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<lastBuildDate><![CDATA[Mon, 20 Jul 2009 06:06:21 GMT]]></lastBuildDate>
<title><![CDATA[Rascunho]]></title>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net]]></link>
<description><![CDATA[Críticas Rascunho.net]]></description>
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<title><![CDATA[Teoria da Viagem]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/michel_onfray-teoria_da_viagem.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A s&amp;eacute;rie textos breves que a Quetzal tem vindo a publicar
com apreci&amp;aacute;vel regularidade, colocou-nos recentemente &amp;agrave; disposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o dois
pequenos livros de inquestion&amp;aacute;vel interesse: &lt;a href="../critica.php?id=1549" target="_blank"&gt;&lt;em&gt;Os Meus Pr&amp;eacute;mios&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;, de Thomas Bernhard, e &lt;em&gt;Teoria da Viagem &amp;ndash; Uma Po&amp;eacute;tica da Geografia&lt;/em&gt; (Abril de 2009), do
fil&amp;oacute;sofo franc&amp;ecirc;s Michel Onfray (n. 1959). Foquemo-nos no segundo. Neste breve
ensaio, Onfray come&amp;ccedil;a por estabelecer uma dicotomia ontol&amp;oacute;gica entre o n&amp;oacute;mada e
o sedent&amp;aacute;rio &amp;ndash; dois &amp;laquo;modos de estar no mundo&amp;raquo; que podem ser explicados a partir
da raiz que determinou a oposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o, nomeadamente se recorrermos &amp;agrave; tipologia
fundada no G&amp;eacute;nesis com o epis&amp;oacute;dio que tem por intervenientes o pastor Abel (n&amp;oacute;mada)
e o agricultor Caim (sedent&amp;aacute;rio). &amp;Eacute; este quem mata o primeiro, podendo a&amp;iacute;
antever-se uma esp&amp;eacute;cie de inquieta&amp;ccedil;&amp;atilde;o amea&amp;ccedil;adora que caracteriza o n&amp;oacute;mada.
Curiosamente, a condena&amp;ccedil;&amp;atilde;o divina de Caim consistir&amp;aacute; em passar o resto da vida
a errar pelo mundo. &amp;laquo;G&amp;eacute;nese da err&amp;acirc;ncia: a maldi&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;raquo; (p. 12) &amp;ndash; conclui Michel
Onfray.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Descendentes de Caim s&amp;atilde;o todos os ingovern&amp;aacute;veis, os
viajantes inquietos, as almas perdidas que o poder n&amp;atilde;o logra integrar por ser
mais forte o desejo de partir do que o conforto de assentar. Descendentes de
Caim s&amp;atilde;o os corpos associais que se movimentam no mundo de sentidos abertos
para experi&amp;ecirc;ncias novas, assimilando lugares com a mesma urg&amp;ecirc;ncia com que o
corpo assimila o alimento que o mant&amp;eacute;m vivo. Eis a pior das condena&amp;ccedil;&amp;otilde;es que
pode atingir o esp&amp;iacute;rito greg&amp;aacute;rio da alma aquietada: a err&amp;acirc;ncia, a aus&amp;ecirc;ncia de
lugar. Caim acaba fundando a sua cidade, Henoc, a qual pode hoje ser
vislumbrada em todas as cidades, aut&amp;ecirc;nticos cemit&amp;eacute;rios de maiorias que se
reproduzem nos gestos, nas palavras, nas ac&amp;ccedil;&amp;otilde;es. &amp;Eacute; preciso, pois, matar Caim,
libertar do homem o peso da maldi&amp;ccedil;&amp;atilde;o, desamarr&amp;aacute;-lo e deix&amp;aacute;-lo vogar &amp;agrave; vontade
sem mapas nem destino. Os mapas, representa&amp;ccedil;&amp;otilde;es ficcionais e ilus&amp;oacute;rias do
espa&amp;ccedil;o, s&amp;atilde;o a ferramenta de que o homem se dota para disfar&amp;ccedil;ar a sua perdi&amp;ccedil;&amp;atilde;o.
Entrar num territ&amp;oacute;rio desconhecido &amp;eacute; experimentar a ru&amp;iacute;na, &amp;eacute; lan&amp;ccedil;ar
voluntariamente o corpo numa queda da qual h&amp;aacute;-de regressar, ou n&amp;atilde;o, apenas com
a certeza de se ter, ainda que por breves momentos, realizado plenamente.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Acontece que para Onfray o desejo de viajar pressup&amp;otilde;e um
sonho, a vontade de um registo, at&amp;eacute; um decepcionante m&amp;iacute;nimo de orienta&amp;ccedil;&amp;atilde;o:
&amp;laquo;Todos os viajantes relatam as suas peregrina&amp;ccedil;&amp;otilde;es em cartas, cadernos, relatos.
Apenas um pequeno n&amp;uacute;mero quinta-ess&amp;ecirc;ncia as suas desloca&amp;ccedil;&amp;otilde;es numa antologia de
poemas. (&amp;hellip;) Depois do Atlas e o Poema, essas duas formas da sensibilidade a
posteriori, &amp;eacute; a Prosa que toma a dianteira. Esta exprime de uma outra forma,
mais t&amp;eacute;nue, mais dilu&amp;iacute;da, o que o poeta transfigura em esplendores&amp;raquo; (p. 33). O
poema ocorre, ent&amp;atilde;o, como esplendorosa capta&amp;ccedil;&amp;atilde;o da experi&amp;ecirc;ncia, talvez por no
poema a imagem continuar em movimento, a realidade n&amp;atilde;o acabar fixada, o &amp;laquo;redactor&amp;raquo; do real se confundir com um leitor da realidade que pode abrir e
fechar subjectivamente as portas que bem entender durante a sua deriva. Mas
deixemos a mem&amp;oacute;ria trabalhar, n&amp;atilde;o a perturbemos com um excesso de ind&amp;iacute;cios e
sinais que acabem barrando a verdadeira &amp;laquo;exalta&amp;ccedil;&amp;atilde;o est&amp;eacute;tica&amp;raquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Iniciar uma viagem no momento em que deixamos para tr&amp;aacute;s o
abrigo de todos os dias &amp;eacute; colocarmo-nos &amp;laquo;num entre-dois que remete para uma
l&amp;oacute;gica peculiar: j&amp;aacute; n&amp;atilde;o estamos no lugar abandonado e ainda n&amp;atilde;o estamos no
lugar desejado&amp;raquo; (p. 37). S&amp;atilde;o estes por excel&amp;ecirc;ncia os lugares da poesia. E neles
&amp;eacute; imposs&amp;iacute;vel n&amp;atilde;o notar uma equival&amp;ecirc;ncia entre o espa&amp;ccedil;o e o presente, dito na
forma agostiniana como aquele que ainda e j&amp;aacute; n&amp;atilde;o &amp;eacute;. Por&amp;eacute;m, o entre-dois
(geogr&amp;aacute;fico) de Michel Onfray remete igualmente para outras realidades.
Sugere-se a viagem em companhia, a realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o de &amp;laquo;uma verdadeira comunidade
hedonista&amp;raquo; a dois. Este a dois, sabe-o quem estiver familiarizado com a obra do
autor da &lt;em&gt;Teoria do Corpo Amoroso&lt;/em&gt;, n&amp;atilde;o prev&amp;ecirc; a ideia tradicional e burguesa de
casal. Antes prop&amp;otilde;e uma caminhada amig&amp;aacute;vel: &amp;laquo;A amizade, esse amor sem corpo,
gera um uso comum do tempo, do espa&amp;ccedil;o e da energia&amp;raquo; (p. 48). Este a dois
amig&amp;aacute;vel disponibiliza-nos para &amp;laquo;o prazer da alteridade&amp;raquo;, n&amp;atilde;o nos amarra a
obriga&amp;ccedil;&amp;otilde;es que possam reduzir uma abertura ao outro, &amp;agrave; experi&amp;ecirc;ncia do outro,
que permita &amp;laquo;inventar uma inoc&amp;ecirc;ncia&amp;raquo;, ou seja, coloca-nos perante o diferente
como a crian&amp;ccedil;a que n&amp;atilde;o questiona, n&amp;atilde;o como aquele que olha o diferente
procurando o igual, mas como aquele que se procura na diferen&amp;ccedil;a.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Eis a conclus&amp;atilde;o: &amp;laquo;Uma po&amp;eacute;tica da geografia pressup&amp;otilde;e esta
arte de deixar inebriar-se pela paisagem para em seguida cumprir o desejo de a
compreender, avaliar os seus contornos antes de partir para destinos l&amp;uacute;dicos em
que o poeta persegue o ge&amp;oacute;grafo e o fil&amp;oacute;sofo, entendido como complemento e n&amp;atilde;o
como inimigo&amp;raquo; (p. 118). S&amp;atilde;o v&amp;aacute;rios os pontos de encontro com o &amp;laquo;nomadismo
intelectual&amp;raquo; desenhado por Kenneth White, mas a preocupa&amp;ccedil;&amp;atilde;o do fil&amp;oacute;sofo franc&amp;ecirc;s
&amp;eacute; ainda e sempre com o corpo tornado lugar de experi&amp;ecirc;ncias inebriantes e
enriquecedoras, com o corpo como lugar da realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o humana a partir de uma
busca que come&amp;ccedil;a e termina na viv&amp;ecirc;ncia. Ao mesmo tempo que reivindica este &amp;laquo;corpo
solto&amp;raquo;, Onfray dispara contra as for&amp;ccedil;as poderosas que teimam em acomod&amp;aacute;-lo aos
lugares ilusoriamente confort&amp;aacute;veis da vida sedent&amp;aacute;ria. As moradas, os
endere&amp;ccedil;os, s&amp;atilde;o pris&amp;otilde;es abertas que reduzem a exist&amp;ecirc;ncia a uma vida facilmente
localiz&amp;aacute;vel. N&amp;atilde;o nos pondo a salvo, podem elas mesmas tornar-se o perigo de uma
vida passada ao lado do mundo. &amp;Eacute; certo que todo o n&amp;oacute;mada carece de um lugar
onde regressar. N&amp;atilde;o h&amp;aacute; partida sem regresso. Importa estimular a partida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yBH2LPcwAhQBcFS3tErKu_Xm-Aw/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yBH2LPcwAhQBcFS3tErKu_Xm-Aw/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yBH2LPcwAhQBcFS3tErKu_Xm-Aw/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yBH2LPcwAhQBcFS3tErKu_Xm-Aw/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1562]]></link>
<author><![CDATA[Henrique Fialho]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-07-19 12:34:49]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Manifesto da Mulher Futurista]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/valentine_de_saint-point-manifesto_da_mulher_futurista.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:WordDocument&gt; &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt; &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt; &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt; &lt;w:PunctuationKerning /&gt; &lt;w:ValidateAgainstSchemas /&gt; &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt; &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt; &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt; &lt;w:Compatibility&gt; &lt;w:BreakWrappedTables /&gt; &lt;w:SnapToGridInCell /&gt; &lt;w:WrapTextWithPunct /&gt; &lt;w:UseAsianBreakRules /&gt; &lt;w:DontGrowAutofit /&gt; &lt;/w:Compatibility&gt; &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt; &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt; &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;Valentine de Saint-Point (n. 1875 &amp;ndash; m. 1953), pseud&amp;oacute;nimo de Anna
Jeanne Valentine Marianne Desglans de Cessiat-Vercell, foi literalmente uma
mulher dos sete instrumentos. Poeta &amp;ndash; a primeira colect&amp;acirc;nea, intitulada &lt;em&gt;Po&amp;eacute;mes de la Mer et du Soleil&lt;/em&gt;, surgiu em
1905 &amp;ndash;, romancista, ensa&amp;iacute;sta, dramaturga, pintora, core&amp;oacute;grafa, entre outras
actividades que seria exaustivo enumerar, foi tamb&amp;eacute;m uma voz inconformada do
movimento futurista franc&amp;ecirc;s. Em 1912 lan&amp;ccedil;ou o &lt;em&gt;Manifesto da mulher futurista&lt;/em&gt;, seguindo-se-lhe, um ano depois, o &lt;em&gt;Manifesto futurista da Lux&amp;uacute;ria&lt;/em&gt;. Se o
primeiro surge como resposta declarada &amp;agrave; misoginia de Filippo Tommaso Marinetti
(n. 1876 &amp;ndash; m. 1944), militante fascista italiano que ficar&amp;aacute; para a hist&amp;oacute;ria
como papa do Futurismo, o segundo tem por alvo mais abrangente a moral crist&amp;atilde;,
&amp;agrave; qual devemos, entre outras pesadas heran&amp;ccedil;as, a ideia da mulher como
representa&amp;ccedil;&amp;atilde;o bestial da lux&amp;uacute;ria, um dos sete pecados capitais, que urge
domesticar. Com alvos destes, &amp;eacute; f&amp;aacute;cil adivinhar o fim reservado &amp;agrave; fundadora dos
&amp;laquo;dramas ideiistas&amp;raquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ap&amp;oacute;s tr&amp;ecirc;s rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es falhadas e uma dedica&amp;ccedil;&amp;atilde;o total &amp;agrave; escrita,
refugia-se em Espanha, partindo posteriormente para os Estados Unidos. J&amp;aacute; em
Marrocos, converte-se ao Islamismo. Instala-se no Cairo, onde vir&amp;aacute; a falecer s&amp;oacute;
e miseravelmente. Em 1947, um jornalista an&amp;oacute;nimo anunciava prematuramente a
morte de Valentine. F&amp;ecirc;-lo nestes termos: &amp;laquo;Percorrendo o simples trajecto da sua
vida sentimental, &amp;eacute; muito pouco dizer-se que Valentine de Saint-Point foi uma
mulher independente. (&amp;hellip;) Numa altura em que as mulheres podiam quando muito
aspirar &amp;agrave; categoria de poetisas (de Louise Lab&amp;eacute; a Anna de Noailles, digamos,
para resumir alguns s&amp;eacute;culos de hist&amp;oacute;ria), Valentine n&amp;atilde;o hesita em praticar
todos os g&amp;eacute;neros liter&amp;aacute;rios (poesia, romance, cr&amp;iacute;tica) e at&amp;eacute; em invadir o
dom&amp;iacute;nio art&amp;iacute;stico: teatro, pintura e gravura (exp&amp;otilde;e nomeadamente no Sal&amp;atilde;o dos
Independentes), e sobretudo a dan&amp;ccedil;a (&amp;hellip;). Os seus maiores inimigos, embora nem
sempre directamente nomeados &amp;ndash; mas haveria necessidade? &amp;ndash;, s&amp;atilde;o a moral (ou a
hipocrisia) burguesa e a moral crist&amp;atilde;&amp;raquo; (pp. 19-22).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Desenterrado pela musculatura sempre atenta da &amp;amp;etc, o &lt;em&gt;Manifesto da Mulher Futurista&lt;/em&gt; (Abril de
2009) volta a aparecer, agora acompanhado de uma introdu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fernando Cabral
Martins e v&amp;aacute;rios outros textos de interesse inquestion&amp;aacute;vel, dos quais se
destacam o &lt;em&gt;Manifesto Futurista da Lux&amp;uacute;ria&lt;/em&gt; e alguns breves ensaios sobre as inten&amp;ccedil;&amp;otilde;es da autora no dom&amp;iacute;nio das artes
performativas. Interroga-se o introdutor sobre como ler, hoje, estes textos.
Mais dados ao amorfismo do que &amp;agrave; virilidade, talvez os poss&amp;iacute;veis leitores deste
pequeno grande livro venham a manifestar aquela ambival&amp;ecirc;ncia que caracteriza os
actuais amantes de uma literatura erigida &amp;agrave; margem das conven&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Refiro-me a
um certo deslumbramento que experimenta todo aquele que tem a felicidade de
encontrar no texto a for&amp;ccedil;a que n&amp;atilde;o procura, ou da qual de desvia, em vida. No
fundo, a hipocrisia que outrora se pretendia atingida n&amp;atilde;o dista muito da mesma
hipocrisia que hoje acaba ferida nos seus recalcamentos mais dolorosos. Educados
para a servid&amp;atilde;o, muito poucos ser&amp;atilde;o aqueles que est&amp;atilde;o dispostos a hipotecar o
seu bem-estar (material e moral) em nome de uma liberdade, de uma autonomia, de
uma independ&amp;ecirc;ncia das quais podemos esperar pouco mais do que o desconforto da
solid&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O primeiro par&amp;aacute;grafo do &lt;em&gt;Manifesto
da Mulher Futurista&lt;/em&gt; &amp;eacute; bastante claro: &amp;laquo;A Humanidade &amp;eacute; med&amp;iacute;ocre. A maioria
das mulheres n&amp;atilde;o &amp;eacute; nem superior nem inferior &amp;agrave; maioria dos homens. Ambos s&amp;atilde;o
iguais. Ambos merecem o mesmo desprezo&amp;raquo; (p. 27). Alimentemos a esperan&amp;ccedil;a de, no
final, escaparmos &amp;agrave; mediocridade da maioria podendo as nossas ac&amp;ccedil;&amp;otilde;es
certificar-nos a superioridade moral dessa minoria que ainda julgamos existir
por, aqui e acol&amp;aacute;, irmos encontrando focos de resist&amp;ecirc;ncia que nos levam a tal.
Nenhum manifesto escapa, obviamente, a contradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es inerentes a toda e qualquer
tomada de posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Tomar posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o, optar, &amp;eacute; antes de mais assumir uma certa
converg&amp;ecirc;ncia na contradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a qual n&amp;atilde;o deve ser levada &amp;agrave; letra de incoer&amp;ecirc;ncia.
Incoerente &amp;eacute; o hip&amp;oacute;crita, contradit&amp;oacute;rio &amp;eacute; o humano, demasiado humano.
Super-homens s&amp;atilde;o t&amp;atilde;o raros em morte quanto imposs&amp;iacute;veis em vida.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Os manifestos de Valentine, pretendendo libertar um g&amp;eacute;nero
espec&amp;iacute;fico de amarras historicamente determinadas por modelos civilizacionais
sempre erigidos sob a &amp;eacute;gide de uma suposta palavra divina, n&amp;atilde;o se livram das
suas pr&amp;oacute;prias imposi&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Imp&amp;otilde;em uma renova&amp;ccedil;&amp;atilde;o que transcenda estere&amp;oacute;tipos
pol&amp;iacute;ticos &amp;ndash; &amp;laquo;O Feminismo &amp;eacute; um erro pol&amp;iacute;tico. O Feminismo &amp;eacute; um erro cerebral da
mulher, erro que o seu instinto reconhecer&amp;aacute;&amp;raquo; (p. 31) &amp;ndash;, imp&amp;otilde;em uma voz cruel,
violenta, viril contra o Sentimentalismo, imp&amp;otilde;em a energia do Desejo contra os
&amp;laquo;sinistros trapos rom&amp;acirc;nticos&amp;raquo;: &amp;laquo;A lux&amp;uacute;ria &amp;eacute; uma for&amp;ccedil;a porque, finalmente,
jamais conduz &amp;agrave; sensaboria do definitivo e &amp;agrave; seguran&amp;ccedil;a que d&amp;aacute; o apaziguador
sentimentalismo&amp;raquo; (p. 40). No fundo, desenterrar estes textos &amp;eacute; mais um gesto de
luta contra a hipocrisia que ainda hoje refreia quem por confessa ingenuidade
tender&amp;iacute;amos a julgar mais livres e menos superficiais. Faz-se a hist&amp;oacute;ria da
humanidade tamb&amp;eacute;m de excep&amp;ccedil;&amp;otilde;es, ostracizadas e deixadas na penumbra at&amp;eacute; que
algu&amp;eacute;m volte a torn&amp;aacute;-las apaixonadamente vivas, &amp;laquo;pois haver&amp;aacute; sempre esp&amp;iacute;ritos insubmissos
que preferir&amp;atilde;o &amp;agrave;s belas estradas os caminhos pitorescos e incertos&amp;raquo; (pp.
