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        <title>Ópera-Bufa</title>
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        <pubDate>Mon, 20 Apr 2009 17:23:49 -0300</pubDate>
        
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            <title>Diário de Kafka</title>
            <pubDate>Mon, 20 Apr 2009 17:23:49 -0300</pubDate>
            <description>&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/16399/20090420-kafka-by-google-one.jpg" width="184" height="217" alt="kafka by google one" title="kafka by google one" /&gt;
Eu era Franz Kafka e andava pela calçada em um dia com muita luz do sol. Não havia um pai, havia nem irmã, nem irmão. Minha mãe era doce e atenciosa comigo. 
Perambulava pela cidade à procura de novidades. Eu era Franz Kafka, apesar de tudo. Felice Bauer era minha noiva querida, e me aguardava em sua casa, aonde iria depois do passeio com mamãe. 
Chegaria em casa bem pouco cansado e com muito ar nos pulmões, tomaria um banho, sorveria chá e logo estaria na casa dos Bauer, onde minha amada me esperaria posta à janela. Mesmo assim, eu era Franz Kafka. 
Não havia meu pai a sofrer dores explícitas toda a noite, que me manteria como lampião a contemplar o sofrimento contagioso de forma deliberada. Não havia minha irmã quase querida, mas silenciosa, a emitir juízo pequeno sobre qualquer pequena história minha que lhe mostrasse. 
Irmão eu nunca tive. Tinha só mamãe e minha flor Felice. Mas eu era para sempre Franz Kafka.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2009/04/20/diario-de-kafka/</link>
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            <title>Listas de ruptura. I - Narrativa</title>
            <pubDate>Sat, 11 Apr 2009 21:41:01 -0300</pubDate>
            <description>Em conversa com Ygor e Ana, regados por cerveja, Extra Dry Martini, cigarros e livros, matutamos a possibilidade de listas: de literatura, música, filmes, comida etc. Listas sempre são afetadas por lembranças, desejos e idealizações. O consenso entre nós três foi pensarmos em listas que romperam nossas concepções, nos formaram, que, pra bem e pra mal, nos realizaram um pouco no que se chama de cultura da vida. Enfim, listas de ruptura. Coloco a seguir uma primeira (venho pensando em produzir várias!), apresentando os dez livros que viraram minha cabeça, entortando-a. Não há ordem de preferência. Não esqueço que toda lista é pura tolice. Eis:

1.&lt;em&gt;Lavoura Arcaica&lt;/em&gt;, Raduan Nassar
De acordo com Ítalo Calvino, nós elegemos nossos clássicos. Este é o meu clássico. Sede de releituras. A linguagem narrativa em pura poesia. A junção exata entre conteúdo transgressor e forma vibrante. 

2.&lt;em&gt;Perturbação&lt;/em&gt;, Thomas Bernhard
A arruinação total através do narrador atrás dos enfermos de seu pai médico numa viagem sombria pelos vales da Áustria desprezível. Seja em &lt;em&gt;O náufrago&lt;/em&gt;, ou em &lt;em&gt;Extinção&lt;/em&gt;, é a chatice genial da literatura.

3.&lt;em&gt;O estrangeiro&lt;/em&gt;, Albert Camus
Quando se descobre que não sabemos; quando se descobre que não há o que se descobrir; que a religião não salva; que a noite é escura; que uma tarde amarela pode ser nauseante.

4.&lt;em&gt;Grande Sertão: Veredas&lt;/em&gt;, João Guimarães Rosa
Todo o poder da língua literária em se apossar da portuguesa e recriar o mistério da literatura.

5.&lt;em&gt;Matem o cantor e chamem o garçom&lt;/em&gt;, Fausto Wolff
Parsifal: narrador-canalha, cínico, irônico, macho, humano. 

6.&lt;em&gt;Morangos mofados&lt;/em&gt;, Caio Fernando Abreu
Adolescente, deparei-me com os contos e vi que a literatura é também um ótimo pesticida contra o sorriso. A máxima de Gide fez sentido: com bons sentimentos só se faz má literatura.

7.&lt;em&gt;Hotel Atlântico&lt;/em&gt;, João Gilberto Noll
O último soco realmente nocauteador que tomei da literatura. Me desconcertou a tal ponto de não conseguir conduzir uma aula em concurso público.

9.&lt;em&gt;O apanhador no campo de centeio&lt;/em&gt;, J. D. Salinger
O ajustamento perfeito de uma linguagem cativante a um jovem narrador diante do nojo do mundo adulto.

10.&lt;em&gt;Aqueles cães malditos de Arquelau&lt;/em&gt;, Isaias Pessotti
O melhor título de livro que conheço aliado a uma narrativa deliciosamente gastronômica e histórica na Itália contemporânea, com jovens eruditos de diversas localidades do mundo.
</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2009/04/11/listas-de-ruptura-i-narrativa/</link>
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            <title>A criação da alegria</title>
            <pubDate>Sun, 29 Mar 2009 02:18:22 -0300</pubDate>
            <description>É só... e conosco.
É em chuva, ou sol.
É riozinho, veredazinha que irrompe no Pantanal.
De chuva ou frio, faz-se a alegria agora.

É colheita à espreita, no rio sem sentido.
Faz falta contemplar o amanhecer.
Faz falta sempre a janela do quarto aberta no fim de tarde,
O ar que entrava nos pulmões da cidade.

(Do descampado só conheceu a casa ao longe, de madeira, vista do curral.
Aquele menino brincava sozinho enquanto o pai ia ao campo contar bezerros.
O acumular vivência não permitiria exercício).

