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        <title>Falta de Enxada</title>
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        <pubDate>Sat, 21 Feb 2009 20:59:06 -0200</pubDate>
        
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            <title>Curso de Jornalismo a 40 reais</title>
            <pubDate>Sat, 21 Feb 2009 20:59:06 -0200</pubDate>
            <description>
Tá meio caro, mas vale a pena. &lt;a href="http://www.cursos24horas.com.br/cursos/jornalismo.asp"&gt;Aqui&lt;/a&gt;. 

Menção honrosa ao item pré-requisitos: "nenhum".</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2009/02/21/curso-de-jornalismo-a-40-reais/</link>
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            <title>&lt;b&gt;Some old pictures...&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Fri, 22 Aug 2008 18:33:35 -0300</pubDate>
            <description>Em 1960...

&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/33/20080822-1970.jpg" width="225" height="320" alt="Tanga. 1960." title="Tanga. 1960." /&gt;

Em 1978...

&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/33/20080822-1978.jpg" width="225" height="320" alt="Tanga. 1978." title="Tanga. 1978." /&gt;

Em sessenta e pouco...

&lt;img src="http://static.tipos.com.br/media/33/20080822-1960.jpg" width="225" height="320" alt="Tanga. 1960." title="Tanga. 1960." /&gt;</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2008/08/22/some-old-pictures/</link>
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            <title>Sexo no casamento...</title>
            <pubDate>Sat, 16 Aug 2008 16:55:00 -0300</pubDate>
            <description>... é incesto.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2008/08/16/sexo-no-casamento/</link>
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            <title>&lt;b&gt;Soneto da morte&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Tue, 15 Jul 2008 18:27:42 -0300</pubDate>
            <description>Na tenra idade eu não via tua imagem.
Se não te enxergava, não existias.
Hoje meu corpo tuas garras invadem
E sei que a mim faltam só alguns dias.

Mas... que é isto que me escurece a vista?
Mendaz, não eram dias! Só minutos...
Afasta-te. Permite que eu exista
Ao menos alguns instantes. Não muitos.

Sonegas-me o ar. És surda ao apelo
De quem, tal como ao ar, nunca te viu
E agora deseja manter-se cego.

Porém, teu rosto é nada, posso vê-lo.
Teu cheiro é triste, teu olhar é frio.
Arranca esta dor... e a ti eu me entrego.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2008/07/15/soneto-da-morte/</link>
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            <title>&lt;b&gt;Karaokê. Com pontuação&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Thu, 10 Jul 2008 12:07:06 -0300</pubDate>
            <description>Trabalhei durante três meses numa grande rede varejista de eletrodomésticos. Lembro-me muito bem do slogan: “Nós amamos você mais do que tudo”. Sim, esse “você” é você mesmo. Pode acreditar.

Mas o que me interessa no momento é relatar mais uma das vezes em que a voz estranha se manifestou dentro de mim. Essa voz, hoje relativamente controlada pelo cloridrato de venlafaxina, 75 mg, já me incomodou muito, talvez pelo fato de até hoje eu não saber se ela é minha. 

Foi numa sexta-feira, meio de tarde. Na entrada da loja, eu observava o movimento do calçadão e tentava arrumar a gravata que integrava o uniforme. O movimento estava fraco.

De repente entrou um homem irritantemente feliz, acompanhado de três pessoas. A esposa tinha rosto papudo, mas curiosamente o corpo lhe era grato. As tetas eram grandes, e não me abandona a memória a imagem de os bicos desafiando o tecido do sutiã e formando um relevo gostoso de ver e sentir. O filho, com seus oito ou nove anos, era desses moleques comuns e sem-graça, que não merecem atenção nem descrição. Já a filha... A filha talvez tivesse o dobro da idade do garoto. Poucas vezes vira eu um corpo tão apetitoso quanto aquele. Os peitinhos doloridos e o traseiro matematicamente delineado lhe davam todo o direito de ser antipática, como de fato era.

 – O senhor já foi atendido? –, perguntei ao pai, provável representante comercial de miliquinhentos por mês e detentor da minha comissão. A resposta negativa me deu o direito de atendê-lo. Afaguei o seu ombro, dando ao homem a impressão de que ele realmente era importante para a empresa. Ele não imaginava que, na verdade, era a filhinha nojenta e gostosa dele que eu amava mais do que tudo. E era a parte interna da coxa esquerda dela que eu afagava.

 – Procuro um karaokê –, disse-me o Eduardo, que naquele momento era o Senhor Eduardo. Confesso que, apesar de ter ouvido claramente a frase, solicitei-lhe educadamente que a repetisse, porque, de alguma forma, senti que não tivesse captado bem a informação. E ele, também educado, repetiu-a de forma perfeitamente audível. 

Disse-lhe que havia karaokês de várias marcas, a maioria com DVD integrado. Acompanhado da esposa e do filho – a garota se distraía com o mostruário de celulares –, o chefe de família acompanhou atentamente minhas explicações treinadas e, aparentemente, acreditou em todas as bobagens que disse com a finalidade de abocanhar os meus quinzão pela venda. Ele consultava a mulher e o filho, que demonstravam ansiedade em ter aquela máquina de diversão no lar e emitiam comentários incrivelmente ineptos sobre qual seria o melhor aparelho. O papai acatou. Escolheu a marca indicada pelos dois. 

Dirigimo-nos a um dos computadores da loja, no qual eu poderia, a pedido do Eduardo, consultar o preço do aparelho escolhido. Enquanto eu digitava o código do produto, logo após a imponente senha de acesso ao sistema, ouvi a pergunta:
 
 – Amigo, esse aí tem pontuação, né?

Tive a impressão de ter ouvido essa seqüência de palavras em &lt;i&gt;slow motion&lt;/i&gt;. Ela acordou de vez a voz estranha, que tanto me faz mal, com seus erres muito bem pronunciados ao final de cada palavra:
 
“Esse babaca quer um karaokê. Ele quer se divertir com a família. Ele quer se convencer de que pode se divertir ao lado da mulher, há muito tempo não desejada, e dos filhos, que comem o seu salário. Olha, posso vê-los agora... O babaca, de olhos fechados, canta ‘Yesterday’ ao microfone, enquanto parentes e amigos riem, cheios de alegria, de sua falta de habilidade. ‘Pára de judiar da música’, diz o cunhado, todo criativo. A diversão toma conta de todos. Eles se divertem com o karaokê. Não... agora o babaca está abraçado com a filhinha gostosa, que infelizmente ele vai ter de dar para os outros comerem. Os dois cantam e gargalham uma música sertaneja. Depois, conferem a pontuação, em cuja veracidade acreditam de forma inconteste. Meu Deus, eles querem um karaokê com pontuação. Eles querem se divertir. Eles querem rir da nota que a máquina criteriosa lhes dá. Eles querem se abraçar em frente à tevê, eles querem interagir, eles querem esquecer que estão vivos. Eles querem esquecer que a única certeza são os dois pedaços de algodão, um em cada narina, ao lado de muitas flores e sob o belo crucifixo. A única música dessa hora vai ser a entoação do terço, com um e outro choro ao fundo. E aí, qual vai ser a pontuação? Quer saber a pontuação agora? Hem? Hem?”.

