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        <title>Garrafas Virtuais</title>
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        <pubDate>Thu, 30 Oct 2008 20:51:17 -0300</pubDate>
        
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            <title>Não pare de cantar</title>
            <pubDate>Sun, 29 Jun 2008 02:51:22 -0300</pubDate>
            <description>Os vizinhos fazem barulho. Na sala, a cadeira vazia tem jeito de ausência. O frio anuncia geada. No zapear, a tv se reafirma péssima companhia. Não dá coragem, ir lá fora. Não há assunto para contar. Não há sapato que não aperte, rímel que não borre. Os olhares sempre brilhantes, os dentes sempre à mostra. Dormir num cobertor fofo parece tão melhor. Travesseiro entorpecente. O pijama feio veste bem. As pantufas de sapo não querem virar príncipe. A gatinha mia atenção, tem ciúme do computador. Dá sede. Como é que pode esquecer de tomar água. E de escrever. Ficar tanto tempo. Não ler os outros, que triste. Tem tanto amigo longe. Mesmo os do bairro. Faz falta, a boa gente. É pedir muito, ter princípios? Parece que é. Lá fora, a relativização. O gingado perverso da adaptação. O frio. A conveniência. O miado da gata e a festa dos vizinhos se somam aos barulhos de dentro. Mentira que essa gente iogue consegue não pensar. Até parece melancolia, mas nem é. A verdade é assim mesmo. Os dias são assim. Tem alguém cantando. Não dá pra identificar a música, mas é algo doce, de quem está bem. Poderia até ser uma cantiga de ninar.  Dormir já foi menos importante. Descer a Higienópolis de madrugada, sem medo. Que saudade. A neblina bonita, iluminada pelos prédios. A esperança que não cabia na JK. Mãos frias, coração quente. Olheiras, coração cansado. Cantiga de ninar, mais um crédito. Ainda há beleza. A despeito, sempre haverá. Boa noite.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2008/06/29/nao-pare-de-cantar/</link>
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            <title>Closer - perto demais?</title>
            <pubDate>Fri, 07 Dec 2007 15:39:06 -0200</pubDate>
            <description>&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20071207-closer.jpg" width="320" height="204" alt="Closer - Mike Nichols (2004)" title="Closer - Mike Nichols (2004)" /&gt;&lt;/div&gt;

Anteontem, assisti &lt;i&gt;Closer&lt;/i&gt;, na Globo. Já tinha visto antes, mas, dessa vez, o filme foi mais ferino comigo. Quando terminou, fiquei muito mal. E nem foi pela tradução ruim, ou pela voz de esquilo que colocaram na Natalie Portman.
Senti uma tristeza inexplicável, que, aos poucos, entre a dor e o sono, foi se revelando uma solidão imensa. Pensei, ou melhor, senti as lacunas que o desamor deixam. &lt;i&gt;Closer&lt;/i&gt; é um filme sobre o anti-amor, sobre a desconsideração, sobre a realidade pós-moderna dos relacionamentos pseudo-afetivos. Cutucou, sem dó, meu ceticismo. E checou minha real capacidade de amar e de ser amada - verdadeiramente.
Não tenho dúvidas que alguns conflitos permanecem em curso elaborativo durante o sono. Por isso, no dia seguinte, acordei cansada, mas um pouco mais tranqüila. E porque também, além de &lt;i&gt;Closer&lt;/i&gt;, há também o &lt;i&gt;Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança&lt;/i&gt;, o filme mais realista que já vi sobre o amor. O &lt;i&gt;Brilho&lt;/i&gt; não alimenta o delírio narcísico do ideal romântico. Mostra que o amor é finito e não é menos verdadeiro e válido por isso; ao contrário, admiti-lo assim o torna genuíno, honesto.
Ambos os filmes trazem, realisticamente, possibilidades distintas de vinculação. E o que eles me dizem em comum, subjetivamente falando, é que aquela solidão, você sabe, “aquela”, não haverá jamais alguém que acessará e dará conta. E tão somente porque é intrínseca à condição humana - por se saber incompleto e, mais assustadoramente, mortal. 
A solidão é o efeito colateral da racionalidade.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/12/07/closer-perto-demais/</link>
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            <title>A pirralha</title>
            <pubDate>Thu, 29 Nov 2007 11:30:23 -0200</pubDate>
            <description>&lt;i&gt;Betacaroteno&lt;/i&gt;. Essa palavra brota instantânea e obsessivamente toda vez que vejo cenoura no restaurante. E não consigo deixar de pegar. Cenoura, beterraba e verdura - imposições da boa nutrição. Estava na fila do self service, prato em punho, olhar fixo na cenoura ainda longe e pensando &lt;i&gt;betacaroteno&lt;/i&gt;, quando senti um tranco de leve nas costas. Olho para atrás e vejo uma menina com o braço quebrado. “Esbarrou o gesso sem querer”, pensei. Três segundos e um novo tranco. Constato que foi de propósito. Dou uma boa analisada no tipinho: uns dez anos, uniforme de escola, boné sujo de doce e virado para trás, avisando que não se tratava de uma delicada consumidora de barbies, mas de uma moleca daquelas que sobem em árvores e batem nos meninos folgados. Percebi que tinha pressa e que me empurrava com o gesso pra a fila andar mais rápido, julgado poder fazer isso de modo dissimulado. Que pirralha.
Considero-me bem dinâmica nessas filas. Já sei bem o que quero ou preciso e sou ágil com os pegadores de salada. No entanto, a ingratinha não me valorizava. Ficava me pressionando a cada três segundos, como se tivesse de comer para, em seguida, salvar o mundo. Ah, mexeu com meus brios. Regredi à infância e, em birra pura, passei a escolher mais demoradamente cada folha, cada fatia, cada grão. O gesso, então, passou a ser constante na minha lombar. “Se não aprendeu a ter modos e paciência em casa, aprende hoje comigo”, eu pensava, enquanto hesitava calmamente entre a lasanha e o rondele. Dispersamo-nos quando cada uma seguiu para um lado diferente das comidas mineiras.
Terminei de me servir e segui para a balança, quando vi que ela também ia, um pouco à minha frente. Nem pensei duas vezes: apertei o passo e a ultrapassei, deixando-a, de novo, esperando atrás de mim. Vitoriosa, pesei meu prato e tomei um bom lugar. Três mesas à frente, outras crianças com o mesmo uniforme já almoçavam. Vi que olhavam a pirralha (ainda na balança) e cochichavam sem parar. “Ela deve ser mesmo terrível”, concluí. Todos lá, falando dela. Pareciam até que tramavam algo. Esqueci o caso e comecei a comer, quando fui surpreendida por um esfuziante “Parabéns a você”. As crianças cantavam e batiam palmas com vigor, enquanto a pirralhinha chegava à mesa, toda envergonhada, sem saber o que fazer com o prato e a alegria. Poxa vida. Então era por isso, a pressa? Se eu soubesse, menina, cederia a vez e ainda bancaria a sobremesa. Em pensamento, dediquei um brinde com suco de laranja vitamina c. Felicidades, danadinha.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/11/29/a-pirralha/</link>
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            <title>Para que parem as segundas-feiras</title>
            <pubDate>Thu, 30 Oct 2008 20:33:26 -0300</pubDate>
            <description>Ao contrário do usual, não “escrevo para contar as novidades”; Justamente, venho te falar sobre a ausência delas. Minha vida tem sido uma sacana sucessão de segundas-feiras. Eu acordo, trabalho, corro, engulo a comida, as pessoas, corro de novo e durmo um pouco. Nos fins de semana, desmaio no sono em débito e permito que a cerveja me azede. Envelheço.
Veja só. Qualquer bom cristão e até mesmo eu e você acharíamos um absurdo que uma pessoa que tem emprego, teto e saúde fique se queixando. E, em termos pragmáticos, é mesmo. Acontece que, além da tristeza, existe também a não alegria. E o que eu faço com isso, meu caro? Deixe que eu mesma responda: ora rumino a resignação esperançosa, como quem aguarda a chuva passar; ora giro em parafuso, tentando vazar - em vão - o muro das lamentações. Hoje, estou assim, em espiral.
Em vez de enviar a você, publiquei esta carta aqui. Resolvi fazer desse jeito, porque carta publicada vira texto, texto vira ficção e ficção, quem sabe, vira apenas sincero fingimento, como o de Pessoa. Já reparou que algumas dores, quando passam, soam ridículas à lembrança?
Ah, mas talvez você nem leia. E, se ler, talvez não se importe muito, o que seria razoável. Descobri que, em Nova Guiné, pessoas com Aids são enterradas vivas. No Oriente Médio, mulheres estupradas são condenadas a chibatadas ou a morte. No Brasil, milhares de crianças são usados pela rede de tráfico e prostituição em escala progressiva. Absurdos são os meus tormentos frente a tudo isso. Pequenas são as minhas questões. Vergonhosas.
Por isso, sua compaixão não faria mesmo muito sentido e eu até me decepcionaria com sua impertinência. Preferiria que você me contasse uma piada boa, ou, indignado, reclamasse dos infortúnios do timão. De qualquer modo, com sua mão segurando a minha, eu pararia de girar e, contigo, seguiria em frente, mesmo que tão somente para a sucessão dos dias.

