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		<title>NO BLOCO DO AUMENTO DA PASSAGEM</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Feb 2012 15:01:24 +0000</pubDate>
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<p><strong>“NO BLOCO DO AUMENTO DA PASSAGEM”</strong>, pelo viés de <a href="http://www.revistaovies.com/a-redacao/rafael-balbueno/">Rafael Balbueno</a></p>
<p>rafaelbalbueno@revistaovies.com</p>
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		<title>A LIBERDADE NÃO SE IMPLORA DE JOELHOS</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Feb 2012 15:00:23 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[E o autor da frase, Honório Lemes, realmente não o fez. O Tropeiro da Liberdade lutou por ela em pé.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><img src="https://lh4.googleusercontent.com/-jshR_P3deaE/Tz_SA4S1m3I/AAAAAAAAFaM/DTVAf0zH1to/s640/Da%2520esquerda%2520para%2520a%2520diteira%252C%2520Menna%2520Barreto%252C%2520Batista%2520Luzardo%252C%2520Leonel%2520da%2520Rocha%252C%2520Hon%25C3%25B3rio%2520Lemes%252C%2520Assis%2520Brasil%252C%2520Cel.%2520Setembrino%2520de%2520Carvalho%252C%2520Pinheiro%2520Machado%252C%2520Gal.%2520Zeca%2520Netto%252C%2520Gal.%2520Felipe%2520Portinho%2520e%2520Est%25C3%25A1cio%2520Azambuja.jpg" alt="" width="640" height="470" /><p class="wp-caption-text">Da esquerda para a diteira, Menna Barreto, Batista Luzardo, Leonel da Rocha, Honório Lemes, Assis Brasil, Cel. Setembrino de Carvalho, Pinheiro Machado, Gal. Zeca Netto, Gal. Felipe Portinho e Estácio Azambuja.</p></div></p>
<p align="justify">Orgulho de ser gaúcho, a maioria do povo do Rio Grande do Sul tem. No entanto, muitos não conhecem bem a História do Estado, nem os nomes de muitos personagens que fazem parte dela. Honório Lemes é um deles, e pode-se dizer que é &#8220;um dos grandes&#8221;. A História gaúcha definitivamente não é um exemplo de pacifismo, mas as por vezes violentas revoluções serviram para definir as virtudes deste povo, simbolizadas nas atitudes dos heróis que lutaram pela melhoria do Estado. Grandes homens cujos nomes deveriam ser lembrados; ou melhor, nunca esquecidos.</p>
<p align="justify">O século XIX foi marcado por conflitos sangrentos no Rio Grande do Sul. Em 1835, a Revolução Farroupilha, também conhecida como Guerra dos Farrapos, explicitou a insatisfação da população junto às políticas imperiais, em função dos altos impostos cobrados em cima dos produtores de charque da província (Estado). Muitos combatentes gaúchos morreram pela causa, que chegou a defender a abolição da escravatura e, principalmente, a separação do Rio Grande do Sul. A Revolução Farroupilha durou até 1845, concretizando-se como o conflito armado mais longo já ocorrido no continente americano.</p>
<p align="justify">Algumas décadas depois, após a Proclamação da República no Brasil, em 1889, outra peleja iria eclodir no Estado. Dois grupos antagonizavam a disputa pelo poder político: o Partido Republicano Riograndense (PRR), composto pelos então conhecidos como pica-paus (mais tarde, chimangos, depois da publicação do poema de Ramiro Barcelos, “Antônio Chimango”) e o Partido Federalista (PF) (composto pelos maragatos, grupo marcado pelo uso do lenço vermelho). O clima, que já era de instabilidade política, ficou à ponta de faca quando, em 1892, o republicano Júlio de Castilhos foi eleito para a Presidência do Estado (cargo equivalente ao de governador). O PRR era a favor do presidencialismo, e de uma maior autonomia aos Estados, enquanto os federalistas defendiam o parlamentarismo e o Brasil como União Federativa. Diante do clima tenso que pairava no solo gaúcho e do crescente atrito entre os grupos políticos rivais, deflagrou-se, em 1983, a revolução.</p>
<p><div class="wp-caption alignleft" style="width: 225px"><img src="https://lh3.googleusercontent.com/-ClWrL4E2p2U/Tz_SAWli51I/AAAAAAAAFaM/X21nmjmI1Do/s335/honorio%2520Lemes.jpg" alt="" width="215" height="335" /><p class="wp-caption-text">O &quot;Leão do Caverá&quot; posa para fotografia. Autor desconhecido.</p></div></p>
<p align="justify">Naquela época, em todos os Estados brasileiros, os coronéis exerciam os poderes locais e davam sustentação para que se mantivesse um governo central, normalmente situacionista. No entanto, no livro “Honório Lemes, um Líder Carismático: Relações de Poder no Rio Grande do Sul”, de Mariza Simon dos Santos, no qual a historiadora faz uma análise do coronelismo no estado, verifica-se que os coronéis da fronteira gaúcha eram, ao contrário, em sua maioria, opostos ao governo central do Rio Grande do Sul. E foi, portanto, com o apoio destes coronéis que os seguidores de Gaspar Silveira Martins, fundador do PF, iniciaram a guerra.</p>
<p align="justify"><strong>Surge o Leão do Caverá</strong></p>
<p align="justify">Tendo nascido em 23 de setembro de 1864, em Cachoeira do Sul, Honório Lemes da Silva participou ativamente da Revolução Federalista aos 29 anos. Manoelito Carlos Savaris, presidente do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF) e estudioso da História do Rio Grande do Sul, afirma que “Honório Lemes participou da Revolução, iniciando como oficial subalterno na força federalista de Manoel Machado Soares, que foi quem o cognominou de Leão do Caverá”. A denominação, de acordo com Mariza Santos, foi lhe dada em função do amplo conhecimento que tinha da Serra do Caverá, onde batalhou na Brigada comandada pelo coronel.</p>
<p align="justify">De família humilde, com feições mestiças e estatura mediana, Honório Lemes mudou-se aos 12 anos para Rosário do Sul. O menino cresceu ouvindo histórias sobre revoluções e nomes como o de Gaspar Silveira Martins. “Tinha a fala estropiada”, diz Manoelito no texto “Como era chamado Honório Lemes”. Isso porque não teve muito tempo para estudar, pois a vida de tropeiro começou cedo. As habilidades nessa área foram importantes para o seu futuro como comandante militar e já denotavam uma das características de sua personalidade: “A atividade de tropeiro deu-lhe o conhecimento dos campos da região e sua honestidade, a confiança dos fazendeiros”, afirma Mariza.</p>
<p align="justify">Honório Lemes, que foi presidente do diretório do PF em Rosário do Sul, teve, durante a Revolução Federalista, a possibilidade de se engajar ainda mais politicamente e, por ser um bom combatente, chegou ao posto de coronel das tropas ofensivas. O conflito terminou em 1895 e foi marcado pela violência: cerca de 10 mil pessoas morreram, e a degola foi estabelecida durante o confronto como prática comum dos dois lados adversários.</p>
<p align="justify">Mesmo depois do fim da guerra e da entrada no século XX, o clima político no Rio Grande do Sul continuava tenso. O PRR permanecia no governo do Estado. Depois da morte de Júlio de Castilhos, em 1903, estabeleceu-se no poder o também pica-pau Borges de Medeiros, dando início ao longo período que seria marcado pelo “borgismo”.</p>
<p align="justify">O PF continuava fazendo oposição ao governo do Estado, porém de forma branda, até o início da década de 20. Segundo o professor de História da UFRGS Luiz Alberto Grijó, os anos 20 foram conturbados em termos políticos no país, refletindo no Estado e piorando as já existentes questões ideológicas locais. “Depois da década de 20, há muitas lideranças importantes do PRR que se tornam oposicionistas, aliando-se ao PF”, afirma o historiador, ressaltando a gravidade da crise que aqui se desenhava.</p>
<p align="justify">No país, a acirrada disputa entre os candidatos a Presidência da República Artur Bernardes e Nilo Peçanha dividia os grupos políticos nos Estados da nação. Aproveitando o momento de ânimos exaltados no Rio Grande do Sul, também, segundo Mariza Santos, em função da crise da pecuária que colocara os fazendeiros contra Borges de Medeiros, o PF lança a candidatura de Assis Brasil, um ex-republicano, ao governo do Rio Grande do Sul, contra o então governador, que disputava o 5º mandato.</p>
<p align="justify">A campanha do PF foi forte pelo Estado. Os maragatos achavam que este era o melhor momento para derrubar o PRR do poder. As eleições foram conturbadas, tanto no Estado quanto no Brasil. Artur Bernardes foi eleito presidente, o que era favorável aos federalistas, já que Borges havia apoiado Nilo Peçanha. No entanto, o cargo acabou ficando novamente nas mãos do candidato republicano, derrotando os “libertadores” (como eram chamados os federalistas). Os líderes do PF não aceitaram o resultado dessa votação considerada um tanto quanto nebulosa, argumentando que as eleições haviam sido fraudadas. Na verdade, conforme conclui Mariza no livro, em função do coronelismo estabelecido, as eleições da época acabavam sempre sendo fraudulentas.</p>
<p align="justify">Grijó acredita que o argumento foi apenas uma desculpa dos federalistas, que há tempos buscavam uma forma de acabar com as seguidas décadas de governo republicano no Estado. “Isso foi um pretexto para que eclodisse, no interior do Rio Grande do Sul, um movimento armado contra Borges de Medeiros.”</p>
<p align="justify"><strong>A Revolução de 23 e a estratégia de Honório Lemes</strong></p>
<p align="justify">“Os lenços colorados – maragatos – contra os lenços brancos –chimangos”, descreve Manoelito. “A revolução de 23 tem a seguinte característica: dificilmente a gente pode encontrar nela o objetivo de tomar o poder pelas armas, porque a disparidade era muito grande”, afirma Grijó. Isso porque, conta o professor de história, o governo do Estado contava com uma brigada militar (que era uma espécie de exército do Estado) muito bem armada, tanto em termos de equipamento e treinamento quanto em quantidade de oficiais. “O que os federalistas buscavam era conturbar o Estado, de forma que viabilizasse uma intervenção federal”, completa Grijó.</p>
<p align="justify">Então, o cenário se desenhou da seguinte maneira: um exército completo do Estado contra uma frente revolucionária composta por várias colunas. Entre elas, a mais eficiente foi a que estava sob comando de um maragato de coração e tropeiro e comandante por vocação: Honório Lemes. Aquele homem já com 59 anos, de poucos estudos, mas inteligência de sobra, levando consigo para o combate os cinco filhos homens já crescidos, assumiu a frente das Forças Rebeldes da Fronteira Sudoeste. “Assim, ele acaba se tornando, dentre as lideranças oposicionistas, a mais importante sob o ponto de vista do comando propriamente militar”, conta o professor Grijó.</p>
<p align="justify">Uma vez no comando do que seria sua participação mais importante para a História do Rio Grande do Sul, Honório Lemes assume uma estratégia que evitava o confronto direto. “A forma melhor que ele teria para perder de uma vez era bater de frente com os republicanos”, explica o professor de História. Honório Lemes sabia que seus adversários estavam muito bem armados e em maior número. Por isso, planejou batalhas sem combates, a chamada “guerra de mobilidade”. Antes de as tropas rivais chegarem no local onde sua coluna estava, o Tropeiro da Liberdade desocupava as terras, escolhendo um outro lugar para ficar. E, lá, esperava pelos republicanos. Assim foi sucessivamente, e essa tática, possibiliatada pelo conhecimento do território que tinha adquirido como tropeiro, foi que colocou Honório Lemes na história das coxilhas gaudérias.</p>
