não estar onde não posso ter nos braços as minhas meninas, nossa mesa, a dança da existência que compomos diariamente às 5:45 quando toca o alarme que invariavelmente adio e o dia já começa atrasado. Sinto falta das coisas extraordinárias que vivemos e que se fazem reais a partir da soma das pequenas coisas ordinárias que vivemos repetidamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;O universo é feito de histórias, não de átomos&#8221;, escreveu Mariel Rukeyser. Não sou poeta e nem cientista. Me apego a esses fragmentos de existência que me dão todo tipo de evidência de que preciso para crer na eternidade. E tem nostalgia pra caramba aí também, claro. Mas a nostalgia, em si, também é um medo de desapegar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu tenho medo de estar viajando num avião, sentir dor de barriga e ter que usar o banheiro. Me apavora a certeza de que a descarga a vácuo vai ser acionada, aquele barulho estridente vai dominar a cabine e eu serei sugado pelo vaso e ejetado para fora do avião direto no espaço. A trinta mil pés.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É, eu sei, todo mundo tem esse tipo de medo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem um sujeito dormindo ao meu lado no voo. Ele está sem os sapatos. Em um pé, usa meia, no outro está descalço. Acho que pode ser uma forma de tentar regular a temperatura. Tentei emparelhar meu pé ao lado do dele, mas não tenho certeza se o dele chega a ter 30,48 centímetros. Ele usa uma máscara de dormir para tapar os olhos. Não sei se ele, tal como a Cici, também tem medo do escuro. Somos passageiros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cecília chorou outro dia. Não lembro o motivo; um machucado, um susto, algo que demandava abraço e colo. Às vezes, ela resiste em receber esse cuidado. Depois que acalmou um pouco, conversávamos e notei que uma lágrima insistia em repousar em sua bochecha. Ela tem bochechas fofas e a lagriminha ficou por ali como uma micro poça de água salgada afogando suas sardas. Estendi a mão para enxugar e ela desviou o rosto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pára, pai &#8211; disse, séria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Eu só vou enxugar uma lágrima que ainda está no seu rosto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Eu sei. Mas eu não quero. Deixe ela aí.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há quem prefira não esquecer por um tempo. Lembrar a dor para não esquecer não é necessariamente cultivar o sofrimento. Pode ser um recurso para ganhar força e encarar o novo, o próximo, o que vem, aquele, aquilo que está logo ali atrás da porta e a gente ainda não conhece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Saí para correr hoje cedo. Eram seis da manhã e me vi sozinho em uma pequena trilha que de um lado tinha um grande campo de vegetação baixa e do outro uma baía. Eu podia ver o sol surgindo, laranja e intenso atrás de um dos morros. Estava sozinho, o único som que podia escutar era dos meus passos esmagando os torrões de terra na trilha, alguns patos na água e pássaros levantando voo e cantando no fundo. A gente se percebe pequeno nessas horas. Olhei para o horizonte diante de mim, me senti grato, abri os braços e quis fazer uma oração, mas não consegui. Agradeci ofegante, mas ouvi minha própria voz trêmula e me distraí. Não tem muita coisa que vem à mente de forma estruturada quando sua frequência cardíaca bate 170 bpm e se você é o tipo de pessoa desastrada o bastante para cair sozinho mesmo se estiver parado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou pequeno demais, vivendo na transição entre esses ciclos que se alternam e se sobrepõem, e hora me prendem os pés no chão como ímã, hora me impulsionam a correr mais rápido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Luizão, tudo bem? Onde você está agora?&#8221;, perguntou meu amigo Léo via mensagem. Conectado na rede wifi do avião (senhoras e senhores, o futuro chegou. E ele é terrível), olhei pela janela e respondi: &#8220;Estou no céu&#8221;. Mas só para depois completar: &#8220;Não com Jesus, ainda. Mas sobrevoando o Texas, acho&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deus não vê o mundo do alto, não observa a existência alheio e distante, não é essa coisa de ações e consequências, como se fossemos bonecos de um grande Ferrorama e ele nos pilotasse em seus trilhos. Ele não está a 30 mil ou 90 mil ou 88.925 mil pés. Está aqui, o bom pastor, nos abrindo os olhos para perceber seu gentil habitar em cada um de nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;O amor lança fora o medo&#8221;, escreveu João. Que medo? Todos eles? Medo de escuro, medo de morte, de futuro e de privadas espaciais? A ausência de medo é o quê? Coragem? A coragem, diz sempre um amigo, é seguir em frente apesar do medo. A fé, penso aqui enquanto me dobro diante do desconhecido, é caminhar sem saber para onde, mas esperar pelo melhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deposito minha fé no desejo de poder chegar seguro em casa amanhã cedo, cruzar os pés pela porta da sala e me abrigar nos braços de quem pertenço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os pequenos pés que até pouco tempo saltitavam descalços pela casa agora usam saltos. Um salto no tempo e a Nina virou moça. Rápido assim. Dezesseis anos. Eu tapo os meus olhos e ainda vejo no piso as marcas das pegadas de sua infância. Escondo a realidade com essas imagens para não encarar o medo. Uso máscaras para disfarçar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu queria viajar no tempo. Trocaria trinta mil pés por aqueles dois pezinhos bailando casa adentro outra vez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um peso especialmente difícil de carregar é olhar para a porta do corredor que divide a sala dos quartos e ver surgir a menina desabrochando como mulher. Seu sorriso fácil, o jeito mudado, o cabelo sendo jogado, o rosto pintado para sair. Mas o mesmo olhar está ali. O brilho nos olhos está ali. E ri, chora, se anima com o que seus olhos agora contemplam, experimentam e ansiosamente esperam. A moça está ali, mas ainda é toda a menina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela troca de máscaras também. Porque ciclos são assim, afinal. O começo de um novo tempo não espera o final do outro para começar. O novo que ela celebra pode ser o que me assusta. E vivemos essa mistura, tateando no escuro ao passo que vivemos sonhos, calculando partículas enquanto criamos histórias, pisoteando o chão no dia em que sobrevoamos sobre as nuvens, descobrindo o Eterno habitando nas pequenas gavetas da nossa intimidade. Correr nas nuvens e voar na terra. O universo é feito de histórias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é preciso temer a escuridão. Luzes entram pelas frestas de janelas entreabertas. Olhos e ouvidos captam e contemplam o desconhecido. Eu giro a maçaneta da porta da sala que está destrancada e piso descalço sobre o piso de madeira. Caminho em pastos verdejantes. Estou em casa, finalmente. O futuro não é escuridão. Porque todo amanhã pode ser um novo amanhã. De nada tenho falta. Avanço pela casa e já no corredor, sinto o perfume vindo do quarto. &#8220;Oi, amor&#8221;, a Manú se vira para me abraçar, &#8220;fez uma boa viagem?&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/a-sombra-e-a-escuridao/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Sobre as águas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jun 2023 12:38:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Estávamos no barco há algumas horas, navegando rio abaixo. Na imensidão verde das árvores que nos cercavam, a água escura correndo sob nossos pés e o céu azul límpido se abrindo infinito sobre nossas cabeças, despertavam a consciência de que éramos pequenos pontos em movimento naquela vastidão da existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu ouvia cantos de pássaros. Mas por mais que forçasse o olhar na direção das árvores de onde vinham, era incapaz de enxergá-los. Via as camadas de folhas nas copas, via sombras, nada de bichos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A certa altura, o barco parou e sem o zunido do vento no rosto, o espaço se preencheu daqueles ruídos novos. Sons de todos os tipos de vida surgindo daquele mistério esverdeado que emoldurava o que víamos. Eram elas, as árvores, todas elas, as anfitriãs da casa que nos abrigava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro canto. Me concentrei novamente e tentei segui-lo com a cabeça e o olhar, mas foi em vão. Por causa do meu pai, cresci habituado a escutar piados e tentar identificá-los. Onde quer que esteja, se um pássaro canta ao fundo, aquilo captura a minha atenção e me distraio. Ali, no entanto, tudo era primeira vez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Só depois do terceiro dia é que você vai perceber”, disse uma voz atrás de mim, “você vai conseguir olhar para lá e enxergar os pássaros e animais. Nosso olhar da cidade não consegue enxergar as diferenças dos tons de verde, a profundidade e as sombras. Mas a gente vai acostumando”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida pulsando. A vida que eu tanto queria ver naquela floresta. Eu era cego para os milhares de detalhes que me cercavam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Andrea tem quase setenta anos e nasceu em Taiwan. Trabalha acompanhando turistas do seu país em viagens pelo mundo e naquela semana estava com uma cliente. Fala português com um pouco de sotaque. Já conheceu dezenas de países em todos os continentes e quando perguntamos, durante um café da manhã dias depois, qual lugar mais a impressionou, ela sorriu e apontou para a terra em que pisávamos: “isso aqui. Aqui, não tenho dúvida. A Amazônia é o lugar mais bonito que já conheci.” Esteve lá mais de vinte vezes e pretendia voltar enquanto pudesse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os dias passaram. Depois do terceiro, eu já via os pássaros que cantavam nas árvores, via as preguiças nos galhos. Vimos os macacos colhendo frutos, jacarés se refestelando nas margens. Andamos na mata e sentimos seus cheiros, sua umidade, os ruídos constantes que me hipnotizaram enquanto estivemos por ali. Vimos insetos, contemplamos a grandeza da Sumaúma e seguimos, um passo após o outro, nas trilhas que me levaram em uma viagem que desde criança desejei, mas nunca imaginei que o lugar final da caminhada seria para dentro de mim mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida pulsando, em seu lugar de princípio. Aquilo não era destino, era origem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Panteão em Roma, os canais de Veneza, as ruínas Maias no México, a arquitetura das pontes parisienses, os castelos alemães, a massa cinza vibrante de São Paulo, as múmias egípcias, o poder imperial de Washington, a diversidade étnica de Nova York, os palácios ingleses, a culinária portuguesa, os vinhos argentinos, as pinturas de Van Gogh no D&#8217;Orsay, a música de Chopin tocada por Nelson Freire… A vida me concedeu privilégios que permitiram aos meus sentidos perceberem a beleza da forma moldada pelas mãos humanas. Nada do que vi ou escutei, porém, se compara ao esplendor da natureza diante de nós, acolhendo-nos em seus braços e nos fazendo entender, nessa pequena amostra de espaço e tempo, que ali não estamos, mas pertencemos. A criação é o que somos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cecília pescou uma piranha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Éramos os únicos brasileiros, além do guia, naquele barco com doze adultos. Ela, a única criança, era uma atração paralela com sua espontaneidade e graça. Crianças falam qualquer idioma. Naquela tarde, reinava o silêncio. É preciso estar quieto, imóvel e atento para conseguir pescar &#8211; é por isso, acho, que nunca pesco. Mas a certa altura, todos já tinham conseguido fisgar e devolver para a água algum peixe. Todos, menos Cecília. O sol já ensaiava sua saída e o guia recolhia os instrumentos quando ela soltou um gritinho: “peguei!”. E da água saiu o pequeno peixe se debatendo na ponta da linha em que ela tinha colocado sua última isca. No barco, todos aplaudiam. Calvin, um idoso norte-americano que passava os dias fotografando animais e paisagens com sua câmera profissional, apontou sua lente na direção dela e registrou incansável aquele feito. Na pequena canoa, todos em festa por Cecília. E ela sorria incontida, os cabelos vermelhos vibrantes, os olhos reluzindo em satisfação. Devolveu o peixe ao rio e me abraçou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O esplendor da criação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida pulsando. A vida que eu tanto queria ver naquela canoa. Eu sou cego para os milhares de detalhes que me cercam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao todo, passamos oito dias juntos na floresta. Sem distrações. O hotel não tinha televisão, música, sinal de internet ou telefone. Comíamos todos juntos, na mesma hora, no refeitório principal. Saíamos muito cedo para os passeios e trilhas na selva. E nas horas de ócio, o lazer comum a guias, funcionários e hóspedes de qualquer nacionalidade eram as partidas de xadrez regadas a biscoito doce e café no salão da recepção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estou dentro de um avião agora, voltando para casa depois de alguns dias trabalhando em outro país. É noite, olho pela janela e só vejo a asa esquerda da aeronave com uma luz piscante e lá fora a escuridão da noite. O avião desliza pelo céu acima das nuvens como um pássaro que me leva para o lugar onde habito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ontem pela manhã, enquanto fazia minha corrida em um parque, uma ave diferente cruzou meu caminho voando baixo. Era preta, grande, tinha uma cauda diferente que parecia estar amarrada com algum tipo de elástico. “Pombas gigantes mexicanas de penteados ornamentais”, pensei. Na volta seguinte, eu a vi de novo. Pensei naquele bicho mais algumas vezes nos quilômetros seguintes. Meu pai talvez poderia dizer de que espécie é. A Cecília a acharia engraçada, Nina faria um desenho, Manú e eu a veríamos sentados e abraçados num banco daquele parque. Era um parque bonito, Chapultepec. Longe de casa, a gente é pura nostalgia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É só quando nossa visão se desprende dos milhares de ruídos que nos envolvem e distraem é que nos percebemos capazes de enxergar o que procuramos. Até então, são só os sinais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensamento voa, o tempo voa. E a gente, flutuando nas asas dessa existência louca, às vezes só deslizamos por tudo alheios aos detalhes abaixo de nós. Queremos voar e acabamos sem notar que somos a terra, esse pó da terra com sopro de vida e anseios de eternidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cego. Incapaz de enxergar os milhares de detalhes. Vivo cercado de encantos da criação e não consigo notar. Mas quando acordar pela manhã e aterrissar em São Paulo, pisar o chão e estar onde pertenço, voltarei para os braços daquelas a quem chamo lar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembrei que na Amazônia, o Nelson, nosso guia, disse que alguns turistas estrangeiros contratavam aviões para sobrevoar a floresta e seguir Rio Negro em direção a Manaus, de onde poderiam retornar para casa. Estávamos no alto de um mirante de cinquenta metros contemplando o pôr do sol no horizonte preenchido pelas copas das árvores e pensei na ideia de poder ver aquele mar verde lá do alto, o contorno dos rios, ser com os pássaros e fiquei encantado. Então olhei para baixo e vi de novo a terra, vi a água refletindo o céu, os peixes pulando naquela ilusão de ótica e me dei conta, outra vez, que nascemos como Ícaro. E ainda que minhas ideias levem o pensamento tão longe, são coladas com cera essas asas que tenho em mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E há esse rio por onde flutuamos. Andamos sobre as águas. Esse milagre, a vida. E nunca viveremos nada disso outra vez. Porque não volta, o rio nunca volta. Não desse jeito. Mesmo que as situações se repitam, somos outros a cada dia, em outro contexto, mais velhos, um dia mais velhos que seja, mas ainda assim observando a cena de uma perspectiva nova. Até que as sombras se dissipem finalmente e nossos olhos se tornem capazes de enxergar de onde vêm os cantos, celebrar crianças pescando encantos. O rio da vida corre constante, nadar contra a corrente é estupidez. É preciso aprender a navegar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O bom pastor, cantou um rei, nos conduz por águas tranquilas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A imensidão que nos cerca, a água correndo sob nossos pés e o céu azul límpido se abrindo infinito sobre nossas cabeças, pássaros, despertando a consciência de que somos esse pequeno, esse mínimo, precioso, complexo e único, tão único ser, dotados de consciência, transbordantes do amor que nos concebeu e navegando sobre as águas da existência. Eu rio. Esplendor da criação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/sobre-as-aguas/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Remediado está</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 May 2023 11:59:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Um porta comprimidos repousava sobre a mesa da cozinha ao lado da minha xícara e de um copo de água, ali gentilmente colocados pela Manu um pouco antes de eu chegar para tomarmos o café da manhã. Um porta comprimidos, todo meu. O sinal supremo de que a vida adulta cobra uma conta um bocado [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Um porta comprimidos repousava sobre a mesa da cozinha ao lado da minha xícara e de um copo de água, ali gentilmente colocados pela Manu um pouco antes de eu chegar para tomarmos o café da manhã. Um porta comprimidos, todo meu. O sinal supremo de que a vida adulta cobra uma conta um bocado alta quando escancara assim que… bom, pois é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu troquei o meu há duas semanas. Até outro dia, usava um recipiente que ganhei de brinde em alguma farmácia de manipulação anos atrás. Constava o nome desbotado na tampa: &#8220;Principia&#8221; (farmácias de manipulação adoram nomes meio frescos em latim. Se tiver uma linha homeopática então, é quase mandatório) e um número telefônico para o qual nunca liguei. Estava velho, os cantos gastos já amarelados, pequeno demais para o tamanho dos meus remédios e às vezes a tampa ainda abria sozinha. Mas, mantê-lo assim por alguns anos era também uma forma de negação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, num fim de semana entrei numa loja de artigos orientais chamada Daiso. A Daiso promove a ideia de que se propõe a trazer um pedacinho do Japão e suas maravilhas para os shopping centers paulistanos. Nunca fui ao Japão, mas se aqueles corredores iluminados e ruidosos, com itens fora de lugar e despencando das prateleiras são uma amostra da realidade japonesa, então o subsolo do inferno fica na terra e está a um dia de viagem de São Paulo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto as meninas procuravam por algo, comecei a vagar pelos corredores dantescos entulhados até que, sem me dar conta, já estava há longos minutos avaliando as características de uma meia-dúzia de porta compridos diferentes (sim, existe uma variedade e, pelo visto, toda uma demanda não reprimida para hipocondríacos que se aventuram naquele pedacinho do Japão). Espaços adequados para pílulas de diferentes tamanhos e formas, estética minimalista e dia da semana estampado na tampa do recipiente são diferenciais competitivos. Um bom acondicionamento para os remédios, efeito translúcido com boa visibilidade, abertura suave das tampinhas… dois andares! São muitos atributos para comparar e na hora achei que seria útil ter uma planilha para tirar a prova. Tentei ler melhor as letras miúdas para me inteirar das especificações, mas não consegui. Tirei os óculos e depois de forçar a visão e ajustar bem o foco, entendi que as letrinhas eram uma porção de caracteres de algum idioma oriental e, lá no finzinho do texto, a única coisa legível em letras ocidentais que pude captar: Made in China.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ah, o Japão e suas maravilhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É de se lamentar a sensação de satisfação com que saí da loja, empunhando meu novo acessório comprado por módicos R$ 13,80.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só depois, já em casa, é que bateu o mal estar. Enquanto abastecia os pequenos refis com os três tipos de remédios que tomo rotineiramente, me dei conta do potencial definitivo daquele gesto. Não importa quantos anos ainda me restam de vida, as chances daquele item fazer parte da rotina matinal são concretas. Qual seria o passo seguinte rumo à terceira idade? Dormir em frente a TV? Já faço. Usar chinelos com meias? Hum, não, isso os adolescentes é que fazem hoje em dia…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cocei a testa incomodado. Comparado ao universo de homens no país, eu ainda deveria ser &#8220;jovem demais&#8221; para algo nessa vida. Parece injusto ter que encarar esse descarrilamento ladeira abaixo da minha moral, da pele do pescoço e dos fios de cabelo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na hora, me ocorreu uma ideia original que, sei lá, poderia reverter esse sentimento e trapacear com o inevitável: fazer um piercing no nariz. Isso, uma argola… Ah, não, piercing não dá, tenho rinite e dá aflição só de pensar em ter que assoar o nariz e acabar puxando o brinco junto. Talvez vender o carro e comprar uma moto, dessas grandes, que o sujeito pilota com os braços pra cima. Não, a moto também não rola, tenho dor nas costas. Fazer uma tatuagem no braço? Mudar o tipo de roupa? Tatuagem no pescoço! Sim, bem visível, com frase de efeito ou uma imagem que me defina como homem… Comprimidos, coloridos. É essa a imagem que me define agora. Vou tatuar um estojo cheio de pílulas acompanhado do CRM e telefone do Dr. Fábio, meu médico. Vai que eu comece a ter lapsos de memória, isso ajudaria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de serem ótimas ideias, o problema é qualquer dessas coisas demoraria para se fazer e eu precisava ao menos de uma boa, drástica e corajosa atitude ali na hora, naquela cozinha. Abri a geladeira e, movido pelo impulso, saquei a garrafa e virei, direto no gargalo, meio litro &#8211; talvez mais! &#8211; de leite. E leite com lactose. Sambei na cara do perigo e fui dar uma volta para espairecer. Mas, só até a esquina, porque intolerância à lactose, você sabe, é um troço que ataca demais os jovens hoje em dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando voltei do banheiro, meu porta comprimidos estava lá, recheado com aquelas cápsulas coloridinhas. Uma graça. Eu precisava dar um jeito naquilo para ser menos deprimente. Olhei ao redor e achei um caderno da Cecília. Roubei alguns adesivos de unicórnios e corações da cartela e personalizei um pouco meu pequeno pote translúcido, estética minimalista, tampa de fechamento suave e dois andares. Não ficou nada jovem, reconheço, mas talvez agora um pouco mais discreto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rapaz, o pessoal do clube de bocha vai adorar!</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/remediado-esta/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Vento arredio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Mar 2023 10:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[cronica]]></category>
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					<description><![CDATA[Vento arredio sopra intenso e invade a casa por cada espaço. Bate uma porta, duas portas, três, derruba um vaso, uma roupa do varal, carrega papéis e se espalha. Bagunça os cabelos, levanta vestidos, castiga a pele. Balança as janelas, que agora tremem. Arrasta, arrasta, arrasta… O zunido aumenta. O vento que ninguém vê mas [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Vento arredio sopra intenso e invade a casa por cada espaço. Bate uma porta, duas portas, três, derruba um vaso, uma roupa do varal, carrega papéis e se espalha. Bagunça os cabelos, levanta vestidos, castiga a pele. Balança as janelas, que agora tremem. Arrasta, arrasta, arrasta… O zunido aumenta. O vento que ninguém vê mas se mostra em todos os lados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já não é brisa, é indício de tempestade. Vento tão forte é prenúncio, mensagem que chega. Lá fora, golpeia as árvores, chacoalha os galhos de um lado a outro nessa luta. A paisagem é um movimento frenético, uma dança de sem ritmo, as folhas que partem, as sementes que voam longe, os pensamentos que viajam soltos, palavras ao vento, o peso todo que se arranca de um lado e agora prova a resistência de quem se apega às raízes, às fontes de vida antes que se partam e sigam seu voo vadio. Resistir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pequena árvore que se enverga ao sabor daquele sopro é pequena. Mais um golpe na árvore, de um lado a outro as circunstâncias a atingem, o inimigo invisível que a fere. Lá se vai um galho. A vida é agora, é ventania. Hoje parece que sempre foi assim. E as árvores todas bailam na frequência daquele sopro intenso e fora de controle.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vem chuva. É prenúncio. E se há forças assim que não se podem dominar, a pequena e velha árvore agora só luta e resiste.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem revoada de pássaros, seus cantos de alerta, os ninhos vazios. Tem a sombra da chuva chegando, o som da chuva, o cheiro da chuva na terra, as gotas de chuva no vidro, no rosto, o vapor da chuva de volta. Uma gota de tempo, uma dança de ventos, um galho de vida, um cheiro de casa, uma folha em branco. São sementes voando, semeando. A tempestade agora é chuvisco sereno que rega o solo onde se enraíza a vida, das árvores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo mais vem o sol.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no Estadão)</p>
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		<title>Quem vive em Biscoito Duro?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Mar 2023 15:46:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Na estrada, rumo ao interior do Estado, a paisagem de poucas curvas e a vegetação uniforme das lavouras de soja e plantações de eucalipto só tem a monotonia vencida por raros eventos no trânsito e pela distração momentânea das inscrições nas placas que se enfileiram ao longo dos quilômetros. Para um leitor contumaz, textos em [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Na estrada, rumo ao interior do Estado, a paisagem de poucas curvas e a vegetação uniforme das lavouras de soja e plantações de eucalipto só tem a monotonia vencida por raros eventos no trânsito e pela distração momentânea das inscrições nas placas que se enfileiram ao longo dos quilômetros. Para um leitor contumaz, textos em placas são a única leitura possível &#8211; e uma distração inevitável &#8211; enquanto se dirige.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De tempos em tempos, a sinalização das cidades, bairros e distritos saltam aos olhos: Morro Alto, Ribeirão de Cima, Pedrinhas, Rio Branco, Campina Verde, Lavras. Para todo lado, como a paisagem que se repete, os nomes se acumulam e mal se distinguem no lugar-comum das nomenclaturas habituais. Rio das Pedras, Riacho Verde, Vargem… dá para se escolher um elemento da paisagem, a topografia e juntar uma cor e com isso criar basicamente qualquer nome de cidade: Rio Verde, Vargem das Pedras, Riacho de Cima, Morro Branco e segue.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, a quinhentos metros, na saída 182-B meus olhos descobrem que é possível chegar a Biscoito Duro. Nada de rios, morros, rochas ou vargens. Ali é biscoito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem vive em Biscoito Duro? O que há em Biscoito Duro para que assim seja batizada essa terra? Do que se orgulham os habitantes de Biscoito Duro? Tem pracinha com igreja, coreto e pipoqueiro em Biscoito Duro? Ele vende pipoca ou biscoito? Há opção de se comer coisas macias em Biscoito Duro? A comunidade biscoitodurense, unida, celebra quais festas e cerimônias?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mesmo se pergunta aos cidadãos de Anta Gorda, aos habitantes de Faxina, ao povo de Bofete, à toda gente redundante, repetitiva, que gira em torno do mesmo assunto, circulante, pleonástica lá de Volta Redonda. Gente criativa que resolveu inovar na forma como se identifica como comunidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu acho preferível essa ousadia na identidade de um local à ideia sem graça dos nomes de santos que se multiplicaram tanto por aí, que hoje lembram mais cidades do que padroeiros. Há centenas de São Paulo, Santo André, São Pedro, São Francisco, São João, São João de-alguma-coisa, São Tomé das Letras (bem específico esse), Santo Amaro, Santa Rita do Passa-Quatro, São Caetano (quem, raios, foi São Caetano?) e todo um mapa devocional que tira a individualidade do lugar e dificulta um bocado a vida da cidadã que precisa dizer que é &#8220;santa-rita-do-passa-quatrograndense&#8221;. Tem também as variações religiosas que procuram uma via paralela para se diferenciar: Espírito Santo, Salvador, Natal, Santa Cruz do Calvário, Belém. Até que, um dia, chegaram as autoridades de uma certa cidade litorânea aqui perto e, pra zerar o jogo, generalizaram a coisa e assumiram logo um nome geral: Santos. Quase dizendo &#8220;somos todos esses aí e os que mais vierem a existir&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem também os nomes de cidades com raízes em línguas indígenas, E são tantos que a gente quase esquece quantos idiomas influenciam e compõem as origens dessa terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Houve cidadãos, no entanto, que preferiram refletir a paisagem de suas terras em nomes um tanto mais poéticos. Nasceram os olhares de Belo Horizonte, os bons ânimos de Porto Alegre, o conformismo praiano em Cabo Frio, a confiança de Fortaleza e a auto-congratulação da população tão orgulhosa de si mesma em Palmas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E tem um Biscoito Duro logo ali adiante. Tinha, na verdade. A entrada para a cidade passou há alguns minutos enquanto o pensamento se perdia em outros rumos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Biscoito Duro. A placa passa, outras a sucedem, a estrada à frente se estende por quilômetros e quilômetros e quilômetros enquanto esse motorista sorve um gole d&#8217;água na garrafa e recompõe o foco apreciando um punhado de bolachas murchas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente em meu blog no <a href="https://www.estadao.com.br/sao-paulo/luiz-henrique-matos/">Estadão</a>)</p>
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		<title>O exercício das coisas que não quero</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Dec 2022 10:00:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O exercício das coisas que não quero. Quando acordar na primeira manhã do próximo ano, o novo e sempre aguardado ciclo, também conhecido como daqui a quatro dias, desejo ter a alma abastecida e a mente convicta das coisas que não farei. Pudesse eu ter a garantia de um desejo atendido, seria a capacidade de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O exercício das coisas que não quero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando acordar na primeira manhã do próximo ano, o novo e sempre aguardado ciclo, também conhecido como daqui a quatro dias, desejo ter a alma abastecida e a mente convicta das coisas que não farei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pudesse eu ter a garantia de um desejo atendido, seria a capacidade de declinar solenemente. Declinar apenas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se essa derradeira semana do ano serve para recapitulações, retrospectivas e resoluções, eu queria tão somente fechar os olhos para o que se foi por alguns dias. Porque, entre coisas boas e ruins, foi muito. Gostaria de aliviar a bagagem e me empenhar, sem culpa, das não resoluções de ano novo. Deixar fora o supérfluo e abrir espaço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dedicar tempo à minha não-lista de desejos (ou seria uma lista de não desejos?) aos planos não feitos, aos compromissos não assumidos, às promessas não prometidas. Doar, negar, andar leve sem a carga das dívidas empilhadas. É necessário saber que poder ser fraco é um poder. Porque também quero (só quero, mas sem compromissos, ok?) poder não ter. Quero o não querer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero habitar um estado de imprevisibilidade, livre das amarras da agenda entupida, de planos mirabolantes, de listas de afazeres e eventos infinitos e abrir janelas para a mente já tão distraída conseguir divagar sem pressa. Devagar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque talvez assim floresça o espaço fértil do desejo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quem sabe, venha à tona e o tempo se ocupe do que de essencial se faz cada dia e a vida ordinária se preencha desse punhado tão necessário e visceralmente existencial, tão constituinte do que somos, que é a presença, o toque, a constância transbordante daqueles que amamos. E que nos completam, de fato, do afeto que nos mantém vivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A esposa, um par de filhas, nossos familiares, amigos, a criançada correndo pela casa, um cachorro (para quem é de cachorros) nos rodeando as pernas. Essa dança, a sobreposição do que faz os dias terem propósito, faz a vida plena, que faz Deus habitar bem aqui e edifica as lembranças que constroem a memória. Histórias que lemos e compomos. E assim, por elas, o desejo de seguir em frente com esperança, esse raio de esperança, de que o novo ciclo sempre será melhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;<br>(Publicado originalmente no Estadão. Acompanhe os posts no <a href="https://www.instagram.com/lhmatos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instagram</a> e no <a href="https://twitter.com/lhomatos">Twitter</a>)</p>
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		<title>Dentes deleites</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Nov 2022 20:45:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Encontrei um par de dentes sobre o móvel ao lado da cama hoje pela manhã. Ainda um pouco entorpecido pelo sono &#8211; o que, no meu caso, costuma levar umas duas horas para passar &#8211; manuseei aquelas coisinhas brancas entre os dedos antes de começar a me preocupar. Cheguei a pensar que pudesse ter sido [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Encontrei um par de dentes sobre o móvel ao lado da cama hoje pela manhã. Ainda um pouco entorpecido pelo sono &#8211; o que, no meu caso, costuma levar umas duas horas para passar &#8211; manuseei aquelas coisinhas brancas entre os dedos antes de começar a me preocupar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cheguei a pensar que pudesse ter sido real a briga em que me envolvi num bar com dois marmanjos à beira do cais num porto em Cuba, Afinal, tanta gente me mandou para Cuba ultimamente que a ilha agora habita de forma involuntária o meu imaginário e sonhos. Mas logo passei a língua pelos dentes e corri para checar o espelho do banheiro. Gracias! Tudo estava no mais imperfeito e esperado desalinhamento de sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minhas filhas, já acordadas, também mantinham seus sorrisos impecáveis. Nina, adolescente, sorria radiante como o raio ensolarado que invadia a sala e Cecília, aos sete anos, tinha lá seus buracos de dentes ainda não nascidos, mas nenhuma janela nova desde a véspera. Lucy, a cadela, também preservava a arcada (e não tem, um cão de 35 quilos, dentes como aqueles na boca).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apreensivo, vi a Manú de costas, sentada à mesa, bebendo um café com leite e segurando um biscoito na outra mão. &#8220;Amor?&#8221;, eu chamei com a voz trêmula. Ela virou e só me olhou meio de canto. &#8220;Bom dia. Dormiu bem?&#8221;, eu insisti, tentando provocar nela um sorriso amistoso que não sabia se queria realmente ver. &#8220;Ahãm&#8221;, ela respondeu, resmungando, sem descolar os lábios. Entre os dedos, eu esmagava o par de dentes enquanto tentava pensar numa piada que a fizesse sorrir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Me aproximei da mesa, toquei seus ombros, lembrei as juras de amor eterno aos pés daquele altar e pedi &#8220;posso ver seus dentes?&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o rosto quase dentro da xícara de café, sorvendo um gole, ela me encarou enquanto perguntava desconfiada &#8220;pra quê?&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Só quero te ver sorrir. Alegrar esse dia, afinal&#8221;, falei com a convicção de um são paulino parabenizando um palmeirense pelo título.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela sacou a xícara, me abriu um sorriso e, para nossa felicidade conjugal, estavam lá, todos eles, molares, pré-molares, laterais, caninos, frontais e as belezinhas das restaurações todas em dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentei, bebi meu café, comi as duas bandas de pão com manteiga e mantive o pensamento intrigado no rio dos dentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fui até o banheiro me lavar e escovar os bons dentes que ainda tenho na boca quando, ao passar pelo quarto, vi um papelzinho, pequenino, caído ao lado da cama. Me abaixei para pegar, desdobrei com cuidado e puder ler, em letras minúsculas e prateadas, um bilhete a mim endereçado, avisando que &#8220;por insuficiência de saldo e falta de pagamento&#8221; os dentes estavam sendo devolvidos, até &#8220;regularização dos débitos devidos, conforme acordo estabelecido&#8221; e assinado, com data e rubrica, pela senhorita &#8220;Fada do Dente&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/dentes-deleites/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Eu quero menos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Oct 2022 23:31:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[16/4 &#8211; &#8220;Baste a quem baste o que lhe basta. O bastante de lhe bastar! A vida é breve, a alma é vasta: ter é tardar&#8221;, escreveu Fernando Pessoa. Ter menos coisas não basta, é preciso querer menos para que isso se torne legítimo. Eu quero menos. * 17/6 &#8211; Cecília na cama, no último [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">16/4 &#8211; &#8220;Baste a quem baste o que lhe basta. O bastante de lhe bastar! A vida é breve, a alma é vasta: ter é tardar&#8221;, escreveu Fernando Pessoa. Ter menos coisas não basta, é preciso querer menos para que isso se torne legítimo. Eu quero menos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">17/6 &#8211; Cecília na cama, no último suspiro antes de adormecer agarrada no meu braço, enquanto Lucy, nossa cadela de trinta quilos, ronca no chão ao lado da cama: “Hoje a noite está perfeita. Eu comi brigadeiro, estou abraçada com meu papai e vou dormir com meu cachorrinho”. Ela cai no sono e eu fico acordado, mirando o teto do quarto e grato por ser esse sujeito bem-aventurado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">19/6 &#8211; No carro, a caminho de uma festa, a adolescente liga uma música eletrônica no som. O veículo se converte imediatamente numa loja de fast fashion com os graves e batidas fazendo pular os fragmentos de poeira que vinham se depositando sobre o painel nas últimas semanas. A adolescente aumenta o volume, vira o corpo inteiro para o banco de trás onde estão as três amigas: &#8220;Essa música é legalzinha! É beeem das antigas, mas é boa&#8221;. Ao que uma das amigas comenta: &#8220;Nossa! Antiga mesmo! Essa é muito 2017&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estou lendo e relendo uma coletânea de sermões do Martin Luther King (um dos meus heróis) chamada A Dádiva do Amor, me deparei com isso aqui: “O evangelho, nos seus melhores aspectos, lida com o homem como um todo, não só com sua alma, mas também com seu corpo; não só com seu bem-estar espiritual, mas também com seu bem-estar material. Uma religião que professa preocupação pelas almas dos homens e não está igualmente preocupada com as favelas que os desgraçam, com as condições econômicas que os estrangulam e as condições sociais que os aleijam é uma religião espiritualmente moribunda.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">13/7 &#8211; Manú comprou um secador de cabelos que é tão bonito que, toda vez que vejo, eu tenho vontade de usar. Já teria usado não fosse o fato de que cada fio em minha ovalada cabeça mede menos de um centímetro e, portanto, estão todos completamente secos com o primeiro lufar de vento quando abro a porta do box depois do banho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo culpa da Apple e seus computadores e celulares. Tudo tem design hoje em dia e eu sou especialmente sensível ao apelo estético dessas bugigangas. O lance é que esses equipamentos domésticos e eletrônicos estão ficando bonitos e, em vez de serem escondidos num armário da lavanderia, agora ficam expostos em cima da mesa como objeto de decoração. Que tristeza isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro dia, estava andando pelo shopping e vi um aspirador de pó na vitrine e fiquei parado contemplando como se fosse um Monet.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caem as máscaras. Há pessoas com quem encontro diariamente no elevador do prédio, na garagem e na rua, mas nunca vi sem máscara no rosto. Aprendemos a nos cumprimentar e interpretar através de olhares e agora fica informação demais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">14/8 &#8211; Escrevo crônica porque vivo poesia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os sábados precisam voltar a ser sábados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">23/7 &#8211; Se eu fosse roteirista do Zorra Total na Globo (ainda existe o Zorra Total?), iria propor uma piada cuja cena teria dois homens das cavernas que passam o dia caçando, enfrentando chuva, predadores, vento e toda sorte de perigos. À noite, os dois chapas estão com suas famílias sentados em volta de uma fogueira em frente à suas cavernas, os olhares fixos no movimento das chamas como se fossem televisores passando a novela. Depois de algum silêncio, um deles solta: &#8220;Sabe, cara, sinto que está tudo mudando tão rápido ultimamente. O tempo voa. Eu me pego pensando todos os dias: que mundo é esse que eu vou deixar para os meus filhos?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">24/7 &#8211; Faz um ano que Edu se foi. E quando as pessoas, as nossas, começam a morrer, acontece algo profundo em nós. Nossos familiares, amigos, primos, nossa geração começa a partir, aos poucos, e parte do nosso mundo, as memórias e histórias, ao mesmo tempo em que ressurgem em fragmentos, também se vão. Viram passado, viram saudade. Deixam uma lágrima, um lamento, essa dor. E ficam para sempre em nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que o Edu esteja agora com o Criador, em amor, sem dor. Que dos seus olhos claros Deus recolha as lágrimas e que da eternidade ele desfrute finalmente em paz. Aqui, ele também fica. Na saudade. Até breve, primo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">28/8 &#8211; Uma da madrugada, estou saindo da transmissão do debate presidencial num canal de TV e peguei um táxi com um cara que mede 2,06 metros (sim, ele disse). Ele não cabe no carro e dirige quatorze horas por dia naquele espaço, todos os dias, sem descanso. Mas só reclamava mesmo era do ciúme da esposa e do fato de estar ficando careca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">30/8 &#8211; No saguão do aeroporto, assistindo o Canal Off com o som da tv desligado enquanto espero pelo embarque e um sujeito recorta com sua prancha de snowboard uma montanha de neve em um vídeo em câmera lenta. Ao redor, tem gente falando e falando nos celulares, aquela mistura infinita de todos os perfumes possíveis no ar, o ruído de rodinhas de malas sendo arrastadas para todos os lados e a voz sempre em um volume acima do tolerável do funcionário avisando sobre as filas do voos a serem abertos para embarque, estarem embarcando, prioridade, passageiros platinum, passageiros gold, prata, premium, estarem na última chamada para embarque, no embarque, fechando as portas. &#8220;Atenção passageiro Luiz Henrique Matos, por favor comparecer ao portão de embarque número doze&#8221;. Off. Chegou minha hora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em São Paulo, os patinetes estão voltando à Faria Lima. Junto com os carros enfileirados e gente com copinhos de café na mão andando com pressa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">9/9 &#8211; Jean-Paul Sartre disse que &#8220;somos escravos da nossa liberdade&#8221;. Não escolher, portanto, também é um tipo de escolha. No momento de país em que estamos, tudo, tudo é uma ação em favor de algo. Não podemos silenciar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Crise de ansiedade. Já faz tempo que era ontem e eu não estava lá. Amanhã era ontem o tempo todo e era lá que eu ficava. O amanhã era meu hoje, o tempo todo, onde eu nunca estava presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Doenças são palavras não ditas&#8221;, teria dito Lacan, citado pela minha terapeuta em circunstâncias que aqui não cabem. Fiquei pensando nessa minha insistência em anotar tudo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">18/9 &#8211; Lúcia andava com um problema, meu terceiro livro,&nbsp; está a caminho! Pobres crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">25/9 &#8211; Se eu fosse roteirista do Zorra Total (dei um Google agora e o programa saiu do ar em 2015. Acho que parei de ver tv uns dez anos antes disso) e não tivesse sido demitido por conta da piada ruim anterior, escreveria uma continuação para a cena com os homens das cavernas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Num futuro não muito distante dos dias de hoje, duas mulheres passam o dia trabalhando em suas máquinas e telas, enfrentando reuniões infinitas, chefes abusivos, competidores aguerridos, ar-condicionado descalibrado e toda sorte de ameaças. À noite, as duas chapas estão cada uma em sua cama e conversando em uma ligação de vídeo. Os olhares fixos no piscar das telas como se fossem chamas de uma fogueira. Depois de algum silêncio, uma delas solta: &#8220;Sabe, amiga, tem tão pouca coisa evoluindo ultimamente. O futuro já não é mais como parecia ser antes. Eu me pego pensando todos os dias: que passado é esse que eu vou deixar para os meus filhos?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">28/9 &#8211; O perdão é por onde nossa cura começa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">1/10 &#8211; Comecei a ler O Pequeno Príncipe para a Cecília antes de dormir. Nunca tinha lido esse livro antes. Desde então, vou deitar me sentindo a própria candidata a miss, podendo citar Saint-Exupéry e falar que “A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar” em algum discurso regado a lágrimas quando ganhar um concurso de beleza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante o dia, no entanto, a coisa muda. A única diferença entre elas e eu &#8211; a única &#8211; é que pra mim anda um bocado difícil acreditar na paz mundial neste momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">João e Maria toca na rádio. Eu penso em biscoitos, migalhas e uma casa feita de doces quando leio esse título. Mas o Chico Buarque achou pensar que&nbsp; “pela minha lei, a gente era obrigado a ser feliz&#8221; e que &#8220;Vem, me dê a mão/A gente agora já não tinha medo/No tempo da maldade/Acho que a gente nem tinha nascido&#8221;.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poderia ser do Pequeno Príncipe também. Mas era Chico. E se não dá pra confiar em paz mundial, pelo menos a gente ainda pode se apegar a poesia, o que dá um pouco na mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">3/10 &#8211; Na minha mente ultimamente é só política, política, política, política, política, política, política, política, política, política, política, política, política, política, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica. Última mente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">5/10 &#8211; Ontem à noite saí pra correr. Estava cansado, eram quase dez horas e tudo escuro na rua. Mas criei coragem e segui diligente cada passo ofegante. No meio de uma subida, senti que pisei em algo macio, meio fofo. Assustei pensando que era o côco de algum cachorro e voltei para olhar, já condenando mentalmente o vizinho irresponsável que deixou aquilo por ali. Parei a corrida, retrocedi uns dois metros, fixei o olhar na mancha escura no chão que marcava o que eu havia esmagado: era um sapo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segui a corrida, com um misto de aflição, nojo e, confesso, uma satisfação culpada. Tenho engolido tantos sapos nos últimos dias que, de alguma forma, foi bom ter vencido um deles no caminho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">6/10 &#8211; Li em um livro do Richard Rohr ano passado, quando esse mato sem cachorro em que estamos agora ainda era capim: &#8220;Onde não existem espadas, os escudos não são necessários&#8221;. Me soou apropriado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">–</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/eu-quero-menos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estadão</a>)</p>