56-57).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/GQW0O03eMHu1J2F89qIoqAoVW94/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/GQW0O03eMHu1J2F89qIoqAoVW94/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/GQW0O03eMHu1J2F89qIoqAoVW94/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/GQW0O03eMHu1J2F89qIoqAoVW94/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1560]]></link>
<author><![CDATA[Henrique Fialho]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-07-17 00:23:06]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Sobre Teoria e Crítica Literária]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/jorge_de_sena-sobre_teoria_e_critica_literaria.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&amp;laquo;Desde o in&amp;iacute;cio da minha carreira de escritor&amp;raquo;, disse Jorge
de Sena, &amp;laquo;o poeta e o cr&amp;iacute;tico sempre foram aparecendo paralelamente&amp;raquo;. &lt;em&gt;Sobre
Teoria e Literatura Liter&amp;aacute;ria&lt;/em&gt; re&amp;uacute;ne textos publicados, entre a d&amp;eacute;cada de 40
e 70, em jornais e publica&amp;ccedil;&amp;otilde;es da especialidade. Num primeiro momento, ensaios
que equacionam a cr&amp;iacute;tica, abordando a sua eventual ci&amp;ecirc;ncia, temas como o
bin&amp;oacute;mio forma/conte&amp;uacute;do ou a tradu&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Com a habitual verrina, n&amp;atilde;o escapam
c&amp;aacute;tedras e cr&amp;iacute;ticos (t&amp;iacute;tulo de um dos ensaios) &amp;ndash; &amp;laquo;absurdo sonho de, por
decreto, garantir o exerc&amp;iacute;cio da cr&amp;iacute;tica s&amp;oacute; aos indiv&amp;iacute;duos munidos de um
diploma que os autorize a desprezar aquela ci&amp;ecirc;ncia liter&amp;aacute;ria que t&amp;atilde;o
ansiosamente prop&amp;otilde;em&amp;raquo; (p.17), famas bem ou mal conseguidas &amp;ndash; &amp;laquo;Com um
s&amp;oacute;lido crit&amp;eacute;rio selectivo, onde iriam parar as reputa&amp;ccedil;&amp;otilde;es dessa pandilha
internacional de cl&amp;aacute;ssicos que atravancam a nossa hist&amp;oacute;ria liter&amp;aacute;ria&amp;raquo; (p.13) &amp;ndash;, supostas verdades. De seguida, um grupo de ensaios de motiva&amp;ccedil;&amp;atilde;o
hisp&amp;acirc;nica &amp;ndash; &amp;laquo;Foi sempre ao contacto com a pluralidade hisp&amp;acirc;nica que
atingimos o melhor de n&amp;oacute;s mesmos.&amp;raquo; (p.155) &amp;ndash; mostra um dos mais importantes
pontos do seu ensa&amp;iacute;smo (se assim podemos falar, em t&amp;atilde;o irradiante percurso).
Adquire, na reparti&amp;ccedil;&amp;atilde;o final, particular relev&amp;acirc;ncia (para mais, em ano Poe) a
sequ&amp;ecirc;ncia que J.S. dedicou a Edgar Allan Poe, que inclui a tradu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de &lt;em&gt;A
Filosofia da Composi&amp;ccedil;&amp;atilde;o&lt;/em&gt; e um fragmento de um estudo dedicado ao autor.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Diga-se
que, nos &amp;uacute;ltimos anos, o ensa&amp;iacute;smo seniano, tem, na melhor das hip&amp;oacute;teses, enfrentado
condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es adversas. Basta pensar que esse monumento que &amp;eacute; &lt;em&gt;Literatura Inglesa &lt;/em&gt;esperou mais de vinte anos por uma reedi&amp;ccedil;&amp;atilde;o portuguesa, ou, ainda, na
inj&amp;uacute;ria, no desperd&amp;iacute;cio, que &amp;eacute; n&amp;atilde;o haver reedi&amp;ccedil;&amp;atilde;o (h&amp;aacute; anos prevista) dos
capitais &lt;em&gt;Estudos de Hist&amp;oacute;ria e de Cultura&lt;/em&gt;. Lembremos, simplesmente, a
dificuldade de acesso a tantos dos seus t&amp;iacute;tulos no dom&amp;iacute;nio do ensaio. A edi&amp;ccedil;&amp;atilde;o
de &lt;em&gt;Sobre Teoria e Cr&amp;iacute;tica Liter&amp;aacute;ria&lt;/em&gt; (a que conv&amp;eacute;m juntar &lt;em&gt;Poesia e
Cultura&lt;/em&gt;, por m&amp;atilde;o da mesma casa editorial) &amp;eacute; um passo inaugural mas decisivo
no sentido de inverter essa tend&amp;ecirc;ncia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/f1c6TwbgrEbak6ndpmDaY2r0rf0/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/f1c6TwbgrEbak6ndpmDaY2r0rf0/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1559]]></link>
<author><![CDATA[Hugo Pinto Santos]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-07-12 19:37:42]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Antigo Regime e a Revolução: Memórias Políticas (1941-1975)]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/freitas_do_amaral-o_antigo_regime_e_a_revolucao.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Filho de um deputado heterodoxo salazarista e rodeado de
conservadores, Freitas do Amaral dificilmente seria a ovelha negra da
tradicional fam&amp;iacute;lia da P&amp;oacute;voa de Varzim. Naturalmente, a maior parte das
descri&amp;ccedil;&amp;otilde;es que faz da sua inf&amp;acirc;ncia e adolesc&amp;ecirc;ncia evoca Salazar, &lt;em&gt;pai&lt;/em&gt; da
Na&amp;ccedil;&amp;atilde;o e figura omnipresente no quotidiano familiar. Freitas, em matura&amp;ccedil;&amp;atilde;o j&amp;aacute; na
fase &lt;em&gt;estacion&amp;aacute;ria&lt;/em&gt; do regime (&amp;eacute; sempre assim nos regimes ditatoriais: ascens&amp;atilde;o
com propaganda e polariza&amp;ccedil;&amp;atilde;o social; banaliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o, descr&amp;eacute;dito e despolitiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o
da sociedade; queda aparatosa do regime, j&amp;aacute; plenamente desgastado), v&amp;ecirc; Salazar
com olhos de ver. Critica o plano &amp;laquo;primeiro desenvolver e educar, depois
liberalizar&amp;raquo;, que por c&amp;aacute; n&amp;atilde;o chegou a ser posto em pr&amp;aacute;tica (Franco, o cong&amp;eacute;nere
espanhol, nisso foi mais honesto), e o saudosismo retr&amp;oacute;grado do Senhor
Professor Salazar, autor desta p&amp;eacute;rola: &amp;laquo;O contacto com os prazeres e os v&amp;iacute;cios
das cidades aniquila o senso moral, materializa o campon&amp;ecirc;s, bestializa-o.&amp;raquo; E
desta tamb&amp;eacute;m (desculpe o leitor, n&amp;atilde;o me contenho): &amp;laquo;A vida urbana e o
predom&amp;iacute;nio da grande ind&amp;uacute;stria fariam rapidamente dum povo t&amp;atilde;o desorganizado
uma massa turbulenta, invejosa, desmoralizada e sempre pronta para a revolta&amp;raquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Marcello Caetano, o substituto, tem aur&amp;eacute;ola. Freitas
conhece-o bem de Coimbra; foi seu assistente de Direito Administrativo. O autor
garante que o seu pai poder&amp;aacute; ter sido fulcral para que o indeciso Am&amp;eacute;rico Tom&amp;aacute;s
optasse por Marcello, quando lhe disse: &amp;laquo;Se o Sr. Presidente o escolher a ele
[Marcello], e ele falhar, toda a gente dir&amp;aacute; que foi culpa dele. Se o Sr.
Presidente escolher qualquer dos outros, e eles falharem, toda a gente dir&amp;aacute; que
foi culpa sua&amp;raquo;. Os outros eram da &lt;em&gt;ala dura&lt;/em&gt; e deles sobressa&amp;iacute;a Ka&amp;uacute;lza de
Arriaga. Marcello era, portanto, um potencial reformador; aos olhos de Freitas,
possivelmente um liberalizador, um Franco que suavizasse uma transi&amp;ccedil;&amp;atilde;o para a
democracia. Mas a hipnose passou-lhe cedo, com Marcello a garantir a sua
&amp;laquo;fidelidade &amp;agrave; doutrina brilhantemente ensinada pelo Dr. Salazar&amp;raquo; e a criticar
insistentemente as democracias liberais (ainda que semelhante asco dirigisse
aos totalitarismos). Queria algo interm&amp;eacute;dio, com respeito das &amp;laquo;liberdades
essenciais&amp;raquo; (vida, religi&amp;atilde;o, fam&amp;iacute;lia, propriedade) e nega&amp;ccedil;&amp;atilde;o das &amp;laquo;liberdades
instrumentais&amp;raquo; (liberdade de imprensa, partidos, sindicatos livres). O povo
chamava-lhe &amp;laquo;o Salazar que ri&amp;raquo;. Algo injustamente, sublinha Freitas, lembrando
a aposta na &amp;laquo;Ala Liberal&amp;raquo; e o desgaste causado no Presidente do Conselho pelo
Presidente da Rep&amp;uacute;blica, um ortodoxo salazarista.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Rejeitou um convite do PPD logo ap&amp;oacute;s o 25 de Abril, abra&amp;ccedil;ou
a democracia crist&amp;atilde; e ajudou a redigir o programa do Governo provis&amp;oacute;rio do MFA.
Com prest&amp;iacute;gio ineg&amp;aacute;vel junto da popula&amp;ccedil;&amp;atilde;o, foi nomeado membro do Conselho de
Estado, centro das decis&amp;otilde;es preponderantes na transi&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Critica Sp&amp;iacute;nola, um
excelente militar (essencial na desestabiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o do regime autorit&amp;aacute;rio ao fazer
publicar o seu famoso livro) mas p&amp;eacute;ssimo pol&amp;iacute;tico, por ter convocado uma
manifesta&amp;ccedil;&amp;atilde;o em favor do refor&amp;ccedil;o do seu poder de Presidente. O PCP foi
veemente: &amp;laquo;a reac&amp;ccedil;&amp;atilde;o n&amp;atilde;o passar&amp;aacute;&amp;raquo;. E n&amp;atilde;o passou. Nova crise institucional,
reequil&amp;iacute;brio de esquerda no Conselho de Estado, democracia liberal cada vez
mais dificultada. Nessa altura, o PCP jogava ainda com as for&amp;ccedil;as democr&amp;aacute;ticas
mas tinha j&amp;aacute; o &amp;laquo;companheiro Vasco&amp;raquo; a liderar o executivo: reforma agr&amp;aacute;ria e
nacionaliza&amp;ccedil;&amp;otilde;es tornaram-se leg&amp;iacute;timas aos olhos do povo; PS e PSD n&amp;atilde;o poderiam
sen&amp;atilde;o abra&amp;ccedil;ar o socialismo. O CDS-PP mantinha-se &amp;agrave; margem. &amp;laquo;Ser&amp;aacute; preciso viver
bem pouco para n&amp;atilde;o ver o socialismo em Portugal&amp;raquo;, dizia Cunhal.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Segue-se o 11 de Mar&amp;ccedil;o, tentativa de golpe militar no dia
imediatamente a seguir &amp;agrave; aprova&amp;ccedil;&amp;atilde;o, pelo MFA, do programa revolucion&amp;aacute;rio do PCP
(para al&amp;eacute;m disso, os conselheiros de Estado civis foram exonerados). Cunhal
tenta a institucionaliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o do MFA ou pacto entre os partidos para Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o
socializante. Nas ruas, PCP cada vez mais fortalecido e com propaganda intensa;
nas urnas para a Constituinte: 37 por cento para o PS, 26 por cento para o PPD e apenas 12 por cento para
o PCP. Consequ&amp;ecirc;ncias? PCP desvaloriza elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es, sobrep&amp;otilde;e o hero&amp;iacute;smo
revolucion&amp;aacute;rio do MFA &amp;agrave; vontade popular. MFA acima da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, portanto.
Cunhal cerra os punhos: &amp;laquo;O PCP insiste no esfor&amp;ccedil;o para assegurar um curso
revolucion&amp;aacute;rio tanto quanto poss&amp;iacute;vel pac&amp;iacute;fico&amp;raquo;. &amp;laquo;Tanto quanto poss&amp;iacute;vel
pac&amp;iacute;fico&amp;raquo;, retenha-se. Seguimento? PCP e outros partidos marxistas formam FUR e
criam as SUV, unidades paramilitares. A FUR, nome do novo macro-partido,
sequestra o primeiro-ministro e o Conselho de Ministros a 29 de Setembro de
1975. S&amp;atilde;o obrigados a passar a noite em cativeiro no edif&amp;iacute;cio do Conselho de
Ministros. A esposa de um deputado falece com o desespero. A &lt;em&gt;t&amp;aacute;ctica de
Petrogrado&lt;/em&gt; n&amp;atilde;o funciona; a FUR n&amp;atilde;o toma ainda o poder.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Em Aveiro, dias depois, diz a FUR: &amp;laquo;ou a burguesia nos
sufoca, ou n&amp;oacute;s tomaremos o poder&amp;raquo;. A c&amp;uacute;pula do PS, do PPD e do CDS-PP vai para
o Porto, governa a partir de l&amp;aacute; &amp;ndash; com o poder de que o povo a investiu, na
vota&amp;ccedil;&amp;atilde;o para o &amp;uacute;nico &amp;oacute;rg&amp;atilde;o leg&amp;iacute;timo do p&amp;oacute;s-25 de Abril: a Assembleia
Constituinte. Lisboa &amp;eacute; da FUR, que convoca manifesta&amp;ccedil;&amp;otilde;es atr&amp;aacute;s de
manifesta&amp;ccedil;&amp;otilde;es. O Governo, situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o in&amp;eacute;dita, entra em greve, suspende fun&amp;ccedil;&amp;otilde;es.
Este livro acaba no fat&amp;iacute;dico 25 de Novembro: sem chefia militar assumida &amp;ndash;
depois de Otelo ter aceite as amea&amp;ccedil;as do Presidente Costa Gomes &amp;ndash;, esta nova
tentativa de golpe militar (orquestrada com o apoio do MFA e do PCP) falha em
toda a linha. No momento da verdade, nem Cunhal nem ningu&amp;eacute;m do topo da pir&amp;acirc;mide
do PCP est&amp;aacute; presente: os comunistas saem a tempo de n&amp;atilde;o serem responsabilizados
e, consequentemente, ilegalizados.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;N&amp;atilde;o se espere grande prosa deste livro (bastante volumoso)
de Freitas do Amaral. O texto &amp;eacute; seco, normalmente curto e nada polido. A
linguagem &amp;eacute; terrena, pouco tratada, brejeira aqui e ali. Interessam acima de
tudo v&amp;aacute;rios relatos interessantes, de quem esteve no palco, em cena. As
in&amp;uacute;meras cita&amp;ccedil;&amp;otilde;es dos principais intervenientes e as revela&amp;ccedil;&amp;otilde;es de pormenores
privados ajudam a compor o ramalhete. No final, &amp;eacute; claro, n&amp;atilde;o se pense que se
tem em m&amp;atilde;os um documento hist&amp;oacute;rico, mas sim apenas mais um contributo para um
entendimento geral.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/-R3dWY2ASBcRXHKrW7yxwhCYw2A/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/-R3dWY2ASBcRXHKrW7yxwhCYw2A/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/-R3dWY2ASBcRXHKrW7yxwhCYw2A/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/-R3dWY2ASBcRXHKrW7yxwhCYw2A/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1558]]></link>
<author><![CDATA[Rui Passos Rocha]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-07-10 17:33:21]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Home/ Lar Doce Lar]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/ursula_meier-lar_doce_lar.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:WordDocument&gt; &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt; &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt; &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt; &lt;w:PunctuationKerning /&gt; &lt;w:ValidateAgainstSchemas /&gt; &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt; &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt; &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt; &lt;w:Compatibility&gt; &lt;w:BreakWrappedTables /&gt; &lt;w:SnapToGridInCell /&gt; &lt;w:WrapTextWithPunct /&gt; &lt;w:UseAsianBreakRules /&gt; &lt;w:DontGrowAutofit /&gt; &lt;/w:Compatibility&gt; &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt; &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt; &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt; &lt;!--
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&lt;p class="MsoNormal"&gt;A primeira longa-metragem da su&amp;iacute;&amp;ccedil;a Ursula Meier parte de um
enunciado um tanto ins&amp;oacute;lito: uma fam&amp;iacute;la (um casal e os seus tr&amp;ecirc;s filhos) vivem
isolados numa casa situada na berma de
uma auto-estrada desactivada. No entanto, fazem as suas rotinas normalmente e
poder&amp;aacute; at&amp;eacute; dizer-se que s&amp;atilde;o uma fam&amp;iacute;lia feliz, com as suas singularidades (n&amp;atilde;o
as t&amp;ecirc;m todas as fam&amp;iacute;lias?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, ap&amp;oacute;s 10 anos de uma vida tranquila, o tro&amp;ccedil;o da
auto-estrada volta a entrar em funcionamento e traz consigo a civiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o e
muitos dos seus espinhos: o barulho ensurdecedor, a polui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a claustrofobia,
o stress, etc. O argumento est&amp;aacute; pejado de met&amp;aacute;foras e carrega in&amp;uacute;meras refer&amp;ecirc;ncias
a obras dos mestres do cinema europeu, sobretudo aos franceses &amp;ndash; mesmo na
escolha dos actores principais.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;De uma maneira simplista, poder&amp;iacute;amos dizer que temos aqui
&lt;em&gt;&lt;a href="../critica.php?id=982" target="_blank"&gt;Uma Fam&amp;iacute;la &amp;agrave; Beira de Um Ataque de Nervos&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;, vers&amp;atilde;o europeia.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;Isabelle Huppert e Olivier Gourmet est&amp;atilde;o
brilhantes nos pap&amp;eacute;is de adultos e os mais novos n&amp;atilde;o se deixam ficar por menos.
