<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	xmlns:georss="http://www.georss.org/georss" xmlns:geo="http://www.w3.org/2003/01/geo/wgs84_pos#" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/"
	>

<channel>
	<title>Alessandro Velberan</title>
	<atom:link href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com</link>
	<description></description>
	<lastBuildDate>Sun, 14 Mar 2021 20:28:03 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.com/</generator>
<cloud domain='alessandrovelberan.wordpress.com' port='80' path='/?rsscloud=notify' registerProcedure='' protocol='http-post' />
<image>
		<url>https://s0.wp.com/i/buttonw-com.png</url>
		<title>Alessandro Velberan</title>
		<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com</link>
	</image>
	<atom:link rel="search" type="application/opensearchdescription+xml" href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/osd.xml" title="Alessandro Velberan" />
	<atom:link rel='hub' href='https://alessandrovelberan.wordpress.com/?pushpress=hub'/>
	<item>
		<title>NÃO CHAME SUA MULHER DE “MINHA MULHER”</title>
		<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2021/03/14/nao-chame-sua-mulher-de-minha-mulher/</link>
					<comments>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2021/03/14/nao-chame-sua-mulher-de-minha-mulher/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alessandro Velberan]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Mar 2021 16:58:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://velberan.com/?p=198</guid>

					<description><![CDATA[No começo dos anos 2000 eu trabalhava no escritório do depósito de uma loja de móveis. Diariamente pegava o ônibus Interbairros, que dava volta na cidade inteira antes de chegar ao meu local de trabalho, que nem ficava tão longe assim da minha casa. Se eu tivesse um carro, conseguiria fazer o percurso em cerca<a class="more-link" href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2021/03/14/nao-chame-sua-mulher-de-minha-mulher/">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">"NÃO CHAME SUA MULHER DE “MINHA&#160;MULHER”"</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image size-large"><img width="1024" height="482" data-attachment-id="202" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2021/03/14/nao-chame-sua-mulher-de-minha-mulher/minha-mulher/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2021/03/minha-mulher.jpg" data-orig-size="1200,565" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="minha-mulher" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2021/03/minha-mulher.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2021/03/minha-mulher.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2021/03/minha-mulher.jpg?w=1024" alt="" class="wp-image-202" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2021/03/minha-mulher.jpg?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2021/03/minha-mulher.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2021/03/minha-mulher.jpg?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2021/03/minha-mulher.jpg?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2021/03/minha-mulher.jpg 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>No começo dos anos 2000 eu trabalhava no escritório do depósito de uma loja de móveis. Diariamente pegava o ônibus Interbairros, que dava volta na cidade inteira antes de chegar ao meu local de trabalho, que nem ficava tão longe assim da minha casa. Se eu tivesse um carro, conseguiria fazer o percurso em cerca de 15 minutos, mas de ônibus, levava mais de hora. Por essa razão, ficava de olho nas regiões em que os caminhoneiros passariam nas últimas entregas do dia para pedinchar carona, caso eles fossem perto de onde eu morava.</p>



<p>Um dos que costumava me levar era um homem com seus quarenta e tantos anos, baixinho, rechonchudo e jeito simples de quem veio do interior para trabalhar na capital. Vou chama-lo aqui de Valdi, apesar de não lembrar ao certo que agora se ele era o Valdi ou o Edson.</p>



<p>Na boleia dos caminhoneiros daquela loja era comum ouví-los fazendo comentários gosmentos a respeito das moças que viam passando pelas calçadas. “Gostosa!” “Ô lá em casa” e “olha que rabão!” eram gentileza perto do que meus colegas de trabalho falavam. A maior grosseria que ouvi, e que não esqueço até hoje, veio de Valdi, que ao ver uma garota com corpo volumoso passando na rua, meteu a mão na estridente buzina do caminhão e gritou pela janela: “Meu Deus! Isso que é mulher!” e voltando-se ao volante falou, em voz mais baixa, como para si mesmo, disse: “e não aquela <em>bosta</em> que eu tenho lá em casa&#8230;”.</p>



<p>Pois é, a “bosta” a que ele se referia era sua esposa.</p>



<span id="more-198"></span>



<p>Dá para imaginar que Valdi é daqueles homens machistas que tratam a esposa como nem um bicho sarnento mereceria ser tratado, mas era bem o contrário.</p>



<p>Logo que comecei a trabalhar naquele depósito, Marcão, meu colega de escritório atendeu o telefone e gritou para se fazer ouvir no barracão: “Valdi! Sua esposa no telefone”. Valdi apareceu mais rápido do que o Super Sonic usando botas da velocidade e falou com sua esposa com palavras carinhosas e cheio de medo. Parecia um menininho raquítico falando com o valentão da escola da maneira mais passiva possível para evitar de levar outro chá-de-cueca. Depois que ele voltou aos seus afazerem, Marcão me falou:</p>



<p>&#8211; Essa mulher do Valdi é o cão, piá. Já esteve aqui no depósito procurando por ele. Cuidando quando atender ligação dela.</p>



<p>&#8211; Como assim “cuidado” – respondi, já ficando aflito também.</p>



<p>&#8211; Não fale muito com ela, só chame o Valdi e diga se ele está ou não está, mais nada. Vai por mim.</p>



<p>Atendi ligações dela algumas vezes e pude notar o timbre de voz ríspido da mulher. Quando ele não estava, apenas dizia “não está presente no momento” e me esquivava de qualquer outra pergunta que ela fizesse, quando estava, ele repetia o comportamento: amorzinho pra cá, minha vida pra lá, enquanto tremia de nervosismo ao telefone.</p>



<p>Lembrei de Valdi essa semana ao me deparar com este <em>tweet </em>da ativista Debora Diniz:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-rich is-provider-twitter wp-block-embed-twitter"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="embed-twitter"><blockquote class="twitter-tweet" data-width="550" data-dnt="true"><p lang="pt" dir="ltr">Aos homem do século 21:<br>Não chame a mulher com quem se casou de “minha mulher”. <br>Diga o nome dela.</p>&mdash; Debora Diniz (@Debora_D_Diniz) <a href="https://twitter.com/Debora_D_Diniz/status/1370703500175360000?ref_src=twsrc%5Etfw">March 13, 2021</a></blockquote><script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></div>
</div></figure>



<p>Já era de se esperar que tal comentário geraria uma boa dose de polêmica nas repostas da publicação. Eu mesmo me senti de certa forma ofendido com a “regra” pois faço questão de chamar minha mulher de “minha mulher”, quando me refiro a ela para outras pessoas.</p>



<p>Certa vez ela chegou a me dizer que se sentia incomodada com a forma a que eu me referia a ela: “Eu vejo os outros homens se referindo a suas esposas como ‘esposa’ mesmo. Parece que falando ‘minha mulher’ poderia ser qualquer uma”.</p>



<p>Eu expliquei meu ponto: “Não é qualquer uma. É a MINHA mulher. Dizer ‘minha esposa’ parece formal demais. Falaria assim num ambiente mais impessoal, mas com amigos e colegas, soa como se nossa relação fosse puramente institucional, que não houvesse mais calor em nosso casamento. Eu só te chamaria de ‘minha esposa’ quando eu não te enxergasse mais como mulher”.</p>



<p>A forma como nos referimos a outras pessoas diz muito sobre o que pensamos dela e nosso grau de aproximação. Por exemplo, um filho que chama o pai pelo nome, mostra que o respeita, mas não se sente muito próximo. Mesma coisa para como os maridos se referem à suas esposas. Tem aqueles que a chamam, para seus amigos, de “patroa”, e isso já denota que em casa, quem manda é ela, mas eu ainda sinto carinho e calor nessa palavra. Quando o marido chama a esposa de “dona encrenca”, aí lascou tudo. Quando, numa conversa informal, vejo alguém falando “minha esposa” para se referir à mulher com quem é casado, sinto um certo distanciamento do casal. Pode até não ser o caso, mas é a impressão que fica.</p>



<p>Usar o nome para se referir a uma pessoa íntima, como Débora Diniz sugeriu que os “homens do século 21” fizessem, é de uma frieza enorme. As pouquíssimas vezes que minha mulher me chamou pelo nome, estava brigando, e brigando feio! Por isso, ouvir meu nome saindo da boca dela soa mais ofensivo do que um xingão.</p>



<p>Recentemente está rolando uma onda de revisionismo linguístico que trouxe algumas coisas boas, como livrar nosso palavreado de termos de origem preconceituosos, e trouxe também coisas que soam mais como pura e simples cagação de regra sem sentido. Mudar os termos que usamos não mudam o que queremos dizer com esses temos, é a sociedade que dá sentido às palavras e não o contrário.</p>



<p>Eu entendo perfeitamente a intenção do pedido para usar “minha mulher” para um marido se referir à mulher com quem casou: a palavra “minha” pode ter o sentido de <strong>posse</strong>. Não fiz uma pesquisa sobre a raiz do termo, mas não duvido que se origine dos tempos em que os homens eram, sobre os olhos da sociedade e, em parte, até da lei, proprietários das mulheres que desposavam. Esse sentimento pode culminar em relacionamentos abusivos ou coisa até pior. Porém, não é a forma como falamos que vai mudar isso e sim que o marido deve ter consciência de que não é dono de quem se relaciona, independentemente de como a chame.</p>



<p>Tem a questão do machismo estrutural, que são conceitos impregnados na nossa cultura que normalizam condutas que inferiorizam as mulheres e há quem pode dizer que “minha mulher” faça parte disso, mas eu discordo. Por mais que em tempos antigos essa pode ter sido a intenção, os tempos mudam e o significado das palavras também. Não me lembro de nenhum homem se referindo à esposa como “minha mulher” com conotação de propriedade, como se estivesse falando do seu carro, por exemplo.</p>



<p>Eu sou sim a favor da igualdade, tanto cultural quanto linguística, mas creio que isto deve ser feito através de inclusão e não da exclusão. Porque invés de pedir para os maridos não chamarem as esposas de “minha mulher”, as esposas não se acostumam a chamar os maridos de “meu homem”? Eu ia adorar ouvir minha mulher me chamando de “meu homem” quando se refere a mim nos bate-papo com suas amigas. Invés de achar que ela está me tratando como propriedade, eu ia é ficar com tesão (fica a dica aí, morzinho).</p>



<p>Provavelmente vai ter gente dizendo aqui que estou fazendo <em>mansplaining</em>, <em>manterrupting</em>, e que eu devia é estar pedindo desculpa por ter nascido com um pênis invés de escrever o que eu penso, mas acho que a construção de uma sociedade igualitária não deve ser feita com opiniões unilaterais e quando interferem na maneira como eu falo, eu tenho lugar de fala sim e tenho direito de expressar o que penso sobre o assunto. Pois sei bem que não adianta um marido falar o que a esposa quer ouvir pela frente, e pelas costas a chamar de “aquela bosta que eu tenho lá em casa”.</p>



<p class="has-text-align-right"><strong><a href="https://velberan.com/2021/03/14/nao-chame-sua-mulher-de-minha-mulher/#respond">Deixe um Comentário</a></strong></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2021/03/14/nao-chame-sua-mulher-de-minha-mulher/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>20</slash:comments>
		
		
		
		<media:content url="https://0.gravatar.com/avatar/039825f0b054098e7cd2b6c183b9c0c61be0225c05067c19a6fa4e943db30fce?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">velberan</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2021/03/minha-mulher.jpg?w=1024" medium="image" />
	</item>
		<item>
		<title>Como Foi Minha Vasectomia</title>
		<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/09/16/como-foi-minha-vasectomia/</link>
					<comments>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/09/16/como-foi-minha-vasectomia/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alessandro Velberan]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Sep 2020 17:10:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blogue]]></category>
		<category><![CDATA[vasectomia]]></category>
		<category><![CDATA[vasectomia recuperação]]></category>
		<category><![CDATA[vasectomia relato]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://velberan.com/?p=190</guid>

					<description><![CDATA[Fiz vasectomia e nessa postagem relato como foi minha experiência.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img width="416" height="347" data-attachment-id="192" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/vasectomia1/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia1.jpg" data-orig-size="416,347" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="vasectomia1" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia1.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia1.jpg?w=416" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia1.jpg?w=416" alt="" class="wp-image-192" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia1.jpg 416w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia1.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia1.jpg?w=300 300w" sizes="(max-width: 416px) 100vw, 416px" /></figure></div>



<p>Fiz vasectomia! Estou com 38 anos e tenho um filho de 15. Eu e minha esposa chegamos a cogitar algumas vezes em gerar mais uma criança, mas o tempo foi passando e a vontade de ser pai também. Por mais que eu tenha adorado a experiência, não teria a mesma saúde para fazer tudo de novo, então, antes que algum “acidente” acontecesse aqui, resolvi fechar a fábrica.</p>



<span id="more-190"></span>



<p>A decisão eu já tinha tomado há anos, o que demorou foi tomar coragem para fazer a cirurgia. Detesto hospital, detesto ir ao médico e fazer cirurgia então evito ao máximo! As únicas vezes em que <em>fui pra faca </em>foram para remover um siso e outra para fazer um canal (aliás, vou precisar fazer outro).</p>



<p>Há um mês fui ao urologista saber como o procedimento funcionava. Previamente realizei várias pesquisas, li muitos artigos e assisti a alguns vídeos de médicos e de homens que já realizaram a cirurgia, só faltava a opinião de quem iria realizar o ato.</p>



<p>O doutor me tranquilizou sobre a vasectomia, falando que é uma cirurgia simples (alguns médicos mal a consideram uma cirurgia, pois não tem os riscos e complicações esperados desses procedimentos) e, segundo ele, “se você aguentou fazer um canal, me aguenta também”. Ele me explicou os preparativos e o pós-operatório, e desmistificou algumas ideias que pessoas desavisadas costumam pensar a respeito. O que a cirurgia faz é cortar o canal por onde os espermatozoides passam para chegar à próstata, onde se misturam com o sémen e vão lutar pela vida quando ejaculados. Cortando este canal, os espermatozoides não encontram seu caminho, morrem e são absorvidos pelo corpo. Todo o mais continua igual: os testículos funcionam normalmente, produção de testosterona não é afetada e a ejaculação é a mesma, só que sem as minhoquinhas que fazem neném. Não é uma castração como fazem com os porcos e os touros, para engordá-los para o abate, é uma simples interrupção da fertilidade. O doutor também salientou a importância da decisão: vasectomia é um procedimento de esterilização <strong>permanente</strong> e, apesar de existir cirurgia de reversão, a taxa de sucesso é baixa. Quem se dispõe a realizá-la deve ter a plena certeza que nunca mais vai querer engravidar uma mulher por vias normais. Por fim, mas não menos importante (aliás, é uma informação importantíssima) o efeito da vasectomia não é instantâneo. Depois dos canais serem cortados, a próstata continua cheia dos espermatozoides que foram para lá antes da operação, e a esterilização só é concluída após cerca de 30 ejaculações para botar todas as praguinhas pra fora, e métodos anticoncepcionais devem ser usados enquanto isso. Depois do período, um espermograma deve ser feito para garantir que tudo saiu como planejado.</p>



<p>Decidido, marquei a cirurgia, que realizei na semana passada. Antes de sair de casa, fiz a brasileirinha (segundo o doutor, pelos juntam bactérias que podem prejudicar a cicatrização), respirei fundo e fui para a clínica acompanhado da minha esposa.</p>



<p>Apesar de toda informação que eu coletei, não tinha como não ficar nervoso. Iam enfiar um bisturi no meu saco! Como alguém pode ficar tranquilo numa situação dessas?</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img width="600" height="451" data-attachment-id="193" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/vasectomia2/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia2.jpg" data-orig-size="600,451" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="vasectomia2" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia2.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia2.jpg?w=600" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia2.jpg?w=600" alt="" class="wp-image-193" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia2.jpg 600w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia2.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia2.jpg?w=300 300w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" /></figure></div>



<p>Vi várias vezes em postagens de redes sociais mulheres feministas ridicularizando o apreço que os homens têm com suas partes baixas, mas para mim, isso é como menstruação: somente quem menstrua sabe como é estar menstruada, e quem não tem ovários não tem conhecimento de causa para opinar a respeito. Quem não tem saco não tem nada que criticar o carinho que os homens têm por suas bolas também. Não é uma questão de masculinidade ou machismo, vai além. É como se a parte íntima do homem fosse uma criatura simbionte que o acompanha desde o nascimento. Ele é um companheiro para todas as horas e rende muitas alegrias, porém, é frágil, e cabe ao homem cuidar e proteger o seu bem precioso. Mais ou menos como um neném, que o pai e a mãe zelam o tempo todo para que nada aconteça, porém, o saco está lá no homem a vida toda, e protegê-lo se torna um instinto constante, como respirar. Não que o saco faça o homem, não me entenda errado, nem quero soar transfóbico ou coisa do tipo. Mas que tem, cuida.</p>



<p>Explicando isso, acredito que qualquer um vai entender por que eu estava me sentindo como se estivesse levando meu filho para tomar vacina. Sabia que ia doer, sabia que ele ia chorar e gritar e eu me sentiria um monstro por estar colocando-o naquele lugar, mesmo que fosse para o bem dele.</p>



<p>Dando a hora, minha esposa ficou na sala de espera enquanto eu fui ao vestiário. A enfermeira, uma moça de vinte e poucos anos, me instruiu a tirar toda a roupa, deixar os pertences no armário e vestir o avental descartável com a parte aberta para trás. Nos filmes esses aventais de hospital eram de um longo tecido firme azul, mas era um TNT tão fino que chegava a ser transparente e tão pequeno que mal consegui amarrá-la na minha cinturinha de botijão de gás. Provavelmente a escolha do material descartável seja por conta da pandemia, mas, ainda que eu seja uma pessoa bastante desinibida, me senti desconfortável e exposto com aquele avental ridículo.</p>



<p>Preparado, entrei na sala de cirurgia. O doutor me cumprimentou animado e vestiu seu avental (de bom material) enquanto a enfermeira me instruía a deitar na maca e me preparava. Estava eu lá com a piroca depilada de fora, toda encolhida como se estivesse prestes a levar um chute, mas outra coisa desviava minha atenção. Os dois continuaram uma conversa que eu perdi o começo, sobre um homem que entrou em contato com o doutor por estar com uma infecção no pênis. Ele tinha ido a outros hospitais, foi examinado e encaminhado para casa com uma receita para analgésico. Seu quadro só piorava, por isso falou com um amigo que falou com um amigo que pediu ajuda para o doutor que, depois que a enfermeira esterilizou a área da cirurgia, estava apertando o canal que seria cortado para localizá-lo.</p>



<p>&#8211; Vou aplicar a anestesia agora – disse ele – vamos fazer no lado esquerdo primeiro, depois aplico outra anestesia para o lado direito. Você vai sentir a picada e uma dor com o líquido entrando, mas depois não vai sentir mais nada.</p>



<p>A anestesia não foi tão dolorosa quanto imaginei, as que tomei quando tratei o canal foram muito piores. Mas eu não fiquei tão insensibilizado como o doutor me falou. Logo senti uma pinça, ou algo assim apertando a pele e o médico puxando algo de dentro. Que sensação horrível! Se alguém te falar que vasectomia não dói, pode saber que está de sacanagem. Parecia que estavam enfiando um anzol no ovo e puxando de dentro do saco como quem pesca um peixe. A dor é a mesma que senti quando levei uma bolada nas bolas, numa das minhas poucas tentativas de jogar futebol, nas aulas de Educação Física na escola. Falei para o doutor o que estava sentindo e ele explicou que era normal e continuou o procedimento enquanto falava com a enfermeira.</p>



<p>&#8211; O paciente me mandou a foto, estava horrível! O pênis todo inchado, já meio amarelado, um absurdo! Como os outros médicos viram aquilo e mandaram ele pra casa? Eu com uma foto que no celular já vi a gravidade. Mandei ele para o internamento na mesma hora.</p>



<p>&#8211; E como está? – perguntou a enfermeira, que no momento estava só de prontidão, afastada da maca – Não é caso de amputar né?</p>



<p>&#8211; Nada! Ele está com risco de morte, a infecção já se espalhou, estamos tentando salvá-lo.</p>



<p>Eu tendo os ovos pescados ouvindo aquela história trágica. Senti a linha dos pontos passando pela pele, o que indicava que um lado já tinha ido. A anestesia do lado direito foi aplicada e o doutor começou o procedimento da mesma forma que antes, mas dessa vez, doía muito mais! A fisgada era parecida, só que mais intensa, como se estivessem tentando tirar a bola pelo ouvido.</p>