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            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/11/16/para-que-parem-as-segundas-feiras/</link>
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            <title> Saga de Dog - O Final</title>
            <pubDate>Thu, 30 Oct 2008 20:34:32 -0300</pubDate>
            <description>Caros leitores,
 
Escrevo para dar notícias de Dog, atendendo ao pedido de alguns e à minha ânsia em mostrar a rede de ajuda que se formou em torno do sofrimento &lt;a href="http://salome.tipos.com.br/?itemid=38815"&gt;deste cachorro&lt;/a&gt;.
A saga de Dog durou um mês, desde o seu atropelamento em 24 de julho.
Os primeiros esforços foram para tratar os ferimentos, que inspiravam cuidados especiais para não gerarem uma infecção generalizada.
Todo o tratamento foi realizado na casa dos rapazes, que abrigaram o Dog desde o acidente. Frazão, Bob e Guilherme se desdobraram para medicar, alimentar e reanimar o bicho, que se amuava numa tristeza sem fim. Fizeram além do esperado e do pedido. Nunca me pressionaram para resolver o problema e foram os melhores amigos do cão. Dúvidas? Veja abaixo:

&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20071002-meninos e dog barriga.jpg" width="270" height="250" alt="Camaradagem..." title="Camaradagem..." /&gt;&lt;/div&gt;

&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20071002-meninos e dog em pé.jpg" width="270" height="250" alt="...é o melhor remédio." title="...é o melhor remédio." /&gt;&lt;/div&gt;

Sempre que possível, eu, Pati A. e Pati F. passávamos lá para ver os ferimentos, buscá-lo para  os retornos da Dra. Cibele (Centro Integrado - Av. Maringá) ou simplesmente visitá-lo.
Cibele é a veterinária que o socorreu. Cobrou só os materiais, atendeu-o várias vezes, sempre no almoço ou depois das 18, horários que podíamos. Mobilizou outro veterinário, o Dr. Rodrigo, para uma segunda opinião sobre a pata dianteira, que perdeu definitivamente os movimentos. Enfim, encontramos uma clínica de medicina veterinária e solidariedade. 
Enquanto isso, eu e as Patrícias fazíamos contatos para conseguir um dono para o Doguinho. Várias tentativas frustradas e o tempo passando. Foi aí que entrou a Luciana, que, a despeito de nossas diferenças, encheu-se de compaixão, entrou no time e mobilizou ajuda deste e de outro mundo para curar e achar uma casa para o Dog.
Apesar da perda da pata, tentamos evitar a todo custo a amputação. Dog reagiu bem e este procedimento, até então, não foi necessário. A cicatrização foi muito bem sucedida e logo suspendemos os medicamentos e os curativos. Contudo, as alternativas de moradia foram se esgotando e nossa angústia aumentando. Por ser adulto, muito grande e com poucas possibilidades de defesa, sempre encontrávamos impedimentos com os que cogitavam abrigá-lo. 
Devolvê-lo às ruas era impensado e desgastá-lo numa feira de animais era vão; ninguém se interessaria por um adulto manco, com tantos filhotes disponíveis. Já não tínhamos chão. Estávamos prestes a transferi-lo para algum canil da ONG, onde acabaria confinado até, quem sabe, a sorte de um dia ser adotado, quando contamos com a compaixão definitiva de Tamye, a mãe de Pati A. .
Apesar de ela já ter duas cadelas e uma gata, resolveu abrigar o cachorrão em sua casa, em Presidente Prudente, SP. Esperou a folga do filho, que mora em São Paulo, para que viessem de carro buscar o nosso já tão amado bichão.
Dog é danado de inteligente e entendeu tudo. Em 24 de agosto, despediu-se dos meninos e de nós com tristeza, mas com muita calma. Seguiu para terras paulistas, encontrando lar definitivo.
Loucos por bichos, Tamye e seu esposo Valdomiro fizeram com que Dog se sentisse em casa rapidamente. Os outros bichos, a princípio, ficaram um pouco assustados, mas logo perceberam, após algumas lambidas e latidos amistosos, o quanto Dog é camarada.
Atualmente, Dog tem como hobbies correr latindo no portão com a sua amiga Ully para assustar transeuntes, abocanhar petiscos no ar (sem margem de erro) e esperar seus donos em paciente prontidão.
Manco e tudo, mostrou-se um eficiente cão de guarda. Rosna e avança como um lobo se algum estranho tenta invadir seus domínios.

&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20071002-pati pai mãe.jpg" width="250" height="260" alt="Família. Pena que faltou o Henrique." title="Família. Pena que faltou o Henrique." /&gt;&lt;/div&gt;

Enfim, Dog está muito feliz, minha gente. Ainda trata a pata que, por não senti-la, vive arrrastando ao chão, mas está bem. Tem dois donos apaixonados por ele, uma gata e duas cadelas como amigas (todos castrados, então vão ficar só na amizade, mesmo) e tudo que precisa para ser um cachorro saudável e feliz.
Muito obrigada a todos que deixaram comentários e aos que tinham a piada pronta e solidariamente não comentaram. A torcida e a compreensão de vocês  fizeram muita diferença.