O retrato em branco e preto escurece na parede,
E um casal velho bebe cerveja em silêncio, na sala.
</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2009/03/29/a-criacao-da-alegria/</link>
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            <title>GVT  A escolha feliz </title>
            <pubDate>Mon, 09 Feb 2009 20:34:39 -0200</pubDate>
            <description>"Por milhares de anos, os seres humanos fodem e sujam e cagam em cima deste planeta, e agora a história quer que eu limpe tudo. Preciso lavar e amassar as latas de sopa. E dar conta de cada gota de óleo dos motores.
Este é o meu mundo, o meu mundo, e os antigos estão mortos".
(&lt;em&gt;Clube da Luta&lt;/em&gt;, Chuck Palahniuk)

Há alguns dias recebi uma correspondência da GVT, empresa de telefonia (paranaense?) da qual alugo o número de meu telefone residencial. Uma correspondência bonita, bem montada, em forma de convite para formatura ou casamento. Na capa do envoltório, um casal sadio, bem vestido, sorridente e ajoelhado praticava a jardinagem num lindo dia de sol, sem suar e se sujar. Logo percebi que não se tratava de fatura, nem cobrança (estamos conseguindo, eu e meu amigo de apartamento dividido, manter os pagamentos em dia). Claro que seria uma propaganda ou oferta de outro combo especial, talvez uma conexão internética ultra mega giga rápida aliada a um plano de minutos infindáveis para que pudéssemos ficar horas grudados no bocal do telefone. Também não era. E também não ficamos tanto tempo assim ao telefone. Ao abrir o pacotinho, as frases direcionadas e automáticas: 
1.	“Cultivar relacionamentos é manter parcerias cada vez mais duradouras”.
2.	“OBRIGADO Ter você conosco faz toda a diferença para nós”.
3.	“Miguel, É semeando relacionamentos que se constroem grandes parcerias”. 

Relacionamento? Não quero me relacionar com a GVT, só quero que minha internet e meu telefone funcionem bem. A redundância presente na segunda frase (“conosco” – “para nós”) me coloca como, além de cliente, um cativo deles. Reforçando contra o item 1, não quero parceria com a GVT. Eles já pegam meu dinheiro e eu pago apenas para ser servido. Já tenho meus bons e maus parceiros de carne e osso.
Depois de todo o texto puxador de saco lá estava ela!, a assinatura reproduzida do Vice-Presidente da Unidade de Negócios Varejo (sic), Alcides Troller Pinto. Assinatura repetida &lt;em&gt;ad infinitum&lt;/em&gt; é tão significativa e importante quanto nada.

&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/16399/20090209-fight_045800.jpg" width="458" height="344" alt="mais uma googlada! use soap!" title="mais uma googlada! use soap!" /&gt;

O melhor estava no conteúdo físico do pacote. Grudado por um adesivo redondo, um envelopinho em cuja face salta a inscrição em laranja “Ipê”. Mais curioso, destaquei o envelopinho pra ver o que tinha dentro: despontaram três ou quatro... Como poderia reproduzir o pensamento inicial? Três ou quatro coisinhas parecendo pedaços ressecados de insetos. Ou ainda algum tipo de droga (oxalá fosse!). Mas logo me toquei que era aquilo mesmo que se dizia: sementes de Ipê. No verso desse afamado envelopinho, as instruções de como plantar: as medidas de terra, calcário, adubo; o tipo de vaso ou saco plástico necessários; como jogar as sementes; como regar; e as precauções necessárias quanto à água e sol. 
Ou seja, mandaram-me umas sementes de Ipê para plantar e salvar o planeta. Claro que é somente a parte que me cabe do todo. Todos devemos participar, tchê! O engraçado é a sugestão. O engraçado é como é feito o processo pela empresa GVT. Se me enviassem umas sementinhas sem nenhuma puxadinha do meu saco e só escrito: “Miguel, o mundo tá feio. Tá tudo se fodendo. Planta isso aí, por favor, no bosque central de Londrina para os pombos cagarem em cima e as galinhas ciscarem ao pé!?”. Eu não teria resistido e, claro, plantado essa e outras. Essa besteira de sustentabilidade ou o que valha fornece muito espaço para as empresas se passarem por responsáveis, mas apenas em propagandas. E que não lhe custam nada, pois se aproveitam da consciência (a ser culpada, sempre) dos consumidores.  
Ah, Ipê-Roxo... Uma das árvores mais lindas que existem, mesmo que a SEMA de Londrina não concorde. Agora esse papo de sustentabilidade... De consumo responsável... Só rindo, esses caras são engraçados. 
</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2009/02/09/gvt-a-escolha-feliz/</link>
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            <title>O morto nunca está só</title>
            <pubDate>Wed, 28 Jan 2009 16:35:20 -0200</pubDate>
            <description>Uma das partes mais interessantes do Jornal de Londrina é a de “Falecimentos”. Trata-se de notas que normalmente aparecem na penúltima página do tablóide. Não é a seção “Divirta-se”, e sim “Mosaico”, que nominalmente já explicita o teor dos textos: são comunicados sociais para constar, não notícias. 
Dispõem-se assim: acima do horóscopo e dos quadrinhos super engraçados do Benett; à esquerda da previsão do tempo, das fases da lua e do horário de nascer e pôr-do-sol; e à diagonal das cruzadinhas. 
Normalmente, aparece um curto texto (entre 70 e 100 palavras) falando um pouco sobre o morto principal: profissão, idade, local de nascimento, suas qualidades, cônjuge, filhos, netos etc. O teor elegíaco, como esperado, é predominante. Mas por vezes alcança-se alguma outra forma expressiva inusitada, seja poética, dramática, ou mesmo cômica.
O morto do dia está bem acompanhado, outros seis ou sete sustentam-no, mas infelizmente apenas com seus nomes impressos, idade e local do velório. O texto de ontem (27/01/2009) me intrigou. Apareceu assim:

Geraldo, um homem solitário

Geraldo Teodoro dos Santos, faleceu ontem, aos 58 anos, após uma longa internação hospitalar. Morava sozinho, em uma casa emprestada no Jardim Ouro Branco. Mudou-se de Palmeiral, Minas Gerais, há 30 anos e veio para Londrina tentar a vida. Ultimamente, antes de cair doente, vendia materiais de limpeza pelas ruas da cidade. Das duas filhas que teve, não há notícia. Descrito por familiares distantes como um homem bom e carinhoso, Geraldo foi sepultado ontem mesmo no Cemitério São Pedro. Certamente, terá a sua solidão em terra compensada no conforto de Deus.
Sepultado no Cemitério São Pedro