<p align="justify">Mas não foi só de fugas que se fez a coluna do tropeiro. Ele partiu da Serra do Caverá, seu porto seguro, em direção a Alegrete. Em 23 de março de 1923, invadiu a cidade. De lá rumou, junto a 2 mil rebeldes, ao município de Uruguaiana. Nessa investida, encontrou resistência por parte das tropas de Flores da Cunha que ocupavam o lugar, e teve de recuar. Pressionado pelo exército inimigo, o leão voltou para o Caverá, de onde lutou em mais alguns conflitos.</p>
<p align="justify">“Depois de vários meses de escaramuças, inclusive com uma marcha até a região missioneira, Honório Lemes reúne-se com os demais comandantes revolucionários em Pedras Altas, município de Pinheiro Machado, para tratar da proposta de pacificação apresentada pelo Marechal Setembrino de Carvalho, enviado ao sul pelo Presidente da Republica”, conta o tradicionalista Manoelito.</p>
<p align="justify">A guerra não durou muito e não foi tão violenta quanto as que a antecederam. “Percebe-se que a mobilização teve uma finalidade propriamente simbólica dentro da disputa política, diferentemente das anteriores&#8221;, afirma Grijó. &#8220;Em termos políticos se faz o acordo, ou pacto, de Pedras Altas, no qual Borges de Medeiros se comprometia em não se candidatar mais”. Com isso, as lideranças políticas antagônicas se apaziguaram, mas os comandantes não queriam aceitar o acordo, considerando-o injusto. No país, acontecia o chamado movimento tenentista, de jovens oficiais descontentes com a situação política do Brasil. Identificando-se com a insatisfação militares, Honório Lemes decide participar da revolta e continuar em combate. O movimento impulsionaria, mais tarde, o surgimento e a luta da Coluna Prestes, um movimento de abrangência nacional que pretendia depor o Presidente da Republica, Arthur Bernardes. Honório Lemes chegou a conhecer Luís Carlos Prestes, que era admirador do comandante.</p>
<p align="justify"><strong>O herói carismático</strong></p>
<p align="justify">&#8220;Em 1925 o caudilho tentou nova revolução, mas, sem apoio, seu intento durou somente 10 dias e lhe custou a prisão&#8221;, conta Manoelito sobre a prisão de Honório Lemes. Contando com a chegada de mais combatentes para sua frente, Honório Lemes preparou-se para enfrentar as tropas governistas. No entanto, os homens que esperava não conseguiram chegar, pois foram descobertos e presos. Ao se ver encurralado com os seus cem homens pelos mais de mil inimigos, o comandante não teve dúvidas: rendeu-se para salvar seus seguidores e garantir-lhes a vida. Flores da Cunha, comandante das forças que por muito tempo tentaram derrotá-lo, no fundo, guardava pelo guerreiro uma profunda admiração e escreveu depois do episódio em que recebeu a rendição de Honório Lemes: &#8220;Honório estava esperando a faca e eu o abracei. Honório arrancou do revólver e do espadim para entregá-los a mim o que não aceitei e disse-lhe: ‘Guarde as suas armas general, um homem como o senhor não deve andar desarmado’. E abraçamo-nos e os olhos de Honório umedeceram. Falou-me então: ‘Como quer que eu lhe chame? De doutor ou de general?’ E respondi-lhe: ‘Sou bacharel em Direito. Pode me chamar de doutor, se quiser!’. ‘Está certo’, disse-me Honório, ‘porque general até um índio rude e grosso como eu pode ser’”.</p>
<p align="justify">O sentimento de Flores da Cunha, que reconhecia tanto suas características como pessoa, quanto suas habilidades militares, expressa o que Honório Lemes significou. A humildade, modéstia e honestidade que sempre manteve, além de um dom que lhe era natural, descrito por Mariza Santos como “carisma”, fez com que fosse reconhecido já na época como herói. Segundo Grijó, além de ser um grande líder que mobilizava tropas inteiras, em termos sociológicos, ele se constitui como herói, porque as pessoas acreditavam que ele era capaz de ações extraordinárias. “A sua liderança política e militar foi sendo desenvolvida, e os participantes da coluna comandada por ele lutavam pelo fato de estarem do lado dele, pois realmente acreditavam que Honório Lemes era capaz de fazer algo por eles, pela população e até pelo país.”</p>
<p align="justify">O fato de ter a mesma origem e, segundo seus próprios companheiros, ter “fala simples” e vestir-se “como os outros gaúchos” fez com que o povo se identificasse com ele, aderindo à sua luta. Doavam-se aos seus comandos sem restrições, por um bem que sabiam, seria comum a todos.</p>
<p align="justify">Depois de ficar preso por dois anos, Honório Lemes foi exilado no Uruguai com a família e vivia da venda de leite e queijo. Mas a sua situação era menos importante que a dos combatentes que ainda estavam presos; entre eles, alguns de seus filhos. O maragato articulava-se para que fossem libertados e, nessas alturas, já se mostrava inconformado com o rumo que seus companheiros políticos haviam tomado.</p>
<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><img src="https://lh3.googleusercontent.com/-68Uf51LbveU/Tz_P5hBRvBI/AAAAAAAAFZs/1qaPe4azpAo/s640/GEDC4934.JPG" alt="" width="640" height="480" /><p class="wp-caption-text">Jazigo com os restos mortais do &quot;Leão do Caverá&quot; no cemitério São Sebastião, Bairro Antenor Rocha, Rosário do Sul. Foto: Bibiano Girard</p></div></p>
<p align="justify">No entanto, ainda estava do lado do bem do Estado e do país, fato demonstrado em 1930, quando já havia voltado para Rosário do Sul, ao aceitar o convite de Flores da Cunha para comandar tropas na Revolução que levaria Getúlio Vargas ao poder. Honório Lemes reuniu amigos e antigos companheiros para a luta, mas, três dias antes de eclodir a revolução, o lendário federalista faleceu acometido por uma grave pneumonia. Não pode pelear desta vez, mas sua história de lutas já estava, na verdade, completa. Quem conhece as façanhas desse gaúcho, com certeza não as esquecerá. Ele é hoje um herói de outros tempos, mas que nos serve de exemplo em uma época em que políticos legislam apenas pelo egoísta objetivo de autofavorecimento. Na sua lápide, em Rosário, a frase de sua autoria revela as causas pelas quais tanto lutou: &#8220;Quero leis que governem homens e não homens que governem leis&#8221;.</p>
<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><img src="https://lh3.googleusercontent.com/-KnrSkbAw1oI/Tz_P7E1nXlI/AAAAAAAAFZs/E9FnghXbKRs/s640/GEDC4938.JPG" alt="" width="640" height="480" /><p class="wp-caption-text">Placa expõe a célebre frase de Honório Lemes. Foto: Bibiano Girard.</p></div></p>
<p align="justify">Guerreiros de 23</p>
<div id="description_div462181581">
<p>&#8220;Quando a morte arrebatar-me<br />
Fica meu pedido cá<br />
Que escrito deixarei já<br />
Para oficial ou soldado<br />
Que eu quero ser enterrado<br />
Nas grotas do Caverá&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Décima de autoria do próprio Honório Lemes mandada publicar no jornal A Plateia de Livramento por Rui Fernandes Barbosa, que recebeu os originais de Cacílio Lima, morador do Batoví, distrito de São Gabriel.</p>
</div>
<p align="justify"><strong>A LIBERDADE NÃO SE IMPLORA DE JOELHOS, </strong>pelo viés das colaboradoras Clarissa Londero*  e Jaqueline Crestani*.</p>
<p align="justify">*Clarissa Londero e Jaqueline Crestani são Jornalistas.</p>
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		<title>ALÉM DA CASCA, O CONTEÚDO</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Feb 2012 15:00:05 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Três acadêmicas questionam: qual a distância entre as obras e o ensino?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 605px"><img class="alignnone" src="https://lh4.googleusercontent.com/--2RSjEjqY_k/Tz-0vTOra2I/AAAAAAAAFYg/zEJkWGIWGSI/s640/DSC03993.JPG" alt="" width="595" /><p class="wp-caption-text">Obras dos prédios 74B e 74C em andamento. Créditos: Agência de Notícias UFSM</p></div></p>
<blockquote><p>“Iniciadas no ano passado, as obras de ampliação do Prédio 74-A já têm previsão para serem concluídas”.</p>
<p style="text-align: justify;">“De acordo com o diretor do CCSH, Rogério Ferrer Koff, a construção dos novos prédios representa a unificação na cidade universitária de todos os cursos deste centro de ensino. &#8211; O CCSH tem um histórico de fragmentação e isolamento, que poderá ser alterado no novo espaço, explica o diretor”.</p>
<p style="text-align: justify;">“A primeira obra em fase de conclusão corresponde ao primeiro bloco do prédio 74C. A construção do edifício foi dividida em três blocos. A previsão é de que o prédio inteiro esteja pronto em abril de 2012.”</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">As chamadas acima vinculadas estão disponíveis nas páginas online da UFSM e do Centro de Ciências Sociais e Humanas da mesma instituição. Nelas estão apresentados o projeto de extensão do prédio 74, e como se deu o processo de investimento nessas obras.</p>
<p style="text-align: justify;">Frente à finalização das construções, cabe pensar em algumas questões que estão imersas nesse processo dentro da universidade: <strong>Afinal de contas, o que há por trás das obras na UFSM?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Há cerca de um ano a Universidade Federal de Santa Maria deu início a construção e ampliação de estruturas físicas, dentre elas, a extensão do Centro de Ciências Sociais e Humanas, a canalização na entrada da universidade e a ampliação do centro de convenções. Frente a isso ficam as dúvidas: A instituição tem condições de investir posteriormente nestas obras? <a href="http://www.revistaovies.com/reportagens/2011/09/paralisacoes-o-efeito-domino-do-reuni/">São projetos duráveis?</a> O que há por trás disso?</p>
<p style="text-align: justify;">As reformas chamam a atenção e garantem, implicitamente, melhores condições de ambiente para o ensino, porém, o que preocupa é o futuro. As obras por si só não significam muita coisa, é preciso ter planejamento e investimento a longo prazo, pois de nada adianta aplicar dinheiro público em bens que não serão devidamente aproveitados. Planejar um novo edifício com novas salas, novos laboratórios, implica em preencher essas salas com alunos e instrumentos de estudos, assim como, inaugurar um centro de convenções requer que este espaço seja aproveitado por todos.</p>
<p style="text-align: justify;">O estudante de Ciências Sociais, um dos cursos alocados no prédio 74, Caio Alexandre Picarelli, pondera: &#8220;as obras são só a casca, o que importa é o conteúdo que virá depois&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa previsão pessimista provém do mau planejamento já verificado em outras situações como a construção do prédio 74, que, ainda novo, necessitou de restauração devido a rachaduras.</p>
