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    <title>Repórter das Coisas</title><id>http://www.tipos.com.br/areas/briguet/blog/</id>
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        <title>O penúltimo post</title>
        <summary>Miranda, o folclórico Miranda, amigo de sinuca do meu pai, bom de copo que era, não gostava de pedir a saideira. Quando muito, e se inevitável fosse, ordenava ao dono do boteco: “Ô Roberval, vê a penúltima!” E acrescentava, como se não soubéssemos: “A ...</summary>
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        <content type="html">Miranda, o folclórico Miranda, amigo de sinuca do meu pai, bom de copo que era, não gostava de pedir a saideira. Quando muito, e se inevitável fosse, ordenava ao dono do boteco: “Ô Roberval, vê a penúltima!” E acrescentava, como se não soubéssemos: “A última, só na morte”.

Fiel à tradição do insigne sinuqueiro, e conservador de carteirinha que sou, direi que este é o meu penúltimo post no Tipos. “No drama/ No no no drama”, como diria a Fergie (nunca citei a Fergie; seria muito óbvio citar João Sebastião agora).

O amigo Marcos Gouvea citou Kierkegaard outro dia para apontar a diferença entre recordação e memória. Memória é a faculdade cerebral, mecânica, racional. Recordação, como a própria origem do termo indica, é do coração, onde o supremo Aristóteles via a sede da inteligência. Futuramente, o Tipos poderá não estar em minha memória (depende se o Moraes vai liberar os arquivos, e se eu terei competência técnica para guardá-los), mas certamente estará em minha recordação. Durante os últimos anos de minha vida, o Tipos foi um amigo do peito. Um inimigo, às vezes. Mas sempre do coração. E a norma do Homem era exatamente esta: amar até os inimigos. Foi o que fiz, o que faço.

Comecei em 29 de maio de 2003, no extinto, subalterno e não pranteado Mundo Paralelo (uma espécie de Série B do Tipos da qual ninguém se lembra, exceto o Zero). Meu primeiro post, já prenunciando a pseudice vindoura, era uma crônica intitulada “Manifestas a loucura”, que eu já havia lido em meu (também extinto e não pranteado) programa de rádio. A crônica terminava assim:

&lt;b&gt;"E de uma coisa podes ter certeza. Manifestarás de vez a loucura assim que chegares ao final do primeiro post do Briguet.”&lt;/b&gt;

Manifestei-a, e quase diariamente. De lá para cá, deixe-me ver (ouçam os murmúrios de cálculo e os dedinhos de soma), foram seis anos e cinco meses, e, se não publiquei em média um post por dia, cheguei perto disso. Fui um dos campeões do Tipos em quantidade e regularidade. Em qualidade? Deixo que as futuras gerações deem seu implacável veredicto. A modéstia me impede; mas não é bom exagerarmos na humildade, porque para cada virtude cristã há um pecado capital correspondente. No caso da humildade, é a soberba. Neguinho muito modesto em geral está querendo atrair confete. E isso é pecado. Capital. (Por falar em capital, apesar de todo meu liberalismo, não acumulei nenhum nestes anos. Só barriga.)

Apesar dos arranca-rabos, fiz muitos amigos por aqui, embora alguns deles não possam ser colocados na mesma sala. Inimigos? Digo orgulhosamente que saio do Tipos sem nenhum inimigo de verdade. Briguei aí com o Marcião, com a Margo (me ligou outro dia, e foi um gentleman), com o pessoal do Vaca, mas tenho um verdadeiro carinho por eles, e até admiração por certas coisas que eles escrevem quando inspirados. Note-se que briguei muito mais com o duplo virtual dessas pessoas do que com elas próprias. Se quisessem, poderiam ser meus amigos de mijar de porta aberta, de abrir a geladeira em casa. Até o Pauno Francis gostaria de mim, se me conhecesse. Eu não sei quem ele é, ele pode saber quem eu sou: um cara simpático, de verdade. Mas sem sexo, por favor.

Por várias vezes prometi não discutir política, e sempre, sempre voltei atrás na promessa. É que é impossível. O país é foda, o Estado é a merda superfaturada. 

Que se dane a política. A grande qualidade do Tipos era a informalidade, o diário aberto. Neste blog vivi publicamente alegrias e tristezas: a Quinta Sem-Lei, as ressacas de Neosaldina, a Esva, o namoro com a Rosângela, o rompimento, o casamento, a morte da Vó Maria, o nascimento da Liz, a perda do primeiro filho que eu e a Rô esperávamos, a morte de meu pai. De 2003 para cá, só não mudou o Lula – e a minha absoluta incompatibilidade com tudo que ele representa (apesar de eu imitar muito bem a voz do cara).

Obrigado, Moraes. Acho que você merece um obrigado, e não lamúrias ou dedos em riste. Aguentou-nos esse tempo todo, e nos últimos anos deve ter sido difícil, porque parecia não gostar mais da brincadeira. Mas também digo obrigado a vocês todos: Tanga (um gênio), Ygor (um talento invulgar, escritor de primeira), Zero (o melhor blog do Tipos de todos os tempos), Janaína Ávila (minha melhor amiga de Tipos), Rubão, Gibedendo, Fabebum, Reverendo, Anzol, Maneco, Margo, Lúcio Flávio (sen-sa-cio-nal), Guilherme Mendes da Costa, Helena Cogumelo, Daniel, Vivi, Bastardo, Vidal, Bala, Janaína Garcia, Gabi, Paula Schutze, Zaratustra, Ester Falaschi, Deise Warken, Margo, Grimaldo, Preto, Pafu, Marcelo Rocha, Silvia Rocha – e vou parar aqui, com quatro amigos de longa data, porque devo ter esquecido muita gente. Não fiquem ofendidos. Li todo mundo e me diverti bastante. Ah, já ia me esquecendo da Marina Dias - praticamente a última grande revelação do Tipos. Menina de ouro.

E de uma coisa podes ter certeza. Manifestarás de vez a loucura assim que chegares ao final do penúltimo post do Briguet.

O resto não é silêncio; é outro blog.
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/scu4GlIaXnaZjdGweEczLBjRpWA/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/scu4GlIaXnaZjdGweEczLBjRpWA/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/scu4GlIaXnaZjdGweEczLBjRpWA/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/scu4GlIaXnaZjdGweEczLBjRpWA/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content>
        <published>2009-10-16T22:12:53Z</published>
        <updated>2009-10-16T23:13:33Z</updated>
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        <title>O coração do vendaval</title>
        <summary>Ele é isto que nos faz acordar assustados no meio da madrugada para fechar as janelas quando o vento balança os vidros, com voz de barítono angustiado. Ele é anterior ao vento; é quem fabrica o ar que enche as veias da brisa e do furacão. Eis o pai, eis ...</summary>
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        <content type="html">Ele é isto que nos faz acordar assustados no meio da madrugada para fechar as janelas quando o vento balança os vidros, com voz de barítono angustiado. Ele é anterior ao vento; é quem fabrica o ar que enche as veias da brisa e do furacão. Eis o pai, eis o coração do vendaval.

Foi ele quem construiu as nuvens, colunas gregas cinzentas de uma lógica assimetria. Poliglota e alfarrabista, ele domina o alfabeto das marés e dos sertões, secundado por um lugar-tenente, a Lua. 

Não adianta insistir: ele nunca mostra sua verdadeira face; tudo que enxergamos é o rosto anterior; tentar ver o seu rosto é como secar um gelo a pano, apagar um incêndio com nitroglicerina, riscar um nome sobre a água.

Ele tinge nossos cabelos de prata; esculpe nossas rugas com precisão de joalheiro chinês; empurra nossas costas para que andemos curvados; apaga números de telefones e nomes de antigos colegas; obriga a beldade a virar ruína; transforma o espelho da sala no rosto de nossos pais; encerra festas e churrascos que estavam ótimos; e, sem qualquer aviso, faz-nos acreditar que já vivemos esta cena antes.

Se ele parece te abandonar durante o sono, meu amigo, não sejas tolo, não confies em teus sentidos! É no sono que ele age com maior crueldade e rapidez, enquanto teus olhos só têm olhos para dentro. Sorrateiramente, ele faz o teu coração bater menos; e a tua mente esquecer mais; e cumprir-se o que vai escrito em tua mão. Um dia, precisarás das pernas, e elas não mais servirão. Chegará o teu dia. Já não poderás fugir.

