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	<title>O Último Baile dos Guermantes</title>
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	<description>políticas íntimas &amp; as virtudes dos vícios</description>
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		<title>OSBrega &amp; outras cafonices de Carlos Prazeres</title>
		<link>https://www.ultimobaile.com/?p=4192</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lucas Jerzy Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Dec 2022 22:28:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Viver]]></category>
		<category><![CDATA[Carlos Prazeres]]></category>
		<category><![CDATA[Guilherme Mannis]]></category>
		<category><![CDATA[Orquestra Sinfônica da Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[OSBA]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Castro]]></category>
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					<description><![CDATA[Antes tarde do que mais tarde, alguém da estatura de&#160;Ricardo Castro resolveu apontar para o bode na sala que se tornou a Orquestra Sinfônica da Bahia sob a gestão de Carlos Prazeres&#160;– ainda que o pomo da discórdia seja o mal-dito evento da OSBA na Concha Acústica do Teatro Castro [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><br>Antes tarde do que mais tarde, alguém da estatura de&nbsp;<a rel="noreferrer noopener" href="https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/maestro-do-neojiba-critica-concerto-da-osba-com-musicas-bregas-circulo-do-inferno/" target="_blank">Ricardo Castro resolveu apontar para o bode na sala que se tornou a Orquestra Sinfônica da Bahia sob a gestão de Carlos Prazeres</a>&nbsp;– ainda que o pomo da discórdia seja o mal-dito evento da OSBA na Concha Acústica do Teatro Castro Alves em janeiro nomeado de OSBREGA, isto é apenas um sintoma de um problema que se arrasta desde a publicização desta orquestra estadual, talvez até de pouco antes do referido processo.</p>



<p>De antemão quero dizer que&nbsp;<a rel="noreferrer noopener" href="https://www.youtube.com/@obregademindelo6695" target="_blank">não tenho nada contra música brega e que aliás entendo que um brega não é meramente um puteiro</a>, mas um lugar de acolhimento mais amplo em localidades pequenas do nordeste onde não há outro recursos: numa cidade que não tem hospital, é num brega que se convalece; se não tem hotel, é no brega que se hospeda; se não há parteiras, é no brega que se vai parir, etc.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Brega de Mindelo #1" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/DzzjmuBOa_M?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p>Acho perfeitamente cabível a título de experimentação que uma orquestra sinfônica se enverede brevemente pelo repertório ultra-popular – o que poderia muito bem ser feito pelo Neojibá em seus concertos de domingo pela manhã no Parque do Queimado, e é em parte o que acontece nos saraus abertos na arca do mesmo parque uma vez por mês sábado a tarde. Mas o OSBREGA da OSBA não é meramente isso.</p>



<p>O tal evento OSBREGA faria parte das políticas de formação de platéia da OSBA, nas quais os CineConcertos têm sido a ponta de lança. Ocorre que a OSBA já tem um público consolidado, e mesmo os tais CineConcertos têm acontecido menos e são talvez desnecessários atualmente. Então pra que esse populismo orquestral? (Vale lembrar que a formação de platéia da Orquestra Sinfônica da Bahia como está hoje teve início na gestão de Ricardo Castro: em 2011, Carlos Prazeres já recebe uma orquestra com público crescente e reconhecimento pelas mais diversas camadas da sociedade bahiana – eram mesmo necessários os tais CineConcertos…?) Ainda no bojo de uma política de formação de plateia, os concertos gratuitos em igrejas (que Carlos nomeou de Série Manuel Inácio da Costa), que aconteciam mensalmente desde a gestão de Ricardo Castro, foram rareando há meia década (e não apenas por causa da pandemia), e hoje acontecem só uma ou duas vezes por ano: este sim era um programa de formação de plateia que não desvirtuava a função precípua de uma sinfônica estadual, e de quebra ainda fomentava a frequentação do maior patrimônio barroco eclesiástico do hemisfério sul ou do continente americano.</p>



<p>O que me parece é que a OSBREGA, e o desagrado de Ricardo Castro com isso, é o ápice de um problema que já vem de antes: Carlos Prazeres tem usado a Orquestra Sinfônica da Bahia como palco para uma exibição pessoal, personalíssima eu diria, e não como cumpridor de uma função que é pública (como fez e faz Ricardo Castro). Junto a isso, encampa um esquerdismo de fachada que da eleição do Nazismo Didi Mocó em diante não soube ser claramente anti-fascista (o que o Neojibá é estruturalmente, sem precisar ser “de esquerda” no nível declaratório semântico), o que levou a minha ruptura pessoal com ele. Posso dizer isso com tranquilidade:&nbsp;<a rel="noreferrer noopener" href="https://www.ultimobaile.com/?p=3078" target="_blank">fomos não só amigos</a>&nbsp;como foi a mim que ele perguntou se deveria ou não renovar contrato com o Governo do Estado da Bahia em 2013 mesmo sem garantia de publicização da OSBA,&nbsp;<a rel="noreferrer noopener" href="https://www.ultimobaile.com/?p=3316" target="_blank">e eu disse que “sim, pague pra ver, dobre a aposta”</a>, e não me arrependo:&nbsp;<a rel="noreferrer noopener" href="https://www.ultimobaile.com/?p=3927" target="_blank">os resultados estão aí, e vi cada gesto dele empurrando os gestores da cultura para a contradição que era ter uma sinfônica estadual potente e em frangalhos financeiros ao mesmo tempo</a>. Fui também eu que exortei Carlos Prazeres a propor um&nbsp;<a rel="noreferrer noopener" href="http://www2.cultura.ba.gov.br/2012/12/07/seminario-gratuito-no-tca-discute-orquestras-no-brasil/" target="_blank">Seminário Nacional de Gestão Orquestral</a>, ponto de inflexão crucial para o processo de publicização da OSBA (<a rel="noreferrer noopener" href="https://www.ultimobaile.com/?p=2917" target="_blank">cuja minuta, é bom que se diga, Ricardo Castro deixou pronta ainda em 2010</a>) como para a formação de uma rede sinfônica no país.</p>



<p>Se Carlos Prazeres cumpriu grande papel público, os polos se inverteram e talvez seja hora de ele seguir outros rumos. Talvez um sintoma disso é ele ter assumido também a direção da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, em São Paulo: alega Carlos que é possível e não raro um maestro dirigir mais do que uma orquestra, e não está errado – mas este acúmulo parece ser parte de um desinteresse de levar a OSBA de ser mais do que uma orquestra do Teatro Castro Alves: este era um problema central antes da publicização, e eu disse algumas veze que isto precisava ser enfrentado a despeito da publicização, que a&nbsp;<a rel="noreferrer noopener" href="https://www.instagram.com/p/CmgTgVIImRN2nIUgFnzT-pViY7IIpoC99B8laM0/" target="_blank">OSBA precisava ser estadual e de penetração ao menos regional no Nordeste e se possível nacional ao lado da OSESP e Filarmônica de Minas</a>&nbsp;(mas Carlos Prazeres está mais interessado em ser anfitrião de um brega na Concha Acústica);&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/p/CmgaiilIMTQyxBSBBBV4LaJLbHZR_4ms1xUNfo0/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a publicização da OSBA poderia e deveria ter vindo junto com a exigência da construção de uma sala sinfônica, como fizeram a OSESP e a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre além da Filarmônica de Minas</a>, idéia que existia atrelada a reforma do Teatro Castro Alves mas que não foi e nem seria executada, e se o fosse nesse âmbito manteria a OSBA sob a tutela do TCA e não com uma autonomia de um órgão estadual do quinto maior território da federação (a sala sinfônica poderia inclusive ser feita em parceria com o Neojiba, mas isto nunca foi sequer discutido).</p>