<p><div class="wp-caption aligncenter" style="width: 600px"><a title="Nota divulgada no sítio do Centro de Ciências Sociais e Humanas (www.ufsm.br/ccsh)" href="https://lh4.googleusercontent.com/-_pWtzBTCmrQ/Tz-yt43xiDI/AAAAAAAAFYI/vdQUj0cnFMs/s800/obras.jpg" rel="shadowbox"><img src="https://lh4.googleusercontent.com/-_pWtzBTCmrQ/Tz-yt43xiDI/AAAAAAAAFYI/vdQUj0cnFMs/s640/obras.jpg" alt="" width="590" /></a><p class="wp-caption-text">Nota divulgada no sítio do Centro de Ciências Sociais e Humanas (www.ufsm.br/ccsh) - clique para ampliar.</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">Também houve a aplicação de investimentos em obras um tanto desnecessárias como, por exemplo, o monumento em homenagem a Mariano da Rocha. Verificou-se, ainda, a demora no término dessas obras. Se esse mesmo atraso ocorrer para a iniciação das atividades nesses ambientes, consequentemente haverá uma longa caminhada até a<a href="http://www.revistaovies.com/artigos/2011/11/universalizar-esta-demode/"> implementação do mais importante: o ensino</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">O funcionário da secretaria do curso de História, Jorge Pereira afirma: “o crescimento da universidade é altamente positivo, é a casa de vocês”. Portanto, se essa é nossa casa que possamos construir dentro dela e que essa, nos proporcione condições decentes de estudo e de trabalho.</p>
<p>Ampliações lidam com proporções. Estenderam-se prédios. Que se estendam conteúdo dentro desses também.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>ALÉM DA CASCA, O CONTEÚDO</strong>, pelo viés das colaboradoras <a href="http://www.facebook.com/lucieleoliveira">Luciele Oliveira</a>, <a href="http://www.facebook.com/profile.php?id=100002650115778&amp;ref=ts">Mariana Fontana</a> e <a href="http://www.facebook.com/profile.php?id=100002675663435">Luiza Bayer</a>.</p>
<p>oliveiraluciele@gmail.com</p>
<p>marianac_fontana@hotmail.com</p>
<p>luiza-bayer@hotmail.com</p>
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		<title>ASSASSINATO NA PACATA CIDADE DE HOLCOMB</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Feb 2012 14:59:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>revistaovies</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A única certeza é a de que nenhum leitor acaba imune à obra genial de Truman Capote.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div class="wp-caption alignleft" style="width: 386px"><img src="https://lh5.googleusercontent.com/-rWByw_rwMC0/Tz_G7SbERfI/AAAAAAAAFZM/4fQ99Z30RiI/s512/truman-capote-new-york-1965-by-irving-penn.jpg" alt="" width="376" height="381" /><p class="wp-caption-text">Trumam Capote fotografado por Irving Penn.</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">Sobre uma nota de apenas duas linhas no <em>The New York Times</em> (seria um <em>lead </em>superficial ou pela metade?), o escritor Truman Capote escreve uma obra-prima do jornalismo literário, o livro “A Sangue Frio”. A nota relatava o assassinato sobre uma família que vivia no interior do Kansas (os Clutter), fazendo com que o autor viajasse até a cidade pequena de Holcomb (juntamente de sua amiga escritora Harper Lee, autora de “O Sol É Para Todos”) para conversar com vizinhos, conhecidos e familiares da família  e começar sua “matéria”, que acabou se tornando uma apuração longa, minuciosa, calculista e densa. O livro registra a história dos membros da família Clutter, seu  assassinato brutal, a angústia do investigador Al Dewey em não achar os culpados e apresenta profundamente a vida de seus culpados: Perry Smith e Dick Hickcock, os assassinos – até  o final de suas sentenças. Se você não leu e pretende ler, melhor não se estender às próximas linhas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O new journalism feito a sangue gélido</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em setembro de 1965, a revista <em>“The New Yorker”</em> publica o primeiro dos quatro capítulos que faziam parte de umA reportagem intitulada “A Sangue Frio”.  Meses depois, em janeiro de 1966, a tensão narrativa do romance de Truman Capote sairia  em formato de  livro, obtendo um sucesso absurdo de vendas e claro, também de críticas – favoráveis e contrárias. O próprio escritor – que, digamos, não costumava ser muito modesto – definiu sua obra como <em>“non-fiction novel” </em>ou simplesmente “romance sem ficção” e introduziu o jornalismo à literatura, servindo de inspiração para diversos jornalistas-escritores a partir de 1965. Muitos destes autores já escreviam reportagens com uso de recursos literários,  mas  foi a partir de “A Sangue Frio” que esse estilo obteve respeito e admiração. Algumas obras surgiriam nos Estados Unidos após a obra célebre de Capote: em 1968, Norman Mailer lança “Os Exércitos da Noite&#8221;,  Tom Wolf  aparece com “O Teste do Ácido do Refresco Elétrico” e o ilustre Gay Talese surge com “O Reino e o Poder – Uma história do New York Times” e em 1971 com “Honrados Mafiosos”. Outros nomes célebres do jornalismo literário como Tom Wolfe, Jimmy Breslin, Hunter Thompson e James Baldwin também devem ser lembrados por serem fundamentais na investigação da cultura dos Estados Unidos e no uso de reportagem com o uso de recursos literários.</p>
<p style="text-align: justify;">A história sanguinária é verídica, triste, repleta de minuciosidades: detalhes informativos, descritivos e analíticos,  uma apuração que levou nada mais nada menos que seis anos até a obra ser concluída. São informações que foram dissecadas pacientemente, relatadas em mais de oito mil páginas – entre entrevistas, depoimentos, cartas – em uma cidade de 120 habitantes no Kansas, a pacata Holcomb. As imagens quase cinematográficas descritas pelo autor  fazem o leitor refletir como o teria feito sem pesar mais por um lado da balança (dos inocentes da família Clutter ou dos assassinos sádicos).</p>
<p style="text-align: justify;">É incrível o envolvimento que se dá, ainda na primeira parte do livro, com integrantes da família Clutter. Parece que o escritor faz isso propositalmente para que, quando o momento exato do assassinato acontece, quase sentíssemos na pele – a pessoa menos emotiva do mundo ainda assim teria pena da família – o horror cometido na casa que teve apenas coisas de pouco valor roubadas e também uma certa indignação pela frieza com que é relatada. O ambiente todo onde a história se passa é narrado detalhadamente: a cidadezinha de Holcomb, sua comunidade religiosa, a vida pacata população, o clima amigável, são informações íntimas – praticamente uma coleta de todos os diários de cada um dos personagens não-ficcionais.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“A pequena cidade de Holcomb está situada nas altas planícies de trigo do oeste, área desolada que os outros habitantes do Estado chamam de ‘lá longe’. A cento e doze quilômetros a leste da fronteira com o Colorado, o campo, com seu duro céu azul e o ar límpido do deserto, possui uma atmosfera mais de ‘faroeste’ que de meio-oeste. O sotaque local tem uma farpa do nasal das planícies, uma nasalidade de vaqueiros, e os homens, muitos deles, usam as calças justas das fronteiras, chapéus Stetson e botas de salto alto e bico fino. A terra é plana e as paisagens assustadoramente vastas. Cavalos, manadas de gado, um amontoado de silos erguendo-se grandiosos como templos gregos, são vistos pelo viajante muito antes de a eles chegar&#8230;”(trecho do livro)</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em></em>As definições de “crime”, de “assassino” e de “assassinados” ganham dimensões assustadoras em “A Sangue Frio”, que também aguça a curiosidade de uma maneira questionadora  para o leitor (como alguém pode matar o próximo com tamanha indiferença?). No livro, tomamos claramente como crime, algo que alguém &#8211; de má índole ou com uma história de vida triste &#8211; cometeu. Assassino é alguém, &#8211; com uma motivação qualquer, porém com uma história de vida oposta a da vítima – que tira a vida de outrem com indiferença. Assassinados são as vítimas – inocentes  que tiveram sonhos e um futuro desfeito – por  alguém que não deu a mínima importância para isso.  Essas definições são descritas, seguindo a trama do livro, claro (há um choque entre dois mundos opostos, o mundo dos Clutter e o mundo de Perry e Dick). Porém, são estas mesmas descrições que não aparecem nos jornais diários, mas felizmente são relatadas pelo que hoje se chama “<em>new journalism</em>” (que fogem da rigidez insossa do jornalismo, sem deixar de lado a clareza e objetividade requeridas). E foi o que Truman Capote fez.</p>
<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><img src="https://lh6.googleusercontent.com/-mT3PJFm40ZU/Tz_G5uX4xYI/AAAAAAAAFZM/4eN6aXiqHkQ/s640/DickAndPerryBig.jpg" alt="" width="640" height="436" /><p class="wp-caption-text">Os assassinos Perry e Dick sendo presos.</p></div></p>
<p style="text-align: justify;"><em>“Nas primeiras horas daquela madrugada de novembro, porém, sons nada costumeiros subrepuseram-se aos ruídos noturnos normais de Holcomb – a histeria aguda dos coiotes, o arrastar seco das folhas sopradas pelo vento, o lamento distante dos apitos de locomotiva. Na ocasião, não foram ouvidos por ninguém na Holcomb adormecida – quatro disparos de espingarda que, no fim das contas, deram cabo de um total de seis vidas humanas” </em>(trecho do livro)</p>
<p style="text-align: justify;">                    A descrição dos crimes cometidos e relatados em A Sangue Frio não se prende apenas ao fato em si (“utilize a clareza,a objetividade!”, diriam os manuais de redação de  sempre), mas também nas características, nas descrições das personalidades dos personagens – que   são verídicos, mesmo que não pareçam (será que ainda não estamos acostumados com o “<em>new journalism</em>”? Estaríamos acostumados demais com o relato superficial de todos os dias?). Tanto os assassinos quanto os membros da família Clutter são observados densamente pelo autor para podermos conhecer, nos emocionar e se envolver na trama, já que os criminosos e as vítimas não se conheciam, mas nós os conhecemos. Nós passamos a conhecer os dois lados, que são opostos.</p>
<p style="text-align: justify;">                  É como se recortássemos uma notícia de jornal – aquelas notinhas da página policial, sem muito destaque – sobre um assassinato do interior e desvendássemos o que realmente aconteceu, em mínimos e preciosos detalhes. Indubitavelmente a obra de Capote nos faz querer fazer isso, encontrar um fato destes, desenvolver e mostrar para o público – nem que para isso necessitemos de anos apurando para os  leitores  tudo o que aconteceu, como ele o fez. Esse “tudo” em uma camada não superficial, formada por <em>leads</em> (que,quem,como, onde, quando&#8230;)  mas sim tomada por uma profundidade que chegaria até o “centro da terra”, onde certamente Capote chegou – mesmo  que para isso ele tenha se “queimado no magma pastoso” – se envolvido ao máximo com os asssassinos (teria ele tido um caso com Perry?), tão friamente que poderia ter usado da mentira (falsidade ou omissão?)  para conseguir inúmeros depoimentos  e incontáveis visitas até o “núcleo terrestre”, o corredor da morte (um ambiente que poderia ser o inferno, onde só ele e o advogado de Perry e Dick podiam pisar).  Os assassinos também utilizaram a indiferença e foram sádicos ao aniquilar o futuro dos Clutter: mataram uma família inteira para levar da casa apenas um rádio, um par de binóculos e 40 dólares. Herb, Bonnie, Kenyon, Nancy – os Clutter – todos foram amarrados e amordaçados, depois mortos a tiros de espingarda. O garoto Herb também teve a garganta cortada.</p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Pouco antes de tapar a boca do Sr. Clutter – foram suas últimas palavras – ele me perguntou como estava a mulher dele.  (&#8230;) Disse pro Dick segurar a lanterna, colocar o homem em foco. Daí apontei a espingarda. A sala explodiu. Ficou toda azul. Era um clarão só. Nunca vou entender como não ouviram o barulho a quilômetros de distância.” </em>(trecho do livro, depoimento de Perry para o investigador Alvin Dewey)</p>