– Sim, Seu Eduardo. É claro que tem pontuação! O senhor vai adorar.

E foram-se os quatro, felizes, com o karaokê na sacolinha. Olhei pela última vez o traseiro da filha do Seu Eduardo. Também olhei para mim mesmo. E me assustei.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2008/07/10/karaoke-com-pontuacao/</link>
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            <title>&lt;b&gt;Silêncio...&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Tue, 01 Jul 2008 00:32:05 -0300</pubDate>
            <description>O homem, com a experiência acumulada, resolveu tomar cuidado no último relacionamento, porque sabia que estava longe de ser o último. Não trouxe a mulher para casa, a fim de não associar cômodos e objetos a ela. Evitou pescoço e orelhas, já que o mesmo perfume poderia estar em efemeridades ulteriores. Mas o cuidado maior foi com os ouvidos: durante todo o tempo em que estiveram juntos, o homem simplesmente não ouviu música alguma, para que, quando tudo acabasse, nenhuma melodia sussurrasse o nome da mulher.

Hoje, ele não pode mais ficar em silêncio. O silêncio é ela.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2008/07/01/silencio/</link>
        </item>

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            <title>&lt;b&gt;Chupetonas de bico amarelo&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Tue, 24 Jun 2008 10:24:36 -0300</pubDate>
            <description>Hoje, no escritório de assuntos jurídicos da universidade, eu vi um molequinho lindo. Acompanhava a mãe, que provavelmente procurava pelo pai dele. Devia ter seus três anos. Talvez mais. Os olhinhos eram bem vivos e ficavam saracoteando por todos os lados daquele lugar diferente. Só não chegavam até mim.

Eu queria jogar um tchauzinho pra ele, mas o bichinho se importava muito mais com o vaivém do local, com as mesas, cadeiras e estagiários espalhados. Em dado momento, ameacei levantar a mão direita, porque achei que ele tivesse finalmente me dado atenção, mas era para o bebedouro, à minha esquerda, que olhava.

Perguntei-me por que eu queria tanto menear a mão àquele ser. Descobri, sem ter de cavar muito, que era por causa daquela chupetona atrás da qual ele estava. Sim, ele usava uma chupeta gigante de alguma marca pouco divulgada, com o bico amarelo de fábrica. Quem é pai conhece a lei das chupetas: o preço é inversamente proporcional ao tamanho da armação e à amarelidão do látex. 

Comecei a interpretar aquele indicador social. Crianças com chupetonas de bico amarelo geralmente têm pais pobres. (Na verdade, esse plural é pretensioso: crianças com chupetonas de bico amarelo raramente têm pai. Imagine pais!) Crianças com chupetonas de bico amarelo não comem bolachas recheadas quando querem. Crianças com chupetonas de bico amarelo não pedem pra ver o Dinossauro Barney, porque nem sabem que existem amiguinhos encantados além da tevê aberta. Crianças com chupetonas de bico amarelo choram muito, e ninguém limpa o ranho antes que seque e verdeie todo o entorno da boquinha, quando consegue atravessar a imponente orla de plástico. 

Nem o Papai Noel gosta das crianças com chupetonas de bico amarelo. Nem o Papai Noel.

A mãe do menino enxaguou o meu plano de dar e receber tchau. Pegou o filho pelo bracinho e puxou-o através de uns três metros de chão, até chegarem à escada, pela qual sumiram aos poucos. A criança, sacudindo a chupetona com chuchadas ainda mais fortes, simplesmente ia, conduzida pela mulher. Não tinha a mínima idéia de onde estava e de aonde ia. Também não sabia, nem vai saber, que na farmácia existem chupetinhas ortodônticas de silicone da Nuk.  

Descobri, então, o porquê de eu querer dar tchau àquele garoto. Eu queria, na verdade, que os dois, ele e a chupetona de bico amarelo, saíssem de perto de mim.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2008/06/24/chupetonas-de-bico-amarelo/</link>
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            <title>&lt;b&gt;Paixão&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Fri, 30 May 2008 03:48:58 -0300</pubDate>
            <description>A paixão é uma ilusão

Que se elimina na urina.

É só esperar e sarar.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2008/05/30/paixao/</link>
        </item>

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            <category />
            <title>&lt;b&gt;Concreto&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Mon, 21 Apr 2008 00:38:06 -0300</pubDate>
            <description>Gado. 

Sempre gado.

Sem prega. 

Pregado.

Empregado.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2008/04/21/concreto/</link>
        </item>

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            <title>&lt;b&gt;Elevando-me com a sabedoria&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Tue, 22 Jan 2008 19:54:54 -0200</pubDate>
            <description>Hoje tive o prazer de compartilhar o elevador com um sábio. Somente três andares me separavam do térreo, o que, infelizmente, tornou exíguo o tempo ao lado do homem. Mas enganam-se os que subordinam a sabedoria às garras dos minutos, ou dos segundos. Uma inesquecível demonstração de inteligência necessita somente de um átimo.

O avatar estava acompanhado do filho adolescente. Este, olhando-se ao espelho do elevador, numa jovial atitude de distração, disse ao pai que estava pensando em entrar na escola de circo. O mestre, que o tempo todo olhava para baixo, disse:

 - Ahã. Vai, sim. 

O garoto, então, pôs-se a argumentar. Disse que achava lindas aquelas apresentações circenses com tecidos. E, antes mesmo que minha imaginação me brindasse com as imagens propostas pelo menino, meus ouvidos me presentearam com a mágica daquele malabarista do saber, daquele verdadeiro Beto Carrero, prestes a salvar o filho das nefastas garras da ausência de enxada:

 - Ahã. Vai, sim.

Não tenho o dom de traduzir a língua dos anjos, mas ouvi as duas respostas deste modo: “Vai carpir o canteiro central da Rio Branco, meu filho”; “Vai colher manga em Medianeira, meu filho”.