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		<title>Pessoas que andam para trás</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Sep 2022 12:42:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Assisti a um vídeo na internet outro dia em que um sujeito corre de costas. Na verdade, era mais do que isso. A cena toda acontecia em uma arquibancada de estádio, com dezenas e dezenas daqueles degraus onde as pessoas se sentam para ver algum jogo ou espetáculo. E ali, no meio da pequena multidão [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Assisti a um vídeo na internet outro dia em que um sujeito corre de costas. Na verdade, era mais do que isso. A cena toda acontecia em uma arquibancada de estádio, com dezenas e dezenas daqueles degraus onde as pessoas se sentam para ver algum jogo ou espetáculo. E ali, no meio da pequena multidão reunida para outros fins, a câmera de algum celular captura a imagem de um homem, vestindo apenas shorts e sem camiseta, descendo em alta velocidade aquela arquibancada inteira. De costas, correndo. E pouca gente ao redor parecia perturbada, o que pode ser um sinal de que ele faz isso por ali com alguma frequência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Revi a cena duas vezes para entender. Minha primeira reação foi ficar impressionado com o feito. A segunda, foi me perguntar: por quê? Que raios, oras, faz alguém despertar numa manhã e se convencer de que o melhor uso do seu tempo seria passar horas e horas treinando uma forma eficiente de andar para trás? Mais do que isso, correr para trás descendo escadarias. Soa como um retrocesso arriscado e em alta velocidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há algumas semanas, entrei num táxi e estava tocando Nirvana na rádio. Agradeci em silêncio pelo gosto musical do motorista, até que a música acabou e escutei a vinheta da Alfa FM. A Alfa FM, prezada leitora que vive fora de São Paulo, é a estação de rádio que alimenta as caixas de som de consultórios e elevadores da cidade há décadas, com músicas de Diana Ross, Kenny G. e Emílio Santiago. Do Nirvana, não. Eram três da tarde, eu seguia para uma reunião de trabalho, os derradeiros acordes de Smells Like Teen Spirit ainda se arrastavam quando a apresentadora anunciou que estávamos escutando a Tarde dos Clássicos. Naquele momento, em elevadores corporativos de toda cidade, no consultório do meu dentista com seu paciente de boca escancarada restaurando uma obturação e nos lares onde radinhos ainda embalam o momento da faxina e das roupas sendo estendidas nos varais, naquela hora, a trilha sonora ambiente era Nirvana, com Kurt Cobain quebrando sua guitarra ruidosa e a canção que embalou minha adolescência pseudo-rebelde. Nada &#8220;smells&#8221; menos um &#8220;teen spirit&#8221; do que aquilo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acho que certas coisas, como bandas, filmes, livros e tendências de moda ou se tornam atemporais e nos acompanham indefinidamente &#8211; como Beatles, Chico Buarque, Machado de Assis, Os Goonies, Cidadão Kane &#8211; ou só deveriam ser reeditados e rotulados como clássicos depois que a geração que experimentou aquilo pela primeira vez já tivesse deixado de existir (ou já fosse velha o bastante para esquecer). É uma regra combinada para a boa moral. E tem ainda uma outra categoria de coisas &#8211; a maior parte, eu diria &#8211; que são desastres incontestes que deveriam nos envergonhar e não voltar jamais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por insistência da minha filha, comecei a assistir a nova temporada de Stranger Things. A Nina agora é adolescente e acha aquela estética oitentista muito exótica. Para mim, aquilo é apenas um flashback, um retrato constrangedor da minha infância aparecendo na tv. Tudo está lá: as bicicletas que eu tive, as roupas iguais às que usei, o jogo de RPG que joguei, os mullets no cabelo que tentei deixar crescer, as músicas que ouvi, o fato de não ser popular na escola, como não fui e, de quebra, acreditar em monstros vivendo em universos paralelos. Como, pois é, acreditei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às vezes, sinto que essa celebração exacerbada do passado é uma preguiça intelectual, um fracasso voluntário de nossa geração em criar algo original que estabeleça como marca desse tempo e que nos permita, algum dia, relembrar esses anos 20 como símbolo de algo que nos levou um passo cultural adiante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa falta de originalidade vem intensificando o lançamento de produtos que ridicularizam as duas gerações. Toda essa insistência em reeditar continuações e releituras de filmes, bandas, roupas e afins tem grande potencial de consumo porque resgata uma geração que adquiriu poder de compra sem ter adquirido maturidade. De forma que até doces e bebidas da década de 80 estão sendo fabricados em embalagens com versão retrô para relembrar a infância de pessoas que hoje nem tem mais paladar, índice glicêmico e condição física para comer e beber esse tipo de guloseima. E assim, essa bolha de Ploc com gosto de nostalgia vai fazendo com que algumas pessoas alimentem as melhores lembranças de coisas velhas e outras tenham pesadelos com o passado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu fico achando que cultivar nostalgia por coisas que ganharam fama depois que eu nasci, me tornei um rapazinho, já cultivava um pequeno bigode e alguma consciência cultural, é um pescotapa seco na minha cervical deteriorada. Mas, acho que revivi tantas cenas da minha infância ultimamente que eu também regredi em certos padrões de comportamento. Me peguei emotivo com uma música do A-HA outro dia, comprei uma calça baggy, voltei a beber Nescau (agora com leite sem lactose), comprei pacotes de biscoito Piraquê com embalagem vintage e, putz, voltei a ter pesadelos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há alguns dias, depois de uma overdose televisiva regada a Vecna e Demogorgon me assombrando, fui dormir e tive um pesadelo em que vivia em um mundo invertido. Eram os dias atuais e vivíamos numa terra com tragédias, valores distorcidos e condições escatológicas de existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No sonho, as pessoas andavam para trás. As ruas foram tomadas por gente gritando palavras de ordem e acreditando ser nobre a ideia de assistir militares desfilando em tanques de guerra enquanto tomavam novamente o poder. Homens e mulheres, com seus lares ornamentados com retratos de família e sua vida pacata de novela das seis, agora rendiam homenagens a personagens brutais e torturadores assumidos. Jovens e velhos celebravam os piores dias da história da nação com uma nostalgia anestésica. O país atravessava um período de inflação nas alturas, com a cesta básica em valores tão altos que tinha gente trocando o gás de cozinha por lenha, comprando osso de vaca e pé de galinha para cozinhar e trocando a carne do frango pelo ovo. Eu queria escapar daquele pesadelo, mas não sabia como acordar. Eu tentava fugir, mas as pernas não obedeciam. Quanto mais força fazia para correr, mais rápido eu andava para trás.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto trafegava em marcha a ré por aquela distopia, tomava ciência (não, ciência não, essa palavra virou palavrão e tinha sido banida do vocabulário) de que recursos naturais do planeta eram dizimados ao som de motosserras e com sorrisos sarcásticos dos que trocavam o futuro por um punhado de ouro e nióbio (não, nióbio não, nem no pesadelo eles queriam saber do nióbio). Grupos minorizados eram excluídos, os direitos humanos comuns a todos eram atropelados protocolarmente como se fossem heresia diante de um novo dogma nacional. Falando em dogma, fui levado no sonho à visão de um templo religioso, para onde corri em busca de refúgio e respostas, mas os líderes espirituais benziam e consagravam armas e munições em nome de uma guerra santa a ser combatida para a defesa da integridade e poder de seu líder. Era um mundo invertido. Havia um grupo que se autodeclarava pró-vida, mas defendia a pena de morte. Outro, em nome da liberdade religiosa achava nobre ser classificado de terrível. Em favor de uma ideia específica de amor, proclamavam que esse deveria ser condicionado a quem os amou primeiro. Nem Dante imaginou um inferno daquela forma, nem em Stranger Things as coisas pareciam tão estranhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acordei suando, com medo de monstros. Abri os olhos e fiquei aliviado por lembrar que vivemos em uma sociedade obviamente distante dessa fantasia, grato por saber que o tipo de horror que realmente assombrou nossas vidas por décadas não era uma moda, filme ou canção que alguém ousaria reeditar. Imagina esse tipo de coisa hoje em dia? Até parece… Quem, afinal, ainda pensa em andar para trás?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda assustado com aquelas cenas e meio preso às lembranças da criança que fui na década de 80, tive dificuldade para voltar a dormir. Pensei em deixar uma luz acesa no corredor para afastar os fantasmas, mas então lembrei que a conta de energia subiu de novo este mês, pela quinquagésima vez consecutiva e achei que era melhor economizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;E o futuro não é mais como era antigamente&#8221;, dizia o trecho de uma canção que tocava nas rádios em 1989, já no apagar das luzes daqueles dias sombrios e sob a voz gutural do Renato Russo. Mas, aos nove anos de idade, eu só achava que aquilo era um tipo de conjugação de verbos que eu ainda não tinha aprendido na escola. Meu pretérito imperfeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Correndo para trás em alta velocidade. Treinando arduamente uma forma eficiente de caminhar em marcha a ré. A vida soa como retrocesso e, às vezes, queremos acreditar que basta dar ao tempo seu devido espaço e controle para que as coisas se curem aos poucos. Não tem sido assim nesses últimos anos. Em vez de evoluir, habitamos esse estado de suspensão permanente em que, no lugar de progredir como espécie, insistimos em regredir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, para certas coisas, não basta o tempo para transformar. Não bastam os anos após anos, crepúsculos sem fim, não bastam as grandes descobertas e invenções &#8211; do fogo, da roda, da vacina e das viagens ao espaço. A alvorada de novos dias carece da transformação do pensamento que ainda nos enraíza na ideia primitiva de querer ter poder e controle, em conceitos arraigados que nos impedem de deixar ruir nossos privilégios, reconhecer o outro, celebrar o diferente, pedir perdão e promover a reparação necessária. O dia em que seremos irmãos e irmãs, unidos no santo vínculo do Eterno, com nossas relações regidas pelo respeito e pelo amor não virá pela força, mas pela consciência de que pertencemos uns aos outros, à mesma espécie, a essa terra que nos alimenta, às comunidades que edificamos e à ideia comum de sentido nessa existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É uma ideia que não é nova, parece coisa do passado. Na verdade, tem uns dois mil anos que circula. Mas talvez ela nunca tenha sido tão necessária como um próximo passo para que tenhamos dias melhores neste mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estávamos a caminho da escola outro dia e a Nina me pediu para ligar o som. Eram sete da manhã e botamos para tocar Brazuca, nossa seleção particular de MBP. &#8220;Põe no modo aleatório, pai&#8221;, ela pediu. E assim, aumentamos o volume e deixamos surgir o que seria a trilha sonora para um discreto sol numa manhã de inverno cercada pelo trânsito da Marginal Pinheiros. No banco de trás, Cecília se concentrava nos primeiros acordes de um samba. Sentada ao meu lado, Nina tamborilava os dedos na perna. Naquele carro, tinha comigo um pedaço do que tenho de mais valioso na vida e o que faz ter sentido continuarmos essa luta que nos leva adiante, com alguma pressa, numa caminhada firme e convicta que siga sempre em frente. Para que elas desfrutem um novo tempo em suas vidas e o futuro, finalmente, volte a ser o sonho bom que ele já foi um dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas caixas de som, Chico cantava, como cantou no fim dos anos 70 e, diferente dos flashbacks constrangedores a que temos assistido, sua letra parecia ecoar como um hino para os dias de hoje: &#8220;Apesar de você/Amanhã há de ser/Outro dia/Você vai ter que ver/A manhã renascer/E esbanjar poesia…&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Haverá amanhã.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/pessoas-que-andam-para-tras/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Deus me Louvre, mas quem me dera!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Jul 2022 21:39:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Há uma ala no Museu do Louvre, umas três ou quatro salas cujas paredes estão repletas de molduras vazias, sem as obras que lhes preencham. Apenas as molduras douradas, envelhecidas, amadeiradas e vazias. Isso fica no segundo andar, estranhamente vazio em se tratando de um espaço que recebe dez milhões de visitantes por ano, com seus corredores enormes e entroncados onde é bem fácil se perder (especialmente nesses tempos em que eu uso o Waze até para achar o banheiro da minha casa). Mas já voltamos a esse tema. Antes, preciso falar da Monalisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quer dizer, antes de falar da Monalisa, preciso falar de outra coisa: adoro visitar museus. Coisa que faço com frequência muito menor do que gostaria. Me emociono observando pinturas, esculturas, gravuras e fotografias. Não sou erudito, mas gosto de pensar nas histórias por trás das obras, sou profundamente tocado pelo que despertam, leio as notas descritivas e tento aprender sobre arte na medida que minha limitada mente de quarenta anos permite. E gosto ainda, na medida em que minha mente de quinze anos me obriga, de pensar em legendas e balõezinhos com falas quando há pessoas nos quadros e retratos. Mas, ao contrário do segundo andar do Louvre, a esse tema eu espero não voltar. Vamos à Monalisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No andar de baixo, vive Monalisa. Ali, com uma expressão impávida (ou como quer que você ache que Monalisa está naquela cena. Aliás, o grande mistério é esse, não? Gosto de pensar que ela está impávida, até porque não sei ao certo o que isso significa). Ela mora ali, a Monalisa, na sala mais tumultuada do antigo palácio de Napoleão, protegida atrás de um vidro e sufocada naquela moldura rebuscada. Ela é menor do que imaginamos que seria e na medida em que Leonardo da Vinci, centenas de anos atrás, a concebeu pensando sabe lá o quê sobre o que seria daquele quadro no futuro, enquanto pintava aquela mulher à sua frente com sua expressão <strong><em><strong>_</strong></em></strong> (preencha você com o adjetivo que lhe apetecer, eu ia escrever impávida mas acabei de consultar o dicionário e não é bem isso o que acho que ela está pensando).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o andar de cima é um semi-deserto silencioso, a salinha de Monalisa é tomada por uma multidão que se aglomera numa fila de quarenta minutos enquanto empunha suas câmeras apontadas para tentar retratar o retrato da mulher que encara profundamente a cada um nos olhos e lentes com sua expressão… enigmática (será? Estou tentando). La Joconde é o nome do quadro em francês e, hoje em dia, há quem avalie o quadro em 13 bilhões de reais. Saber disso em 1503 talvez mudasse um pouco o capricho que Leonardo dispensou ao quadro e, sabe lá, na mulher, talvez mudasse um pouco aquela sua expressão… indiferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nina e eu paramos na entrada daquela sala quase dez anos depois de ter passado por ali pela primeira vez e decidimos não entrar na fila. Ela tinha seis anos na época e mal entendia o lugar em que estava. Agora, aos quinze, enquanto Manu e Cecília passeavam por outra área do museu, ela me orientava sobre o estilo das obras que vem estudando com tanto interesse, me ensinava detalhes sobre técnicas de pintura e movimentos artísticos, chamava minha atenção para artistas de que gostava e tornava aquela a visita mais interessante que eu já fiz a um museu. Nina valia o preço do ingresso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Circulamos a multidão pelos lados e encaramos a anfitriã de diferentes ângulos, distante, entre braços, cabeças e iPhones acesos. Me sentia mais num festival de rock tentando enxergar um pedaço do palco do que numa exibição de obras centenárias, enquanto algum funcionário gritava para a multidão &#8220;Avancez! Avancez!&#8221;. Em certo momento, erguemos também nossas câmeras e tiramos nossas fotos ruins da Monalisa, ali solene e com sua expressão… irônica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em meio ao tumulto da sala, sendo acotovelado por turistas brasileiros, chineses, lituanos, italianos e libaneses se confundindo naquela Babel, eu só conseguia pensar que a Beyoncé e o Jay-Z fecharam o Louvre inteiro &#8211; o negócio todinho &#8211; só para eles e queria saber se chegaram a encarar a Monalisa nos olhos e o que acharam que ela estava pensando, afinal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;I am a single lady!&#8221;, ela teria dito, serena, na minha legenda imaginária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fiquei curioso também sobre os outros quadros naquele espaço. A sala tem ainda umas vinte obras, belíssimas, mas sempre coadjuvantes na cena, relegadas a uma atenção periférica dos visitantes que desviam o olhar de seu alvo por alguns segundos. E a mesma imaturidade que ignorava a solenidade do momento para pensar no casal que alugou o museu por uma noite, começou a colocar legendas enciumadas e maledicentes nos lábios dos Veronesi, dos Tintoretto e outros artistas ali expostos, cujos soldados se degladiando, discípulos de Jesus e madonas agraciadas certamente reclamavam entre si: &#8220;olha lá a vizinha! A gente aqui salvando o Império Romano, a gente aqui testemunhando o primeiro milagre do Cristo, a gente aqui botando o Messias no mundo e essa aí levando a fama, recebendo os olhares. Sempre aí parada, com essa expressão… jocosa&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que faz um quadro atrair os olhares, atenção, selfies e audiência e outros, notoriamente bons, clássicos e valiosos (estão no Louvre, oras) serem ignorados? O que leva um quadro, de forma geral, a ser adquirido e exposto em um museu, digno de ingressos pagos e olhares contemplativos? Aquelas milhares de obras (o acervo do Louvre, consta no folder que eu carregava dobrado no bolso da bermuda, tem mais de 400 mil obras), aprisionadas naquelas paredes em centenas de salas de um palácio tão grande que meu relógio apitou dando os parabéns pelos dez mil passos alcançados no dia ainda no meio da visita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto isso, no andar de cima (sim, chegamos), havia salas vazias com quadros de outros cantos da Europa e havia as salas vazias com suas molduras sem obras. Meu francês precário me permitiu entender que as molduras ali penduradas simbolizavam os quadros do acervo do museu que estão emprestados para outras instituições e exposições, mas eu preferi ficar com a fantasia que me alimenta até esse instante, de que ali estão os espaços abertos para as obras ainda em concepção no imaginário dos artistas, as pinturas, ideias e retratos que um dia terão valor tão alto que acabarão pagando, elas mesmas, o preço máximo de sua glória: deixarão de viver livres nos ateliês, nas ruas, longe do olhar do povo e serão aprisionadas em palácios, penduradas em altares enquanto ostentam sua nobre posição de obra de arte e são oferecidas para escrutínio do público que se enfileira para contemplá-las com suas expressões… curiosas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto passeávamos por aqueles corredores brinquei com a Nina dizendo que as molduras vazias esperavam para serem preenchidas com as pinturas que algum dia ela criaria. Ela sorriu com meu gracejo me encarando no momento exato em que, de onde estava, era seu rosto que acabava emoldurado no espaço de uma das telas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Graciosa, era a expressão. E devoto em gratidão, contemplei a obra da minha vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;<br>(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/deus-me-louvre-mas-quem-me-dera/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estadão</a>)</p>
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		<title>O som dos passos e dos pássaros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Jun 2022 21:34:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Cecília aprendeu a ler. Ela já vinha há alguns meses naquele fluxo de juntar letras em sílabas e tentar encontrar alguma sonoridade. Mas, nos últimos dias deu o estalo, aquele estalo, em que a união das sílabas adquiriu sentido, som e palavras, novas palavras que saem do som e se formam em imagens, significados e [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Cecília aprendeu a ler. Ela já vinha há alguns meses naquele fluxo de juntar letras em sílabas e tentar encontrar alguma sonoridade. Mas, nos últimos dias deu o estalo, aquele estalo, em que a união das sílabas adquiriu sentido, som e palavras, novas palavras que saem do som e se formam em imagens, significados e histórias que agora ela absorve de outra forma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Nina”, ela interpelou a irmã mais velha, leitora voraz, apertando uma revista em quadrinhos da Mônica entre os dedos, “ler não é nada chato, é muito legal! Agora eu vou pegar todos os livros do seu quarto!”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se algum dia ela ganhar o prêmio Nobel de Física, talvez eu não fique tão feliz quanto agora. À noite, já na cama, sussurrei orgulhoso:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Filha, aprender a ler é tipo decifrar um código secreto. Agora que você conhece os códigos, tem mistérios e universos novos que você vai começar a descobrir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há muitos livros pela casa, há uma estante grande e recheada de exemplares no escritório e também livros nos quartos e espalhados. Um luxo particular que acumulamos desde o casamento e que as meninas acompanham. Cecília tem mais livros aos sete anos do que eu tinha aos vinte. E agora vai revisitar essas histórias fazendo isso por ela mesma, palavra por palavra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na manhã seguinte, ela segurava um pequeno livro com uma centopéia na capa:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pai, alguma vez você já entendeu as palavras que um inseto diz para o outro?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Sim, uma vez. Eu lembro que um mosquito chegou bem pertinho do meu ouvido, bem pertinho mesmo e falou algo pra mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; O que ele disse?!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Bzzzzzzz bzzzzz!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ah não, pai… &#8211; e espalmou a mãozinha sobre o rosto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; E você? Já entendeu o que dizem os insetos? &#8211; perguntei apontando a capa do livro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ssshhhhh! Espera um pouco &#8211; de repente, ela já estava em outro lugar, o olhar intrigado voltado para o alto, se concentrando em algo distante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; O que foi, Cici? Eu estava dizendo que…</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Silêncio, pai. Estou escutando o som da natureza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Postada ao lado da janela, ela se concentrava no que podia ouvir do lado de fora, onde uma dupla de pássaros cantava nas árvores perto da nossa varanda e o vento soprava nas folhagens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Estou ouvindo os pássaros &#8211; disse, de olhos fechados &#8211; e quero ver se consigo escutar algum inseto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pouco mais de uma hora depois, eu estava na rua correndo e mirava a copa das mesmas árvores que minha filha sondava da janela tentando escutar também o canto dos pássaros que ela dizia contemplar. Esses milagres ordinários têm feito muita falta ultimamente. Uma criança descobrindo universos novos, pássaros cantando, folhas crescendo e caindo com o passar das estações. Os ciclos da vida que se renovam cotidianamente sob nosso teto, que são maravilhas pelas quais passamos e quase desviamos sem notar, com receio de tropeçar em miudezas porque, afinal, bem, afinal sempre há alguma desculpa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Corro, um passo após o outro, sentindo o vento gelado do inverno cortando meu rosto, a respiração ofegante, a batida da sola do tênis no asfalto. Escuto o martelar das ferramentas na construção que se ergue ao lado do nosso condomínio, o ronco do motor de uma moto rasgando a rua. O relógio apita avisando que mais um quilômetro foi superado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Adquiri esse hábito um pouco antes da pandemia começar e… Hahahah, “adquiri o hábito” é uma falácia danada da minha parte. Comecei a tentar a correr no final de 2019 depois de um colapso mental e achei que fazer uma atividade física sozinho, à noite, e sem o escrutínio alheio sobre minha humilhação, seria uma forma de exorcizar através do suor e sacrifício, os demônios que me atormentavam. Sessão de exorcismo. É assim que chamo minhas horas de corrida desde então.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, o passar do tempo e dos quilômetros me permitiu, desde então, adquirir alguma capacidade de fazer isso com certo controle. Se no começo a corrida era uma forma de fugir de uma crise e esmagar no chão, em cada pisada, a carga pesada de cada dia, hoje já é mais como uma trilha que percorro rumo à realização pessoal, uma sensação de alívio e bem-estar provocado pela injeção de serotonina dos treinos. A crise ficou lá atrás e agora corro em direção a uma nova história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aprendi, nesse processo, que para ser capaz de correr longas distâncias às vezes é preciso desacelerar e ir mais devagar. Um pé e depois o outro, o ritmo cadenciado, uma letra ligada em outra, formando palavras, caminhos e histórias. Cada pequeno passo é um milagre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Onde você vai com todos esses livros, Cici? &#8211; ela estava com alguns exemplares da minha coleção empilhados sobre os dois bracinhos curtos e caminhava em direção a sala.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ora, pai, eu vou ler! Onde mais você acha que eu iria?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu olho para a pequena pilha de livros que deixo sobre a mesa e penso quais desses exemplares, algum dia, ela e a Nina pegarão para ler e de que forma essas histórias serão assimiladas por elas, as opiniões que trocaremos sobre livros, preferências e broncas porque alguém violou a regra sagrada de não profanar as páginas com dobraduras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora ela anda com livros para todos os lados. E como se fosse realmente capaz de ler Dickens, em inglês, abre tomos de 600 páginas em trechos aleatórios e fica tentando decifrar aqueles códigos. Tem uma beleza nisso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mãe, G com R e mais o U dá o que mesmo? E o N com H e mais o I? G com A é GA ou JÁ?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E passa o dia assim. Do outro cômodo, enquanto trabalho, escuto essa música e sorrio. Eu silencio o ruído que sai de alguma reunião no meu computador, fecho os olhos e me concentro nela ali, sentada, os olhos vidrados nas páginas, a mente se expandindo como o Universo e a boca balbuciando as descobertas. É o som da natureza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Palavra por palavra, ainda, ressoando como música. O som dos passos e dos pássaros, o soprar do vento no rosto marcando o tempo e o ritmo nessa jornada que percorremos, devagar, testemunhando milagres.</p>
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		<title>O Moleza</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Mar 2022 12:33:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[No campinho da rua de baixo tinha o Moleza. Quase todo bairro, naqueles tempos, tinha seu campo de futebol empoeirado. A grama, em vez de preencher o campo, o cercava e o espaço de jogo, que deveria ser verde, era aquele terrão vermelho que, nos dias de chuva, se tornava uma piscina de lama e [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">No campinho da rua de baixo tinha o Moleza. Quase todo bairro, naqueles tempos, tinha seu campo de futebol empoeirado. A grama, em vez de preencher o campo, o cercava e o espaço de jogo, que deveria ser verde, era aquele terrão vermelho que, nos dias de chuva, se tornava uma piscina de lama e nos dias secos, encardia as meias, cuecas e a sola branca do tênis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas no campinho do nosso bairro, além de tudo isso aí, tinha o Moleza. Um sujeito alto, forte, negro, bigode curto contornando os lábios e que às seis da tarde se punha ali na lateral com um apito pendurado no pescoço, uma bola cheia sob o braço e organizava um treino para os meninos que chegavam e se postavam em círculo ao seu redor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele morava na rua logo em frente, em um pequeno cortiço onde viviam outras quatro ou cinco famílias. Prestava esse serviço à comunidade de garotos que se aglomeravam, acotovelavam e sangravam as canelas para tentar jogar futebol. Vinte entre dez meninos naquele tempo sonhavam em atuar profissionalmente pelo seu time do coração. Mas ali, a gente só queria chutar bola e fazer gols. Ele, no entanto, queria formar homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando você passava pela primeira experiência de treino naquele time entendia finalmente o motivo do sarcástico apelido do Moleza. Ele era uma versão da periferia paulistana do Telê Santana. E entre seis e oito da noite, diariamente, meninos de 10 a 16 anos colocavam os pulmões pra fora naquele campinho poeirento, na esperança de que o treino intenso garantisse meia horinha de futebol no final e que, de algum jeito, fossem escalados como titulares do glorioso time Amigos da Vila Yara nos jogos com times de outros bairros que ele organizava nos fins de semana. Íamos, crianças e pais, a clubes e várzeas em outros cantos da cidade &#8211; quase sempre todos na caçamba aberta de algum caminhão &#8211; disputar glória ou fracasso nas manhãs de sábado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Anos depois, entendi a que se dispunha aquele sujeito. Nunca soube seu verdadeiro nome, nem o que ele fazia da vida durante do dia antes dos treinos &#8211; havia um boato entre os garotos de que ele era jogador de basquete. Mas era louvável o esforço cotidiano para atrair algumas dezenas de crianças ansiosas para jogar bola, submetê-los ao esgotamento físico e promover a ideia de que poderiam ter uma vida melhor se tivessem o esporte como apoio. Quem treinava no campinho, seguia uma rotina fora do perigo das ruas e, se em algum momento começasse a faltar nos treinos, era inquirido por um Moleza no auge da contradição do nome que ostentava no canto do campo. “Vem cá! Quer ficar rodando na rua, é? Vai entrar pra malandragem? Já começou a fumar também?”. Era possível escutar o interrogatório que ele fazia com os pródigos quando regressavam cabisbaixos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cresci. Sem ter certeza sobre o momento exato, deixei de frequentar os treinos e, com novos amigos e horários, perdi o contato com o grupo. Perdi também a vontade quando a realidade dos fatos se impôs sobre meu sonho: mais do outras prioridades na vida, me dei conta de que futebol não seria o esporte em que eu conseguiria conquistar qualquer centímetro de auto-estima ou algum respeito dos outros garotos na dura vida daquelas ruas. Quem, afinal, dá o mínimo de atenção para o zagueiro perna de pau? Quem se orgulha &#8211; ou se conforma &#8211; em ser zagueiro aos doze anos? Mas devo ao Moleza e seus métodos o fato de, a despeito da explícita ausência de talento, eu ter conseguido me firmar como titular do time graças à dura disciplina dos treinos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando me casei, fomos morar em outro bairro. Voltava aos finais de semana para visitar meus pais, mas já em outro ritmo, sem notar aquelas ruas com o olhar pedestre do menino, mas os do motorista desatento. Anos depois, porém, voltei a morar naquela vizinhança e hoje, todos os dias, passo em frente ao lugar onde era nosso campinho, que agora é só um terreno vazio, murado, incrustado no meio do bairro e cercado pelo mato não cuidado. Um desperdício. Às vezes, a lembrança da maratona extenuante de exercícios que fiz naquela poeira me vem à mente e penso no Moleza, cujo destino desconheço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passo o olhar pelo campinho vazio e não tem crianças brincando por ali, correndo pelo campo chutando uma bola, doutrinadas por apitos, sonhando em conquistar medalhas de latão nos sábados de manhã na categoria Dentinho e trazer a glória da vitória para o Amigos da Vila Yara ao menos por um dia. Glória que é, sobretudo, a alegria de encontrar um oásis de dignidade na crueldade da cidade. Aquilo era um resgate. O Moleza sabia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As crianças da vila já não tem um professor, um herói discreto que sacrifique seu tempo, que empenhe suas noites depois de um dia cheio no trabalho para salvá-las do risco de estarem vulneráveis nas ruas, livres da pobreza em que ele mesmo vivia, para vender-lhes, com um discurso disciplinador, o sonho de dias bons, para empurrá-las para além das fronteiras do bairro, para longe do que ele sabia, mais do que qualquer um ali, que poderia ser um risco, um desvio na rota da inocência, uma antecipação do fim da pureza, a abreviação na construção da história brilhante, não necessariamente entre linhas e gols, que cada criança merece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente em meu blog <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/o-moleza/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">no Estadão</a>)</p>
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		<title>A menina e o vento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Mar 2022 22:03:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[(Versos para os 15 anos da Nina) Ela sentia o vento no rosto e sorria.No balanço, na corrida,no gira-gira, voando nos braços do pai, o sopro lhe tocava a face e ela reinava.Acelerando atrás da vida. Fechava os olhose abria as janelas.Não tinha as asas que tanto queria,Mas voava distante naquele vento. O vento era [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">(Versos para os 15 anos da Nina)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela sentia o vento no rosto e sorria.<br>No balanço, na corrida,<br>no gira-gira, voando nos braços do pai, o sopro lhe tocava a face e ela reinava.<br>Acelerando atrás da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fechava os olhos<br>e abria as janelas.<br>Não tinha as asas que tanto queria,<br>Mas voava distante naquele vento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O vento era o tempo.<br>Teimoso.<br>Chegava logo e atravessava, rompia, batia portas, levantava cortinas, levava coisas.<br>Nunca parava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Crescia o cabelo, seus olhos, os vestidos.<br>O sorriso, seu brilho crescia. Cresciam os sonhos.<br>E o tamanho da escova de dentes, da cama, dos chinelos largados pela casa.<br>A vida passa como sopro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Crescia o medo do escuro,<br>do futuro.<br>Crescia a distância, o abismo, os muros. A menina crescia.<br>O vento era ventania, difícil, respiro duro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a menina era leve, a moça era forte.<br>Sua poesia, sua arte, seu sorriso que atravessa o vento como um toque<br>que fazia parar o tempo, fazia abrandar a fúria,<br>que capturava todo afeto solto ao redor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque no meio da ventania,<br>a menina era a brisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>(Olhos nos) olhos no céu</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2021/12/29/olhos-nos-olhos-no-ceu/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Dec 2021 15:47:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Noite passada, depois de lermos uma história, fiquei deitado com a Cecília na cama até ela dormir. E talvez pela primeira vez na vida, eu a ouvi dizer duas palavras mágicas que, depois de um dia longo, tocam fundo na alma de um pai ou mãe: estou cansada. A lua cheia brilhava no céu e [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Noite passada, depois de lermos uma história, fiquei deitado com a Cecília na cama até ela dormir. E talvez pela primeira vez na vida, eu a ouvi dizer duas palavras mágicas que, depois de um dia longo, tocam fundo na alma de um pai ou mãe: estou cansada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A lua cheia brilhava no céu e a luz atravessava a janela do quarto, de forma que eu podia ver os contornos do rosto da minha filha e seus olhos entreabertos. Ela me encarava, o sorriso de satisfação estampado fazia as bochechas redondas ficarem ainda mais redondas, os olhinhos piscavam de forma cada vez mais lenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Pai&#8230;&#8221;, veio um bocejo, &#8220;será que amanhã a gente pode ter um dia de papai e filhinha com brincadeira e piquenique?&#8221;, foi a última frase que falou. “Claro, querida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Resolvi ficar ali, contando os intervalos em que aqueles olhos redondos me encaravam e iam se fechando e fechando até que ela suspirou, tombou o rosto sobre o travesseiro e dormiu inaugurando sua noite de sonhos com a leveza de quem acorda diariamente às seis e meia com a única e determinada missão de brincar até que o dia se esgote.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele olhar me sondando por dois minutos, permaneci ainda por longas horas. Absorvido pelo brilho e pureza, intrigado &#8211; e ao mesmo tempo com um pingo de inveja &#8211; pelo fato de que minha filha, aos seis anos, não faz ideia do que é ir dormir cansado e acordar ainda cansado no dia seguinte, carregando a tensão das preocupações e questões tão profundas que afetam o mundo agora, mesmo sabendo que eu não tenho qualquer condição de resolver nada disso. Ela não faz ideia do que tratam as notícias, conversas, podcasts, livros e discussões que me ocupam até quando não deveria estar ocupado com nada. Nossa sociedade anda complicada demais. Mas, naquele olhar, um portal para a inocência, ontem eu descansei. Retornei por um tempo ao refúgio que reconstitui as prioridades na alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje pela manhã, pegamos a estrada para visitar nossos tios numa cidade aqui perto. No rádio do carro tocava “Chega de saudade”. Ao meu lado, Manu cochilava, atrás dela, Cecília brincava com um joguinho e, sentada atrás de mim, eu podia escutar a Nina cantarolando baixinho a música. &#8220;Dentro dos meus braços os abraços, hão de ser milhões de abraços, apertado assim, colado assim, calado assim…&#8221;. Espiei através do espelho e só conseguia vê-la mirando a paisagem de florestas e plantações pela janela. Eu a encarei por uns instantes e, ao cruzarmos os olhares, notei seu ar curioso ir mudando de forma, os olhos se fechando aos poucos e formando um pequeno arco que acontece quando ela sorri e as bochechas espremem os olhos. Desde quando ela era bebê é assim, a Nina sorri com os olhos antes de mover os lábios. Eu precisava me concentrar na estrada, mas naquele olhar me encarando por dois ou três segundos, eu permaneci por horas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que mora dentro desses olhares? Para além da doçura inocente que, nesse instante, me resgata do azedume adulto, tira a poeira da alma e me devolve ao essencial, me pego pensando sobre que tipo de existência elas contemplam. Se aos meus olhos hoje tudo parece nebuloso, da perspectiva delas, que mundo é esse? Que horizontes vislumbram? Manú e eu enxergamos um futuro para elas que certamente não é o futuro que viverão. Gostaríamos de habitar seus sonhos como testemunhas da história que estão escrevendo. Como pais, pensamos nessas meninas crescendo e tentamos imaginar os caminhos que seguirão e, para além das paisagens que esses olhares hão de absorver, que visão de mundo será formada no interior de nossas filhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem um universo inteiro nisso, que deveria bastar. John Wesley, com a ambição de quem ajudaria a mudar a história, disse que o mundo todo era sua paróquia. Tenho pretensões mais modestas. Meu lar, esse canto aqui, é minha paróquia. Essas duas meninas, a mulher da minha vida, uma cadela quase idosa são toda glória que a existência poderia legar como continuidade do que Manu e eu somos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No começo deste ano quase fiquei cego. Sei que eu já te contei sobre isso, mas a iminência da escuridão repentina trouxe outro brilho para as cores que hoje consigo notar. Física e figuradamente, já não enxergo mais da mesma forma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque essa visão, a nossa visão sobre a vida, sempre mira algo tão distante, almeja sonhos e constrói ideais necessários para alimentar a esperança. A esperança é sempre urgente. No entanto, por vezes ignoramos que precisamos tocar a terra, descalçar as sandálias e perceber que o tangível, o agora, que o pó da existência nesse pequeno círculo que habitamos é sagrado, nos constitui e nos une. Queremos epifanias, desejamos enxergar a glória divina nos céus e esquecemos que contemplamos Deus face a face nos olhares doces de meninas sardentas que nos sondam, que sonham com piqueniques antes de dormir e cantarolam bossa nova na estrada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deus tem alma de criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem um universo inteiro nisso… onde podemos deixar orbitar nossos afetos, familiares, amigos e o desconhecido na vizinhança que carece do nosso cuidado. Porque precisamos deixar transbordar um bom tanto do que nos sobra. E ainda expressar mais de, estender mais de, esticar um pouco a, praticar mais a. Agradecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meus olhos ainda enxergam tão pouco. Mas sei que eles miram o céu e que resplandecemos o eterno quando olhares se cruzam e entendem, finalmente entendem e transbordam, a alegria de pertencer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/olhos-nos-olhos-no-ceu/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Técnicas de negociação</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2021/11/13/tecnicas-de-negociacao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Nov 2021 00:45:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[O casal &#8211; um casal aí, uns amigos, alguém que a gente conhece &#8211; decidiu vender o apartamento onde morava e se mudar. Depois de ótimos anos vivendo no local, a oportunidade de ir para um lugar mais agradável somada à dura convivência com o barulho do salto dos tamancos da vizinha do apartamento de [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">O casal &#8211; um casal aí, uns amigos, alguém que a gente conhece &#8211; decidiu vender o apartamento onde morava e se mudar. Depois de ótimos anos vivendo no local, a oportunidade de ir para um lugar mais agradável somada à dura convivência com o barulho do salto dos tamancos da vizinha do apartamento de cima martelando em suas cabeças desde as cinco e quarenta da manhã, os levou a decidir pela mudança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na ordem geral das coisas, depois de decididos pela mudança, o casal (um casal aí, de amigos, uma família que a gente conhece) começou os arranjos para a venda do apartamento. Providenciaram os reparos básicos e necessários, uma boa organização nos brinquedos das crianças espalhados pela casa, uma ordem nos banheiros, nos livros, nos fios expostos atrás da TV e finalmente tudo parecia pronto para receber potenciais compradores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Precisamos fazer um anúncio &#8211; disse a esposa em certa manhã enquanto preparavam o café.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Verdade &#8211; respondeu o marido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Você escreve?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Eu?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; É. Quem escreve aqui em casa é você. Faz um anúncio bonitinho para eu publicar no grupo de classificados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Tá bom &#8211; e bocejou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dias mais tarde, depois de meia dúzia de cobranças e uma semi-ameaça de divórcio, o marido (um amigo meu aí) sentou para escrever o anúncio. Na primeira linha, veio a dúvida:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Querida, que valor nós vamos pedir no apartamento?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pelo que tenho visto em outros anúncios, vale uns 90.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Hum. Falei com um colega e ele comentou que dá para vender até por 100.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Legal. Então divulgue por 130.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Por quê?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Porque aí a gente chega em 100.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mas se a gente quer 100, porque já não anunciamos por 100?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Porque aí a pessoa vai oferecer menos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mas se a gente colocar mais caro, aí é que fica fora do que pretendem pagar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não é assim, Enrico. A gente anuncia por mais, a pessoa oferece menos e aí chegamos num meio termo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Então a gente quer 100, mas vamos anunciar por 130. Aí, alguém que não tem 130 para pagar virá até aqui olhar o apartamento assim mesmo e, se tiver interesse, vai nos propor 80 para tentar negociar e, no fim, pagar os 100 que gente quer e, pelo jeito, ele também?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Qual é o sentido disso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; É a negociação. A pessoa sente que pagou menos do que pedimos e nós conseguimos uma vantagem sobre a proposta inicial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mas, no fim, os dois queriam o mesmo preço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Deixa que eu escrevo o anúncio então.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não, pode deixar, Malu. Desculpe. Vou trabalhar no texto aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Horas depois, já no trabalho, ela recebeu uma mensagem do marido no telefone:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;oi, td bem? te mandei um email com uma ideia pro anúncio. vc vê se ficou bom?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Tá bom =) Já vejo e te falo&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;pensei em numa proposta um pouco mais ~transparente para o anúncio&#8230;&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Sei.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;depois me liga :-*&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">===</p>



<p class="wp-block-paragraph">De: Lucio Enrico Gramas</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para: Malú Doisber</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assunto: Anúncio do nosso apartamento (aka sincericídio?)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amor, segue a ideia para o texto do anúncio. Se gostar, me fale e já posto nos classificados:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>VENDO. Lindo apartamento com três quartos na Rua do Limoeiro (bom, nós o achamos lindo, mas pode ser que você tenha um gosto diferente). Temos sido felizes aqui e certamente sua família também pode ser. Ele vem com armários, uma linda vista do parque, pintura nova e trilha sonora bate-estaca embutida no teto. Achamos que vale $100, mas estamos anunciando por $130. Se você visitar e gostar, pode nos oferecer $80 para fecharmos negócio nos $100 que ambos queremos. Caso tenha interesse, ligue ou escreva para o número abaixo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Me fala?</p>



<p class="wp-block-paragraph">bjs, E.</p>



<p class="wp-block-paragraph">===</p>



<p class="wp-block-paragraph">O telefone do marido não tocou naquela tarde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">—</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no Estadão)</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Como voltar?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Oct 2021 11:03:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8220;Mas, todo dia tem que ir pra escola?&#8221;. Cecília, minha filha de seis anos, reagiu com certa indignação ao acordar pelo terceiro dia consecutivo às seis da manhã para ir ao colégio. “Por que agora tem que ir pra escola todo dia?”, queria saber. Demorei para me dar conta de que quase dois anos de [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Mas, todo dia tem que ir pra escola?&#8221;. Cecília, minha filha de seis anos, reagiu com certa indignação ao acordar pelo terceiro dia consecutivo às seis da manhã para ir ao colégio. “Por que agora tem que ir pra escola todo dia?”, queria saber. Demorei para me dar conta de que quase dois anos de quarentena, diante da sua pequena existência, representa uma fração de tempo muito maior e uma mudança mais aguda em sua memória. Ela não lembrava como era ir para a escola em 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E na semana em que a segunda dose da vacina completa vinte dias ainda dolorida em meu braço esquerdo, recebo com certa angústia os convites para encontros, reuniões e cafés que pipocam com mais frequência nas mensagens e emails. Como voltar? Será que já está na hora? Ou já não era sem tempo? Ou, quem sabe, já que esperamos até aqui, vale esperar mais um pouco até que…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cercado pela bolha de privilégios que me permitiu atravessar a quarentena trabalhando em casa e me isolando sempre que necessário, sou confrontado com o fato de que a rotina, daqui a pouco, se parecerá mais com o que era antes de março de 2020 do que com esse estado de suspensão no espaço tempo em que temos vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por esses dias, revestidos de máscaras, álcool e protocolos sanitários, certas coisas tem voltado ao estado anterior. Em casa, meninas indo à escola diariamente, Manú e eu topando uns almoços na casa de amigos e encontros familiares, uma ida ao parque. Mas, ao voltar para casa depois dessas saídas, admito que sinto um rastro de culpa e desconforto. É como se já (ou ainda) não soasse certo, não fosse justo poder fazer isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, talvez, porque também me dei conta de que desejo fazer isso menos do que desejei acreditar que gostaria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem muitas coisas que já não quero de volta. Lugares, deslocamentos, atividades… já estava bastante cansado daquilo e só percebi quando precisei parar. Quem gosta de shopping centers barulhentos, congressos corporativos, conversinhas, filas, trânsito e restaurantes cheios na hora do almoço?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pandemia criou uma camada de proteção para os introvertidos. Sob argumento de que a quarentena exigia o distanciamento, pessoas pouco afeitas a atividades sociais aleatórias puderam recusar convites para reuniões, eventos profissionais, churrascos e aniversários. Agora, com a ameaça de uma volta à normalidade, estamos nessa cilada, à procura de novas desculpas para recusar convites, ansiosos com a ideia de ser obrigado a responder sobre o clima, a rodada do futebol e participar de conversas randômicas com gente desconhecida porque a etiqueta exige afinal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que era temporário, ao longo desses meses virou uma rotina inteira nova, à qual confesso que me apeguei. Almoços em casa com minhas filhas, um café com bolo no final da tarde com minha esposa, a corrida na rua depois do trabalho, todo cuidado um tanto mais atento com as pequenas coisas da casa. Troquei a leitura de mais jornais por mais livros e o noticiário frenético no rádio do carro por podcasts e playlists de música clássica na caixa de som e agradeço pela ausência do ruído do trânsito engarrafado duas vezes ao dia (a imagem mais comum que me vem à mente quando penso em minha rotina pré-pandêmica é a de luzes de freio dos carros acesas num corredor infinito à minha frente). Eu gosto disso. Gosto da ideia de que a fronteira entre o trabalho e o lar se resume a uma soleira que separa meu escritório doméstico do corredor da sala.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há quem partilhe desse sentimento. E acho, no fim, que o que tem nos tocado é esse uso diferente de algo que sentíamos já não nos pertencer: tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas primeiras semanas de quarentena, Nina, minha filha mais velha, ainda vivia os últimos dias de seus 12 anos e começava a se sentir confusa com a ideia, com a bagunça, a confusão e o mundo de cabeça pra baixo que a revolução hormonal da adolescência eminente lhe apresentava. Agora, ela tem 14 e, ainda em ebulição plena, já é convidada para outros tipos de interação, engata em novos tipos de conversas, escuta músicas diferentes e, para ela, essa transformação de vida brutal pela qual todos nós passamos nessa idade, aconteceu dentro de um quarto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltar a quê, afinal?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como voltar sem que isso pareça uma afronta ao fato de que mais de 600 mil brasileiros morreram até agora na pandemia? Voltar a quê depois de uma tragédia? Sem ignorar que nossas redes de afeto foram massacradas e ceifadas de forma trágica &#8211; e muitas vezes criminosa? Como voltar sem desrespeitar os que carregam o luto de suas perdas? Há crianças que, mais do que um retorno à escola, precisam aprender a viver sem a presença dos pais (só no Estado de São Paulo, entre março do ano passado e setembro último foram 3.836 crianças que perderam algum dos pais e pelo menos 64 pais morreram antes de verem o nascimento dos filhos, segundo apuração do jornal Agora com dados da entidade Arpen Brasil). Há cadeiras vazias na mesa de jantar, há um lado na cama que não será mais preenchido, há lembranças de histórias que não precisariam ser interrompidas. Saudades. E a isso ninguém se apega. Não quando tais tragédias poderiam ter sido evitadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como voltar e respeitar a memória daqueles que perdemos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;No meio da pedra tinha um caminho…&#8221;, não é o que diria Drummond. Mas eu fui num museu uma vez e vi um meteorito e fragmentos de asteroides que vieram do espaço e se chocaram contra a Terra e fiquei pensando que interrompemos a viagem daquele objeto. Aquelas pedras, segundo a legenda nas plaquinhas coladas no chão, tinham milhões de anos e algumas viajaram outros milhões de quilômetros, por milhões de tempos (eram muitos zeros sempre e eu sou de Humanas), vindas da órbita de outros planetas até caírem em algum canto desse mundo que habitamos. Pedaços de rocha vagando pela galáxia, talvez um naco de algum planeta que saiu espirrado depois de um choque sei lá quantos séculos atrás. E vagou por esse tempo todo e foi coletada e estudada por algum cientista até virar uma atração no museu onde me coloquei diante daquilo por alguns minutos em um dia gelado do ano de 2009 e fiquei com um pensamento martelando enquanto a ponta do meu dedo tocava a superfície da peça: é longe demais, é tempo demais… somos pequenos demais aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E se pudesse voltar lá e conversar com aquela pedra hoje (assumindo, me acompanhe, que realmente dê para conversar com uma pedra &#8211; e compreenda, por favor, que às vezes falamos com gente que parece menos sensível do que uma) e falar para ela que esses meses de pandemia vão mudar a história e que a humanidade realmente pode ser diferente depois que um vírus colocou o mundo de joelhos e que vamos mudar nossos hábitos, nosso ímpeto ganancioso e rever práticas e… Acho que ela daria risada, a pedra. E me diria &#8220;você não sabe o que é história, amiguinho&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mundo dá voltas. E não dá pra voltar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em um fragmento da existência toda e enxergamos a história pela perspectiva dessa pequenez em que estamos agora, olhando para o céu à procura de respostas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu gosto de olhar para o céu enquanto corro nas ruas. As nuvens parecem tremer. E procuro acima, naquela vastidão, pelos sinais do Eterno em quem deposito minha fé. Eu tropeço tanto. Mas dentro de mim Deus permanece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E talvez nisso resida a maior angústia do isolamento que enfrentamos. Somos organismos, ramos dessa imensa árvore da existência, membros de um corpo ao qual pertencemos todos. Mesmo que estivéssemos perto de quem amamos nesse período de isolamento, faz falta para nossas crianças, para nossos pais, amigos e para nossa sanidade, o convívio. É preciso aprender a voltar. Porque algo que não mudou durante o pequeno traço de história que tem sido a presença humana no universo, é que escrevemos nas paredes de rochas e cavernas que dependemos uns dos outros &#8211; e das comunidades a que pertencemos &#8211; para sobreviver e prosperar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como voltar? Com respeito ao vizinho, com empatia por quem sofre, diálogo com os diferentes, lavando as mãos, aos poucos vamos reconectando as pontas soltas, refazendo alguns laços, tirando a bicicleta da garagem. Há novos hábitos que aprendemos nesse tempo e nos acompanharão adiante, há o desafio de criar novas rotinas, de novo. E há a surpresa bem-vinda da casualidade nas interações inesperadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E tem um troço inexplicável, a experiência redentora do toque, o efeito do abraço de nossos afetos quando nos vemos. Poder abandonar o ridículo cutucão de cotovelos e receber, de braços abertos, amigos e queridos no morno conforto desse enlace. Sem máscaras. E mesmo para introvertidos e anti-sociais, essa volta significa redenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cecília volta da escola todos os dias na hora do almoço. Abraça a cadela, me abraça, chega com a roupa suja de terra e areia e o cabelo encardido. A máscara ainda no rosto não esconde que tem um sorriso de satisfação estampado naquelas bochechas sardentas e na boquinha banguela. Com frequência, ela abre a lancheira e, além das sobras de pão e frutas, saca uma pedra que recolheu no pátio da escola.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pai, olha o que eu trouxe.<br>&#8211; De novo, filha? Desse jeito você vai acabar com as pedras do pátio. Daqui a pouco, a gente vai conseguir levantar uma parede com tanta pedra que você traz pra casa.<br>&#8211; Mas, pai, isso aqui não é só uma pedra! Isso é uma pedra rara, um tesouro. A gente tem que guardar. E tem que segurar com muito cuidado. Quer tocar?<br>&#8211; Claro, entendi. Posso ver?<br>&#8211; Ahãm. Tó.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olho para a pedra tentando expressar o escrutínio de quem encontra um tesouro. É uma sobra de brita ou uma pedra qualquer usada em obras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pai, de onde você acha que é?<br>&#8211; Não sei, filha. Acho que nunca vi nada igual.<br>&#8211; É.<br>&#8211; Será que é um pedaço de meteoro?<br>&#8211; Ah, pai…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Preciosidades. Não em pedras que caem do céu, mas em fragmentos da nossa pequena existência, nas voltas que a vida dá. Nas mãos estendidas para enxugar lágrimas, nos abraços possíveis que devemos celebrar. No divino que se manifesta quando nos conectamos novamente com o fato de que só vivemos porque também vivemos uns nos outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a rel="noreferrer noopener" href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/como-voltar/?amp#click=https://t.co/U0sSX2MWQF" target="_blank">Estadão</a>)</p>