<p style="text-align: justify;">“A sangue frio” não é apenas um título que remete ao crime cometido por Perry e Dick, mas também como foi escrito o livro, literalmente frio e imparcial (alguns críticos acham que Capote teria dado ênfase a Perry, com quem supostamente teria um caso, mas isso não pode ser levado em conta, pois não aparece na obra explicitamente).  Contudo, os assassinos não sabiam o que Capote estava escrevendo. Em certa carta ao escritor, Perry – que era humano e também era monstruoso – escreveu : “Disseram que o livro só vai ser vendido depois da nossa execução. E que o título é ‘<a href="http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11606">A Sangue Frio</a>’. Quem está mentindo? Parece que alguém está. Francamente, ‘A Sangue Frio’ é de chocar qualquer consciência”. E sem dúvida alguma chocou.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“A execução anterior (de Dick Hickock) não o pertubara, pois nunca dera muita importância a Hickock, que lhe parecia apenas ‘um ladrãozinho’ ordinário, que saíra de sua categoria, vazio, não valia nada. Mas Smith, embora fosse o verdadeiro assassino, despertava outra espécie de reaçao, pois Perry possuía a alma do animal ferido, da criatura exilada que o detetive não podia menosprezar. Lembrou-se do primeiro encontro com Perry, na sala de interrogatórios em Las Vegas: o menino-homem, quase anão, sentado na cadeira de metal, os pés em botas mal tocando o solo. E foi o que viu, quando abriu de novo os olhos: os mesmos pés infantis, tortos, balançando [na forca]”. </em>(trecho do livro)</p>
<p><div class="wp-caption alignleft" style="width: 354px"><a href="https://lh3.googleusercontent.com/-0V_hAqGvdS4/Tz_G6VFq88I/AAAAAAAAFZM/qaT7sVam0i0/s700/asanguefrio22.jpg" rel="shadowbox"><img src="https://lh3.googleusercontent.com/-0V_hAqGvdS4/Tz_G6VFq88I/AAAAAAAAFZM/qaT7sVam0i0/s512/asanguefrio22.jpg" alt="" width="344" height="512" /></a><p class="wp-caption-text">Edição de &quot;A sangue frio&quot; da Editora Companhia das Letras.</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a grande qualidade deste livro – obra  clássica do jornalismo literário – é o distanciamento jornalístico do autor, que acaba utilizando a corrida da apuração em ritmo de reportagem policial para chegar ainda com fôlego até o final do percurso – a  finalização da obra – que  se prolongou por 6 anos, só podendo ser concluída quando Perry Smith e Richard Hickcock (Dick) foram executados (a tensão narrativa nos leva a ler euforicamente até o grande dia&#8230;).  O poder de observação perpassado por Capote certamente é uma das melhores habilidades do autor ao finalizarmos a leitura desta obra fundamental do jornalismo literário do século XX. A única certeza é a de que nenhum leitor acaba imune à obra genial de Truman Capote, por mais indiferente que seja – não há quem não se questione  (ou se comova, se irrite, reaja de alguma forma!), com a frieza de ambos, autor e assassinos: é uma leitura literalmente repleta de frieza, escrita a sangue gélido.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ASSASSINATO NA PACATA CIDADE DE HOLCOMB</strong>, pelo viés da colaboradora Gabriela Gelain*</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>*</strong>Gabriela Cleveston Gelain é acadêmica do 5º semestre de jornalismo – UFSM e confessa que no final das contas,  ainda teve um pouco de pena de Perry Smith.</p>
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		<title>TRANSPORTE PÚBLICO: SEGUNDA-FEIRA DE CINZAS</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Feb 2012 13:33:19 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Em mais uma “aula de democracia”, Conselho Municipal dos Transportes aprovou, em plena segunda-feira de carnaval, novo cálculo da tarifa do transporte público urbano em Santa Maria. Pelo viés de João Victor Moura]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div id="attachment_15856" class="wp-caption aligncenter" style="width: 600px"><a href="http://www.revistaovies.com/wp-content/uploads/2012/02/20022012212.jpg"><img class="size-large wp-image-15856 " title="Protestos contra o aumento da passagem em Santa Maria" src="http://www.revistaovies.com/wp-content/uploads/2012/02/20022012212-1024x575.jpg" alt="" width="590" height="331" /></a><p class="wp-caption-text">Protestos contra o aumento da passagem em Santa Maria fecham a Av. Rio Branco. Foto de João Victor Moura</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">O ano de eleições municipais começou cedo em Santa Maria. No fim de janeiro a Associação dos Transportadores Urbanos (ATU) já iniciava mais uma rodada de seu jogo político. Primeiramente cabia avisar e tornar claro um descontentamento com o valor da tarifa. Depois, fazer comparações, tentar comprovar &#8211; com tabelas, dados e planilhas &#8211; que um novo aumento é necessário e assim convencer a “opinião pública”. Aí então vinha a parte mais simples: convencer a maioria dos conselheiros do Conselho Municipal dos Transportes (CMT) e os representantes do poder público.</p>
<p style="text-align: justify;">A pressa é grande. Na memória dos empresários, imagens de protestos inflamados e fechamento de ruas promovidas pelos estudantes, sempre linha de frente dos protestos contra o aumento. O momento oportuno para desestabilizar os estudantes, inimigos do aumento, tem prazo para acabar: as aulas da rede estadual e municipal de ensino começando no fim de fevereiro e as aulas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) iniciando algumas semanas depois, no início de março, o período de tranquilidade acaba justamente num feriado de carnaval.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada que não possa ser contornado pela ganância e pelo medo dos protestos. A decisão, que parece estranha a primeira vista, não deixa de ser a mais óbvia para os “estrategistas” da ATU: que se vote o aumento no feriado, entre um “mamãe eu quero” e outro!</p>
<p style="text-align: justify;">A sexta-feira, 17, iniciava com uma reunião do CMT no Centro Administrativo Municipal. Ali se encaminhava, em regime de urgência, um novo cálculo da tarifa e era escolhido como relator do processo o representante do Sindicato dos Trabalhadores e Condutores de veículos rodoviários de Santa Maria e região (SITRACOVER). O prazo estabelecido pelo regimento interno do CMT estipulava 48 horas para que o relator apresentasse um parecer sobre o cálculo, marcando-se assim nova reunião do CMT para segunda-feira.</p>
<p style="text-align: justify;">Como se sabe, segunda-feira não é feriado. Mesmo assim, é um dia marcado por uma morosidade de ressaca. Na cidade, o ponto facultativo das repartições públicas já deixa tudo menos movimentado. Juntando-se a isso os vários comércios e escritórios que também permaneciam fechados davam o ar de feriado na cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o tempo correndo contra suas pretensões, a ATU pressionava por uma resolução rápida. Por outro lado, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFSM, com cadeira no Conselho, tentava de toda forma atrasar a decisão do CMT. Na segunda-feira a fração dos comerciantes que relutavam em dar aquele dia como perdido ainda abriam as portas e o CMT já se fechava no conforto refrigerado do SEST/SENAT. A decisão de levar o Conselho para aquele espaço era tática. Diferente do Centro Administrativo Municipal, encravado no Centro da cidade, o SEST/SENAT está localizado no bairro Nossa Senhora de Lourdes, em um beco sem saída, onde os protestos ganham menor visibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentro do Conselho representantes da prefeitura, da ATU, do DCE, do SITRACOVER, das empresas de transporte interdistrital, do Sindicato dos Taxistas (Sinditáxi), da Câmara de Comércio e Indústria de Santa Maria (CACISM), do Sindicato dos Contabilistas, da Associação de Proteção e Defesa do Consumidor, do Sindicato dos Comerciários e da União das Associações Comunitárias (UAC). No Centro da cidade, na Praça Saldanha Marinho, um pequeno grupo de manifestantes iniciava um protesto em clima de carnaval. Por certo tempo algumas esquinas da Avenida Rio Branco e o Viaduto Evandro Behr permaneceram fechados pelo grupo. Do Conselho no Sest/Senat as notícias não eram animadoras. Em uma manobra bem arquitetada, o pedido de vistas do relatório, feito pelo DCE, veio acompanhado de outro pedido de vistas, de Edmílson Gabardo. O pedido feito pelo DCE tinha um objetivo claro: adiar a decisão sobre o aumento por mais 72 horas, prazo máximo do pedido de vistas. O objetivo de Gabardo, representante da ATU, era impedir que a decisão fosse postergada por todo este tempo. Para tanto, Gabardo pediu apenas dez minutos para apresentar seu parecer do pedido de vistas.</p>
<p style="text-align: justify;">O presidente do Conselho e representante da UAC, Rodrigo Lima dos Santos, o Rodrigão, decidiu que aquela era uma decisão que poderia ser tomada em votação. Rodrigão, ao tomar tal decisão, ainda diria que o fez daquela forma por ser ele “muito democrático”. A decisão estabeleceu como prazo máximo do pedido de vistas os dez minutos pretendidos por Gabardo, impedindo qualquer ação mais efetiva por parte do DCE. Passados os dez minutos, o Conselho seguiu um roteiro bem conhecido de outros carnavais (leia mais nas matérias <a href="http://www.revistaovies.com/reportagens/2010/10/negociando-o-direito-de-ir-e-vir/">NEGOCIANDO O DIREITO DE IR E VIR</a> e <a href="http://www.revistaovies.com/entrevistas/2011/01/entrevista-com-o-promotor-adede-y-castro/">ENTREVISTA COM O PROMOTOR ADEDE Y CASTRO</a>): a votação sobre a validade do cálculo apresentado, que fixava o preço da passagem em R$2,54, foi vencida sem dificuldades pelos empresários, contra a população em geral, que só vê a tarifa subir e o transporte piorar, e os estudantes que iam às ruas em protesto.</p>
<p style="text-align: justify;">Aprovado o aumento no CMT, a decisão final sempre é tomada pelo prefeito Cezar Schirmer (PMDB). O prefeito também aproveitava os dias de carnaval para descansar. Na volta para suas atividades, Schirmer tem todo o poder de negar o aumento, ou até de estabelecer um preço maior que o calculado.</p>
<p style="text-align: justify;">Constituído por entidades que, muitas vezes, tem interesse no aumento da passagem, o CMT, de caráter consultivo, tem uma função bem clara: dividir a culpa do aumento no preço da tarifa. No entanto, cabe lembrar que cabe ao prefeito, e apenas a ele, tal decisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Cabe lembrar também que, em junho do ano passado, quando o Decreto Municipal nº63/2011 estabelecia em R$2,30 o preço da tarifa, algumas contrapartidas eram assinaladas pelo prefeito (leia mais sobre o aumento de R$2,20 para R$2,30 <a href="http://www.revistaovies.com/reportagens/2011/06/a-passagem-vai-para-r-230-isso-ja-foi-decidido/">clicando aqui</a>): “I. Dar continuidade à implementação da passagem integrada <a href="http://www.revistaovies.com/reportagens/2011/05/sim-sistema-integrado-de-mentirinha/">[leia mais sobre a passagem integrada clicando aqui]</a> ; II. No prazo de 120 dias, apresentar projeto de implementação de condicionador de ar nos veículos de transporte coletivo de maior fluxo de passageiros e de maior percurso, detectados pela bilhetagem eletrônica; III. Dar ampla divulgação dos horários e frequências das linhas; e IV. Disponibilizar ao Poder Executivo Municipal, online, no prazo de até 90 dias, todas as informações resultantes da bilhetagem eletrônica, assim como todos os dados indispensáveis para a fiscalização e controle das operações [...]”.</p>