<p>&#8211; Está doendo? – perguntou a enfermeira ao ver minha cara se contorcendo de dor.</p>



<p>&#8211; Pra caramba! Muito mais que o do outro lado.</p>



<p>&#8211; Ah, isso é normal – disse o doutor descontraidamente – Tem até estatística pra isso, o segundo lado sempre dói mais que o primeiro. Mesmo que faça primeiro o lado direito e depois o esquerdo, o segundo vai doer mais.</p>



<p>Ele aplicou outra dose de anestesia, o que aliviou um pouco, mas o incomodo continuou enorme. E o papo dos dois mudou: do nada, o doutor começou a falar de esquetes de humor que assistia no Youtube. Falou dos Barbixas – seus favoritos – e como ficou impressionado com o talento do Fabio Porchat, quando foi a uma apresentação de stand-up dele. Morri de medo que, ao relembrar as piadas, ele desse risada e a mão que estava me cortando escorregasse e cortasse o que não devia. Felizmente isso não aconteceu.</p>



<p>Pode parecer que estou relatando essas conversas em tom de reclamação ao profissionalismo do médico, mas só estou compartilhando e não me queixando. Por mais insólita que tenha sido a experiência, se ele estava batendo papo tão à vontade enquanto realizava a cirurgia era porque já tinha prática o suficiente para tal. Me lembrei de quando eu trabalhava em fábrica no Japão e papeava à vontade com os colegas, mesmo os chefes proibindo conversas durante o expediente. A repetição constante dos movimentos treinava minha memória muscular para repetir os procedimentos mesmo sem olhar o que estava fazendo. Para o urologista devia ser o mesmo, e me senti uma peça de carro na esteira da fábrica em que trabalhava, sendo parafusado enquanto eu conversava à toa.</p>



<p>Costurado o outro lado, a cirurgia terminou. Me vesti novamente com muita dificuldade, parecia que ele tinha arrancado meus testículos e colocado duas bolas de chumbo no lugar. Pesava, incomodava, e tinha aquela sensação de pós-chute no saco, que continua doendo mesmo após a pancada. Fui com minha esposa à sala dele, onde pegamos a receita de analgésicos e anti-inflamatórios que eu teria de tomar por alguns dias como prevenção. A cirurgia correu bem, e passando o período de três dias de repouso, com os cuidados que ele recomendou, tudo deveria estar em ordem.</p>



<p>Nos dois primeiros dias a sensibilidade na área atingida era absurda! O doutor disse que não havia necessidade de comprar uma cueca pós-cirúrgica, somente colocar uma meia enrolada debaixo das coisas, para mantê-las firmes e sem o risco de serem apertadas pelas coxas já resolveria. Foi o que eu fiz e a gambiarra econômica funcionou bem, mesmo assim, toda vez que me levantava sentia os ovinhos se mexendo desconfortavelmente dentro do saco, sentia o peso da gravidade agindo sobre eles de modo que nunca senti. Nos primeiros dois dias houve inchaço, e quando eu o olhava, me lembrava de quando levei meu cachorro para fazer uma cirurgia na pata. Ele, todo enfaixado, me olhava magoado como quem dizia: “você deixou eles fazerem isso comigo”. Meu saco me olhava igualzinho. Para dormir também foi complicado pois tenho costume de dormir de bruços ou de lado, e foi um terror conseguir dormir de barriga pra cima, para não correr o risco de apertar as coisas durante o sono.</p>



<p>Felizmente, no terceiro dia o inchaço reduziu bastante assim como o desconforto. A cicatrização está ótima e já estou uns 80%, falta só o ovinho direito – o que doeu mais durante a cirurgia – terminar de se recuperar.</p>



<p>Provavelmente vasectomia está entre as mais simples das cirurgias. A operação, os riscos e a recuperação são muito mais tranquilos que a maioria dos procedimentos que podemos sofrer, mas isso não quer dizer que ela seja agradável ou indolor. Isso sem falar que ela mexe com a parte mais sensível do corpo masculino, e por isso afeta tanto o físico como o psicológico. Porém, agora que já estou quase totalmente recuperado, posso dizer que passar por tudo isso para nunca mais precisar fazer pinguelo valeu à pena, sem falar que a preocupação do risco de algo dar errado durante uma relação com a patroa estava afetando meu desempenho na cama. Sobre a preocupação de perder a potência ou coisa assim, ela foi afastada logo no segundo dia a cirurgia. Estranhamente voltei a ter ereção espontânea quando acordo, coisa que, pra quem não sabe, costuma ser normal em homens de menos idade, mas acontece com menos frequência com o passar dos anos.</p>



<p>Sexualmente, há anos não me sinto tão disposto e viril. O único trauma que a vasectomia me deixou foi ter que lembrar de ter o saco cortado toda vez que ver o Fabio Porchat na propaganda de TV por assinatura.</p>



<p class="has-text-align-right"><a href="https://velberan.com/2020/09/16/como-foi-minha-vasectomia/#respond">Deixe um Comentário</a></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/09/16/como-foi-minha-vasectomia/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>5</slash:comments>
		
		
		
		<media:content url="https://0.gravatar.com/avatar/039825f0b054098e7cd2b6c183b9c0c61be0225c05067c19a6fa4e943db30fce?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">velberan</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia1.jpg?w=416" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/vasectomia2.jpg?w=600" medium="image" />
	</item>
		<item>
		<title>Pandemia no shopping</title>
		<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/09/03/pandemia-no-shopping/</link>
					<comments>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/09/03/pandemia-no-shopping/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alessandro Velberan]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Sep 2020 17:27:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[corona vírus]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[quarentena]]></category>
		<category><![CDATA[reabertura dos shoppings]]></category>
		<category><![CDATA[shopping center]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://velberan.com/?p=180</guid>

					<description><![CDATA[Hoje vou publicar no blog a primeira crônica escrita por mim. As situações são baseadas em observações que fiz e comentários que li, e os personagens foram criados para uma outra história, que talvez um dia eu escreva, mas resolvi usá-los para estrelar essa história. Todos os comentários sobre o texto são bem vindos, espero<a class="more-link" href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/09/03/pandemia-no-shopping/">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">"Pandemia no shopping"</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" data-attachment-id="184" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/aglomeracao-2/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/aglomeracao.jpg" data-orig-size="806,443" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="aglomeracao" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/aglomeracao.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/aglomeracao.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/aglomeracao.jpg?w=806" alt="" class="wp-image-184" width="619" height="359" /></figure></div>



<p>Hoje vou publicar no blog a primeira crônica escrita por mim. As situações são baseadas em observações que fiz e comentários que li, e os personagens foram criados para uma outra história, que talvez um dia eu escreva, mas resolvi usá-los para estrelar essa história. Todos os comentários sobre o texto são bem vindos, espero que goste!</p>



<span id="more-180"></span>



<p>&#8211; Olha só quanta gente! – Vanessa exclamou.</p>



<p>&#8211; É, o povo está cagando. Mais de 100.000 mortos e vem todo mundo passear no shopping.</p>



<p>Miguel ajeitou com a mão sua máscara de proteção preta com o símbolo de morcego do Batman estampado no meio, os óculos embaçando com a umidade da respiração que subia. Depois de seis meses da pandemia da Covid-19, os shopping centers da cidade voltaram a abrir nos fins de semana.</p>



<p>&#8211; Olha lá, os caras nem passam álcool em gel nas mãos quando entram. – Miguel resmungou – Depois vão falar no Twitter que os 1000 mortos por dia é culpa do presidente.</p>



<p>“Facada mal dada&#8230;” pensou Vanessa, mas preferiu não comentar. Usou o <em>dispenser </em>de álcool para higienizar as mãos enquanto o marido e o filho a esperava.</p>



<p>&#8211; Pai, vamos comprar brinquedos hoje?</p>



<p>William, o filho de 9 anos do casal pulava de um lado pro outro, tamanha animação. Não saía de casa há meses, nem mesmo para ir à escola. Era a primeira vez que pisava no shopping desde o início da pandemia.</p>



<p>&#8211; Acho que estão vendendo os bonecos novos de Fortnite, vamos comprar? – disse o menino, abaixando a máscara de tecido até o queixo, pois estava com dificuldades para falar com a boca coberta.</p>



<p>&#8211; De jeito nenhum! – ralhou o pai – o que eu te disse sobre comprar brinquedos? Suas notas estão péssimas! Não está fazendo as lições direito. Viemos aqui só para fazer um lanche.</p>



<p>&#8211; Mas é difícil entender as aulas pelo computador – William se defendeu – ensino à distância é um saco!</p>



<p>&#8211; É verdade. – Miguel colocou o nariz para fora da máscara para respirar melhor. Que estupidez deixar as crianças em casa, elas não estão no grupo do risco. Já reclamei com a escola, mas eles preferem ficar fechados, e cobrando a mensalidade! &nbsp;Vamos comprar, mas apenas um boneco.</p>



<p>Vanessa sabia a razão das notas baixas. Entrou no quarto do filho outro dia, e o viu jogando videogame no computador enquanto fingia estar prestando atenção à aula dada pelos professores via webcam. Advertiu William, mas preferiu não comentar o evento com Miguel.</p>



<p>A família passou em frente à loja de uma famosa rede de varejo de roupas e se impressionaram ao ver a fila de pessoas que esperavam do lado de fora para entrar.</p>



<p>&#8211; Olha quanta gente esperando! – Vanessa exclamou – Deve ter alguma promoção.</p>



<p>&#8211; E não entram por quê? – perguntou William.</p>



<p>A mãe explicou gentilmente:</p>



<p>&#8211; As lojas estão com capacidade de pessoas controlada, para evitar aglomeração.</p>



<p>&#8211; Como se isso adiantasse alguma coisa&#8230; – cortou o marido – Dá para ver aqui de fora que quem está dentro está aglomerado na sessão de descontos, enquanto o restante da loja está quase vazio. De qualquer forma, olha essa fila: estão todos um próximo do outro, ninguém respeita o distanciamento de 2 metros. Esse povo não sabe nem fazer uma fila e querem combater a pandemia.</p>



<p>“Se o Professor tivesse ganhado as eleições, as pessoas tratariam a pandemia com mais seriedade” pensou Vanessa, mas novamente, achou melhor não comentar. Miguel continuou.</p>



<p>&#8211; Preferem pegar vírus a perder uma promoção. Anteontem vi na internet o vídeo de uma loja que estava fazendo queima de estoque. Uma multidão se amontoou dentro do estabelecimento, acotovelando-se para pegar os produtos com desconto. A maioria nem máscara usava, parecia uma rave na favela.</p>



<p>&#8211; Senhor – um segurança do shopping interrompeu &#8211; por favor, arrume sua máscara. Seu nariz está de fora.</p>



<p>O rosto alvo de Miguel ficou vermelho como uma pimenta, não de vergonha, e sim de raiva. Ajeitou a máscara e esperou o segurança se afastar para reclamar com sua esposa:</p>



<p>&#8211; Imbecil! Como se meu nariz de fora fizesse alguma diferença.</p>



<p>&#8211; Ele só está cumprindo seu trabalho&#8230; – Vanessa deixou escapar, com a voz diminuindo a cada palavra.</p>



<p>&#8211; Trabalho de merda! Isso que dá não ter escolaridade. Ouviu isso, Billy? Se não estudar, só vai conseguir emprego como segurança de shopping, vai passar o resto da vida cuidando de como as pessoas usam máscara.</p>



<p>O menino não ouviu uma palavra, estava distraído com o celular.</p>



<p>Chegaram à loja de brinquedos. William correu para a seção de bonecos infanto juvenil enquanto Miguel foi à uma estante ao fundo onde se encontravam as estátuas de super-heróis mais trabalhadas, para consumidores maduros. Vanessa esperou do lado de fora pensando no lindo casaco marrom que viu na vitrine da loja, com 40% de desconto. Queria comprar, mas desistiu depois dos comentários do marido sobre a fila de pessoas que aguardavam para entrar. “Vou voltar amanhã sem ele para comprar”, pensou. Ficou por quase uma hora no corredor, lendo no celular um extenso artigo sobre remoção de manchas de gordura e suor em camisetas brancas, vendo as atualizações das influenciadoras que seguia no Instagram e se deliciou com uma matéria contado detalhadamente a história de todos os filhos adotados da Angelina Jolie.</p>



<p>Finalmente os dois saíram da loja, cada um com uma sacola na mão. Miguel abaixou a máscara, levou a mão a boca para tossir e arrumou a máscara de tecido.</p>



<p>&#8211; Essa loja precisa de uma faxina! Foi só entrar nela que comecei a tossir – Miguel abaixou a máscara para tossir novamente.</p>



<p>&#8211; Olha mãe, eles tinham os bonecos da temporada nova!</p>



<p>William tirou da sacola de plástico a caixa com o bonequinho que tanto queria.</p>



<p>&#8211; Uma fortuna esse boneco mal feito – resmungou Miguel – se aproveitam das crianças que não têm senso crítico.</p>



<p>&#8211; E você, querido, comprou algo também? – retoricou Vanessa.</p>



<p>&#8211; Ah&#8230; comprei. Eles tinham uma ótima estátua da Mulher Maravilha.</p>



<p>&#8211; Comprou mais uma? Você já tem quantas? Dez?</p>



<p>&#8211; Essa é a décima sexta. Mas desse estúdio eu não tinha. Fiquei surpreso em encontrar uma peça tão bem trabalhada numa loja dessas, é pintada a mão! Só tinham uma unidade, não podia perder a oportunidade, qualquer um compraria em meu lugar se notasse sua qualidade.</p>



<p>Outro dia, quando Vanessa foi esvaziar os bolsos da calça de Miguel, antes de colocá-la na máquina de lavar, encontrou a nota da compra da loja de brinquedos. A figura do marido custou cinco vezes mais que o brinquedo do filho.</p>



<p>Os três usaram a escada rolante para chegar ao nível superior do shopping, onde estava a praça de alimentação. Miguel não notou que os degraus da escada estavam pintadas com pegadas vermelhas e verdes, indicando a distância segura para as pessoas, e tomou o degrau com a pegada vermelha. O rapaz que estava no degrau seguinte olhou a família com ar de reprovação. Vanessa desviou o olhar, como se não tivesse percebido nada.</p>



<p>A esposa higienizou a mão no <em>dispenser</em> de álcool em gel enquanto o marido foi fazer o pedido na loja da rede de <em>fast food</em> e William procurou uma mesa para se sentar.</p>



<p>&#8211; Dois cheddar bacon duplo e um picanha extremo, por favor.</p>



<p>&#8211; Desculpe, senhor, não entendi?</p>



<p>Uma placa de acrílico estava entre a atendente e Miguel. Ele abaixou a máscara até o queixo e repetiu mais alto.</p>



<p>&#8211; Dois cheddar bacon duplo e um picanha extremo.</p>



<p>&#8211; Um cheddar bacon e uma salada?</p>



<p>A cacofonia da multidão conversando na praça de alimentação dificultava a comunicação. Miguel esticou a cabeça pelo lado da proteção de acrílico e falou mais perto da atendente.</p>



<p>&#8211; Dois cheddar bacon duplo e um picanha extremo!</p>



<p>&#8211; Ah sim. Dois cheddar bacon duplo e um picanha extremo. Quer batatas e refrigerantes gigantes por R$4,90 adicional?</p>



<p>&#8211; Sim.</p>



<p>Miguel viu que o segurança da praça de alimentação se aproximava e arrumou a máscara antes de levar outra bronca.</p>



<p>&#8211; CPF na nota?</p>



<p>Ele apenas acenou negativamente com a mão, para evitar o transtorno de passar os números com toda aquela dificuldade. Inseriu o cartão de crédito na máquina, digitou a senha e esperou pelo preparo da refeição.</p>



<p>Quando levou o lanche à mesa, Vanessa lhe falou:</p>



<p>&#8211; O William puxou cadeiras e estava se sentando em uma mesa que estava marcada que não podia ser usada. Escolheu o lugar olhando para o celular, nem prestou atenção, precisamos conversar com ele sobre isso.</p>



<p>&#8211; Besteira isso! – Miguel tirou a máscara com as mãos, guardou no bolso e pegou um palito de batata frita – De que adianta marcar algumas mesas para não serem usadas, se tem gente comendo ao nosso lado e sem máscara *Cof cof.</p>



<p>&#8211; As marcações são para reduzir o número de pessoas na praça de alimentação&#8230; – Vanessa falou com voz murcha.</p>



<p>&#8211; Adianta nada. Esse povo nem devia estar aqui. Batendo perna no shopping no meio da pandemia. Depois jogam a culpa dos mortos nas costas do presidente.</p>



<p>“Tantos candidatos para votar e elegeram justo aquele que banalizou a doença&#8230;” Vanessa pensou, mas comeu seu sanduíche em silencio enquanto ouvia Miguel protestar. Aparentemente, William nem ouvia à discussão. Tirou do plástico a caixa do brinquedo novo, desembalou-o e brincava na mesa com o boneco enquanto comia suas batatas e sanduíche.</p>



<p>Fim de passeio. Deixaram as bandejas com o lixo em cima da mesa, desceram as escadas rolantes e foram para a saída. Vanessa olhou mais uma vitrine da loja, o casaco marrom com 40% de desconto não estava mais lá, alguém o comprou. Uma tristeza profunda a acometeu, mal prestou atenção às palavras do marido.</p>



<p>&#8211; Olha só aquele casal. Trouxeram um bebê de colo para o shopping. Que falta de responsabilidade é essa? Ah&#8230; claro&#8230; o pai está com barba desgrenhada e a mãe com saia florida. Aposto que são dois maconheiros que não se cuidam e depois ficam falando mal do governo por causa dos números.</p>



<p>&#8211; Mas pai, crianças não são assintomáticas? – observou o filho do casal – Você disse isso hoje.</p>



<p>&#8211; Ah, mas é diferente. Aquele é um bebê.</p>



<p>Miguel abaixou a máscara e levou a mão à boca.</p>



<p>&#8211; Atchim!</p>



<p>&#8211; Saúde – Vanessa disse por costume, ainda triste pelo casaco.</p>



<p class="has-text-align-right"><strong><a href="https://velberan.com/2020/09/03/pandemia-no-shopping/#respond">Deixe um Comentário</a></strong></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/09/03/pandemia-no-shopping/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>22</slash:comments>
		
		
		
		<media:content url="https://0.gravatar.com/avatar/039825f0b054098e7cd2b6c183b9c0c61be0225c05067c19a6fa4e943db30fce?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">velberan</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/aglomeracao.jpg?w=806" medium="image" />
	</item>
		<item>
		<title>Como Sonhar com os Pés no Chão</title>
		<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/08/12/como-sonhar-com-os-pes-no-chao/</link>
					<comments>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/08/12/como-sonhar-com-os-pes-no-chao/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alessandro Velberan]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Aug 2020 15:07:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blogue]]></category>
		<category><![CDATA[como realizar os sonhos]]></category>
		<category><![CDATA[inspiração]]></category>
		<category><![CDATA[processo criativo]]></category>
		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://alessandrovelberan.wordpress.com/?p=168</guid>

					<description><![CDATA[Para realizar os sonhos não é preciso viver com a cabeça nas nuvens. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" data-attachment-id="170" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/tolkien_filme_1/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_1.jpg" data-orig-size="600,338" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}" data-image-title="tolkien_filme_1" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_1.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_1.jpg?w=600" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_1.jpg?w=600" alt="" class="wp-image-170" width="723" height="407" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_1.jpg 600w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_1.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_1.jpg?w=300 300w" sizes="(max-width: 723px) 100vw, 723px" /></figure></div>



<p></p>



<p>Não é incomum ver conselheiros de conselhos não requisitados dizerem que não se vive de sonhos e, para ter sucesso na vida, precisamos manter os pés no chão. Eu digo que esse argumento não passa de ideias de quem já perdeu a esperança de realizar seus desejos e se conformou com a vida que leva, seja ela qual for. Sonhar não é viver em devaneio, almejando conquistas impossíveis ou impalpáveis. Sonhar é ter ambição e esperança, buscar felicidade fazendo aquilo que gosta.</p>