Esta fam&amp;iacute;lia eremita, obrigada a ver milhares de carros e pessoas 24 horas por
dia, todos os dias, vai tentar preservar-se e resistir, mas &lt;/span&gt;nem tudo vai
evoluir como seria esperado e em situa&amp;ccedil;&amp;otilde;es limite as pessoas fazem aquilo que
nunca julgaram ser capazes. Um bom filme para questionar o que h&amp;aacute; por detr&amp;aacute;s da
cortina.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ursula Meier licenciou-se em realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o no Instituit des
Artes Diffusion, na B&amp;eacute;lgica, em 1994. Desde ent&amp;atilde;o tem trabalhado como
assistente de realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o e tamb&amp;eacute;m como realizadora de curtas-metragens. Os seus
filmes, que alteram entre a fic&amp;ccedil;&amp;atilde;o e o document&amp;aacute;rio, t&amp;ecirc;m sido distinguidos com
v&amp;aacute;rios pr&amp;eacute;mios em festivais internacionais. A
reac&amp;ccedil;&amp;atilde;o entusi&amp;aacute;stica ao seu cinema engrandeceu a reputa&amp;ccedil;&amp;atilde;o desta jovem
realizadora.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt; &lt;span&gt;&lt;em&gt;Home &amp;ndash; Lar Doce Lar&lt;/em&gt; &amp;eacute; a sua primeira
longa-metragem &lt;span&gt;e&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;j&amp;aacute;
conseguiu v&amp;aacute;rios pr&amp;eacute;mios. O filme foi ainda&lt;em&gt; &lt;/em&gt;escolhido para ser exibido
no Festival de Cannes, na Semana da Cr&amp;iacute;tica.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iO6TnMaqFs64tpAHvYP9AjyfLuI/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iO6TnMaqFs64tpAHvYP9AjyfLuI/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iO6TnMaqFs64tpAHvYP9AjyfLuI/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iO6TnMaqFs64tpAHvYP9AjyfLuI/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1557]]></link>
<author><![CDATA[Liliana Pacheco]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-07-06 20:12:18]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Ética a Nicómaco]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/aristoteles-etica_a_nicomaco.jpeg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;N&amp;atilde;o &amp;eacute; f&amp;aacute;cil determinar as raz&amp;otilde;es dessa esp&amp;eacute;cie de
imortalidade que consolida na Hist&amp;oacute;ria certas ideias, formas de pensar,
reflex&amp;otilde;es e seus respectivos autores. No Ocidente diz-se que a filosofia nasceu
na Gr&amp;eacute;cia Antiga. Justa ou injustamente, este lugar comum vai fazendo escola e
n&amp;atilde;o &amp;eacute; f&amp;aacute;cil desmont&amp;aacute;-lo junto de quem se convenceu de que antes de S&amp;oacute;crates o
que havia era mito e poesia. Plat&amp;atilde;o (428 a.C. &amp;ndash; 347 a.C.), o mestre, quis
expulsar da &lt;em&gt;Rep&amp;uacute;blica&lt;/em&gt; (ideal) essa
terr&amp;iacute;vel contamina&amp;ccedil;&amp;atilde;o do esp&amp;iacute;rito que era a poesia; Arist&amp;oacute;teles (384 a. C. &amp;ndash; 322 a. C.), o disc&amp;iacute;pulo,
preferiu escrever uma (desprezada) &lt;em&gt;Po&amp;eacute;tica&lt;/em&gt; fazendo o que toda a vida fez: sistematizar. Mas o esp&amp;iacute;rito sistematizador do Estagirita
s&amp;oacute; &amp;eacute; devidamente compreendido quando nele observamos uma vontade de aplica&amp;ccedil;&amp;atilde;o
pr&amp;aacute;tica. Ora, temos precisamente aqui o princ&amp;iacute;pio da grande empresa
aristot&amp;eacute;lica: levar o ideal &amp;agrave; ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o; ou, pelo menos, encontrar as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es que
permitam p&amp;ocirc;r em pr&amp;aacute;tica o dogma. Para nosso mal, a heran&amp;ccedil;a aristot&amp;eacute;lica acabou
por servir as estruturas morais ulteriores. Em nenhuma obra do fil&amp;oacute;sofo grego
se nota t&amp;atilde;o bem tal inspira&amp;ccedil;&amp;atilde;o como na &lt;em&gt;&amp;Eacute;tica&lt;/em&gt; que ter&amp;aacute; escrito para o seu filho Nic&amp;oacute;maco.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Nesta edi&amp;ccedil;&amp;atilde;o da &lt;em&gt;&amp;Eacute;tica
a Nic&amp;oacute;maco&lt;/em&gt; (Quetzal, Junho de 2009), traduzida, prefaciada e anotada por
Ant&amp;oacute;nio de Castro Caeiro, voltamos a ter a oportunidade de sentir um primeiro
esfor&amp;ccedil;o na forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o moral do Humano. Ao longo de dez livros, Arist&amp;oacute;teles estabelece
aquilo a que chama o Supremo Bem, questionando-se sobre o tipo de vida que pode
aproximar o homem desse fim. Rapidamente o supremo bem &amp;eacute; identificado com a
felicidade, opondo-se esta ao mero prazer por nem sempre os prazeres
propiciarem a vida feliz e encontrar-se a felicidade &amp;laquo;entre as coisas de valor
inestim&amp;aacute;vel e completas&amp;raquo;. De resto, conclui o fil&amp;oacute;sofo, nunca ningu&amp;eacute;m escolhe a
felicidade em vista da honra e do prazer e todos escolhem o prazer e a honra em
vista da felicidade. &amp;Eacute; f&amp;aacute;cil notar que o alvo de Arist&amp;oacute;teles n&amp;atilde;o &amp;eacute; diferente do
de Plat&amp;atilde;o: o corpo, esse lugar de devassid&amp;atilde;o onde os desejos e as paix&amp;otilde;es
afastam o homem da vida contemplativa. Michel Meyer sintetizou com not&amp;aacute;vel
perspic&amp;aacute;cia o tipo de pensamento moral que acabou por predominar no Ocidente a
partir destas doutrinas iniciais: &amp;laquo;Com o cristianismo, as paix&amp;otilde;es que, com
Arist&amp;oacute;teles, pod&amp;iacute;amos negociar e, com C&amp;iacute;cero, curar, tornam-se o signo do mal
radical, em suma, o pecado&amp;raquo; (in &lt;em&gt;O
Fil&amp;oacute;sofo e as Paix&amp;otilde;es&lt;/em&gt;).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Como ler hoje esta tradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o moral que desde cedo assentou
numa desconfian&amp;ccedil;a do prazer e numa perspectiva negativa das paix&amp;otilde;es, tanto
quanto procurou elogiar o autodom&amp;iacute;nio e promover a vida contemplativa? Na &lt;em&gt;&amp;Eacute;tica a Nic&amp;oacute;maco&lt;/em&gt; encontramos uma
economia das paix&amp;otilde;es, uma topologia do car&amp;aacute;cter, uma tipifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos sentimentos
e das atitudes que subjazem &amp;agrave;s ac&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Encontramos exemplos de negocia&amp;ccedil;&amp;atilde;o moral
que muitas vezes parecem reduzir as rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es entre os homens a um com&amp;eacute;rcio de
bons sentimentos, a um deve e haver de boas ac&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Tamb&amp;eacute;m &amp;eacute; curioso que o intuito
pedag&amp;oacute;gico da obra n&amp;atilde;o evite a recorr&amp;ecirc;ncia aos exemplos dos poetas e aos mitos,
tal como sucedia em Plat&amp;atilde;o, para justificar conclus&amp;otilde;es formuladas na base do
pressentimento e de premissas supostamente de acordo com uma lei divina que
jamais poder&amp;aacute; ter estado ao alcance dos humanos (mesmo dos s&amp;aacute;bios, fossem eles
Gregos ou Troianos). S&amp;oacute; h&amp;aacute;, pois, uma forma de ler hoje esta e outras obras
como esta: procurando entender criticamente o que nelas falhou enquanto
modelos.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Parece ter falhado, desde logo, a f&amp;eacute; numa possibilidade de matematiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o
do caos que &amp;eacute; a viv&amp;ecirc;ncia humana. Podemos partir do princ&amp;iacute;pio de que os homens
s&amp;atilde;o educ&amp;aacute;veis, mas informa a pr&amp;aacute;tica que &amp;eacute; pouco aconselh&amp;aacute;vel reduzir as
possibilidades do Humano a meia d&amp;uacute;zia de supostas virtudes/excel&amp;ecirc;ncias e de supostos
v&amp;iacute;cios/pervers&amp;otilde;es que se op&amp;otilde;em numa l&amp;oacute;gica nada linear no campo da ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &amp;Eacute;
verdade que Arist&amp;oacute;teles n&amp;atilde;o nega essas possibilidades, mas a obsess&amp;atilde;o com um &amp;laquo;sentido
orientador&amp;raquo; &amp;ndash; &amp;laquo;a justi&amp;ccedil;a correctiva &amp;eacute; o meio termo entre os extremos perda e
ganho&amp;raquo; (p. 125) &amp;ndash; acaba por descambar numa esp&amp;eacute;cie de &amp;laquo;sociedade comercial das
rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es humanas&amp;raquo; cujo resultado ser&amp;atilde;o generaliza&amp;ccedil;&amp;otilde;es ainda hoje bastante
discut&amp;iacute;veis. N&amp;atilde;o sabemos, por exemplo, se &amp;laquo;praticar adult&amp;eacute;rio est&amp;aacute; sempre
absolutamente errado&amp;raquo; (p.57), se &amp;laquo;todo aquele que ficou cego por causa de uma
bebedeira ou de uma outra qualquer devassid&amp;atilde;o deve ser repreendido&amp;raquo; (p. 77), se
&amp;laquo;aquele que visa sempre obter prazer e ajudar a criar uma boa disposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o sem
mais nenhum outro motivo &amp;eacute; obsequioso&amp;raquo; (p. 111), se &amp;laquo;quem se suicida atenta de
algum modo contra a pr&amp;oacute;pria honra, porque comete uma injusti&amp;ccedil;a contra o Estado&amp;raquo;
(p. 142), se &amp;laquo;ao amarem o amigo, [os homens de bem] amam o seu pr&amp;oacute;prio bem&amp;raquo; (p.
205), etc, etc, etc.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Poder&amp;atilde;o os exemplos ser meramente circunstanciais, datados e
apenas leg&amp;iacute;veis &amp;agrave; luz da &amp;eacute;poca em que foram escritos. No entanto, estamos a
falar dos pressupostos de uma moral ainda hoje reinante, da pretens&amp;atilde;o de uma
&amp;eacute;tica definidora das boas ac&amp;ccedil;&amp;otilde;es e legitimadora da censura, dos castigos e das
multas que ao longo de s&amp;eacute;culos violentaram e ainda violentam muitos seres
humanos. Estamos a falar de uma &amp;eacute;tica que instaurou a t&amp;atilde;o &amp;uacute;til no&amp;ccedil;&amp;atilde;o de perd&amp;atilde;o
e abriu caminho para as ideias da cura moral, vendo um doente em todos aqueles
que se desviassem, por excesso ou defeito, das estipuladas excel&amp;ecirc;ncias da alma
humana e de uma ideia de felicidade enquanto forma de contempla&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Estamos a
falar dos pilares da nossa civiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a qual deve repensar os seus
fundamentos a partir n&amp;atilde;o somente do que eles aparentam ser mas tamb&amp;eacute;m do que
eles tornaram poss&amp;iacute;vel. &amp;Eacute; preciso aceitar que h&amp;aacute; muitos preconceitos nestas
obras que j&amp;aacute; n&amp;atilde;o nos deviam merecer a rever&amp;ecirc;ncia que ainda hoje merecem. E &amp;eacute;
preciso ler estas obras para entender isso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/_jGV3I5or6uv0JWpENZw7g8He28/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/_jGV3I5or6uv0JWpENZw7g8He28/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/_jGV3I5or6uv0JWpENZw7g8He28/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/_jGV3I5or6uv0JWpENZw7g8He28/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1556]]></link>
<author><![CDATA[Henrique Fialho]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-07-02 19:04:23]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Coco Avant Chanel]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/coco_before_chanel_poster2.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:WordDocument&gt; &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt; &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt; &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt; &lt;w:PunctuationKerning /&gt; &lt;w:ValidateAgainstSchemas /&gt; &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt; &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt; &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt; &lt;w:Compatibility&gt; &lt;w:BreakWrappedTables /&gt; &lt;w:SnapToGridInCell /&gt; &lt;w:WrapTextWithPunct /&gt; &lt;w:UseAsianBreakRules /&gt; &lt;w:DontGrowAutofit /&gt; &lt;/w:Compatibility&gt; &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt; &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt; &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if !mso]&gt; 
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&lt;![endif]--&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Depois do aclamado &lt;em&gt;La
 Vie en Rose&lt;/em&gt;, que deu o &amp;Oacute;scar de melhor actriz a Marion
Cotillard, chega-nos mais um biopic de outra musa francesa: Coco Chanel.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;H&amp;aacute; muitos anos que se falava sobre o muito potencial que a
vida de Coco tinha para fazer ser adaptada &amp;agrave; tela&lt;/strong&gt;. No entanto (ou talvez por
isso mesmo), esta biografia concentra-se apenas nos primeiros anos da sua vida,
tendo por base o livro &lt;em&gt;A Era Chanel&lt;/em&gt;, do escritor Edmonde Charles-Roux.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt; Torna-se dif&amp;iacute;cil n&amp;atilde;o tra&amp;ccedil;ar os paralelismos com Piaf: ambas foram abandonadas e
criadas num orfanato, ambas estavam &amp;agrave; frente das conven&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais da &amp;eacute;poca em
que viveram, e at&amp;eacute; a vontade de fazer uma carreira musical as une. &lt;strong&gt;Sim, porque
Coco, a alcunha por que ficou mundialmente conhecida Gabrielle Channel, veio
dos tempos em que, juntamente com a irm&amp;atilde;, Adrienne, cantava em tabernas para
compor o m&amp;iacute;sero ordenado que ganhava como costureira durante o dia (outra
semelhan&amp;ccedil;a com a hist&amp;oacute;ria de Piaf, que ficou famosa com uma alcunha)&lt;/strong&gt;. E a maior
ambi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Gabrielle era ser uma cantora famosa.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;Eacute; nessa mesma &amp;eacute;poca que conhece &amp;Eacute;tienne Balsan, um
aristocrata bo&amp;eacute;mio que lhe promete lev&amp;aacute;-la a audi&amp;ccedil;&amp;otilde;es em Paris. Coco cedo
percebe que o seu bilhete de escape da vida que levava era n&amp;atilde;o a m&amp;uacute;sica, mas o
pr&amp;oacute;prio &amp;Eacute;tienne. Ap&amp;oacute;s o seduzir, consegue ir viver para o seu castelo, onde
convive com a alta sociedade parisiense de in&amp;iacute;cios do s&amp;eacute;culo XIX.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;No entanto,
Coco n&amp;atilde;o deixa de se revoltar com a maneira como as mulheres s&amp;atilde;o tratadas e ela
pr&amp;oacute;pria por &amp;Eacute;tienne, que se diverte a mostrar a sua ave rara aos amigos (Coco
vestia-se como um rapazinho, j&amp;aacute; que uma das suas paix&amp;otilde;es era a equita&amp;ccedil;&amp;atilde;o e os
vestidos n&amp;atilde;o eram confort&amp;aacute;veis).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt; &amp;nbsp;Numa dessas festas, onde est&amp;aacute; a ser
exibida para entreter os convidados, Coco conhece o comerciante ingl&amp;ecirc;s Arthur
Capel, alcunhado de Boy, que viria a ser o grande amor da sua vida e um
apreciador do seu esp&amp;iacute;rito livre.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;As cria&amp;ccedil;&amp;otilde;es de Chanel reflectem a sua postura: conjugar a
eleg&amp;acirc;ncia com a simplicidade, alterar o paradigma da mulher como trof&amp;eacute;u&lt;/strong&gt;. Coco foi
uma das respons&amp;aacute;veis pelo conceito da mulher moderna, que vive do seu trabalho
e veste fato.&amp;nbsp; Ainda hoje, quase dois
s&amp;eacute;culos depois, &amp;eacute; uma refer&amp;ecirc;ncia perpetuada at&amp;eacute; &amp;agrave; exaust&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;Anne Fontaine realizou uma obra discreta, elegante&lt;/strong&gt;. O sprint
final estraga um pouco o ritmo pausado e consistente que o filme carrega desde
o in&amp;iacute;cio e quando termina deixa a sensa&amp;ccedil;&amp;atilde;o de que agora &amp;eacute; que ia come&amp;ccedil;ar. Fica para
uma outra oportunidade, quem sabe.&lt;br /&gt; &lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;&lt;br /&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A n&amp;iacute;vel t&amp;eacute;cnico, impec&amp;aacute;vel: bel&amp;iacute;ssima fotografia e m&amp;uacute;sica de Alexandre
Desplat a combinar (o mesmo compositor que trabalhou com David&amp;nbsp; Fincher em &lt;em&gt;&lt;a href="../critica.php?id=1441" target="_blank"&gt;O Estranho
Caso de Benjamin Button&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;). Apesar do papel principal ter sido oferecido &amp;agrave;
brit&amp;acirc;nica Keira Knightley, Audrey Tautou foi uma escolha certeira &amp;ndash; a come&amp;ccedil;ar
nas semelhan&amp;ccedil;as f&amp;iacute;sicas e a terminar no amadurecimento que se nota no seu
desempenho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;a href="http://wwws.warnerbros.fr/cocoavantchanel/" target="_blank"&gt;S&amp;iacute;tio Oficial&lt;/a&gt; | &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt1035736/" target="_blank"&gt;IMDb&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Sz8KBVkEsdHsL4dMhPV87IguYBU/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Sz8KBVkEsdHsL4dMhPV87IguYBU/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Sz8KBVkEsdHsL4dMhPV87IguYBU/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Sz8KBVkEsdHsL4dMhPV87IguYBU/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1555]]></link>
<author><![CDATA[Liliana Pacheco]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-29 21:06:20]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A tradição anglo-americana da liberdade: Um olhar europeu]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/joao_carlos_espada-a_tradicao_anglo-americana_da_liberdade.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Este livro &amp;eacute; a compila&amp;ccedil;&amp;atilde;o de parte da bibliografia utilizada
pelo autor no Instituto de Estudos Pol&amp;iacute;ticos da Universidade Cat&amp;oacute;lica
Portuguesa, mais especificamente numa cadeira que lecciona sobre as duas
tradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es fundamentais do pensamento pol&amp;iacute;tico moderno: a anglo-sax&amp;oacute;nica e a
europeia continental (concentrada sobretudo em Fran&amp;ccedil;a e na Alemanha). No que
respeita &amp;agrave; filosofia pol&amp;iacute;tica continental, &amp;agrave; excep&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Rousseau &amp;ndash; cujo
pensamento &amp;eacute; suficientemente explanado &amp;ndash;, apenas Marx, Hegel, Nietzsche e
Maquiavel merecem notas de Jo&amp;atilde;o Carlos Espada; do outro lado contam-se os
seguintes nomes: Popper, Hayek, Berlin, Oakeshott, Strauss, Dahrendorf,
Kristol, Himmelfarb, Tocqueville, Madison, Burke, Quinton e Churchill.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A corda pende, claramente, para um lado desde o in&amp;iacute;cio, mas
o documento n&amp;atilde;o perde validade por isso. Afinal, o pr&amp;oacute;prio t&amp;iacute;tulo do livro
torna expl&amp;iacute;cito o seu prop&amp;oacute;sito: o de dar a conhecer a tradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o anglo-sax&amp;oacute;nica
da filosofia pol&amp;iacute;tica, t&amp;atilde;o esquecida que est&amp;aacute; dos manuais de Hist&amp;oacute;ria no
continente. Enquanto livro introdut&amp;oacute;rio, n&amp;atilde;o se pense que o livro de Espada &amp;eacute;
suficiente para um conhecimento pormenorizado das duas concep&amp;ccedil;&amp;otilde;es em causa. E o
autor sabe-o: no final lista uma s&amp;eacute;rie de obras daqueles autores e outras sobre
eles.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Em tra&amp;ccedil;os gerais, &lt;strong&gt;importa relevar que a filosofia pol&amp;iacute;tica
continental &amp;ndash; influenciada pelas sucessivas guerras e pela centraliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o
administrativa&lt;/strong&gt; (resultante das inst&amp;aacute;veis disposi&amp;ccedil;&amp;otilde;es geogr&amp;aacute;ficas) &amp;ndash; evoluiu de
forma diferente da brit&amp;acirc;nica, isolada geograficamente e mais est&amp;aacute;vel. A
tradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o da limita&amp;ccedil;&amp;atilde;o do poder r&amp;eacute;gio no Reino Unido data da cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Magna
Carta, em 1215; na Europa a ess&amp;ecirc;ncia do poder pol&amp;iacute;tico emanava de um controlo
central, auto-endeusado. Dadas estas disposi&amp;ccedil;&amp;otilde;es d&amp;iacute;spares, compreende-se com
relativa facilidade que o Reino Unido tenha sofrido uma &lt;em&gt;Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o Gloriosa&lt;/em&gt; &amp;ndash; pol&amp;iacute;tica, mas tamb&amp;eacute;m agr&amp;iacute;cola e industrial &amp;ndash; sem grandes transtornos sociais,
enquanto que a &lt;em&gt;Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o Francesa&lt;/em&gt; foi um movimento de ruptura das massas
contra a ordem mon&amp;aacute;rquica estabelecida.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ora, &lt;strong&gt;se a tradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o brit&amp;acirc;nica e americana (esta bebeu
daquela, pelo que podem ser, para este prop&amp;oacute;sito, aliadas) &amp;eacute; naturalmente
conservadora, ponderada e c&amp;eacute;ptica quanto &amp;agrave; possibilidade de mudan&amp;ccedil;a, a europeia
fez-se de rupturas permanentes, de instabilidade, de antitradicionalismo&lt;/strong&gt;. (O
caso franc&amp;ecirc;s ap&amp;oacute;s a Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; o exemplo superlativo disso.) Oakeshott e
Rousseau, cada um do seu lado da barricada, podem fornecer respostas. Aquele
critica o &lt;em&gt;racionalismo dogm&amp;aacute;tico&lt;/em&gt; dos que se cr&amp;ecirc;em assistidos pela Raz&amp;atilde;o,
que em si e por si &amp;eacute; factor suficiente de planifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o da utopia pol&amp;iacute;tica. Pelo
contr&amp;aacute;rio, diz, o conservador sabe &amp;ndash; por influ&amp;ecirc;ncia judaico-crist&amp;atilde; &amp;ndash; que o
Homem &amp;eacute; imperfeito e que, por isso, &amp;eacute; incapaz de conceber uma organiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o
pol&amp;iacute;tica ideal. Rousseau, por sua vez, acentua a virtude suprema da democracia,
do voto popular, da eleva&amp;ccedil;&amp;atilde;o da vontade das massas a ju&amp;iacute;zo suficiente do Bom e
do Mau em pol&amp;iacute;tica.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Assim chegamos a Leo Strauss, que nos d&amp;aacute; conta da divis&amp;atilde;o
fundamental entre as duas tradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es: &lt;strong&gt;de um lado a certeza de que h&amp;aacute; valores que
a experi&amp;ecirc;ncia humana j&amp;aacute; elevou &amp;agrave; categoria de orientadores perenes da ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o
pol&amp;iacute;tica (ou seja, h&amp;aacute; Bem e Mal universais e racionalmente alcan&amp;ccedil;&amp;aacute;veis); do
outro um relativismo &amp;eacute;tico influenciado pela teoria historicista de que os
valores das diversas sociedades s&amp;oacute; podem ser analisados correctamente em
contexto &amp;ndash; o que equivale a defender que n&amp;atilde;o h&amp;aacute; valores transtemporais
universaliz&amp;aacute;veis&lt;/strong&gt;. Desta separa&amp;ccedil;&amp;atilde;o filos&amp;oacute;fica entre as duas tradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es nasceu, do
lado brit&amp;acirc;nico, uma estrutura&amp;ccedil;&amp;atilde;o de separa&amp;ccedil;&amp;atilde;o de poderes (&lt;em&gt;rule of law&lt;/em&gt;)
limitadora da arbitrariedade contextual; e no lado continental enalteceu-se a
vontade da maioria enquanto legitimadora de toda a ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o pol&amp;iacute;tica, certa que
parecia a ideia de que a Raz&amp;atilde;o humana &amp;eacute; o cimento da sociedade ideal.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Os europeus continentais criticaram o absurdo de ser
limitada a vontade popular por uma s&amp;eacute;rie de regras institu&amp;iacute;das por uma elite,
com a justifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o de que h&amp;aacute; valores transtemporais a defender a todo o
momento; os anglo-americanos viram a fragilidade inerente &amp;agrave; concep&amp;ccedil;&amp;atilde;o
continental, permissiva de governa&amp;ccedil;&amp;otilde;es tiranas que coarctassem a liberdade.