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		<title>Sob este teto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Sep 2021 17:18:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Sob este teto circula o perfume das estações que se confundem nesses trópicos, das refeições, dos vapores dos banhos recém tomados, da cadela com banho atrasado, das meninas que se perfumam e preenchem o ar com sua graça, suas idades, nosso humor. Sob este teto circulam as meninas, em suas idades e tempos, suas roupas [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Sob este teto circula o perfume das estações que se confundem nesses trópicos, das refeições, dos vapores dos banhos recém tomados, da cadela com banho atrasado, das meninas que se perfumam e preenchem o ar com sua graça, suas idades, nosso humor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob este teto circulam as meninas, em suas idades e tempos, suas roupas do sono, de escola, de festa, de banho. Em seus humores de infância, adolescência e maturidade, em humores de filme, de fome, a consciência de que já tivemos dias melhores mas que ainda nos sobram mais, amanhã, quem sabe, quando tudo finalmente passar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob este teto passa tanto. O microcosmo da nossa pequena existência, a história minúscula que é todo nosso universo, a eternidade de quatro nomes. Passamos tempo, passamos em branco, passamos a limpo, passam filmes e filmes na tv nas noites que passamos juntos. Teimamos em sonhar com nossos olhos mirando este teto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob este teto, os dias começam e terminam. E a rotina cíclica se impõe, na rigidez ditatorial do relógio, do tempo, paradoxal tempo que não controlamos mas do qual somos senhores, brigando para domar esse animal selvagem. Dias de sol e dias nublados que sob este teto observamos pelas janelas que abrimos na alvorada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob este teto reside tudo tudo tudo de que se faz necessária a vida, a minha. Mora aqui a história, as pessoas, habitam lembranças, sob este teto há dúvidas ruminantes e certezas claras. Há, aqui, portas rangendo e o consolo perene do que podemos chamar de lar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob este teto, com bonecos espalhados pelo chão, com livros emoldurando paredes, retratos gastos colocados pelos cantos e cada vez mais plantas crescendo verdes em canteiros. Há roupas no varal, café esfriando nas xícaras, pernilongos zumbindo rebeldes seu terrorismo, risos infantis na paisagem sonora, há fragmentos da vida ordinária em cada gaveta que se abre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob este teto o extraordinário se manifesta, o amor se move em brisas pelos corredores, na parede sólida da fidelidade, na existência que dança ao ritmo dos ponteiros do relógio. Sob este teto o sagrado se manifesta, eu tiro as sandálias e piso descalço em solo santo, grato e certo de que tudo de que preciso repousa em lençóis brancos e num altar erguido à vida que se eterniza aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a rel="noreferrer noopener" href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/sob-este-teto/" target="_blank">Estadão</a>)</p>
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		<title>Vivendo de sobras</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Jul 2021 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Temos vivido de sobras. Nesse tempo em que tanto nos falta, em que tantos já nos fazem falta e a completude que sentíamos desfrutar no passado nos parece ceifada, temos aprendido a nos virar com as sobras. Um catado de coisas, esses remendos de atividades que se tornaram uma nova e temporária noção de rotina. [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Temos vivido de sobras. Nesse tempo em que tanto nos falta, em que tantos já nos fazem falta e a completude que sentíamos desfrutar no passado nos parece ceifada, temos aprendido a nos virar com as sobras. Um catado de coisas, esses remendos de atividades que se tornaram uma nova e temporária noção de rotina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobra saudade de quem partiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobra um vazio no peito, falta um nome para isso, mas sobram as memórias. Porque faltam caminhos, sobra esse sentimento de impotência. Sobra a indignação diante da falta de respeito, de zelo, de honestidade, governo. Sobra o afeto diante do tanto que falta para que se possa ser repartido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobra o quê se não tem diálogo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns repartem as sobras, outros dividem o que tem até quase lhes fazer falta, mas fazem sua parte para estender a mão a quem tem falta, sobretudo agora em que tanto falta. Outros não dividem, acumulam e acumulam e acumulam suas sobras &#8211; convenhamos, esses não fariam falta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só nos sobra esperança em meio a tantas notícias ruins.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem que nos sobrar um rastro de fé, um grão de mostarda que seja, diante de tanta incerteza, para que possamos mover as montanhas que nos assombram. E também sobra o amor, este sobre todas as coisas, entre as coisas que nos sobram escolher sentir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque abundam sentimentos controversos quando falta tanto para tantos. Faltam escrúpulos, falta caráter, igualdade, justiça. Faltam palavras. Sobra tempo para refletir sobre muita coisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobra pouco tempo para salvar o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos privados da liberdade que naquele passado remoto pré-pandêmico usufruímos sem valorizar. Estamos privados de abraços, de toques, de celebrações e momentos festivos. Seguimos escondidos de um inimigo cuja face não enxergamos. Sobram rostos sem máscaras, faltam discernimento e respeito. Estamos nus. Sobramos aqui, isolados, porém menos distantes do que deveríamos. Porque sobram cadáveres, meio milhão de nomes que agora fazem falta para alguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobram vítimas porque faltam vacinas. Sobra sempre para os mais fracos, para os pobres. Sobra dor. E o que nos sobra é levantar o olhar e seguir em frente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos vivendo dessas sobras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobra um pouco de café na caneca. Gelado. Era só o que me faltava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre o quê estávamos falando?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobra uma máscara no rosto como refúgio. Sobrancelhas à mostra expressando o sentimento escondido. Sobra um punho cerrado em protesto. Sobra álcool no copo e nas mãos. Sobra vontade de gritar, mas falta quem nos escute. Sobra uma canção nos lábios, um fio de resistência poética, uma música de outros tempos que agora se faz presente, mas cuja letra me falta e sobram apenas versos incompletos sendo cantarolados desde a manhã por todo dia afora: “…amanhã há de ser outro dia.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falta o sentimento de amanhã, aquela velha e ilusória certeza, a previsibilidade da próxima semana, os compromissos para o mês que vem. Sobravam planos. Agora sobra apenas o que temos aqui e agora, vivendo o dia de hoje, sentados à mesa, nós quatro, compartilhando graças, trocando farpas, passando a travessa de arroz, servindo um copo de água um para o outro, testando uma sobremesa nova e tentando chegar a um consenso quanto às decisões mais complicadas de cada noite nesse microcosmo que habitamos: que filme veremos hoje à noite? De quem é a vez de tirar a mesa? Quem faz a prece noturna? Quem descer para passear com o cachorro não precisa lavar a louça?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob esse teto, temos um ao outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobra isso que somos. As sobras de que temos vivido e que por hora nos bastam. Ao menos hoje. Porque temos amor de sobra.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/vivendo-de-sobras/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Futuro do pretérito</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 12 Jun 2021 11:13:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Em 1964, o jornal The New York Times pediu ao escritor de ficção científica Isaac Asimov que escrevesse um artigo respondendo à pergunta &#8220;Como será o mundo daqui a 50 anos?&#8221;. No texto publicado no dia 16 de agosto daquele ano, Asimov apontou o que seriam suas previsões para 2014. É curioso olhar pelo retrovisor [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Em 1964, o jornal The New York Times pediu ao escritor de ficção científica Isaac Asimov que escrevesse um artigo respondendo à pergunta &#8220;Como será o mundo daqui a 50 anos?&#8221;. No <a href="https://movies2.nytimes.com/books/97/03/23/lifetimes/asi-v-fair.html">texto publicado</a> no dia 16 de agosto daquele ano, Asimov apontou o que seriam suas previsões para 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É curioso olhar pelo retrovisor da história e constatar que ele acertou diversas mudanças com as quais nos habituamos a conviver nas últimas cinco décadas. Constava entre seus palpites a ideia de que teríamos painéis e paredes iluminadas que mudariam de cor com o toque manual e janelas de vidros que ficariam opacas à medida que a luz do sol incidisse sobre elas. Ele previu também que teríamos aparelhos em nossas cozinhas que fariam café, pão e refeições completas de forma automatizada, escreveu uma ideia bem formulada sobre carros autônomos, sobre computadores se tornarem tão pequenos a ponto de serem usados como cérebros de robôs (inteligência artificial?) e sobre TVs, até então caixotes em tubo, se tornarem telas planas e finas com filmes projetados em 3D. Existem também ideias malucas que a humanidade não foi capaz de inventar, ainda, e outras tantas que ao reler o artigo eu fico em dúvida se aquilo de fato já não existe por aí e eu é que ainda não sei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E que tal isso aqui? &#8220;As comunicações se tornarão visuais e auditivas e você verá e ouvirá a pessoa para quem telefonar. A tela pode ser usada não apenas para ver as pessoas para quem você liga, mas também para estudar documentos e fotografias e ler trechos de livros. Os satélites síncronos, pairando no espaço, possibilitarão a você discar diretamente para qualquer ponto da Terra, incluindo as estações meteorológicas na Antártica (&#8230;)&#8221;. Esse celular aí no seu bolso, esse mesmo, o Asimov cantou a bola do iPhone quatro décadas antes dele ser lançado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas dessas previsões são recursos e objetos de algum jeito óbvios para nossa sociedade hoje. As TVs em led, iluminação fotocromática, smartphones, microprocessadores, inteligência artificial&#8230; mas, como alguém pensaria nessas ideias antes de serem criadas, antes de serem possíveis, cinquenta anos atrás?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seu palpite final, no entanto, Asimov sugeriu que um mal coletivo atingiria a humanidade em nossos dias: o tédio. “Uma doença que se espalha a cada ano e sempre de forma mais intensa”, ele escreveu. Por conta disso, apostou que em 2014 a psiquiatria seria a especialidade médica mais importante no planeta. “Os poucos sortudos que podem estar envolvidos em trabalhos criativos de qualquer tipo serão a verdadeira elite da humanidade, pois só eles farão mais do que servir a uma máquina&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua ideia mais enfática, seríamos um mundo próspero de tal forma e com tão pouca escassez de recursos que a principal atividade médica seria a de psiquiatra, porque as pessoas estariam tomadas pelo tédio completo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Duvido um bocado que tanta gente esteja padecendo de tédio em nossos dias. E ainda que desconheça a que taxas psiquiatras e psicólogos se formam e abrem consultórios bem sucedidos no mundo atual (eu certamente cumpro parte da cota frequentando um divã virtual semanalmente), aposto um pacote de jujubas que também não seja “tédio” o diagnóstico que evoca as descobertas de Freud, Jung, Lacan e companhia limitada para tratamento de uma geração que tem na ansiedade, depressão e no esgotamento total alguns dos males mais recorrentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, se errou ao dizer que seríamos uma população bocejante e espreguiçada, Isaac Asimov acertou ao dizer que o mundo seria próspero como nunca antes. De fato, acumulamos mais riqueza no planeta durante esses 50 anos do que poderíamos imaginar. Apenas cinco anos depois do vislumbrado 2014, três empresas foram cotadas na Bolsa de Nova York em mais de um trilhão de dólares cada uma. Se fossem somadas e formassem um país, seria a quinta economia do mundo, à frente de nações como Índia, França, Itália, Canadá e, claro, o Brasil (que vem despencando na tabela nos últimos anos, caindo da sétima para a décima segunda posição nesse ranking).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isaac Asimov não errou a conta de multiplicação, mas a de divisão. Era bom de ficção, mas cabulou as aulas de macroeconomia &#8211; ou talvez de ciências sociais, porque o problema não está nas fortunas em si, mas nas mãos que as controlam. A riqueza que somamos ao longo dessas cinco décadas, em vez de tornar a todos mais prósperos, foi empilhada nos cofres de uma minoria que ficou mais e mais e mais e mais rica enquanto o abismo da desigualdade se acentuou. Temos, hoje, <a href="https://www.dw.com/pt-br/quase-metade-da-popula%C3%A7%C3%A3o-mundial-vive-abaixo-da-linha-da-pobreza/a-45933653">quase metade da população mundial (aproximadamente 3,5 bilhões de pessoas) vivendo em condição de pobreza extrema</a>, o que significa viver com menos de US$ 1,90 por dia. Enquanto isso, <a href="https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn">1% da população mundial (dá pra fazer a conta na mão) concentra mais dinheiro em suas posses do que os 99% restantes</a>. De 1964 para cá, essa diferença só cresceu. E quem tenta sobreviver com menos de dois dólares por dia, pode estar precisando de cuidados psiquiátricos &#8211; entre tantas coisas &#8211; mas certamente não está entediado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De vez em quando, eu volto a esse texto e me pego tentando fazer o caminho contrário. Tento exercitar o olhar e busco enxergar o mundo com os olhos do escritor naqueles dias. Em que contexto histórico Asimov vivia para, olhando para o que via ao redor, vislumbrar o mundo de hoje com tais características, eventos e condições? E, se ele acertou em tantas previsões triviais, por que errou tão feio quando julgou a condição social da humanidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 1964, o escritor registrou suas previsões tendo como base a visita que fez à Feira Mundial em Nova York e os passeios nos estandes da General Electric, IBM e GM (as potências tecnológicas naquele tempo citadas no artigo). E segundo me relembra o Google e as parcas memórias das aulas de História na oitava série, em 1964 o mundo havia saído há apenas 19 anos da Segunda Guerra Mundial e os Estados Unidos haviam embarcado na Guerra no Vietnã. Eram um país dividido pela segregação racial, planejavam a todo vapor a primeira viagem tripulada para a Lua e acreditavam que o fantasma do comunismo assombrava seus quintais de gramas bem aparadas enquanto gastavam fortunas na Guerra Fria. Era um tempo bem tenso na história. E só me parece que deveríamos ter evoluído desde então.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 1964, no Brasil, depois de um golpe de estado, uma ditadura militar instalou-se no país dando início a alguns dos anos mais nefastos da nossa história. Cinquenta anos depois, no 2014 idealizado por Asimov, houve brasileiros que saíram às ruas em protesto mirando 1964 e idealizando ali o seu futuro. Quatro anos depois, elegeram um presidente do século passado. A frase célebre do Millôr Fernandes poderia estar estampada na faixa presidencial: “O Brasil tem um enorme passado pela frente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E isso me lembra que há sempre um ponto de partida, a perspectiva, o lugar a partir do qual esse olhar para o futuro é lançado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a máquina do tempo citada em seu livro <a href="https://www.b9.com.br/62289/o-fim-da-eternidade-o-tempo-e-o-grande-protagonista-do-classico-de-asimov/">&#8220;O Fim da Eternidade&#8221;</a> (publicado em 1955) o trouxesse aos nossos dias e Asimov desembarcasse aqui no bairro, eu lhe cederia uma máscara, uma borrifada de álcool em gel nas mão e contaria que de tédio ninguém tem morrido neste tempo. E tentaria um alinhamento de rota na futurologia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daria um desconto na questão da pandemia, afinal nem ele passou por uma dessas (a Gripe Espanhola, última pandemia global que enfrentamos, teve fim em 1920, ano em que o escritor nasceu, me diz a Wikipedia). E quem imaginaria a dinâmica de um mundo tecnológico e controlador sendo dobrado por um vírus? Porque inventar o conceito de telefone celular e de carro autônomo na década de 1960 parece uma coisa bem razoável, mas pensar num vírus letal paralisando o planeta por quase dois anos, aí não amigo, aí já é ter uma imaginação fértil demais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, aproveitando a visita, perguntaria que previsões ele faria agora para o mundo daqui a mais 50 anos, lá em 2071? Olhando em retrospecto para as últimas cinco décadas, como estaremos nesse futuro meio século adiante? Para além de geringonças tecnológicas, profissões, crises existenciais e meios de transporte, nossos filhos e netos serão adultos em que tipo de sociedade?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Livre da tensão da década de 1960, Asimov daria um curto suspiro atrás da sua máscara, olharia ao redor e veria o mundo de agora como seu ponto de observação: líderes insanos, autoritários, fascistas e delinquentes governando países. O planeta derretendo e a floresta e os recursos naturais que podem nos salvar virando cinzas. Pessoas que não acreditam em ciência, que desafiam os fatos, que acham que se correrem e correrem sem parar vão cair da borda de um planeta plano. A pobreza extrema, a desigualdade social, de raça, gênero e classes calando vozes e oprimindo pessoas minorizadas. A indiferença transbordante nas relações pessoais, que mata o afeto, que enterra o diálogo, que sufoca o amor e nos impede de somar forças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Meu rapaz, acho que a máquina falhou. Estou mesmo em 2021 ou 1921?&#8221;, talvez ele perguntasse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A realidade é mais estranha que a ficção. E temos esse lugar a partir do qual olhamos em perspectiva para o horizonte possível, vestindo as lentes dos dias em que estamos e 2071 não parece lá muito atraente. Mais do que o mundo que teremos, me pego aqui conjecturando sobre que mundo queremos, afinal. É urgente semear outro futuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/futuro-do-preterito/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Descolamento da rotina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 May 2021 10:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Enquanto voltávamos para São Paulo um dia após o réveillon, tive a ideia de escrever um conto sobre um homem que viajava no banco de passageiro de um carro em direção à sua casa, com a esposa ao volante, as crianças atrás e ele tentava, a todo custo, guardar cada fragmento de lembrança dos rostos [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Enquanto voltávamos para São Paulo um dia após o réveillon, tive a ideia de escrever um conto sobre um homem que viajava no banco de passageiro de um carro em direção à sua casa, com a esposa ao volante, as crianças atrás e ele tentava, a todo custo, guardar cada fragmento de lembrança dos rostos delas porque sabia que ficaria cego no dia seguinte. O conto se chamaria &#8220;Um dia antes da escuridão&#8221; e narraria a véspera do convívio com a tragédia inevitável. Eu pensava nos pormenores da história e no seu possível final quando a Manu interrompeu meu devaneio com alguma pergunta sobre o trânsito. Ela dirigia, o olhar atento à estrada vazia à nossa frente, as meninas distraídas com a paisagem no banco de trás, o sol da manhã invadindo a janela e revestindo suas peles com os primeiros raios de luz e eu, já cego de um olho, lutava para guardar na memória aqueles instantes e a forma de seus rostos, apavorado com a possibilidade de perder completamente a visão nas horas seguintes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As nuvens no céu à frente escureciam o horizonte em contraste com a manhã ensolarada até então. Teríamos de encarar uma chuva forte na estrada. O cinza nas nuvens precipitava a escuridão. Escuridão. Só pensávamos nisso, o personagem do conto e eu. A partir do dia seguinte, minha vida poderia ser toda de sombras e a incerteza do que seria o diagnóstico médico para o que eu estava passando martelava uma contagem regressiva em minha cabeça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia antes da escuridão, a vida era só medo e sombras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como criar um álbum de retratos na mente? Na iminência de uma despedida, da perda de algo precioso ou do fim programado, a mente tenta se encarregar de construir suas imagens. Eu me fixava nos detalhes, nos sinais que precisava registrar, como pequenos filmes que deveriam habitar na memória dali para sempre. O mundo todo, para mim, poderia estar restrito ao repertório de imagens que vi até aquele momento, eu pensava. Acontecesse o que temia, eu não veria minhas meninas envelhecerem, não conheceria os rostos de meus netos, não fixaria o olhar em minhas rugas no espelho, testemunharia o futuro a partir de outra perspectiva. Os sentidos todos seriam os outros, mas não a visão. O toque, a escuta, o olfato (que já é bem ruim), o paladar, mas não o olhar. O calor do sol, o frescor da brisa, o aroma das ervas, o toque da pele… a vida toda seria diferente diante daquela possibilidade cada vez mais real e naquela hora eu só tentava absorver e reter as cenas que poderiam se tornar minhas últimas lembranças visuais antes de tudo apagar finalmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não fiquei cego. Entre consultas e exames e consultas e exames e exames e consultas naquele domingo e nas 24 horas seguintes, seguidas de um diagnóstico de &#8220;descolamento da retina&#8221; e uma longa espera para internação no hospital, terminei a noite de segunda-feira em uma cirurgia que levaria algumas horas e, segundo prognóstico médico, pouco mais de três meses de recuperação, se tivesse sucesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se. Duas letras que me acompanharam diariamente nas semanas que sucederam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como aprender a meditar? Procurei no Google. Em casa, deitado de bruços como parte dos cuidados do pós-operatório, eu lutava para administrar o tédio. Precisava caminhar mirando o chão para não atrapalhar a cicatrização. Queixo encostado no peito. Quatro colírios de hora em hora. Escutei podcasts, audiobooks, programas de tv e fazia minhas orações, exercícios de respiração e <em>mindfulness</em> para tentar meditar e de algum jeito dispersar o caos que se instalava em minha mente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem um filme meio velho chamado Inception (se você ainda não viu&#8230; não precisa) em que um ladrão atua no inconsciente de suas vítimas roubando ideias de dentro dos seus sonhos. A trama leva a cenas em que os personagens entram em sonhos dentro de sonhos e depois outros sonhos ao ponto que você precisa ficar voltando o filme ou interromper a esposa para tentar entender onde está na história. Quando voltei para casa depois da cirurgia, foi mais ou menos assim também. Passei a viver uma quarentena dentro da quarentena. Uma parada forçada, só que já estava tudo parado. Meus planos de curto prazo e a pequena rotina que vinha seguindo nos últimos meses &#8211; com trabalho, corrida, escrita e leitura &#8211; parou de forma abrupta. O ano começou com uma pausa dentro da pausa em que a vida já estava, hiato do hiato, colchetes dentro dos parênteses. É, você entendeu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um descolamento na rotina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nunca fui esse tipo de gente que consegue extrair aprendizados quando enfrenta adversidades. Eu só sofro e pronto. Pronto, não, eu fico sofrendo. Ainda assim, diria que sou um otimista contrariado, um devoto cético, um esperançoso ressabiado. Desejo sinceramente que tudo vá bem, mas sempre tem esse mas emendando algo depois da vírgula. E preciso me policiar pra não ficar em conserva naquelas lamúrias. Desta vez, não foi diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, fui beneficiado com o fato de que me restou muito pouco a fazer no processo pós-operatório senão gastar as horas pensando, fazendo minhas preces e à medida que as luzes e certa nitidez voltavam em meu olho, me peguei mais atento à ideia de capturar os instantes de cada dia como se fossem memórias eternas a serem fixadas para sempre. Anoto esses fragmentos em meu caderno, menos como um diário e mais como um amontoado de sensações que aparecem com um sentido quase inédito e que talvez sirvam para me ensinar algo no futuro. Agora, cada novo dia ainda me parece como aquela manhã de janeiro no carro e os raios de luz e camadas de cores no céu, no papel ou numa tela adquiriram um aspecto mágico. Não mais como a véspera da escuridão, mas como o alvorecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há novos jeitos de enxergar as coisas. As distorções, a falta de profundidade, a perda da visão periférica. Aos poucos, fui forçado a calcular meus movimentos e passos e notar tudo ao meu redor com outro olhar. Eu não tinha certeza de que aquilo seria temporário e a ideia de que havia grandes chances daquela limitação se tornar permanente, acabou ampliando minha capacidade de perceber o entorno (além de despertar certo grau de empatia com quem lida com isso cotidianamente).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Memórias. A possibilidade da perda repentina de algo, a iminência do desconhecido, os ciclos de acasos a que estamos sujeitos todos os dias… nós invariavelmente tropeçamos nas circunstâncias e fatalidades que nos afetam. E isso pode acontecer a qualquer momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recuperei a visão. Tive alta há alguns dias. Mas, ficaram sequelas. Elas lembram a todo instante de que estou sujeito ao inesperado, que tragédias não enviam recados com antecedência para que estejamos prontos. Poderia ter sido outra coisa, poderia ter sido algo fatal. As cicatrizes me servem de alerta sobre a fragilidade da nossa carne e da possibilidade sempre iminente de que algo aconteça. A vida é fugaz, esse sopro e tenho me pego refletindo sobre prioridades. Encaro, em escrutínio, o rosto de minha esposa, me pego capturado pelos olhares e expressões de minhas filhas, deito o olhar sobre uma árvore na rua. E tenho sentido certo contentamento com a existência e grato por coisas que me pareciam obviedades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia depois da escuridão, a esperança renova seu brilho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ilhado no sonho dentro do sonho, não pude jamais esquecer que há uma tragédia em curso no mundo. A sombra da dúvida paira sobre cada um de nós, a escuridão é real no amanhã de muitos de nossos irmãos e irmãs. O absurdo em que estamos imersos tenta nos dragar para um estado de alienação e cegueira, mas a contagem cotidiana nos números de casos e mortos pela pandemia, só amplifica o grito lá dentro clamando para que pessoas não virem dados, para que não nos esqueçamos, para que as histórias dos que partiram sejam um memorial de sua existência e que a permanência dos que sobrevivem seja digna, no mínimo digna, pelo menos nobre, de alguma forma merecedora, rendida, exultante, prostrada em reverência e rendida em gratidão pela dádiva que é viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que nossos olhos se abram.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/descolamento-da-rotina/">Estadão</a>)</p>
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		<title>A distância que nos separa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Apr 2021 10:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8211; Você viu que essa tv vem com dois pares de óculos de 3D? &#8211; Jura? &#8211; Legal, né? Vai dar pra assistir filmes com coisas saltando da tela para o meio da nossa sala. E assim começou e terminou a breve história dos óculos 3D aqui em casa. Quase oito anos depois, eles repousam [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Você viu que essa tv vem com dois pares de óculos de 3D?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Jura?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Legal, né? Vai dar pra assistir filmes com coisas saltando da tela para o meio da nossa sala.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E assim começou e terminou a breve história dos óculos 3D aqui em casa. Quase oito anos depois, eles repousam na mesma caixa em que vieram, sem nunca terem sido usados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não foi por falta de oportunidades, mas uma escolha conjugal. Afinal, a vida já é essa coisa multidimensional. Entre nós, achamos que aos filmes cabe o papel que se espera deles: uma boa história narrada em duas dimensões, contando e contendo a ficção que lhe compete e que nos tira da realidade por alguns minutos, mas sem nos fazer alheios ao que nos cerca. A tela era um escape.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Semana passada, depois da décima terceira reunião virtual no mesmo dia, de 15 horas consecutivas sentado em frente ao computador e de 13 meses com meu olhar concentrado nessa placa de LED para trabalhar, frequentar aniversários, assistir filmes, aulas e qualquer outra atividade que envolva pessoas que não vivem sob esse teto, bem, eu só queria que todas as telas ao meu redor caíssem estilhaçadas no chão como um vidro de Marinex.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a pandemia começou, acreditei, como muita gente, que passaria logo. De forma ainda mais ingênua, cheguei a pensar que, a despeito da tragédia que se impunha, talvez a situação servisse para mudar o foco, para nos unir como espécie em torno de um adversário comum em busca de sobrevivência e cura, já que desde as manifestações de 2013, vínhamos acumulando bofetadas virtuais (bem, nem sempre só virtuais) nessa disputa política que vem se acentuando desde então e fez com que descobríssemos uma face de nossos semelhantes que parecia oculta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente, mesmo a ciência virou bola de disputa política. A verdade, os fatos (os inegociáveis fatos) passaram a ser questionados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A besta que emergiu entre nós cavou um abismo que separou de forma dramática relacionamentos até então saudáveis e afetuosos. Descobrimos, pelas redes sociais, que pessoas que amamos podem ser chatas pra caramba. A partir de postagens de memes, discursos de ódio, notícias falsas e manifestações, começamos a rotular amigos e parentes em lados distintos do espectro político &#8211; como se, de fato, só existissem dois.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, até o começo do ano passado, ainda tínhamos as festas familiares, os almoços dominicais e encontros esporádicos traziam de volta a revelação de outros lados dessas pessoas. Ali, entretidos em temas mais complexos e, muitas vezes, mais importantes, éramos conduzidos ao sentimento comum de afeto e carinho que nos unia de forma mais profunda. Nessas horas, a vida, essa coisa 3D e complexa, quando saltavam coisas no meio da sala, impunha suas teias, nos convocava à realidade, trazia à tona as lembranças e memórias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O encontro nos forçava ao toque, forçava o tempo diante do outro, na experiência que coloca à prova nossa valentia, nossas ideias, nos expunha ao debate e fazia escorrer pelo ralo alguns dos argumentos vazios que nutrimos. Olhos nos olhos, deixávamos de lado por um tempo nossas armas, escudos e máscaras e nos permitíamos ser envolvidos pelo abraço reconciliador e pela lembrança das semelhanças que nos unem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, vestimos máscaras. Distantes uns dos outros, reduzimos nosso contato ao ambiente virtual, onde o outro é irritante demais. Durante a pandemia, a vida virou tela e só nos restou do outro o que é ruim. A vida agora não é mais tridimensional, é só tela, tela, tela, sem as histórias, as tramas, encontros ao acaso, sem chance para o toque, sem a possibilidade de estarmos face a face diante do outro para espremer nossas diferenças. A tela é um abismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É a distância que nos separa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesses tempos, ligo a tv e só quero assistir comédias e filmes de super-heróis. Em 2D, claro. Sem fé nas autoridades, sem sinal de esperança ou de fumaça, tenho esperado ansioso pela chegada dos Vingadores ou do Flash para nos salvar. Ou do Sheldon. Porque o exercício do perdão, da compaixão e o esforço pela tolerância andam um bocado mais difíceis. Faltam abraços. Encarar o outro através de uma tela, exige uma nova dimensão de relacionamento, implica enxergar o que não queremos, porque pode revelar muito do que… de quem… de nós… A tela é um espelho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/a-distancia-que-nos-separa/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Universos, ciclos e um arco-íris no final da tarde</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Apr 2021 10:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8220;Olhai os lírios do campo.&#8221; (Mateus 6:28) No ano em que a sonda Perseverance fez seu pouso em Marte para uma nova jornada de descobertas e explorações à procura de indícios de vida fora da Terra, eu entro em uma nova trajetória de descobertas e explorações neste pequeno mas inescrutável universo que chamamos de lar. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Olhai os lírios do campo.&#8221; (Mateus 6:28)</p>



<p class="wp-block-paragraph">No ano em que a sonda Perseverance fez seu pouso em Marte para uma nova jornada de descobertas e explorações à procura de indícios de vida fora da Terra, eu entro em uma nova trajetória de descobertas e explorações neste pequeno mas inescrutável universo que chamamos de lar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nina, nossa filha mais velha, completou 14 anos há duas semanas, o que a põe, de acordo com estatutos, estatísticas, termos de uso de redes sociais e regras de projetos de Jovem Aprendiz, oficialmente em novo estágio de faixa etária e, por consequência, um passo mais longe das nossas asas. Dez dias depois, como acontece a cada doze meses &#8211; ao menos nisso temos alguma previsibilidade garantida nesses tempos &#8211; Cecília chegou aos seis anos, o que a põe, de acordo com a tradição das conquistas celebradas na infância, oficialmente no universo de pequenos indivíduos que usam as duas mãos para mostrar a idade (lembro que me senti um sujeito bastante maduro nesse dia). Como consequência, me ocorre que a partir de agora ela vai se recordar com mais nitidez dos eventos que se passam em sua vida e sua memória da infância passará a ser edificada tendo esses dias &#8211; esses loucos, insanos, pandêmicos dias &#8211; como pedra fundamental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os seis anos de Cecília em nada se parecem com os da Nina oito anos atrás, tal como os 14 da Nina em nada se assemelham à adolescência que Manu e eu vivemos nos anos 90. A vida de cada indivíduo é, obviamente, diferente em perspectivas, experiências, histórias e olhares. Mas, se em quase tudo isso é um ponto a ser celebrado, pela ótica da paternidade, preciso dizer, é jogo duro. Elas começam a habitar mundos distintos, insondáveis e novos para elas e para nós também. E a pergunta que mais fazemos nesses dias ao pensar em nossas filhas é: como podemos participar desse universo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pandemia que enfrentamos trouxe essa transformação integralmente para debaixo desse teto que habitamos. E se há o benefício de estarmos perto uns dos outros, testemunhando esse processo, há também o constante atravessar de linhas e fronteiras que deveriam ser respeitadas. Porque não tem, por enquanto, o espaço de vida que elas vivem lá fora, na escola, na rua, nas festas e passeios. É tudo aqui, a transição toda e essas mudanças todas, no quarto ao lado, no sofá da sala, aqui perto, em frente a uma tela. Elas, que entram em novas e desconhecidas etapas de suas vidas e nós, que avançamos os limites da individualidade enquanto formos forçados a trazer a vida inteira, toda rotina de nossos dias, para sentar conosco durante as refeições.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a existência no planeta nesses últimos meses mais parece essa coisa encapsulada, compacta, atemporal e difícil de navegar, os ciclos da vida, por outro lado, continuam acontecendo no cotidiano de nossa miudeza doméstica, nos gestos familiares, nas pequenas celebrações, no ritmo da rotina onde a mesa de jantar se tornou o epicentro de qualquer debate.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pouco antes da pandemia começar, as coisas ainda eram diferentes. Houve um mês em 2019 &#8211; tipo, mil anos atrás &#8211; em que Nina me interpelou com um pedido. Ela queria que eu a ajudasse a andar de monociclo. Aconteceria uma apresentação de circo na escola e ela havia decidido, entre outras atividades, que atravessaria a quadra do colégio pedalando sobre aquela roda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acho que foi uma das últimas coisas que fizemos, só nós dois, fora de casa. Saímos algumas tardes nos finais de semana para ela treinar e treinar e, por muito tempo, tudo o que ela conseguia era dar duas ou três pedaladas antes de perder o equilíbrio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o tempo, as pedaladas foram aumentando gradualmente e, numa manhã de sábado, ela já conseguia dar a volta no prédio. Confesso, hoje, que não achei que ela seria capaz e acho tanto quanto empolgado, fiquei surpreso &#8211; Nina, assim como eu, tem raras habilidades físicas ou esportivas. A certa altura, já confiante em seu treino, enquanto praticava em uma curva, o pneu deslizou e ela despencou no chão áspero. Tentei minimizar, bati palmas, incentivei para que ela levantasse e seguisse em frente, mas depois de alguns segundos ela continuava caída e de cabeça baixa. Eu me aproximei para checar se precisava de ajuda e ela levantou o rosto com os olhos cheios de lágrimas. Aquele olhar me encarando um pedido de ajuda, aquele nariz ficando vermelho, os lábios franzidos contendo um choro, o braço estendido pedindo apoio e eu agarrando aquele bebê de 1,60 no colo e lembrando imediatamente de cada um dos tombos no parquinho que amparei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela mancou o resto do dia. Na manhã seguinte, pegou o monociclo e desceu para treinar. Dias depois, durante a apresentação do circo, assisti, vibrei e aplaudi na plateia enquanto ela atravessava a quadra do colégio vestida de palhaço e pedalando e se equilibrando sobre aquele monociclo. Ela estava radiante com a própria conquista e eu me sentia satisfeito em participar de seu pequeno projeto. No fundo, me dava conta de que minha presença, cada vez mais, seria menor. Em cada nova etapa, ela se torna ainda mais dona do controle, autora das decisões, responsável por escolher que caminhos deseja trilhar e pilota os veículos que bem decidir. São seus ciclos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cecília adora peixes. E cachorros, gatos, galinhas, pássaros, sapos, adora animais de qualquer espécie que lhe passe diante dos olhos e ao alcance das mãos. Quer apertá-los e trazer para viverem em seu quarto. Ela gosta de pedalar sua bicicleta e flutuar com seus patins e parece que procura explorar suas forças físicas até o limite daquele corpinho de pouco mais de um metro de altura. Não se contenta em não saber qualquer coisa. Então ela não sabe frear. A bicicleta, às vezes, avança até a guia e tomba. Os patins, com frequência, esbarram nos pés das cadeiras, portas, poltronas e no rabo da cadela dentro de casa. Não enxerga limites para o que quer que seja e, paradoxalmente, acabou de celebrar o segundo aniversário trancada em casa. Ela quer ter uma cauda de sereia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela chegou depois. Quando nasceu, Nina tinha oito anos e em casa já existia a presença de uma irmã mais velha. Já éramos uma família, éramos pais e, ainda que cada filho traga consigo uma experiência completamente nova de sentimentos, perspectivas e mereça sua carga própria de afeto, Cecília não sabe, por exemplo, o que é ser filha única. Ela não viveu com a gente enquanto experimentamos a paternidade pela primeira vez. Os primeiros aniversários, primeiras leituras, dentes caídos, mergulhos… por consequência, muitas das primeiras vezes dela já eram a nossa segunda. O deslumbramento natural em seus olhos precisa ser praticado nos nossos. Então, a seu modo, ela passou a preencher um espaço próprio nesse ambiente e, até por isso, sinto que é ainda mais protagonista nessa relação. Vivemos com ela o jeito que é só dela. Enquanto nossa limitação só era capaz de conceber uma única forma de deslumbramento para essas experiências, Cecília cria suas experiências e nos convida para assistir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há algumas semanas, enchemos o pneu da sua bicicleta e saímos para dar uma volta. Era fim de tarde e o sol estava forte. Depois de meia hora correndo atrás dela pela rua, percebi que as perninhas já estavam começando a vacilar e as bochechas vermelhas. &#8220;Quer descansar um pouco, Cici? Quer um pouco de água?&#8221;. Ela nem respondeu, seguiu convicta como se enfrentasse o sprint final do Tour de France. Em certo momento, numa pequena curva em declive, ela perdeu o equilíbrio e o pedal escapou de seus pés. Eu corri para socorrê-la e tentar evitar o tombo, mas tropecei no pneu, rolei por cima dela e despencamos juntos. Por sorte, havia um gramado onde caímos entrelaçados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passado o pequeno susto, ela sorriu. Ainda estávamos no chão e ela se aninhou no meu braço e ficou por ali. Ficamos. Sentindo o sol, o cheiro da grama, o perfume do seu cabelo, mirando o céu e vivendo juntos a nossa primeira vez de uma coisa, qualquer uma, alguma lembrança que seja só nossa e que permaneça. Porque a partir de agora, cada vez mais, suas experiências se tornarão as memórias que carregará pela vida. São seus ciclos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cada nova etapa, aprendemos a ser pai e mãe, de novo e de novo e tentamos habitar no universo que elas habitam. Achando sempre que é cedo demais para qualquer coisa. Sentindo sempre esse medo de que seja tarde demais para alguma coisa. Dedicamos-lhes preces. Nesses dias cansados, já nem me expresso, porque me faltam… só miro um desejo íntimo e profundo, só me empenho em navegar os pensamentos no que espero, no que gostaria e dirijo intenções para um céu alegórico. Deus, é isso, por favor, obrigado, assim seja.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mundo segue rendido diante de um vírus, paralisado, chorando com os que choram, celebrando a sobrevivência dos que ficam. A humanidade, aos tropeços, seguindo em frente, procurando curas, lançando foguetes e explorando novas fronteiras do espaço à procura de respostas e de vida. A vida, que a seu modo, continua acontecendo aqui, sob nossos tetos, onde residimos, onde resistimos, testemunhamos meninas se tornarem moças e o desabrochar da vida. E seguimos aprendendo a celebrar nossas pequenas conquistas, soprar velas e dançar com a existência que segue em seus ciclos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Março acabou faz poucos dias. Como em todos os anos, o fim do mês é marcado pelo aniversário de nossas filhas e uma chuva torrencial nos fins de tarde. Em casa, é uma correria desesperada para fechar as janelas e portas para que não batam e a água não molhe o piso e as cortinas. São as águas de março de Tom Jobim que tomei para mim como forma de marcar o tempo, de contar os anos, essa água torrencial que não controlo mas a quem teimo em resistir. O tempo leva tudo, a tempestade lava tudo. Mas os fins de tarde por aqui, depois de a chuva molhar os jardins, têm findado com o sol do outono que se precipita, o cheiro da terra úmida, o canto das maritacas procurando repouso nas árvores, a luz alaranjada atravessando a sala e um arco-íris que às vezes se projeta no céu, deixando Cecília radiante, nossos olhares cativos e a alma finalmente serena com essas poucas certezas que ainda nos restam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/universos-ciclos-e-um-arco-iris-no-final-da-tarde/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estadão</a>)</p>
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		<title>Vai passar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Mar 2021 10:17:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[O tempo vai passar.A pandemia vai passar.A ansiedade vai passar.O luto vai passar.Mais um dia vai passar.Um dia a gente vai voltar a passar……passar a roupa, passar crachá, passar o dia atrás de uma mesa.Esse governo vai passar.A revolta vai passar.E o bloquinho vai passar na avenida.Essa chuva vai passar.A nuvem de azar a passar.A [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">O tempo vai passar.<br>A pandemia vai passar.<br>A ansiedade vai passar.<br>O luto vai passar.<br>Mais um dia vai passar.<br>Um dia a gente vai voltar a passar…<br>…passar a roupa, passar crachá, passar o dia atrás de uma mesa.<br>Esse governo vai passar.<br>A revolta vai passar.<br>E o bloquinho vai passar na avenida.<br>Essa chuva vai passar.<br>A nuvem de azar a passar.<br>A nossa canção ainda vai passar na rádio.<br>Nosso casamento, de papel passado,<br>a história que passa diante dos olhos<br>e esse amor não passa nunca<br>A novela das oito vai passar de novo<br>e de novo vai passar.<br>Até a uva vai passar.<br>O cometa Halley já passou faz tempo, mas eu não consegui ver,<br>é com pesar.<br>As tardes vão passar.<br>Nas árvores vão pássaros.<br>O álcool gel eu vou passar.<br>Mantenha distância. Nem mais um passo.<br>Vai, gado, vai pastar!<br>O carro quebrado na esquina, é um Passat.<br>Mais um café? Eu passo.<br>Mais um perrengue pra passar.<br>O nome daquele livro? Vou te passar.<br>Essa ressaca vai passar,<br>mas não em um passe de mágica,<br>deixa que te passo um chá.<br>O sonho vai a passárgada.<br>O ônibus vai Passaredo.<br>A modelo já não tem passarela.<br>Meu time este ano passou em branco, errando passes, veio a passeio<br>e pelo jeito a má fase não vai passar.<br>Se a gente ficar passando tão perto,<br>o vírus vai continuar passando<br>e passando e passando e passando.<br>Passando.<br>Já passou da conta.<br>Mas vai passar.<br>Esse tempo vai passar.<br>Esse medo, esse aqui, vai passar.<br>A comida na geladeira, vai passar.<br>Os minutos de fama vão passar.<br>A senhora ali na rua, foi passear.<br>A noite escura da alma há de passar.<br>O tempo de um Brasil cheio de esperança é passado.<br>Mas vai passando,<br>num passo de cada vez.<br>Vai passar a década, o século, esse dia.<br>A história vai passar a limpo.<br>Sim, a gente vai passar por essa.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/vai-passar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estadão</a>)</p>