Vi morrer um palhaço, antes mesmo de nascer.

É o meu andar. Uma boa tarde.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2008/01/22/elevando-me-com-a-sabedoria/</link>
        </item>

        <item>
            <category />
            <title>&lt;b&gt;Post à Grota&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Mon, 21 Jan 2008 20:14:14 -0200</pubDate>
            <description>yesterday she was beautiful. the moon light showed me her magnificent face.

sadness. love. that’s the same thing.

***

Mostra de Curtas da Kinoarte…</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2008/01/21/post-a-grota/</link>
        </item>

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            <title>&lt;b&gt;Pensamentos desconexos&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Wed, 02 Jan 2008 01:17:21 -0200</pubDate>
            <description>Eu não agüento mais essas apresentações de taiko (ou taikô?). É só ligar a televisão para ver a japonesada espancando tambores, gritando e erguendo sincronicamente as baquetas. Com todo o respeito à tradição, assistir uma, duas, até três vezes pode ser interessante. Mas todo dia, como querem alguns canais de televisão que eu faça, nem o Seu Miyagi agüentaria.

***

Algo me diz que, na madrugada da virada de ano, alguma macumba foi feita no Rio e em Salvador. Será?

***

Aqui em Londrina o espetáculo pirotécnico me surpreendeu. Foram dois rojões e vinte segundos do mais puro traque. O Nedson deveria pensar em atrair mais turistas para o próximo fim de ano.

***

Ontem, em conversa telefônica com o Maurício, disse-lhe que não entendo o motivo pelo qual um adulto compra fogos de artifício. Quando eu era moleque, tinha muito prazer em estourar latinhas de refrigerante, recipientes plásticos e seres vivos dotados de exoesqueleto quitinoso. Mas, já aos 16 anos, comecei a me sentir idiota ao usar esses artefatos. Deve haver algum componente fálico no ato de usá-los: quanto mais imponente a explosão, mais potente quem a promoveu. Deve ser algo semelhante ao que move um e outro pelintra a fazer empréstimo a juro para equipar o chevete com um sonzão nervoso e socar o bicho no chão. Talvez a Psicologia explique assim, mas na minha visão a relação é mais simples: quanto mais incômodo o estouro, menos desenvolvida a mente de quem o causou.

***

Além do adulto amante de fogos, amedronta-me outro tipo de gente: a fã que, na primeira fila do show de seu ídolo, olha-o chorando, em catarse, e canta-dança sem erro as suas letras, com a cabeça envolta por uma faixa com o nome do “artista”. O pior é que sempre alguma câmera capta essa imagem e joga-a em nossas casas. Vi uma porção delas ontem no deprimente Show da Virada da Globo, que fui obrigado a tolerar durante cinco minutos. Virou o estômago.

***

Estudar para concurso, ninguém quer. Trabalhar no xerox da universidade, também não. Passar a noite do dia primeiro fazendo dogão especial com bacon no lanche do Moacir, muito menos. Memorizar letras de axé e cantá-las abraçadinho com os amigos cheios de abadás, todo o mundo quer. 

***

Registro aqui uma construção inédita na história da lusofonia: “Eu não ‘escuti’ nada”, disse-me ontem um senhor que tem toda a minha simpatia. Está certo ele, oras! Se os pares bato/bati, como/comi e bebo/bebi estão certos, quem vai convencer a mente humana de que escuto/escuti não está? E viva a regularidade verbal!

***

Tenho ouvido algumas pessoas reclamarem do sucesso alheio com a seguinte frase: “O cara é um idiota, mas tem dinheiro pra caramba”. Mais adequado seria dizer que o cara tem dinheiro pra caramba “porque” é um idiota. A relação é causal, e não adversativa. Um colega de Direito está certíssimo: “Estudar pra quê? Pra morrer sabido?”.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2008/01/02/pensamentos-desconexos_3/</link>
        </item>

        <item>
            <category />
            <title>&lt;b&gt;Previsões jornalísticas para 2008&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Mon, 31 Dec 2007 11:01:29 -0200</pubDate>
            <description>No último dia de 2007, nada melhor do que algumas previsões para o ano que se inicia. A princípio, achei melhor evitar demonstrações prosaicas de meu dom, mas cheguei à conclusão de que não seria justo usufruí-lo sozinho. 

Nesta oportunidade, ater-me-ei à área que talvez abrigue os mais inventivos profissionais do país: o jornalismo. 

O Globo Repórter exibirá programas arrebatadores em 2008. Assuntos (leiam-se com a voz vagarosa de Sérgio Chapelin): “O cérebro humano: uma máquina perfeita?”; “Sucesso profissional: conheça a faxineira milionária de Taubaté”; “Os mistérios dos gêmeos: nossos repórteres visitaram a cidade brasileira com o maior número deles”; “Amazônia: você vai ver cenas inéditas do macaco-grampo”; “Os segredos da boa alimentação: conheça a verdura que cura todas as doenças”; “Ciúme: o que está por trás desse sentimento? Você é uma pessoa ciumenta? Faça o teste e descubra”.

Falando agora do telejornalismo de maneira geral, vejo com nitidez todas as matérias inéditas de 2008. Aliás, posso até ouvir as frases de cada reportagem: “Exatamente à meia-noite e um, nasceu o primeiro londrinense do ano”; “O que fazer com as crianças no período de férias escolares?” (essa, especificamente, virá da boca risonha da Sandra Annenberg); “Termina amanhã o prazo para a declaração do imposto de renda. Confira as novas regras”; “As mulheres provaram que, de sexo frágil, não têm nada. Mas tudo isso sem perder a vaidade” (essa aqui vai ser ilustrada por imagens de uma delegada de polícia maquiando-se diante de um espelho); “Na primeira semana sem a CPMF, descubra o que a nova situação muda no seu bolso”; “O Dia das Mães é a segunda data mais importante para o comércio, perdendo somente para o Natal”. 

Algumas me chegam com espertos trocadilhos: “E o verão aquece também a economia”; “Mas o maior obstáculo que os deficientes têm que enfrentar é o preconceito”; “Com o aumento da produção de ovos de chocolate, a Páscoa vai ser doce para o comércio”.

Et coetera, et coetera, et coetera...