&lt;strong&gt;Escusado ser&amp;aacute; concluir que o Reino Unido e os Estados Unidos garantiram a
defesa da liberdade popular contra abusos de poder e n&amp;atilde;o sofreram ao longo dos
&amp;uacute;ltimos s&amp;eacute;culos qualquer sobressalto de maior.&lt;/strong&gt; J&amp;aacute; no continente europeu a
evolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o foi tragicamente diversa, como sabemos.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas porque &amp;eacute; essencialmente de liberdade que falamos, parece
desde j&amp;aacute; &amp;oacute;bvio o diferente entendimento que a palavra gera nas duas
trincheiras. &lt;strong&gt;Do lado continental, liberdade &amp;eacute; a garantia ao povo de que as suas
decis&amp;otilde;es nas urnas s&amp;atilde;o o &amp;uacute;nico factor de legitima&amp;ccedil;&amp;atilde;o da governa&amp;ccedil;&amp;atilde;o subsequente;
do lado anglo-sax&amp;oacute;nico, liberdade &amp;eacute; um valor supremo, um concentrado das
liberdades civis intoc&amp;aacute;veis&lt;/strong&gt;, do que resulta a impossibilidade de qualquer
governante poder impor-se sobre a sociedade que o elegeu. A liberdade do
governante ser&amp;aacute; ent&amp;atilde;o restrita e inferior &amp;agrave; do povo que representa; j&amp;aacute; no
continente, o povo legitima pontualmente uma liberdade praticamente irrestrita
do governante. Algumas destas falhas estruturais da tradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o continental s&amp;atilde;o
escalpelizadas em &lt;em&gt;Da democracia na Am&amp;eacute;rica&lt;/em&gt;, famoso livro de Alexis de
Tocqueville.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/6uglg8mhzNUsP5S-rLFhdSnByTc/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/6uglg8mhzNUsP5S-rLFhdSnByTc/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/6uglg8mhzNUsP5S-rLFhdSnByTc/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/6uglg8mhzNUsP5S-rLFhdSnByTc/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1554]]></link>
<author><![CDATA[Rui Passos Rocha]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-29 16:35:25]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[História da Tortura]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/edward_peters-historia_da_tortura.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Enquanto historiador da exclus&amp;atilde;o, Michel Foucault tinha por
h&amp;aacute;bito enriquecer as suas narrativas com relatos pormenorizadamente s&amp;aacute;dicos das
mais violentas e escabrosas execu&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Numa das suas obras principais, o
fil&amp;oacute;sofo ocupou tr&amp;ecirc;s p&amp;aacute;ginas com o relato prolongado do supl&amp;iacute;cio de um
criminoso franc&amp;ecirc;s. O jovem foi mutilado, sentiu o &amp;oacute;leo a ferver a escorrer
pelas fendas abertas na carne, perdeu os olhos e foi puxado em direc&amp;ccedil;&amp;otilde;es
diferentes por quatro cavalos. Ao ver que o desejado desmembramento n&amp;atilde;o
ocorreu, o torturador pegou numa l&amp;acirc;mina e tratou de o esquartejar
imediatamente. O criminoso ainda estava vivo.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;N&amp;atilde;o &amp;eacute; este tipo de hist&amp;oacute;ria da tortura que Edward Peters nos
oferece neste livro. A obra, terminada j&amp;aacute; em 1985, &lt;strong&gt;passa em revista o
aparecimento da tortura nos primeiros s&amp;eacute;culos da Gr&amp;eacute;cia e Roma Antigas, o seu
desenvolvimento depois da queda do Imp&amp;eacute;rio Romano e durante a Idade M&amp;eacute;dia e,
finalmente, a forma como se foi progressivamente tornando mais rara&lt;/strong&gt; a partir
dos finais do s&amp;eacute;culo XVIII &amp;ndash; at&amp;eacute; ao recrudescimento em for&amp;ccedil;a no s&amp;eacute;culo XX.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;Peters foca-se no enquadramento jur&amp;iacute;dico da tortura e na
forma como esta foi vista ao longo do tempo.&lt;/strong&gt; Nesta perspectiva, o livro cruza a
Hist&amp;oacute;ria da tortura e do Direito com a sociologia da dor. Os relatos v&amp;iacute;vidos e
dolorosamente reais com que Foucault gostava de abrilhantar as suas obras est&amp;atilde;o
praticamente ausentes deste livro &amp;ndash; apesar de o &amp;uacute;ltimo cap&amp;iacute;tulo ter uma pequena
sec&amp;ccedil;&amp;atilde;o em que analisa, ainda que de forma r&amp;aacute;pida, as diversas t&amp;eacute;cnicas de
tortura ao longo da hist&amp;oacute;ria.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Parece pouco interessante? De facto, dificilmente esta obra
poder&amp;aacute; causar grande entusiasmo no leitor m&amp;eacute;dio. &lt;strong&gt;A abordagem ao assunto &amp;eacute;
pesada e o tema torna-se, muitas vezes, demasiado est&amp;eacute;ril.&lt;/strong&gt; Alguns cap&amp;iacute;tulos
conseguem revelar alguns pormenores interessantes e factos curiosos, mas o
livro torna-se, muitas vezes, bastante ma&amp;ccedil;ador.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;E o problema n&amp;atilde;o &amp;eacute; s&amp;oacute; do tema do livro, obviamente bastante
espec&amp;iacute;fico. &amp;Eacute; o pr&amp;oacute;prio estilo da escrita, pouco fluida e repetitiva, que torna
dif&amp;iacute;cil ao leitor interessar-se por uma obra que se vai tornando
progressivamente mais dif&amp;iacute;cil de mastigar &amp;agrave; medida que as p&amp;aacute;ginas v&amp;atilde;o passando.
&lt;strong&gt;As minud&amp;ecirc;ncias do Direito alem&amp;atilde;o do s&amp;eacute;culo XIII s&amp;atilde;o debatidas de forma minuciosa
mas cansativa e as subtilezas do processo penal romano s&amp;atilde;o esmiu&amp;ccedil;adas
pesadamente.&lt;/strong&gt; Nem todos os livros t&amp;ecirc;m de ser &lt;em&gt;blockbusters&lt;/em&gt;, mas este
aproxima-se perigosamente do registo de um ensaio acad&amp;eacute;mico puro e duro (o que
talvez fosse, afinal de contas, o objectivo de Edward Peters).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O livro est&amp;aacute; bem sustentado &amp;ndash; algo dif&amp;iacute;cil num dom&amp;iacute;nio com t&amp;atilde;o pouca
bibliografia &amp;ndash; e revela uma grande erudi&amp;ccedil;&amp;atilde;o&lt;/strong&gt; por parte do autor. Sem d&amp;uacute;vida que
&amp;eacute; importante para historiadores e soci&amp;oacute;logos. Mas &amp;eacute; complicado encontrar nele
algo que fa&amp;ccedil;a o comum leitor gastar com ele o dinheiro pedido. Mesmo quando a
aquisi&amp;ccedil;&amp;atilde;o se faz a pre&amp;ccedil;o de saldo (como foi o caso).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/7Q5pM2cQPJwqU0Ga7Vrg2fhy4Aw/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/7Q5pM2cQPJwqU0Ga7Vrg2fhy4Aw/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/7Q5pM2cQPJwqU0Ga7Vrg2fhy4Aw/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/7Q5pM2cQPJwqU0Ga7Vrg2fhy4Aw/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1553]]></link>
<author><![CDATA[Pedro Romano]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-28 18:20:28]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Um conto de duas cidades]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/charles_dickens-um_conto_de_duas_cidades.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&amp;laquo;Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a &amp;eacute;poca
da sabedoria, era a &amp;eacute;poca da loucura&amp;raquo;. Estamos em 1775. A guerra da
independ&amp;ecirc;ncia norte-americana est&amp;aacute; prestes a eclodir e, do outro lado do
Atl&amp;acirc;ntico, um pa&amp;iacute;s tumultuoso deixar&amp;aacute; de aguentar a panela de press&amp;atilde;o popular.
Duas Revolu&amp;ccedil;&amp;otilde;es v&amp;atilde;o seguir-se em cerca de 20 anos, e ambas ser&amp;atilde;o um grito
contra a opress&amp;atilde;o: a brit&amp;acirc;nica nos Estados Unidos, a mon&amp;aacute;rquica em Fran&amp;ccedil;a.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Jarvis Lorry &amp;eacute; um leal banqueiro brit&amp;acirc;nico e um solteir&amp;atilde;o de
sempre. Lucie Manette &amp;eacute; francesa, &amp;oacute;rf&amp;atilde; de m&amp;atilde;e e com o pai aprisionado junto &amp;agrave;
Bastilha. Foi Jarvis que a levou para Inglaterra, ainda crian&amp;ccedil;a; e &amp;eacute; ela que o
procura, uns 20 anos depois, para que com ela v&amp;aacute; a Fran&amp;ccedil;a, onde o pai acaba de
ser libertado. Fechado num apartamento pouco iluminado, o inocente Alexandre
Manette &amp;ndash; outrora um m&amp;eacute;dico afamado &amp;ndash; faz sapatos e para a&amp;iacute; canaliza a pouca
energia que lhe resta. O reencontro com a filha muda tudo.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Saint Antoine &amp;eacute; uma cidade-tipo, com o seu povo calejado e
abafado pelos pesados impostos que pagam o chocolate quente das manh&amp;atilde;s do
Marqu&amp;ecirc;s de Evr&amp;eacute;monde. Em troca, o magn&amp;acirc;nimo semi-deus concede o privil&amp;eacute;gio de o
povo o ver esporadicamente. Povo que carinhosamente equipara a c&amp;atilde;es ranhosos. O
desprezo &amp;eacute; m&amp;uacute;tuo e em breve ele ter&amp;aacute; de emigrar clandestinamente para escapar &amp;agrave;
Guillotine.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O sobrinho de Evr&amp;eacute;monde, Charles Darnay, abdicou dos
privil&amp;eacute;gios do sangue e rumou &amp;agrave; Inglaterra, como qualquer outro trabalhador.
Cedo se apercebeu da sua paix&amp;atilde;o pela terna Lucie, com quem viria a casar-se.
Tudo seria um mar de rosas, n&amp;atilde;o fosse Darnay receber uma carta desesperada de
Gabelle, o cobrador de impostos dos Evr&amp;eacute;monde, preso e condenado ao corte da
famosa barbeira revolucion&amp;aacute;ria.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Darnay, de bom cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o, sente-se obrigado a socorr&amp;ecirc;-lo. J&amp;aacute;
em Fran&amp;ccedil;a, a aprova&amp;ccedil;&amp;atilde;o de &amp;uacute;ltima hora de mais uma lei revolucion&amp;aacute;ria retira
humanamente a quaisquer emigrantes e descendentes de aristocratas o direito &amp;agrave;
vida. Feito prisioneiro, Darnay vir&amp;aacute; a ser ajudado pelo Dr. Manette, her&amp;oacute;i
nacional resistente &amp;agrave; antiga ordem; mas no dia seguinte ser&amp;aacute; de novo detido.
Desta vez, nada a fazer: numa carta escrita aquando do seu longo cativeiro, o
desesperado Manette descrevera com exactid&amp;atilde;o as atrocidades cometidas pelo
Marqu&amp;ecirc;s de Evr&amp;eacute;monde e pelo seu irm&amp;atilde;o (pai de Darnay) e jurava vingan&amp;ccedil;a divina
&amp;agrave; fam&amp;iacute;lia desumana. Mas eis que &amp;agrave; &amp;uacute;ltima hora, Sydney Carton, um b&amp;ecirc;bedo amigo
da fam&amp;iacute;lia que &amp;eacute; fisicamente muito semelhante a Darnay, evita o fim tr&amp;aacute;gico:
troca de roupa (e de vida) com Darnay e, heroicamente, morre em sua vez.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Este livro, um cl&amp;aacute;ssico, &amp;eacute; sobretudo um retrato animado das
mudan&amp;ccedil;as humanas imprimidas pela Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o Francesa. A sede de vingan&amp;ccedil;a
popular, que conduziu a exageros e injusti&amp;ccedil;as, condenou in&amp;uacute;meros inocentes. A
pena cr&amp;iacute;tica de Dickens parece n&amp;atilde;o entender que virtude intr&amp;iacute;nseca e imaculada
era essa da p&amp;aacute;tria da &amp;laquo;Liberdade, Igualdade, Fraternidade, ou Morte&amp;raquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/rBbsPFRFNPUYOaGVH9wN1SAA9vo/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/rBbsPFRFNPUYOaGVH9wN1SAA9vo/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/rBbsPFRFNPUYOaGVH9wN1SAA9vo/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/rBbsPFRFNPUYOaGVH9wN1SAA9vo/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1552]]></link>
<author><![CDATA[Rui Passos Rocha]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-22 14:07:55]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Firmin]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/sam_savage-firmin.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Os bons livros ficam-nos muitas vezes na mem&amp;oacute;ria por pouco
mais que uma frase, uma imagem, uma personagem. Ao terminarmos um livro podemos
aferir da sua qualidade pensando no que ele nos ofereceu para uma melhor
compreens&amp;atilde;o do passado e no que ele possa ter de exemplar para o futuro, mesmo
que a mat&amp;eacute;ria memor&amp;aacute;vel fique armazenada de uma forma t&amp;atilde;o subliminar que por
vezes se torne dif&amp;iacute;cil distinguir o que de facto estava escrito daquilo que n&amp;oacute;s
lemos. Os livros muito bons conseguem formar-nos o panorama, colocam-nos no
centro de paisagens marcantes, atiram-nos para o interior de labirintos de
ideias e de sentimentos diversos. Duvido que depois de ler &lt;em&gt;Platero e Eu&lt;/em&gt; algu&amp;eacute;m possa olhar para um burro da mesma forma que
olhava antes de ter lido o livro de Juan Ram&amp;oacute;n Jim&amp;eacute;nez. E quem pode continuar a
ver nos porcos meros porcos depois de ter lido &lt;em&gt;A Quinta dos Animais&lt;/em&gt;? &lt;em&gt;Firmin&lt;/em&gt; &amp;ndash; &lt;em&gt;Adventures of a Metropolitan Lowlife&lt;/em&gt; no original &amp;ndash; &amp;eacute; um desses livros muito bons que guardaremos para sempre, com o
qual apetece envelhecer pedindo conselhos a&amp;hellip; uma ratazana.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A breve nota biogr&amp;aacute;fica numa das badanas da edi&amp;ccedil;&amp;atilde;o
portuguesa &amp;ndash; Planeta, Janeiro de 2009 &amp;ndash; deixou-nos expectantes. Sam Savage (n.