<p>Acho sinceramente que Carlos Prazeres pode fazer um excelente trabalho pela sinfônica de Campinas, e com isso deixar de atrapalhar a orquestra que ele ajudou a erguer: é hora de novos nomes, novos ares – inclusive desde já apoio a pessoa de <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.instagram.com/guilhermemannis/" target="_blank">Guilherme Mannis </a>para o cargo: a frente da<a href="https://www.youtube.com/c/OrquestraSergipe" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Sinfônica de Sergipe</a> (que, vejam só, também construiu uma sala sinfônica! – e não fica propondo concertos bregas ou cinematográficos) fez um trabalho que beira o milagroso, mas que pela próprio dimensão daquele estado tem limites e tetos baixos; Guilherme, até pela vizinhança, vem corriqueiramente reger a OSBA, muito a convite de Carlos Prazeres mas antes também a convite de Ricardo Castro. Em tempos de volta do wagnerismo com Jerônimo Rodrigues, espera-se que o novo Secretário da Cultura tenha a inteligência de fazer esta troca da guarda, que já não é sem tempo.</p>



<p>P.S.: discutir política orquestral está longe de ser perfumaria, e que se faça como estamos fazendo na Bahia hoje (e nem é a primeira vez) é um privilégio (e seria um luxo para qualquer lugar do mundo) &#8211; sinal do sucesso tanto do Neojiba quanto da OSBA gerida por Carlos Prazeres. </p>
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			</item>
		<item>
		<title>Contra Mendelssohn (ma non troppo)</title>
		<link>https://www.ultimobaile.com/?p=4184</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lucas Jerzy Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Oct 2022 21:21:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Viver]]></category>
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					<description><![CDATA[Sempre me perguntam: &#8220;mas afinal, o que você tem contra Felix Mendelssohn Bartholdy?&#8221; &#8211; Muitas coisas: o fato de ele ser um menino prodígio filho de uma família podre de rica que queria ser o novo Mozart o coloca nas antípodas de Wolfgang Amadeus (Mozart foi uma criança prodígio de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Sempre me perguntam: &#8220;mas afinal, o que você tem contra <strong><em>Felix Mendelssohn Bartholdy</em></strong>?&#8221; &#8211; Muitas coisas: o fato de ele ser um menino prodígio filho de uma família podre de rica que queria ser o novo Mozart o coloca nas antípodas de Wolfgang Amadeus (Mozart foi uma criança prodígio de uma família relativamente pobre que vivia da música como atividade remunerada diária, dentro de uma tradição semelhante ao dos Bach), mas também não é aristocrático o suficiente para ser Haydn (que ademais só o era pela idade provecta em que mantinha o viço da juventude); com isto, Felix está sempre exagerando nos recursos de suas composições, querendo mostrar que sabe (às vezes mais do que realmente sabe) &#8211; pra resumir, uma Malú Magalhães da música erudita (e sem um Marcelo Camelo pra chamar de seu). </p>



<p>Mas faço hoje uma ressalva: foi o menino Bartholdy que formalmente resgatou a obra de Johan Sebastian Bach (e nesse sentido foi mais Mozart do que Mozart ele mesmo), que incentivou jóvens pós-beethovenianos como Schumann e Schubert executando suas composições sinfônicas, e que para além do romantismo inicia um formalismo historicista que vai dar em Brahms &#8211; Mendelssohn é talvez o compositor mais consciente de sua função e posição histórica (e da História que o antecede e o sucederá) de todos os tempos, e o é assim ainda na adolescência! </p>



<p>Eu diria hoje que a maior qualidade de Mendelssohn é seu maior defeito: ele é o segundo melhor compositor em vários quesitos &#8211; o segundo melhor herdeiro de Mozart (perde pra Beethoven), o segundo melhor descobridor de J. S. Bach (perde pra Mozart), o segundo melhor formalista (perde pra Brahms), o segundo melhor compositor posterior a morte de Beethoven (Schubert existiu&#8230;), e por aí vai. </p>



<p>Tá certo, continuo na minha militância &#8220;Mendelssohn: até quando?&#8221; &#8211; mas em <em>andantino, non troppo</em>&#8230; </p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
https://www.youtube.com/watch?v=T1oF0NTNgLo
</div></figure>
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		<item>
		<title>Sintomas imobiliários</title>
		<link>https://www.ultimobaile.com/?p=4180</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lucas Jerzy Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Feb 2022 20:07:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Viver]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8211; Por gentileza, é sobre um apartamento 3/4 que está disponível para alugar&#8230; &#8211; O senhor é corretor? &#8211; Não, eu quero alugar. O senhor não é corretor? &#8211; Não, o apartamento é de minha irmã e eu estou alugando em lugar dela. &#8211; Como posso fazer uma visita? &#8211; [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-left">&#8211; Por gentileza, é sobre um apartamento 3/4 que está disponível para alugar&#8230;</p>



<p>&#8211; O senhor é corretor? </p>



<p>&#8211; Não, eu quero alugar. O senhor não é corretor? </p>



<p>&#8211; Não, o apartamento é de minha irmã e eu estou alugando em lugar dela.</p>



<p>&#8211; Como posso fazer uma visita? </p>



<p>&#8211; Moro longe, não sei qual horário disponível eu teria&#8230;</p>



<p>&#8211; Mas sua irmã, a proprietária, mora perto? Posso pegar a chave com ela e eu mesmo visitar, depois devolvo&#8230;</p>



<p>&#8211; Ih, ela não libera a chave não&#8230;!</p>



<p>&#8211; Então acho que ela não quer alugar o imóvel.</p>



<p>&#8211; Ela quer sim, só o que ela está gastando de dinheiro com condomínio atoa&#8230;!</p>



<p>&#8211; Mas talvez ela queira exatamente isto, gastar dinheiro com condomínio atoa.</p>



<p>&#8211; Que loucura&#8230;! Quem ia querer isso&#8230;?!</p>



<p>&#8211; Várias pessoas, meu consultório e o de vários outros psicanalistas estão cheios de psicanalisandos que justamente gozam de gastar dinheiro com coisas inúteis.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>* * *</strong></p>



<p><a href="https://www.pagina12.com.ar/diario/psicologia/9-99763-2008-02-28.html" data-type="URL" data-id="https://www.pagina12.com.ar/diario/psicologia/9-99763-2008-02-28.html">Como dizia Emílio Rodrigué, casas também são sintomas</a> (e a hegemonia dos atendimentos por videochamadas e chamadas de voz lança a Psicanálise de volta a suas origens: a frequentação do psicanalista ao domicílio do psicanalisando, e não o contrário, agora de forma virtual), de modo que a maior parte dos imóveis postos a venda ou para locação não o são pelo fato de que os proprietários de fato queiram alugá-los ou vendê-los &#8211; e isto não apenas porque, em casos de imóveis antigos ou herdados, eles já não lhes custem financiamentos (<a href="https://www.ultimobaile.com/?p=4121" data-type="URL" data-id="https://www.ultimobaile.com/?p=4121">Clara é a verdadeira especuladora imobiliária em <em>Aquarius</em></a>) mas também justamente quando e se ainda lhes custam e lhes oneram muito (o gozo é sempre masoquista, o mais-de-gozar equivale a extração de mais valia ainda que nenhum Outro lucre com ela). </p>



