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	<title>Estuário</title>
	
	<link>http://www.estuario.com.br</link>
	<description>Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima</description>
	<lastBuildDate>Mon, 28 May 2012 06:24:21 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Anotações de um velho caderno</title>
		<link>http://www.estuario.com.br/2012/05/28/anotacoes-de-um-velho-caderno/</link>
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		<pubDate>Mon, 28 May 2012 05:30:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Anotações em um velho caderno , fruto de uma viagem a São José do Belmonte. Se já falei sobre isso, desculpem a redundância. ** Algumas coisas que a gente só aprende viajando pelo interior do Brasil. Ontem, no cartaz de um bar, li uma notícia das mais importantes: “23 de setembro &#8211; Dia Nacional do Sorvete”. Já [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Anotações em um velho caderno , fruto de uma viagem a São José do Belmonte. Se já falei sobre isso, desculpem a redundância.</p>
<p>**</p>
<p>Algumas coisas que a gente só aprende viajando pelo interior do Brasil.</p>
<p>Ontem, no cartaz de um bar, li uma notícia das mais importantes:</p>
<p>“23 de setembro &#8211; Dia Nacional do Sorvete”.</p>
<p>Já botei na minha agenda. Dia 23 de setembro, comprarei uma caixa de Zeca´s e farei minha homenagem ao referido dia.</p>
<p>Os diálogos mostram que, no interior, não há esta febre toda pelo novo modelo, a nova marca de carros em geral.</p>
<p>“Agora&#8230; um Monza, um Santana, esses carros têm muita estabilidade”.</p>
<p>“Eu comprei uma Caravan e me arrependi tanto&#8230;”</p>
<p>De ontem para hoje, já cruzei com uns oito Chevettes, de cores e condições as mais diversas. Dizem que tem um, branco, que é de cinema.</p>
<p>Gosto muito de Chevette, porque meu pai teve uns dois, e ficou com minha mãe, após a separação. O carro foi se acabando aos poucos. Uma calota, um pedaço do para-choque, um reboco da ferrugem, uma lanterna. Depois de alguns anos, começou a ter mortes súbitas em pleno trânsito. Parava de repente, mesmo que estivesse a 80 km por hora, e nada o fazia sair dali.</p>
<p>Consta que seu final foi melancólico – recusado em um ferro-velho.</p>
<p>Alimentar bem o povo continua sendo uma paixão do povo sertanejo. Variedade, diversidade, qualidade e quantidade em doses altíssimas. Dona Mãe, ao lado da igreja, merece uma estátua da gastronomia. Ontem, me mudei para a casa de Dona Graça, e assisti ao jogo na TV acompanhado de café e dois tipos de bolo, enquanto ela preparava um mugunzá, que seria destinado ao café da manhã de hoje.</p>
<p>O almoço no mercado público, aos cuidados de Dona Maria, custa R$ 4,00, feito por Dona Maria.</p>
<p>Não perca jamais a feira diária, que se torna gigantesca, aos sábados.</p>
<p>Sino de bode, dos pequenos, custa R$ 1,50. Se cobrarem R$ 2,00 – como fez um barraqueiro hoje de manhã -, deixe de lado. É ótimo para quem cria bodes e serve para pendurar na porta, para saber quando alguém está chegando.</p>
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		<title>Breve história de uma vida</title>
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		<pubDate>Tue, 22 May 2012 16:46:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[No final de 1992, eu estava com 23 anos, caminhava para o último semestre do curso de Jornalismo, na Universidade Católica de Pernambuco, e trabalhava como estagiário no jornal Diário de Pernambuco. O que sabia sobre a ditadura no Brasil era fruto das minhas leituras e pesquisas. Não lembro de termos discutido uma vez sequer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">No final de 1992, eu estava com 23 anos, caminhava para o último semestre do curso de Jornalismo, na Universidade Católica de Pernambuco, e trabalhava como estagiário no jornal Diário de Pernambuco. O que sabia sobre a ditadura no Brasil era fruto das minhas leituras e pesquisas. Não lembro de termos discutido uma vez sequer sobre os 21 anos dos militares no poder. Também não imaginava que um dia iria escrever um livro sobre a vida de um militante político mineiro que eu jamais conhecera, o José Carlos Novais da Mata Machado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">Até que conheci Amparo Araújo, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, do Recife. Além de me contar sua história de vida, as fugas, perdas afetivas, lutas, ela continuava numa aguerrida batalha em torno dos Direitos Humanos. Depois de muitas conversas sobre o período, decidi que iria fazer meu trabalho de conclusão de curso, previsto para ser entregue em 1993, sobre o regime militar no Brasil.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">Vários assuntos mereciam a pesquisa. Pedaços nebulosos do passado nunca tinham sido  abordados. Um deles era a morte de José Carlos, no dia 28 de outubro de 1973, no Recife. Segundo a Polícia, ele teria morrido  ao lado de Gildo Macedo Lacerda numa “troca de tiros” com outro companheiro de organização, que conseguiu fugir. O dois militava na Ação Popular Marxista-Leninista (APML).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">Ao longo de seis meses, me debrucei na história. A cada entrevista, ficava mais evidente a farsa montada pela Polícia. Encontrei um grupo de estudantes de Medicina, presos porque tinham dado abrigo ao “Zé”, em suas caminhadas pelo Nordeste. Uma das entrevistadas tinha visto o mineiro nos porões do Dops de Pernambuco. Emocionada, contou como foi o encontro, algumas horas antes do assassinato do amigo, rompendo um doloroso silêncio de vinte anos </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">Algumas semanas depois, Amparo me ligou.