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            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/10/02/saga-de-dog-o-final/</link>
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            <title>É nóis na fita, mano</title>
            <pubDate>Thu, 30 Oct 2008 20:35:24 -0300</pubDate>
            <description>Naquela época, era um tal de parente de funcionário morrer, que lá estávamos nós, eu e minha chefe, semanalmente, em velórios. Já sabíamos quais eram os melhores planos funerários e que floriculturas faziam as coroas mais bonitas.
Numa segunda-feira, fomos comunicadas de uma morte mais triste que as outras. O filho de dezesseis anos daquele funcionário antigo fora assassinado a tiros. O corpo seria velado na casa dele mesmo, porque pobre não tem dinheiro pra enfiar defunto em casa funerária.
Olhamos o endereço: bairro desconhecido. Nada que um mapa da cidade não resolvesse. O empregado de vinte anos de casa merecia a consideração. Fomos no carro da chefe, uma blazer preta lindíssima. “Vai que é rua de terra. Isso aqui anda em qualquer buraco”, orgulhou-se a superior.
Depois de um tanto andado, uma lonjura só, pedimos informação:
- O bairro Nossa Senhora da Paz  é ali pra cima?
- É sim, mas acho que as senhoras não deveriam ir, não.
Ficamos com um pouco de medo, mas já estávamos tão perto e esse preconceito todo com bairro de pobre. E o funcionário, coitado? Vinte anos...
Seguindo o caminho, avistamos uma indústria:
- Uma fábrica. O que é ali?
- Deixa eu ver (põe os óculos)... Vixe, é a Bratac!
- Bratac? Essa porra de bairro é a favela da Bratac?
- Cazzo. A gente tá de Blazer. E de scarpin, relógio, bolsa. E agora?
-Agora paciência, ué. Já estamos aqui mesmo, vamos até o fim.
Não foi difícil encontrar a rua do morto, toda cheia de gente. Sentados no meio-fio, uns guris com cara de planejamento fumavam maconha. Mulheres em entra-e-sai denunciavam a casa. Fomos logo dando pêsames pra todo mundo, por garantia. Alguém foi chamar o funcionário. “Seo Fulano! Tem umas moças da firma, aqui”.
Entramos na sala-funerária. Grandão, o menino. Parecia até mais velho. Tinha cara de bravo. Uma mocinha chorava feito louca, sob o consolo de duas outras. Usavam minissaias. Pensei na gafe das roupas e me achei estúpida na seqüência. As crianças brincavam e comiam algo que parecia bom. No fundo do quintal, os adultos bebiam pinga. Mas só ofereceram café pra gente (sacanagem). 
Finalmente, encontramos o funcionário. Triste, murcho de dor. Olhar no chão. Mas não chorava. 
- Sentimos muito mesmo, Seo Fulano. 
- Poxa, vocês vieram aqui. Muito obrigada, a firma é tão boa pra mim. Já deram café pra vocês?
- Já, já. Sabemos que não há dor pior que essa. Se precisar de alguma coisa, o senhor sabe que pode contar com a gente.
- Não vou precisar de nada, não. Os amigos do fulaninho vão dar um jeito nisso, vão acertar as contas com quem fez isso aí.
- (Caras de horror tentando naturalidade) Aaah, certo, certo. Mas  precisando viu, é só ligar. Olha, a gente precisa ir, o escritório tá sozinho.
- Tá certo. Obrigada, gente. Que bondade, vocês virem. 
Quase não conversamos pelo caminho de volta. Minha chefe fumou três cigarros.
- Já saímos do bairro, né?
- Ah, já.
- Vamos ligar o rádio?
- Opa.
- O que é isso?
- Acho que é Racionais.
- Putz. Desliga isso aí.

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            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/09/05/e-nois-na-fita-mano/</link>
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            <title>Transparente</title>
            <pubDate>Tue, 21 Aug 2007 11:22:29 -0300</pubDate>
            <description>Não é de propósito que fico invisível. Meu marketing pessoal é de terceira. Descuido do Orkut. Quase nunca vou ao happy hour. Não estou para o que der e vier. O grito do cão me dói mais que as lamúrias da gente que diz que quer mudar. Não peço explicações para aquele que desconsideradamente sumiu. O corretor do Word me avisa que não existe “desconsideradamente”. Quem dera. Fico sem o crédito de minha idéia. Deixa pra lá - de novo. Os carros não dão seta e ensaiam me atropelar. O baladeiro tromba em mim e não vê.  O moço ressurgido me olha intenso como antigamente e eu finjo não perceber porque antigamente é longe. A balconista vende pão queimado e eu como. Não me incluíram na vaquinha. Ver esses meninos de colares, que bebem long necks, faz eu me sentir imensamente só. Gabriel e Hilda comprovam o que eu não queria acreditar. Achei que fosse só comigo - trouxa. Eu ia dizer que é um paradoxo o ceticismo ser uma crença, mas as pessoas não gostam da minha filosofia barata. A panfletagem de direita me dá uma preguiça. E a de esquerda me dá desgosto. Quando as horas não passam no escritório, a boca fica amarga. O escritório não tem janelas. Espio lá fora pelo computador. Me escondo só um pouco na xícara de café. Essa gente burra me entristece. Mas há os cultos e eles são piores. Olhar blasé é tão cafona. É triste pia cheia de louça. Ponho tudo de molho pra não ressecar. Eu salvo o planeta, mas não conserto a torneira. Estou por fora das últimas bandas de rock. Tanta coisa velha ainda pra entender. Eu deveria escrever mais pra Ana. E pra Rose, também. Quando as pessoas vão embora, eu deixo de um jeito que não pode. Quando não chove, o nariz sangra e quando chove, o cabelo arma. Mas intempérie ruim mesmo é a do peito. Parecia infarto, mas era só gripe e aflição. Quando dói muito, eu ajudo o chuveiro a molhar o box. Depois passa, como sempre. O médico olhou meus exames e disse  - Sinto muito, mas não tenho boas notícias: a senhora vai viver pra sempre.  - Tem cura, doutor? - Não tem. Recomendo um macumbeiro.
Vou buscar uma segunda opinião, evidentemente.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/08/21/transparente/</link>
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            <title>Elvis não morreu... E está logo ali!</title>
            <pubDate>Thu, 30 Oct 2008 20:36:08 -0300</pubDate>
            <description>Recentemente, comentei no blog da &lt;a href="http://james.tipos.com.br/arquivo/2007/07/31/obituarios"&gt;Margo&lt;/a&gt; sobre essa mania do rock de tentar subverter o imutável: a morte. Citei duas crenças que considero as mais notórias e significativas: a primeira, que Paul McCartney  &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_McCartney"&gt;teria morrido&lt;/a&gt; num acidente automobilístico em 1969, sendo substituído pelo sósia Billy Shears.
Os próprios Beatles teriam deixado pistas em capas de discos e letras de músicas, segundo a lenda. Se fosse verdade, eu diria que foi uma grande troca, afinal, considero Paul - ou Billy - o melhor Beatle, seja por suas composições, seja pela melodia impecável de sua voz. Contudo, devo afirmar apenas que foi uma excelente estratégia de marketing de um grupo que desejava se manter num lugar mítico no cenário rocker mundial.
A segunda lenda, que caminha no sentido oposto da primeira, é a que Elvis Presley não teria morrido. O cantor, apontado por muitos como o pai do Rock (e rejeitado por tantos outros), morreu aos 42 anos, em virtude de sua péssima saúde e abuso sistemático de medicamentos. Um falecimento precoce e inaceitável para um mito, que, como tal, deveria estar imune às vicissitudes dos mortais.
Em negação à humanidade do Rei, surgiu a máxima “Elvis não morreu”, que tanto é usada para proclamar a extensão de sua obra, como para afirmar categoricamente que o astro estaria escondido em algum lugar do mundo, devido à sua comprometedora contribuição em investigações sobre o tráfico mundial de drogas.

&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20070808-elvis.jpg" width="230" height="175" alt="Eis o velhinho!" title="Eis o velhinho!" /&gt;&lt;/div&gt;
Pois agora, às vésperas do aniversário de 30 anos de sua morte (16 de agosto), fortes especulações indicam que o cantor estaria vivendo até hoje na Argentina, mais precisamente em &lt;a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u318295.shtml"&gt;Buenos Aires&lt;/a&gt;.
Agora, imagine comigo: suponha que você seja o cantor mais popular do planeta Terra, com sua imagem exaustivamente explorada, pois, além de ótimo intérprete, você também é sexy e lindo “de morrer”. Por ter resolvido colaborar com investigações perigosíssimas do FBI, você precisará abrir mão de toda sua glória e se refugiar em algum lugar onde, com improvável sorte, não será reconhecido. Que tal escolher o segundo país mais conhecido da América do Sul, precisamente sua capital federal, constantemente exposta aos olhos do mundo por conflitos políticos e força turística? Excelente idéia, não? Pois é... Há os que acreditam; e não são poucos. Campanhas na mídia, especialmente na confiabilíssima internet, têm ganhado força. 
Portanto, fique atento: se for passear na terra do tango, pode ser que você tenha a sorte de encontrar um velhinho muito charmoso, de voz estremecedora e requebrantes quadris.