<p>Quer dizer: o problema fundiário brasileiro é, também, de economia psíquica. </p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Em Obras</title>
		<link>https://www.ultimobaile.com/?p=4173</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lucas Jerzy Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Aug 2019 21:33:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ler]]></category>
		<category><![CDATA[concurso literário]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Poema]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Prêmio]]></category>
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					<description><![CDATA[Crônica minha antiga premiada este ano como 2º colocado desta categoria no Concurso Felippe D&#8217;Oliveira, de Santa Maria, Rio Grande do Sul Trata-se na verdade de um poema em prosa ao modo de Francis Ponge Em Obras   para João Filgueiras da Gama Lima, Lelé            [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Crônica minha antiga premiada este ano como <a href="https://www.santamaria.rs.gov.br/cultura_esporte/noticias/19138-prefeitura-de-santa-maria-divulga-os-vencedores-do-concurso-literario-felippe-dacuteoliveira" target="_blank" rel="noopener">2º colocado desta categoria no Concurso Felippe D&#8217;Oliveira, de Santa Maria, Rio Grande do Sul</a></p>
<p>Trata-se na verdade de um <a href="https://www.revistaprosaversoearte.com/francis-ponge-poemas/" target="_blank" rel="noopener">poema em prosa ao modo de Francis Ponge</a></p>
<blockquote><p><strong>Em Obras</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p style="text-align: right;"><em>para João Filgueiras da Gama Lima, Lelé</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>  </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em> </em> <em>  humanizador de cidades</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Ninguém supõe delicadeza nas escavadeiras, se não as vê funcionar. Não obstante, uma vez em trabalho parecem braços culpados, amputados (e ainda vivos) de titãs antediluvianos. Que não se digam delas que furam, invadem, cavam o solo. Antes, acariciam o barro e a areia como quem re-arruma o cobertor sobre um filho que ressona e dorme. Carregam nacos de chão como bebês no colo; deitam-nos em caçambas como se berços fossem. Por fim, alisam a terra recém-arrancada de sua matriz &#8211; ato durante o qual se as pode ouvir cantarolar cantigas de ninar nos idiomas esquecidos dos deuses.</p>
<p>O que há é que, inocentes, não se apercebem que mandam assim estes bebês-solo, em conjunto, natimortos e prematuramente, para o sepultamento sanitário.</p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Seminário sobre o Manuscrito Inédito de 1931, de Freud &amp; o sintoma político</title>
		<link>https://www.ultimobaile.com/?p=4167</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lucas Jerzy Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Jul 2019 21:53:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ler]]></category>
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					<description><![CDATA[Em 5 de agosto começa nosso seminário sobre o Manuscrito Inédito de 1931 (e o sintoma político), de Freud, lá no ambulatório do Hospital Roberto Santos.   Quem quiser é só aparecer!  ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="" data-block="true" data-editor="74f3p" data-offset-key="97u19-0-0">
<div data-offset-key="97u19-0-0">
<div class="" data-block="true" data-editor="74f3p" data-offset-key="dvaj0-0-0">
<div class="_1mf _1mj" data-offset-key="dvaj0-0-0"></div>
</div>
<div class="" data-block="true" data-editor="74f3p" data-offset-key="5tab8-0-0">
<div class="_1mf _1mj" data-offset-key="5tab8-0-0"><span data-offset-key="5tab8-0-0">Em <strong>5 de agosto</strong> começa nosso <a href="http://www.saude.ba.gov.br/2019/07/16/seminario-de-psicanalise-do-hgrs-realiza-leitura-de-freud-a-partir-de-5-de-agosto/" target="_blank" rel="noopener"><em><strong>seminário sobre o Manuscrito Inédito de 1931 (e o sintoma político), de Freud</strong></em></a>, lá no ambulatório do Hospital Roberto Santos. </span></div>
</div>
<div class="" data-block="true" data-editor="74f3p" data-offset-key="7v1gm-0-0">
<div class="_1mf _1mj" data-offset-key="7v1gm-0-0"><span data-offset-key="7v1gm-0-0"> </span></div>
</div>
<div class="" data-block="true" data-editor="74f3p" data-offset-key="djk69-0-0">
<div class="_1mf _1mj" data-offset-key="djk69-0-0"><span data-offset-key="djk69-0-0">Quem quiser é só aparecer!</span></div>
</div>
</div>
<div data-offset-key="97u19-0-0"></div>
<div class="_1mf _1mj" data-offset-key="97u19-0-0"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-4170" src="https://www.ultimobaile.com/wp-content/uploads/2019/07/SeminarioPsicanalise.jpg" alt="" width="1000" height="730" srcset="https://www.ultimobaile.com/wp-content/uploads/2019/07/SeminarioPsicanalise.jpg 1000w, https://www.ultimobaile.com/wp-content/uploads/2019/07/SeminarioPsicanalise-300x219.jpg 300w, https://www.ultimobaile.com/wp-content/uploads/2019/07/SeminarioPsicanalise-768x561.jpg 768w, https://www.ultimobaile.com/wp-content/uploads/2019/07/SeminarioPsicanalise-75x55.jpg 75w" sizes="(max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></div>
</div>
<div class="" data-block="true" data-editor="74f3p" data-offset-key="dvaj0-0-0">
<div class="_1mf _1mj" data-offset-key="dvaj0-0-0"><span data-offset-key="dvaj0-0-0"> </span></div>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Os Galos</title>
		<link>https://www.ultimobaile.com/?p=4161</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lucas Jerzy Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 May 2018 15:02:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ler]]></category>
		<category><![CDATA[Césare Pavese]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[Não sei porque, não tinha colocado aqui meu conto, ao modo dos Diálogos com Leucó de Cesare Pavese, já publicado por menção honrosa no Prêmio do Estado do Paraná em 2009. Extemporaneamente, aqui vai hoje, nesse interregno entre a Páscoa e o Corpus Christie. * * * Os Galos &#160; [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Não sei porque, não tinha colocado aqui meu conto, ao modo dos <a href="https://www.ultimobaile.com/?p=4116" target="_blank" rel="noopener">Diálogos com Leucó de Cesare Pavese</a>, já publicado por <a href="https://www.ultimobaile.com/?p=2038" target="_blank" rel="noopener">menção honrosa no Prêmio do Estado do Paraná em 2009</a>. Extemporaneamente, aqui vai hoje, nesse interregno entre a Páscoa e o Corpus Christie.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *<br />
</strong></p>
<p><strong>Os Galos </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>para a Leucotéia de Pavese</em></p>
<p><em> </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Judas Iscariotes e Simão Pedro compartilham entre si duas peculiaridades do destino: ambos terão de trair o Salvador, para que a Salvação possa ocorrer; nenhum dos dois será conhecido por seus nomes originais. Conquanto um cometa o ato intencionalmente, e outro não – aquele antes da cruz, este logo depois – não é implausível supor que o tema foi tópico de palestra entre ambos. </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Pretendes mesmo traí-lo então?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Que dizes? Nunca intentei tal coisa. Estão aí o pão, e o peixe que eu mesmo pesquei, e o vinho que trouxe. Estive ao seu lado quando andou sobre as águas, e antes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Sobre as águas&#8230; e já lá o traía&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Duvidava, Judas; que não é trair. Antes, duvidar é uma forma de fidelidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Iscariotes</p>