De carona na criatividade jornalística, finalizo desejando a todos um feliz ano novo, com muita paz, saúde e alegria.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/12/31/previsoes-jornalisticas-para-2008/</link>
        </item>

        <item>
            <category />
            <title>&lt;b&gt;A queda&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Sun, 23 Dec 2007 11:04:45 -0200</pubDate>
            <description>Tive pena do menino de ontem. Não sei ao certo quantos anos ele tem, porque a pele jovem, o cabelo escuro e a roupa preta de roque pauleira contrastavam com uma barba macha que escurecia boa parte do rosto. Mas isso não é importante.

O que realmente importa neste momento é o tombo que vi ele tomar na Rua Goiás, quase esquina com a Paranaguá. Sisudo, subia rápido, olhando toda a vida para baixo, talvez se concentrando na música dos fones de ouvido – provavelmente a anunciada pela camiseta. Toda a atenção dedicada ao solo não bastou para evitar que o pé direito, na indolência de não subir o necessário, topasse com um bolo de calçada e raiz de árvore, ocasionando a queda burlesca.

Foi queda mesmo. No meu sistema de avaliação, ocorre uma quando pelo menos os dois membros superiores e um inferior tocam o chão. E o rapaz, coitado, se estatelou. Se a gravidade é lei, posso dizer que eu não estava diante de um infrator. Foi o corpo inteiro ao chão, logo após uma tentativa, tão patética quanto o tombo em si, de manter-se em pé, apressando os passos e esticando os braços para tentar alcançar não sei o quê. Compuseram essa corridinha pré-queda, pela minha conta, uns cinco passos esperançosos.

Coitado... quando caiu em si, já estava caído.

Ele se levantou, bateu o sangue e a areia dos joelhos e continuou a andar. Mais prudente, imagino. Não olhou para o lado nem para trás, onde este narrador estava. Evitou achar risos. Simplesmente seguiu pela Goiás.

Faço questão de dizer ao garoto do tombo ridículo que, nesta boca, ao contrário da de uma japonesa que passava de carro, não se viu sequer um sorriso. Nada. No máximo, uma contração labial de constrangimento – como aquela que se faz com o lábio de baixo empurrando o de cima quando a pessoa ao lado diz que a vida é complicada.

Não, menino cadente. Em vez do meu escárnio, receba a minha admiração. Que aos tombos, por mais humilhantes que sejam, eu reaja com a mesma sensatez que vi ontem em você. Se um dia o chão me convocar, já sei em quem vou pensar para ganhar força.

Continuamos pela Goiás, moço. Até o último tombo.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/12/23/a-queda/</link>
        </item>

        <item>
            <category />
            <title>&lt;b&gt;Um sorriso...&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Fri, 21 Dec 2007 02:45:59 -0200</pubDate>
            <description>O sorriso que eu vi era tão belo que acabei cedendo à injustiça. Mal reparei nos olhos amendoados que o encimavam. Pouco me apercebi da voz que ele alegrava.

O sorriso que eu vi era simples, mas complexamente simples. Simples como a nuvem rosa da noite suja. Simples como a chuvinha metida que, com suas raspas de nuvem, atravessa um sol educado. Simples como o chantilly que dança logo cedo sobre o lago frio.

A esse sorriso, que me saciou em única apresentação, dedico estas simples palavras.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/12/21/um-sorriso/</link>
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            <title>&lt;b&gt;O casamento de Rosângela e Briguet&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Sat, 10 Nov 2007 13:31:48 -0200</pubDate>
            <description>Ontem o nosso amigo Paulo Briguet se casou. Registro aqui algumas impressões.

Tive a imerecida honra de ser padrinho. O convite me foi de importância inusual, uma vez que não se trata simplesmente de um grande amigo: foi um ídolo que apadrinhei.

Briguet era suor. À porta da igreja, antes de a noiva chegar, lá estava o lenço, viajando pelo testão encharcado. No altar, ao lado da bela e doce Rosângela, de dois em dois minutos o mesmo lenço, cada vez menos funcional, tentava secar aquilo tudo, com variações para a nuca e para as orelhas, que vertiam com abundância similar. Água mais insistente do que essa, só a que despencava do céu lá fora.

Não era à toa que o nosso irmão Briguet estava imerso em emoção. Quem o conhece sabe da devoção pela sua Rô, e esse sentimento foi tão evidente no decorrer da cerimônia que talvez nem a poesia, uma das segundas paixões de sua vida, o expressaria com o mesmo sucesso que aquelas gotas transparentes.

Confesso que nunca o vi tão emocionado. Confesso que nunca vi um homem olhar com tanto afeto para uma mulher. O Briguet é um desses cavalheiros que não mais existem, mas tal virtude alcançou ontem níveis jamais vistos. Enquanto ele repetia, com a voz perturbada pela emoção, as frases sacramentais proferidas pelo padre, seus olhos garantiam que cada uma delas, antes de dita, era sentida. Também não vou esquecer o cuidado com que conduziu a esposa ao chão, segurando-lhe a mão no momento de ajoelhar-se e rezar, bem como o amor com que beijou a aliança recém-abençoada pelo sacerdote. 

Aliás, todos torceram para que o noivo não fosse conduzido ao chão pelo nervosismo, que o meneava vez em quando. Aqueles degraus preocupavam.

Não consigo descrever as expressões faciais que ilustravam todo esse carinho. Mas, para quem conhece o Paulo Briguet, posso dizer que aquela cara de educado de quando faz ou recebe um elogio esteve presente na maior parte do tempo, oscilando entre o sorriso e o choro nem sempre contido. Os olhos, mais sentindo do que vendo, fecharam-se em boa parte da celebração, o que se exigia pelas gotas que venciam as sobrancelhas e, principalmente, pela concentração com que o noivo vivenciava cada instante do momento. 

(Em meio a tanta emoção, uma frieza briguetiana: numa das frases ditadas pelo padre, ele mudou a segunda pessoa do imperativo do verbo “receber” para a terceira. Gramaticalmente, a opção mais segura, sem dúvida.)

Depois de tanta emoção e água, eu gostaria de dizer algo ao mais novo casal. Paulo Briguet, seus amigos o amamos. A sua felicidade, que ontem se consagrou, é a nossa. Rosângela, recebe (ou “receba”, como diria o teu marido) todo o carinho e respeito de quem, agora mais do que nunca, os vê como um. Que a felicidade de ontem não passe de uma simples amostra da de amanhã.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/11/10/o-casamento-de-rosangela-e-briguet/</link>
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            <title>&lt;b&gt;Laranja mecânica&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Sat, 28 Jul 2007 00:30:52 -0300</pubDate>
            <description>Acabei de ver no Jornal da Globo um exemplo fantástico de sistema prisional (Cebu Provincial Detention and Rehabilitation Center, nas Filipinas). Isto sim é manter os criminosos sob controle.

