<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Blog do Paulo Velho</title>
	<atom:link href="https://blog.paulovelho.com/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://blog.paulovelho.com/</link>
	<description></description>
	<lastBuildDate>Sun, 08 Dec 2024 22:40:29 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.10</generator>
<atom:link rel="hub" href="https://pubsubhubbub.appspot.com"/>
<atom:link rel="hub" href="https://pubsubhubbub.superfeedr.com"/>
<atom:link rel="hub" href="https://websubhub.com/hub"/>
<atom:link rel="self" href="https://blog.paulovelho.com/feed/"/>
<site xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">25047744</site>	<item>
		<title>Bolão Pé na Cova</title>
		<link>https://blog.paulovelho.com/bolao-pe-na-cova/</link>
					<comments>https://blog.paulovelho.com/bolao-pe-na-cova/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Velho]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Dec 2024 22:40:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.paulovelho.com/?p=4200</guid>

					<description><![CDATA[Eu estava no Ensino Médio quando comecei a apostar forte no Bolão Pé na Cova. Apostar em um sentido metafórico, uma vez que a competição nunca teve dinheiro envolvido. Ela se limitava a uma área do site Cocadaboa, um verdadeiro portal que, na época, testava os limites da internet. Seria o equivalente a um Cid [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Eu estava no Ensino Médio quando comecei a apostar forte no Bolão Pé na Cova. Apostar em um sentido metafórico, uma vez que a competição nunca teve dinheiro envolvido. Ela se limitava a uma área do site <em>Cocadaboa</em>, um verdadeiro portal que, na época, testava os limites da internet. Seria o equivalente a um Cid Cidoso em formato HTML.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img data-recalc-dims="1" fetchpriority="high" decoding="async" width="580" height="585" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/cocadaboa.png?resize=580%2C585&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4205" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/cocadaboa.png?w=955&amp;ssl=1 955w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/cocadaboa.png?resize=297%2C300&amp;ssl=1 297w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/cocadaboa.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption class="wp-element-caption">saudoso</figcaption></figure>
</div>


<p>O Bolão funcionava praticamente da mesma forma que hoje: era possível mandar 10 nomes de celebridades que você acreditava que faleceriam no ano e, quem marcasse mais pontos, ganhava. Simples e objetivo, como todo jogo deveria ser. Jogávamos em grupo na sala de aula, disputando contra nós mesmos e quase nunca pontuando, afinal, não é tão fácil assim adivinhar que uma pessoa vai morrer, por mais velha que ela seja. Exceto a vez que o Barba acertou a morte do Marlon Brando. Aquele ano, ele ganhou a disputa interna nossa.</p>



<p>Mas, com o amadurecimento da internet e, inclusive, o amadurecimento dos próprios administradores do Cocadaboa, o site acabou. É trabalhoso manter um portal de sucesso (mesmo um blog de fracasso, como este, dá um trabalho do cão às vezes), principalmente quando seu objetivo é ser disruptivo e você acaba soterrado por processos judiciais. Na época, o Cocadaboa alegava que seus servidores ficavam na Eslovênia, como tentativa de desincentivar o envio de ações judiciais. Claro que era uma balela e, mesmo se fosse verdade, os processinhos<img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/2122.png" alt="™" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> viriam de qualquer jeito. Era inteligente e óbvio que o site iria acabar eventualmente. E, com ele, morreu o Bolão Pé na Cova.</p>



<span id="more-4200"></span>



<p><strong>Post Mortem</strong></p>



<p>Mas, como um grupo de amigos unidos e sem muito o que fazer, continuamos montando nossas listas mesmo depois do Cocadaboa acabar. É claro que eramos só uns três ou quatro indivíduos, cada um mandando 15 nomes (nós aumentamos o número de apostas para 15 para dar mais chance pra todos no geral) e computando os pontos no papel e caneta. Fizemos isso por mais alguns anos, mas é difícil manter hábitos quando você mesmo esquece que tinha um hábito.</p>



<p>Seja por falta de ânimo ou porque a gente não lembrava onde tinha colocado os papéis com a lista de cada apostador, essa idéia também morreu.</p>



<p>Alguns anos depois, me vi astutamente posicionado entre os primeiros desbravadores da rede social Twitter. Lá nos idos de 2007, a rede social do passarinho só tinha programadores, jornalistas obcecados por novidade, e um pessoal velha-guarda da internet. Sem ter muito com quem conversar e sem saber muito como usar a rede, acabávamos trocando idéia entre nós mesmos, e, dado o baixíssimo número de usuários, vêm daí algumas amizades que eu carrego até hoje &#8211; e, que anos mais tarde na minha vida, me trariam frutos inesperados.</p>



<p>Uma dessas minhas amizades de começo de Twitter era o roteirista Ulisses Mattos. Divertido, inteligente, e perspicaz, havia algo nele extranhamente familiar, como se eu já o conhecesse. Descobri posteriormente que sim: Ulisses escrevia crônicas para o <em>Cocadaboa</em> com a alcunha <em>Odisseu Kapin</em>. Para mim, era uma honra trocar figurinhas com alguém que eu curtia tanto durante minha adolescência.</p>



<p>As conversas (tuítes trocados seria uma definição mais acurada) com Ulisses me fizeram lembrar novamente do Bolão Pé na Cova e, veio a idéia de ressuscitar a brincadeira. Eu trabalhava como programador já na época, mas não tinha ambições muito grandes de codificar uma aplicação completa, eu queria mesmo chamar meus amigos e perguntar para eles &#8220;e aí, quem você acha que morre este ano?&#8221;</p>



<p>Então, em 2011, eu ressuscitei o Bolão usando essa premissa extremamente simples: mandei e-mail para duas dúzias de chegados com a questão. Havia também um objetivo social na idéia: 2011 foi o ano que eu deixei o Brasil para me aventurar no mundo, então era uma forma de manter contato com meus amigos, nem que seja para quando uma celebridade morresse, compartilhar os acertos e novidades do cotidiano.</p>



<p><strong>Bolão Pé na Cova 1.0</strong></p>



<p>Assim ressurgiu o Bolão. Na época eu perguntei para Ulisses Mattos se havia algum problema usar o nome eternizado pelo <em>Cocadaboa</em> e ele respondeu que acreditava que não. Mesmo assim, o Bolão ainda era um projeto pessoal: No dia 07 de dezembro de 2011, eu mandei alguns e-mails para duas dezenas de amigos propondo a idéia e convidando-os a mandarem suas listas. As listas chegavam por e-mail, eu guardava em um diretório no meu computador: arquivos de texto nomeados com o nome do jogador, e as apostas, uma por linha no conteúdo. Quando uma celebridade morria, eu executava um código <em>grep</em> no terminal e via se retornava algum resultado. Criei um subdiretório dentro do paulovelho.com e atualizava uma página HTML com as últimas notícias e ranking</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" width="471" height="534" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/image-2.png?resize=471%2C534&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4209" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/image-2.png?w=471&amp;ssl=1 471w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/image-2.png?resize=265%2C300&amp;ssl=1 265w" sizes="(max-width: 471px) 100vw, 471px" /><figcaption class="wp-element-caption">O HTML da primeira versão segue guardado no backup aqui</figcaption></figure>
</div>


<p>No primeiro ano do Bolão, 14 pessoas enviaram suas listas. A diversão voltou aos obituários.</p>



<p>Tanto que, no final de 2012, ao me ver desempregado em um país estranho, decidi que era hora de usar meu tempo livre para automatizar alguns processos do Bolão Pé na Cova: Ao invés de enviar a lista por e-mail, um formulário simples. Criar um banco de dados para não ter que lidar com as listas em arquivos de texto. Comprar um domínio próprio para poder desvincular o jogo do paulovelho.com&#8230; Era preciso melhorar o sistema.</p>



<p><strong>Bolão Pé na Cova 2.0</strong></p>



<p>A primeira idéia foi instanciar rapidamente um WordPress e construir um plugin dentro para o envio de listas. Depois de poucos dias trabalhando nessa idéia, acabei descartando porque, apesar de parecer muito simples, fazer qualquer coisa no WordPress acaba sendo incrivelmente complicado.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" width="580" height="415" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/image.png?resize=580%2C415&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4206" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/image.png?resize=1024%2C733&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/image.png?resize=300%2C215&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/image.png?w=1180&amp;ssl=1 1180w" sizes="(max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption class="wp-element-caption">por poucos meses, o Bolão Pé na Cova foi um blog WordPress</figcaption></figure>
</div>

<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="250" height="250" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/pnc.png?resize=250%2C250&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4204" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/pnc.png?w=250&amp;ssl=1 250w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/pnc.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px" /></figure>
</div>


<p>Decidi então usar uma dezena de classes PHP e bibliotecas que eu tinha em outros projetos e construir a solução mais simples possível. Desenhei (na mão mesmo) o mascote da morte, que serviu como logo do Bolão durante todos estes anos. Comprei o domínio bolaopenacova.com (o .com.br não estava disponível), baixei um layout pronto e subi, no final de 2013, a segunda versão do site.</p>



<p>O código do Bolão Pé na Cova acabou sendo reaproveitado em diversos momentos da minha carreira de programador. Se eu precisasse, por exemplo de um upload de imagens ou de um envio de e-mail rápido, eu recorria ao código fonte do Bolão para usar a classe de base para uma nova implementação. E, quando aquelas classes eram atualizadas para qualquer melhoria de performance ou nova funcionalidade, também atualizava a classe no código do Bolão. Com isso, eu tinha uma certa garantia que no Bolão eu teria o código mais atualizado possível e o sistema dele me servia como um repositório de código.</p>



<p>O código-base de onde surgiu tudo também era importante: funcionalidades básicas como conexão com banco de dados e tratamento de erros com log funcionavam muito bem no Bolão e acabaram virando o que depois eu trataria como um framework para todos os meus futuros projetos, algo que eu chamei astutamente de <a href="https://github.com/PlatypusTechnology/MagratheaPHP">Magrathea</a>.</p>



<p><strong>Magrathea</strong></p>



<p>No Guia do Mochileiro das Galáxias, Magrathea é um dos planetas mais ricos do Universo. Isso porque eles se especializaram em construir outros planetas sob medida &#8211; a Terra mesmo é um planeta pedido sob encomenda, construído por Magrathea.</p>



<p>É um baita nome para um framework cujo objetivo era construir outros sistemas. Mesmo não sendo minha linguagem de programação favorita, o PHP acabou se tornando uma das que eu mais usava por conta da facilidade: o Magrathea permitia que eu instanciasse um sistema completo em questão de minutos, com conexão ao banco de dados e criação de objetos. Tudo mais o que o Bolão precisasse acabava se tornando uma ferramenta padrão do framework.</p>



<p>Quando o ranking do site cresceu a ponto da query de retorno se tornar lenta, a solução foi a criação de um sistema de cache que retorna resultados prontos automaticamente. Essa funcionalidade foi adicionada  ao framework para que todos os meus projetos futuros trouxessem isso automaticamente também.</p>



<p>Depois de 10 anos, porém, algumas formas de desenvolvimento se tornaram um pouco obsoletas. As minhas necessidades de sistemas evoluíram e começou a ser difícil adaptar o Magrathea para fazer certas coisas, como cuidar de uma API. O sistema de e-mails e a administração de imagens também se tornaram necessidades tão constantes que tive que criar sistemas próprios que cuidassem dessas funcionalidades &#8211; e, por conta da arquitetura meio antiga do Bolão, nem sempre essas novidades conseguiam ser implementadas nele.</p>



<p>Fez-se necessário uma nova versão do sistema Magrathea, com um melhor controle de versão, um melhor sistema administrativo, uma aprimoração na criação de novos projetos e uma ferramenta de desenvolvimento de APIs robusta, que eram as funcionalidades que eu mais precisava. Em 2023, comecei a trabalhar na <a href="https://github.com/PlatypusTechnology/MagratheaPHP2">versão 2.0</a> do framework. O resultado foi um sistema <a href="https://www.platypusweb.com.br/magratheaphp2/docs/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">tão superior</a> que percebi a necessidade de aposentar de vez o antigo. Seria o fim do Bolão Pé na Cova 2.0. Uma nova versão se fazia necessária.</p>



<p><strong>Bolão Pé na Cova 3.0</strong></p>



<p>Tal qual tinha acontecido 10 anos antes, o Bolão era novamente o projeto que eu usaria para testar o funcionamento do novo framework. Agora havia menos espaço para erros: com mais de 500 listas por ano, uma mudança implicaria em uma chuva de e-mails de reclamação, como às vezes acontece quando eu atraso a atualização de algum falecimento.</p>



<p>O sucesso do Bolão já estava sedimentado. Eu já tinha perdido o controle de seu alcance, o projeto tinha fãs dedicados, e necessidades próprias. Lembro, por exemplo, quando estava na Áustria e a Hebe morreu, e vi minha caixa de e-mails preenchida por desconhecido revindicando pontos. Também se fazia necessária uma nova definição do conceito de &#8220;<a href="https://bolaopenacova.com/regulamento/celebridade">celebridade</a>&#8220;, uma vez que estava ficando difícil para mim mesmo perceber quem poderia ir no Bolão.</p>



<p>Algumas mudanças estruturais seriam necessárias também: a parte de análise de dados acabou se tornando extremamente relevante. Com uma base de apostadores crescente, era interessante ver a popularização de certos nomes. Por exemplo, Jair Bolsonaro, que tinha zero apostas até 2016 e que alcançou a sexta posição no ranking de mais apostados em 2019. Fascinante.</p>



<p>As alterações no framework e na análise de dados clamavam por uma atualização completa do Bolão. Algumas das melhorias que eu gostaria para o sistema, que seriam triviais com a versão 2.0 do Magrathea, iriam exigir um trabalho imenso no código legado. Assim, comecei a construir, aos poucos a versão 3.0 do site.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="663" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/image-3.png?resize=580%2C663&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4210" style="width:256px;height:auto" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/image-3.png?w=659&amp;ssl=1 659w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/12/image-3.png?resize=263%2C300&amp;ssl=1 263w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>
</div>


<p>No final de novembro, entrou finalmente no ar o novo Bolão Pé na Cova. Com um novo layout, um mascotinho atualizado, uma integração com os sistemas de administração de imagens e e-mail, uma API (que pode vir a se abrir qualquer dia), e uma bem-vinda arrumada na bagunça que estavam os servidores devido a backups e gambiarras de compatibilidade de versões.</p>



<p>Não é só na área pública que a versão 3.0 traz grandes mudanças. As maiores alterações, na verdade, ficam atrás da cortina: uma reformulação total do sistema administrativo não só consegue me proporcionar uma administração mais fácil do Bolão como me traz ferramentas para um processo que pode acontecer em algum momento futuro: a passagem do bastão.</p>



<p>Quem sabe eu não aproveite essa reformulação para conseguir uma ajuda na administração do Bolão. E quem sabe eu não consiga alguém de confiança para manter a brincadeira de pé depois que eu mesmo entre nos obituários.</p>



<p>O Bolão Pé na Cova 3.0 já está pronto para isso.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p>Mande sua lista:</p>



<p><a href="https://bolaopenacova.com">https://bolaopenacova.com</a></p>



<p></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://blog.paulovelho.com/bolao-pe-na-cova/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">4200</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Rinha de Oktoberfest</title>
		<link>https://blog.paulovelho.com/rinha-de-oktoberfest/</link>
					<comments>https://blog.paulovelho.com/rinha-de-oktoberfest/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Velho]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Nov 2024 19:38:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.paulovelho.com/?p=4167</guid>

					<description><![CDATA[Uma aprofundada análise comparativa entre a Oktoberfest de Blumenau e a de Munich História Em outubro de 1810, meu rei germânico favorito, o Rei Ludwig I, finalmente casou-se com a princesa Therese von Sachsen-Hildburghausen. A princesa era gata e o cara ficou tão emocionado com o próprio casamento que decidiu dar uma festa para a [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading">Uma aprofundada análise comparativa entre a Oktoberfest de Blumenau e a de Munich</h2>



<p><strong>História</strong></p>



<p>Em outubro de 1810, <a href="https://blog.paulovelho.com/a-grande-revolta-da-cerveja/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">meu rei germânico favorito, o Rei Ludwig I</a>, finalmente casou-se com a princesa Therese von Sachsen-Hildburghausen. A princesa era gata e o cara ficou tão emocionado com o próprio casamento que decidiu dar uma festa para a cidade inteira de Munich, a capital da Bavária. Todo o povo da cidade foi, encheu a cara, e viu uma grande corrida de cavalo, que parece que era um show dos Beatles do século XIX.</p>



<p>A festa foi, aparentemente, tão boa que, em 1811, alguns cidadãos chegaram pro Rei com a idéia &#8220;Vossa Majestade. Um ano de casado, não rola mais uma festinha não?&#8221;. Ludwig não deve ter hesitado muito para celebrar de novo e começar assim, meio que por acidente, uma tradição que já conta com mais de 200 anos.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6ac686a6dad3f&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6ac686a6dad3f" class="aligncenter size-large wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230916_181248465.jpg?resize=580%2C326&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4188" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230916_181248465-scaled.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230916_181248465-scaled.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230916_181248465-scaled.jpg?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230916_181248465-scaled.jpg?resize=2048%2C1152&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230916_181248465-scaled.jpg?resize=1200%2C675&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230916_181248465-scaled.jpg?resize=1980%2C1114&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230916_181248465-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><button
			class="lightbox-trigger"
			type="button"
			aria-haspopup="dialog"
			aria-label="Ampliar"
			data-wp-init="callbacks.initTriggerButton"
			data-wp-on--click="actions.showLightbox"
			data-wp-style--right="state.imageButtonRight"
			data-wp-style--top="state.imageButtonTop"
		>
			<svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="12" height="12" fill="none" viewBox="0 0 12 12">
				<path fill="#fff" d="M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z" />
			</svg>
		</button><figcaption class="wp-element-caption">Oktoberfest, München: tipo uma Disney (foto: 2023)</figcaption></figure>
</div>


<p>Já a Oktoberfest de Blumenau tem uma origem um pouco mais humilde. Ela surgiu com a idéia da celebração da <em>Festa do Imigrante alemão</em>, que ocorreria em julho de 1983, mas foi adiada por conta de uma enchente (dentre as várias que normalmente atingem Blumenau). No ano seguinte, para a surpresa de quase zero pessoas, outra enchente. Aí os organizadores já tinham decidido jogar a festa para outubro mesmo, e mudar o nome dela para Oktoberfest, de forma a remeter à festa original. O fato que o secretário de turismo da época, Antônio Pedro Nunes, tinha uma agência de turismo que vendia pacotes para a Alemanha (inclusive para a Oktoberfest), com certeza ajudou na execução da festa, agora vendida como uma demonstração da resiliência local mediante a tragédia climática.</p>



<span id="more-4167"></span>



<p>O fato é que as duas Oktoberfests são sucessos e não param de crescer. Tendo freqüentado diversas vezes a Oktoberfest de Munich (chamada de <em>Wiesn</em> pelos alemães) e revisitado a Oktoberfest de Blumenau este ano, fica a dúvida:</p>



<p>E no que mais elas seriam comparáveis?</p>



<p><strong>*** Cultura ***</strong></p>



<p><strong>Munich:</strong> Obviamente, é uma festa fortemente pautada pela cultura bávara. A música alemã toca em peso, tem todo o contexto histórico do evento, etc. Hoje em dia, a maioria do público frequenta a festa com seus <em>lederhosens</em> e <em>dirndls</em>. As músicas variam entre as típicas canções alemãs já próprias do evento e umas inserções pop muito bem vindas, mesclando elegantemente com o tradicional. As toneladas de turistas estrangeiros que se embebedam por lá não parecem ter afetado as tradições. <strong>9/10</strong></p>



<p><strong>Blumenau:</strong> Curiosamente, também é uma festa fortemente pautada pela cultura alemã. As músicas e shows são principalmente de músicas alemãs e eu não aguentava mais ouvir <em>Fliegerlied</em> depois de três dias. Também há uma mescla esperta com umas inserções pop, como uma seqüência de Mamonas Assassinas vez ou outra, mas isso não ocorre com tanta sutileza como em Munich. Isso faz com que o repertório da festa pareça um tanto limitado. Entre o público, há os <em>lederhosens</em> e <em>dirndls</em> e uma porção de chapéuzinhos alemães, mas nem de perto chega a ter o charme alemão. Nos últimos anos, a festa ainda decidiu abraçar uma dezena de patrocinadores aleatórios que criam estandes com &#8220;ativações&#8221; no meio do evento, mesmo que não faça nenhum sentido com a cultura alemã. Ainda assim, tem uma parada no centro da cidade e Blumenau colabora muito com o clima. <strong>7/10</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6ac686a6dbc17&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6ac686a6dbc17" class="aligncenter size-large wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241026_202442293.jpg?resize=580%2C326&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4183" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241026_202442293-scaled.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241026_202442293-scaled.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241026_202442293-scaled.jpg?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241026_202442293-scaled.jpg?resize=2048%2C1152&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241026_202442293-scaled.jpg?resize=1200%2C675&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241026_202442293-scaled.jpg?resize=1980%2C1114&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241026_202442293-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><button
			class="lightbox-trigger"
			type="button"
			aria-haspopup="dialog"
			aria-label="Ampliar"
			data-wp-init="callbacks.initTriggerButton"
			data-wp-on--click="actions.showLightbox"
			data-wp-style--right="state.imageButtonRight"
			data-wp-style--top="state.imageButtonTop"
		>
			<svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="12" height="12" fill="none" viewBox="0 0 12 12">
				<path fill="#fff" d="M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z" />
			</svg>
		</button><figcaption class="wp-element-caption">Parada de Blumenau, 2024. Bigodinho de Hitler no pato foi sacanagem.</figcaption></figure>
</div>


<p><strong>*** Logística ***</strong></p>



<p><strong>Munich:</strong> Munich é a terceira maior cidade da Alemanha e um hub conectivo da Baviera: todas as principais rotas de trem, estradas e vôos da região chegam por lá. O transporte é fácil e rápido, mesmo com os constantes atrasos da <em>DeutscheBahn</em>, que mancham a imagem da eficiência alemã. Não é difícil chegar na festa, mesmo que o turista esteja vindo de longe. Além de ter muita coisa para fazer nos arredores: Munich é uma jóia turística e dá pra visitar castelos, lagos, cidades vizinhas e até campos de concentração. Apesar da DB, nota <strong>9/10</strong></p>