É ele que faz esquecermos as fichas telefônicas numa gaveta da qual jamais sairão. É ele quem torna mais baixos os pés-direitos de tua infância. É ele quem te cega como a um Demócrito sem sabedoria, quem arranca tua pele como a de um Jó que fosse injusto.

E se as gotas começam a cair como canivetes abertos, como pedras arremessadas contra um pecador, como balas de fuzil no crânio de um inimigo do povo – não te esqueças: ele é o eletricista dos raios, o pintor da escuridão, a fonte das enxurradas. 

Tu tens duas mãos; ele tem milhares. Tu tens cinco sentidos; ele tem todos. Tu tens dor; ele é a dor. Tu agregas; ele dispersa. Tu és escravo; ele é patrão. De repente, ele conduz quem amas com a facilidade de quem fecha uma janela.

Um dia ele quebrará estas vidraças, arrancará estas telhas, arrombará esta porta, entrará nesta casa, rasgará estas vestes, roerá estas cobertas, engelhará estas peles, choverá sem parar durante 40 dias e noites. Diante do espelho em cacos, verás um sorriso que não é mais o do teu pai, mas também não é o dele. 

Ele encheu as tuas veias; ele armou teus ossos; ele soprou teus pulmões; ele carregou teu corpo na correnteza do grande rio. Mesmo assim, ele não sabe aniquilar o que de fato és. Chegará o teu dia? Chegará. Poderás fugir? Não. Acalma-te: não será preciso. Ele nada pode contra quem o inventou.


&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yZkl7dySisESRuzID7pIx2wdNM4/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yZkl7dySisESRuzID7pIx2wdNM4/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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        <published>2009-10-16T11:11:48Z</published>
        <updated>2009-10-16T11:13:12Z</updated>
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        <title>Têje preso</title>
        <summary>Há gente revoltada com o novo escândalo da Câmara de Londrina (um vereador foi preso sob acusação de peculato). Mas espere aí: não foi essa mesma cidade que elegeu Belinati, e, mesmo tendo visto a besteira que fizera, logo em seguida elegeu Barbosa Neto? ...</summary>
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        <content type="html">Há gente revoltada com o novo escândalo da Câmara de Londrina (um vereador foi preso sob acusação de peculato). Mas espere aí: não foi essa mesma cidade que elegeu Belinati, e, mesmo tendo visto a besteira que fizera, logo em seguida elegeu Barbosa Neto? Há os que aprendem com os próprios erros; os que aprendem com os erros dos outros; e os que não aprendem com os próprios erros nem com os alheios. Londrina está no último caso. 
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/pGrtoThDAjuxJMjDRNcC4a2F75w/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/pGrtoThDAjuxJMjDRNcC4a2F75w/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/pGrtoThDAjuxJMjDRNcC4a2F75w/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/pGrtoThDAjuxJMjDRNcC4a2F75w/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content>
        <published>2009-10-14T17:08:16Z</published>
        <updated>2009-10-14T17:08:40Z</updated>
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        <title>Quem, eu?</title>
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        <content type="html">Quem, eu? é o ótimo título de uma autobiografia do poeta José Paulo Paes. Mas a expressão também pode ser usada para designar o fora que este cronista – que é Paulo, mas não é José, nem é Paes – comete diariamente. Sou perito em cumprimentar pessoas que, na verdade, estão cumprimentando alguém logo atrás de mim. Vivo retribuindo tchauzinhos, sorrisos e acenos que se dirigem a terceiros.

Quando menciono terceiros, recordo uma expressão latina que meu pai costumava usar de vez em quando: tertius. Certa vez, por engano, ele trouxe para casa um guarda-chuva que não era o nosso. Outro sujeito deve ter levado o nosso guarda-chuva; esse homem desconhecido era o tertius. Nunca mais vimos o guarda-chuva original.

Meu pai dava aulas de latim e matemática na juventude para sustentar os próprios estudos. Aprendeu a nadar em açude; só veio a conhecer uma piscina aos 18 anos. Depois ele me ensinou a nadar e a jogar xadrez. Quando morávamos em São Paulo, ele costumava me chamar para uma partida de xadrez depois do jantar. Eu sempre perdia. Sempre. Que eu me lembre, só ganhei uma vez; mas acho que nesse dia ele deixou.

Na infância, como quase todo moleque, eu alimentava veleidades de ser centroavante de futebol. No dia em que estava prestes a tentar uma “peneira” no clube da cidade, meu pai me entregou uma bola e pediu para fazer algumas embaixadas. Não cheguei à terceira. “Como é que você quer ser centroavante se não conseguem nem fazer uma embaixadinha?” O realismo de meu pai livrou-me de passar vergonha na frente dos outros.

Às vezes acho que escrevo unicamente para não passar vergonha. Se a crônica não me faz ficar constrangido, já fico satisfeito. O problema é que raramente eu não me envergonho do que escrevi.

O amigo Marcelo Rocha me ligou para dizer que assistiu ao trailer de “Lula, o filho do Brasil”. Rocha garante que o Lula do filme está exatamente igual ao das minhas imitações. Então, tá. Mas eu gostaria de imitar melhor o Silvio Santos; minha imitação fica bastante aquém das do Fábio Luporini e do Marcelo Adnet, dois mestres da arte do arremedo humorístico.

Mas há personagens que é melhor não imitar. Por exemplo: vereadores londrinenses que passam gel no cabelo. Retribuo a tchauzinhos, sorrisos, acenos; mas, imitando a pessoa errada, eu poderia passar vergonha respondendo a uma voz de prisão. 

– Quem, eu?

– Não, não é você. É aquele vereador ali.

– Ah, bom.

Será que a notícia sairia com destaque no jornal Enxada News?
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/kza_Vt2_inkbwOnCND5G6VxqL-I/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/kza_Vt2_inkbwOnCND5G6VxqL-I/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/kza_Vt2_inkbwOnCND5G6VxqL-I/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/kza_Vt2_inkbwOnCND5G6VxqL-I/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content>
        <published>2009-10-14T12:11:58Z</published>
        <updated>2009-10-14T12:13:11Z</updated>
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        <title>Soneto do fiel</title>
        <summary>Olho-te de frente, morte, e sei que não tens domínio. De doença ou assassínio não me preocupa a sorte. Sorrio-te, ora, culpa, pois meu arrependimento é mais forte sedimento que tua areia repulsa. Abandono-te, pecado, como um tolo inimigo pelo qual oro ...</summary>
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        <content type="html">Olho-te de frente, morte,
e sei que não tens domínio.
De doença ou assassínio
não me preocupa a sorte.
Sorrio-te, ora, culpa,
pois meu arrependimento
é mais forte sedimento
que tua areia repulsa.
Abandono-te, pecado,
como um tolo inimigo
pelo qual oro calado.
Espero-te, lenta graça,
enquanto sem pressa sigo
pela rua que não passa.
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LNl03FsGkXjHs2bLJqQjamu7igQ/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LNl03FsGkXjHs2bLJqQjamu7igQ/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LNl03FsGkXjHs2bLJqQjamu7igQ/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LNl03FsGkXjHs2bLJqQjamu7igQ/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content>
        <published>2009-10-13T21:26:33Z</published>
        <updated>2009-10-13T21:29:15Z</updated>
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        <title>Em busca do texto perdido</title>
        <summary>Perdi a crônica que estava escrevendo. Esses problemas de computador confirmam a tese de que software é a parte que você xinga e hardware é a parte que você chuta. Mas não xinguei nem chutei: apenas escrevi outro texto, que vem a ser este. Em questão de ...</summary>
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        <content type="html">Perdi a crônica que estava escrevendo. Esses problemas de computador confirmam a tese de que software é a parte que você xinga e hardware é a parte que você chuta. Mas não xinguei nem chutei: apenas escrevi outro texto, que vem a ser este. 

Em questão de segundos, uma dezena de parágrafos sumiu como água que escorre entre os dedos. Que remédio? Desamparado pela memória do computador, servi-me da memória convencional para substituir o texto perdido.

Ora, direis, no tempo da máquina de escrever nada disso acontecia. Lembro-me de ter passado uma noite inteira, na época da faculdade, datilografando um trabalho para ser entregue ao professor Eduardo Judas Barros. Quando cometia algum erro – e os erros foram ficando mais numerosos na medida com o avanço da madrugada –, lançava mão de um produto chamado Errorex, ancestral remoto dos atuais corretores de texto. Hoje conheço jornalistas que nunca viram máquina de escrever.