<p>Também é um modo de ser fiel, Pedro, trair-se.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Não me chames assim; sabes que não gosto&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Que não gostas&#8230;? É assim que ele te chama!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>E só ele.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Temes, de fato, ser a pedra.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Não, não temo. Apenas não creio que haja templo a ser erguido, em que eu seja pedra, cal, liga, ou mestre de obras.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Iscariotes</p>
<p>Vê? Duvidas de novo. Já é a segunda.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Simão</p>
<p>Já te disse: duvidar é minha forma de ser fiel. Por ele, em sua infinita certeza, o mundo estaria mudado mais rápido do que foi feito. Sou eu a rocha, a terra dura e seca, de onde brota pouco – mas o que brota fica, e não morre.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Não te preocupes: todos nós teremos de traí-lo. Está nos seus planos – e de alguma forma no nosso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Por que se demora tanto nas oliveiras? Já não vê que há azeite bastante? Que quer ele longe?, quando todos já estão chegando.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Não todos, alguns ainda demorarão de vir. Dizia: não há vergonha em trair. Um filho precisa trair a mãe para que cresça, e não é a semente menos uma dura traição do fruto doce, e este da flor outrora bela. Também é a flor a prostituição da folha, devassada por insetos alheios, que nada querem dela senão o prazer de seu mel. E no entanto, emprenham-se – traem-se. Assim é a vida. E as folhas, os galhos, são a traição da raiz. O que há, Simão, é formas de fazê-lo: uns, por vontade própria, outros, involuntariamente. Que acha que se comemora hoje? a Travessia? Antes, a discórdia e a tempestade, e não o amor ou a devoção.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Intentas traí-lo então?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Sim, e ele o sabe. Diria mesmo que me incitou, senão pediu com palavras, pediu com olhos, com gestos – como se eu pudesse negá-lo; como se negando, não viesse a fazê-lo involuntariamente. Não! Se o punhal a atravessar as costas tiver de usar minhas mãos, será com altivez. Não terá Brutus dado a César justamente sua derradeira prova de amor filial? Matou-o, mas garantiu-lhe um Império.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>E como?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Com um crime.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Mas que crimes cometeu? Nenhum, até agora. Não há do que o acusar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Cometerei eu, e não qualquer um. Um no qual eu seja meu próprio, e maior, tribuno. Fingir vender uma amizade para, na venda, consumar o que um amigo quer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Vais delatá-lo?! Não deixarei!</p>
<p><u> </u></p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Pedro, nada podes fazer quanto a isso. Ouso dizer que mesmo invejará, e quererá ter sido tu a delata-lo. Mas és as rocha, o firme bastião, que não se curva nem faz brotar, mesmo no mais ameno clima. Já eu sou o junco, que se dobra para que o barco passe e acena na corrente do rio. Ao fim, tu também o trairás quando for inútil e tarde demais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Se eu duvido, ainda posso crer. Porém tu, em nada crês.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Não, não creio. Não em fatos. Não vislumbro um Reino de Justiça, neste ou noutro mundo. E no entanto creio que ele o deseja mais do que tudo, que viveu para isso. Se duvido das conseqüências, creio no seu anelo, mais real que as realidades que ele pudesse moldar; seguramente mais real que esta noite, que uma cruz, que este pão. E crer nisso não me deixa dúvidas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Também sei do seu projeto, e o sustento no que posso. Talvez ninguém o ame tanto quanto eu. E sei de seus efeitos: vi cegos falarem, templos serem varridos, e refeições renderem.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Entretanto, duvidas&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Duvido de que ele realmente saiba o que faz.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Tampouco sabemos nós.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Ou de que realmente saiba o que deseja – além de não fazer idéia de como chegar onde deseja.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Ao contrário, Pedro: ele o sabe. Também sua dúvida é parte do plano. Nada lhe escapa, justo quando parece escapar. O que quer é condenar todos a salvação; e não tanto salvar a todos de serem condenados.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Mas não sabe bem o que deseja&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Isso tampouco sabemos nós. E é nisso que é muito humano. Nem por isso nos impedimos de desejarmos, e desejando sermos traídos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Amo-o!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Sem dúvida: e bem para si.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Que dizes, Judas?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Que todos o querem para si, sempre vivo, e belo, e alegre. É assim que ele é melhor. Mas eu não o quero para mim – amo-o, e amá-lo é secundário ao meu amor: amo-o para que ele faça o que deve. Mesmo que o que deve nos abandone.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Silêncio&#8230; Parece que vem vindo, abatido. Será que chora?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Chora.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Mas não o vês.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Nem preciso, chora. Sei que sabe o que lhe aguarda. Escute, Pedro, antes que ele chegue&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Simão</u></p>
<p>Seja breve.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u>Iscariotes</u></p>
<p>Sinto não estar aqui para consolar-te quando perceberes que o traiu, traindo-te a ti mesmo contra e a um só tempo a favor de tua vontade própria. Que fique este beijo que agora dou em tua face como consolo futuro. O pão já está na mesa? E o sal? E o vinho?</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dois Poemas</title>
		<link>https://www.ultimobaile.com/?p=4153</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lucas Jerzy Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jan 2018 16:29:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Viver]]></category>
		<category><![CDATA[Poema]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[Ambos levaram menção honrosa no prêmio da cidade de Barueri, SP. Um final de 2015 (também premiado no Yoshio Takemoto, excelente certame da revista KakiNet mantida pela colônia japonesa do bairro da Liberdade), outro agora no final de 2017. Seguem abaixo. . Auto-Tauromaquia . o enorme esforço de não sair [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Ambos levaram menção honrosa no prêmio da cidade de Barueri, SP. Um final de 2015 (também <a href="http://www.kakinet.com/cms/?p=1540" target="_blank" rel="noopener">premiado no Yoshio Takemoto, excelente certame da revista KakiNet mantida pela colônia japonesa do bairro da Liberdade</a>), outro agora no final de 2017. Seguem abaixo.</p>
<p>.</p>
<blockquote>
<p class="western"><strong>Auto-Tauromaquia</strong></p>
<p class="western">.</p>
<p class="western">o enorme esforço</p>
<p class="western">de não sair do lugar</p>
<p class="western">.</p>
<p class="western">os planos de longo prazo</p>
<p class="western">para se chegar onde se está</p>
<p class="western">.</p>
<p class="western">o lento jogo de go</p>
<p class="western">sobre o ladrilho do banheiro</p>
<p class="western">.</p>
<p class="western">e no vão da rede na varanda</p>
<p class="western">a batalha vencida morro acima.</p>