<p>Apesar de não acreditar em horóscopo, não posso negar que as descrições que os astrólogos fazem para pessoas que nasceram no dia em que eu nasci são acertadas. Como um bom pisciano, vivo com a cabeça nas nuvens, sonhando, imaginando como minha vida seria diferente se eu tomasse coragem para realizar tudo o que eu gostaria de fazer. Por muito tempo esses sonhos foram meu tormento, pois enquanto estava com a cabeça no meu mundo particular de faz de conta, o meu corpo vivia uma vida que eu detestava.</p>



<p>Já quis ser músico, escritor, desenvolvedor de games, cineasta, quadrinista, desenhista e mais um monte de coisas e pensava que somente ter boas ideias era o suficiente para entrar para algum desses ramos. Não é!</p>



<p>Lembro de uma entrevista que li com Ray Manzarek, lendário tecladista da banda The Doors, em que ele falou do processo de criação do solo introdutório da música <em>Light My Fire. </em>Havia a lenda que dizia que enquanto os outros membros da banda saíram para festar, Ray ficou em casa, encheu a fuça de LSD e o icônico solo foi composto em apenas uma noite. Na entrevista, Ray confirmou o mito, porém, salientou: o LSD o ajudou a ampliar seus sentidos para imaginar a composição, mas ele só conseguiu realizá-la porque passara anos estudando e já dominava o instrumento. Ou seja, não foi um truque de mágica lisérgico, se ele não tivesse toda a bagagem necessária, nem toda a droga do mundo seria capaz de produzir aquele <em>riff</em> clássico.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="348" height="550" data-attachment-id="171" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/ray_manzarek/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ray_manzarek.png" data-orig-size="348,550" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="ray_manzarek" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ray_manzarek.png?w=190" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ray_manzarek.png?w=348" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ray_manzarek.png?w=348" alt="" class="wp-image-171" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ray_manzarek.png 348w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ray_manzarek.png?w=95 95w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ray_manzarek.png?w=190 190w" sizes="(max-width: 348px) 100vw, 348px" /><figcaption>Ray Manzarek &#8211; talento e inspiração só são aproveitados por quem tem preparo</figcaption></figure></div>



<p>Mas por que tantas pessoas acreditam que uma simples noite de inspiração é o suficiente para que o trabalho de uma vida se desenvolva sozinho? Porque o que vem a público é apenas o trabalho finalizado e poucas pessoas se preocupam em saber todo o processo de construção que está por trás dele.</p>



<p>Vamos usar como exemplo um carro. Vemos nas ruas o automóvel completo, funcionando e podemos até conhecer suas funções especiais como uma tecnologia revolucionária de frenagem, navegação inteligente computadorizada e sistema de economia de combustível. Contudo, por baixo das placas de metal, há milhares de peças, e para cada pecinha daquela, uma pessoa trabalhou para construí-la. Atrás de cada máquina usada para o processo, dezenas de outras pessoas estudaram por anos até desenvolver o equipamento que faria o serviço que precisavam e, além de toda a parte usada nas fábricas que produzem o automóvel em si, ainda tiveram aqueles que se dedicaram a extrair a matéria prima e fazer o transporte até seu destino. Até mesmo a menor porca usada para fixar um parafuso de uma peça que pouca gente sabe que existe só está lá porque alguém inventou a porca, depois de muito estudo, para encontrar a melhor solução para unir duas peças.</p>



<p>De todos os tipos de pessoas medíocres que existem, uma das que mais me irrita é aquela que menospreza o esforço e o trabalho alheio. Quando apontam a solução para um problema, se começam a frase com um “É só&#8230;” já sei que todas as palavras que seguirem serão besteira. Por exemplo: acompanho vários desenhistas no Twitter e vejo com frequência suas queixas sobre clientes que encomendam uma arte e reclamam do preço. “Você vai me cobrar R$100 por um desenho que vai fazer em 1 horas? Que absurdo!”. &nbsp;O que o medíocre não vê é todo o estudo e treino que o desenhista precisou fazer para conseguir concluir uma arte em apenas 1 hora, além do investimento em dinheiro feito para adquirir as ferramentas certas para realizar tal função com agilidade.</p>



<p>Algo que me ajudou a ter uma visão menos medíocre sobre o processo de desenvolvimento das coisas foi começar a assistir filmes, documentários e ler matérias e livros das pessoas que criaram algo importante. Com eles, passei a entender melhor o que é preciso para realizar seus sonhos e, em nenhum desses casos, essa realização aconteceu por milagre. Até tem alguns filmes mal feitos sobre o tema, em que focam na vida pessoal dos criadores e dão a impressão de que suas produções foram resultado de mera sorte ou acaso, se importando mais com o entretenimento do filme do que em contar a história como aconteceu. Entretanto, esses são a minoria.</p>



<p>Um filme que particularmente me impressionou foi <em>Tolkien</em>, que conta parte da história do homem que revolucionou a literatura de fantasia. A influência de <em>O</em> <em>Senhor dos Anéis</em> nesse gênero chega a ser esmagadora e opressora para qualquer aspirante a escritor de fantasia e, por muitos anos, acreditei que J. R. R. Tolkien era um exemplo singular de genialidade, abençoado por dotes divinos e nenhum mero mortal conseguiria se igualar em suas criações. Porém, o filme me mostrou que Tolkien era um humano como qualquer outro, e suas criações não foram presentes de seres divinos. O escritor cresceu cercado por entusiastas da literatura e aproveitou a oportunidade para estudar ao máximo. Criou paixão pela linguística e teve fortes experiências de vida. Já havia produzido diversas obras antes de abrir toda a bagagem que acumulara por anos para escrever <em>O Hobbit</em>, o livro que daria o pontapé inicial para sua consagração. Tanto esse, como <em>O Senhor dos Anéis</em> são como os carros, que vemos prontos e funcionais, mas até chegar a esse estágio, foi preciso incontáveis horas de estudo e processos para a criação até mesmo do menor parafuso.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" width="1024" height="576" data-attachment-id="173" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/tolkien_filme_2/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_2.jpg" data-orig-size="1920,1080" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="tolkien_filme_2" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_2.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_2.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_2.jpg?w=1024" alt="" class="wp-image-173" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_2.jpg?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_2.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_2.jpg?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_2.jpg?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_2.jpg?w=1440 1440w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_2.jpg 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption>Tolkien de 2019 &#8211; Uma aula de como transformar sua vida em um clássico</figcaption></figure>



<p>Nesse ponto algumas pessoas vão se dar conta de um diferencial entre grandes criadores da história e aqueles que até poderiam criar produções revolucionárias mas não tiveram o mesmo destino: eles vieram de famílias no mínimo razoavelmente abastadas e tinham recursos para bancar seus estudos além de não precisarem se preocupar com outras atividades para se sustentar, assim tendo o tempo necessário para realizar suas criações. Quantas pessoas não precisaram abandonar os seus sonhos para fixar seus pés no chão pela mera necessidade de sobreviver? Alguém pode dizer “ele só conseguiu criar algo tão incrível porque veio de família rica”. Mas como já falamos, quando a palavra “só” aparece numa frase, o que se segue é apenas mimimi de gente medíocre, que ignoram todos os esforços dessas pessoas – apesar de ter a vantagem de ter suporte da família.</p>



<p>Como eu disse lá no começo, por toda a vida eu quis trabalhar com minhas próprias produções, tentando várias coisas que nunca deram certo pela simples razão de eu não me dedicar a todo o estudo e trabalho necessário para concretizar meus sonhos. Logo precisei trabalhar com a primeira coisa que me apareceu na frente e continuei dessa forma por muitos anos. O único sonho que eu tinha – e esse sim era um devaneio – era o de ganhar na loteria, não precisar mais trabalhar com o que eu não gostava e poder me dedicar livremente ao que me dava prazer.</p>



<p>Assim os anos se passaram, graças a ascendência nipônica da minha esposa pude ir trabalhar no Japão onde, financeiramente, consegui me acertar e dar conforto à minha família, mas enquanto meu corpo estava lá apertando botões de máquinas e encaixotando peças, minha mente estava em um plano de existência onde meus sonhos tinham se concretizado.</p>



<p>Foi no final de 2012, que, uma série de eventos, que contei com mais detalhes <a href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/sobre-meu-livro/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">em meu livro</a>, me motivou a criar um <a href="http://youtube.com/velberan" target="_blank" rel="noreferrer noopener">canal no Youtube.</a> A princípio seria só mais uma das várias tentativas fracassadas que eu fiz de publicar minhas ideias, mas dessa vez resolvi fazer algumas coisas diferentes. Não pensei que somente minha vontade de fazer algo era o suficiente para <em>fazer algo</em>, eu precisava estudar para deixar aquele algo apreciável e me dedicar até alcançar uma qualidade que não satisfizesse apenas a mim, mas também a quem eu queria atingir.</p>



<p>Vontade para me dedicar tanto ao projeto não me faltava, mas o tempo era um grande empecilho. Na época eu trabalhava em uma fábrica de prensa de peças de carro, serviço sujo, barulhento e perigoso. Isso não era problema para mim, pois serviço é serviço, era aquilo o que botava comida na mesa, e sou livre de preconceitos sociais que acreditam que o nível do trabalho que uma pessoa exerce ditam o valor sobre o que a pessoa é – todo trabalho lícito é digno e precisa ser feito por alguém. Porém, eu me dava mal com meu encarregado, um senhor rabugento que, pelo que soube dos outros funcionários, tratou mal todos os empregados que passou no setor – e comigo não foi diferente. Bem, na verdade teve diferença comigo, pois, como não sou de levar desaforo pra casa, vivia brigando com o sujeito, e os atritos estavam tão insuportáveis que estavam prestes a terminar em soco.</p>



<p>O pouco tempo que me sobrava em casa era carregado de estresse que eu trazia do serviço. Até quando dormia, sonhava que estava trabalhando, com o barulho das máquinas, com o encarregado rabugento e acordava cansado, como se tivesse passado a noite toda labutando na fábrica.</p>



<p>Só me sobrava tempo nos fins de semana, que também dedicava à minha esposa, meu filho e <a href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/08/04/meu-filhinho-de-quatro-patas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">meu cachorro</a>, fazendo-os companhia ou passeando. Como, numa rotina dessas, eu conseguiria tempo para me aperfeiçoar na produção de vídeos e tentar um lugar na internet?</p>



<p>Foi aí que me lembrei das palavras do meu pai. Sempre que eu reclamava de tempo para fazer algum trabalho da escola ou coisa do tipo, ele me contava a história de quando começou a fazer um curso técnico em eletrônica. Trabalhava o dia todo para pôr comida na mesa, de lá ia para o curso e chegava em casa tarde da noite e, por isso, estava com dificuldades de entregar os trabalhos. Certa vez, tentou se justificar com o professor por uma dessas falhas. “Desculpe por não entregar o trabalho, mas não tive tempo. Acordo às 6 horas da manhã para ir trabalhar e de lá já venho direto para o curso. Chego em casa só meia-noite”. O professor o olhou sério e respondeu. “Entendi, você fica ocupado o dia todo, mas da meia-noite às 6 da manhã, você faz o que?”.</p>



<p>A resposta era óbvia – ele dormia – mas preferiu não responder pois entendeu o que o professor quis dizer. Passou a dormir pouco para concluir seus trabalhos durante a madrugada e dar conta do que mais era necessário. Com a conclusão do curso, conseguiu emprego na empresa de energia da cidade e usou o salário melhor para dar uma vida confortável o suficiente para a família.</p>



<p>Precisei fazer o mesmo. A fábrica era meu ganha-pão então todas as manhãs às 8 horas eu estava lá, de pé, pronto para botar as máquinas para moldar peças de aço. Quando chegava em casa, ia direto para o computador, onde ficava até a hora de dormir. Os fins de semana também eram dedicados ao meu trabalho paralelo, o que me deixou distante da minha família. Minha esposa saía para passear com o guri e o doguinho e eu ficava em casa, escrevendo roteiros, narrando vídeos, editando, buscando tutoriais para aprender a fazer algo diferente ou aperfeiçoando meus processos para fazer os vídeos com mais qualidade e menos tempo.</p>



<p>Logo a rotina dupla começou a influenciar no meu trabalho na fábrica. Como quase não dormia em casa, dormia de pé e com olhos abertos no serviço, e por isso estraguei algumas peças e quase quebrei uma máquina caríssima! Estava quase levando as contas do serviço, mas, felizmente, o esforço foi recompensado e meu canal de games no Youtube começou a ganhar público. Foi quando tive uma infeliz oportunidade. Por descuido do chefe rabugento, um molde de uma tonelada caiu no meu pé, o que me deixou de muleta por duas semanas. Abri mão de correr atrás de indenização para fazer um acordo com a empreiteira para eles me demitirem, então receberia os meus direitos e teria alguns meses de seguro desemprego, que me daria uma janela de segurança financeira para me dedicar cem por cento ao meu trabalho como produtor de conteúdo.</p>



<p>Assim, consegui realizar meu sonho, mesmo enquanto os pés estavam no chão, labutando para sustentar a família. Foi cansativo, estressante, várias vezes pensei que não daria certo e quase desisti. Porém, graças a todos os fins de semana ausente e noites mal dormidas, pude fazer o que me agradava e, aí sim, ter tempo para a família. Minha esposa passou quase um ano trabalhando firme em fábrica para fazer sua parte no orçamento e ainda cobrir a diferença que meu baixo salário inicial na internet fazia na receita da casa, mas com o crescimento do canal, ela pôde deixar aquele serviço de lado e se tornar minha parceira na criação independente.</p>



<p>Hoje estou feliz com minha vida como produtor de vídeos para o Youtube, mas não deixei de sonhar e acredito que posso ir além. Novamente estou com rotina dupla de trabalho. Bem mais fácil do que da outra vez, é verdade, afinal, não preciso aguentar chefe rabugento em um serviço sujo, pesado, barulhento e perigoso. Agora meu trabalho principal é a produção de vídeos, atividade que eu escolhi e me é muito satisfatória, mas a minha antiga paixão pela escrita voltou e eu adoraria poder me dedicar a essa função, colocando no papel todas as ideias que me vêm à cabeça. Porém, meus textos ainda não me geram renda, e eu continuo produzindo os vídeos para a internet que pagam meus boletos.</p>



<p>Não que eu pense em deixar a produção de vídeos algum dia, mas quero atingir um ponto em que eu consiga realizar ambas atividades em conjunto. Até esse dia chegar, vou precisar estudar muito, melhorar meu processo de escrita e trabalho, conseguir espaço num ramo que é bastante diferente do qual eu sou conhecido e claro, realizar meus projetos e colocar as ideias no papel, de forma que não satisfaça apenas a mim mas também aqueles que vão consumir.</p>



<p>Estou escrevendo este texto na manhã de domingo, que é dia dos pais. Foi o tempo em que encontrei na minha rotina para escrever para o blog, que abri com o objetivo de exercitar minha escrita – e tem dado resultado pra lá de positivo nesse quesito! Agora que estou acabando, vou curtir o resto do dia com minha família, sabendo que estou dando continuidade aos meus objetivos enquanto realizo as atividades principais nos outros dias da semana. Ou seja, estou sonhando, mas com os pés no chão.</p>



<p class="has-text-align-right"><strong><a href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/08/12/como-sonhar-com-os-pes-no-chao/#respond">Deixe um Comentário</a></strong></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/08/12/como-sonhar-com-os-pes-no-chao/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>14</slash:comments>
		
		
		
		<media:content url="https://0.gravatar.com/avatar/039825f0b054098e7cd2b6c183b9c0c61be0225c05067c19a6fa4e943db30fce?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">velberan</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_1.jpg?w=600" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ray_manzarek.png?w=348" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/tolkien_filme_2.jpg?w=1024" medium="image" />
	</item>
		<item>
		<title>Meu Filhinho de Quatro Patas</title>
		<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/08/04/meu-filhinho-de-quatro-patas/</link>
					<comments>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/08/04/meu-filhinho-de-quatro-patas/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alessandro Velberan]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Aug 2020 18:58:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blogue]]></category>
		<category><![CDATA[cachorro]]></category>
		<category><![CDATA[como criar cachorro]]></category>
		<category><![CDATA[pai de pet]]></category>
		<category><![CDATA[pet]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://alessandrovelberan.wordpress.com/?p=156</guid>

					<description><![CDATA[O Bolt, nosso cãozinho, se foi há dois meses, e deixou muitas lembranças e saudade.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="1024" height="706" data-attachment-id="158" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/bolt1/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt1.jpg" data-orig-size="4200,2896" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;4.5&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;Canon IXY 150&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1434361916&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;18.58&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;200&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.00125&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}" data-image-title="bolt1" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt1.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt1.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt1.jpg?w=1024" alt="" class="wp-image-158" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt1.jpg?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt1.jpg?w=2048 2048w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt1.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt1.jpg?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt1.jpg?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt1.jpg?w=1440 1440w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>



<p></p>



<p>A principal motivação para decidirmos pegar um cachorrinho foi para que o bichinho se tornasse uma companhia para o Antônio, nosso filho. Como éramos estrangeiros vivendo no Japão, sem fluência no idioma do país, o guri tinha dificuldades em fazer amizades na vizinhança e estava crescendo sozinho. O bichinho o ensinaria a ter responsabilidades, além de dividir a atenção dos pais, já que ele é filho único. Eu e minha esposa até pensamos em ter mais um filho naquela época, mas a correria do dia-a-dia de um dekassegui nos fez desistir da ideia de ter um filho humano e optamos por ter um filhinho peludo de quatro patas. Na verdade, não deveríamos fazer isso, pois o danchi (como são chamados os conjuntos habitacionais no Japão) onde morávamos proibiam a criação de cachorros. Mas conhecíamos vários vizinhos que tinham animaizinhos e até passeavam com eles pelas áreas comuns. Os administradores do danchi faziam vista grossa para os cachorros, desde que nenhum morador reclamasse de sua presença.</p>



<span id="more-156"></span>



<p>Foi no final de 2009 que começamos a pesquisar qual seria a raça mais indicada para entrar para a família, tendo em vista que, ao escolher um cachorro para cuidar, a aparência do animal deve ser o último elemento a ser considerado. Cada raça tem personalidade distinta assim como suas necessidades especiais. Um bom candidato eram os cães da raça maltês, que não crescem muito – assim sendo indicados para quem mora em apartamento –são ótimas companhias e seus costumes costumam se adequar aos donos. Em contrapartida, falam que os malteses não se dão bem com crianças. Achamos que poderíamos contornar essa peculiaridade com a criação do bichinho e começamos a procurar alguma loja que vendesse um filhote a um preço que pudéssemos pagar. Cachorros de raça (assim como gatos) são particularmente caros no Japão. Claro que havia a opção de adotar um cachorro, porém, preferimos comprar um que tivesse mais possibilidade de atender as nossas expectativas.</p>



<p>Mesmo assim, no final, a emoção falou mais alto. A Lu, minha esposa, encontrou em uma loja um maltês custando quase a metade do valor que um filhote da raça costuma valer. O valor reduzido tinha uma razão: os dentes da frente do bichinho não tinham crescido. Não sabíamos se aquilo poderia gerar problemas em sua criação no futuro, mas a Lu já o tinha escolhido, não pelo bem-vindo custo menor e sim pela foto do anúncio. O cachorrinho estava com cara assustada, olhos arregalados e orelhas baixas. Acreditamos que ele poderia estar sofrendo maus tratos do criador por causa de sua condição. Minha esposa quase chorou só de imaginar o que aconteceria com o bichinho caso ninguém o comprasse, só porque seus dentes da frente não cresceram.</p>



<p>Lembro perfeitamente do dia em que fomos buscá-lo, e a atendente da loja veio com aquela coisinha peluda como uma bolinha de neve de tão branquinho. A moça ficou feliz em ver que uma família o estava levando, e vimos que ela também estava preocupada com o fato de ele estar envelhecendo na loja sem um comprador. O Antônio que escolheu seu nome: Bolt, pois gostava da animação da Disney que tinha um cachorro branco com esse nome.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="1024" height="768" data-attachment-id="159" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/bolt2/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt2.jpg" data-orig-size="3264,2448" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;5.6&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;DSC-T70&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1294577202&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;6.33&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;200&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.004&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}" data-image-title="bolt2" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt2.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt2.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt2.jpg?w=1024" alt="" class="wp-image-159" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt2.jpg?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt2.jpg?w=2048 2048w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt2.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt2.jpg?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt2.jpg?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt2.jpg?w=1440 1440w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption>Segundo dia do Bolt conosco. Meu dedo na lente não estragou a beleza da foto.</figcaption></figure></div>