<p><strong>Blumenau:</strong> Já chegar em Blumenau é um saco. O aeroporto mais perto é Navegantes e o transporte é unicamente rodoviário. Quem se hospeda pela cidade têm que enfrentar altos preços das moradias; e quem se hospeda nos arredores têm que ficar esperto no horário dos ônibus, que também é um tanto inconstante. Apesar da fofura de algumas cidades próximas, como Pomerode, a principal atração da região acaba sendo o Beto Carrero World, que também é razoavelmente longe. Conseqüências mais do país onde a festa acontece do que do evento em si, mas não dá pra negar as dificuldades para o turista. <strong>3/10</strong></p>



<p><strong>*** Público ***</strong></p>



<p><strong>Munich: </strong>Italiano demais, turista demais. Recomendo os galpões da Augustiner, preferidos pela população local. Não recomendo de jeito nenhum o galpão da HB, que só tem turista e as garçonetes não se importa em serem abusivas, mal-educadas e explorar os visitantes. O pessoal fica bêbado de desmaiar, e parece que há uma colina própria para isso. Já o público feminino é simplesmente perfeito, sem falhas. <strong>8/10</strong></p>



<p><strong>Blumenau:</strong> Há pouquíssimos turistas estrangeiros em Blumenau. O público maior é de sulistas (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), mas é claro que dá para encontrar pessoas do Brasil inteiro. No quesito bebedeira, eu ouso dizer que Blumenau entorna o caneco com mais responsabilidade do que Munich, mas obviamente minha opinião acaba enviesada por ser um público ridiculamente menor. Já o público feminino é simplesmente perfeito, sem falhas. <strong>9/10</strong></p>



<p><strong>*** Cerveja ***</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6ac686a6dd02d&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6ac686a6dd02d" class="alignright size-large wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="576" height="1024" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230926_200734547.jpg?resize=576%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4186" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230926_200734547-scaled.jpg?resize=576%2C1024&amp;ssl=1 576w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230926_200734547-scaled.jpg?resize=169%2C300&amp;ssl=1 169w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230926_200734547-scaled.jpg?resize=864%2C1536&amp;ssl=1 864w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230926_200734547-scaled.jpg?resize=1152%2C2048&amp;ssl=1 1152w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230926_200734547-scaled.jpg?resize=1200%2C2133&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230926_200734547-scaled.jpg?resize=1980%2C3520&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20230926_200734547-scaled.jpg?w=1440&amp;ssl=1 1440w" sizes="auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px" /><button
			class="lightbox-trigger"
			type="button"
			aria-haspopup="dialog"
			aria-label="Ampliar"
			data-wp-init="callbacks.initTriggerButton"
			data-wp-on--click="actions.showLightbox"
			data-wp-style--right="state.imageButtonRight"
			data-wp-style--top="state.imageButtonTop"
		>
			<svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="12" height="12" fill="none" viewBox="0 0 12 12">
				<path fill="#fff" d="M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z" />
			</svg>
		</button><figcaption class="wp-element-caption">Se você frequentar a Oktoberfest de Munich o suficiente, desbloqueia cervejas novas, como a Franziskaner (foto: 2023)</figcaption></figure>
</div>


<p><strong>Munich:</strong> Apenas seis cervejarias estão na Oktoberfest de Munich: Augustiner, Hacker-Pschorr, Hofbräu, Löwenbräu, Paulaner e Spaten. Se você frequentar o suficiente, consegue desbloquear a <em>Franziskaner</em> (tem que ir no <em>Oide Wiesn</em>, que só fica gratuito à peble depois de certo horário: tem que querer muito e saber as manhas). A cerveja é (basicamente, para simplificar) somente uma: Oktoberfest Helles, vendida unicamente em taças de vidro gigantescas de um litro. Se quiser beber menos do que isso, ali não é lugar. E se quiser beber algo diferente, também não; o pessoal leva a sério essa tradição. Mas é realmente uma excelente cerveja, não importa em qual das cervejarias você vá comprar a sua. <strong>9/10</strong></p>



<p><strong>Blumenau:</strong> Sendo polêmico: em alguns pontos, a cerveja em Blumenau é <em>melhor</em> do que em Munich. A começar pela variedade: não há só Pilsens. Eles dão espaços para micro e pequenas cervejaris locais, que se metem a vender IPAs, APAs, ALEs, e até Stouts. A principal patrocinadora hoje em dia é a Spaten, algo louvável, mas corruptível: se em Munich eles não aceitam novas cervejarias, não importa o motivo, não dá para ignorar que Blumenau já foi patrocinada pela Kaiser e Antartica. As cervejas são vendidas em copos de plástico, com 400ml. Hoje em dia, porém, com Spatenzinhas e uma variedade admirável de estilos, Blumenau está em pé de igualdade com sua irmã mais velha, nem que seja por motivos diferentes. <strong>9/10</strong></p>



<p><strong>*** Preço ***</strong></p>



<p><strong>Munich:</strong> Tudo na festa é absolutamente caro. Nos diversos Biergartens de Munich, é possível comprar um litro de Helles por cerca de 9 ou 10 euros. Dentro da festa, o valor explode: cada copo sai pelo menos o dobro disso, pagos unicamente em dinheiro (incluindo a gorjeta para a atendente). Na questão da comida, também é tudo muito caro. Vá com dinheiro ou chegue bêbado e bem alimentado. O bom é que tem bastante cerveja e comida alemã nos arredores do <em>Theresewiesen</em>. A festa é gratuita, o que ajuda um pouco na nota. <strong>3/10</strong></p>



<p><strong>Blumenau:</strong> Cobrando um chope pilsen por R$15 e outros estilos por R$17 (podendo chegar até R$21, dependendo do estilo/cervejaria), o valor pode ser considerado no mínimo justo &#8211; e até barato. A comida também não custa um rim e é bem tradicional. E a água é de graça, uma imensa vantagem para quem não quer passar mal e um grande avanço em comparação à Munich, onde os postos de água estão do lado de fora dos galpões e apenas em dois pontos específicos. A festa é paga nos sábados e sextas à noite e, se antigamente quem estivesse vestido em trajes típicos não pagava, agora eles limitaram ao benefício da meia entrada. <strong>8/10</strong></p>



<p><strong>*** Tamanho ***</strong></p>



<p><strong>Munich:</strong> É a maior festa do mundo. Recebeu cerca de 7 milhões de pessoas em 2023 e 2024 (mais ou menos). Um absurdo para uma cidade de 1,5 milhão de habitantes. São 17 galpões gigantescos, parque de diversões, barraquinhas menores de comida, montanhas russas, rodas gigantes&#8230; É impossível visitar e conhecer tudo de uma vez. Sério, palavras não explicam a dimensão do evento; eu demorava para dar volta de bicicleta em torno de <em>Theresewiesn</em>. <strong>10/10</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6ac686a6dd6f1&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6ac686a6dd6f1" class="aligncenter size-large wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="435" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04954.jpg?resize=580%2C435&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4174" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04954-scaled.jpg?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04954-scaled.jpg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04954-scaled.jpg?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04954-scaled.jpg?resize=2048%2C1536&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04954-scaled.jpg?resize=1200%2C900&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04954-scaled.jpg?resize=1980%2C1485&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04954-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><button
			class="lightbox-trigger"
			type="button"
			aria-haspopup="dialog"
			aria-label="Ampliar"
			data-wp-init="callbacks.initTriggerButton"
			data-wp-on--click="actions.showLightbox"
			data-wp-style--right="state.imageButtonRight"
			data-wp-style--top="state.imageButtonTop"
		>
			<svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="12" height="12" fill="none" viewBox="0 0 12 12">
				<path fill="#fff" d="M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z" />
			</svg>
		</button><figcaption class="wp-element-caption">Tudo que o sol toca é Oktoberfest (Munich, 2011)</figcaption></figure>
</div>


<p><strong>Blumenau:</strong> É a segunda maior Oktoberfest do mundo. Um feito considerável, pensando que ela consegue ser maior do que as outras Oktoberfests da Alemanha e Áustria. Recebeu em 2023 e 2024 entre 500 e 600 mil pessoas, um grande feito para uma cidade de cerca de 350.000 habitantes, mas ainda assim não tem como competir com Munich. Falta espaço aberto, que deveria ser melhor aproveitado, principalmente com os bonitos dias que faz na região. Digamos que, se você precisa encontrar um amigo do outro lado da festa em Blumenau, você chega lá fácil. Em Munich você desiste. Comparação injusta, mas&#8230; <strong>6/10</strong></p>



<p><strong>*** Festa ***</strong></p>



<p><strong>Munich:</strong> Nos problemas: só é possível pegar chope estando sentado. Os salões são tomados por mesas e as garçonetes só atendem quem estiver ocupando uma. Isso é um problema: Freqüentemente é difícil arrumar um lugar, principalmente para quem chega mais tarde. Mas também é uma dádiva: você constantemente acaba dividindo a mesa com outras pessoas e faz amigos imediatamente. Assim que a música começa, todos sobem nas mesas e dançam brindando loucamente. O clima é ótimo. Há um parque de diversões razoavelmente grande, com algumas montanhas russas, tobogãs, elevadores que despencam e uma cacetada de outros brinquedos. E, consequentemente, um espaço aberto gigantesco ligando todos os galpões. <strong>9/10</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6ac686a6ddc05&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6ac686a6ddc05" class="aligncenter size-large is-resized wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="435" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04956.jpg?resize=580%2C435&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4177" style="width:610px;height:auto" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04956-scaled.jpg?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04956-scaled.jpg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04956-scaled.jpg?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04956-scaled.jpg?resize=2048%2C1536&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04956-scaled.jpg?resize=1200%2C900&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04956-scaled.jpg?resize=1980%2C1485&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/DSC04956-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><button
			class="lightbox-trigger"
			type="button"
			aria-haspopup="dialog"
			aria-label="Ampliar"
			data-wp-init="callbacks.initTriggerButton"
			data-wp-on--click="actions.showLightbox"
			data-wp-style--right="state.imageButtonRight"
			data-wp-style--top="state.imageButtonTop"
		>
			<svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="12" height="12" fill="none" viewBox="0 0 12 12">
				<path fill="#fff" d="M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z" />
			</svg>
		</button><figcaption class="wp-element-caption">Tem coisa demais pra fazer em Munich (foto: 2012)</figcaption></figure>
</div>


<p><strong>Blumenau:</strong> Ao invés de mesas, são grandes salões abertos. Isso é uma vantagem: não é necessário estar sentado para pegar um chope, e dá pra sair dançando na frente do palco &#8211; e as bandas se aproveitam disso para fazer um monte de coreografia nas limitadas músicas de seu repertório. Há mesas sim, claro: para quem quiser comer ou descansara as abusadas panturrilhas. Mas elas não atrapalham. Geralmente todo mundo compra uma caneca de metal, para não precisar ficar bebendo em copo de plástico, mas é verdade que as pesadas canecas de vidro fazem falta. Assim como lugares abertos: Apesar da fofa disposição da vila germânica, não dá para ficar muito ao ar livre sem achar que está atrapalhando. Também há um mini-parque de diversões, mas parece que é só para marcar presença mesmo. Para resumir: dá para passar um dia inteiro na Oktoberfest de Munich sem cansar; já em Blumenau, você corre o risco de ficar entediado depois de algumas horas. <strong>8/10</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6ac686a6de0a9&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6ac686a6de0a9" class="aligncenter size-large is-resized wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241025_220626727.jpg?resize=580%2C326&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4181" style="width:610px;height:auto" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241025_220626727-scaled.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241025_220626727-scaled.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241025_220626727-scaled.jpg?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241025_220626727-scaled.jpg?resize=2048%2C1152&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241025_220626727-scaled.jpg?resize=1200%2C675&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241025_220626727-scaled.jpg?resize=1980%2C1114&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2024/11/PXL_20241025_220626727-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><button
			class="lightbox-trigger"
			type="button"
			aria-haspopup="dialog"
			aria-label="Ampliar"
			data-wp-init="callbacks.initTriggerButton"
			data-wp-on--click="actions.showLightbox"
			data-wp-style--right="state.imageButtonRight"
			data-wp-style--top="state.imageButtonTop"
		>
			<svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="12" height="12" fill="none" viewBox="0 0 12 12">
				<path fill="#fff" d="M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z" />
			</svg>
		</button><figcaption class="wp-element-caption">Blumenau, germânico à beça (foto: 2024)</figcaption></figure>
</div>]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://blog.paulovelho.com/rinha-de-oktoberfest/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">4167</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Aceite</title>
		<link>https://blog.paulovelho.com/aceite/</link>
					<comments>https://blog.paulovelho.com/aceite/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Velho]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Jun 2024 18:13:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.paulovelho.com/?p=4161</guid>

					<description><![CDATA[Quando o fio dourado o prato atinge,deves ter notado meu tamanho deleite,uma indiferença teu semblante finge.Desprezo. Desforro. Ignoro. Aceite. Ganha brilho a batata, antes apática.Antes cansada, agora altiva.Sua face raivosa, antes simpática.Antes te olhava, agora oliva. &#8220;Chega deste óleo!&#8221;, desembestas a gritar.Dou de ombros, ignoro, sem sequer me importar,o azeite ainda cai, como se fosse [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando o fio dourado o prato atinge,<br>deves ter notado meu tamanho deleite,<br>uma indiferença teu semblante finge.<br>Desprezo. Desforro. Ignoro. Aceite.</p>



<p>Ganha brilho a batata, antes apática.<br>Antes cansada, agora altiva.<br>Sua face raivosa, antes simpática.<br>Antes te olhava, agora oliva.</p>



<p>&#8220;Chega deste óleo!&#8221;, desembestas a gritar.<br>Dou de ombros, ignoro, sem sequer me importar,<br>o azeite ainda cai, como se fosse nunca parar.</p>



<p>No tomate, no peixe, em cada folha de salada,<br>até mesmo no vazio, onde no prato não há nada.<br>Te desprezo. Te ignoro. E você enciumada.</p>



<p>Imploras aos céus, e eu também cá confuso:<br>Não sei por quê que eu te faço este mal,<br>contigo, e com o azeite, que cometo este abuso.<br>Não quero vinagre, não me importo com sal.</p>



<p>Seus olhos, tão lindos, já seguram o choro,<br>me dizes &#8220;o colesterol ainda vai te matar&#8221;.<br>Te ignoro. E aos poucos para ti eu morro.<br>Te deixo bem antes da minha vida acabar.</p>



<p>&#8220;É extra virgem&#8221;, me escapa um sussurro,<br>seu olhar fuzilando meu comentário tão burro,<br>o azeite caindo nas batatas ao murro,</p>



<p>pingando pelas entranhas da polpa cozida,<br>encharcando em óleo toda aquela comida.<br>E eu sinto você, a fugir de minha vida.</p>



<p>Levanta-te raivosa, batendo na mesa,<br>derrubando o vinho, quebrando a taça.<br>Marchas pra fora, com tanta certeza.<br>O azeite acabou, não há mais o que eu faça.</p>



<p>O peixe flutua no líquido viscoso.<br>Sua ausência agora me vêm tão à tona.<br>Tento focar em meu prato gostoso,<br>ao menos honrar esta nobre azeitona.</p>



<p>Te ouço a xingar, bater pernas na sala.<br>Com uma boa garfada, minha boca se cala.<br>Te vejo na sombra, a arrastar tua mala.</p>



<p>Rebato a gordura com um copo de leite.<br>Tu sais pela porta, sem que eu pleite.<br>Te ignoro, mas choro. Eu aceito. Aceite.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://blog.paulovelho.com/aceite/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">4161</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Guia da baixa gastronomia &#8211; edição México</title>
		<link>https://blog.paulovelho.com/guia-da-baixa-gastronomia-edicao-mexico/</link>
					<comments>https://blog.paulovelho.com/guia-da-baixa-gastronomia-edicao-mexico/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Velho]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 May 2023 03:36:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cadernos Expedicionarios]]></category>
		<category><![CDATA[Guia da baixa gastronomia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.paulovelho.com/?p=4147</guid>

					<description><![CDATA[Comida mexicana é um amplo leque de opções. Após um período no país, fica evidente que há mais do que guacamoles, quesadillas e tacos. E se descobre muito rápido que nenhum lugar do mundo faz comida mexicana como no México &#8211; provavelmente porque a vigilância sanitária não deixa. Cada rua da Ciudad de Mexico é [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Comida mexicana é um amplo leque de opções. Após um período no país, fica evidente que há mais do que guacamoles, quesadillas e tacos. E se descobre muito rápido que nenhum lugar do mundo faz comida mexicana como no México &#8211; provavelmente porque a vigilância sanitária não deixa.</p>



<p>Cada rua da Ciudad de Mexico é entupida por barraquinhas e carrinhos de vendedores exibindo tortillas, mangas, sucos, chapulines, sanduíches (aqui eles chamam de tortas), helotes, esquites, doces, salgadinhos, burritos, e o que mais alguém já teve a idéia de engolir. Eles se revezam em horários no decorrer do dia, para ampliar a disponibilidade de ofertas. E estão sempre cheios porque os mexicanos não páram de comer enquanto estão acordados.</p>



<p>Além do ácido cheiro de México frito que inunda suas narinas toda vez que você pisa em uma calçada, a falta de higiene desses lugares é outra característica gritante. Lugar perfeito para um novo guia da baixa gastronomia (conhecido no México apenas como “guia da gastronomia”).</p>



<h2 class="wp-block-heading">La Casa de Toño</h2>



<p>Pozole + Agua de Tamarindo<br>Total: 127 Mex$ (algo em torno de R$35,00)</p>



<p>Pozole é um prato tipicamente mexicano, inicialmente consumido pelas tribos aztecas que habitavam a região antes mesmo do Silvio Santos nascer. Uma iguaria sagrada, o negócio era uma sopa de vegetais misturada com o crânio de nossos inimigos, o que parece ser um grupo cada vez mais amplo se a receita continuasse a mesma.</p>



<p>Mas não. Desde que os espanhóis chegaram, eles aboliram esse negócio de canibalismo e hoje em dia o prato é supostamente feito com carne de frangos, vacas, porcos e outros inocentes que não fizeram mal para ninguém.</p>



<p>Tive a oportunidade de ir em um restaurante de uma das redes mais populares do México a servir Pozole: “<em>La Casa de Toño</em>”. Após uma curta caminhada pelas limpas ruas de Polanco (limpas para os padrões mexicanos, imundas para os padrões europeus, perfeitas para os padrões deste guia), chegamos no que parecia uma distribuição gratuita de sombreros: um coletivo de mexicanos aglomerado ao redor de uma porta. Era a fila de espera para entrar no restaurante, um sinal claro da popularidade do lugar. Peguei minha senha com a jovem mexicana que administrava a espera com um caderno, dividindo a folha em colunas e marcando as senhas e quantidade de pessoas na espera. Recebi o número 91. A tela divulgando as chamadas atuais exibia o número 68.</p>



<p>O tempo de espera foi gasto examinando com atenção o menu fixado na vitrine do estabelecimento: tostadas, enchiladas, tacos, quesadilla, enfrijoladas (uma espécie de quesadilla coberta com feijão) e molletes (uma espécie de pão com feijão) desfilavam a preços competitivos. Havia também o pozole, oferecido em dois tamanhos: o pequeno a 73 pesos e o grande a 79 pesos (uma diferença de aproximadamente um real, deixando evidente qual das escolhas era a correta), e cinco sabores: <em>pollo </em>(frango), <em>maciza</em> (um tipo de carne desfiada), <em>cabeza</em> (cabeça mesmo), <em>surtido</em> (cabeça e maciza misturados) e <em>vegetables</em>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="267" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image.png?resize=580%2C267&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4152" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image.png?resize=1024%2C472&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image.png?resize=300%2C138&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image.png?resize=1536%2C709&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image.png?resize=1200%2C554&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image.png?w=1862&amp;ssl=1 1862w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image.png?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption>Meu pozole de cabeça, já meio comido</figcaption></figure>



<span id="more-4147"></span>



<p>Decidi pedir cabeça, encantado pela idéia que o menu não explicitava qual cabeça era, podendo realmente ser a cabeça de nossos inimigos que compusesse a receita. Porém, decidi pedi o surtido, que vinha também com a tal <em>maciza</em> &#8211; porque eu já havia comido um taco disso aí e era bom. Para ajudar a descer tudo, uma água de tamarindo (mas não precisava, já que era uma sopa).</p>



<p>As senhas de chamada correram rápido e em menos de meia hora fomos enfiados para dentro do grande salão cheio de típicos executivos mexicanos almoçando em meio ao horário de trabalho e garçons correndo. Dois funcionários terminavam de arrumar uma mesa apressadamente.</p>



<p>Tudo parecia abraçar o conceito de fast-food: o menu estava impresso debaixo de um tampão de vidro da mesa, assim o garçom não precisava se preocupar em trazer e recolher cardápios. Uma ficha de pedido era entregue com uma caneta e o próprio cliente marcava suas decisões alimentares nela. Tortilhas foram servidas com limão e, pela primeira vez no México, um espremedor de plástico acompanhava tudo, para que o cozinheiro não tivesse que gastar tempo espremendo nada. Os garçons corriam de um lado para o outro desesperados, provavelmente os únicos mexicanos a trabalhar sério em restaurantes de todo o país.</p>



<p>A comida e a bebida chegaram rápido. Espremi um limão em cima da sopa, e meio limão em minha água de tamarindo, por nenhum motivo além de demonstração de poder sobre os frutos. O pozole estava bem saboroso: picante, mas nem tanto. A carne desfiada estava mole e a cabeça (era muito evidente quando uma colherada vinha com um pedaço de cabeça, mesmo eu nunca tendo comido cabeça na minha vida) era do tipo de textura que eu esperava que uma cabeça fosse: uma espécie de cartilagem que era simultaneamente mole, mas oferecia uma certa resistência na mordida. Um gosto meio engordurado, que sabia bem com a picância da sopa, mas com uma consistência (na falta de palavra melhor) inusitada.</p>



<p>Com a mesma velocidade que fomos atendidos eu engoli minha sopa. A fila de espera do lado de fora é meio intimidadora e não convém passar tempo demais moscando no lugar, então pagamos e dei o fora daquele salão cheio de mexicanos que condenavam o turista de mãos limpas que não pertencia ao grupo.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Cantaritos el Güero</strong></h2>