&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/16399/20090128-geraaaaldo.jpg" width="300" height="225" alt="Geraaaaldo" title="Geraaaaldo" /&gt;

Bom, todos os informes já citados (idade, origem, profissão...) foram devidamente preenchidos. Mas o que me chamou a atenção foi o fato de ser um deambulador solitário (“Morava sozinho, em uma casa emprestada no Jardim Ouro Branco”. “Das duas filhas que teve, não há notícia”) e o título deixar claro isso. Um título de conto. 
Ok, mais um desgarrado na vida. Gosto particularmente dos desgarrados e perdidos e isolados. Se se isolou ou foi isolado, não importa. Pra mim, importa o que escreveram no final e foi o motivo que me concentrou: “Certamente, terá a sua solidão em terra compensada no conforto de Deus”. Tudo bem, Deus é um grande conforto. Indiscutível, pois não se tem o que argumentar quando se apela ao divino. Mas quem disse que Geraldo quer compensar e equilibrar sua solidão no Além? Quem pode afirmar que ele foi infeliz? O que garante que seu recolhimento em vida não foi compensatório? Solidão é sinônimo de tristeza, ressentimento e rancor? 
As pessoas adestradas para rebanho não perdoam os sós. O morto não podia estar só em vida. Puxa vida!  
</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2009/01/28/o-morto-nunca-esta-so/</link>
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            <title>Benjamin Button e Ensaio sobre a cegueira</title>
            <pubDate>Tue, 27 Jan 2009 13:39:59 -0200</pubDate>
            <description>Nos últimos dias, vi dois filmes ótimos: ontem, no cinema, &lt;em&gt;O curioso caso de Benjamin Button&lt;/em&gt; e anteontem, em casa, DVD do camelô, &lt;em&gt;Ensaio sobre a cegueira&lt;/em&gt;. São filmes recentíssimos, de 2008, cujos enredos de tão simples e originais (talvez justamente por isso) nos remetem à pergunta boba: como não tinha pensado nisso antes?

&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/16399/20090127-benjamin_button-poster1.jpg" width="222" height="300" alt="tempo" title="tempo" /&gt;

&lt;em&gt;Benjamin Button&lt;/em&gt;, com Brad Pitt no papel principal, foi dirigido por David Fincher, o mesmo de &lt;em&gt;Zodíaco&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Clube da luta&lt;/em&gt;. O argumento vem de um conto de F. Scott Fitzgerald e apresenta a história de um homem que nasce velho e com o passar do tempo rejuvenesce. Logo no início me chamou a atenção certas semelhanças com &lt;em&gt;Forrest Gump&lt;/em&gt; (1994), de Robert Zemeckis. Os dois personagens principais são extremamente carismáticos, doces, até meio abobalhados, deixam-se conduzir pelos percalços de suas vidas de modo pacífico. E são muitos os percalços e fatos históricos importantes que presenciam e dos quais participam. Contudo, a maior proximidade é o poder magnético da história, pois não se consegue desgrudar os olhos da tela um segundo sequer. A empatia causada pelos personagens centrais desenlaça as narrativas de modo suave e constante; os dois são exímios contadores de histórias. Além disso, a técnica utilizada em ambos é a do flashback, que confere um ar nostálgico irresistível. 
São os temas que o filme apresenta que tocam mais fundo: a necessidade de adaptação à regras do mundo social, a finitude e, claro, o amor, encarnado na figura materna de Queenie e sobretudo de Daisy, personagem da lindíssima Cate Blanchett. O tempo, certamente o tema que permeia todos os outros, é visto de modo circular. Nos desencontros e acasos que nos regem, há um ponto demarcador das maiores aprendizagens valorizadas pela história: viver as convergências amorosas e saber se despedir daqueles aos quais nos apegamos.      

&lt;em&gt;Ensaio sobre a cegueira&lt;/em&gt;, de Fernando Meirelles, prima pelo retrato do sufoco, da desorientação causada pela epidemia de cegueira, em que as condições humanas de sobrevivência ficam relegadas aos outros quatro sentidos restantes. O caos demonstrado por uma câmera e perspectiva quase sempre desfocadas, trêmulas, justamente para sugerir a desorientação humana diante de uma nova imposição natural, é implacável.
Só uma personagem continua vendo e é o apoio necessário que o espectador tem para compartilhar sua experiência: o mundo cuidado pelo ser humano que vê não é nada, em sua maior parte, melhor ou mais avançado moral e solidariamente que aquele imperado pelos cegos. O filme mantém a ideia principal de Saramago: qual a responsabilidade de se ter olhos quando ninguém mais vê? Fica a impressão de que a eficácia crítica das alegorias literária e fílmica é justamente conseguir fazer de todo mundo cego fisicamente para em seguida revelar que aquilo que é velado diariamente (a violência, o descaso, a corrupção, a miséria) venha à tona de forma mais contundente, já que quase nada muda no comportamento do homem. Dessa forma, a cegueira age como um espelho. Não é uma cegueira de trevas, são trevas brancas que acometem os indivíduos. 