O grande Sófocles escreveu 123 peças teatrais. Apenas sete restaram completas até nossos dias. Quantas obras-primas – talvez até melhores do que “Édipo Rei” e “Antígona” – deixamos de conhecer? Ninguém pode responder com segurança – só Deus. Pretendo perguntar sobre essas peças a Ele quando tiver oportunidade.

Diz a lenda que Camões salvou os originais de “Os Lusíadas” de um naufrágio na foz do Rio Mekong. Nesse dia, morreu afogada Dinamene, amante chinesa de Luís Vaz, a quem depois ele dedicou alguns de seus mais belos versos líricos. Não nos cabe especular, como fazem alguns, se Camões salvou a epopéia e deixou morrer a namorada. Um naufrágio não é uma coisa simples. “No mar, tanta tormenta e tanto dano, / Tantas vezes a morte apercebida; Na terra, tanta guerra, tanto engano/ Tanta necessidade aborrecida!/ Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida,/ Que não se arme e se indigne o céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno?”

Só sei que a crônica anterior, a perdida, começava com a seguinte frase: “Toma um gole desta água”. O texto vinha assim, de forma imperativa e simples, usando a segunda pessoa, aquela que praticamente se perdeu na língua portuguesa “falada, escrita e televisada”, como diria um antigo orador de palanque.

Ao longo dos anos, perdemos bibliotecas de textos, histórias e acontecimentos. Para onde vão essas crônicas perdidas? Talvez viajem para o limbo dos guarda-chuvas, de que falou Mario Quintana num poema, se minha memória convencional não falha. Não há Google que recupere as crônicas que se perderam para sempre.

Talvez as minhas crônicas perdidas estejam todas reunidas no reino em que mora meu pai, com seus livros e guarda-chuvas. Pensamento que me faz encerrar esta crônica substituta com a frase que o poeta Keats criou para seu próprio epitáfio: “Aqui jaz alguém cujo nome foi escrito na água”.  

&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5PCFug0375aazjj0BBoBYY0UOA4/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5PCFug0375aazjj0BBoBYY0UOA4/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5PCFug0375aazjj0BBoBYY0UOA4/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5PCFug0375aazjj0BBoBYY0UOA4/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content>
        <published>2009-10-12T13:10:31Z</published>
        <updated>2009-10-12T13:10:31Z</updated>
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        <title>Toma um gole desta água</title>
        <summary>Nem forma, nem conteúdo respondem à indagação do ser, um mistério mudo mergulhado em solidão. Trêmulo, em desespero nascerás com um vagido. E esse instante inteiro será de todo esquecido. Do princípio ao desenlace envolvido em sangue e bosta serás pra ...</summary>
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        <content type="html">
Nem forma, nem conteúdo
respondem à indagação
do ser, um mistério mudo
mergulhado em solidão.
Trêmulo, em desespero
nascerás com um vagido.
E esse instante inteiro
será de todo esquecido.
Do princípio ao desenlace
envolvido em sangue e bosta
serás pra sempre o impasse.
Deus é dono da resposta.
Mas só veremos a face
se Ele nos voltar as costas.

*****

Toma um gole desta água
da cisterna de Jacó
e afoga tua mágoa
antes que te tornes pó.
Toma um gole deste copo
e não perguntes por quê.
Se tiveres dedos, toca.
Se tiveres olhos, vê.
Toma um gole deste vinho
que é do filho de José
e nunca estarás sozinho,
mas com aquele que é.
Toma um gole e o caminho
que te mostrará Yahweh.

&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/8ElQiT5W7eUjNBn_NSYiMl8_V5Q/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/8ElQiT5W7eUjNBn_NSYiMl8_V5Q/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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        <published>2009-10-11T03:02:30Z</published>
        <updated>2009-10-11T03:02:30Z</updated>
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        <title>Lições do dia</title>
        <summary>Pedro, sobre esta terra edificarás teu lar. Aqui, onde o homem erra antes de o galo cantar. Seja bem-vindo ao vale em que o afeto se encerra, vale de bem e mal e de paz, de tempo, de guerra. Pedro, já tens um nome em tua casa de mar, onde matarás a fome ...</summary>
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        <content type="html">Pedro, sobre esta terra
edificarás teu lar.
Aqui, onde o homem erra
antes de o galo cantar.
Seja bem-vindo ao vale
em que o afeto se encerra,
vale de bem e mal e
de paz, de tempo, de guerra.
Pedro, já tens um nome
em tua casa de mar,
onde matarás a fome
antes de vir a pescar.
Bem-vindo seja à luz
a que os homens chegam nus.

*****

A manhã é hora, filho,
de acordar após a treva.
E nela existe um brilho
que nenhuma outra leva.
A tarde é quando, Pedro,
todo dia se consome
em declínio, queda e medo
até que outra lhe tome
o nome, a luz, a vida:
é a noite ancestral
em si mesma esculpida.
Ela, que é condenada
a gerar o seu final
no ventre da madrugada. 



&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/zkW1aRR7bbf4QK0_xb7TZg-YvAc/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/zkW1aRR7bbf4QK0_xb7TZg-YvAc/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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        <published>2009-10-10T16:53:06Z</published>
        <updated>2009-10-10T16:57:32Z</updated>
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        <title>Do tempo em que telefone era patrimônio</title>
        <summary>Está simplesmente irretocável o texto em que o melhor jornalista do Brasil, Reinaldo Azevedo, responde a um certo economista João Sicsú: Sicsú certamente é um nostálgico do tempo em que uma linha de telefone custava até US$ 7 mil e era considerada ...</summary>
        <link rel="alternate" type="text/html" href="http://www.tipos.com.br/areas/briguet/blog/2009/10/10/do-tempo-em-que-telefone-era-patrimnio-1548651/" />
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        <content type="html">&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;/div&gt;Está simplesmente irretocável o texto em que o melhor jornalista do Brasil, Reinaldo Azevedo, responde a um certo economista João Sicsú:

&lt;b&gt;Sicsú certamente é um nostálgico do tempo em que uma linha de telefone custava até US$ 7 mil e era considerada patrimônio, declarado em Imposto de Renda. Sua saudade tem uma explicação pessoal: ele pertencia ao mundo dos com-telefone, mas já era um amigo do povo: do povo sem telefone. Quando FHC deixou o governo, entre telefonia fixa e celular, o serviço estava praticamente universalizado.

Segundo o economista (!?), empresas estatais foram praticamente doadas, o que é proselitismo político dos mais vagabundos. Não só isso. É também uma mentira. Os 19% das ações da Telebras que pertenciam ao Estado foram vendidos por R$ 22,2 bilhões. Um ano depois, em Bolsa, se as ações fossem todas arrematadas, valeriam bem menos. Mas isso nem é tão importante. Entre 2003 e 2006, o setor de telefonia gerou R$ 118 bilhões em arrecadação de impostos - em 1998, R$ 8 bilhões apenas. Desde a privatização, concluída em 1998, até 2006.

Em 1997, havia no Brasil 17 milhões de linhas fixas e 4,5 milhões de celulares; em maio de 2008, as linhas fixas passavam de 42 milhões, e os celulares, de 130 milhões. Atenção: em 1997, havia, pois, 21,4 milhões de linhas telefônicas para 166 milhões de habitantes; em 1998, 172 milhões para 188 milhões de pessoas.

Leia o texto completo &lt;a href="http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-mangabeira-unger-da-economia-faz-o-seu-panfleto-eleitoral/"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;/b&gt;


&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Yz7ZFefd6VTFh87pH84vumkBRQI/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Yz7ZFefd6VTFh87pH84vumkBRQI/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Yz7ZFefd6VTFh87pH84vumkBRQI/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Yz7ZFefd6VTFh87pH84vumkBRQI/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content>
        <published>2009-10-10T15:46:13Z</published>
        <updated>2009-10-10T15:46:55Z</updated>
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        <title>A imprensa dos sonhos</title>
        <summary>A imprensa dos sonhos para os políticos da cidade é cômoda e, acima de tudo, comodista. Só faz perguntas positivas. É que dá preguiça fazer pergunta difícil. Em qualquer época, a imprensa dos sonhos mostra o lado bom dos vereadores, deputados e ...</summary>
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        <content type="html">A imprensa dos sonhos para os políticos da cidade é cômoda e, acima de tudo, comodista. Só faz perguntas positivas. É que dá preguiça fazer pergunta difícil. 