<p style="text-align: justify;">Destas, duas são pontuais, com prazos definidos e não cumpridos pelas empresas transportadoras. O estudo para instalação de ar-condicionado nas linhas mais movimentadas não foi entregue em 120 dias. No fim do ano passado, uma notificação da prefeitura relembrava a ATU de seus deveres. A entidade pediu então mais 90 dias para fazer a análise. Para que o estudo seja feito parece não haver pressa, diferentemente do aumento na tarifa ou da confecção de um parecer de pedido de vistas. A ATU mostra uma nova e curiosa face: a de senhora do tempo, capaz de postergar indefinidamente um período de 120 dias iniciado em 22 de junho de 2011 (de lá para cá são 243 dias!) e de escrever pareceres de vistas de um relatório em dez minutos.</p>
<p style="text-align: justify;">Resta ao prefeito Cezar Schirmer decidir se permanece com a população, ainda de ressaca por conta do carnaval, ou com os empresários, senhores do tempo.<img src="http://oviesrevista.files.wordpress.com/2009/10/v.jpg?w=10&amp;h=12&amp;h=12" alt="" /></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.revistaovies.com/transporte-publico-em-santa-maria/">LEIA MAIS SOBRE O TRANPORTE PÚBLICO EM SANTA MARIA NA REVISTA O VIÉS</a></p>
<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 605px"><img src="https://lh6.googleusercontent.com/-zTRJAADz6og/T0K_l4Dk0DI/AAAAAAAAAeg/A-vd2ZbdsCI/s800/20022012215.jpg" alt="" width="595" height="335" /><p class="wp-caption-text">Manifestantes passam pelo Viaduto Evandro Behr, no centro de Santa Maria. Foto: João Victor Moura</p></div></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>TRANSPORTE PÚBLICO: SEGUNDA-FEIRA DE CINZAS</strong>, pelo viés de <a href="http://www.revistaovies.com/a-redacao/joao-victor-moura/">João Victor Moura</a></p>
<p style="text-align: justify;">joaovictormoura@revistaovies.com</p>
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		<title>ME MATAN SI NO TRABAJO, Y SI TRABAJO ME MATAN</title>
		<link>http://www.revistaovies.com/cronicas/2012/02/me-matan-si-no-trabajo-y-si-trabajo-me-matan/</link>
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		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 15:01:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>revistaovies</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Diante de toda essa flexibilização e ajustes no mundo do trabalho, quem ainda pode dizer que tem o que merece? Pelo viés de Nathália Costa]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div class="wp-caption aligncenter" style="width: 555px"><img src="https://lh6.googleusercontent.com/-yB1a9IuFPxw/Tzq_mkuZPqI/AAAAAAAAAeA/tWeA6WyhgI0/s545/Ind%25C3%25BAstria%2520t%25C3%25AAxtil.%2520Chittagong%252C%2520Bangladesh%2520.%25201989.JPG" alt="" width="545" height="361" /><p class="wp-caption-text">Indústria têxtil. Chittagong, Bangladesh . 1989. Foto: Sebastião Salgado/Amazonas Images</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">Escutei certa vez de um sindicalista a seguinte afirmação (que não é literal, porém mantém seu sentido): “Fui questionado pelo meu patrão o motivo pelo qual eu ainda lutava pela redução de minha jornada de trabalho, uma vez que já havia conquistado as 30 horas semanais. Respondi a ele que, tendo as 30 horas, seguiria lutando pelas 25. E se um dia eu tivesse as 25, lutaria por 10, lutaria por cinco&#8230;”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para alguns, o dito logo acima não faz o menor sentido. Aliás, é compreensível que não o faça. E por um motivo principal: o fato de que, em nossa atual sociedade &#8211; articulada sobre as bases da meritocracia provinciana – não existe espaço para contestar a ordem vigente do trabalho. O trabalho é visto como braço aliado do mérito. O esforço, o empenho, a capacidade intelectual e física. Não apenas a capacidade enquanto seres humanos de nos organizarmos e de nos fazermos agentes sociais a partir do <em>nosso trabalho</em> &#8211; mas a equiparação cada vez mais latente de nos assemelharmos às máquinas, a uma imensidão de exércitos treinados para levantar peso, esforçarmos-nos mais para levantar mais peso e receber pouco por isso. Não poder contestar.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, qual o crime em querer trabalhar pouco? A frase do nosso caro sindicalista nos parágrafos acima traduz o receio entranhado em uma sociedade produtivista: não é admissível, e nem mesmo possível, que eu não <em>produza</em>. Que eu não <em>renda</em>. E são esses mesmos termos utilizados em nossa linguagem cotidiana de trabalho. Não é parte do meu ofício, da minha capacidade, da minha habilidade <em>humana</em> em construir, em trabalhar – mas o meu aspecto mais mecanicista, produtivista – o retrato da minha linha de montagem. Sair da linha é perigo na certa. E não apenas porque o dinheiro do aluguel, do pão e do leite, ou até quem sabe o supérfluo, porém prazeroso, poderá faltar. Mas porque eu serei, a partir do momento em que cair fora da linha de montagem, o retrato da miséria, do vagabundo, do desajustado social. Alguém que não tem talento. Que não se esforça. Alguém sem <em>mérito</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ilusão dos lucros em um mundo com olhares diversos a respeito deste mesmo mérito: aos doutores, estudados por anos nas melhores universidades, a ideia disseminada aos quatro cantos de que os anos de seus estudos automaticamente deveriam se converter em anos de lucro e recompensas. Porém, aos mesmos doutores os anos em que um trabalhador passa ao calor do sol, as horas em que ele simplesmente vê sumirem em seu dia, dissiparem em frente aos seus olhos, as horas em que o mesmo está sentado em uma cadeira de um caixa de supermercado, ou mesmo levantando a carga &#8211; todas essas horas, que consequentemente serão anos &#8211; não contam como investimento. Não são aplicáveis, rentáveis. São imediatos – assim como vêm, vão.</p>
<p style="text-align: justify;">E o que seria senão os mesmos “investimento e esforço” as horas em que um trabalhador braçal dedica ao seu trabalho? Não menos válidas as horas que um estudioso aplicará ao seu trabalho (e nem os quatro, cinco, seis, sete anos que um estudante leva para concluir seu ensino superior). O confuso é que, atualmente, o esforço intelectual <em>produzido</em> pelos estudiosos de nosso tempo corre o mesmo risco de  desgastar, acabar por apertar até a última gota de suor do intelecto no mesmo nível em que é possível apertar o suor braçal. O <em>produtivismo</em>, que tanto atacou os trabalhadores da base social, agora atinge também os intelectuais, os trabalhadores do intelecto, os pensadores. É possível, então, que um professor universitário e um operário “chão-de-fábrica” sintam-se, na mesma medida, valorizados? Recompensados? Como é possível calcularmos o valor do nosso esforço, do nosso trabalho? Ou melhor, o que é de fato justo trabalharmos? O que é mesmo necessário?</p>
<p><div class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><img src="https://lh6.googleusercontent.com/-i-r5neTIGPg/Tzq_nXYSZSI/AAAAAAAAAeI/-frvj0jv4fM/s600/Trabalhando%2520num%2520po%25C3%25A7o%2520de%2520petr%25D9%258Eleo.%2520Greater%2520Burhan%252C%2520Kuwait%2520.%25201991.jpg" alt="" width="600" height="406" /><p class="wp-caption-text">Trabalhando num poço de petrَóleo. Greater Burhan, Kuwait . 1991. Foto: Sebastião Salgado/Amazonas Images</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">Questiono a imposição da produção, das horas intermináveis, da criminalização das greves. Dias atrás, o cabo Benevenuto Daciolo, do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, recentemente preso e enviado para Bangu 1, tal qual um estuprador ou criminoso de mesma ordem, falava aos grevistas que, ainda que o governo decidisse lhes pagar 4 mil reais, ao invés dos solicitados 2 mil, não seria de comum acordo que eles sairiam do movimento. Querem mais, que não é mais, mas é o justo: o fim de um governo que recrimina seus trabalhadores e os incrimina por desejarem mais, por lutarem pelo que merecem. Aos olhos da sociedade, o que parece? Motim. Se vão pagar o que é justo, por que reclamar? Mas, afinal, o que é justo receber?</p>
<p style="text-align: justify;">Todos nós despendemos tempo de nossas horas sadias em tarefas, exercícios, obrigações diárias que carecem de nosso empenho. Do contrário, não sustentaremos nosso “padrão de vida”, seja esse mesmo padrão o que for &#8211; alto, baixo, médio, intolerável, insignificante.</p>
<p style="text-align: justify;">Não existe espaço para todos. Existe? Todos os que ocupam os cargos mais bem remunerados do mundo são, de fato, os melhores? Desemprego é sinônimo de incompetência?</p>
<p style="text-align: justify;">Eis a crise europeia para nos provar que o desemprego não é sinônimo de incompetência. Que a incompetência provém do próprio sistema capitalista, vigente há séculos (e, nesse sentido, pode ser considerado <em>competente</em>), porém desigual, desestruturado ao tratar de <em>seres humanos</em>. De tudo o que pertence a nossa humanidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Não caiamos no ato falho do senso comum, acreditando que o desemprego é sinônimo da incompetência de nossos pares. Tampouco acreditemos que todos aqueles que não possuem a sua ocupação o fazem por falta de oportunidade. Podemos escolher, mas também não podemos. Somos menos livres nesse quesito do que imaginamos ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém precisa inventar desculpas para si mesmo. O mundo do trabalho não está do seu lado, trabalhador. Por mais que você se esforce, e eu sei que você se esforça, a ordem do dia é &#8220;faça mais e receba cada vez menos&#8221;. Quantas pessoas, das mais diferentes ocupações, podem levantar o braço em resposta afirmativa quando perguntadas se são valorizadas em sua profissão? E quantos da corja desonesta, incompetente, pode receber mais e ainda alegar que é porque merece, que é porque tentou?</p>
<p>Meritocracia, a ilusão dos incompetentes. Sinceramente, diante de toda essa flexibilização e ajustes no mundo do trabalho, quem ainda pode dizer que tem o que merece? Patrão não é amigo. Greve não é crime. O trabalhador não pode ser acuado por ter direitos.<strong style="text-align: justify;"><img src="http://oviesrevista.files.wordpress.com/2009/10/v.jpg?w=10&amp;h=12&amp;h=12" alt="" width="10" height="12" /></strong></p>
<p>*O título desta crônica é também o título da canção de Nicolás Guillén (letra) e Daniel Viglietti (música), eternizada na <a href="http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&amp;v=cfd3UPEXsHw" rel="shadowbox[sbpost-15644];player=swf;width=640;height=385;">voz de Viglietti</a>.</p>