1940) &amp;eacute; o tipo de pessoa com quem julgamos poder ter algo a aprender acerca da
vida, algo que n&amp;atilde;o passe exclusivamente pelo saber acumulado nas p&amp;aacute;ginas dos
livros. Nasceu na Carolina do Sul, doutorou-se em Filosofia, abandonou a vida
acad&amp;eacute;mica, sobreviveu como mec&amp;acirc;nico de bicicletas, carpinteiro, pescador, entre
outras actividades do g&amp;eacute;nero. O seu primeiro e, que eu saiba, &amp;uacute;nico livro &amp;eacute;
precisamente este &lt;em&gt;Firmin&lt;/em&gt;, a hist&amp;oacute;ria
da &amp;uacute;ltima ratazana de uma ninhada de 13 que uma progenitora alco&amp;oacute;lica com
apenas 12 mamilos deu ao mundo. Desde logo, fica-nos a ideia de uma hist&amp;oacute;ria de
sobreviv&amp;ecirc;ncia. Nenhum moralismo bacoco a perturbar-nos a desconfian&amp;ccedil;a. O
franzino Firmin sobrevive, como a maioria dos mortais, &amp;agrave; custa de sobras e de
alguns milagres acidentais a que vulgarmente chamamos de sorte. Mas a
sobreviv&amp;ecirc;ncia deste rato com inclina&amp;ccedil;&amp;otilde;es filos&amp;oacute;ficas n&amp;atilde;o pode ser interpretada
exclusivamente no plano material. Firmin &amp;eacute; uma magn&amp;iacute;fica f&amp;aacute;bula da
sobreviv&amp;ecirc;ncia nos campos minados da vida metropolitana, mas de uma
sobreviv&amp;ecirc;ncia absoluta, material, moral, sentimental, humana.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Em termos de representa&amp;ccedil;&amp;otilde;es simb&amp;oacute;licas, diria que toda a
humanidade pode ser reduzida ao processo de destrui&amp;ccedil;&amp;atilde;o e &amp;laquo;renova&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;raquo; que
envolve a Scollay Square. A decad&amp;ecirc;ncia da Pembroke Books, livraria onde Firmin
resolve fazer vida lendo tudo o que havia para ler, permite-nos intuir na
exist&amp;ecirc;ncia desta admir&amp;aacute;vel criatura velhas inquieta&amp;ccedil;&amp;otilde;es existenciais e sociais
que aqui aparecem retratadas numa esp&amp;eacute;cie de balan&amp;ccedil;a que faz equilibrar ironia
e desespero. O desassossego de Sam Savage &amp;eacute; o de todos aqueles que &amp;agrave;s tantas
olham para a realidade e querem acreditar que o que est&amp;atilde;o ver n&amp;atilde;o passa de
fic&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &amp;laquo;Se uma educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o liter&amp;aacute;ria serve para alguma coisa, &amp;eacute; para nos fornecer
um sentido de fatalidade&amp;raquo; (p. 41). Este &lt;em&gt;sentido
de fatalidade&lt;/em&gt; n&amp;atilde;o impede o sonho, antes o torna necess&amp;aacute;rio; este &lt;em&gt;sentido de calamidade&lt;/em&gt; tornar-nos-&amp;aacute;,
certamente, mais ambivalentes, mas resulta numa incondicional revaloriza&amp;ccedil;&amp;atilde;o da
exist&amp;ecirc;ncia. O problema surge quando a necessidade do sonho parece imposs&amp;iacute;vel de
satisfazer. A&amp;iacute;, o &lt;em&gt;sentido de fatalidade&lt;/em&gt; torna-se fatal, o pavor que passamos a ter do mundo volta-se contra n&amp;oacute;s,
transforma-se rapidamente num incontrol&amp;aacute;vel pavor de n&amp;oacute;s pr&amp;oacute;prios e afasta-nos
dos espelhos &amp;ndash; os outros? &amp;ndash; &lt;span&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;como o diabo
da cruz.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Firmin &amp;eacute; uma ratazana obstinada, n&amp;atilde;o desiste de uma rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o de amizade
com um ser humano. Conseguindo concretizar tal aspira&amp;ccedil;&amp;atilde;o t&amp;atilde;o idiota, n&amp;atilde;o despreza
a consci&amp;ecirc;ncia das limita&amp;ccedil;&amp;otilde;es que tornam o facto numa p&amp;aacute;lida realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o do que
ambicionava. Afinal, para Jerry Magoon, o escritor marginal que adopta Firmin, este
nunca passar&amp;aacute; de um animal engra&amp;ccedil;ado. &amp;laquo;O amor n&amp;atilde;o correspondido &amp;eacute; mau, mas o
amor imposs&amp;iacute;vel de ser correspondido d&amp;aacute; cabo de n&amp;oacute;s&amp;raquo; (p. 64). Para l&amp;aacute; das
m&amp;uacute;ltiplas refer&amp;ecirc;ncias, do tom culto que tinge a narrativa, para l&amp;aacute; da ironia
permanente e de uma implac&amp;aacute;vel auto-deprecia&amp;ccedil;&amp;atilde;o que nos afecta ami&amp;uacute;de como
lan&amp;ccedil;as imagin&amp;aacute;rias vindas do fundo dos nossos mais &amp;iacute;ntimos recalcamentos, a
hist&amp;oacute;ria de Firmin &amp;eacute; n&amp;atilde;o s&amp;oacute; a hist&amp;oacute;ria de um &lt;em&gt;n&amp;aacute;ufrago sobrevivente&lt;/em&gt; mas tamb&amp;eacute;m a hist&amp;oacute;ria de um anjo da guarda, de
um desses anjos da guarda que nos acompanham em profunda solid&amp;atilde;o e conseguem
mudar a nossa vida sem alimentarem grandes fantasias quanto a amores
imposs&amp;iacute;veis de ser correspondidos. A poesia deste Firmin &amp;eacute;, de facto, para
comer. Mas como quem alimenta os sonhos comendo a pr&amp;oacute;pria solid&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iVCK2MTt0ZoAzh2S8KUPqoINUb4/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iVCK2MTt0ZoAzh2S8KUPqoINUb4/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iVCK2MTt0ZoAzh2S8KUPqoINUb4/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/iVCK2MTt0ZoAzh2S8KUPqoINUb4/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1551]]></link>
<author><![CDATA[Henrique Fialho]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-17 19:05:27]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[National Geographic: Inside North Korea]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/inside_north_corea.JPG'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Bem-vindos ao buraco negro da Terra. N&amp;atilde;o h&amp;aacute; organismo
internacional ou servi&amp;ccedil;o secreto que possua mais do que informa&amp;ccedil;&amp;otilde;es b&amp;aacute;sicas
sobre o dia-a-dia na Coreia do Norte. Bem, talvez a China, mas at&amp;eacute; com os
vizinhos do Norte o regime de Pyongyang parece ter cortado rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es quase
integralmente. Entrar no pa&amp;iacute;s de Kim Jong-Il &amp;eacute;, portanto, coisa reservada para
diplomatas ou prestadores de servi&amp;ccedil;os ocasionais.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Lisa Ling, irm&amp;atilde; da rec&amp;eacute;m-detida (e atirada para um campo de
concentra&amp;ccedil;&amp;atilde;o para os pr&amp;oacute;ximos 12 anos) Laura Ling, estava disposta a arriscar.
At&amp;eacute; ent&amp;atilde;o, os poucos v&amp;iacute;deos sobre o pa&amp;iacute;s chegados ao Ocidente eram pura
propaganda paga pelo regime, mostrando est&amp;aacute;tuas majestosas, edif&amp;iacute;cios enormes e
jardins bel&amp;iacute;ssimos. Lisa queria mostrar ao mundo o que h&amp;aacute; para al&amp;eacute;m disso. &lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;strong&gt;&amp;laquo;In North Korea, little is just what it
seems&amp;raquo;&lt;/strong&gt;, dir&amp;aacute; ela no document&amp;aacute;rio filmado para a National Geographic.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas como entrar no pa&amp;iacute;s? Fez-se assistente de um
oftalmologista nepal&amp;ecirc;s seu conhecido, que acabara de ser contratado pelo Estado
norte-coreano para curar as cataratas a milhares de pessoas. &lt;strong&gt;Num pa&amp;iacute;s com 40 por cento
de crian&amp;ccedil;as malnutridas &lt;/strong&gt;(que s&amp;atilde;o mais baixas e 10 quilos mais leves do que as
vizinhas do Sul), a doen&amp;ccedil;a afecta 10 vezes mais pessoas do que no Ocidente, mas
a incid&amp;ecirc;ncia na popula&amp;ccedil;&amp;atilde;o mais jovem &amp;eacute; muit&amp;iacute;ssimo superior.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ainda que boa parte do document&amp;aacute;rio se centre no trabalho do
oftalmologista, entrevistas a desertores (na China e na Coreia do Sul),
&lt;strong&gt;filmagens no lado Sul do Paralelo 38 e imagens n&amp;atilde;o autorizadas comp&amp;otilde;em a
narrativa e d&amp;atilde;o um melhor vislumbre da realidade&lt;/strong&gt;. Ficamos, por exemplo, a saber
que os quartos do hotel onde Lisa foi colocada t&amp;ecirc;m estantes com livros, ainda
que apenas as dezenas publicadas por Kim Il-Sung, pai do actual Querido L&amp;iacute;der e
literalmente Deus para o povo.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Sem internet nem telem&amp;oacute;veis e apenas com as fontes de
informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o estatais, &lt;strong&gt;os norte-coreanos s&amp;atilde;o doutrinados desde a nascen&amp;ccedil;a para
venerar os libertadores da Coreia do Norte, o Pai-Deus e o filho Kim Jong-Il&lt;/strong&gt;,
seguidor do trabalho miraculoso daquele. Muitos n&amp;atilde;o sabem sequer que o Homem
chegou &amp;agrave; Lua em 1969, mas todos sabem que os norte-americanos s&amp;atilde;o criminosos
imperialistas e que, por terem sido os causadores da divis&amp;atilde;o da Coreia,
deveriam ser erradicados do mapa. (Na verdade, os Estados Unidos protegeram a
Coreia do Sul de uma invas&amp;atilde;o comunista liderada por Il-Sung. A reac&amp;ccedil;&amp;atilde;o
norte-americana foi brutal: destruiu com bombas de napalm 18 das 22 principais
cidades da Coreia do Norte.)&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Sobre isto o final do document&amp;aacute;rio &amp;eacute; revelador: centenas de
pessoas curadas agradecem a Kim Jong-Il (n&amp;atilde;o ao oftalmologista) pelo milagre de
as permitir ver o seu retrato de novo. Um homem, provavelmente septuagen&amp;aacute;rio,
diz mesmo: &amp;laquo;Com estes olhos que acabo de receber vou pegar numa arma, matar
todos os inimigos americanos e varr&amp;ecirc;-los de uma vez por todas desta Terra&amp;raquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Apesar de governar segundo a filosofia de auto-sufici&amp;ecirc;ncia e
orgulho nacionalista institu&amp;iacute;da pelo pai, Kim Jong-Il &amp;eacute;, sabe-se, o maior
importador individual de conhaque do mundo, bem como dono de 100 limusinas e
coleccionador de mais de 20 mil filmes &amp;ndash; a grande maioria de Hollywood. &lt;strong&gt;O
ex&amp;eacute;rcito nacional &amp;eacute; o maior do mundo, com cerca de um milh&amp;atilde;o de militares, e o
programa nuclear &amp;eacute; suficientemente amplo para provocar o receio Ocidental.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Hospitais apinhados de pacientes n&amp;atilde;o t&amp;ecirc;m equipamentos
b&amp;aacute;sicos e frequentemente operam sem anestesia. Nas ruas poucos ve&amp;iacute;culos
circulam, mas abundam as est&amp;aacute;tuas do pai e do filho pr&amp;oacute;digos. &lt;strong&gt;A fome, realidade
quotidiana sobretudo fora de Pyongyang, &amp;eacute; ainda mais gritante nos campos de
concentra&amp;ccedil;&amp;atilde;o (muitos dos quais do tamanho de cidades)&lt;/strong&gt;, repletos de pessoas que
nada fizeram contra o regime: o crime de muitos &amp;eacute; serem familiares (directos ou
n&amp;atilde;o) de pessoas que atentaram contra a Situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No Paralelo 38, linha que divide Norte e Sul, a ironia das circunst&amp;acirc;ncias
&amp;eacute; gritante: os habitantes de uma modesta vila sul-coreana que faz fronteira com
o Norte t&amp;ecirc;m o privil&amp;eacute;gio de olhar para os majestosos edif&amp;iacute;cios da cidade
norte-coreana sua vizinha. No Sul, uma bandeira hasteada a n&amp;atilde;o mais do que 10
metros da superf&amp;iacute;cie; no Norte, 160 metros, recorde mundial. Cereja no topo do
bolo? Todos os edif&amp;iacute;cios dessa cidade da Coreia do Norte s&amp;atilde;o meras fachadas.
N&amp;atilde;o h&amp;aacute; viv'alma ali. Potemkin ficaria orgulhoso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Qod71ZDdVt1l_H4tPcI3FnGQ9Pk/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Qod71ZDdVt1l_H4tPcI3FnGQ9Pk/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Qod71ZDdVt1l_H4tPcI3FnGQ9Pk/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Qod71ZDdVt1l_H4tPcI3FnGQ9Pk/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1550]]></link>
<author><![CDATA[Rui Passos Rocha]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-10 22:06:49]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Os Meus Prémios]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/thomas_bernhard-os_meus_premios.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:WordDocument&gt; &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt; &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt; &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt; &lt;w:PunctuationKerning /&gt; &lt;w:ValidateAgainstSchemas /&gt; &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt; &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt; &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt; &lt;w:Compatibility&gt; &lt;w:BreakWrappedTables /&gt; &lt;w:SnapToGridInCell /&gt; &lt;w:WrapTextWithPunct /&gt; &lt;w:UseAsianBreakRules /&gt; &lt;w:DontGrowAutofit /&gt; &lt;/w:Compatibility&gt; &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt; &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt; &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;em&gt;&amp;laquo;Escrito entre princ&amp;iacute;pios de 1980 e fins de 1981&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.149), &lt;em&gt;Os Meus Pr&amp;eacute;mios&lt;/em&gt; &amp;eacute; a primeira obra p&amp;oacute;stuma de Thomas Bernhard.
Contou com a tradu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Jos&amp;eacute; A. Palma Caetano, autor, igualmente, do posf&amp;aacute;cio,
ao qual se junta uma nota assinada pelo editor alem&amp;atilde;o, Raimund Fellinger. O
volume inclui, ainda, o texto das alocu&amp;ccedil;&amp;otilde;es proferidas durante as cerim&amp;oacute;nias de
entrega dos respectivos galard&amp;otilde;es.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Com a aspereza e a virul&amp;ecirc;ncia que s&amp;oacute; poder&amp;iacute;amos descobrir nele,
Thomas Bernhard escreve sobre &lt;em&gt;&amp;laquo;9 pr&amp;eacute;mios de 12 ou 13&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.146) (como
escreveria, num apontamento citado por Fellinger), que n&amp;atilde;o teve a honra de
ganhar. Ao longo do seu escrito, T.B. mostra todo o seu desprezo, ou o desprezo
que gostaria de sentir, pela &lt;em&gt;&amp;laquo;chamada honra&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.122). &lt;em&gt;&amp;laquo;Todas as
honras&amp;raquo;&lt;/em&gt;, dir&amp;aacute;, &lt;em&gt;&amp;laquo;j&amp;aacute; ent&amp;atilde;o eram para mim suspeitas&amp;raquo;&lt;/em&gt; (id.). A &lt;em&gt;&amp;laquo;&amp;uacute;nica
resposta&amp;raquo;&lt;/em&gt;, defende, cortante, &lt;em&gt;&amp;laquo;&amp;eacute; a de rejeitar todas as honras&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.110). Numa das suas alocu&amp;ccedil;&amp;otilde;es, ali&amp;aacute;s, diria mesmo: &lt;em&gt;&amp;laquo;N&amp;atilde;o h&amp;aacute; nada a louvar,
nada a condenar, nada a acusar, mas h&amp;aacute; muita coisa rid&amp;iacute;cula; tudo &amp;eacute; rid&amp;iacute;culo,
quando se pensa na &lt;/em&gt;morte&lt;em&gt;&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.133). O seu desd&amp;eacute;m vai a ponto de
apoucar a mera formalidade do papelucho &amp;ndash; &lt;em&gt;&amp;laquo;o chamado diploma do pr&amp;eacute;mio, cuja
falta de gosto, como a de todos os outros diplomas de pr&amp;eacute;mios que recebi, era
inexced&amp;iacute;vel&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.16). De resto, comenta mesmo, &lt;em&gt;&amp;laquo;j&amp;aacute; n&amp;atilde;o tenho todos os
outros diplomas de pr&amp;eacute;mios, perderam-se no decorrer dos anos&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.48).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Com um pragmatismo que seria frieza oportunista noutros,
Thomas Bernhard compreende nos pr&amp;eacute;mios que foi recebendo um bote de salvamento,
no amea&amp;ccedil;o de naufr&amp;aacute;gio em que parecia sempre viver. Bernhard n&amp;atilde;o envereda no
subterf&amp;uacute;gio: para ele, os pr&amp;eacute;mios representam, mais do que o reconhecimento, ou
a honra, que n&amp;atilde;o h&amp;aacute;, a recompensa por uma vida de desgaste verbal, destempero
existencial, a paga por uma exist&amp;ecirc;ncia no sop&amp;eacute; escavado da morte &amp;ndash; &amp;laquo;o homem
deve aceitar sempre dinheiro onde lho ofere&amp;ccedil;am e n&amp;atilde;o deve nunca perder muito
tempo a pensar como e donde &amp;eacute; que ele vem, todas essas considera&amp;ccedil;&amp;otilde;es s&amp;atilde;o sempre,
afinal, apenas uma refinada hipocrisia&amp;raquo; (p.95). Algo que n&amp;atilde;o o impede de
postular que &lt;em&gt;&amp;laquo;Os poetas e escritores n&amp;atilde;o devem ser subsidiados e muito menos
por uma academia subsidiada, mas sim estar entregues a si pr&amp;oacute;prios.&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.140)
A sua lhaneza, ao tratar estas mat&amp;eacute;rias, vai ao ponto da assumida confiss&amp;atilde;o &amp;ndash; &lt;em&gt;&amp;laquo;em
todos esses anos em que ainda me chegaram pr&amp;eacute;mios, fui realmente demasiado
fraco para dizer que n&amp;atilde;o&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.109). Escritos com desconcertante honestidade,