Menção honrosa à mocinha calva do clipe.

&lt;object width="425" height="350"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/hMnk7lh9M3o"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="wmode" value="transparent"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/hMnk7lh9M3o" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="350"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/07/28/laranja-mecanica/</link>
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            <title>&lt;b&gt;O pecado da Igreja&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Fri, 27 Jul 2007 19:09:32 -0300</pubDate>
            <description>Ontem, em mais uma sensacional QSL, surgiram vários papos falta-de-enxada: aplicação retroativa de normas jurídicas, genialidade de estadistas e declarações infelizes da Igreja. O terceiro desses temas gerou bastante discórdia entre os fráteres. 

Falou-se que não há problema algum em o Papa dizer que o catolicismo é a única religião de Cristo, por ser óbvio que o alemão, representante máximo da Santa Sé, pense isso. Eu, católico convicto, discordei, alegando que, diante da assertiva papal, só se podem esperar reações hostis por parte de outras religiões e uma rotulação ainda mais antipática da Igreja, o que demonstra, no mínimo, uma postura política equivocada de Bento XVI. Ou, melhor dizendo, uma postura pouco política.

Se é obviedade cristalina que o Papa considera o catolicismo a única religião de Jesus, para que dizê-lo? Ora, o Presidente do Irã não simpatiza com Israel, e não é por isso que ele sai por aí falando que aquele Estado deveria ser varrido do mapa. 

Hoje, mais uma asneira de quem representa a Igreja. Li no site do UOL a seguinte declaração de Georg Gaenswein, secretário pessoal de Bento XVI: “Não podemos negar as tentativas do islamismo de se estender pelo Ocidente e não deveríamos ser muito compreensivos a ponto de não ver que isso ameaça a identidade da Europa”.

Baseado nos conselhos do bom senso, eu diria que esse é o tipo de coisa que não se deve falar nem num ebrioso colóquio no Bar Brasil. A única identidade ameaçada nessa história é a da própria Igreja. E é justamente por ela não ser muito compreensiva que as outras religiões – principalmente as não-islâmicas – se estendem pela Europa e pelo mundo.

Fica um toque a Sua Reverendíssima Gaenswein: seja mais compreensivo e não ameace ainda mais a minha religião. Vamos rezar para que pouca gente leia o seu conselho.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/07/27/o-pecado-da-igreja/</link>
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            <title>Estou cheio</title>
            <pubDate>Sun, 22 Jul 2007 00:30:01 -0300</pubDate>
            <description>O mundo, definitivamente, não é dos gordos. 

Nesta semana assisti a duas propagandas de tevê que me reforçaram tal idéia, se é que uma verdade inconteste necessita de qualquer confirmação. Numa delas – a de uma operadora de telefonia –, aparecem várias pessoas uniformizadas representando as odiosas empresas concorrentes, que, ao contrário da que protagoniza o comercial, impõem aos usuários o bloqueio dos celulares. Todos os atores eram gordos. Noutra, desta vez de cerveja, uma figura detestável, na maior empolgação, começa a dançar entre várias gostosas sobre o balcão de um bar, até que o garçom, consternado, o adverte intertextualmente: “Desce, redondo!”. O vocativo torna cristalina a imagem do pelintra: um gordo. Um gordo safado.

Num jogo de handebol do Pan, mais um pesado golpe. Um dos jogadores do time estrangeiro, de cuja nacionalidade não me lembro, foi a sensação da torcida. Destreza? Não. Carisma? Também não. Gordura? Bingo! “Orlando” era o nome do gordinho nédio, que fez a alegria da galera. Ver as suas banhas menearem a cada trotar, ao lado da rigidez dos corpos torneados que se esperam de qualquer esportista, foi uma diversão a mais para os presentes, inclusive para a imprensa, que, é claro, explorou o fato e a esquálida dignidade do atleta. Baixo e obeso, Orlando balouçava e suava pela quadra esportiva, enquanto os torcedores, com uma simpática e quase imperceptível ironia, entoavam o seu nome. Marcou um gol, sarcasticamente comemorado.

Ser gordo é isso. É também lutar contra a camiseta que se aloja entre as tetas e a barriga quando o vento vem de encontro. É, na brincadeira suicida, antecipar a humilhação contra si mesmo antes que outrem o faça. É ser simpático por necessidade, e não por virtude. É estar com gripe no dia de sol à piscina para que ninguém ouse sugerir o impensável: tirar a camiseta. É olhar solitário para o espelho risonho do banheiro e ver-se envolto por uma teia branca de estrias. É ser o suspeito universal dos peidos, independentemente de quantos intestinos estejam a trabalhar no recinto.

Ser gordo é morrer cedo.

O gordo é visto pela sociedade como um deficiente físico, mas a ele não se lhe conferem as vantagens que a tal categoria usualmente se atribuem. Não há filas preferenciais para gordos. Tampouco prioridade para sentar nos ônibus (aliás, que são aquelas roletas?). E reserva de vagas em concursos públicos? Há-a para os outros deficientes, para os negros pobres, para os pobres negros, mas para os obesos não. Também faltam manifestações de apoio. Os gays têm uma parada, mas os gordos... Talvez a parada gorda seria parada demais.

(Sei que o desabafo está enfadonho, mas não repare. Só quero tirar um peso de dentro de mim.) 

Peça-me que invista agora todo o meu pouco dinheiro em ações da TAM, e o farei. Só não exija de mim nestas últimas linhas um sorriso sincero. O impossível é como nós, gordos: cheio de limites.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/07/22/estou-cheio/</link>
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            <title>&lt;b&gt;O nome do meu Amor&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Thu, 26 Apr 2007 16:26:48 -0300</pubDate>
            <description>&lt;i&gt;Para a minha filha, eterno e verdadeiro amor&lt;/i&gt;&lt;div style="text-align: right"&gt;&lt;/div&gt;

Pensei em chamá-la de “florzinha”, Gigi. O epíteto é bonito, mas inadequado. Flores caem, e o papai jamais a deixaria cair.

“Docinho”, que soa tão bem, quase me ganhou. Contudo, a alegria que um doce traz é tão volátil que, quando menos esperei, a palavra nem estava mais aqui. Esta felicidade constante que você me causa merece nome mais justo.