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">“Um cachorro abriu”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">No linguajar do período, “Cachorro” é alguém que se infiltrou nas organizações clandestinas e trabalhou para a Polícia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">Era Gilberto Prata Soares, o cunhado de José Carlos, que iria falar. Fomos a João Pessoa, onde morava. Ele confessou seu trabalho para a repressão, como infiltrado na APML. Pela primeira vez, desde 1973, a história ganhava uma nova versão. Semanas depois, entrevistei a brava advogada Mércia Albuquerque, que encontrou o corpo do Zé enterrado como indigente, no cemitério da Várzea, conseguiu resgatá-lo e enviar para a família, em Belo Horizonte. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">Apresentei o trabalho na Católica, continuei pesquisando sobre o tema, até que o destino fez sua parte. Em outubro de 1993, um grupo de amigos, ex-colegas, parentes e estudantes da Faculdade de Direito da UFMG, resolveu fazer um grande encontro, para homenageá-lo. Várias atividades foram organizadas pelo Centro Acadêmico Afonso Pena.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">No dia 28 de outubro, vinte anos após seu assassinato, o pátio que serviu tantas vezes de abrigo para os estudantes, foi batizado de “Território Livre José Carlos Novais da Mata Machado”. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">Fui convidado para apresentar o trabalho. Levava as notícias da morte do “Zé” no Recife. Ao conhecer a família, os amigos, os companheiros de militância, percebi que estava encontrando a vida dele. Uma vida generosa, imensa, que merecia ser contada. Anos depois, num hotel decadente de Londrina, encontrei finalmente o preso que viu o Zé momentos antes de sua morte.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">Em 1998, após cinco anos de pesquisas, entrevistas, viagens, encontros, lancei em Belo Horizonte o livro “Zé – José Carlos Novais da Mata Machado, uma reportagem” (Mazza Edições), hoje esgotado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">Tive a sorte de encontrar com essa geração, com suas memórias, dores, sonhos, impasses, erros, buscas. Com o afeto, a esperança, o nascimento do filho, em plena luta. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">No momento em que o Brasil finalmente  instalou sua Comissão da Verdade, imagino a quantidade de verdades que ainda estamos por encontrar. Uma verdade que precisamos trazer à luz e seguir mais inteiros, como povo. O Zé não morreu numa esquina do Recife, trocando tiros com um companheiro de organização, como disse a Polícia, em 1973. Morreu assassinado numa cela do Dops do Recife, e nunca soubemos quem o torturou. O corpo de Gildo Lacerda jamais foi encontrado. Nem o de Fernando Santa Cruz. Nem o de vários outros desaparecidos. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">Volto a Belo Horizonte semana que vem, para falar mais uma vez sobre o José Carlos, num seminário sobre Justiça de Transição para um Estado Democrático de Direito. Vinte anos se passaram, desde a primeira vez que entrevistei alguém que o conheceu. Novamente, a convite do Centro Acadêmico Afonso Pena.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: times new roman,times; font-size: medium;">Talvez seja isso o que chamamos de memória.</span></p>
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		<title>Notas de uma tarde de maio</title>
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		<pubDate>Wed, 09 May 2012 19:37:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Estou em casa desde as 14h. Aqui no quarto, o silêncio é total. Meu escritório, no fundo do amplo apartamento, tem uma pequena salinha, que tem uma janela. Posso ver, à esquerda, o mar. Antes, o enorme e feio prédio do Tribunal Regional Federal, onde trabalham vários amigos da pelada da quarta-feira. Ao seu lado, a Torre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou em casa desde as 14h. Aqui no quarto, o silêncio é total. Meu escritório, no fundo do amplo apartamento, tem uma pequena salinha, que tem uma janela. Posso ver, à esquerda, o mar. Antes, o enorme e feio prédio do Tribunal Regional Federal, onde trabalham vários amigos da pelada da quarta-feira. Ao seu lado, a Torre Malakoff. A luz que entra no quarto não é muita, porque ao lado tem outro prédio e mais à frente, outro. Mas no intervalo entre eles, posso ver o mar. A luminária do lado direito é regulável, tenho o misterioso direito de colocar a luz onde quero. A mesa onde escrevo, como sempre, está cheia de papéis, livros, encadernações, carimbos, canetas, lápis, cadernetas. Sou da civilização do papel. Preciso pegar, riscar, recortar, rasgar, colar.</p>
<p>No chão, me rodeando, como animais de estimação, pastas, cadernos com recortes, jornais amontoados, que prometo sempre arrumar, mas eles, como os animais, se multiplicam. No mural, em frente à mesa, fotos, anotações, a medalha que ganhei por ter concluído em tempo razoável a Corrida das Pontes, cópia do exame do coração, feito em janeiro, onde o Dr Edmilson descobriu um pequeno sopro, nada grave. A cadeira onde estou é confortável, a mesa é de madeira antiga, que Luzilá me emprestou desde a época em que morei no Poço da Panela, espero que não lembre tão cedo.</p>
<p>Então acontece isso. Uma paz imensa me assalta. Sei que não produzo um objeto sequer para o país, no dia de hoje. Não ajudo a ninguém com meu trabalho. Até o anoitecer, não trocarei um esparadrapo, o pneu de um carro, não jogarei uma semente na terra, para que um dia vire fruto. O PIB do país, com ou sem mim, será o mesmo. Talvez até menor, porque estou gastando a energia do ventilador, da luminária, o gás que usei há pouco para um chá. O máximo de contribuição para a humanidade, do ponto de vista prático, será botar a ração de Azeitona, nossa gata, que mais tarde miará pedindo algo. Alimentar um animal querido é, sim, uma contribuição para a humanidade, pelo menos a minha.</p>