Ao comentar a literatura fantástica, José Paulo Paes escreveu: “Num conto fantástico, em nenhum momento o leitor perde a noção de realidade”. O mesmo se aplica a &lt;em&gt;Benjamin Button&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Ensaio sobre a cegueira&lt;/em&gt;, um cinema de cunho fantástico. Nunca somos suspensos da realidade dita concreta. E é exatamente isso o que a torna mais dolorosa e mantém o mistério de esses filmes serem realidades brutas. A fantasia é tão verossímil e a realidade tão extravagante que nessa ambiguidade reside o poder de a ficção e o cotidiano se alimentarem mutuamente, alargando nossas percepções da natureza e do ser humano.   
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            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2009/01/27/benjamin-button-e-ensaio-sobre-a-cegueira/</link>
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            <title>Vertical</title>
            <pubDate>Sun, 11 Jan 2009 22:28:12 -0200</pubDate>
            <description>São migalhas.
Migalhas de água que caem indecisas sobre a cidade.
Não são gotas. São migalhas. Picotadas.
E me ponho sentado junto à janela da sala do 19º andar.
Vejo migalhas de águas se esfarelarem,
algumas extintas antes de cair em telha, automóvel, asfalto.
(Algumas nem chocam a matéria, só se esvaem no ar bem alto).
Assustadoramente, o sol é bem quente e rompe a pequena existência desse fenômeno meteorológico.
É uma poeira de água.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2009/01/11/vertical/</link>
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            <title>Sexta Londrina</title>
            <pubDate>Fri, 05 Dec 2008 22:21:44 -0200</pubDate>
            <description>Em Londrina, sexta-feira.
Janelas abertas, cortinas arriadas,
Mãos espalmadas num andar bem alto de prédio,
Cheiro de sabão novo nos dedos.

Ficar de quatro na cama, rente à janela, captar as partículas da cidade.
Sexta-feira. 
As fumaças da semana marrom sobem, sobem,
Vão até os narizes que cheiram a cidade toda,
Londrina à noite,
Sexta-feira.

Para mim, a cidade é isso: 
Londrina à noite, sexta-feira, duas cervejas na cabeça.
Encostado na janela sentindo o fumegar de uma reunião de concreto e carne.

Quantas casas, becos, ruas, árvores, bosque, Concha,
Viela, bocas, rodoviária, Catedral, Relógio, universidade.
Tudo se prepara para sair à noite nesta cidade, 
E voltarem régios pra casa.
Porque há majestade em cada grampo de coisa no chão.

(Na cidade onde nasci, não é Londrina, há também shampoo, gel, sabonete, secador de cabelo, essas coisas que a noite usa. Mas fui sentir o cheiro espalhando-se aqui. Como também há em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba – a cidade enigmática –, há em Londres, Amsterdã, Paris. Mas aqui é Londrina e eu moro num apartamento alugado num prédio antigo de andar bem alto.) 
</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/12/05/sexta-londrina/</link>
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            <title>Poeira</title>
            <pubDate>Wed, 15 Oct 2008 20:32:04 -0300</pubDate>
            <description>Eu penso na manhã de amanhã. Será que amanhecerá chovendo?
Hoje em Londrina faz uma noite agradabilíssima. Estou sozinho em casa, nas alturas de um 19º andar. A janela do quarto aberta, totalmente aberta e escancarada. Entra uma brisa que vem do sul e bate na parede gasta do prédio, esse ar acaba e entra aqui, no canto. Uma massa morna, fluida e reconfortante. Vem alguma fumaça de automóveis, vem alguma poeira a incrustar os lençóis, as fronhas dos travesseiros, a mesa de escritório, os livros e outros papéis. Não importa, escolho o que respirar. E meus pés agora sem meias estão pisando completamente o assoalho.

Pra variar, penso em Bandeira:

“Poema Só Para Jaime Ovalle”&lt;p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
&lt;p&gt;(Embora a manhã já estivesse avançada).
&lt;p&gt;Chovia.
&lt;p&gt;Chovia uma triste chuva de resignação
&lt;p&gt;Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
&lt;p&gt;Então me levantei, 
&lt;p&gt;Bebi o café que eu mesmo preparei,
&lt;p&gt;Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
&lt;p&gt;- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/10/15/poeira/</link>
        </item>

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            <title>Esse café já não passou?</title>
            <pubDate>Wed, 15 Oct 2008 13:29:30 -0300</pubDate>
            <description>Sábado de manhã. Eu acordo em cima do celular, ele toca. Também o cinto no quadril, a pinga na garganta, o soluço na espreita... Uma mensagem anterior no celular: “Já acordou?” Meia nos pés, camisa amarrotada no dorso. Hoje tem palestra de João Gilberto Noll, Festival de Literatura de Londrina.
- Esse apartamento é muito frio.&lt;p&gt;
A água engarrafada no vasilhame já vencida. F. 150708L 012MIN                                                                       V. 150709 10:41
Um café pra todos?
- Abre esse quarto. Está um cheiro ruim.
Acordei. 12:31. Tem aula em casa de francês. A porta é trancada com bastante firmeza, a comunicação ao lado. São amigos queridos. O molho de chaves, agora trocadas e devolvidas, está mais leve. Mas há uma em cima da mesa que é da porta da sala do meu apartamento, fazia tempo que não a usava.
Faz sol hoje. E abro as janelas do quarto o máximo possível com que se possa escancará-las.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/09/27/esse-cafe-ja-nao-passou/</link>
        </item>