Também me veio “princesa”. Só que daqui a pouco tempo você vai descobrir a quantas castas o seu papai está de um rei. Nestas veias não há nada azul; somente um sangue vermelho, que tanto me orgulha por ser do seu. 

Inclinei-me a chamá-la de “meu amor”. Mas percebi que nesse nem um metro que você é seria inimaginável, mesmo na sua fantasia, caber algo que não conhece fim.

Descobri, então, que é melhor não chamá-la de nada. É melhor simplesmente amá-la. Deste jeito inominável.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/04/26/o-nome-do-meu-amor/</link>
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            <title>&lt;b&gt;O balão laranja&lt;/b&gt;</title>
            <pubDate>Thu, 19 Apr 2007 16:18:31 -0300</pubDate>
            <description>Quando acordei hoje, senti-me como aquele bombom de banana da antiga caixa da Garoto: embrulhado e dispensável. Uma sensação de desprezo, vinda dos outros e de mim.  Só acordei porque não tive opção. 

No elevador, em plenas seis horas e meia de uma madrugada indolente, precisei cumprimentar quatro pessoas. O elevador parou três vezes para recebê-las. Minha cabeça, inclinada para baixo, demonstrava a vontade com que eu interagia. A mesma com a qual escovara os dentes. Foi melhor, de fato, os olhos caírem.

O carro me levava até o trabalho. Desceu a Rua Sergipe, até o sinaleiro eterno do cruzamento com a J.K. Bem que quisemos, o auto e eu, buscar o verde de primeira, mas não seria neste dia tão oleoso que realizaríamos um desejo tão antigo. Já na avenida, eu observava inúmeras pessoas na mesma situação: precisavam acordar. Precisavam trabalhar. Viver. Eram levadas por seus carros e pela situação. Através da janela suada de um ônibus, observei olhos que, como os meus no elevador, não queriam encontrar outros. As pessoas simplesmente iam. Provavelmente pensavam, como eu, na melhor maneira de não revelar a verdade do acordar aos colegas do serviço, que sempre fingem tão bem. 

Mais um semáforo me interrompeu. Como a luz vermelha não demonstrava a mínima intenção de se mover, aproveitei para olhar os prédios que orlam a avenida. E foi entre dois deles, um pouquinho para cá do sol a meio pau, que vi o balão laranja. Como todos nós, ele ia. Mas, solenemente, pairava sobre tudo, no vagar de quem não tem motivos para ter pressa nem pressa para ter motivos. Ele vinha de algum lugar, de algum tempo; ia para não sei onde, não sei quando. Superior, inflado e imponente, o balão pisava sobre cada um de nós, com extrema leveza.

E, até que a luz vermelha se esverdeasse, eu voei com o balão laranja.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/04/19/o-balao-laranja/</link>
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            <title>Quem é Deus?</title>
            <pubDate>Thu, 12 Apr 2007 12:19:31 -0300</pubDate>
            <description>Para o filósofo, o problema.
Para o crente, a matriz.
Para o marxista, a reprodução.
Para o juiz, o exemplo.
Para o ateu, o devedor.
Para o deputado, o credor.
Para o mendigo, o fiador.
Para o artista, a inspiração.
Para o rico, o justo.
Para o pobre, o justíssimo.
Para o humilde, a perfeição.
Para o ingênuo, a contradição.
Para o adulto, o depois.
Para o velho, o agora.
Para o mau, o mal.
Para o bom, o bem.
Para ela, o Pai.
Para ele, a Mãe.

Para mim, Deus.</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/04/12/quem-e-deus/</link>
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            <title>O endereço do inferno</title>
            <pubDate>Tue, 20 Feb 2007 12:05:28 -0200</pubDate>
            <description>...

Logo que terminei a faculdade de Sistemas da Informação, na Unizezinho, a grande oportunidade da minha vida flertou comigo. A mulher ao telefone, com voz de secretária muito bem paga, me disse que eu deveria estar dali a dois dias, às 8h, na IBM de São Paulo para uma entrevista. Fiz força para dizer o “Conte com a minha presença” sem gritar ou chorar de emoção. Alguns instantes depois, abracei toda a minha família e tomei cerveja com os colegas da faculdade, que, apesar dos olhares estranhos e carregados, pareciam muito felizes por mim.

No dia seguinte, comprei uma réplica perfeita de Mont Blanc, a qual deixei bem à vontade e à vista no bolso do terno de gente fina que também adquiri. Até a láurea acadêmica que minha média geral 7.5 me rendera eu decidi levar. Eu queria estar perfeito para a ocasião.

E estava. Fui chamado por um alto executivo da empresa pontualmente às 8h do dia da minha vida. Eu não estava nervoso como deveria. Conversei bem, expus sem dificuldades meus objetivos, usei sete vezes a palavra “equipe” e destaquei-me na dinâmica com o barbante e a bexiga. “Você me impressionou”, disse Tom, com feição de quem assina holerites. Eu simplesmente sorri com discrição e lancei-lhe um olhar de quem não via novidade em tal comentário.

A perfeição caminhava perfeitamente, até deparar com um pedido do entrevistador: “Qual é o seu e-mail?”. Segundo ele, eu receberia uma mensagem eletrônica notificando-me de minha eventual aprovação no mesmo dia da entrevista. Nesse momento, todo o nervosismo até então represado desaguou no meu estômago, e tive que tomar uma decisão vital em apenas dois ou três segundos: devo dizer o meu e-mail ridículo – que, por desleixo, é o único que tenho – ou inventar que ainda não possuo endereço eletrônico? Por achar que a segunda alternativa me colocaria na posição de alguém por fora das mínimas exigências para um pretenso funcionário da IBM, resolvi confessar-lhe o meu verdadeiro e-mail: miguxinhuu_gostozinhu@coldmail.com.

A maior humilhação que já sofri foi ter que, de terno preto e Mont Blanc acenando no bolso, soletrar lentamente essa desgraça eletrônica, que provocou no Tom um sorriso ruim e um olhar de quem não assina nada senão rescisões contratuais. Os dois us do “miguxinhuu” ceifaram a primeira metade da minha grande chance. O zê do “gostozinhuu”, a outra.  