<p>Leio, tomo notas, penso, escrevo. Então, um sentimento estranho e já conhecido me assalta. É um maravilhamento, uma alegria, uma pequena embriaguez, ou pequeno êxtase, ou talvez nem tenha nome. É a constatação de que estou fazendo exatamente o que quero fazer. Uma conquista íntima, fruto de anos de trabalho. Ficar em casa, numa tarde de maio, neste mundo que criei para mim, que alimento, que me completa. Algumas horas de aboluto desligamento do mundo, suas obrigações, petições, tantos combates desnecessários.</p>
<p>Cá estou, solitário, em silêncio. Tudo o que produzo agora é o ruído mínimo da caneta no papel. Depois, o barulho do teclado no computador. Espero sair desta tarde com fazia o Cabral, ao final de um poema &#8211; com as mãos lavadas. Ou com um silêncio limpo, como dizia o Bandeira.</p>
<p>Ou nem sair dela, porque daqui a pouco chega a noite, uma chuva, quem sabe uma primavera, e cá ainda estarei, neste Quilombo, no centro do Recife, vivendo a vida que me foi possível, a que me dei.</p>
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		<title>Um ano de livros</title>
		<link>http://www.estuario.com.br/2012/05/03/um-ano-de-livros/</link>
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		<pubDate>Thu, 03 May 2012 19:18:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Sábado que vem (5 de maio), comemoraremos a festa de um ano da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela. Vamos fazer festa a partir das 9h, entrando pela tarde. Vários poetas, contadores de histórias, um grupo de palhaças, cordelistas, vão participar. Vai ser um grande sarau, uma festa generosa. Ao final, o bingo de duas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sábado que vem (5 de maio), comemoraremos a festa de um ano da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela. Vamos fazer festa a partir das 9h, entrando pela tarde.</p>
<p>Vários poetas, contadores de histórias, um grupo de palhaças, cordelistas, vão participar. Vai ser um grande sarau, uma festa generosa. Ao final, o bingo de duas bibicletas, para mantermos as contas em dia e um forrozinho, que ninguém é de ferro.</p>
<p>Todos estão convidados, especialmente os que ajudaram ao longo do ano primeiro ano de vida.</p>
<p>Para chegar lá, é só ir até a igreja do Poço da Panela e perguntar onde fica a biblioteca. Todo mundo sabe, especialmente Seu Vital, o dono da venda mais famosa do local.</p>
<p>Inté.</p>
<p>Ps. Hoje completo meus 43 anos. É bom pacas estar vivo.</p>
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		<title>Entre os poetas</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 14:21:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Antes de viajar para o Sertão de Pernambuco, no início da semana, esbarrei com o poeta Pedro Américo. Estava, eu, ao lado do poeta do violão, Zoca Madureira. Quando soube que depois de Quixaba e Princesa, dormiríamos em São José do Egito, Pedro lembrou que a cidade era terra de poetas. Na verdade, toda a região do Alto do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Antes de viajar para o Sertão de Pernambuco, no início da semana, esbarrei com o poeta Pedro Américo. Estava, eu, ao lado do poeta do violão, Zoca Madureira. Quando soube que depois de Quixaba e Princesa, dormiríamos em São José do Egito, Pedro lembrou que a cidade era terra de poetas. Na verdade, toda a região do Alto do Pajeú é repleta de poetas e cantadores.</p>
<p>&#8220;É uma coisa antropológica. Um nicho de poetas. Já crescem escutando, pensando poeticamente. A poesia brota nos mínimos detalhes, em todo canto&#8221;, disse Pedro.</p>
<p>Não sei se foi exatamente isso o que escrevi, mas a frase ficou na medida para dizer o que ele me disse, ou o que entendi ele dizer, ou o que penso que ele quis dizer.</p>
<p>No caminho, fiquei pensando. Mas será que é assim mesmo. É uma interrogação, mas não sei onde está o ponto de interrogação neste computador emprestado. Será que tem mesmo tanta poesia, nesse mundo tao apressado.</p>
<p>Ontem chegamos a São José do Egito, com direito a ônibus quebrado na saída de Tabira, ao lado de uma casa de moças de serviços mais maliciosos, frequentadíssimo ao meio dia. Nos hospedamos no hotel &#8220;Louro do Pajeú&#8221;, homenagem ao grande poeta Lourival Batista. Tem fotos dele aqui no primeiro andar, versos emoldurados para a gente ler enquanto toma o café da manhã. Nas ruas, tem versos dele pintado nas paredes.</p>
<p>À noitinha, fui reconhecer o terreno. Não por acaso, cheguei ao Bar de Dona Mocinha, numa esquina, com as paredes descascadinhas e balcão de madeira, a la Seu Vital, do Poço da Panela. Entrei. Estava com uma camisa do Santa Cruz, modelo dos anos 1970. Um sujeito no balcão fez um alarde, me abraçou, disse que era tricolor de copro e alma (e também de copo e alma), perguntou quem tinha usado a camisa, se Givanildo ou Nunes.</p>
<p>Para não quebrar o encanto, disse que fora presente do meu pai, quando completei cinco anos.</p>
<p>&#8220;Ganhou das mãos de Givanildo&#8221;, disse eu.</p>
<p>Uma parte é verdade, porque sou de 1969, com sete anos, se não estivesse morando em Imperatriz, no Maranhão, estaria vendo o supertime de 1974. Mas como um homem de 42 anos pode estar vestindo uma camisa que ganhou ainda menino, e que está quase nova, perguntaria algum chato, mas o tricolor ao meu lado estava mais voltado para o lirismo e a poesia da camisa, do que para datas, tamanho de camisa ou coisas do tipo.</p>