<p class="western">.<br />
* * *</p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;"><b>Orar (o sexo) </b></span></p>
<p><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">totem em monolito</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">na boca do céu</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">do céu da boca</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">e tragado por um buraco negro</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">alojando-se na garganta</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">profunda o bastante para untar de nácar</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">essa gigantesca pérola</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">ou quartzo rutilado em lapidação cabuchon</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">também chamada glande</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">que explode supernova</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">derramando a via-láctea</span></p>
<p align="justify"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">sobre o ventre, a terra, a cama, no banho, na mesa da cozinha</span></p>
</blockquote>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Analfabetismo Urbanístico: o que é, como se faz (e a quem interessa)</title>
		<link>https://www.ultimobaile.com/?p=4150</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lucas Jerzy Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Sep 2017 11:06:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Viver]]></category>
		<category><![CDATA[direito a cidade]]></category>
		<category><![CDATA[metrópole]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Tendo em vista a inglória disputa entre a defesa do mal-dito &#8220;Parque Augusta&#8221; (numa região que já tem parques de sobra, e em que mais um só não é danoso porque ela tem densidade habitacional suficiente para absorver impactos negativos deste tipo) X proposta de construção de habitação cara e [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tendo em vista a inglória disputa entre a defesa do mal-dito &#8220;Parque Augusta&#8221; (numa região que já tem parques de sobra, e em que mais um só não é danoso porque ela tem densidade habitacional suficiente para absorver impactos negativos deste tipo) X proposta de construção de habitação cara e refratária a rua &#8211; enfim, tendo em vista esta briga em que a cidade real não está colocada em questão, briga esta em que quem está certo é só a briga, e olhe lá! &#8211; resolvi republicar aqui um texto meu antigo que escrevi para o <a href="https://blogbahianarede.wordpress.com/" target="_blank">Bahia na Rede</a> anos atrás e que na época <a href="http://www.elenaraleitao.com.br/2015/08/seremos-nos-analfabetos-urbanisticos.html" target="_blank">circulou bem por aí</a> mas hoje tem sido difícil de encontrar.</p>
<p style="text-align: justify;">A discussão sobre este lote na Augusta se torna mais demente ainda depois da <a href="http://thecityfixbrasil.com/2017/01/12/plano-diretor-estrategico-de-sao-paulo-e-premiado-pela-onu/" target="_blank">revisão do Plano Diretor e do Código de Obras na gestão de Fernando Haddad</a>, tornando São Paulo a única metrópole brasileira que limita o número de vagas de estacionamento de automóveis que um prédio pode oferecer, e faz tenter a zero as mesmas, além de explicitamente incentivar usos mistos entre comércio, produção de pequenas indústrias manufatureiras e habitação densa, sobretudo próximo a eixos de transporte de massa &#8211; e é precisamente o caso da Augusta.</p>
<p style="text-align: justify;">O que me parece é que esta esquerda metida a verde perde de vista disputas mais reais, por exemplo na própria Augusta a desmotorização paulatina da via e a pedestranização de toda sua largura. Áreas boêmias similares em outras metrópoles brasileiras, como o Rio Vermelho em Salvador e a Lapa no Rio de Janeiro, passaram por isso, cada uma a seu modo, com grandíssimo sucesso (gerando muito mais democratização do que por exemplo Grampinho, prefeito neo-carlista de Salvador, gostaria&#8230;).</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Anos atrás, escrevi este texto a convite do Bahia na Rede, por conta de alguns comentários meus a <a href="http://blogbahianarede.wordpress.com/2011/05/09/sobre-janelas-quebradas-flanelinhas-e-crime-de-extorsao/" data-saferedirecturl="https://www.google.com/url?hl=pt-BR&amp;q=http://blogbahianarede.wordpress.com/2011/05/09/sobre-janelas-quebradas-flanelinhas-e-crime-de-extorsao/&amp;source=gmail&amp;ust=1505299831926000&amp;usg=AFQjCNGjoQOzdCcD1_5GCX6-TYv1oUsSGQ">um post, com o qual em geral concordo, escrito por meu ex-chefe João Aslan acerca de segurança publica urbana</a>. Nos comentários falava de “analfabetismo urbanístico”, o que parece ter ofendido alguns (embora o termo não tenha tal intensão).</p>
<p style="text-align: justify;">O termo foi forjado por Cândido Malta Campos Filho e Ermínia Maricato, urbanistas ligados a Universidade de São Paulo, e aponta para o fato de que mesmo as elites brasileiras não têm o aparato lingüístico mínimo para ler e compreender (e portanto atuar) nas cidades. Por um motivo elementar: a conformação e os usos das cidades não são, aqui, temas, obrigatórios na educação escolar – diferente do que acontece por exemplo com nossos vizinhos argentinos.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, o analfabetismo urbanístico implica em outro problema: o analfabeto urbano é um ignorante em segunda potência – ele não sabe que não sabe (ou melhor: não sabe que há algo a saber). Há outras áreas da vida em que a ignorância de segundo grau aparece, contudo os sujeitos nesta condição se espantam, e a partir daí buscam saber, com seu desconhecimento. Nas questões urbanas, não: confrontados com seu não-sabe-que-não-sabe, os sujeitos reagem com um “sei sim!” (que é uma versão do “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe” – versão em bahianês para o que Goethe chamava de ignorância-em-ação). Esta presunção de saber, mesmo diante da mais <em>clueless cluelessness</em> pode ser explicado através de uma anedota de Freud. Dizia o pai da psicanálise que certas situações lhe evocavam uma entrevista de emprego de uma babá: “A senhora tem experiência com crianças?” – “Oh, sim, claro: eu própria já fui uma&#8230;!”.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato de viver em cidades (embora sem sequer dar-se conta de que também ela é uma gramática) leva o sujeito a dizer: “claro que entendo de cidades: eu mesmo vivo em uma!”. O que, convenhamos, é como alguém supor-se pneumologista porque, afinal, respira.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, é preciso ter em conta que o analfabetismo urbanístico não ocorre por inércia: boas cidades podem ser lidas “naturalmente”, sem um ensino diretivo anterior. Aliás, mais radicalmente nos lembra Ivan Ilich, boas cidades educam de um modo que escolas nunca serão capazes. Para que se instale o analfabetismo urbanístico (como patologia cogno-afetiva clínica e epidêmica) não basta não se ensinar geografia urbana nas escolas, é preciso ter cidades desorganizadas e cujo uso pedestre seja punitivo. Não se trata meramente de ser palimpsesto como Salvador (aliás, talvez Salvador seja menos analfabeta urbanística justo nos trechos em que é mais palimpséstica), mas da relação pragmática e moral dos sujeitos com as ruas em seus múltiplos usos – como ocorre no Rio de Janeiro, e que talvez tenha levado a recuperação desta cidade em relação a violência urbana em tão breve tempo: o carioca de todas as classes sociais, como bom flaneur, não desistiu de sua cidade no que ela tem de mais público e coletivo &#8211; as ruas e as calçadas.</p>