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            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/08/08/elvis-nao-morreu-e-esta-logo-ali/</link>
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            <title>A saga de Dog</title>
            <pubDate>Thu, 30 Oct 2008 20:37:04 -0300</pubDate>
            <description>Parece que quando chove, é sempre na hora do almoço ou depois da seis. E o telefone sempre toca quando eu já estou com a bolsa em punho, morta de fome e prestes a perder o ônibus. Saí do escritório com pressa - quem sabe o motorista tenha dó de mim e pare fora do ponto. Também atravessando a rua, tinha uma cachorrada atrás da cadelinha. Passaram por baixo do caminhão parado, que resolveu sair. Um cachorrão gritou e voou espirrado numa pirueta. Caiu de costas, gritando, e foi atacado pelos falsos companheiros de orgia. Eu e um homem expulsamos os traíras e tiramos o cão do asfalto. Sangue, dor e aquela cara de tristeza viralatística acentuada. Os vizinhos se aproximaram e tentaram descobrir quem era o dono da vítima. Enquanto isso, eu tentava ligar para a ONG, para a veterinária, para deus e o diabo, sem sucesso. Um homem de caminhonete foi chamado para ver se o atropelado era seu. Não era. E eu, já sufocada de impotência, pedi ajuda pra ele. Pusemos o cachorro na traseira da caminhonete e começamos a via sacra. Corremos para a médica de minha gata. Enquanto isso, eu falava com uma mulher da tal ONG, que, com eufemismo e histeria, informou-me que eu teria que me foder sozinha.
&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20070802-dog 1.jpg" width="150" height="113" alt="Lindo..." title="Lindo..." /&gt;&lt;/div&gt;
Chegamos à clínica. “Não temos raio-x... Tem que levar para o HV”. E a merda da chuva só piorando. Liguei para a Pati, pra poder descompensar com alguém  e contei sobre a ONG. Ela ficou muito puta e disse que ia processar meia Londrina. Partimos para o hospital. Lonjura, uma espera secular para sermos atendidos e, finalmente, a resposta: “A ortopedia está em recesso”. Eu queria bater na médica, mas precisava ser prática e apenas pedi o endereço de alguma clínica com o maldito raio-x, que fosse próxima. Seguimos para o local, já passada uma hora e meia do acidente, e conseguimos atendimento para o cachorro cheio de água e resignação.
Chorei de novo, diante da veterinária. Louca, louca, louca. Fiquei com uma vergonha imensa. Pedi desculpas milhões de vezes, o que me fez parecer mais louca ainda. Contei toda a história e ela comunicou que só cobraria os materiais. Ficamos combinadas que eu deveria buscá-lo no fim da tarde.
Voltamos eu e o Carlos para o bairro (a essa altura, eu e o homem da caminhonete já éramos amigos). Comi uma esfirra para calibrar e contei o drama para os colegas. Pati me telefonou para ter notícias e ligou para meio mundo (inclusive para a mulher da ONG, com quem quebrou o pau), porque precisávamos encontrar um abrigo para o cachorro.
Depois das 18 horas, eu e ela fomos buscar o cão. Tínhamos encontrado um homem interessado no bicho. Dispensável contar que chovia. Descobri que meus braços doíam porque ele pesava quase 20 quilos, o que me informou a médica. Eu e ele nos ajeitamos no banco de trás do Ford Ka, deixando a comercial da Ana Hickmann no chinelo. Encaramos um belo rush para atravessar a cidade.
&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20070802-dog 2.jpg" width="150" height="113" alt="...porém triste." title="...porém triste." /&gt;&lt;/div&gt;
Chegamos à casa do homem, que viu o cão machucado (a perna não estava quebrada, mas ficou bem estropiada) e disse que não era com ele, que foi engano, algo como se bicho fosse objeto, que a gente verifica se tem defeito antes de comprar.
Indignadas e sem saber o que fazer (moramos em apertamentos de um quarto e temos gatos), começamos a ligar para todas as prováveis boas almas com espaço no quintal e no peito. Ninguém podia, ou queria, ou estava. A gente foi ficando nervosa e ele se manteve bonzinho e triste, com sua perna toda enfaixada.
Ligamos para a casa do Guilherme, que não estava, mas o Bob atendeu. Eu nem sou íntima do Bob, mas implorei mesmo assim e ele aceitou abrigar o cachorro, até que resolvêssemos o que fazer. Instalamos o bicho lá e fomos embora. Depois, por telefone, falei com o Guilherme, implorei de novo, mas nem precisava porque lá tem os dois espaços que procurávamos.
Desde então, estamos assim: Bob, Guilherme e Frazão cuidam do bicho, dão alimento, remédios e atenção, enquanto nós tentamos achar o dono antigo, ou um novo. Já espalhamos cartazes, divulgamos no jornal e anunciamos no Camargo. Para tanto, o Bob tirou umas fotos do cachorrão e salvou os arquivos com o nome “Dog”. Deste modo, ele ficou assim batizado.

&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20070802-do 3.jpg" width="150" height="113" alt="O melhor amigo do cão é a sorte." title="O melhor amigo do cão é a sorte." /&gt;&lt;/div&gt;
Se nada conseguirmos, Dog vai para uma fazenda, mas, para isso, precisa estar com os ferimentos cicatrizados. Provavelmente, ele não recuperará os movimentos de uma perna dianteira. Não dá para soltá-lo na rua novamente, porque ele é mansinho que só vendo e vai acabar se ferrando de novo. Apesar de queridíssimo e super bonitão (parece uma mistura de vira-lata com pastor e labrador), o fato de ser adulto e provável deficiente físico tem dificultado a conquista de um novo dono. Os meninos têm sido maravilhosos, mas já possuem outro cachorrão.
Por isso, este post enorme. Pra ver se você quer o Dog na sua casa e na sua vida. Ele tem ainda mais uns dias de antibióticos, mas eu pago. E não é por bondade. É que é impossível não amar o Dog.

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            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/08/02/a-saga-de-dog/</link>
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            <title>Sobre o medo</title>
            <pubDate>Mon, 23 Jul 2007 16:49:21 -0300</pubDate>
            <description>&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20070723-macaco.jpg" width="200" height="200" alt=""Auto-retrato com Macaco" (1938)" title=""Auto-retrato com Macaco" (1938)" /&gt;&lt;/div&gt;

&lt;div style="text-align: left"&gt;Talvez fosse fim de tarde, pelo jeito morno do céu. Caminhava sem pressa quando o assaltante apareceu (estranho chamar menino de assaltante). Ameacei fugir e ele me deu três tiros no rosto. “Pá! Pá! Pá!” - os estampidos secos. Tudo sumiu. Só restou a cor de abóbora de quando se fecha os olhos em banho de sol. Percebi que morria. Não havia tristeza, nem dor, nem nada. Somente a sensação de inexistir devagarzinho.
Passei dias pensando nesse sonho. Assusta a passagem de já se saber já morta, estando ainda viva. Tenho medo da dor do meu último olhar.