<p>Nunca tínhamos criado um cachorro dentro de casa, apenas aqueles cachorros de quintal. Tive alguns quando criança e meu pai proibia completamente que os animais entrassem pela porta. Além disso, qualquer problema de saúde que meus cachorrinhos apresentassem, ele já os levava de carro para abandoná-los no mato, dizendo que a natureza trataria deles. Nenhum cachorro que tive até então durou mais do que alguns meses, e batia um receio que com o Bolt não fosse diferente.</p>



<p>O começo não foi fácil: a princípio Bolt se mostrou um cachorro rabugento e não se deu bem com o Antônio, por mais que incentivávamos as interações entre os dois. Demorou para ele aprender a usar os tapetes higiênicos para cachorros e até isso acontecer, mijou em absolutamente cada centímetro da casa. Mas o pior eram os latidos. Minha nossa, como o bicho latia! Não podia ouvir um barulho na escada do prédio que corria para latir, como se sua vida dependesse disso. Essa era a parte que mais nos preocupava, pelo medo de alguém reclamar com a administração do danchi. Tentamos várias coisas para coibi-lo de latir tanto, até comprar uma coleira que vibrava quando ele latia, sendo uma espécie de punição automática. Além de o Bolt continuar latindo, mesmo com o incômodo da coleira, o sensor captava outros ruídos como a campainha ou o apito do micro-ondas, estragando totalmente a educação. Não recomendo essa tranqueira para ninguém!</p>



<p>Cheguei a pensar que foi uma péssima ideia pegar um cachorrinho, mas era tarde para se arrepender e em nenhum momento me passou pela cabeça abandoná-lo. Assumimos o compromisso e ele era parte da família a partir do momento em que entrou em nossa casa. Fiz muitas pesquisas e estudos sobre como cuidar e educar um cachorro e até assisti quase todos os episódios de <em>O Encantador de Cachorros </em>de César Millan (aquele “terapeuta de cães” que mais tarde foi acusado de maus tratos).</p>



<p>As informações foram importantes para eu aprender a compreender o bichinho e tudo começou a ser mais fácil a partir de então. É comum as pessoas pensarem que cachorro é um animal burro e sem necessidades, mas basta aprendermos a falar numa língua que eles podem entender e o tratá-los com dignidade que tudo se resolve.</p>



<p>Passei a repreendê-lo com firmeza quando latia ou fazia suas necessidades onde não podia, mas comecei a passear mais com ele o recompensar pelo fazia certo. Quando ele descobriu que se sujasse seu tapete higiênico ganhava algum petisco, passou até a nos chamar, todo feliz, quando fazia as necessidades. Foi assim durante toda a sua vida – nunca vi um bicho que ficasse tão feliz quando cagava.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" width="750" height="562" data-attachment-id="160" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/017/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg" data-orig-size="3264,2448" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;3.5&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;DSC-T70&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1294577704&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;6.33&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;200&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.002&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}" data-image-title="017" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg?w=750" alt="" class="wp-image-160" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg?w=750 750w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg?w=1500 1500w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg?w=1440 1440w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /><figcaption>Demorou, mas aprendeu a usar o pinico!</figcaption></figure>



<p>Sobre os latidos, também reduziu bastante. A solução que encontramos foi encher uma latinha com grãos e chacoalhar com força perto dele toda vez que latia alto. Nas primeiras vezes ele ficou confuso e irritado pelo barulho do chocalho improvisado, mas em pouco tempo aprender a lição. Eu sei que é triste não querer que um cachorro lata, é como impedir uma pessoa de falar. Mas o Bolt aprendeu a se expressar de forma mais silenciosa, e soltava um grunhido rabugento toda vez que algo o incomodava.</p>



<p>Depois que passamos a nos entender, tivemos anos maravilhosos na companhia dele. Bolt entrava no meio das nossas cobertas nos dias frios, ajudando a nos aquecer, e sempre estava perto de nós, nos fazendo companhia. Era uma alegria só olhar aquela carinha peluda com a charmosa linguinha sempre de fora. Até passou a brincar mais com o Antônio e até comigo – ele adorava “lutar” contra a minha mão, e quando queria brincar enquanto eu estava jogando videogame deitado no chão da sala, enfiava o focinho entre meus dedos para largar o controle e lhe dar atenção.</p>



<p>Era engraçado o ciúme que sentia de Antônio. Sempre que eu brincava com meu filho ou minha esposa dava carinho a ele, Bolt disparava enfurecido querendo o mesmo tratamento. Era assim para tudo, se déssemos algo para o guri, o cachorro queria também. Bolt não se sentia como um cachorro ou um ser inferior em qualquer sentido – ele se via como nosso filho, assim como Antônio, e estava sempre competindo por nossa atenção.</p>



<p>Revezamos entre a família os dias para darmos uma voltinha com ele pela vizinhança, coisa rápida só para ele dar umas cheiradas e molhar alguns postes. Nos fins de semana, tomei por hábito dar longos passeios com ele. Aproveitava o tempo e andança para espairecer, enquanto cansava o bichinho com a atividade física. Em família, levávamos aos playgrounds do danchi, onde brincávamos todos juntos e <a href="https://www.youtube.com/watch?v=WDdtktW2lW4" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ao lago de Togo</a>, onde fazíamos piquenique na beira do lago perto do mato, afastado do movimentado calçadão. Como poucas pessoas passavam por lá, soltávamos o Bolt da coleira e ele podia andar pra lá e pra cá, cheirando e mijando alegremente. Estava tão bem educado que bastava chamá-lo que ele corria de volta para nós.</p>



<p>Falando assim pode parecer que eu era o favorito do Bolt, e por um tempo ele realmente era mais apegado a mim. Mas dizem que os cachorros sabem identificar quem realmente manda na casa e se apegam mais a eles, e no caso aqui de casa, ele se apegou mais à Lu, e vivia grudado nela.</p>



<p>Com o Bolt aprendi que cachorros, assim como, possivelmente, a maioria dos animais, são indivíduos com personalidade própria, sentimentos e desejos. É comum olharmos para as criaturinhas e depositá-los neles todas as nossas expectativas e desejos, principalmente aquelas que não conseguimos de outros humanos, mas os bichos não existem para isso – para satisfazer as vontades dos outros. Vi nele várias qualidades típicas de boas pessoas como a lealdade e o companheirismo, assim como vi defeitos como o ciúme, a inveja, a cobiça (principalmente quanto aos petiscos) e até mesmo a luxúria, pois, como não era castrado, houve um período em que, diariamente, ele copulava freneticamente com um ursinho de pelúcia da Coca-Cola que vivia largado pelo chão de casa. Mas um defeito que nunca identifiquei nele foi o rancor. Mesmo que, por exemplo, eu passasse uma semana sem levá-lo para passear, sua alegria ao me ver pegando a coleira era a mesma de quando eu o levava todos os dias.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" width="697" height="1023" data-attachment-id="161" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/20170217_155214/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/20170217_155214.jpg" data-orig-size="1458,2142" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;1.7&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;SM-G930F&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1487346734&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;2.1&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;320&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.076923076923077&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;,&quot;latitude&quot;:&quot;35.113611111111&quot;,&quot;longitude&quot;:&quot;137.05361111111&quot;}" data-image-title="20170217_155214" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/20170217_155214.jpg?w=204" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/20170217_155214.jpg?w=697" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/20170217_155214.jpg?w=697" alt="" class="wp-image-161" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/20170217_155214.jpg?w=697 697w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/20170217_155214.jpg?w=1394 1394w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/20170217_155214.jpg?w=102 102w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/20170217_155214.jpg?w=204 204w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/20170217_155214.jpg?w=768 768w" sizes="(max-width: 697px) 100vw, 697px" /><figcaption>Meus filhinhos</figcaption></figure>



<p>O que ele tinha era uma boa memória. Certa vez, no aniversário do Antônio, compramos alguns canudinhos que lançava confete impulsionado por pólvora, que gerava um estouro alto. Cantamos parabéns, estouramos os confetes, cortamos o bolo e quando fomos procurar&#8230; cadê o Bolt? Estava tremendo de medo no banheiro (que por alguma razão, ele considerava um lugar seguro. Também corria para lá quando estava trovejando). Não consideramos os ouvidos sensíveis do bichinho na hora que planejamos a comemoração, mas nunca mais voltamos a comprar coisas barulhentas para estourar em casa. Mesmo assim, em absolutamente todas as vezes que cantamos “parabéns para você”, o Bolt já corria para o banheiro esperando o pior.</p>



<p>Creio que é por isso que os cães são considerados os melhores amigos dos humanos. São companheiros leais e, mesmo em seus defeitos, não fazem nada que mereça a nossa inimizade. Por um lado, tem suas próprias vidas e seus próprios anseios, por outro, são sempre dependentes de seus donos para se divertir e comer. São como humanos bebês que não crescem e ficam para sempre com toda a sua fofura e companheirismo.</p>



<p>Ou quase. O pior defeito dos cachorros é que eles duram pouco.</p>



<p>Como disse no começo, quando pegamos o Bolt, seus dentes da frente não cresceram, mas na verdade o “defeitinho genético” era passageiro e em alguns meses os dentes apareceram. O estranho era que a costela inferior do lado esquerdo era menor e mais pontuda comparada à do lado direito. Chegamos a pensar, considerando as impressões iniciais, que ele apanhou do seu criador anterior e isso resultou em uma fratura, mas nunca descobrimos a razão da diferença. O Bolt ficava terrivelmente afetado durante o verão. Nos dias mais quentes, deitava-se no chão da cozinha (o lugar mais gelado da casa) e tentava se ventilar com uma respiração ruidosa e pesada. Com o passar do tempo fui notando que ele ficava cada vez mais cansado durante os passeios longos dos fins de semana, até o dia em que percebi que ele estava mancando a pata traseira na caminhada.</p>



<p>Achei que tinha machucado a pata porque tinha forçado demais na andança, mas ela sararia naturalmente. Não sarou e ele continuou mancando. Levamos ele a um veterinário, que o examinou e disse que o ligamento do joelho estava se rompendo. Aquilo poderia ser causado tanto por passeios mais longos quanto por pular repetidas vezes de cima da cama ou do sofá e era um problema típico de cachorros de pequeno porte. O veterinário falou da possibilidade de cirurgia, mas não incentivou pois, em cachorros daquele tamanho, o procedimento poderia ser invasivo demais. Invés disso sugeriu confiná-lo por um tempo para que o ferimento se curasse, além de evitar que ele pulasse de lugares altos. Compramos uma gaiolinha onde o mantivemos por alguns dias. Cortava o coração de ver o bichinho preso lá, chorando, sem saber por que estava trancado. Mas a medida ajudou e ele parou de mancar, pelo menos por um tempo.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" width="1024" height="659" data-attachment-id="162" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/bolt3/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt3.jpg" data-orig-size="4768,3072" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;2.5&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;Canon PowerShot G7 X Mark II&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1484079950&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;15.79&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;400&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.02&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}" data-image-title="bolt3" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt3.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt3.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt3.jpg?w=1024" alt="" class="wp-image-162" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt3.jpg?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt3.jpg?w=2048 2048w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt3.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt3.jpg?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt3.jpg?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt3.jpg?w=1440 1440w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>Nesse período eu já estava trabalhando com a internet e tinha largado o serviço em fábricas. Decidimos voltar para o Brasil e a primeira preocupação na mudança intercontinental era o transporte do Bolt. Muitas famílias brasileiras com cachorro que vivem no Japão acabam deixando o animalzinho lá quando precisam voltar para o Brasil, mas essa possibilidade não nos passou pela cabeça em nenhum instante. O Bolt era nosso filho peludo, e se nós viajaríamos, ele iria junto! Gastamos uma bela quantia com exames, vacinas, registros e sua passagem, tudo para que pudéssemos fazer sua viagem com segurança. <a href="https://www.youtube.com/watch?v=-bjNxekBxaU&amp;t=5s" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A viagem em si foi penosa</a>, devido à longa duração e às pontes aéreas. </p>



<p>Felizmente no final deu tudo certo e trouxemos o Bolt para o Brasil conosco e ele pôde viver por aqui saudável por pelo menos mais um ano. Voltando a ter contato com minha daqui e descobri que minha irmã mais velha pegou um cachorro da raça Shitzu, que chamou de Frederico. Como ela passava muito tempo fora trabalhando, quem cuidava do Frederico era meu pai, que o deixava dentro de casa como se fosse um neto humano. Meu pai, aquele que não deixava meus cachorros passar pela porta e os levava para o mato caso tivessem problemas de saúde, também se rendeu aos encantos caninos e se tornou uma pessoa completamente diferente nesse assunto.</p>



<p>&nbsp;Depois desse tempo, o Bolt voltou a mancar da pata traseira, e por forçar mais a pata boa, ela piorou também. Além disso ele teve alergia na pele, que não soubemos se foi causada pela troca de ração ou por algo do ambiente novo.</p>



<p>A Lu se dedicou a correr atrás de exames e informações para resolver seus problemas de saúde. Os veterinários indicaram um monte de remédios que, por serem específicos para problemas caninos, custavam o olho da cara. Os exames mostraram que o Bolt tinha problemas no coração e na traqueia, o que justificava sua respiração pesada em dias quentes. Minha esposa comprou uma caixinha com separadores para guardar toda sua medicação, o cachorro estava como aqueles idosos cheios de comorbidades que tomavam tantos remédios que até poderiam misturar com leite e comer como se fosse sucrilhos no café da manhã. É claro que o Bolt odiava aqueles remédios amargos, que precisavam ser esmagados e diluídos em água para administrar, mas tomava tudo como o cachorrinho bem educado que era.</p>



<p>Os remédios só pioraram seu estado de saúde, ele passava a noite toda gemendo, com o sono abalado. Vi que ele não estava bem e, pela primeira vez, acreditei que o perderia em breve. Por fim, decidimos cortar a medicação pesada e deixar apenas os analgésicos para conter a dor, e o Bolt melhorou quase que imediatamente, exceto pelas patas. Ele fez cirurgia para colocar uma placa de titânio no joelho o que melhorou sua postura, porém, por forçar mais os outros lados do corpo, suas patinhas já estavam comprometidas e ele tinha dificuldade para andar.</p>



<p>Andava todo tortinho e não corria mais, nem pulava ou brincava. Nessa altura, ele já estava com nove anos de idade e vimos como a idade, junto com os problemas de saúde que não paravam de aparecer, afetavam o bichinho.</p>



<figure class="wp-block-embed-youtube aligncenter wp-block-embed is-type-rich wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="embed-youtube"><iframe title="Bolt Aparecido" width="750" height="422" src="https://www.youtube.com/embed/twlvIcj89R8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div><figcaption>Videozinho do Bolt chamando atenção durando uma gravação de vídeo, ainda no Japão</figcaption></figure>



<p>Nesse período ele ficou ainda mais apegado à Lu, que o tratava como um bebê de 104 anos de idade, carregando-o no colo para onde quer que fosse. O Antônio também ficou mais próximo do Bolt do que nunca, sempre dando muito carinho e brincando com ele da forma que podia. Mesmo com as cirurgias e os remédios, o Bolt ficava extremamente enfurecido quando alguém encostava em alguma de suas patas, e chegou a morder todo mundo aqui em casa por causa disso. Eu que acabei me afastando um pouco do bichinho, não só porque ele estava recebendo mais atenção dos outros, mas também porque eu tinha medo de perdê-lo.</p>



<p>Hoje eu me arrependo de não ter aproveitado mais meu cachorrinho em seus últimos meses.</p>



<p>No final da tarde do dia de 2 de junho de 2020, o Bolt ficou mal. Não queira comer e mal se levantava de sua caminha. Esperamos melhora para o dia seguinte, mas ela não veio e começou o vômito e a diarreia. A Lu o levou ao veterinário onde depois de um rápido exame, o doutor disse que ele poderia ficar na clínica para tomar soro e se reidratrar. A clínica era perto de casa, e a Lu disse que qualquer coisa que acontecesse, poderiam ligar que iríamos para lá imediatamente. Eles só ligaram na manhã do dia seguinte, dando a notícia que não queríamos receber.</p>



<p>A ficha demorou para cair. Eu, a Lu e o Antônio nos abraçamos, os dois chorando em meus ombros, mas eu não conseguia conceber que o Bolt tinha ido. Me preparei para aquele momento por meses e quando chegou, não conseguia acreditar que era verdade. Era um dia triste, nublado e com garoa, como é de costume aqui em Curitiba, e no caminho da clínica eu só lembrava do meu cachorrinho peludo passeando comigo, me olhando com aqueles olhos pidões querendo comida, e todo dengoso no colo da minha esposa. Quando eu o vi no veterinário, parecia que estava dormindo tranquilamente, com a linguinha de fora, como costumava ficar, e que logo se levantaria, com os pelos da cara todo amassados, para nos fazer companhia por mais um dia. Mas ele não acordou e tudo o que eu pude fazer foi me manter o mais firme possível para consolar minha esposa e meu filho que choravam descontroladamente. Ele era meu companheiro, o neném da Lu e o irmãozinho do Antônio, que ficara com ele por dois terços de sua vida.</p>



<p>Segundo o veterinário, o Bolt sofreu uma pancreatite aguda. O mal culminou em parada cardíaca durante a madrugada. Houve tentativa de reanimação, mas o bichinho estava debilitado demais e acabou sucumbindo.</p>



<p>Cheguei em casa e meu cachorrinho não me recebeu na porta, cheirando meu tênis. Não me procurou para pedir um petisco por ter sujado o pinico, não ficou no sofá ao meu lado enquanto assistimos tv, nem me olhou com aqueles olhinhos antes de eu dormir, querendo mais petisco. Ele não estava mais lá, só o que ficaram em seu lugar foram as lembranças e a saudade.</p>



<p>Nunca perdi um parente ou um amigo próximo e até hoje, nesses meus trinta e oito anos de vida, o dia em que o Bolt morreu foi o dia mais triste de minha vida. O cachorrinho me ensinou coisas demais na vida, e até quando se foi, me ensinou mais uma lição: a lição de perder alguém que amamos.</p>



<p>Está fazendo dois meses desde sua morte. Durante esse tempo, realizamos a mudança que tínhamos programado e estamos agora vivendo em uma outra casa. Antes de sair da antiga, a Lu pegou a bolsinha de pet que usávamos para levar o Bolt para os passeios, a abriu, e disse, “vem, Bolt”, para que ele, em espírito ou em memória, não ficasse na outra casa e viesse conosco para a nova morada. A primeira coisa que pensei quando toda a arrumação estava feita, foi na reação do bichinho correndo pelo novo apartamento, onde poderia ficar seu tapetinho higiênico e seus potinhos de água e ração. Pensei em como ele ficaria feliz com o piso de madeira, pois detestava a cerâmica no chão da outra casa e como ele poderia se locomover melhor aqui, pois não tinham escadas, diferente do sobrado onde morávamos antes.</p>



<p>Hoje eu entendo o que Chico Buarque quis dizer na canção <em>Pedaço de Mim</em>, comparando a morte de um ente querido com a perda um pedaço do próprio corpo, como se um braço fosse amputado ou coisa assim. Dói. Dói muito e nem todo o tempo é capaz de amenizar essa dor. Não ameniza, mas transforma.</p>



<p>Eu tinha medo de que a última imagem que vi de Bolt, ele sem vida na cesta do moço que o levou para o crematório, fosse a única memória que me restasse dele. Até agora o Antônio fica muito triste quando lembra do Bolt e lágrimas rolam pelos olhos da Lu só de ouvir falar. Depois de sua morte, eu revi fotos e vídeos que fiz com ele, vejo como ele era alegre e cheio de energia quando era novinho e comparo com seus últimos meses, em que vivia triste, cheio de dores e tomando um monte de remédios. O meu conforto é saber que ele não está mais sentindo dores e dificuldade de respirar e andar. A saudade de quem fica continua, mas o sofrimento dele acabou.</p>



<p>Aquela bolinha de pelo sem dentes da frente que compramos de um Pet Shop do Japão fez muita diferença em nossa vida e jamais será esquecido. Só tenho a agradecer ao Bolt por ser esse presente para a nossa família.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="653" height="680" data-attachment-id="163" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/ezxweyaxkaenvqs/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ezxweyaxkaenvqs.jpg" data-orig-size="653,680" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="ezxweyaxkaenvqs" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ezxweyaxkaenvqs.jpg?w=288" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ezxweyaxkaenvqs.jpg?w=653" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ezxweyaxkaenvqs.jpg?w=653" alt="" class="wp-image-163" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ezxweyaxkaenvqs.jpg 653w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ezxweyaxkaenvqs.jpg?w=144 144w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ezxweyaxkaenvqs.jpg?w=288 288w" sizes="(max-width: 653px) 100vw, 653px" /><figcaption>Última foto que tirei do Bolt, no último dia em que ele passou conosco.</figcaption></figure></div>