<p style="text-align: justify;">O analfabetismo urbanístico é, assim, um ciclo vicioso: quanto menos gente entende cidades, pior elas são usadas; pior usadas, se deterioram; deteriorando, se usa menos; usando menos se deterioram, etc. No limite, se chega a idéia abstrusa de “bairro privado” com 50 itens de lazer, como Horto Bela Vista e LeParcs. Curioso é que seus compradores e moradores não se dão conta de que, por melhores que estes conjuntos habitacionais para ricos sejam, nenhum de seus itens de lazer será o Teatro Castro Alves ou o Museu de Arte Moderna da Bahia; e que, morando longe demais destes, só acessarão estes excelentes aparelhos de lazer mediante um sacrificante (para si e para todos os outros) uso abusivo do automóvel individual (diferente dos igualmente abastados moradores da Vitória que podem ir, e vão, a pé&#8230;).</p>
<p style="text-align: justify;">Como se vê, o analfabetismo urbanístico só existe porque interessa a alguns. Interessa a especulação imobiliária, e à máfia que se intitula “empresas privadas de transporte público”. Interessou por muito tempo a um certo regime político, o carlismo, que criou a aberração que é ter uma capital projetada há 500 anos para ser capital, mas cujo governo estadual já não está no seu Centro – com todas as conseqüências de esvaziamento urbano e aumento de custos que sabemos, e de afastamento da relação direta da sociedade com o poder de estado em mão-dupla, que isso tem. Interessa aos que propagam que “o Pelourinho está abandonado”, o que na melhor das hipóteses é uma meia-verdade (diariamente, ele está tão cheio quanto qualquer Centro Histórico, e bem mais do que o Recife Antigo por exemplo), que acaba por causar aquilo de que se queixa: quanto mais se diz que um bairro está esvaziado, mais esvaziado ele tende a ficar.</p>
<p style="text-align: justify;">O analfabetismo urbanístico é talvez uma das frentes da “Geografia que serve, antes de tudo, para fazer guerra”, no dizer de Yves Lacoste. E sabemos que a Geografia serve para fazer guerra menos pelo saber que ela dá aos donos do poder, e mais pelo saber que ela sonega aos alijados deste (o que no caso das cidades somos todos, da classe média alta aos favelados) ao fazer crer que a geografia (e o urbanismo) são “neutros” ou “inocentes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, uma última objeção. Costuma-se fazer a oposição, no Brasil, entre analfabetos urbanísticos de um lado, e especialistas (urbanistas, arquitetos, etc.) em outro. Esta oposição é apenas uma forma de manter as coisas ruins como estão. Eu, não sendo urbanista, mas tendo crescido sempre em meio a boa arquitetura (e a ensino de geografia urbana desde o primário, no Colégio Antônio Vieira, Garcia) sou urbanófilo – no sentido em que Jean-Luc Godard diz “cinéfilo”. Isto é: aquele que do amor devocional a uma arte, extrai um saber que acaba com sua capacidade ilusória, desvendando seus artifícios de linguagem por dentro.</p>
</blockquote>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Prêmio Nobel de Oralitura</title>
		<link>https://www.ultimobaile.com/?p=4134</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lucas Jerzy Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Oct 2016 18:34:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ler]]></category>
		<category><![CDATA[Bob Dylan]]></category>
		<category><![CDATA[Prêmio Nobel]]></category>
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					<description><![CDATA[para Reverendo Walter Ong, S. J., Paul Zumthor &#38; Milman Parry &#8220;shading of one more layer of skin, keeping one step ahead of the persecuter within (&#8230;) the Book of Leviticus and Deuteronomy, the laws of the jungle and the seas, are all but his teatchers. (&#8230;) Nightsticks, water cannons, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>para Reverendo Walter Ong, S. J., </strong></em></p>
<p><em><strong>Paul Zumthor &amp; Milman Parry</strong></em></p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;shading of one more layer of skin,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>keeping one step ahead of the persecuter within</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>the Book of Leviticus and Deuteronomy,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>the laws of the jungle and the seas,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>are all but his teatchers.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Nightsticks, water cannons, tear gas, padlocks</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>molotov cocktails and rocks behind every curtain&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Jokerman</em></p>
<p style="text-align: justify;">A atribuição do <strong>Prêmio Nobel de Literatura</strong>, pela Academia Sueca, a <strong>Bob Dylan</strong> semana passada com razão gera sentimentos contraditórios em todos &#8211; quiçá até no próprio Dylan, que não se manifestou a respeito até agora nem mesmo para receber a premiação. Por um lado, parece tão óbvio que ofusca como isso não aconteceu antes; e, ao mesmo tempo, é uma enorme quebra de paradigma, incomum para um prêmio tão conservador que evita premiar Haruki Murakami por considerá-lo <em>pop</em> demais.</p>
<p style="text-align: justify;">A justificativa oficial da comenda enfatiza o quanto a lírica de Dylan aproxima a tradição da canção radiofônica americana da tradição poética anglófona &#8211; digamos, até lançar raízes em Geofrey Chaucer. E em entrevista, a secretaria da Academia Sueca mostra ainda como a poesia declamatória musicada está nas origens, equiparando Dylan a Safo e Homero. Os detratores desta escolha dizem justamente que ele é &#8220;apenas um compositor&#8221;, mas a ambivalência de sua obra está nisso: letras extensíssimas e complexas, sem deixar de serem altamente cantáveis e populares (por vezes com uma melodia simples): se seus poemas (sim, poemas!) requerem a performance musicada, eles não são meramente orais senão uma oralidade posterior a grafação erudita &#8211; no que ele se aproxima ainda de Platão (cuja escrita emula uma fala que não só nunca existiu como não existiria) e de Sófocles (cuja fala emula elocubarções lógicas tão sofisticadas que só poderiam existir numa escrita que beirasse a matemática e a geometria).</p>
<p style="text-align: justify;">Cabe lembrar que em outros registros musicais que não a canção já houve obras de valor literário em si: a tetralogia de Richard Wagner, <em>O Anel dos Nibelungos</em>, é como tal reconhecida por gente que vai de Goethe e Nietzsche a J. R. R. Tolkien; e uma parte significativa da obra de Bertold Brecht flutua, dependente da melodia de Kurt Weil, entre a ópera, o rádio e o teatro de revista.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que isso, a natureza nômade de Dylan ratifica seu caráter de bardo rapsodo tanto quanto seu engajamento político e capacidade de relato (<em>Huricane</em> é reportagem em forma de verso tanto quanto <em>Maus</em>, de Art Spiegelman, é reportagem em forma de quadrinhos &#8211; e foi não-ficção a categoria que lhe deu o Pulitzer), por vezes antevendo questões ainda não colocadas, o associa a outras tradições da poesia não-helênica, entre o cosmogônico e o denunciador: os Profetas Judaicos (sobretudo Isaias e Jeremias), os evangelhistas (Mateus pela mística, Lucas pelo historicismo, João pela estética), os Vedas e os Sutras.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas esta é, ainda, a banda conservadora de tal escolha do Nobel: do ponto de vista da semântica e do paradigma, Dylan é um poeta conservador, romântico até &#8211; seus pares no mundo anglófono são Alexander Pope e William Blake, no máximo Walt Whitman. O lado modernizante da premiação este ano está em admitir que existe literatura enquanto fruto de uma escrita cujo suporte não seja o papel grafado, e outro meio de recepção que não seja só o olho letrado.