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            <title>Exposição</title>
            <pubDate>Wed, 15 Oct 2008 13:32:11 -0300</pubDate>
            <description>Uma lista pessoal, com gostos de objetos que me influenciaram e continuam influenciando no pequeno espaço em que penso, ajo ou silencio.
Talvez não consiga estabelecer uma cronologia exata, algumas dessas aproximações ocorreram simultaneamente, ou uma em função de outra. Pretendo escrever uma página sobre cada item, um post pra cada. Teria, acho, bastante pra comentar; mais de uma página. Mas ninguém teria saco pra ler. Assim, os acontecimentos que mais me marcaram foram (ao escutar, ler ou ver):
1. As músicas da banda Legião Urbana.
2. A leitura do poema “O guardador de rebanhos”, do heterônimo de Fernando Pessoa Alberto Caeiro.&lt;p&gt;
3. A leitura do livro &lt;i&gt;Uma temporada no inferno&lt;/i&gt;, de Arthur Rimbaud, assim como outros poemas seus.
4. O filme &lt;i&gt;Clube da luta&lt;/i&gt;, de David Fincher.
5. O livro &lt;i&gt;Matem o cantor e chamem o garçom&lt;/i&gt;, de Fausto Wolff.
6. Os livros &lt;i&gt;Lavoura Arcaica&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;Um copo de cólera&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;Menina a caminho&lt;/i&gt;, de Raduan Nassar.
Acho que é isso. Tomara que não apareça nada mais. Agora é pensar: o que falar sobre cada um?</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/07/31/exposicao/</link>
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            <title>Ansiedade</title>
            <pubDate>Sat, 26 Jul 2008 19:11:21 -0300</pubDate>
            <description>Palavra estranha, mescla desejo e urgência. Ansiedade, ânsia. Ânsia de vômito, premência de expelir. Ânsia de futuro, o que não existe.
Dia chato pra sentir isso, sábado à noite. Ou o melhor, na noite de hoje é o momento que mais gosto de ficar em casa, sempre é um tempo pra pensar ou deixar a cabeça encostada no travesseiro, os pensamentos pensarem na cabeça, sozinhos.
Meio lexotan às vezes ajuda muito; às vezes e sempre é apenas um paliativo. Como o café também a me ansiar mais ainda.
Desejo, urgência.
Escrever direto no "adm" do Tipos sem antes passar pelo Word é estranho. 
Ansiedade não parece olhar pra frente, ansiedade é do passado, é resquício que emerge.
Quanta bobagem. Quanta merda.
Ansiedade, ansiedade.
Uma noite de sono no sábado à noite resolve.
Escrever um texto acadêmico com ansiedade é horrível. O que fazer? Postergar, abreviar, encarar, ser maduro?
Neste texto não, afinal é ansiedade de dizer algo.
Vontade, sublimação.
Apenas sensação, logo passa.
Ansiedade e culpa, culpa e dever, dever e família, família e expectativas, dinheiro e trabalho, trabalho e responsabilidade.
Ansiedade.
Vou trabalhar.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/07/26/ansiedade/</link>
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            <title>A cidade lavada</title>
            <pubDate>Thu, 24 Jul 2008 12:16:51 -0300</pubDate>
            <description>Moro há alguns dias numa nova casa, bem no centro de Londrina, com um querido amigo. É num andar bem alto e da janela da sala dá pra mirar toda a região sul: o aeroporto, o alto da Inglaterra, a distante caixa-d’água da Metropolitana. Uma vista admirável.
Ontem presenciei a primeira chuva daqui. Venta muito nessa ocasião, como percebi. As janelas pareciam estar sendo arrebentadas. Mas foi chuva curta.
Hoje Londrina amanheceu nublada, molhada.
Da janela do 19º andar, sentado num banco, fumei o primeiro cigarro matinal com o ar da cidade lavada vindo no rosto. A Souza Naves, a Mato Grosso, a Espírito Santo, a Goiás; as casas e as ruas; as ruas e as pessoas; as pessoas e os carros; tudo lavado.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/07/24/a-cidade-lavada/</link>
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            <title>Acenos e afagos</title>
            <pubDate>Wed, 23 Jul 2008 16:07:38 -0300</pubDate>
            <description>&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/16399/20080723-acenos e afagos.jpg" width="324" height="496" alt="Noll" title="Noll" /&gt;

Há algumas semanas, João Gilberto Noll lançou seu mais novo romance, &lt;i&gt;Acenos e afagos&lt;/i&gt; (Ed. Record, R$ 32,00), na FLIP (Festa Literária Internacional de Parati). 

Não se trata de um &lt;i&gt;page turner&lt;/i&gt;. Ler o escritor gaúcho quase sempre é penoso, vai aos poucos, é uma literatura que se arrasta monotonamente, em compassos lentos. Outros movimentos.

Uma vez vi Noll ler na TV um trecho de &lt;i&gt;Lorde&lt;/i&gt; (2004), outro romance seu. Muito estranho. Ele dava a cadência perfeita para seu texto. Uma calma melancólica. Uma retórica estropiada. Ardente paciência.

Mas, uma exceção: &lt;i&gt;A fúria do corpo&lt;/i&gt; (1981). O texto mais obsceno, virulento, mais santo, devastador, mais desagradável, barroco, mais chuvoso, bonito, mais ao chão do corpo que exista, talvez.

Estou começando a estudar as micronarrativas de &lt;i&gt;Mínimos, múltiplos, comuns&lt;/i&gt; (2003), um livro singular composto de 338 narrativas que têm em média 130 palavras. Todas escritas para o jornal &lt;i&gt;Folha de São Paulo&lt;/i&gt; entre agosto de 1998 e dezembro de 2001 e depois organizadas tematicamente em um volume de 478 páginas. Deixo aqui uma amostra:

&lt;div style="text-align: center"&gt;Mucosas&lt;/div&gt;

Estavas em coma aquela noite. Bati na vidraça do teu quarto esperando que me acolhesses com a lareira acesa, mas te vi na cama, a cabeça meio para trás, lembrando vagamente a máscara mortuária de uma figura guarani; não parecias respirar, na certa tinhas bebido até cair, até chegar ao submundo mental, ao turismo pelos cemitérios de neurônios. Voltavas depois pra mim tão sem pistas, que perguntavas teu nome, tua procedência e tudo. Estavas em coma. Tanto, que quebrei o vidro com o punho e entrei. Sangrava minha mão. Vi que não havia o que fazer. Já tinhas certa lividez laqueada e só me restava te velar. Foi o que fiz? Não, não foi: deitei sobre o teu corpo e abandonei a língua na tua boca até clarear não só o dia, mas também a idéia de te incinerar.