<p>Cantaritos (1 litro)<br>220 Mex$ (algo em torno de R$61,35)</p>



<p>No pueblo mágico de Tequila, em Jalisco, México, a tequila é a grande estrela, obviamente. Com cerca de 150 destilarias na região (de acordo com o Google, eu fiz minha lição de casa), é possível fazer tours andando em ônibus no formato de barril, garrafa, copo ou até de agave.</p>



<p>A tequila é uma bebida de produção bem controlada: dentre todos os tipos existentes de agave, somente o <em>agave azul</em> pode virar tequila. Qualquer outra espécie da planta destilada vira mezcal (o que, na minha opinião pós-México, é melhor do que tequila).</p>



<p>Mas, ao contrário das festas que eu frequento no Brasil, onde eu simplesmente viro um shot atrás do outro com sal e limão até acordar no chão de alguma casa sem lembrar como cheguei lá, a forma mais comum de se consumir tequila em Jalisco é com um drinque composto por uma mistura de suco de laranja com suco de toranja, limões minúsculos espremidos com a raiva de um centrista votando no Brasil, sal jogado da forma mais despretensiosa possível, soda até encher o caneco e, é claro, tequila. O tal drinque se chama <em>cantarito</em> e o lugar mais tradicional para encher a cara disso é no Cantaritos el Güero, que oferece basicamente só a bebida.</p>



<p>Com uma variedade ofensiva de marcas de tequila a diversos preços, estão disponíveis cantaritos nos tamanhos: 500 ml, 1 litro, 7 litros, 14 litros e 21 litros. Porque esse pulo de 1 litro para 7 litros? Quem calculou esse avanço de fibonacci, gerando a progressão matemática [0,5-1-7-14-21] e julgou uma dinâmica de volumes adequada para vender drinques de tequila?</p>



<p>De qualquer forma, optamos pelos cantaritos de 1 litro (7 litros é realmente um abuso e a opção de 500ml deve ser exclusiva para abstêmios). Pegamos uma das diversas filas na entrada do estabelecimento onde entusiastas ansiosos por seus drinques aguardam eufóricos. Diversos barmans (todos homens, num exemplo gritante de micromachismo) trabalham incessantemente: atrás do balcão há 4 homens dedicados a fazer suco de laranja e toranja, que não pára de ser servido. No caso da opção jumbo (um balde de argila que comporta 21 litros), são derramadas três garrafas de tequila dentro do recipiente que já continha um saco de cinco quilos de gelo e duas jarras de suco. Na opção mais humilde escolhida, de apenas um litro, o atendente dosa o álcool usando um chifre de touro.</p>



<p>– Quer tequila em dobro? – perguntou o barman.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="438" height="948" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-4.png?resize=438%2C948&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4156" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-4.png?w=438&amp;ssl=1 438w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-4.png?resize=139%2C300&amp;ssl=1 139w" sizes="auto, (max-width: 438px) 100vw, 438px" /></figure>
</div>


<p>– Sim – respondeu minha amiga, com um brilho nos olhos.</p>



<p>Os copos de argila foram entregue. A borda é melada com uma espécie de geléia de pimenta e salpicada com sal de gusano. O copo é um mimo ao cliente; ele pode levar de recordação ou colocar para vender no Mercardo Livre. Mas, mais do que o fornecimento de copos, impressiona o consumo de tequila no local. Apesar de ser uma afirmação que eu não tenho como provar e que eu tirei do meu próprio rabo, me sinto bem seguro em afirmar que <em>El Güero</em> é o estabelecimento que mais vende tequila no mundo. As gigantescas caneconas de 21 litros poderiam ser vistas em diversas mesas.</p>



<p>E mesas não faltavam: o estabelecimento se expande por uma grande área aberta onde pesadas banquetas de troncos maciços de madeira e mesas artesanais se espalham debaixo de coberturas de palha. Diversas bandas tocam em cantos completamente aleatórios do espaço, por vezes tão próximas uma da outra que é possível, ouvir duas ao mesmo tempo, se for do agrado do cliente com FOMO mais atacado.</p>



<p>Não à toa, o espaço todo me remeteu aos biergartens de Munich, como o da Hofbrauhaus. A área é tão bem pensada que há até uma área designada para o borracho favorito gorfar, num nível de organização incongruente com o país em que ela está contida.</p>



<p>E sim, a bebida é boa. É tequila na terra da tequila, não poderia ser diferente.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Dorilocos de rua (em Chapultepec)</strong></h2>



<p>Ricos Dorilocos<br>Total: 20 Mex$ (algo em torno de R$5,50)</p>



<p>Outra iguaria da culinária mexicana que provavelmente descende dos tempos dos maias é o Dorilocos. Pode parecer nada mais do que um pacote de Doritos aberto preenchido com lixo até o topo e é isso mesmo, não vamos enganar ninguém.</p>



<p>Decidi ir atrás de uma das dezenas de barracas do parque de Chapultepec. Longe dos cartéis organizados dos camelôs paulistas e dos traficantes colombianos, os preços variam. Como eu não prezava pela qualidade, optei pela opção mais barata possível. Dorilocos poderiam ser feitos em sacos de salgadinho tamanho pequeno ou grande (o dobro do preço na opção maior). Optei pela opção pequena, ainda estava com o bucho cheio de guacamole caseiro.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="267" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-1.png?resize=580%2C267&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4153" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-1.png?resize=1024%2C472&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-1.png?resize=300%2C138&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-1.png?resize=1536%2C709&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-1.png?resize=1200%2C554&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-1.png?w=1862&amp;ssl=1 1862w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-1.png?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption>Ricos Dorilocos</figcaption></figure>



<p>A senhora prontamente abriu um pacote de Doritos e começou a lotar de coisa, como um carioca recheando um cachorro-quente: pepino, cenoura ralada, amendoim, e pedaços de gordura cortados à la juliana (os tais cueritos).</p>



<p>– Quer molho? – perguntou ela.</p>



<p>– É muito picante? – perguntei, calejado pela experiência de um mês no México.</p>



<p>– Não. – mentiu ela com a cabeça, só depois de já ter enchido o saco de salgadinhos de molho. Por fim, ela fincou um garfo em cima de tudo, esticou a embalagem ao meu alcance e sacou o dinheiro da minha mão com uma destreza ímpar.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="267" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-2.png?resize=580%2C267&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4154" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-2.png?resize=1024%2C472&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-2.png?resize=300%2C138&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-2.png?resize=1536%2C709&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-2.png?resize=1200%2C554&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-2.png?w=1862&amp;ssl=1 1862w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-2.png?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption>O molho na garrafa de Gatorade</figcaption></figure>



<p>É difícil chegar ao Doritos. Como a embalagem de salgadinho é aberta e depois preenchida, a parte crocante fica toda embaixo. O cuerito é a pior parte da iguaria: é uma gordura fria e elástica, remetendo minha vida ao episódio de Friends onde Ross é desafiado a beber um copo de gordura para provar seu amor por Rachel, mas sem a Jennifer Arniston para me impedir.</p>



<p>O molho não é tão picante quanto o padrão mexicano, mas ainda pode pegar desprevenido o viajante com paladar mais infantil. Conforme vai se avançando na degustação, vai se encontrando Doritos levemente encharcados de molho e o desafio de se caçar os salgadinhos com o garfinho de plástico é uma experiência quase lúdica.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="773" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-3.png?resize=580%2C773&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4155" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-3.png?w=711&amp;ssl=1 711w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2023/05/image-3.png?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>
</div>


<p>Ao final Dorilocos não é uma parada obrigatória para todo viajante que chega na Ciudad de Mexico, mas é (surpreendetemente) uma das coisas menos nojentas que a cidade pode oferecer. Dificilmente uma comida com essa configuração funcionaria em qualquer outro lugar do mundo, então não vou jogar para frente minha idéia de vender MaluCheetos no Parque do Ibirapuera, metendo queijo ralado, salsicha e requeijão num pacote de Cheetos.</p>



<div class="more_info">
<h3>+ MAIS +</h3>
<h4>Outros roteiros:</h4>
<p>

<a title="Roteiro da baixa gastronomia - edição África" href="https://blog.paulovelho.com/roteiro-da-baixa-gastronomia-edicao-africa/">Roteiro da baixa gastronomia &#8211; edição África</a><br>

<a title="Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #3" href="http://blog.paulovelho.com.br/roteiro-da-baixa-gastronomia-de-sao-paulo-3/">Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #3</a><br>

<a title="Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #2" href="http://blog.paulovelho.com.br/roteiro-da-baixa-gastronomia-de-sao-paulo-2/">Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #2</a><br>

<a title="Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #1" href="http://blog.paulovelho.com.br/roteiro-da-baixa-gastronomia-de-sao-paulo-1/">Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #1</a>

</p>
<p>Se você tem alguma sugestão de lugar ruim e barato, deixe aí nos comentários que ela será levada em conta.</p>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://blog.paulovelho.com/guia-da-baixa-gastronomia-edicao-mexico/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">4147</post-id>	</item>
		<item>
		<title>O Trem Tazara</title>
		<link>https://blog.paulovelho.com/o-trem-tazara/</link>
					<comments>https://blog.paulovelho.com/o-trem-tazara/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Velho]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Sep 2022 10:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://blog.paulovelho.com.br/?p=4112</guid>

					<description><![CDATA[O continente esquecido Capítulo do livro &#8220;O Continente Esquecido&#8221;, com relatos organizados de uma viagem que fiz pela África em 2014. [Comprar na Amazon] Se alguém algum dia disser que é uma boa idéia cruzar o leste africano de trem, duvide. Viajar pelo continente por terra sempre é um desafio e uma aventura. Os ônibus [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="long_read_container">
<div class="long_read">
<p><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2018/10/marketing2-lk.jpg?w=580&#038;ssl=1" alt="" class="square-img"></p>
<div class="long_read__desc">
<h3>O continente esquecido</h3>
<p>Capítulo do livro &#8220;O Continente Esquecido&#8221;, com relatos organizados de uma viagem que fiz pela África em 2014.</p>
<p>[<a href="https://www.amazon.com.br/Continente-Esquecido-Cadernos-expedicion%C3%A1rios-viagem-ebook/dp/B07JZWRMXC">Comprar na Amazon</a>]
</div>
</div>
</div>



<p>Se alguém algum dia disser que é uma boa idéia cruzar o leste africano de trem, duvide.</p>



<p>Viajar pelo continente por terra sempre é um desafio e uma aventura. Os ônibus são confusos, as linhas às vezes simplesmente não existem, os horários são meramente fictícios, sem contar o calor africano e o desconforto dos veículos mal-conservados. As raras opções de trem não parecem ser diferentes, a julgar pela minha ineficiente aventura na Tazara Railway, ferrovia que liga uma das cidades mais importantes da Tanzânia com o absoluto meio do nada na Zâmbia. Os vagões têm décadas de uso, os trens quebram com freqüência e os atrasos são praticamente uma certeza. Meu trem, por exemplo, tinha a partida agendada para as dez da manhã, mas só saiu da estação ao meio dia, totalizando um atraso de vinte e seis horas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0863.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0863-1024x576.jpeg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4114" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0863.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0863.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0863.jpeg?resize=1536%2C863&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0863.jpeg?resize=1200%2C674&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0863.jpeg?resize=1980%2C1113&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0863.jpeg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0863.jpeg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>O mapa, em chinês, do trem Tazara</figcaption></figure>



<p>Para meus propósitos, era o roteiro ideal: partir das praias paradisíacas e savanas lotadas de animais selvagens da Tanzânia em direção ao meu próximo destino africano, as maravilhosas quedas d&#8217;água de Victoria Falls, no sul da Zâmbia, na fronteira com o Zimbabwe. Porém, as informações sobre o trem são praticamente nulas e nem mesmo algumas agências turísticas da Tanzânia pareciam ter conhecimento da existência de tal possibilidade de viagem. Em alguns momentos, cheguei a pensar que a linha não existia e era uma criação de minha mente perturbada.</p>



<span id="more-4112"></span>



<p>A Tazara Railway existe sim. A idéia de ligar o interior da Zâmbia com um um porto próximo é antiga, como uma alternativa às rotas de comércio existentes pela Rodésia (atual Zimbabwe) e Moçambique, principalmente após a independência da Zâmbia, quando as rotas que passavam pelos países que ainda pertenciam ao Império Britânico começaram a ser ameaçadas. Assim, logo depois da Segunda Guerra Mundial, surgiu esse projeto milionário. Ele foi por duas vezes reprovado, em 1952 e 1964, por ser considerado economicamente inviável. Os chineses, porém, apareceram para salvar a história. Através de um engenhoso acordo comercial com Tanzânia e Zâmbia, eles patrocinaram e executaram por conta própria (talvez por conhecimento do jeitinho africano) a construção de 1860km de ferrovia ligando o porto de Dar Es Salaam à cidade de New Kapiri Mposhi, no meio da Zâmbia. É difícil entender porque eles decidiram colocar o final zambiano da linha num local ermo e abandonado e não estendê-lo por mais 200km até a capital Lusaka, no que transformaria a ferrovia num elo entre duas importantes cidades da África.&nbsp;</p>



<p>Em 1967, foi firmado um acordo em Beijing entre os presidentes da China, Tanzânia e Zâmbia para o projeto. As obras começaram três anos depois, em 1970, com grande parte do equipamento e mão-de-obra chinesa: mais de 50.000 chineses passaram pelo continente durante os anos de planejamento e execução da construção. No ano de 1972, no ápice do trabalho na linha, haviam mais de 13.000 operários chineses e mais de 38.000 operários africanos trabalhando simultaneamente. A força operária oriental rendeu resultados: a ferrovia ficou pronta dois anos antes do previsto e as operações começaram em outubro de 1975, provavelmente no único momento que a operação Tazara trabalhou adiantada. Nos anos de funcionamento sob controle africano, certamente os atrasos acumulados já compensaram com folga esses anos economizados pelos chineses.</p>



<p><em><strong>Dar Es Salaam</strong></em></p>



<p>Eram sete e meia da manhã de uma sexta-feira quando peguei um tuk-tuk em direção à estação Tazara. Locomover-se na África é sempre uma aventura, mesmo que seja dentro das grandes cidades, e Dar Es Salaam não é diferente: o transporte público se baseia em &#8220;<em>dalla-dallas</em>&#8220;, vans coloridas que trafegam quase sempre lotadas, com os passageiros embarcando e desembarcando delas em movimento e um cobrador pendurado na porta chamando por mais clientes. Para quem quiser um pouco mais de conforto, há os táxis, e um turista branco caminhando pelas ruas é visto como uma grande oportunidade de uma viagem a custo abusivo, por isso os taxistas são insistentes. Alternativas mais baratas (o que não quer dizer que o turista não será explorado, apenas que ele gastará menos) são as motos &#8211; que levam os passageiros sem capacete e sem condições mínimas de segurança, entrando na contra-mão, subindo nas calçadas e canteiros de obras &#8211; e os tuc-tucs, uma espécie de scooter de três rodas em que o passageiro tem um mínimo de conforto, por viajar sentado em uma pequena cabine.</p>



<p>Carregava comigo um mochilão de viagem de 12 quilos, uma mochila e uma sacola com suprimentos (petiscos e garrafas de água) que deveriam durar pelo menos três dias de viagem. Para percorrer os quase dez quilômetros de meu hotel até a estação foram gastos 15000 xelims tanzanianos (algo em torno de R$23,00 na época), pagos no meio do caminho, quando o motorista parou no posto de gasolina e pediu para adiantar o pagamento para que ele tivesse dinheiro para abastecer o tanque.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0866.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0866-1024x576.jpeg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4116" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0866.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0866.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0866.jpeg?resize=1536%2C863&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0866.jpeg?resize=1200%2C674&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0866.jpeg?resize=1980%2C1113&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0866.jpeg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0866.jpeg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>A imponente estação de Tazara</figcaption></figure>



<p>Faltavam ainda dez minutos para as oito da manhã quando eu cheguei na bela, imponente e descuidada estação Tazara e o lugar já fervilhava de gente. Famílias chegavam, homens de todas as idades, mulheres com vestidos coloridos, levando malas na cabeça e crianças sustentadas por lenços, carregadas nas costas. Um guarda-volumes havia sido convertido em um mini-mercado e vendia café e bolo de laranja aos poucos passageiros que acreditavam na pontualidade dos trens africanos. A recomendação era chegar na estação às 8h da manhã para fazer check-in antes das 9h. A partida do trem estava prevista para as 10h30.</p>



<p>Vasculhei minha carteira por meu ticket que havia sido comprado duas semanas antes. Era um pequeno e simples pedaço de cartolina azul, de 3cmx6cm, tão pequeno e frágil que ficou habilmente escondido em um lugar que não pudesse ser danificado. O custo de minha passagem de segunda classe havia sido de 70800 xelins tanzanianos, algo em torno de R$105,00. A segunda classe é o tipo de viagem mais barata que pode ser feita em leito, com seis camas por cabine, conforto que eu achei minimamente necessário, mesmo viajando com um limitadíssimo orçamento. Com o ticket em mãos, entrei na fila do guichê para tomar conhecimento dos próximos passos que deveria tomar. Na minha frente, uma canadense e uma japonesa compravam seus bilhetes de última hora, contrariando a idéia que haviam me passado que os tickets esgotavam com antecedência.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0864.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0864-1024x576.jpeg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4115" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0864.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0864.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0864.jpeg?resize=1536%2C863&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0864.jpeg?resize=1200%2C674&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0864.jpeg?resize=1980%2C1113&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0864.jpeg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0864.jpeg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>Meu ticket era isso tudo. A data de minha viagem: 17/10/2014.</figcaption></figure>



<p>Minha apreensão estava, na verdade, na chegada em New Kapiri Mposhi, ponto final da linha. Eu temia chegar lá quando já estivesse escuro e não encontrar transporte até Lusaka e nem hotel para passar a noite na minúscula cidade zambiana. Por isso, depois de preencher meu nome e nacionalidade num caderno que eu percebi que funcionava como controle de bordo, perguntei logo à atendente:</p>



<p>&#8211; Qual a previsão de chegada em New Kaipiri Mposhi?</p>



<p>&#8211; Domingo à tarde. &#8211; respondeu ela &#8211; O trem está atrasado. Ele só sai às 5:30 da noite.</p>



<p>A África é uma terra de atrasos. Eles fazem parte da cultura local como o fast food faz parte da americana, como o chá faz parte da inglesa e como reclamar faz parte da brasileira. No curto texto sobre a linha férrea, a recomendação do guia Lonely Planet que eu carregava comigo era de reservar de 3 a 5 dias para a viagem que deveria durar de cerca de 40 horas. Um atraso de sete horas, portanto, chegava a ser previsível.</p>



<p>Tendo o conhecimento que eu perderia a tarde esperando na estação, subi ao salão de espera através de uma comprida escadaria que se dividia. No topo das escadas, de frente ao saguão, um quadro mostrando um mapa da ferrovia dominava uma parede, com legendas em chinês em cada parada. Diversas cadeiras marrons enfileiravam-se pelo salão. Na frente, próximo à entrada, um mini-mercado improvisado contava com duas geladeiras e estendia caixas de refrigerante delimitando seu espaço. Com o decorrer das horas, boa parte daqueles refrescos seriam consumidos por conta do calor africano que fazia no dia. Os banheiros estavam em condições precárias, sujos e sem iluminação, com os vasos e mictórios depredados e um grande tambor azul de água que eu prefiro não imaginar para que servia. Uma boa dúzia de pessoas entediadas &#8211; a imensa maioria negras &#8211; já ocupavam as cadeiras e acomodavam-se no chão, próximas às paredes, estendendo panos e toalhas como se estivessem em um piquenique no parque, com crianças brincando e restos de comida espalhados ao redor. Uma porta na parede oposta à entrada da estação indicava o lounge da primeira classe e, como não havia controle nenhum de acesso, depois de um tempo me esgueirei para dentro da sala, apesar do meu ticket ser para segunda classe. Não haviam luxos característicos de uma primeira classe: era uma sala pequena, de aproximadamente 25m², de paredes amarelas, bancos porcamente estofados, mesas de madeira baixas, uma bancada de azulejos de um bar desativado e pedaços do forro do teto despencando. Do lado oposto à porta, era possível ver as duas plataformas e o final dos trilhos, um cenário desolador sem nenhum trem estacionado. A primeira classe também tinha o próprio banheiro, com nossa própria família de destemidas baratas lá habitando.</p>



<p>No &#8220;lounge&#8221;, só haviam turistas brancos. Um casal de alemães curtia seu segundo dia na África, após terem sido roubados em um táxi no dia anterior. A canadense que estava na minha frente no guichê havia reservado uma cabine toda de primeira classe só pra ela e uma amiga. A japonesa também estava lá, assim como dois outros orientais entretidos com seus iPads. Havia ainda outro sueco que, assim como eu, estava claramente há muito tempo na África: possuía ele também uma grande barba tão suja quanto o resto de suas coisas e seu cabelo desgrenhado apresentava indícios de um dia ter sido loiro. Também ele carregava uma sacola de supermercado com o que pareciam ser mantimentos para a viagem. Completavam o time três amigos holandeses que faziam uma volta ao mundo, sendo um casal em lua-de-mel e o melhor amigo deles, que merecia receber o prêmio de vela do século. Era ali que eu imaginava que iria esperar até a partida do trem, às 5h30.</p>



<p>Havia um pequeno detalhe: a cultura suaíli, predominante na Tanzânia, não conta as horas da mesma forma que estamos acostumados. A contagem do tempo é feita a partir do nascer e do pôr do Sol, às 6:00 e às 18:00. Então, quando um tanzaniano se refere às 2:00 da manhã, ele quer dizer 8:00 da manhã. E, quando eu fui informado que o trem sairia às 5:30 da noite, na verdade, a atendente queria dizer 23:30. Foi assim, conversando com um dos turistas ali, que eu descobri que o trem, na verdade, não sairia no final da tarde, mas com outras seis horas de atraso, no final da noite.</p>



<p>Passei algumas horas revezando entre conversar com algum dos novos amigos de espera daquela sala ou estar absorto em alguma leitura de qualquer coisa que eu carregasse em meu Kindle. Eram 16:30 quando uma voz ecoou em um inglês tão enrolado que o máximo que conseguimos foi captar palavras aleatórias, algo como um novo atraso. Nós, presentes no lounge da primeira classe, nos entreolhamos. Um holandês e a canadense, ligeiramente mais proativos, decidiram sair para procurar mais informações. Eles voltaram com sorrisos desconcertados no rosto: havia um novo atraso e o trem só partiria no dia seguinte, às 9 da manhã. A reação dos presentes ao ouvir essa frase não era de irritação ou descrença, mas sim uma risada nervosa, de obviedade.</p>