Saía da aula de musculação. O televisor instalado para os jogos do Pan mostrava o avião destruído. E não era sonho. Entre as chamas, o mesmo modelo de aeronave que alguém do meu sangue pilota. Escadaria até o telefone mais próximo, terror, desespero. Minutos infinitos até saber que não era o vôo de quem eu tanto amo. Em seguida, desolação pela matança culposa. Descobri que não me conformo. E que, sinceramente,  prefiro morrer a ver mortos os que amo. Custou a passar o choro. O medo não passará.

Vi a orquestra e o coro executando a nona sinfonia de Beethoven. O coração sempre palpita diante de tanta glória. Queria que a vida fosse este arroubo, mas... escute: só toca tango. Fúria,  doçura, solidão e  paixão se misturam no vai-e-vem das passadas longas. A melodia pede altivez, mesmo na tristeza. E eu tropeço, às vezes. Tenho horror ao vexame.

Frida Kahlo viveu pouco, mas viveu muito - você entende o que quero dizer. A primeira vez que vi uma obra sua, detestei. “Mulher esquisita... e esse macaco!”. Irritação diante do atordoamento. Insisti em conhecê-la - um interesse pelo bizarro - e me apaixonei pela sua força. Depois de dela, estão ridículos a autopiedade, a preguiça e os pudores frívolos. Os olhos de Frida me vigiam. Olhos cor de abóbora.&lt;/div&gt;</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/07/23/sobre-o-medo/</link>
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            <title>Bolo Formigueiro</title>
            <pubDate>Thu, 30 Oct 2008 20:38:01 -0300</pubDate>
            <description>&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20070613-tata.GIF" width="251" height="133" alt="Formigueiro? Eu recomendo." title="Formigueiro? Eu recomendo." /&gt;&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;/div&gt; 


&lt;div style="text-align: left"&gt;Bom chegar em casa e se lembrar: “ah, tem bolo formigueiro!”. É certo que o forno torto e a distração da cozinheira geraram uma massa disforme, com área semicrua na montanha e torrada na planície, mas, mesmo assim, bem gostosa, assegurada pelo &lt;i&gt;plus&lt;/i&gt; de brigadeiro.
Não fossem as formigas donas de cerebrinhos tão minúsculos e obstinados, eu teria a certeza do sarcasmo ao abrir a tampa do “formigueiro” e encontrá-lo cheio delas. Lá vai um bom tempo para chacoalhar a tigela e vê-las todas desesperadas, correndo de um lado para outro.
Formigas flagradas em alimentos sempre me lembram os filmes com bombas. Aquela correria desnorteada, fugindo-se de um perigo que não se sabe qual, nem de onde vem.
Há que se ter paciência para reorientá-las no caminho; bater as unhas aqui e acolá, até que elas se encaminhem para a saída do recipiente.
Na expulsão, é chegado o momento em que a multidão já foi embora ou morreu, mas não há convicção da total evacuação da área. Na verdade, é preciso admitir que um e outro insetinho, certamente, ficaram escondidos na massa fofa do bolo.
Eis então o momento de evocar a sabedoria popular e crer com veemência que formiga faz bem aos olhos. Afinal, alguém já viu tamanduá de óculos?

&lt;/div&gt;</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/06/13/bolo-formigueiro/</link>
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            <category />
            <title>Xuxu, Xuxuzinho</title>
            <pubDate>Wed, 06 Jun 2007 10:46:59 -0300</pubDate>
            <description>Naquele dia, fomos ao Valentino numa turma grande. Enquanto os amigos ficaram no salão, fui dar uma volta na casinha do bar. Uma turma de alunos que divulgava uma festa do curso de Medicina, tirou sarro em mim, de modo discreto o suficiente para não se comprometer, mas alto o bastante para me ferir. Fui até os futuros médicos o disse que tinha ouvido muito bem a piada e que eles envergonhavam a profissão que pretendiam seguir. Eles ficaram assustados e tentaram negar o ato, mas fui enfática e os adverti que não mexessem comigo, pois se dariam mal.
Minha atitude não me acalmou. Voltei trêmula para o salão, magoada com a maldade gratuita de pessoas que eu nem conhecia. Meus amigos perceberam e me pediram explicações. Contei o fato.
O Xuxu ficou muito bravo. Muito mesmo. Mais ofendido que eu, queria saber imediatamente quem eram os caras. Tentei tranqüilizá-lo, dizendo eu já tinha me defendido, mas ele não se acalmava: queria bater - sozinho - na turma toda. Tive que jurar que eu já estava ótima e que tê-los deixado assustados já fora mais do que suficiente.
Estou contando isso porque hoje é aniversário &lt;a href="http://unsleeper.tipos.com.br"&gt;dele&lt;/a&gt; e porque queria, de modo claro e público, demonstrar meu carinho por esse amigão, que se faz passar por namorado quando a gente quer evitar algum cara, que é obrigado a ouvir horas de conversa sobre moda e depilação e que admira, explicitamente, cada amiga.
Lembro-me da gente voltado a pé das festas, combinando os golpes que desferiríamos, caso algum bandido nos abordasse. “&lt;i&gt;A gente é grande; se o maluco não tiver um revólver, a gente desce o cacete!&lt;/i&gt;”.
Ele não é confiável com a divisão de trabalhos domésticos; a cada cem louças combinadas, lava duas. Também não dá pra bobear com cerveja na geladeira: ele bebe todas e ainda reclama que você comprou poucas. Contudo, quaisquer segredos, dos pequenos aos graves, podem ser entregues sem medo. Ele ouvirá, opinará, dará apoio e não comentará com ninguém.
O Xuxu é daqueles amigos que passa a noite inteira conversando quando a gente sofre uma desilusão amorosa,  fazendo a gente sentir que quem não nos quis é trouxa, mesmo que nem sempre seja assim.
Em seu último aniversário, não estivemos juntos. Tive um motivo importante para não ir e ele entendeu. O fato é que nem eu, nem ele, lembramos que motivo é esse. Velhice e álcool: a fórmula da amnésia. Este ano, quis o calendário que seu aniversário caísse à véspera de um feriado. Comemoraremos do jeito que ele gosta de estar conosco: bebendo, falando besteira, jogando sinuca, em uma noite sem pressa. Desta vez, não há motivos para não ir. Estarei lá e estarei sempre. Amnésias consomem fatos, mas não apagam os afetos.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/06/06/xuxu-xuxuzinho/</link>
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            <category />
            <title>Igual a tudo na vida</title>
            <pubDate>Wed, 16 May 2007 15:58:24 -0300</pubDate>
            <description>&lt;i&gt;Instruções:
1) este post dá continuidade à série "posts trocados" e é uma imitação da blogueira &lt;a href="http://marina.tipos.com.br/"&gt;Marina&lt;/a&gt;, querida por nove entre dez leitores (eu, inclusive).
2) para leitura, imaginem um fundo preto e letras brancas, por obséquio.&lt;/i&gt;
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Finalmente, chegou o frio. Não aguento aquele calor todo. Amo poder usar meus casacos quentinhos e não ficar grudada com o verão. Tem aquela minha amiga que adora me atormentar e, pra me contrariar, diz que prefere quando faz 40 graus. Só pra me infernizar mesmo, mas é dessas loucuras dela que eu gosto.
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O bom do frio também é que fica mais gostoso ainda a gente se reunir pra cozinhar. Ontem, fizemos cinco assadeiras de bolo recheado, dois rocamboles e três tigelas de quibe. Hoje, eu tô com uma azia danada. Será que é por isso?
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Esse fim de semana vai ser bem legal, apesar das provas do sábado. Alguém me explica a utilidade de se aprender equação do segundo grau?
Minha família vai se reunir. Aí é aquela bagunça. Gente rindo, gente berrando, gente falando besteira. Não tem coisa melhor na vida.