(In: NOLL, João Gilberto. &lt;i&gt;Mínimos, múltiplos, comuns&lt;/i&gt;. São Paulo: Ed. Francis, 2003, p. 464)</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/07/23/acenos-e-afagos/</link>
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            <title>O livro &lt;i&gt;Forrest Gump&lt;/i&gt;</title>
            <pubDate>Sun, 15 Jun 2008 13:55:09 -0300</pubDate>
            <description>&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/16399/20080615-winston groom.jpg" width="162" height="200" alt="Groom" title="Groom" /&gt;

Li o romance de Winston Groom há uns dois meses e fiquei tentado a escrever sobre ele. Tinha várias idéias, referências, leituras e comentários. Acabei me atrasando e perdi algumas proposições.

Mas me ficaram algumas: 1. trata-de de um genuíno &lt;i&gt;page turner&lt;/i&gt; (aquele tipo de livro que só se pára de ler quando acabam as páginas, infelizmente), 2. &lt;i&gt;Forrest Gump&lt;/i&gt; é uma narrativa americanóide, que exalta a cultura e política americanas, ou não?

Bom, aí acho que devemos nos centrar em uma distinção. O livro é muito (muito mesmo!) diferente do filme. No livro, Forrest não é tão bonzinho quanto o singelo personagem interpretado por Tom Hanks. Em algumas partes é violento, não por ser incitado, mas por existir mesmo. Não é politicamente correto: fuma maconha, fala palavrões quase sempre, não é complacente. E a crítica à política americana do século XX é avassaladora, algo apenas tangenciado no filme.

Realmente, é um livro de um ex-combatente do Vietnã. Mas vai além disso, como sempre ocorre num um bom livro, e &lt;i&gt;Forrest Gump&lt;/i&gt; o é. Então uma primeira constatação: somos guiados pelas circunstâncias, ou ainda: somos carregados por forças sociais, culturais, econômicas etc, queiramos ou não.  

Como se ele dissesse em vários momentos: você está mesmo acreditando que eu sou um idiota? É uma consciência metalingüística que está longe de ser evidente no filme. O narrador do livro &lt;i&gt;Forrest&lt;/i&gt; já nas primeiras páginas diz: “Mas eu sei alguma coisa sobre idiotas. Provavelmente é a única coisa que sei, mas li sobre eles – desde o idiota daquele cara Doch-toévski, até o bobo do Rei Lear, o idiota de Faulkner, Benjie, e até mesmo o velho Boo Radley, em &lt;i&gt;To kill a mockingbird&lt;/i&gt; – ele era um idiota sério. No entanto, o que mais gosto é o do velho Lennie, em &lt;i&gt;Ratos e homens&lt;/i&gt;” (GROOM, 1995, p. 10). 

Bom, ele parece saber alguma coisa...

Ainda seja a grande questão de &lt;i&gt;Forrest Gump&lt;/i&gt;, o livro e o filme: somos idiotas sempre, não importa o país poderoso ou miserável em que a gente viva.  

Teríamos tanto a discutir sobre o livro... Logo logo a Globo reprisa o filme. Nesse ano, se não me engano, já foi apresentado duas vezes.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/06/15/o-livro-forrest-gump/</link>
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            <title>Susto na esquina</title>
            <pubDate>Wed, 11 Jun 2008 15:10:43 -0300</pubDate>
            <description>Foi com alumbramento que ontem, na esquina encostado esperando condução, risquei os olhos nessas palavras de Kafka. E ainda há outros riscos no conjunto. 

“À noite”

Afundado na noite. Como alguém que às vezes baixa a cabeça para meditar, totalmente afundado na noite. Em torno as pessoas dormem. Uma pequena encenação, um inocente auto-engano de que dormem em casas, em camas firmes, sob o teto sólido, estirados ou encolhidos sobre colchões, em lençóis, sob cobertas, na realidade reuniram-se como outrora e mais tarde, em região deserta, um acampamento ao ar livre, um número incalculável de pessoas, um exército, um povo, sob o céu frio, na terra fria, estendidos onde antes estavam em pé, a testa premida sobre o braço, o rosto voltado para o chão, respirando tranqüilamente. E você vigia, é um dos vigias, descobre o mais próximo pela agitação da madeira em brasa no monte de galhos secos ao seu lado. Por que você vigia? Alguém precisa vigiar, é o que dizem. Alguém precisa estar aí.

(KAFKA, Franz. &lt;i&gt;Narrativas do espólio&lt;/i&gt;. Trad. de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2002)</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/06/11/susto-na-esquina/</link>
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            <title>No surprises</title>
            <pubDate>Sat, 31 May 2008 01:36:38 -0300</pubDate>
            <description>Claro que ao som e voz de Radiohead: www.youtube.com/watch?v=cQqbuZOPE5g

A melancolia alegre de agora beber uma cerveja no próprio quarto e olhar um pouco pra trás. As janelas emparelhadas. Cada um fuma seu cigarro olhando pra frente e logo ali, a menos de 5 metros, tem mais concreto, em outro bloco de prédio do condomínio.

Mais pra trás, minha época mais feliz, de universidade. Não havia preocupação em garantir as contas pagas para todo mês.  Havia tanta festa dentro e fora dos quartos das ruas Hugo Cabral e Pará. Hoje pra mim lá não havia dúvida, eu era vivo para comer, beber, transar, ler e viajar. Essa música intimista do Radiohead era escutada mais alto, quando não se tinha muito pra esconder. Hoje ela vai baixo quando.

O improviso era outra coisa.

Aquela seriedade lúdica podia esperar um pouco mais.
As presenças de espectros agora dão um sentimento formado e garantem conforto.

Escutar alguma música do Radiohead exige. O Valentino tocaria "Life in a glasshouse" com a avenida Bandeirantes em orvalho às 06:30 am e a gente catando copo de plástico com resto de cerveja?