Hoje, dois anos passados, ainda tenho que conviver com o meu maior inimigo. Todos os dias digito a senha e as letras que destruíram meu futuro, para ver se a minha admissão está entre as mensagens sobre engrossamento do pênis e descoberta de quem fuça o meu Orkut. Por enquanto, nada. Será que eu soletrei certo?</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/02/20/o-endereco-do-inferno/</link>
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            <title>Na pizzaria</title>
            <pubDate>Wed, 03 Jan 2007 17:36:31 -0200</pubDate>
            <description>&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;...&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;Imagino que eu seja uma das poucas pessoas que gostam de ir sozinhas ao restaurante. Acho que &amp;eacute; a sensa&amp;ccedil;&amp;atilde;o de liberdade e ego&amp;iacute;smo que d&amp;aacute; gosto a essa situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o. S&amp;oacute; preciso abrir o card&amp;aacute;pio, escolher a pizza que aprecio e aguardar o gar&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Como quanto quiser e tenho a certeza de que sobrar&amp;atilde;o pelo menos quatro peda&amp;ccedil;os, que ficar&amp;atilde;o muito mais gostosos no microondas da manh&amp;atilde; seguinte. Outra vantagem &amp;eacute; n&amp;atilde;o ter de olhar faminto para aquele &amp;uacute;ltimo peda&amp;ccedil;o da assadeira e, pela mais mendaz educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, pedir ao outro que o coma. E o pior &amp;eacute; que esse outro geralmente o aceita.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;Ontem fui a uma pizzaria. Pedi uma meia tomate seco, meia portuguesa. Enquanto a esperava, eu fazia a &amp;uacute;nica coisa que um ser humano normal e sozinho &amp;ndash; se &amp;eacute; que existem as duas coisas juntas &amp;ndash; poderia fazer: comecei a brincar com os palitos de dente. Arranquei um, dois, quatro deles e quebrei-os. N&amp;atilde;o sei se havia algum objetivo al&amp;eacute;m do de fazer o tempo e a ansiedade passarem, mas percebi que, ap&amp;oacute;s alguns minutos, eu os havia partido em peda&amp;ccedil;os praticamente iguais. Achei interessante a simetria deles, que alcancei inconscientemente. Depois dessa falta-de-enxada, comecei a explorar o galheteiro branco, que continha frascos com azeite gen&amp;eacute;rico, vinagre e mais alguma coisa. Pus algumas gotas do &amp;oacute;leo no prato e tentei capt&amp;aacute;-las com o garfo, que, apesar de ser o instrumento menos apropriado para tal tarefa, desempenhou-a com propriedade. Senti falta de untar algumas torradinhas, mas sabia que elas raramente v&amp;ecirc;m em pizzarias. &lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;Minha pizza ainda n&amp;atilde;o havia chegado, e eu tinha que dar seq&amp;uuml;&amp;ecirc;ncia &amp;agrave; distra&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Peguei do card&amp;aacute;pio e comecei a manuse&amp;aacute;-lo. Li ingrediente por ingrediente. Veja s&amp;oacute;... &amp;ldquo;calabresa&amp;rdquo; grafada corretamente, ao contr&amp;aacute;rio do que eu sempre disse aos meus alunos. &amp;ldquo;Seco&amp;rdquo;, do tomate que pedi, sem o acento que morreu em 1971. Mas &amp;ldquo;mussarela&amp;rdquo; n&amp;atilde;o est&amp;aacute; com a cedilha que os gram&amp;aacute;ticos azedos esperam: ponto para o povo!&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;L&amp;aacute; vem a minha pizza. Pego primeiro a de tomate seco, que est&amp;aacute; t&amp;atilde;o gostosa quanto a risada da Giovana. Como primeiro a borda, enfeitada com um fio de catchup, para ser recompensado ao final com a parte mais saborosa. Isto &amp;eacute; lei para mim: corpo de pizza e batata frita sempre ficam mais tempo no prato. &lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;Eu j&amp;aacute; estava rastelando o queijinho tostado da borda do segundo peda&amp;ccedil;o quando reparei no casal da mesa ao lado. O homem brincava com o vinagre. Ao lado do prato dele, havia uma esp&amp;eacute;cie de pent&amp;aacute;gono desenhada com peda&amp;ccedil;os sim&amp;eacute;tricos de palitos quebrados. Dali a pouco ele partiu para o card&amp;aacute;pio, no qual ficou por longos e desnecess&amp;aacute;rios minutos, enquanto a esposa interagia com o telefone celular, que lhe dava o jogo da cobrinha &amp;ndash; notei-o pelo som. O prato dele estava corado com algumas gotas de vinagre, que n&amp;atilde;o aderem ao garfo t&amp;atilde;o bem quanto o meu azeite. &lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;O casal permaneceu ali. Ele batucando no prato com o garfo, que &amp;agrave;s vezes perdia olhos para as pessoas que passavam na rua. Ela brincando com a cobra do celular, que, por lhe dar aten&amp;ccedil;&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o perdia para nada nem ningu&amp;eacute;m. Os dois num sil&amp;ecirc;ncio j&amp;aacute; t&amp;atilde;o &amp;iacute;ntimo,&amp;nbsp;ferido s&amp;oacute; por bipes e batuques. Contemplei aquela solid&amp;atilde;o compartilhada at&amp;eacute; o momento em que me veio o recibo do cart&amp;atilde;o de d&amp;eacute;bito e o embrulho das sobras. Quando ganhei a rua, agradeci mentalmente por ser um solit&amp;aacute;rio sozinho.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;Se o homem pudesse, ele pediria um pouco de vida ao gar&amp;ccedil;om. A mulher, uma por&amp;ccedil;&amp;atilde;o de amor. Mas, como eu, eles v&amp;atilde;o ter que&amp;nbsp;ficar com as sobras.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2007/01/03/na-pizzaria/</link>
        </item>