<p class="has-text-align-right"><strong><a href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/08/04/meu-filhinho-de-quatro-patas#respond">Deixe um Comentário</a></strong></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/08/04/meu-filhinho-de-quatro-patas/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>16</slash:comments>
		
		
		
		<media:content url="https://0.gravatar.com/avatar/039825f0b054098e7cd2b6c183b9c0c61be0225c05067c19a6fa4e943db30fce?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">velberan</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt1.jpg?w=1024" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt2.jpg?w=1024" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/017.jpg?w=750" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/20170217_155214.jpg?w=697" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/bolt3.jpg?w=1024" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/08/ezxweyaxkaenvqs.jpg?w=653" medium="image" />
	</item>
		<item>
		<title>Praticando o Desapego</title>
		<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/13/praticando-o-desapego/</link>
					<comments>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/13/praticando-o-desapego/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alessandro Velberan]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2020 14:00:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blogue]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://alessandrovelberan.wordpress.com/?p=139</guid>

					<description><![CDATA[Desapegar nem sempre é fácil, mas pode trazer bons resultados.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="1024" height="508" data-attachment-id="141" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/desapego/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/desapego.png" data-orig-size="1280,636" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="desapego" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/desapego.png?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/desapego.png?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/desapego.png?w=1024" alt="" class="wp-image-141" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/desapego.png?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/desapego.png?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/desapego.png?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/desapego.png?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/desapego.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>



<p></p>



<p>A coisa que mais odeio nessa vida é fazer mudança. Até eu me casar, morei apenas em uma única casa e nunca precisei empacotar as minhas tralhas para ir para outro lugar, mas depois que me casei, já passei por tantas mudanças que até perdi as contas.</p>



<p>Agora estou de mudança novamente. Bora encaixotar games, livros, roupas, bonequinhos, olhar para os móveis sabendo que eles provavelmente ficarão tortos depois de serem desmontados e montados e para os pertences maiores, que certamente terão alguma avaria durante o transporte – parece ser impossível fazer uma mudança sem que algo se acidente.</p>



<p>Dessa vez estou saindo de um sobrado triplex que, apesar de cada um de seus três andares serem pequenos, a soma dos cômodos forma um bom espaço, e indo para um apartamento que tem localização melhor e mais segura do que a que estou agora, só que menos espaço. Logo, muita tralha que acumulamos nos dois anos que passamos no sobrado vai ter que encontrar outro destino e vamos ter que praticar o <strong>desapego</strong>.</p>



<span id="more-139"></span>



<p>Minha esposa mesmo quase chorou por causa da geladeira. Compramos ela assim voltamos ao Brasil, há três anos e ela amava aquele eletrodoméstico mais do que eu conseguia compreender – escolheu a dedo pelo tamanho, espaço interno, acabamento, funções e aparência, era a geladeira dos sonhos! Porém, no novo imóvel, o espaço para a geladeira é limitado por um armário na parte superior, e a maravilha eletroeletrônico não caberia por 10 centímetros. A revolta dela de ter de se desfazer de sua querida geladeira só foi maior quando não encontrou um modelo que a agradece e coubesse no espaço.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" data-attachment-id="143" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/geladeira/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/geladeira.png" data-orig-size="515,920" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="geladeira" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/geladeira.png?w=168" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/geladeira.png?w=515" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/geladeira.png?w=515" alt="" class="wp-image-143" width="217" height="388" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/geladeira.png?w=217 217w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/geladeira.png?w=434 434w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/geladeira.png?w=84 84w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/geladeira.png?w=168 168w" sizes="(max-width: 217px) 100vw, 217px" /><figcaption>Desapego forçado da geladeira: ela sempre estará no coração da minha esposa</figcaption></figure></div>



<p>Como compensação, ela se fez um agrado: trocou a máquina de lavar roupas. Não tinha nada de errado com a anterior, mas a moderna tem função para secagem de roupa que vai poupar trabalho e facilitar nossa vida, pois no apartamento não tem muito espaço para pendurar roupas molhadas.</p>



<p>Já eu estou estudando como vou empilhar tantas caixas de videogame que acumulei nos últimos anos. Sim, jogo com os videogames, não com as caixas, porém, os itens de papelão agregam muito valor aos consoles e, mesmo sendo volumosos, faz sentido guardá-los. Vou dar um jeito de socá-los no meu novo escritório (também conhecido como “salinha da bagunça do marido acumulador”).</p>



<p>Com outras coisas não tive a mesma sorte. Vários motivos, que culminaram na eminente mudança, me fizeram desmontar meus aquários. Ter um aquário era um sonho de infância, que minha esposa realizou no dia dos pais de 2017, comprando para mim um aquário de 125 litros que usei para colocar animais marinhos. Na época ainda morava em outro apartamento, e gostei tanto que, quando mudamos para uma casa que tinha mais espaço, investi uma nota preta num enorme aquário de 420 litros.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="1024" height="576" data-attachment-id="144" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/aquario/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/aquario.jpg" data-orig-size="4032,2268" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;1.7&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;SM-G930F&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1567363639&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;4.2&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;160&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.033333333333333&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}" data-image-title="aquario" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/aquario.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/aquario.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/aquario.jpg?w=1024" alt="" class="wp-image-144" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/aquario.jpg?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/aquario.jpg?w=2048 2048w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/aquario.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/aquario.jpg?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/aquario.jpg?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/aquario.jpg?w=1440 1440w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption>Meu aquário que vai deixar muita saudade</figcaption></figure></div>



<p>Tratei daquele aquário com muito carinho por um ano e meio, mas não deixava de me sentir irresponsável pela gastança desenfreada que um hobby daqueles gerava. Quando decidimos voltar a morar em apartamento e, consequentemente, teríamos que nos desfazer do aquário, comecei a vender os animais para os membros de um grupo de aquaristas. Cada bichinho que eu pegava na rede para tirar da caixa de vidro era uma agulhada no coração. Por mais que a decisão tenha partido de mim, não deixei de passar pelos cinco estágios do luto pela perda dos meus bichinhos escamosos: quis desistir de tudo e continuar com o aquário, fiquei com raiva de tudo e de todos, cogitei em montar um aquário menor para não deixar o hobby, fiquei extremamente triste e por fim aceitei que era o melhor a se fazer. O estágio da aceitação veio, principalmente, quando a primeira conta de luz sem o aquário chegou: R$200 mais barata. Sim, os equipamentos que faziam a iluminação, filtragem e circulação, me custava R$200 só em energia, e nem estamos falando aqui dos gastos que eu tinha com ração, suplementos, sal sintético para misturar na água entre outros produtos que eu estava sempre comprando para manter os peixes vivos e saudáveis.</p>



<p>O aquário ficou vazio ali na sala por um bom tempo, pois eu estava sempre postergando a venda, mas agora estamos para mudar e ele não vai conosco. Consegui um comprador jovem, vinte e poucos anos, que diz que o aquarismo é seu único hobby e por isso não tem problemas em gastar com ele. A cara de alegria dele ao ver o aquário que compraria me lembrou de quando o aquário chegou em casa e eu não me aguentava de felicidade. “Você não tá me entendendo” disse ele, “eu sonho em ter um aquário desses desde que eu era criancinha”. “Eu te entendo perfeitamente” respondi, lembrando de mim mesmo na infância, quando tentava sem sucesso criar peixinhos em potes de maionese. “Era o meu sonho também”.</p>



<p>Demorar para vender o aquário vazio foi um erro, pois tive que passar por todos os estágios de luto novamente. Até estava tentando arrumar um espacinho no apartamento para colocar alguma caixa de vidro cheia de água. Foi duro, mas segurei os impulsos e as emoções. Tive muito trabalho para decidir deixar o hobby para o dia que estiver com moradia fixa, estabilidade financeira e muito tempo livre para me dedicar a ele.</p>



<p>A meu ver (e isso não é opinião de um especialista) somos apegados a objetos por duas razões: a primeira é a emocional, que foi o caso do meu aquário, que mesmo vazio e desligado, me trazia muitas lembranças e emoções. A segunda é achar que o que está guardando pode aumentar o valor no futuro.</p>



<p>Provavelmente a minha maior fraqueza como ser humano é o hobbismo e o colecionismo. Falei muito disso no livro <a rel="noreferrer noopener" href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/sobre-meu-livro/" target="_blank">No Meu Tempo as Coisas Eram Diferentes</a>, sempre estava acumulando alguma coisa – bolinhas de gude, gibis, games, álbuns de figurinha, card games etc. No livro também falo de quando fiquei desempregado e, sem grana, comecei a me desfazer de tudo o que acumulei na vida. Não tenho nenhum arrependimento de ter desapegado das minhas coisas, pois eu tinha fortes motivos para fazê-lo. Porém, hoje, que voltei a jogar cardgame (sim, deixei o aquarismo e voltei a jogar Magic: The Gathering. Como eu disse, sempre que largo um hobby, arranjo outro) vi, de cabelo em pé, como algumas cartas que eu tinha valorizaram absurdamente desde que as vendi. Lembro que consegui cerca de R$60 em uma Mox Diamond e R$80 em um Volcanic Island da edição Revised. Quinze anos atrás foi dinheiro para botar comida na mesa por umas duas semanas, e era o que as cartas valiam mesmo. Hoje essas mesmas cartas estão custando R$800 e R$1800, chutando baixo.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="624" height="445" data-attachment-id="146" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/mox-diamond-volcanic-island/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/mox-diamond-volcanic-island.png" data-orig-size="624,445" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="mox-diamond-volcanic-island" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/mox-diamond-volcanic-island.png?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/mox-diamond-volcanic-island.png?w=624" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/mox-diamond-volcanic-island.png?w=624" alt="" class="wp-image-146" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/mox-diamond-volcanic-island.png 624w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/mox-diamond-volcanic-island.png?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/mox-diamond-volcanic-island.png?w=300 300w" sizes="(max-width: 624px) 100vw, 624px" /><figcaption>Mox Diamond e Volcanic Island &#8211; Em quinze anos valorizaram mais de 1000%</figcaption></figure></div>



<p>Isso me faz pensar se vale a pena mesmo guardar pertences esperando que um dia eles se valorizem e dificultam o processo de desapego. Claro que um aquário ou uma geladeira usada nunca vai aumentar de valor – a não ser que no futuro tenha malucos que colecionem eletrodomésticos antigos – porém, caixas de videogame vazias, quadrinhos, algumas edições de livros além de cartinhas de Magic podem sim valer mais com o tempo. Mas como saber?</p>



<p>Para esses casos, experiência e informação podem dizer o que vale a pena guardar ou não. Por exemplo, uma edição de um livro de Harry Potter, vai valer mais com o passar dos anos ou não? Vai depender de qual edição estamos falando. As editoras continuam publicando os livros e não devem parar de distribuí-lo dentro das próximas décadas, afinal, ainda vendem muito. Porém, as primeiras edições do livro tinham arte de capa diferente e foram menos vendidas que as posteriores, pois na época, Harry Potter não era tão popular quanto é agora. Se no futuro um <em>Potterhead </em>(apelido para os fanáticos por Harry Potter) quiser fazer uma coleção de todas as edições dos livros, só encontrará as primeiras impressões nas mãos de outros colecionadores e dependendo do <em>estado</em> da cópia, ela pode sim valer um bom dinheiro. Pesquisando aqui em um site de vendas, encontrei cópias “seminovas” (eufemismo para “usado”) com uma grande variação de preço, o que indica que os preços do mercado ainda não se estabilizaram para a maioria das edições. Porém, o anúncio com os sete volumes originais em inglês da saga, cuja arte de capa nem chegou a ser publicada no Brasil, está sendo vendida por R$1250, cinco vezes mais que uma caixa nova com a coleção completa da última edição. Com esta análise, vemos quais edições podem valorizar no futuro e quais manterão o valor que um livro usado costuma ter mesmo, e o método pode ser aplicado para qualquer tipo de colecionável.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="278" height="433" data-attachment-id="150" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/harry2/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/harry2.png" data-orig-size="278,433" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="harry2" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/harry2.png?w=193" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/harry2.png?w=278" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/harry2.png?w=278" alt="" class="wp-image-150" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/harry2.png 278w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/harry2.png?w=96 96w" sizes="(max-width: 278px) 100vw, 278px" /><figcaption>Anúncio de coleção de Harry Potter &#8211; Edições mais raras em bom estado fazem a diferença no valor de venda</figcaption></figure></div>



<p>Hoje vejo com certa inveja pessoas que guardam itens valiosos da infância, e que agora têm um bom valor para colecionadores nostálgicos. Brinquedos, tazos, cds, quadrinhos, aquelas coisas que deixamos num cantinho do armário e não nos desfazemos de forma alguma. Eu tinha muitos itens desse tipo e tive de me desfazer de tudo quando me mudei para outro país. Antes sentia como se um pedaço do meu passado tivesse sido apagado pela mudança, mas aprendi a conviver com este sentimento, entendendo que as lembranças não estão nos objetos que guardamos e sim nas memórias que eles nos trazem.</p>



<p>Felizmente estamos em um país em que o lixo de um é o tesouro de outros e dificilmente precisamos jogar algo fora numa sessão de desapego. Digo isso porque, quando fiz o caminho inverso e saí do Japão para voltar ao Brasil, tive que jogar muita coisa fora porque eram objetos que os japoneses não compravam de segunda mão. Pior ainda: era preciso <em>pagar</em> para uma empresa fazer o descarte apropriado dos itens, o que não saiu nada barato. Desembolsei uma grana ferrada para levarem geladeira, máquina de lavar, sofá, estante entre outros.</p>



<p>Já no Brasil há vários grupos de redes sociais e aplicativos próprios para vender o que não queremos mais. Não importa o estado do item, se tiver num preço compatível com sua qualidade, aparece algum comprador para ele. Porém, vender pertences dessa forma requer tempo e paciência para responder aos interessados, e é bom estar preparado para tudo. Nas vendas que fiz aqui cheguei a receber proposta de troca por marmitas (o interessado era dono de restaurante) e até proposta de permuta por tatuagem. Parece absurdo e é mesmo.</p>



<p>Só que, com alguns itens que não queremos mais indo embora e alguns troquinhos aparecendo na carteira, começamos a gostar da “brincadeira” e fica mais fácil separar outras coisas para vender.</p>



<p>Entre os desapegos aparecem oportunidades para boas ações. Roupas, tênis e alguns brinquedos que meu filho não quer mais, estão sendo separados para doação. Aqui vale um comentário, aproveitando que o meu público na internet é majoritariamente masculino: roupas masculinas são as mais necessárias para doações. Acredito que a razão disso seja que homens não compram tantas roupas quanto mulheres, pois usam as que têm até elas se desfazerem de tão velhas. Por isso, caso tenha por aí um casaco que não use mais, considere em doar para quem precisa – está fazendo um frio danado esses dias!</p>



<p>Quando estava conversando sobre desapego com minha esposa, ela mencionou uma série de programas da japonesa Marie Kondo, especialista em organização pessoal. Como uma boa japonesa, a organizadora conseguiu sintetizar em poucas palavras o melhor critério para saber o que é bom manter em casa ou não: guardar aquele item te deixa feliz? Se sim, continua guardando, senão, manda pra fora.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" data-attachment-id="147" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1.png" data-orig-size="1350,900" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1.png?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1.png?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1.png?w=1024" alt="" class="wp-image-147" width="478" height="319" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1.png?w=478 478w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1.png?w=956 956w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1.png?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1.png?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1.png?w=768 768w" sizes="(max-width: 478px) 100vw, 478px" /><figcaption>Marie Kondo &#8211; Se não te faz feliz, desapegue</figcaption></figure></div>



<p>De vez em quando é bom dar uma olhada no que tem em casa e passar algumas coisas adiante, deixá-las encontrar um novo lar onde podem ser mais úteis. Às vezes pode acontecer da necessidade bater na porta e termos de vender alguns pertences que nos são queridos, e por mais que doa na hora, recomendo que o faça mesmo. Minhas cartinhas de Magic antigas podiam fazer muita diferença na minha coleção hoje, mas não me arrependo nem por um segundo por tê-las vendido quando precisei, e até fico feliz de lembrar que meu hobby ajudou a botar comida na mesa da minha família quando precisei. Também estou me conformando com o aquário, que, caso eu insistisse em mantê-lo, dificultaria imensamente a mudança que estou fazendo agora. Objetos são só objetos, e caso algo que passei algum dia for importante o suficiente para mim, posso correr atrás dele de novo.</p>



<p class="has-text-align-right"><a href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/13/praticando-o-desapego/#respond">Deixe um Comentário</a></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/13/praticando-o-desapego/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>20</slash:comments>
		
		
		
		<media:content url="https://0.gravatar.com/avatar/039825f0b054098e7cd2b6c183b9c0c61be0225c05067c19a6fa4e943db30fce?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">velberan</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/desapego.png?w=1024" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/geladeira.png?w=515" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/aquario.jpg?w=1024" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/mox-diamond-volcanic-island.png?w=624" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/harry2.png?w=278" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/dicas-de-arrumac3a7c3a3o-com-marie-kondo-1.png?w=1024" medium="image" />
	</item>
		<item>
		<title>A Cultura do Cancelamento</title>
		<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/06/cultura-do-cancelamento/</link>
					<comments>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/06/cultura-do-cancelamento/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alessandro Velberan]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jul 2020 21:46:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blogue]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://alessandrovelberan.wordpress.com/?p=118</guid>

					<description><![CDATA[Os cancelamentos virtuais não param de acontecer, mas até que ponto os internautas têm direito de agir como juiz, juri e carrasco?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" data-attachment-id="119" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/cancelados/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/cancelados.png" data-orig-size="512,279" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="cancelados" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/cancelados.png?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/cancelados.png?w=512" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/cancelados.png?w=512" alt="" class="wp-image-119" width="717" height="391" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/cancelados.png 512w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/cancelados.png?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/cancelados.png?w=300 300w" sizes="(max-width: 717px) 100vw, 717px" /></figure></div>



<p></p>



<p>10 de janeiro de 2016 foi em um domingo. Eu ainda morava no Japão e tinha passado o dia em Nagoya com minha esposa e meu filho, passeio comum que sempre fazíamos. Lembro deste dia perfeitamente não por conta do corriqueiro programa de família e sim porque quando cheguei em casa, já a noite, liguei o computador, fui chegar o Twitter e vi várias pessoas comentando sobre o David Bowie. Meu sangue gelou no mesmo instante. Sabia que quando falam de algum artista daquela forma, não era boa coisa, e a suspeita se confirmou com uma rápida busca – ele tinha falecido, vítima de câncer.</p>



<p>David Bowie era um dos maiores ídolos para mim, por suas músicas incríveis e cheias de atitude e por tudo o que representava. Nenhum artista passou tantas décadas mantendo a relevância, gerando tendências e impactando o meio musical como ele. Lembrei de quando comecei a conhecer sua obra a fundo e como músicas como <em>Sound and Vision</em> e <em>Heroes</em> mexeram comigo. Eu já havia recebido notícia de falecimento de vários outros artistas que gostava, mas nenhuma delas me impactou tanto quanto a de Bowie, e pela primeira vez, chorei a morte de alguém que nunca vi pessoalmente.</p>



<p>Porém, entre as postagens de homenagem e luto dos fãs, apareceram algumas outras postagens dizendo que David Bowie não merecia todo aquele respeito, pois não passava de um <em>estuprador.</em></p>



<span id="more-118"></span>



<p>“Como assim!?” pensei. Já tinha lido inúmeras matérias e textos sobre ele, e nunca vi nada sobre estupro, nem nada que pudesse ser considerado sórdido aos olhos da justiça ou da sociedade (tirando os casos de abuso com drogas, que pode ser considerado normal entre os roqueiros de sua época).</p>



<p>Busquei saber a respeito e achei poucas matérias falando dos casos que ocorreram nos anos 1970. Um deles era a respeito sobre relações sexuais com duas <em>groupies </em>(termo que está em desuso, relativo às garotas que corriam atrás de astros do rock) de 15 anos. O outro falava do estupro de uma mulher, acusação que Bowie negou veementemente. Este último foi levado a julgamento na época, o artista foi inocentado pelo júri e a história teve pouquíssima repercussão na mídia.</p>