os documentos contidos em &lt;em&gt;Os Meus Pr&amp;eacute;mios&lt;/em&gt; revelam um autor consciente do
mundo &amp;agrave; sua volta e dos seus pr&amp;oacute;prios conseguimentos, mas, curiosamente (ou n&amp;atilde;o),
inseguro &amp;ndash; &lt;em&gt;&amp;laquo;as pessoas notam agora que eu venho da &amp;Aacute;ustria, um lugar que
fica l&amp;aacute; em cascos-de-rolha.&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.59) &amp;ndash;, na sua &amp;acirc;nsia (apesar de tudo) de eco
p&amp;uacute;blico &amp;ndash; &lt;em&gt;&amp;laquo;em segredo desprezava os austr&amp;iacute;acos, que at&amp;eacute; ent&amp;atilde;o nunca me
tinham manifestado nem um vislumbre sequer de reconhecimento&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.58) &amp;ndash;, que,
escarninho, quantas vezes, vilipendiou.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;As cal&amp;ccedil;as e o pul&amp;ocirc;ver que T. Bernhard apresenta como sua
indument&amp;aacute;ria durante um quarto de s&amp;eacute;culo acabam por funcionar como met&amp;aacute;fora da
pele que o artista despe para encarar toda essa sociedade de &lt;em&gt;&amp;laquo;minhocas
intelectuais&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.141). O fato que compra, no primeiro texto aqui recolhido,
&amp;eacute; emblema da sua in&amp;eacute;pcia perante os holofotes, as medalhas do poder, o fausto
oco das academias. Impag&amp;aacute;vel, de resto, &amp;eacute; esse seu relato relativo ao Pr&amp;eacute;mio
Grillparzer. O escritor v&amp;ecirc;-se na necessidade de adquirir novos atavios e deixar
a sua costumeira vestimenta. Mas, mesmo arvorando novos trapos, foi capaz de
transpor os limites da Academia (nem de prop&amp;oacute;sito&amp;hellip;) das Ci&amp;ecirc;ncias, instalar-se &amp;ndash;
&amp;laquo;na d&amp;eacute;cima ou d&amp;eacute;cima primeira fila&amp;raquo; (p.13) &amp;ndash;, sem que ningu&amp;eacute;m o recebesse (a si
e &amp;agrave; tia, que o acompanhava, neste como noutros p&amp;eacute;riplos), ou sequer o
reconhecesse. E, desde logo, assoma, nas suas palavras, o instant&amp;acirc;neo, colhido &lt;em&gt;in
loco&lt;/em&gt;, a captar a estupidez do poder &amp;ndash; o bronco presidente que quer &amp;agrave; for&amp;ccedil;a
Bernhard no palanque, mas a quem o escritor, orgulhoso, por fim, exige o convite
pessoal, a emendar a falta de recep&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;ndash;, a alarvidade da autoridade &amp;ndash; a
ministra que dorme e ressona, baixinho.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Os amargos e abespinhados considerandos de Bernhard &amp;ndash; que
nunca perde a compostura, nem o humor &amp;ndash; acerca dos desfeitos contidos nas
premia&amp;ccedil;&amp;otilde;es estendem-se, por exemplo, ao Pr&amp;eacute;mio Nacional Austr&amp;iacute;aco da
Literatura, o &lt;em&gt;&amp;laquo;Pequeno Pr&amp;eacute;mio&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.73), como diz o autor, lembrando, com
l&amp;uacute;cida amargura, que estava &lt;em&gt;&amp;laquo;a receber um pr&amp;eacute;mio que devia ser reservado aos
que andavam pelos vinte anos&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.74), quando j&amp;aacute; contava 36. A humilha&amp;ccedil;&amp;atilde;o,
por&amp;eacute;m, n&amp;atilde;o ficaria por esta mera alfinetada. Sentado, preso &lt;em&gt;&amp;laquo;por cintos
invis&amp;iacute;veis&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.88), o autor, &lt;em&gt;&amp;laquo;condenado &amp;agrave; imobilidade&amp;raquo;&lt;/em&gt; (id.), teve
de ouvir, da parte dos poderosos e ignaros, as baboseiras, erradas baboseiras,
para mais, sobre a sua pessoa. Por fim, apenas porque questionou o Estado,
porque o submeteu &amp;agrave; sua encrespada an&amp;aacute;lise, na alocu&amp;ccedil;&amp;atilde;o que proferiu &amp;ndash; &amp;laquo;O
Estado &amp;eacute; uma estrutura que est&amp;aacute; permanentemente condenada ao fracasso, o povo
uma outra condenada ininterruptamente &amp;agrave; inf&amp;acirc;mia e &amp;agrave; imbecilidade&amp;raquo; (p.137) &amp;ndash;,
viu-se impedido de prosseguir, alvo de torpes ralhetes, enxovalhado nos jornais
&amp;ndash; &amp;laquo;Um jornal de Viena, que se chamava &lt;em&gt;Wiener Montag&lt;/em&gt;, escreveu na
primeira p&amp;aacute;gina que eu era um percevejo que tinha de ser exterminado.&amp;raquo; (p.92)&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Frise-se a ironia da atribui&amp;ccedil;&amp;atilde;o do Pr&amp;eacute;mio de Literatura da
C&amp;acirc;mara Federal de Economia. Conforme Bernhard n&amp;atilde;o deixa de referir, a distin&amp;ccedil;&amp;atilde;o
visava evocar o aprendiz de com&amp;eacute;rcio que o escritor fora, e n&amp;atilde;o o escritor que
h&amp;aacute; muito era. A dignidade, por&amp;eacute;m, da narra&amp;ccedil;&amp;atilde;o do autor, essa, suplanta a fama
de irasc&amp;iacute;vel e &amp;iacute;mpio de que (por vezes gostosamente) gozava. Talvez pud&amp;eacute;ssemos
relacionar este seu &amp;agrave;-vontade com a classe comercial (verdadeiro, ir&amp;oacute;nico?) com
a sua repulsa pela &amp;laquo;chamada&amp;raquo; (como ele diria) classe intelectual, pelos
s&amp;aacute;trapas da chamada cultura. A esse respeito, a b&amp;iacute;lis de T. Bernhard n&amp;atilde;o
conhece limites. Especialmente visadas, s&amp;atilde;o as associa&amp;ccedil;&amp;otilde;es, agremia&amp;ccedil;&amp;otilde;es e
quejandas, a congregar essa gente &amp;ndash; &lt;em&gt;&amp;laquo;Se um poeta ou escritor j&amp;aacute; &amp;eacute; rid&amp;iacute;culo e
onde quer que seja j&amp;aacute; &amp;eacute; dif&amp;iacute;cil de suportar para a sociedade humana, quanto
mais rid&amp;iacute;cula e impudente n&amp;atilde;o &amp;eacute; uma horda de escritores e poetas e daqueles que
como tal se consideram, juntos num mont&amp;atilde;o!&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.140) Nas suas palavras n&amp;atilde;o
h&amp;aacute;, por&amp;eacute;m, qualquer sombra de despeito. Acerca de tais gr&amp;eacute;mios dir&amp;aacute; &amp;ndash; &lt;em&gt;&amp;laquo;sempre
detestei profundamente associa&amp;ccedil;&amp;otilde;es e agremia&amp;ccedil;&amp;otilde;es e naturalmente associa&amp;ccedil;&amp;otilde;es
liter&amp;aacute;rias&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.106). E, mesmo quando a &lt;em&gt;&amp;laquo;chamada honra&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.122) se
volta contra ele, &amp;eacute; com o mesmo desapego que reage &amp;ndash; &lt;em&gt;&amp;laquo;Como de nenhuma outra
associa&amp;ccedil;&amp;atilde;o do mundo inteiro, eu tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o queria naturalmente ser membro do
PEN-Clube.&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.105) (Muito embora, neste caso, oscile, por dever de amizade
para com um conhecimento do seu av&amp;ocirc; &amp;ndash; &lt;em&gt;&amp;laquo;quis ao meu av&amp;ocirc; como a mais ningu&amp;eacute;m
no mundo&amp;raquo;&lt;/em&gt;, p.103)&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Longe de ser uma simples rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o de galard&amp;otilde;es, &lt;em&gt;Os Meus
Pr&amp;eacute;mios&lt;/em&gt; condensa &amp;ndash; entrecortado, necessariamente, pela voca&amp;ccedil;&amp;atilde;o
memorial&amp;iacute;stica do registo em causa &amp;ndash; as considera&amp;ccedil;&amp;otilde;es do autor acerca da
pr&amp;oacute;pria vida &amp;ndash; &lt;em&gt;&amp;laquo;Viver sem contos fant&amp;aacute;sticos &amp;eacute; dif&amp;iacute;cil, por isso &amp;eacute; t&amp;atilde;o
dif&amp;iacute;cil viver no s&amp;eacute;culo vinte; n&amp;oacute;s tamb&amp;eacute;m s&amp;oacute; j&amp;aacute; existimos&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.128) &amp;ndash; e da
postura do autor face ao mundo &amp;ndash; &lt;em&gt;&amp;laquo;A realidade, tal como a verdade, n&amp;atilde;o &amp;eacute; um
conto fant&amp;aacute;stico, e a verdade nunca foi um conto fant&amp;aacute;stico.&amp;raquo;&lt;/em&gt; (p.127) &amp;ndash;, do
acto de escrever e da sua po&amp;eacute;tica n&amp;atilde;o escrita &amp;ndash; &lt;em&gt;&amp;laquo;passar por cima de mim
pr&amp;oacute;prio e por cima de cad&amp;aacute;veres de filosofias, por cima de toda a literatura,
por cima de toda a ci&amp;ecirc;ncia, por cima de toda a hist&amp;oacute;ria, por cima de tudo&amp;hellip;&amp;raquo; &lt;/em&gt;(p.137).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/VKTEE0kKpsRGx5YeC-Jyn5QmfOg/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/VKTEE0kKpsRGx5YeC-Jyn5QmfOg/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/VKTEE0kKpsRGx5YeC-Jyn5QmfOg/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/VKTEE0kKpsRGx5YeC-Jyn5QmfOg/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1549]]></link>
<author><![CDATA[Hugo Pinto Santos]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-09 11:06:51]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Liberdade para escolher]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/milton_rose_friedman-liberdade_para_escolher.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:WordDocument&gt; &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt; &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt; &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt; &lt;w:PunctuationKerning /&gt; &lt;w:ValidateAgainstSchemas /&gt; &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt; &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt; &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt; &lt;w:Compatibility&gt; &lt;w:BreakWrappedTables /&gt; &lt;w:SnapToGridInCell /&gt; &lt;w:WrapTextWithPunct /&gt; &lt;w:UseAsianBreakRules /&gt; &lt;w:DontGrowAutofit /&gt; &lt;/w:Compatibility&gt; &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt; &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt; &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;As opini&amp;otilde;es acerca de Milton Friedman dividem-se. Para uns,
foi o maior economista do s&amp;eacute;culo XX, um intelectual revolucion&amp;aacute;rio que ganhou o
pr&amp;eacute;mio Nobel da Economia, ajudou a lan&amp;ccedil;ar as bases da globaliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o, acelerou a
derrocada da Uni&amp;atilde;o Sovi&amp;eacute;tica e ensinou os chineses a sa&amp;iacute;rem da pobreza,
acabando por ser considerado um dos maiores defensores da liberdade individual.
Para outros, era apenas um doido varrido.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;em&gt;Liberdade para Escolher&lt;/em&gt; ajuda a perceber porqu&amp;ecirc;. No
livro, escrito em co-autoria com a mulher, Friedman defende o fim da Seguran&amp;ccedil;a
Social, do Minist&amp;eacute;rio da Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, da escolaridade obrigat&amp;oacute;ria, do sal&amp;aacute;rio
m&amp;iacute;nimo, a limita&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos poderes p&amp;uacute;blicos dos sindicatos e das associa&amp;ccedil;&amp;otilde;es
profissionais, a legaliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o das drogas e a promo&amp;ccedil;&amp;atilde;o do com&amp;eacute;rcio sem qualquer
tipo de barreiras tarif&amp;aacute;rias.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;H&amp;aacute; uma linha comum em todas estas propostas: promovem o
&lt;strong&gt;recuo do Estado em favor da liberdade individual. Para os Friedman, n&amp;atilde;o poderia
haver liberdade pol&amp;iacute;tica sem liberdade econ&amp;oacute;mica&lt;/strong&gt; &amp;ndash; e, por altura da publica&amp;ccedil;&amp;atilde;o
do livro, o crescimento desenfreado do Estado tornava os americanos cada mais
dependentes da bondade das autoridades p&amp;uacute;blicas (um problema que j&amp;aacute; havia sido
diagnosticado por Hayek em Caminho para a Servid&amp;atilde;o).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Os argumentos dos autores trilham dois caminhos. Primeiro, a
quest&amp;atilde;o &amp;eacute;tica. &lt;strong&gt;Impedir algu&amp;eacute;m de exercer uma profiss&amp;atilde;o, atrav&amp;eacute;s do controlo das
admiss&amp;otilde;es pelas associa&amp;ccedil;&amp;otilde;es profissionais, &amp;eacute; moralmente incorrecto.&lt;/strong&gt; Obrigar os
americanos a pagarem escolas, cultura e produtos que n&amp;atilde;o querem &amp;eacute; uma
intromiss&amp;atilde;o inaceit&amp;aacute;vel e paternalista na sua capacidade de escolha. E fechar
as portas aos produtos dos famintos agricultores asi&amp;aacute;ticos &amp;eacute;, mais do que errado,
absolutamente execr&amp;aacute;vel.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O segundo argumento &amp;eacute; eficientista. Apesar das boas
inten&amp;ccedil;&amp;otilde;es de grande parte das medidas que levaram ao crescimento do Estado
desde os anos 30, estas medidas tendiam a ser contraproducentes. &lt;strong&gt;O sal&amp;aacute;rio
m&amp;iacute;nimo aumenta o desemprego especialmente junto daqueles que &amp;eacute; suposto ajudar:
os mais desfavorecidos.&lt;/strong&gt; Os subs&amp;iacute;dios ao Ensino Superior transferem impostos dos
mais pobres para os mais ricos, que s&amp;atilde;o quem mais frequentemente &amp;ndash; e durante
mais tempo &amp;ndash; recorre &amp;agrave;s Universidades. E as Ordens, organismos de regula&amp;ccedil;&amp;atilde;o e
de certifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o acabam por ser ocupadas por grupos de interesse que subordinam
o interesse p&amp;uacute;blico ao interesse privado.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;Este &amp;eacute; um livro contra-intuitivo. Apesar das propostas de
Friedman chegarem por vezes a ro&amp;ccedil;ar o caricato, a verdade &amp;eacute; que, ao longo do
livro, os autores conseguem ser extraordinariamente persuasivos. Os argumentos
s&amp;atilde;o simples, claros e apelativos&lt;/strong&gt; &amp;ndash; caracter&amp;iacute;sticas que levaram &amp;agrave; adapta&amp;ccedil;&amp;atilde;o do
livro para uma s&amp;eacute;rie de televis&amp;atilde;o que passou no in&amp;iacute;cio dos anos 80. O antigo
Presidente americano George Bush chegou a dizer, em tom de gracejo, que Rose
era provavelmente a &amp;uacute;nica pessoa que alguma vez tinha ganho uma discuss&amp;atilde;o a
Milton Friedman.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O livro j&amp;aacute; tem quase trinta anos. Tr&amp;ecirc;s d&amp;eacute;cadas depois, o
m&amp;iacute;nimo que se pode dizer &amp;eacute; que foi inspirador. &lt;strong&gt;Nenhum pa&amp;iacute;s seguiu &amp;agrave; letra o
modelo dos Friedman mas a maior parte das suas propostas foi experimentada um
pouco por todo o globo.&lt;/strong&gt; A Su&amp;eacute;cia abra&amp;ccedil;ou o cheque-ensino, o Chile adoptou um
sistema de Seguran&amp;ccedil;a Social em parte privado, o com&amp;eacute;rcio livre floresceu e o
combate &amp;agrave; infla&amp;ccedil;&amp;atilde;o passou a ser uma prioridade dos Bancos Centrais &amp;ndash; o c&amp;eacute;lebre &amp;laquo;Consenso de Washington&amp;raquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;em&gt;Liberdade para Escolher&lt;/em&gt; &amp;eacute; um livro arrojado e
estimulante. E, apesar de o per&amp;iacute;odo hist&amp;oacute;rico j&amp;aacute; ser bem diferente &amp;ndash; os anos 70
j&amp;aacute; l&amp;aacute; v&amp;atilde;o &amp;ndash;, grande parte dos conselhos e propostas que faz continuam v&amp;aacute;lidos
nos dias de hoje. A obra permite cultivar o esp&amp;iacute;rito cr&amp;iacute;tico, conhecer melhor a
realidade por detr&amp;aacute;s das inten&amp;ccedil;&amp;otilde;es e cultivar um saud&amp;aacute;vel cepticismo em rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o
&amp;agrave;queles que se dizem defensores do bem comum.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/piIlEq4Cyz1f8HEP8JIzyiV36FU/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/piIlEq4Cyz1f8HEP8JIzyiV36FU/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/piIlEq4Cyz1f8HEP8JIzyiV36FU/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/piIlEq4Cyz1f8HEP8JIzyiV36FU/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1548]]></link>
<author><![CDATA[Pedro Romano]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-08 13:43:11]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O milagre em Economia]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/alain_peyrefitte-o_milagre_em_economia.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:WordDocument&gt; &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt; &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt; &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt; &lt;w:PunctuationKerning /&gt; &lt;w:ValidateAgainstSchemas /&gt; &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt; &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt; &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt; &lt;w:Compatibility&gt; &lt;w:BreakWrappedTables /&gt; &lt;w:SnapToGridInCell /&gt; &lt;w:WrapTextWithPunct /&gt; &lt;w:UseAsianBreakRules /&gt; &lt;w:DontGrowAutofit /&gt; &lt;/w:Compatibility&gt; &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt; &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt; &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;A hierarquia econ&amp;oacute;mica do mundo &amp;eacute; f&amp;aacute;cil de fazer. A primeira
divis&amp;atilde;o &amp;eacute;, de forma grosseira, constitu&amp;iacute;da pela Europa, Estados Unidos e Jap&amp;atilde;o.