Em qualquer época, a imprensa dos sonhos mostra o lado bom dos vereadores, deputados e prefeitos. É a mídia poliânica.

Para os políticos de Londrina (com exceções que não chegam aos dois dígitos), imprensa boa é imprensa muda, surda e cega. Amordaçada, se possível. 
Nos anos 60, um deputado chamado Feo de Souza deu uma entrevista e disse que era preciso acabar com a imprensa. Stanislaw Ponte Preta comentou: “Não sei se o Feo deu; mas, se o Feo deu, fedeu”. A imprensa dos sonhos dos Feos não cheira nem fede.

A imprensa dos sonhos, para eles, deve ser mantida a distância. Melhor seria se todas as sessões fossem secretas e noturnas – para que nada saísse nos jornais do dia seguinte.

A imprensa dos sonhos, para os políticos da cidade, mas não só eles, tem a chapa e a memória brancas. Nunca lembra que o ex-prefeito é réu em 94 ações na Justiça, tendo sido condenado em três. Nunca rememora os afagos entre os que hoje se apedrejam; e os apedrejamentos entre os que hoje se afagam. A imprensa dos sonhos – dos sonhos deles – é amnésica.

O jornalista Augusto Nunes não tem lugar na imprensa dos sonhos. Principalmente quando lembra em sua coluna que o secretário-geral de gestão do Pan 2007, Ricardo Leyser, e alguns companheiros foram instados pelo TCU a devolver aos cofres públicos R$ 18,4 milhões por conta de despesas superfaturadas e serviços não prestados. Torna-se menos onírico ainda, esse chato do Augusto Nunes, quando critica o fato de que o mesmíssimo Ricardo Leyser será o secretário-geral das Olimpíadas 2016. A imprensa dos sonhos não é chata. A imprensa dos sonhos é legal (no sentido de ser agradável; jamais no sentido de defender o cumprimento da lei).

Nunca existe escândalo para a imprensa dos sonhos. Nunca existe crise. Mensalão não existe. AMA-Comurb não existe. Operação Gafanhoto não existe. A imprensa dos sonhos é uma imprensa de inexistências.

A imprensa dos sonhos dos políticos é aquela que só noticia os podres adversários. Mas também não precisa exagerar: os adversários de ontem podem ser os aliados de amanhã.

A imprensa dos sonhos do governo não estranha a cara de paisagem do ministro da Educação ao comentar o vazamento das provas do Enem. Aquela cara de “Isso não é comigo” configura um ato absolutamente natural na opinião do jornalista dos sonhos. Se alguém tem alguma culpa nessa história, é a imprensa. Quem manda denunciar o vazamento da prova? Quem manda atrapalhar as licitações com sobrepreço? Quem manda criticar o pré-sal? Quem estimula tanto negativismo, minha gente?

A imprensa dos sonhos dos políticos, como vocês podem ver, meus sete leitores, é a dos nossos pesadelos.
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/7ftD4zgxamUxVbJ3_395ilWISE4/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/7ftD4zgxamUxVbJ3_395ilWISE4/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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        <published>2009-10-09T14:31:03Z</published>
        <updated>2009-10-09T14:31:03Z</updated>
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        <title>Perguntas ao meu cachorro</title>
        <summary>Ontem fui passear com meu cachorro e perguntei a ele: – Por que é que o diretório do PSDB fez uma advertência ao vereador Paulo Arildo? Cisco permaneceu calado. – Se ele é culpado, não deveria ser expulso do partido? Se ele é inocente, por que a ...</summary>
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        <content type="html">Ontem fui passear com meu cachorro e perguntei a ele:

– Por que é que o diretório do PSDB fez uma advertência ao vereador Paulo Arildo?

Cisco permaneceu calado.

– Se ele é culpado, não deveria ser expulso do partido? Se ele é inocente, por que a advertência? Se não há provas suficientes, não caberia a presunção de inocência?

Diante de tantas questões, Cisco nada respondeu. Limitou-se a levantar a perna e fazer xixi no poste. Tentei outro assunto:

– O Barbosa apoiou o Belinati, depois o Belinati apoiou o Barbosa. Agora os dois estão brigando de foice em quarto escuro. Quem vai ser prefeito de Londrina em 2010?

Cisco mergulhou em absoluto mutismo.

– O recurso do Belinati vai ser julgado pelo STF. Quem já livrou Palocci e vai acolher o Tóffoli pode devolver o Tio Bila, não é mesmo?

Cisco mexeu as orelhas.

– Disseram que o Barbosa iria aumentar o IPTU dos ricos e baixar o dos pobres. Londrina tem 75% de ricos? E por que é que essas contas de Robin Hood sempre acabam sendo vantajosas para a Prefeitura?

Cisco não comentou.

– Como é que um país que não consegue resolver os problemas básicos vai organizar um evento caro e complexo como as Olimpíadas numa cidade em que várias regiões são controladas pelo tráfico de drogas? 

Perplexo, Cisco parou de caminhar por um instante.

– Ontem alguém me enviou o seguinte comentário sobre a crônica da Olimpíada: “Parabéns, faz tempo que não leio uma crônica tão imbecil quanto essa”. Ele tem razão?

Cisco não confirmou nem negou.

– Se os políticos e cartolas ficaram tão felizes, não resta claro que alguma coisa está errada? 

Cisco emudeceu.

– Se você fosse diplomata, Cisco, que vantagem veria em emprestar a embaixada para o Zelaya?

Cisco ciscou.

– Se o Lula considera Micheletti golpista (não o Nedson, o Roberto), o que ele acha dos presidentes da Líbia, do Sudão, do Irã e do Zimbábue?

Cisco rosnou.

– O MST quer terra para produzir. Então, por que os sem-terra destruíram sete mil pés de laranja numa fazenda produtiva?

Cisco farejou o vento, mas não latiu.

– A blogueira cubana Yoani Sánchez não pode ser lida em seu próprio país. Ela desmonta a tese de que a saúde e a educação de Cuba são eficientes. Diz que o embargo americano é só uma desculpa para o governo comunista justificar a miséria e a falta de democracia na ilha. Por que então, Cisco, tanta gente no Brasil idolatra o regime cubano?

Cisco olhou-me, pensativo.

– Pô, Paulo, você só faz pergunta difícil!

E nada mais disse nem lhe foi perguntado. 


&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/VE7Rr0nVoXPYwqxOEm1wEHfwWzk/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/VE7Rr0nVoXPYwqxOEm1wEHfwWzk/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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        <published>2009-10-07T14:44:20Z</published>
        <updated>2009-10-07T14:45:07Z</updated>
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        <title>Ressaca olímpica</title>
        <summary>Um leitor da coluna acordou assustado e enviou ao cronista o seguinte depoimento: “Alguém pode me dizer que lugar é este e por que é que eu estou vestindo a camisa do Ameriquinha? Ai, que dor de cabeça. A última coisa que lembro é ter saído com uns ...</summary>
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        <content type="html">Um leitor da coluna acordou assustado e enviou ao cronista o seguinte depoimento:

“Alguém pode me dizer que lugar é este e por que é que eu estou vestindo a camisa do Ameriquinha? Ai, que dor de cabeça. A última coisa que lembro é ter saído com uns amigos. Mas quem são meus amigos? E qual é mesmo o meu nome? Preciso me cutucar para saber se isto é sonho ou pesadelo.

“Deixe-me dar uma olhada neste jornal aqui. (Ainda bem que o dono da casa, seja quem for, é assinante do JL.) Quê? O Rio de Janeiro vai sediar a Olimpíada em 2016? Já sei: é pesadelo.

“Agora estou lembrando algumas coisas. A certa altura da noite, fui hostilizado ao dizer que o Michael Phelps vai nadar de colete à prova de bala. E um patriota exaltado queria me bater porque eu sugeri que a Vila Olímpica poderia ser a Rocinha. Depois, outro nacionalista ficou furioso quando eu mencionei que a equipe brasileira de tiro será favorita quando bala perdida se tornar modalidade olímpica. 