<p>&#8211; Eles informaram o motivo do atraso? &#8211; perguntou, inocentemente, um dos presentes no salão.</p>



<p>&#8211; África. &#8211; respondeu o holandês, encolhendo os ombros e levantando os braços, com as mãos espalmadas, como se estivesse falando das travessuras de um conhecido garoto peralta. &#8220;África&#8221; era o motivo do caos, do atraso, da desorganização, da burocracia. Não precisávamos de explicações mais detalhadas. Assim era a África, todos estávamos viajando por lá e devíamos saber disso.</p>



<p>&#8211; Será que podemos dormir por aqui? &#8211; perguntou o sueco, levantando uma questão que boa parte dos presentes gostaria de saber a resposta.&nbsp;</p>



<p>Sim, podíamos. A estação não fecharia e a maioria das pessoas que esperava no saguão de terceira classe também ficaria por ali mesmo. &#8220;O único problema são os mosquitos&#8221;, havia dito a atendente do guichê quando nos deu a resposta. A canadense e a japonesa não ficaram. O restante decidiu se unir e se organizar: nos reunimos e nos estruturamos. Algumas pessoas precavidas viajavam com redes de mosquito (o que é uma boa recomendação para qualquer mochileiro que vá em algum ponto da África com alta incidência de malária). Iríamos dividir as poucas redes que tínhamos para tentar proteger a todos. Juntamos dinheiro e eu fui parte do time que iria até o mercado mais próximo, a 2km de distância, para comprar mantimentos para todos (pizza, cerveja e salgadinhos). Quando voltamos, terminamos de organizar nossas &#8220;camas&#8221;, que eram bancos colocados juntos em disposições quadradas para que a rede de mosquitos protegesse a todos. Os japoneses montaram uma barraca no canto do lounge. Tudo foi feito às pressas, antes que a luz do Sol se esvaísse e o salão ficasse às escuras. Em poucos minutos, o lounge da primeira classe havia criado sua própria sociedade de sobrevivência. Se tivéssemos uma semana de atraso, provavelmente, teríamos uma organização política presidenciável, talvez com moeda própria e consertaríamos os buracos do teto.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0870.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0870-1024x576.jpeg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4117" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0870.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0870.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0870.jpeg?resize=1536%2C863&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0870.jpeg?resize=1200%2C674&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0870.jpeg?resize=1980%2C1113&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0870.jpeg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0870.jpeg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>Nossas camas estrategicamente colocadas com redes anti-mosquitos que se provaram inúteis.</figcaption></figure>



<p>No salão principal, a terceira classe dormia desconfortavelmente. Dezenas de crianças estavam deitadas no chão, em cadeiras, em qualquer lugar. Restos de comida e lixo já se espalhavam por todos os cantos do salão. Inconscientemente, havíamos gerado um pequeno <em>apartheid</em>: estrangeiros brancos e orientais no lounge junto com um intruso latino de segunda classe. Lá fora, somente negros. Tal qual no regime sul africano, a única limitação que separava as raças era psicológica: não havia nada restringindo a entrada da terceira classe em nossa sala, a não ser uma placa indicativa que aquele era um lounge de primeira classe. Mesmo assim, a separação persistia.</p>



<p>No meio da noite, novos habitantes brancos chegaram em nosso pequeno reinado caucasiano: uma bonita garota austríaca e um grupo de nove cristãos que estavam em uma cruzada pelo mundo (oito sul-africanos e um brasileiro). Acomodamos todos como foi possível, como se estivéssemos recebendo novos refugiados. Compartilhamos a cerveja e os salgadinhos que restavam e novas redes de mosquito foram habilmente estendidas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0871.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="575" height="1024" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0871-575x1024.jpeg?resize=575%2C1024" alt="" class="wp-image-4118" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0871.jpeg?resize=575%2C1024&amp;ssl=1 575w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0871.jpeg?resize=169%2C300&amp;ssl=1 169w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0871.jpeg?resize=863%2C1536&amp;ssl=1 863w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0871.jpeg?w=1070&amp;ssl=1 1070w" sizes="auto, (max-width: 575px) 100vw, 575px" /></a><figcaption>A ceia dos campeões</figcaption></figure>



<p>Nos espalhamos por nossos bancos e dormimos sonos conturbados, incomodados por picadas de mosquitos. As redes não eram muito eficazes, uma vez que era possível ver mosquitos que voavam no interior delas, como moscas de padaria dentro de vitrines de salgados.</p>



<p>Por volta das 6h, acordamos com a chegada do trem. Quando a luz do sol finalmente iluminou nossa pequena nação, foi possível enxergar nossa bagunça: mesas empilhavam-se para que pessoas dormissem no chão e latas de cerveja empilhavam-se em cima delas. Os mosquitos estavam tão empapuçados com nosso sangue que voavam baixo, rente ao chão, tão gordos que não conseguiam ir mais alto.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0873.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0873-1024x576.jpeg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4119" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0873.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0873.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0873.jpeg?resize=1536%2C863&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0873.jpeg?resize=1200%2C674&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0873.jpeg?resize=1980%2C1113&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0873.jpeg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0873.jpeg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>Nossa nação caucasiana acorda para mais um dia</figcaption></figure>



<p>Às 8:00, que seria o horário de embarque, recebemos a informação de que o trem só sairia ao meio-dia. &#8220;Dessa vez é verdade&#8221;, disse a atendente, deixando subentendido que todas as outras vezes eles sabiam que era mentira. De qualquer forma, às 11h, o embarque começou, ainda com certa descrença dos passageiros se o trem sairia mesmo.</p>



<p><strong>O primeiro dia de viagem</strong></p>



<p>A linha Tazara pode ser considerada um museu em funcionamento. A construção dela data da década de 70. É quase certo que os vagões ainda sejam os originais. Os painéis de comando estão em chinês e é possível ver claramente ideogramas nas portas e peças de sustentação dos trilhos. O trem estava em um estado precário. Os banheiros eram nada mais do que um buraco no chão onde os dejetos eram jogados diretamente nos trilhos. A terceira classe não possuía leitos, eram simplesmente bancos nos quais os passageiros se espremiam, provavelmente sem limite de lotação. O couro marrom de boa parte dos bancos já havia se deteriorado e alguns deles não passavam de um pedaço nu de espuma. Comparado a isso, a primeira classe realmente parecia uma coisa luxuosa, com quatro leitos por cabine e cobertores para todos. A única diferença da primeira para a segunda classe era uma espuma levemente mais grossa nas camas e a quantidade de leitos por cabine, de quatro para seis. Quando eu cheguei em minha cabine, porém, só havia um outro passageiro: um tanzaniano, negro, baixinho e de testa proeminente, que só falava suaíli e usava uma camisa da seleção de rugby do país. Acomodei-me na cama oposta à dele. A janela só mantinha-se aberta por conta de um pedaço de madeira em que ela se apoiava, uma vez que os fechos também estavam quebrados.</p>



<p>Assim que o trem finalmente começou a andar, peguei meus suprimentos e me servi um almoço baseado em um pãozinho e suco de lichia de caixa. Ofereci a meu novo companheiro de cabine um dos meus pães, e ele aceitou a oferta &#8211; porém ele guardou o pão na mochila. Horas mais tarde, abri um pacote de salgadinhos, o qual também dividimos. Ele não falava inglês, então nossa comunicação era parca.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0881.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0881-1024x576.jpeg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4120" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0881.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0881.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0881.jpeg?resize=1536%2C863&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0881.jpeg?resize=1200%2C674&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0881.jpeg?resize=1980%2C1113&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0881.jpeg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0881.jpeg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>Tazara atravessando a África</figcaption></figure>



<p>O trem viajava a uma velocidade baixa e fez diversas paradas em algumas estações minúsculas e descuidadas. A cada parada, era possível ver da janela um exército de vendedores, principalmente mulheres e crianças, atacando o trem com baldes cheios de garrafas de água e refigerantes, aros de ventiladores servindo de suporte a salgadinhos, tigelas sendo carregadas na cabeça de mulheres, cheias de pimentões, tomates, cenouras, pães assados, bandejas com pedaços de frango ou bananas &#8211; comidas de higiene duvidosa que eram servidas em jornais.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0903.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0903-1024x576.jpeg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4125" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0903.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0903.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0903.jpeg?resize=1536%2C863&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0903.jpeg?resize=1200%2C674&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0903.jpeg?resize=1980%2C1113&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0903.jpeg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0903.jpeg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>A pobreza tipicamente africana</figcaption></figure>



<p>Passei boa parte do dia simplesmente admirando a paisagem: o trem passava por pequenas cidades, margeando estradas, atravessando savanas típicas africanas, florestas e vilarejos. Mostrava também parte da pobreza africana, passando perto de vilas deterioradas, com crianças desnutridas acenando de casas de barro, cruzava dezenas de lixões e criava também seus próprios lixões conforme ia seguindo. Os africanos em geral não tem o menor cuidado com o próprio lixo, simplesmente atirando todo tipo de detritos pela janela. Durante a viagem, vi voar das janelas de nosso trem um saco de cenouras, cascas de abacate, papéis, sacolas, restos de comida, dezenas de garrafas vazias de água.</p>



<p>A sujeira gerada preocupava principalmente pelo fato do trem atravessar um importante parque nacional da Tanzânia, que é um dos destaques da viagem.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0882.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="575" height="1024" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0882-575x1024.jpeg?resize=575%2C1024" alt="" class="wp-image-4121" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0882.jpeg?resize=575%2C1024&amp;ssl=1 575w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0882.jpeg?resize=169%2C300&amp;ssl=1 169w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0882.jpeg?resize=863%2C1536&amp;ssl=1 863w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0882.jpeg?w=1134&amp;ssl=1 1134w" sizes="auto, (max-width: 575px) 100vw, 575px" /></a><figcaption>Lixo e catástrofes</figcaption></figure>



<p>Enquanto atravessávamos o Parque Nacional de Udzungwa, meu companheiro de cabine entrou trazendo consigo duas garrafas de um suco de mix de frutas, e deu uma delas para mim, como retribuição pela comida compartilhada. Eu aceitei e ficamos os dois sentados, bebendo nossos sucos em silêncio, enquanto admirávamos o parque.</p>



<p>&#8220;Zebras!&#8221;, disse eu, apontando uma manada delas quando a vi. &#8220;Zebras?&#8221; perguntou ele, e adicionou logo depois, apontando o mesmo animal: &#8220;<em>Punda milia</em>.&#8221; eu já tinha ouvido essa palavra e logo entendi que ele estava me ensinando o nome em suaíli. Eu repeti desajeitadamente o nome. E ele soltou um encabulado &#8220;zebras&#8221;. Estávamos desenvolvendo finalmente alguma comunicação.</p>



<p>&#8220;Elefantes!&#8221; disse eu, algum tempo depois, apontando três grandes elefantes marrons que andavam junto com o trem. &#8220;Elefantes. <em>Tembo</em>.&#8221;, repetiu ele, e eu repeti, depois, rindo e curtindo o momento. Seguimos pelo parque, apontando animais e dizendo o nome deles, enquanto bebíamos o suco compartilhado, numa espécie de safari de trem, educativo e multicultural.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0901-scaled.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0901-1024x576.jpeg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4124" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0901-scaled.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0901-scaled.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0901-scaled.jpeg?resize=1536%2C863&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0901-scaled.jpeg?resize=2048%2C1151&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0901-scaled.jpeg?resize=1200%2C675&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0901-scaled.jpeg?resize=1980%2C1113&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0901-scaled.jpeg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>Savanas e mais savanas</figcaption></figure>



<p><strong>O segundo dia de viagem</strong></p>



<p>A noite foi sacolejante, mas tranqüila. Deitei-me e acomodei-me em cima de minha mochila, também com a intenção de protegê-la e tive sonhos inquietantes com terremotos &#8211; culpa óbvia do incessante movimento do trem.</p>



<p>Quando acordei, por volta das 7h, havia um novo grupo de negros em minha cabine, um deles testando a tomada para carregar o celular e reclamando da inexistência da eletricidade. O meu amigo do dia anterior já havia partido e estes agora eram dois africanos mais velhos, um que parecia uma versão sem graça do Bill Cosby e o outro, que falava um pouco de inglês, era praticamente um sósia dos últimos anos vividos do craque Eusébio, estrela da seleção portuguesa de 1966.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0907.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0907-1024x576.jpeg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4122" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0907.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0907.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0907.jpeg?resize=1536%2C863&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0907.jpeg?resize=1200%2C674&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0907.jpeg?resize=1980%2C1113&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0907.jpeg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0907.jpeg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a></figure>



<p>Às 8:45 da manhã, o trem parou de novo. Não parecia haver uma estação próxima, então o fato dele ficar parado por meia hora era estranho. Funcionários pareciam estar trabalhando nas engrenagens do vagão imediatamente à nossa frente. Meu colega de cabine parecido com o Eusébio desceu e passou alguns minutos conversando com os técnicos. Quando ele voltou, o trem recomeçou a andar, depois de uma hora parado.</p>



<p>&#8211; Os freios do vagão da frente estavam tão desgastados que estavam quase caindo. &#8211; explicou ele.</p>



<p>&#8211; Ah. E eles arrumaram? &#8211; perguntei, inocentemente.</p>



<p>&#8211; Não. Removeram os freios.</p>



<p>Por alguns minutos fiquei me perguntando se era melhor estar em um vagão sem freios ou com os freios quebrados. Independente do problema, às 16h o trem chegou inteiro (na medida do possível) no último ponto da Tanzânia, em Mbeya. A entrada na Zâmbia iria requerer, além da típica burocracia de fronteiras africana, uma troca de trem para percorrer o resto da viagem. Com um pequeno problema: o trem não estava lá. E não iria estar.</p>



<p><strong>A Fronteira</strong></p>



<p>Em agosto de 2014, o controle de operação dos trens, que era centralizado por toda linha, foi dividido. As autoridades dos dois países já trocavam acusações em relação à linha que deveria ser um marco da amizade e comércio entre eles. A Tanzânia dizia que foi um comum acordo dividir a linha, a Zâmbia dizia que não tinha conhecimento da divisão, mas estaria preparada para assumir o seu lado, a China dizia &#8220;não briguem, crianças, eu ajudo vocês a cuidar do Ferrorama&#8221;, mas não adiantou e hoje o controle da Tazara é dividido entre os países, cada um cuidando do seu lado.</p>



<p>Desde então, os passageiros que desejam percorrer o caminho todo deveriam descer na estação de Nakonde (a primeira do lado da Zâmbia), trocar de trem e seguir viagem até New Kapiri Mposhi em um novo trem, teoricamente idêntico ao outro. É o tipo de burocracia sem sentido que a África adora e presenteia seus habitantes e viajantes com freqüência.&nbsp;</p>



<p>Mas o trem que deveria nos esperar na estação de Nakonde não estaria lá. As informações eram desencontradas, mas um tanzaniano carregando imensas sacolas, que havíamos conhecido na estação de Dar Es Salaam e que fazia essa viagem com certa freqüência disse que o trem zambiano já havia partido, que eles não poderiam esperar mais de 24 horas pelo outro trem. De acordo com ele, a administração da Zâmbia é um pouco mais organizada e pontual e ter que lidar com o caos tanzaniano foi um dos motivos da separação das linhas.</p>



<p>Assim, nosso trem simplesmente se recusou a entrar na Zâmbia, parando na última estação possível: Mbeya. Ali também era o ponto final da maioria dos antigos habitantes de minha pequena nação do lounge da primeira classe: depois das desventuras na estação Tazara, eles haviam decidido viajar juntos, descendo pela fronteira tanzaniana até o Malawi. Me despedi deles e os vi partindo em grupo para o centro da cidade, onde iriam passar a noite, já que eles não queriam chegar na fronteira com o Malawi quando já estivesse escuro. Por um momento, senti inveja e vontade de esquecer Victoria Falls e simplesmente mudar novamente meus planos de viagem para ir com eles, mas meu tempo na África era curto e eu tinha assuntos a tratar no Zimbabwe.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0914-scaled.jpeg" rel="lightbox[4112]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0914-1024x576.jpeg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4123" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0914-scaled.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0914-scaled.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0914-scaled.jpeg?resize=1536%2C863&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0914-scaled.jpeg?resize=2048%2C1151&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0914-scaled.jpeg?resize=1200%2C675&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0914-scaled.jpeg?resize=1980%2C1113&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/09/IMG_0914-scaled.jpeg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>Estação de Mbeya, meu inesperado ponto final</figcaption></figure>



<p>Pelo nosso contratempo, parte do valor dos tickets foram reembolsado. A mim, deram de volta 40 mil xelins tanzanianos (quase R$60), um pouco mais da metade do ticket; imagino que eles acharam que eu era um viajante de primeira classe e me deram um reembolso equivalente. Também nos foi informado que um ônibus estava sendo providenciado para nos levar até a fronteira, de onde teríamos que tomar nosso próprio caminho para onde quer que fosse. Era um domingo à tarde e eu estava tão amargurado que desejei profundamente estar em casa assistindo Faustão.</p>



<p>Partilhando as dificuldades, haviam a canadense e a amiga, uma chinesa, um japonês, um zambiano que também viajava em primeira classe transportando mercadorias e uns seis ou sete negros de terceira classe, incluindo uma criança com sintomas de malária. O nosso suposto ônibus chegou: era, na verdade nada mais que um Dalla-dalla tanzaniano, colorido e minúsculo. Nos apertamos na lotação, com nossa bagagem ocupando boa parte do espaço, incluindo mochilas em nossos colos. O motorista dirigia como um motoboy de São Paulo e os freios do veículo exalavam um forte cheiro de queimado. Não só isso, como eles também paravam o carro com freqüência para tentar angariar novos passageiros, o que nos atrasava demais e comecei a ser invadido pelo medo de não chegarmos na fronteira antes do anoitecer.</p>



<p>Já havia mais de uma hora de viagem e o sol estava sumindo no horizonte quando o cobrador veio nos pedir o pagamento da passagem. Como assim? Todos nós achávamos que aquele veículo tinha sido disponibilizado pela Tazara e estava já pago. Além de não estar pago, ele não atravessaria a fronteira: nos deixaria na entrada da alfândega e daria meia volta, nos abandonando no meio da noite na entrada da Zâmbia. Uma discussão se instaurou na lotação: aquilo não era o que tinham nos dito pelas autoridades da Tazara em Mbeya. E não poderíamos ser largados no meio do nada. A canadense telefonava fervorosamente para tentar contactar um conhecido que morava em Nakonde, para ver se ele podia resgatá-la. O japonês estava completamente perdido, gritava &#8220;We no Pay!&#8221;. A criança com malária, obviamente, vomitou. A chinesa, o outro zambiano e eu tentávamos buscar alguma solução. No final, acertamos um preço para os passageiros, incluindo o cruzamento da fronteira e a entrada na cidade de Nakonde, para que não fôssemos abandonados no meio do nada.</p>



<p>Eram mais de 20h quando a lotação chegou na fronteira. O motorista já estava impaciente e tentou nos apressar o máximo possível para que fizéssemos logo todos os extensos trâmites burocráticos característico das alfândegas africanas. Dentro do escritório, os guardas federais pareciam bastante entretidos com a televisão, que exibia uma versão zambiana do Big Brother e, por isso, demoraram um pouco mais de tempo para a emissão do meu visto. Fui o último a sair do prédio, ainda a tempo de ver nossa lotação partindo sem mim. Num arroubo de desespero, lembrei da minha mochila que havia ficado lá dentro e, quando ia sair correndo atrás do veículo, vi a chinesa me chamando, com minha mochila nas mãos.</p>



<p>&#8211; Peguei suas coisas! &#8211; disse ela &#8211; O amigo da canadense mora aqui na cidade e vai nos levar em algum lugar barato para passar esta noite.</p>



<p>Respirei aliviado. Eu ainda estaria dependendo da caridade de um amigo distante de uma pessoa que eu mal conhecia, mas eu não tinha muito o que fazer naquela hora. Só observei uma última vez a lotação partindo pelo caminho enlameado daquela fronteira africana, aquele veículo que era finalmente minha última ligação com a Tazara, a linha de trem que estava me proporcionando aquela grande e cansativa aventura.</p>



<p><strong>Zâmbia</strong></p>



<p>O amigo da canadense nos levou a um hotel barato no centro de Nakonde. Éramos apenas cinco agora: a canadense e sua amiga, a chinesa, eu e o japonês. Assim como eu, os meus novos amigos orientais também estavam indo em direção a Livingstone para visitar a Victoria Falls. Decidimos então, fazer o resto da viagem até lá juntos. Aquela noite, eu dividiria um quarto com o japonês ao custo de 16 dólares cada um e a chinesa dormiria com as canadenses em outro quarto. Nosso chuveiro não tinha água quente e o banheiro estava imundo, cheio de pegadas, talvez o suficiente para um daqueles detetives do seriado CSI traçar a história dos quatro últimos hóspedes.</p>



<p>O resto da viagem foi cansativo, tedioso e não é digno de merecer maiores detalhes. Saímos de Nakonde às 7:00 do dia seguinte, em direção à Lusaka. Às 19:00 um funcionário do ônibus nos informou que aquela linha não iria para Lusaka e teríamos que descer na próxima cidade e pegar um novo ônibus. Eles nos reembolsou parte do dinheiro &#8211; apenas o suficiente para pagarmos o próximo ônibus &#8211; e descemos. Ironicamente, a cidade que estávamos era New Kapiri Mposhi, e, mesmo não chegando lá de trem, eu me encontrava na exata situação que temia: no começo da noite, a 200km da capital da Zâmbia. Foram mais 3 horas de viagem até a estação de Lusaka, aonde decidimos dormir na própria rodoviária, rodeado por mendigos e mariposas.</p>



<p>No dia seguinte, uma terça-feira, pegamos o primeiro ônibus em direção a Livingstone. Finalmente, eram 13h quando chegamos na cidade turística, conhecida por suas quedas d&#8217;água que são uma das maravilhas da África. Ao comprar a passagem de trem, a previsão era que eu chegasse ali no domingo à tarde.</p>



<p>Mas, estando em Livingstone e, principalmente, em Victoria Falls Town, no Zimbabwe, eu esqueci dos problemas. As cataratas são realmente um espetáculo que valem a visita. Talvez, porém seja mais prudente chegar lá de avião. Viajar de trem na África já é aventura o suficiente para uma vida.</p>