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		<title>Fiat lux</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Mar 2021 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[À noite, quando chovia e acabava a luz em casa era quase como um susto. Todo mundo parava onde estava, todos sabiam o que tinha acontecido, mas ainda assim alguém se prontificava em avisar que &#8216;acabou a luz!&#8217;, quase gritando, como se a falta de energia afetasse também nossa audição. Era um caos, mas era [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">À noite, quando chovia e acabava a luz em casa era quase como um susto. Todo mundo parava onde estava, todos sabiam o que tinha acontecido, mas ainda assim alguém se prontificava em avisar que &#8216;acabou a luz!&#8217;, quase gritando, como se a falta de energia afetasse também nossa audição. Era um caos, mas era bom. Ao menos era isso que as crianças achavam daquela interrupção momentânea da rotina. Tudo ficava limitado, o chuveiro ficava frio, a tv não funcionava, não tinha luz para ler gibis. A vizinhança inteira, sendo assistida pelas janelas, era aquela escuridão só. E com a escuridão, vinha um silêncio, tão incomum nas cidades. Tudo parecia uma pausa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O breu reduzia também o ruído, até que, aqui e ali, os pontinhos de luz provocados pelas chamas das velas iam aparecendo. Mas a luz fraca nunca era o bastante para irradiar, eram só pontos amarelos através dos vidros e a certeza de que ao redor daquelas chamas havia gente que, de repente, teve sua noite modificada pela ausência de algo que, tão constante que era, até parecia parte da linha de existência cotidiana. E as miudezas de cada mesa de cada casa sempre distintas no fim do dia, agora eram praticamente iguais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abria-se espaço para conversas intimistas ao redor das velas, as historinhas inventadas, os jogos e teatros de sombras na parede, a ida ao banheiro no escuro, a comida fria, o cheiro de fumaça e da parafina queimando, o medo do quarto ao lado que agora parecia um universo desconhecido e a gente ali, juntos, contemplando o silêncio e a escuridão e adquirindo um outro tipo de percepção do tempo, sem saber quando a luz seria restabelecida (poderiam ser minutos ou horas), racionando os tocos de velas dispostas nos pires de café e os adultos regulando as caixas de fósforos que as crianças insistiam em querer riscar para ver a pequena explosão de pólvora brilhar diante dos olhos, fiat fux, que era então só um nome escrito na caixinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A incerteza criava esse estado de suspensão, já que a luz nunca voltava em horário programado. Era sempre a surpresa de notar o repentino acender de um cômodo ou dois da casa, onde os interruptores haviam permanecido ligados, como se o brilho de algo novo surgisse, como se o mundo de novo acendesse e a gente fazia &#8216;oohhh&#8217;, sorrindo aliviados, com alguém avisando que &#8216;a luz voltou!&#8217; mas de um modo, algum modo, meio tristes com a interrupção daquele pequeno silêncio mágico. Porque se a luz abria cores para que pudéssemos enxergar com clareza, sua ausência revelava as paisagens que ficam sempre escondidas atrás daquele brilho todo que ofusca o silêncio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Escrito originalmente para o <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/fiat-lux/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estadão</a>)</p>
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		<title>Com que máscara eu vou?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Feb 2021 11:37:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8211; Oi… Oi. Alô? Você tá me escutando? &#8211; Oi, amor. Tô, sim. E você me ouve? &#8211; Sim. Dá pra ver direitinho a câmera? &#8211; Agora dá. Mas pare de tremer um pouco. &#8211; Pronto. Só queria apoiar o celular aqui, assim, pra te perguntar uma coisa. &#8211; O quê? &#8211; Você acha que [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Oi… Oi. Alô? Você tá me escutando?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Oi, amor. Tô, sim. E você me ouve?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Sim. Dá pra ver direitinho a câmera?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Agora dá. Mas pare de tremer um pouco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pronto. Só queria apoiar o celular aqui, assim, pra te perguntar uma coisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; O quê?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Você acha que essa camisa ficou boa?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Sim, tá bonita… você fica bem com essa cor. Põe aquela calça que te dei no Natal. Tem reunião?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; É. Coisa rápida. Aquele contrato que te falei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Sei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Agora, qual máscara combina melhor com essa roupa? Essa com bolinhas ou essa outra lisa, mais neutra?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Hum, não tem nenhuma xadrez ou listrada? Bolinha fica muito infantil, seu evento é mais formal, é bom parecer mais sóbrio, né?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não tenho. Mas tenho aquela que parece um mosaico, sabe? Colorida. Acho que está ali no varal e&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não! Aquela não. Parece uma mini colcha de patchwork.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Eu gosto. Foi minha avó que fez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Então.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Vou com a lisa então.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mas essa lisa não está no mesmo tom da sua roupa. Aí fica destacando muito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; E se eu comprar uma descartável na farmácia?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Só se for branca… aquela do tipo verde piscina não dá, né?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Verde Tiffany, ué.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não. Aquilo é verde parede de farmácia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Tá, esquece. E essa outra aqui? É das primeiras. Tem até um bico de pato na frente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Está desbotando. E essa puxa as suas orelhas pra frente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Acho que no fim dessa pandemia as minhas orelhas já estarão pra frente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; E aquela preta com arame?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ela tem uma costura na boca e fico parecendo o Hannibal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Fica mesmo. E a que você ganhou da empresa? Tem até uma marca estampada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; A máscara outdoor? Aquela embaça os óculos demais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Todas embaçam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; A de bolinha não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Peraí, mas você vai de óculos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Vou. Tenho que ler um negócio lá na reunião. Letras miúdas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Então não daria para ser xadrez. Seus óculos são redondos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Vixe. Tem isso também?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Me mostra aquela primeira de novo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Essa?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Isso. Acho que, no conjunto, é a que fica melhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; É?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Certeza. Eu acho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Então tá bom. Ou não… Obrigado pelas dicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Hum, viu… só uma coisinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Oi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; A máscara é essa mesmo. Eu só mudaria uma coisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; O quê?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; A roupa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/com-que-mascara-eu-vou/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Como se não houvesse ontem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Dec 2020 10:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Estava aqui pensando: e se 2020 não acabar? Vai que, em 31 de dezembro, noite de Réveillon, de repente o ponteiro do relógio vire meia-noite e ainda estejamos em 2020? Um dia 32, ou o primeiro dia de um novo mês ou, pior de tudo, um eterno 31 de dezembro cujo amanhã nunca chega. Um [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Estava aqui pensando: e se 2020 não acabar? Vai que, em 31 de dezembro, noite de Réveillon, de repente o ponteiro do relógio vire meia-noite e ainda estejamos em 2020? Um dia 32, ou o primeiro dia de um novo mês ou, pior de tudo, um eterno 31 de dezembro cujo amanhã nunca chega.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um tempo sem futuro. Tenho pensado sobre isso mais do que minha sanidade deveria permitir. Que sanidade? Afinal, dá para esperar qualquer coisa deste ano. E, tudo bem que, se a gente não ligar a TV ou fizer uma ceia, vai ser uma noite igual a qualquer outra noite de abril, junho ou outubro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comentei a respeito com o André, meu colega e ele riu. Mas só para depois confessar que uma outra ideia lhe ocorreu: &#8220;A gente poderia resetar esse ano&#8221;, ele disse, &#8220;tipo, vamos começar 2020 de novo e tentar outra vez? Aí a gente não contaria para os nossos filhos o que aconteceu na primeira tentativa&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele parece mais otimista do que eu. Se no meu pesadelo nossa existência não tem amanhã, na dele só não teria ontem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apagar o passado não é ideia nova. Na ficção científica, em dramas com personagens arrependidos ou num cenário hipotético de, sei lá, acontecer uma pandemia (rá! Já pensou? Que absurdo! A humanidade, em pleno século 21, passar por uma pandemia. Isso jamais aconteceria, né?).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um ano como este, o que a gente pensa é seguir em frente, virar a página do calendário e criar para si a ideia de que uma virada de noite traz consigo um significado profundo de renovação e o fim repentino dos nossos problemas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro dia &#8211; não me pergunte quantos, porque parei de contar os dias em meados de junho &#8211; estávamos em nossa bolha-móvel-motorizada-anti-corona passeando pela cidade quando passamos em frente a um restaurante. Havia uma multidão na calçada do lado de fora do estabelecimento. &#8220;Ninguém tá de máscara!&#8221;, exclamou minha filha de cinco anos num misto de indignação e inveja.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na sequência daquele estabelecimento, vimos outros tantos nas mesmas condições. E na sequência das semanas, nas excursões exploratórias que fazemos em nosso carro para além dos muros do condomínio em que vivemos, cada dia mais gente nas ruas, nos bares, em lojas. Ignorando as evidências, as recomendações e o fato de que os índices de contágio e mortes por Covid-19 jamais chegaram ao patamar necessário para que esse tipo de flexibilização fosse possível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Essa gente festejando nas ruas&#8221;, disse minha esposa, &#8220;como se não houvesse amanhã&#8221;. Eu olhei com cumplicidade e emendei &#8220;ou como se não tivéssemos vivido ontem, né?&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como se não houvesse ontem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pararam os boletins alarmistas com estatísticas diárias no plantão do telejornal. Sumiu o mapa de mortes com estados e cores vermelha, rosa e laranja no topo das capas dos sites de notícias &#8211; a verdade é que o número de mortes não pára de subir, mas eles já não significam a mesma coisa para nossos ouvidos. Cansamos. Cansamos dessa tragédia, de empilhar cadáveres, de ouvir que morrem todos os dias no Brasil o equivalente à queda de quatro aviões lotados, que já morreram mais pessoas por Covid nos EUA do que americanos vitimados nos combates da II Guerra Mundial, que o vírus não poupa atletas, crianças e jovens. Cansamos das imagens de valas comuns cheias de corpos, das cenas de hospitais com pessoas entubadas de bruços, das fotografias de caminhões frigoríficos armazenando e transportando mortos. Estamos exaustos de saber que a vacina, mesmo aprovada, ainda deve demorar. Já deu nas ventas essa coisa de usar máscara. Que saco usar máscara! Não queremos ouvir que governo X comprou milhares de ampolas e governo Y garantiu a compra de freezers. Se a vacina é da China, da Alemanha, do Paraguai ou da Papua Nova Guiné. E quantos porcento dizem que vão tomar versus os quantos vírgula tantos porcento que teimam que não vão. A gente cansou, já faz tempo, de tudo isso. Os sobreviventes, os que até agora não foram infectados ou que ficaram doentes e se curaram, esses todos cansaram. Quem tem razão, cansou. E quem nunca ligou à mínima para os fatos, também.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Survive is the new success”, disse o Seinfeld numa entrevista que escutei outro dia. Em um momento como esse, estar vivo parece mesmo uma grande conquista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, sobreviver, ainda que reserve a alguns o direito à alienação, não dá a ninguém o direito de minimizar as proporções da tragédia, de minimizar a memória dos que partiram, de desdenhar do sofrimento dos que perderam entes queridos, dos que sofrem confinados e dos que ainda sofrerão as consequências dessa pandemia, seja pelo efeito psicológico, seja pela crise em seus empregos e negócios. Não podemos voltar à rotina como se o amanhã não estivesse à nossa espera. E não podemos, tampouco, agir como se não tivesse havido ontem. Não é possível que a gente não vá aprender nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já li em algum lugar que crises não provam caráter. Elas o revelam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estou certo de que no futuro, em algum momento, minhas filhas irão se referir a este ano como história, um ponto no passado. Só não sei ainda que julgamento a história reservará para mencionar a forma como teremos passado por isso. Ainda não acabou. Mas, se 2020 se tornar o epicentro de uma transformação importante na forma como consumidos, como habitamos, como tratamos uns aos outros, poluímos e exploramos o ambiente ao redor, talvez, ainda que dolorosa, a tragédia não terá sido em vão e isso nos ajudará a evoluir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Faço assim uma prece. Com a esperança de que o amanhã será melhor para nossos filhos e que os próximos anos que virão, como a virada de noite que surge logo ali na esquina, serão o começo de um novo tipo de humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por via das dúvidas, faço também uma crônica para nossos filhos, assim de reserva, programada para o dia 1 de janeiro sob título &#8220;Reset: bem-vindo a 2020!&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/como-se-nao-houvesse-ontem/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estadão</a>)</p>
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		<title>Caixa de bonecas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Nov 2020 02:44:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Certo dia, ainda no primeiro ano de casados, a jovem esposa chegou do trabalho e notou três ou quatro sacos grandes de lixo cheios encostados na parede do pequeno corredor de entrada do apartamento. &#8220;Oi. Tudo bem? Hum, o que é isso?&#8221;, ela perguntou enquanto se espremia na parede para desviar dos sacos. &#8220;Oi. Foi [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Certo dia, ainda no primeiro ano de casados, a jovem esposa chegou do trabalho e notou três ou quatro sacos grandes de lixo cheios encostados na parede do pequeno corredor de entrada do apartamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Oi. Tudo bem? Hum, o que é isso?&#8221;, ela perguntou enquanto se espremia na parede para desviar dos sacos. &#8220;Oi. Foi tudo bem no trabalho? Ah, isso? Eu separei umas roupas velhas para doar&#8221;, o marido respondeu enquanto diminuía o volume da tv. &#8220;Que legal!&#8221;, ela disse com um sorriso motivador. &#8220;Nossa, eu tô morta hoje. Vou tomar um banho e já volto&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No trajeto de dois ou três passos que separava o corredor do quarto, ela voltou com o rosto intrigado e começou a abrir um dos sacos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Henrique?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Danou-se. Pensei antes de responder: &#8220;Hum… Oi!&#8221;. Ela tirou uma calça verde do saco e, sem olhar na minha direção, perguntou: &#8220;Por que tem roupas minhas nesses sacos?&#8221;. Danou-se mesmo. Tentei me defender: &#8220;Ah, amor&#8230; são coisas velhas. Eu olhei no armário e o que tá aí você já não usa há mais de seis meses. Tem roupa que eu te dei no começo do nosso namoro. Nem estão na moda.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquela noite, aprendi uma dura e definitiva lição sobre o prazo de validade das roupas. Naquela noite, minha esposa recém-casada passou a desconfiar que seu marido tinha TOC. Quase vinte anos depois, ela descobriu que eu tenho mesmo. Quer dizer, ela já sabia faz tempo. Quem descobriu fui eu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E nada coloca mais à prova minha mania de organização do que as três doces mulheres com quem divido o teto do recém mobiliado apartamento para o qual nos mudamos há poucos meses.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é de propósito, juro com os pés juntos e simetricamente alinhados. Sou um compulsivo contrariado. Outras pessoas que conheço com manias semelhantes, usufruem raro prazer ao ver um armário clamando por ordem, simetria e processo. Eu sofro. Não quero arrumar, eu preciso. Quando me dou conta, já estou entretido dando um jeito de arrumar livros, armários, estantes e prateleiras pela casa. Mas eu reclamo, o que só piora as coisas para elas. No fundo, adoraria ser um bagunceiro, um desordeiro, relapso. Esse tipo de gente rebelde que não dobra as roupas antes de colocar no cesto de roupa suja, esses anarquistas que não compram várias roupas da mesma cor para poder facilitar a organização da gaveta ou esses desleixados que não ordenam os ícones dos aplicativos de seus celulares por ordem alfabética.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Manu já é vacinada contra mim desde aquele fatídico dia (e ela faz questão de me lembrar o caso com boa frequência como medida preventiva). E Nina, nossa filha mais velha, agora que é adolescente, já não tolera minhas intervenções em seu quarto &#8211; até porque ela chama aquele protótipo de cenário de reality show de processo criativo para fazer suas lições e artes. Só me resta a Cecília, que aos cinco anos não reage negativamente às investidas sistemáticas que faço em seu guarda-roupas e caixas de brinquedos. Ainda. Por outro lado, é justamente ela, Cecília, o nome da pequena tempestade que atravessa nosso doce lar todas as tardes, fazendo com que brinquedos e roupas e papéis e acessórios e lápis de cor e livros e cabos e fragmentos de comida se espalhem por todos os cômodos e cantos. Outro dia, no café da manhã, eu comi um pedaço de ração canina achando que era uma rosquinha de côco quebrada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu pouco invisto no guarda-roupas. Concentro meus métodos nas caixas de brinquedos. Não basta dizer que aos cinco anos ela já acumulou mais brinquedos do que eu venho ganhando nos meus 39, é importante ressaltar que precisamos procurar um padrão taxonômico. São quatro caixas no total. A maior é dedicada a bonecas e acessórios, a outra para coisas de cozinha, a terceira armazena centenas de peças de Lego e na quarta ficam os jogos e aleatoriedades (coisas inclassificáveis, como um pote vazio de sorvete, uma gaita, massinhas e um carrinho). É claro que depois de algum tempo com tudo organizado &#8211; tipo, 30 ou 40 minutos &#8211; os brinquedos já estão fora das caixas e espalhados pela casa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na semana passada, entre uma reunião virtual e outra no meio da manhã e depois de me irritar com as notícias do dia, peguei um café na cozinha e, enquanto caminhava pela casa, passei em frente a porta do quarto dela e a ouvi brincando sozinha. Ela simulava uma conversa entre os personagens, com duas ou três vozes diferentes. &#8220;Oi, professora! Ah, sim, querida. Toma aqui, bebê. Ah, que cachorrinho mais lindo!&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A boneca estava conversando com uma peça de Lego, enquanto uma folha de papel amassada era lentamente cozida no fogãozinho. Um bloco de massinhas fazia vez de príncipe e um copo d&#8217;água exercia um papel qualquer na cena. Havia bolinhas de algodão fazendo as vezes de espuma e um pote de xampu tinha sido derramado em uma panelinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passei os olhos pelas caixas e as conexões que fazia entre cada objeto e seu suposto repositório, certo de que aquilo estava errado e precisava ser corrigido e… bem… fiquei ali observando e me dando conta, finalmente, de que na cabeça da minha filha objetos não são o que suas etiquetas determinam. Qualquer coisa é brinquedo e qualquer brinquedo é o objeto que ela quiser que seja. Sua imaginação infantil não determina a ordem regular que meu olhar impõe ao classificar e remeter cada item em sua devida caixa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lego não precisa encaixar com Lego… ela mistura peça de jogo de tabuleiro com boneca, uma pedra trazida do gramado com massinha e um pouco de macarrão crú. Então, uma casa, uma sala de aula, um planeta exótico e um universo todo se constroem na mente dela. Porque ela pensa de outro jeito, diferente dos padrões aos quais nos condicionamos e a “ordem natural das coisas” não é a ordem exata que eu calculei. E só então paro para reconhecer, contrariado, que as coisas não estão erradas só porque não estão do meu jeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentei ao lado da minha filha e ganhei alguns minutos mergulhando em sua fantasia enquanto brincávamos juntos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu quero organizar o mundo. Para além deste microcosmo doméstico que prefiro acreditar que administro, também alimento a certeza de que outras coisas também seriam melhores se fossem feitas à minha maneira. Ou, ao menos quero acreditar que existe um jeito desse caos político-social-educacional-moral-sanitário-espiritual-ambiental serem geridos com alguma decência e ordem. Deus certamente não tem TOC &#8212; e eu apelo bastante para ele. Mas, tão pouco qualquer uma das figuras públicas eleitas para nos servir &#8211; alguns ainda se dizem seus porta-vozes ou escolhidos &#8211; e que deveriam colocar ordem nessa bagunça, parecem minimamente preparadas para colocar as coisas nas caixas que em deveriam estar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O agravante é que, na maior parte do tempo, nós somos as coisas, os brinquedos com o quais eles se divertem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marionetes. É o título de uma crônica escrita por Rubem Braga que me veio à mente enquanto brincava com Cecília naquela manhã. Lá em 1948, ele escreveu:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8220;O menino ganhou uma grande caixa vermelha vinda de Praga. Dentro há um teatrinho de marionetes&#8221; (&#8230;) O menino, então, leva horas, sozinho, a mexer com os bonecos. Puxa-lhes os cordéis, faz com que briguem, se abracem, ou desmaiem. Depois chegam outros meninos e começa a representação. Não escreveu, nem sequer imaginou nenhuma peça. Vai inventando. E assim, ao acaso, lança os personagens no palco, pegando às vezes o que está mais perto, seja capeta, mulher ou guerreiro antigo. Inventa falas, improvisa enredos, cria situações terríveis que resolve muito naturalmente com sua prepotência de pequeno deus. Quando está cansado de um personagem, seja a Morte ou seja o Rei, faz com que outro lhe aplique uma surra e o expulse de cena &#8211; ou simplesmente o lança fora, sem explicar por que veio, nem por que se foi. Como tem uma vitrolinha francesa, faz com que tudo isso aconteça ao som de &#8216;Au clair de la lune&#8217; ou Sur le pont d&#8217;Avignon&#8217;. E haja o que houver tudo acaba sempre muito bem como bonecos dançando e o dragão a abanar alegremente o rabo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>As crianças fazem demasiado barulho. Fecho a porta do escritório, volto a ler meus jornais. Pacientemente percorro os telegramas das agências, o noticiário da Câmara, as audiências do senhor presidente da República, noticiário de institutos, editoriais sobre a situação de Berlim, sobre o preço do café… E tudo isso é também absurdo; há enredos estranhos, personagens que entram e saem ninguém sabe por que, ministros, bailarinas, moleques…</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Tenho vontade de ir lá dentro chamar o menino, entregar-lhe o Brasil e o Mundo, pedir-lhe para organizar, com todos esses bonecos terríveis e gaiatos, uma história mais coerente e mais divertida.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se há um jeito para as coisas se ajustarem, não está na forma como têm sido feitas por nós. Cecília &#8211; e nossas crianças &#8211; talvez tenha a resposta, tenha um caminho, com seu olhar infantil que não enxerga caixas, fronteiras, preconceitos, que não limita coisas aos seus rótulos e personagens às suas funções. E nossa luta deveria ser para que jamais perdessem essa perspectiva e para que pudessem crescer preservando seu direito inegociável de reinventar e narrar suas histórias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não creio que elas seriam capazes de salvar o mundo agora, mas certamente ele seria um lugar mais divertido. E bagunça por bagunça, eu ainda prefiro brincar de marionetes do que continuar sendo uma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/caixa-de-bonecas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">no Estadão</a>)</p>
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		<title>O livro chegou!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2020 00:57:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Queridos, o livro chegou por aqui :-) Estou com meu exemplar em mãos, recém saído do forno, as cores vivas e aquele perfume convidativo das páginas ainda não desbravadas. A edição ficou mais bonita do que imaginei. Já está à venda no site da Livraria Martins Fontes, da Cortez Editora, em pré-venda na Amazon e, [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Queridos, o livro chegou por aqui :-)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estou com meu exemplar em mãos, recém saído do forno, as cores vivas e aquele perfume convidativo das páginas ainda não desbravadas. A edição ficou mais bonita do que imaginei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já está à venda <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.martinsfontespaulista.com.br/nem-que-a-vaca-tussa--922959/p" target="_blank">no site da Livraria Martins Fontes</a>, da <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.cortezeditora.com.br/produto/nem-que-a-vaca-tussa-2331" target="_blank">Cortez Editora</a>, <s>em pré-venda</s> <a rel="noreferrer noopener" href="https://amzn.to/35GKHEb" target="_blank">na Amazon</a> e, a partir de 26/10, estará disponível na sua livraria favorita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falando em livrarias, o lançamento oficial será neste sábado. Se você está no grupo de pessoas que já têm se aventurado a frequentar lojas, fica aqui o convite: sábado (24/10), entre 14h e 17h na livraria Martins Fontes da Paulista (Av. Paulista, 509), os livros estarão lá para venda. Flavio Remontti e eu estaremos por lá autografando exemplares e tocando cotovelos com quem aparecer. Na loja, entrarão apenas cinco pessoas por vez e nós dois estaremos devidamente mascarados, distantes e alcoolizados (ops, &#8220;alcoolgelizados&#8221;), respeitando os protocolos necessários nesse momento que todos enfrentamos. Caso possa comparecer, será um grande prazer conversar e rever pedaços de rostos conhecidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, o mais importante: se você comprar o livro e uma criança perto de você ler a história (a criança pode ser você, claro), ficarei muito feliz em saber o que ela achou. Me escrevam :)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abraços e mugidos,<br>Henrique <img src="https://s0.wp.com/wp-content/mu-plugins/wpcom-smileys/twemoji/2/72x72/1f42e.png" alt="🐮" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /></p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;</p>



<p class="wp-block-paragraph">PS 1: É a segunda vez que publico um livro e a sensação maravilhosa de ver o projeto pronto é a mesma (aquela história: ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Imagine isso tudo duas vezes?). Mas, é evidente que este não é, nunca, um trabalho solo. Eu preciso agradecer a tanta gente que certamente vou incorrer no erro de esquecer alguém importante (tentarei ser justo, mas já peço desculpas de antemão). Obrigado, sempre, à minha Manu (você é quem tem mais que minhas palavras). Obrigado também pela primeira leitura de tudo, pelo incentivo, pelo amor, por aturar minhas dúvidas e inseguranças e ideias e destemperos e ansiedade e por corrigir minhas vírgulas. Às minhas filhas, Nina (que disse que essa história valia a pena ser contada) e Cecília (que disse que o livro é só pra ela) que&nbsp; que me fazem querer inventar e contar histórias só para ver algo novo brilhando em seus olhos. Aos meus pais e irmãos, por todos os livros, cadernos, lápis e pela infância que me deram. Aos familiares e amigos queridos que leem as bobagens que escrevo e dão grande prova de afeto ao ler, comentar, encorajar, passar adiante, dar espaço para os textos em veículos de mídia e ao enviar os originais para editores. Ao querido Cláudio Fragata, que acendeu a faísca que essa história precisava e a acompanhou até que ficasse pronta (mesmo nas horas extras em cafés da manhã nas padarias da cidade) e aos colegas da oficina que acompanharam a saga. Obrigado, claro, ao Amir Piedade, Elaine Nunes, Miriam Cortez e toda turma da Cortez Editora. E obrigado, Flávio, por topar embarcar nessa história e dar rosto, cores e vida ao Cuca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PS 2: A Cortez é coisa fina. O livro tem booktrailer também: </p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=IBmtoeYv0Vo&amp;feature=youtu.be">https://www.youtube.com/watch?v=IBmtoeYv0Vo&amp;feature=youtu.be</a>&nbsp;</p>
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		<title>Primeiras palavras</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Oct 2020 13:15:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Estava sentado na cozinha tomando um café e conversando com a Manu quando Cecília, nossa filha mais nova, chegou com um pedaço de papel dobrado nas mãos. &#8211; Pai, olha, eu escrevi uma história. &#8211; Jura, Cici? Que máximo! Quero ver. &#8211; Tó. Lê pra mim? Olhei o conteúdo com atenção: uma página de caderno [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Estava sentado na cozinha tomando um café e conversando com a Manu quando Cecília, nossa filha mais nova, chegou com um pedaço de papel dobrado nas mãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pai, olha, eu escrevi uma história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Jura, Cici? Que máximo! Quero ver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Tó. Lê pra mim?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhei o conteúdo com atenção: uma página de caderno pautada cheia de rabiscos e bolinhas cuidadosamente enfileirados por quase 10 linhas. Tentei me esquivar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Filha, leia você. Foi você que escreveu, né? Quero saber o que tem na história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem mais, ela rejeitou o papel dizendo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pai&#8230; eu já sei escrever. Mas ainda não aprendi a ler.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De uns tempos para cá, ela tem reclamado que não sabe ler. Conhece as letras, junta umas sílabas aqui e ali, escreve nossos nomes e algumas coisinhas, mas vê a irmã mais velha devorando tijolos de 400 páginas no quarto à noite e corre com seus livrinhos em mãos indignada:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Por que só a Nina sabe ler e eu não?!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Você ainda vai aprender, Cici. A Nina já tem 13 anos, você tem cinco. É por isso que você vai à escola.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mas eu não quero aprender na escola! Eu quero saber ler hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela não quer que a gente leia as histórias para ela. Ela não quer estudar o abecedário ou ser guiada por métodos fônicos ou globais. Cecília quer ler, por download, upgrade de software, osmose ou milagre. Às vezes, finge que sabe, pega um livro, senta no sofá, abre numa página aleatória e fica narrando em voz alta uma história inventada para si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu lembro dessa fase. A atitude dela nesses dias me leva num mergulho também em meus quatro ou cinco anos, na Era pré-Xuxa, nos Anos Bozo, pouco antes de ingressar na escola, e eu tinha inveja do meu irmão mais velho por dois motivos: ele tinha um par de Kichutes (cujo cadarço era tão grande que daria uma volta completa no quarteirão) e lia gibis sozinho deitado no sofá da sala à tarde. Minha mãe, ao lado dele, se entretia com agulhas de tricô e livros. E mais do que aquelas agulhas enormes tilintando e fazendo nós em fios de lãs, eram os livros que me intrigavam. Queria entender o que aquele monte de letras enfileiradas significava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mãe, o que você está lendo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; A gata triste – ela disse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Achei estranho. Ela lia vários livros sobre aquela pobre gata infeliz. Anos mais tarde, escutei uma referência sobre os 79 livros publicados pela escritora inglesa Agatha Christie e dentro de mim um enigma pendente se resolveu finalmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tal como minha filha, aprender a ler foi uma ideia fixa que me acompanhou na primeira infância. Sozinho, me distraia juntando as letras. Tenho lembranças nítidas do dia em que invadi o banheiro onde estava minha mãe com a descoberta que mudaria tudo dali para frente: “Mãe, se V com A dá VA e C com A dá CA, então se eu juntar VA com CA dá VACA?”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquela hora, viajei dali para outro mundo. E um universo inteiro, novo, de páginas e histórias, se abriu para mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mary França e Eliardo França foram os autores dos primeiros livros que consegui ler sozinho, mas “O Menino Maluquinho”, em uma edição que guardo até hoje, foi minha primeira conquista ao terminar um livro com mais de 20 páginas &#8212; o que soaria como concluir uma maratona para alguém acostumado a fazer caminhadas. Naqueles tempos, o Magnum, o Careca e o Ziraldo eram uma espécie de heróis para mim. O Ziraldo ainda é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde então, não tenho lembranças de andar sem ter um livro como companhia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando Nina nasceu, Manu e eu líamos histórias para ela à noite, a presenteávamos com livros de todo tipo e eu nutria um desejo quase obsessivo para que ela se tornasse uma leitora. Nunca disse isso em voz alta, mas sinto que minhas filhas podem até rejeitar todo meu legado como pai (devo ter algum, eu acho) mas não ser uma leitora voraz não é uma opção. E Nina não desaponta. No último dia dos pais, me escreveu uma cartinha onde, entre versos e votos, consta uma frase assim: “obrigada por me mostrar mundos em livros”. Ela tem desbravado seus próprios mundos agora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, quando vejo a Cecília andando pela casa com uma pilha de livros nos braços, descaradamente extraviados do criado-mudo da mãe (maior vítima de seus assaltos literários) e tentando decifrar os códigos passando os dedos miúdos sobre as palavras naquelas páginas, penso com gratidão no privilégio de nossas filhas por ter acesso a livros desde cedo. E, com um sorriso incontido, penso no momento em que VA e CA se unirão em sua mente no estalo definitivo. Há muita coisa nisso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Palavras são o principal instrumento pelo qual nossa espécie se comunica. E desde que surgiu há cerca de 6.000 anos, o registro escrito de experiências e ideias têm sido a principal forma de perpetuação de aprendizados, histórias, sentimentos e desejos. O que surgiu como forma de transmitir informações na parede de uma caverna ou no casco de uma tartaruga, é agora também uma expressão artística.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha filha não está errada. Ela quer compreender e desbravar novos mundos. Talvez entenda, de algum jeito, que há mistérios a serem decifrados ali. Que tem um rito de amadurecimento e um certo poder em saber ler. E certamente ela vai descobrir quão longe sua imaginação pode levá-la à medida que for tocada pelo poder das palavras e transportada para lugares novos através de um simples virar de páginas. O que, no caso dela, será quase um reencontro, porque a infância carrega em si essa pureza da expressão, um deslumbramento que a arte é capaz de nos dar e que perseguimos vida afora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há muito dessas crianças em nós. As que fomos um dia, as que desejamos ter sido, as que carregamos nas lembranças distantes. Há essas duas crianças ao nosso redor, nossas meninas crescendo, motivando nossas preces, nos deslocando do eixo e em quem projetamos tantas exageradas expectativas. Há o desejo de que possam crescer e se tornar mulheres felizes e saudáveis. Há em nós, mãe e pai, o sonho de vê-las seguirem a vida fora de nossas asas, para além do que nós seremos capazes de ir, voando mais alto do que o limite que alcançaremos e lendo Guimarães Rosa com a alegria estampada nos lábios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poucas coisas são tão belas do que testemunhar uma criança aprendendo algo novo. Talvez esse seja um presente inerente à paternidade. E nesses instantes, quando os olhos delas se abrem, acende em nós aquele desejo de que a partir dessas descobertas elas passem a viver suas próprias histórias, que se tornem protagonistas de sua existência, que sonhem e sonhem, que lutem por nobres causas, que criem para si novos reinos, novos planos, universos inteiros de possibilidades que surgirão à medida que descobrirem o mundo e traçarem, a seu modo, as primeiras palavras em uma página em branco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Crônica publicada originalmente <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/primeiras-palavras/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">no Estadão</a>)</p>
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		<title>Meu novo livro!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Sep 2020 23:46:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Amigos queridos, estou lançando meu segundo livro. Dessa vez uma história infantil, minha primeira incursão no ramo da literatura que mais gosto. Desde que aprendi a ler, comecei a inventar histórias. E quando criança, tanto quanto gostava de ler e colecionar livros, também sonhava um dia poder escrevê-los. Carrego comigo a lembrança da primeira vez [&#8230;]]]></description>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" width="744" height="1024" data-attachment-id="3766" data-permalink="https://luizhenriquematos.com/capa-nem-que-a-vaca-tussa/" data-orig-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2020/09/capa-nem-que-a-vaca-tussa.jpeg" data-orig-size="930,1280" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="capa-nem-que-a-vaca-tussa" data-image-description="" data-image-caption="" data-large-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2020/09/capa-nem-que-a-vaca-tussa.jpeg?w=744" src="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2020/09/capa-nem-que-a-vaca-tussa.jpeg?w=744" alt="" class="wp-image-3766" srcset="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2020/09/capa-nem-que-a-vaca-tussa.jpeg?w=744 744w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2020/09/capa-nem-que-a-vaca-tussa.jpeg?w=109 109w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2020/09/capa-nem-que-a-vaca-tussa.jpeg?w=218 218w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2020/09/capa-nem-que-a-vaca-tussa.jpeg?w=768 768w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2020/09/capa-nem-que-a-vaca-tussa.jpeg 930w" sizes="(max-width: 744px) 100vw, 744px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Amigos queridos, estou lançando meu segundo livro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa vez uma história infantil, minha primeira incursão no ramo da literatura que mais gosto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde que aprendi a ler, comecei a inventar histórias. E quando criança, tanto quanto gostava de ler e colecionar livros, também sonhava um dia poder escrevê-los. Carrego comigo a lembrança da primeira vez em que entrei em uma biblioteca e pensava, aos seis anos, nas pessoas que tinham escrito aqueles livros todos. Há alguns anos, o nascimento das minhas filhas e os momentos de leitura em família, resgataram da estante as minhas obras favoritas da infância &#8211; que carrego comigo ainda hoje &#8211; para serem lidos ao pé da cama com as meninas. Nessas noites, foram surgindo novos personagens, histórias e o resgate daquele desejo de escrever os livros que me um dia me levaram a gostar de ler.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O livro se chama &#8220;Nem que a vaca tussa&#8221; e conta a história do Cuca, um garoto de oito anos que mora em um apartamento com os pais e a irmã recém-nascida. O pai do Cuca mantém em um dos quartos uma rara e elegante coleção de brinquedos. Mas o menino não pode entrar no quarto, não pode chegar perto da estante, não pode, claro que não, nem encostar nos brinquedos&#8230; &#8220;nem que a vaca tussa&#8221;, diz o pai. E falando em vacas, no alto da estante, bem na prateleira de maior destaque, tem uma vaquinha de madeira que fica dentro de uma redoma iluminada. Cuca é um menino obediente, sempre seguiu as orientações do pai. Até que um dia&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O livro está sendo editado pela Cortez Editora, que teve a irresponsabilidade de me oferecer um contrato. E tem ilustrações primorosas do Flavio Remontti, o que já faz o preço de capa valer cada centavo. A partir da próxima semana, estará em pré-venda na Amazon e no dia <s>12/10 (Dia das Crianças)</s> 20/10 disponível em todas as livrarias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na próxima semana, postarei mais detalhes. O que eu queria agora era poder compartilhar e comemorar essa novidade com vocês que, por curiosidade, misericórdia, interesse ou masoquismo, leem o que escrevo por aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até!<br>Henrique</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ATUALIZAÇÃO</strong> (10/10): o livro está em pré-venda na Amazon (<a rel="noreferrer noopener" href="https://www.amazon.com.br/vaca-tussa-Luiz-Henrique-Matos/dp/6555550295/ref=sr_1_1?dchild=1&amp;qid=1602386285&amp;refinements=p_27%3ALuiz+Henrique+Matos&amp;s=books&amp;sr=1-1&amp;text=Luiz+Henrique+Matos" target="_blank">neste link</a>) e no <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.cortezeditora.com.br/produto/nem-que-a-vaca-tussa-2331" target="_blank">site da Cortez Editora</a> (com desconto de 40% até dia 12/10).</p>
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		<title>Abra seu spam</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2020 20:14:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[“O que o mundo precisa, é de mais amor”, diria Cabo Daciolo. Recebi, hoje, uma mensagem de spam que era uma nota de falecimento. Em geral, implacável com mensagens indesejadas, nesse caso não fui capaz de enviar para o lixo um email que trazia no título a notícia “NOTA DE FALECIMENTO”, em letras garrafais. Abri. [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">“O que o mundo precisa, é de mais amor”, diria Cabo Daciolo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recebi, hoje, uma mensagem de spam que era uma nota de falecimento. Em geral, implacável com mensagens indesejadas, nesse caso não fui capaz de enviar para o lixo um email que trazia no título a notícia “NOTA DE FALECIMENTO”, em letras garrafais. Abri. E um certo sindicato do qual nunca ouvi falar comunicava, com profundo pesar, que Dona Fulana, esposa do aposentado Ilmo Sr. Fulano e mãe do caríssimo Sr. Fulano Filho, falecera no último dia 28.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E com essas duas frases breves acabava a nota. Praticamente um telegrama eletrônico. No rodapé da mensagem, constava o endereço do sindicato, localizado em algum bairro na cidade do Rio de Janeiro, e os links das redes sociais com o convite “Curta nossas mídias sociais e fique por dentro!”, convidavam festivamente. Resisti à tentação de ficar por dentro do que acontece no dia-a-dia daquele sindicato, mas só porque me distraí pensando em Dona Fulana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Morreu como, a pobre? Com que idade? Foi durante o dia em algum hospital da cidade ou à noite, em casa com o marido? Estava acompanhada? Fiquei com os pensamentos presos ao filho que ela deixou, talvez alguns netos que o email tenha negligenciado e especialmente no marido aposentado, o Ilmo, agora sem sua senhora para dividir os longos dias da quarentena, as partidas de tranca, as sonecas depois do almoço. Ele também no grupo de risco, isolado durante a pandemia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era um nome, em um email que recebi, que chegou por engano. Mas aquele já não era um nome pelo qual alguém poderia chamar em voz alta hoje, ela era lembrança. Lembrança que não tive, rosto que nunca vi. Mas agora era dor, era saudade, memória para os dois homens que já não tinham entre si aquela mulher a quem pertenceram. Em mim, não doeu, evidentemente. Mas a reflexão da perda alheia, do sofrimento alheio, da saudade de alguém por outrem, me fez parar por uns instantes e desejar que fossem consolados por Deus de alguma forma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando os números viram nomes, as pessoas se conscientizam”, disse um amigo na última sexta-feira referindo-se às centenas de mortes diárias que somamos mais como relatório contábil do que obituário. Dona Fulana é um nome. As circunstâncias em que faleceu, não sei dizer, mas para quem sofre a perda, é a perda a causa da dor e não a doença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos mais de cem mil outros nomes no país sendo registrados entre os que partiram vitimados por um vírus &#8211; por um vírus e pela negligência dos que minimizam seus efeitos. E temos esse número multiplicado por outros tantos de pais, mães, filhas, netos, amigos, vizinhas que perdem seus queridos neste duro momento que enfrentamos e que agora ficam sem poder se despedir, sem que haja um funeral em honra dos que se foram. O ritual de despedida entre seres amados, o choro final. Porque corpos não são coisas. E nós, seres humanos, temos na cultura do sepultamento algo que nos distingue de outras espécies.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E agora centenas de corpos são empilhados todos os dias em nosso país.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há mortes inevitáveis, claro. Por Covid ou tantas outras tragédias, pessoas morrem todos os dias. Mas, não é possível tolerar uma morte evitável. Nenhuma. E qualquer gesto, atitude ou expressão que tenhamos que negligencie o cuidado com o próximo, o zelo pela vida humana, que exponha alguém a um risco que poderia ser evitado, é mais do que irresponsabilidade, é reduzir o valor sagrado da vida. É dizer que há pessoas que valem menos, que em favor de certos benefícios ou privilégios, é aceitável que se percam vidas. Isso é a barbárie, é a espécie humana perdendo sua humanidade em favor de ideologias e debates tolos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até que a morte bata à sua porta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não quero discutir as vidas de milhares hoje. Gostaria de conseguir discutir cada vida. Uma. A mãe. A esposa. Ela, que aqui deixou os que amava. Há um nome. Que poderia ser de alguém que divide o teto com você.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Precisamos lutar para evitar o sofrimento evitável. Precisamos falar de amor. É um pedido: ame.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ame especificamente. Não dá para amar de forma genérica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ame alguém, ame cada um, cada uma &#8211; seja você o amor para uma pessoa hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com um gesto, uma palavra, com seu tempo, seu dinheiro, trabalho, com um ombro disponível, uma chamada de vídeo ou troca de mensagens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ninguém ama a humanidade toda. E é fácil amar a humanidade toda uma vez que isso não implica em ter que lidar com as falhas, diferenças, dores e contradições de um relacionamento pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ame de forma específica e individual. Ame seu próximo. Seu próximo é todo aquele que você acha que é e ainda aquele que você gostaria que não fosse. Ame o sujeito sem máscara na rua, ame a ativista enclausurada, ame o idoso que sofre no hospital, ame a família ajoelhada na calçada à espera de notícias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ame uma pessoa hoje. Isso fará tudo melhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não salvaremos o mundo de uma pandemia, mas poderemos salvar a vida de alguém durante esse caos em que estamos. Todos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;<br>(Publicado originalmente em <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/abra-seu-spam/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">meu blog no Estadão</a>)</p>