“Ah, agora eu me recordo bem. Foi nessa hora que alguém me obrigou a vestir a camisa do Ameriquinha e cantar ‘Sou brasileiroooo/ com muito orgulhoooo,/ com muito amooooooor’. Depois, cantei aquela musiquinha da televisão: ‘Eu tenho nome,/ E quem não tem?/ Sem documentos eu não sou ninguém./ Não sou Maria, não sou João./ Com certidão de nascimentoooooooo... sou cidadããããããão’. “Depois de ter repetido a mesma canção umas 39 vezes (incluindo versões com sotaques do Lula, do Silvio Santos, do Tim Maia, do João Gilberto, do Roberto Carlos e do Siqueira Martins), imploraram para que eu parasse. 

Parei de cantar e comecei a falar: disse que o Brasil era o pato do planeta. Pato sabe andar, sabe nadar e sabe voar – mas não faz nenhuma das três coisas bem. Um país que não consegue guardar sigilo da prova do Enem vai organizar direito uma Olimpíada? Desculpem o trocadilho, mas no Brasil vai ser Olimpiada. Daqui a pouco vão criar um imposto olímpico, pode escrever. É por isso que eu era Chicago, Madri ou Tóquio desde criancinha.

“Pensando bem, será divertido realizar a primeira maratona com arrastão da história; ver o primeiro arremesso de granada de uso exclusivo do Exército; bater o recorde mundial em sequestros-relâmpago; assistir a uma prova de hipismo cujos obstáculos serão obras inacabadas do PAC.

“Com a qualidade de nossos políticos e cartolas, a Olimpíada 2016 será um marco. Sabem o desembargador que proibiu o Estadão de publicar matérias sobre Sarney? Já estão pensando em chamá-lo para censurar os inimigos da Olimpíada – que, afinal, são inimigos do povo. 

“Ai, que dor de cabeça. Alguém tem uma Neosaldina? Meu braço está doendo. O quê? Fizeram uma tatuagem em mim? Rio 2016? A camisa do Ameriquinha eu posso tirar, mas a tatuagem, não! Quem é que vai pagar o pato, Briguet?”
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/un_xc2TRfXih7f2YKyOwIpuRtzI/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/un_xc2TRfXih7f2YKyOwIpuRtzI/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/un_xc2TRfXih7f2YKyOwIpuRtzI/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/un_xc2TRfXih7f2YKyOwIpuRtzI/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content>
        <published>2009-10-05T11:07:32Z</published>
        <updated>2009-10-05T11:07:32Z</updated>
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        <title>Bom fim de semana</title>
        <summary>João Sebastião, sem comentários. Apenas acompanhem os pontos brancos:</summary>
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        <content type="html">João Sebastião, sem comentários. Apenas acompanhem os pontos brancos:

&lt;object width="425" height="344"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/pVadl4ocX0M&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/pVadl4ocX0M&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;


&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Fk0rM_ZkEy9nKjjLwfMwnbG7M7o/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Fk0rM_ZkEy9nKjjLwfMwnbG7M7o/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Fk0rM_ZkEy9nKjjLwfMwnbG7M7o/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Fk0rM_ZkEy9nKjjLwfMwnbG7M7o/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content>
        <published>2009-10-02T19:58:51Z</published>
        <updated>2009-10-02T20:01:04Z</updated>
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        <title>Somos todos anônimos</title>
        <summary>O que há num nome?”, pergunta Julieta a Romeu, na mais triste história de amor, ambientada em Verona. O que chamamos rosa, diz a jovem Capuleto, exalaria o mesmo perfume se tivesse outro nome. O nome – aliás, o sobrenome – é o maior inimigo de Romeu e ...</summary>
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        <content type="html">&lt;img src="http://static.tipos.com.br/users/briguet/20091002-mao.jpg" width="300" height="400" alt="" title="" /&gt;


O que há num nome?”, pergunta Julieta a Romeu, na mais triste história de amor, ambientada em Verona. O que chamamos rosa, diz a jovem Capuleto, exalaria o mesmo perfume se tivesse outro nome. O nome – aliás, o sobrenome – é o maior inimigo de Romeu e Julieta. As famílias Montecchio e Capuleto se odeiam; o amor ali está proibido. Mas Julieta, apesar da extrema juventude, tem a sabedoria de ver que Romeu não é um nome, mas um homem.

*****

Muito tempo antes de Shakespeare, Ovídio contara a lenda de Píramo e Tisbe, jovens igualmente apaixonados: a tragédia de Verona já havia ocorrido na Babilônia. Do sangue de Píramo e Tisbe, que morreram de amor, à sombra de uma árvore frutífera, teria vindo a cor das amoras. Camões cita esse velho mito em “Os Lusíadas” (no Canto IX, “Ilha dos Amores”) e na “Écloga dos Faunos”: “Vereis também, se fordes alembradas, / como a cor das amoras é de amores;/ o sangue dos amantes na verdura / testemunha de Tisbe a sepultura.”

*****

O que há num nome? Em suas memórias, cujo belo título é “O afeto que se encerra”, Paulo Francis conta que perguntou à mãe, quando menino: “Mamãe, quem é Lênin?” A resposta foi imediata: “É um demônio”. Depois do golpe de 64, Francis e o amigo Cláudio Abramo, na época ambos trotskistas, foram procurar um fotógrafo num arrabalde de São Paulo. Eram tempos bicudos, mas Abramo gritou a plenos pulmões: “Lenine! Lenine!” Era o nome do sujeito. Por falar em Paulo Francis, seu verdadeiro nome era Franz Paulo Trannin da Matta Heilborn. O pseudônimo foi inventado pelo diretor de teatro Paschoal Carlos Magno.

*****

Tem gente comemorando os 60 anos da Revolução Comunista Chinesa, liderada em 1949 por Mao Tsé-Tung, um dos maiores assassinos de todos os tempos. Em um planeta sério, a imagem de Mao seria tão associada ao mal quanto as de Hitler e Stálin. Em janeiro de 1976, quando Chou En-Lai morreu e Mao apodrecia no poder, a Praça da Paz Celestial (onde 13 anos depois ocorreria o massacre dos estudantes) amanheceu com centenas de pequenas garrafas penduradas por toda parte. Em mandarim, o nome Deng Xiaoping (rival e sucessor de Mao, que foi preso e cujo filho ficou paralítico durante a Revolução Cultural) quer dizer “garrafinha”. 

*****

E por que damos o nome de primavera a este tempo maníaco-depressivo? Ultimamente, as quatro estações têm começado e terminado dentro do mesmo dia. O nome disso – dizem os especialistas – é El Niño. Pior que o Gigante Adamastor; melhor que Mao. Para tudo há um nome. Mas, na verdade, somos todos anônimos.

&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yUIsgnB7IyuwqKf7fBCinGQ9Sw0/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yUIsgnB7IyuwqKf7fBCinGQ9Sw0/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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        <published>2009-10-02T12:04:20Z</published>
        <updated>2009-10-02T12:09:37Z</updated>
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        <title>Crônica de cor</title>
        <summary>Azul – não o celeste, não o marinho. Especular, se o espelho está sozinho. Vermelho – nem do sangue, nem do chão. Vermelha estrela em explosão. Amarelo – sem ouro, sem pausa. A cor que o tempo perdido causa. Verde – jamais de plantas ou de florestas. Vem ...</summary>
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        <content type="html">&lt;img src="http://static.tipos.com.br/users/briguet/20091001-mondriancomposition.jpg" width="250" height="400" alt="Piet Mondrian - Composition (1916)" title="Piet Mondrian - Composition (1916)" /&gt;

Azul –
não o celeste,
não o marinho.
Especular,
se o espelho
está sozinho.

Vermelho –
nem do sangue,
nem do chão.
Vermelha
estrela
em explosão.

Amarelo –
sem ouro,
sem pausa.
A cor
que o tempo
perdido causa.

Verde –
jamais de plantas
ou de florestas.
Vem
das esferas
bem longe destas.

Cinza –
não as sombras
do lusco-fusco
O cinza
em cores
que hoje busco.

Branco –
nem dos olhos,
nem do nada.
Branco
da morte,
última escada.

Preto –
nem da treva,
nem da ausência.
Alma
das folhas,
corpo das letras. 