<div class="long_read_container">
<div class="long_read">
<p><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2018/10/marketing2-lk.jpg?w=580&#038;ssl=1" alt="" class="square-img"></p>
<div class="long_read__desc">
<h3>O continente esquecido</h3>
<p>Mais conteúdo deste disponível no livro &#8220;O Continente Esquecido&#8221;.</p>
<p>[<a href="https://www.amazon.com.br/Continente-Esquecido-Cadernos-expedicion%C3%A1rios-viagem-ebook/dp/B07JZWRMXC">Comprar na Amazon</a>]
</div>
</div>
</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://blog.paulovelho.com/o-trem-tazara/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">4112</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Lá e de volta outra vez</title>
		<link>https://blog.paulovelho.com/la-e-de-volta-outra-vez/</link>
					<comments>https://blog.paulovelho.com/la-e-de-volta-outra-vez/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Velho]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Feb 2021 16:19:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://blog.paulovelho.com.br/?p=4098</guid>

					<description><![CDATA[Esta semana, no dia 09 de fevereiro de 2021, completou-se 10 anos da minha primeira partida do Brasil e da década de viagens e mudanças de vida que se sucederam depois. Não é pouca coisa. Nesse período eu visitei 54 países, mais de 200 cidades (a mais visitada foi Paris, 17 vezes; fui para Bruxelas [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Esta semana, no dia 09 de fevereiro de 2021, completou-se 10 anos da minha primeira partida do Brasil e da década de viagens e mudanças de vida que se sucederam depois.</p>



<p>Não é pouca coisa. Nesse período eu visitei 54 países, mais de 200 cidades (a mais visitada foi Paris, 17 vezes; fui para Bruxelas 7 vezes e foram 6 idas para Frankfurt, unicamente visitar um amigo, já que a cidade é chatíssima). Morei em cinco países diferentes e em mais de dez casas. Tive pelo menos meia dúzia de empregos. Abri algumas empresas. Conheci dezenas de pessoas incríveis.</p>



<p>Hoje eu invejo aquele jovem Paulo Velho, completamente imbecil que embarcou para Portugal com pouco dinheiro e sem saber quão difícil a vida poderia ser. Eu invejo ter essas aventuras todas pela frente, passar por tudo aquilo de novo, com todo o aprendizado que teria.</p>



<span id="more-4098"></span>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1265" height="949" src="https://i2.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/02/primeira.jpg?fit=580%2C435" alt="" class="wp-image-4099" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/02/primeira.jpg?w=1265&amp;ssl=1 1265w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/02/primeira.jpg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/02/primeira.jpg?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/02/primeira.jpg?resize=1200%2C900&amp;ssl=1 1200w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption>A primeira foto que tirei na Europa, 12 de fevereiro de 2011</figcaption></figure>



<p>E que puta aprendizado&#8230; Aprendi algumas línguas: inglês, francês, italiano, alemão (já esqueci metade delas). Aprendi muito sobre história, do Brasil Império; sobre a Primeira e Segunda Grandes Guerra; sobre a Guerra Fria; aprendi a gostar de história e até de religião. Aprendi a conviver com a solidão; a aturar meus próprios pensamentos; aprendi que quando você está na pior, as pessoas que vão te ajudar são as que você menos espera e são justamente aquelas que também estão na pior. Hoje eu sei controlar meu dinheiro, sei que não é preciso de muito para viver, sei fazer arroz e lavar minhas próprias cuecas.</p>



<p>Juntei pouca coisa: nesses dez anos, comprei dois macbooks, dois celulares (um deles ainda em uso), quatro bicicletas e nenhum carro. Hoje tenho um kindle, um Nintendo Switch, dois notebooks e uma câmera fotográfica decente. A vida nômade, de se mudar com freqüência sem saber para onde se está indo não permite o acúmulo de bens materiais. Eu só comprei o Nintendo Switch porque é um videogame que não precisa de televisão para jogar.</p>



<p>Em compensação, memórias tenho várias, incontáveis. Lembro de sair da minha barraca no cu da noite para mijar durante a trilha do Kilimanjaro e passar meia hora simplesmente olhando para cima, tremendo de frio, vendo o céu tão pontilhado de estrelas que mais parecia um sonho, o céu mais lindo que eu já vi na vida. Lembro de cantar <em>Angel</em>s, do Robbie Williams em uma mesa cheia de desconhecidos, todos completamente bêbados, durante uma Oktoberfest. Lembro de acordar atrasado e sair pedalando como um motoboy pra não chegar atrasado em uma reunião em Berlim. Chorei de saudade quando fui embora de Lisboa, de emoção quando cheguei no cume do Kilimanjaro, de felicidade quando vi a aurora boreal pela primeira vez e de tristeza quando fiquei sozinho sem dinheiro e sem ter onde ficar em Londres.</p>



<p>Eu visitei castelos e palácios. Desci em minas e túneis subterrâneos secretos da Polônia, subi na montanha mais alta da África. Desci em calabouços assombrados de Praga e subi as montanhas da Ilha da Madeira. Rolei pra cima em uma Oktoberfest e rolei para baixo em uma Corrida do Queijo. Pedalei em torno do muro de Berlim. Machuquei todos os meus joelhos e um tornozelo, mas terminei a corrida mais difícil do mundo. Escrevi livros e artigos para revistas. Andei de avião, de trem, de jipe, de carona, de bicicleta, de camelo, de monotrilho, de balão e até de carro. Tive um relacionamento feliz e um abusivo. Dormi na rua por falta de dinheiro e me hospedei em hotéis cinco estrelas com piscina de águas termais e chuveiro com cheiro de enxofre. Fiquei em couchsurfing, em airBnb, fiquei num hostel dentro de uma igreja abandonada. Passei quase um mês indo para um aeroporto só para dormir e tomando banho em um hotel fino que eu entrava na cara de pau só para isso. Eu assisti leões caçando e filhotes brincando. Saí de noite para caçar aurora boreal. Nadei em lagos congelados na Grã Bretanha e enfrentei o calor de 50º do deserto do Saara. Visitei países em guerra e países que não existem. Fui na ponte onde Franz Ferdinand foi assassinado, no bunker de Churchil, no palácio onde nasceu Dom Pedro, no bar onde os Beatles ficaram famosos (o de Hamburgo e o de Liverpool), na cela onde ficou preso Vlad empalador, e pisei na lama de trincheiras da Primeira Guerra. Fiquei dias sem comer. Tomei a melhor cerveja do mundo (três vezes), numa abadia no interior da Bélgica. Joguei ping-pong, vôlei, futebol, e aquele esporte meio maluco que envolve atirar um freesbie pra lá e pra cá. Comprei bitcoin. Perdi dinheiro em cassino. Fui o padre do casamento do meu melhor amigo, fui monitor de aula de dança, recepcionista, jornalista, autor, ator, barman, programador, roteirista, gerente, vendedor e empresário. Esbarrei na Charlize Theron e escrevi piadas com o Maurício Meirelles. Fui em cinco Oktoberfests, dois St. Patrick&#8217;s Day, uma Tomatina. Assisti as Olimpíadas de Londres, uma peça com o Ralph Phiennes, cinco shows do Paul McCartney, dois do Coldplay e um do System of a Down. Fiquei bêbado na maioria dos lugares onde passei.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1488" height="837" src="https://i1.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/02/b17.jpg?fit=580%2C326" alt="" class="wp-image-4103" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/02/b17.jpg?w=1488&amp;ssl=1 1488w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/02/b17.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/02/b17.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/02/b17.jpg?resize=1200%2C675&amp;ssl=1 1200w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption>O quanto  eu gosto de Berlim e vocês nem sabem</figcaption></figure>



<hr class="wp-block-separator"/>



<p>Eu acho que eu embarquei nessa viagem porque tinha um medo irracional de não estar aproveitando a vida o suficiente. Este é um medo que eu não tenho mais, mesmo tendo estado trancado em casa por tanto tempo ultimamente.</p>



<p>Em março completaremos um ano de pandemia. Quando somos privados de nosso ir e vir por conta de um fator externo, no qual somos impotentes para agir, é natural a frustração. Fica a impressão de um ano perdido. Depois de ter feito tanta coisa na vida, parece que o máximo que consegui nos últimos 12 meses foram passeios da sala para a cozinha. Eu não tenho o hábito de ficar muito tempo no mesmo lugar, e o fogo no rabo para largar tudo e ir para outro lugar já estava forte antes mesmo do mundo começar a acabar.</p>



<p>Eu tinha uma passagem só de ida comprada para abril de 2020 que, obviamente teve que ser cancelada. Eu não sei para onde iria, mas depois de tudo o que eu passei eu descobri que não importava realmente. O caminho é mais legal que o destino.</p>



<p>O meu medo atual não é mais não estar aproveitando a vida: é esquecer. Modéstia à parte, eu fiz coisas demais, aprendi demais e passei por muitas coisas péssimas e maravilhosas desde que saí pelo mundo. Parece um desperdício ter feito tanto para esquecer. É esse medo que me motiva a escrever, tirar fotos, produzir vídeos e conteúdos&#8230;</p>



<p>Mesmo que o princípio deste blog seja estritamente pessoal &#8211; ele nasceu com o intuito de documentar minhas viagens e andanças por aí -, eu parei de usá-lo para falar de mim mesmo. Algo em torno de 90% de tudo que eu escrevo fica armazenado em documentos do Google Drive e provavelmente jamais serão publicados, porque eu descobri que não é preciso estar na internet para existir. Quando a idéia é boa, ela não é pessoal e vai parar em outras mídias que não este blog &#8211; a mais notável é o <a href="http://nrt.paulovelho.com.br">nRT</a>. Mas dado o abandono que pairou neste humilde site, talvez seja hora de rever alguns conteúdos pessoais e quem sabe, transformar em textos para serem cá publicados.</p>



<p>Para o futuro, espero publicar aqui textos de caráter mais pessoal, como histórias que aconteceram comigo e reflexões de vida &#8211; enfim, o objetivo primário deste blog mesmo. Conteúdo eu já tenho, só falta mesmo uma edição e revisão mais apurada.</p>



<p>Mas, mesmo se não tivesse conteúdo para aqui colocar, eu não veria problema. Estou certo que minha vida nômade não terminou ainda. Deixa a vacina chegar e eu saio pelo mundo de novo.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://blog.paulovelho.com/la-e-de-volta-outra-vez/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">4098</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Estátuas que vou lutar pra não derrubarem</title>
		<link>https://blog.paulovelho.com/estatuas-que-vou-lutar-pra-nao-derrubarem/</link>
					<comments>https://blog.paulovelho.com/estatuas-que-vou-lutar-pra-nao-derrubarem/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Velho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Jun 2020 17:03:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cadernos Expedicionarios]]></category>
		<category><![CDATA[Curiosidades]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://blog.paulovelho.com.br/?p=4084</guid>

					<description><![CDATA[Como viajante, sou um grande entusiasta de estátuas e monumentos. Ainda mais nas terras abarrotadas de história como as do continente europeu, a impressão que dá é que alguns lugares tiveram mais estátuas do que reis. Nem toda figura histórica que recebe uma estátua é, porém, um cidadão iluminado, livre de defeitos, uma pessoa bacana [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Como viajante, sou um grande entusiasta de estátuas e monumentos. Ainda mais nas terras abarrotadas de história como as do continente europeu, a impressão que dá é que alguns lugares tiveram mais estátuas do que reis.</p>



<p>Nem toda figura histórica que recebe uma estátua é, porém, um cidadão iluminado, livre de defeitos, uma pessoa bacana com quem adoraríamos tomar um cappuccino em uma tarde de outono. Muito pelo contrário, dependendo da época que estamos falando, a maioria eram calhordas da pior espécie, racistas, genocidas, bandidos, traficantes ou pessoas que andavam com o guarda-chuva aberto debaixo de toldos. Uma estátua pode sim ser encarada como um endosso: não pega bem pra Bélgica manter uma <a href="http://blog.paulovelho.com.br/ditadores-africanos/">estátua do Leopoldo II</a> &#8211; assim como talvez não pega bem pra Rússia deixar o corpo embalsamado do Lenin na praça vermelha, mas que é interessante ver como o feladaputa era pequeno, ah isso é. Mas assim como outras formas de arte, tais quais livros, filmes, quadros e peças de teatro, os monumentos podem ser vistos como um momento travado no tempo de uma era &#8211; e como a representação de um marco histórico de grande importância. Mais do que uma homenagem, vale a sua representação: Churchill tinha lá seus defeitos, mas é inegável que ele merece seu monumento; Tiradentes possuía seus escravos, mas o simbologismo de sua morte precisa ser lembrado; tem ainda uma estátua do Napoleão em Paris; e, pelo amor de deus, pesquisa um pouco pra não acabar <a rel="noreferrer noopener" href="https://www1.cbn.com/cbnnews/us/2020/june/cancel-culture-strikes-again-rioters-destroy-philadelphia-statue-of-abolitionist-matthias-baldwin" target="_blank">depredando uma homenagem para alguém que lutou justamente a favor das mesmas causas</a> que você.</p>



<p>Dado esse ponto, eu também sou a favor de trazer abaixo algumas representações históricas que não cabem mais em tempos atuais. O simbologismo por trás do <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.theguardian.com/uk-news/2020/jun/14/the-day-bristol-dumped-its-hated-slave-trader-in-the-docks-and-a-nation-began-to-search-its-soul" target="_blank">ataque à estátua de Edward Colston em Bristol</a> é lindo e fortíssimo e, <a rel="noreferrer noopener" href="https://twitter.com/laurentinogomes/status/1270029722974633987" target="_blank">ao contrário do Laurentino Gomes</a>, eu até topo trazer pro chão o Borba Gato e colocar no lugar uma outra estátua, talvez uma estátua de 10 metros de um gato chamado &#8220;Borba&#8221; pra não dar tanto trabalho pra mudar as placas, é só inverter as palavras. Destruir algo é um sinal de mudança muito maior do que construir algo: a união recente da Alemanha se deu pela queda de um muro pela população; o símbolo da queda do Saddam foi a derrubada de sua estátua; a Revolução Francesa começou com a tomada da Bastilha, uma fortaleza medieval que foi completamente destruída, não sei se Luis XVI ia realmente perder a cabeça com um protesto pacífico e a manutenção de um patrimônio histórico francês tão imponente.</p>



<span id="more-4084"></span>



<p>Mas durante meu curto período de vida eu me deparei com uma série de estátuas &#8211; pessoalmente ou não &#8211; que eu simplesmente não consegui ignorar; monumentos que acalentam o coraçãozinho de um viajante solitário como cervejinha à beira de um rio no final de uma tarde de sol. Aceito seu protesto, apoio a sua causa, mas não toca nesses monumentos aqui:</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Bobby</strong> (Edinburgh, Escócia)</li></ul>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://lh3.googleusercontent.com/cBnbpfQWKHO3ZwzU77DEq4cEhYcpuBGvmHQtlWOISvoaZIjwEkszuSQJv6EJSJ3DwWown_NzLjbdfbrX4IEbrZVA7i9H2YGOlefR7i00ZKLBZ_caFDXQImH5EpygM89NiGctjKSUg15fHNkDpZ6b8CAE8aNRUl8RVzmYk8wJ0M1Wu9z63AXLEKS14jRrMvrHrTPOsvL2ifTtEUlT6ziWGgMOeRI09d_aukwBlv2S83FnF9-uOdy2ZhtRRKMGSmRTyVIeGXyMGg4KHQnSpGZ7OL1weiL7GJDU1QJqKnYXdWRHUk9vNb2audfDFTuAo7igoyucmQQ_r7gGbEyRSYH6kJXXlzYJVzwMn0RNYbfHOIxRUJVEnyWehr8XQetnwEPnNhq_abSPy00P_EJTnUA37YWeZBgp_g-hUDMVrjNSIAA5H4j44jNOxERYd07THNKoPgl3b48ac-93vSj8ZIMtlyb3UnQM39_p9m4f4Fbj_Q3dr9dCQVFEXWplAv-JILXMALBiMPpNG495mp0a2D1fLUkCqD8sfsKr2Mfb4EFyROy-pswlqy6Bs9x79uHVcnUQGw_WeKO5UCZUo-5rCCsAmvtrpCHx9CKpCVE3u-IkqZt1N8hJt7A23CZzqhO9C8ZTcwLZPWTAscWV9DhlV57tmlc0WqM9QUVdupMcIVA_9zGmAcdijIVO2r1nV6RNgSg=w1689-h949-no?authuser=0" alt=""/><figcaption>Bobby. Reprodução: Paulo H./autoral</figcaption></figure>



<p>Dizem os guias de Free Tour que o cão Bobby pertencia a um vigia noturno da cidade. Depois que o policial morreu, o cachorro que era um velho conhecido dos moradores locais, começou a passar seus dias descansando na lápide do antigo dono. E assim ficou por quatorze anos, até o cão morrer em 1872. O animal foi enterrado no mesmo cemitério que o vigia, não longe de sua cova; e um ano depois foi erguida uma estátua para o cachorro.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Headbutt</strong> (Paris, França &#8211; depois foi pro Qatar)</li></ul>



<div class="wp-block-image"><figure class="alignright"><img decoding="async" src="https://lh3.googleusercontent.com/OSDAINXOxmYp_5-3giSbyhsOOnMEUFfwmO9HE8SIgOMSRXnhqf6PE5O1xK7F3ZmPLOP94n6uzROjX8Z77-g6oTRCHAN3noKK_MO0HaapuyNpFL6v7HnfhKAl8Diwse8fT60rvYrB8jNbMvW6yDOq6nHZQtAtUMmT4bfbEufPqL9HZsBCGyp0550YAumZPg-SAkq65VN_gpi-wxPdvdLW0ATWc5gvIe_qmlL6SyqwzJDb1KVF_Zsea4mkeaEScOMLL3FlT-ZlnYjE5m54RPNhSfJBOEbf9EL_CNKVUhpalw7w11I0E5Bnkw0ruSiGBFSP_knsRg582EcTP6CgLp82NWHWya_FAUcpnX6bem3t9MITMixudXupiFCeanLYLipF8vGfuVvmJmVBrFfLsnBylZT8rjNnikgij7uABa8AKbgTxBBURAZId3FPYsifgureH-G3_i9zpriTBXgIhT56rAxJa7DQpCAhargV9OAI_uV7sfv2hW2DelYSqGjHy5NJlu6Tur-8iZpaQ_L-tiYHyde3_MEAV_jDC9te6ZZrK8EUbrFXZ24WfsSsmutgn_8MT7eWWo4pBbDHrYW3Xt9gKj44i8-OPcGkLAq8MxjWw-cC4Q4YCE1wRemccuwRUy7-7AQXBjaCnmpp5o4SjUirwxQdpxxHIod2IdNoEFo1JjX9qJBfFlVX70Kp9YcmEc8=w534-h949-no?authuser=0" alt=""/><figcaption>o povo francês não esquece. Reprodução: Paulo H./autoral</figcaption></figure></div>



<p>Eu assistia o final da Copa de 2006 no bar do Gallo, no Largo da Matriz. Como esquecer do momento que o astro francês de nome sonoro Zinedine Zidane inexplicavelmente deu uma cabeçada (talvez merecida, quero acreditar) no zagueiro Marco Materazzi, sendo expulso e gerando uma onda de memes na internet antes que memes na internet fossem uma coisa popular assim.</p>



<p>O artista nigeriano Adel Abdessemed imortalizou o momento com uma estátua de bronze com cinco metros de altura, colocada do lado de fora do museu de Artes Pompidou, em Paris, para o desespero da federação francesa de futebol, que insistia que havia melhores momentos da carreira de Zidane a serem lembrados, coisa que eu duvido.</p>



<p>Em 2013, sabe-se lá por quê, o governo do Qatar comprou a estátua e colocou ela na orla da praia da cidade de Doha, para os dois jogadores ficarem apreciando o golfo persa em suas eternas posições de falta. Mas a estátua foi removida um tempo depois, acusada de ser um objeto de idolatria, um ode à violência e, veja só, uma ofensa ao islamismo.</p>



<p>Batizada de <em>Headbutt</em>, ela foi movida para o Museu árabe de arte moderna, onde Materazzi ainda está sendo cabeceado até hoje.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Tombili </strong>(Istanbul, Turquia)</li></ul>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/static.boredpanda.com/blog/wp-content/uploads/2016/10/laid-back-cat-statue-tombili-istanbul-8.jpg?w=580&#038;ssl=1" alt="laid-back-cat-statue-tombili-istanbul-8"/><figcaption>Reprodução: <a href="https://www.facebook.com/anadolukedisi/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Anadolu Kedisi</a></figcaption></figure>



<p>Por falar em meme, um gato descansando despretensiosamente numa guia em Istanbul virou meme por sua posição e expressão de quem está assistindo o Domingo Legal num churrasco entediante de família. Tombili era um dos inúmeros gatos de rua de Istanbul e, quando ele morreu em 2016, a população assinou uma petição para que uma estátua fosse feita na sua pose preferida. O escultor Seval Şahin assim a fez e colocou ela no ponto da foto em outubro do mesmo ano da morte do gato.</p>



<p>Um mês depois, a estátua foi roubada. Foi uma comoção, a galera ficou puta da cara, a imprensa caiu em cima, levantaram hashtag, amaldiçoaram o criminoso. Tanto que a consciência do larápio pesou e no começo de novembro a estátua foi devolvida.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Dung Beetles</strong> (Londres, UK)</li></ul>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/eb/Dung_Beetles_Sculpture_by_Wendy_Taylor_at_the_London_Zoo.jpg/800px-Dung_Beetles_Sculpture_by_Wendy_Taylor_at_the_London_Zoo.jpg" alt="File:Dung Beetles Sculpture by Wendy Taylor at the London Zoo.jpg"/><figcaption>Reprodução: WikiCommons</figcaption></figure>



<p>Essa estátua de besouros rola-bosta fica no Zoológico de Londres. Não tem muita história por trás não, mas eu vou sempre defender estátuas de besouros rola-bosta porque sou muito fã de besouros rola-bosta (sabia que eles se orientam geograficamente olhando a via láctea?).</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Alec</strong> (Belfast, Irlanda do Norte)</li></ul>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="387" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2021/05/alec.jpg?resize=580%2C387" alt="Belfacts: The legend of Alec the Goose – Belfast Times" class="wp-image-4107" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/05/alec.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2021/05/alec.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption>Reprodução: <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.belfasttimes.co.uk/belfacts-the-legend-of-alec-the-goose/" target="_blank">William Murphy</a></figcaption></figure>