Segue-se uma faixa interm&amp;eacute;dia na qual pontificam a Am&amp;eacute;rica Latina, a R&amp;uacute;ssia e
alguns pa&amp;iacute;ses em redor. No fundo da tabela aparecem praticamente toda a &amp;Aacute;frica
e grande parte da &amp;Aacute;sia. Os rendimentos dos que ocupam o primeiro ter&amp;ccedil;o deste
&amp;lsquo;ranking&amp;rsquo; chegam a ser vinte vezes superiores aos dos que ocupam os &amp;uacute;ltimos
lugares.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A forma como as na&amp;ccedil;&amp;otilde;es sobem ou descem de divis&amp;atilde;o &amp;eacute; um dos
mist&amp;eacute;rios mais profundos das ci&amp;ecirc;ncias sociais. Desde Adam Smith que v&amp;aacute;rias
explica&amp;ccedil;&amp;otilde;es t&amp;ecirc;m sido propostas: desde a demografia (Gregory Clark) at&amp;eacute; &amp;agrave;
geografia (Jared Diamond), passando por uma afortunada combina&amp;ccedil;&amp;atilde;o de factores
culturais com circunst&amp;acirc;ncias hist&amp;oacute;ricas peculiares (David Landes). Neste
pequeno livro, Alain Peyrefitte avan&amp;ccedil;a com uma nova explica&amp;ccedil;&amp;atilde;o: as
mentalidades.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Esta linha de investiga&amp;ccedil;&amp;atilde;o n&amp;atilde;o &amp;eacute; nova. No s&amp;eacute;culo XIX, Max
Weber j&amp;aacute; tinha defendido que o capitalismo era, em grande parte, o resultado
dos valores protestantes que come&amp;ccedil;aram a emergir depois da Reforma Luterana. &lt;strong&gt;O
contributo de Peyrefitte &amp;eacute; alargar o &amp;acirc;mbito da an&amp;aacute;lise e passar em revista a
evolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o das mentalidades nos quatro &amp;laquo;milagres econ&amp;oacute;micos&amp;raquo;&lt;/strong&gt;: a Holanda do s&amp;eacute;culo
XVII, a Inglaterra do s&amp;eacute;culo XVIII, os Estados Unidos na transposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o do s&amp;eacute;culo
XIX para o s&amp;eacute;culo XX e o Jap&amp;atilde;o no fim da II Guerra mundial.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O livro torna-se, assim, um &lt;strong&gt;interessante cruzamento de
hist&amp;oacute;ria econ&amp;oacute;mica com etologia&lt;/strong&gt;. Na Holanda, a riqueza nasceu de uma toler&amp;acirc;ncia
sem limites que permitiu, durante a Guerra dos Trinta Anos, acolher os
esp&amp;iacute;ritos mais inovadores da Europa, acossados pelas sangrentas guerras
religiosas. No Reino Unido, o segredo esteve no reconhecimento social do papel
do empres&amp;aacute;rio &amp;ndash; uma caracter&amp;iacute;stica peculiar que seria repetida e at&amp;eacute; ampliada
nos Estados Unidos dos s&amp;eacute;culos XIX e XX.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;O ponto comum a todas estas mentalidades &amp;eacute; aquilo que
Peyrefitte chama de um &lt;em&gt;ethos&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; de confian&amp;ccedil;a: um conjunto de ideias que,
agindo directa ou indirectamente, promove o empreendedorismo, a inova&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a
acumula&amp;ccedil;&amp;atilde;o de capital e o reinvestimento dos lucros. Historicamente, a
emerg&amp;ecirc;ncia de culturas deste calibre s&amp;atilde;o de uma improbabilidade extrema. &lt;strong&gt;A
ordem natural das coisas costuma dar azo a mentalidades que promovem o
imobilismo (&amp;Aacute;sia), a inac&amp;ccedil;&amp;atilde;o (&amp;Aacute;frica), a recrimina&amp;ccedil;&amp;atilde;o alheia (Am&amp;eacute;rica Latina) e
o fundamentalismo (M&amp;eacute;dio Oriente).&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Da&amp;iacute;, tamb&amp;eacute;m, o nome do livro: a pobreza n&amp;atilde;o &amp;eacute; uma disfun&amp;ccedil;&amp;atilde;o
a extirpar; a riqueza &amp;eacute; que &amp;eacute; um milagre a explicar. A hist&amp;oacute;ria humana &amp;eacute; um
longo e penoso caminho de mis&amp;eacute;ria que apenas esporadicamente foi pontilhado por
momentos de abund&amp;acirc;ncia.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O &amp;acirc;mbito da obra, contudo, &amp;eacute; bastante restrito. &lt;strong&gt;O autor
limita-se a elencar quatro casos de sucesso para, de seguida, passar em revista
a evolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o das mentalidades em cada caso. N&amp;atilde;o &amp;eacute; &amp;ndash; nem pretende ser &amp;ndash; uma
explica&amp;ccedil;&amp;atilde;o geral da evolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o humana.&lt;/strong&gt; N&amp;atilde;o tem a profundidade de &lt;em&gt;A riqueza e a
pobreza das Na&amp;ccedil;&amp;otilde;es&lt;/em&gt;, o brilhantismo de &lt;em&gt;Armas, Germes e A&amp;ccedil;o&lt;/em&gt; ou a
erudi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de &lt;em&gt;Um Adeus &amp;agrave;s Esmolas&lt;/em&gt;. N&amp;atilde;o &amp;eacute; uma incurs&amp;atilde;o na &lt;em&gt;Grande
Hist&amp;oacute;ria&lt;/em&gt;&lt;span&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ainda assim, a obra &amp;eacute; suficientemente interessante para
merecer ser lida. &amp;Eacute; simples, furta-se a tecnicismos desnecess&amp;aacute;rios e revela de
forma clara como coisas t&amp;atilde;o simples como o desprezo social pelo com&amp;eacute;rcio pode
ser determinante para condenar um povo &amp;agrave; pobreza. Em suma: o livro n&amp;atilde;o &amp;eacute;
campe&amp;atilde;o em t&amp;iacute;tulo mas fica bem classificado na sua divis&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/EyXl9iIXTe804U2Nz_OXQ4z5QVU/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/EyXl9iIXTe804U2Nz_OXQ4z5QVU/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/EyXl9iIXTe804U2Nz_OXQ4z5QVU/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/EyXl9iIXTe804U2Nz_OXQ4z5QVU/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1547]]></link>
<author><![CDATA[Pedro Romano]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-05 15:08:57]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Potência de Existir]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/michel_onfray-a_potencia_de_existir.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Antes de mais, talvez convenha sublinhar a vitalidade da
pr&amp;aacute;tica filos&amp;oacute;fica na actualidade. Pensadores como Peter Singer (n. 1946),
Peter Sloterdijk (n. 1947), Slavoj Zizek (n. 1949), Michel Onfray (n. 1959),
entre outros, t&amp;ecirc;m conseguido, cada um &amp;agrave; sua maneira, ressuscitar a dimens&amp;atilde;o
pol&amp;eacute;mica da filosofia, monstro durante demasiado tempo adormecido na cama
reflexiva e abstraccionista que manteve os fil&amp;oacute;sofos de costas voltadas para os
problemas da vida concreta. As propostas s&amp;atilde;o diversificadas e logram entusiasmar
os leitores com uma linguagem j&amp;aacute; n&amp;atilde;o t&amp;atilde;o fechada sobre si pr&amp;oacute;pria, mas
preocupada com a urg&amp;ecirc;ncia de uma inteligibilidade que, n&amp;atilde;o simplificando a
natureza complexa do pensamento, o torna acess&amp;iacute;vel aos leitores menos
predispostos para o hermetismo.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O exemplo de Michel Onfray &amp;eacute; particularmente entusiasmante,
atendendo ao facto do autor ser avesso a uma filosofia constru&amp;iacute;da em cis&amp;atilde;o com
a vida, ou seja, contr&amp;aacute;rio a todo o sistema filos&amp;oacute;fico erigido no plano do
ideal sem um acompanhamento concreto e existencial daquele que o constr&amp;oacute;i.
&amp;laquo;Nunca como hoje foi t&amp;atilde;o urgente uma filosofia do corpo existencial&amp;raquo; (p. 68),
diz; e acrescenta: &amp;laquo;A prova do fil&amp;oacute;sofo? A sua vida. Uma obra escrita sem a
vida filos&amp;oacute;fica que a acompanha n&amp;atilde;o vale a pena nem por um segundo&amp;raquo; (p. 73).
Aqui se nota a ruptura com os apologistas de uma separa&amp;ccedil;&amp;atilde;o das &amp;aacute;guas te&amp;oacute;rica e
pr&amp;aacute;tica, como se uma pudesse justificar-se sem a outra. Quem estiver
familiarizado com a obra de Onfray, constatar&amp;aacute; o recurso frequente ao exemplo
pessoal, ao dado biogr&amp;aacute;fico, &amp;agrave; pequena hist&amp;oacute;ria, at&amp;eacute; mesmo &amp;agrave; anedota enquanto
s&amp;iacute;ntese teatral do pensamento e da teoria.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A &lt;em&gt;Pot&amp;ecirc;ncia de Existir
&amp;ndash; Manifesto Hedonista&lt;/em&gt; (Campo da Comunica&amp;ccedil;&amp;atilde;o, Fevereiro de 2009) abre
precisamente com uma narrativa autobiogr&amp;aacute;fica onde o fil&amp;oacute;sofo franc&amp;ecirc;s d&amp;aacute; conta
da rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o problem&amp;aacute;tica mantida com a sua m&amp;atilde;e e da experi&amp;ecirc;ncia humilhante e
opressora passada no orfanato de Giel. O exemplo dos antigos c&amp;iacute;nicos &amp;eacute; levado &amp;agrave;
letra, mas liberto das impurezas de uma historiografia que pretendeu fixar a
atitude c&amp;iacute;nica confundindo-a com mera ironia, anedota, provoca&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Tamb&amp;eacute;m
Onfray desmonta a realidade denunciando-a, procurando mostr&amp;aacute;-la para l&amp;aacute; das
f&amp;aacute;bulas que geralmente a disfar&amp;ccedil;am, desvelando os sonhos do idealismo enquanto
aponta as fissuras do discurso oficial. Que pegue numa figura caluniada pela
historiografia dominante, nomeadamente Epicuro, propondo uma contra-hist&amp;oacute;ria da
filosofia, apenas demonstra uma arguta consci&amp;ecirc;ncia cr&amp;iacute;tica cujo fim ser&amp;aacute; a
constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o de um sistema hedonista.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt; O subt&amp;iacute;tulo deste livro n&amp;atilde;o deixa margens para d&amp;uacute;vidas. Trata-se de uma s&amp;iacute;ntese
do trabalho realizado noutras obras, algumas das quais &amp;agrave; disposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o do p&amp;uacute;blico
portugu&amp;ecirc;s. Assim, nas v&amp;aacute;rias partes que comp&amp;otilde;em este manifesto, o fil&amp;oacute;sofo
percorre as teses de uma moral est&amp;eacute;tica anteriormente desenvolvida em &lt;em&gt;A Escultura do Eu&lt;/em&gt; (Quarteto, Julho de
2003), a er&amp;oacute;tica solar explanada na &lt;em&gt;Teoria
do Corpo Amoroso&lt;/em&gt; (Temas e Debates, Setembro de 2001), o tratado de
resist&amp;ecirc;ncia e de insubmiss&amp;atilde;o que j&amp;aacute; conhec&amp;iacute;amos de &lt;em&gt;A Pol&amp;iacute;tica do Rebelde &lt;/em&gt;(Instituto Piaget, 1999) ou a f&amp;iacute;sica da
metaf&amp;iacute;sica levada a cabo no &lt;em&gt;Tratado de
Ateologia&lt;/em&gt; (Edi&amp;ccedil;&amp;otilde;es Asa, Setembro de 2007).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;As sinopses s&amp;atilde;o clarificadoras de um projecto assente numa
cr&amp;iacute;tica feroz &amp;agrave; heran&amp;ccedil;a moral judaico-crist&amp;atilde;. Reduz-se Deus a uma resposta &amp;agrave;s
fraquezas humanas, gerada pelo medo do homem perante si pr&amp;oacute;prio, o mesmo medo
que o afastou do corpo, dos prazeres do corpo, sacrificando-o, adestrando-o a
ponto de o castrar nas suas potencialidades e de o desviar do espanto
concentrado nos postulados da alma. Realizado o diagn&amp;oacute;stico, parte-se para o
estabelecimento dos princ&amp;iacute;pios que dever&amp;atilde;o sustentar uma &amp;eacute;tica din&amp;acirc;mica. O
objectivo consiste em abulir a mis&amp;eacute;ria sexual instalada pelo pensamento crist&amp;atilde;o
e abrir caminho para uma libertinagem p&amp;oacute;s-moderna, inalien&amp;aacute;vel de um contrato
hedonista onde o &amp;laquo;bom&amp;raquo; e o &amp;laquo;mau&amp;raquo; surjam n&amp;atilde;o de uma atitude impositiva mas de um
di&amp;aacute;logo permanente entre o &amp;laquo;eu&amp;raquo; e o &amp;laquo;outro&amp;raquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt; No hedonismo onfrayano a &amp;eacute;tica n&amp;atilde;o &amp;eacute; separ&amp;aacute;vel da er&amp;oacute;tica, faz-se em di&amp;aacute;logo
com a metaf&amp;iacute;sica, &amp;agrave; pol&amp;iacute;tica corresponde uma est&amp;eacute;tica, a est&amp;eacute;tica resulta de
uma epistemologia, isto &amp;eacute;, todas as dimens&amp;otilde;es do pensamento est&amp;atilde;o interligadas
por um s&amp;oacute; prop&amp;oacute;sito: encontrar uma sa&amp;iacute;da do niilismo actual, n&amp;atilde;o estar morto
durante a vida. A revaloriza&amp;ccedil;&amp;atilde;o do corpo seria insustent&amp;aacute;vel sem uma est&amp;eacute;tica
que n&amp;atilde;o denunciasse as balelas da arte inconsistente, falsamente profunda,
justificando-se permanentemente a partir dos pressupostos da
intransmissibilidade e do indiz&amp;iacute;vel. Onfray defende uma repolitiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o da arte,
que nada deve a uma arte pol&amp;iacute;tica, mas sim &amp;agrave; &amp;laquo;introdu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de um conte&amp;uacute;do capaz
de produzir um agir comunicacional&amp;raquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;laquo;O movimento para o nada foi defeituoso; aquele que nos afasta dele,
restabelecendo os antigos valores, tamb&amp;eacute;m o &amp;eacute;. Nem o &lt;em&gt;zen&lt;/em&gt; nem o &lt;em&gt;Kitsch&lt;/em&gt;. O qu&amp;ecirc;,
ent&amp;atilde;o? O gosto pelo real e pela mat&amp;eacute;ria do mundo, a vontade de iman&amp;ecirc;ncia e do
mundano, a paix&amp;atilde;o pela textura das coisas, pela suavidade dos materiais, pela
colora&amp;ccedil;&amp;atilde;o das subst&amp;acirc;ncias&amp;raquo; (p. 163-164). Contra a transcend&amp;ecirc;ncia, pela
iman&amp;ecirc;ncia, a aud&amp;aacute;cia de uma filosofia do corpo existencial, uma bio&amp;eacute;tica
libert&amp;aacute;ria, uma pol&amp;iacute;tica do prazer consciente das suas resist&amp;ecirc;ncias e dos seus
anti-corpos. Nada de utopias universalizantes. Irrealiz&amp;aacute;vel no mundo, uma
filosofia assim pode concretizar-se enquanto guia pr&amp;aacute;tico na vida dos indiv&amp;iacute;duos
que, l&amp;aacute; est&amp;aacute;, conscientes de uma morte inevit&amp;aacute;vel a enfrentem em vida com os
dentes arreganhados, &amp;agrave; mostra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/sj795HZF0Cm-s3AVWh7NB3Tye38/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/sj795HZF0Cm-s3AVWh7NB3Tye38/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/sj795HZF0Cm-s3AVWh7NB3Tye38/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/sj795HZF0Cm-s3AVWh7NB3Tye38/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1546]]></link>
<author><![CDATA[Henrique Fialho]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-04 15:02:52]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Ética Prática]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/peter_singer-etica_pratica.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:WordDocument&gt; &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt; &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt; &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt; &lt;w:PunctuationKerning /&gt; &lt;w:ValidateAgainstSchemas /&gt; &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt; &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt; &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt; &lt;w:Compatibility&gt; &lt;w:BreakWrappedTables /&gt; &lt;w:SnapToGridInCell /&gt; &lt;w:WrapTextWithPunct /&gt; &lt;w:UseAsianBreakRules /&gt; &lt;w:DontGrowAutofit /&gt; &lt;/w:Compatibility&gt; &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt; &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt; &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;Um dos dez melhores filmes de todos os tempos, segundo os
visitantes do IMDb, &amp;eacute; &lt;em&gt;A Lista de Schindler&lt;/em&gt;, que relata a hist&amp;oacute;ria de um
empres&amp;aacute;rio alem&amp;atilde;o que empregou &amp;ndash; e fez sobreviver &amp;ndash; 1200 judeus na fase mais
aguda do anti-semitismo nazi. &lt;strong&gt;Oskar Schindler desafiou a lei vigente porque n&amp;atilde;o
encerrou nela a moralidade.&lt;/strong&gt; Este &amp;eacute; um dos exemplos que Peter Singer traz a lume
para excluir a hip&amp;oacute;tese relativista de que &amp;laquo;a lei &amp;eacute; a verdade&amp;raquo; e a &amp;eacute;tica &amp;eacute;
sempre relativa &amp;agrave; comunidade. Se assim fosse, sublinha, como se criticaria a
escravatura?&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;(&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&amp;Eacute;tica Pr&amp;aacute;tica&lt;/em&gt; &amp;eacute; um livro imprescind&amp;iacute;vel para
qualquer humanista. Escrito de forma escorreita e sempre cativante, procura
fundamentos racionais desmantelando opini&amp;otilde;es contr&amp;aacute;rias.&lt;/strong&gt; Singer n&amp;atilde;o &amp;eacute; um autor
f&amp;aacute;cil para mentes impregnadas de preconceitos; melhor, &amp;eacute; odiado por aquelas
que, estando assim enevoadas, t&amp;ecirc;m nula receptividade ao que lhes cause
instabilidade. O aborto, a eutan&amp;aacute;sia, a fome, os refugiados, o assass&amp;iacute;nio e o
ambiente s&amp;atilde;o temas aqui expostos descomplexadamente.)&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O que &amp;eacute;, ent&amp;atilde;o, a &amp;eacute;tica? Onde encontrar as ra&amp;iacute;zes da moral?
Seguindo a m&amp;aacute;xima utilitarista, diria John Stuart Mill que tudo o que n&amp;atilde;o cause
preju&amp;iacute;zo (&amp;laquo;dor&amp;raquo;) directo ou indirecto a terceiros &amp;eacute; moralmente correcto. De uma
forma mais vasta, o utilitarismo prev&amp;ecirc; a considera&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos interesses globais &amp;ndash;
de todos os potenciais afectados &amp;ndash; e clama por um balan&amp;ccedil;o positivo entre
beneficiados e prejudicados por uma ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Singer parte destes princ&amp;iacute;pios.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Quanto ao aborto, note-se que n&amp;atilde;o &amp;eacute; &amp;oacute;bvia a rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o entre a
sua incid&amp;ecirc;ncia e a criminaliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &amp;Oacute;bvios s&amp;atilde;o, esses sim, os riscos de sa&amp;uacute;de
maiores de quem aborta ilegalmente. Independentemente dos argumentos sobre a
liberdade de escolha da mulher (menos relevantes para o caso), a divis&amp;atilde;o
encontra-se na considera&amp;ccedil;&amp;atilde;o de este ser ou n&amp;atilde;o um crime sem v&amp;iacute;tima. Por outras
palavras, se h&amp;aacute; na crian&amp;ccedil;a elementos fisiol&amp;oacute;gicos que permitam antever
interesse em viver. Singer refere que n&amp;atilde;o h&amp;aacute;: o feto s&amp;oacute; sente dor, na melhor
das hip&amp;oacute;teses, depois de conclu&amp;iacute;das as primeiras 18 semanas de gesta&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;A capacidade de sofrer &amp;eacute;, ali&amp;aacute;s, um elemento essencial no
que toca &amp;agrave; legitimidade do assass&amp;iacute;nio.&lt;/strong&gt; Na era dos Descobrimentos pensava-se que
os africanos n&amp;atilde;o tinham alma (faltava-lhes purifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o divina, eram exclu&amp;iacute;dos
por Deus) e que, por isso, n&amp;atilde;o sofriam. Isso foi suficiente para legitimar a
escravatura e outras atrocidades. Neste tempo de igualdade interracial, o
tratamento dado a animais n&amp;atilde;o humanos est&amp;aacute;, ainda assim, aqu&amp;eacute;m do desej&amp;aacute;vel.
Singer lembra descobertas cient&amp;iacute;ficas que demonstram a capacidade de sofrer de
v&amp;aacute;rios dos animais que v&amp;atilde;o parar ao nosso prato. O vegetarianismo, conclui, s&amp;oacute;
n&amp;atilde;o &amp;eacute; regra porque estamos ainda embebidos pelas palavras do G&amp;eacute;nesis, que
coloca os animais n&amp;atilde;o humanos ao n&amp;iacute;vel de meros objectos ao servi&amp;ccedil;o do Homem.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas tal como h&amp;aacute; tra&amp;ccedil;os distintivos entre o feto e o Homem
adulto, ter&amp;aacute; de os haver tamb&amp;eacute;m entre o Homem e o animal n&amp;atilde;o humano. &amp;Eacute; aqui que
entra a defini&amp;ccedil;&amp;atilde;o de &amp;laquo;pessoa&amp;raquo; criada por Michael Tooley, e que Singer adopta.