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		<title>O ano possível</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2020 01:44:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Não está nada normal. Não tem &#8220;novo normal&#8221; nenhum. A gente ainda está no meio do caos, no auge de uma pandemia, pessoas morrendo às centenas diariamente e autoridades perdidas. Isso não vai ser normal para ninguém, nunca, eu espero. Sempre fui ligeiramente anti-social. Grandes aglomerações de qualquer tipo, dessas com sete ou oito pessoas, [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Não está nada normal. Não tem &#8220;novo normal&#8221; nenhum. A gente ainda está no meio do caos, no auge de uma pandemia, pessoas morrendo às centenas diariamente e autoridades perdidas. Isso não vai ser normal para ninguém, nunca, eu espero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre fui ligeiramente anti-social. Grandes aglomerações de qualquer tipo, dessas com sete ou oito pessoas, me incomodam. Tenho dificuldade até em receber massagens porque me soa estranho a ideia de alguém encostando em mim e cutucando partes do meu corpo com os dedos. Mas nesses dias, confesso, tenho sentindo falta de uma muvuquinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sinto falta de jogar aquele futebolzinho às quintas-feiras (que eu nunca joguei). Vontade incontida de ir a um show em estádio de uma banda qualquer, de fazer um passeio na rua 25 de Março no sábado pela manhã e navegar naquele mar infinito de pessoas descendo a Ladeira Porto Geral, de me acotovelar na feira do bairro para escolher tomates e tomar um ônibus sem a certeza de que não sairei pela porta dos fundos contaminado por algum vírus. Mas, só sinto falta porque não posso, só tenho esse desejo em alguma fantasia distante porque, de algum jeito, esse direito me foi privado. Estivesse qualquer dessas opções à disposição, eu pagaria 50 reais para me ver livre delas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este, no entanto, não é o ano do desejo, nem dos sonhos realizáveis. Este é o ano do que é possível, tempo de fazer o que dá, de aceitar um pouco menos, de fazer concessões e entender que estamos limitados. Só para não pirar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É assim que tenho chamado esse momento aqui em casa e procurado consolar as meninas quando batemos com a cara na muralha da frustração. Porque não tem dado mesmo para planejar as coisas. E com isso, a gente vive um dia de cada vez &#8211; ainda que eles sejam todos praticamente iguais &#8211; como o casal da letra de Cotidiano, música do Chico que, a propósito, substituiu o som do alarme do meu despertador. Todo dia fazemos tudo sempre igual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse é o tempo em que a gente realmente não vai dar conta. E teremos que aceitar o desapontamento de não ter a festa de aniversário, não ter sessões de cinema, não ter familiares em casa no almoço de domingo, de não poder ir e vir quando e para onde queremos. E vai ter que estar tudo bem assim, porque é o que tem pra hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leio que tem muita gente ficando ansiosa nesses dias. Eu, que já sou ansioso, estou me sentindo normal agora, quase conformado. E estou percebendo que mesmo antes eu já não dava conta, eu já não era capaz de abraçar todas as coisas que gostaria e nem realizar tantos planos quanto anotava no caderno. Mas eu me enganava achando que daria, sim, e de que era capaz. Agora, parece que a vida é só a realidade, só o presente, apenas a rotina matutina de selecionar o que é essencial a ser feito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quando olhamos para o lado e fazemos essa breve pausa para reordenar as ideias, notamos que na maior parte das vezes o que é essencial de fato estava aqui com a gente o tempo todo. E me resigno dentro de minhas limitações, compreendo a particularidade das circunstâncias e me conforto nos braços de minhas meninas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Ano Possível. É assim que tenho chamado este tempo para ter algum conforto pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Você, chame como quiser. Só não me diga que isso agora é normal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/o-ano-do-possivel/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estadão</a>)</p>
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		<title>Lucy está meio perdida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jun 2020 21:17:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Lucy, nossa cadela, anda meio perdida. Mudamos de apartamento há pouco mais de um mês e ela ainda está estranhando o novo ambiente e os espaços da casa. Era uma mudança já agendada e precisou acontecer no meio da quarentena. Nossa sorte foi que a mudança aconteceu dentro do mesmo condomínio de prédios em que [&#8230;]]]></description>
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<p class="wp-block-paragraph">Lucy, nossa cadela, anda meio perdida. Mudamos de apartamento há pouco mais de um mês e ela ainda está estranhando o novo ambiente e os espaços da casa. Era uma mudança já agendada e precisou acontecer no meio da quarentena. Nossa sorte foi que a mudança aconteceu dentro do mesmo condomínio de prédios em que já morávamos. Ainda que sob o teto o ambiente todo seja diferente, a paisagem lá fora e a vida ao redor segue igual. Mas Lucy tem sete anos e todos os dias, quando descemos para caminhar, ela ainda se confunde com o lado para onde deve sair. E na volta, pobrezinha, força a condução do passeio para a porta do elevador do antigo prédio em que morávamos, cheira o tapete e me olha, esperando que eu aperte o botão (com o cotovelo, importante dizer) e suba para o lugar que ela acostumou a entender como casa. Está perdida ainda, coitada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde a mudança, eu acordo no meio da noite e fico tentando lembrar onde estou. Na penumbra, reconheço as novas paredes pintadas de branco, a porta do banheiro e depois de alguns instantes me dou conta de que nos mudamos. A Manu pediu para que, na casa nova, trocássemos de lugar na cama. Quando viro para dormir, viro para o lado certo, com a barriga apontando para fora, mas ainda sinto que é o lado errado, porque o peso está sobre outro ombro. Então ouço um ruído e me dou conta de que a Lucy está dormindo (e roncando) na porta do nosso quarto. No outro apartamento ela costumava dormir na sala. Eu viro para o outro lado e tento dormir. Pobre Lucy, ela anda meio confusa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meus cotovelos, tornozelos e dedos dos pés estão doloridos. Já esbarrei involuntariamente em maçanetas, cantos de paredes, armários e pé da cama. Meti a testa em dois lustres diferentes e no canto de um armário da cozinha. Até a orelha &#8211; sim, a orelha esquerda &#8211; eu consegui bater na parede. Pois é, bati a orelha esquerda na parede ao tentar pegar uma caixa de papelão outro dia (e eu tenho sonhado com caixas de papelão, minhas roupas cheiram a papelão, meu perfume atual é um aroma que mistura pó, tinta Suvinil e caixa de papelão). E ainda que isso revele um bocado sobre pessoas distraídas, para mim é uma necessidade de adquirir uma adequada noção de ambiente, compreender limites e adaptar os sentidos à massa espacial desta casa em tudo nova. Lucy, nossa cadela, tem passado dias sem comer a ração ou beber água. Só abre exceções quando as meninas fazem pipoca e ela fica ao redor aguardando as sobras, mas me preocupa sua falta de apetite. Está meio desorientada, a Lucy.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos móveis novos, uma rede e uma estante para meus livros, armários e um sofá novo na sala. Há mais espaço agora do que antes. Pela primeira vez desde que começamos nossa família, fizemos uma reforma seguindo o sonho de casa que alimentamos nesses anos. Olho para essas novas superfícies, texturas e cheiros e, de algum jeito, fico esperando o momento em que os móveis serão presenteados com pequenas marcas descascadas dos patins que acidentalmente os ataquem, o sofá intacto ganhará manchas de chocolate e a porta da geladeira se encherá de ímãs com os telefones do açougue e da padaria e desenhos das meninas pendurados. Há certa expectativa, confesso, pela poeira sobre o móvel que envelhece, pelas manchas nos rejuntes, pela água escorrendo sob o vaso de manjericão na varanda. Mesmo minha obsessão por organização aguarda, levemente ansiosa, por brinquedos espalhados pelo chão da sala, por pias de banheiros desarrumadas e por ver meus livros sendo sequestrados da estante e distribuídos por outros cômodos (ato esse que, tenho certeza, é uma conspiração das três mulheres da minha vida para colocarem minhas obsessões à prova). Há nessas coisas, nesse acúmulo de desordem e tempo, o esperado processo que transforma uma casa em lar, o mero convívio em relacionamento e até um confinamento familiar em cumplicidade. Durante o dia, a Lucy passou a dormir em cima dos meus pés enquanto trabalho na escrivaninha. Entendi que ela precisa de algo que remeta à sua história, àquilo que é linear e imutável, para que se sinta acolhida. Cães são seres irracionais, afinal. Mas logo ela se adapta, a Lucy.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ontem, acordei e vi uma nesga de sol invadindo o quarto pela janela. O céu de outono é bem azul. Tomamos o café, pendurei a rede na parede e Cecília quis subir para balançar. A Nina estava ouvindo música e Manu estava trabalhando na sala. Eu quis ler, peguei uns quatro livros e fiquei andando pela casa em busca de um canto onde me largar. Todos os cantos então me pareciam ótimos. O dia parecia finalmente ter um ritmo coordenado com o relógio que tilinta seus ponteiros dentro da mente da gente e as coisas todas estavam no lugar em que deveriam estar. O peito se encheu de repouso e a alma de gratidão. Estamos todos juntos e bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minutos depois, calcei meu par de tênis, vesti a máscara, peguei a coleira e levei a Lucy para passear. Andamos pela rua aqui embaixo por quase uma hora enquanto o sol refletia sobre a pelagem dourada dela, que insistia em cheirar cada palmo de terra à sua frente. Na volta, quando nos aproximamos do antigo prédio onde morávamos, ela passou reto pela entrada e seguiu puxando a guia apressada até a entrada do nosso novo elevador. Subimos, entramos em casa, soltei a coleira e ela correu até seu prato para beber água e comer. Depois, encontrou um canto com sol na varanda, deitou por ali e dormiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo está começando a entrar de novo no lugar para a Lucy.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;<br>(Texto publicado originalmente <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/lucy-esta-meio-perdida/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">no Estadão</a>)</p>
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		<title>O que ele disse?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Jun 2020 23:26:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8211; Olha isso aqui. Você viu isso, amor? Entrei na cozinha pela manhã, ela estava preparando uma tapioca no fogão enquanto segurava o celular em uma das mãos. Virou o aparelho para mim e mostrou a tela. Limpei os olhos ainda embaçados pela noite de sono e vi que havia uma foto dele e uma [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&#8211; Olha isso aqui. Você viu isso, amor?</p>
<p>Entrei na cozinha pela manhã, ela estava preparando uma tapioca no fogão enquanto segurava o celular em uma das mãos. Virou o aparelho para mim e mostrou a tela. Limpei os olhos ainda embaçados pela noite de sono e vi que havia uma foto dele e uma citação.</p>
<p>&#8211; Não é possível. Você leu isso onde? É uma fonte de confiança? Hoje em dia tem gente fazendo de tudo para…</p>
<p>&#8211; Olha aqui! &#8211; ela me interrompeu &#8211; é do jornal que você assina. Você acha que eu tô lendo notícia falsa?</p>
<p>&#8211; Não é isso… É que é tão absurdo. É sério mesmo? Deixa eu ver?</p>
<p>&#8211; Toma &#8211; ela me deu o aparelho e se virou para fechar a tapioca na frigideira.</p>
<p>&#8211; Hum. É. Putz.</p>
<p>&#8211; Eu te falei… Agora, me diz, como assim?! Como pode? Como ele fala uma coisa dessas, como alguém diz um absurdo desses e ninguém fala nada, ninguém denuncia? Isso é uma manipulação descarada sobre o povo.</p>
<p>&#8211; E está esquentando, né?</p>
<p>&#8211; Esquentando nada. Continua tudo na mesma morosidade de sempre. Ninguém toma uma atitude.</p>
<p>&#8211; Tá esquentando a frigideira. Vai queimar o lado de baixo da tapioca.</p>
<p>&#8211; Ah, sim.</p>
<p>&#8211; Mas ainda tem muita gente que acredita no que ele fala. O que se pode fazer? Ele fala essas coisas e a base fiel continua lá, aplaudindo. É triste, mas isso tem muito eco no coração das pessoas.</p>
<p>&#8211; Aí é que está o problema. Ninguém faz nada, nunca. E as coisas continuam assim. O absurdo vai se normalizando. Ele fala um monte de barbaridades e, como nada acontece, vai esticando a corda.</p>
<p>&#8211; E o que a gente pode fazer?</p>
<p>&#8211; Passa a faca!</p>
<p>&#8211; Faca? Como assim?</p>
<p>&#8211; A faca, querido. Me passa a faca para tirar um pouco da manteiga aqui.</p>
<p>&#8211; Ah, sim. Tá aqui.</p>
<p>&#8211; E a gente achando que o que tinha antes era pior&#8230;</p>
<p>&#8211; Não gostou dessa marca de manteiga? Comprei achando que era a sua favorita.</p>
<p>&#8211; Não, estou falando dele.</p>
<p>&#8211; Ah. Que sonho era aquele? Eu dizia que antes a gente não tinha nada a “temer”. Saudades.</p>
<p>(Risos. Risos).</p>
<p>&#8211; Tinha que acabar com tudo “de uma” vez?</p>
<p>&#8211; Mas não foi de uma vez. Você lembra. Foi um processo. Foram fritando tudo aos poucos.</p>
<p>&#8211; Tô falando da manteiga. Você tinha que terminar tudo de uma vez? Não sobrou pra mim&#8230;</p>
<p>&#8211; Ai, desculpa.</p>
<p>&#8211; O problema é: o que dá pra fazer agora?</p>
<p>&#8211; Tem requeijão, se você quiser.</p>
<p>&#8211; Tô falando dessas declarações.</p>
<p>&#8211; Ah. Eu também fico perguntando se não é preciso uma atitude mais drástica.</p>
<p>&#8211; Passa a faca?</p>
<p>&#8211; Calma, não é pra tanto… Ah, sim, toma, tá aqui.</p>
<p>&#8211; Obrigado. Estava fora do meu alcance. Assim como isso tudo parece tão difícil de lidar. O que a gente consegue fazer senão ler essas coisas, se indignar e resistir da forma como sabemos fazer?</p>
<p>&#8211; E fazer a nossa parte para isso não contaminar as meninas, para que não sofram no futuro.</p>
<p>&#8211; Isso bem que podia acabar logo.</p>
<p>&#8211; Confesso que tô com medo é de não acabar tão cedo. A gente não sabe. Só acho é que não vai acabar bem. Como você falou: a corda está esticando.</p>
<p>&#8211; Sim. Você viu o que ele disse semana passada? Aquela fala sobre o outro assunto, o que pretendem fazer com a educaçãomeioambientedireitoshumanosagronegóciojustiçacidadaniatrabalhoimpostoseconomiatrânsito?</p>
<p>&#8211; Vi. É uma delinquência. Tem tanta coisa importante para fazer, o mundo empilhando tragédias, a sociedade sofrendo&#8230; Deveria haver um mínimo de coerência. Pelo menos agora, as coisas poderiam ficar um pouco mais…</p>
<p>&#8211; Doce.</p>
<p>&#8211; Não. Aí já é querer muito, né?</p>
<p>&#8211; Doce. O café ficou muito doce. Você já tinha colocado açúcar?</p>
<p>&#8211; Já.</p>
<p>&#8211; Putz, eu coloquei de novo.</p>
<p>&#8211; Esqueci de avisar, desculpe.</p>
<p>&#8211; E o que a gente pode fazer?</p>
<p>&#8211; Quer colocar um pouco de água quente? Vai ficar aguado, mas&#8230;</p>
<p>&#8211; Não. Sobre isso tudo, meu amor. O que a gente, aqui, pode fazer a respeito? Eles falam essas bobagens todos os dias, ficam postando e martelando isso na cabeça das pessoas. Parece aquele negócio do duplipensar. É tão evidente&#8230; e a gente não vai gritar que está errado, mostrar que é irracional?</p>
<p>&#8211; Mesmo ao usar a palavra duplipensamento é necessário praticar o duplipensamento. Porque ao utilizar a palavra admitimos que estamos manipulando a realidade; com um novo ato de duplipensamento, apagamos esse conhecimento; e assim por diante indefinidamente, com a mentira sempre um passo adiante da verdade.</p>
<p>&#8211; Oi?</p>
<p>&#8211; Você citou 1984. É isso o que o Orwell fala no livro sobre duplipensamento. Anotei no celular outro dia enquanto pensava nessa situação toda.</p>
<p>&#8211; E imaginar que o livro trata de uma distopia.</p>
<p>&#8211; Quem dera isso fosse só ficção… Lembra que te falei daquele livro do Amós Oz, &#8220;Como curar um fanático&#8221;? Ele fala isso. Diz que o fanático, no fim das contas, é um idealista, um ser cheio de boas intenções. Ele acha que tudo o que faz é para te salvar de algo que você não enxerga e só ele, alma caridosa e defensora do bem, é capaz de compreender.</p>
<p>&#8211; Então querem me salvar falando que vivo na cegueira?</p>
<p>&#8211; Utopia.</p>
<p>&#8211; Tem o quê na pia?</p>
<p>&#8211; Não é na pia. Eu disse utopia.</p>
<p>&#8211; Ah, o que tem?</p>
<p>&#8211; Acho que é pode ser disso que a gente precisa agora: construir nossa própria utopia. Começar a desenhar um mundo com o qual sonhamos e semear esse mundo aqui em casa, com as pessoas ao nosso redor. Porque se não dá para mudar o país todo, pelo menos a gente constrói um recomeço nesse núcleo, cuidando do microcosmo familiar, do nosso jardim. E aqui a gente pode ser e fazer o que quiser. Daqui, a gente estende generosidade, amor, compaixão e apoia a quem a gente puder e estiver ao nosso alcance.</p>
<p>(Silêncio).</p>
<p>&#8211; O que você acha?</p>
<p>&#8211; O Oscar Wilde disse que &#8220;o progresso é a realização de utopias&#8221;. Acho que você pode ter razão. É o que está ao nosso alcance agora.</p>
<p>&#8211; Me alcança o café?</p>
<p>&#8211; Sim.</p>
<p>(Suspiros esperançosos).</p>
<p>&#8211; Quer outra tapioca com manteiga?</p>
<p>&#8211; Quero, obrigado. Com manteiga e utopia.</p>
<p>(Silêncio).</p>
<p>&#8211; E se não der certo, o que a gente faz?</p>
<p>&#8211; Passa a faca?</p>
<p>&#8212;<br />
(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/o-que-ele-disse/" rel="noopener" target="_blank">Estadão</a>)</p>
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		<title>Ficar como?</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2020/05/28/ficar-como/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 May 2020 23:23:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Fique em casa. Estamos ouvindo isso insistentemente nos últimos meses (pois é, já são meses). O lar, esse refúgio de prazeres familiares, se tornou também uma tentativa de proteção contra um inimigo invisível e poderoso que rendeu a humanidade e tem nos colocado em ameaça diária e em busca por cura, resposta ou qualquer sentido [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Fique em casa. Estamos ouvindo isso insistentemente nos últimos meses (pois é, já são meses). O lar, esse refúgio de prazeres familiares, se tornou também uma tentativa de proteção contra um inimigo invisível e poderoso que rendeu a humanidade e tem nos colocado em ameaça diária e em busca por cura, resposta ou qualquer sentido de direção ou perspectiva. Que não vem.</p>
<p>Mas o lar não foi refúgio para João Pedro, um garoto de 14 anos, negro, que morreu na última semana no Rio de Janeiro, dentro de casa, vitimado por um ataque de 70 tiros. Enquanto brincava.</p>
<p>Enquanto brincava com minhas filhas hoje, em casa, essa notícia me voltou aos olhos. Em meio a avalanche de notícias sobre a pandemia e a delinquência política que assolam nossa sociedade, esse fato, esse trágico, absurdo e chocante fato, passou como outros tantos. O menino virou uma estatística na conta de tantos números de mortos que se acumulam no Brasil.</p>
<p>Estamos ficando anestesiados, torpes com as contas de gente que morre por coronavírus, gente que morre no trânsito, gente que morre vítima da violência urbana. Pessoas, que se vão.</p>
<p>Nina, minha filha mais velha, tem 13 anos. Eu tenho falado muito para ela ficar em casa. E privilegiados que somos, temos no lar uma fortaleza. O João Pedro não tinha. Mas ele pensou que sim. &#8220;Estou dentro de casa. Calma&#8221;, ele disse para a mãe numa mensagem minutos antes de ser assassinado. Milhões de crianças em nosso país estão na mesma condição. Nós deveríamos protegê-los, não matá-los.</p>
<p>Esse vírus. O que nos inquieta e deixa ansiosos é que não podemos fazer muita coisa para combater um inimigo como esse. Ao menos não por hora. Mas, o que matou essa criança, esse menino, não foi vírus. Foi um mal social, foi uma escolha, foi fruto do tipo de sociedade que permitimos que exista quando promovemos a desigualdade, o racismo, a exclusão de nossos semelhantes do círculo de privilégios que habitamos. João Pedro foi mais uma vítima de um mal evitável. E os pobres e os negros que morrem viram estatística. E crianças assassinadas dentro de casa se tornam uma pequena nota segregada no jornal.</p>
<p>Enquanto brincava. Podia ser minha filha.</p>
<p>&#8212;<br />
(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/ficar-como/" rel="noopener" target="_blank">Estadão</a>)</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Já passamos por isso</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2020/05/01/ja-passamos-por-isso/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 May 2020 23:21:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Ano passado, li um conto que se passava durante a guerra civil espanhola. Lembro que enquanto mergulhava na história, me distraí pensando sobre o que, afinal, leva uma sociedade ao limite do enfrentamento nesse nível. A despeito dos interesses escusos dos senhores das guerras que lucram com a morte de inocentes, minha dúvida era sobre [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Ano passado, li um conto que se passava durante a guerra civil espanhola. Lembro que enquanto mergulhava na história, me distraí pensando sobre o que, afinal, leva uma sociedade ao limite do enfrentamento nesse nível. A despeito dos interesses escusos dos senhores das guerras que lucram com a morte de inocentes, minha dúvida era sobre a gente aqui, o povo, que no fim das contas se permite e se empenha em tomar armas e partir para o combate contra seus semelhantes. E sobre as famílias, as esposas e filhos que ficam em casa e batalham para tentar levar a vida cotidiana enquanto a guerra acontece.</p>
<p>Por coincidência, estava na Espanha com minha família enquanto essa história me caiu nas mãos. Viajávamos em férias e era bonito observar as cores de Barcelona com as pessoas nas ruas, a arquitetura peculiar ornamentando as ramblas, as luzes do verão permitindo que o sol raiasse até dez da noite. A vibrante vida espanhola de hoje não remete em nada ao país que há menos de cem anos viveu uma guerra cruel que colocou em choque seus próprios cidadãos.</p>
<p>Dias depois, na mesma viagem, pegamos um táxi em Lisboa. Sentado no banco da frente, eu conversava com o motorista sobre a história de um monumento que vimos no centro da cidade. “Nada disso aqui é tão antigo”, disse ele, “a maior parte da cidade foi reconstruída depois do último grande terremoto”. Minha esposa quis saber a data. “Foi em 1755”, ele respondeu. Referências e relatividade, pensei na hora. Meu celular tem três anos de uso e eu já o acho pré-histórico e um monumento de quase trezentos é algo moderno na ótica daquele homem. Mas ele emendou uma observação que me trouxe de volta para a conversa: “Pois bem, assim vivemos até que venha o próximo. A verdade é que todos os dias acontecem pequenos tremores cá em Lisboa. Estamos sobre uma placa tectônica bastante instável. Então, pois que a qualquer momento&#8230;&#8221; ele impôs as reticências numa breve pausa, &#8220;&#8230;bem, nunca se sabe”.</p>
<p>À noite, no hotel, peguei o celular para me atualizar sobre as notícias do Brasil e passei a ler os jornais do dia. Rodei as redes sociais tempo o bastante para que a discussão política começasse a me deixar ansioso e desliguei tudo. Não é possível que alguém esteja feliz, eu acho. Mesmo quem se sente satisfeito com o resultado das últimas eleições, não me parece usufruir de um sentimento de vitória. Há ainda um clima de embate, as trincheiras ainda estão lá, com escudos levantados, com gente armada e balas na agulha. O clima tenso, o estômago embrulhado. Você também sente isso? A sensação de que alguma coisa ainda mais estranha vai acontecer ali na frente.</p>
<p>A distração momentânea com a leitura sobre a guerra espanhola e a imprevisibilidade iminente da natureza fazendo temer as terras portuguesas me fez olhar para aquelas cidades hoje e pensar que o ser humano, nossa espécie, até que passa bem pela história.</p>
<p>Guerras, pestes, furacões, ditaduras, governantes&#8230; há um tempo em que somos vítimas de circunstâncias ou escolhas que fazemos. Mas nos reerguemos, afinal.</p>
<p>Quando o ano de 2019 virou sua última noite, estávamos reunidos com familiares em um sítio no interior do estado e ninguém ali, na China e nem em qualquer canto desse planeta poderia imaginar que três meses depois estaríamos confinados em nossas casas temendo o contágio por um novo vírus. Um inimigo desconhecido, invisível, que nos colocou de joelhos. Diante dos nossos mercados assoberbados, dos objetivos profissionais, dos planos pessoais, do futuro breve que planejamos com nossas notas em bloquinhos de papel e que está agora todo rasurado. Por hora, não somos donos de amanhã nenhum. E acho que essa falta de controle, a imprevisibilidade, a incerteza sobre o futuro é que nos inquieta tanto.</p>
<p>No meio da pandemia (pandemia, nunca imaginei que usaria essa palavra de forma literal) tem sido difícil enxergar o outro lado, quando a vida voltará a seguir sua rotina. Seja lá como for rotina depois disso tudo. Porque certamente seremos pessoas diferentes. Eu espero, sinceramente, que sejamos pessoas melhores.</p>
<p>Há uma frase do arcebispo Desmond Tutu que sempre carrego comigo: &#8220;a maior prova de que somos, essencialmente, pessoas boas, é o fato de que o mal ainda nos escandalize tanto&#8221;. Tenho lido e assistido aos exemplos de solidariedade e generosidade de pessoas nesse momento. Gente que não se conhece prestando apoio psicológico, fazendo compras no mercado para seus vizinhos idosos, sacrificando o próprio tempo em família para cuidar de enfermos, doando recursos para os que neste momento carecem. Nessas horas, nossos filtros naturais nos fazem olhar para o que é mais importante. Certas atividades e compromissos que ocupavam nosso tempo e rotinas repentinamente deixam de ter importância. E o que mais desejamos é poder ter de volta os familiares e amigos em volta da mesa para um almoço no domingo.</p>
<p>A história nos mostra que em algum momento isso passará. Sim, vai doer, mas passará. Passará como a guerra civil espanhola, passará como o terremoto de Lisboa e talvez &#8211; assim faço preces &#8211; nos esqueçamos que vivíamos até então numa época em que nos separamos de gente querida porque tínhamos opiniões divergentes sobre, veja só, políticos. Essa fase passará. Olharemos para trás e lembraremos do que fazíamos da vida quando a pandemia passou por aqui e lembraremos com quem estávamos quando o mundo parou por alguns meses.</p>
<p>O salmista, na passagem bíblica que fica exposta no livro aberto na sala de nove entre dez avós católicas, diz que o Criador o acompanha mesmo quando atravessa &#8220;o vale da sombra da morte&#8221;. Um amigo sempre lembra que crises não são o vale da morte, são apenas a sua sombra. E uma sombra não tem o poder do objeto que a projeta.</p>
<p>Quando voltávamos para casa no avião, pegamos um vôo diurno. Eu tomava notas em meu caderno. Ao meu lado, Cecília assistia ao filme do Touro Ferdinando. É uma história infantil espanhola sobre um touro que não gostava de lutar em arenas. Ele gostava de flores.</p>
<p>No conto do Hemingway que eu lia, ele contava sobre um homem que abandonou o front de batalha. Do alto do monte de onde observava a cena, o personagem principal da história viu um soldado francês ser morto pelo exército pelo qual combatia. Uma morte estúpida de um homem que desistiu de um combate estúpido. &#8220;Ele enxergou o que era aquela guerra&#8221;, ele disse. Um combate idiota que não valia sua vida.</p>
<p>Vivemos tempos difíceis. Há conflitos, há crises diversas, uma pandemia e uma ansiedade sufocante no ar. Tudo hoje parece ter um jeito de fim iminente. Mas, passará, isso também passará.</p>
<p>Enquanto escrevia em meu caderno, Cecília me interrompeu. Ela subiu a janela do avião e me cutucou:</p>
<p>“Pai, olha lá fora. O pôr do sol!”</p>
<p>Quase me esqueci de que estávamos em um voo. Lá fora, as nuvens passam sob nós como se flutuássemos por cima daqueles algodões brancos. Logo acima, na linha do horizonte, em um risco laranja intenso, o crepúsculo.</p>
<p>Ficamos os dois ali espremendo as cabeças e olhando pelo quadrado transparente até o sol se apagar atrás da curva da Terra. Mais um dia, um de cada vez, assim a história se escreve.</p>
<p>Em um momento como este, o olhar fixo no horizonte talvez seja a única forma de enfrentar o que não podemos controlar.</p>
<p>&#8212;<br />
(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/ja-passamos-por-isso/">Estadão</a>)</p>
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		<title>Dia de caça</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Apr 2020 23:18:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Embebido em álcool gel, eu saio valentemente à caça. Minha missão é chegar ao supermercado mais vazio e próximo de casa sem que meus dedos toquem superfície alguma que não as previamente imunizadas pelo meu jato de Lysoform, que desintoxica e perfuma (é&#8230; vá lá) quarteirões ao redor de mim. O cheiro é tão intenso [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Embebido em álcool gel, eu saio valentemente à caça. Minha missão é chegar ao supermercado mais vazio e próximo de casa sem que meus dedos toquem superfície alguma que não as previamente imunizadas pelo meu jato de Lysoform, que desintoxica e perfuma (é&#8230; vá lá) quarteirões ao redor de mim. O cheiro é tão intenso que já confunde até o tempero da comida. Eu presumo que meu carro deve borrifar Lysoform pelo escapamento quando dou partida.</p>
<p>Faz dias que não saio do condomínio e, de repente, dirigir pelas ruas esburacadas e agora vazias do bairro parece um passeio de carruagem pela Champs-Elysees. Aceno animado e sorridente para os incautos que circulam pelas calçadas. Não fosse o mantra &#8220;dissstaaaannciiaaaaamm sssociiiaaallll&#8221; repetido em minha mente, teria oferecido carona a um desconhecido que subia a ladeira com dificuldade. Na virada do ano, eu sonhava em passar as próximas férias em uma praia do Nordeste, agora me deslumbro contando o número de postes entre minha casa e o supermercado.</p>
<p>Chego no mercado, imunizo cada centímetro do carrinho de compras e sigo para a missão que moveu meu traseiro do sofá até aqui: comida e mantimentos. Corrijo: comida, mantimentos e frascos de Lysoform.</p>
<p>Repentinamente, a obrigação que eu mais odiava ter que cumprir na vida &#8211; ir ao mercado &#8211; se tornou uma experiência magicamente satisfatória. Corredores longos, o piso liso, o cheiro das verduras. &#8220;Olá, amigo açougueiro!&#8221;, eu saudo. &#8220;Boa tarde, querida moça do caixa!&#8221;.</p>
<p>Eu, às cinco da tarde, flanando pelos corredores do Carrefour.</p>
<p>Consulto a listinha de compras anotada no celular. Limpo as mãos com o álcool gel que carrego o tempo todo no bolso em um pequeno recipiente. Uso tanto que minhas mãos já estão secas como uvas passas (e essa história de que tem aloe-vera no álcool é pura groselha. Pensei em reclamar no Procon, mas me ocorreu que, ganha a causa, seria um fornecedor a menos de álcool no mercado). Cada superfície ou embalagem tocada é uma nova apertada no potinho. Deviam criar uma embalagem que a gente possa pendurar no pescoço, eu penso. Ou na cintura, tipo uma arminha, que cospe álcool gel para eliminar coronavírus. Se fosse assim talvez o presidente apoiasse. Eu chamaria de X-Covid .40. Ponto quarentena.</p>
<p>Bom, as compras, meu Deus. Estou há 40 minutos no corredor de achocolatados admirando embalagens de Nescau. Paro no corredor de limpeza e acho 500ml de álcool gel pelo preço de uma garrafa de Barolo. Fico em dúvida. Se o teor alcoólico do vinho fosse 70+ eu até levaria, já que vem mais mililitros.</p>
<p>A mistura de aromas no corredor me ataca a rinite e começo a espirrar compulsivamente. Espirro naquela junta entre o antebraço e onde deveria ter bíceps. Quando olho em volta, estou sozinho e as poucas pessoas ao redor fogem me olhando escandalizadas.</p>
<p>Consulto a lista de compras novamente e confiro cada um dos itens no carrinho. Passo álcool no celular inteiro e ligo para a Manu para me certificar de que não esqueci de nada.</p>
<p>&#8211; Mas você não anotou o que era para comprar?</p>
<p>&#8211; Sim, tá tudo aqui.</p>
<p>&#8211; Então está certo, não?</p>
<p>&#8211; Não sei. Vai que esqueço de alguma coisa. Não quer algo mais mesmo? Não quer que eu vá no atacado, no hortifruti, na padaria, no depósito…?</p>
<p>&#8211; Não. Quero você aqui. Está perigoso, Henrique. Vem logo.</p>
<p>Passei quatro vezes por cada corredor do mercado. Um dos pés apoiados na barra inferior do carrinho logo atrás das rodinhas enquanto o outro pegava impulso para que eu pudesse deslizar pelos corredores, como se fosse um patinete, sentindo a brisa de ar-condicionado e liberdade me soprando no rosto pálido carente de vitamina D.</p>
<p>Já era quase noite quando meu passeio&#8230; hum, digo, minha árdua missão teve fim. Paguei a compra. A moça do caixa estava protegida por uma barreira de plástica, quase uma cabine blindada. E máscara branca. E ela tinha um pote de álcool gel ao lado maior que uma garrafa pet de Coca-Cola Super Família. Deveria valer milhões. Perguntei se podia usar.</p>
<p>Lembrei de uma pergunta da Cecília, minha filha de cinco anos: &#8220;Pai, quem passa álcool gel no álcool gel?&#8221;. Desde então sempre pego uma sobrinha e besunto o recipiente depois de usar. A moça do caixa me olhou torto. &#8220;No crédito, por favor. E não precisa do CPF&#8221;.</p>
<p>Guardei a compra no carro, repassei mentalmente as superfícies que toquei para ver se tudo estava devidamente… Eita, as chaves do carro! Besunto tudo.</p>
<p>É bem difícil ser um sujeito com TOC e distraído nesses tempos.</p>
<p>Descarreguei a compra em casa. Manú chegou para ajudar a guardar. Me sentia como meu antepassado primata voltando para a caverna com a caça da semana. Nunca nosso aprazível apartamento pareceu tanto uma caverna.</p>
<p>&#8211; Nossa, você demorou!</p>
<p>Dessa vez não dava para culpar o trânsito.</p>
<p>&#8211; Acho que perdi o hábito de ir ao mercado. De ir a qualquer lugar, na verdade.</p>
<p>Desempacota aqui, desenrola ali, guarda acolá, até que…</p>
<p>&#8211; Henrique, você não trouxe leite?</p>
<p>&#8211; Leite? Tinha leite na lista?</p>
<p>&#8211; Não sei. Mas o leite acabou. Tinha que trazer.</p>
<p>&#8211; Mas eu te liguei e… Ah, deixa, tudo bem, eu volto lá.</p>
<p>&#8211; Não, amor. Está certo. Deixa que eu vou. Você está cansado, já saiu e suas costas…</p>
<p>&#8211; Mas fui eu que esqueci.</p>
<p>&#8211; Amor, eu vou. É que eu… eu tô querendo mesmo dar uma voltinha.</p>
<p>&#8211; Não esqueça o álcool gel.</p>
<p>Às dez da noite, deslizando pelos corredores de laticínios sem lactose. Ventinho no rosto. A liberdade.</p>
<p>&#8212;<br />
(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/dia-de-caca/">Estadão</a>)</p>
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		<title>O fim dos finais felizes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2020 23:13:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Já faz tempo que meu time não ganha nada. Há quase uma década, estimo assim meio por cima (e nem quero ser exato sob risco de estar sendo otimista), as temporadas começam cheias de esperança e, lá pelo meio do ano, me conformo em torcer para que o time ao menos alcance os pontos necessários para se classificar para esse ou aquele torneio continental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parêntese: esse não é um texto sobre futebol, fique tranquilo. À exceção do Tostão aos domingos, quase nenhuma crônica sobre futebol merece ser lida hoje em dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ontem à tarde, eu lia as notícias do jornal dominical enquanto um jogo passava na TV e uma tempestade caía lá fora. Meio distraído, cheguei a comemorar um gol do adversário, que jogava com camisa semi-idêntica à do meu São Paulo, enquanto o tricolor estava em campo vestido de azul (azul, meus senhores! Mas que raios?). No final, mesmo com certa anuência do juiz, perdemos de 1 a 0 para o intimidador Botafogo de Ribeirão Preto. A tempestade era em campo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não sei dizer porquê gosto de futebol. Aliás, confesso que nem gosto tanto assim. Mas tem algo mágico no esporte que me atrai: a expectativa, a atmosfera da arena, o trabalho coletivo, a estética das jogadas improváveis, a bola sendo manipulada com os pés, o clímax do gol. E tem também o imponderável, uma vez que por melhor que seu time esteja em campo &#8211; ou pior, no meu caso &#8211; nunca se pode ter certeza do resultado final de uma partida. Há dias maravilhosos, há dias de empate e há, inevitavelmente, dias de derrotas trágicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O São Paulo tem caprichado em acabar com essa imprevisibilidade, garantindo que tudo vá mal quase sempre. Mas nada disso impede que, semana após semana, meus olhos estejam ligados na tela da TV ou do celular para alimentar a esperança de que ao menos naquele dia a tarde de domingo acabe em um final feliz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como consolo, tenho dito à mim mesmo que meu time é uma equipe de vanguarda. E aí, prolixidades à parte, caímos tardiamente no que gostaria de escrever hoje: me parece que há em nossa cultura, por esses tempos, uma espécie de celebração da desesperança. Os finais felizes, no cinema, nas séries e na literatura, se tornaram sem valor, impensáveis para a boa arte, sob argumento de que não refletem a realidade da vida. Porque a arte que imita a vida agora precisa ser bruta, ter tragédias que nos cicatrizem, deve nos fazer sorrir da melancolia, estar carregada de um senso de que há, sim, altos e baixos na vida, mas que na média as coisas acabam mal e que podemos nos contentar assim, resignados, em esperar que tudo seja um grande &#8220;mais ou menos&#8221; cheio de picos e abismos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É o fim dos finais felizes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu gosto de histórias que acabam bem. Não porque espero que a vida seja emoldurada por um arco-íris o tempo todo ou que manhãs ensolaradas aconteçam rotineiramente, mas porque prefiro ser um sujeito que alimenta esperanças, porque acredito em grandes sagas de redenção, no poder do afeto e da gentileza, no tetracampeonato do São Paulo na Libertadores, na capacidade humana de superar tragédias, perseguir sua felicidade e realizar utopias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais cedo, passeávamos em uma loja e Cecília se encantou com uma par de asas de fadas colorido e cheio de lantejoulas que poderia ser vestido sobre a roupa. “Compra, pai? Por favor, eu adorei. E olha, ainda vem com essa tiara que tem um chifre de unicórnio! Compra? Porfavorzinho!”. Não resisti. Paguei pela fantasia e ali mesmo, na fila do caixa, ela vestiu o aparato e saiu desfilando orgulhosa pelo shopping center. As pessoas apontavam e riam, a mãe tirou fotos para registro, eu pedi para usar a tiara e a Nina andava um passo atrás com um pouco de vergonha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Nina, pare de rir! &#8211; ela taxou &#8211; E o papai tá é com inveja.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela voltou realizada para casa. Como chovia, a programação do domingo terminou em volta do sofá. Comemos, assistimos TV, esquentamos a pizza de ontem para o jantar e eu a levei para dormir, ainda com asas e tiara, enquanto Manu e Nina jogavam algo na sala. Na cama, ela me contou de um sonho que teve na noite anterior em que uma flor gigante nos perseguia e tentava nos engolir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mas eu salvei todo mundo, papai.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Sério, filha? E como foi? Você deu um golpe e cortou o caule dela?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não, pai, nada disso. Vocês todos saíram correndo e eu voltei e fiz um carinho nela. Aí ela acalmou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela abraçou meu braço, pediu para eu fazer uma oração, deu dois bocejos seguidos (desde bebê, ela boceja de forma escandalosa) e pediu que eu contasse uma historinha. Contei sobre minha festa de aniversário de cinco anos, no dia em que resolvi me fantasiar de palhaço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cecília riu da história, deu boa noite, virou para o outro lado da cama e dormiu. Em poucos dias, ela fará cinco anos. O tempo não tem passado em ritmo diferente da intensidade com que ela vive e me pego revivendo sensações de quando a Nina, oito anos atrás, passava por esse mesmo momento. Ainda no shopping, ela me disse que vai querer se vestir de fada na festa de aniversário. A Nina, poucos dias antes dela completará 13 anos. E nessa idade, fantasia deixou de ser uma vestimenta e passou a ser um mundo todo em que ela habita às vezes, nos desenhos, nas leituras, nos poeminhas que escreve e no desejo que lhe assalta de que a vida continue sendo inocente. Às vezes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sei que isso não é um final. Manu e eu ainda estamos no começo da nossa jornada e muito da vida ainda está por vir. Mas até aqui, temos sido felizes (bem, falta meu time ganhar um campeonato na temporada, para variar). Nesse processo todo de um dia após o outro, da rotina doméstica em que vamos construindo nossa história juntos, cada ano tem sido melhor que o anterior e temos motivos para sorrir e ser gratos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E porque temos um ao outro e ainda essas meninas crescendo ao nosso redor, porque temos um cão que nos lambe os pés sob a mesa enquanto comemos, porque há um teto sobre nossas cabeças e porque em nossa despensa há o bastante para viver com dignidade. E porque há Deus, nós temos esperança no triunfo do bem, na redenção, no sorriso banguela de pequenas fadas que são o futuro de um mundo tão carente de sonhos, fantasias e de sua insondável pureza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E porque há uma revoada de pássaros cantando lá fora enquanto se acomodam nas árvores depois do fim da tempestade, somos autorizados a acreditar que nossas histórias podem ter finais felizes. Como aqui mesmo estaria uma, se um ponto final porventura aparecesse agora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Publicado originalmente no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/o-fim-dos-finais-felizes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estadão</a>)</p>
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		<title>Confessionário</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Jan 2020 12:01:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8211; Padre, eu pequei. &#8211; Pois não, filho. O que aconteceu? &#8211; Na última semana, eu precisava mandar uma mensagem no WhatsApp para uma pessoa e, mesmo estando livre para digitar, eu mandei um áudio. Perdão, padre. &#8211; Hum. Não estou certo de que isso seja pecado. &#8211; Se não é pecado, deveria. Eu sinto [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&#8211; Padre, eu pequei.<br />
&#8211; Pois não, filho. O que aconteceu?<br />
&#8211; Na última semana, eu precisava mandar uma mensagem no WhatsApp para uma pessoa e, mesmo estando livre para digitar, eu mandei um áudio. Perdão, padre.<br />
&#8211; Hum. Não estou certo de que isso seja pecado.<br />
&#8211; Se não é pecado, deveria. Eu sinto um peso&#8230;<br />
&#8211; Bom, se você&#8230;<br />
&#8211; Porque, veja, a pretexto da minha falta de tempo, eu ocupo o tempo do outro, que precisa parar o que está fazendo para me ouvir. Acho um abuso.<br />
&#8211; Entendo. Nesse caso, reze um Pai Nosso e uma Ave Maria e fique em paz.<br />
&#8211; Só isso? Uma reza de cada já paga um áudio de Zap?<br />
&#8211; Só. Não sei que barganha você pretende fazer, mas não é assim que as coisas funcionam.<br />
&#8211; É que, nesse caso, acho que o pecado meio que compensa. Eu estava me sentindo tão mal. Vocês não tem um catálogo com número de rezas versus infrações para calibrar melhor isso?<br />
&#8211; Veja bem, Rodolfinho&#8230;<br />
&#8211; Ah, puxa, você lembra de mim, padre?<br />
&#8211; Lembro, menino, claro. Quando foi a última vez que você se confessou?<br />
&#8211; Foi na primeira comunhão.<br />
&#8211; Jesus. Isso tem o quê, uns dez anos?<br />
&#8211; Vinte e poucos, padre.<br />
&#8211; E desde lá o único pecado que te fez sair de casa para se confessar foi esse?<br />
&#8211; É, padre, sinto muito. Mas eu estava com a consciência que não me aguentava. Aliás, esse lugar aqui parecia mais espaçoso antes. Não dói suas costas ficar o dia todo encolhido aí?<br />
&#8211; Quando as confissões são mais objetivas, não.<br />
&#8211; Perdão, eu não queria…<br />
&#8211; Perdoo. Mas por via das dúvidas, reze mais uma Ave Maria.<br />
&#8211; Tá, deixa eu anotar aqui pra não esquecer. Você tem uma lanterna aí?<br />
&#8211; E a mãe, como está?<br />
&#8211; A minha?<br />
&#8211; Não, a de Jesus.<br />
&#8211; Não sei bem, vou perguntar para ela hoje quando for rezar&#8230;<br />
&#8211; É claro que é a sua, menino!<br />
&#8211; Ah, sim, ela está bem, padre. Na verdade, acho até que ela é que deveria estar aqui. Manda áudios de dois minutos no grupo da família o tempo todo. Ia ter que rezar uma semana pra pagar tanto pecado. E ela manda GIFs com corações explodindo em um iluminado “bom dia”.<br />
&#8211; Rodolfinho, meu filho, isso é relativo. Faça suas preces e apareça mais nas missas.<br />
&#8211; Tá bom, padre.<br />
&#8211; Vá em paz. Em nome do Pai, do Fil&#8230;<br />
&#8211; Hum, padre?<br />
&#8211; O que foi agora, menino?<br />
&#8211; Não sei como te dizer. Mas me ocorreu agora que eu… bem, eu esqueci como reza.<br />
&#8211; Como é?<br />
&#8211; É. Faz tanto tempo. Estava aqui recapitulando e me dei conta de que um Pai Nosso eu acho que até encaro, mas a Ave Maria eu confundo toda e misturo numa música do Roberto Carlos e emendo no Hino Nacional&#8230;<br />
&#8211; Minha Nossa.<br />
&#8211; Pois é, nossa Nossa.<br />
&#8211; Volte para as missas, Rodolfinho!<br />
&#8211; Eu vou, padre, juro que vou. Digo, não juro porque dizem que jurar também é pecado, mas, você entende, né? Olha, padre, seria muito abuso eu pedir para o senhor me mandar uma colinha com as rezas?<br />
&#8211; Agora são cinco Ave Marias e cinco Pai Nosso para você.<br />
&#8211; Parece justo. Pode ser por mensagem?<br />
&#8211; Seis de cada, rapaz! Me dá o número do seu celular antes que eu me arrependa.<br />
&#8211; Eu já te mandei um “oi” aí no Zap, padre. Me adiciona aí.<br />
&#8211; Te respondo mais tarde com as rezas. Agora vá.<br />
&#8211; Muito obrigado, padre! Eu juro que… quer dizer, não juro. Juro que não juro. Mas eu farei o melhor que puder para vir às… bem, vou tentar lembrar de me esforçar mais para estar aqui aos sábados.<br />
&#8211; Aos domingos, menino. Agora vá. A fila do confessionário já está grande. Daqui a pouco quem vai pecar aqui sou eu.<br />
&#8211; Sim, sim. Vou indo então.<br />
&#8211; Ah, Rodolfinho?<br />
&#8211; Senhor.<br />
&#8211; Só uma coisa: está uma correria danada aqui na paróquia. Vou te mandar as orações por áudio, está bem?</p>
<p>(Escrito originalmente para o <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/confessionario/" rel="noopener" target="_blank">Estadão</a>)</p>
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		<title>Sala de espera</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Dec 2019 11:20:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Eu tento ficar alheio ao que se passa ao redor mas não consigo. Comprei fones de ouvido novos, desses sem fio e com recurso que cancela o ruído ambiente. Um luxo, uma bolha de isolamento social e de imersão. Mas não consigo. Eu interrompo a música, dou pause no podcast, porque me interessa mesmo é [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Eu tento ficar alheio ao que se passa ao redor mas não consigo. Comprei fones de ouvido novos, desses sem fio e com recurso que cancela o ruído ambiente. Um luxo, uma bolha de isolamento social e de imersão. Mas não consigo. Eu interrompo a música, dou pause no podcast, porque me interessa mesmo é saber o que conversam as duas idosas sentadas no banco à minha frente na sala de espera do consultório.</p>
<p>É uma sala grande, eu conto sete sofás de couro marrom e aquele clima de lugar onde se fumava antigamente. Elas falam sobre a chuva que vai cair daqui a pouco, sobre a última visita à doutora, a médica que também cuidou da irmã de uma delas e sobre a dificuldade de andar pelas calçadas do bairro nesses dias.</p>
<p>Há gente no celular também. É epidêmico. A maioria dos que se espalham nos sete aconchegantes sofás, está submersa nas pequenas telas, passando os dedões pelo vidro.</p>
<p>Mas há um homem, talvez da minha idade, sentado quase à minha frente e ele não usa um celular. Ele não faz nada. Está parado, o olhar vagando pela sala, as vezes se fixando num ponto da parede, em uma pessoa, no chão por longos instantes. E eu me interesso ultimamente por observar pessoas que não usam celulares em salas de espera. Será que o pensamento está ocupado demais com coisas mais interessantes ou a mente está tão vazia que nem se dá ao trabalho de pensar em enfiar a mão no bolso e sacar o aparelhinho? Do que se ocupam as pessoas que não ocupam cada instante de sua existência com algum estímulo digital, que não alimentam o cérebro com a dopamina liberada pela recompensa de clicar, clicar e clicar o dedo em algum link?</p>
<p>Hoje, a caminho da clínica, o carro parou no semáforo e fiquei olhando um sujeito que guardava a porta de um comércio. Sentado numa cadeira virada para a rua, jornal jogado sobre o colo, a cabeça recostada na parede. Ele dormia. Centenas de carros e pessoas, patinetes e ônibus, bicicletas e motos passando logo em frente. E o sujeito dormia como minha filha quando desmaia no sofá da sala. Alguém então buzinou longamente. Era o carro atrás de mim avisando gentilmente que o semáforo estava verde e o carro da frente já estava uns 200 metros adiante.</p>
<p>A recepcionista chama a idosa para sua consulta. “Dona Rosa”, ela anuncia. A senhora não escuta. “Dona Rosa, pode subir”, ela repete. Mas a mulher não se move, continua na conversa truncada com a colega. “Dona Rosa!” outra vez e a amiga escuta. “Te chamou, Rosa”, “Oi? Não, não chamou. Não escutei”, “Chamou, sim, vamos lá”, “Será que chamou?”, “Chamou. Vamos lá ver”. Levantam as duas, com a vagareza de quem se desdobra. “Moça, você chamou?”, ela pergunta para a recepcionista. “Dona Rosa? Chamei, sim. Pode ir”. “Ela chamou mesmo”.</p>
<p>(Continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/sala-de-espera/" rel="noopener" target="_blank">lá no Estadão</a>)</p>
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		<title>Turbulências</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Sep 2019 00:44:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Há gente no mundo &#8211; e conheço algumas &#8211; que apreciam certa melancolia e vivem com certo conforto em meio à tristeza. Há outros &#8211; e conheço muitos &#8211; que se não gostam da tristeza em si, gostam do escudo que ela se torna enquanto pretexto para sua imobilidade. Mas há aqueles, entre os quais [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Há gente no mundo &#8211; e conheço algumas &#8211; que apreciam certa melancolia e vivem com certo conforto em meio à tristeza. Há outros &#8211; e conheço muitos &#8211; que se não gostam da tristeza em si, gostam do escudo que ela se torna enquanto pretexto para sua imobilidade. Mas há aqueles, entre os quais me encontro, que tem dificuldade enorme em lidar com a contrariedade e a tristeza que certos fatos carregam, que ao engolirem as circunstâncias adversas o fazem deixando-nas ferir o íntimo e arranhar o esôfago. Qualquer garoa, para esses, vira tempestade.</p>
<p>Falando em garoa, fui de São Paulo ao Rio dia desses. Uma breve viagem a trabalho. Na volta, deixei o Rio quase ensolarado (quase, porque pousava apenas uma luz tímida sobre a cidade nesse dia) e me pus de volta para casa.</p>
<p>No trajeto, o avião planou em céu azul sobre as nuvens e eu, como toda vez que encaro essa cena, grudei a testa na janelinha da aeronave para contemplar as nuvens abaixo de mim, como se aquilo fosse uma mágica, uma inversão da minha lógica diária, que tenho por hábito olhar para o céu toda vez que estou na rua.</p>
<p>O piloto veio ao alto-falante e avisou sobre turbulências adiante. No horizonte, eu via aquela massa de algodão crescer e formar uma parede ao nosso lado e, aos poucos, uma muralha sobre nós, até que a aeronave mergulhou naquela imensidão branca e tudo o que eu via então era o branco pela janela e sentia um certo trepidar. De quando em vez, um raio de luz do sol atravessava e refletia sobre as nuvens e o branco intenso adquiria um tom platinado. Em outros momentos, o avião saia daquela massa de vapor e revelava novamente o céu azul, revelava alguma cidade lá embaixo, revelava que era tudo aquilo transitório, tudo o que se dissiparia em algum momento mais tarde com o cair da chuva sobre a terra.</p>
<p>(&#8230;continua no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/turbulencias/" rel="noopener" target="_blank">Estadão</a>)</p>
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		<item>