<p><div id="attachment_15653" class="wp-caption aligncenter" style="width: 605px"><img class="size-full wp-image-15653 " title="Trabalhadores da mina de carvão. Dhanbad, Bihar,Ìndia . 1989 Foto: Sebastião Salgado/Amazonas Images" src="http://www.revistaovies.com/wp-content/uploads/2012/02/Trabalhadores-da-mina-de-carvão.-Dhanbad-BiharÌndia-.-1989.jpg" alt="" width="595" height="395" /><p class="wp-caption-text">Trabalhadores da mina de carvão. Dhanbad, Bihar,Ìndia . 1989 Foto: Sebastião Salgado/Amazonas Images</p></div></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ME MATAN SI NO TRABAJO, Y SI TRABAJO ME MATAN</strong>, pelo viés de <a href="http://www.revistaovies.com/a-redacao/nathalia-panka-costa/">Nathália Costa</a></p>
<p style="text-align: justify;">nathaliacosta@revistaovies.com</p>
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		<title>VEREADORES EM APUROS</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 15:01:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>revistaovies</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nem salários olímpicos nem casa pronta. A situação da Câmara de Vereadores de Rosário do Sul. Pelo viés de Bibiano Girard.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 605px"><img class="  " src="https://lh6.googleusercontent.com/-YrOH_9GONtQ/Tzq1xpVZpdI/AAAAAAAAFWY/b4BU-1ZY0OY/s640/foto%2520renato%2520moraes.jpg" alt="" width="595" height="372" /><p class="wp-caption-text">Manifestantes tomam a Avenida Amaro Souto em frente à Prefeitura. Foto: Renato Moraes.</p></div></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam uma com a outra. Antes se negam, se excluem, se repulsam mutuamente. (Rui Barbosa)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tarde de 26 de janeiro, Praça Borges de Medeiros, 33°C. Um cartaz escrito a mão insta: ”por favor, me adote”. Sob o panfleto não há órfão, mas sim uma indignada. Outro cartaz colorido zomba: “R$19.884,00 e nós parcelando o rancho em 12X”. Na volta 300 pessoas entoam palmas, apitam e pedem a anulação de três decretos bolados pelo legislativo, os quais majoram os salários dos partícipes do poder em até 44%. Ernesto, como sempre, presente. Em cartaz, em banner online e em pessoa. Na enciclopédia livre online os dados técnicos sobre a cidade informam que a população, no último censo, não chega a 40 mil. De modo resumido, as informações da Wikipédia cessam sem ilustrar a facécia pulsante da urbe. O último episódio descrito em “fatos históricos” &#8211; a primeira edição do festival de música nativa- data, um pouco obsoleto, de 1983. “Por enquanto”, alertam os precavidos.</p>
<p><div class="wp-caption alignleft" style="width: 399px"><img style="border: 3px solid white;" src="https://lh4.googleusercontent.com/-sr1LhLweo5Q/TzqokLh9-jI/AAAAAAAAFUg/Gfx48CKvxJ0/s640/DSC00247.JPG" alt="" width="389" height="294" /><p class="wp-caption-text">Ernesto, filho de um dos idealizadores da Primavera Rosariense, Eliézer Santos, é um dos mais novos manifestantes do ato. Foto: Acervo pessoal.</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">O espírito de grandeza parece ser marca registrada da pequena Rosário do Sul, no Pampa gaúcho. Numa das portas de entrada percorrem-se quase dois quilômetros sobre uma ponte que liga o centro do estado ao município. Numa das praças, um monumento religioso capaz de causar inveja ao Redentor sobreleva-se às copas das árvores. O tráfego na Avenida Beira-Rio durante os meses de férias põe a Marginal Tietê no chinelo. Para uma alma ostentosa, nada mais justo do que ordenados onerosos para o prefeito, para o vice-prefeito, para os vereadores e para os secretários. A maioria dos habitantes, tranqüilos a sorver seu chimarrão até o recebimento da notícia, não concordou. Os políticos tergiversaram. O coração é grande, mas a algibeira e a resignação da população são rasas.</p>
<p style="text-align: justify;">A condição de descrédito pela qual a perdulária Casa do Povo da ex-rainha da ervilha vem passando não é novidade. Deliberações e votações além do abecedário do cotidiano carecem por lá. Nos últimos três anos os marcos dignos da atenção do povo e da imprensa local reduziram-se a momentos enleáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">O dispêndio exorbitante em viagens dos nove representantes é um deles. Cruzando os dados dos gastos dos legisladores pelo número de habitantes, cada rosariense empregou R$5,22 para oportunizar idas e vindas aos pândegos e labutadores vereadores.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Na Região Central, a Câmara de Rosário do Sul foi destaque”,</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">apregoava a imprensa em outubro de 2011. Todavia, o laurel de realce não condizia a nenhuma ação política benéfica direta ao município. A partir da classificação corroborada pelo Ministério Público de Contas do Estado, a ex-cultivadora da leguminosa verde postou-se como 5ª classificada na lista das cidades que mais gastaram frações com viagens de edis na rubrica 2010. O gasto chegou a R$ 206 mil. A vizinha São Gabriel, com 65 mil habitantes, gastou R$100 mil a menos com cláusulas dessa ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">O então presidente do legislativo, Alson Pereira da Silva (PP), explicando-se como emissário de toda a classe legisladora da cidade, afirmou ter certeza de que os gastos eram revertidos em muitos benefícios para o município, pois majoritariamente as despesas incidiram com viagens a Porto Alegre na procura por avanços e por obras para a cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se pode negar que vastas obras ocorreram na cidade nos últimos anos, entre elas, a ainda inacabada construção da nova Câmara de Vereadores, um projeto audacioso de estimado bom gosto. O otimismo popular fundamenta-se em saber que o executor da obra não é parente do magnata do petróleo John P. Rimbauer. No acesso à cidade ergueu-se um pórtico de disposição esportista, lembrando traves e travessão de uma goleira, no valor de R$103.500,00, sendo R$97.500,00 recursos provindos do Ministério do Turismo. Ainda incompleto.</p>
<p style="text-align: justify;">O Minha Casa Minha Vida do legislativo rosariense já recebeu numerosos orçamentos. Em 2009 a Licitação nº 005 para tomada de preços a fim de contratar a empresa responsável pela construção da terceira etapa do prédio, 75% do total da obra, estimava como valor máximo admitido a ninharia de R$ 220.000,00.</p>
<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 605px"><img class=" " src="https://lh6.googleusercontent.com/-RWhoxwJZWno/Tzqo7HvPJCI/AAAAAAAAFU8/EbbPdiWeFb8/s640/11.jpg" alt="" width="595" height="371" /><p class="wp-caption-text">O projeto da nova Câmara Municipal. (Imagem:Arquivo da Câmara)</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">Na Licitação nº 044 de junho de 2011, a qual visava a contratação da empresa que desempenharia a edificação da quarta etapa &#8211; 1ª parte -, quando foi notada a necessidade da inclusão de mais um sanitário por pavimento, o valor máximo admitido foi menor. Míseros R$ 80.562,00. Por caução estética o edital esclarecia que a empresa vencedora deveria também instalar tubos e outros conectores relativos à instalação de esgoto e tubos de queda do esgoto dos novos sanitários [...] para que os mesmos tubos não sejam aparentes nas fachadas externas. Depois de concluídos os vãos de abertura dos sanitários do térreo, do 2º e do 3º pavimentos, notou-se a necessidade da redução dos mesmos. Novo reboco e pintura foram solicitados. Esta fase precisaria ser rematada antes da disposição dos vidros temperados na fachada.</p>
<p style="text-align: justify;">O novo plenário infelizmente não carregará em sua estimada biografia noites como a gélida segunda-feira, 17 de maio de 2010, uma data inesquecível na crônica do pulsar municipal, ocasião esta onde, em ato de grandeza, de benevolência e de bravura a Casa do Povo mostrou-se heróica. Com honras de gravidade e mérito proeminente, alguns dos legisladores tomaram o púlpito de uma das sessões ordinárias a fim de alertar dois apresentadores de televisão que seus nomes e suas imagens estavam sendo reproduzidas na página de um “famigerado site” (em expressão ipsis litteris de uma das legisladoras). Os dados espirituosos do sítio de caráter suspeito não foram bem recebidos, gastando o eufemismo, pelos legisladores, que na percepção de serem os tutores da altanaria e da moral rosarienses, levaram o sítio à contenda. A Desciclopédia caiu no desprestígio. Os ânimos se exaltaram. Houve edil que se sentiu ridicularizado em saber que sua zelosa reputação virara chacota notória passível a enodoar os anais da história da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas nem de vidros temperados nem de apreciações à Desciclopédia foram concebidos os discursos das últimas semanas no plenário. Com certificação conveniente para aumentarem os salários dos poderes legislativo e executivo em até 44%, os vereadores de Rosário do Sul entraram novamente para o hall das estrelas da programação jornalística local. “Em cidade pequena, a imprensa não cobra, pois precisa dos ‘amigos’ para se manter viva, o que colabora para que escândalos como esse sejam abafados”, escreveu um jornalista natural da cidade. Mas a imprensa local, tomando a atitude de divulgar a gravidade do que estava por suceder, bancou o atilamento popular e funcionou como braço direito do movimento social.</p>
<p style="text-align: justify;">O que não estava no horizonte da asseveração do aumento da remuneração do prefeito, do vice-prefeito, dos vereadores e dos secretários era a massa de 300 pessoas que na tarde de 26 de janeiro tomaria a Praça Borges de Medeiros, em frente à Prefeitura, usando os degraus da Pira da Pátria como tablado para sermões indignados contra a cruzeta despótica dos legislados contra os cidadãos. O movimento alargou. A Avenida Amaro Souto, endereço tanto da Câmara quanto da Prefeitura virou palco de manifestação histórica. A imprensa local, sobretudo os dois jornais impressos de maior circulação, ao oposto da omissão, abriram suas páginas para promulgar não apenas a manifestação, mas os porquês do descontentamento dos eleitores quanto à atitude de seus governantes.</p>
<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 605px"><img class=" " src="https://lh4.googleusercontent.com/-m9VtgNHIG0I/Tzq1xcwQhiI/AAAAAAAAFWQ/GtxLBGI7wO8/s645/421009_294312703960261_1793134263_n.jpg" alt="" width="595" height="401" /><p class="wp-caption-text">Há praticamente um mês as notícias sobre o levante não saem da mídia local.</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">“Manifestantes ocuparam hoje a Rua Amaro Souto, em frente à prefeitura. A população cobrava, entre outros, a anulação do reajuste que elevava para quase R$ 20 mil o salário do próximo prefeito. Caso o aumento persistisse o prefeito de Rosário do Sul passaria a receber aproximadamente R$2.500 a mais que o governador Tarso Genro”. O salário do vice-prefeito acenderia de R$ 8.200,00 para R$ 10.400,00. Os secretários municipais sairiam dos atuais R$ 3.300,00 para R$ 5.300,00.</p>
<p style="text-align: justify;">Após algumas horas de ato, os manifestantes se achegaram pacificamente ao prédio amarelo onde está localizado o gabinete do prefeito Ney Padilha (PSB). Como o decreto fora aprovado pela Câmara e sancionado por ele, Ney Padilha, em confissão de deferência, constrangido também pela desaprovação popular e pela propagação barulhenta sobre os fatos efetivada pela imprensa, abriu a porta do prédio, foi ao meio dos manifestantes e reconheceu o equívoco: “Os políticos ouvirem a comunidade que os elegeu, tomarem atitudes pedidas por quem os elegeu, é a verdadeira democracia. Voltar atrás não é vergonha. Vergonha seria ter a soberba de persistir no erro”. Os nove vereadores, durante sessão extraordinária, derrubaram por unanimidade a elevação dos próprios salários. A decisão de aumento, anteriormente, tinha sido benquista igualmente pelos nove vereadores.</p>