<p>Sobre as garotas de 15 anos, não tem nada a declarar, ainda que algumas pessoas que viveram a década de 1970 falem que relacionamento entre adultos com garotas dessa faixa etária era normal na época, tais relações já eram consideradas <em>crime</em>. Quanto ao caso de estupro, podemos pensar que, como ele foi absolvido, a acusadora mentiu para conseguir dinheiro ou arranhar a reputação do artista. Porém, sabemos que nem sempre a justiça faz justiça, e o peso da fama (e do dinheiro para contratar bons advogados) podem sim comprometer a verdade. O que resta para nós é a dúvida: teria David Bowie cometido este ato tão sórdido?</p>



<p>Para mim, ler aquelas informações foi como ser atingido na cara por um tijolo de seis furos. Enquanto eu ainda estava de luto pelo falecimento de Bowie, fiquei com nojo dele. Foi frustrante e confuso, simplesmente não sabia o que pensar a respeito. Mas agora eu sei que os escândalos só foram abafados por causa época em que ocorreram. Se fosse hoje, a carreira de Bowie teria acabado instantaneamente.</p>



<p>Todos os internautas estão vendo como a “cultura do cancelamento” está acontecendo na internet. Vi vários cancelamentos acontecendo e confesso que até, de certa forma, participei de alguns. A coisa é bem simples: quando alguém minimamente conhecido é exposto em algum escândalo, imediatamente uma multidão de internautas se unem nas redes sociais para destruir tudo o que está relacionado ao acusado. Eles não se contentam em atacar a pessoa em si: vão também atrás de amigos, parceiros, patrocinadores, contatos de trabalho e ainda acusam quem não apoia a campanha de cancelamento de estar sendo conivente ou, como se diz na internet, “passar pano”. As pessoas que cercam o acusado não encontram outra saída a não ser se desvincular do cancelado para não ser cancelado também.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="1024" height="469" data-attachment-id="121" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/sandman-bondosas/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/sandman-bondosas.jpg" data-orig-size="1729,792" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1593712419&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}" data-image-title="sandman-bondosas" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/sandman-bondosas.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/sandman-bondosas.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/sandman-bondosas.jpg?w=1024" alt="" class="wp-image-121" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/sandman-bondosas.jpg?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/sandman-bondosas.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/sandman-bondosas.jpg?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/sandman-bondosas.jpg?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/sandman-bondosas.jpg?w=1440 1440w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/sandman-bondosas.jpg 1729w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption>As Bondosas de Sandman &#8211; nos anos 1980 não se imaginava o quão elas se tornariam reais.</figcaption></figure></div>



<p>Quando isso ocorre, costumo postar no Twitter um meme que só eu entendo, mas pela primeira vez vou explicar aqui. Essas senhoras da imagem acima são as Bondosas, três personagens que são uma que são três e apareceram nas histórias de Sandman escritas por Neil Gaiman e publicados pelo selo Vertigo da DC Comics. As Bondosas participaram brevemente de várias histórias da série dando conselhos para os personagens ou interagindo de alguma forma, porém, por trás das figuras de bruxinhas simpáticas, elas também eram uma espécie de espírito da vingança. Invocando poderes conferidos por leis antigas, elas se tornam as Fúrias, e perseguem os culpados, não causando dano a eles diretamente e sim destruindo tudo o que existe ao redor dele: a casa, as conquistas, os amigos, a família, tudo, até que o culpado se vê sem saída e comete suicídio, para que o massacre termine.</p>



<p>Eu adorei o conceito das Bondosas quando li Sandman pela primeira vez (não sei se foi criação de Neil Gaiman ou inspirado em algum mito ou lenda antiga, como vários de seus personagens) mas não imaginei que elas se tornariam reais. A turba virtual do cancelamento se comporta de maneira idêntica às personagens, agindo como júri, juiz e carrasco, e quando são invocados, nada pode pará-los até que o acusado cometa suicídio. Não, não estou falando de suicídio físico, com a pessoa literalmente tirando a própria vida e sim suicídio social e profissional, quando o cancelamento é consumado.</p>



<p>Citei no <a rel="noreferrer noopener" href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/06/26/twitter-a-casa-do-capeta/" target="_blank">meu texto sobre o Twitter</a> o quase cancelamento do influenciador Júlio Cocielo, citando esses casos no Brasil, mas não acontecem só aqui e sim no mundo todo. Acredito que podemos considerar a primeira grande ação global contra agressores famosos aconteceu no <a rel="noreferrer noopener" href="https://canaltech.com.br/cinema/times-up-hollywood-o-que-foi-157763/" target="_blank">movimento Me Too</a>, onde vítimas de abuso ou violência sexual expuseram inúmeras personalidades entre os nomes mais balados do cinema. Foi um verdadeiro festival de horrores, com relatos de revirar o estômago acerca de artistas, produtores e diretores que, até então, eram admirados por todos os apreciadores do cinema.</p>



<p>O movimento Me Too teve uma importância imensa na luta contra a violência sexual. Vítimas que antes sofriam caladas por medo, ganharam forças para expor seus agressores e um recado muito claro foi dado: violência sexual não será mais tolerada ou normalizada.</p>



<p>A partir de então, inúmeros outros casos de cancelamento apareceram na internet, pelos mais diversos motivos. Citando aqui os que lembro de cabeça, teve o Otávio Albuquerque, conhecido como Tavião – figura influente entre internautas e outros youtubers – que simplesmente desapareceu da internet após sua ex-namorada Dora Figueiredo relatar a relação abusiva que vivia com ele. PC Siqueira foi derrubado por um único vídeo que mostrava conversas antigas com um amigo em uma rede social, conversas essas de teor pedófilo. Mesmo alegando ter provas de sua inocência, todos os amigos e parceiros se afastaram dele imediatamente e, até agora, PC não deu mais as caras. Ainda na internet brasileira tivemos o caso do grupo que até então se chamava Xbox Mil Grau que, por trás da comunidade de <em>flamewar</em> sobre games, compartilhavam postagens e comentários de cunho racista e misógino. Uma postagem de um dos participantes do grupo serviu de gatilho para que diversas outras publicações grotescas virem à tona e, depois de muitas hashtags e protestos na internet, eles foram banidos definitivamente do Youtube e da Twitch, além de serem proibidos pela Microsoft de usar a marca de seu console no nome do canal.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="1024" height="570" data-attachment-id="122" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/terese-nielsen/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/terese-nielsen.png" data-orig-size="1075,599" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="terese-nielsen" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/terese-nielsen.png?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/terese-nielsen.png?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/terese-nielsen.png?w=1024" alt="" class="wp-image-122" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/terese-nielsen.png?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/terese-nielsen.png?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/terese-nielsen.png?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/terese-nielsen.png?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/terese-nielsen.png 1075w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption>Arte de Terese Nielsen &#8211; o talento não impediu que perdesse o emprego por se posicionar contra transsexuais</figcaption></figure></div>



<p>Os cancelamentos saíram da esfera da internet e atingiram outras mídias. A artista estadunidense Terese Nielsen ficou conhecida entre os nerds pelas artes brilhantes para o cardgame Magic: The Gathering. Porém, a própria comunidade de jogadores flagrou a artista curtindo postagens transfóbicas e racistas no Twitter, além de seguir perfis que compartilhavam tais conteúdo. Terese desfez as curtidas e se desculpou publicamente, mas com o ocorrido descobriu-se que ela é uma <em>Terf</em>, sigla para o inglês de “feminista radical trans-excludente”. Ou seja, uma feminista que não chega necessariamente a não tolerar transsexuais, porém, não as reconhecem como mulheres. Sim, eu sei que é difícil de entender, e fica mais difícil ainda quando sabemos que Terese é lésbica, e mesmo sendo LGBTQ+, não reconhece transsexuais. A gota d’água foi a doação de uma arte para um canal do Youtube alegadamente racista e conspiracionista. Depois dos protestos dos jogadores, a Wizards of the Coast, produtora de Magic: The Gathering, <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.hipstersofthecoast.com/2020/06/wizards-ends-their-relationship-with-terese-nielsen/" target="_blank">anunciou que não contrataria Terese Nielsen novamente</a>, e logo deixará de usar suas artes antigas também.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="1024" height="578" data-attachment-id="123" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/joey-cuellar/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/joey-cuellar.jpg" data-orig-size="1185,669" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="joey-cuellar" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/joey-cuellar.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/joey-cuellar.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/joey-cuellar.jpg?w=1024" alt="" class="wp-image-123" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/joey-cuellar.jpg?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/joey-cuellar.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/joey-cuellar.jpg?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/joey-cuellar.jpg?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/joey-cuellar.jpg 1185w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption>Joey Cuellar &#8211; a carreira do Mago dos E-Sports foi interrompida por escândalo do passado</figcaption></figure></div>



<p>Na semana que antecede esta postagem um verdadeiro escândalo aconteceu no mundo dos E-Sports. Relatos diziam que Joey Cuellar, conhecido no meio como Mr. Wizard esteve relacionado em casos de pedofilia durante os anos 1990. Cuellar não só é figura influente na comunidade de jogos de luta (FGC – Fighting Games Community) como também é um dos criadores e organizadores da EVO Championship, o maior evento do mundo de jogos desta categoria, e que a edição de 2020 começaria dois dias depois das denúncias. O acusado se retratou imediatamente, pedindo perdão pelos ocorridos. Os episódios narrados não tinham qualquer relação com a EVO, mas ainda assim, diversos jogadores profissionais retiraram suas inscrições do torneio. Logo em seguida, patrocinadores anunciaram que retirariam o apoio também e por fim, a Capcom e a Netherrealms comunicaram que seus jogos não seriam mais disputados no campeonato. Sem uma alternativa, os organizadores expulsaram Joey Cuellar do conselho da EVO, desligando-o completamente do evento, e a edição de 2020 foi cancelada.</p>



<p>Finalizando os exemplos, um caso que está em ebulição, prestes a explodir é o de J. K. Rowling, autora da aclamada série de livros Harry Potter. De uns tempos pra cá a autora tem feito declarações polêmicas sobre transsexuais e está sendo acusada de ser <em>TERF. </em>Além de desapontar diversos fãs, <a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/06/22/autores-deixam-a-editora-de-jk-rowling-apos.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">outros escritores deixaram a editora que publica os livros de Rowling</a> para não serem, de forma alguma, associados a ela. Mesmo com a repercussão negativa de suas declarações, a escritora, por enquanto, não voltou atrás com seu posicionamento, e tudo indica, a meu ver, que seu cancelamento definitivo é iminente.</p>



<figure class="wp-block-embed-twitter wp-block-embed is-type-rich"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="embed-twitter"><blockquote class="twitter-tweet" data-width="550" data-dnt="true"><p lang="en" dir="ltr">Dress however you please.<br>Call yourself whatever you like.<br>Sleep with any consenting adult who’ll have you. <br>Live your best life in peace and security. <br>But force women out of their jobs for stating that sex is real? <a href="https://twitter.com/hashtag/IStandWithMaya?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw">#IStandWithMaya</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/ThisIsNotADrill?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw">#ThisIsNotADrill</a></p>&mdash; J.K. Rowling (@jk_rowling) <a href="https://twitter.com/jk_rowling/status/1207646162813100033?ref_src=twsrc%5Etfw">December 19, 2019</a></blockquote><script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></div>
</div></figure>



<p>A cultura do cancelamento está desempenhando um papel interessante na nossa sociedade atual: na maioria dos casos citados (não todos) as alegações são de ações que configurariam crime passível de prisão. Porém, por falta de provas concretas ou mesmo tramites legais, dificilmente algum desses acusados seriam sequer levados a julgamento, quem dirá preso. O cancelamento se tornou uma forma dos internautas fazerem justiça com as próprias mãos, tornando-os justiceiros virtuais.</p>



<p>Se por um lado eu acredito que alguns desses cancelamentos tenham sido merecidos, por outro, não há como controlar a força da punição quando estamos falando de uma turba enraivecida.</p>



<p>Fora isso, é difícil negar que existe uma certa seletividade sobre os cancelamentos. Enquanto relatos sobre abuso de personalidades famosas geram grande comoção, o mesmo nem sempre acontece quando a vítima não é tão popular. Por exemplo, em 2018 a Monique do canal Resident Evil Database reportou que foi sumariamente ofendida em uma live pelo simples fato de ser mulher e mesmo pedindo apoio de várias arrobas no Twitter, poucas pessoas atenderam ao seu apelo. Sem apoio, ela sofreu ainda mais ofensas dos seguidores do agressor.</p>



<figure class="wp-block-embed-twitter wp-block-embed is-type-rich"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="embed-twitter"><blockquote class="twitter-tweet" data-width="550" data-dnt="true"><p lang="pt" dir="ltr">Acabei de saber de OUTRO CASO de assédio, humilhação e machismo, mas dá até medo de denunciar. E a represália? E a falta de apoio e sororidade? É por causa destas coisas que a impunidade impera no YouTube, e os caras continuam fazendo o que querem com os outros. Lamentável.</p>&mdash; Moni | Resident Evil Database (@residentevildb) <a href="https://twitter.com/residentevildb/status/1016074353333690369?ref_src=twsrc%5Etfw">July 8, 2018</a></blockquote><script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></div>
</div></figure>



<p>O <a rel="noreferrer noopener" href="https://streetfighterchunli.blogspot.com/2020/07/sobre-joey-cuellar-e-cultura-do.html" target="_blank">blogue Cantinho da Bia Chun-li criticou o cancelamento de Joey Cuellar</a>, agora ex-organizador da EVO Championship. Entre seus argumentos, Bia disse que o caso só tomou as proporções que tomou porque Joey é gay, e as vítimas, meninos. A princípio achei que a blogueira estava falando abobrinha, mas mudei de opinião quando lembrei do movimento Me Too. Vários acusados de abusos contra mulheres já voltaram a trabalhar no cinema e produzir como se nada tivesse acontecido, e o que mais sofreu danos no movimento foi o ator Kevin Spacey, que se assumiu homossexual – as pessoas que o denunciaram, do sexo masculino. A carreira de Spacey está completamente arruinada, e algumas pessoas comentam que evitam assistir aos filmes antigos em que atuou, enquanto não é comum vermos os mesmos comentários sobre os outros acusados. Atacar homens ou meninos é tão grave quanto atacar mulheres ou meninas, o peso da punição não deveria ser medida pela sexualidade do agressor ou da agressora.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="1024" height="576" data-attachment-id="125" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/gabriela-pugliesi-festa/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/gabriela-pugliesi-festa.jpg" data-orig-size="1280,720" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="gabriela-pugliesi-festa" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/gabriela-pugliesi-festa.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/gabriela-pugliesi-festa.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/gabriela-pugliesi-festa.jpg?w=1024" alt="" class="wp-image-125" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/gabriela-pugliesi-festa.jpg?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/gabriela-pugliesi-festa.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/gabriela-pugliesi-festa.jpg?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/gabriela-pugliesi-festa.jpg?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/gabriela-pugliesi-festa.jpg 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption>Caso Gabriela Pugliesi &#8211; dois pesos, duas medidas</figcaption></figure></div>



<p>Relativização parecida aconteceu no Brasil, quando a influencer Gabriela Pugliesi furou a quarentena da Covid-19 para dar uma festinha. A revolta dos internautas com a falta de sensibilidade da blogueira (que postou vídeo no Instagram gritando “foda-se a vidaaaaa”) foi tamanha que Pugliesi <a rel="noreferrer noopener" href="https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2020/05/gabriela-pugliesi-pode-ter-tido-prejuizo-de-r-3-milhoes-ao-dar-festa-em-quarentena.shtml" target="_blank">perdeu patrocínios, e o prejuízo estimado ficou na casa dos R$3 milhões</a>. Porém, na mesma época, cantores sertanejos promoviam shows transmitidos em lives, gerando aglomeração da equipe e até chamando convidados para vê-los ao vivo. As críticas foram bem amenas comparadas à escapada de Pugliesi, pois alegaram que as lives arrecadavam dinheiro que seria doado aos necessitados durante a pandemia (mas bem sabemos que o cachê dos patrocinadores é uma motivação tão grande ou maior que a boa ação). Sem uma desculpa tão boa para furar a quarentena, Gusttavo Lima e Leonardo pegaram um avião para ir à pescaria. A saidinha teve ampla cobertura nas redes sociais dos sertanejos, que relataram ainda problemas com o vôo, mas o que imperou, <a rel="noreferrer noopener" href="https://hugogloss.uol.com.br/famosos/gusttavo-lima-fura-quarentena-com-leonardo-leva-puxao-de-orelha-da-esposa-e-vive-perrengue-em-voo-como-e-que-pousa-assista/" target="_blank">tanto nas postagens deles quanto na cobertura da imprens</a>a, foi o bom o humor. &nbsp;Então, o problema foi furar a quarentena para fazer stories ou <em>quem</em> furou a quarentena?</p>



<figure class="wp-block-embed-twitter aligncenter wp-block-embed is-type-rich"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="embed-twitter"><blockquote class="twitter-tweet" data-width="550" data-dnt="true"><p lang="pt" dir="ltr">a pugliesi furou a quarentena e foi cancelada, perdeu patrocínios, seguidores e teve que desativar o insta pra não ser mais atacada. gusttavo lima furou a quarentena e não teve 1% dos ataques que a pugliesi recebeu. ambos furaram a quarentena e só 1 foi atacado e não foi o homem</p>&mdash; adizzo (@fuckadilson) <a href="https://twitter.com/fuckadilson/status/1261018996960382978?ref_src=twsrc%5Etfw">May 14, 2020</a></blockquote><script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></div>
</div></figure>



<p>Sobre o caso da comunidade Xbox Mil Grau, há tempos eles postavam conteúdo sórdido em suas redes. Na minha opinião essa punição devia ter acontecido há muito tempo, mas o cancelamento só veio quando eles mexeram com as “pessoas erradas” na hora errada.</p>



<p>Isso sem falar de diversos relatos de abuso, violência e até pedofilia relacionados a artistas, influenciadores e pessoas conhecidas que simplesmente são abafados nas redes, por uma razão ou outra. Como não há acusações públicas formais, não posso comentar sobre esses casos, afinal, não quero ser processado. Mas espero que logo esses casos venham à tona e quem tiver que ser punido, seja punido. &nbsp;</p>



<p>Com todos esses exemplos e considerações, vemos que a cultura do cancelamento faz a mesma justiça que se esperaria de linchamentos populares. Sabe aquelas histórias de bandidos que foram pegos pela vizinhança e espancados até a morte, ou quase? Então, o cancelamento é uma versão virtual desses linchamentos. Há quem acredita que fazer justiça com as próprias mãos é justificado e as vezes até necessário, e não vou entrar nesses méritos nessa postagem. Porém, aconteceram linchamentos de pessoas inocentes, que morreram por conta de boatos, <a rel="noreferrer noopener" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Linchamento_de_Fabiane_Maria_de_Jesus" target="_blank">como o de Fabiane Maria de Jesus em Guarujá</a>, em 2014.</p>



<p>Baseado nisso, digo que a cultura do cancelamento algumas vezes pode ser necessária, porém, ela está cada vez mais perigosa. É muito difícil formar uma opinião sobre esse assunto em um mundo onde tanta injustiça acontece e temos tantos casos de agressão e disseminação de ódio passando impune. Mas enquanto eu não formo uma opinião concreta sobre o cancelamento, se ele é bom ou ruim, peço a todos que jamais ataquem alguém antes de ver todos os lados da história e estar certo do que está fazendo. Não aja como um touro enraivecido em meio a um estouro de manada.</p>



<p>Escrevi todo esse texto ouvindo <a rel="noreferrer noopener" href="https://open.spotify.com/playlist/1r6ADII1ChwNj9awqbrfaL?si=PVK77n07Q4aNhe3nludn9A" target="_blank">minha longa playlist com as melhores músicas do David Bowie</a>. Eu continuo fã de seu trabalho e ele, um ídolo para mim, pelas coisas <em>boas</em> de sua carreira. Também não queimarei meu Estudo Rístico e minha Eternal Witness, cartas de Magic desenhadas por Terese Nielsen, continuo achando Kevin Spacey um ótimo ator e estou ansioso para a EVO 2021. Separar a pessoa da obra é complicado e delicado, cabe a cada um escolher o que consome ou não. Mas não devemos deixar que a fascinação pelo trabalho de alguém nos cegue para o que elas realmente são, e quem cometeu crimes, deve ser punido, independente de quem seja.</p>