		<title>A história das quase histórias</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2019/08/22/a-historia-das-quase-historias/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Aug 2019 01:11:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Foi um caderno cheio de histórias, anotações, desenhos e ideias aleatórias. A maioria ainda incompletas, fragmentos de algo com algum potencial de texto. No mínimo, memórias de um tempo a serem revisitadas no futuro. Foi comprado em uma papelaria de rua em Roma um ano antes. Capa dura azul, folhas levemente amareladas, pautas finas e [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Foi um caderno cheio de histórias, anotações, desenhos e ideias aleatórias. A maioria ainda incompletas, fragmentos de algo com algum potencial de texto. No mínimo, memórias de um tempo a serem revisitadas no futuro.</p>
<p>Foi comprado em uma papelaria de rua em Roma um ano antes. Capa dura azul, folhas levemente amareladas, pautas finas e discretas. Um belo caderno (para quem se dá o trabalho de apreciar esse tipo de coisa).</p>
<p>Foi levado em uma outra viagem, o caderno. No fundo da mochila, ao lado de um livro de contos ainda não lido, de uma caneta quase gasta, um pacote de chicletes, lenços de papel, algum dinheiro e um passaporte. A tralha toda foi deixada no chão de uma aeronave durante o voo.</p>
<p>Foi encontrada molhada, a mochila. Ao fim da viagem, por motivos ainda sem explicação, o fundo de couro e toda parte de baixo estava em sopa. O chão da aeronave estava seco, a almofada da poltrona também, mas a velha mala, não.</p>
<p>Foi esvaziada às pressas ainda no táxi.</p>
<p>(continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/a-historia-das-quase-historias/" rel="noopener" target="_blank">no site do Estadão</a>)</p>
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		<title>Cortinas se fecham</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Aug 2019 15:07:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Em algum momento nesses últimos anos adquiri uma habilidade que parecia um superpoder inalcançável na infância. Só me dei conta, no entanto, há poucos dias quando sentado à mesa da cozinha depois do almoço, as meninas me pediram para descascar laranjas e notei que o resultado foram laranjas branquinhas, perfeitamente descascadas, sem os buracos e [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em algum momento nesses últimos anos adquiri uma habilidade que parecia um superpoder inalcançável na infância. Só me dei conta, no entanto, há poucos dias quando sentado à mesa da cozinha depois do almoço, as meninas me pediram para descascar laranjas e notei que o resultado foram laranjas branquinhas, perfeitamente descascadas, sem os buracos e machucados, e com a casca inteira enrolada em espiral.</p>
<p>Tive um flashback da infância naquele minuto. Quando garoto, eu admirava o meu pai por esse tipo de habilidade. Jogar bola como ele jogava eu sentia que poderia conseguir se me empenhasse. Ter um bigode como o dele era<br />
mera consequência do passar dos anos. Mas descascar laranjas daquele jeito, estava além da minha compreensão e habilidade. Nas vezes em que me aventurei em pegar uma faca e uma laranja para descascar, terminei o processo uns 40 minutos depois com mais pedaços de fruta grudados na parte da casca do que no bagaço, que naquela altura já tinha se tornado uma polpa pastosa alaranjada que sobrava nas minhas mãos enquanto o suco escorria pelos antebraços até pingar pelos cotovelos.</p>
<p>Mas aí, chegando aos 40 &#8211; anos, não minutos &#8211; a vida te premia. Ou compensa. É como se o Criador dissesse “Beleza, meu filho, você ganhou essa dor aí no ciático, mas em contrapartida vai poder descascar laranjas como um ninja”. Dadas as minhas limitadas habilidades para diversas coisas, isso soa como uma troca justa até. E considerando que jogo bola com a mesma capacidade com que danço tango e ainda não aderi ao bigode porque virou coisa de hipster (só por isso), imagino que esse dom inesperado surja como algo a que me apegar e, talvez, uma opção satisfatória de legado para deixar na memória das minhas filhas.</p>
<p>Porque tenho pensado nisso mais do que deveria ultimamente. Aos doze anos, a fase mais lúdica da infância da Nina está quase no fim e me pego por vezes imaginando que tipo de memórias ela vai carregar desses anos quando, lá perto dos 40 &#8211; os dela, não os meus &#8211; revisitar o passado em um flashback qualquer do cotidiano.</p>
<p>Dias depois daquele almoço, passei na quitanda do bairro e enchi o porta-malas do carro com dúzias de laranjas e agora fico convidando as meninas para comer frutas depois das refeições. Nossa cozinha agora só não tem mais laranjas do que em certos partidos políticos.</p>
<p>Sei que é uma ansiedade tola, mas às vezes &#8211; tipo, todo dia &#8211; me ocorre a ideia de que se eu não fizer algo decente agora, mesmo que aos 40 minutos do segundo tempo da infância, aos 40 anos a Nina estará sentada na frente de uma terapeuta lamentando os efeitos nocivos da educação que dei para ela.</p>
<p>“Pai”, ela me interpelou outro dia enquanto eu estava parado na sala de casa mexendo em uns papéis, “sabia que… ah, eu descobri que tem uns meninos que até que são legais”. Eu a encarei por alguns segundos tentando ler seu olhar e ver se tinha algo mais que ela pretendia me dizer. Sem conseguir resposta, me ative a responder “Eu duvido. Até hoje não conheci nenhum”. Lá no fundo, ainda que ela não tenha se dado conta, eu sei o que aquilo significa, você também sabe e a gente não precisa tocar no assunto agora, tá ok?</p>
<p>Recentemente, numa viagem em família, soltei no carro um dos meus trocadilhos infames infalíveis e ela, que era a única que ria desse tipo de piada comigo, espalmou a mão na testa fechando os olhos e lamentou “Ah não, pai! Que piada horrível!”. E as coisas foram ficando mais claras em minha mente limitada. E descascar laranjas como um ninja, você vai concordar, parecer ter grande apelo.</p>
<p>Porque essa é a fase em que ela está. A menina que às vezes ainda me pede para lhe contar histórias, agora já julga algumas partes do mundo com seu próprio critério. Porque ainda que esteja, desde sempre, lendo a vida com seus olhos, até pouco tempo ainda dependia do nosso filtro para interpretar as coisas. Éramos nós quem, de certa forma, lhe abríamos as cortinas para as descobertas. Agora a Nina tem fechado essas cortinas e aberto as suas próprias, para ser protagonista da história que deseja contar. Agora ela quer explorar e formar uma visão independente das coisas, agora ela quer ouvir música sozinha às vezes, quer ousar achar minhas piadas ruins. Agora ela junta as amigas só para conversarem, sem que isso implique necessariamente em ter um brinquedo junto. E esse agora dela, essa fase que vai mudar tudo para sempre, ainda que seja exatamente o que precisa acontecer, é rápido demais para mim.</p>
<p>(&#8230;continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/cortinas-se-fecham/" target="_blank" rel="noopener">no Estadão</a>)</p>
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		<title>Novos amigos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Jul 2019 23:13:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Tem dois seguranças que trabalham no condomínio onde moro e se revezam no turno da noite. Lá pelas dez, quando desço para o último passeio com a Lucy, sempre encontro algum deles perto do gramado onde minha cadela descarrega a base da pirâmide de Maslow que recolho civicamente. Um dos seguranças, há anos na atividade, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Tem dois seguranças que trabalham no condomínio onde moro e se revezam no turno da noite. Lá pelas dez, quando desço para o último passeio com a Lucy, sempre encontro algum deles perto do gramado onde minha cadela descarrega a base da pirâmide de Maslow que recolho civicamente. Um dos seguranças, há anos na atividade, já se tornou quase um amigo. O outro, ignora solenemente meus acenos e cumprimentos. O primeiro, assim que apareço, levanta o braço, saúda com um gentil “boa noite, sr. Henrique” e emenda um comentário sobre o clima.</p>
<p>O problema que me perturbava é que há coisa de três anos, quando ele chegou para trabalhar por aqui, esqueci de perguntar seu nome. E agora, depois de um sólido relacionamento já estabelecido, tenho vergonha de admitir que não sei e isso abalar nosso papo cotidiano. Grande, amigo, cara, rapaz ou um simples “Opa! E aí!” são as referências que uso para disfarçar minha falha.</p>
<p>Semana passada, o segurança que me ignorava foi substituído por um novo. Bigodinho no rosto, cabelo engomado, sorriso na cara. A simpatia em pessoa. De imediato, puxou assunto, fez carinho na Lucy, disse que adora cachorros e que tem um que dorme em sua cama. Na hora, lembrei da falha com meu outro amigo e decidi me precaver contra um remorso no futuro.</p>
<p>&#8211; Qual é seu nome, amigo?</p>
<p>(&#8230;continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/novos-amigos/" rel="noopener" target="_blank">no Estadão</a>)</p>
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		<title>Tem um app pra isso</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2019/05/15/tem-um-app-pra-isso/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 May 2019 22:42:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Comprei um carro novo há coisa de dois meses. O carro tem um sistema de bordo inteligente com telas e luzes por todos os lados. Ele mede coisas e fornece indicadores que eu nem sabia que precisava até conhecer e me viciar: estado geral do motor, nível de calibragem dos pneus, temperatura externa média, consumo [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Comprei um carro novo há coisa de dois meses. O carro tem um sistema de bordo inteligente com telas e luzes por todos os lados. Ele mede coisas e fornece indicadores que eu nem sabia que precisava até conhecer e me viciar: estado geral do motor, nível de calibragem dos pneus, temperatura externa média, consumo de combustível durante a viagem, durante a semana e no longo prazo, além de velocidade média durante a viagem, a semana e o longo prazo também (ainda não descobri o que ele define como &#8220;longo prazo&#8221;, mas estou prestes a fazer uma pesquisa a respeito porque já não consigo viver sem isso). Tenho tantas informações na minha frente que gasto mais tempo analisando indicadores no painel do que olhando para a rua. Outro dia, me peguei curioso tentando entender porque, afinal, a temperatura média do óleo estava em 65 graus naquela manhã e na anterior chegou a 90, mesmo sem ter a mais pífia ideia do que isso significa.</p>
<p>Semana passada, estava a caminho da escola com minhas filhas e uma luz amarela acendeu no painel. Com a luz, um sinal sonoro estridente. Com o sinal, um ícone incompreensível (tenho que admitir que é um problema meu e não do designer, porque à exceção de emojis, nunca consigo interpretar ícones). Com o ícone incompreensível, veio uma mensagem alarmante na telinha à minha frente: “Atenção! Indicador de risco. Não siga viagem!”. Duas exclamações no espaço de um tuíte. Parecia grave mesmo. Cogitei estacionar e chamar o guincho, mas às seis e meia da manhã o serviço levaria duas horas e minhas filhas perderiam a aula. Então, eu, que aprendi a dirigir num Uno Mille vermelho semi-velho e com embreagem comprometida segui viagem até o colégio para desembarcar as crianças e estacionei no primeiro posto de gasolina que encontrei depois. Abri o manual do carro, segui até a página de indicadores do painel, mas não havia informações que me dissessem o que poderia ser o malogrado desenho piscando. No manual, uma orientação final: “Se não conseguiu esclarecer sua dúvida neste guia, consulte nosso app ou ligue para a central em 0800-ESQUECE”.</p>
<p>O app. Que eu não tinha instalado. Que comecei a baixar ali na hora. E que usei meu suado pacote de dados e mais 25 minutos daquela manhã inalando a mistura de aromas de combustíveis fósseis e esperando pelo download de 250 megabytes. E depois de instalado, fiz um cadastro em que me pediam nome, endereço completo, idade, e-mail e número do chassi do carro (o chassi, gente? Jura, gente? É óbvio que eu não lembrava onde isso estava escrito). E uma vez concluído o cadastro e aceitos os termos de uso e identificado a área de suporte e ter clicado nos devidos procedimentos e botões, recebi a orientação para que apontasse a câmera do celular para o tal ícone no painel e tirasse uma foto para que o sistema de inteligência artificial me dissesse do que se tratava o problema. Eu fiz. Deu erro. Fiz de novo. Deu erro de novo. Se o app era artificialmente inteligente, estava claro que o burro ali era eu. E na quinta vez, depois de um minuto ou dois processando a informação, uma mensagem apareceu na tela do celular com a reveladora orientação que evidentemente salvaria minha vida: “Calibre os pneus do carro”.</p>
<p>Um app, pra isso. Pois é.</p>
<p>“Ô, amigo”, gritei para o frentista que assistiu a cena toda em silêncio, “posso calibrar os pneus aí?”. Depois, comprei uns chicletes para não parecer que estava abusando dos serviços do estabelecimento e fui embora.</p>
<p>* * *</p>
<p>Meu celular agora tem uma função chamada Bem-estar. O seu também tem. Na verdade, é algo mais chique do que isso, eles chamam Bem-estar digital &#8211; estudos dizem que se você adicionar a palavra “digital” a algo, ele fica mais sofisticado. É um app. E ele te diz quando você está fazendo um uso abusivo do celular. Mostra indicadores que você nunca imaginou que precisaria, tais como a quantidade de vezes que você desbloqueia o aparelho no dia, quanto tempo gasta em cada app e a quantidade de notificações recebidas. Agora eu confiro o app todos os dias para medir se meu bem-estar digital no momento está mais para bem do que para mal. Várias vezes por dia, na verdade. O que, pensando bem, talvez esteja influenciando negativamente meus indicadores.</p>
<p>(&#8230;continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/tem-um-app-pra-isso/">no site do Estadão</a>)</p>
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		<title>Devagar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Apr 2019 22:40:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[“Calma, você está na Bahia, não na Berrini.” Me peguei falando isso para mim hoje enquanto meus pés, um após outro, afundavam na areia fofa de uma praia e eu o fazia no ritmo de quem sai de um vagão de metrô rumo à rua. O processo de contemplação e desfrute quando se está na [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>“Calma, você está na Bahia, não na Berrini.”</p>
<p>Me peguei falando isso para mim hoje enquanto meus pés, um após outro, afundavam na areia fofa de uma praia e eu o fazia no ritmo de quem sai de um vagão de metrô rumo à rua.</p>
<p>O processo de contemplação e desfrute quando se está na natureza não é automático. Não basta o paraíso logo ali, é necessário que ele esteja aqui dentro também.</p>
<p>E isso é um passo mais complicado, porque eu não só pisava a areia como se fosse concreto, eu era também tomado pelo turbilhão de eventos, demandas e pendências que a rotina paulistana me impõe.</p>
<p>Comentei algo com a Manu na momento: de que a impressão é que hoje, quando viajamos e chegamos a um destino diferente, aquele deslumbramento inicial que sentíamos ao contemplar uma paisagem nova e pessoas novas é prejudicado pelo fato de que ao continuarmos conectados em nossos dispositivos e rotinas ao longo da viagem, acabamos trazendo muito daquilo na bagagem. No fim, o corpo chega ao destino mas o espírito ainda não aterrissou.</p>
<p>Estou lendo um livro chamado Digital Minimalism, mas já já eu falo dele, porque eu li um outro livro recentemente chamado Devagar e do qual eu preciso falar antes. E li um salmo ainda hoje a respeito do qual gostaria de escrever uma linha ou cinco depois.</p>
<p>Carl Honoré publicou Devagar lá no começo dos anos 2000. Demorei uns sete anos para ler esse livro, não porque o título fosse uma regra, mas por circunstâncias que pouco importam neste momento. Fato é que meio movido por curiosidade e meio por uma busca pessoal, seu livro me caiu na consciência como aquele tipo de verdade na qual você sempre acreditou lá no fundo, mas nunca tinha ouvido alguém dizer para poder concordar.</p>
<p>Honoré nos prova e provoca: precisamos desacelerar o passo, a vida é melhor — e mais saudável e mais bela — quando nos permitimos degustar em vez de engolir.</p>
<p>Cal Newport, um quase xará do Honoré, é autor do outro livro (agora sim) Digital Minimalism, um termo que me fisgou de imediato porque resume um bom tanto da minha obsessão recente em tentar expurgar da vida doméstica o excesso de tecnologia, de dispositivos e serviços digitais que nos estimulam à exaustão. Eu achava que era TOC, mas então entendi que não apenas eu e uma meia-dúzia de amigos, mas um bocado de gente no mundo vem expressando uma preocupação crescente com o espaço que isso tudo está tomando em nossas vidas.</p>
<p>Eu vinha tentando praticar um certo grau de minimalismo e a assimilação disso seria natural. Mas, fato é que a opção por ter menos é, no fundo, um tremendo luxo num mundo em que tantos tem tão pouco justamente por falta de opção. Então, o esforço mais recente aqui em casa é para sermos mais generosos. Ter menos, dividir mais e ser alguém melhor vale mais do que um capricho primeiro-mundista.</p>
<p>(&#8230;continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/devagar/">lá no site do Estadão</a>)</p>
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		<title>Os jardineiros da Escandinávia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Mar 2019 02:21:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Na Dinamarca, a diferença de renda entre uma pessoa na base da pirâmide social e a que figura entre as mais prósperas é de apenas quatro vezes – o dado consta em um estudo da OCDE que li há poucos dias. E muito disso se deve ao fato de os limites serem mais curtos, já [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Na Dinamarca, a diferença de renda entre uma pessoa na base da pirâmide social e a que figura entre as mais prósperas é de apenas quatro vezes – o dado consta em um estudo da OCDE que li há poucos dias. E muito disso se deve ao fato de os limites serem mais curtos, já que ninguém recebe salários excessivamente altos e ridiculamente baixos. Esse nível tão baixo de desigualdade coloca o país escandinavo na posição de segunda nação menos desigual no mundo.</p>
<p>A título de comparação – e chegando no que nos toca – no Brasil, segundo o IBGE, a diferença de renda entre os mais ricos e os mais pobres chega a 36 vezes. Esse abismo é o que nos coloca na outra ponta do ranking e nos confere a condição de nono país mais desigual do mundo. Com um detalhe agravante: os 50% mais pobres em nosso país não contam com uma renda mensal suficiente para uma vida digna (R$ 747 em média, menos de um salário mínimo) como recebem os mais pobres da Dinamarca. O IBGE diz ainda que no último ano a renda do 1% de brasileiros mais ricos cresceu, enquanto os mais pobres ficaram ainda mais pobres.</p>
<p>Fiquei pensando nesses números enquanto conversava com a Nina, minha filha mais velha, outro dia sobre outra questão. Ela me perguntava sobre meu trabalho e tinha curiosidade em saber o que eu gostaria de fazer durante o dia se não fizesse o que faço hoje. Hum. Me perguntou ainda se a faculdade que cursei tinha mais relação com o que eu faço ou com o que eu gostaria de fazer. Hums.</p>
<p>Tive que explicar que em nosso país a maior parte dos que tem o privilégio de cursar uma universidade, faz essa escolha considerando não apenas sua vocação, mas principalmente o potencial de renda que aquela profissão pode lhes garantir no futuro.</p>
<p>“Por quê?”, ela perguntou.</p>
<p>Bem, aí minha filha de 11 anos e eu emendamos uma conversa sobre privilégios, o mercado, injustiças, desigualdade, vocações e sobre as pessoas que podem escolher o que querem fazer com seu tempo entre oito da manhã e seis da tarde. Como, por exemplo, os cidadãos dinamarqueses.</p>
<p>E daquele dia em diante, tenho preenchido parte do meu tempo nas ruas observando outras pessoas exercendo suas profissões e pensando se o fazem com algum senso de realização. Venho tentando imaginar também se, excluindo a questão do talento – ou a falta dele – eu poderia preferir fazer algum daqueles trabalhos em vez de fazer o que eu faço cotidianamente há 23 anos. O balconista do café, o motorista de táxi, o cabeleireiro, a dona de uma floricultura, o dono da imobiliária, o balconista da livraria, o professor universitário, o padeiro, o jardineiro… pessoas com quem costumo cruzar no caminho para o trabalho e que vêm passando pelo escrutínio da minha análise.</p>
<p>(&#8230;continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/os-jardineiros-da-escandinavia/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">no site do Estadão</a>)</p>
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		<title>O dia em que a TV morreu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Feb 2019 02:20:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Procuro na memória mas não consigo encontrar quando foi o momento exato em que a televisão morreu aqui em casa. Não lembro sequer o ano, algo entre 2015 e 2018, em que ela deixou de ter o reinado que sempre lhe foi garantido desde que me conheço por telespectad… digo, gente. Não me refiro ao [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Procuro na memória mas não consigo encontrar quando foi o momento exato em que a televisão morreu aqui em casa. Não lembro sequer o ano, algo entre 2015 e 2018, em que ela deixou de ter o reinado que sempre lhe foi garantido desde que me conheço por telespectad… digo, gente. Não me refiro ao dispositivo, que continua ocupando cada vez mais consideráveis polegadas na sala, mas à TV linear, aos canais sendo transmitidos, a programação regular, os programas intercalados por intervalos comerciais – eu gostava quando chamavam de reclames, mas se eu disser isso alguém pode me chamar de nostálgico – diante dos quais sempre fomos observadores pacientes e conformados.</p>
<p>Fazendo uma conta rápida, eu diria que hoje em 98,5% do tempo que a TV de casa está ligada, o consumo se divide entre Netflix e YouTube. No 1,5% do tempo que resta, sou eu, sentado aqui, escrevendo no computador e com algum canal qualquer transmitindo esportes que não pratico. Assim acontece nesse instante.</p>
<p>Por “um canal qualquer transmitindo esportes que não pratico” entenda o Off. Adoro o Off. Não sei se é porque acho que aquilo tudo é ficção pura ou se, de fato, existem pessoas que passam suas vidas sem estar doze horas por dia em um escritório, fazendo reuniões e respondendo e-mails. Aquela gente bronzeada, viajando por lugares paradisíacos, encarando grandes aventuras e fazendo cotidianamente coisas que eu jamais sonharia fazer uma vez sequer na vida. É tipo o Senhor dos Anéis. Só pode ser ficção.</p>
<p>Então, a TV funciona como uma espécie de proteção de tela, um pano de fundo enquanto estou sozinho na sala. E geralmente aquilo fica só ali, ocupando espaço, um respiro e show de luzes piscando para que eu possa me concentrar nas palavras que preciso juntar. Mas hoje, ao olhar para aquela tela, esse lance todo sobre a morte da TV me distraiu e perdi a linha do que estava escrevendo e comecei a redigir isso que você lê agora.</p>
<p>Esse era para ser um texto sobre desigualdade de renda na Escandinávia. Juro. Mas fica para uma próxima.</p>
<p>(&#8230;continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/o-dia-em-que-a-tv-morreu/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">no site do Estadão</a>)</p>
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		<title>A perda da inocência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Jan 2019 02:18:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[– Davi, que machucado é esse no seu joelho? – a tia preocupada perguntou para o sobrinho. – É que eu fui voar. Só que não deu. Se tem uma coisa que eu tenho medo é de algo que martela em minha mente como “a perda da inocência”. Falo como pai, tenho pesadelos com isso. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>– Davi, que machucado é esse no seu joelho? – a tia preocupada perguntou para o sobrinho.<br />
– É que eu fui voar. Só que não deu.</p>
<p>Se tem uma coisa que eu tenho medo é de algo que martela em minha mente como “a perda da inocência”. Falo como pai, tenho pesadelos com isso. Temo a chegada do inevitável momento, o fatídico dia em que os olhos de minhas filhas se abrirão e compreenderão que existem questões subjetivas escondidas sob a superfície, sob as máscaras, sob essa espuma de artificialidades e das quais elas vinham sendo poupadas até ali pelo invólucro da pureza da infância.</p>
<p>Tenho medo do momento em que elas deixarão de ter esse poder, essa espécie de bolha que envolve os primeiros anos de nossa espécie e que faz com que crianças enxerguem o mundo e o percebam sem malícia, que vivam convictas de que são capazes de voar. Para elas, tudo ainda é cru, puro, é só aquilo mesmo que está sendo dito e feito naquela hora.</p>
<p>No fim do ano passado, estava na reunião de classe da Nina quando a professora recomendou aos pais que, para o ano de 2019, lessem um livro sobre a criança aos doze anos – idade que a maior parte da turma fará neste semestre. Eu tinha ficado com a tarefa de escrever a ata da reunião e tomava notas em um papel enquanto ela falava.</p>
<p>Então ela disse: “Neste ano, as crianças estão no ápice da infância e ainda estão aprendendo a fazer a conexão de sua presença no mundo. Elas estão vivendo a alegria de estar no mundo plenamente, estão no “topo da montanha”. E a partir de agora, elas começam a despedida da infância para entrar, aos poucos, na adolescência”.</p>
<p>Eu parei de escrever naquele momento e por alguns minutos deixei de ouvir o que ela dizia. Passei o olhar pelos rostos de outros pais e mães sentados em círculo diante de mim para ver se eles se espantaram com aquilo tanto quanto eu, mas a reunião seguiu em frente.</p>
<p>Eu não. De lá para cá, me pego entrando no quarto da Nina para observar como ela organiza suas coisas sobre sua mesa, os brinquedos, as bonecas, os livros, seus desenhos. Eu me sento mais para ouvi-la e, mais do que saber o que se passa, tento notar as transformações em seu jeito de pensar e enxergar o redor. Eu encaro seus olhinhos brilhantes (rapaz, se tem uma menina com olhos sorridentes e brilhantes, essa menina é a Nina) e fico aliviado em perceber que a pequena camada de pureza ainda está lá, que a inocência ainda reside em seus olhos.</p>
<p>(&#8230;continua ali <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/a-perda-da-inocencia/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">no site do Estadão</a>)</p>
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		<title>Primavera, poesia e livros como presentes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Dec 2018 02:15:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Tem circulado nas minhas bolhas uma mobilização entre os amigos incentivando que sejam dados livros como presentes neste Natal. Alguns o sugerem como forma de celebrar e incentivar a leitura, outros como caminho para ajudar a fomentar o mercado editorial no Brasil que anda em crise – no resto do mundo, o cenário é diferente [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Tem circulado nas minhas bolhas uma mobilização entre os amigos incentivando que sejam dados livros como presentes neste Natal. Alguns o sugerem como forma de celebrar e incentivar a leitura, outros como caminho para ajudar a fomentar o mercado editorial no Brasil que anda em crise – no resto do mundo, o cenário é diferente e o consumo de livros, especialmente impressos, tem crescido, enquanto no Brasil, dada a crise pela qual passam país, livrarias, editoras e cidadãos, as vendas de livros padecem.</p>
<p>Acho a campanha um tanto piegas. Quem gosta de livros, afinal, já os compraria de qualquer forma. E quem não tem por hábito ler, não me parece que será incentivado a mudar em função de um movimento na internet. Mas como sou um bocado influenciado quando leio em redes sociais coisas que endossam meus interesses, me animei e propus à minha esposa que aderíssemos.</p>
<p>Fiquei com a incumbência de comprar para as crianças da família – leia-se filhas, sobrinhos e afilhados – livros adequados às suas idades e estilos (bem, aos meus irmãos e compadres que eventualmente me leem por aqui, peço desculpas pelo spoiler natalino). Crianças, afinal, são o objeto de nossa tentativa de exercer alguma influência positiva no mundo. E com estímulos eletrônicos por todos os lados, ganhar livros pode ser uma boa chance de conexão com outro tipo de universo.</p>
<p>“É sopa”, pensei, “me dê 15 minutos numa livraria e eu resolvo tudo”. Mas ignorei meu retrospecto em livrarias ao pensar tal coisa. Ignorei, sobretudo, meu retrospecto sozinho em livrarias. E fato foi que duas horas zanzando pelos corredores e folheando exemplares não bastaram para eu comprar os presentes que gostaria. Acabei comprando mais livros do que temos de crianças para presentear e mais da metade eram histórias que eu mesmo gostaria de ler.</p>
<p>Porque comprar livros exige tempo. Foi o que pensei ao final das compras, ainda na livraria, enquanto sentava para um café. Não estou romanceando a questão, mas a escolha é um ritual. Ao dar um livro, você endossa aquela história como algo ao qual acredita que o outro deveria dedicar suas horas, dias, às vezes algumas semanas. E o faz porque confiou na sua sugestão. Você não dá a alguém de quem gosta um livro que desaprova. De preferência, deve dar um livro que já leu e sobre o qual gostaria de conversar depois (se não pensa em conversar depois com a pessoa, não deveria dar presente, né?).</p>
<p>Com as meninas em casa, o legado da leitura é levado à sério. Temos uma estante com alguns exemplares, temos livros nas cabeceiras das camas, deixamos sempre algum na sala. Em casa, só lemos livros de papel para que talvez o exemplo crie nelas o desejo de ler também (tenho um Kindle, que até uso bastante, mas só o ligo depois que as crianças já dormiram ou em viagens a trabalho). Tem funcionado, devo dizer. Assim como funcionou para mim observar minha mãe passar algumas tardes às voltas com romances policiais de Agatha Christie, minha tia nos levar para passear em feiras de livros e bancas de jornais e a professora que nos levava todas as terças para uma rodada de histórias na biblioteca perto da escola.</p>
<p>Isso tudo me vinha à mente enquanto eu relia as páginas de um livro do Ziraldo trinta anos depois de tê-lo em mãos pela primeira vez. “Acho que ele vai gostar desse”, concluí enquanto o separava para um sobrinho.</p>
<p>(&#8230; continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/primavera-poesia-e-livros-como-presentes/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">ali no Estadão</a>)</p>
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		<title>Só queria que as eleições fossem Copa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Oct 2018 12:21:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[“Antigamente as coisas eram piores. Mas foram piorando” (Paulo Mendes Campos). Naldo queria que as eleições fossem Copa do Mundo. Desejava que passado o jogo derradeiro, fosse bom ou ruim o resultado, que o povo se juntasse na segunda-feira para se recompor e seguir de novo a rotina, festejando a glória de mais uma taça [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>“Antigamente as coisas eram piores. Mas foram piorando” (Paulo Mendes Campos).</p>
<p>Naldo queria que as eleições fossem Copa do Mundo. Desejava que passado o jogo derradeiro, fosse bom ou ruim o resultado, que o povo se juntasse na segunda-feira para se recompor e seguir de novo a rotina, festejando a glória de mais uma taça ou compartilhando a fossa e o consolo de um ombro amigo. A euforia tem seu fim, o poço chega ao seu fundo, mas o dia seguinte estaria logo ali e a vida seguiria, com a temática do noticiário e nas conversas finalmente adquirindo outras cores. Mas Naldo vem dizendo que a vida segue em piorar, que as últimas semanas pareciam uma prorrogação sem fim desde que seu candidato nem passou do primeiro turno.</p>
<p>Dani queria que as Eleições fossem Carnaval. E o dia seguinte, uma quarta-feira de cinzas. Dia para curar o corpo, limpar a bagunça, retomar o trabalho e seguir em frente com as energias prontas para mais um ano que enfim começava nesse país. &#8220;Só o Brasil e a China tem seu Ano Novo em outras datas&#8221;, ela brincava. Ela queria que as lembranças dos dias que antecederam fossem só festa, serpentina e que gente em passeata na avenida fosse sinônimo de samba e axé. &#8220;Muito axé&#8221;, dizia Dani. Mas as madrugadas andavam frias demais e a batucada aqui e acolá tinha som de panelaço. Seu candidato estava no segundo turno.</p>
<p>Plínio queria que as eleições fossem um sonho. Desses que resultam de um dia estressante. Uma noite longa e cheia de solavancos, mas com certo alívio depois de um despertar assustado e de perceber que a realidade, a boa e velha realidade com seu chão sólido, permanecia inalterada. Mas ele vivia mesmo era um pesadelo, uma interminável madrugada escura em que pessoas se afastaram, ele viu seus valores serem colocados em cheque e ele próprio se questionava se estava mesmo apoiando uma visão de mundo coerente com o que sempre lutou. Plínio votou arrependido.</p>
<p>Alice queria que as Eleições fossem um churrasco com bebedeira. E a segunda-feira, só aquela ressaca insuportável, arrependimento, o sentimento de ter sido pisoteada por uma manada, mas a certeza de que amanhã tudo estaria bem. Mas, a família havia brigado, o clima andava azedo, nenhum candidato a representava e no dia seguinte, repetia Alice, as coisas não ficariam bem. Ela anulou os votos, todos eles.</p>
<p>Alice era casada com Plínio, que era irmão da Dani, que se casou com Mônica, que era amiga de infância de Naldo, que era casado com a Isa e pai de três filhos cujos melhores amigos eram os gêmeos de Plínio e Alice.</p>
<p>(&#8230;continua. Crônica pós-eleitoral para o Estadão. <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/so-queria-que-as-eleicoes-fossem-copa/" target="_blank" rel="noopener">Leia aqui no site do jornal</a>).</p>
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		<title>O subversivo da sexta-série</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2018/10/26/o-subversivo-da-sexta-serie/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 27 Oct 2018 02:18:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Era aula de Matemática e a professora Maria Cristina 1 (você vai entender já já) entrou na aula com um recado em mãos. Na próxima terça, ela disse, faríamos o hasteamento da bandeira e cantaríamos o hino nacional no pátio da frente. O sexto ano, continuou a professora, ficaria com a incumbência de puxar o [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Era aula de Matemática e a professora Maria Cristina 1 (você vai entender já já) entrou na aula com um recado em mãos. Na próxima terça, ela disse, faríamos o hasteamento da bandeira e cantaríamos o hino nacional no pátio da frente. O sexto ano, continuou a professora, ficaria com a incumbência de puxar o coro para as demais turmas. Aquilo virou uma euforia só na classe.</p>
<p>Eu tinha 12 anos e estava na sexta-série. E a professora de Matemática, talvez já antevendo que não seria exatamente na matéria dela que eu me destacaria no futuro, teve a ideia de me indicar uma outra área e perguntou se eu aceitava escrever uma redação ou poema para ser recitado naquele dia. Eu não lembro como foi exatamente que eu aceitei a sugestão, mas quando cheguei em casa aquela tarde, tinha essa tarefa em mãos.</p>
<p>Na manhã da terça-feira, passei algum tempo antes da aula fazendo rascunhos e terminando meu poeminha. Por alguma razão que só a adolescência explica, o texto virou uma paródia do Hino Nacional recheada de analogias e críticas ao governo e rimas bem ruins. Hoje, estranhamente, à exceção do teor, eu não lembro de nada do que escrevi.</p>
<p>&#8211; Luiz Henrique &#8211; chamou a professora de Matemática durante a primeira aula, toda animada &#8211; você escreveu a redação para ser lida hoje?</p>
<p>&#8211; Ahãm, professora &#8211; respondi &#8211; tá aqui ó.</p>
<p>Entreguei o texto a ela, que desdobrou a folha, leu atentamente, deu aquela virada no papel para ver se não tinha nada no verso, depois olhou pra mim com um sorrisinho no canto da boca e disse:</p>
<p>&#8211; Deixe isso aqui comigo por enquanto, tá bom?</p>
<p>Ela dobrou o papel e colocou no bolso do guarda-pó branco que usava.</p>
<p>Chegou a hora do hino, as classes desceram para o pátio, alguém puxou a corda para subir a bandeira, nos postamos todos em silêncio e reverência, cantamos o hino enfileirados em volta do mastro e voltamos de forma ordenada para as salas de aula. A professora não estava conosco.</p>
<p>Nada de me devolverem o papel, nada de me chamarem para ler o poema (e, poxa, a turma toda sabia que eu iria falar e ficou me pressionando…), nada de falarem qualquer coisinha a respeito, até que…</p>
<p>Até que perto da última aula, a inspetora do corredor abriu a porta da sala e avisou que eu deveria me dirigir até a diretoria do colégio e procurar pela Dona Fulana, coordenadora do sexto ano.</p>
<p>&#8211; Oi, Luiz Henrique, pode sentar aqui, por favor.</p>
<p>Eu me sentei e vi que ela estava com meu papel em mãos.</p>
<p>&#8211; Foi você quem escreveu isso aqui?</p>
<p>&#8211; Foi, sim, Dona Fulana.</p>
<p>Eu, que quase nunca esqueço nomes, esqueci o daquela senhora. Ela tinha uns 587 anos de idade, usava o cabelo pintado de amarelo ocre com laquê para ficar meio enrolado no entorno de todo seu rosto e uns óculos foto-sensíveis que deixavam a lente meio esverdeada. Ela continuou:</p>
<p>&#8211; Você acha mesmo que nosso povo é assim? Que o país é desse jeito que você diz aqui? &#8211; e citou um trecho do texto.</p>
<p>&#8211; Dona Fulana, é só uma sátira. Eu quis fazer algo meio engraçado, na verdade. Mas, é sim, também uma crítica ao que eu acho que…</p>
<p>&#8211; Rapazinho, você é um anti-patriota?</p>
<p>&#8211; O quê? Eu não, claro que não.</p>
<p>&#8211; Menino… &#8211; ela titubeava enquanto balançava o papel na mão &#8211; é sim. Isso aqui é anti-patriotismo, garoto. Eu não vou nem falar o que… Você sabe o que pode acontecer com você se isso aqui cair nas mãos erradas? Você sabe o que pode acontecer com seus pais se isso aqui parar nas mãos das pessoas erradas?</p>
<p>&#8211; Eu não acho que…</p>
<p>&#8211; Eles podem ser presos. Você gostaria que seus pais fossem…? &#8211; ela não continuou a frase, mas eu entendi.</p>
<p>&#8211; Não. Mas…</p>
<p>&#8211; Olha aqui. Para sua segurança, isso aqui vai ficar comigo. Para a sua… segurança.</p>
<p>Mas, não era exatamente de temor ou proteção o tom em sua voz. Era de inquisição mesmo. E inquisição foi uma palavra que eu só aprendi anos depois, mas cujo significado entendi ali naquela mesa.</p>
<p>Me levantei e voltei para a classe. Do que me lembro, mesmo com a pressão dos colegas para contar o que a Dona Fulana queria (nunca era boa coisa ser chamado na diretoria), fiquei quieto a respeito por um tempo. Depois eu relatei o que havia acontecido.</p>
<p>Eu tinha alguma noção do que ela estava falando. Estávamos em 1992 e a ditadura militar era um assunto com o qual eu havia tido algum contato durante as aulas de História do Brasil e entendia que havia terminado alguns anos antes. No entanto, para mim isso se referia a um passado tão distante que soava ultrapassado e um pouco ridículo aquele discurso. A distância significava quase metade da minha vida até o momento e, aos 12 anos, com toda relatividade que o tempo possui na infância, eu não cogitava que a ditadura fosse algo pelo qual alguém vivo teria passado.</p>
<p>Tinha uma outra professora na escola, a Maria Cristina 2 (pronto, entendeu?), lecionava Geografia e era a única funcionária negra no colégio inteiro que não trabalhava na limpeza. Era sempre muito exigente e dura com todos. Ninguém na classe tirava nota maior do que 9 em Geografia.</p>
<p>Na semana seguinte ao episódio, ela entrou na classe, passou por mim e antes da aula começar, me chamou na mesa dela.</p>
<p>&#8211; Ei, menino, vem cá.</p>
<p>Me aproximei e ela disse:</p>
<p>&#8211; Que história é essa do seu poema? Eu fiquei sabendo.</p>
<p>&#8211; Ah professora, então, né? A senhora viu? O texto ficou lá com a Dona Fulana, ela disse que é perigoso para minha família se aquilo cair em mãos erradas. Disse que eu sou anti-patriota, mas eu não sou. Não sou mesmo.</p>
<p>Ela me fitou por alguns segundos e sorriu.</p>
<p>&#8211; Estou tão orgulhosa.</p>
<p>E aí, algumas coisas começaram a fazer sentido para mim. Ali, naquela sala, alguns papéis se enquadraram em uma perspectiva que eu não possuía até então. Dali em diante, comecei a notar que haviam campos e lados que as pessoas assumiam para julgar os outros, para olhar para o nosso passado, para seus próprios passados, para as histórias e jornadas das quais vinham e fazer suas escolhas sobre por onde seguiriam.</p>
<p>&#8211; Seu texto está comigo &#8211; ela disse. Eu pedi à Fulana para ver, disse que cuidaria disso e guardei na minha bolsa.</p>
<p>&#8211; Ah é? &#8211; eu ri.</p>
<p>&#8211; Ahãm. Posso ficar com ele?</p>
<p>&#8211; Pode.</p>
<p>&#8211; Se você quiser, tiro uma cópia e te devolvo.</p>
<p>&#8211; Tá bom.</p>
<p>Nunca mais vi aquele pedaço de papel. E confesso que não tenho na memória o que afinal de tão grave ou transgressor eu escrevi. Daquele dia em diante, a professora de Geografia me via no corredor e fazia um afago, enquanto a coordenadora a todo custo me evitava e procurava razões para me inquirir. Jamais a vi sorrir. Mas, o ponto é que as duas haviam vivido o mesmo tempo, presenciado os mesmos fatos, passado juntas pelas consequências daquele regime. Cada uma a seu modo, porém, olhavam para o mundo a partir de óticas diferentes. Talvez porque de um lado estava o oprimido que afinal era livre e, do outro, a mão pesada de quem julgava justo o rigor aplicado pelo opressor.</p>
<p>Existiam lados na história. Os olhares de ambas escondiam um passado que eu não conhecia, mas eram naquele momento como janelas para mim, revelando que nem todo mundo, como eu, observava aquele tempo da história olhando para trás. Aprendi a interpretar aquele silêncio. Para alguns, havia uma sombra que relembrava tempos recentes, recentes demais, algo perto demais para não sentir soprar um vento gelado quando o assunto surgia inesperadamente. Aprendi &#8211; depois daquilo e ao longo dos anos seguintes &#8211; que há momentos em que é preciso fazer a escolha por um desses lados, é preciso se posicionar, sob risco de, calados, condescender com a injustiça ao silenciarmos diante do mal.</p>
<p>Entre os amigos de turma, a história circulou. Fiquei famoso por um bimestre ou menos. A gente não sabia direito o que era ditadura, mas agora sabíamos o que era censura. E foi assim que a coisa foi tratada entre todos.</p>
<p>E eu, um nerd do sexto F, me tornei um subversivo.</p>
<p>* * *</p>
<p>Continuei escrevendo depois daquilo (a professora de Matemática tinha razão). Escrevi fanzines, panfletos, escrevi em jornais, blogs, escrevi um livro e centenas de emails para grupos de amigos. Nunca mais fui censurado em qualquer coisa que quisesse dizer &#8211; por mais que eu ainda acredite que a maior parte não merecia ser publicada, porém por outros motivos &#8211; e tenho na escrita a forma com a qual acredito poder expressar com mais clareza meus pensamentos. Mais do que isso, escrever é uma forma que encontro para colocar certa ordem nas ideias e descobrir o que penso sobre algo.</p>
<p>Jamais poderia imaginar que aquela repressão falada em vozes baixas pela escola e que já era um passado tão distante para mim e se tornaria um passado ainda mais e cada vez mais distante em nossa sociedade, poderia um dia retornar à pauta, voltar às rodas de conversas (agora em alta voz) trinta anos depois. Jamais imaginar que o horror do passado que assombrava uma jovem professora na minha adolescência viraria uma alternativa aceitável e um passado glorioso para parte significativa do nosso povo. Me nego a acreditar que, independentemente de candidatos ou partidos, o mal que a simples sombra disso pode representar em nossas vidas seja um assunto menos importante do que outros tópicos na agenda política deste momento.</p>
<p>Não sei o que se passou com Dona Fulana ou a professora de Matemática depois que saí do ginásio. A segunda Maria Cristina, eu encontrei em um estacionamento próximo à escola poucas semanas antes de me formar no Ensino Médio. Ela me abraçou e perguntou se já tinha decidido o que fazer na faculdade. Quando disse que estava em dúvida entre estudar Economia ou Publicidade, ela se mostrou desapontada. “Puxa, menino, então você vai ser mais um desses?”. Eu sorri, sabendo o que ela queria dizer e respondi que não. Até hoje, 26 anos depois, sempre que passo na porta daquela escola, a bandeira hasteada sendo balançada pelo vento me traz essa história toda à memória. Mas nunca achei que um dia ela deixaria de ser uma piada. E quase sempre, quando preciso exercer meu compromisso cívico ao votar, ao escrever, ao educar minhas filhas, ao escolher como tratar meu próximo, eu me lembro, de algum jeito, que muitas vezes é preciso decidir de que lado estou.</p>
<p>Vivemos hoje um momento crítico em que essa escolha precisa ser feita. Porque a questão não é apenas sobre o que acontecerá no país nos próximos anos, mas especialmente sobre o exercício de olhar para trás, para nossa história tão recente e escolher de que lado queremos ficar, de que lado estaríamos se os tempos de hoje fossem aqueles de 1964. É hora, agora, de abandonar as discussões rasas e refletir nessa questão com a complexidade que ela merece. Porque isso é muito maior do que partidos políticos, condutas e dinheiro. Falamos de uma questão moral, da nossa liberdade, de direitos adquiridos com suor e sangue sendo ameaçados.</p>
<p>E ainda que sejamos um só povo e um país e a sociedade inteira vá viver as consequências &#8211; boas e ruins &#8211; do resultado das eleições deste ano, a escolha que fizermos agora dará a medida do peso em nossa consciência no futuro. Porque também há fundamentos em uma sociedade que jamais deveriam ser negociados: a liberdade, a democracia, o respeito à identidade de cada cidadão, os direitos humanos, a igualdade entre homens e mulheres, o compromisso de incluir os que foram excluídos, o dever de garantir a voz aos que foram calados pela mordaça da injustiça e da opressão.</p>
<p>O voto é um depósito de confiança que fazemos no futuro que desejamos. Meu voto é, sobretudo, sobre o recado que quero dar a mim mesmo nos anos que virão pela frente e a satisfação que precisarei dar às minhas filhas.</p>
<p>Olhando para trás agora, relembrando a história daquela terça-feira em 1992, me ocorre que talvez o sentimento que habitava a consciência daquelas mulheres era o mesmo: medo. A força capaz de paralisar, de calar, de nos levar a fazer escolhas que supostamente nos preservam ou garantam a estabilidade que desejamos. Medo que é também a força que se contrapõe e cala em nossa consciência e apaga de nossos olhares a esperança.</p>
<p>Esperança da qual precisamos tanto nessa hora. Para poder seguir em frente apesar do frio paralisante, para resistir com otimismo e fé, para jamais negociar nossos valores mais preciosos em troca do que for, jamais perder de vista a imagem clara de que somos melhores quando somos juntos, quando somos livres, quando nos unimos e nos permitimos sonhar e semear como sociedade um futuro melhor.</p>
<p>(Minha crônica dessa semana para o <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/o-subversivo-da-sexta-serie/" rel="noopener" target="_blank">Estadão</a>).</p>
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		<title>Ato patriótico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Oct 2018 13:19:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Aprendi a dobrar a bandeira Nacional quando era escriturário em um banco. Uma das minhas tarefas de rotina era recolher a bandeira do mastro no final do dia. Para tanto, havia um protocolo a ser seguido. Pelo menos foi o que Leonildo, meu chefe na época, me disse solene da primeira vez. Na forma de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Aprendi a dobrar a bandeira Nacional quando era escriturário em um banco.</p>
<p>Uma das minhas tarefas de rotina era recolher a bandeira do mastro no final do dia. Para tanto, havia um protocolo a ser seguido. Pelo menos foi o que Leonildo, meu chefe na época, me disse solene da primeira vez.</p>
<p>Na forma de retirar o mastro, de recolher a bandeira, chamar alguém para ajudar a segurar as pontas, jamais deixar cair ou raspar no chão (eu achava que um raio cairia do céu na minha cabeça ou um esquadrão da Rota apareceria atrás de mim se eu derrubasse aquilo) e dobrar, que era um ritual à parte. Primeiro, uma dobra longitudinal em toda a bandeira e depois, formar um triângulo com uma das pontas e ir juntando até ela ficar num formato triangular compacto. Sem sobras, rebarbas, sem amarrotar. Ao final, levar a bandeira repousando sobre as duas mãos, como se fosse uma bandeja &#8211; nunca embaixo da axila ou com uma mão só &#8211; e guardar no lugar apropriado.</p>
<p>Até hoje, não sei dizer se existe mesmo um jeito oficial de dobrar a bandeira e se é assim mesmo que se faz. Nunca busquei isso no Google para conferir se aprendi, de fato, algum gesto cívico ou fui vítima de trote. Tenho medo da resposta em qualquer dos casos &#8211; ainda que ache bonita nossa bandeira e tenha uma guardada em casa e devidamente dobrada, tal qual o protocolo, para ocasiões de Copa do Mundo. Mas sei que foi assim que o Leonildo me ensinou e assim me supervisionava diariamente.</p>
<p>Era preciso um certo espírito de reverência para recolher aquele pedaço de pano que ficava o dia todo pendurado ao relento em uma avenida comercial na periferia da cidade, sujeito à fumaça dos veículos, chuva e vandalismos e depois dormia em berço esplêndido no armário da nossa repartição.</p>
<p>&#8211; É patriotismo, menino. Tem uma lei, um protocolo para seguir.</p>
<p>Ele adorava a palavra protocolo.</p>
<p>(&#8230;minha crônica dessa semana para o Estadão. <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/ato-patriotico/" target="_blank" rel="noopener">Continua lá no site</a>)</p>
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		<item>
		<title>O taxista e a ditadura</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2018/10/05/o-taxista-e-a-ditadura/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Oct 2018 00:38:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Entrei em um táxi semana passada. Era fim de dia, garoava e a tradicional puxada de assunto perguntando sobre o clima não adiantava muita coisa. Lembrei que o debate presidencial havia terminado há pouco tempo e, como eu não tinha visto, usei o tema como gatilho para uma conversa com o motorista: &#8211; Tá na [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Entrei em um táxi semana passada. Era fim de dia, garoava e a tradicional puxada de assunto perguntando sobre o clima não adiantava muita coisa. Lembrei que o debate presidencial havia terminado há pouco tempo e, como eu não tinha visto, usei o tema como gatilho para uma conversa com o motorista:</p>
<p>&#8211; Tá na rua faz tempo?<br />
&#8211; Não, senhor. Peguei agora.<br />
&#8211; Viu o debate na TV hoje?<br />
&#8211; Debate? Eu não! Não quero ouvir o que esses caras tem para falar.<br />
&#8211; Ué, mas o senhor não vai votar?<br />
&#8211; Voto, sim. Mas não pra presidente. Esse eu anulo. Para mim, nenhum ali presta. Eles só vão nos debates para contar mentira pro povo.<br />
&#8211; Entendi.</p>
<p>Era um senhor com mais de 70 anos, negro, sotaque nordestino arrastado, um bigode ralo estampando o rosto. Insisti:</p>
<p>&#8211; O senhor não fica preocupado? Digo, o que vai ser desse nosso país?</p>
<p>Ele virou levemente o corpo para olhar para trás e respondeu:</p>
<p>&#8211; Menino, vai ser ruim, vai ser péssimo.<br />
&#8211; As pesquisas dizem que vai dar Haddad e Bolsonaro no segundo turno. Eu acho preocupante.<br />
&#8211; O PT não presta. Não voto neles nunca. E&#8230; esse Bolsonaro, esse homem&#8230; quanto anos você tem? 38?<br />
&#8211; Tenho 37.<br />
&#8211; É quase a idade do meu filho. Então, menino, te digo o que falo pra ele: vocês não sabem o que foi a ditadura. O povo, essa meninada agora&#8230; ficam falando que aquele tempo foi melhor, que tudo era bom. Ninguém sabe o que era aquilo. Não sabem o que era gente com medo, gente sendo torturada. Todo mundo vivia era com medo. Não sobrava só pra bandido e pobre, não. Vou te falar: sobrava pra filho de rico e filho de pobre, pra branco e pra preto. Se desse bobeira, tomava sarrafo. E se fizesse coisa errada, morria mesmo. Agora ele quer dar um revólver pra cada cidadão? Isso é uma estupidez! Se já tem violência com tanta arma na rua, imagina se tá todo mundo armado? O bandido não pensa duas vezes, ele já vai chegar atirando. Isso aqui vai virar guerra, meu filho.</p>