<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 605px"><img class=" " src="https://lh5.googleusercontent.com/-pIP9KKt9nKs/TzqodT8BqSI/AAAAAAAAFUI/cSKrcbR2LOI/s640/Jean%2520Marcus%2520e%2520Jaberson%2520Severo.jpg" alt="" width="595" height="446" /><p class="wp-caption-text">Os jovens Jaberson Severo e Jean Marcus seguram o documento assinado pelo Prefeito Ney Padilha anulando o aumento dos salários. Foto: Acervo pessoal.</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">Segundo uma das organizadoras do movimento, o qual ganhou a alcunha de Primavera Rosariense – em alusão às centenas de protestos ocorridos em alguns países árabes durante a estação, uma nova votação deverá acontecer na Câmara em abril: “Esperamos o abril chegar. Sinceramente sinto esperança de que uma atitude decente e racional seja tomada, estamos apostando nisso!”, escreveu Lenise Severo, estudante de História.</p>
<p style="text-align: justify;">Em abril os vereadores votam um novo aumento.</p>
<p style="text-align: justify;">“Todos os nossos atos são políticos. Foi-se o tempo em que o chefe de família era o homem, que os políticos eram intocáveis. Fizemos um ato, fizemos um ato com crianças, com jovens e com adultos. E o mais importante: houve um resultado palpável, perto de nós, o movimento aconteceu e os próprios manifestantes viram o resultado na sua frente”, disse a professora do ensino público Vera Lúcia Nascimento. “O que não podemos deixar acontecer é o movimento desandar. Precisamos fazer uma nova cidade, uma nova sociedade. Não podemos confundir política com politicagem. Agora é hora de a <a href="http://www.facebook.com/events/269761573092224/">Primavera Rosariense</a> entrar nas escolas”, completou a professora. “Uma pena que muitos professores do ensino público municipal se sintam acuados a participar deste movimento pela educação da cidadania. Muitos têm medo de represália”, lembrou outro manifestante. Nas palavras de um conselheiro senhor, o advogado e professor da cidade, Dr. Rubens Vianna, preso durante o Regime Militar, “O estudante tá subjugado, ele aceita sem questionar. Por que chegamos a este ponto? Precisamos fazer contatos com os movimentos estudantis. <a href="http://www.revistaovies.com/reportagens/2011/07/de-que-e-feito-um-congresso-da-une/">Onde está a União Nacional dos Estudantes?</a>  No meu tempo, estudante era recebido por qualquer autoridade sem esperar uma audiência. <a href="http://www.revistaovies.com/reportagens/2011/08/me-gustan-los-estudiantes/">O estudante tem que se ver como autoridade</a>. Só assim se muda essa história”.<strong><img src="http://oviesrevista.files.wordpress.com/2009/10/v.jpg?w=10&amp;h=12&amp;h=12" alt="" width="10" height="12" /></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VEREADORES EM APUROS</strong>, pelo viés de <a href="http://www.revistaovies.com/a-redacao/bibiano-girard/">Bibiano Girard</a></p>
<p style="text-align: justify;">bibianogirard@revistaovies.com</p>
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		<title>DESENVOLVIMENTO É, PRIMEIRO, UMA IDEIA</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 15:01:36 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[É uma concepção cultural dos antigos gregos: os outros são bárbaros, selvagens, primitivos, terceiro-mundistas, em desenvolvimento. Pelo viés de Gianlluca Simi]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No ano em que o bloqueio megalomaníaco dos Estados Unidos a Cuba completa 50 anos, vemos a mídia hegemônica brasileira dar pulos de excitação ao poder dizer que “a liberdade e o desenvolvimento” chegarão, então, ao país de Fidel Castro. Ambos termos, muitos usados quanto se fala de qualquer sociedade que não segue à risca os dítames ‘ocidentais’, são extremamente amplos e podem ser interpretados de várias formas. Já aí depomos o reinado de palavras que soam tão livres e doces na boca daqueles em quem, pior que sua própria ideologia escrota, só sua alienação a ela mesma. Enfim, o que significa desenvolvimento? É possível planejá-lo e mensurá-lo?</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira ligação que fazemos é entre as palavras ‘desenvolvimento’ e ‘pessoa’. À nossa época, pelo menos suponho, falamos prioritariamente de gente quando nos referimos a desenvolvimento. Assim, temos o campo do ‘desenvolvimento humano’, já tão famoso nas universidades dos supostos países de ‘primeiro mundo’, onde as consciências nacionais são tão pesadas que os ‘outros mundos’ se tornam objeto de estudo para suas penitências cristã-profissionais. No sítio da ONU (Organização das Nações Unidas), Amartya Sen, professor de Economia na Universidade Harvard, nos EUA, e ganhador do Nobel de Economia em 1998, proclama que:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Desenvolvimento humano, como uma abordagem, preocupa-se com o que considero ser a ideia básica de desenvolvimento: a saber, o avanço da riqueza da vida humana em vez da riqueza da economia na qual os seres humanos vivem, que é somente uma parte do todo”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Logo, em tese, devamos ver a economia como parte do todo e, não, como a origem das nossas discussões &#8211; erro que tanto capitalistas quanto comunistas cometem. O dinheiro, os sistemas de troca &#8211; a economia não é a raiz de todos os problemas e não está mais imbricada na vida do que qualquer outro elemento constituidor da realidade (parentesco, sistema de educação, religião, língua etc.). Cada platô age sobre o mapa-completo assim como o resultado do mapa-completo e os indivíduos agem sobre os platôs e sobre si mesmos. As coisas não são, portantos, coifadas, mas ramificadas &#8211; espalhadas, rizomáticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando falamos em países desenvolvidos e aqueles em desenvolvimento (meras substituições politicamente chatas para países de primeiro e de terceiro mundos), prontamente estabelecemos que existe uma subida e que países como Suécia, Canadá e França (para não citar toda a lista) deverão ser vistos como modelos e todos os outros que não o são devem tentá-lo, em reverência e semelhança àqueles. A Europa Ocidental, a Austrália, a Nova Zelândia, os Estados Unidos e o Canadá são o que todo país deve ser &#8211; eles são desenvolvidos! Essa é uma concepção cultural e  filosófica que vem dos antigos gregos, para os quais todas as sociedades que não fossem a própria grega eram bárbaras, selvagens, primitivas, terceiro-mundistas, em desenvolvimento. Os nomes se adaptam às máscaras da época, mas a ideia é a mesma: nós sempre seremos melhores do que eles!</p>
<p style="text-align: justify;">O Iluminismo criou a ilusão das coisas objetivas, palpáveis, mensuráveis, mas se esqueceu da auto-crítica e, de sua falta, veio o cientificismo, que, só para um exemplo, <span style="color: #800000;"><strong><a href="http://www.revistaovies.com/artigos/2011/11/universalizar-esta-demode/"><span style="color: #800000;">mata a criatividade e as liberdades nas universidades brasileiras</span></a></strong></span>. Se tudo pode ser racionalizável, dentro da lógica capitalista ainda mais, surgem os índices: de igualidade, de mortalidade, de expectativa de vida, de produto interno bruto &#8211; juntos com muitas outras coisas, fazem o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O cálculo de todos esses índices está tão culturalmente posicionado que aqueles que o calculam não percebem a ironia de serem justamente os seus países a sempre terem os maiores resultados &#8211; “devemos ser deuses”!</p>
<p style="text-align: justify;">Para o antropólogo norueguês Thomas Hylland Eriksen, “analiticamente, esse tipo de modelo [de análise de desenvolvimento por índices] é inaceitavelmente evolucionista e reducionista”. Ele defende que uma dose de relativismo cultural vem a calhar quando pensamos em impôr mundo afora a mesma ideia de aonde devemos chegar ao nos desenvolvermos. Ele continua: “Devemos levar em conta o fato de que noções como ‘qualidade de vida’, ‘progresso’ e ‘desenvolvimento’ são construídas localmente”.</p>
<p><div class="wp-caption aligncenter" style="width: 586px"><img title="Tabela comparativa de indíce aleatórios." src="https://lh6.googleusercontent.com/-_WoO19iCkF4/TzpvcgNxJiI/AAAAAAAABvU/MklsSYpaCOM/s720/tabela.jpg" alt="" width="576" height="394" /><p class="wp-caption-text">Tabela comparativa de indíce aleatórios.</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">Quando mesmo, façamos uma pequena demonstração numérica para os mais céticos. Tabelando alguns dados de três países (Brasil, Cuba e Estados Unidos), podemos ver que, pela lógica, Cuba é um país altamente desenvolvido: tem sete dos melhores indíces, contra três dos EUA e dois do Brasil. Cuba é o país mais desenvolvido dos três, podemos dizer? Não! A minha escolha de índices é tão aleatória quanto a mais extensa lista de índices existentes no mundo seria. O desenvolvimento não se mede universalmente &#8211; o que é necessário no Brasil é diferente daquilo que é necessário em Cuba e nos EUA; as realidades são diferentes e as noções de progresso, qualidade de vida e de desenvolvimento também.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, podemos dizer que tudo é definitivamente relativo? Tampouco! Nem tanto a Marx nem tanto a Bauman. A relatividade cultural que se aplica às ideias de desenvolvimento não existe em si mesma, ela também é construída &#8211; ou seja, em cada país, em cada sociedade existe uma cordilheira de agentes que disputam entre si o grau das lentes pelas quais o grupo enxerga. Nem tudo é, portanto, relativo porque não existem verdades definitivas. Cada qual carrega suas percepções &#8211; e isso influencia as noções de desenvolvimento. Alguns verão o PIB per capita, o índice Gini ou a taxa de desemprego como mais importantes; outros dirão que o número de crianças na escola, <span style="color: #800000;"><strong><a href="http://www.revistaovies.com/a-charge/2012/01/nenhuma-crianca-faminta/"><span style="color: #800000;">o nível de desnutrição</span></a></strong></span> ou o quanto se gasta em educação são mais importantes. A única conclusão a que podemos chegar é que não existe ‘desenvolvimento’ perfeito, assim como tampouco existem sociedades já desenvolvidas e outras em desenvolvimento. Números não definem quase nada e o que tem maior influênca no fim é o poder de ditar (ou debater) qual o desenvolvimento que é almejado para nós (ou que almejamos nós mesmos). <strong><img src="http://oviesrevista.files.wordpress.com/2009/10/v.jpg?w=10&amp;h=12&amp;h=12" alt="" width="10" height="12" /></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>DESENVOLVIMENTO É, PRIMEIRO, UMA IDEIA</strong>, pelo viés de <span style="color: #800000;"><strong><a href="http://www.revistaovies.com/a-redacao/gianlluca-simi/">Gianlluca Simi</a></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">gianllucasimi@revistaovies.com</p>