<p>Havia outro homem, bebericando às escondidas, porque trabalha como segurança. Já tinha largado do serviço, mas como estava com a farda da empresa, achava que não cabia bem. Esses cuidados das almas mais simples. O pequeno cuidado. Um homem prudente e de sorriso franco.</p>
<p>Dentro do balcão, um homem de uns 73 anos, de fala meio arrastada, filho de Dona Mocinha. Perguntei o que tinha para beber. O tricolor do meu lado bebia algo escuro num copo americano. Era um vinho com gengibre, topei na hora. Gelado, desceu bem.</p>
<p>A conversa mal começou, e os homens já estavam falando de poesia. Sabiam versos decorados. O segurança, em especial, sabia muitos versos líricos, de amor, de paixão. O que não sabia, estava anotado em folhas, dobradas cuidadosamente no bolso (julgo que para ler enquanto as horas demoravam a passar, no trabalho).</p>
<p>Lá pelas tantas, Boy pegou seu celular e me entregou.</p>
<p>&#8220;Escute que beleza, esses versos&#8221;.</p>
<p>Eram gravações de violeiros cantando motes e glosas. Uma cantoria era sobre Lampião. Na outra, um violeiro defendia as vantagens de ser casado, outro dizia as loas e boas de ser solteiro. O celular dele estava cheio de gravações.</p>
<p>&#8220;Teu celular tem blutuf&#8221;, perguntou o Lírico da Cachaça. &#8220;Se tiver, a gente passa agorinha para teu aparelho o que tu escolher pra tu escutar na viagem de volta&#8221;.</p>
<p>Dei meu celular. Ele começou a cutucar. Chamou um moto-taxista, que cutucou mais ainda. Enquanto isso, Boy encheu de novo meu copo. O tricolor ao meu lado falava pelos cotovelos sobre a poesia da região. Olhei para as parede, as prateleiras de madeira. Este lugar, pelos meus cálculos, deve ser o mesmo há pelo menos uns 100 anos, já que Boy o herdou da mãe. Não por acaso, foi o primeiro bar que entrei em São José do Egito, e para o qual pretendo voltar sempre.</p>
<p>Fiquei neste deslumbramento até umas nove da noite. Comprei uma garrafa do vinho com gengibre para beber com meus amigos, na volta para o Recife.</p>
<p>No caminho para o hotel, chutando minhas pedrinhas, tive a certeza mais profunda que Pedro Américo estava certíssimo. Estou numa terra de poetas. Vou botar no meu evangelho uma bendição:</p>
<p>&#8220;Bendito sois vós, entre os poetas&#8221;.</p>
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		<title>Hay cosas que ajudan a vivir</title>
		<link>http://www.estuario.com.br/2012/04/19/hay-cosas-que-ajudan-a-vivir/</link>
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		<pubDate>Thu, 19 Apr 2012 14:52:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Não pretendo morrer sem ver, fazer, experimentar, aprender, sentir e viver algumas coisas. Como está na moda as 100 coisa para fazer antes de morrer, levantei algumas minhas, sem ordem de preferência. Ver espetáculo do Fito Paez, de preferência em Buenos Aires. &#8220;Yo no buscaba a nadie y te vi&#8221;, que é a música &#8220;Un vestido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não pretendo morrer sem ver, fazer, experimentar, aprender, sentir e viver algumas coisas. Como está na moda as 100 coisa para fazer antes de morrer, levantei algumas minhas, sem ordem de preferência.</p>
<p>Ver espetáculo do Fito Paez, de preferência em Buenos Aires. &#8220;Yo no buscaba a nadie y te vi&#8221;, que é a música &#8220;Un vestido y una flor&#8221;, eu cantaria a plenos pulmões.</p>
<p>Também gostaria muito de ver um jogo da Copa do Mundo.</p>
<p>Se não for muito, ver o Santa Bicampeão no Arruda. De preferência, em 2012.</p>
<p>Ler toda a obra de Clarice Lispector. Reler pela terceira vez todo o &#8220;Quarteto de Alexandria&#8221;.</p>
<p>Ver os poemas de Flávia Suassuna publicados.</p>
<p>Publicar o livro &#8220;O turbante da Naire&#8221;, com suas melhores crônicas. O prefácio seria do filho dela, o Magro Valadares.</p>
<p>Ter um filho. Minto. Dois ou três. Birigui, Nunes e Santa, os nomes.</p>
<p>Conhecer o México e a Índia.</p>
<p>Publicar um livro meu em espanhol.</p>
<p>Aprender a baixar filmes e documentários na Internet, além de entrevistas com meus escritores prediletos, como faz o meu cunhado Pedoca.</p>
<p>Fazer três gols na pelada deste ano, que cai no dia 3 de maio.</p>
<p>Conhecer o Nepal. Caminhar dias inteiros sem rumo por ali.</p>
<p>Conhecer pessoalmente o grande poeta argentino Juan Guelman.</p>
<p>Voltar a Cuba, por outros caminhos.</p>
<p>Comprar a casa (que é alugada) onde funciona a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, para não correr o risco de um dia termos que fechá-la.</p>
<p>Viver numa cidade cheia de bibliotecas e com um prefeito menos obtuso, mais inteligente e criativo (vivo no Recife).</p>
<p>Experimentar todas as cervejas da Alemanha.</p>
<p>Viajar novamente com o velho amigo Gustavo, o &#8220;Jacaré&#8221;, como já fizemos tantas vezes na vida.</p>
<p>Sentir, em algum momento, que meu irmão distante me perdoou.</p>
<p>Conhecer o Ferreira Gullar.</p>
<p>Conhecer Birigui.</p>
<p>Nunca ter dengue de novo.</p>
<p>Assistir um jogo de futebol com meu irmão, o Tonho.</p>
<p>Escrever a biografia do meu avô.</p>
<p>Essas coisas que ajudam a viver&#8230;</p>
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		<item>