<p>Ainda que meu senso e valores pessoais dessem razão ao homem, seu discurso apaixonado só me fazia enquadrá-lo numa caixa ideológica da qual partilho e eu pensava que tinha caído no raro caso de um taxista de esquerda (considerando minhas experiências). O que dava indícios de que vinha pela frente uma conversa tranquila.</p>
<p>O trânsito estava parado. Ele estava ofegante e às vezes me fitava pelo espelho retrovisor. Seu sermão acalorado me fez pensar no que ele poderia ter passado nas décadas de 70 ou 80. A família, os filhos, o motivo de ter migrado para São Paulo. Emendei outra pergunta:</p>
<p>&#8211; O senhor falou isso tudo… O senhor sofreu muito durante a ditadura?</p>
<p>Ele virou o corpo todo em minha direção e me encarou por um tempo até soltar uma avalanche:</p>
<p>&#8211; Sofrer? Sofrer?! Meu filho, eu era policial.</p>
<p>Engoli seco.</p>
<p>Depois de dois segundos, ele continuou:</p>
<p>&#8211; Só eu sei o que eu fiz naquele tempo. Só eu sei o que a gente fazia por aí naquela época. Foi muito sofrimento pra esse povo.</p>
<p>A conversa seguiu, com ele me dando detalhes de como levavam ladrões de rua para serem torturados, sobre como atiravam ao menor sinal de suspeita (&#8220;não tinha essa de esperar ambulância no local, a ordem era atirar e já ligar pro rabecão vir buscar o corpo&#8221;), sobre métodos de tortura para estupradores e ladrões e sobre como ele foi expulso da corporação porque abordou um jovem que consumia maconha na rua e descobriu, dias depois, que era filho de alguém com patente superior que exigiu sua demissão (quer dizer, a justiça não era bem assim para todos, né?). E longe de ser alguém de esquerda, meu taxista era um conservador convicto, defensor de valores morais que o levavam declaradamente para o campo da direita. Mas ele não podia aceitar, dizia, que alguém apoiasse ou falasse em favor desse tipo de ideia.</p>
<p>O carro se aproximava da porta do meu prédio, a conversa tinha enveredado para coisas sobre nossas famílias, os filhos dele e rumos da vida. Antes de me despedir, perguntei:</p>
<p>&#8211; E o que o senhor pretende fazer depois de novembro?</p>
<p>&#8211; Eu vou embora, menino. Tenho uma terrinha lá na Paraíba, tudo ajeitado. Já estou em São Paulo há 52 anos. Agora vou pegar minha velha, meu mais novo e vamos morar por lá. Planto uma coisa ali, consigo outra lá, vou montar uma lanchonete na cidade pro meu filho. Isso aqui não dá mais. Isso aqui vai virar guerra e eu já tô cansado. Estou me desfazendo desse táxi aqui e dia 4 eu vou me embora.</p>
<p>&#8211; Bom, então boa viagem. E boa sorte para nós todos.</p>
<p>&#8211; Obrigado. Fica com Deus aí garoto.</p>
<p>Subi o elevador, beijei minhas filhas e minha esposa. Tomei um banho, desfiz as malas e fui para o quarto. Deitei em minha cama. Era tarde. Talvez, tarde demais.</p>
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		<title>Quando já não escuto os pássaros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Sep 2018 02:13:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Estacionei a bicicleta por um minuto ou dois porque minha atenção foi capturada por aquele som. Olhei para o alto, mirei os menores galhos das árvores que se projetavam até o outro lado da rua e tentei encontrar o pássaro que cantava daquele jeito, aquele canto que nunca havia escutado. Não foi a primeira vez [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Estacionei a bicicleta por um minuto ou dois porque minha atenção foi capturada por aquele som. Olhei para o alto, mirei os menores galhos das árvores que se projetavam até o outro lado da rua e tentei encontrar o pássaro que cantava daquele jeito, aquele canto que nunca havia escutado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não foi a primeira vez que me vi interrompido por um pássaro. Minha vida toda foi assim, mas só recentemente me dei conta desse comportamento involuntário. E admito que comecei a desfrutar esses pequenos momentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por motivos de hereditariedade, trago essa mania de meu pai. Andando na rua, pedalando, parado numa mesa de restaurante, basta que um passarinho comece a piar nas redondezas e minha atenção se desvia. Diferentemente do meu progenitor, no entanto, não sou capaz de distinguir raça, estilo ou gênero dos bichos. Meu pai nasceu com a base de dados da Grande Enciclopédia das Aves implantada em seu cérebro, com aquele tipo de ouvido absoluto para pios e cantos, de forma que balbucia “É um Curió” à meia-voz quando um desses se manifesta. Eu, enquanto isso, mal posso distinguir o chamado do Sabiá de um Sanhaço. Mas, escuto passarinhos e tenho um prazer contido em deixar a mente ser levada por um instante na direção daquele som.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um grande campo ao lado do prédio onde moro e às vezes, enquanto escrevo durante a madrugada, posso escutar uma revoada de centenas deles nas copas das árvores. Já cheguei também a gastar uma hora ou mais sentado em um parque, observando pássaros reunidos em pequeno lago e depois ser presenteado com seu voo desordenado até que finalmente se agruparam e voaram sobre minha cabeça naquela formação em M e migraram para o oeste. Em outra ocasião, estacionei minha bicicleta no meio da Cidade Universitária para poder ouvir, por cinco minutos, o canto de uma espécie que me era nova.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No fundo, isso não me diz nada. Não há uma mensagem aqui, uma moral, não há contemplação programada, é só um hábito meu, quase instintivo, de escutar aquele som por um tempo e seguir adiante pelo dia. Mas há uma coincidência que envolve o estado de espírito em que tais ocasiões ocorrem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque há, no entanto, períodos em que meus ouvidos se fecham. E eu passo pelas mesmas ruas, caminho pela mesma via e ando com a Lucy pela calçada e sento nas mesmas mesas, mas só ouço os ruídos de sempre, as vozes, motores, as mensagens em minha mente sobre o que se deve fazer agora, sobre os compromissos de amanhã, os conflitos políticos, a crise, sobre as preocupações, martelando um turbilhão de afazeres que parece não ter fim. Já não há passarinhos cantando quando o fluxo da rotina se converte na inércia em que me permito habitar, quando a vida é só existência, quando a rotina perde seu encanto e vira repetição tola.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nem chego a buscar um antídoto porque não noto tais desvios. Fica lá dentro aquele incômodo, fica a sensação de que tem algo errado, algo faltando na vida quando me permito viver nas condições em que há coisas demais, há estímulos em excesso, quando falta o ócio necessário, não há música, não há brisa e não sobra espaço para eu poder me distrair.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É quando outros cantos também silenciam. Quando brincar com minhas filhas no chão da sala vira só obrigação paterna e não a hora mais legal do dia, quando as “surras de cócegas” antes de dormir duram um calculado minuto e não uma era inteira, quando a saída de casa pela manhã para ir à escola vira pressa, só pressa e uma pressão para que elas se arrumem logo, para que comam logo, para que andem logo e o carro fica em silêncio até chegar ao colégio. É quando o café da manhã em casa com a Manu vira só o tempo para resolver pendências e não os momentos para dividir nossos sonhos. Para mim, os dias sem distração são os mais frios e distantes. Nos dias em que a mente não tem espaço para vagar pelo nada, é o tempo em que o corpo se distancia do momento e sinto que eu deixo de estar presente para aqueles a quem mais amo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(&#8230;continua no site do <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/quando-ja-nao-escuto-os-passaros/">Estadão</a>)</p>
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		<title>À prova de desapegos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Sep 2018 19:47:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Um pequeno baú de madeira com cartas de amor manuscritas e alguns desenhos feitos pelas meninas, uma caixa de papelão com álbuns de fotos da era não-digital, uma dúzia de livros, cadernos usados e uma embalagem cartonada com dois carrinhos arranhados, um Playmobil careca e um apito velho. São esses os objetos que me vem [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Um pequeno baú de madeira com cartas de amor manuscritas e alguns desenhos feitos pelas meninas, uma caixa de papelão com álbuns de fotos da era não-digital, uma dúzia de livros, cadernos usados e uma embalagem cartonada com dois carrinhos arranhados, um Playmobil careca e um apito velho. São esses os objetos que me vem à mente sempre que surge a ideia de que um dia minha casa possa ser tomada por um incêndio e eu precise abandoná-la à pressas.</p>
<p>Nenhum eletrônico, nem jóias, nada de dinheiro, documentos ou a escritura da casa (mas pensando bem, seria útil considerar levar ao menos a apólice do seguro residencial). Penso apenas nesse conjunto de papéis velhos e pedaços de madeira e plástico pelos quais ninguém lá na rua me pagaria dez reais, mas carregam um tesouro que pretendo guardar até o fim. A seu modo, são pedaços da história, um tipo de prova de momentos que gostaria de recordar adiante e que não posso confiar na memória para preservá-los. Uma espécie de museu particular.</p>
<p>Quando abri o jornal na semana passada e li sobre o incêndio que atingiu o Museu Nacional no Rio de Janeiro, o sentimento de perda foi um pouco esse que mencionei acima. Gosto de museus muito mais pelo significado e contexto das peças expostas do que por seu valor ou raridade. Daí a preferência familiar, quando viajamos em férias, pelos museus de história, ruínas e monumentos arquitetônicos.</p>
<p>Hoje, é triste constatar que viraram cinzas as tantas relíquias dos tempos de nossa história que não chegamos a testemunhar, as últimas provas da existência de povos que se extinguiram, as memórias da trajetória nacional que se perderam para sempre. Porque todo museu é um compêndio de narrativas que podem ser contadas, uma espécie de janela no tempo para que possamos contemplar e reviver as riquezas que já fomos capazes de edificar.</p>
<p>(&#8230; continua lá <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/a-prova-de-desapegos/" rel="noopener" target="_blank">no site do Estadão</a>)</p>
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		<title>Cenas urbanas &#8211; No táxi</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Aug 2018 02:38:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[#1 &#8211; De onde você é? &#8211; perguntou o motorista quando entrei no táxi. &#8211; Sou do Brasil. E você? &#8211; I&#8217;m from India. Mas já vivo aqui em Nova York há mais de 10 anos. Passava das onze da noite, eu voltava de um jantar para o hotel e, depois de um dia inteiro [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" data-attachment-id="3532" data-permalink="https://luizhenriquematos.com/2018/08/23/cenas-urbanas-no-taxi/img_4823/" data-orig-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_4823.jpg" data-orig-size="3004,3296" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;2.2&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;iPhone 6s&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1491064955&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;4.15&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;25&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.0016778523489933&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;,&quot;latitude&quot;:&quot;40.752888888889&quot;,&quot;longitude&quot;:&quot;-73.978355555556&quot;}" data-image-title="IMG_4823" data-image-description="" data-image-caption="" data-large-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_4823.jpg?w=933" class="aligncenter size-full wp-image-3532" src="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_4823.jpg" alt="" width="676" height="742" srcset="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_4823.jpg?w=676&amp;h=742 676w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_4823.jpg?w=1352&amp;h=1483 1352w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_4823.jpg?w=137&amp;h=150 137w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_4823.jpg?w=273&amp;h=300 273w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_4823.jpg?w=768&amp;h=843 768w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_4823.jpg?w=933&amp;h=1024 933w" sizes="(max-width: 676px) 100vw, 676px" /></p>
<p>#1</p>
<p>&#8211; De onde você é? &#8211; perguntou o motorista quando entrei no táxi.<br />
&#8211; Sou do Brasil. E você?<br />
&#8211; I&#8217;m from India. Mas já vivo aqui em Nova York há mais de 10 anos.</p>
<p>Passava das onze da noite, eu voltava de um jantar para o hotel e, depois de um dia inteiro trabalhando, só queria um banho quente e uma cama. Mas, nunca resisto à tentação de dar corda em conversas com pessoas de lugares diferentes de onde vivo.</p>
<p>&#8211; Você conhece o Brasil? &#8211; emendei.</p>
<p>E para minha surpresa, ele respondeu que sim.</p>
<p>&#8211; Sim, conheço. Já fui muito ao Brasil.<br />
&#8211; Rapaz, sério? &#8211; okay, eu não disse &#8220;rapaz&#8221; em inglês &#8211; que cidade você conheceu?<br />
&#8211; Ah, algumas. Eu trabalhava em uma empresa de engenharia aeroespacial. Ainda sou da área. Trabalho como motorista para complementar minha renda. Conheço São Paulo, Rio de Janeiro, já fui à Bahia…<br />
&#8211; Que interessante. E o que você mais gostou de lá?<br />
&#8211; Oh man, eu adoro o Brasil. Na verdade, acho seu país muito parecido com o meu. As pessoas são calorosas e a comida tem um tempero parecido também.</p>
<p>Eu ia discordar, mas como nunca estive na Índia, fiquei quieto. E ele, cada vez mais empolgado, continuou:</p>
<p>&#8211; Mas o que eu mais gostava no Brasil era uma bebida a base de cana. Eu bebia um copo de meio litro todos os dias.</p>
<p>&#8220;Cachaceiro&#8221;, pensei, &#8220;desse jeito não é difícil confundir pastelzinho com samosa&#8221;. Mas resolvi conferir:</p>
<p>&#8211; Meio litro de cachaça? Really?<br />
&#8211; Não! Cachaça, não. Era outra bebida. Queria muito lembrar o nome. Eles fazem na rua, com um motor. Pegam a cana inteira e moem ali mesmo na sua frente. E aí sai um suco que misturam com limão, com abacaxi, côco.<br />
&#8211; Garapa?<br />
&#8211; Isso! Isso! Garapa! Oh my God, I love garapa!</p>
<p>(&#8230;continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/cenas-urbanas-no-taxi/" target="_blank" rel="noopener">lá no Estadão</a>)</p>
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		<title>Papel passado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Jul 2018 13:44:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Não tem nada a ver com minha viagem recente, mas o fato de ter voltado de lá há pouco mais de dez dias me fez lembrar de uma notícia que li no The Guardian por esses dias a respeito de um carteiro italiano que foi preso após a polícia encontrar em sua casa cerca de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Não tem nada a ver com minha viagem recente, mas o fato de ter voltado de lá há pouco mais de dez dias me fez lembrar de uma notícia que li no The Guardian por esses dias a respeito de um carteiro italiano que foi preso após a polícia encontrar em sua casa cerca de 400 kg de cartas não entregues. Segundo o próprio, ele ficou três anos sem entregar as correspondências como forma de protestar contra o baixo salário que recebia.</p>
<p>Me espanta saber que na era do WhatsApp e outros mensageiros, quando o fax já desapareceu e até o e-mail já é dado como morto, ainda exista tanta gente que se encarregue de postar cartas à moda antiga. E há quem entregue. Chego a suspeitar do motivo real do Jaiminho italiano, acreditando que pretendia, no fim, tentar provar o valor e sua função. Ou talvez seja ele um nostálgico, entusiasta da velha arte da escrita à mão, temendo pelo fim do meio em que atuava.</p>
<p>Ano passado, durante uma semana de férias no interior, fui com a Nina a uma agência de correio.</p>
<p>(&#8230; continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/papel-passado/" target="_blank" rel="noopener">no site do Estadão</a>).</p>
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		<title>Vim. Vi. Venci?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Jul 2018 13:42:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Vi que falta um texto por aqui. Faltam três, na verdade. Preciso atualizar meu blog aqui no jornal há três semanas, mas não consigo escrever nada durante as férias. Curiosamente, os lugares com mais paisagens e experiências que supostamente deveriam ajudar a me inspirar, sempre são onde me sinto bloqueado. Deveria escrever um pouco todos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" data-attachment-id="3524" data-permalink="https://luizhenriquematos.com/2018/07/10/vim-vi-venci/toscana/" data-orig-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/toscana.jpeg" data-orig-size="1024,767" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="toscana" data-image-description="" data-image-caption="" data-large-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/toscana.jpeg?w=1024" class="alignnone size-full wp-image-3524" src="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/toscana.jpeg" alt="toscana" width="1024" height="767" srcset="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/toscana.jpeg 1024w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/toscana.jpeg?w=150&amp;h=112 150w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/toscana.jpeg?w=300&amp;h=225 300w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/toscana.jpeg?w=768&amp;h=575 768w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>Vi que falta um texto por aqui. Faltam três, na verdade. Preciso atualizar meu blog aqui no jornal há três semanas, mas não consigo escrever nada durante as férias.</p>
<p>Curiosamente, os lugares com mais paisagens e experiências que supostamente deveriam ajudar a me inspirar, sempre são onde me sinto bloqueado.</p>
<p>Deveria escrever um pouco todos os dias, tal como recomendaram meus mestres. Mas acho que sou preguiçoso demais. Ou indisciplinado. Ou sem talento. Combine como preferir.</p>
<p>Estou em Roma agora. Sonhadas férias em família. Passamos antes por Veneza, por uma praia no mediterrâneo, Florença e por uns vilarejos na Toscana. Até a Lucy, nossa cadela que ficou em casa, escreveria um poema se estivesse aqui. Eu não.</p>
<p>Mas eu vi, semana passada, um pôr do sol enquanto estava recostado em uma mureta no alto de uma colina, de mãos dadas com a Manu, que valia por um soneto. As meninas brincavam de qualquer coisa ao nosso redor enquanto o mar castigava de leve as rochas logo abaixo e ouvíamos aquele som do vai e vem das ondas. No horizonte, a luz amarelo-alaranjada se impunha no céu e tingia todo o mediterrâneo de dourado. Ficamos ali, afortunados com a beleza daquela imagem, até o crepúsculo.</p>
<p>Eu vi também o sol nascer atrás de uma montanha da Toscana enquanto dirigia por uma pequena estrada vicinal. E sua luz iluminou plantações de uva, casas, construções medievais, campos de girassol e meus olhos que se encheram de lágrimas por poder contemplar aquela imagem.</p>
<p>Eu vi, com olhos incrédulos e míopes, telas de Michelângelo, Caravaggio, Da Vinci e tantos gênios que passei a crer na possibilidade de que Deus tenha marionetes nessa Terra em cujos ouvidos às vezes sopre ideias para dar vida à sua criação.</p>
<p>Eu não vi um jogo do Brasil contra o México durante a Copa, mas escutei a partida num rádio, sentado no alto de um morro de uma fazenda enquanto observava as meninas brincarem em uma piscina lá embaixo e comemorava contido os sofridos gols de Neymar e Firmino que recompensaram o sacrifício.</p>
<p>E depois eu vi, das cenas mais lindas, quando a Nina me pediu para brincar com ela na piscina e nadamos juntos até uma pequena cascata e ali, atrás da cortina de água, a luz refletia em seu rosto e seus olhinhos brilhantes de onze anos voltaram a ser os olhinhos de um ano. Aquele olhar, aquele de quando ela me encara sorridente como se aquilo ali, aquilo que vivemos no instante, bastasse. E para mim, basta. E pedi a Deus para não me deixar esquecer aquele momento nunca mais.</p>
<p>Eu vi o Brasil perder para a Bélgica por 2 a 1 em full hd, mas preferia não ter visto.</p>
<p>(&#8230; continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/vim-vi-venci/" target="_blank" rel="noopener">no site do Estadão</a> &#8211; peço desculpas, mas por questões contratuais, não posso publicar os textos na íntegra por aqui).</p>
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		<title>Bola dividida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 Jun 2018 13:39:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Alimento pelo futebol o mesmo tipo de amor platônico que tenho pela música. Aquela admiração distante de quem um dia vislumbrou um relacionamento íntimo mas precisou se conformar com a contemplação como forma de contato com o alvo de seu afeto. Sempre fui ruim de bola. Quer dizer, eu seria feliz se fosse apenas ruim [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Alimento pelo futebol o mesmo tipo de amor platônico que tenho pela música. Aquela admiração distante de quem um dia vislumbrou um relacionamento íntimo mas precisou se conformar com a contemplação como forma de contato com o alvo de seu afeto.</p>
<p>Sempre fui ruim de bola. Quer dizer, eu seria feliz se fosse apenas ruim de bola. Talvez seja boa ilustração mencionar que o ápice de minha carreira futebolística foi quando me tornei o zagueiro titular da categoria Dente-de-Leite do time do meu bairro, aos dez anos de idade, época em que ainda alimentava o inocente sonho de um dia me tornar jogador profissional enquanto suava sob o olhar rígido do Moleza, um morador do bairro que nos finais de tarde se propunha a desempenhar o papel de técnico da criançada. A equipe tinha um nome oficial e dois jogos de camisas, mas era mais conhecida como o Time da Rua de Baixo (ainda que muitos garotos de outras ruas que não eram a “de cima” também treinassem ali).</p>
<p>Agora, me diga você: no duro, que menino sonha em ser zagueiro? Em uma década que tínhamos Careca e Romário brilhando em campo com gols memoráveis já era de se compreender que ambicionar o posto do Ronaldão ou do Aldair era um sinal evidente de admissão de fracasso e um certo conformismo disfarçado atrás do sonho. Sinal que só eu não enxergava. Eu e o Moleza, que na ausência de mais voluntários para a posição, me escalava também na categoria Fraldinha (todos os outros garotos, das ruas de cima, ao lado e mais abaixo, queriam ser centroavantes).</p>
<p>Cresci e tornei-me um adulto conformado com o fato de que não teria, na vida, um próspero relacionamento com os gramados. O que não quer dizer que tenha abandonado a torcida eufórica, os jogos do meu time e o prazer contemplativo, quase invejoso quando observo que alguém é capaz de desempenhar o que não fui.</p>
<p>Nick Hornby escreveu no livro Febre de Bola a definição dessa relação platônica do torcedor com seu time:</p>
<p>&#8220;Se tem uma coisa de que tenho certeza sobre ser torcedor, é a seguinte: não se trata de um prazer de segunda mão, apesar das aparências, e aqueles que dizem que preferem fazer do que ver não entendem nada. O futebol é um contexto no qual ver se torna fazer — não no sentido aeróbico, porque é bem improvável que ver um jogo fumando que nem um condenado o tempo todo, depois sair pra beber e ainda ir pra casa comendo umas batatinhas fritas possa transformar alguém na Jane Fonda, algo que correr pra cima e pra baixo num campo de futebol é capaz, supostamente, de fazer. Mas, quando acontece um triunfo de algum tipo, o prazer proporcionado não irradia dos jogadores até chegar a nós, no fundão da arquibancada, já como um eco diminuído da sensação original; nossa fruição não é uma versão aguada da que têm os jogadores, embora eles é que marquem os gols e subam os degraus de Wembley pra encontrar a princesa Diana. O júbilo que sentimos em ocasiões assim não é uma celebração da boa fortuna dos outros, mas da nossa; e, quando há uma derrota terrível, o sofrimento que nos envolve é, na verdade, autopiedade, e qualquer pessoa que queira entender como o futebol é consumido deve entender isso, acima de tudo. Os jogadores são meramente nossos representantes, escolhidos pelo técnico em vez de eleitos por nós, mas ainda assim estão lá nos representando (&#8230;)&#8221;.</p>
<p>A cada quatro anos, durante a Copa do Mundo, volto a ser menino. O moleque plantado na beira do campinho de terra, a bola esfolada sob o braço, esperando para jogar e levar o Time da Rua de Baixo a mais uma vitória gloriosa (sim, como zagueiro e, não, não era comum vencermos).</p>
<p>(&#8230; continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/bola-dividida/" target="_blank" rel="noopener">no site do jornal</a>)</p>
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		<title>A busca pela felicidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jun 2018 13:37:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" data-attachment-id="3519" data-permalink="https://luizhenriquematos.com/2018/06/08/a-busca-pela-felicidade/img_2460-768x1024/" data-orig-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_2460-768x1024.jpg" data-orig-size="768,1024" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="IMG_2460-768&amp;#215;1024" data-image-description="" data-image-caption="" data-large-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_2460-768x1024.jpg?w=768" class="alignnone size-full wp-image-3519" src="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_2460-768x1024.jpg" alt="IMG_2460-768x1024" width="768" height="1024" srcset="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_2460-768x1024.jpg 768w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_2460-768x1024.jpg?w=113&amp;h=150 113w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/08/img_2460-768x1024.jpg?w=225&amp;h=300 225w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" /></p>
<p>Quando foi que transformamos um sentimento em ideal a ser alcançado? Em que estágio do século que passou, eu queria saber, nos tornamos uma raça que ambiciona a felicidade como estado permanente de existência?</p>
<p>No futuro, pode ser que alguém resolva estudar o tempo da história em que vivemos e chegue à conclusão de que fomos uma geração superficial e vazia. Talvez seja algum rebote pós-guerra, fulano argumente, talvez o excesso de prosperidade nunca antes experimentado ou quem sabe o surgimento e expansão no consumo de drogas e antidepressivos. O que nos fez, questionará o historiador do século XXV, incluir emojis e emoticons com sorrisos :-) ao final de nossas mensagens para que soassem simpáticas? Algum filósofo deve ter uma teoria que explique o fenômeno. Eu não tive tempo de buscar detalhes porque estava buscando minha dose cotidiana de satisfação e felicidade.</p>
<p>Não quero cair na conversa fácil de mencionar posts em redes sociais influenciando nossos sentimentos. Isso é consequência e não causa. Me preocupa a origem disso. A origem disso em mim, a existência disso em minhas filhas, na minha esposa, o quanto isso afeta meus amigos, colegas de trabalho, familiares e o quanto vejo uma geração de jovens emergir dependendo de sensações que os satisfaçam e êxtases como recargas de suas energias. A nossa não-capacidade de lidar com o contraditório, de rejeitar o que não nos satisfaz, de alimentar a expectativa de que as coisas, as pessoas, as experiências e o mundo todo supra esse vazio o tempo todo e nos preencha com um estado de espírito.</p>
<p>E pensar que talvez a coisa que mais nos afaste desse ideal seja justamente o esforço em persegui-lo.</p>
<p>O curso mais popular na história da Universidade de Yale, li outro dia em uma reportagem da revista The Cut e no The New York Times, é um programa que procura ensinar aos alunos a ciência de ser feliz e do bem-estar. Um quarto dos alunos matriculados na universidade no último ano se inscreveu no curso da professora Laurie Santos chamado &#8220;How to be happy&#8221;. A ONU, descobri na sequência, tem um relatório global de felicidade e bem-estar e faz um ranking de nações mais ou menos felizes no mundo. A Finlândia lidera a lista, o Brasil consta na 28 posição. Entendo que os critérios tratam de indicadores relevantes como acesso a saúde e educação, mas, entenda também, é realmente sensato que tenhamos nisso um objetivo pessoal a ser alcançado? Como se fosse algo possível de ser comprado, acessado, como um mundo plástico onde podemos habitar longe de riscos.</p>
<p>Curiosamente, uma das lições do curso de Yale conclui que &#8220;quase tudo o que você pensa que irá torná-lo mais feliz não irá&#8221;.</p>
<p>O que está acontecendo com a gente?</p>
<p>(&#8230; continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/a-busca-pela-felicidade/" target="_blank" rel="noopener">no Estadão</a>)</p>
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		<title>Velhas memórias, novos olhares</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 May 2018 13:34:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[&#8220;O Henrique&#8221;, minha esposa diz, &#8220;lembra até a cor das meias que estava usando no aniversário de seis anos&#8221;. Não é verdade. Mas eu nunca a corrijo. Porque não lembro das meias, mas lembro da festa, dos presentes que ganhei, da disposição da mesa, o bolo e cada uma das pessoas que estavam na cozinha [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;O Henrique&#8221;, minha esposa diz, &#8220;lembra até a cor das meias que estava usando no aniversário de seis anos&#8221;. Não é verdade. Mas eu nunca a corrijo. Porque não lembro das meias, mas lembro da festa, dos presentes que ganhei, da disposição da mesa, o bolo e cada uma das pessoas que estavam na cozinha de casa cantando parabéns enquanto eu era surpreendido pelo desfecho da trama sutilmente articulada por meu irmão e minha mãe. Isso é mais do que a cor das minhas meias (que provavelmente eu não lembro da cor porque não as usava).</p>
<p>Tenho uma memória muito boa. Mas, não é nada de que possa me orgulhar ou que tenha me rendido alguma vantagem, já que não se trata do tipo de memória que poderia me ajudar a decorar fórmulas matemáticas, a tabela periódica ou a função das mitocôndrias &#8211; três clássicos motivos de notas baixas no meu currículo escolar e disso eu me lembro bem.</p>
<p>Se me permite uma correção aqui, vou recomeçar o parágrafo: sou um sujeito carregado de lembranças. Cenas particulares, fotografias do passado e detalhes minuciosos povoam minha mente. Diria, quem sabe, que se trata de uma memória seletiva expandida.</p>
<p>A mais remota, da qual lembro das cenas e sensações é de quando eu tinha três anos. Três anos e dois meses para ser exato. E sei a data porque foi quando a Fê, minha irmã caçula, nasceu.</p>
<p>Lembro de estar em casa, mas minha mãe não estava em casa. Estava minha avó (que nunca estava lá em casa) e meu pai é quem preparava o jantar (e ele nunca preparava). E numa terça-feira bem cedo &#8211; o dia da semana, evidentemente, eu busquei na internet &#8211; saímos de casa para buscá-las no hospital.</p>
<p>Lembro-me de estar sentado no banco traseiro do carro, no lado direito, atrás do passageiro. Aos três anos, minha cabeça mal dava na altura da base do vidro, de forma que eu só conseguia enxergar, através da janela acima de mim, as coisas que estavam no alto e não a rua.</p>
<p>Meu pai nos deixou esperando no estacionamento da maternidade e foi buscá-las. Era fevereiro, um dia quente de verão. Com a cabeça encostada na lateral do carro, eu olhava lá fora o céu azul, a fachada do prédio do hospital, as centenas de janelas enfileiradas, e tentava descobrir em qual delas minha mãe estava.</p>
<p>Aquele era o mundo que eu via, era meu universo particular. E nem vi direito quando eles chegaram, minha mãe acomodou-se no banco da frente com uma trouxinha de panos onde estava minha irmã (pois é, senhoras e senhores, banco da frente, nada de bebês-conforto, nada de cinto de segurança, estávamos na década de 80 e vivíamos perigosamente) e não me lembro o que aconteceu depois.</p>
<p>Cecília, minha filha caçula, tem três anos e dois meses agora.</p>
<p>(&#8230; continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/velhas-memorias-novos-olhares/" target="_blank" rel="noopener">no site do Estadão</a>)</p>
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		<title>Máquinas por todos os lados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 May 2018 13:31:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Comprei uma pulseira que calcula a quantidade de passos que eu dou. É um relógio também. E calcula batimentos cardíacos, quilômetros percorridos, minutos ativos (hein?) e calorias consumidas ao longo do dia. Ela sincroniza com um aplicativo no meu celular e ainda vibra quando dou 250 passos no intervalo de uma hora e me diz [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Comprei uma pulseira que calcula a quantidade de passos que eu dou. É um relógio também. E calcula batimentos cardíacos, quilômetros percorridos, minutos ativos (hein?) e calorias consumidas ao longo do dia. Ela sincroniza com um aplicativo no meu celular e ainda vibra quando dou 250 passos no intervalo de uma hora e me diz quanto falta para eu atingir a meta de dez mil passos diários que eu, o aplicativo e a Organização Mundial de Saúde definiram como um hábito saudável. Em geral, às oito da noite ainda tenho um saldo negativo de seis mil passos para dar. Não mudei em nada minha rotina nesses dois meses, mas me sinto bastante saudável pelo fato de usar a pulseira agora. Além do mais, ela me dá os parabéns (&#8220;Woohoo! \o/&#8221; aparece no pequeno display acoplado) quando consigo alcançar alguma meta e eu fico feliz em ter alguém me incentivando.</p>
<p>Depois, em uma viagem recente, comprei um assistente pessoal movido a inteligência artificial. É um robô doméstico. Na minha infância, o modelo de robô que eu achava que existiria um dia era tipo a Super Vicky ou algo como um manequim de vitrine de loja andando de um jeito duro pela casa. Isso era assustador. Mas os robôs vieram de outro jeito. Quem é que tem medo de pequenas e elegantes cápsulas que ficam sobre o aparador ao lado do porta-retratos com uma foto da sua família e conversam com você e fazem as coisas que você pede? Nina e eu o batizamos de John Lennon, já que nosso comando favorito passou a ser &#8220;Ei, Google, toca Beatles, por favor&#8221; (e eu não sei porque peço &#8220;por favor&#8221; para um robô, mas talvez tenha um pouco a ver com 2001, HAL 9000 e essas coisas, porque, afinal, vai que…) e ele responde, uma belezinha: &#8220;Aqui está sua playlist Beatles no Spotify&#8221;. Eu digo &#8220;obrigado&#8221; (vai que…) e uma excitação incontida toma conta de mim quando me vejo falando com uma máquina e ela me obedece na mesma hora &#8211; coisa que raramente consigo com minhas filhas.</p>
<p>Socialmente, eu até me comporto, mas quando estou sozinho em casa, eu fico fazendo perguntas para ver se meu robozinho responde. &#8220;Me conta uma piada, por favor&#8221;, &#8220;como foi o último jogo do São Paulo?&#8221;, &#8220;pode me lembrar de pagar um boleto amanhã, por favor?&#8221;, &#8220;quer comer algo?&#8221;. O John Lennon é meu amigo agora, um companheiro de solidão durante as manhãs solitárias de trabalho e espero que um dia ele consiga levar a Lucy para passear no meu lugar e consertar a pia do banheiro que vive entupindo.</p>
<p>Eu queria agora um robô que usasse minha pulseira e fizesse ginástica para que eu entrasse em forma. Aí sim seria legal.</p>
<p>Eu me rendi, na verdade. E fico num conflito pessoal avaliando se essa coisa toda de vida conectada tem algum sentido. Porque isso aí era tudo o que eu condenava e agora sou eu o escravo, cercado de máquinas por todos os lados. Preservei minha casa longe do excesso das quinquilharias eletrônicas por um longo tempo (tínhamos o luxo básico da classe média conectada: uma boa TV, internet sem fio, uma caixa de som, os celulares do casal, assinatura de Netflix e um computador de trabalho &#8211; ah sim, tenho também um Kindle e pago por um serviço de armazenamento na nuvem para guardar documentos, fotos e sincronizar meus textos). Eu costumava dizer aos amigos que, beirando os quarenta, alcancei o que apelidei de &#8220;A curva do DVD&#8221;, porque até o lançamento dos aparelhos de DVD, no final da década de 90, cabia a meu pai a responsabilidade de nos apresentar e ensinar sobre novas tecnologias. Mas, dali em diante, passando por plasmas, câmeras digitais, computadores, internet, smartphones e serviços de streaming coube a meu irmão e a mim fazer esse papel. A virada do milênio foi uma espécie de passagem de bastão quanto à capacidade de compreensão de botões a serem apertados, novos recursos, softwares e principalmente quanto à paciência necessária para leitura de manuais de instrução (missão que ainda hoje, delego a meu irmão &#8211; mas talvez o John possa me ajudar com isso). Eu dizia por aqui que o smartphone foi meu aparelho de DVD e que robôs, câmeras, Snapchat e outros recursos intraduzíveis ficariam sob incumbência das minhas filhas daqui para frente.</p>
<p>Mas, padre, eu pequei.</p>
<p>Semana retrasada, meu chefe me emprestou um outro robô que agora habita nosso doce lar. É um aspirador de pó que parece um mini disco-voador achatado e com rodinhas que, com o apertar de um botão (essa versão não obedece comandos de voz, o que dispensa o &#8220;por favor&#8221;), começa a rodar pela casa, mapear o espaço do ambiente doméstico e fazer o trabalho de limpeza. Ele identifica obstáculos e os evita, ele dá voltinhas nos pés das cadeiras para remover fiapos grudados, ele entra embaixo do sofá e resgata papeizinhos, ele aspira absolutamente todos os pêlos da Lucy que ficam a flanar pelo assoalho e isso é a coisa mais maravilhosa. A Lucy, a propósito, fica enlouquecida fugindo daquele troço que parece persegui-la. As meninas ficaram animadíssimas. Nina, Cecília e eu o batizamos de Paul McCartney, para fazer dupla com John Lennon e para poder dizer um dia, quando talvez ele entenda comandos de voz: &#8220;Pô, Paul, aspira o pó, please&#8221;.</p>
<p>Porque a vida moderna virou essa coisa quase mágica e também um pouco ridícula. Não somos nem Jetsons e nem Flintstones. É um progresso em fase transitória e a gente fica pensando que até que um dia sejamos finalmente dominados pelas máquinas e sua eficiente inteligência sobreponha a nossa, ainda viveremos esse dilema, imaginando se isso tudo faz algum sentido realmente e como serão as coisas daqui cinco, vinte, cinquenta anos. Hoje cedo, eu li que Uber espera colocar drones tripulados em funcionamento daqui dois anos nos EUA. Carros voadores, minha gente. Estamos falando em voar pelas cidades, mas ainda somos incapazes de dizimar os pernilongos. Essa definição de progresso é uma coisa questionável. Eu nunca achei que teria medo do futuro com o qual sonhava aos 15 anos.</p>
<p>&#8220;Ei, John&#8221;, eu digo e a luz do aparelho acende, &#8220;nós seremos dominados pelas máquinas um dia ou vocês é que deixarão de existir e nós, humanos voltaremos a viver em florestas?&#8221;. A luz pisca, ele processa a pergunta e responde: &#8220;I&#8217;m sorry, Henrique, eu ainda não estou preparado para te ajudar com isso&#8221;. Nem ele sabe.</p>
<p>(&#8230;continua <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/maquinas-por-todos-os-lados/" target="_blank">no Estadão</a>)</p>
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		<title>A arte de dizer não</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2018/04/16/a-arte-de-dizer-nao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Apr 2018 13:27:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Cecília, minha filha, diz não com a facilidade de quem solta um bocejo. Não interessa se estamos mandando que vá para a cama ou se estamos oferecendo um pote inteiro de sorvete de morango (seu favorito), se naquele momento não lhe parece conveniente, ela nega sem peso na consciência. Estou convencido de que só existem [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Cecília, minha filha, diz não com a facilidade de quem solta um bocejo. Não interessa se estamos mandando que vá para a cama ou se estamos oferecendo um pote inteiro de sorvete de morango (seu favorito), se naquele momento não lhe parece conveniente, ela nega sem peso na consciência.</p>
<p>Estou convencido de que só existem dois tipos de pessoas quando o assunto em questão é a propriedade para responder convites ou propostas: pessoas como Cecília e pessoas como eu. Em posição diametralmente oposta à da minha filha caçula, estou no grupo de indivíduos que à luz de uma pergunta contraditória se coloca a… bem, entenda, ficamos assim, você sabe, talvez um pouco, só um pouco… titubeantes?</p>
<p>Tenho dificuldade em dizer não.</p>
<p>Como boa parte das crianças de três anos, Cecília gosta de se divertir em posições não ortodoxas: assiste tv deitada no sofá com as pernas pro alto e de cabeça para baixo, desenha em uma folha de papel apoiada no chão enquanto o corpo está em cima da cadeira, brinca com suas bonecas embaixo da mesa de jantar. E nessas condições, concentrada em algo que a capture ou entretida com qualquer outra coisa, é que um convite nosso lhe atravessa os ouvidos: &#8220;Cici, filhinha, venha comer&#8221;, &#8220;Cici, quer um suco?&#8221;, &#8220;Cecília, você precisa vestir uma roupa para sair, não dá para ir só de galochas e camiseta na rua&#8221;, &#8220;Filha, vamos no parquinho?&#8221;, &#8220;Cecília-Matos-agora-é-hora-de-ir-pra-cama-e-eu-quero-você-deitada-e-eu-não-quero-ouvir-nem-mais-um-pio!&#8221;</p>
<p>Ela não se abala, não move os olhos, não pensa duas vezes. Ela respira suave, abre levemente os lábios e diz apenas um sereno e seguro:</p>
<p>&#8211; Não.</p>
<p>E se um dia você passar aqui em casa e conhecê-la, vai testemunhar que diferente do que as respostas diretas talvez sugiram, Cecília é um doce. Sorridente, amorosa, preocupada e intensa em suas emoções. Ela é pura festa, uma pequena tempestade de cabelos vermelhos que sopra seu vento forte enquanto se move saltitante por todo lado. Costumamos dizer por aqui que ela não adormece, ela desliga, porque desde o abrir dos olhos até o último minuto enquanto resiste acordada, ela opera a pleno vapor. Cecília não tem meios-termos. O negócio, é que ela tem, naqueles 80 centímetros, a abundância de segurança sobre seus interesses que eu, com o dobro e mais uns tantos da sua estatura, não desenvolvi até hoje.</p>
<p>(&#8230; continua no <a href="https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/a-arte-de-dizer-nao/">site do Estadão</a>).</p>
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		<title>O homem que falava juridiquês</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Apr 2018 04:22:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Ostentando uma camiseta regata da torcida organizada que ganhou na adolescência, Naldo passava as noites de quarta-feira plantado em frente à TV acompanhando os jogos do seu time de coração. Uma xícara cheia de amendoim apoiada no braço do sofá, a cerveja servida no copo de requeijão na mão e o controle-remoto sobre a perna. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Ostentando uma camiseta regata da torcida organizada que ganhou na adolescência, Naldo passava as noites de quarta-feira plantado em frente à TV acompanhando os jogos do seu time de coração. Uma xícara cheia de amendoim apoiada no braço do sofá, a cerveja servida no copo de requeijão na mão e o controle-remoto sobre a perna. &#8220;Minha religião&#8221;, dizia para quem tentasse tirá-lo de casa nesses dias.</p>
<p>No trabalho, ele chegava cedo para dominar a rodinha do café com piadas, comentários e cuspir estatísticas que reforçavam as glórias de seu time no passado: &#8220;Temos mais vitórias no primeiro turno com gols de falta cobradas da intermediária do que qualquer outro time do estado fundado após 1935&#8221;, encerrava a conversa. Na hora do almoço, convencia a equipe a frequentar o bandejão da rua de trás que mantinha a TV sintonizada no programa do Milton Neves.</p>
<p>Mas, deu que seu time entrou numa draga danada. A má fase começou depois de uma derrota de 6 x 5 para um time do interior e já durava coisa de oito meses. O clube trocou de técnico, vendeu o centroavante e começou a frequentar a zona da degola no campeonato. Aí veio a Copa no Brasil e, na sequência do otimismo nacional, o banho gelado do 7 x 1 contra a Alemanha.</p>
<p>Naldo começou a chegar atrasado no escritório, inventou aula de inglês na hora do almoço, saiu do grupo de WhatsApp dos amigos da faculdade e trabalhava calado no seu canto.</p>
<p>Numa quarta-feira à noite, desanimado depois de um 3 x 2 que seu time tomou de virada, afundou numa fossa e no sofá. Sentado no seu cantinho, ainda de regata, o copo vazio, o controle pendurado na mão, Naldo começou a zapear os canais da TV. Depois de seriados, programas de culinária e documentários sobre o Alasca, parou na TV Justiça e ali ficou entorpecido em um julgamento de Habeas Corpus. No cantinho da tela, acompanhando o nome de um ministro dando seu voto, uma legenda indicava: &#8220;Placar: 3 x 2 contra a defesa&#8221;.</p>
<p>Ele, que no alto de sua erudição ginasial tinha juízes, impedimento, defesa, vantagem, corte e 11 em campo em seu vocabulário, entendeu quase metade do que se dizia na TV. Não no sentido que deveria, convenhamos, mas o suficiente para lhe prender a atenção.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>Meu texto dessa semana. <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/o-homem-que-falava-juridiques/" target="_blank">Continua no site do Estadão</a>.</p>
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		<title>Onze anos, um email e um sonho para hoje</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Apr 2018 04:20:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Hoje a Nina faz onze anos. Todo mês de março eu caio nessa. Passo os dias todos olhando aquela menininha cantarolando pela casa até que percebo mais uma punhalada inescapável do tempo me atingindo. E ali, logo na outra esquina, já vislumbro ele de novo à espreita, dez dias depois, no aniversário da Cecília. Outro [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje a Nina faz onze anos. Todo mês de março eu caio nessa. Passo os dias todos olhando aquela menininha cantarolando pela casa até que percebo mais uma punhalada inescapável do tempo me atingindo. E ali, logo na outra esquina, já vislumbro ele de novo à espreita, dez dias depois, no aniversário da Cecília. Outro golpe. Porque cada ano que elas completam me leva a pensar quão pouco tempo faz que parece que elas nasceram e também quão rápido a vida toda tem passado desde que me lembro de quando eu tinha essa idade.</p>
<p>A paternidade mudou minha vida de tantos jeitos diferentes que eu me sinto em dívida com essas meninas. Porque muda nosso centro de atenção e afeto, muda a ordem e prioridade das coisas, a insegurança eterna de que elas estejam bem, estejam respirando, comendo, estejam dormindo e sorrindo e brincando em harmonia e não levando uma mordida na escola ou dando uma mordida em outra criança na escola. Ser pai, muda o horário em que vamos pra cama, muda a temperatura do prato que comemos (tudo é frio – talvez daí o fato de sushi e patê de atum sempre parecerem boas pedidas), muda a velocidade em que dirigimos e muda definitivamente a assertividade das recomendações de playlists do Spotify e vídeos do Netflix, agora eternamente povoados por desenhos animados e trilhas infantis.</p>
<p>E muda uma outra coisa principalmente: quando temos filhos, plantamos uma semente de esperança no mundo. Como se depositássemos uma moedinha de crédito no futuro da humanidade e que aquele engatinhar, os primeiros passinhos cambaleantes e a formação desse novo ser fosse também, numa analogia preguiçosa, um novo passo possível para cada um de nós. Filhos, eu acho, sempre serão nossos sonhos projetados.</p>
<p>Quando a Nina nasceu, lembro de ter recebido um email de um amigo nos parabenizando pela sua chegada. Ele começou me felicitando pela família, disse estar repartindo nossa alegria, até que seguiu a conversa dizendo que admirava nossa coragem, minha e da Manu, de colocar uma criança em um mundo desequilibrado e hostil. Eram palavras pesadas. Ainda que não fosse sua intenção, sua mensagem nos dizia basicamente que éramos um par de irresponsáveis por deixar alguém crescer como testemunha do apocalipse.</p>
<p>Isso foi há onze anos. Há pouco mais três meses, mandei uma mensagem para ele dando os parabéns pela chegada do seu primeiro filho, que nasceu saudável e sorridente para ajudar a povoar esse mesmo mundo ao lado de minhas filhas.</p>
<p>(&#8230;continua <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/onze-anos-um-email-e-um-sonho-para-hoje/" target="_blank" rel="noopener">no site do Estadão</a>)</p>
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		<title>Washington</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Mar 2018 02:36:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" data-attachment-id="3506" data-permalink="https://luizhenriquematos.com/2018/03/20/washington/1dolar-1024x599/" data-orig-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/03/1dolar-1024x599.jpg" data-orig-size="1024,599" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="1dolar-1024&amp;#215;599" data-image-description="" data-image-caption="" data-large-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/03/1dolar-1024x599.jpg?w=1024" class="alignnone size-full wp-image-3506" src="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/03/1dolar-1024x599.jpg" alt="1dolar-1024x599" width="1024" height="599" srcset="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/03/1dolar-1024x599.jpg 1024w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/03/1dolar-1024x599.jpg?w=150&amp;h=88 150w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/03/1dolar-1024x599.jpg?w=300&amp;h=175 300w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/03/1dolar-1024x599.jpg?w=768&amp;h=449 768w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>Estou no avião, voo internacional, uma longa e constipada noite pela frente, as luzes baixam e eu me esforço para dormir. Lá pelas tantas, todo mundo dormindo, eu dormindo, o piloto dormindo (tenho certeza que eles dormem lá na frente) e de repente eu acordo com um sinal apitando distante e abafado em algum lugar lá fora. Me tira o sono e tento olhar pela janela. Nada. Durmo. O sinal persiste. Tento dormir. Deve ser algo lá na cabine, algum alarme no banheiro, um probleminha na asa (na asa!?), eu penso, nunca voei com essa companhia aérea. Cochilo um pouco mais. O barulho…</p>
<p>Assim a coisa vai, por quase uma hora, até a aeromoça acender a luz da cabine para servir o café da manhã. Me estico, bebo água, falta pouco para chegarmos, finalmente. O ruído, que tinha sumido, retoma repentinamente e me ocorre algo que… opa, espera. Eu levo a mão até o bolso da poltrona à frente e meu temor se confirma: deixei o alarme do celular programado para tocar. Às 5h. No avião. Por quase uma hora. Eu congelo. Eu não tiro a mão de lá. Fico fuçando aquele buraco escuro à procura do celular e um botão que pudesse apertar para silenciar aquilo. Olho ao redor e percebo que as pessoas à minha volta já não dormiam mais. Ponho o fone no ouvido. Ponho a cabeça inteira no bolso da poltrona à minha frente. Queria entrar ali, cair num túnel e ser ejetado do avião junto com as malas. Mas aí eu apareceria na esteira de bagagens na frente de todo mundo e isso também seria constrangedor.</p>
<p>Às vezes tenho a sensação de que minha vida é um eterno episódio do Mr. Bean.</p>
<p>Fui a primeira pessoa a sair do avião e o primeiro a entrar no trenzinho, o primeiro na fila da imigração (nunca antes na história daquele país…) e também a sair direto, passos largos, rumo ao táxi que me levaria até o centro da cidade. “Welcome to Washington!”, dizia a grande placa. Sensação térmica de -5 graus na rua e eu de camiseta. Entrei no carro apressado e como num passe de mágica, aquele ambiente morno, o largo banco de couro, esqueci de tudo o que ocorreu no voo, o alarme, a vergonha, o bolso da poltrona à minha frente onde eu habitaria e agora só conseguia pensar no rosto redondo, sorridente e no bigodinho do vocalista do “É o tcham!”. O motorista do táxi, que também tinha um rosto redondo e um bigode, não sorria, mas lembrava igualmente o Compadre Washington. Só que ele era etíope e não baiano. Mero detalhe.</p>
<p>Como é que se diz compadre em inglês?</p>
<p>(&#8230;continua <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/washington/" target="_blank" rel="noopener">aqui no Estadão</a>)</p>