<p class="has-text-align-right"><a href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/06/cultura-do-cancelamento/#respond"><strong>Deixe um Comentário</strong></a></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/06/cultura-do-cancelamento/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>20</slash:comments>
		
		
		
		<media:content url="https://0.gravatar.com/avatar/039825f0b054098e7cd2b6c183b9c0c61be0225c05067c19a6fa4e943db30fce?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">velberan</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/cancelados.png?w=512" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/sandman-bondosas.jpg?w=1024" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/terese-nielsen.png?w=1024" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/joey-cuellar.jpg?w=1024" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/07/gabriela-pugliesi-festa.jpg?w=1024" medium="image" />
	</item>
		<item>
		<title>A História Sem Fim e a Importância da Fantasia</title>
		<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/01/historia-sem-fim/</link>
					<comments>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/01/historia-sem-fim/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alessandro Velberan]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2020 14:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[a história sem fim]]></category>
		<category><![CDATA[fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[livro de fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[michael ende]]></category>
		<category><![CDATA[neverending story]]></category>
		<category><![CDATA[nostalgia]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://alessandrovelberan.wordpress.com/?p=105</guid>

					<description><![CDATA[A História sem Fim é um filme que fez a cabeça de muitas crianças dos anos 1980, porém, o livro de onde a história saiu, tem uma importância que vai muito além da nostalgia.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img loading="lazy" data-attachment-id="106" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/historia-sem-fim/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/historia-sem-fim.jpg" data-orig-size="512,279" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="historia-sem-fim" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/historia-sem-fim.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/historia-sem-fim.jpg?w=512" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/historia-sem-fim.jpg?w=512" alt="" class="wp-image-106" width="782" height="426" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/historia-sem-fim.jpg 512w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/historia-sem-fim.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/historia-sem-fim.jpg?w=300 300w" sizes="(max-width: 782px) 100vw, 782px" /><figcaption>Atreyu e Falkor, o Dragão da Sorte &#8211; os amigos da aventura</figcaption></figure>



<p>A História sem Fim (The NeverEnding Story, dirigido por Wolfgang Petersen, lançado em 1984) está entre os meus filmes favoritos da infância. Assisti incontáveis vezes na TV e assim que o primeiro videocassete chegou em casa, aluguei a fita outras tantas. Somente esse ano resolvi ler o livro que inspirou o filme, escrito pelo alemão Michael Ende em 1979. Por trás de toda a satisfação da leitura da obra integral que baseou um dos filmes mais importantes da minha vida, me bateu uma pontada de tristeza. Não que eu tenha ficado insatisfeito com o livro ou que tenha desgostado das inúmeras diferenças que ele tem com o filme – muito pelo contrário. O que me deixou triste é que este livro raramente é mencionado quando se falam das grandes obras de fantasia, o que hoje eu considero uma enorme injustiça! A História Sem Fim não só é um dos melhores livros de fantasia já escrito como também é um dos livros mais importantes <strong>sobre</strong> a Fantasia.</p>



<span id="more-105"></span>



<p>Mas antes de explicar essa importância, deixe-me passar uma sinopse do livro (e do filme) para quem porventura não o conhece, já alertando que o texto terá alguns spoilers leves, sem os quais não posso explicar meu ponto.</p>



<p>A História Sem Fim é sobre o garoto Bastian, que tinha uma vida um tanto quanto solitária após o falecimento de sua mãe. Um dia, fugindo de bullies, Bastian entra em uma misteriosa livraria onde encontra um livro que de certa forma atrai sua atenção. Esse livro se chamava A História Sem Fim. Sem autorização para adquiri-lo, o garoto rouba o livro e se esconde no sótão da escola para lê-lo. A partir daí a história se passa em dois ambientes diferentes: o primeiro é mostrando as reações de Bastian com a leitura, e a outra é o que acontece no livro. No filme, os dois ambientes são intercalados por simples cortes de edições, porém, no livro, ao menos a edição da Martins Fontes (a qual eu li) ela é diferenciada por cores diferentes das letras: vermelho para o que acontece no mundo real e verde para o que se passa em Fantasia.</p>



<p>No livro dentro do livro acompanhamos a jornada de Atreyu, um jovem guerreiro de uma tribo distante que foi incumbido de uma difícil missão: salvar Fantasia. Um terrível Nada estava consumindo todo o reino mágico e seus habitantes, como se buracos negros abrissem devorando tudo ao seu redor. Com a iminente destruição do reino, a Imperatriz Criança, entidade que sustenta todo aquele mundo, adoeceu, e pouco podia fazer para reverter a situação. As coisas começaram a ficar estranhas quando eventos que acontecem no livro surtem efeitos no mundo real, onde Bastian está lendo, o que mostra que de certa forma, Fantasia e a realidade estão interligados.</p>



<p>Essa é a sinopse do filme A História Sem Fim, e quando li o livro, fiquei surpreso em saber que o filme compreende apenas a metade da obra total. Essa não é a única diferença entre o texto e o filme, há várias outras como a mudança do nome de Falkor, o Dragão da Sorte (no livro ele se chama Fuchur), a forma como Atreyu foi chamado para a missão e até mesmo a cor da pele do menino, que, no livro é verde. Porém, nenhuma diferença entre as produções é maior do que deixar a metade da história de fora. A divisão é tão nítida que podemos dizer que o livro foi feito em duas partes, mas editado como um único volume. Isso seria compreensível se a continuação cinematográfica A História Sem Fim 2 compreendesse esse conteúdo, mas a história da sequência é bem diferente.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img src="https://i.pinimg.com/originals/2f/57/87/2f5787d0a4453198be6ba9a515a370f0.jpg" alt="" width="410" height="576" /><figcaption>Atreyu no livro, segurando o Aurin &#8211; pele verde e manto e trajes estilo indígena</figcaption></figure>



<p>A princípio, o mundo de Fantasia pode parecer um tanto quanto confuso e desinteressante. Diferente de outros mundos de fantasia, não há nele uma estrutura geográfica e cultural bem definida. Na verdade, nenhuma localidade parece ter qualquer ligação com as outras, assim como os povos e raças que o habitam parecem ser criaturas criadas aleatoriamente, simplesmente para preencher as vagas dos personagens necessários para contar a história. Está muito longe do cenário absurdamente bem construído de O Senhor dos Anéis, ou mesmo o mundo distante de Nárnia e perde em coerência até para cenários de RPG como Faerûn, o mundo de Forgotten Realms de Dungeons &amp; Dragons.</p>



<p>Talvez a falta de estrutura de Fantasia seja uma das razões da obra não ser tão reconhecida hoje em dia, mas garanto para você que ela é justificada e muito bem explicada no livro: Fantasia é a própria fantasia. Ela não é apenas um cenário ou um mundo e sim a união de todos eles. Tudo o que já foi escrito ou imaginado por um humano está lá vivendo suas vidas numa verdadeira história sem fim (e isso destrói o meme que zomba que A História Sem Fim tem um fim – ela não tem).</p>



<p>Entendendo o que é Fantasia, sabemos que A História Sem Fim é um livro sobre a fantasia propriamente dita. A história escapa do fantástico e entra no mundo real pelas interações que acontece entre Bastian e o livro que ele está lendo. Mas então, o que está acontecendo no mundo de Fantasia e por que o Nada está apagando tudo? O Nada é o esquecimento, o que acontece quando as pessoas deixam de entrar em Fantasia. Ou seja, quando alguém deixa de ler livros, conhecer histórias, sonhar com coisas mágicas e inacreditáveis, a fantasia simplesmente desaparece.</p>



<p>Poderíamos dizer que esse é o mesmo conceito das fadas de Peten Pan, livro escrito por J. M. Barrie em 1911, onde fala que sempre que alguém diz que não acredita em fadas, uma criaturinha dessas morre na mesma hora. Porém, o conceito usado em A História Sem Fim foi além e ele é explicado na conversa entre Atreyu e Gmork.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="400" height="307" data-attachment-id="107" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/gmork/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/gmork.png" data-orig-size="400,307" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="gmork" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/gmork.png?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/gmork.png?w=400" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/gmork.png?w=400" alt="" class="wp-image-107" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/gmork.png 400w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/gmork.png?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/gmork.png?w=300 300w" sizes="(max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption>A fera Gmork lança a braba!</figcaption></figure></div>



<p>Gmork é uma espécie de lobisomem que persegue o jovem guerreiro para impedi-lo de salvar Fantasia. Entretanto, em um ponto avançado da primeira parte da história, Atreyu encontra a criatura mortalmente ferida pelo Nada, e sem saber com quem estava falando, Gmork conta a verdade por trás da destruição daquele mundo. Essa conversa foi alterada na adaptação cinematográfica e, apesar de eu gostar de como ela foi apresentada no filme, mudou significativamente a mensagem por trás do fim de Fantasia.</p>



<p>O segredo por trás da destruição é que os seres de Fantasia, quando caem no Nada, não morrem, pois, uma fantasia não pode morrer. Invés disso elas vão para o mundo real, onde se transformam em MENTIRAS.</p>



<p>Esse foi um trecho que me deixou arrepiado quando li, como se minha imaginação se abrisse para todo um universo de ideias, pois entendi imediatamente o sentido da relação entre fantasia e a mentira.</p>



<p>Quando temos o hábito de ler livros ou assistir filmes, animações e séries sobre o fantástico, nossa mente vive naqueles mundos como um escapismo saudável e gostoso para a realidade, desde que saibamos aonde termina a realidade e a fantasia começa e vice-versa. Porém, existem aqueles que tentam puxar a fantasia para a realidade e é aí onde nascem as mentiras. Por exemplo, não seria interessante uma aventura que se passa num planeta que, invés de redondo, como é de se esperar, fosse plano como uma pizza? Como seria viver num planeta desses? Sua geografia, seus limites, sua gravidade? Eu adoraria saber a visão de um autor sobre um cenário assim. Só que tem gente (mais do que deveria) que acredita nessa fantasia como se fosse uma verdade, e chamamos eles de terraplanistas. A mesma lógica pode ser aplicada para inúmeras teorias da conspiração que circulam por aí, desde as mais sólidas até as mais estapafúrdias como a história dos reptilianos. Histórias que seriam incríveis no mundo da fantasia, mas que no mundo real só servem para enganar, manipular e mentir. Chega a ser irônico o fato de as pessoas mais distanciadas da fantasia serem as que vivem mais longe da realidade.</p>



<p>Nesse ponto pode parecer que A História Sem Fim é apenas um livro que incentiva as pessoas a ler mais, como vários tantos que existem por aí. Mas não é isso o que livro faz, e sabemos disso na segunda história – aquela que ficou de fora do cinema. A segunda metade do livro faz o caminho inverso da primeira e mostra o que acontece com quem mergulha de cabeça na Fantasia a ponto de perder o interesse no mundo real. A essas pessoas só restam A LOUCURA.</p>



<p>Eu disse que esse livro é essencial e não menti. Ele mostra perfeitamente a linha entre a realidade e a ficção, o que existe dentro da fantasia e o que não pode sair dela. Nada da balela de “vamos viver num mundo de aventuras” ignorando os danos que se alienar da realidade pode causar.</p>



<p>Pode até parecer absurdo pensar que alguém se entregaria totalmente a universos de faz de conta a ponto de esquecer o mundo ao redor, mas não é. Principalmente nos dias de hoje que temos tantas mídias de entretenimento que são muito mais atraentes do que a realidade. Isso serve tanto para aqueles que se desassociam do mundo real e vivem no mundo de faz de conta quanto para aqueles que não fazem outra coisa da vida além de jogar videogame ou assistir a séries num serviço de streaming. Há ainda um outro tipo de fantasia, essa do mundo moderno, em que nos iludimos com uma vida de perfeição que algum influenciador digital compartilha em suas redes sociais, mas dessa fantasia falarei em outra postagem no futuro. Independente da mídia, jamais podemos mergulhar num mundo de fantasia a ponto de não querer mais sair dela. Sim, é tentador, afinal, na fantasia tudo é fascinante, e o mundo real pode ser uma porcaria na maior parte do tempo. Mas é aqui onde vivemos, e não lá na terra do faz-de-conta.</p>



<p><amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80">Por trás da busca de Bastian e Atreyu, A História sem Fim mostra de forma brilhante e sem falso romantismo a importância da fantasia na vida das pessoas, assim como a importância de não deixarmos de viver nossas próprias vidas. Espero que um dia essa obra tenha o reconhecimento que merece e não seja lembrado apenas pelo filme nostálgico, mas também pela forma brilhante como retratou a fantasia.</amp-fit-text></p>



<p class="has-text-align-right"><a href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/01/historia-sem-fim/#respond">Deixe um Comentário</a></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/07/01/historia-sem-fim/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>11</slash:comments>
		
		
		
		<media:content url="https://0.gravatar.com/avatar/039825f0b054098e7cd2b6c183b9c0c61be0225c05067c19a6fa4e943db30fce?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">velberan</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/historia-sem-fim.jpg?w=512" medium="image" />

		<media:content url="https://i.pinimg.com/originals/2f/57/87/2f5787d0a4453198be6ba9a515a370f0.jpg" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/gmork.png?w=400" medium="image" />
	</item>
		<item>
		<title>Como o Twitter se tornou o Inferno em forma de Rede Social</title>
		<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/06/26/twitter-a-casa-do-capeta/</link>
					<comments>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/06/26/twitter-a-casa-do-capeta/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alessandro Velberan]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Jun 2020 13:10:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[internet]]></category>
		<category><![CDATA[opinião]]></category>
		<category><![CDATA[twitter]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://alessandrovelberan.wordpress.com/?p=86</guid>

					<description><![CDATA[O Twitter virou palco de guerra ideológica e antro do ódio, mas por que isso aconteceu?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="440" height="246" data-attachment-id="87" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/twitter-inferno/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/twitter-inferno.png" data-orig-size="440,246" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="twitter-inferno" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/twitter-inferno.png?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/twitter-inferno.png?w=440" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/twitter-inferno.png?w=440" alt="" class="wp-image-87" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/twitter-inferno.png 440w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/twitter-inferno.png?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/twitter-inferno.png?w=300 300w" sizes="(max-width: 440px) 100vw, 440px" /></figure></div>



<p></p>



<p><em>“O Twitter é a casa do Capeta!”</em></p>



<p>É isto o que minha esposa costuma dizer toda vez que eu arrumo confusão nesta que é uma das mais infames redes sociais da internet. E se ela está errada em algo nessa frase é por não ser dramática o suficiente. Eu diria que o Twitter é o próprio Capeta em forma de rede social, com chifres, pata de bode, bafo de enxofre e todo o mais que se espera do Tinhoso.</p>



<p>Nem sempre foi assim. O Twitter nasceu em 2006 como um microblogue. A ideia inicial era justamente a mesma dos blogues, só que com limite de 140 caracteres por postagem e publicação instantânea. Em poucos minutos era possível ler o que se passava na cabeça de dezenas de pessoas simplesmente rolando a página de feed. Não que essas pessoas tinham muito a dizer – no começo, os tuiteiros se limitavam a fazer algum comentário sobre algo que estivesse acontecendo, postar piadinhas ou falar o que estava fazendo no momento, até mesmo avisando quando iam evacuar. Sim, a primeira moda do Twitter eram as postagens do tipo “Vou cagar!!!!!”.</p>



<p>O tempo passou e os tuiteiros não se contentavam mais apenas em avisar que estavam botando a merda para fora e passaram a botar a merda para dentro da rede também. Surgiram os “influenciadores digitais” de Twitter, pessoas com frases de impacto para passar de forma contundente suas opiniões sobre absolutamente qualquer coisa que estivesse acontecendo. Quem resiste a uma opinião bem redigida, não é mesmo? Essas postagens ganhavam milhares de compartilhamentos e seus autores, milhares de seguidores, aumentando suas popularidades. Quem não quer ser popular no Twitter, não é mesmo? Conheço um punhado de pessoas que hoje são famosas na internet graças a canais no Youtube ou perfis no Instagram que foram impulsionados pelas abobrinhas que postavam no Twitter no início da carreira. Conheço ainda outra pá de gente que não é popular em absolutamente nenhuma outra mídia, mas tem dezenas de milhares de seguidores no Twitter e uma influência enorme nessa plataforma.</p>



<p>Até aí, tudo bem. Sou biscoiteiro de rede social também e não posso julgar ninguém por simplesmente querer ser prestigiado. O problema do Twitter, que não se encontra da mesma forma em nenhuma outra rede social é outro: o imediatismo.</p>



<span id="more-86"></span>



<p>Poucos meios de comunicação são tão rápidos quanto a rede do passarinho azul. Para postar uma foto no Instagram, por exemplo, primeiro você tira a dita cuja, olha, vê se o ângulo tá bom, se não tá mostrando nenhuma papada, pelanca ou bagunça no fundo, tira outra foto, mais uma, ficou bom, bota aquele filtro da hora para valorizar, escreve um textinho que ninguém vai ler para acompanhar e só então publica. Fazer um vídeo para o Youtube? Arruma câmera, luz, microfone, grava tudo, edita cortando os gaguejos e revisa tudo para ver se não passou nenhuma besteira e ainda tem todo o tempo de renderização e upload para se arrepender de algo que disse. No Facebook? Não importa, graças à política ridícula de impulsionamento da plataforma, nada, exceto vídeos execráveis de cachorros sendo espancados por um maníaco e outras publicações de igualmente mal gosto viralizam naquela rede. Até mesmo essa postagem no blogue me toma um bom tempo redigindo e depois será revisado e preparado para publicação.</p>



<p>Ou seja, em qualquer rede da internet leva um tempo para a produção, que nos faz pensar se vale mesmo a pena publicar aquele conteúdo. Lembra de quando o Barbárvore, em As Duas Torres disse para Merry e Pippin que os entes levam tempo demais para dizer uma única palavra, e por isso falam apenas o que realmente vale a pena? Então, a lógica mostrada em O Senhor dos Anéis funciona como um filtro em todas as redes sociais também. Todas, menos o Twitter. Em poucos segundos você escreve algo e posta, com erro de digitação e gramática mesmo, quem liga?</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="276" height="349" data-attachment-id="92" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/barbarvore/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/barbarvore.jpg" data-orig-size="276,349" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="barbarvore" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/barbarvore.jpg?w=237" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/barbarvore.jpg?w=276" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/barbarvore.jpg?w=276" alt="" class="wp-image-92" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/barbarvore.jpg 276w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/barbarvore.jpg?w=119 119w" sizes="(max-width: 276px) 100vw, 276px" /><figcaption>Barbárvore, alguém que certemente jamais usaria o Twitter</figcaption></figure></div>



<p>A instantaneidade do Twitter torna as publicações tão rápidas quanto a própria burrice: tuiteiros escrevem o que vêm na cabeça e quem lê, lê da forma que quer. Afinal, a menos que você for um escritor de haikai, vai ter dificuldades em passar boas ideias de forma completa em apenas 280 caracteres (o limite foi dobrado em 2017). A facilidade, rapidez e impulsividade que o sistema da plataforma proporciona tornou o Twitter a rede social mais perigosa que existe, não é à toa que boa parte dos “cancelamos” de famosos tem esta plataforma como ponto de partida.</p>



<p>Dá para dizer que 2018 foi o ano em que a rede foi para o buraco de vez por graças, principalmente, de dois eventos. O primeiro foi o cancelamento do youtuber e humorista Júlio Cocielo por conta de um comentário considerado racista, referente ao jogador da seleção francesa Mbappe. Daria para dizer que Cocielo não teve reais intenções racistas em sua postagem e tudo não passou de um mal-entendido, afinal, como eu expliquei anteriormente, é o que as pessoas costumam fazer no Twitter: postar rápido para não perder o <em>timming</em>, e nisso, as asneiras aparecem. Porém, internautas escarafuncharam suas postagens antigas na rede e encontraram um punhado de postagens antigas de igual mal gosto, piadas preconceituosas feitas para ganhar compartilhamentos e curtidas. Aí não tinha como defender. Por conta de suas postagens, Júlio Cocielo perdeu patrocínios, contratos e somente depois de alguns meses (e <a href="https://exame.com/estilo-de-vida/julio-cocielo-faz-video-pedindo-desculpas-por-comentario-racista/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">inúmeros pedidos públicos de desculpa</a>) voltou a ter o prestígio de antes.</p>