		<title>Confissão de um torcedor que se acovardou</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Apr 2012 14:04:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[No domingo, o Santa  Cruz perdeu de 2 x 1 na Ilha do Retiro. Para mim, foi uma derrota dentro de campo e outra fora. A derrota dentro do campo foi do meu time, ajudado por duas saídas bisonhas do nosso arqueiro. A derrota fora de campo foi minha, a de torcedor, apaixonado por ver [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No domingo, o Santa  Cruz perdeu de 2 x 1 na Ilha do Retiro. Para mim, foi uma derrota dentro de campo e outra fora. A derrota dentro do campo foi do meu time, ajudado por duas saídas bisonhas do nosso arqueiro. A derrota fora de campo foi minha, a de torcedor, apaixonado por ver jogo do meu clube ao vivo, dentro de qualquer estádio.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde pequeno, em diferentes estados do País, meu pai me levava a jogos, ao lado do meu irmão, tonho. Quando viajo, para qualquer lugar do Brasil ou do exterior, vejo nos cadernos esportivos a tabela, para saber se tem jogo marcado. Sou viciado no Santa Cruz e em estádios.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui vai a confissão: não fui ao jogo de ontem por medo. Me acovardei mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Sei que vão aparecer os engraçadinhos, os machões, os robustos, para dizer &#8220;ah, tás com medinho de ir para a Ilha, é?&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Pois é. Até o final da manhã estava me organizando para ir. Liguei para vários amigos corais. Ninguém queria ir. O argumento era o mesmo. Muita violência, poucos espaços para escapar, rixa das organizadas. Só Naná e Oswaldo Titio confirmaram, mas já tinham tomado várias. Minha esposa pediu para que eu não fosse. Conversei comigo mesmo, como diz Seu Vital e acabei não indo ao estádio. Assisti em casa, sozinho e contrariado, tomando umas.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje de manhã, vi as cenas na TV. Brigas, correria, tiros, confusão, espancamentos. Um torcedor coral morreu atropelado. Dizem que estava tentando escapar da brutalidade de uma das torcidas organizadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pelos jalecos e padrões, as ditas &#8220;organizadas&#8221; mandaram ver. Daqui a um bom tempo, vai acontecer a maior de todas as inversões de valores &#8211; somente irão aos clássicos as torcidas uniformizadas. Nós, os torcedores de todas as classes, que vão olhar o espetáculo e torcer, com a mulher, filhos, amigos, ficaremos de fora. Seremos barrados. Na verdade, já estamos sendo barrados.</p>
<p style="text-align: justify;">Não me arrependo de não ter ido. Mesmo que o Santa tivesse ganho o jogo. Respeitei meus limites. Tenho 42 anos, quero viver muitos anos ainda, tenho sonhos, projetos, tenho muito o que fazer, para correr o risco de levar uma pedrada, ser espancado, agredido, ganhar uma bala perdida, só porque estou com uma camisa do Santa Cruz.</p>
<p style="text-align: justify;">Lamento muito isso tudo, mas algo terá que mudar, urgentemente.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou aqui, escrevendo algumas linhas sobre minha derrota como amante do futebol, mas sem hematoma algum pelo corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">O rapaz que morreu atropelado tinha 19 anos. A vida inteira pela frente acabou num domingo de futebol.</p>
<p style="text-align: justify;">**</p>
<p><strong>Ps</strong>. O lado positivo do dia foi o belíssimo movimento de ocupação do Cais José Estelita, ação coletiva que vai ganhando cada vez mais força. Fui lá, ontem à tarde. Criatividade, mobilização e gente na rua, ocupando os espaços da cidade. Tudo na paz e na beleza. De dar gosto.</p>
<p>O prefeito João da Costa foi rápido na resposta ao movimento da sociedade. <em>Disse no Jornal do Commercio</em> de hoje que dá apoio total ao projeto e cita os milhões de investimentos. De dar desgosto.</p>
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		<title>Memórias de um militante, ou “Cida Pedrosa vereadora do Recife”</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Apr 2012 18:43:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nada mais ridículo que certos emails que recebo, de gente até esclarecida, propondo &#8220;não votar em nenhum político&#8221;, mostrando quanto eles ganham, os salários etc. Quando eu deixar de votar em alguém que é candidato a vereador, deputado estadual ou federal, senador, prefeito, governador, presidente, é porque estou a dizer &#8211; são todos iguais, corruptos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nada mais ridículo que certos emails que recebo, de gente até esclarecida, propondo &#8220;não votar em nenhum político&#8221;, mostrando quanto eles ganham, os salários etc. Quando eu deixar de votar em alguém que é candidato a vereador, deputado estadual ou federal, senador, prefeito, governador, presidente, é porque estou a dizer &#8211; são todos iguais, corruptos, ladrões etc. Essa uniformização ridícula elimina algo fantástico, que é a diversidade humana e a nossa capacidade de escolha. Para mim, ninguém é igual, apesar das muitas semelhanças no modo de fazer política no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei de onde me ocorreu escrever sobre isso, já que sou mais dado a observar as coisas e personagens do cotidiano.</p>
<p style="text-align: justify;">Sei sim. É que semana passada, li uma notinha na coluna do Scarpa, do Jornal do Commercio, informando que a poeta Cida Pedrosa vai se lançar candidata à vereadora do Recife, pelo PC do B. Fiquei exultante.</p>
<p style="text-align: justify;">Coincide com um texto que eu estava matutando em escrever. Era sobre o meu desejo de encontrar alguém do mundo das artes, da literatura, da poesia, para que muita gente, de forma colaborativa, gratuita, aberta, sincera, se engajasse na campanha. Eleger alguém pela força da militância, da organização desorganizada, o retorno aos tempos do velho bingo, das rifas, da venda de camiseta, feijoadas, festas para arrecadar dinheiro, distribuição de panfletos nos sinais etc. Já tinha alguns nomes para lançar, mas já fico com Cida, apesar de nem saber o número dela. Por telefone, ela confirmou que vai sair candidata sim. Terá uma legião de poetas para a campanha.</p>