<p>Ainda na categoria &#8220;animais&#8221;, o ganso Alec viveu nos arredores do mercado de Belfast na década de 1920. Ele costumava acompanhar as crianças, geralmente os filhos dos mercadores, até a escola. Infelizmente, a ave morreu atropelada por um caminhão &#8211; ela acompanhou tanta gente que esqueceu de acompanhar a si mesma. Uma estátua de bronze de 22 mil libras foi colocada perto da entrada do mercado em 2009. Alec continua sendo o ganso mais famoso de Belfast, apesar do lançamento recente de &#8220;<em>Untitled Goose Game</em>&#8220;.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Paddington</strong> (Londres, UK)</li></ul>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/i2-prod.mirror.co.uk/incoming/article21599817.ece/ALTERNATES/s615/0_Leicester-Square-unveils-new-Hollywood-statue-trail.jpg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/><figcaption>Reprodução: The Mirror UK/Leicester Square</figcaption></figure>



<p>Em fevereiro deste ano (estamos em 2020, caso viajantes do futuro estejam lendo isto) oito estátuas foram colocadas na Leicester Square para celebrar os últimos 100 anos do cinema britânico. Tem o Gene Kelly, a Mary Poppins, o Mr. Bean e até o Pernalonga, mas olha só que coisa mais fofa o ursinho Paddington sentado no banco comendo seu sanduíche (assistam <em>Paddington</em> e <em>Paddington 2</em>).</p>



<p>As estátuas deveriam ficar só até o verão, depois a prefeitura mudou de idéia porque todo mundo adorou, talvez virasse algo permanente. Agora que todo mundo odeia estátuas, eles devem estar repensando, mas é fofo demais para atacarem o pobre Paddington.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Potato Shed Memorial</strong> (Boston, USA)</li></ul>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/cdn10.bostonmagazine.com/wp-content/uploads/sites/2/2020/05/PotatoShedMemorial.jpg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/><figcaption>Reprodução: <a href="https://www.flickr.com/photos/voteprime/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Adam Gerard</a> / WikiCommons</figcaption></figure>



<p>Indo pros tubérculos: essa estátua de sacos de batatas em Boston lembra dos armazéns que haviam na região para armazenar os produtos que chegavam de trem. Em 1962 um incêndio destruiu os armazéns, deixando a cidade toda com cheiro de batata frita. Aí era questão de tempo até os homens, com toda sua sapiência, erguerem este ode às batatas. Tem até um poema em agradecimento ao tubérculo numa placa em bronze ali na frente.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Sapato</strong> (Tikrit, Iraq)</li></ul>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://pbs.twimg.com/media/CtC49tHW8AAynvo?format=jpg&amp;name=small" alt="Image"/><figcaption>Reprodução: só achei no Twitter</figcaption></figure>



<p>Essa eu não consigo proteger porque já não existe mais: em 2009 lançaram uma estátua em homenagem ao sapato que foi <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.youtube.com/watch?v=_RFH7C3vkK4" target="_blank">atirado em George W. Bush</a> em dezembro de 2008. O <a rel="noreferrer noopener" href="https://en.wikipedia.org/wiki/Bush_shoeing_incident" target="_blank">artigo da Wikipedia</a> sobre o evento aponta que houveram dois feridos, zero mortos e duas armas foram usadas (um sapato e um cotovelo).</p>



<p>A estátua de bronze e fibra de vidro foi colocada do lado de fora de um orfanato de Tikrit, cidade natal de Saddam Hussein. Os órfãos do próprio orfanato ajudaram a construir a estátua que infelizmente foi retirada pouco tempo depois e destruída. Dentre os motivos de sua remoção estão evitar instigar no coraçãozinho de crianças órfãs motivações políticas que, honestamente, elas não precisam. Pelo menos parece um motivo justo.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Jim Henson</strong> (Maryland, USA)</li></ul>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://vignette.wikia.nocookie.net/muppet/images/3/39/Statue.hensonumd.jpg/revision/latest?cb=20070123054316" alt=""/><figcaption>Reprodução: WikiCommons</figcaption></figure>



<p>Eu poderia adicionar aqui a estátua de Walt Disney de mãos dadas com Mickey Mouse ou até mesmo a estátua de Roy Disney sentado no banco com a Minnie que eu honestamente gosto mais, mas já tem uma empresa ridiculamente gigantesca que consegue proteger essa estátua atirando bolos de dinheiro em quem tentar chegar perto, se for preciso.</p>



<p>Por isso vem pra lista esse monumento de Jim Henson conversando com o sapo Kermit, que foi erguido na Universidade de Maryland em 2003. </p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Vigeland Park</strong> (Oslo, Noruega)</li></ul>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://lh3.googleusercontent.com/hGoTHv0j8ArAajoT_lwASFLC3boKE2M2g10RSv5ZQvDAe-CrE8oC9Ny92_l46e5pqY-vTKU6AYdf02W3WfOA8RH89rzcBySLdQmAXrzY6pFY0iy4vgYUYjNMixwVx7J9cNRuBVfo5UMUTag7uGf1Rh_FRZJNkM1EtOTvaAM0lGiiP76Hf9jMYMnGSdy8f4u30tNA6hj525k_DMI79zwPmEvL-5gzKYAslm0fji62g1I-rhSVX7KzFhKAA6bQVzLbfcPh898djayl_KhRfUte4Ui9q9ucX3BYPtF9Ed_7xRjCjnMKtHgFhAIR17EcwfbOEZFjCce39-5Bc8WypDllJFLc-Kh637EvN1RBSMG8yQmt9h2x0Ca4STZ1RRpW_IV6ZcpxiEQFGq0QAwBuNId7IjQu04KZMnRzALp7Qw8CDavKanqzgXA1JwECHQR_bCoNMGt_04myJSFzPq4K5HHvbc0nNNdibW2_gT1uDNhZKtUuMtxxz2XPYLlbZk0nANh7lvj8t9ha77kHscarinHp9fftNm0ti5RYSOCkvelV41rB7xGmtjgJesgAgQ1BXASSznLqvcYp7iafEiKeek5qh0BDcWot52YSa2HvP5DwBnfmkLQu17kCdn5YwSYqodzELguAcV9gKii-ycXRninIR__0q-vy9uzZ2mibA4DpuHckMLPgwyhIsJ3wSiUiycY=w1602-h900-no?authuser=0" alt=""/><figcaption>Reprodução: eu mesmo, olha aí.</figcaption></figure>



<p>Por fim, o Parque Frogner, na dispendiosa Oslo, têm uma área com cerca de 200 obras do artista Gustav Vigeland, a maioria de pessoas peladas. A mais marcante, pelo menos pra mim, é essa estátua de um homem puto da cara chutando e atirando bebês longe &#8211; uma obra que consegue transmitir acuradamente meu sentimento perante crianças toda vez que alguém pergunta se eu pretendo ter um filho.</p>



<p>Afinal, além de prestar homenagem a grandes figuras (racistas ou não), as estátuas também conseguem passar sentimentos complexos, difíceis de expressar em mal traçadas linhas.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://blog.paulovelho.com/estatuas-que-vou-lutar-pra-nao-derrubarem/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">4084</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Debaixo da Polônia</title>
		<link>https://blog.paulovelho.com/debaixo-da-polonia/</link>
					<comments>https://blog.paulovelho.com/debaixo-da-polonia/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Velho]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Dec 2019 16:30:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cadernos Expedicionarios]]></category>
		<category><![CDATA[Long Reads]]></category>
		<category><![CDATA[Polônia]]></category>
		<category><![CDATA[Viagens]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://blog.paulovelho.com.br/?p=4063</guid>

					<description><![CDATA[Long-Read Um texto que começa com a machetada na Polônia, e segue minha visita à cidade subterrânea nazista &#8211; com mais conteúdo didático histórico do que duas horas de History Channel. [Amazon] outros long-reads&#8230; No último sábado do mês de janeiro do ano da graça de 2018 acordei cedo. Levei um tempo para lembrar onde [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="long_read_container">
<div class="long_read">
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/poland-cover-color-e1576064659254.jpg?resize=200%2C320" alt="" width="200" height="320"></p>
<div class="long_read__desc">
<h3>Long-Read</h3>
<p>Um texto que começa com a machetada na Polônia, e segue minha visita à cidade subterrânea nazista &#8211; com mais conteúdo didático histórico do que duas horas de History Channel.</p>
<p>[<a href="https://www.amazon.com.br/dp/B082MZ1GWJ">Amazon</a>]
<p><a href="http://blog.paulovelho.com.br/category/long-reads/">outros long-reads&#8230;</a></p>
</div>
</div>
</div>



<p>No último sábado do mês de janeiro do ano da graça de 2018 acordei cedo. Levei um tempo para lembrar onde eu estava: era um apartamento vazio, mas relativamente conhecido na região de Prenzlauer Berg, em Berlim. Era meu primeiro dia sem trabalho, após o fim do aviso prévio de meu pedido demissão no final do ano anterior. Eu já não possuía moradia própria, passei o mês todo morando de favor na casa de uma amiga portuguesa que no momento estava no Brasil.</p>



<p>Fui até a cozinha, e enquanto tomava um café com pão com manteiga, coloquei em uma sacola toda a comida que me restava: alguns pães, chocolates e uma variedade razoável de queijos. Como a casa ficaria vazia por algum tempo e eu não planejava me estender muito na cidade quando voltasse para Berlim, limpei a cozinha de tudo que fosse perecível e comestível para me servir de alimento durante a viagem &#8211; uma estratégia comum para quem viaja sem dinheiro. Minhas malas estavam já arrumadas, ocupando um canto do quarto &#8211; elas iam ficar ali durante os 17 dias que eu passaria viajando pelo leste europeu, passando por Polônia, Bielorrússia (a tradução para português de <em>Belarus</em>), Lituânia, Letônia (a tradução para português de <em>Latvia</em>) e Estônia. Naquela hora, porém, eu ainda não estava certo de qual seria meu roteiro, já que viajar no improviso é outra característica marcante de viajantes desprovidos de apego ao bom-senso. A única certeza que eu tinha é que eu iria para a Polônia naquela manhã.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>De volta à Polônia</strong></h4>



<p>Tal qual o Império Germânico ou a União Soviética fizeram nos séculos passados, de tempos em tempos eu também voltava para a Polônia. Eu tenho um apego emocional com o país, já que para todo lugar que eu vou eu carrego um mimo que a Polônia me ofereceu: uma cicatriz no lado esquerdo da minha fuça. O caso ocorreu em 2011, na minha primeira visita à Cracóvia (a tradução para português de <em>Kraków</em>), uma história que já foi em diversas ocasiões oralmente contada mas que até então não tinha sido transcrita em mal-traçadas palavras.</p>



<span id="more-4063"></span>



<p>Em dezembro daquele ano, viajava eu com meu caríssimo colega Gustavinho Malvadeza pelo leste-europeu &#8211; mas não tão leste assim: basicamente seria uma visita a Cracóvia e Praga. Na cidade polonesa, ficamos hospedados em um hostel no antigo bairro judeu (mas os judeus saíram todos de lá no começo da década de 40, sabe-se lá porquê), que era mais barato e mais condizente com minha situação de pobreza de alguém que perdeu na vida; porém ficava meio fora do fervo polonês: os pubs mais legais, a feira natalina na praça central, as baladinhas subterrâneas, os zona-lestenses oferecendo haxixe nas ruas, os restaurantes <em>tourist-trap</em>, enfim, a vida semi-noturna típica de uma baixa cidade turística européia.</p>



<p>Saímos então, eu e Gustavinho Malvadeza, caminhando até o centro murado da cidade, entrando em pubs, tomando a baratíssima cerveja polonesa, indo de bar em bar, em algum momento eu lembro da existência de uma garrafa de Żubrówka (uma vodka que vêm com uma folha de grama dentro) no hostel, mas pode ter sido depois disso também, não sei ao certo. Deve ter sido antes, porque eu tenho memórias (e ausência de memórias) de uma noite bêbado; em um dos bares uma garota veio falar com a gente, ela não estava apropriadamente vestida para o frio polonês, Gustavinho Malvadeza me alertou da possibilidade que na verdade nós estávamos em um bordel, parecia mesmo, não que fosse ruim, mas eu preferia beber em lugares mais baratos então saímos de lá. A noite se estendeu, foi divertida, teve wildcards da NFL em um dos bares. Gustavinho Malvadeza é bom de papo, um rapaz extremamente simpático, agradável e que adora perder seu tempo com bobagens, vale a pena chamar ele pra uma cerveja; chamei agora mesmo, inclusive, mas ele demora pra responder, deve estar me ignorando.</p>



<p>Enfim, era cu da madrugada quando caminhávamos de volta ao bairro judeu. Seguíamos pela calçada exterior aos muros da cidade, com um parque gramado à nossa esquerda e a avenida à nossa direita. Carros passavam na avenida, não era um local abandonado, muito menos para dois brasileiros oriundos das proximidades da Brasilândia tais qual eu e Gustavinho Malvadeza. Conversávamos sobre amenidades, como se nunca fosse nos faltar assunto. Até que um homem saiu do gramado e veio em nossa direção. Ele devia ter entre 40 e 50 anos, era corpulento e usava uma blusa desbotada, mas que parecia quente e confortável. Ele comentou alguma coisa ininteligível, mas não paramos de andar; seguimos nosso caminho, mas o cidadão seguiu andando com a gente falando algo em polonês. Ele se posicionou em frente a nós, olhando e falando diretamente em nossa direção e continuou andando de costas, bradando explicações em polonês em um tom de voz cada vez mais alto e mais raivoso, enquanto eu e Gustavinho Malvadeza simplesmente respondíamos repetidamente “<em>sorry man, no money man</em>” com a tranquilidade de Einstein resolvendo um Sudoku.</p>



<p>Indignado com sua falta de habilidade em comunicação, o homem tirou de dentro de seu casaco um machete de uns 40 centímetros e balançou-o no ar ainda gritando em polonês. Oras, meu caro, você está lidando com dois brasileiros da periferia de São Paulo; não é um machete que vai amedrontar jovens que passaram a infância indo jogar bola nas favelas do Cantagalo. “<em>Sorry man, no money man”</em>, respondemos, o que, dada minha condição financeira da época, era uma frase de uma veracidade constrangedora.</p>



<p>Talvez atordoado pela incapacidade de assustar-nos ou frustrado pelo fracasso em fazer-nos entender o seu claro e óbvio discurso em polonês, o cidadão ficou emputecido. Empurrou Gustavinho Malvadeza, que não perdeu o rebolado e simplesmente deu um passo pra trás, como no movimento número 7 do Charleston. “<em>You don’t need to do that!</em>”, disse eu, alertando o rapaz para o não-uso de violência como ferramenta de bom convívio social. A resposta dele foi um silencioso golpe de machete, de cima pra baixo, acertando a parte esquerda do meu maxilar. Minha reação foi mais de susto do que de dor. “<em>You don’t need to do THAT!</em>”, repeti, acho eu. Por fim, para a humilhação ser total e completa ele estapeou a minha cara, num golpe que doeu em minha alma e, acreditando que seu ponto estava estabelecido, saiu e voltou para o parque à beira do muro.</p>



<p>Gustavinho Malvadeza ficou puto da cara dele. No resto do curto caminho até o hostel, ele destacou repetidamente o quão bravo e indignado ele estava com o fato de eu ter sido atacado com um machete. O corte não tinha sido profundo, a maior dor era um inchaço por conta da pancada. O queixo parou rápido de sangrar e um band-aid resolveu a maior parte do problema e a imensa bola roxa resultante da machetada podia ser convenientemente coberta por um cachecol. Depois de algumas semanas, o rosto desinchou, só sobrando a leve cicatriz. “<em>Você vai pegar muita menininha ainda com essa cicatriz, meu velho. Fica tranquilo!</em>”, tentava me animar Gustavinho Malvadeza naquela noite. Nunca funcionou. Talvez “<em>Ei, gata! Olha minha cicatriz! É da Cracóvia!</em>” realmente não seja a melhor cantada mesmo.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img00-scaled.jpg" rel="lightbox[4063]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="435" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img00-1024x768.jpg?resize=580%2C435" alt="" class="wp-image-4053" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img00-scaled.jpg?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img00-scaled.jpg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img00-scaled.jpg?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img00-scaled.jpg?resize=2048%2C1536&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img00-scaled.jpg?resize=1200%2C900&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img00-scaled.jpg?resize=1980%2C1485&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img00-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>eu e Gustavinho Malvadeza em foto que pode ou não ter sido tirada na noite da machetada</figcaption></figure>



<p>Na sequência da viagem, seguimos para passarmos a virada de ano em Praga, numa história que não vale ser contada no momento, mas que inclui russas cantando “<em>Ai se eu te pego</em>”, nós dois bêbados comprando 800 gramas de um pernil assado julgando que seria uma boa idéia, um final de noite urinando no portão de uma casa templária e uma guerra de fogos de artifício na ponte Charles. E com neve: nevou em Praga na primeira semana de 2012, isso eu posso afirmar.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Wrocław</strong></h4>



<p>Uma das coisas mais legais de morar em Berlim, sem contar a dezena de lindos parques, o transporte público funcionando 24h de sexta a domingo, a cerveja de qualidade a 60 centavos de euro, ótimos kebabs que nunca fecham, o Karaokê aos domingos no Mauerpark, a vida noturna maluca, os hambúrgueres de 3 euros servidos em banheiros, as piscinas públicas, as ciclovias passando por caminhos duvidosos, a incrível história recente da cidade estampada em prédios, ruas, marcos e monumentos; enfim, tem coisa legal pra caramba de morar em Berlim, mas o ponto a ser destacado aqui é a sua localização privilegiada dentro do continente europeu.</p>



<p>A Alemanha é o bem-posicionado limiar entre diversas europas: ela está estrategicamente próxima da Europa turística continental dos pacotes CVC, dos caros países nórdicos onde a lagosta tem preço de lagosta mas o risoles também tem preço de lagosta, dos balcãs tão subdesenvolvidos que a fictícia Molvanîa soa aceitável e da minha parte favorita da Europa: o Leste Europeu. Berlim, particularmente é extremamente bem localizada: pegando um ônibus, em 3 horas é possível chegar na Dinamarca, na Polônia ou na República Tcheca, dependendo da direção que se tome. Por deus, em São Paulo, se eu pegar um ônibus saindo de casa, depois de 3 horas eu chego na Vila Olímpia ou no Carrão.</p>



<p>Segui eu então, no meu Polski bus (viagens terrestres pela Europa a preço de RyanAir), em direção a Wrocław, a maior cidade do oeste polonês, a qual eu nunca havia estado, uma vez que o leste do país é a região mais turisticamente fervilhante.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img06-scaled.jpg" rel="lightbox[4063]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="387" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img06-1024x683.jpg?resize=580%2C387" alt="" class="wp-image-4059" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img06-scaled.jpg?resize=1024%2C683&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img06-scaled.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img06-scaled.jpg?w=1160&amp;ssl=1 1160w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img06-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>a lindinha Wrocław</figcaption></figure>



<p>Wrocław, porém, é tão charmosa quanto Cracóvia ou Varsóvia. No final de janeiro, a árvore de natal ainda estava montada em frente à igreja, na praça central da cidade, e as luzes e decorações ainda enfeitavam a cidade, tornando tudo mais belo ainda. Sem relação nenhuma com o natal, pequenas estátuas de duendes também se espalham por toda cidade e encontrá-las é parte da diversão &#8211; elas começaram a surgir em 2005 e hoje são mais de 350. Depois de flagrar algumas e colocá-las em um Instagram Story com alguma explicação em português, recebi uma mensagem de Ewa, minha amiga polonesa, natural de Wrocław, dizendo “Eu não entendo o que você está falando, mas com certeza, você pronuncia Wrocław errado. Seria algo como <em>Vrotzlove</em>.” &#8211; o que é muito mais próximo do nome tcheco da cidade (“Vratislav”), mas ainda distante do nome alemão (“Breslau”).</p>



<p>O nome Breslau, aliás, era o nome alemão oficial da cidade, quando o território da Silésia (local onde a cidade fica) ainda era parte da Prússia &#8211; consequentemente, território alemão. Breslau chegou a ser a sexta cidade mais populosa da Alemanha, porém, com a derrota do nazismo após a Segunda Guerra Mundial, a Conferência de Potsdam refez as fronteiras da região e a Baixa Silésia passou a ser polonesa. A população alemã e checa foram expulsas da localidade, substituídos por poloneses, que, por sua vez, tinham na maioria sido expulsos de regiões da Polônia que foram anexadas pela União Soviética.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Na estrada</strong></h4>



<p>No dia seguinte, um domingo, acordei antes do sol nascer. O que, no inverno europeu não significa muita coisa, já que não é incomum o sol nascer por volta das 8 da manhã. Enquanto o café da manhã era montado no hostel, eu peguei todo o queijo que ainda me sobrava e dividi por todo o pão que eu tinha disponível, os quais, juntos com uns chocolates randômicos seria minha refeição para o dia. Segui o caminho em direção à estação ferroviária, porém meu transporte para o dia não seriam trens, mas sim um carro alugado para poder chegar na isolada entrada da cidade subterrânea abandonada do Osówka, numa área remota e de difícil acessibilidade do oeste polonês.</p>



<p>Apesar de ser final de janeiro, o clima polonês estava bem mais ameno do que o esperado. Não nevava e as ruas não estavam congeladas. “Não devo precisar de pneu de neve, certo?”, perguntei na locadora. “Para só um dia de aluguel, certamente não.”, respondeu a atendente. Peguei o carro, e saí por aí, seguindo o Google Maps, em um caminho que me levou rapidamente para fora de uma grande estrada, passando por cenários bucólicos, margeando rios e florestas.</p>



<p>Depois de pouco mais de uma hora e meia me embrenhando no interior do sudoeste polonês, a rota indicada fazia uma abrupta curva para a direita, que eu acabei perdendo unicamente por não ter percebido que ali era uma rua. Fiz o retorno e entrei no estreito caminho indicado &#8211; largo o suficiente para passar apenas um carro por vez. Depois de alguns metros, o chão da estrada começou a ficar branco. Para ajudar, começou a nevar.</p>