<p>O “caso Cocielo” foi um divisor de águas para a plataforma: quem posta ficou ciente que será julgado severamente por qualquer publicação infeliz, e que um único tweet pode arruinar anos de seu trabalho, e quem acompanha ganhou o poder de destruir a vida pública de quem pisa fora da linha.</p>



<p>O segundo evento que levou o Twitter para o buraco foi a eleição presidencial, a eleição mais polarizada que se tem notícia. Graças à guerra ideológica que iniciou naquele processo (e dura até hoje), muitas pessoas não conseguem mais conviver com quem pensa de forma diferente da sua. Essas pessoas polarizadas consideram qualquer um que votou em um candidato que não o dela, inimigo da sociedade desprovido de humanidade e que deve ser posta num paredão e fuzilada, sem direito a apelo. E adivinha onde foi o principal campo de batalha dessa guerra? Sim, o Twitter.</p>



<p>Eu gostaria muito que a polarização dos tuiteiros fossem só na questão política, pois seria mais fácil se desvencilhar dessas brigas. Mas em pouco tempo a polarização se estendeu para qualquer outra coisa. Gosta de um console de videogame que fulano não gosta? Inimigo! Gostou daquele filme que o outro falou mal? Verme! Você é fã daquela artista que se envolveu em polêmica em 2012? Monstro! Você coloca ketchup na pizza? Nojento! &nbsp;</p>



<p>Em apenas dois anos ficou impossível emitir qualquer opinião na rede social sem trombar com algum infeliz que não respeita opinião nenhuma além da própria. Seria leviano dizer que isso é culpa apenas do Twitter, a questão das <em>bolhas sociais </em>também tem sua importância (esse assunto foi bem explicado <a href="https://youtu.be/COgkI7GhFR0" target="_blank" rel="noreferrer noopener">neste vídeo do Felipe Castanhari</a> e no futuro pretendo comentar neste blogue também). Porém, em nenhuma rede social é tão fácil se fechar numa bolha social quanto o Twitter. Quer um exemplo? Se usa o passarinho do Capeta, você mesmo pode citar alguns influenciadores que deixou de seguir apenas por escrever algo que você discordou. Não te julgo, já fiz muito disso também.</p>



<p>E é aí onde entramos no assunto da postagem: Twitter: a rede social do ódio, ou, como minha esposa gosta de dizer, a casa do Capeta. Essa foi uma atribuição acertadamente feita por algum internauta (que não sei quem é) relacionando redes sociais aos 7 pecados capitais. Obviamente, o pecado da ira ficou com o Twitter. A ilustração de George Henrique <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.hojemais.com.br/tres-lagoas/noticia/charge/os-7-pecados-capituais" target="_blank">postada no site Hojemais</a> mostra essa ideia muito bem: </p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="499" height="461" data-attachment-id="95" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/430076_213184_88114/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/430076_213184_88114.jpg" data-orig-size="499,461" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="430076_213184_88114" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/430076_213184_88114.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/430076_213184_88114.jpg?w=499" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/430076_213184_88114.jpg?w=499" alt="" class="wp-image-95" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/430076_213184_88114.jpg 499w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/430076_213184_88114.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/430076_213184_88114.jpg?w=300 300w" sizes="(max-width: 499px) 100vw, 499px" /><figcaption>Os 7 Pecados Capitais das Redes Sociais</figcaption></figure></div>



<p>Eu comecei a usar o Twitter ainda na época das futilidades, no início da rede, e quando comecei o meu primeiro canal no Youtube criei outra conta para associar a ele. Tive ótimos momentos e conheci muita gente legal e do bem lá e a plataforma me ajudava a ficar em contato direto com quem gosta do meu trabalho. Porém, arrumei muita treta também, mais do que eu consigo contar. Em um tempo onde é crime social ter opinião, a instantaneidade do Twitter se tornou gatilho para atrair gente que quer extravasar o próprio ódio na internet. Perdi muitos dias de trabalho estressado com algo que aconteceu na rede, ou travando bate-bocas virtuais que nunca iam para lugar algum. Então, para melhorar a minha vida e minha sanidade mental, tomei três medidas:</p>



<p><strong>Medida número 1 – Mandar tomar no cu</strong></p>



<p>Odeio usar de xingamentos ou palavras de baixo calão numa troca de ideias e opiniões, mas há ocasiões onde a pessoa do outro lado simplesmente não quer saber sobre a opinião alheia e só quer provar que está certa, mesmo com os argumentos mais ridículos imagináveis. O <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Complexo_do_pombo_enxadrista" target="_blank" rel="noreferrer noopener">complexo do pombo enxadrista</a>, manja? Então, numa situação dessas, nada melhor do que simplesmente mandar o infeliz tomar no cu. A primeira vez que fiz isso foi libertador, senti uma paz de espírito imensa, um prazer indescritível, como se quilos e mais quilos de entulho estivessem sido desprendidos das minhas costas. Recomendo!</p>



<p><strong>Medida número 2 – Block!</strong></p>



<p>Como eu disse anteriormente, é muito fácil se fechar numa bolha social no Twitter, simplesmente por seguir apenas pessoas que pensam como você. Digo até que é saudável seguir pessoas com ideias e alinhamentos opostos, para entender como essas pessoas pensam. Isso ajuda a compreendê-las e se relacionar melhor com elas. Porém, há aqueles que estão na rede com o único e exclusivo objetivo de infernizar os outros, normalmente escondidos em perfis fakes com avatar de game ou anime e nome de usuário igualmente indefinido. Qual a razão de se estressar com quem sequer tem coragem de mostrar sua identidade? O bloqueio é a melhor solução. Eu sei que alguns trolls de Twitter comemoram quando são bloqueados, como se isso fosse uma espécie de conquista e por isso, alguns tuiteiros preferem somente mutá-los, opção que você não vê mais as publicações do infeliz e ele nem fica sabendo. Só que eu não acho essa uma boa atitude, pois os trolls, mesmo mutados, podem (e provavelmente vão) infernizar os seus seguidores que responderem às suas postagens, e você não vai ficar nem se dar conta. Block é a melhor opção. E se por acaso você foi bloqueado por mim mesmo não tendo um perfil fake, saiba que eu fiquei muito prostituto da cara MESMO contigo <img src="https://s0.wp.com/wp-content/mu-plugins/wpcom-smileys/twemoji/2/72x72/1f609.png" alt="😉" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /></p>



<p><strong>Medida número 3 – Postar menos</strong></p>



<p>Não adianta nada mandar quem não concorda contigo ir tomar no rugoso ou bloqueá-los se você continua postando qualquer coisa que vêm à cabeça no Twitter. Demorou um pouco para eu tomar consciência disso e resolver diminuir meu ritmo de postagens lá. Hoje uso a rede como feed de notícias, interação com amigos e seguidores e claro, para ver vídeos de cachorrinhos e as postagens do <a href="https://twitter.com/rprequelmemes" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Prequel Memes</a> (essas duas últimas as verdadeiras razões para eu não querer encerrar de vez minha conta lá). Então quer dizer que eu não vou mais dar minhas opiniões? Os <em>haters</em> venceram e conseguiram me calar? Nada disso. Só estou fazendo as coisas da forma que devem ser feitas: invés de tentar sintetizar todas as ideias e opiniões em postagens de 280 caracteres que pouca gente vai ler por completo, postarei aqui neste blogue da forma mais completa, clara e embasada possível. Vai demorar mais, e vai ter um alcance menor do que meus tuítes, mas é como o Barbárvore já me ensinou: se for algo que vale a pena ser dito, valerá o tempo que leva para ser produzido.</p>



<p>Infelizmente não vejo uma melhora na qualidade da comunidade de usuários do Twitter no futuro. Aparentemente a rede encolhe a cada dia, com pessoas saindo devido ao estresse ou medo da exposição e indo para plataformas que por enquanto estão mais saudáveis. Sim, apesar de parecer que o Twitter bomba de gente, <a rel="noreferrer noopener" href="https://resultadosdigitais.com.br/blog/redes-sociais-mais-usadas-no-brasil/" target="_blank">segundo esse levantamento do site Resultados Digitais</a>, ele está na 14ª posição de redes sociais mais acessadas no Brasil e do mundo, atrás até do QQ e Douban, que eu nunca ouvi falar. Já faz um tempo que a bola do passarinho azul está murchando, não vale a pena se estressar por causa dele.</p>



<p>Mas eu vou continuar mais um pouco, pelo menos enquanto tiver lá os vídeos de cachorros fofinhos e o Prequel Memes.</p>



<p class="has-text-align-right"><a href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/06/26/twitter-a-casa-do-capeta/#respond">DEIXE UM COMENTÁRIO</a></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/06/26/twitter-a-casa-do-capeta/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>27</slash:comments>
		
		
		
		<media:content url="https://0.gravatar.com/avatar/039825f0b054098e7cd2b6c183b9c0c61be0225c05067c19a6fa4e943db30fce?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">velberan</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/twitter-inferno.png?w=440" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/barbarvore.jpg?w=276" medium="image" />

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/430076_213184_88114.jpg?w=499" medium="image" />
	</item>
		<item>
		<title>Lá Vamos Nós Outra Vez</title>
		<link>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/06/24/la-vamos-nos-outra-vez/</link>
					<comments>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/06/24/la-vamos-nos-outra-vez/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alessandro Velberan]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jun 2020 01:55:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blogue]]></category>
		<category><![CDATA[alessandro velberan]]></category>
		<category><![CDATA[blog]]></category>
		<category><![CDATA[blogger]]></category>
		<category><![CDATA[nostalgia]]></category>
		<category><![CDATA[velberan]]></category>
		<category><![CDATA[worldpress]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://alessandrovelberan.wordpress.com/?p=68</guid>

					<description><![CDATA[O que leva um ser humano a abrir um blogue em 2020?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" width="1024" height="515" data-attachment-id="70" data-permalink="https://alessandrovelberan.wordpress.com/bloggerin2000/" data-orig-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/bloggerin2000.jpg" data-orig-size="1378,694" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}" data-image-title="bloggerin2000" data-image-description="" data-image-caption="" data-medium-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/bloggerin2000.jpg?w=300" data-large-file="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/bloggerin2000.jpg?w=750" src="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/bloggerin2000.jpg?w=1024" alt="" class="wp-image-70" srcset="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/bloggerin2000.jpg?w=1024 1024w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/bloggerin2000.jpg?w=150 150w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/bloggerin2000.jpg?w=300 300w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/bloggerin2000.jpg?w=768 768w, https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/bloggerin2000.jpg 1378w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption>Assim que tudo começou</figcaption></figure></div>



<p>Quem é um tanto mais velho e já estava online no finalzinho dos anos 1990 para o começo dos anos 2000 deve se lembrar de quando os blogues começaram a ficar populares, evento que eu considero um dos mais significativos na história da internet. Antes, para uma pessoa postar seu conteúdo online, precisava assinar um provedor, registrar domínio além de despender de horas e horas de trabalho programando o website, caso tivesse conhecimento técnico para isso. Então, surgiram os blogues e nada mais disso era necessário para começar a postar na internet. Claro que websites ainda tinham seu espaço e surgiram blogueiros “profissionais” que transformaram a brincadeira em negócio, com blogues bem construídos de layout impecável, mas qualquer um que quisesse somente falar sobre seu dia a dia, suas opiniões ou sobre as coisas que gostavam, podia fazer isso depois de apenas alguns cliques para criar uma conta.</p>



<p>Foi o início da democratização da internet. Tinham lá as pessoas que usavam os blogues como um diário virtual (a ideia original desse formato de site) mas apareceram inúmeros blogues interessantes de blogueiros e blogueiras que tinham muito o que dizer.</p>



<span id="more-68"></span>



<p>O tempo foi passando e outras mídias apareceram na internet. Primeiro foram redes sociais como Orkut, Facebook e Twitter. Quem apenas queria postar um “Bom Dia!” acompanhada de um GIF de Ursinho Carinhoso cheio de glitter, nem precisava criar um blogue. Bastava ter uma conta em alguma rede e seus seguidores já veriam a postagem, fariam <em>facepalm</em> e dariam aquela curtida social para não criar inimizade. O Youtube foi a “terceira onda” da exposição pessoal na internet. Com ele as pessoas não se limitavam mais aos textos, podiam aparecer em vídeo, o que foi uma maravilha para 95% da população do planeta que tem preguiça de ler até instruções de preparo da embalagem do miojo. Quase junto com o Youtube apareceram os podcasts, onde arquivos de áudio com conversa podiam ser ouvidos pelos seguidores. Demorou um tanto para os podcasts ganharem força, o que está acontecendo exatamente agora.</p>



<figure class="wp-block-embed-twitter wp-block-embed is-type-rich"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="embed-twitter"><blockquote class="twitter-tweet" data-width="550" data-dnt="true"><p lang="und" dir="ltr">MANNNN <a href="https://t.co/TEhmGff1WF">pic.twitter.com/TEhmGff1WF</a></p>&mdash; paulo moreira (@paulomoreria) <a href="https://twitter.com/paulomoreria/status/1159598810789830657?ref_src=twsrc%5Etfw">August 8, 2019</a></blockquote><script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></div>
</div></figure>



<p>E onde ficaram os blogues no meio de tudo isso? Escondidos em algum canto escuro da internet. Sem uma plataforma forte para recomendações de conteúdo e compartilhamento, muitos blogues foram simplesmente esquecidos e abandonados. Nem vamos falar sobre a imensa dificuldade de ganhar dinheiro com um blogue nos tempos atuais, coisa que nunca foi fácil, mas com a concorrência de plataformas mais populares, hoje essa possibilidade beira à inexistência. Há uma brincadeira (de mal gosto) que diz que só escreve blogue em 2020 quem quer expor suas ideias na internet, mas é feio demais para criar um canal no Youtube.</p>



<p>Já adianto que esta é uma grande mentira, pois eu sou feio e isso nunca me impediu de postar meus vídeos. Pelo contrário. Agora com sete anos e meio da criação do meu <a href="http://youtube.com/velberan" target="_blank" rel="noreferrer noopener">primeiro canal no Youtube</a>, posso dizer que tenho a sorte e a felicidade de ter uma vida estável e confortável apenas com a renda do meu trabalho na internet. Porém, minha história na internet não começou com os vídeos, e sim com blogues.</p>



<p>Isso foi durante o boom da então nova mídia de comunicação, quando todo jovem que conseguia escrever uma frase inteira sem perder a linha de raciocínio queria ter um blogue, quando a tv falava sobre “a moda do momento” e sobre pessoas que ganhavam dinheiro com suas postagens sem sair de seu quarto. Época de internet discada conectada apenas depois da meia-noite para não estourar a conta do telefone, e que baixávamos videoclipes das bandas favoritas no Kazaa, gravávamos em um CD de R$1 e guardávamos o disco como um bem precioso.</p>



<p>Nessa época eu já tinha um blogue. Um não, vários! Criava uma conta, fazia postagens sobre música, opinião, aforismos, tentativas frustradas de contos e poesias e quando via que nem minha mãe lia meus textos, desanimava, deletava o blogue e duas semanas depois começava tudo de novo. Desisti dos blogues de vez na chegada das redes sociais, plataformas mais práticas para postar minhas bobagens. O tempo passou e os equipamentos para gravar vídeos ficaram mais acessíveis e os softwares para edição mais fáceis de usar, então comecei, no final de 2012 a produzir vídeos sobre videogames para o Youtube, no canal Velberan Games. Por conta do canal, e por voltar a produzir conteúdo para a internet, me animei em abrir um novo blogue, que serviria para, além de falar de coisas não relacionadas a games, ajudar a divulgar meu canal no Youtube. Esse era o <a rel="noreferrer noopener" href="http://nrnbagunca.blogspot.com/" target="_blank">Não Repare na Bagunça</a> e por um tempo ele recebeu postagens quase que diariamente, até o canal no Youtube crescer, ganhar público e me tomar 100% do tempo.</p>



<p>Certamente vão dizer que estou mentindo quando eu falar que eu nunca quis ser famoso na internet, mas é verdade. Não nasci para ser “estrela” e gosto do conforto do anonimato. O que eu queria sim é que meu trabalho fosse reconhecido, o que é um tanto diferente. Por mais que sonhasse com isso há anos, não acreditava que um dia conseguiria, e já estava me conformando em ser mais um blogueiro frustrado entre outros tantos que conheci pela vida. Mas aconteceu, meu sonho virou realidade. Hoje tenho mais de 830.000 seguidores no canal de games, apresento os vídeos do <a href="http://youtube.com/bomdegarfo" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Canal Bom de Garfo</a>, produzido pela minha esposa, que conta com mais de 500.000 inscritos e tem um pessoal bacana que me acompanha no <a href="http://twitter.com/velberan" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Twitter</a> e no <a href="http://instagram.com/velberan" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instagram</a>. Esses são números pequenos comparados aos dos grandes astros da internet, mas vão muito além das expectativas que eu tinha quando comecei tudo isso, e estou feliz demais com tudo o que já conquistei.</p>



<p>Só que uma parte de mim ficou esquecida no meio de tudo isso. Esquecida junto dos milhares de blogues que não são atualizados há anos, e nem seus criadores lembram de suas existências. Essa é a minha parte que queria expor as ideias e criar histórias para a internet, sem se importar se aquele conteúdo geraria renda para pagar os boletos do mês.</p>



<p>O meu lado blogueiro me assombrou por anos, e nunca me deixou esquecê-lo, porque eu mesmo não queria que ele fosse embora. Cheguei a tentar satisfazê-lo com postagens mais elaboradas no Twitter e até criando o <a href="https://www.youtube.com/channel/UCZdFz_JbAxq7nMZVhRQ756g" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Canal Não Repare na Bagunça</a>, onde tocaria um conteúdo parecido com o que eu fazia em meus blogues, mas nada disso adiantou. Simplesmente não era a forma como eu queria que esses conteúdos fossem publicados.</p>



<p>Por isso, nadando contra a maré das modas da internet, estou aqui criando um blogue do zero. Esse não tem um nome cheio de significados e trocadilhos engraçados, é simplesmente minha alcunha virtual e seu conteúdo será o que os blogueiros faziam antigamente, sem postagens técnicas e utilitárias – somente minhas próprias ideias, opiniões e histórias.</p>



<p>Na verdade, tem sim razões além dessas que contei aqui para vocês para eu querer criar blogue, invés de publicar esses conteúdos em mídias mais populares. As razão, em resumido, são descontentamento com os rumos que as outras plataformas estão tomando, mas escreverei sobre tudo isso no futuro, não me alongarei nesses assuntos agora, pois não é essa a ideia desta postagem de apresentação.</p>



<p>E pode ter alguém que dirá: “Mas por que você não simplesmente voltou a escrever para o Não Repare na Bagunça?”. Bem&#8230; gostaria, mas acho que aquele blogue já cumpriu sua função e eu não continuaria postando o mesmo tipo de conteúdo que tinha nele antes. Além disso, decidi por trocar de plataforma, vindo para o WordPress, já que o Blogger está um tanto quanto abandonado pelos desenvolvedores. Quero deixar o Não Repare na Bagunça publicado pelo tempo que a internet me permitir, como lembrança e registro de quando os meus sonhos estavam se tornando realidade.</p>



<p>Por fim, está oficialmente aberto o meu novo blogue, e os links para os meus outros trabalhos, redes e produções estão todos na guia sobre. Tem bastante coisa para arrumar aqui ainda e aos poucos vou mexendo nisso. Não deixe de visitar o blogue frequentemente, e se usar um serviço de feed de postagens, adicione o meu link nele. Se possível deixar um comentário em cada postagem, eles serão bem-vindos.</p>



<p>E que comece a bagunça. Agora com novo nome e endereço.</p>



<p class="has-text-align-right"><a href="https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/06/24/la-vamos-nos-outra-vez/#respond">DEIXE UM COMENTÁRIO</a></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://alessandrovelberan.wordpress.com/2020/06/24/la-vamos-nos-outra-vez/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>27</slash:comments>
		
		
		
		<media:content url="https://0.gravatar.com/avatar/039825f0b054098e7cd2b6c183b9c0c61be0225c05067c19a6fa4e943db30fce?s=96&#38;d=identicon&#38;r=G" medium="image">
			<media:title type="html">velberan</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="https://alessandrovelberan.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/06/bloggerin2000.jpg?w=1024" medium="image" />
	</item>
	</channel>
</rss>