Parece, olhando hoje, que não há mesmo nada com que se surpreender, tirando essa vista do passado, de construir uma narrativa bem guardada de bebedeiras, muito sono (quando não tirava a cama pra se recostar), viagens, caronas, aulas assistidas. Agora não há pra quem se mostrar a nova arrumação do quarto.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/05/31/no-surprises/</link>
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            <title>Amargo Filo</title>
            <pubDate>Fri, 23 May 2008 12:31:46 -0300</pubDate>
            <description>&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/16399/20080523-filo 08.gif" width="306" height="102" alt="Filo" title="Filo" /&gt;

Os dias de Filo são interessantes em Londrina. As pessoas tendem a ser mostrar mais modernas, tanto no vestuário (quanta gente moderninha!), quanto nos papos (quanta cabeça pensante!) e na ânsia por teatro. Uma ânsia que me parece verdadeira, mas só contemplada em duas parcas semanas de overdose teatral, em que você nem consegue deglutir e refletir bem sobre os espetáculos que vê. Pula de uma peça para outra na correria dos horários conflitantes.

***

Ressurgem também no Filo pessoas que você julgava extintas. Ressurgem do esgoto, das esquinas, em bandos. Modernos, é claro. 

*** 

A imprensa londrinense, se existe tal entidade, revela-se completamente chapa-branca na cobertura do festival. Por exemplo: hoje no &lt;i&gt;Jornal de Londrina&lt;/i&gt; apareceu um tímido comentário crítico na reportagem de Ranulfo Pedreiro: “Os ingressos do Filo começaram a ser vendidos ontem às 11 horas no Shopping Royal Plaza, e a fila formada foi grande durante todo o dia”. Mentira. Os ingressos não começaram a ser vendidos às 11 horas como disse o repórter e como prometeu a organização. Era quase uma da tarde e ainda não havia ninguém com ingressos nas mãos, talvez somente quem os recebe de cortesia: jornais, televisões, empresários e “amigos do Filo” que não estavam sentados no chão do shopping e sim nos sofás de suas casas curtindo o feriado.

***

Por falar em shopping. É o lugar mais apropriado para vender os ingressos? Por que não vender na Casa de Cultura da UEL, que só na época de Filo tem uma agenda regular? Por que só cinco guichês no Royal? Por que não distribuir a venda em vários lugares (na própria Casa de Cultura, mesmo no Royal e ainda num estande na Concha Acústica? Com os lugares numerados e a possibilidade de controle eletrônico dos ingressos vendidos poderia ter uma comunicação e facilitar o acesso dos interessados aos espetáculos. A organização do Filo quis inovar com ingressos numerados, mas acabou dando um tiro pela culatra (eita lugar comum!) atrapalhando suas intenções de &lt;i&gt;organizar&lt;/i&gt;.

***

Há um ano de preparação do Filo. Um ano bem aproveitado. Quase sempre a programação é divulgada de última hora. Os responsáveis se sustentam o resto do ano com o dinheiro público e privado dos patrocinadores?</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/05/23/amargo-filo/</link>
        </item>

        <item>
            <category />
            <title>Os maravilhosos dias</title>
            <pubDate>Tue, 06 May 2008 13:11:13 -0300</pubDate>
            <description>Trabalham dias no céu, no azul, na pele. 
É o outono, a melhor das estações. 
Há calor na pele evaporando ventos que desfolham a casca do vivo. 
E há outras peles subterrâneas que não se deixam arrancar. 
Num improvável acesso chega o sol não mais fugaz, eterno sol de eternos céus azuis.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/05/06/os-maravilhosos-dias/</link>
        </item>

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            <title>Uma carta ao pai</title>
            <pubDate>Fri, 02 May 2008 15:53:30 -0300</pubDate>
            <description>&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/16399/20080502-kafka.jpg" width="160" height="205" alt="Kafka" title="Kafka" /&gt;

Mês retrasado o senhor veio me visitar. Uma semana antes da Páscoa. Estava em férias, e aproveitando-as na casa de sua mãe e irmãs na região de Campinas, esticou até Londrina. Ligou: “Vou passar uns dias aí com você”. Fiquei um pouco temeroso, por dois motivos: 1. ando muito embaralhado com trabalho e estudo; 2. há algum tempo não permanecíamos sozinhos. 

Foram apenas dois dias aqui em casa: sábado e domingo. Aproveitamos bem. Fomos ao Museu Histórico da cidade, onde não havia ido ainda, almoçamos naquele simpático restaurante vegetariano, passeamos no shopping olhando despreocupadamente as vitrines, pegamos um ônibus errado que rodou rodou e voltou ao ponto de partida. Era noite e chovia. Foi um bom passeio redundante. Enfim conseguimos pegar a linha certa e descemos na avenida. Depois subimos a outra avenida tentando fugir da rala chata chuva que não nos molhava, mas umedecia. Cumprimos a quadra do cemitério São Pedro sem pestanejar.

Comemos pizza. Conversamos nós três: o senhor (o pai), eu (o filho) e ela (a namorada do filho). Dormimos cansados e satisfeitos. 

Na segunda-feira, quando eu me preparava pra ir trabalhar, o senhor entrou num táxi e foi pra rodoviária tomar o ônibus de volta à casa das tias e da vó. 

Foi uma boa visita. Não tenho, como Kafka, que nos olha acima de duas maneiras, do que reclamar. Ele o fez em sua carta. Eu agradeço sua vinda.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/05/02/uma-carta-ao-pai/</link>
        </item>

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            <title>O ex bar da minha rua</title>
            <pubDate>Sun, 27 Apr 2008 18:28:40 -0300</pubDate>
            <description>Sexta-feira, dia 25/04/2008, fui ao Bar do Jota  (rua Prof. João Candido, 1256 – Centro, perto do cemitério São Pedro e da J.K.) com alguns amigos. É o único bar que freqüento com alguma assiduidade, geralmente uma vez por semana, depois que chego do trabalho. Estávamos sentados à mesa do lado de fora e, em frente à nossa, várias mesas juntas, com uma maioria de mulheres. Duas delas estavam muito próximas, trocavam olhares de carinho, se abraçavam e, em dado momento, deram alguns beijos. Eram basicamente “selinhos”, não beijões reveladores da paixão que talvez sintam uma pela outra. Elas estavam bem no meu campo de visão.