<p>Foi como se eu tivesse entrado em um globo de neve mágico. Os arredores se embranqueceram, não havia qualquer outro carro ou pessoa nos arredores, a neve caía com força no vidro, eu dirigia devagar na estrada que subia, imaginando que seria bem mais prudente dar ré (uma vez que era impossível manobrar um retorno no espaço apertado) e desistir daquela rota. Segui em frente, como bom inconseqüente que sou. Depois de um tempo, a rua começou a descer. O carro derrapava assustadoramente na neve, como se estivesse me lembrando que eu desdenhei de pneus de neve. Segurei o volante com força, tentando simplesmente me manter na pista, pisando com parcimônia no freio e nunca no acelerador.</p>



<p>O carro parou. Huskies me olhavam com curiosidade por trás de uma cerca, tendo eu como único entretenimento na região. Conferi o celular para ver se aquele era realmente o caminho certo, se a cidade de Osówka era realmente por ali. Ele mandava eu seguir em frente por mais oito minutos e, simplesmente por parecer impossível retornar de ré essa descida escorregadia que eu tinha acabado de passar, avancei. Logo, de forma tão mágica quanto começou, a neve cessou e eu estava em uma estrada de terra que poderia ser tanto Mairiporã quanto a Escócia do século XVII. Ali eu já estava nos arredores da minúscula cidade de Głuszyca, com cerca de 7000 habitantes e aos pés das Montanhas Sowie. E, a 80 quilômetros de Wrocław, a primeira placa apontando Osówka apareceu, faltando menos de 5 minutos para chegar em meu destino.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Osówka</strong></h4>



<p>Dois outros carros estavam estacionados em frente à casa que servia como café e escritório turístico do local. Além da pouca sinalização, há quase nenhuma referência turística para visitar Osówka. O mistério em torno do lugar vêm desde os tempos da Segunda Guerra Mundial: aqui estaria apenas uma parte de uma série de túneis e escavações subterrâneas que estavam sendo feitas pelos nazistas na região da Baixa Silésia, hoje pertencente à Polônia, mas que antigamente era parte da Prússia e, consequentemente, território alemão até o final da Segunda Guerra. A localização era estratégica porque, além de ser originalmente alemão, estava situada em uma região mais central da vasta área de dominação nazista, a cerca de 350 km de Berlim.</p>



<p>O megalomaníaco e quase desconhecido complexo subterrâneo que eu visitava leva o nome de Projeto Riese (gigantesco em alemão) e os objetivos finais de sua construção não são claros até hoje. Ir para debaixo da terra seguia como a opção mais lógica, devido aos intensos bombardeios que o eixo sofria. Mas as construções subterrâneas não se limitavam a simples bunkers. Em outras localidades, os nazistas já estavam trabalhando em fábricas bélicas subterrâneas, como a fábrica de bombas de Mittelwerk, na Alemanha Central ou o mais recente complexo B8 Bergkristall, descoberto na Áustria em 2014 pelo cineasta Andreas Sulzer, que começou as buscas pelo local inspirado em um documento de um espião americano de 1944 que reportava a possível existência de uma fábrica de bombas na região. Essas estruturas grandiosas levam historiadores e exploradores a acreditar que o resultado final do Projeto Riese deveria ser uma completa cidade subterrânea com cerca de 35km² e capacidade para até 20.000 habitantes, com estrutura completa incluindo usina de energia, indústria militar, e até centro de produção de novos armamentos, incluindo todo o equipamento necessário para a pesquisa e desenvolvimento do que deveria vir a ser a bomba atômica nazista.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img02-1024x576.jpg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4055" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img02-scaled.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img02-scaled.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img02-scaled.jpg?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img02-scaled.jpg?resize=2048%2C1152&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img02-scaled.jpg?resize=1200%2C675&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img02-scaled.jpg?resize=1980%2C1114&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img02-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption>a entrada dos túneis subterrâneos</figcaption></figure>



<p>Os túneis começaram a ser construídos em 1943. O encarregado do projeto foi o arquiteto Albert Speer, amigo pessoal de Hitler e ministro da produção armamentícia do Terceiro Reich; e a engenharia ficou a cargo das Organizações Todt, empresa de confiança de Hitler, responsável pela construção da Muralha Atlântica, que era o mais importante mecanismo de defesa da costa ocupada francesa. Devido ao tamanho do projeto, uma outra empresa foi criada para lidar com as obras, a Companhia Industrial Silesiana (<em>Schlesische Industriegemeinschaft AG</em>) e Speer foi colocado para comandar os trabalhos de construção. As obras começaram simultaneamente em diferentes pontos das montanhas Sowie. Há sete pontos subterrâneos conhecidos, mas nem todos podem ser visitados.</p>



<p>O complexo de Osówka é um dos maiores e com melhor estrutura turística. O que não quer dizer muita coisa: há&nbsp; um serviço de áudio-guia em inglês, mas os guias falam apenas polonês. Também é necessário agendar a visita com antecedência, momento que será recomendado ao visitante o uso de roupas quentes e sapatos à prova d’água, além de levar lanternas. O meu grupo era composto de aproximadamente uma dezena de pessoas, todos poloneses, com exceção de mim.</p>



<p>Nos agrupamos na entrada do túnel, onde recebemos um capacete obrigatório e nos são dadas as primeiras instruções de segurança (somente em polonês, eu tive que deduzir a maior parte das coisas conforme fui seguindo chão adentro).</p>



<p>Assim que entramos nos túneis, é possível compreender a necessidade desse aparato todo: o caminho rudimentar segue escavado por dentro da montanha onde não parece haver muita estrutura de segurança. Poucas áreas estão escoradas com paredes e teto de cimento e mesmo essas são originais da época nazista. O maior salão, com cerca de oito metros de altura está completamente cimentado, mas ainda é amparado pelos suportes de madeira originais usados em sua construção, apodrecendo pela ação do tempo e da umidade no interior da caverna. Portanto a sensação de segurança é só um pouco maior do que morar num prédio comprado de milicianos cariocas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img03-scaled.jpg" rel="lightbox[4063]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img03-1024x576.jpg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4056" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img03-scaled.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img03-scaled.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img03-scaled.jpg?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img03-scaled.jpg?resize=2048%2C1152&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img03-scaled.jpg?resize=1200%2C675&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img03-scaled.jpg?resize=1980%2C1114&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img03-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>um dos túneis do Projeto Riese</figcaption></figure>



<p>Uma das primeiras salas na entrada do complexo parece finalizada: há até mesmo uma minúscula janela quadrada apontando para o corredor de entrada de forma que um soldado pudesse monitorar o acesso. Atualmente, uma arma fica a postos nessa janela, como uma demonstração de seu uso. Em certos pontos do caminho ficam em exibição uniformes, máscaras de gás, armas, materiais de construção e uma série de parafernalha nazista que foi abandonada às pressas quando o exército soviético se aproximava, no começo de 1945. Ao perceber que a guerra estava perdida, Hitler emitiu o “decreto Nero”, ordenando a destruição de toda a infraestrutura alemã para que não fosse utilizada pelos inimigos que se aproximavam. Documentos importantes, tais quais aqueles que detalhavam o projeto a ser construído foram completamente destruídos. O decreto, porém, foi deliberadamente desobedecido pelo próprio Albert Speer, o que leva a crer que diversos equipamentos e maquinário militar foram tomados pelo exército soviético quando encontrados. Ainda assim, paredes e túneis foram derrubados e algumas entradas foram seladas e só foram descobertas décadas depois. Isso só fortalece o mistério e o desconhecimento a respeito dos complexos subterrâneos que segue até hoje.</p>



<p>Durante a fuga, os nazistas também esvaziaram o campo de concentração de Groß-Rosen, que abrigava os prisioneiros judeus que trabalhavam na construção da cidade subterrânea. A composição da rocha das montanhas Sowie, por ser mais dura, permitia salões e túneis muito mais amplos, mas em compensação, tornava o trabalho de escavação extremamente difícil e perigoso. Um sub-campo foi construído a 700m da entrada de Osówka, o que evidencia a alta prioridade que a construção dessa cidade tinha nos planos nazistas. Os prisioneiros eram todos judeus e passavam um dia todo de trabalho sendo alimentados basicamente com sopa, três pedaços de pão e meio litro de café. A expectativa de vida de um trabalhador de Osówka girava em torno de quatro meses. Estima-se que 13.000 judeus tenham sido usados nas obras e quase 5.000 tenham morrido durante a construção dos túneis, por conta de doenças, subnutrição ou acidentes de trabalho.</p>



<p>Em outra parte do complexo, é possível ver carrinhos que rodavam sobre trilhos, usados para tirar a terra e pedra que iam sendo escavados. É até complicado imaginar as dificuldades que esses trabalhadores enfrentavam, uma vez que, mesmo anos depois, tendo uma básica infraestrutura para visitas, andar pelo complexo ainda é extremamente difícil. Uma parte do túnel está inundada e, para atravessá-la, é necessário inicialmente usar um pequeno barco e depois andar no escuro sobre pranchas de madeira porcamente equilibradas em correntes e apoios no chão. O teto às vezes é baixo, comprovando a necessidade do uso do capacete e algumas pedras estão escoradas por suportes de ferro e arame completamente oxidados, comprovando a necessidade de uma dose de vacina anti-tetânica. É também possível ver morcegos dormindo no teto, alheios à atividade turística. Após quase duas horas no claustrofóbico escuro úmido das cavernas, é inevitável sentir um alívio na visão da luz do dia na saída da cidade subterrânea. Saímos por um túnel diferente do que entramos, um pouco mais isolado na densa floresta da região, escorregando no gelo da trilha que levaria de volta ao estacionamento de Osówka.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img04-scaled.jpg" rel="lightbox[4063]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img04-1024x576.jpg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4057" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img04-scaled.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img04-scaled.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img04-scaled.jpg?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img04-scaled.jpg?resize=2048%2C1152&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img04-scaled.jpg?resize=1200%2C675&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img04-scaled.jpg?resize=1980%2C1114&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img04-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>carrinhos usados na construção dos túneis</figcaption></figure>



<p>O passeio termina com a acertada impressão que ainda há muito a se descobrir sobre o Projeto Riese. Baseado em correspondências de Albert Speer, o arquiteto nazista, alguns pesquisadores estimam que apenas 10% de todos os túneis foram descobertos até agora. No ritmo de construção que ela seguiu, acredita-se que, se a guerra durasse mais dois anos, ela estaria funcionando a todo vapor, mas provavelmente as estruturas básicas poderiam começar a serem usadas bem antes disso. Em seu livro de memórias, o arquiteto declara que a preocupação do alto comando nazista com a própria sobrevivência chegava a “níveis insanos”, o que levava ao fortalecimento dos bunkers com a mesma evolução com a qual se fortalecia o poder destrutivo dos armamentos aliados. Em Obersalzberg, a cidade tipicamente nazista retratada num dos capítulos finais da série <em>Band of Brothers</em>, um bunker subterrâneo semelhante estava sendo construído, mas nunca chegou a ser usado. Hoje é possível visitar tanto o bunker de Obersalzberg como o “Ninho de Águia”, uma residência próxima dada de presente a Hitler que se localiza no alto de uma montanha e é acessada através de um túnel e um elevador folheado a ouro.</p>



<p>Não chega a ser surpresa que os líderes nazistas tenham terminado suas vidas em bunkers subterrâneos. Já Albert Speer, o arquiteto do Projeto Riese, foi um dos nazistas condenados nos julgamentos de Nuremberg, depois da Segunda Guerra. Ele se declarou totalmente arrependido pelos crimes cometidos pelos nazistas, mas alegou total desconhecimento quanto ao extermínio em massa promovido pelo Holocausto. Para fortalecer sua imagem de “bom nazista”, ele até declarou que tinha pretensões de assassinar Hitler anos antes. O discurso de defesa é difícil de acreditar: Speer usava trabalho escravo em suas fábricas bélicas e era #BFF de Hitler. Em outro ponto de seu livro, ele declara que, ao confrontar o Führer por sua desobediência em seguir o Decreto Nero, Hitler teria dito que “Se você não fosse meu arquiteto, eu teria tomado as atitudes devidas para um caso desses”, deixando subentendido que a punição poderia ter sido bem severa. Speer, porém, colaborou com o exército aliado desde sua captura e o seu carisma e falsa candura demonstrada surtiram efeito: enquanto os demais nazistas eram mandados à forca ou à prisão perpétua, ele foi condenado a apenas 20 anos de prisão, sendo solto em 1966. Ele morreu em 1981 em Londres. Apesar de ter dois livros autobiográficos publicados, suas obras mal tocam no tema das cidades subterrâneas inacabadas.&nbsp;</p>



<p>Além da falta de informações, as buscas e pesquisas mais aprofundadas são extremamente difíceis, tanto por conta das condições atuais dos túneis conhecidos e da dificuldade prática em fazer novas escavações quanto pelas barreiras burocráticas existentes, uma vez que tudo que se encontra um metro abaixo da superfície pertence ao governo polonês.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Outros tesouros</strong></h2>



<p>Em fevereiro de 2015, a Polônia mudou levemente suas leis quanto aos tesouros encontrados debaixo do solo, alterando a recompensa do explorador que encontrar algo: o que antes se limitava a um mero honorário agora passou a ser 10% do valor do que quer que tenha sido achado. Por conta disso, grande parte do trabalho de pesquisas feito ultimamente é coordenado por equipes locais de caçadores de tesouros (eles preferem ser chamados de “exploradores”), que passam meses estudando mapas antigos e documentos abandonados pelos moradores alemães que foram expulsos das casas depois de 1945. Eles também passam tardes inteiras andando nos parques nacionais da região prestando atenção na topologia do terreno e procurando elementos que não fazem parte do cenário, como saídas de dutos de ar que possam indicar a presença de túneis submersos.</p>



<p>A busca deles é por valiosos artefatos que caíram nas mãos dos nazistas, como a “Amber Room”, uma sala inteira, com um interior ornado com painéis de ouro e âmbar que fora roubada do Palácio de São Petersburgo durante a Segunda Guerra e está desaparecida desde então. Acredita-se que ela pode estar escondida debaixo do solo da região. Somente essa sala teria hoje um valor estimado em cerca de 200 milhões de libras, então os investimentos e as apostas na busca pelos tesouros têm sido altas, dado o tamanho da recompensa. Consequentemente, atenção dada à exploração do complexo cresceu.</p>



<p>Outro exemplo de tesouro que pode ter sido escondido nos túneis é o “Nazi Gold Train”, um trem recheado de ouro, diamantes e peças de arte valiosas como tapeçarias e quadros que teriam sido tomadas de seus antigos donos, vítimas do genocídio nazista. Relatos incertos apontam que o trem foi escondido pelos alemães na região quando eles perceberam que perderiam a guerra. O fato de haver um sistema ferroviário na cidade subterrânea (mesmo que precário), seu estilo labiríntico e seus acessos destruídos antes da evacuação trazem um interesse na região. A última grande expedição em busca do tesouro aconteceu em 2016 e contou com a ajuda de detectores de metal, câmeras térmicas, radares e até apoio do governo polonês, mas nada foi encontrada ainda. Grandes emissoras internacionais como a BBC e a Discovery chegaram a patrocinar algumas equipes de exploradores na esperança de obter, além do retorno financeiro, um bom documentário.</p>



<p>E o espaço de busca também é imenso. Depois de visitar a cidade subterrânea, segui em direção ao castelo Książ, um palácio esplendoroso situado a cerca de 30 quilômetros da entrada de Osówka. Dois andares de galerias foram escavados debaixo do castelo, a mais de 60 metros de profundidade, e acredita-se que a intenção final era que todas as escavações se unissem como uma só. Isso reforça a teoria de que a cidade subterrânea poderia ser usada como sede do governo nazista, já que o castelo Książ estava sendo reformado para se tornar a residência de Adolf Hitler. O quarto que viria a ser do líder austríaco teria, inclusive, um elevador com acesso direto aos túneis, para conforto e segurança do Führer.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Książ</strong></h4>



<p>Cheguei no castelo Książ após me perder vergonhosamente na estrada &#8211; a bateria de meu telemóvel acabou e por duas vezes eu simplesmente chutei o caminho que eu deveria tomar (errei nas duas). Parei o carro no enlameado estacionamento e aproveitei o parque ao redor do castelo para comer meu almoço no meio da tarde &#8211; aquele composto de pão duro com quantidades obscenas de queijo, mas no caso o queijo já tinha se unido ao pão, formando uma massa única auto-colante na qual cada mordida levava meia hora para ser apropriadamente mastigada. Ia então eu caminhando e mastigando, como uma vaca curiosa.</p>



<p>Há diversas trilhas e caminhos acessíveis ao redor do castelo e andar por eles é delicioso, mesmo com o tempo mais frio. Książ também é evidentemente bem mais turístico, mas ele também conta um pouco de sua história debaixo do chão, inclusive destacando em alguns painéis informativos a existência de túneis. E o castelo também possui seus mistérios, um dos mais populares deles sendo o paradeiro do corpo da Princesa Daisy.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img05-scaled.jpg" rel="lightbox[4063]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="387" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img05-1024x683.jpg?resize=580%2C387" alt="" class="wp-image-4058" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img05-scaled.jpg?resize=1024%2C683&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img05-scaled.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img05-scaled.jpg?resize=1536%2C1024&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img05-scaled.jpg?resize=2048%2C1365&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img05-scaled.jpg?resize=1200%2C800&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img05-scaled.jpg?resize=1980%2C1320&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img05-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>o castelinho</figcaption></figure>



<p>Daisy de Pless, nasceu com o nome “Mary Theresa Olivia” em 1873 no País de Gales. Ela passou toda sua infância envolvida com o alto escalão da nobreza do Império Britânico, sendo inclusive próxima do rei Edward VII e de George V. Além de uma personalidade encantadora, Daisy era uma tetéia, tendo sido escolhida em 1907 como a mais bela mulher da aristocracia britânica, em algum concurso que não tenho idéia como pode ter sido desenvolvido, mas que poderia ter sido apresentado pelo Silvio Santos. Uma coisinha bonitinha dessas não fica solteira por muito tempo na nobreza, e Daisy casou-se com o germânico Hans Heinrich XV. Os dois se mudaram para Książ para Hans poder administrar as minas de carvão dele ali na Silésia e viveram aquela vida imensuravelmente rica e incrivelmente triste que só o pessoal de sangue azul é capaz de viver. Hans até presenteou a esposa com um ridiculamente caro colar de pérolas de quase sete metros. Daisy ainda mantinha um forte contato com o Império Britânico; e tendo os recentes vínculos com o Rei William II ela tentava pregar a paz com o Império Germânico. A existência da Primeira Grande Guerra é a prova que ela fracassou nessa tentativa de paz. Durante a guerra, Daisy atuou como enfermeira e destacou-se por tratar com o mesmo cuidado de soldados de ambos os lados do confronto.</p>



<p>Aos 50 anos de idade, depois da guerra, de ganhar o colar e gerar 3 filhos, Daisy e Hans se divorciaram. Era 1923 e ela continuou a viver no castelo de Książ até 1941, quando a propriedade foi confiscada pelas autoridades nazistas. Na época, a princesa e os filhos faziam oposição ao regime &#8211; um deles, inclusive foi morto durante um interrogatório um tanto mais cruel do Third Reich. Também se descobriu posteriormente que Daisy ajudava os prisioneiros do campo de concentração de Gross Rosen, contrabandeando comida para eles.</p>



<p>Ela morreu sozinha e pobre em 29 de junho de 1943, na cidade de Wałbrzych. A lenda começa aí: ela teria sido enterrada com seu colar de pérola em um mausoléu no próprio castelo mas, com a chegada do exército vermelho, ela foi transferida para um novo ponto. Esse ponto seria um suposto cemitério protestante em Szczawienek, mas as autoridades da Silésia destruíram esse cemitério na década de 80 e o corpo de Daisy teria voltado para o castelo de Książ. Um dos mistérios debaixo da terra polonesa é o corpo da princesa, que poderia ou não estar ainda com seu valioso colar &#8211; que talvez nem sete metros teria mais, já que há relatos que ela vendeu parte das pérolas quando estava na pobreza para poder sobreviver.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Deixando a Polônia</strong></h2>



<p>O castelo já estava fechando quando eu finalmente terminei minha longa visita. O estacionamento já estava praticamente vazio e o céu já estava escurecendo, mesmo sendo ainda por volta de cinco da tarde. A noite já dominava quando, depois da viagem de volta, eu devolvi o carro em Wrocław. Fui jantar em algum lugar mais bacanão, dar um último rolê no lindinho centro da cidade e descansar para pegar o ônibus na manhã seguinte em direção à Cracóvia, minha cidade favorita da Polônia, mesmo com o advento dos machetes. Na Cracóvia cortei o cabelo, passei dois dias indo esquiar no quase desconhecido complexo de Kotelnica Białczańska, comi queijos, tomei cerveja e depois fui em direção à Varsóvia, onde passei algumas horas antes de pegar o ônibus rumo a Belarus.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img01-scaled.jpg" rel="lightbox[4063]"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="435" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/img01-1024x768.jpg?resize=580%2C435" alt="" class="wp-image-4054" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img01-scaled.jpg?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img01-scaled.jpg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img01-scaled.jpg?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img01-scaled.jpg?resize=2048%2C1536&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img01-scaled.jpg?resize=1200%2C900&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img01-scaled.jpg?resize=1980%2C1485&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/img01-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a><figcaption>ói eu aí</figcaption></figure>



<p>Assisti ao superbowl em um hotel três estrelas em Minsk (algo em torno de 20€ por noite), assisti ao streaming do primeiro lançamento da Falcon Heavy na Lituânia e, já na Letônia ou Estônia, entrei em contato com o meu editor da SuperInteressante para tentar vender uma matéria sobre os tesouros enterrados na Polônia. No email, contei um pouco da cidade de Osówka e dos mistérios acerca de sua construção. Alguns dias depois ele me ligou dizendo que eles queriam a matéria, desde que o título fosse “A cidade subterrânea de Hitler”, o que me obrigou a alterar levemente a temática principal.</p>



<p>Mas dá pelo menos pra dizer que, do solo polonês, eu consegui escavar um texto.</p>



<div class="more_info">
<h3>+ More +</h3>
<p>A matéria publicada na revista <b>SuperInteressante</b> pode ser lida em:
<a href="https://super.abril.com.br/historia/a-cidade-subterranea-de-hitler/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">https://super.abril.com.br/historia/a-cidade-subterranea-de-hitler/</a></p>