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O Nobel de Literatura é um prêmio vago em seu gênero: prefere autores de romance mas já premiou memorialistas, oradores (Churchill), e comumente premia autores de teatro (forma literária também performática, em que a obra também depende da voz, em que a letra se aproxima da oralidade ou acha nela veículo &#8211; portanto nisso Dylan não é uma grande ruptura). Poetas puros são pouco premiados, e os que são tendem ao mofado. É um prêmio refratário a inovações formais, à direita ou à esquerda (Borges ou cummings nunca rebeceram a honraria) &#8211; num século em que os Estados Unidos estabeleceu o Prêmio Neustadt, no dizer que João Cabral de Melo Neto (um de seus laureados): &#8220;um prêmio de poesia que premia anti-poetas&#8221; (isto é, poetas que rejeitam a tradição clássica ou romântica e se usam de dispositivos hodiernos: ele próprio, cummings, Francis Ponge, Mariane Moore &#8211; esta jamais levaria um Nobel porque nunca estabeleceu obra em livro senão em folhas de jornal, tanto quanto o diácono John Donne, indisputavelmente o maior lírico do idioma inglês, fez poesia em cartas que circulavam de mão em mão).</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se dizer ainda que o Nobel, com sua visão nefelibata de literatura (parece que agora rompida ao menos temporariamente), é uma premiação refratária ao seu próprio tempo, francamente passadista. Só isso explica o maior escritor de todos os tempos, patriarca de todo e qualquer romance possível, vivo ainda quando o Nobel começou a ser atribuido, nunca ter sido laureado &#8211; me refiro ao Conde Liev de Tolstoi. Evidentemente que a obra de Tolstoi não tem qualquer inovação formal ou de conteúdo em relação ao Realismo do século XIX, e que pessoalmente ele foi se tornando mais religioso e reacionário com a idade &#8211; mas até mesmo sua escolha por um ativismo cristão-primitivista o levou a se tornar um fenômeno midiático: sua morte na Estação de Astapovo foi o primeiro evento <em>paparazzi</em> de todos os tempos!</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo explica a refratariedade em relação a Proust, que teria todos os atributos para levar um Nobel (romance tradicional, memorialista, e ensaista): o <em>Em Busca do Tempo Perdido</em> é a elevação de um fenômeno <em>pop</em>, o colunismo social, a condição de vitral gótico.</p>
<p style="text-align: justify;">Das poucas vezes que o Nobel tentou quebrar esse paradigma e se contemporaneizar com questões inclusive da periferia do mundo, foi caricato: Kipling como primeiro representante da Índia, Gabriel Garcia Marques e Mario Vargas Llosa como representantes de uma América Latina que deu ao mundo Juan Rulfo e Júlio Cortázar (pra deixar de fora Borges, que já citamos); uma esquerda militante, se escolhe Neruda, e pra dar alguma vez a última flor do Lácio, José Saramago &#8211; que merecia por si só, mas como bem diz no seu discurso de recebimento: &#8220;está recebendo em nome de Machado de Assis, Eça de Queiroz, João Guimarães Rosa, Miguel Torga e João Cabral de Melo Neto&#8221;. Sem falar claro de Herman Hesse: medíocre e ao fim e ao cabo nazista (ponha-se em parte na conta do empenho do já então laureado, e este sim gigantesco e um herói da ética, para que isso acontecesse: Thomas da Silva Bruhns Mann).</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Interessa menos no entanto colocar em causa o que levou a Academia Sueca a eleger Bob Dylan, e mais tirar disso efeitos. Os que torceram o nariz sobretudo alegam que uma das funções do Nobel é tornar conhecido do grande público, e mais lido, autores de outra forma obscuros &#8211; não vêem com isso que premiar alguém cuja obra está originalmente em outro registro fora do formato literário canônico pode, justamente, atrair novos leitores, e a obra de Bob Dylan sempre foi uma báscula entre a cantiga popular agrária e a literatura mais urbana e erudita.</p>
<p style="text-align: justify;">Este destravamento da Academia Sueca pode ter consequências miméticas. Nada impede que Chico Buarque de Holanda, em quem todas as correntes do modernismo desaguaram (seu pai Sergio, Oscar Niemeyer, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Vinicius de Moraes, e outros tantos) merecidamente receba um Prêmio Camões (embora não se possa reduzir Dylan a um Chico americano: ele é Chico, Raul Seixas, Sá &amp; Guarabira e Geraldo Vandré a um só tempo) ou ingresse na Academia Brasileira de Letras (que, lembremos, já abriu as portas a Paulo Coelho&#8230;).</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo dentro do próprio Nobel passam a figurar na fila doravante autores de obras literárias em prosa dependentes da ilustração. Não creio que algo radical como o recente (e excelente!) <em><a href="https://www.google.com.br/search?q=here+richard+mcguire&amp;espv=2&amp;biw=1024&amp;bih=638&amp;source=lnms&amp;tbm=isch&amp;sa=X&amp;ved=0ahUKEwicooujgerPAhWFkpAKHX7AB5MQ_AUIBigB" target="_blank">Here</a></em>, em que a narrativa se dá no espaço e não no tempo e na verdade é a palavra escrita que auxilia a imagem, e não o contrário; algo como a obra de DeMateis, que já de si em <em>Moonshadow</em> porta diversas referências explícitas à literatura erudita nas epígrafes de cada capítulo desta novela, como Becket e Lewis Carroll, mas cujo enredo bebe no romanceiro beat e na ficção científica pulp &#8211; e seguramente Neil Gaiman, alguém que o próprio Harold Bloom já chamou de gênio e que, embora figura crucial nos quadrinhos é também um autor em prosa pura tradicional plenamente auto-suficiente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou ainda, que o Nobel e outros prêmios se abram ao que Ursula LeGuin chama de &#8220;realistas de outras realidades&#8221;: a ficção científica e a fantasia &#8211; jamais premiadas neste ou em outros prêmios convencionais, senão os setoriais, a não ser na figura de Doris Lessing (e neste caso, quase apesar de ela fazer também ficção espacial &#8211; o Nobel lhe foi dado claramente por sua obra realista anterior).</p>
<p style="text-align: justify;">Claro que se pode apontar sempre um legado negativo desta virada: uma ratificação dos audiolivros como substitutos legitimos da leitura silenciosa ou em voz alta presencial (doméstica ou teatral) &#8211; embora isso seja reduzir Bob Dylan a um autor de discos, apenas, e não de performatividades (inclusive o ar <em>blasé</em> com o qual nada disse ainda a respeito de ter recebido um Nobel), e seja ínfimo diante do salto qualitativo que este evento representa desde já e doravante.</p>
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		<title>Peixes no Aquário (ou: Nada, sem chegar a canto algum)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lucas Jerzy Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Sep 2016 15:07:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flanar]]></category>
		<category><![CDATA[Ver]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[direito a cidade]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Muito frisson se tem feito em torno do segundo longa metragem de Kleber Mendonça Filho, Aquárius &#8211; sobretudo por causa da manifestação do seu elenco no Festival de Cannes contra o impeachment da ex-Presidente Dilma Roussef, de tal forma que o filme virou um ícone do &#8220;Fora Temer&#8221;, o que [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Muito frisson se tem feito em torno do segundo longa metragem de Kleber Mendonça Filho, <strong>Aquárius</strong> &#8211; sobretudo por causa da manifestação do seu elenco no Festival de Cannes contra o impeachment da ex-Presidente Dilma Roussef, de tal forma que o filme virou um ícone do &#8220;Fora Temer&#8221;, o que inviabiliza sua real discussão (no sentido de que qualquer crítica a ele é automaticamente tomada como de direita, golpista ou neoliberal).</p>