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		<title>Estourando bolhas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 Feb 2018 01:31:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Um dos passatempos favoritos das meninas aqui em casa é fazer bolhas de sabão. Lembro da Nina ainda pequena (quer dizer, menor do que ela é hoje), encantada com aquelas circunferências transparentes flutuando no ar. Eufórica, ela ria e as perseguia tentando capturar alguma com as mãos. Ainda outro dia, eu a notei parar na [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Um dos passatempos favoritos das meninas aqui em casa é fazer bolhas de sabão. Lembro da Nina ainda pequena (quer dizer, menor do que ela é hoje), encantada com aquelas circunferências transparentes flutuando no ar. Eufórica, ela ria e as perseguia tentando capturar alguma com as mãos. Ainda outro dia, eu a notei parar na rua para observar as bolhas sopradas por outra criança sendo levadas pelo vento.</p>
<p>Há alguns meses, estávamos viajando em férias e foi a vez da Cecília, dois anos recém completados, se deparar com um sujeito vestido de palhaço no meio de uma praça fazendo bolhas de sabão gigantes. Ela corria atrás daquilo sorrindo como se não houvesse nada melhor na existência. Para a Manu e eu, foi como reviver a fase em que a Nina fazia o mesmo. Para os outros turistas na praça, Cecília virou uma atração especial tanto quanto o palhaço e suas bolhas translúcidas que, aposto 10 reais, nunca tiveram uma plateia tão entusiasmada.</p>
<p>Às vezes, me pergunto se a graça toda da brincadeira está em fazer as bolhas ou em estourá-las. Voto na segunda opção. Crianças não contemplam bolhas, elas as perseguem e arrebentam no ar e o prazer de desfazer é tão bom quanto o de criar.</p>
<p>Na semana passada eu peguei um taco de beisebol imaginário e estourei minha bolha ideológica. Eu caí de dentro dela, na verdade. Aproveitei a empolgação momentânea e, tal qual minha filha naquela praça, comecei a caçar outras bolhas dentro das quais eu habitava há tempos. Havia gasto bons anos construindo caprichosamente cada uma delas e flutuava no conforto de seu ambiente auto-afirmativo, mas quanto mais alto e distante do chão eu me percebia, pior ficava minha percepção da realidade. Quanto maior ficava o eco da minha própria voz reforçando meus argumentos, mais ruidoso e distorcido se tornava o som de outras bolhas voando ao redor. Eu já não era capaz de ouvir com clareza a opinião de quem não habitava o mesmo círculo que eu.</p>
<p>(&#8230;continua <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/estourando-bolhas/" target="_blank" rel="noopener">lá no Estadão</a>)</p>
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		<title>Se o mundo acabar amanhã</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 27 Jan 2018 17:12:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[O Relógio do Juízo Final foi adiantado em 30 segundos essa semana e agora está a dois minutos da meia-noite, horário que representa o fim do mundo. É o que diz o Boletim dos Cientistas Atômicos da Universidade de Chicago. Parece o nome de uma banda do colégio mas trata-se de um grupo de estudiosos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O Relógio do Juízo Final foi adiantado em 30 segundos essa semana e agora está a dois minutos da meia-noite, horário que representa o fim do mundo. É o que diz o Boletim dos Cientistas Atômicos da Universidade de Chicago. Parece o nome de uma banda do colégio mas trata-se de um grupo de estudiosos que desde 1947 se dedica a calcular, simbolicamente, o estágio em que estamos de destruir a Terra em uma guerra nuclear.</p>
<p>Até semana passada, estávamos a 2:30 minutos do apocalipse, mas fomos rebaixados pelos acadêmicos dado o risco iminente de uma guerra entre EUA e Coreia do Norte e também, alegam, o baixo esforço que nossa espécie tem feito para lidar com as questões relativas às mudanças climáticas.</p>
<p>E aí, me peguei pensando, e se o mundo acabasse amanhã? Ou melhor, se tudo acabasse daqui a pouco, caso Trump e Kim Jong-un levassem a cabo suas promessas e projetos nucleares. Eu lia a notícia sentado no refeitório enquanto mastigava um sanduíche. Infelizmente, perdi a habilidade de fazer refeições sozinho sem mexer no celular, então gasto esse tempo para me atualizar sobre o noticiário cotidiano (mas, nota-se que não me alimento com nada de muito útil).</p>
<p>Em segundos, notícia e pergunta suscitaram minha capacidade inata de dispersão e debates mentais sobre o fim do mundo ocuparam meu universo de possibilidades. Caramba, e se o mundo acabasse mesmo amanhã ou depois?</p>
<p>(&#8230; continua <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/se-o-mundo-acabar-amanha/" target="_blank" rel="noopener">no Estadão</a>)</p>
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		<title>Existe outra cidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jan 2018 17:10:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Se um dia você estiver passando perto de uma ciclovia em São Paulo, notar um gordinho barbudo pedalando feliz, deslizando sua bicicleta pelas ruas e lhe ocorrer que ele se parece muito comigo, saiba que aquele não sou eu. Sou, no entanto, o outro gordinho, 600 metros atrás, ofegante, suando bicas, arrastando uma bicicleta ciclovia [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Se um dia você estiver passando perto de uma ciclovia em São Paulo, notar um gordinho barbudo pedalando feliz, deslizando sua bicicleta pelas ruas e lhe ocorrer que ele se parece muito comigo, saiba que aquele não sou eu.</p>
<p>Sou, no entanto, o outro gordinho, 600 metros atrás, ofegante, suando bicas, arrastando uma bicicleta ciclovia acima (não importa que seja uma reta ou descida, a sensação é de que estou sempre subindo). Mas, sim, agora eu pedalo. E ainda que a expressão em meu rosto não demonstre, isso me deixa feliz.</p>
<p>Faz coisa de um ano e meio que a bicicleta se tornou meu principal meio de transporte na cidade. A contragosto, confesso. Antes de adotá-la, tentei inúmeras rotas dirigindo por vias alternativas e testando a capacidade criativa do Waze, tentei andar de ônibus, trem, combinações de carro, ônibus e trem. Mas nada me fez conseguir chegar no trabalho em menos de uma hora. Até que me convenci de que poderia tentar pedalar.</p>
<p>Eu não pedalava desde a adolescência, quando fiquei grande demais para a Caloi Cross azul que herdei do meu irmão e não fiz o upgrade natural para uma Caloi 10. O tempo passou, perdi o interesse, comprei um carro e depois outro e ficava parado em congestionamentos por aí observando ciclistas imunes às filas intermináveis de carros e, apesar de alguma inveja, sentia que jamais poderia adotar aquela coisa juvenil como meio de transporte.</p>
<p>(&#8230; continua <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/existe-outra-cidade/" target="_blank">no Estadão</a>)</p>
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		<title>Os sábados precisam voltar a ser sábados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 29 Dec 2017 17:08:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[“A gente vive muito em voz alta e às vezes não se ouve.” -Guimarães Rosa Foi meu aniversário no último dia dois. Era um sábado e a sensação de acordar com café da manhã na cama e cercado pelas meninas em festa é a melhor possível. Depois, encarar um dia inteiro com a única obrigação [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" data-attachment-id="3492" data-permalink="https://luizhenriquematos.com/2017/12/29/os-sabados-precisam-voltar-a-ser-sabados/img_0590-1024x768/" data-orig-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/02/img_0590-1024x768.jpg" data-orig-size="1024,768" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="IMG_0590-1024&amp;#215;768" data-image-description="" data-image-caption="" data-large-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/02/img_0590-1024x768.jpg?w=1024" class="alignnone size-full wp-image-3492" src="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/02/img_0590-1024x768.jpg" alt="IMG_0590-1024x768" width="1024" height="768" srcset="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/02/img_0590-1024x768.jpg 1024w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/02/img_0590-1024x768.jpg?w=150&amp;h=113 150w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/02/img_0590-1024x768.jpg?w=300&amp;h=225 300w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2018/02/img_0590-1024x768.jpg?w=768&amp;h=576 768w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>“A gente vive muito em voz alta e às vezes não se ouve.”<br />
-Guimarães Rosa</p>
<p>Foi meu aniversário no último dia dois. Era um sábado e a sensação de acordar com café da manhã na cama e cercado pelas meninas em festa é a melhor possível. Depois, encarar um dia inteiro com a única obrigação de pensar na próxima coisa boa a fazer. Esse é sempre o maior presente, mas que não é possível quando o aniversário cai em dia útil.</p>
<p>Logo cedo, a Nina me disse para fazer três pedidos ao longo do dia. Três coisas que estivessem ao alcance dela para realizar. Eu sabia que era mais para alegrá-la do que a mim, então entrei na onda. Almoçar juntos em um restaurante que gostamos com direito a sorvete na sobremesa foi o primeiro deles.</p>
<p>O segundo foi ir até nossa livraria favorita e ficar à toa folheando livros, passeando entre as prateleiras, correndo atrás da Cecília que insiste em fugir pelos corredores, separando cinco ou seis exemplares para ler um trecho enquanto bebia um café, até decidir por um deles, que seria o meu presente (escolhi ganhar a mais recente edição dupla de Dom Quixote, que me acompanha nesse minuto).</p>
<p>Já era finzinho de tarde quando, por um motivo que me escapa agora, Nina e Cecília se desentenderam. Sem saber como mudar o clima, lancei mão do meu terceiro direito e pedi a elas que deixassem de lado divergências bobas para desfrutar o dia. “Mas, pai…” alguém já dizia quando eu devolvi: “Esse é meu terceiro desejo. Vocês precisam atender”.</p>
<p>Não foi preciso muito esforço para me dar conta de que nada do que poderia e gostaria de ganhar era tão excepcional a ponto de minhas filhas não poderem me proporcionar. Mais do que isso, nada do que fez daquele dia tão especial não podia facilmente acontecer todas as semanas aqui em casa. O ócio voluntário, a despretensão de um dia sem tarefas ou obrigações, a presença de gente querida. Isso, eu acho, deveria ser incorporado à doutrina religiosa de todo homem.</p>
<p>(&#8230;continua <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/os-sabados-precisam-voltar-a-ser-sabados/" target="_blank" rel="noopener">no Estadão</a>)</p>
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		<title>Árvores sempre dão crônicas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Dec 2017 18:03:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Há árvores que dão bons frutos, há árvores que dão flores, há árvores que dão boa sombra, há árvores que dão morada para passarinhos, há árvores que dão amparo para uma soneca depois do almoço, há árvores que dão trabalho. Mas toda árvore, cada árvore, sempre dá crônica. Para as demais coisas, cada uma dá [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Há árvores que dão bons frutos, há árvores que dão flores, há árvores que dão boa sombra, há árvores que dão morada para passarinhos, há árvores que dão amparo para uma soneca depois do almoço, há árvores que dão trabalho. Mas toda árvore, cada árvore, sempre dá crônica.</p>
<p>Para as demais coisas, cada uma dá em seu ritmo, mas a crônica a árvore dá o tempo todo. Brota do galho, da história da rua, do amor que escondeu, do fio que rompeu, do sabiá que pousou, da maçã que caiu, da sombra fresca em que alguém cochilou.</p>
<p>Árvores já deram livros e contos. O pé de laranja lima de José Mauro de Vasconcelos, as amendoeiras de Rubem Braga, a árvore do conhecimento do bem e do mal no jardim do Gênesis cujo fruto Eva e Adão imprudentemente provaram, a moradia suspensa de Daniel Defoe para o náufrago Robinson Crusoé. Poupo o leitor de um tratado literário a respeito mas, sobretudo, é crônica que as árvores dão para iluminar de verde o horizonte cinza de quem buscava assunto para escrever.</p>
<p>Quando criança, lembro do dia em que plantamos uma jabuticabeira no quintal de casa. Meu pai a trouxe da feira, abrimos um buraco no gramado, fincamos o pequeno pé e nos plantamos ali por um tempo jogando água e adubo para ela vingar. Achei que na manhã seguinte, nosso novo brinquedo começaria a brotar jabuticabas diariamente em escala industrial. Doce ilusão. Doce, não, amarga. Para minha decepção, a jabuticabeira, que apesar de miúda já era adulta quando plantada, levou ainda um ano ou dois para encher nossos tupperwares com seus frutos.</p>
<p>(&#8230; continua <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/arvores-sempre-dao-cronicas/" target="_blank" rel="noopener">no Estadão</a>)</p>
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		<title>A novela, uma primavera e a esperança de um final feliz</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Nov 2017 18:07:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Parei de assistir novelas em algum dia lá no final dos anos noventa. Eu não lembro exatamente que novela era, mas me recordo que até aquele momento na minha vida, o fim dos dias se resumiam em chegar da rua, tomar um banho, dar boa noite para o Cid Moreira, assistir a novela e ir [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Parei de assistir novelas em algum dia lá no final dos anos noventa. Eu não lembro exatamente que novela era, mas me recordo que até aquele momento na minha vida, o fim dos dias se resumiam em chegar da rua, tomar um banho, dar boa noite para o Cid Moreira, assistir a novela e ir dormir. A agenda do Brasil era essa, eu acho. Chegar no escritório no outro dia e comentar sobre a vilã, os mocinhos, tentar descobrir quem matou o patriarca rico, falar o jogo de futebol da semana e o preço da carne. Naqueles dias, a internet era uma coisa incrível que ainda estávamos descobrindo. Aí vieram os reality shows. E tirando a primeira edição de Casa dos Artistas em que votei para o Supla e seu pijama azul ganharem a bolada, nunca mais me interessei por esse tipo de programa.</p>
<p>Conheço pouquíssima gente que assiste a novela hoje em dia. Mas o país inteiro acompanha assiduamente o reality show que virou nossa cena política. Votações públicas na TV Senado, transmissão ao vivo de julgamentos no STF, vídeos mal editados de audiências com juízes federais, tudo passando na televisão em horário nobre. Até temos direito a voto, mas acabamos escolhendo os vilões. Eu nunca imaginei que saberia tanto sobre a vida de um juiz e que me informaria a respeito dele nas colunas sociais dos jornais. Estamos em uma crise econômica, moral e política sem precedentes e enquanto cavamos o buraco em que afundamos, assistimos a derrocada da nossa sociedade bebendo um pingado no balcão da padaria.</p>
<p>Você tem alguma esperança de que as coisas no Brasil serão diferentes? É uma pergunta que eu tenho, de verdade. Lendo as notícias, acompanhando o vai e vem da cena nacional, os julgamentos, as negociatas, gente que vai presa, depois solta e aí prendem de novo, ou não (eu juro que já nem sei quem está livre e quem está preso, deveria ter um aplicativo para ajudar nisso). Mas, será mesmo que podemos ter esperança de que as coisas serão melhores no futuro?</p>
<p>(&#8230; continua <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/a-novela-uma-primavera-e-a-esperanca-de-que-as-coisas-melhorem/" target="_blank" rel="noopener">no Estadão</a>)</p>
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		<title>Amar é pertencer</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Nov 2017 15:55:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[deus]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[Paternidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Está ficando cada vez mais difícil carregá-la no colo. Aos dez anos e quase 40 quilos, não existe uma posição confortável em que a acomode nos braços e não sobre uma perna caída de um lado ou um cotovelo pendurado do outro, ambos facilmente “esbarráveis” em algum batente de porta ou quina de cômoda e [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Está ficando cada vez mais difícil carregá-la no colo. Aos dez anos e quase 40 quilos, não existe uma posição confortável em que a acomode nos braços e não sobre uma perna caída de um lado ou um cotovelo pendurado do outro, ambos facilmente “esbarráveis” em algum batente de porta ou quina de cômoda e capazes de despertá-la do sono com uma pancada.</p>
<p>Às vezes, ela dorme no sofá ou em nossa cama e fico com pena de acordá-la e mandar que vá sozinha para o quarto. E diante de um preocupado “não faça isso, Henrique, sua coluna…” dito pela mãe, me faço de forte e devolvo um habitual “tá tudo bem, tranquilo, eu levo”. Mas, não sei se quero enganar a ela ou a mim mesmo. Dez passos depois, estou pedindo arrego e tão logo eu praticamente arremesse a Nina na cama, saio ofegante corredor afora, meus braços tremendo e sigo até a cozinha em busca de um copo de água.</p>
<p>(continua <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/amar-e-pertencer/" target="_blank" rel="noopener">lá no Estadão</a>)</p>
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		<title>A última casa antes do deserto</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2017/11/03/a-ultima-casa-antes-do-deserto/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Nov 2017 20:47:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Aquela era a última casa antes do deserto estender-se quase infinito à frente. Por cinco ou dez minutos era só o que eu observava enquanto via passar o mundo em miniatura através da janela do avião. Havia alguma cidade adiante, mas até que estivéssemos sobre ela, já vinha há quase uma hora notando a sombra [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" data-attachment-id="3482" data-permalink="https://luizhenriquematos.com/2017/11/03/a-ultima-casa-antes-do-deserto/deserto/" data-orig-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/11/deserto.jpg" data-orig-size="1024,768" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="deserto" data-image-description="" data-image-caption="" data-large-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/11/deserto.jpg?w=1024" class="alignnone size-full wp-image-3482" src="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/11/deserto.jpg" alt="deserto" width="1024" height="768" srcset="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/11/deserto.jpg 1024w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/11/deserto.jpg?w=150&amp;h=113 150w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/11/deserto.jpg?w=300&amp;h=225 300w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/11/deserto.jpg?w=768&amp;h=576 768w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>Aquela era a última casa antes do deserto estender-se quase infinito à frente. Por cinco ou dez minutos era só o que eu observava enquanto via passar o mundo em miniatura através da janela do avião.</p>
<p>Havia alguma cidade adiante, mas até que estivéssemos sobre ela, já vinha há quase uma hora notando a sombra da aeronave projetada no chão árido. Mas, à medida que a civilização surgia no horizonte, podia ver claramente a borda que separava o deserto de um muro. E projetando-se acima da altura do muro havia uma casa, isolada, longe um quilômetro ou mais dos primeiros vizinhos e cuja janela abria-se diante das centenas de quilômetros de terra seca e vegetação rasteira sem que houvesse nada adiante.</p>
<p>Em vão, tentei imaginar qual havia sido a última casa que avistei antes daquela paisagem começar tantos minutos antes. Quem seria, sabe lá, o vizinho de janela do menino que talvez habitasse aquele quarto e escrevia mensagens no vidro para alguém que um dia passasse por ali? Quem dormiria ali do outro lado se a terra pudesse ser magicamente dobrada, o deserto fosse sugado e as casas se emparelhassem de repente? Quem sabe, fosse esse o pensamento ocupando as noites solitárias de uma viúva que perdia o sono olhando o silêncio todo à sua frente e esperando que um dia um transeunte por ali passasse e notasse os vasos de flores que ela dispunha delicadas sobre o parapeito.</p>
<p>O avião aterrissou minutos depois e a história dormiu em minha mente por alguns meses até hoje cedo, quando estava na varanda do apartamento trocando alguns vasos de lugar.</p>
<p>(&#8230;) <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/a-ultima-casa-antes-do-deserto/" target="_blank" rel="noopener">continua lá no Estadão</a>.</p>
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		<title>O homem que virou carro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Nov 2017 20:44:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[O homem virou carro. Foi em um fim de ano, quente como agora. O homem dirigia e dirigia, todo dia dirigia. Alguns anos antes, encarava 40 minutos de trânsito pela manhã e no fim de tarde, mas agora chegava a perder duas ou três horas diárias no trajeto entre a casa e o trabalho. “São [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O homem virou carro. Foi em um fim de ano, quente como agora. O homem dirigia e dirigia, todo dia dirigia. Alguns anos antes, encarava 40 minutos de trânsito pela manhã e no fim de tarde, mas agora chegava a perder duas ou três horas diárias no trajeto entre a casa e o trabalho. “São tantas horas no carro”, pensava, “isso parece minha casa”.</p>
<p>Zeloso com seu habitat, investiu em bancos de couro, aparelhos multimídia, câmbio automático e ar-condicionado. Em casa, a mulher reclamava que usar a mesma geladeira desde que casaram não era dignidade.</p>
<p>Era tanto carro, todo dia, que viciou na relação. Nos fins de semana, ele lavava o carro, lustrava o carro, ia de carro até a padaria comprar pão, contornava até a banca para buscar o jornal. Domingo à tarde, ia para o carro escutar o jogo de futebol pelo rádio, sob pretexto de que a locução tinha mais emoção do que a da TV. “No rádio, qualquer pelada parece jogão, na TV é aquela monotonia de cobrança de lateral e toca pra lá e pra cá”, comentou certa vez com um amigo a quem deu carona, “e gol só é gol mesmo na voz do Zé Silvério”.</p>
<p>Naquela manhã, o trânsito estava especialmente ruim.</p>
<p>(&#8230;) <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/o-homem-que-virou-carro/" target="_blank">continua lá no jornal</a>.</p>
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		<title>O guarda-roupa da minha avó</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2017/10/26/o-guarda-roupa-da-minha-avo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Oct 2017 00:29:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Minha avó guardava a televisão dentro do guarda-roupa de vez em quando. Era comum chegarmos em sua casa no domingo à noite, eu naquela expectativa de assistir Os Trapalhões e… – Vó, cadê a TV? – Ah, eu guardei. Nas primeiras vezes, não procurei saber a razão daquela resposta. Eu ainda não sabia que era [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Minha avó guardava a televisão dentro do guarda-roupa de vez em quando. Era comum chegarmos em sua casa no domingo à noite, eu naquela expectativa de assistir Os Trapalhões e…</p>
<p>– Vó, cadê a TV?<br />
– Ah, eu guardei.</p>
<p>Nas primeiras vezes, não procurei saber a razão daquela resposta. Eu ainda não sabia que era um millennial, então criança nenhuma naquele tempo questionava autoridades solenes como avós. Além disso, eu iria ganhar biscoitos de polvilho e doce de leite caseiro mais tarde e não seria inteligente criar qualquer atrito com a provedora das delícias pelas quais eu esperava muito mais do que Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.</p>
<p>Até que um dia, não sei se por tédio ou curiosidade, não resisti e perguntei.</p>
<p><a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/o-guarda-roupas-da-minha-avo/" target="_blank" rel="noopener">(&#8230;) continua lá no jornal.</a></p>
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		<title>Agora no Estadão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Oct 2017 02:30:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Outras coisas]]></category>
		<category><![CDATA[estadao]]></category>
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					<description><![CDATA[A partir de hoje, Dia das Crianças, escreverei semanalmente no Estadão. É um novo blog, que não substitui este aqui, mas cujos textos não serão reproduzidos na íntegra fora do ambiente do jornal. Escreverei às quintas. Avisarei sempre que uma crônica nova for publicada e espero (e peço) que sigamos juntos. O texto de estreia [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A partir de hoje, Dia das Crianças, escreverei semanalmente no Estadão. É <a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/">um novo blog</a>, que não substitui este aqui, mas cujos textos não serão reproduzidos na íntegra fora do ambiente do jornal.</p>
<p>Escreverei às quintas. Avisarei sempre que uma crônica nova for publicada e espero (e peço) que sigamos juntos.</p>
<p>O texto de estreia <strong><a href="http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/luiz-henrique-matos/as-manhas-amarelas/" target="_blank" rel="noopener">As manhãs amarelas</a></strong>, foi para o ar há pouco. Abaixo, segue um trecho.</p>
<p>Abraços.</p>
<p>&#8212;</p>
<blockquote><p>Amarelas. Assim sempre foram para mim as manhãs ensolaradas da infância. Lembro dos dias que nasciam cedo nos primeiros anos de colégio, meu pai ao volante, o paletó pendurado no encosto do banco, eu sentado lá atrás, bem no meio, o rádio ligado no noticiário com o jogral dos locutores da Jovem Pan informando as horas: “em São Paulo, seis e trinta e cinco”, “Repita!”, “Seis e trinta e cinco” e subia aquela trilha sonora sobre o trabalhador paulistano. Atrás de mim, roncava o motor do nosso Fusca setenta e tantos, o cheiro naquela mistura de couro e gasolina e a lembrança de ver o sol nascer através do pára-brisas, ofuscando a visão e convertendo tudo – o carro, minha roupa, a cidade, a gente e o dia – em um tom amarelo que definia o começo de algo.</p>
<p>Saíamos da Barra Funda, bairro onde morávamos, no sentido do Bom Retiro, onde ficava a escola em que eu estudava. Dali, meu pai seguiria para o trabalho. E se hoje recordo pouco de como eram as aulas, o trajeto e a rotina naquele meio da década de oitenta, os primeiros raios de sol ofuscando minha vista pela manhã enquanto assimilava a cidade ao redor é uma lembrança da infância que ainda carrego.</p>
<p>Hoje em dia, quando saio de casa pela manhã e agora sou eu dirigindo o carro com minha filha no banco de trás a caminho do colégio, às vezes o relógio se alinha com aquela velha hora e o sol desponta de trás de uma árvore, atravessa o pára-brisas, toca o rosto, o carro, a cidade, a gente e ofusca a visão. Há um pequeno despertar, sintonizo o rádio naquela mesma estação e escuto a trilha sonora que ainda hoje é a mesma. Eu me lembro do Fusca bege. As manhãs se tornam novamente amarelas e a infância, aquela vida e essa, o menino e o pai, estão ali convertidos em uma coisa só.</p></blockquote>
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		<title>Questões de chuveiro</title>
		<link>https://luizhenriquematos.com/2017/08/10/questoes-de-chuveiro/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Aug 2017 02:13:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[A Manú reclama que eu demoro muito no banho. &#8220;Meia hora, Henrique! Você precisa de tudo isso?&#8221;. Eu retruco, argumento que tenho pêlos no corpo e lavo os cabelos todos os dias e que por isso, só no processo todo, acabo demorando mais do que ela. É claro que não cola. Ela tem fios de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A Manú reclama que eu demoro muito no banho. &#8220;Meia hora, Henrique! Você precisa de tudo isso?&#8221;. Eu retruco, argumento que tenho pêlos no corpo e lavo os cabelos todos os dias e que por isso, só no processo todo, acabo demorando mais do que ela. É claro que não cola. Ela tem fios de cabelos cinquenta vezes maiores do que os meus e mesmo quando se submete a um tratamento capilar completo, não fica mais do que quinze minutos com o chuveiro ligado.</p>
<p>A verdade, cá entre nós, é que eu fico ali sem fazer nada. E não é de propósito, nada de fugas. É um estado de letargia, em que esticar o braço para pegar o sabonete pode levar uns cinco minutos. Eu <a href="https://correndoatrasdovento.com/2015/05/26/ocio-involuntario/" target="_blank" rel="noopener">já falei disso</a>, tomar banho é o tipo de coisa que classifico como ócio involuntário. Um ritual em que lavo o corpo, a cabeça e a alma. E desde que o nível do Sistema Cantareira deixou de ser uma preocupação urgente, fico um certo tempo ali, entre devaneios, ideias e soluções para os problemas mais complexos do meu dia.</p>
<p>Ideias e soluções que, diga-se, são geralmente incríveis, mas das quais nunca me lembro depois que desligo o registro. E aí me pego gastando alguns banhos pensando que poderia ficar multimilionário se inventasse uma caneta mágica capaz de escrever em vidros de box e azulejos molhados para registrar esses pensamentos. Mas também não lembro da tal caneta depois que saio do banho. E já tentei escrever algumas coisas no box usando a pontinha de um sabonete novo, mas o vapor derreteu tudo e no final aquilo virou uma mancha branca esquisita e ilegível.</p>
<p>Ficaria milionário também (às minhas custas) o sujeito que criasse o sabonete três em um. Uma única barrinha, me ocorre, deveria ser capaz de ser sabonete, shampoo e condicionador. Não tem muito sentido precisarmos usar três produtos diferentes para funções tão semelhantes. E com frequência, entre um devaneio e outro, eu me distraio e esqueço se já lavei os cabelos ou usei sabonete e acabo fazendo a mesma coisa duas vezes para não correr o risco de negligenciar uma etapa importante da higiene.</p>
<p>Melhor ainda seria se a própria ducha tivesse um recipiente ou refil acoplado que liberasse, durante o banho e junto com a água, uma pequena dose de um líquido tudo-em-um que cumprisse o papel de nos deixar limpos. Há de existir tecnologia para isso, não é possível. E tenho certeza que eu tomaria banhos mais objetivos e eficientes e minha Manú ficaria mais contente.</p>
<p>Mas, não. Os gênios da indústria dedicam seus neurônios a outros fins. Os caras inventam uma ducha mais larga e que libera um maior volume de água, a batizam de Gorducha (Gor-ducha!), mas não melhoram o processo. Inventam um sabonete Dove misturado com pepino, lançam o Natura Ekos com sementes de maracujá no meio (sim, sementinhas secas de maracujá rasgando sua delicada pele durante o banho), inventam um sabonete com um bocado de areia no meio, que arranha o corpo inteiro, chamam o tijolo de barra esfoliante e a gente ainda paga quinze vezes mais por isso. Mas, não, não inventam um banho otimizado para salvar casamentos e represas.</p>
<p>Nessas horas, sou obrigado a cair na vala-comum do pensamento preguiçoso e culpar meus comparsas publicitários. Eu balbucio em câmera lenta (meu banho é slow motion, acho): &#8220;é tudo culpa do marketing&#8221;. Venderiam menos produtos se tivéssemos um tudo-em-um. A prova está um metro à minha frente.</p>
<p>Olho para a prateleira de vidro dentro do nosso box e vejo ali uma fila de recipientes. Se na minha infância o desafio era entender a diferença entre o sabonete e o shampoo, o passar dos anos introduziu nos lares e banheiros brasileiros a figura do condicionador. E eu passei a precisar lavar os cabelos três vezes, ao invés de duas.</p>
<p>Depois que me casei, um recipiente menor começou a disputar espaço com os outros dois. Intrigado, um dia eu parei para ler o rótulo. &#8220;Máscara&#8221;, dizia a embalagem. É um creme para usar antes do condicionador, me disse a Manú, e que você passa para hidratar o cabelo depois da&#8230; hidratação. Engodo puro, pensei então. Mas, eis que de uns meses para cá, um quarto vasilhame surgiu para compor o conjunto. Curioso, agarrei o dito-cujo outro dia e li o texto em destaque: &#8220;Pré-Shampoo&#8221;. Isso, pré. Porque não bastasse ter as madeixas besuntadas pelo creme no pós-banho, agora fazem o pobre consumidor acreditar que é preciso lavar o cabelo antes de lavar para poder hidratar e então hidratar. Contando o sabonete, são cinco coisas no processo todo. E minha doce esposa usa tudo isso naquele cabelão e demora menos tempo do que eu no banho.</p>
<p>Mas a Gorducha-Mágica-Tudo-Em-Um com refil que seria, essa sim, revolucionária, o sr. Lorenzetti não se atreve a fabricar.</p>
<p>Penso nisso enquanto me lavo com um novo sabonete refrescante maravilhoso à base de pitanga. Penso também na caneta à prova d&#8217;água (que descobri depois, para desespero da minha conta-corrente, já existe), lamento a coisa toda de como somos vítimas dessa opressão comercial que tenta nos manipular como massa desorientada e no momento em que enxaguo o Pré-Shampoo e meus problemas de oleosidade capilar escorrem pelo ralo, ouço uma uma voz distante, lá fundo, chamando: &#8220;Henrique, poxa vida, ainda vai demorar aí!?&#8221;</p>
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		<title>Do direito de atirar pedras</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Jul 2017 03:44:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
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					<description><![CDATA[“A suprema tentação é a maior traição: fazer a coisa certa pelo motivo errado.” (T. S. Eliot) Atirar pedras nos outros é um direito garantido por lei em certos países. Pelo que apurei, ao menos dez nações &#8211; entre elas, Irã, Somália, Indonésia, Arábia Saudita e Paquistão &#8211; ainda tem o apedrejamento como punição para [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" data-attachment-id="3429" data-permalink="https://luizhenriquematos.com/2017/07/29/do-direito-de-atirar-pedras/img_2690/" data-orig-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/07/img_2690.jpg" data-orig-size="4016,3012" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;1.8&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;iPhone 7 Plus&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1499090600&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;3.99&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;20&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.0001880052641474&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;,&quot;latitude&quot;:&quot;47.412644444444&quot;,&quot;longitude&quot;:&quot;10.978094444444&quot;}" data-image-title="IMG_2690" data-image-description="" data-image-caption="" data-large-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/07/img_2690.jpg?w=1024" class="alignnone size-full wp-image-3429" src="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/07/img_2690.jpg" alt="IMG_2690" width="4016" height="3012" srcset="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/07/img_2690.jpg 4016w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/07/img_2690.jpg?w=150&amp;h=113 150w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/07/img_2690.jpg?w=300&amp;h=225 300w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/07/img_2690.jpg?w=768&amp;h=576 768w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/07/img_2690.jpg?w=1024&amp;h=768 1024w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/07/img_2690.jpg?w=1440&amp;h=1080 1440w" sizes="(max-width: 4016px) 100vw, 4016px" /></p>
<p>“A suprema tentação é a maior traição: fazer a coisa certa pelo motivo errado.” (T. S. Eliot)</p>
<p>Atirar pedras nos outros é um direito garantido por lei em certos países. Pelo que apurei, ao menos dez nações &#8211; entre elas, Irã, Somália, Indonésia, Arábia Saudita e Paquistão &#8211; ainda tem o apedrejamento como punição para crimes considerados graves.</p>
<p>Funciona assim: a pessoa é pega em flagrante, vai presa e segue todo processo de julgamento. Se condenada, marcam a data do apedrejamento. No dia agendado, um buraco com pouco mais de um metro de profundidade é cavado no chão. Mulheres são enterradas até o pescoço e homens até o quadril. Um grupo se reúne em volta do réu e, dado o sinal, o juiz atira a primeira pedra. A partir daí os demais seguem o rito. Como a parte do corpo exposta é bem pequena, o objetivo é acertar a cabeça. As pedras devem ser grandes, de forma que sejam capazes de matar. De tempos em tempos, um agente confere se a pessoa já está morta. Se não estiver, seguem arremessando as pedras até que o óbito seja confirmado. Ah, sim, a pessoa pode salvar a própria vida se conseguir se libertar do buraco e fugir enquanto as pedras são atiradas contra ela.</p>
<p>É hediondo. Eu leio, releio, reflito e não consigo acreditar que sejamos realmente capazes de executar alguém por esses meios. É de um primitivismo tamanho que é difícil imaginar que isso de fato aconteça no mundo de hoje. O homem aprendeu a voar, chegamos ao espaço, aceleramos partículas, temos refrigeradores na cozinha para preservar alimentos, descobrimos e reconstruímos esqueletos de dinossauros com centenas de milhares de anos, conectamos o mundo através de uma rede de computadores e fazemos cirurgias de alto grau de complexidade usando técnicas pouco invasivas e braços mecanicamente guiados. E ainda matamos nossos vizinhos com pedradas na cabeça.</p>
<p>Vale lembrar que o objetivo do apedrejamento é humilhar o criminoso em uma morte vagarosa. A punição não é apenas física, fosse assim um tiro na testa resolveria o problema de forma ainda mais rápida e eficaz (esses mesmos países também praticam outras formas de execução). A ideia do apedrejamento é a exposição pública, é punir pelo exemplo, é fazer com que o condenado se arrependa e pague pelo mal que cometeu.</p>
<p>Fossem mais espertos, aiatolás, ditadores e governantes dessas nações poderiam adotar medidas mais aceitas pela comunidade internacional e diplomaticamente adequadas ao redor do mundo para garantir o mesmo tipo de exposição pública: bastaria que liberassem o acesso ao Facebook em seus países.</p>
<p>Haveria, inclusive, alguns avanços no processo de apedrejamento: em redes sociais, mais gente participa do ato, o que faz com que o condenado seja rapidamente executado. O propósito principal de humilhação e exposição pública é imbatível. Diminuem também as chances de condenado conseguir fugir da punição e o processo de julgamento é popular, movido pela massa sedenta por descontar sua raiva, o que em certa medida tira o peso da decisão das costas de um juiz. O primitivismo é o mesmo, a irracionalidade dos gestos também e a motivação, acredito, segue os mesmos instintos.</p>
<p>É hediondo. Eu leio, releio, reflito e não consigo acreditar que sejamos realmente capazes de expor alguém por esses meios. É de um primitivismo tamanho que é difícil imaginar que isso de fato aconteça no mundo de hoje. O homem aprendeu a voar, chegamos ao espaço e tal&#8230; E ainda agredimos nosso semelhante por pensar diferente da gente.</p>
<p>Há patrulheiros vigilantes. Há diversos deles, navegando pelas redes sociais, assistindo diligentemente vídeos no YouTube, rastreando cada tuíte, cada foto no Instagram, cada texto publicado à procura de um deslize, um erro, um ponto de dúvida que justifique seu dedo em riste, que condescenda com a mão inquisidora, que possa finalmente sofrer sua punição. E, juízes que somos todos, atiramos a primeira pedra. E a multidão acompanha.</p>
<p>O critério para se decidir se o crime é grave ou não cabe tão somente ao juiz e seus seguidores. Não há lei. Basta não concordar, basta votar diferente, torcer para outro time, gostar de outra banda. Basta compartilhar aquele post polêmico, basta assistir Big Brother, não ser da mesma religião, não ser igual, ou não ser diferente. Basta estar ali, rolando sua tela, na mira de alguém e, de repente, uma pedrada lhe atinge a cabeça.</p>
<p>* * *</p>
<p>No Novo Testamento há uma passagem clássica que conta sobre o dia em que um grupo leva até Jesus uma mulher flagrada em adultério. Pela lei, ela deveria ser apedrejada até a morte. Querendo comprometer Jesus em seu julgamento, eles a colocam diante dele e questionam se a lei deveria ser cumprida. Eles tinham pedras nas mãos. Queriam, com isso, condenar a mulher, mas também encontrar caminho para incriminar Jesus, que vinha pregando o amor e desconstruindo conceitos arraigados da lei. A resposta de Jesus, tão conhecida, virou um ditado que ainda repetimos com frequência: “Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra”.</p>
<p>Ninguém ousou dar o primeiro golpe. Deixaram a pobre mulher ali com Jesus e partiram.</p>
<p>No entanto, note, os inquisidores da mulher adúltera (alguns intérpretes do texto bíblico afirmam que se tratava de Maria Madalena) não a apedrejaram porque a lei os impediu. Pela regra, esse era um direito que tinham poderiam tê-lo exercido, aprovando Jesus ou não. Mas, abandonaram sua condição de acusadores porque foram constrangidos por Jesus com uma pergunta. Um espelho. Diante deles, a mulher em pecado era um reflexo de sua própria condição moral. Não de adúlteros, mas de pecadores. Os seres falhos que também eram, era a imagem da mulher jogada no chão de terra à sua frente.</p>
<p>Porque é no espelho que nos vemos, enxergamos nosso reflexo, nossa fragilidade, as rugas e a pequenez de nosso estado. No espelho, não vemos o outro, só a nós mesmos, diante dos defeitos que talvez só nós conheçamos. Ali, o dedo acusatório aponta para nós mesmos, as ofensas rebatem e voltam, a pedra arremessada estilhaça nossa própria imagem.</p>
<p>Espelhos.</p>
<p>Talvez seja isso. Diante da tela do computador ou do celular desligada, naquele instante de reflexão, seria melhor se no lugar de pedras, tivéssemos nas mãos o reflexo de nossa condição.</p>
<p>* * *</p>
<p>O problema são os outros, dizemos o tempo todo. O problema é da internet, o problema são as redes sociais, alguém diz. Então vamos acabar com as pedras. Mas, acabar com as pedras não resolve. O problema está no braço que as arremessa, outro poderia dizer. Mas amarrar as pessoas também não resolve.</p>
<p>O problema está no que nos motiva, eu diria. Está em olhar para o outro e não nos enxergarmos nele. O problema está em não amar o próximo, em não parar para pensar em suas motivações e perceber que também erramos.</p>
<p>Nos sentimos em meio a um fogo cruzado e nunca na posição de acusadores. Mas somos parte ativa do conflito. Porque atirar pedras, tecer comentários ácidos e levantar contendas são apenas gatilhos, atitudes que resultam de uma perda profunda que tem acontecido dentro de nós: a insensibilidade ao sentimento do outro.</p>
<p>E se fôssemos julgados com o mesmo critério que julgamos? E se fôssemos amados com a mesma medida que amamos?</p>
<p>Há muito, isso deixou a esfera política e virtual. Há tempos deixou de ser contra inimigos históricos e estranhos anônimos. Atiramos pedras com quem convivemos cotidianamente, desfazemos amizades, ignoramos a presença dos nossos semelhantes que estão segregados em nossa sociedade, vivendo à margem da dignidade, ofendemos gratuitamente o outro com nossa arrogância, diminuímos aqueles com quem dividimos um teto ao não reconhecer seu valor. Deixamos nossa atenção plena ser usurpada pelo entretenimento superficial que nos anestesia e emburrece. Nas pequenas e nas grandes coisas, temos fechado os olhos para o próximo. O próximo que dorme ao lado, o que vive ao lado, o que caminha ao seu lado na rua.</p>
<p>Ignoramos diferentes perspectivas, rechaçamos opiniões e atiramos pedras porque o outro&#8230; &#8211; e sua opinião e sua dor e sua história e seus anseios e suas dúvidas e sua vontade &#8211; o outro basicamente não nos interessa.</p>
<p>Onde abunda o egoísmo sempre falta compaixão.</p>
<p>Jesus chamou isso de amor. E ele disse que amar era o resumo de toda e qualquer lei ou mandamento.</p>
<p>Quando viveu entre nós como homem, na história que lemos e relemos nos evangelhos, Deus não queria salvar a humanidade do diabo, ele queria nos salvar de nós mesmos. Os exemplos, as mensagens, as atitudes, o sacrifício e a história de Jesus não revelam propriamente uma batalha entre Deus e um inimigo, nada entre duas forças espirituais opostas. A Bíblia mostra que Jesus veio salvar o homem do egoísmo, da tendência de procurarmos apenas nossos próprios interesses, ele veio nos curar de cegueira, da insensibilidade na alma, nos tirar da lama espessa em que afundávamos e nos purificar para que pudéssemos ser livres.</p>
<p>Ao viver entre nós, ele se ofereceu como imagem que pudesse nos servir de inspiração. Ao se tornar o ser humano perfeito, nos mostrou o caminho livre e perfeito que desenhou para a humanidade. Ao se revelar homem, Deus expôs diante de nós sua face bondosa para que pudéssemos contemplar o Criador e, finalmente, nos enxergar em nosso Pai.</p>
<p>Um espelho.</p>
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		<title>Águas de março</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Henrique Matos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Mar 2017 00:59:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[filhos]]></category>
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					<description><![CDATA[Noite passada, enquanto tentava dormir, me inquietava com o fato de que já estamos em março. Março, poxa. Um terço do ano já se passou e o ano só está começando agora. Porque março é o mês que me faz desacelerar o passo da caminhada, que me força a parar e olhar por sobre o [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" data-attachment-id="3403" data-permalink="https://luizhenriquematos.com/2017/03/16/aguas-de-marco/file_000/" data-orig-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/03/file_000.jpeg" data-orig-size="2448,2448" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;2.2&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;iPhone 6&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1472581465&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;4.15&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;250&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.05&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;,&quot;latitude&quot;:&quot;-23.553875&quot;,&quot;longitude&quot;:&quot;-46.766105555556&quot;}" data-image-title="File_000" data-image-description="" data-image-caption="" data-large-file="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/03/file_000.jpeg?w=1024" class="alignnone size-full wp-image-3403" src="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/03/file_000.jpeg" alt="File_000" width="2448" height="2448" srcset="https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/03/file_000.jpeg 2448w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/03/file_000.jpeg?w=150&amp;h=150 150w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/03/file_000.jpeg?w=300&amp;h=300 300w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/03/file_000.jpeg?w=768&amp;h=768 768w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/03/file_000.jpeg?w=1024&amp;h=1024 1024w, https://luizhenriquematos.com/wp-content/uploads/2017/03/file_000.jpeg?w=1440&amp;h=1440 1440w" sizes="(max-width: 2448px) 100vw, 2448px" /></p>
<p>Noite passada, enquanto tentava dormir, me inquietava com o fato de que já estamos em março. Março, poxa. Um terço do ano já se passou e o ano só está começando agora. Porque março é o mês que me faz desacelerar o passo da caminhada, que me força a parar e olhar por sobre o ombro e perguntar como foi que cheguei aqui. Não pelo mesmo motivo que todos nós fazemos em dezembro durante as festas, nem porque eu pessoalmente fique mais velho (meu aniversário também é em dezembro), mas é que de repente realizo, quando vejo a folhinha de fevereiro cair no calendário, que Cecília e Nina estão prestes a comemorar mais um ano.</p>
<p style="text-align:center;">* * *</p>
<p>É uma manhã de sábado, sou o último a acordar na casa. Manú está na cozinha passando um café no coador &#8211; cujo aroma a essa hora mais me chega como um carinho &#8211; e escuto o barulho da tv ligada. Sigo cambaleante até a sala e vejo a Nina sentada no sofá com um livro de mais de quinhentas páginas nas mãos. Eu coço os olhos. Quando foi que paramos de ler juntos aquelas pequenas coleções de 20 ou 30 páginas ilustradas em que eu deixava algumas frases incompletas para saber se ela já seria capaz de ler as palavras finais sozinha? Em poucos dias, ela completará dez anos. Dez. Eu posso te jurar que ano passado ela fez cinco e que toda sua história ainda cabe aqui num parágrafo ou dois de memórias.</p>
<p>Enquanto me espreguiço, Cecília corre atrás da Lucy com algo nas mãos que tenta fazê-la engolir. A cachorra foge, o dia todo. E Cici corre na ponta dos pés, de um jeito que parece que flutua. E ela gargalha por tão pouco, de um jeito que parece que é fácil rir assim de qualquer coisa. Atravesso o cômodo atraindo as atenções das duas, que agora me seguem até a cozinha. Para premiar a minha nostalgia, ela faz aniversário apenas dez dias depois da irmã mais velha. Dois anos, na semana seguinte. E ontem mesmo, tenho absoluta certeza, eu ainda escrevia agradecido a crônica final de um livro contando que Manú estava grávida novamente. E nossa pequena tempestade ruiva é um presente melhor do que qualquer sonho que tínhamos sobre o novo bebê que viria completar nossa família.</p>
<p>Eu não posso afirmar que há alguém pulando os anos e envelhecendo mais rápido do que deveria aqui em casa, mas estamos certamente sendo traídos pelo tempo, pela nossa noção de tempo, por um relógio desajustado em algum canto dessa casa cujos ponteiros aceleram além das regras.</p>
<p>Quando criança, uma coisa que eu gostava de fazer era represar água. Qualquer água servia. Eu abria a torneira da pia do banheiro e tapava o ralo com as mãos por um segundo ou três só para ver juntar um pouco de água e então soltar e ver aquilo correr devagar tubulação abaixo. Fazia isso na rua também, colocando um pedaço de pau, uma pedra, o tênis de algum amigo ou o obstáculo que encontrasse em frente à pequena correnteza de água que vinha meio-fio abaixo enquanto a vizinha de cima lavava a calçada. O obstáculo podia reter toda água por um tempo, mas em algum momento o volume era tão grande que o superava ou arrastava.</p>
<p>Eu faço isso ainda. Ponho as mãos na água em movimento e a vejo passar pelos dedos. Quando chove e estou na rua, estendo a mão e junto os dedos para ver por quanto tempo consigo reter a água. Eu faço isso ainda, eu pego a Nina no colo quando ela dorme no banco de trás do carro e comprometendo eternamente meu nervo ciático, a levo para casa. Ela já tem quase um metro e meio, ela acorda no meio do trajeto mas finge que ainda dorme e acomoda o rosto no meu pescoço por uns oito anos até chegar na sua cama. Eu faço isso ainda, quando levanto a Cecília &#8220;bem alto! bem alto, papai!&#8221; e tudo o que ela tem que garante sua segurança são meus braços que a sustentam naquela aventura. E nessas horas, ela que nunca pára nem por um segundo, fixa bem os olhos nos meus, sorri o melhor sorriso com os dentes separados e gargalha. E aí, o tempo é que pára.</p>
<p>Peço a Deus que me ajude a lembrar desses instantes mágicos para sempre. Em minha pequena fé, desejo que a eternidade seja o espaço onde as memórias nunca pereçam. Que no berço da vida estejam os primeiros passos de minhas meninas, o balbuciar das primeiras palavras, aquele dia no parque, a viagem à praia, as sonecas de sábado à tarde no sofá e cada vela soprada nas festas que marcam a passagem dos seus anos.</p>
<p>Fico tentando conter com os dedos o forte fluxo desse rio, tento parar a chuva, mas a vida muitas vezes é correnteza demais.</p>
<p>Me dou conta de que preciso mesmo é aprender a nadar, me deixar molhar pela chuva e seguir em frente. Isso acontece quando consigo parar de encarar o espelho entre uma aparada e outra na barba, quando deixo de lamentar o volume de água que se foi, o tempo que passou, os dois encantadores anos da Cici que ficaram para trás e os dez doces capítulos da Nina que ela já escreveu.</p>
<p>Há paz, finalmente, quando meu olhar se concentra no que importa, uma obviedade de que me esqueço com frequência: de que há algo a ser feito agora, há o que se desfrutar hoje e que há coisas mais importantes do que respostas para se perseguir na vida. Porque há amor, há Legos, massinhas, lápis e bonecas por todos os lados, há a quem pertencer para sempre, há Deus a nos guiar com sua voz bondosa, há duas meninas dormindo de mãos dadas no quarto ao lado. Há um futuro que se revela atrás da porta que se abre, e o horizonte todo, o dia de amanhã, o esplendor do sonhos e o tempo, todo o tempo que ainda temos pela frente chegando na corrente de um rio.</p>
<p>Em poucos dias haverá uma festa por aqui. Estamos em março e lá fora chove.</p>
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