<p style="text-align: justify;">Então lembrei de minha jornada de militante. A primeira foi em 1985, quando morava em Fortaleza, e a Maria Luiza Fontenelle surgiu feito um comenta, iluminando a noite cearense. Na reta final da campanha, vi uma cidade elétrica, mobilizada, os comitês varando madrugadas, para produzir camisas, adesivos, panfletos, tudo na base de improviso, da força generosa das pessoas. Resultou numa boca de urna estrondosa, da qual participei durante todo o dia, nas proximidades do Colégio Rosa Gatorno, no Monte Castelo, ao lado do meu irmão Antônio José, o Tonho. Conseguimos muitos votos de indecisos e ficamos de olho para a Polícia não pegar a gente com as mochilas cheias de panfletos. Eu tinha 16 anos. Maria Luiza conseguiu dar uma das maiores viradas eleitorais da história do Ceará, e se tornou a primeira mulher prefeita de Fortaleza e do PT.</p>
<p style="text-align: justify;">Foram muitas campanhas, não posso contar todas. Recordo uma, que foi particularmente emocionante. Em 2000, eu tinha voltado de São Paulo, estava no primeiro semestre como professor de &#8220;Técnicas de Reportagem&#8221;, da Universidade Católica de Pernambuco, e a campanha para prefeito do Recife pegou fogo, com o crescimento da mobilização em torno da campanha de João Paulo, juntando as forças de esquerda, contra Roberto Magalhães, que já era prefeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensei em ficar mais na minha, porque era professor, para não dizerem que eu estava tentando &#8220;fazer a cabeça&#8221; dos alunos, mas aos poucos, os próprios alunos foram chegando com camisas, bottons, adesivos, e começaram a cobrar uma posição minha. Acabei me engajando com eles, cabamos fazendo uma boca de urna sensacional. Lembro com uma enorme riqueza de detalhes a apuração, urna a urna, com a previsão de um resultado somente nos últimos votos. Peguei um ônibus à noitinha, vindo de algum lugar na Zona Norte do Recife, quando chegamos ao Bairro do Recife, um Policial Militar desceu. Estava com um fone de ouvido e me viu com a bandeira da campanha, adesivos, só disse o seguinte:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Viramos&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi uma festa linda, a vitória de João Paulo. Creio que foi uma das mais belas campanhas que o Recife viveu, desde o retorno à Democracia, porque milhares de pessoas trabalharam como militantes ativos, cheios de energia, beleza, era uma força que contagiava. Ao final da contagem, milhares de pessoas começaram a chegar para comemorar ao som de &#8220;Vermelho/Vermelhaço&#8221;, que foi a música da campanha. Foi uma embriaguez coletiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Claro que hoje dá pena, ver a briga ridícula do ex-prefeito João Paulo com o atual, João da Costa. É um insulto a todos os que lutaram para que o Recife fosse uma cidade melhor, mais humana, para que tivesse projetos bonitos, para que a criatividade ocupasse espaços em todos os andares do prédio da Prefeitura, para que todos os bairros fossem contemplados com algo generoso. Cada dia que abro os jornais e vejo os dois soltando farpas e  fel, me sinto insultado.</p>
<p style="text-align: justify;">Na eleição de João da Costa, tudo já estava muito estranho, não movi um dedo. Já previa um prefeito burocrático e apagado, como de fato é. Sempre achei que o candidato natural deveria ser o grande vice-prefeito Luciano Siqueira, que passou oito anos fazendo um trabalho preciosos, ao lado de João Paulo. Não deu, porque ele não é do PT. Apesar dos pesares, me orgulho muito de ter participado ativamente daquela campanha de 2000. Foi linda e importante para o Recife. Depois é que os Joões trataram de estragar tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. Eis que Cida Pedrosa surge, neste céu nublado que está a política em nossa cidade. Uma mulher danada, incansável, cheia de sonhos, projetos, uma pessoa que gosta de agregar, compartilhar, que ama a poesia, a literatura, que ama a vida. Sei que ela vai pensar nas bibliotecas, que vai lutar para que os jovens tenham acesso à boa literatura perto de casa, em lugares bonitos, confortáveis, que dêem vontade de ficar lá.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei ainda seu projeto para trabalhar nos quatro anos como vereadora. Sei que sua campanha não terá como slogans nada como os ridículos &#8220;Seriedade e Competência&#8221; ou &#8220;Seriedade e Trabalho&#8221;. Mais sério que o semblante do senador Demóstenes Torres, pego no flagrante como um defensor ardoroso de um contraventor, não existe.</p>
<p style="text-align: justify;">Cida vai, com certeza, levar poesia, beleza e dignidade para a Câmara dos Vereadores do Recife. Vai levar sua criatividade para a cidade ficar mais linda, verde, colorida, alegre.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei ainda seu número, mas já ofereço minha militância gratuita, voluntária, aguerrida e esperançosa de sempre.</p>
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		<title>Perambulando em Belém (parte I)</title>
		<link>http://www.estuario.com.br/2012/03/29/perambulando-em-belem-parte-i/</link>
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		<pubDate>Thu, 29 Mar 2012 22:46:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Vinte e dois anos depois, voltei a Belém. Na primeira vez, em 1990, vim para um Encontro Nacional de Casas do Estudante, junto com vários amigos da CEU( Casa do Estudante Universitário), da UFPE. Demos sorte, porque foi durante o Círio de Nazaré, uma celebração religiosa forte, que me emocionou muito. Eu era jovem pacas, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vinte e dois anos depois, voltei a Belém. Na primeira vez, em 1990, vim para um Encontro Nacional de Casas do Estudante, junto com vários amigos da CEU( Casa do Estudante Universitário), da UFPE. Demos sorte, porque foi durante o Círio de Nazaré, uma celebração religiosa forte, que me emocionou muito. Eu era jovem pacas, lembrei daquela época em que eu tinha vinte anos.</p>