Desconhecida –
a que não vemos,
a que não vimos.
A cor
que apenas
pressentimos.
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yogk7yh5qD7_xS67M3AbKRDcsvo/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yogk7yh5qD7_xS67M3AbKRDcsvo/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yogk7yh5qD7_xS67M3AbKRDcsvo/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/yogk7yh5qD7_xS67M3AbKRDcsvo/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content>
        <published>2009-10-01T14:54:53Z</published>
        <updated>2009-10-01T15:02:07Z</updated>
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        <title>Parem de mandar na minha vida!</title>
        <summary>Até o final da adolescência, eu lia Sartre. Com o tempo, as ideias do zarolho francês se incorporaram à minha extensa coleção de arrependimentos. De tudo, restou a noção de que o homem está condenado à liberdade. Nesse ponto, Sartre acertou na mosca – ...</summary>
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        <content type="html">Até o final da adolescência, eu lia Sartre. Com o tempo, as ideias do zarolho francês se incorporaram à minha extensa coleção de arrependimentos. De tudo, restou a noção de que o homem está condenado à liberdade. Nesse ponto, Sartre acertou na mosca – sem querer. E talvez tenha sido apenas um recozimento existencialista do bom e velho livre-arbítrio.

Atualmente, um número cada vez maior de pessoas, e temo que seja a maioria, entende a liberdade como um fardo, um suplício, uma condenação. Os tais formadores de opinião, em geral, não toleram a liberdade em si mesmos e não conseguem tolerá-la nos outros. 

O mandonismo é a regra de ouro destes nossos tempos interessantes; os tentáculos do Estado são evocados a toda hora para garantir que a vida seja limpa, segura, honesta, pura, correta e saudável. Não fume! Não beba! Não use automóvel! Não coma alimentos gordurosos! 
Não exagere no consumo! Não gaste energia! Não gere lixo! Não faça sexo sem camisinha! Não sobrecarregue o SUS! Não deixe o cachorrinho fazer cocô no jardim! Acima de tudo, não lucre! Não, não, não.

Na TV, uma propaganda pergunta: De que lado você está? A luta de classes não é mais de proletários versus burgueses; é de amigos versus inimigos da natureza; ou amigos versos inimigos da justiça social. 

Políticos e militantes modernos odeiam o individualismo: eles sabem o homem solitário, dono de seus atos, é o maior obstáculo à utopia mandante. Por favor, parem de mandar na minha vida!

*****

Antes de se tornar conhecido como o pai da filosofia, Sócrates foi soldado de infantaria na Guerra do Peloponeso, tendo se destacado por atos de bravura. Mas o pensador ateniense tinha suas idiossincrasias. Certa vez, durante uma batalha, ele permaneceu 24 horas imóvel, mergulhado em pensamentos.

Em que estaria pensando Sócrates naquele dia? Não sabemos, até porque ele não deixou uma só palavra escrita. Tudo que dele sabemos vem de fontes indiretas – principalmente Platão e Xenofonte.

Mas deixo a filosofia para quem é mais versado no tema – meu amigo Silvio Grimaldo, por exemplo. Permito-me imaginar que naquele dia, 400 anos antes de Cristo, Sócrates estivesse pensando na Queda. Sim, a Queda: o lugar e a condição em que vivemos.

A Queda é ter olhos, mas ser cego; é ter ouvidos, mas ser surdo; é ter uma boca, mas só dizer blasfêmias; é ter mãos, mas nada construir; é ter razão, mas não pensar; é ter coração, mas levantar e deitar na companhia do ódio. A Queda é, de repente, perceber que nós somos o holocausto da nossa própria liberdade. 

De que nos adiantam os cinco sentidos, se não atribuímos um sentido individual à vida? De que adianta definir retoricamente a liberdade, se a tendência da maioria é afogar o indivíduo nas águas turvas do mandonismo?


&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SbUA3hbLDMJjMkYBIAG1_qK6JEM/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SbUA3hbLDMJjMkYBIAG1_qK6JEM/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SbUA3hbLDMJjMkYBIAG1_qK6JEM/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SbUA3hbLDMJjMkYBIAG1_qK6JEM/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content>
        <published>2009-09-30T15:59:27Z</published>
        <updated>2009-09-30T15:59:27Z</updated>
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        <title>Arapongagem</title>
        <summary>– Divisão de Arapongagem da Prefeitura, bom dia. – Pô, Ademar. Eu já disse mil vezes para você não atender o telefone desse jeito. Pega mal. Use a senha! – Desculpe, chefe. Lavanderia H. Romeu, em que posso ajudá-lo? – Assim está melhor. E me diga uma ...</summary>
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        <content type="html">– Divisão de Arapongagem da Prefeitura, bom dia.

– Pô, Ademar. Eu já disse mil vezes para você não atender o telefone desse jeito. Pega mal. Use a senha!

– Desculpe, chefe. Lavanderia H. Romeu, em que posso ajudá-lo?

– Assim está melhor. E me diga uma coisa: você faz cara feia para as pessoas? Nosso benemérito disse que agente precisa fazer cara feia.

– Estou cumprindo essa norma à risca, chefe. Não é muito difícil. Minha grande inspiração é o Hugo Chávez. A moça da limpeza morre de medo.

– E como andam as investigações?

– Fiz alguns avanços. Descobri que um cidadão da elite perniciosa e golpista disse por aí que Serviço de Inteligência da Prefeitura é uma contradição em termos. O que ele quis afirmar com isso, chefe?

– Deixe pra lá. Os observadores têm sido observados?

– Noite e dia. O diabo é que a maioria leva uma vida tão normal que chega a ser irritante. Aquele líder dos empresários, por exemplo, vai do trabalho para casa, de casa para o trabalho. Que tédio... Este cargo de espião prometia mais aventura, chefe.

– Mas, Ademar, você não identificou nenhum comportamento suspeito?

– Bom, parece que um deles vai votar no José Serra e, apesar disso, é fumante.

– Não há casos mais graves, homem? Lembre-se: eles são inimigos do povo!

– Tem um jornalista que todo dia leva o cachorro para passear. Recolhe as necessidades do animal numa sacola plástica. Mesmo assim, há um risco para a saúde pública.

– Pode ser, pode ser. Mas e as negociatas? E os pedidos de propina?

– Um empreiteiro disse que o assessor de um vereador disse que um chefe de repartição disse que um cara da oposição deu três telefonemas suspeitos, embora o empreiteiro tenha voltado atrás em sua declaração.

– Muito bom. Acho que já dá para encaminhar ao Ministério Público.

– Certo, chefe. Mas eu tenho uma questão de ordem operacional. Posso adotar o codinome Gafanhoto? O senhor seria Mestre.

– De jeito nenhum, Ademar! Gafanhoto!? Tá querendo me derrubar? Pare de pensar besteira e fique de olho no cachorro do jornalista. 

– Certo, chefe.

*****

&lt;i&gt;(Cinco minutos depois.) &lt;/i&gt;

– Divisão de Arapong... Ops, Lavanderia H. Romeu, em que posso ajudá-lo?

– Desculpe, foi engano. Estou procurando o Serviço de Enxada. 

&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/0x2ZoSdeft720iBFabDiqbft1KA/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/0x2ZoSdeft720iBFabDiqbft1KA/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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        <published>2009-09-28T11:46:38Z</published>
        <updated>2009-09-28T11:46:38Z</updated>
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        <title>O Fiscal</title>
        <summary>Adriano tinha boas ideias durante o banho, embora nem sempre conseguisse memorizá-las depois de se enxugar. De qualquer maneira, o banho era um tempo de reflexão; Adriano ficou chateado quando a água do chuveiro foi subitamente cortada naquela manhã. A ...</summary>
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        <content type="html">Adriano tinha boas ideias durante o banho, embora nem sempre conseguisse memorizá-las depois de se enxugar. De qualquer maneira, o banho era um tempo de reflexão; Adriano ficou chateado quando a água do chuveiro foi subitamente cortada naquela manhã. A mulher já havia saído para trabalhar; teria esquecido de pagar a conta? Adriano terminou de se enxugar e abriu a porta do banheiro para saber o que estava acontecendo. Foi quando ele viu o Fiscal.

– Não se assuste, eu mesmo cortei a água. Mais de cinco minutos de banho, Adriano?! É um claro desperdício. Você não se preocupa com o nosso planeta?

Antes que Adriano pudesse responder, o Fiscal lhe entregou um caderno sobre o uso racional das reservas hídricas. Assustado com o invasor, Adriano fugiu para o quarto e se vestiu rapidamente, não sem antes o Fiscal indagar:

– Adriano, Adriano. Você já parou para pensar se esse armário embutido é feito com madeira de desmatamento legal?