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Hoje eu acordei de mal humor, mas nada que umas risadas daquelas de doer a barriga e dançar um pouco de Blondie não resolvam.



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&lt;i&gt;Querida Marina, sua missão nesse mundo será fazer um texto a la &lt;a href="http://vaca.tipos.com.br/"&gt;Nicolai Putré&lt;/a&gt;. Hó!&lt;/i&gt;</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/05/16/igual-a-tudo-na-vida/</link>
        </item>

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            <category />
            <title>Tem gente</title>
            <pubDate>Tue, 08 May 2007 11:26:06 -0300</pubDate>
            <description>&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20070508-pensa.jpg" width="150" height="236" alt="O pensador, de Auguste Rodin" title="O pensador, de Auguste Rodin" /&gt;&lt;/div&gt;

Cotovelos nos joelhos, queixo nas mãos e olhos na parede. Sempre lembro de Rodin quando vou ao banheiro. Pela pose só, porque o pensamento é sem esforço, um cacoete de mente parada.  Examino os azulejos. Azuis, mal colocados, quebrados, o cimento borrado. Em sete anos, sempre a mesma análise dos azulejos. Eu não me acostumo a eles, nem às manias absurdas do escritório. O trinco, por exemplo, tem que estar bem fechado, senão Rodin é flagrada com as calças no chão.
Lembro-me do susto depois do almoço. Um barulho fofo perto de mim - “poft” - no ponto de ônibus. Algo caiu do céu. Pensei numa pomba (andam tão amaldiçoadas), mas era um passarinho. Azul brilhante, lindo. Morreu de olho aberto. Não teve tiro, não teve nada. Acho que infartou, enquanto voava. Jogo rápido. Minha nona morreu assim, vendo o enxoval que uma neta exibia na cama. -"Pega um copo d'água pra mim, Isabel, vai.".  Quando Isabel voltou, a avó morta, sem desesperos, feito passarinho.
E o cara que me contou que vai lutar horrores pelo amor dele? Eu sem saber o que dizer. Ele lá, se sentindo tão vivo e eu ia falar o quê? Que é uma grande cagada? É mesmo, mas e se ele não tentar? Amor não vivido cria bolor na mente e estraga tudo que tá perto, nada vinga. Olha ela, por exemplo. Os olhos vivem perdidos. Coração tantos anos em entulhos. Dois meses juntos e a ilusão se acabava. Aposto. A vivência faz faxina nas ilusões.
Joguei na mega-sena de novo. Acho um péssimo sinal. Quando eu era mais otimista, não jogava. Achava que a vida era premiada, que tudo daria certo. Não precisava ficar buscando luz em fim de túnel.
O trinco. Tem alguém tentando entrar. Porta fechada é gente dentro, poxa vida. Só uma retocada no batom, antes de sair. E aquela olhada no espelho. Preciso conferir meu bilhete. Já pensou, eu rica e aqui, com esses azulejos?</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/05/08/tem-gente/</link>
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            <title>Lugar de favelado é na favela</title>
            <pubDate>Fri, 04 May 2007 18:04:27 -0300</pubDate>
            <description>Hoje, o Superintendente regional do Incra deu uma &lt;a href="http://tvparanaense.rpc.com.br/?fe=1&amp;amp;pid=5&amp;amp;dt=04%2F05&amp;amp;pc=incra"&gt;entrevista&lt;/a&gt; às apresentadoras da 1a edição do Jornal Paraná TV (Globo), na qual explicava como estão os processos de assentamento no estado.
Inevitavelmente, as ações do MST foram questionadas pelas apresentadoras. Chamou-me a atenção uma pergunta delas sobre o trabalho de recrutamento de moradores urbanos (leia-se favelados) para ocupações do MST.
O superintendente, claramente um estudioso do assunto, explicou que as ações do MST não são ações do Incra e que é natural que grupos sociais modifiquem suas configurações, conforme o contexto. Disse ainda que ocupações ganham força com volume de pessoal, o que leva o MST a buscar essas alternativas. 
Decepcionou-me a postura das apresentadoras, que demonstravam clara indignação e insistiam na pergunta sobre a legitimidade do movimento, à medida que recruta pessoas nas cidades.
O superintendente  explicou ainda que as condições de acampamento são subumanas e que só os miseráveis recorrem a este caminho - o que não contentou as jornalistas(?).
Pois se o êxodo rural foi e é um dos grandes responsáveis pela miséria e pelo inchaço populacional urbanos, não seria adequado que as pessoas buscassem novas oportunidades no campo?
Fiquei bastante curiosa em saber que alternativas o telejornal apresenta para empregar milhares de favelados, já que o interesse pelo campo pareceu tão absurdo.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/05/04/lugar-de-favelado-e-na-favela/</link>
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            <title>Das cartas</title>
            <pubDate>Thu, 19 Apr 2007 11:06:09 -0300</pubDate>
            <description>Vixe, tanta coisa pra comentar contigo. Assuntos quentes. Amplas análises sobre a matança nos States e os mendigos escondidos no tapete que o Papa seda pura passará. Diria só pra te impressionar. Mas não quero falar disso, não. Quero mesmo é te contar dos meus dias, meus minguados dias. Tenho feito bastante exercício nos bíceps, pra eu acenar forte quando você aparecer. De vez em quando, eles doem. Os bíceps, os tríceps e o miocárdio. Meu cabelo cresceu tanto. As olheiras também. Tenho dormido muito nos fins de semana, até doer o pescoço. Meu corpo estranha o descanso. E o calor que faz aqui. Tá de matar de verdade. Essa aflição de geleira derretendo e as focas e o fim. Os cientistas não conseguem decidir  se ovo faz bem ou mal. Enquanto isso, adoro fritinho com a gema meio mole. E do café preto não abro mão, meia garrafa por dia. Nem dos amigos. Aqueles esquisitos com corações e fígados gigantes. Às vezes, bate um vento forte na persiana e a gata se assusta. Também assustam a britadeira da construção e o desafinado piano da vizinha. E o tempo passando. E a raiz do cabelo retocada a cada três semanas. E o amor que não vem. Tenho tido sorte com os banqueiros, andado longe do cheque especial. Extrato azul tem gosto de alforria. Não arrumei o guarda-roupa até hoje. Nem um tanto de sentimentos. A mente, uma bagunça. Bagunça organizada, mas eu tropeço numas coisas. Já te mostrei aquela música? Ainda bem que sobra tanta beleza. Sempre há o que se esperar. E eu espero. Sem mais.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/04/19/das-cartas/</link>
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            <title>Outro dia de fúria</title>
            <pubDate>Tue, 10 Apr 2007 10:17:52 -0300</pubDate>
            <description>Quando assistiu “Um dia de Fúria”, há tantos anos, teve a impressão que o filme profetizara seu destino. Agora, finalmente, era chegado o dia. Teve certeza disso quando foi ao banco riquíssimo-e-privadíssimo e encontrou, de novo, somente um caixa eletrônico funcionando para a fila enorme. Voltou para a casa.
No caminho, de ônibus, foi estapeando todo mundo que não dava lugar a velhinhos. Os idosos, apavorados, sentavam sem discutir. O cobrador  até quis rir, mas apanhou também, ao mandar o pessoal dar um passinho para trás.
Chegando em casa, pegou seu furgão carregado de munição, que vinha preparando durante todos esses anos de ultraje diário.
Voltou ao banco e entrou com o furgão mesmo, quebrando a frente pseudofuncional. Atirou em todos os caixas eletrônicos, causando pânico geral. Achou o gerente embaixo de uma escrivaninha e forçou-o a mastigar alguns envelopes de depósito.
Dirigiu-se, então, à prefeitura. Não foi difícil entrar no gabinete - nada é complicado com uma metralhadora em punho. Embaixo do braço, carregava um jornal, no qual o prefeito afirmava que a cidade estava bem cuidada. Fez o digníssimo mastigar e engolir a reportagem. Obrigou-o ainda a fazer um telefonema para o pessoal do marketing, ordenando a retirada imediata da campanha “os presentes da prefeitura estão por toda a cidade” e a troca pelo slogan “o pouco que fazemos, é com o seu dinheiro”.
Saindo da prefeitura, encontrou o Juarez da Tecnomania. Não pensou duas vezes: fê-lo mascar, na medida do possível, a maldita câmera digital que invade todos os seus programas preferidos na TV.
Acordou em sobressalto, com o despertador. O sonho agitado melou o corpo e os lençóis com suor. Ao sentar-se na cama, lembrou-se do relatório a ser entregue ao chefe. Passara boa parte da madrugada conferindo os cálculos. Recolheu a papelada e colocou na pasta. Já ia saindo, quando resolveu voltar e  pegar o velho 38, guardado no criado-mudo. Queria ter certeza que o chefe saborearia o relatório.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/04/10/outro-dia-de-furia/</link>
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            <title>Tão atrás, o caminhão de lixo</title>
            <pubDate>Thu, 30 Oct 2008 20:45:18 -0300</pubDate>
            <description>Há três anos, tão antes de pensar em escrever rotineiramente e aos olhos dos outros, Rodrigo Grota publicou, sem minha autorização, um &lt;a href="http://grota.tipos.com.br/arquivo/2004/01"&gt;texto meu&lt;/a&gt;. Veio raiva, depois vaidade e, depois ainda, a estranheza de quem nunca tinha se visto assim, tão exposta, apesar da autoria omitida.
O texto virou roteiro. Mais tarde, desvirou - o filme tomou outros rumos. Cheguei a ver a atriz, no vídeo, repetindo minhas palavras. Esquisito se ver, literalmente, no outro. Mas bom. Enfim, uma experiência que guardo com carinho.
Senti a necessidade de trazer "o caminhão" aqui pra casa, pra perto de mim. Agora com nome, sem autora jacu se escondendo.
Meu agradecimento ao Grota, que, de forma tão torta, confiou em mim e foi, em muito, responsável por me encorajar a escrever.
O texto está logo abaixo, no &lt;i&gt;read more&lt;/i&gt;:

</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/04/04/tao-atras-o-caminhao-de-lixo/</link>
        </item>

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            <title>Terror Noturno</title>
            <pubDate>Mon, 02 Apr 2007 15:08:31 -0300</pubDate>
            <description>&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20070402-escuridao.jpg" width="420" height="315" alt="Medo" title="Medo" /&gt;&lt;/div&gt;

De vez em quando, o medo invade o quarto gostoso, transformando o repouso sereno em filme de terror - e essa que escreve em menina de quatro anos.

É quando fica perigoso deixar os pés descobertos ou, pior que isso, flutuando pra fora da cama. 

Às vezes, é preciso que o corpo todo esteja bem coberto - cabeça incluída. Dá vontade de estender o braço e acender logo a luz, mas como?

Não adianta raciocinar. No momento do terror, parece mesmo que luz acesa espanta assombração, bandido e inseto.

E ninguém me avisa que lâmpada fluorescente pisca um tanto depois de apagada. Uma olhada de soslaio, duas... e a confirmação: ela está piscando sozinha, a luz do capeta.

Eventualmente, se mexer também é arriscado. Nem pensar em virar para o outro lado. Paralisia.

Pode piorar. É quando a gata corre pra cama de madrugada, tentando se esconder de alguma coisa. O que você viu, minha filha? Melhor não saber.

Cada barulho estranho: isso é vento ou gente andando? Ou é barata? Parece que é no quarto. Não, não, é barulho longe.

E quando é preciso buscar água ou fazer xixi, o apartamentinho vira uma mansão, o corredor que nunca termina. Esquisito, o luar entrando na sala. Olhar no espelho nesse escuro? Não mesmo.

É preciso dormir. Já é tão tarde... Vamos lá: um, dois, três, já! Pronto. Lâmpada acesa.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/04/02/terror-noturno/</link>
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            <title>Se joga, meu bem</title>
            <pubDate>Thu, 30 Oct 2008 20:50:29 -0300</pubDate>
            <description>&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/2280/20070322-parada.jpg" width="192" height="142" alt="nem tudo é festa" title="nem tudo é festa" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: center"&gt;&lt;a href="http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,2096071,00.html"&gt;&lt;i&gt;Volker Beck, deputado do partido verde alemão, foi agredido por supostos neonazistas em Moscou durante manifestação gay, em maio último&lt;/i&gt;.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;


Em meu último post, uma breve citação sobre a Parada do Orgulho Gay despertou dúvidas e posicionamentos contrários ao evento, o que, positivamente, me provocou a escrever sobre o assunto.

Não pretendo perder nosso tempo discutindo os preconceitos &lt;i&gt;a la &lt;/i&gt;TFP que o evento e a homossexualidade sofrem, mas sim a importância da Parada como efetivo movimento social de conquista de direitos.

A  Parada vem sendo criticada no Brasil e no mundo, por adquirir um caráter cada vez mais “hedonista” e menos “politizado”. Em São Paulo, onde o evento reúne anualmente 2,5 milhões de pessoas, entre participantes e curiosos (tem sentido dinâmico, dividi-los assim?), o que se vê cada vez mais é um desfile de vaidade e exibicionismo de travestis, drag queens, sapatões e bichas em geral.

A questão é: que mal há nisso? Por que gera tanto desconforto a purpurinização dos manifestantes? Já li e ouvi homossexuais se posicionando contra a Parada, porque a população “fica pensando que ser gay é &lt;i&gt;aquilo&lt;/i&gt;”. Ou seja, no cerne (inconsciente) do discurso, está uma condição: você até pode ser gay, desde que se comporte - quem não se "contém", desmoraliza “a classe”. Desnecessário explicar o quão agressiva é essa pasteurização do indivíduo homossexual.

A Parada do Orgulho Gay prefere trocar uma afetação por outra muito melhor. Abandona o estereótipo sisudo e nivelador das manifestações políticas e abraça, como expressão, a liberdade de ser e fazer o que bem entender - lembrando que de forma inofensiva. 

Caros bofes, prezadas amapôs: a Parada do Orgulho Gay não luta somente pelos direitos dos homossexuais, mas pela liberdade de todos nós, através da ruptura dos perversos padrões instituídos de comportamentos. 

Falta de enxada? Certamente. Mas, infelizmente, não é pela força do trabalho que os oprimidos têm, historicamente, conquistado respeito.
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            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/03/22/se-joga-meu-bem/</link>
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            <title>De passagem</title>
            <pubDate>Tue, 20 Mar 2007 10:18:59 -0300</pubDate>
            <description>As ciganas do calçadão não me abordam. Nunca. Laçam pelo braço todas as mulheres que passam, com a promessa de revelações em troca de cinco, dez reais ou mais, dependendo da fragilidade da transeunte. Contudo, posso estar formal ou casualmente vestida, fechada ou sorridente: as ciganas me evitam. Talvez percebam que eu não acredito nelas. Mas, se sabem disso, então é porque podem ver alguma coisa.


&lt;div style="text-align: center"&gt;&amp;&lt;/div&gt;


Outro dia, passei por dois mendigos que cantavam abraçados. Um deles olhou pra mim e disse:

- Que princesa! Pena que nunca vai ser minha... Eu, tão vagabundão, tão maloqueiro...