&lt;strong&gt;Pessoas, isto &amp;eacute;, indiv&amp;iacute;duos com o direito inalien&amp;aacute;vel a viver, ser&amp;atilde;o todos os
animais (humanos ou n&amp;atilde;o) que se considerem &amp;laquo;entidades distintas ao longo do
tempo&amp;raquo;&lt;/strong&gt;, isto &amp;eacute;, que sejam autoconscientes da sua condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o presente, do seu
passado e da possibilidade de um futuro para si. Nesse sentido, conclui Singer,
a morte de um chimpanz&amp;eacute; gra&amp;uacute;do ser&amp;aacute; reprov&amp;aacute;vel, enquanto que a de um humano
rec&amp;eacute;m-nascido n&amp;atilde;o o ser&amp;aacute;. O recurso ao infantic&amp;iacute;dio n&amp;atilde;o &amp;eacute;, portanto,
intrinsecamente errado.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Outro t&amp;oacute;pico (o &amp;uacute;ltimo nesta breve e incompleta exposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o)
de grande relev&amp;acirc;ncia analisado por Singer &amp;eacute; o da distin&amp;ccedil;&amp;atilde;o entre matar e deixar
morrer. Os m&amp;eacute;dicos, que fazem o Juramento de Hip&amp;oacute;crates, s&amp;atilde;o radicalmente
opostos &amp;agrave; ideia de permitir a morte de qualquer seu paciente. A considera&amp;ccedil;&amp;atilde;o
dos interesses do paciente, por&amp;eacute;m, tem vindo a ganhar relev&amp;acirc;ncia e v&amp;aacute;rias mortes
assistidas s&amp;atilde;o agora praticadas no mundo todos os anos. N&amp;atilde;o se considera isto
um assassinato, na medida em que tenha sido previamente expressa a vontade do
paciente.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas e nos outros, naqueles em que apenas a distan&amp;aacute;sia
permita a sobreviv&amp;ecirc;ncia vegetal e em que n&amp;atilde;o haja qualquer hip&amp;oacute;tese de
assentimento? Dever&amp;aacute; um m&amp;eacute;dico fazer um ju&amp;iacute;zo essencial sobre a vida do seu
paciente? E, lembrando o caso Eluana Englaro, deveria ser permitido aos m&amp;eacute;dicos
o descargo de consci&amp;ecirc;ncia de deixar o paciente morrer lentamente, sem
tratamento? N&amp;atilde;o ser&amp;aacute; isso igual a simplesmente matar? Mais: n&amp;atilde;o ser&amp;aacute; isso pior
do que matar, tendente a causar mais sofrimento?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5K4rL2MITdEDJq-Vg6MwQrT8-Qg/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5K4rL2MITdEDJq-Vg6MwQrT8-Qg/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5K4rL2MITdEDJq-Vg6MwQrT8-Qg/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5K4rL2MITdEDJq-Vg6MwQrT8-Qg/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1545]]></link>
<author><![CDATA[Rui Passos Rocha]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-03 18:46:40]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Os Privilégios]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/stendhal-os_privilegios.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:WordDocument&gt; &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt; &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt; &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt; &lt;w:PunctuationKerning /&gt; &lt;w:ValidateAgainstSchemas /&gt; &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt; &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt; &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt; &lt;w:Compatibility&gt; &lt;w:BreakWrappedTables /&gt; &lt;w:SnapToGridInCell /&gt; &lt;w:WrapTextWithPunct /&gt; &lt;w:UseAsianBreakRules /&gt; &lt;w:DontGrowAutofit /&gt; &lt;/w:Compatibility&gt; &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt; &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt; &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&amp;laquo;&lt;em&gt;God, &lt;/em&gt;concede-me as seguintes garantias&amp;raquo;. Foi numa
noite de febre, j&amp;aacute; na fase terminal da sua vida (em 1840), que Stendhal listou
em tr&amp;ecirc;s p&amp;aacute;ginas os privil&amp;eacute;gios que o fariam mais feliz. Famoso pelo estilo
autobiogr&amp;aacute;fico e pelo desejo de reencarna&amp;ccedil;&amp;atilde;o, o autor tornou assim expl&amp;iacute;citas
as defici&amp;ecirc;ncias da sua vida &amp;ndash; marcada pela marginaliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o familiar, pela
adolesc&amp;ecirc;ncia dif&amp;iacute;cil e pela vida amorosa conturbada. &lt;strong&gt;Sem coragem para se
suicidar, como chegou a admitir, encontrou a solu&amp;ccedil;&amp;atilde;o na literatura, na fic&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Satisfeito com o seu intelecto, n&amp;atilde;o &amp;eacute; por acaso que os
primeiros privil&amp;eacute;gios pedidos a Deus s&amp;atilde;o de natureza f&amp;iacute;sica. Come&amp;ccedil;a pelo
essencial: que a morte lhe sobrevenha na cama, sem dor, num ataque de apoplexia
(o curioso &amp;eacute; que foi mesmo assim que Stendhal, vulgo Henri-Marie Beyle,
faleceu). Em seguida, pede o aumento do p&amp;eacute;nis em &amp;laquo;dois polegares&amp;raquo; e actividade
sexual duas vezes por semana &amp;ndash; influ&amp;ecirc;ncia da idade avan&amp;ccedil;ada, concluamos. As
mulheres que lhe interessarem poder&amp;aacute; t&amp;ecirc;-las facilmente depois de tocar com os
dedos num anel. Ficar&amp;atilde;o perdidas de amores por ele, que quando quiser poder&amp;aacute;
tamb&amp;eacute;m fazer com que o esque&amp;ccedil;am de vez. Que rom&amp;acirc;ntico.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O seu corpo, esse, deve ser impec&amp;aacute;vel: pele sedosa,
musculatura desenvolvida pela pr&amp;aacute;tica da ca&amp;ccedil;a e outros desportos viris. O
dinheiro &amp;eacute; para entrar a jorros sem necessidade de trabalhar; a comida para
surgir imediatamente ap&amp;oacute;s um estalar de dedos. &lt;strong&gt;O quinquagen&amp;aacute;rio autor j&amp;aacute; n&amp;atilde;o
est&amp;aacute; para perder tempo com as necessidades fision&amp;oacute;micas do dia-a-dia.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas h&amp;aacute; tempo para ser &lt;em&gt;voyeur&lt;/em&gt;, ou melhor, para &lt;em&gt;entrar&lt;/em&gt; na vida dos outros (j&amp;aacute; que a sua &amp;eacute; o fastio que &amp;eacute;): ser&amp;aacute; em 20 vezes por ano
que poder&amp;aacute; &amp;laquo;ser quem quiser&amp;raquo;. Para al&amp;eacute;m disso, poder&amp;aacute; adivinhar o pensamento
dos outros, ter vis&amp;atilde;o de &amp;aacute;guia, ser transportado para onde quiser e quando quiser.
&lt;strong&gt;Ironia das ironias, Stendhal pede ainda o poder de curar uns e atenuar a dor a
outros, mas ao mesmo tempo quer poder assassinar dez desconhecidos por ano.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/oJEWpUzANvQfV-90UM5Ww0DWNFw/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/oJEWpUzANvQfV-90UM5Ww0DWNFw/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/oJEWpUzANvQfV-90UM5Ww0DWNFw/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/oJEWpUzANvQfV-90UM5Ww0DWNFw/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1544]]></link>
<author><![CDATA[Rui Passos Rocha]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-06-01 12:40:52]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Os Problemas da Filosofia]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/bertrand_russell-os_problemas_da_filosofia.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Escrevo
este texto sentado numa cadeira castanha clara, ligada por tubos de
a&amp;ccedil;o a uma mesa da mesma cor. Tenho pousados na mesa o telem&amp;oacute;vel,
duas garrafas de &amp;aacute;gua e, claro, o computador port&amp;aacute;til onde escrevo.
Ser&amp;aacute;? Vista da porta do compartimento, a mesa j&amp;aacute; parece mais
escura, o telem&amp;oacute;vel tamb&amp;eacute;m pode ser um leitor de MP3, o computador
n&amp;atilde;o tem teclado e a &amp;aacute;gua pode ser de qualquer marca. Com os olhos
colados &amp;agrave; mesa noto-a rugosa, imperfeita. Se eu vejo todos estes
objectos diferentemente de v&amp;aacute;rios &amp;acirc;ngulos, suponho que o dobro das
interpreta&amp;ccedil;&amp;otilde;es se dar&amp;aacute; se eu os der a ver a outra pessoa. Pessoa
essa que tamb&amp;eacute;m me parecer&amp;aacute; diferente vista daqui e dali. Portanto,
se os dados dos sentidos s&amp;atilde;o sempre diferentes, tudo me indica que
n&amp;atilde;o h&amp;aacute; conhecimento indubit&amp;aacute;vel que possa ser sensorialmente
obtido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&amp;atilde;o
vemos a realidade. Tal como as m&amp;aacute;quinas fotografam o que &amp;eacute; captado
pelas suas lentes, tamb&amp;eacute;m n&amp;oacute;s s&amp;oacute; apreendemos o que &amp;eacute; filtrado
pelos sentidos. &amp;Eacute; indubit&amp;aacute;vel, ent&amp;atilde;o, que existimos (&lt;em&gt;cogito
ergo sum&lt;/em&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;) e que nos chega
informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o por via sensorial. Temos uma mente, que processa dados
aparentes. E esses dados ser&amp;atilde;o o resultado do impacto da realidade
sobre n&amp;oacute;s? &lt;strong&gt;Segundo Berkeley, se a apar&amp;ecirc;ncia est&amp;aacute; na nossa mente e
realidade pode bem estar apenas na mente de um deus. Um deus
enganador, que se diverte ao verificar o qu&amp;atilde;o iludidos nos deixa.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca
poderemos saber se h&amp;aacute; algo mais do que n&amp;oacute;s e os nossos sentidos?
Dado que n&amp;atilde;o vemos a realidade e apenas a inferimos a partir dos
in&amp;uacute;meros dados aparentes que se nos apresentam, o mais que fazemos &amp;eacute;
descortinar tra&amp;ccedil;os generaliz&amp;aacute;veis, em maior ou menor grau. Talvez a
realidade n&amp;atilde;o seja, portanto, totalmente incognosc&amp;iacute;vel, como
defendeu Kant. H&amp;aacute; dados universais, como &amp;laquo;castanho&amp;raquo;, que n&amp;atilde;o
diferem fundamentalmente de indiv&amp;iacute;duo para indiv&amp;iacute;duo. &amp;laquo;Castanho&amp;raquo;
n&amp;atilde;o pode ser, assim, uma mera constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o mental individual.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Temos
ent&amp;atilde;o que as sensa&amp;ccedil;&amp;otilde;es individuais t&amp;ecirc;m de ser causadas por
objectos existentes independentemente dos indiv&amp;iacute;duos que os
apreendem. &lt;strong&gt;A mat&amp;eacute;ria &amp;eacute; anterior &amp;agrave; mente e n&amp;atilde;o existe &lt;em&gt;na
mente&lt;/em&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt; mas &lt;/span&gt;&lt;em&gt;perante a
mente&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;strong&gt;, ao contr&amp;aacute;rio do advogado
por Berkeley.&lt;/strong&gt; Quanto ao resto, a procura individual de uniformidades
&amp;eacute; o que permite ao Homem ir al&amp;eacute;m das m&amp;uacute;ltiplas experi&amp;ecirc;ncias,
encadeando-as. V&amp;aacute;rios acontecimentos semelhantes permitem-lhe
inferir, isto &amp;eacute;, generalizar; da mesma forma, ele pode deduzir do
universal para o particular &amp;ndash; atrav&amp;eacute;s, por exemplo, de silogismos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao
memorizarmos conhecimento, lembramos experi&amp;ecirc;ncias passadas e
adquirimos a capacidade de prever, com relativa seguran&amp;ccedil;a, eventos
futuros com base em causas uniformes. Por exemplo, um trov&amp;atilde;o indicia
que vai surgir um rel&amp;acirc;mpago, da mesma forma que a visualiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o
di&amp;aacute;ria do Sol permite prever que ele vai nascer e p&amp;ocirc;r-se no dia
seguinte, tal como nos anteriores. &lt;strong&gt;O Homem n&amp;atilde;o &lt;em&gt;v&amp;ecirc;&lt;/em&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt; a realidade, mas gera expectativas quanto a ela. &amp;Eacute; esse, ali&amp;aacute;s, o
trabalho da Ci&amp;ecirc;ncia: a procura de padr&amp;otilde;es.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;Eacute;
esta, essencialmente, a exposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o argumentativa de Russell neste
livro, um cl&amp;aacute;ssico da filosofia. A complexidade aumenta &amp;agrave; medida
que se avan&amp;ccedil;a nas p&amp;aacute;ginas, mas o discurso &amp;eacute; facilmente percept&amp;iacute;vel
pelas mentes impreparadas dos que n&amp;atilde;o estudam filosofia, como &amp;eacute; o
caso. Se a isto juntarmos as mais de 60 p&amp;aacute;ginas de introdu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de
Desid&amp;eacute;rio Murcho, uma &amp;laquo;autoridade&amp;raquo; nacional em quest&amp;otilde;es
filos&amp;oacute;ficas, esta obra publicada pela Edi&amp;ccedil;&amp;otilde;es 70 torna-se
imprescind&amp;iacute;vel.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/HFBJWRA_M9GyUvtZxVqS3fuaznQ/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/HFBJWRA_M9GyUvtZxVqS3fuaznQ/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/HFBJWRA_M9GyUvtZxVqS3fuaznQ/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/HFBJWRA_M9GyUvtZxVqS3fuaznQ/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1543]]></link>
<author><![CDATA[Rui Passos Rocha]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-05-27 17:53:45]]></pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Bluezebu]]></title>
<description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/born_a_lion-bluezebu.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:WordDocument&gt; &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt; &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt; &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt; &lt;w:PunctuationKerning /&gt; &lt;w:ValidateAgainstSchemas /&gt; &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt; &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt; &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt; &lt;w:Compatibility&gt; &lt;w:BreakWrappedTables /&gt; &lt;w:SnapToGridInCell /&gt; &lt;w:WrapTextWithPunct /&gt; &lt;w:UseAsianBreakRules /&gt; &lt;w:DontGrowAutofit /&gt; &lt;/w:Compatibility&gt; &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt; &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt; &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;Quando &lt;em&gt;Rock &amp;lsquo;n&amp;rsquo; roll
tone&lt;/em&gt; chega ainda a missa vai no adro e j&amp;aacute; n&amp;atilde;o estamos preparados para nos
lembrarem que os Born a Lion t&amp;ecirc;m um &lt;a href="http://rascunho.net/critica.php?id=997" target="_blank"&gt;primeiro &amp;aacute;lbum&lt;/a&gt;. Pela raz&amp;atilde;o simples de que
quando estamos a rezar a uma divindade, n&amp;atilde;o gostamos de ser interrompidos,
quanto mais por uma outra de igual relev&amp;acirc;ncia. Estamos muito no in&amp;iacute;cio,
entenda-se: os anos 60 ainda est&amp;atilde;o a acabar em 2009 e &amp;ndash; para pegarmos em
institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es &amp;ndash; o trio j&amp;aacute; ia metendo conversa pelos Black Sabbath quando se
decide por um twist inesperado (&amp;agrave; terceira can&amp;ccedil;&amp;atilde;o) e introduz a costela Rolling
Stones.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Embora &lt;em&gt;Bluezebu&lt;/em&gt; &amp;ndash;
o rasgo de arte contempor&amp;acirc;nea &amp;eacute; guardado para o t&amp;iacute;tulo do &amp;aacute;lbum: &amp;eacute; &amp;oacute;bvio, mas
ainda ningu&amp;eacute;m o havia utilizado &amp;ndash; volte timidamente ao mais grosso bra&amp;ccedil;o do
Rock logo a seguir, em &lt;em&gt;Chemical lies&lt;/em&gt;,
e o confirme em &lt;em&gt;Babylon&lt;/em&gt;, talvez este
arranque engavetado n&amp;atilde;o seja mais do que uma falsa partida. Talvez. Mas a
verdade &amp;eacute; que s&amp;oacute; em &lt;em&gt;Daisies and diamonds&lt;/em&gt; conseguimos ouvir Nick Cave entremeado por Metallica (dos tempos da garagem
azul) a caminho do refr&amp;atilde;o para Bowie. Algu&amp;eacute;m vir&amp;aacute;, com certeza, para nos
desmentir. N&amp;atilde;o temos medo: aceitamos o nosso destino fatal com devo&amp;ccedil;&amp;atilde;o e
convictos da reden&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Andamos nisto das boas fam&amp;iacute;lias e quase nos escapa &lt;em&gt;Kings of the Badlands&lt;/em&gt; para um clube de
m&amp;aacute; fama, onde abundam facas, cerveja e cavalheiros de porte seguro e mulheres
de peito e bra&amp;ccedil;o e paredes escavadas de tanta porrada vindas das colunas de
som. (Quem disser que n&amp;atilde;o &amp;eacute; disto que gostamos, mente &amp;ndash; com os dentes todos. &amp;Eacute; por
onde ficamos, mais quatro temas.) Percebemos &amp;ndash; vamos sempre a tempo &amp;ndash; que o que
importa &amp;eacute; que os Born a Lion nos fazem ver o mundo a preto e vermelho.
Raramente pomos esses &amp;oacute;culos, talvez por isso sejam t&amp;atilde;o especiais. Tanto vale
que o trio encerre em si toda a escola do Rock &amp;ndash; e encerra &amp;ndash;, que respire Rock
por todos os poros &amp;ndash; e respira.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Podemos voltar um pouco atr&amp;aacute;s, para restituir algumas
verdades que n&amp;atilde;o podem ficar periclitantes nas entrelinhas: apesar de o &amp;aacute;lbum
ser sobretudo negro &amp;ndash; e assim se assume, n&amp;atilde;o h&amp;aacute; problemas nisto &amp;ndash;, &lt;em&gt;Rock &amp;lsquo;n&amp;rsquo; roll tone&lt;/em&gt; &amp;eacute; a sua melhor malha,
independentemente de fugir &amp;agrave; regra que m&amp;uacute;sicos ou os seus interlocutores
utilizem para, por conforto, arrumar este trabalho (ed. Lux Records) &amp;ndash; pesado, franco, pleno de
distor&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Embora, claro, o que se retira no final &amp;eacute; a experi&amp;ecirc;ncia de &lt;em&gt;Bluezebu&lt;/em&gt; como um todo (isto n&amp;atilde;o &amp;eacute; piada
futebol&amp;iacute;stica). Adiantamos j&amp;aacute;, prezados, que vale bem a pena: &lt;em&gt;rockeiros de todo o mundo&lt;/em&gt;, etc.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Seria injusto protelar as boas vindas &amp;agrave; primeira linha da
boa m&amp;uacute;sica nacional por mais um &amp;aacute;lbum. Porque, apesar de tudo, continuamos &amp;agrave;
espera de mais e mais dos Born a Lion. Temos muitas fichas apostadas nestes
rapazes da Marinha Grande. N&amp;atilde;o que estejamos &amp;agrave; espera que salvem as criaturas
do jardim das can&amp;ccedil;&amp;otilde;es Rock de embalar (vazias) &amp;ndash; n&amp;atilde;o lhe est&amp;aacute; nas m&amp;atilde;os. Nem
isto &amp;eacute; uma esp&amp;eacute;cie de luta por um futuro esclarecido, nem chegar&amp;iacute;amos a tal
prepot&amp;ecirc;ncia. O que dizemos &amp;eacute; que &amp;eacute; sempre bom ter um amigo ao lado.
Dificilmente ser&amp;atilde;o perfeitos, mas contamos com eles.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;a href="http://www.bornalion.pt.vu/" target="_blank"&gt;S&amp;iacute;tio Oficial&lt;/a&gt; | &lt;a href="http://www.myspace.com/bornalionband" target="_blank"&gt;MySpace&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/VOt6SYaaWZbaKz2EQBen1Fc56sg/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/VOt6SYaaWZbaKz2EQBen1Fc56sg/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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<link><![CDATA[http://www.rascunho.net/critica.php?id=1542]]></link>
<author><![CDATA[Hugo Torres]]></author>
<pubDate><![CDATA[2009-05-27 00:29:22]]></pubDate>
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