<p>Na segunda-feira passada, vim para lançar meu &#8220;Viagem ao Crepúsculo&#8221;, graças a uma articulação do professor Jorge Fonseca, cubano exilado no Brasil há vários anos e professor universitário. Ele é engenheiro e sabe a história de Cuba na ponta da língua. Incrível a odisséia dele para conseguir sair do país e depois trazer a família. Vou escrever sobre ele amanhã.</p>
<p>Nunca participei de tantos debates e dei tantas entrevistas. Até o &#8220;Sem Censura&#8221;, da TV Cultura, me convidou para debater, mas não era com a Leda Nagle, era com a apresentadora local, que inclusive já estudou cinema em Cuba e foi muito simpática.</p>
<p>O programa teve três blocos. O primeiro foi sobre um novo programa de culinária, que vai estrear hoje, depois foi a minha meia hora e por último, uma pianista paraense, Helena Elias, que hoje vai tocar o Primeiro Concerto para Piano e Orquestra, do Beethoven. Não poderei ir porque hoje tem Tuna Luso X Remo, no Mangueirão, quase no mesmo horário. Fazia um frio enorme no estúdio, mas acho que falei direito.</p>
<p>Só na Faculdades Ipiranga, foram dois debates, com turmas as mais diversas, desde Turismo a Segurança do Trabalho, Gestão, Comunicação, Marketing etc. Os alunos, não sei exatamente por qual motivo, ficaram até o final, fizera perguntas pacas, discutiram. Compraram poucos exemplares, claro, mas é assim mesmo, estudante geralmente é meio liso. Na minha época, estudante era liso. Bem, pelo menos eu era. Ao final, faço sempre a doação de um livro, que é sorteado. Quem ganha, fica bem contente e pede dedicatória.</p>
<p>Uma das mais gratas surpresas, por aqui, é Alencar, o dono do restaurante da Faculdade. Ele está terminando de ler o livro (o meu), e está empolgadíssimo. Não pode me ver, que vem comentar o capítulo que está lendo. Adotou o rígido critério de não aceitar meu dinheiro, em nenhuma hipótese, caso consuma algo em sua lanchonete. Foi ao debate, ontem, fez perguntas, depois comprou a nova edição (estava lendo a primeira, cedida pelo Jorge).</p>
<p>Em Belém, chove todo dia. Uma chuva forte, que passa logo, geralmente à tarde. Ontem, choveu forte grande parte da manhã e todo mundo ficou espantado. Já estou equipado com um guarda-chuva a R$ 10,00. As praças estão mal cuidadas, mas como moro no Recife, não posso ficar arrotando vantagem nenhuma.</p>
<p>O hotel onde estou é bonitinho, simpático, mas foi duro tomar uma cerveja, no bar, depois de uma longa jornada, com mais de 80 pessoas prestando atenção, com aquela vozinha de criança do Bee Gees no DVD do restaurante. Detesto o Bee Gees, com aquela vozinha de criança deles. Não sei como eles fizeram tanto sucesso.</p>
<p>Graças à chegada do generosíssimo Jorge Plaça, pude iniciar meu Censo dos botecos de Belém. Fui apresentado &#8220;Meu Garoto&#8221;, perto do Hotel Bee Gees. Um boteco de verdade, com dezenas de cachaças, algumas artesanais. Tem uma que é feita com uma fruta daqui, que deixa a boca do sujeito meio dormente. É maravilhosa. Vem acompanhada de um caldinho. Perguntei o nome da fruta que tempera a cachaça, o garçom respondeu:</p>
<p>&#8220;É feita com Jambú, com acento no último u&#8221;, disse.</p>
<p>Não entendi o lance do último u, porque só tem um &#8220;u&#8221; na palavra.</p>
<p>Achando pouco, ele voltou e confirmou a informação:</p>
<p>&#8220;Acento agudo no último u, entendeu?&#8221;</p>
<p>Entendi, Antonio Houaiss.</p>
<p>Tomamos umas, eu e o Plaça, conversamos bastante e ainda vimos com rara alegria a derrota do Flamengo para o Olímpia, do Paraguai, por 3 x 2. Eu detesto o Bee Gees e o Flamengo. Ele, o Plaça, é jornalista da velha guarda, trabalhou em todos os lugares que qualquer pessoa possa imaginar, em diferentes épocas. O famoso bom papo. Ele também detesta o Flamengo, esqueci de perguntar sobre o Bee Gees.</p>
<p>Fui ao mercado Ver o Peso, hoje, no final da manhã. É um negócio bonito de presenciar. Olhei tudo, comprei uns colares indígenas, depois procurei um lugar para tomar uma Cerpa. Olhei, farejei, senti a pressão atmosférica, o balanço das águas do rio Guamá, a temperatura e a latitude e finalmente escolhi um box, com uma senhora baixinha atendendo. Nessas horas, é bom acertar. Nada pior do que gente mau humorada atendendo. A cerveja fica quente mais rápido.</p>
<p>&#8220;Posso ficar no balcão ou atrapalha, senhora?&#8221;</p>
<p>&#8220;Pode ficar, meu amor&#8221;, respondeu ela, com um largo sorriso.</p>
<p>Ou seja, eu era a pessoa certa, no lugar certo. O jeito foi tomar a Cerpa gelada e depois comer um belo peixe frito com açaí, conforme recomendação do Inácio, que já morou aqui por algumas temporadas.</p>
<p>O Paulo Pamplona, ótima gente que Inácio me indicou, está com uns problemas de saúde na família, não teve como me acompanhar no Remo X Tuna Luso.</p>
<p>Combinamos de assistir Remo X São Francisco, domingo.</p>
<p>Tenho uma enorme simpatia pelo Remo, mas vai ser difícil torcer contra o time do meu santo predileto, São Francisco, que o Pamplona não saiba.</p>
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		<item>
		<title>Aqui, plantamos algo</title>
		<link>http://www.estuario.com.br/2012/03/24/aqui-plantamos-algo/</link>