Segui em silêncio, mas senti uma forte vontade de responder: 

- Meu caro, entre a tua malandragem e a de alguns que passaram pela minha vida, só há diferença na autocrítica.


&lt;div style="text-align: center"&gt;&amp;&lt;/div&gt;

Um amigo do motorista entrou no ônibus, já brincando:

- Esse ônibus passa no Cinco Conjuntos, motorista?
- Depende, moço. O Cinco Conjuntos é muito grande!
- Vai no Lago do Cabrinha?
- Não, porque lá dentro a água é suja. A gente só passa em volta, serve?
- Serve!


&lt;div style="text-align: center"&gt;&amp;&lt;/div&gt;

O moço gay pára tudo que está fazendo. Avista uma moça que não vê há tempos, me parece. Dão-se um abraço cinematográfico, riem, se beijam. Transbordam a alegria do reencontro. Alguns homens que estavam parados por perto observam, expressando chacota e nojo. Nunca ficou tão claro pra mim o sentido da Parada do Orgulho Gay.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/03/20/de-passagem/</link>
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            <title>¡Baila, Dolores!</title>
            <pubDate>Thu, 30 Oct 2008 20:51:17 -0300</pubDate>
            <description>Dolores chegou em seu apartamento muito tarde. Trabalhava demais nos últimos tempos e sequer conseguia ver a novela. 

Carregava no peito uma agonia sem intermitências. Era uma  angústia sem nome, mas insistente. Deitou-se no sofá e procurou pensar no porque de sua amargura, enquanto seus olhos constatavam que o chão precisava ser varrido.

Não tinha um amor, seu emprego era tedioso, a família e os amigos sempre cheios de problemas...  Enfim, revirava mentalmente o arquivo de agruras e não encontrava nada de novo e sim as já envelhecidas e acomodadas insatisfações.

Queria chorar, tinha a garganta apertada, mas seu rosto permanecia seco e o peito congestionado em dor.
Levantou-se e foi mexer em sua caixa de cds. Queria ouvir algo bem triste, que fizesse fluir seu misterioso tormento.

Pensou em “Os pássaros”, do Amarante: &lt;i&gt;“...há um conflito, um nó, eu difuso enfim, os pássaros vêm...”&lt;/i&gt;. Encontrou um outro disco, que não conhecia, provavelmente esquecido por um amigo. Resolveu dar uma chance ao cd pirata sem nome, tal como sua dor.

Uma música latina com forte batida de rap e muita rumba inundou a sala com alegria destoante.

Dolores ouviu. Estranhou. Gostou. Segurou a saia imaginária e colocou seus quadris a serviço do ritmo, bancando &lt;i&gt;la caribeña&lt;/i&gt;. Os ombros iam e vinham freneticamente, enquanto os pés desenhavam o salão no chão sujo da sala. Jogava os cabelos pra frente e pra trás, sempre que a batida ordenava.

Deslizou rebolante até a cozinha. Fez coreografia de Shakira na pia lotada. O corpo subia e descia. Seus passos eram decididos - pobre vizinho do andar de baixo. Os braços passeavam pelo ar, ora flamencos, ora marginais com os trejeitos do rap.

O tronco perdeu os pudores e ganhou uma rosa no decote.  O sorriso malemolente se divertia com o calor da canção. Bailou até cansar, quando, enfim, tomou um banho e dormiu exausta.

- Não era chorar que te faltava, Dolores; era rir.

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            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/03/15/baila-dolores/</link>
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            <title>Homens de pouca fé, Deus falou comigo!</title>
            <pubDate>Tue, 06 Mar 2007 09:05:46 -0300</pubDate>
            <description>Senhores tipos, figuras e adjacentes,

É sabido que nosso deus, na qualidade de pré-socrático, passa pelas
vicissitudes de qualquer mortal.

A verdade é que, com a retirada dos anúncios google do tipos, o
golfinho de ouro teve que dar seus saltos em outras piscinas para
garantir a sardinha de cada dia.

O projeto "Gotas de Luxo", dada sua complexidade, precisa de uma maior
dedicação, não possível agora.

Assim, ficam algumas questões, a ser discutidas por nós:

- devemos retornar ao modo anterior (nucleus)?
- esperaremos (longo prazo) até que a reforma do cafofo fique pronta?
- retornaremos aos anúncios google para concentrar o trabalho do
golfinho por aqui?

Enfim, convido todos a darem suas opiniões, sugestões e críticas.

Amém.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/03/06/homens-de-pouca-fe-deus-falou-comigo/</link>
        </item>

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            <title>Sabá</title>
            <pubDate>Thu, 01 Mar 2007 18:22:15 -0300</pubDate>
            <description>Ê, moreno! Se não fossem os ventos discordantes das nossas rosas dos rumos, eu te levaria pra dançar na fogueira, porque fogueira é só o que me vem das lembranças de tuas breves paragens em torno de mim. Te conduziria numa dança insana, com véus da cor desses olhos estranhos que você tem. Ah, moreno, as montanhas são fracas, mas são verdadeiras. Há tanto pra andar, pra poder  te envolver nas saias que balançam com os ventos e com as músicas. Ouça a melodia. Ela quer ser dançada, ela sobe as montanhas, ela sobe as paredes, ela embola os ventos, ela é um tufão, moço.  Moreno, moreno... Os ventos são fortes. A música é longe. Mas ela toca sem parar. Um dia, o baile. Depois das montanhas.</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/03/01/saba/</link>
        </item>

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            <title>Bilhetes de suicidas</title>
            <pubDate>Mon, 26 Feb 2007 11:48:27 -0300</pubDate>
            <description>Do cinqüentão

Não faz diferença, agora. Só deixo esse bilhete para poupar a polícia de investigações inúteis com os michês ridículos que passaram por aqui. Não quero mais ver meu sêmen escorrer pela minha mão, enquanto minha barriga grande se contrai no mais humilhante prazer. Sou patético. É isso.



Do japonesinho (traduzido para o português)

Não consigo tirar notas boas. Já fiz de tudo e não passo dos 8,5. Estou muito envergonhado e não vou suportar a decepção de vocês. Sou um fracasso, a vergonha da família. Desculpe, papai e mamãe.



Do homem-bomba

Morro pela minha fé, pelo meu povo e pela minha dignidade. De nada vale estar vivo, se permanecermos presos pelos poderes malignos do Ocidente. Morro para alcançar a  liberdade. Que meus filhos se orgulhem de mim. Viva Alá!



Do apaixonado

Te amo tanto e você só me despreza. Minha vida não tem sentido sem você. Depois dessa, espero que a sua também não tenha, sua vadia.



Da moça

Ninguém nunca mais vai me usar. Estou cansada dos homens e das suas promessas não cumpridas. Vocês gostam da minha bunda, não é mesmo? Pois vou me jogar de costas. Quero que meu rabo seja a primeira coisa que se arrebente.



Do psicótico

O diabo não pára de me perseguir. Mas Jesus conversou comigo e vamos dar um jeito nisso. 



_______________________________________________________________




A Mais Bonita
Chico Buarque

Não, solidão, hoje não quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo
Eu preciso me mostrar
Bonita
Pra que os olhos do meu bem
Não olhem mais ninguém
Quando eu me revelar
Da forma mais bonita
Pra saber como levar todos
Os desejos que ele tem
Ao me ver passar
Bonita
Hoje eu arrasei
Na casa de espelhos
Espalho os meus rostos
E finjo que finjo que finjo
Que não sei</description>
            <link>http://salome.tipos.com.br/posts/2007/02/26/bilhetes-de-suicidas/</link>
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