        <item>
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            <title>Fui assaltado no Calçadão</title>
            <pubDate>Wed, 13 Dec 2006 12:10:04 -0200</pubDate>
            <description>&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;...&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;Aconteceu h&amp;aacute; tr&amp;ecirc;s dias na Rua Maranh&amp;atilde;o, perto de um shopping (assim como os jornalistas da Globo, n&amp;atilde;o direi o nome do &amp;uacute;nico shopping daquela regi&amp;atilde;o, para n&amp;atilde;o fazer propaganda). &lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;Eu estava em mais uma das minhas caminhadas quase di&amp;aacute;rias pelo Cal&amp;ccedil;ad&amp;atilde;o. Queria melhorar a sa&amp;uacute;de, viver mais, ganhar todas essas coisas legaizinhas que v&amp;ecirc;m por tabela com um corpo mais apresent&amp;aacute;vel. Passei pelo tio que dizem que pula atrav&amp;eacute;s da roda com facas, pelos irm&amp;atilde;os que batem palma para o boneco m&amp;aacute;gico dan&amp;ccedil;ar, pela est&amp;aacute;tua viva que pede dinheiro em prol da arte e pelos artes&amp;atilde;os e cinema alternativos. Tudo estava na mais perfeita ordem: a interessante mistura humana de sempre.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;Mas percebi que dois rapazes pr&amp;oacute;ximos a um orelh&amp;atilde;o olhavam diferente para mim. De soslaio, fitei a boca de um cochichando com o ouvido de outro, ao mesmo tempo em que os quatro olhos me escoltavam. N&amp;atilde;o vi boa inten&amp;ccedil;&amp;atilde;o naquela atitude. Olheiros em busca de um modelo? Eu ainda n&amp;atilde;o emagreci o suficiente. Por que me encaram? Na &amp;acirc;nsia de achar a tranq&amp;uuml;ilidade, agarrei-me a um dos preconceitos que sempre me acompanham: um deles &amp;eacute; mesti&amp;ccedil;o. At&amp;eacute; parece que algu&amp;eacute;m de ascend&amp;ecirc;ncia oriental vai fazer algum mal para mim! E mais: o parceiro usava uma camiseta do Smiling&amp;uuml;ido. Que injusti&amp;ccedil;a a minha! Mas ser&amp;aacute; que...&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;N&amp;atilde;o tive tempo de concluir esse &amp;uacute;ltimo pensamento. Senti a press&amp;atilde;o de um objeto pontiagudo no rim esquerdo, enquanto uma voz sem do&amp;ccedil;ura alguma me pedia tudo o que eu tinha. Cinco e meia da tarde, e pessoas era o que n&amp;atilde;o faltava naquele lugar. Eu estava ali, com uma faca cutucando-me as costas, mas ningu&amp;eacute;m via, ouvia ou falava nada. At&amp;eacute; um pixel de uma tev&amp;ecirc; de plasma era mais percept&amp;iacute;vel do que eu naquele momento.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;No instante em que ouvi aquela voz, a &amp;uacute;nica vontade que tive foi a de chorar. Eu estava sem carteira e sabia que seria perigoso tentar convenc&amp;ecirc;-los de fato t&amp;atilde;o improv&amp;aacute;vel. Como &amp;eacute; que um gordo leng&amp;uuml;&amp;eacute; desse, com cara de Roberto Leal, vai andar sem dinheiro? Ent&amp;atilde;o sucumbi a uma id&amp;eacute;ia t&amp;atilde;o insana quanto o momento que a obrigou a nascer: fingi que era surdo-mudo:&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;- Annnnnn&amp;atilde;&amp;atilde;&amp;atilde;&amp;atilde;! Aiii&amp;atilde;! &lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;Sei que isso parece uma brincadeira de mau gosto &amp;ndash; um desrespeito aos deficientes, diriam os mais radicais &amp;ndash;, mas, no desespero, foi a alternativa que encontrei para me defender. Julguei que seria a &amp;uacute;nica forma de gritar sem o bandido ter &amp;oacute;dio de mim.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;Ante o som inesperado, o mesti&amp;ccedil;o, aquele que me tranq&amp;uuml;ilizou no primeiro dos preconceitos, desceu-me um tap&amp;atilde;o no ouvido esquerdo, como se o quisesse consertar. Ele ficou nervoso com o meu berro nasal e incompreens&amp;iacute;vel. O Smiling&amp;uuml;ido, ao perceber que uma e outra pessoa come&amp;ccedil;avam a olhar para aquela movimenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o estranha, sugeriu que eles picassem a mula, mas o japon&amp;ecirc;s agressivo n&amp;atilde;o parecia convencido de que eu era um surdo-mudo. Decidi, ent&amp;atilde;o, emitir mais alguns sons incompreens&amp;iacute;veis, desta vez entremeados a um choro, a &amp;uacute;nica parte real da performance. Estalei a l&amp;iacute;ngua cinco vezes, como quem toca um cavalo. Infelizmente n&amp;atilde;o conhe&amp;ccedil;o algum s&amp;iacute;mbolo gr&amp;aacute;fico que possa reproduzir tal fonema, mas tranq&amp;uuml;iliza-me saber que a imagina&amp;ccedil;&amp;atilde;o do leitor &amp;eacute; auto-suficiente.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;O mesti&amp;ccedil;o riu com maldade, empurrou-me e saiu correndo com o comparsa em dire&amp;ccedil;&amp;atilde;o ao Cal&amp;ccedil;ad&amp;atilde;o, que tinha acabado havia um quarteir&amp;atilde;o. Alguns segundos depois, olhou para mim e gritou:&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;- Eu te acho, vacil&amp;atilde;o!&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;(Abro este par&amp;ecirc;ntese para registrar o meu sincero agradecimento &amp;agrave; Prefeitura de Londrina. Nessa virada de cabe&amp;ccedil;a, o japon&amp;ecirc;s trope&amp;ccedil;ou em um dos buracos da superf&amp;iacute;cie lunar do Cal&amp;ccedil;ad&amp;atilde;o. Eu sabia que n&amp;atilde;o era s&amp;oacute; gente boa que aquelas crateras derrubavam! Pena que o vagabundo se levantou r&amp;aacute;pido, ajeitou o tornozelo vivido e saiu pulando com ainda mais riso e vigor.)&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;Em seguida, o seguran&amp;ccedil;a de uma loja de cosm&amp;eacute;ticos veio perguntar-me como eu estava. Achei melhor prosseguir com a farsa da surdo-mudez e disse-lhe que annn&amp;atilde; nh&amp;aacute;. Ele me deu um tapinha cidad&amp;atilde;o nas costas e pediu que eu fosse para casa, o que fiz prontamente. &lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="georgia,palatino" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt; &lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify" class="MsoNormal"&gt;&lt;font face="Times New Roman" size="3"&gt;&lt;font face="georgia,palatino"&gt;Descobri que autoridades, populares, seguran&amp;ccedil;as de lojas de cosm&amp;eacute;ticos, todos est&amp;atilde;o certos. Diante da viol&amp;ecirc;ncia, o melhor a fazer &amp;eacute; n&amp;atilde;o ver, ouvir nem falar nada. S&amp;oacute; me faltaram os &amp;oacute;culos escuros.&lt;/font&gt; &lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;font face="Times New Roman" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt;&lt;font face="Times New Roman" size="3"&gt;&amp;nbsp;&lt;/font&gt;</description>
            <link>http://tanga.tipos.com.br/posts/2006/12/13/fui-assaltado-no-calcadao/</link>
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