<p style="text-align: justify;">O fato é que o filme é medíocre, embora não seja cinematograficamente ruim &#8211; mas que, sobretudo, a discussão urbanística que propõe é simplista, enviesada, e tem um horizonte de classe muitíssimo estreito (muito aquém, inclusive, do seu primeiro longa). O roteiro é envolvente, a direção de atores é bem acima da média, e as soluções tanto de deslocamento de câmera quanto de corte e edição são de alguém que domina a gramática do cinema &#8211; como se sabe de Kleber desde seu curta metragem <em>Recife Frio</em>. No entanto, a capitação de som direto é ruim e por vezes inaudível &#8211; o que é de se estranhar de alguém cuja estréia no longa-metragem foi<em> O Som Ao Redor</em>, cuja sonoplastia por DJ Dolores é o trunfo do filme.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, do ponto de vista urbanístico, a defesa quixotesca, por parte da personagem Clara, de um prédio de 3 andares e ocupação extensiva do lote, já vazio, contra uma empreiteira verticalizante de condomínio fechado, é lido equivocadamente como se um defendesse o direito à cidade e o outro não. Ou como se apontar isso fosse defender a empreiteira. <a href="http://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2016/09/1816631-conjunto-de-distorcoes-explica-poder-de-barganha-de-clara-de-aquarius.shtml" target="_blank">Trata-se, no entanto, do embate entre duas formas de especulação imobiliária</a>, cada uma a seu modo contra o direito à cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Clara é lida por &#8220;<a href="https://www.ultimobaile.com/?p=3839" target="_blank">esta esquerda que ignora o específico o espaço</a>&#8221; (obrigado, Yves Lacoste, Henri Lefebvre &amp; Milton Santos) como uma espécie de Jane Jacobs tropical &#8211; sem se dar conta, é claro, de que a <a href="http://www.newyorker.com/magazine/2016/09/26/jane-jacobs-street-smarts" target="_blank">Dona de Casa do Village só barrou Robert Moses por seu extremo senso de comunidade</a>, e Clara é uma individualista radical (inclusive indo contra os interesses de seus pares, filhos, etc)!</p>
<p style="text-align: justify;">(Para além do <a href="http://www.fau.usp.br/depprojeto/labhab/biblioteca/textos/maricato_analfabetismourbano.pdf" target="_blank">analfabetismo urbanístico</a>, isto revela uma dificuldade de nossa esquerda em formular uma teoria do sujeito em ação social: para ela, ou ele se evanece em movimentos grupais, ou é solitário: tudo é bidimensional, ou horizontal ou vertical, não comparece o terceiro eixo da pragmática e do vernáculo &#8211; falta, enfim, o fractal.)</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Aquárius</em> se pretende assim um filme que aborde temas similares ao do <a href="http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/30/opinion/1448840154_656256.html" target="_blank">Movimento Ocupe Estelita</a> &#8211; quando tal movimento está muitíssimo além das questões levantadas pelo filme. Por exemplo, ele não se limita a posição contrária à verticalizações, aliás, reconhece a necessidade de verticalização se se quer aumentar a densidade e a diversidade do uso de um determinado bairro. Outra: foca na reocupação do Centro, onde a infraestrutura já existe e é ostensiva e qualificada. Mais ainda, não defende apenas habitação popular: se é contra o Projeto Novo Recife é por ele ser exclusivamente para uma classe social mais abastada &#8211; reconhecendo que um bairro, para ser vivo e dinâmico, precisa tanto de ricos quanto de pobres circulando por ele.</p>
<p style="text-align: justify;">É curioso que os movimentos urbanos contra verticalizações usem como principal argumento o sombreamento das praias (Salvador, Recife) ou a perda da frequência tradicional do bairro (Vila Madalena, em São Paulo &#8211; o que, vindo da esquerda, nada difere do horror ultra-direitista do Jardim Europa em relação a sua verticalização): estes ou não são problemas principais, ou são inclusive vantagens. A Vila Madalena tem tudo a ganhar se deixar de ser um bairro apenas de hostels e brechós e prever sua verticalização paulatina (prédios de até 6 andares, com escada ao invés de elevadores, etc.); prédios de 20 andares em Piatã são sobretudo problematicos por gerarem moradia onde não há habitação (não são sinônimos: habitação é a vida cotidiana do entorno: a padaria da esquina, a quitanda, etc) e assim acirrar a carrodependência (individual ou coletiva, esta através de linhas de ônibus).</p>
<p style="text-align: justify;">O que nos leva a um ponto vantajoso de <em>Aquárius</em> jamais aproveitado:<a href="http://caosplanejado.com/cidades-brasileiras-a-pior-verticalizacao-do-mundo/" target="_blank"> uma arqueologia dos modos residenciais das metrópoles brasileiras comparativamente a outras metrópoles coetâneas do mundo ocidental</a>, sobretudo da América Latina. O Brasil evitou a moradia em apartamentos mesmo depois de diversas reformas urbanas do século XIX e XX: o hausmannismo de Pereira Passos favelizou o Rio de Janeiro sobretudo por não verticalizar moradias &#8211; quando em Buenos Aires se encontram edifícios residenciais multifamiliares de mais de 4 pavimentos com mais de 100 anos&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Aí, com o fim da República Velha, o Brasil passa a ver surgirem arranha-céus residenciais, dependentes de elevadores, mas em geral com relativo luxo, e distantes do Centro (Copacabana, por exemplo) &#8211; e por outro lado, conjuntos habitacionais de subúrbios ou vila operárias. Isto deveria nos servir de lição: ser contra a verticalidade não impede que ela aconteça, mas sim garante que ela aconteça tardiamente, do pior modo possível, catastroficamente. De tal forma que os nossos prédios residenciais modernistas, bauhaus e art-decor que eu pessoalmente tanto elogio pela sua relação franca com a rua e a evitação de &#8220;ítens de lazer&#8221; no térreo (o lazer se faz na rua, no clube, na praça, na praia) são os antepassados dos &#8220;condomínios com 50 ítens de lazer&#8221; da atualidade &#8211; e não, como em outras metrópoles, antagonistas anteriores a eles.</p>
<p style="text-align: justify;">Isto só foi possível, diga-se de passagem, pela abolição da escravatura ter sido tardia: enquanto houve braços negros, a habitação em chácara de arrabalde era viável; quando deixa de existir a a classe trabalhadora se organiza, o deslocamento vertical se faz premente mas só realizável se o braço negro for substituído por uma máquina, e nunca autonomamente por casa sujeito, como Gilberto Freyre já mostrava em <em>Sobrados &amp; Mocambos</em>, especificamente no capítulo &#8220;Escravo, animal e máquina&#8221;. (E é curioso que Kleber Mendonça Filho tenha abdicado de sua herança freyriana neste filme, quando foi um dos traços positivos do seu anterior).</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda, é notável que toda a discussão urbanística de Aquárius gire em torno do destino de um lote privado, e não de seus espaços públicos lindeiros &#8211; o que é correlato do fato de que se foca pouco na revisão dos Códigos de Obras das metrópoles brasileiras (a exceção de São Paulo), que exigem vagas de garagem mas que poderiam ao contrário estimular o uso comercial do térreo (o que inclusive torna as moradias mais baratas), enquanto se fala muito em PDDU e LOUOS, que neste quesito não são de mesma importância. Sobre isso, o melhor filme brasileiro deste ano, verdadeiro herdeiro de  Robert Bresson, enfoca bem embora não seja seu tema central: <em><a href="https://www.youtube.com/watch?v=j5EFtDbbKxY" target="_blank">Para Minha Amada Morta</a></em>, com seus espaços públicos curitibanamente ou vázios ou meramente funcionais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Aquárius</em></strong> está assim, na prática, muito mais a direita do que gostaria, do que supõe ou do que enxergam seus fãs. Que ele seja o ícone contra &#8220;O Golpe Temerário&#8221;, mostra como estamos mal parados.</p>
<p style="text-align: justify;">
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