Adriano era um homem de índole pacífica. Vendo que o inesperado visitante não desistiria tão cedo, Adriano, convidou-o para tomar café. O Fiscal agradeceu, sentou-se à mesa, mas só tomou um gole de café preto sem açúcar. Enquanto Adriano tomava seu iogurte com granola, percebeu o olhar de censura do fiscal:

– Adriano, Adriano. Onde já se viu tomar um iogurte com tantas calorias? Isso vai aumentar a sua taxa de colesterol. Sabe quanto dinheiro o SUS gasta por ano com doenças cardíacas e circulatórias?

Adriano permaneceu em silêncio, enquanto o Fiscal se levantava e abria a geladeira.

– Sua dieta é basicamente constituída de alimentos gordurosos, Adriano! Nunca ouviu falar em dieta balanceada, em reeducação alimentar? E o que é isso aqui? Pela Mãe-Terra, uma lata de cerveja! Você já conduziu veículos automotores sob influência do álcool? Sabe quantas pessoas morrem diariamente em acidentes na nossa cidade?

Furioso, Adriano expulsou o Fiscal de casa. Mas reencontrou-o no caixa eletrônico, onde passou antes do trabalho, para sacar 40 reais em notas de 10.

– Adriano, que vergonha! Você não pretende dedicar parte desse dinheiro a projetos sociais consistentes? Você é um lacaio do mercado, um títere do capitalismo, um individualista pernicioso e alienado! Nunca ouviu falar que um outro mundo é possível?

O Fiscal desapareceu e só voltou à noite, quando Adriano navegava na internet.
Criticou-o duramente por ler um artigo de Reinaldo Azevedo, obrigando a passar antes pelo blog Amigos do Presidente Lula.

Mais tarde, ao lado da cama de casal, ordenou que Adriano usasse camisinha com a própria esposa.

– Sexo com finalidades reprodutivas é coisa do papa, Adriano. A humanidade deve ser extinta em prol da natureza! 
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/zaYT8SytfNWQDSTyxlLgRyoZ_jw/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/zaYT8SytfNWQDSTyxlLgRyoZ_jw/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/zaYT8SytfNWQDSTyxlLgRyoZ_jw/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/zaYT8SytfNWQDSTyxlLgRyoZ_jw/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content>
        <published>2009-09-25T18:49:57Z</published>
        <updated>2009-09-25T18:49:57Z</updated>
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            <name>briguet</name>
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        <title>Dr. Johnson, 11 anos depois</title>
        <summary>Perambulando pelo Google, acho uma entrevista do historiador inglês Paul Johnson, publicada pela Veja em 1998. Johnson era – e é – um intelectual de primeira grandeza, polêmico e dono de um magnífico senso de humor. Quando li a entrevista na época da ...</summary>
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        <id>http://www.tipos.com.br/areas/briguet/blog/2009/09/23/dr-johnson-11-anos-depois-1526637/</id>
        <content type="html">Perambulando pelo Google, acho uma entrevista do historiador inglês Paul Johnson, publicada pela Veja em 1998. Johnson era – e é – um intelectual de primeira grandeza, polêmico e dono de um magnífico senso de humor. Quando li a entrevista na época da publicação, admirei a inteligência de Johnson, com reservas puramente ideológicas. As reservas, graças a Deus, perderam-se em algum ponto destes 11 anos. Republico aqui a entrevista – concedida ao jornalista Carlos Graieb – para os sete leitores deste blog. Divirtam-se e informem-se. Longa vida a Paul Johnson. 


&lt;b&gt;Veja — Por que os Estados Unidos são um país digno de admiração? 
Johnson —&lt;/b&gt; Há muita coisa errada nos Estados Unidos, mas os americanos são grandes "resolvedores de problemas". Veja o seu déficit orçamentário, que nos anos 70 e 80 parecia conduzir diretamente ao apocalipse. De repente, foi completamente domado: o país floresce e comemora superávit atrás de superávit. A esquerda vive chamando os Estados Unidos de império, mas não acho isso justo. Trata-se de um país que teve poucas colônias e que soube livrar-se delas assim que esses territórios mostraram capacidade para o autogoverno. Os EUA são apenas uma nação gigantesca, com interesses comerciais em todo o mundo, que exercem sua influência com força. Acho esse exercício absolutamente legítimo. Sou velho o bastante para lembrar do tempo em que os Estados Unidos tendiam para o isolacionismo. Foi um período terrível para a Europa. Gente da geração de meu pai implorou para que os EUA entrassem para a Liga das Nações e mantivessem o interesse na Europa, mas eles se negaram. Um dos resultados dessa omissão foi a II Guerra Mundial. Eu realmente espero que os Estados Unidos se interessem pelo resto do mundo e exerçam seu poderio bélico e econômico em favor da democracia.
 
&lt;b&gt;Veja — Em seu livro Intelectuais, o senhor diz que a grande questão da vida intelectual é a posição a assumir diante do problema da violência. A violência pode ser moral e intelectualmente justificável? 
Johnson —&lt;/b&gt; Nada me intriga mais na vida de pensadores renomados do que perceber que um grande número deles apoiou ou apóia a violência em diversas situações. O francês Jean-Paul Sartre, por exemplo, sustentava que a violência era tolerável em certas circunstâncias. Algumas das pessoas que seguiram seus ensinamentos foram ainda piores — basta pensar no grupo de intelectuais responsável pelos massacres no Cambodja, todos discípulos de Sartre. Outro caso de filósofo que deplorou a violência em certos casos e a endossou em outros foi o inglês Bertrand Russell. Ele chegou a sugerir um ataque nuclear preventivo contra a União Soviética. De minha parte, sigo um dos mandamentos da Igreja — "Não matarás". Acho, porém, que exista algo como a "guerra justa", no sentido descrito por Santo Tomás de Aquino no século XIII. Já a violência do dia-a-dia, que afeta a vida dos cidadãos, é um problema espinhoso. Combatê-la com a violência do Estado seria legítimo? A tão discutida pena de morte, por exemplo, é um desses casos sobre os quais pessoas de boa vontade, inteligência e educação terão sempre opiniões conflitantes.
 
&lt;b&gt;Veja — Um ataque dos EUA ao Iraque seria um caso de "guerra justa"? 
Johnson —&lt;/b&gt; Saddam Hussein é um ditador insano, com currículo assombroso de crueldade, vício e agressão. Regimes como o dele têm de ser mantidos sob controle e vigilância. Considero os Estados Unidos uma espécie de "polícia global" absolutamente necessária enquanto certos párias continuarem dispostos a quebrar a ordem internacional ou construir armas de destruição em massa.
 
&lt;b&gt;Veja — Voltando aos intelectuais, o senhor escreveu recentemente um artigo reclamando da entrega de uma comenda real ao historiador Eric Hobsbawn, uma das mais eminentes figuras da esquerda. Por quê? 
Johnson —&lt;/b&gt; Hobsbawn foi feito Acompanhante de Honra, uma distinção bastante elevada na Grã-Bretanha. Não reclamei por motivos pessoais, mas porque me parece inadequado que um stalinista não arrependido como Hobsbawn receba essa espécie de honraria. Ninguém que tenha apoiado o totalitarismo deveria ser homenageado com título.
 
&lt;b&gt;Veja — O senhor não acredita que haja um legado de esquerda a ser explorado no presente? 
Johnson —&lt;/b&gt; Não. Karl Marx foi um embusteiro intelectual que distorcia fatos. É claro que seu sistema não funcionou quando aplicado à União Soviética: estava todo embasado em falsidades. Seu único legado foi conduzir um país rico como a Rússia à pobreza. Não há qualidades redentoras, nenhuma que seja, no marxismo. Aqueles que discordarem de mim, que mostrem provas. Mostrem-me um regime que tenha empregado princípios marxistas e tenha melhorado a vida de seus cidadãos. Não há. Todos que enveredaram por esse caminho na Europa, América Latina, Ásia ou África falharam. Também não faço nenhuma distinção entre nazismo, comunismo e fascismo. Foram todos movimentos totalitários e radicais pertencentes à esquerda. Marx, afinal de contas, derivou todas as suas teorias de Hegel, assim como os nazistas. Todos os sistemas totalitários do século XX foram de esquerda: apenas na superfície pareceram pertencer à direita. Todos os sistemas radicais do século XX foram ruins segundo os mais retos padrões morais. São sistemas que não podem ser melhorados ou civilizados. É impossível um comunismo com face humana. O regime chinês não se humanizará. Com sorte, desaparecerá no tempo, e é tudo que podemos dizer.
 