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		<title>SE A PASSAGEM AUMENTAR, SANTA MARIA PARA!</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 15:00:06 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O acinte da prefeitura e empresários de transporte coletivo da cidade é um “tiro no pé”. Pelo viés do colaborador Fabrício de Oliveira.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><img src="https://lh4.googleusercontent.com/-srcwcWNsQOc/TMbJZ3YOLSI/AAAAAAAAEG0/MxSnxJG32og/s640/IMG_9523.JPG" alt="" width="640" height="427" /><p class="wp-caption-text">Foto: Nathália Schneider.</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">A frase que dá título a este texto esteve por quase um ano, ou pouco menos que isto, pichada no muro lateral do colégio Manoel Ribas, o Maneco, talvez o colégio mais conhecido da cidade. A frase é bastante direta: se a passagem (de ônibus) aumentar a cidade para! Sim, apesar de algumas pessoas ainda insistirem (quando digo pessoas me refiro a políticos, empresários e pessoas de sobrenomes famosos), e por motivo de puro marketing, em referir-se à cidade de Santa Maria como uma cidade cultura. Santa Maria deixou de ser uma cidade cultura há muitos anos. Pergunto: Qual cidade cultura que deixa sua “casa de cultura” quase as moscas, sem uma atividade cultural e que várias e várias vezes saiu em páginas de jornal sempre demonstrando sua precariedade estrutural? Que cidade que há anos faz campanha para salvar o teatro Treze de Maio? Pergunte a qualquer cidadão da cidade, o que significa as siglas ASL (Academia Santamariense de Letras)? Agora pergunte a qualquer cidadão <a href="http://www.revistaovies.com/reportagens/2011/05/sim-sistema-integrado-de-mentirinha/">o que significa ATU</a>. Obviamente que grande parte saberá responder, porque há não muito tempo foi noticiado mais um aumento da passagem de ônibus de Santa Maria, <a href="http://www.revistaovies.com/reportagens/2011/06/a-passagem-vai-para-r-230-isso-ja-foi-decidido/">aumento este que chegou a absurdos R$ 2,30.</a><br />
Certamente, os que responderão esta questão são os que dão mais um adjetivo a esta cidade. Sim, eles, os universitários. Logo, Santa Maria não é uma cidade cultura, mas sim uma cidade universitária.<br />
O acinte da prefeitura e empresários de transporte coletivo da cidade é um “tiro no pé”, ao ASSALTAR de forma descarada os estudantes universitários da cidade, os mesmo que adjetivam a cidade e que movimentam, e muito, o mercado imobiliário da cidade.<br />
Devemos lembrar, guardando as devidas proporções, do movimento estudantil chileno, que briga contra o governo federal. Veja bem&#8230; não é contra à prefeitura, mas contra a instância máxima de um país. Esse é o momento dos movimentos estudantis, sejam eles universitário, secundários, círculos de pais e mestres sairem às “calles”, como fazem os chilenos liderados por uma menina de 20 anos de idade, e não deixarem ocorrer o que aconteceu anteriormente,  de o prefeito deixar esperando os estudantes sentados em frente “a casa do povo”, coordenada por vereadores que há não muito tempo votaram por seu próprio aumento de salário.<br />
Parafraseando a música de Caetano Veloso, <a href="http://www.revistaovies.com/reportagens/2011/08/me-gustan-los-estudiantes/">“o Chile não é aqui&#8230;”</a>, mas bem que poderia ser&#8230; estudantes UNI-VOS, porque se a passagem aumentar&#8230;Santa Maria pára.</p>
<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><img src="https://lh6.googleusercontent.com/-YefRgUF1i6g/TMbJcNan_YI/AAAAAAAAEHA/uAg_EZksFW8/s640/IMG_9578.JPG" alt="" width="640" height="427" /><p class="wp-caption-text">Dia 25 de outubro de 2010: uma data marcante na história do movimento estudantil. Foto: Nathália Schneider</p></div></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>SE A PASSAGEM AUMENTAR, SANTA MARIA PÁRA!</strong>, pelo viés do colaborador Fabrício de Oliveira*</p>
<p style="text-align: justify;">*Fabrício de Oliveira é Professor.</p>
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		<title>A PRAÇA TAHRIR E O ANALFABETO POLÍTICO</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 15:02:56 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Um ano depois das manifestações na Praça Tahrir, é preciso avançar nas manifestações populares ou ver as iniciativas do ano que passou serem engolidas pelo analfabetismo político. Pelo viés de João Victor Moura]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 605px"><img title="1" src="https://lh3.googleusercontent.com/-qlbUIgzVzHc/TzEXCfS4snI/AAAAAAAAAd0/QmKx2PHhYzo/s680/5430240410_3da95f1fd5_b.jpg" alt="" width="595" height="394" /><p class="wp-caption-text">Manifestantes rezam na Praça Tahrir, fevereiro de 2011</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">Cotidianamente, ao ligarmos a TV, lermos os jornais impressos ou os sítios de notícia na internet, ficamos sabendo de mais um caso de corrupção política. São deputados, senadores e ministros. Prefeitos e vereadores. Governadores e secretários. Uma lista que parece não ter fim. Nas colunas de opinião, e até nos materiais noticiosos, eles são destruídos, seus podres vêm à tona e o sentimento parece ser de que se trata de um filme velho do qual já sabemos o final.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois fica a impressão de que é a política que não presta, são as relações internas ao jogo político que corrompem até os mais incorruptíveis, é a &#8220;banda podre&#8221; do país. Alastra-se, enfim, o pensamento de que o melhor que se pode fazer com a política é manter distância dela. Daí surge o &#8220;analfabeto político&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Brecht, em meados do século XX, já descrevia as características do analfabeto político, o pior dos analfabetos. Sua poesia define assim o sujeito: &#8220;O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política&#8221;. O analfabeto político não sabe, como escreve Brecht, que o preço do pão ou do seu sapato depende de decisões políticas. O analfabeto político ignora que sua vida é completamente rodeada pela política e de que ele é, desde o nascimento, um ser político.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, um fenômeno mais interessante surgido nos últimos tempos, reconstrói o senso de política, apresentando a internet e as mídias sociais como fóruns de um novo pensamento político. Este pensamento que se imagina fora do espectro da política, digamos, rasteira e feita pelos políticos &#8220;normais&#8221;, em suas diversas esferas. Para aqueles que acreditam nesse fenômeno, as mobilizações sociais não precisam mais da organização partidária ou escolher <em>a priori</em> sua visão da política. Agora, as interações virtuais, em regime de fórum livre de ideias, serão capazes e suficientes para que o povo se organize e defina suas demandas.</p>
<p style="text-align: justify;">E este novo fenômeno, inspirado nas diversas mobilizações ocorridas no mundo no decorrer do ano passado, em especial na Primavera Árabe, vai ganhando diversas formas, novos gritos e passa a reivindicar outras pautas até ser mutilado, sem que suas inspirações iniciais sobrevivam.</p>
<p style="text-align: justify;">As inspirações vão se perdendo e se ressignificando. Suas formas de atuação, que pareciam antes démodés, ganham novo <em>status</em> e são apropriadas por outros movimentos. Esses movimentos novamente ressignificam a importância das mobilizações populares e, ao final do processo, vemos a apropriação das formas de manifestação sendo “recicladas” e as reivindicações “transformadas”.</p>
<p style="text-align: justify;">É assim que o que era a Praça Tahrir passa a ser comparado com o banho coletivo no espelho d&#8217;água do Congresso Nacional; que Guy Fawkes, o anarquista dos quadrinhos e do filme V de Vingança, vai parar na capa da revista Veja como símbolo de inspiração; e o que se queria revolucionário se ressignifica para o analfabeto político.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegamos então ao ponto crucial da questão: a maneira como as formas de manifestação são apropriadas por grupos e pessoas que pouco têm interesse nas transformações que aquelas manifestações desejavam inicialmente. É um processo bem conhecido de fagocitose do sistema. Como no processo biológico, a fagocitose do sistema inicialmente reconhece um corpo estranho e, aos poucos, passa a envolvê-lo até que dele não sobre mais do que a lembrança. A lembrança, sim, será a única a sobreviver, também ressignificada e pacificada.</p>
<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 610px"><img title="2" src="https://lh6.googleusercontent.com/-eDpspe-xEGY/TzEW76CZ3fI/AAAAAAAAAd0/WQbWovDH7s8/s600/6126810109_ed23b4d9fb_o.jpg" alt="" width="600" height="399" /><p class="wp-caption-text">Marcha contra a corrupção, setembro de 2011</p></div></p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo em que os processos se ressignificam e perdem seus ideais no caminho, novos “protagonistas” surgem. No ano de 2011, isso pode ser bem caracterizado na forma de apropriação da Primavera Árabe. Mesmo que persistisse certa inspiração nos anseios dos movimentos árabes, o que se caracterizou como o fenômeno daquele processo foram os usos de redes sociais durante as manifestações. E foi essa a grande apropriação feita, de que haveria certa forma nova de organização feita pela internet.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso, com o passar do ano, foi desandar nas marchas ocorridas no Brasil contra a corrupção. As tais marchas, que ganharam grande espaço na mídia tradicional, se caracterizaram por terem como estandarte principal o ataque à corrupção. E só. Os manifestantes não desejavam grandes transformações sociais ou uma mudança de regime. Só tinham olhos para a corrupção, e de uma corrupção específica, do Estado. Talvez embriagados pela leitura de revistas semanais reacionárias, os manifestantes esqueciam que a corrupção é muito mais do que política, podendo estar presente em todas as esferas da vida. O processo de privatizações ocorrido no Brasil esqueceu de privatizar também a corrupção, que segue como artigo encontrado apenas nas relações dos cidadãos com o Estado – em todas as suas formas e domínios.</p>
<p style="text-align: justify;">O retrato do ano que passou mostra que é preciso avançar nas formas de manifestação e demonstrar novamente a força do descontentamento popular. Com a possibilidade de, se assim não for, as tentativas do ano anterior serem engolidas e transmutadas para o uso do “homem de bem” aburguesado, o analfabeto político clássico.<strong><img src="http://oviesrevista.files.wordpress.com/2009/10/v.jpg?w=10&amp;h=12&amp;h=12" alt="" width="10" height="12" /></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A PRAÇA TAHRIR E O ANALFABETO POLÍTICO</strong>, pelo viés de <a href="http://www.revistaovies.com/a-redacao/joao-victor-moura/">João Victor Moura</a></p>
<p style="text-align: justify;">joaovictormoura@revistaovies.com</p>
<p style="text-align: justify;">Imagens: [Capa] <a href="http://www.flickr.com/photos/ramyraoof/">Ramy Raoof</a>/[1] <a href="http://www.flickr.com/photos/53911892@N00/">Pan-African News Wire File Photos</a>/[2] <a href="http://www.flickr.com/photos/saulocruz/">Saulo Cruz</a></p>
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