Todo mundo sabe que mais da metade do público do Jota é composto de homo e bissexuais. A parcela hetero, pelo menos pela experiência que tenho por estar lá, não parecem se incomodar muito ao ver dois homens ou duas mulheres se beijarem. Eu confesso que acho até bonito, pois de alguma forma é um avanço as pessoas demonstrarem suas sexualidades da maneira que quiserem. E essa discussão em ser homo, hetero, bi, tri, ou o que for, é de uma tremenda chatice. Rótulos servem apenas no início do conhecimento de alguém, depois perdem o sentido com a complexidade que as pessoas tendem a mostrar.

Acontece que uma hora o garçom, um senhor que me enoja pelo seu jeito de atender e pedir centavos pra sua “caixinha” (se não me engano seu nome é Mário), chegou até as meninas e fez um gesto que interpretei como uma ordem para as duas pararem de se beijar ali. Falou de modo ríspido e repulsivo. As duas apenas pararam e olharam-no de modo submisso, como duas ovelhas.
Não acreditei no que vi e fui ao balcão falar pro João (que arrendou o bar) o que seu garçom fizera e também perguntar se tinha alguma norma que proibisse aquilo.
As respostas dele tento resumir: 

“Aqui isso não é liberado”
“A maioria das mulheres que vêm aqui são assim. Mas elas são sempre bem-vindas”.
“Uma vez uma mãe reclamou que passou aqui com o filho pequeno e tinha um casal de homens se beijando”.

Ok. Pelo que sei isso é caracterizado mais como crime do que como afronta a qualquer pessoa. Pelo que sei ganhar dinheiro com as bichas e sapatonas (uso esses termos porque me acho o suficiente amigo de vários homossexuais para assim escrever) pode, mas eles demonstrarem seu afeto, não. Um casal hetero se agarrar furiosamente, com beijos e pegadas mais fortes pode... Duas mulheres se beijarem ternamente, isso não.

O que me assusta é ninguém falar nada. Tudo bem que as meninas já devem enfrentar uma barra pra de repente se assumirem e se exporem com algum argumento. Tudo bem que uma possível criação antiquada e machista do garçom e do João leva a esse tipo de repreensão. 
Tudo bem PORRA NENHUMA. Cansei de engolir sapos e ficar quieto. Cansei de ver esse tipo de preconceito e ninguém falar nada. Não sou militante em causa alguma, MAS ISSO É ERRADO! Ou não?

E a noite estava propícia a exemplos de distorções. Um casal estava com seu filho recém nascido lá, chorando. Marquei a hora: 01:30 a.m. Não era esse o crime? Falei pro João: “Crime, safadeza e tudo mais é esse casal trazer uma criança para um bar nesse horário. Era isso que você devia proibir. Bar é lugar para criança?”

É muito complicado se decepcionar com alguma coisa.
Só sei que o que eu puder fazer para diminuir a clientela do Bar do Jota, eu farei. Até, triste, vou evitar ir lá, mesmo sendo perto de casa.

E que engraçado. Pesquiso na net e olha a descrição que acho:
“O Bar do Jota é um endereço tradicional no meio intelectual e universitário, embora abrigue diversas tribos da cidade. Faz todos os tipos de porções e lanches, incluindo a famosa vaca atolada, servida mesmo no período do verão.  Também estão à disposição dos clientes duas mesas de sinuca.” 
(http://www.planetalondrina.com.br/guia/guia.asp?Categoria=44)

“Meio intelectual”, “embora abrigue diversas tribos da cidade”... Só rindo. Esses caras são engraçados.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/04/27/o-ex-bar-da-minha-rua/</link>
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            <title>Gimme shelter</title>
            <pubDate>Mon, 21 Apr 2008 15:27:22 -0300</pubDate>
            <description>Na festa começam acordes de guitarra devagar devagarzinho. Olho as pessoas e elas parecem também sentir. Os acordes saem do silêncio e rodam os cômodos da casa, gelam as latas de cerveja, de vinho. Saem das fumaças dos cigarros. Flutuam no ar chuvoso. Caem no asfalto escuro da noite, empestam o ar da chuva lá na baixada perto do vale. Retornam anos de estudo na graduação universitária. Antigos amigos na lembrança, novas conversas, alguma coisa pede pra reviver. “War, children, it's just a shot away”...</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/04/21/gimme-shelter/</link>
        </item>

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            <title>No restaurante</title>
            <pubDate>Sun, 20 Apr 2008 12:42:02 -0300</pubDate>
            <description>Uma mulher senta-se à mesa do self-service. Reza antes de comer. Batata frita, torresmo, churrasco e ovo. É o que compõe sua religião. Mas morrerá antes de acabar o macarrão.</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/04/20/no-restaurante/</link>
        </item>

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            <title>XIII</title>
            <pubDate>Sat, 05 Apr 2008 04:03:58 -0300</pubDate>
            <description>"Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente 
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou".

(Jorge de Lima, &lt;i&gt;Invenção de Orfeu&lt;/i&gt;)</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/04/05/xiii/</link>
        </item>

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            <title>A quinta (e última!, espero) merda do dia</title>
            <pubDate>Sun, 23 Mar 2008 20:52:12 -0300</pubDate>
            <description>Não tinha como deixar de relatar mais uma. Sinto-me constrangido. Inacreditavelmente cagado mesmo. Voltando da Concha Acústica, nesse domingo de Páscoa, à noite, lua cheia, pós-feriado, abatido pela semana de muito trabalho que se anuncia... 
Na esquina da Espírito Santo com a Souza Naves uma meleca de pomba bem na testa, nos óculos, no nariz. Uma merda de dia, de noite. 
Boa bosta de semana! Merda a todos nós! Que nos chafurdemos nela!</description>
            <link>http://bufonada.tipos.com.br/posts/2008/03/23/a-quinta-e-ultima-espero-merda-do-dia/</link>
        </item>
    </channel>
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