&lt;b&gt;Veja — O que pensa do papa João Paulo II? 
Johnson —&lt;/b&gt; Ele é o maior papa do século XX. Fez um trabalho magnífico ao resgatar a Igreja Católica de uma espécie de liberalismo sem rumo. Restaurou a disciplina no clero. Como resultado, a Igreja Católica está mais saudável hoje do que nas últimas décadas. Além de suas qualidades de líder religioso e estadista, o papa tem uma personalidade admirável. Quem quer que tenha estado em sua companhia concordará com isso. Ele tem um carisma intenso e exala bondade.
 
&lt;b&gt;Veja — João Paulo II é criticado pela rigidez de suas opiniões sobre temas como aborto, sexo e casamento. Ele não estaria em descompasso com a modernidade? 
Johnson — &lt;/b&gt;É preciso lembrar que essas não são opiniões pessoais do papa. São opiniões da Igreja, fazem parte de sua doutrina. Dois mil anos de catolicismo condenam o aborto, o papa não pode alterar esse fato. João Paulo II simplesmente afirma — guiado pelo Espírito Santo, como toda vez que um papa se pronuncia — que os preceitos da Igreja sobre sexo e casamento devem ser estritamente seguidos. Numa época em que o comportamento sexual é irresponsável, acarretando um número crescente de nascimentos ilegítimos, mães solteiras e crianças abandonadas, ele está fazendo aquilo que é necessário — desse ponto de vista, portanto, ninguém é mais moderno.
 
&lt;b&gt;Veja — O senhor também acha o aborto um crime? 
Johnson —&lt;/b&gt; Sim, claro que sim. Trata-se de uma forma de homicídio. Talvez se devam fazer algumas ressalvas — quando a vida da mãe está em perigo, por exemplo —, mas como prática institucionalizada o aborto é perverso, errado e deveria ser banido. Essa é uma das grandes questões do nosso tempo. Acredito que os Estados Unidos mudarão sua legislação permissiva com relação ao aborto, como fizeram em relação à escravidão, e tomarão medidas para proteger a criança ainda não nascida. Uma vez tomada essa decisão, todos os outros países seguirão no mesmo caminho. Em 100 anos o aborto não será mais legal, em nenhuma circunstância.
 
&lt;b&gt;Veja — Em artigos recentes o senhor criticou o sexo na TV. Não é um excesso de moralismo? 
Johnson —&lt;/b&gt; Alguns meses atrás, chamei o diretor do Canal 4 inglês, Michael Grade, de "pornógrafo-mor" da televisão britânica. Ele entendeu a dica e pediu demissão, de modo que posso me gabar de uma pequena vitória. A televisão é inócua no melhor dos casos, destrutiva no pior. Creio que seria mais útil para as pessoas ler bons livros em vez de passar grande parte do dia na frente de uma caixa falante.
 
&lt;b&gt;Veja — O senhor tem um livro chamado Para o Inferno com Picasso. Nos ensaios desse livro, também ataca o pintor francês Cézanne. O que lhe agrada nas artes plásticas? 
Johnson —&lt;/b&gt; Quando eu era criança, costumava sair com meu pai, que era pintor, para desenharmos juntos. Passávamos horas diante de igrejas e catedrais, que eram seus motivos pictóricos preferidos. Um dia ele disse: "Bem, Paul, você é muito talentoso, mas não acho que deveria se tornar artista. Eu prevejo um tempo ruim para as artes plásticas. Fraudes como Picasso vão governar pelos próximos cinqüenta anos. Portanto, vá fazer outra coisa". Meu pai morreu quando eu tinha 13 anos e eu segui seu conselho, transformando-me em escritor. Mas nunca deixei a pintura e, nos últimos tempos, confesso que meu maior deleite vem dela. Em abril, tenho uma exposição agendada numa galeria de Londres. Além disso, transformei-me num colecionador e hoje sou dono de um acervo bastante razoável de 350 obras, mais uma enorme coleção de livros de arte. Como pintor e colecionador, gosto do tradicional e do realista. E não acho que esteja errado nisso. Suspeito que, no futuro, o século XX será visto como um período de aberrações. Um período em que a arte descarrilou por um desvio modernista antes de voltar à pintura tradicional. Nesse dia, talvez percebam que Picasso era um artista de talento, mas também um cínico, que percebeu que poderia ter imenso sucesso se fizesse concessões às modas estéticas. E que Cézanne era simplesmente um mau pintor, ainda que esforçado.
 
&lt;B&gt;Veja — Sua opinião sobre pintura moderna também vale para a literatura? 
Johnson —&lt;/b&gt; Acho que não é preciso tanta preocupação com a literatura quanto com a pintura. Obras literárias são escritas em linguagem que todo mundo pode entender e julgar autonomamente. Artes plásticas, por outro lado, intimidam um pouco. As pessoas acham que precisam de especialistas para explicar-lhes o que está acontecendo. Daí nascem as fraudes, como Picasso. De qualquer modo, não tenho lido muitos ficcionistas contemporâneos. O último romancista moderno que li com prazer foi Evelyn Waugh, e ele morreu nos anos 60. Talvez pudesse citar também meu amigo Kingsley Amis, morto há três anos — mas não seu filho, Martin, que é absolutamente ilegível. Entre os poetas, Auden não era ruim, e Stephen Spender é muito bom. Minha autora preferida, no entanto, é Jane Austen. Ela morreu há 200 anos.
 
&lt;b&gt;Veja — A coroa britânica dá sinais de querer aproximar-se do povo. O que o senhor acha da idéia? 
Johnson —&lt;/b&gt; A rainha está certa ao tentar uma melhor comunicação com seus súditos. Mas não acho que a coroa deva buscar popularidade, no sentido em que estrelas de cinema são populares. Seria terrivelmente indigno.
 
&lt;b&gt;Veja — A comoção em torno da morte da princesa Diana pareceu-lhe de bom gosto? 
Johnson —&lt;/b&gt; Sim, eu aprovei aquele rompante espontâneo de sentimento popular. A coroa tentou diminuir a importância daquela morte e foi corrigida pela população. Deram-lhe, então, um enterro adequado, que foi ao mesmo tempo uma grande demonstração democrática. Eu gostava muito de Diana. Era uma pessoa rara, com um único defeito grave: o pavoroso gosto para homens. 

&lt;b&gt;Veja — Logo depois da eleição do primeiro-ministro Tony Blair, a maioria dos intelectuais ingleses parecia bastante satisfeita, inclusive o senhor. A lua-de-mel continua? 
Johnson —&lt;/b&gt; Sinto que surgiu uma ponta de ceticismo em muitos de meus amigos. Mas continuo otimista. Temos um ótimo primeiro-ministro: jovem, charmoso, inteligente e firme nos princípios. Prepara-se agora para apresentar seu plano de reforma do Estado de bem-estar, uma jogada política bastante ousada. Como sabemos, a Inglaterra foi pioneira na implantação de um Estado de bem-estar, mas depois viu esse aparato sair das proporções adequadas e se tornar excessivamente caro. Qualquer reforma nessa máquina será complicada e sofrerá oposição. Mas Blair é determinado e, se o plano for tão radical e ambicioso quanto espero que seja, poderá se tornar um modelo para todo o mundo, da mesma maneira que a fórmula de privatização da senhora Thatcher tornou-se universal.
 
&lt;b&gt;Veja — As comparações freqüentes entre Tony Blair e Bill Clinton procedem? 
Johnson — &lt;/b&gt;Não, de jeito nenhum. Clinton é um oportunista, um homem de moral muito duvidosa. Blair tem convicções, fé religiosa e princípios. Eles são antípodas.
 
&lt;b&gt;Veja — O senhor votaria pelo impeachment de Clinton, caso fosse provado que ele realmente assediou sexualmente secretárias e estagiárias? 
Johnson —&lt;/b&gt; Acho que preferiria outra solução. O impeachment só foi usado uma vez na História dos Estados Unidos, contra Andrew Johnson. Os resultados foram muito duvidosos. É um processo longo e trabalhoso, que tende a sofrer todo tipo de interferência política. Caso seja mesmo impossível provar a inocência do presidente, gostaria que ele nos oferecesse a solução mais fácil e saísse de fininho. 

*********

&lt;b&gt;* De Paul Johnson, leiam “Heróis”, “Intelectuais” e “História do Cristianismo”.  
&lt;/b&gt;

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        <published>2009-09-23T17:06:17Z</published>
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