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		<pubDate>Sat, 24 Mar 2012 10:51:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Samarone Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Enquanto a meninada curtia a biblioteca... &#160; a gente se reunia com as turmas da UFPE Foi no final de 2010 que Naná me ligou. &#8220;Apareceu uma casa, mas a gente tem que correr, que já tem um pessoal querendo alugar&#8221;. Era a senha para realizarmos o sonho de criar uma biblioteca comunitária na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_2138" class="wp-caption alignnone" style="width: 360px"><a href="http://www.estuario.com.br/2012/03/24/aqui-plantamos-algo/dsc01523-2/" rel="attachment wp-att-2138"><img class="size-medium wp-image-2138" title="DSC01523" src="http://www.estuario.com.br/wp-content/uploads/2012/03/DSC015231-350x262.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Enquanto a meninada curtia a biblioteca...</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_2136" class="wp-caption alignnone" style="width: 360px"><a href="http://www.estuario.com.br/2012/03/24/aqui-plantamos-algo/dsc01520/" rel="attachment wp-att-2136"><img class="size-medium wp-image-2136" title="DSC01520" src="http://www.estuario.com.br/wp-content/uploads/2012/03/DSC01520-350x262.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">a gente se reunia com as turmas da UFPE</p></div>
<p>Foi no final de 2010 que Naná me ligou.</p>
<p>&#8220;Apareceu uma casa, mas a gente tem que correr, que já tem um pessoal querendo alugar&#8221;.</p>
<p>Era a senha para realizarmos o sonho de criar uma biblioteca comunitária na região ribeirinha do Poço da Panela, onde o PIB é outro e a vida também.</p>
<p>Foi uma correria danada, o dono da casa invocou-se com o fato de trasformarmos sua casa em uma biblioteca, mas como se tratava de um velho companheiro de pelada (o apelido do homem é &#8220;jogador&#8221;), conseguimos. No final do ano, pegamos as chaves.</p>
<p>De janeiro a abril, recolhemos doaçoes, pedimos ajudas, conseguimos estantes em ferro-velho, doação, compramos em lojas com desconto, até que a querida Vera Ferraz, dona da &#8220;Mon Papier&#8221;, fez uma doação que foi o máximo &#8211; 16 estantes de ferro, novinhas em folha.</p>
<p>Dia 30 de abril de 2011, inauguramos. Numa manhã, 75 crianças foram se inscrever.</p>
<p>Durante o ano, tivemos a ajuda de várias pessoas, que foram contar histórias e ajudar a formar leitores. Lenice Gomes, Fabiana Moraes, Rosinha, Silvana Meneses, Kakau Gomes. Fomos nos virando. Ninha, que mora ao lado da biblioteca, virou a guardiã, a que zela por tudo, que não permite entrar sem camisa. Depois, uma mulher da comunidade, Tina, começou a dar curso de bordado e fuxico. Agora, dois adolescentes dão aula de reforço à noitinha. Na data mesmo do aniversário (30/04/2012), vou botar uma postagem com o nome de todo mundo que ajudou. É um bocado de gente.</p>
<p>Sim, seja lá o que flor, estamos plantando algo à beira do Rio Capibaribe.</p>
<p>Temos um motivo a mais para comemorar, neste um ano de atividades. Os departamentos de Ciência da Informação e Arquitetura, da UFPE, sob a coordenação da professora Edilene Silva e Gustavo Cauás, apresentaram um projeto de extensão, para ser realizado de abril a dezembro em nosso espaço de leitura. Com a participação de vários alunos (vejam foto da reunião com eles, sábado passado) das duas disciplinas e o envolvimento da comunidade, eles pretendem requalificar o espaço físico, analisar o mobiliário, equipamentos e pensar estratégias para acomodar os usuários e acervos. Outra vertente do projeto será discutir e testar alternativas para estimular e promover a apropriação da biblioteca pela comunidade.</p>
<p>A reunião sábado passado com a coordenação da Biblioteca foi ótima. Os jovens universitários apresentaram suas idéias, Naná e Ninha falaram sobre a nossa caminhada, as dificuldades e avanços, acompanhei tudo, passei algumas informações etc. Lá dentro, a meninada se deliciava nos livros e em alguns jogos que ganhamos de doação. Leitura, brincadeira, pintura. Uma manhã entre os livros.</p>
<p>Durante a semana, um dos jovens integrantes do projeto, Gustavo Tenório, mandou email, falando de um violão que tem em casa, e seu desejo de fazer uma atividade musical com a criançada que vai à biblioteca. Achei a idéia (a minha idéia ainda tem acento) ótima, porque todas as artes ajudam qualquer pessoa a levantar os olhos e ver novos horizontes.</p>
<p>&#8220;É um sonho que tenho, de incluir música, dança e cinema na biblioteca&#8221;, disse o Gustavo.</p>
<p>A frase, para mim, é um presente. Me dá uma sensação boa de que não estamos adormecidos, paralisados, anestesiados, apenas criticando as mazelas da nossa cidade, do nosso bairro, reclamando da corrupção. Estamos saindo de casa com algo nas mãos, algo que não sei o nome, mas tem cheiro de esperança, este filete de água que nunca seca.</p>
<p>Depois que terminou a reunião, fui dar conta da pilha de livros que nos chegam (neste momento, não temos como receber mais doações de livros, por falta de espaço). Encontrei duas caixas como o nome Thereza Halliday. Seus ótimos livros já estão em nossas prateleiras, aqui vai o agradecimento.</p>
<p>Quem quiser ajudar financeiramente, mande email para mim (<a href="mailto:samalima@gmail.com">samalima@gmail.com</a>), que forneço o número da conta. Temos nossas contas mensais para pagar, tem mês que o negócio fica feio. O aluguel, por sinal, foi reajustado. &#8220;Jogador&#8221; faz uma marcação cerrada.</p>
<p>***</p>
<p><strong>Aos leitores que moram no Pará. Quarta-feira (28/03), lanço meu &#8220;Viagem ao Crepúsculo&#8221; em Belém. Será no auditório da Fundação Ypiranga, ao lado da TV Cultura, a partir das 19h.</strong></p>
<p>**</p>
<p>E consegui postar fotos no blog, sozinho. Estou exultante com meu avanço tecnológico.</p>
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