<p>Para informações sobre <b>Osówka</b>: <a href="https://www.osowka.eu/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">https://www.osowka.eu/</a></p>

<p>Para informações sobre o <b>castelo Książ</b>: <a href="https://www.ksiaz.walbrzych.pl/en/turystyka/zamek" target="_blank" rel="noopener noreferrer">https://www.ksiaz.walbrzych.pl/en/turystyka/zamek</a></p>

</div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://blog.paulovelho.com/debaixo-da-polonia/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">4063</post-id>	</item>
		<item>
		<title>O Relógio</title>
		<link>https://blog.paulovelho.com/o-relogio/</link>
					<comments>https://blog.paulovelho.com/o-relogio/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Velho]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Dec 2019 03:30:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[The Clock]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://blog.paulovelho.com.br/?p=4035</guid>

					<description><![CDATA[Texto originalmente publicado no Medium, em novembro de 2018 na ocasião do primeiro fechamento do bar. Republicado agora, já que a casa reabriu e fechou de novo. Encerrou as atividades em outubro de 2018 novembro de 2019 o The Clock Rock Bar. Das 465 amizades atualmente ativas no meu Facebook, 33% podem ser agrupados na [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="long_read_container">
<div class="quadro_aviso">Texto originalmente publicado no Medium, em novembro de 2018 na ocasião do primeiro fechamento do bar.<br>
Republicado agora, já que a casa reabriu e fechou de novo.
</div>
</div>



<p>Encerrou as atividades em <del>outubro de 2018</del> novembro de 2019 o The Clock Rock Bar.</p>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="326" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/relogio-1024x575.jpeg?resize=580%2C326" alt="" class="wp-image-4041" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/relogio-scaled.jpeg?resize=1024%2C575&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/relogio-scaled.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/relogio-scaled.jpeg?resize=1536%2C863&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/relogio-scaled.jpeg?resize=2048%2C1151&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/relogio-scaled.jpeg?resize=1200%2C674&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/relogio-scaled.jpeg?resize=1980%2C1113&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/relogio-scaled.jpeg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption>foda-se, vou ficar descalço na balada, dizia a gente várias vezes.</figcaption></figure>



<p>Das 465 amizades atualmente ativas no meu Facebook, 33% podem ser agrupados na categoria “The Clock”. São 152 vidas que se interligam a mim por conta de um bar em Perdizes. Algumas dessas pessoas são estimadíssimos amigos, que eu amo de todo meu coração e confio cegamente. Alguns são pessoas que eu considero meus melhores amigos e que mesmo com a distância das idas e vindas de minha vida, sempre me senti intimamente próximo. A imensa maioria desses são amigos que eu não tenho dúvida que manterei para sempre.</p>



<span id="more-4035"></span>



<p>Eu não vou tentar explicar aos outros 2/3 dos meus contatos de Feicebuqui o que esse bar representava para mim. Palavras não serão jamais suficientes, e só quem lá frequentava pode entender esse sentimento de vazio que nos inunda no momento. Eu prefiro aproveitar a situação para refletir um pouco exatamente no vazio de um evento irremediável.</p>



<p>Todos já sentimos isso. No fim de uma faculdade, na mudança de emprego, numa mudança de cidade, numa eliminação de MasterChef porque você trocou açúcar por sal e a Paola Carossella tá até agora bebendo água, porra, como você pode estragar tudo desse jeito, ainda vai ter que conversar com a Ana Paula Padrão ali na saída e o brasil todo vai ver, que situação chata… Enfim, sempre que um ciclo se fecha de forma óbvia, com um milestone bem definido, o ser humaninho aproveita para fazer uma reflexão disso tudo que aconteceu aí.</p>



<p>A vida é feita de ciclos e é a ordem natural deles se encerrarem. O normal é que comecemos e terminemos inúmeros relacionamentos, alguns inclusive acabando de forma trágica e/ou belicosa. Até casamentos que são baseados na idéia que durarão pra sempre (em sua maioria, evidentemente — oi, Gretchen! oi, Fábio Júnior) têm, de forma cada vez mais freqüente, atingido um momento em que não dá mais, monotonia, problemas financeiros, meio pote de iogurte abandonado na sala e ela comeu de novo todo o chocolate do sorvete napolitano, mas que merda, porque não compra logo de chocolate? agora vou ter que comer sorvete de creme e morango, como se fosse uma criança de 5 anos em uma festa mal planejada de um amiguinho do pré que você nem é assim tão próximo&#8230; Casamentos chegam ao fim pelos mais variados motivos e se soa trágico que eu esteja comparando o fechamento de um bar ao fim de um matrimônio, eu quero dizer que eu sei que é exagerado, afinal a maioria dos matrimônios não tinham esse tanto de amor que eu tinha pelo The Clock, saco, vocês não entenderiam.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/miro.medium.com/max/800/0%2ABrhfQaRSEkkRii_k.jpg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/><figcaption>Ah, mas sério que eu estou de novo usando frases de uma sitcom de televisão para tentar explicar meus sentimentos? Preciso ler mais, sair da frente da TV.</figcaption></figure></div>



<p>É também da natureza humana essa idéia de que as coisas vão durar para sempre. Mesmo que nossas pretensões não sejam permanecer por muito tempo naquele trabalho ou morar por anos a fio naquele apartamento meio mofado, quando chegar a hora de se mudar de um ou de outro, vai bater aquela sensação de vazio, aquela noite que você deita na cama e fica olhando para o teto, revivendo o quanto você mudou nessa fase tal da sua vida. E se isso já é verdade para conceitos que temos como temporários, o vazio nos atinge muito mais nas coisas que julgamos que durariam para sempre.</p>



<p>Como naquela&nbsp;<em>BestFriendForever</em>&nbsp;de colégio se mudou para a Austrália, e vocês pararam de se falar de uma forma tão natural e gradual que até soaria estranho mandar um “oi, sumida”, ela nem deve lembrar de você. Amizades nascem, se fortalecem, enfraquecem e morrem de forma simplória, como siriris no começo da primavera, que você não percebe eles chegarem e nem percebe eles sumirem, de forma antônima aos sucessos do Latino que simplesmente explodem, grudam por umas semanas e se vão, rápidos como tempestades de verão. Manter amigos é um negócio difícil e requer dedicação de muitos os lados, então quando eu disse ali em cima que não tinha dúvidas que a maioria do pessoal do Clock eu manteria pra sempre, eu meio que tô me enganando, eu quero ter a companhia de todos pra toda a eternidade, mas vou deixar a vida escolher quem vai e a que momento. A vida é mais próxima do final do episódio de Chaves em Acapulco do que uma série eterna de maratonas sequenciais de Friends; que conclusão mais depressiva pra se chegar agora, desculpa, amo todos vocês e vamos ser amigos pra sempre, como os três tenores Plácido Domingo, José Carrera e Luciano Pavarotti. Prefiro viver com essa idéia. Todos preferimos, eu sei.</p>



<p>Porém, nada dura para sempre. Talvez seja a forma como eu levo a vida, morando de um a três anos em cada lugar e simplesmente jogando tudo para o alto e foda-se, vou começar do zero lá longe por motivo nenhum a não ser por eu ser um imbecil; mas eu consigo ver as coisas como temporárias e passageiras. Cada dia de verão em Berlim me soava como um dos últimos dias de verão de Berlim, primeiro porque Berlim não tem tanto verão assim, mas também porque eu não sabia quanto tempo eu ia levar pra ficar louco e tomar de novo a decisão estúpida de largar tudo e me mudar. Há um tempo que eu tento enxergar nos pequenos prazeres como coisas finitas: happy hours com os amigos, viagens, almoços em turma, noites de board game, idas ao Clock. Oras, colocando em perspectiva que a vida chega ao fim, todas essas são efetivamente atividades com um número finito de ocorrências, eu só vou ter uns 75 carnavais na vida e quase metade deles já se passaram. Só me restam umas 10 Copas do mundo pra assistir, sério que eu não vou em nenhuma? Saber enxergar a vida como uma série finita e curta de eventos é trágico, mas necessário, seja do ponto de vista social, seja do ponto de vista filosófico.</p>



<p>Por exemplo, as excelentes noites de casa lotada que o The Clock teve desde que anunciou seu fechamento. Em cada um dos amantes daquela casa bateu o desespero de perceber que o número finito de vezes que ela poderia ser frequentada era cada vez menor. De repente cada final de semana se tornou uma das últimas oportunidades que teríamos de ir lá dançar e beber, sendo que cada final de semana sempre foi uma das últimas opotunidades que teríamos de ir lá dançar e beber. A realização desse fato, com uma data de término estabelecida para o triste fechamento trouxe em todos a sensação de urgência que deveríamos levar para a vida.</p>



<p>A vida é muito curta, bicho. Temos mesmo que viajar mesmo pra Disney, temos que tocar nossos projetos, seguir nossos sonhos, desistir das aulas de alemão, afinal você não vai aprender mesmo e não vai precisar de muito mais do que&nbsp;<em>ein bier, bitte! danke schön!</em>. Nem sempre somos premiados com um comunicado de cortar o coração nos passando a data final de uma era de nossas vidas.</p>



<hr class="wp-block-separator is-style-dots"/>



<p>No meu momento de reflexão pessoal sobre os dez anos que eu frequentei esse lugar, a única conclusão possível é que eu não poderia ter terminado com um saldo mais positivo. É verdade que em 10 anos de vida, espera-se que o cidadão normal evolua e cresça como pessoa, e tendo morado em 5 países diferentes, vários empregos, aberto algumas empresas, rolado em algumas Oktoberfests e atrás de alguns queijos, enfim, atividades que moldam naturalmente o caráter do cidadão; mas eu olho para o pequeno idiota que entrou naquele bar pela primeira vez em fevereiro de 2010 (não foi essa a primeira vez, a primeira vez foi em 2006, mas foi só 2010 que eu comecei a fazer aulinhas de dança e frequentar de vez a casa) e, comparativamente com o grande idiota que saiu daquele bar pela última vez em <del>outubro de 2018</del> novembro de 2019, é possível ver um imenso abismo de diferença. E, mesmo tendo passado por inúmeras experiências de vida, eu sou ousado e pedante o suficiente para atribuir grande parte do meu amadurecimento (cof!cof!) e mudança pessoal ao The Clock Rock Bar sim.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="alignright size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1301" height="976" src="https://i2.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/tequila.jpg?fit=580%2C435" alt="" class="wp-image-4045" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/tequila.jpg?w=1301&amp;ssl=1 1301w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/tequila.jpg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/tequila.jpg?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/12/tequila.jpg?resize=1200%2C900&amp;ssl=1 1200w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption>um lugar para colocar em prática péssimas idéias</figcaption></figure></div>



<p>Essa ligação de crescimento pessoal com a casa não é nem de perto uma exceção e/ou exclusividade minha. “Qual tragédia te trouxe ao Clock?” era, afinal, uma frase não absurda de se dizer. Visto que um dos fundadores da casa era formado psicólogo, eu enxergava aquilo tudo como um grande experimento dele, sendo os clientes ratinhos de laboratório com uma míriade completíssima de distúrbios mentais e psiquiátricos: síndrome do pânico, depressão, insônia, alcoolismo, auto-depreciação, timidez extrema… Não são poucas as pessoas que viam nas noites de sexta e sábado uma fuga dos infinitos problemas que afetavam a vida. Não é raro alguém que refira-se ao The Clock como tratamento alternativo (e altamente eficaz) para suas mazelas psicológica pessoais. Encontrava-se na noite Clockiana ouvidos parceiros, ombros amigos, copos de coletivo divididos. A rotatividade do lugar já era algo marcante: tinha todo o ciclo da pessoa ir, se encantar, voltar, aprender a dançar, freqüentar para beber e treinar, se divertir, enjoar, ficar com preguiça sequencial, voltar, perceber que a turma conhecida que frequentava diminuiu sendo substituída por uma turma nova no começo do ciclo natural deles, dizer que o Clock não é mais o mesmo, e parar de frequentar com assiduidade, voltando à casa somente em ocasiões especiais. Mesmo assim, para várias pessoas, o lugar ainda era aquela segunda casa, o bar o qual você não precisaria marcar com os amigos de ir, era só ir que os amigos estariam lá. Mesmo que os clientes de um ou dois anos ainda estivessem no meio de seu ciclo, ainda havia uma gama de clientes de 10 ou mais anos que tinham essa relação toda bonita com o bar, aquele ambiente bonito e familiar, tipo os Friends com o Central Perk ou os agentes da polícia federal com os escritórios da Odebrecht, era tocante.</p>



<p>Agora, a&nbsp;<em>Grande Era The Clockiana</em>&nbsp;se encerra na vida dessas pessoas. Não só dessas, mas também de diversas outras que nem iam mais no bar, mas agora vão passar definitivamente de fase, aceitar que são idosos de alma sem pique de fugir do Netflix ou buscar uma outra diversão noturna na eternamente pulsante São Paulo (se estiverem procurando outro lugar como o Clock, não acharão).</p>



<p>A vida segue e o fim do Clock é só… bom, é só mais um fim, dentre tantos outros que ainda havemos de enfrentar em nossas vidas. Até morrermos, e tornarmos nós mesmos um fim para outrem. Uau. Profundo. Parece até episódio de Bojack Horseman.</p>



<p>A mim nada resta a não ser continuar a tocar a vida: manter contato com a galera, indo sei lá, no Vila Country ou Canto da Ema… Continuar tentando dar certo escrevendo baboseira na internet, seja seriamente com meus blogs de verdade ou só tirando pensamentos conflitantes da minha cabeça, como este texto aqui… Criando mais alguma empresa que dê certo… Estudando desenho, programação… No fundo, continuar estuando alemão também, sei que vou continuar tentando inutilmente nisso daí.</p>



<p>E sempre olhar pra trás e pra esse período com todo o carinho que ele merece. Com essa mistura de alegria com tristeza que a nostalgia nos trás e só “Inside Out” pode nos fazer entender.</p>



<p>Muito obrigado, The Clock Rock Bar.</p>



<p>Pelos melhores 10 anos da minha vida, muito obrigado.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter"><img decoding="async" src="https://miro.medium.com/max/1760/0*y-q8EXzps4haLEiO" alt=""/><figcaption>uma galera feliz, umas cenas meio borradas.. é assim que eu vou lembrar do Clock</figcaption></figure></div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://blog.paulovelho.com/o-relogio/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">4035</post-id>	</item>
		<item>
		<title>A Pedra do destino</title>
		<link>https://blog.paulovelho.com/pedra-do-destino/</link>
					<comments>https://blog.paulovelho.com/pedra-do-destino/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Velho]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Jun 2019 16:15:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cadernos Expedicionarios]]></category>
		<category><![CDATA[Curiosidades]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Viagens]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://blog.paulovelho.com.br/?p=4006</guid>

					<description><![CDATA[Como um pedaço de pedra virou um acidente diplomático no Reino Unido]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quem visita o castelo de Edinburgh tem a oportunidade de passar por uma sala na qual é possível ver as jóias da coroa em exibição. As fotos são proibidas, mas os visitantes podem ver um valiosíssimo cetro de 1494, uma reluzente coroa de 1540 e uma pedra. Um paralelepípedo de pedra tedioso, de 66cm x 42cm x 27cm, pesando cerca de 150kg, de um arenito enfadonho, com um anel de ferro em cada extremidade.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="386" src="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com.br/wp-content/uploads/2019/06/stone-scone-1.jpg?resize=580%2C386" alt="" class="wp-image-4010" srcset="https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/06/stone-scone-1.jpg?w=680&amp;ssl=1 680w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/06/stone-scone-1.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/blog.paulovelho.com/wp-content/uploads/2019/06/stone-scone-1.jpg?resize=450%2C300&amp;ssl=1 450w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption>Que belíssimo exemplar de pedra</figcaption></figure>



<p>Eu não poderia me importar menos com jóias, mesmo que elas sejam mais velhas do que o Brasil, mas a história dessa pedra é o tipo de atração turística que mereceu minha atenção.</p>



<span id="more-4006"></span>



<p>A <em>Pedra do Destino</em>, também podendo ser chamada de <em>Pedra da Coroação</em> tem sua origem no século XIV: acreditava-se que ela tenha sido usada como travesseiro pelo profeta Jacó, que provavelmente sofria de torcicolos (sério que esse cara não conhecia plumas de ganso?). Ela foi usada nas cerimônias de coroação dos monarcas escoceses por séculos. Em 1296 o rei inglês Edward I invadiu a Escócia com a intenção de punir o rei escocês John Balliol, por sua recusa de ajudar o exército britânico nas batalhas contra a França. Após vencer a batalha de Dunbar, Edward I roubou a pedra que ficava na abadia de Scone &#8211; ela pode também ser conhecida como <em>Pedra de Scone</em> (é o nome dela em inglês). A abadia hoje tem uma réplica da pedra no lugar onde ela originalmente for roubada.</p>



<p>Edward I, vitorioso, levou para Londres, onde ela foi colocada em um compartimento especialmente designado para ela, debaixo do assento do trono de coroação dos reis ingleses. A mensagem era evidente: quando um rei inglês fosse coroado, ele estaria em cima da Pedra da Coroação escocesa, de forma que ele estava sendo coroado rei da Escócia também. Desde então, todos os reis ingleses têm sido coroados sentados em cima da pedra. A cadeira e sua pedra ficavam em exposição na Abadia de Westminster, até hoje o local das cerimônias monárquicas britânicas.</p>



<p>Em 1950 um grupo de estudantes nacionalistas estavam revoltados (é parte do pré-requisito de estudantes estarem revoltados) com o domínio inglês sobre sua amada terra de uísques, kilts e monstros em lagos. Eles estavam pensando em algum símbolo, algum gesto que trouxesse o espírito nacionalista de volta aos coraçõezinhos escoceses. Provavelmente eles estavam completamente embriagados em algum pub quando eles tiveram a melhor pior idéia de todos os tempos: eles iam para Londres roubar a Pedra do Destino e trazê-la de volta para a Escócia. Os estudantes eram Ian Hamilton, Gavin Vernon, Kay Matheson e Alan Stuart. A idéia era tão ruim que eles decidiram pegar dois carros, ir pra Londres e executá-la.</p>



<p>Na noite de natal daquele ano, os três rapazes invadiram a Abadia de Westminster com um pé de cabra, enquanto Kay esperava no carro, vigiando a rua. Andaram até o trono de coroação e puxaram de lá de dentro a pedra de 150kg. Ela caiu no chão e quebrou em duas. Eles levaram primeiramente o pedaço menor até o carro, e Kay partiu em direção à Escócia com meia pedra no porta-malas. O segundo pedaço, mais pesado, levou mais tempo para ser roubado e a noite já agonizava no clarão da aurora quando Ian Hamilton colocava sozinho o resto da pedra no segundo carro.</p>



<p>Os rapazes ouviram a notícia do roubo pela BBC rádio enquanto dirigiam rumo ao norte. A polícia já tinha pistas que o roubo tinha sido efetuado por escoceses bêbados e amadores e fecharam a fronteira entre Inglaterra e Escócia pela primeira vez em 400 anos, como uma tentativa de impedir a pedra de sair. O carro de Kay passou pela fronteira sem problemas. Como diabos uma jovem estudante dirigindo sozinha teria roubado uma pedra de 150kg, afinal? Já o segundo carro provavelmente enfrentaria problemas. Os garotos, então, decidiram enterrar a pedra em um terreno próximo, para poder atravessar a fronteira.</p>



<p>Os quatro encontraram em seu retorno à Escócia um país em festa. Não havia dúvidas que uma idéia tão estúpida só poderia ter vindo de escoceses. O plano havia sido parcialmente financiado por Robert Gray, um político nacionalista escocês que adorou a ousadia dos garotos.</p>



<p>&#8211; E onde está a pedra? &#8211; imagino Gray perguntando aos estudantes em seu retorno.</p>



<p>&#8211; Enterramos em um campo próximo a Kent, antes de cruzar a fronteira.</p>



<p>&#8211; Você está me dizendo que vocês roubaram uma pedra histórica de 800 anos, que foi sempre mantida em condições ideais de preservação, e não só quebraram ela durante o roubo, mas enterraram a maior metade em um lugar aonde ela vai ser afetada por umidade e pelas ações do clima?</p>



<p>&#8211; Bom… é.</p>



<p>Depois que a fronteira foi aberta, os estudantes voltaram ao campo aonde a pedra fora enterrada. Um acampamento de ciganos estava montado no local. Negociar com ciganos deve ter sido a tarefa mais fácil de todo o plano &#8211; e finalmente a pedra foi levada para a Escócia. Robert Gray contratou um especialista para remendar a pedra, que foi posta de novo unida como um único bloco. No meio dela, antes do remendo ter sido feito, Gray escreveu uma mensagem em um papel que foi ali colocado. Até hoje, ninguém sabe o que está escrito na nota no meio da pedra.</p>



<p>A polícia inglesa não ia descansar até encontrar os responsáveis pelo roubo. Os quatro estudantes, em abril de 1951 enviaram uma mensagem às autoridades indicando o local para a recuperação do artefato: eles estariam esperando junto com a pedra no altar da Arbroath Abbey, abadia na qual em 1320 foi assinada a declaração de independência escocesa. Mais significativo, impossível.</p>



<p>Os estudantes foram acusados como responsáveis pelo crime, mas não foram punidos. O governo inglês, sabiamente, imaginava que um processo na altura iria torná-los heróis e poderia acender novamente o espírito de independência escocês.</p>



<p>A pedra retornou à abadia de Westminster em 1951. Ficou lá até 1996, quando o governo inglês decidiu “emprestar” de volta à pedra aos escoceses e ela foi levada de volta para Edinburgh, deixada em exposição na sala das jóias reais. Ficará lá, pelo menos, até a Rainha Elizabeth bater as botas, momento no qual a realeza inglesa precisará ir buscar a pedra para uma nova cerimônia de coroação britânica. Uma tradição que segue desde 1296.</p>



<p>É muito para uma pedra.</p>



<p><div class="more_info">
<h1>+ MAIS +</h1>
<h2>nRT</h2>
<b><a href="http://nrt.paulovelho.com.br/god-save-the-queen/" alt="God Save the Queen" title="God Save the Queen">God Save the Queen</a></b>, nRT sobre a rainha Elizabeth
</div></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://blog.paulovelho.com/pedra-do-destino/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">4006</post-id>	</item>
	</channel>
</rss>
